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Usos e abusos do símbolo na produção historiografíca

Dermeval Marins de Freitas


Doutorando em História pela UFRRJ/PPGHIS

Este presente artigo tem como objetivo discutir o elemento simbólico na produção
historiográfica. Tem como ponto de partida as discussões em torno desta questão no
debate entre Roger Chartier, Robert Darnton e Dominick LaCapra. 1

O debate se desenvolve a partir da obra de Darnton denominada O Grande


Massacre dos Gatos. Este livro foi resultado de seu seminário desenvolvido na
Universidade de Princeton em conjunto com o antropólogo Clifford Geertz (seminário
que tinha como título “História e Antropologia).

No livro O grande Massacre dos Gatos, Darnton busca compreender a visão de


mundo das pessoas que viveram na França no século XVIII procurando captar o “espírito
francês” em diversas narrativas, desde os contos folclóricos até a documentação realizada
por membros da elite, como a descrição da sociedade de Montpellier feita em 1768 por
um cidadão anônimo e membro da burguesia local, até as leituras realizadas pelas obras
de Rousseau. A questão do elemento simbólico e a crítica a forma como foi tratada na
obra de Darnton se inscreve principalmente na análise do capítulo 2 do livro, intitulado
“Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos da rua Saint-Séverin”.2

Darnton nesta obra se utiliza de conceitos oriundos da antropologia,


principalmente a partir da sua interlocução junto com Clifford Geertz, para compreender
uma cultura, buscando captar e decifrar um “sistema estranho de significação”.
Considerando, desse modo, a cultura da França do século XVIII como estranha, é que ele

1
CHARTIER, Roger. “Textos, símbolos e o espírito francês”. História Questões e Debates. Associação
Paranaense de História – APAH, Curitiba, PR: Ano 13, nº. 24, jul./dez. 1996; DARNTON, Robert. História
e Antropologia. In: ______. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010; DARNTON, Robert. Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos da rua Saint-
Séverin. In: ______. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Rio de
Janeiro: Graal, 1986; LACAPRA, Dominick. “Chartier, Darnton, and the Great Symbol Massacre”. In: The
Journal of Modern History, Vol. 60, No. 1 (Mar., 1988), pp. 95-112.
2
DARNTON, Robert. Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos da rua Saint-Séverin. In:
______. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro:
Graal, 1986.

1
busca então tentar compreender o elemento “engraçado” naquela ocasião do massacre dos
gatos dos tipógrafos da rua Saint-Séverin, elemento este que nos foge inicialmente, pela
“opacidade” do documento, mas que, após uma investigação do universo simbólico
daquela sociedade, em que aqueles indivíduos se encontravam inseridos, pode ser
compreendido. Este, sem dúvida, é um ponto importante da tese de Darnton: ele pensa ao
cultura como sendo um universo simbólico, isto é enquanto um sistema, uma “estrutura
referencial”, que dá significado à experiência; assim, procede em sua pesquisa à
investigação do simbolismo popular, que explicaria então o porquê da escolha dos gatos,
das encenações e, finalmente, do riso. O objeto de seu livro era, então, confrontar a
opacidade dos documentos, desde contos populares dos mais diversos até as cartas
trocadas pelos leitores de Rousseau, passando por um relato de massacre de gatos e a
Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, afim de adentrar no universo dos símbolos da
França oitocentista.

A primeira grande crítica, surge de Chartier e para os objetivos aqui proposto irei
me atentar a questão da crítica a noção de símbolo presente na obra de Darnton. O Grande
Massacre dos Gatos de acordo com Roger Chartier parte de um conceito de cultura “num
sentido estritamente geertziano como expresso, por exemplo em A interpretação das
culturas como

um padrão de significados transmitidos, incorporados em símbolos, um


sistema de conceitos herdados expressos em forma simbólica por meio
dos quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu
conhecimento sobre as atitudes em relação à vida.3

Considerado, portanto a cultura como um sistema simbólico é oportuno mencionar


o próprio significado de símbolo para Darnton. Darnton parte da concepção de geertziana
do termo, definido como “qualquer objeto, ato, evento ou relação que sirva como veículo
para uma concepção”.4

Contrário a este sentido amplo e vago da acepção de símbolo, Chartier vai buscar
uma outra definição de “símbolo”. Atento em busca compreender e reconstruir as formas
com as quais os homens do século XVIII concebiam e expressavam o seu mundo, de
resgatar as definições dos conceitos utilizados pelos próprios indivíduos do passado,

3
CHARTIER, Roger.Op. Cit. 1996, p. 08.
4
Ibid. p. 16.

2
Chartier, em sua crítica, traz a definição do verbete “símbolo” encontrada no dicionário
de Antoine Furetiè na edição de 1727, para se aproximar do “ponto de vista do nativo”,
tal como sugere o projeto de escrita da história por Robert Darnton. Um dos significados
presentes no dicionário aponta para a noção de representação presente em um símbolo.
Para Chartier, então, o símbolo sem dúvida é um signo. A questão, porém, é que nem todo
signo é um símbolo. Para que essa relação ocorra, um elemento é imprescindível: a ideia
de representação: “Para que possa ser qualificado como ‘simbólico’, a relação entre o
signo e o que ele torna conhecível para nós, que é invisível, supõe que este signo está
sendo colocado no lugar da coisa representada, que ele é o seu representante” 5. Assim,
nem todos os signos possuem necessariamente uma relação de representação, não os
tornando assim um símbolo; nem todos os signos manipulados em uma cultura, então,
podem ser tratados como símbolos pois segundo ele,

dificilmente podemos postular a estabilidade na relação entre o signo,


simbólico e o que ele representa e apresenta a nossos olhos. A variação
surge de muitas fontes: considerando o signo, uma pluralidade de
significados pode ser transmitida por qualquer símbolo dado;
considerando as circusntâncias, um signo pode ou não ser investido com
uma função simbólica, dependendo das condições de seu uso;
considerando a compreensão, é inevitável e altamente díspar de um
grupo ou indivíduo a outro. Parece arriscado, então, afirmar que os
símbolos são “compartilhados como o ar que respiramos”. Muito pelo
contrário, suas significações são instáveis, móveis e equívocas. 6

A definição de representação a partir da concepção desenvolvida no dicionário de


Furetiè é fundamental para o trabalho de Chartier para o estudo das sociedades do Antigo
Regime, de acordo com mesmo:

Toda reflexão sobre as sociedades do Antigo Regime só pode inscrever-


se na perspectiva assim traçada, duplamente pertinente: pelo fato de
considerar a posição “objetiva” de cada indivíduo como dependente do
crédito que concedem à representação que ele faz de si mesmo aqueles
de quem espera reconhecimento; pelo fato de compreender as formas
de dominação simbólica como o corolário da ausência ou do
apagamento da violência imediata. 7

5
Ibid. p. 16.
6
Ibid. p. 18.
7
CHARTIER, Roger. “O mundo como representação”. In: À beira da falésia: a história entre incertezas
e inquietudes. Tradução Patrícia Chittoni Ramos. 1a. ed. Porto Alegre: Editora Universidade / UFRGS,
2002. p. 75.

3
De acordo com Francismar Alex Lopes de Carvalho, a crítica de Chartier dirigida a
Darnton seria parte de uma renúncia a tirania do símbolo, pois todos os signos, atos e
objetos são considerados como formas simbólicas entendido como um sistema
simbólico8. Esse sistema simbólico que Geertz denomina de cultura, é definido pelo
mesmo como um “contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma
inteligível – isto é, descritos com densidade”9.

Se opondo a esta definição, Darnton, em um artigo como resposta a crítica de


Chartier – publicado inicialmente no The Journal of Modern History, em março de 1986,
sob o título “The Symbolic Element in History” e posteriormente incorporado, em seu
livro O beijo de Lamourette - afirma que os antropólogos, em geral, procuram trabalhar
com um conceito diferente de símbolo. Para ele, “os símbolos transmitem múltiplos
sentidos, e que o sentido é interpretado de diferentes maneiras por diferentes pessoas”. 10

Para além da crítica do significado do símbolo e do simbólico na obra de Darnton,


Chartier contesta a ideia de que os tipógrafos da rua Saint-Séverin compartilhavam de um
sistema simbólico que foi usado para a criação do massacre de gatos. Para Chartier as
formas simbólicas articuladas no massacre não poderem ser organizadas em um
“sistema”, pois isto “supõe uma coerência entre elas e uma interdependência, que por sua
vez supõe a existência de um universo simbólico unificado e compartilhado”. 11Algo que
para Chartier seria duvidoso para uma sociedade de Antigo Regime devido as múltiplas
clivagens existente na sociedade francesa.

Lynn Hunt destaca que nesta crítica de Chartier, a um “sistema simbólico”


compartilhado por todos estaria um questionamento a

validade de uma busca do significado segundo o modo interpretativo


geertziano, pois o mesmo tende a anular as diferenças na apropriação
ou no uso das formas culturais. O anseio por ver a ordem e o significado
obscurece a existência de luta e conflito.12

8
CARVALHO, Francismar Alex Lopes de. “O conceito de representações coletivas segundo Roger
Chartier” In: Diálogos – Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em
História. Universidade Estadual de Maringá, v.9, n.1, 2005, p. 147.
9
GUEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989. p. 24.
10
DARNTON, Robert. Op.Cit.,2010, p. 285.
11
CHARTIER, Roger. Op.Cit., 1996, p. 18.
12
HUNT, Lynn. “Apresentação” In: _____________. A nova história cultural. Tradução Jefferson Luis
Camargo. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
p. 17.

4
Como resposta, Darnton argumenta em seu artigo, que apesar dos tipógrafos
provavelmente pudessem ter lido o massacre de formas diferentes, a polissemia do evento
era restrita:

eu frisaria que não estou pretendendo dizer que todos os trabalhadores


tenham extraído todo o sentido do episódio. Provavelmente alguns se
divertiram com a pancadaria nos gatos e ficaram por aí mesmo,
enquanto outros liam nela todos os tipos de significados. Creio que o
massacre dos gatos foi como a encenação de uma peça: podia ser
interpretado de maneiras diferentes pelas diferentes pessoas, atores e
igualmente espectadores. Mas não poderia significar toda e qualquer
coisa.13

Mesmo percebendo a polissemia, Darnton ainda reafirma a ideia de um sistema


simbólico no qual se baseia o massacre dos gatos: “os rituais encerram restrições internas.
Baseiam-se em modelos estabelecidos de comportamento e num leque dado de sentidos.”
14

Darnton no artigo ainda crítica a noção utilizada de símbolo de Roger Chartier a


partir do significado estabelecido no dicionário da época:

Concordo que os dicionários da época podem ter utilidade para rastrear


os sentidos atribuídos às palavras pela elite letrada. Mas não creio que
um escritor refinado como Furetière possa servir como ―informante
nativo sobre a concepção do simbolismo entre trabalhadores
analfabetos. E nem acho que Furetière ofereça um conceito adequado
do simbolismo para a análise etnográfica.15

Dominick LaCapra, por sua vez, realiza uma crítica a análise do símbolo realizada
por Chartier, considerando que este incorre no mesmo erro do qual amputa a Darnton,
pois “ele invoca a edição de 1727 do dicionário de Antoine Furetiere como evidência da
definição dos “nativos” das palavras-chaves como signo e símbolo”.16

Para LaCapra, se a própria relação entre signos e símbolos é instável e seus


significados também, além disso móveis e equívocas, buscar o significado destes mesmos
termos em um dicionário da época como evidência de seus significados para época é no

13
DARNTON, Robert. Op.Cit.,2010, p. 300.
14
Ibid. p. 300.
15
Ibid. p. 285.
16
Do original “he invokes the 1727 edition of Antoine Furetiere's dictionary as evidence of the nature of
the "natives' definition of key terms such as sign and symbol.” LACAPRA, Dominick. Op.Cit. p. 101.

5
mínimo equivocado, como se, de acordo com LaCapra, “as “definições” de Furetière
pudessem ser aplicadas aos trabalhadores no massacre de gatos”.17

Ao tomar os significados do termo signo no dicionário de 1727, o objetivo de


Chartier era contrapor estes mesmos significados ao significado amplo definido por
Geertz, demonstrando que nem todo signo pode ser símbolo, pois, para isso, é necessária
uma relação de “representação”. Para LaCapra, Chartier

emprega essa fonte de maneira canônica, mas também desconsidera as


dificuldades internas em suas várias definições de símbolo e signo,
reduzindo o símbolo, por exemplo, para apenas um estrato de Furetiere
bastante intrigante e as vazes opaca discussão.18

A resposta a crítica de Chartier por Darnton se ancora também na ideia de que os


sentidos atribuídos ao símbolo e signo podem ter utilidade apenas para “rastrear os
sentidos atribuídos às palavras pela elite letrada” e não “servir como “informante nativo”
sobre a concepção do simbolismo entre trabalhadores analfabetos.”19 E nem mesmo
serviria para uma análise etnográfica, pois para eles “os símbolos transmitem múltiplos
sentidos, e que o sentido é interpretado de diferentes maneiras por diferentes pessoas”. 20
Desse modo Darnton apela para a polissemia dos símbolos.

A outra crítica de LaCapra, pertinente ao objetivo deste artigo, é que Darnton em


uma passagem do “Massacre dos gatos”, utiliza a ideia de

ar e linguagem como metáforas para símbolos compartilhados, uma


justaposição que atesta o status derivado da linguagem com relação a
uma ideia fetichizada do símbolo, bem como a uma concepção bastante
"aérea" de própria linguagem.21

17
Do original “moreover, as if Furetiere's ''definitions'' applied to the workers in the cat massacre”
LACAPRA, Dominick, Op.Cit. p. 101.
18
Do original “Not only does he employ this source in a canonical way, but he also glosses over the internal
difficulties in its various definitions of symbol and sign, reducing symbol, for example, to only one stratum
of Furetiere's rather puzzling and sometimes opaque discussion” LACAPRA, Dominick, Op. Cit. p. 101.
19
DARNTON, Robert. Op.Cit., 2010, p. 285.
20
Ibid. p. 285.
21
Do original “air and language as metaphors for shared symbols a juxtaposition that attests to the derivative
status of language with respect to a fetishized idea of the symbol as well as to a rather iiairy'' conception of
language itself.” LACAPRA, Dominick. Op. Cit. p. 106.

6
Desse modo, LaCapra afirma que para Darnton os símbolos e a linguagem são
meros utensílios no qual os indivíduos se utilizam para significar algo. Isto inclusive fica
claro quanto na resposta de Darnton a Chartier:

as pessoas comuns, na vida cotidiana, têm de percorrer uma floresta de


símbolos. Estejam tentando conseguir um lucro, carregar um barco ou
levantar um fardo, elas lidam com metáforas. Isso não significa que as
relações econômicas e políticas não tenham uma existência própria,
mas que são mediadas por signos. 22

Desse modo, LaCapra atenta que a linguagem reduzida a um status instrumenta


ela “não apresenta nenhum problema para a completa recuperação do significado”23.

É interessante notar que cada um destes historiadores tende a colocar o problema


do símbolo nos termos de sua disciplina ou objeto de pesquisa. Darnton ao tomar o
conceito de cultura como sistema simbólico, cujos símbolos transmitem diversos
sentidos, coloca o primado da cultura sobre o social, isto é, as práticas e ações dos
indivíduos são realizadas através das formas simbólicas. Chartier preocupado com a
questão da representação na sociedade francesa do século XVIII toma o símbolo como
um dos temas centrais da sua análise. Como ele mesmo afirma

Para o historiador das sociedades do Antigo Regime, construir a noção


de representação como o instrumento essencial da análise cultural é
investir de uma pertinência operatória de um dos conceitos centrais
manipulados nessas próprias sociedades. 24

Uma das noções de representação que ele utiliza está assentada na teoria do signo
do pensamento clássico elaborado pelos lógicos de Port-Royal, no qual a ideia de
representação é “entendida como correlação de uma imagem presente e de um objeto
ausente, uma valendo pelo outro” que seria um dos significados de símbolo que
colocamos acima.25

22
DARNTON, Robert. Op. Cit., 2010. p. 287.
23
Do original “language poses no problem for the full recovery of meaning”. LACAPRA, Dominick, Op.
Cit. p. 101.
24
CHARTIER, Roger. Op. Cit., 2002. p. 73.
25
Ibid. p. 74.

7
Dominick LaCapra, representante da virada linguística, coloca a questão do
símbolo, signo e do significado nos quadros da crítica literária.26 Longe de considerar a
história como que presa a linguagem – o determinismo linguístico –, La Capra em sua
crítica ao ofício do historiador, argumenta ser falso o dualismo entre texto e contexto, isto
é, o discurso e a realidade. Na mesma crítica à Darnton e Chartier ele afirma

O texto não é puramente “real” nem puramente “fictício” nos


sentidos comuns daqueles termos “pega-tudo”, assim como
Rosseau não é simplemente o autor “real” nem o editor “fictício”
do texto. 27

Nesse sentido, para LaCapra existiria um mundo real para além da linguagem, isto
é, haveria um contexto (ou melhor contextos) no qual os textos foram produzidos, porém,
como este contexto reconstituído pelo historiador se dá através de fontes, a própria
reconstituição do “real” só pode ser realizada através da linguagem.

Em outro momento LaCapra observa que as próprias dificuldades de interpretação


do significado estão presentes não só nas sociedades de Antigo Regime, como em toda a
sociedade, como até “entre historiadores com um acentuado grau de cultura
compartilhada e inclusive de afirmações comuns”.28

Contudo LaCapra não desenvolve no artigo sua própria concepção de símbolo.


Para ele, a própria linguagem utilizada pelos historiadores e pelos textos que eles se
utilizam para “reconstruir o passado”, são por si só, formado por símbolos cujos
significados nem sempre podem ser decifráveis.

Porém, tanto para Chartier como para Darnton o simbólico não se restringe a
linguagem: o gato é um referente real investido de múltiplos significados. Contudo, a
forma como lida com textos é diferente: para Darnton as ações mencionadas no texto
também são textos a serem lidos, isto é, ele argumenta que as relações estabelecidas tanto
pelo texto quanto pela ação só podem ser entendidas quando postas em referência a um

26
Sobre LaCapra e a virada linguística ver artigo de KRAMER, Lloyd. “Literatura, crítica e imaginação
histórica: o desafio de Hayden White e Dominick Lacapra”. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural.
Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
27
No original: “The text is neither purely ''real'' nor purely ''fictive'' in the ordinary senses of those catch-
all terms, just as Rousseau is neither simply the ''real'' author nor the "fictive" editor of the text.”
LACAPRA, Dominick. Op. Cit. p. 111.
28
No original: “between historians with a marked degree of common culture and even of shared
assumptions” LACAPRA, Dominick, Op. Cit., p. 101.

8
conjunto maior de categorias que classificam a experiência. Diferentemente, Chartier
argumenta que não se deveria compreender o texto apenas como texto, e indaga “é
legítimo considerar como “textos” ações executadas ou contos narrados?” Isto é, “Não há
aqui um risco de que se confundam dois tipos de lógica, a lógica da expressão escrita e a
lógica que molda aquilo que o “senso prático” produz?”29

Porém enquanto para Chartier ainda é possível identificar dimensões do real no


texto, para LaCapra o texto e o contexto (realidade), estariam imbricados impossíveis de
se diferenciar um do outro, pois a realidade contida no texto é processada pela linguagem.

Difere também Darnton, no qual o modo como nos relacionamos com o mundo,
isto é, a forma como nós pensamos, falamos e agimos no mundo é a partir de metáforas.
Para Darnton, todas as ações veiculam representações metafóricas no qual o símbolo atua
como principal agente, nesse sentido alinha-se com o pensamento de Geertz no qual o
símbolo é “qualquer ato que transmita um sentido, seja por som, imagem ou gesto”.
30
Portanto, as ações também são textos a serem lidos, pois elas só podem ser entendidas
quando postas em referência a um conjunto maior de categorias que classificam a
experiência. Esse conjunto de categorias seria a própria linguagem: “A linguagem nos dá
nosso crivo mais básico. Ao nomear as coisas, nós as inserimos em categorias linguísticas
que nos auxiliam a ordenar o mundo. ”31 Porém, tanto a linguagem como a ação se
inserem na ordem da cultura: “os símbolos funcionam não só por causa de seu poder
metafórico, mas também devido â sua posição dentro de um quadro cultural”.32

Nesse sentido, LaCapra ainda se aproxima de Darnton sobre a questão da


mediação do símbolo nas ações e nos textos como Lloyd Kamer afirma

“LaCapra nunca nega que as pessoas realmente sangram quando se


cortam, mas também enfatizaria que todos os fenômenos materiais, inclusive o
sexo, a guerra, o sangue e os dólares apresentam complexos significados
simbólicos, inextricavelmente ligados a tudo que chamamos de realidade”, ou
como o próprio LaCapra afirma “ É essa a fascinante e desconcertante

29
CHARTIER, Roger. Op. Cit. 1996. p. 11. Em entrevista com a historiadora Isabel Lustosa, Roger Chartier
retoma o debate com Darnton e salientando a importância de se pensar a irredutibilidade entre a lógica
prática e a lógica discursiva. In: LUSTOSA, Isabel. Conversa com Roger Chartier. Trópico, 2004.
Disponível em: < http://rubi.casaruibarbosa.gov.br/bitstream/123456789/658/1/LUSTOSA%2c%20I.%20
-%20Conversa%20Roger%20Chatier.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2019.
30
DARNTON, Robert. Op.Cit., 2010. p. 289.
31
Ibid. p. 290.
32
Ibid. p. 294.

9
ambivalência dos símbolos – o fato de que nada escapa inteiramente de seu poder
de significação, nem é simplesmente apresentado, apreendido ou dado por eles”.33

Uma outra questão que LaCapra chama atenção em seu artigo é que Darnton no
livro, em comparação ao artigo, não dá a devida importância ao papel da liminaridade ou
marginalidade.34 Tal conceito é oriundo da Antropologia e foi desenvolvido por Arnold
Van Gennep em Os ritos de passagem35 e posteriormente por Victor Tunner em O
processo ritual: estrutura e antiestrutura36, no qual ele define que os ritos de passagem
são caracterizador por três fases, sendo uma delas a liminaridade, na qual “as
características do sujeito ritual (o “transitante”) são ambíguas; passa através de um
domínio cultural que tem poucos, ou quase nenhum, dos atributos do passado ou do estado
futuro”. 37

Nesse sentido, os aprendizes e os gatos domésticos no Grande Massacre dos


Gatos estariam na liminaridade quando Darnton afirma que os primeiros “operam na
fronteira entre a oficina e o mundo exterior”, e os segundos “pertencem parcialmente ao
mundo exterior, à esfera dos gatos de rua e da animalidade, e, no entanto, vivem dentro
de casa e são tratados com mais humanidade do que os rapazes”.38

Outros dois fenômenos no qual LaCapra menciona que não foram tratados na
análise do Massacre são o bode expiatório e a vitimização. Nesse sentido, o Grande
Massacre dos Gatos pode ser visto como bode expiatório, isto é, diante dos maus tratos
dirigidos aos aprendizes e a posição privilegiada dos gatos, em especial la grise¸ os
aprendizes impossibilitados de atacarem o próprio mestre, ou interpretando a situação dos
mesmos como culpa dos gatos, realizam tal massacre. A não menção destes fenômenos,
para LaCapra, estaria vinculado a preocupação de Darnton em lidar com a cultura
francesa do século XVIII como se fosse totalmente opaca e estranha a nós. Considerar o
massacre como bode expiatório e vitimização seria diminuir a distância entre a opacidade
do passado e o presente.

33
KRAMER, Lloyd. “Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio de Hayden White e Dominick
Lacapra”. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins
Fontes, 1992. p. 171.
34
LACAPRA, Dominick. Op. Cit. p. 103.
35
GENNEP, A. V. Os ritos de passagem. 2. ed., Trad. Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2011.
36
TUNNER, Victor. O processo ritual: Estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.
37
Ibid. p. 116-117.
38
DARNTON, Robert. Op. Cit., 2010, p. 300.

10
Em suma, todos estes historiadores convergem para o problema da leitura e sua
recepção. Darnton, afirma que os tipógrafos foram capazes de “jogar” com os símbolos
de sua cultura. Nesse sentido, para que possamos compreender o massacre dos gatos é
necessário estabelecer a análise no nível da interpretação destes símbolos e seus usos.
Para que ocorra uma compreensão do significados atribuídos ao massacre, é necessário,
que se opere dentro de categorias não muito rígidas (charivaris ou processos por
feitiçaria, por exemplo), na medida em que essas formas simbólicas foram “utilizadas”
pelos diferentes personagens da história. Como afirma Darnton,

eles jogaram com as cerimonias da mesma forma como jogaram com


os símbolos, e, para entender seus malabarismos, não podemos ser
muito esquemáticos nem muito literais para captar o sentido da
brincadeira.39

De acordo com Lucas Bagio Furtoso, Darnton ao afirmar que os operários jogaram
com as cerimonias e com os símbolos, ele se aproxima do termo apropriação utilizado
por Chartier: “o termo apropriação faz parte da conceituação teórica de Chartier, sendo
um dos conceitos principais de seu pensamento, e não é usado por Darnton em nenhuma
parte do seu texto.”40

Para Chartier, a “apropriação tal como a entendemos visa uma história social dos
usos e das intepretações, relacionadas às suas determinações fundamentais e inscritos nas
práticas específicas que os produzem”41, isto é, a apropriação é a forma particular que os
indivíduos, envolvidos em suas culturas, utilizam os elementos disponíveis a eles.
Segundo Darnton os operários da tipografia apropriam o massacre cada um de sua própria
forma.

O contraste entre Darnton e Chartier com relação a apropriação, de acordo com


Futuoso “aparece à medida que Darnton atribui importância à confecção de um diagrama
estrutural”, isto é, um quadro cultural no qual os sujeitos estão imersos. Por outro lado,
Chartier,

nega a existência deste quadro geral, procurando com isso estabelecer a


análise no nível das apropriações dos diferentes grupos sociais nas

39
Ibid. p. 299.
40
FURTOSO, Lucas Bagio. História Cultural e Historiografia: uma análise da trajetória de Robert
Darnton e de Roger Chartier a partir de seus lugares e de suas práticas. 2017. 65 f. Trabalho de Conclusão
de Curso (Graduação em História – Licenciatura) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2017. p.
58.
41
CHARTIER, Roger, Op. Cit., 2002, p.68.

11
relações entre suas práticas e seus discursos (que operam sob lógicas
distintas entre si), que se originam de matrizes de representações
coletivas, e não na relação entre as práticas individuais e as coletivas.42

Porém, no sentido em que Darnton coloca as ações e a linguagem como texto ele
se aproxima de LaCapra quando este último afirma que

é duvidoso ao extremo é a ideia de que se pode fazer algum


pronunciamento geral sobre a relação entre a linguagem (ou qualquer
prática significante) e atividades aparentemente não-linguística (ou não
significante), ao fazer qualquer pronunciamento é inevitável situar-se
dentro da linguagem que está de múltiplas formas articuladas com
atividades. 43

Contudo, a diferença se dá quando Darnton remete a cultura quanto referencial


das ações e discursos dos indivíduos enquanto LaCapra coloca este referencial na própria
linguagem na qual as ações humanas estão aí imbrincadas.

A guisa de conclusão

Cada um ao seu modo definiu o simbólico na história a partir de seus referenciais,


para Darnton o simbólico é a cultura e, tanto os atos como os textos, devem ser lidos para
compreender o sistema simbólico do passado, a apreensão do passado seria, portanto
através da cultura. Chartier por outro lado afirma que o símbolo remete a uma relação de
representação, entendido como algo presente no lugar de um objeto ausente conferindo
assim a importância ao real, mas esta representação é entendida pelo prisma do social, os
indivíduos e os grupos sociais produziriam representações. LaCapra confere
proeminência a linguagem, os símbolos contidos nos textos apesar de serem ancorados
em determinados contextos, eles se apresentam através da linguagem.

42
FURTOSO, Lucas Bagio. Op. Cit., p.57.
43
No original: “What is dubious in the extreme is the idea that one can make some general pronouncement
about the relation between language (or any signifying practice) and seemingly nonlinguistic (or
nonsignifying) activities, for in making any pronouncement one is inevitably situated inside language that
is in multiple ways articulated with activities.” LACAPRA, Dominick, Op. Cit., p. 100.

12
A principal diferença, portanto, entre Darnton e Chartier se localiza na ênfase dada
a cultura e ao social como elemento instaurador do simbólico. Como Darnton afirmou em
entrevista “Concordo que Bourdieu e Chartier tinham ênfases algo diferentes da minha,
mas acho que todos rejeitaríamos a ideia de que se podem estabelecer distinções claras
entre as dimensões social e cultural da realidade. Pelo contrário, nós três vemos valores
culturais e sistemas simbólicos operando como ingredientes dentro de estruturas sociais”
44
394

A crítica de Chartier do método da “descrição densa” utilizado por Darnton é de


suma importância para os historiadores que lidam com a cultura, pois de fato pensar em
um sistema simbólico compartilhado por todos faz com que se homogeneizei a sociedade
e não se perceba as diferenças de distribuição e dos usos das formas simbólicas. Mesmo
quando Darnton afirma que os operários podem ter interpretado o grande massacre de
formas diferentes ou melhor, não terem entendidos todos os significados embutidos no
ato, quando ele afirma que todas as pessoas percorrem uma floresta de símbolos no seu
cotidiano, permanece a ideia de que haveria um sistema simbólico compartilhado, mesmo
que de forma diferenciada. Além disso a ideia de um sistema simbólico assim definido
permanece um tanto “aérea” como definiu LaCapra, como se os símbolos e a linguagem
tivessem uma realidade autônoma. A alternativa a essa concepção pode se dar tanto na
compreensão de que os textos e a linguagem utilizada na produção destes textos estão
articulados com os contextos como definiria LaCapra ou de que as formas simbólicas –
aí incluída a linguagem – estaria desigualmente distribuídos entre os indivíduos e grupos
sociais e, desse modo, estaria articulada com o social.

Por fim, consideramos válidas as reflexões sobre a instabilidade e polissemia do


símbolo e as diferentes formas de apropriação destes símbolos. Os estudos referentes aos
usos e sentidos da linguagem utilizada pelos sujeitos do passado tem muito a ganhar com
estas reflexões. Considerando tanto os sentidos atribuídos aos símbolos apropriados e
utilizados por diferentes atores sociais ao invés de impor uma única e inequívoca
interpretação das formas simbólicas articuladas pelos mesmos. Para além da polissemia
dos símbolos, também é importante os outros usos dos símbolos como destacados por
LaCapra e Darton, isto é, a liminaridade, o bode expiatório e a vitimização.

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CARVALHO, Jose Murilo de. Entrevista com Robert Darnton. Topoi, vol. 3, n. 5, Rio de Janeiro, 2002,
p.394.

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