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11/19/2019 “Em poucos anos, o canábis medicinal vai notar-se no PIB português”, aposta ex-presidente do Infarmed Eurico Castro

co Castro Alves – Ob…

"Em poucos anos, o canábis


medicinal vai notar-se no PIB
português", aposta ex-
presidente do Infarmed
Eurico Castro Alves
/premium

Edgar Caetano
Texto

Em entrevista, Eurico Castro Alves, ex-


presidente do Infarmed, alerta para o
potencial enorme que o canábis medicinal
pode representar para Portugal – para a
economia e, sobretudo, para os doentes.

19 nov 2019, 09:11

Eurico Castro Alves, diretor do departamento


de cirurgia no Centro Hospitalar do Porto e ex-
presidente do Infarmed (entre 2012 e 2015), à
medida que se familiarizou com a ultra-
promissora indústria mundial do canábis
medicinal, constatou que milhares de doentes,
incluindo em Portugal, “se abasteciam [de
canábis] no mercado negro para se tratarem” ou
menorizar os sintomas das suas doenças, como
cancros ou outras doenças do foro neurológico.
Ora, “isso é que eu acho uma vergonha. O Estado
tem a obrigação de proporcionar os meios às
pessoas para que estas possam ter acesso a todos
os tratamentos, o melhor que existe”.

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Em entrevista ao Observador, o médico, que foi
Rádio Observador em direto secretário de Estado da Saúde no (curto) ×

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segundo Governo de Pedro Passos Coelho,


defende que esta é uma indústria que pode
trazer enormes benefícios para os doentes e para
a economia nacional — não só na produção e
desenvolvimento de medicamentos à base de
canábis mas, também, desde já, porque Portugal
pode aproveitar o movimento de ensaios clínicos
que serão essenciais para que estes
medicamentos sejam testados e cheguem ao
mercado (um mercado gigantesco a nível
mundial).

O especialista nota que “já temos algumas


dezenas de empresas a investir em Portugal,
empresas de grande dimensão mundial que
estão cá para investir, para crescer e para
desenvolver. E as que não estão, estão para
chegar”. Em outubro, Eurico Castro Alves
assumiu um cargo não-executivo na Symtomax,
uma empresa que já tem 105 hectares para
exploração (indoor e outdoor) em Beja. “É como
um corolário da minha atividade como médico e,
sobretudo, como cidadão que quer desenvolver e
criar novas oportunidades para os nossos
cidadãos. É algo que farei a tempo muito parcial,
mas em que estarei disponível para ajudar com
aquilo que tenho para dar”. Porque “Portugal
poder ser um hub para o resto da Europa, que é
um mercado com 500 milhões de
consumidores”, afirma.

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Foi presidente do Infarmed entre 2012 e
Rádio Observador em direto 2015, período em que foi feita boa parte ×

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da regulação existente sobre o canábis


medicinal em Portugal, cuja lei entrou em
vigor no início de 2019. É justo considerá-
lo o principal responsável pelo
crescimento deste setor em Portugal?
Pode não ser justo dizer dessa forma porque,
normalmente, as coisas grandes e boas que
acontecem são fruto do trabalho de uma equipa.
E, aqui, foi exatamente esse o caso. Houve
influência política, influência regulamentar, dos
órgãos legislativos. As leis andam sempre atrás
dos costumes da sociedade e aqui passou-se isso
mesmo: percebeu-se que a comunidade
científica começava a notar que havia evidências,
algumas evidências — faltam muitas mais –, de
que havia interesse terapêutico numa
determinada componente do canábis. Isso é que
despoletou todo o processo. Eu fui mais um.
Colaborei ativamente, porque desempenhava
funções que eram decisivas, dei um contributo
importante mas o resultado — que considero ser
uma mais-valia para a nossa sociedade — é um
resultado da colaboração de muitos agentes das
mais diversas áreas da nossa sociedade.

Mas tem de haver uma visão, de perceber


o potencial de algo…
Sim, tem de haver visão e alguma liderança. Eu
comecei a ter um contacto, muito cedo, com as
vantagens dos canabinóides em termos médicos.
Comecei a perceber a grande utilidade que isso
iria ter e, sobretudo, o fator que me tornou mais
adepto deste tipo de terapêuticas foi perceber
que já havia milhares de doentes que recorriam
ao mercado negro para tratar as suas doenças. E,
eu, isso é que não acho legítimo. Acho que o
Estado tem a obrigação de proporcionar os
meios às pessoas para que estas possam ter
acesso a todos os tratamentos, o melhor que
existe.

Como médico, quais são, então, as


vantagens do canábis para uso medicinal?
Como médico, e baseado na experiência que
tenho tido com a informação científica, eu acho
que estamos perante um grande avanço
terapêutico. Mas, como com todas as novidades,
temos de olhar para elas com sabedoria, com
cautela, e temos de, sobretudo, basearmo-nos
em evidência científica para garantir, sempre, a
segurança dos utentes e, ao mesmo tempo,
aproveitar o benefício terapêutico.

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"Percebi que já havia milhares


de doentes que recorriam ao
mercado negro para tratar as
suas doenças. E, eu, isso é que
não acho legítimo. Acho que o
Estado tem a obrigação de
proporcionar os meios às
pessoas para que estas possam
ter acesso a todos
os tratamentos."

Esse benefício existe, é inquestionável


que é assim?
Que há aqui benefícios terapêuticos é evidente. O
que falta é: utilizando as regras e as
metodologias científicas, demonstrar que esse
benefício existe, como parece existir, em relação
a muitas mais doenças. Estando isso provado,
penso que será obrigação de todos — não só dos
médicos — criar os meios para que os doentes
rapidamente possam ter acesso a estas
terapêuticas. Para que não aconteça uma coisa
que eu considero uma autêntica vergonha que é
as pessoas doentes, nomeadamente doentes
oncológicos, andarem a abastecer-se no mercado
negro. Isso é intolerável numa sociedade
civilizada como a nossa.

Mas é preciso trabalhar na obtenção


dessas evidências científicas…
Claro, também temos que olhar para isto com
cuidado, com equilíbrio. Obviamente que nós
não podemos pôr os medicamentos à disposição
dos doentes sem garantirmos a sua segurança. E,
portanto, a necessidade de serem feitos ensaios
clínicos, para criar evidência científica — é
fundamental. É preciso gastar algum tempo em
experiências científicas, como é normal.

Tem havido avanços nesse processo?


Tem havido grandes avanços sobretudo em
países como o Canadá, Israel, há médicos com
muita credibilidade, com muita experiência
adquirida, que demonstraram cientificamente a
importância dos medicamentos. E há, também,
conhecimento empírico: há muitos doentes que
já tomaram medicamentos derivados dos
38% Of desktop users scrolled to here canabinóides com franca melhoria terapêutica.
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Mas, além disso, já começa a haver muita


evidência real, feita em ambiente científico que
nos permite tirar conclusões animadoras.

Dentro da primeira fábrica de


canábis em Portugal
24 abr 2019, por João Francisco Gomes

Mas não são, ainda, o suficiente para que


a comunidade médica sinta total
confiança ao ponto de prescrever?
Não é suficiente porque não tem havido
comunicação. Tem sido sempre assim na
Medicina e, na minha opinião, muito bem: os
médicos são, por definição, cautelosos, porque
têm de defender a segurança do seu doente,
portanto são muito cuidadosos nos passos que
dão quando se fala em inovação. Queremos,
muito, que haja inovação, queremos, muito,
tratar os nossos doentes, mas temos de saber dar
os passos seguros — e, às vezes, isso pode
demorar algum tempo. A comunidade médica é
muito conservadora, o que falta agora é juntar os
médicos, juntar a evidência científica e melhorar
esta comunicação sobre o que está a aparecer de
novo, o que está comprovada e cientificamente
provado que é bom para o doente.

Conhece casos concretos de situações em


que esses medicamentos poderiam estar a
ajudar?
Tenho colegas meus, sobretudo médicos que se
dedicam à área da oncologia, que têm vivido
autênticos dramas com doentes que poderiam
ter benefícios muito grandes e que não têm
acesso a tratamento com canábis medicinal.

Qual pode ser o potencial desta indústria


para Portugal?
Acho que há potencial muito interessante em
duas vertentes. Desde logo o potencial
económico. Isto tem um valor económico
importante — como, aliás, a maior parte das
atividades de saúde. Eu acho que dentro de
algum tempo o negócio do canábis medicinal vai
ter peso no PIB. Até porque esta oportunidade
que existe, com o ambiente legislativo amigável
em Portugal, é uma porta que se abre para
Portugal poder ser um hub para o resto da
Europa, que é um mercado com 500 milhões de
consumidores. Se Portugal estiver na linha da
frente, isso significa que será um país
38% Of desktop users scrolled to here privilegiado para ser a partir daqui que se faz o
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▲ Fotografia tirada na inauguração das instalações de produção


de canábis medicinal da canadiana Tilray em Portugal, em
Cantanhede. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas o que quer dizer com “ter peso no


PIB”. Estamos a falar de que potencial,
concretamente?
Não sou economista mas estou a dizer, com a
minha intuição, que dentro de alguns anos se vai
notar no PIB. O que quer dizer que a mais-valia
criada em Portugal vai ter um rendimento tal
que se vai notar, que vai ter peso no nosso
produto económico.

Como uma AutoEuropa, por exemplo…


Exatamente. Vai-se notar.

Em que prazo?
Num prazo inferior a cinco anos, atendendo ao
conjunto de licenças que o Infarmed está a
atribuir, ao conjunto de empresas credíveis, de
cariz mundial, que são verticalizadas neste
negócio e que estão cá em Portugal, com
investimentos sérios, de grande aposta, acredito
que isso vai refletir-se num avanço para a nossa
economia. Neste momento, o que está a ser
cultivado é quase tudo para exportação —
estamos a desenvolver a produção agrícola da
flor, mas já há projetos em desenvolvimento de
fabrico de medicamentos em Portugal. E de
distribuição de medicamentos em Portugal, que
depois têm de ser aprovados pelas entidades
regulamentares.

Autoeuropa já representa 1,6%


do PIB
06 mar 2019, por Agência Lusa

E a outra vertente, de potencial para o


país?
A outra vertente — e não menos importante, até
mais importante dada a minha formação — é a
vertente do benefício terapêutico franco que
vamos conseguir dar aos nossos doentes,
principalmente na área da oncologia e da
neurologia. Todas as doenças neurológicas — a
epilepsia, a esclerose múltipla, as disfunções do
sono, que são muito frequentes na nossa
população… Há cento e tal possíveis indicações
terapêuticas. Nós queremos que as pessoas
38% Of desktop users scrolled to here vivam mais tempo, mas não é só viver mais
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tempo: é viver mais tempo e com qualidade de ×

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vida. E tudo indica que a partir do canábis


medicinal podemos desenvolver medicamentos
que dão qualidade de vida, menos sofrimento e
mais tempo de vida. Sendo isto verdade, não
podemos deixar de querer dar isto aos nossos
doentes o mais rapidamente possível.

Mas, voltando ao potencial económico


para o país, a ideia seria não só a
produção de canábis medicinal mas,
também, conseguir trazer para Portugal
esse processo de ensaios clínicos. É isso?
Isso é muito importante, desde logo pela
importância económica — o nosso país é dos
países onde se fazem menos ensaios clínicos, no
seio da Europa. O nosso país pode crescer muito
nessa área porque temos os meios técnicos, os
recursos humanos, os cientistas… Temos a
oportunidade e os meios para poder aproveitar
este aparecimento dos ensaios clínicos na área
do canábis, não só para ajudar a produzir os tais
resultados científicos mas, também, movimento
económico. Há empresas estrangeiras que
querem vir para cá fazer esses ensaios clínicos
nesta área — é preciso limar algumas burocracias
para tornar este processo mais célere.

"Há cento e tal possíveis


indicações terapêuticas. Nós
queremos que as pessoas
vivam mais tempo, mas não é
só viver mais tempo: é viver
mais tempo e com qualidade
de vida. E tudo indica que a
partir do canábis medicinal
podemos desenvolver
medicamentos que dão isso.
Sendo isto verdade, não
podemos deixar de querer dar
isto aos nossos doentes o mais
rapidamente possível."

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O que é que pode significar, em termos


concretos, para Portugal?
Vou-lhe dar um exemplo. A Bélgica tem uma
população semelhante à nossa e a Bélgica fatura
em volume de negócio em ensaios clínicos cerca
de 750 milhões euros (por ano). E nós estamos
na ordem dos 150 milhões de euros… Há aqui
qualquer coisa que não está bem. Parece-me que
há aqui uma margem de crescimento muito
importante para o nosso país — saibam as
autoridades criar o ambiente regulamentar
amigável para a realização de ensaios clínicos.

Como assim?
Há alguma burocracia que ainda pode ser
corrigida e melhorada.

Quando foi presidente do Infarmed, o que


se fez nessa área?
Fizemos avanços notáveis, temos subido todos os
anos em volume de ensaios clínicos, mas ainda
há muito para fazer. Felizmente, quem está hoje
nos órgãos competentes, no Infarmed e outros,
têm esta noção e esta sensibilidade. Eu acredito
que não será difícil fazer as reformas necessárias
para criar um ambiente mais favorável ao
aumento dos ensaios clínicos em Portugal.

▲ "O nosso país pode crescer muito nessa área porque temos os
meios técnicos, os recursos humanos, os cientistas…" JOÃO
PORFÍRIO/OBSERVADOR
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi contratado como administrador não-


executivo na Symtomax, uma das
empresas que estão a investir em
Portugal, neste setor. Que contribuição é
que espera dar a essa empresa?
É uma contribuição de consultoria, fui
convidado, de facto, uma participação não-
executiva, de consultoria esporádica, que faço
com muito gosto porque, com a experiência que
acumulei, sei que poderei ajudar numa área que
é importante para os nossos doentes. É como um
corolário da minha atividade como médico e,
sobretudo, como cidadão que quer desenvolver e
criar novas oportunidades para os nossos
cidadãos. É algo que farei a tempo muito parcial
mas em que estarei disponível para ajudar com
aquilo que tenho para dar.

Já existem várias empresas ativas nesta


produção, em Portugal, desde a gigante
canadiana Tilray, a Sabores Púrpura, a
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Terra Verde, a RPK Biopharma, a própria
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Symtomax… Acha que Portugal tem


espaço para muitas mais empresas?
Tem espaço para mais algumas licenças, sim. Já
temos algumas dezenas de empresas a investir
em Portugal, empresas de grande dimensão
mundial que estão cá para investir, para crescer
e para desenvolver. E as que não estão, estão
para chegar.

Quem trabalha cá, nessas empresas, são


pessoas originárias dos países de onde
vêm as empresas, ou há também
portugueses — desde os investigadores
até à mão-de-obra?
É um pouco de tudo. Temos empresas
internacionais, temos investidores locais e
começa a aparecer muita gente ligada às
universidades, à investigação, algo que é
extremamente positivo e que estão, também, a
entrar neste mercado.

"Já temos algumas dezenas de


empresas a investir em
Portugal, empresas de grande
dimensão mundial que estão
cá para investir, para crescer
e para desenvolver. E as que
não estão, estão para chegar."

O que é que torna Portugal diferente, ou


especial, em relação a outros países, nesta
matéria?
Portugal tem vários fatores que o diferenciam,
desde logo porque criámos um ambiente
regulamentar e legal, com o devido sentido de
responsabilidade e segurança das pessoas, que é
um ambiente amigável para o desenvolvimento
do cultivo e da produção. Depois, é um país com
um clima excelente para o desenvolvimento da
planta. E tem uma localização estratégica,
depois, para a distribuição, com aeroportos,
comboios, uma boa rede viária. Conjugados
todos estes fatores, Portugal é uma proposta
38% Of desktop users scrolled to here extremamente interessante para os investidores.
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Mas, dizia, há pouco, que também há


desafios…
Sim, porque sabemos que esta substância tem
duas componentes: tem o CBD, que é a que mais
utilizada do ponto de vista médico, e tem o THC,
que se for numa proporção demasiado grande
torna-se um alucinogénico, deixa de ser um
medicamento para ser uma droga ilegal. E isso
obriga a que, segundo até os padrões europeus e
da Organização Mundial de Saúde, que
tenhamos os maiores cuidados e cautelas na
manipulação deste assunto. As questões de
segurança são fundamentais, não só a segurança
física mas, também, a segurança em termos
medicamentosos, o efeito nos doentes, etc. A
partir do momento em que se considera um
medicamento, existem todas as cautelas, com
toda a rastreabilidade, desde a semente até ao
consumo. Todo o percurso é rastreado, é
rastreável, e a qualquer momento temos de
poder saber onde esteve, por onde passou e a
que condições esteve sujeito. Faz parte das
regras mundiais deste ou de qualquer outro
medicamento.

Mas quando pensamos neste mercado, na


Europa, faz sentido pensar que um dia
pode haver quotas como na sardinha, no
leite ou noutros produtos?
Daqui a alguns anos, o que pode acontecer é que
com a produção e cultivo da flor do canábis ela
possa vir a ser uma commodity [um produto
intersubstituível, sem grande valor e
diferenciação]. Eu acredito que até se chegar aí
vai demorar muito tempo porque, neste
momento, por só estarmos a começar, a procura
é tal que a oferta não consegue responder.

Estamos perto de chegar a um equilíbrio?


Não, estamos muito longe ainda. O consumo vai
aumentar desmesuradamente, as aplicações
terapêuticas serão cada vez mais, vai haver cada
vez mais ensaios clínicos e evidência científica a
demonstrar o interesse enquanto medicamento.
Portanto, a minha convicção é que surgirão
muitos e novos medicamentos, o consumo será
muito grande também e, portanto, as
necessidades de cultivo e de produção vão estar
sempre aquém da procura, nos próximos
tempos. Nesta fase não faz sentido falar em
quotas de produção.

Portugal está a posicionar-se a tempo?


Portugal foi pioneiro, está na linha da frente, o
38% Of desktop users scrolled to here que é um orgulho para mim enquanto cidadão.
Rádio Observador em direto Portugal foi dos primeiro países a abolir a ×

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escravatura e a pena de morte — e também aqui


estamos a saber despirmo-nos de preconceitos.
Temos um produto que é benéfico e que tem
utilidade terapêutica para os doentes. Sem
abdicar das questões da segurança e qualidade,
conseguimos deixar de ter preconceitos e fazer
com que as pessoas mais rapidamente tenham
acesso àquilo que lhes faz bem.

▲ "O consumo vai aumentar desmesuradamente, as aplicações


terapêuticas serão cada vez mais", diz Eurico Castro Alves. JOÃO
PORFÍRIO/OBSERVADOR
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas o preconceito existe, ainda se fazem


capas de jornais sobre quais figuras
conhecidas estão a investir ou a colaborar
com este setor…
O preconceito existe. E mesmo na classe médica,
por falta de comunicação e informação. Além do
trabalho de criar evidência científica há aqui um
outro trabalho muito importante que é o de
comunicar com as pessoas e com a classe
médica, porque são os médicos os agentes
prescritores e são referencial de informação para
os doentes. É este caminho que falta fazer.

Quantos medicamentos existem em


Portugal, à base de canábis?
Já existem alguns, estão outros na fileira para
serem aprovados pelas autoridades. Mas neste
momento já há, inclusivamente, um
medicamento que é comparticipado pelo Estado,
um medicamento para as doenças neurológicas.

Fármaco à base de cannabis


vai ser comparticipado
25 jul 2019, por Observador

O preconceito vem de onde?


O preconceito vem das nossas tradições. O
canábis foi sempre tida como uma substância de
consumo ilegal, o que criou um estigma na
sociedade. E, se quer a minha opinião, eu, como
médico, também sou conservador e não sou
apologista do consumo de drogas, leves ou
pesadas. Porque elas alteram o comportamento
das pessoas e alteram o bem-estar e a saúde
orgânica das pessoas — não se confundam as
coisas. Dito isto, e eu não sendo a favor do
consumo de drogas, sou a favor de
aproveitarmos aquilo que de bom se pode tirar
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de uma planta com fins medicinais. É esta
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dicotomia que nós temos de resolver. Temos de


tirar este estigma.

Mas é uma produção que estará sempre


nas mãos das farmacêuticas. Ou seja, eu
posso plantar uma vinha e até vender o
meu produto a uma marca de vinhos…
Tem de ser regulado. Precisamente para evitar os
abusos, os consumos excessivos ou
desadequados, como é o fabrico de qualquer
medicamento. Tem de ser um setor regulado,
muito regulamentado, muito vigiado e muito
controlado. Só assim conseguiremos assegurar
que as pessoas podem tomar os medicamentos
com confiança e segurança.

E qual é a sua perspetiva sobre o uso


recreativo? Foi chumbado, em janeiro, no
parlamento, com os votos contra do PSD,
CDS e PCP (PS dividiu-se). Vê condições
para que possa haver uma decisão noutro
sentido, em breve?
São opções políticas, que eu reservo aos
políticos. Quem está hoje com a
responsabilidade de tomar decisões — esta é
uma decisão de ordem política. O que estamos a
assistir, um pouco por esse mundo fora, é que há
uma lenta mas progressiva tendência para a
liberalização do consumo. Neste momento,
prefiro não me pronunciar — estou muito focado
nas questões ligadas ao canábis medicinal, é essa
a minha área. Como médico, desaconselho o
consumo de drogas, sejam elas quais forem, mas
cinjo-me àquilo que eu sei e onde gosto de estar,
que é tratar os meus doentes e tentar dar-lhes o
melhor que eu puder.

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