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BEATRIZ BARROS SARAIVA

ELISA ALEXANDRE DE TOLEDO

TRABALHO DE CONCLUSÃO DA DISCIPLINA EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Macaé, 2019.

Como estudante de farmácia, não é muito comum esse contato direto com a natureza, e apesar de
aprendermos muitos nomes de espécies vegetais, suas estruturas, quais seus principais componentes
e como extraímos essas substâncias, se elas são medicinais ou não e como usá-las na síntese de
novos medicamentos, não existem essas saídas de campo como experimentei essa semana. Me
inscrevi nessa disciplina sem muita expectativa na realidade. Apenas esperando mais uma semana
meio entediante durante as férias e mais alguns créditos. Mas gostaria de dizer que estava errada,
mas isso vocês já sabem, não é?!

Conhecer pessoas como as que conheci essa semana fizeram me sentir pequena. Não em tamanho,
mas pequena diante de tanta garra, força e dedicação. Aprendi, principalmente que educação
ambiental não é só o meio ambiente em si, e sim tudo que habita esse solo e faz a cultura do nosso
país ser tão rica e diversa. Aprender a ouvir a história de quem viveu nos faz mudar um pouco a
perspectiva de ver nossa história, sabe?! Nossa digo como um todo, porque todos somos frutos de
um passado desigual. E ver a Janaína contar a sua, com o orgulho estampado nos olhos e um sorriso
de orelha a orelha, se dedicando tanto à sua comunidade, sem deixar que o tempo apague suas
origens e lutar pelos seus diretos, me fez refletir o quanto estamos contribuindo como seres
humanos para a sociedade a favor do próximo. Um exemplo de empoderamento. Foi um sopro de
vontade acompanhado pela tristeza em saber que estamos abandonados pelos que deveriam cuidar
de nós. Os quilombos mais ainda e mesmo com o pouco que têm, ainda encontram motivos para
festejar. Me percebi refletindo sobre minha ingratidão com a vida e sobre meu papel aqui como
indivíduo e futura farmacêutica, como isso me afetava e o meu afeto. Não é afeto de carinho, não é
Amanda?! E senti, senti tanto que escorreu pelos olhos. A culpa que eu sinto pela tragédia que seus
antepassados sofreram por culpa dos meus, os brancos. A família da Dona Sirlei foi mais uma
injeção de ânimo. História de luta, superação e trabalho, e “bota” trabalho nisso! Mesmo com todas
as dificuldades que a vida impõe, eles resistem. Ainda não conhecia sobre a agricultura familiar mas
ficou bem claro o apoio que essas famílias precisam, o nosso apoio. Lembro que pensei sobre o
suporte médico que essas famílias devem ter e imagino que seja negligenciado e que cabe a nós nos
juntar à eles em busca de igualdade. Viver da terra não é fácil mas é nítido o amor que sentem, entre
si e pela terra, e acredito que absorvi um pouco desse amor. E mesmo com toda a simplicidade
ainda sobra um espacinho para alimentar um bando de universitários. Mas em casa de mãe cabe
todo mundo, certo?!

Nessa semana em que vivemos a disciplina de educação ambiental, conheci algumas pessoas, e com
elas, suas histórias. Histórias que me remeteram a duas palavras, perseverança e esperança.
Perseverança de continuar lutando pelo que eles acreditam que seja o certo e o justo, e a esperança
de que eles vão conseguir acalçar seus objetivos. A perseverança da Janaína de conseguir lutar pela
sua voz, seu lar e seu direito de dar sua opinião sobre aquilo que é simplesmente sua herança, a
herança que o mundo deixou para o seu povo. A perseverança da Dona Sirlei e do Seu Chiquinho,
de continuarem ali, plantando, cuidando da sua terra e vivendo daquilo que sua terra produz. A
perseverança de Dona Graça e do Seu João, de continuarem aprendendo e ensinando. Participando
de algo muito maior, como resistência da natureza, reflorestando e trazendo de volta um meio
ambiente que sempre esteve ali, uma floresta que é dona daquele espaço mas foi arrancada sem
nenhuma pena por nós e pelas nossas casas, cidades e o mundo que conhecemos hoje. E a esperança
pra mim, de que o fato de existirem pessoas como eles me diz que o mundo pode, e vai ser um lugar
melhor. Mas é necessário que todos façam algo e levantem as mangas assim como eles.

Na quinta feira pude me ver em lugares que nunca imaginei na minha graduação, indo no mato, na
chuva, pisando no cocô de vaca, ‘só’ para coletar umas sementes numa árvore. Mas quando entendi
a grandeza que aquela semente representa, ai sim eu percebi que desviar de cocô de vaca não foi
nada diante de tudo que eles fazem todos os dias e não foi nada diante de tudo que o mundo vai
colher de volta quando esses frutos forem plantados. Não, não o fruto da árvore, mas sim o fruto das
nossas ações. Conheci pessoas incríveis, que lutam pra tornar o mundo não um lugar melhor, mas
pra torná-lo de volta o lugar que ele sempre foi, mas que nós destruímos. Trazer de volta ao mundo
seres que quase sumiram, espécies que são as legítimas donas daquele lugar, assim como Janaína é
dona de sua terra, de seu quilombo. Percebi que aqueles que são mais fracos, aqueles que não falam,
aqueles que são pequenos, são engolidos por quem deveria protegê-los são esquecidos diante de
tanta ambição dos nossos líderes políticos e grandes empresários. Janaína, é um ser humano, mas
também não tinha voz, assim como o Mico-Leão-Dourado, interessante né?! Perceber que,
conforme a globalização vai acontecendo ela vai destruindo pessoas, animais, árvores, vida e que
isso tudo se torna nada diante da ambição. Entendi que eu, estudante acadêmica, não faço nada
comparada a Dona Graça, que aproveita a vida muito mais a vida do que eu estou aproveitando.
Dona Graça que simplesmente ama o verde, e todos os tons de verde. Eu, estudante da UFRJ, aluna
do curso de farmácia do polo Macaé, ando de verde o tempo todo, porque verde é a cor da minha
atlética, do meu curso, porém o que significa o verde para mim? O verde para mim não significa
nada comparado ao que significa o ver para a Dona Graça, para ela: o verde é vida, o verde é tudo.
O verde é o presente, o passado e é o futuro; o verde é a natureza que nos rodeia; o verde é objetivo,
o verde é o que o nosso mundo precisa para continuar existindo. Ela já sabe disso, e eu aprendi isso
ontem. Se olharmos individualmente, a dona Graça e seu marido só plantam e fazem mudas, a
associação Mico Leão só cuida de uns bichinhos, a Janaína só quer continuar vivendo na casa dela,
os surfistas só querem continuar curtindo aquela reserva. Mas será que devemos continuar olhando
individualmente, ou será que devemos olhar o todo? Porque ontem eu vi que eles se tornaram uma
equipe, vivem em grupo, onde o trabalho de um ajuda no trabalho do outro e que a muda que dona
Graça faz, refloresta fazendas que a associação Mico-Leão não apenas salve esse bichinhos, mas
salvem a história, salvem o meio ambiente, salvem uma floresta inteira, salvem o passado do
planeta terra, salvem o que é a essência da nossa vida, a natureza, as árvores, os micos, pássaros,
animais que nem temos consciência mas que estão ali. Essa semana compreendi, que precisamos
viver como um só e não só pensar no que eu serei depois que me formar, se serei bem sucedida ou
se terei uma condição econômica favorável. Devo pensar, se eu como aluna, uma pessoa
privilegiada, sim, privilegiada por estar num ambiente como esse, se eu estou fazendo o que deveria
fazer, e lutando pelo que deveria lutar. Independente de ser farmacêutico, biólogo ou químico, antes
de tudo, isso sou ser humano e preciso ser um ser humano melhor, que olha para os lados. Porque
quando se dá a mão a alguém é muito mais fácil enfrentar as lamas e desafios que estão a nossa
frente, porque ontem quando dei a mão a alguém la na trilha eu consegui passar sem cair na lama,
consegui me equilibrar melhor e chegar ao final da trilha.

A disciplina de educação ambiental não foi nada do que eu achei que seria, porém, foi muito mais
do que eu merecia e foi muito além do que eu conhecia. Somos gratas pelos encontros que a vida
preparou pra nós nessa semana, pela inspiração que nossos professores passaram e pelos
aprendizados com nossos colegas. Pela demonstração de admiração, amor e carinho pelos
protagonistas dessa semana tão especial. Gratas por essas pessoas que ainda lutam pela justiça nesse
país desumano. Com certeza encerramos essa semana com uma percepção diferente da vida e com a
esperança renovada.