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S AÚDE MENTAL DO A DOLESCENTE

DOLESCENTE

BRASÍLIA -DF.
-DF.
Elaboração

Joana Pantoja Scharinger

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário
 APRESENTAÇÃO ..............................
...............................................................
...................................................................
...................................................................
................................. 4

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ..............................


...............................................................
.......................................
...... 5

INTRODUÇÃO .................................
..................................................................
...................................................................
...................................................................
................................. 7

UNIDADE ÚNICA 
SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE ...............................
.................................................................
...................................................................
.......................................
...... 9

CAPÍTULO 1
OS CONCEITOS DE SAÚDE MENTAL E ADOLESCÊNCIA ..................................
..............................................................
............................ 9

CAPÍTULO 2
 A POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL DOS ADOLESCENTES .......................... 24

REFERÊNCIAS .............................
..............................................................
..................................................................
..................................................................
.....................................
.... 48
 Ap
 Apresentação
Caro aluno

 A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem
necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela
atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade
de sua estrutura formal, adequadas à metodologia
me todologia da Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos
a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos especícos da área e atuar de forma
competente e conscienciosa, como convém ao prossional que busca a formação continuada para
 vencer os desaos que a evolução cientíco-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar
sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na prossional. Utilize-a
como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

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Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de
forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões
para reexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao
nal, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e
pesquisas complementares.

 A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos
e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Praticando

Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer


o processo de aprendizagem do aluno.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

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Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Exercício de fixação

Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/
conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não
há registro de menção).

Avaliação Final

Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso,


que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única
atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber
se pode ou não receber a certificação.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

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Introdução
 A adolescência, por muitos anos, foi uma faixa etária desconsiderada e desassistida. Hoje, existem
cerca de 21 milhões de adolescentes no Brasil. De acordo com dados do Ministério da Saúde,
estima-se que aproximadamente de 20% das crianças e dos adolescentes brasileiros sofram de
transtornos mentais. Além disso, vem crescendo o número de adolescentes que fazem uso de
substância psicoativa e os casos de suicídio nesta faixa etária. Por isso, a importante necessidade
de abordarmos a temática da saúde mental na população adolescente. Esta disciplina se propõe a
abordar os conceitos fundamentais para essa discussão e descrever a política nacional do Ministério
da Saúde utilizada para assistir os adolescentes.

Objetivos
» Compreender os conceitos de Saúde Mental e Adolescência a partir de uma
perspectiva psicossocial, utilizada pelo Ministério da Saúde.

» Compreender o funcionamento e as diretrizes do Programa Nacional de Atenção à


Saúde Mental do Adolescente.

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SAÚDE MENTAL DO UNIDADE ÚNICA 
 ADOLESCENTE

CAPÍTULO 1
Os conceitos de saúde mental
e adolescência

 Xote das meninas


Mandacaru

Quando flora na seca

É o sinal que a chuva chega

No sertão

Toda menina que enjoa

Da boneca

É sinal que o amor

Já chegou no coração

Meia comprida

Não quer mais sapato baixo

Vestido bem cintado

Não quer mais vestir timão

Ela só quer

Só pensa em namorar

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Ela só quer

Só pensa em namorar

De manhã cedo já está pintada

Só vive suspirando

Sonhando acordada

O pai leva ao doutor

A filha adoentada

Não come, nem estuda

Não dorme, e nem quer nada

Ela só quer

Só pensa em namorar

Ela só quer

Só pensa em namorar

Mas o doutor nem examina

Chamando o pai de lado

Lhe diz logo em surdina

Que o mal é da idade

E que pra tal menina

Não há um só remédio

Em toda medicina

Ela só quer

Só pensa em namorar

Ela só quer

Só pensa em namorar
Luiz Gonzaga, 1953.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Quando você pensa em um adolescente, qual é a primeira imagem que lhe vem à
cabeça? Um garoto rebelde com  piercings? Um menino franzino com espinhas no
rosto? Ou como descreveu Luiz Gonzaga, uma menina namoradeira e maquiada?
Segundo a música, o doutor disse que “o mal é da idade”. Mas que idade será esta do
adolescente? E quais serão as questões emocionais e psicológicas presentes nesta
faixa etária? Pare um pouco e reflita sobre os estereótipos e as imagens que você
têm em relação aos adolescentes. Relembre como você era por volta de seus 13 ou
14 anos. Como você reagia as adversidades da vida naquela época?

Os conceitos de saúde e saúde mental


Para começar a discussão sobre a saúde mental dos adolescentes, devemos, primeiramente,
relembrar dois conceitos importantes: as noções de saúde e saúde mental.

Revisitando o conceito de saúde


Segundo o Ministério da Saúde, a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Isso signica
que é papel do governo garantir a saúde à população brasileira por meio de políticas sociais e
econômicas que visem à redução do risco de doença e ao acesso universal e igualitário às ações e aos
serviços.

É importante compreender a noção de saúde de modo ampliado. A saúde é um resultado de vários


fatores determinantes, como alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho,
renda, educação, transporte, lazer, acesso a bens e serviços essen ciais, ou seja, uma pessoa saudável
não é simplesmente uma pessoa sem doenças. Uma pessoa saudável é aquela que tem acesso ao
completo bem-estar físico, mental e social.

Portanto, para garantir a saúde da população brasileira, o Ministério da Saúde não pode agir
isoladamente. O Sistema Único de Saúde (SUS) deve desenvolver ações conjuntas com outros setores
do governo, como meio ambiente, educação, urbanismo, entre outros, que possam contribuir, direta
ou indiretamente, para a promoção de melhores condições de vida e de saúde para a população.

Um conceito ampliado de saúde: saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e
não apenas a ausência de doenças.

Saúde do adolescente
É comum acreditar que adolescentes e jovens são pessoas saudáveis e por isso não necessitam de
atenção à saúde, a não ser na saúde reprodutiva. No entanto, de acordo com o Ministério da Saúde,
hoje as condições de saúde desse grupo populacional se tornaram um diferencial. A população

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

de adolescentes e jovens tem mostrado-se cada vez mais vulnerável, em especial em relação às
diferentes formas de violências e à crescente incidência de mortalidade. O impacto da violência na
saúde dos adolescentes é um tema muito importante na atualidade e tornou-se um grave problema
de saúde pública.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estima que o Brasil tenha ce rca de 21 milhões
de adolescentes. Para atender a essa vasta população, o Ministério da Saúde realiza um conjunto de
ações em parcerias com outros Ministérios, estados e municípios para realizar a  Política Nacional
de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e de Jovens . Essa política assiste adolescentes e jovens
na faixa etária de 10 a 24 anos.

 A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e de Jovens prioriza ações nas
seguintes áreas:

» crescimento e desenvolvimento;

» saúde sexual e saúde reprodutiva;

» prevenção das violências;

» participação juvenil nas políticas de saúde;

» organização de serviços de forma diferenciada e de acordo com as especicidades


dessa população;

» desenvolvimento de ações integradas que possibilitem a redução dos principais


agravos, como gravidez não planejada, Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST),
uso abusivo de álcool e outras drogas e comportamentos de risco.

Conforme citado anteriormente, as ações voltadas para prevenção das violências é de enorme
importância, atualmente, na saúde pública brasileira. Segundo dados do Ministério da Saúde
(2009), crianças e adolescentes são as principais vítimas de violências no Brasil. Por isso, o impacto
da violência na saúde dos adolescentes é um tema que merece aprofundamento.

Crianças e adolescentes são as principais


 vítimas de violências
O texto, a seguir , foi retirado da cartilha do Ministério da Saúde (2010a) s obre o impacto da violência
na saúde das crianças e dos adolescentes e aborda a preocupante relação entre saúde e violência na
população adolescente.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Como são assegurados os direitos da criança


e do adolescente?
Os direitos são assegurados mundialmente pela Convenção dos Direitos Humanos e pela Constituição
Federal (1988) e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei no 8.069/1990), bem como em
políticas setoriais do Governo referentes à área de saúde.

Como a violência ameaça esses direitos?


 A violência, o desao do século, está difundida em todo o tecido social, causando grande impacto na
saúde da população. Ela ainda resulta em altos custos econômicos e sociais para o Estado e para as
famílias, com potenciais anos de vidas perdidos.

Por que as violências contra crianças e


adolescentes são encobertas?
» Medo de denunciar episódios de violência cometidos principalmente pelas pessoas
que deveriam proteger as próprias crianças e adolescentes, tais como os pais,
familiares, amigos, conhecidos, cuidadores, polícia e outras pessoas investidas de
algum poder na comunidade.

»  Aceitação social da violência contra crianças e adolescentes utilizada como


 justicativa de “educar”. Essas violências são manifestadas como castigo físico,
humilhação, intimação e assédio sexual, especialmente quando não produzem
danos físicos, visíveis e duradouros.

»  A violência torna-se invisível também quando os serviços de escuta (disque-


denúncia, delegacias, serviços de saúde e de assistência social, escolas, conselhos
tutelares e a própria comunidade) não estão preparados para o acolhimento e
atendimento da criança e do adolescente.

Quais são as consequências da violência para


crianças e adolescentes?
1.  A violência pode gerar problemas sociais, emocionais, psicológicos e cognitivos
durante toda a vida, podendo apresentar também comportamentos prejudiciais à
saúde. Em geral, manifesta-se por meio do abuso de substâncias psicoativas, do
álcool e de outras drogas e da iniciação precoce à atividade sexual, tornando-os
mais vulneráveis à gravidez, à exploração sexual e à prostituição.

2. Os problemas de saúde mental e social relacionados à violência em crianças e


adolescentes podem gerar consequências como ansiedade, transtorno depressivos,

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

alucinações, baixo desempenho escolar e nas tarefas de casa, alteração de memória,


comportamento agressivo, violento e até tentativas de suicídio.

3.  A exposição precoce de crianças e adolescentes à violência pode estar relacionada


com o comprometimento do desenvolvimento físico e mental, além de enfermidades
em etapas posteriores da vida, como as doenças sexualmente transmissíveis, a aids,
o aborto espontâneo e outros.

Como enfrentar este grave problema de


saúde publica?
Todos nós podemos contribuir para a cultura de paz, pois a violência contra as crianças e os
adolescentes jamais se justica.

Enfrentar a violência implica lidar com questões complexas que envolvem a moral, a ética, a
ideologia, a política e a cultura, entre outros fatores.

Os passos primordiais são estes.

1. Promover ações de sensibilização e mobilização na defesa de tão importante causa.

2. Conversar com crianças e adolescentes, orientando-os sobre os riscos da violência


no cotidiano e suas formas de prevenção.

3.  Adotar posturas proativas diante de qualquer situação de violência.

4. Debater o assunto nas escolas, na comunidades, na família, nos serviços de saúde,


entre outros setores da sociedades.

 A violência pode gerar problemas emocionais,


sociais, cognitivos, psicológicos e de saúde.

Para saber mais sobre a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes
e Jovens, acesse: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_nacionais_
atencao_saude_adolescentes_jovens_promocao_saude.pdf>.

No papel fundamental de proteger a saúde dos adolescentes e assegurar o direito de uma vida sem
 violência, está o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). É muito importante que todos os
prossionais que trabalhem com crianças e adolescentes conheçam o ECA.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

O que é o ECA?
O ECA é uma lei brasileira (Lei Federal no 8.069/1990) que tem como objetivo a proteção integral
dos direitos da criança e do adolescente. Alguns artigos desta lei são os seguintes.

»  A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à


pessoa humana, assegurando-se-lhes o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

» É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida,
à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à prossionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

»  A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação


de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio
e harmonioso, em condições dignas de existência.

» Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência,


discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei
qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

» É assegurado atendimento integral à saúde da criança e do adolescente, por


intermédio do Sistema Único de Saúde, garantido o acesso universal e igualitário às
ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.

Segundo o ECA, o adolescente é um sujeito de direitos, uma pessoa em desenvolvimento, e está na


faixa etária entre 12 anos e 18 anos de idade.

Para saber mais sobre o ECA, acesse: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/


L8069.htm>.

Após aprender um pouco mais sobre o ECA, relembre algum(ns) caso(s) sobre
adolescente(s) que você conhece ou viu na mídia. Entenda o caso e analise até que
ponto esse adolescente teve seus direitos violados ou preservados.

O ECA é alvo de muitas críticas. Algumas pessoas acreditam que o Estatuto tem uma
abordagem paternalista. Esta crítica se baseia na ideia de que o ECA superprotege
os adolescentes ao invés de educá-los ou puni-los. Qual é a sua opinião sobre este
assunto? Tente imaginar o que aconteceria se o ECA não existisse.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

O conceito de saúde mental


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 450 milhões de pessoas em todo o mundo
sofrem de transtornos mentais. A OMS dene que saúde mental é parte da denição de saúde e não
é possível haver saúde sem saúde mental. Portanto, a saúde mental é um componente integrante e
fundamental da saúde.

Com isso, o termo saúde mental deve ser denido também de modo ampliado, ou seja, saúde mental
não é simplesmente a ausência de transtornos mentais. Saúde mental é um estado completo de
 bem- estar no qual um indivíduo é capaz de realizar suas habilidades e potenciais, lidar com os
estresses da vida normal, trabalhar de forma produtiva e contribuir em sua própria comunidade.
Neste entendimento, saúde mental é a base para o bem-estar individual e o funcionamento efetivo
de uma comunidade.

 Assim, a promoção da saúde mental requer uma ação multissetorial, envolvendo uma série de
setores do governo e organizações não governamentais ou de base comunitária. O foco deve ser
a promoção da saúde mental ao longo da vida para garantir uma vida saudável para as crianças
e evitar transtornos mentais na idade adulta e posteriormente. No entanto, segundo a OMS, 30%
dos países não têm políticas de saúde mental e 80% não têm políticas de saúde mental que incluam
crianças e adolescentes.

Segundo a UNICEF, é fundamental reconhecer que os adolescentes são um grupo em si. Não são
crianças grandes nem futuros adultos. São cidadãos, sujeitos com direitos especícos, que vivem
uma fase de desenvolvimento extraordinária. O que experimentam nessa etapa determinará sua
 vida adulta. Exatamente por isso é tão importante que as ações de prevenção e promoção de saúde
mental tenham grande foco nas fases da infância e adolescência.

Não é possível haver saúde sem saúde mental


O texto a seguir foi extraído do site  da OMS e descreve ações especícas para promover saúde
mental. (Fonte do texto: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs220/en/index.html>)

A promoção da saúde mental depende, em grande parte, de estratégias intersetoriais.


Formas específicas para promover a saúde mental incluem o seguinte.

» Intervenções precoces da infância (por exemplo, visitas a casa de mulheres


grávidas, atividades psicossociais pré-escolares, ajuda nutricional e
psicossocial para populações desfavorecidas).

» Apoio a crianças (por exemplo, programas de construção de habilidades,


programas de desenvolvimento para crianças e adolescentes).

» Empoderamento socioeconômico das mulheres (por exemplo, a melhoria


do acesso à educação e esquemas de microcrédito).

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

» Apoio social para populações idosas (iniciativas de socialização, por


exemplo, centros de convivência para idosos).

» Programas dirigidos a grupos vulneráveis, incluindo minorias, povos


indígenas, imigrantes e pessoas afetadas por conflitos e catástrofes (por
exemplo, a intervenção psicossocial após desastres).

» Atividades de promoção de saúde mental nas escolas (por exemplo,


programas de apoio a mudanças ecológicas em escolas e Escolas Amigas
da Criança).

» Intervenções de saúde mental no trabalho (por exemplo, programas de


prevenção de estresse).

» Políticas de habitação (por exemplo, a melhoria da habitação).

» Programas de prevenção da violência (por exemplo, iniciativas de


policiamento comunitário).

» Programas comunitários de desenvolvimento (“Comunidades que


cuidam” por exemplo, iniciativas do desenvolvimento rural integrado).

Você sabia que o dia Mundial da Saúde Mental é o dia 10 de outubro? Imagine
que essa data está próxima e você recebeu a tarefa de organizar um evento para
promover a saúde mental em sua comunidade. Escolha uma das ações descritas no
texto anterior e adapte ao contexto específico de sua comunidade.

Quem é o adolescente?

Um pouco de história: o conceito de adolescência


Se alguém perguntar o que é a adolescência, provavelmente a resposta mai s comum que vamos ouvir
é: a época da vida entre a infância e a fase adulta. Essa armação não está errada, talvez incompleta.
Mas o que poucas pessoas sabem é que a noção de adolescência é historicamente recente, e só foi
inserida na Psicologia a partir do início do século XX. Isso signica que muito antes disso não se
considerava uma fase intermediária entre infância e fase adulta. A criança si mplesmente deixava de
ser considerada criança e passava a ter que seguir os afazeres da vida adulta. A partir de certa idade,
a criança passava a ter de trabalhar e constituir família, ou seja, não existia a noção de adolescência,
e mesmo as crianças não tinham um lugar diferenciado na sociedade. As crianças e os adolescentes
eram tratados como miniadultos.

Você consegue imaginar uma sociedade em que crianças e adolescentes não eram
sujeitos de direitos? Já imaginou uma sociedade sem as noções de maioridade,
adolescência, exploração sexual infantil, pedofilia e trabalho infantil?

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Crianças da nobreza retratadas em 1695.

Fonte: <http://literatortura.com/2012/08/11/moda-infantil-na-idade-media-rousseau-e-a-crianca-produto/>.

Imperador D. Pedro II aos 12 anos de idade, em1838.

Fonte: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:RetratodompedroIIcrianca.JPG>.

Foram necessários muitas décadas de transformações sociais para a adolescência ser considerada
uma fase qualitativamente diferente da infância e da idade adulta. Somente no m do século XIX
que crianças e adolescentes começaram a ser retirados do mercado de trabalho e começaram a
frequentar a escola.
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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Na Psicologia, o conceito de adolescência foi introduzido por Stanley Hall. Ele fundou a chamada
“psicologia do adolescente”. Sua teoria deniu a adolescência como fase natural do desenvolvimento
humano. Essa noção considera intrínseco ao adolescente momentos naturais de crise, turbulências
e angústia. Tal instabilidade está vinculada às transformações biológicas e corporais. Essa noção
de desenvolvimento – em que a pessoa se transforma ao longo dos anos – é uma noção bastante
difundida e aceita atualmente.

O ECA dene o adolescente como pessoa em desenvolvimento, na faixa etária entre 12 anos e 18
anos de idade. Já a OMS compreende a adolescência entre as idades de 10 anos a 19 anos. A faixa
etária da adolescência varia de acordo com a denição, mas, geralmente, todas as denições atuais
incluem a noção de desenvolvimento.

A adolescência é uma fase natural do desenvolvimento humano.

 A adolescência como fase do


desenvolvimento humano
 A adolescência é uma fase de grandes transformações. Todos os adolescentes compartilham de
um crescimento e desenvolvimento físico e psicossocial intenso (MORRISON-VALFRE, 2009). Ao
mesmo tempo, cada adolescente é um sujeito único e, por isso, cada pessoa vivencia essa etapa da
 vida de um modo diferente, e com uma itensidade diferente.

 Veja o que o texto a seguir defende (Texto:  Situação da adolescência brasileira: o direito de ser
adolescente, UNICEF, 2011).

Hoje se sabe que o cérebro, ao contrário do que se pensava antes, ainda não está
pronto quando termina a infância. Na adolescência, ele passa por uma nova onda
de transformações, que faz com que se sinta necessidade de criar coisas novas e de
aprender. Outras modificações em regiões do córtex que estão relacionadas com o
raciocínio e a memória conferem aos adolescentes uma enorme capacidade de lidar
com informações.

O que se sabe hoje sobre esse período traz novas perspectivas. Características
associadas à adolescência e geralmente tomadas sob o ponto de vista negativo, como
impulsividade, desejos de mudança e de extrapolar limites, extrema curiosidade
pelo novo, intransigência com suas opiniões e atitudes, tornam-se, na verdade,
oportunidades de aprendizagem e inovação para escolas, famílias, comunidades e
para os próprios adolescentes.

Mas, atualmente, para além das transformações biológicas e psíquicas, o conceito


de adolescência incorpora a ideia de uma construção social dessa etapa da vida e

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

diz respeito à multiplicidade de formas como ela é vivenciada. Não se fala mais da
adolescência, no singular, mas de adolescências, no plural.

Isso porque as experiências de ser adolescente, sejam no plano físico, seja psíquico
seja social, são distintas para cada menino ou menina, por vários fatores: o lugar
onde se vive, por exemplo, ou também a forma pelo qual o adolescente interage
e participa, seja da vida familiar, seja na escola, seja no bairro onde vive, seja na
cidade onde mora. Afinal, é diferente ser adolescente em uma aldeia indígena, na
periferia de uma grande cidade, no sertão, ou ainda em família, num abrigo, nas
ruas, frequentando ou não uma escola.

Num País com tamanha diversidade e disparidades regionais, étnicas, culturais e


socioeconômicas, essas adolescências reúnem uma pluralidade de possibilidades,
expectativas, experiências, significados e desafios para a garantia do direito de ser
adolescente.

O Brasil é um país de diversidades,ou seja, de muitas adolescências diferentes.


Imagine as diferenças entre um adolescente que vive numa aldeia indígena e um
que more numa cidade grande.

 A seguir, descreveremos, de modo geral, o desenvolvimento físico e psicossocial ocorrido na


adolescência. A separação e a descrição em fases realizadas é para m didático apenas, ou seja, para
facilitar a aprendizagem do conteúdo. Mas lembre-se de que cada adolescente é um sujeito diferente
e vivencia seu desenvolvimento de modo distinto. As transformações físicas e psicossociais variam
de pessoa para pessoa.

Desenvolvimento físico do adolescente


Geralmente, a transformação física durante a adolescência ocorre em duas áreas: a maturação física
e o desenvolvimento sexual (MORRISON-VALFRE, 2009).

 A maturação é um processo do desenvolvimento físico que tem como m o corpo adulto. Muitas
transformações físicas ocorrem durante este período, por exemplo, ganha-se altura e peso, e os
músculos do corpo crescem. Os maiores órgãos do corpo dobram de tamanho e a voz também muda.

O desenvolvimento sexual também é expressivo nesta fase. Hormônios começam a ser produzidos
e a puberdade inicia-se. A puberdade é o estágio do desenvolvimento em que a pessoa se torna
sicamente capaz de reproduzir. Entre as meninas, a puberdade costuma ter início entre os 8 anos
e 14 anos, e é marcada pelo desenvolvimento dos seios, a distribuição de volume pelo corpo, entre
outras transformações que preparam a menina para a fase adulta. A menarca ou menstruação é um
importante aspecto desta fase.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

O desenvolvimento dos meninos ocorre de modo mais demorado. Os primeiros sinais aparecem entre
os 10 anos e 12 anos de idade. Os testículos, cabelos pubianos e o órgão sexual desenvolvem-se.

Desenvolvimento psicossocial do adolescente


Não há dúvidas de que todas essas mudanças físicas e hormonais afetam a vida emocional e também
social dos adolescentes. Em decorrência de todas as transformações físicas, há períodos em que o
adolescente pode se sentir estranho, diferente e excluído do meio em que convive. Os adultos a sua
 volta, como pais e professores, por exemplo, que estiverem ciente dessas intensas transformações
 vivenciadas, estarão mais preparados para oferecer suporte emocional e aceitação a este adolescente.

O desenvolvimento cognitivo apresenta muitas mudanças. Entre as idades de 10 anos a 13 a nos


há diculdades em desenvolver o pensamento realístico acerca de eventos futuros, por exemplo,
a cerca das consequências futuras dos comportamentos atuais. A medida que o adolescente vai
amadurecendo, este vai começando a vislumbrar para além do tempo presente, e começa a
considerar as consequências dos eventos, incluindo de seus próprios atos, e de suas relações com os
outros (MORRISON-VALFRE, 2009).

Por volta dos 14 anos aos 17 anos, o pensamento abstrato começa a se desenvolver. Por pensamento
abstrato, entende-se pensamentos exíveis e adaptáveis os quais se usam generalizações e resolução
de problemas. A conquista deste novo modo de pensar, deste novo nível intelectual, muitas vezes
dá ao adolescente a sensação de poder sobre o futuro e as situações. Esse comportamento é descrito
por alguns como a “vontade de mudar o mundo” .

 A partir dos 17 anos essa sensação evolui para uma noção mais realística em termos de planejamento
e possibilidades reais alcançáveis.

O desenvolvimento emocional na adolescência é marcado por rápidos períodos de mudanças


e adaptações. Entre os 10 anos e 13 anos de idade uma estabilidade emocional começa a dar
lugar a constantes preocupações a cerca da autoimagem, já que o corpo atravessa tamanhas
transformações. As emoções começam a car mais instáveis. Por isso, muitas mudanças de humor
são presentes, tais como alterações entre sensações de prazer e satisfação com tristeza e decepção,
além de intensicações da sensação de calma em oposição a agitação. A agressividade também é
muitas vezes presente, e a intensidade com que os eventos são experienciados são típicos. Outro
recorrente comportamento é o de “sonhar acordado”, fantasiar a cerca da realidade. A chamada
“imaginação fértil” também está presente e faz o adolescente experimentar diferentes posições e
possibilidades. Entre os 14 anos e 17 anos todas essas intensidades podem se presenticar também
com o isolamento social, intensa introspecção e atenção em direção a si mesmo, seu corpo, a m de
 buscar se autoconhecer e encontrar “um lugar no mundo”. Por volta dos 18 anos, essas sensações
começam a se estabilizar (MORRISON-VALFRE, 2009).

As expressões “estranho no ninho”, “patinho feio” e“ovelha negra” são frequentemente


utilizadas pelos próprios adolescentes para descrever as sensações que vivenciam.
Todas essas expressões, em algum grau, estão associadas a sentimentos de

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

incompreensão e estranhamento. Sentir-se incompreendido é sensação comum


entre muitos adolescentes, basta lembrarmos de nós mesmos nesta faixa etária. O
trecho a seguir foi extraído do famoso livro O Diário de Anne Frank .

“Quero agora abordar o capítulo “papai e mamãe não me


compreendem”. Papai e mamãe sempre me encheram de mimos,
foram carinhosos, defenderam-me, fizeram tudo o que os pais
podem fazer. Mesmo assim, durante longo tempo, senti-me
terrivelmente isolada, rejeitada, desprezada e mal compreendida.
Papai fez o que pôde para conter minha rebeldia, mas não
adiantou, eu é que me curei sozinha enxergando e procurando
corrigir meus erros” (15 de Julho de 1944).

Estas palavras poderiam ser de qualquer adolescente dos dias de hoje, mas são
de 1944, quando Anne tinha 15 anos de idade e estava escondida com sua família
durante a Segunda Guerra Mundial. Isto nos mostra o quanto a passagem pela
adolescência é intensa e faz parte de um desenvolvimento humano natural, o qual
todos nós passamos.

 Anne Frank, em 1942.

Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/Anne_Frank>.

Para saber mais sobre a história da adolescente Anne Frank, leia:

Livro: FRANK, Anne. O diário de Anne Frank . Rio de Janeiro: Record, 2000.

Assista:

Filme: O diário de Anne Frank (EUA, 1958). Direção George Stevens.

Continuando nossos estudos sobre o desenvolvimento psicossocial do adolescente,


abordaremos, agora, o desenvolvimento social.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Quanto ao desenvolvimento social, o adolescente está buscando uma identidade


pessoal e, por isso, busca identificar-se com um grupo, ser acolhido, e ter a sensação
de pertencimento. Nesta busca ele procura se espelhar em exemplos e ídolos. Uma
das funções do grupo, para o adolescente, é a de auxiliar na diferenciação e/ou
separação entre ele e seus pais. Na identificação com um grupo, o adolescente tenta
compartilhar um jeito de vestir, modo de falar, gosto musical, entre outros hábitos. O
objetivo é que o pertencimento ao grupo o faça se separar dos seus pais e definir-se
como indivíduo (MORRISON-VALFRE, 2009).

Na experiência de pertencimento ao grupo e na busca pela identidade, há também


a busca para experimentar novos padrões, comportamentos, atividades, também
incluindo aspectos da sexualidade e uso de drogas. Tudo isso se justifica pela busca
de uma identidade, na qual o adolescente está procurando se constituir como
sujeito. O processo de busca pela identidade pode ser acompanhados por longos
períodos de introspecção e de insegurança com relação à autoestima.

Obviamente, essas fases do desenvolvimento e estes aspectos podem variar de


pessoa para pessoa, de intensidade, na idade em que aparecem, mas todos nós
que já passamos pela adolescência, podemos identificar ao menos alguns destes
aspectos no nosso passado. Com o final da adolescência, por volta dos 18 anos ou 19
anos, ou para alguns mais tarde do que isso, a pessoa já começa a ficar mais estável
e aos poucos vai ganhando confiança nesse processo de consituiçao da identidade.

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CAPÍTULO 2
 A Política nacional de atenção à saúde
mental dos adolescentes

 A saúde mental pública


Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 20% de crianças e adolescentes brasileiros sofrem de
transtornos mentais. Deste total, estima-se que 4% necessitem de tratamento itensivo. Destaca-
se entre a população adolescente o aumento da ocorrência do uso de substâncias psicoativas e do
suicídio.

Um dos maiores desaos da Política Nacional de Saúde Mental é a assistência deste serviço a
população infantil e adolescente. Os serviços de saúde mental para essa população é his toricamente
insuciente. Durante muitas décadas, a situação foi de total ausência deste tipo de assistência a este
grupo. Não havia atenção pública para crianças e adolescentes portadores de transtornos mentais.
Este quadro não ocorreu apenas no Brasil. Segundo a OMS, 30% dos países não têm políticas de
saúde mental e 80% não têm políticas de saúde mental que incluam crianças e adolescentes.

Portanto, a Saúde Mental Pública voltada para crianças e adolescentes no Brasil ainda está se
desenvolvendo e tem um longo caminho pela frente. Muitos avanços já foram feitos. Porém, muito
ainda está por vir.

O texto, a seguir, retirado do site  do Ministério da Saúde (<portal.saude.gov.br>), descreve, em


linhas gerais, a Política Nacional de Saúde Mental no Brasil.

A Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na Lei no 10.216/2001, busca consolidar


um modelo de atenção à saúde mental aberto e de base comunitária. Isto é, que
garanta a livre circulação das pessoas com transtornos mentais pelos serviços,
comunidade e cidade, e oferece cuidados com base nos recursos que a comunidade
oferece. Esse modelo conta com uma rede de serviços e equipamentos variados,
tais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência e Cultura e os leitos de atenção integral
(em hospitais gerais, nos CAPS III). O programa de Volta para Casa que oferece bolsas
para egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos, também faz parte
dessa política.

O que é reforma psiquiátrica?

A internação de pessoas portadoras de transtornos mentais no Brasil remonta à


metade do século XIX. Desde então, atenção aos portadores de transtornos mentais
foi sinônimo de internação em hospitais psiquiátricos especializados. A oferta desse
atendimento hospitalar se concentrou nos centros de maior desenvolvimento

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

econômico do País e deixou vastas regiões carentes de qualquer recurso de


assistência em saúde mental.

A partir dos anos 1970, iniciam-se experiências de transformação da assistência,


pautadas no começo pela reforma intramuros das instituições psiquiátricas
(comunidades terapêuticas) e mais tarde pela proposição de um modelo centrado
na comunidade e substitutivo ao modelo do hospital especializado.

Com a promulgação da Constituição, em 1988, cria-se o Sistema Único de Saúde


(SUS) e são estabelecidas as condições instituicionais para a implantaçao de novas
políticas de saúde, entre as quais a de saúde mental.

Consoante com diversas experiências de reforma da assistência psiquiátrica no


mundo ocidental e as recomendações da Organização Panamericana de Saúde
(OPAS), contidas na Carta de Caracas (1990), o Ministério da Saúde, a partir da década
de 1990, define uma nova política de saúde mental que redireciona paulatinamente
os recursos da assistência psiquiátrica para um modelo substitutivo, baseado em
serviços de base comunitária. Isso é, que oferecem cuidados na comunidade e
em articulação com os recursos que a comunidade oferece. Incentiva-se a criação
de serviços de saúde mental públicos e territorializados (território é a designação
não apenas de uma área geográfica, mas das pessoas, das instituições, das redes
e dos cenários nos quais se dão a vida comunitária), ao mesmo tempo em que se
determina a implantação de critérios mínimos de adequação e humanização do
parque hospitalar especializado.

Os CAPS têm valor estratégico para a Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Para saber mais sobre as políticas e os programas de Saúde Mental do Ministério da


Saúde, acesse:

<http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=31354>.

<http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=33883>.

<http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=31355>.

<http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=29818>.

De acordo com o que você aprendeu até agora sobre os serviços de Saúde Mental
da rede pública, faça uma pesquisa na sua própria comunidade. Descubra como é
organizada a rede de atenção à saúde mental na sua região e quais são os serviços
oferecidos.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

O que é o CAPSi?
Conforme descrito anterioriormente, a Política Nacional de Atenção à Saúde Mental propõe-se a
um trabalho em rede, interligando diferentes centros e organizações na comunidade. Nesta rede,
os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) têm um valor estratégico. Estes centros têm papel
importante para a Reforma Psiquiátrica, pois criam uma organização em rede que substitui a
necessidade do Hospital Psiquiátrico. Ao contrário do Hospital Psiquiátrico, os CAPS são abertos,
comunitários e oferecem atendimento diário.

Existem, porém, tipos diferentes de CAPS, que variam de acordo com o perl da clientela atendida,
com a quantidade de pessoas atendidas e com o período de funcionamento. Aqui em nossos estudos,
 vamos focar no CAPSi, que é o CAPS especializado no atendimento de crianças e adolescentes
(atendimento infantojuvenil).

Leia o texto a seguir extraído do relatório do Ministério da Saúde (2004)  Saúde Mental no SUS: Os
Centros de Atenção Psicossocial. Esse documento descreve com detalhes a função do CAPSi.

O CAPSi é um serviço de atenção diária destinado ao atendimento de crianças e


adolescentes gravemente comprometidos psiquicamente. Estão incluídos nessa
categoria os portadores de autismo, psicoses, neuroses graves e todos aqueles que,
por sua condição psíquica, estão impossibilitados de manter ou de estabelecer
laços sociais. A experiência acumulada em serviços que já funcionavam segundo
a lógica da atenção diária indica que se ampliam as possibilidades do tratamento
para crianças e adolescentes quando o atendimento tem início o mais cedo possível,
devendo, portanto, os CAPSi estabelecerem as parcerias necessárias com a rede de
saúde, educação e assistência social ligadas ao cuidado da população infantojuvenil.

As psicoses da infância e da adolescência são condições clínicas para as quais não


se conhece uma causa isolada que possa ser responsabilizada por sua ocorrência.
Apesar disso, a experiência permite indicar algumas situações que favorecem as
possibilidades de melhora, principalmente quando o atendimento iniciou-se com
brevidade, observando-se as seguintes condições.

» O tratamento tem mais probabilidade de sucesso quando a criança ou o


adolescente são mantidos em seu ambiente doméstico e familiar.

» As famílias devem fazer parte integrante do tratamento, quando possível,


pois observa-se maior dificuldade de melhora quando se trata a criança
ou o adolescente isoladamente.

» O tratamento deve ter sempre estratégias e objetivos múltiplos,


preocupando-se com a atenção integral a essas crianças e adolescentes,
o que envolve ações não somente no âmbito da clínica, mas também
ações intersetoriais. É preciso envolver-se com as questões das relações
familiares, afetivas, comunitárias, com a justiça, a educação, a saúde, a
assistência, a moradia etc. A melhoria das condições gerais dos ambientes

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

onde vivem as crianças e os adolescentes tem sido associada a uma


melhor evolução clínica para alguns casos.

» As equipes técnicas devem atuar sempre de forma interdisciplinar,


permitindo um enfoque ampliado dos problemas, recomendando-se
a participação de médicos com experiência no atendimento infantil,
psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos,
assistentes sociais, para formar uma equipe mínima de trabalho. A
experiência de trabalho com famílias também deve fazer parte da
formação da equipe.

» Deve-se ter em mente que no tratamento dessas crianças e adolescentes,


mesmo quando não é possível trabalhar com a hipótese de remissão total
do problema, a obtenção de progressos no nível de desenvolvimento, em
qualquer aspecto de sua vida mental, pode significar melhora importante
nas condições de vida para eles e suas famílias.

» Atividades de inclusão social em geral e escolar em particular devem ser


parte integrante dos projetos terapêuticos.

Em geral, as atividades desenvolvidas no CAPSi são as mesmas oferecidas no


CAPS, como atendimento individual, atendimento grupal, atendimento familiar,
visitas domiciliares, atividades de inserção social, oficinas terapêuticas, atividades
socioculturais e esportivas, atividades externas. Elas devem ser dirigidas para a faixa
etária a quem se destina atender. Assim, por exemplo, as atividades de inserção
social devem privilegiar aquelas relacionadas à escola.

O CAPSi deve trabalhar em parceria com a rede de saúde, educação e de assistência


social.

Para acessar o relatório completo do Ministério da Saúde sobre a Saúde Mental no


SUS, acesse:

<http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/manual_caps.pdf>.

Entre as atividades realizadas pelo CAPS, o Ministério da Saúde (2004) destaca as seguintes.

» Tratamento medicamentoso: tratamento realizado com remédios chamados


medicamentos psicoativos ou psicofármacos.

»  Atendimento a grupo de familiares: reunião de famílias para criar laços de


solidariedade entre elas, discutir problemas em comum, enfrentar as situações
difíceis, receber orientação sobre diagnóstico e sobre sua participação no projeto
terapêutico.

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»  Atendimento individualizado a famílias: atendimentos a uma família ou a membro


de uma família que precise de orientação e acompanhamento em situações
rotineiras ou em momentos críticos.

» Orientação: conversa e assessoramento individual ou em grupo sobre algum tema


especíco, por exemplo, o uso de drogas.

»  Atendimento psicoterápico: encontros individuais ou em grupo em que são


utilizados os conhecimentos e as técnicas da psicoterapia.

»  Atividades comunitárias: atividades que utilizam os recursos da comunidade e que


envolvem pessoas, instituições ou grupos organizados que atuam na comunidade.
Exemplo: festa junina do bairro, feiras, quermesses, campeonatos esportivos,
passeios a parques e cinema, entre outros.

»  Atividades de suporte social: projetos de inserção no trabalho, articulação com os


serviços residenciais terapêuticos, atividades de lazer, encaminhamentos para a
entrada na rede de ensino, para obtenção de documentos e apoio para o exercício
de direitos civis por meio da formação de associações de usuários e/ou familiares.

» Ocinas culturais: atividades constantes que procuram despertar no usuário um


maior interesse pelos espaços de cultura (monumentos, prédios históricos, saraus
musicais, festas anuais etc.) de seu bairro ou cidade, promovendo maior integração
de usuários e familiares com seu lugar de moradia.

»  Visitas domiciliares: atendimento realizado por um prossional do CAPS aos


usuários e/ou familiares em casa.

» Desintoxicação ambulatorial: conjunto de procedimentos destinados ao tratamento


da intoxicação/abstinência decorrente do uso abusivo de álcool e de outras drogas.

O Ministério da Saúde (2004) estabelece que a equipe mínima de prossionais do CAPSi deve ter a
seguinte conguração:

» 1 médico psiquiatra, ou neurologista ou pediatra, com formação em saúde mental;

»  1 enfermeiro;

» 4 prossionais de nível superior entre as seguintes categorias prossionais:


psicólogo, assistente social, enfermeiro, fonoaudiólogo, pedagogo, terapeuta
ocupacional ou outro prossional necessário ao projeto terapêutico;

» 5 prossionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

 Até agora pudemos compreender que os CAPSi fazem parte de uma rede de serviços de saúde mental
que é majoritariamente voltada para a população adulta. Nesta grande rede de atenção, a minoria
dos serviços é voltada ao público infantil e adolescente. Os CAPSi são os únicos centros em toda a
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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

rede que são especializados neste grupo populacional. Isto signica que a rede pública de saúde
mental para crianças e adolescentes ainda precisa ganhar mais espaço e se desenvolver. Dados do
Ministério da Saúde mostram que o governo tem se esforçado para isso. Em 2002, existiam apenas
32 CAPSi em todo o território nacional. Já, em 2010, contabilizaram-se o total de 122. O quadro 1
mostra a distribuição de CAPSi por todo o Brasil, de acordo com a região.

Quadro1: Distribuição de CAPSi por região brasileira

Regiao Quantidade
Norte 3

Nordeste 34

Centro-Oeste 5

Sudeste 53

Sul 27

Total 122

Dados coletados do relatório do Ministério da Saúde (2010b) Saúde Mental em Dados.

Para nalizarmos este tópico sobre o CAPSi, destacaremos três pontos fundamentais que devem
ser sempre levados em consideração na organização da atenção à saúde mental do adolescente
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010):

» adequação dos serviços de saúde às necessidades especícas dos adolescentes,


respeitando as características da atenção local vigente e os recursos humanos e
materiais disponíveis;

» respeito às características socioeconômicas e culturais da comunidade, além do


perl epidemiológico da população local;

» participação ativa dos adolescentes no planejamento, no desenvolvimento, na


divulgação e na avaliação das ações.

Você já se informou se existe algum CAPSi em sua região? Caso não exista, como os
adolescentes estão sendo assistidos na demanda de saúde mental? Caso já exista
um CAPSi na sua região, quais são os serviços e as atividades que ele realiza?

Transtornos mentais na adolescência


Muitos são os problemas associados a adolescência na área da saúde mental. Por exemplo, transtornos
alimentares, agressividade, transtornos de humor, psicose, suicídio, entre vários outros. A seguir,
 vamos abordar, de modo introdutório, os mais frequentes deles. O objetivo deste tópico é listar os
transtornos mentais mais frequentes, posto que eles estão entre os mais recorrentes problemas de
saúde mental encontrados nos CAPSi.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Destaca-se, ainda, que é necessário extremo cuidado ao se realizar um diagnóstico durante


a faixa etária da adolescência. Os adolescentes estão em intensa transformação e são muitas as
possibilidades de transtornos mentais nesta fase da vida. Por isso, os prossionais envolvidos no
processo de diagnóstico devem ser extremamente cautelosos.

Transtorno de humor
Na adolescência, o humor pode sofrer grandes alterações já que o adolescente está lidando com
questões desaadoras sobre sua identidade e autoestima. Muitos adolescentes passam por breves
períodos de tristeza, o que pode fazer parte de um desenvolvimento natural. No entanto, quando os
períodos de tristeza e humor deprimido tornam-se demasiadamente prolongados, ou são alterados
em frequentes “altos e baixos”, pode haver a suspeita de um transtorno do humor (MORRISON-
 VALFRE, 2009).

De acordo com dados da OMS (2012), a depressão, que é um transtorno de humor, está entre os
transtornos mentais mais comuns em todo o mundo. Mais de 350 milhões de pessoas de todas as
idades sofrem de depressão em todo o mundo (OMS, 2012).

Na adolescência, podem aparecer os primeiros sinais de depressão. Entre sinais e sintomas da


depressão na adolescência podem estar: irritabilidade, humor deprimido, perda de interesse nas
atividades sociais, queda no desempenho escolar, excesso de sono ou insônia, perda ou ganho de
peso, diculdade de concentração, entre outros. O tratamento do adolescente com transtorno do
humor deve ser psiquiátrico e psicoterápico. Além disso, a participação da família é importante.

O texto, a seguir,  Depressão na Adolescência  (BALLONE & MOURA, 2008), aborda, com mais
detalhes, a depressão na adolescência.

Durante muitos anos, acreditou-se que os adolescentes, assim como as crianças, não
eram afetadas pela depressão, já que, supostamente, esse grupo etário não tinha
problemas vivenciais. Como se acreditava que a depressão era exclusivamente uma
resposta emocional à problemática existencial, então, quem não tinha problemas
não deveria ter depressão.

Atualmente, sabe-se que os adolescentes são tão susceptíveis à depressão quanto


os adultos, mostrando, assim, que esse transtorno deve ser encarado seriamente
em todas as faixas etárias. A depressão pode interferir de maneira significativa na
vida diária, nas relações sociais e no bem-estar geral do adolescente, podendo até
levar ao suicídio. Quase todas as pessoas, sejam jovens sejam idosas, experimentam
sentimentos temporários de tristeza em algum momento de suas vidas.

Esses sentimentos fazem parte da vida e tendem a desaparecer sem tratamento. Isso
não é depressão, isso é tristesa. Quando falamos de “depressão”, estamos falando de
uma doença com sintomas específicos, com duração e gravidade suficientes para
comprometer seriamente a capacidade de uma pessoa levar uma vida normal.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Não devemos, nem por brincadeira, julgar as pessoas deprimidas como se elas
estivessem ficando loucas, nem tampouco devemos achar que há motivos para o
deprimido se envergonhar.

A depressão é uma doença como tantas outras da medicina, sem motivos para
vergonha e com real necessidade de tratamento, assim como a medicina faz com
asma, gastrite, hipertensão etc. Essa doença afeta pessoas de todas as idades, de
todas as nacionalidades, em todas as fases da vida. Estima-se que cerca de 5% da
população mundial sofra de depressão (incidência) e que cerca de 10% a 25% das
pessoas possam apresentar um episódio depressivo em algum momento de sua
vida (prevalência).

Entre aqueles que já sofreram um Episódio Depressivo, há maior probabilidade


de terem outros episódios depressivos ao longo de suas vidas, embora essa
probabilidade varie muito de pessoa para pessoa.

Muitas pessoas apresentam uma primeira crise de depressão durante a adolescência,


apesar de nem sempre essa crise ser reconhecida. Segundo os especialistas, a
depressão comumente aparece pela primeira vez em pessoas com idade entre 15
anos e 19 anos.

De fato, observou-se nas duas últimas décadas um aumento do número de casos


de depressão com início na adolescência e na infância. Algumas pesquisas também
mostram que cerca de 20% dos estudantes do 2o grau sentem-se profundamente
infelizes ou têm algum tipo de problema emocional. Talvez seja porque o mundo
moderno esteja se tornando cada vez mais complexo, competitivo, exigente, e
muitos adolescentes têm dificuldades para lidar com as necessidades de adaptação
que se deparam diariamente.

De modo geral, os adolescentes deparam-se com várias situações novas e pressões


sociais, favorecendo condições próprias para que apresentem flutuações do humor
e mudanças expressivas no comportamento. Alguns, entretanto, mais sensíveis e
sentimentais, podem desenvolver quadros francamente depressivos com notáveis
sintomas de descontentamento, confusão, solidão, incompreensão e atitudes de
rebeldia. Esse quadro pode indicar depressão, ainda que os sentimentos de tristeza
não sejam os mais evidentes.

Os traços afetivos da personalidade talvez sejam as condições capazes de explicar


a razão pela qual alguns adolescentes se tornam deprimidos enquanto outros não.
Como ocorre com qualquer outra doença, algumas pessoas são mais suscetíveis
que outras, além disso. Embora as tensões da vida cotidiana do adolescente sejam
importantes fatores para o aparecimento da depressão muitos jovens passam por
acontecimentos desagradáveis sem desenvolver depressão. A tristeza, comum nos
momentos de reflexão da adolescência, é uma experiência normal que geralmente
não progride para depressão se a pessoa não tiver outros requisitos emocionais
propícios ao desenvolvimento do transtorno afetivo.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Sintomas:

O adolescente possui tendência natural para comunicar-se por meio da ação, em


detrimento da palavra. Por isso, na busca de uma solução para seus conflitos, os
 jovens podem recorrer às drogas, ao álcool ou à sexualidade precoce ou promíscua.
Tudo isso na tentativa de aliviar a angústia ou reencontrar a harmonia perdida.
Angustiados e confusos, podem adotar comportamentos agressivos e destrutivos
contra a sociedade. Por isso, tem sido comum observarmos o adolescente manifestar
sua depressão por meio de uma série de atos antissociais, distúrbios de conduta e
comportamentos hostis e agressivos.

Entre adolescentes a depressão também pode ser “mascarada” por problemas físicos
e queixas somáticas que parecem não ter relação com as emoções. Esses problemas
podem incluir alterações de apetite ou distúrbios de alimentação, tais como
anorexia nervosa ou bulimia. Alguns adolescentes deprimidos podem se sentir
extremamente cansados e sonolentos, o tempo todo, e exaustos mesmo depois de
terem dormido por várias horas.

Embora a depressão atípica seja a norma entre crianças e adolescentes, a depressão


franca ou típica também pode ser comum. O jovem deprimido confia pouco em
si mesmo, tem autoestima baixa, experimenta alterações no apetite e no sono, se
autoacusa e tem lentidão dos pensamentos. A baixa autoestima faz com que veja
a si mesmo como sem valor, feio, desinteressante e cheio de falhas pessoais. Esses
sentimentos angustiantes e depressivos levam, invariavelmente, a prejuízo na saúde,
na escola, no relacionamento familiar e social.

Durante um episódio depressivo o jovem costuma sentir-se inquieto ou irritado,


isolar-se de amigos ou familiares, ter dificuldade de se concentrar nas tarefas,
perder o interesse ou o prazer em atividades que antes gostava de realizar, sentir-
se desesperançado e ter sentimentos de culpa e perda do prazer em viver. Pode
também ter alterações do sono, por exemplo, ir dormir mais tarde do que costumava
fazer, acordar cedo demais, ter sonolência durante o dia; e do apetite, que o leva a
ganhar ou a perder peso.

Muitas vezes, o adolescente deprimido pode tentar suicídio. Faz isso de forma
franca ou velada. De forma velada age de maneira inconsciente, envolvendo-se em
atitudes completamente imprudentes, acidentes automobilísticos, uso progressivo
de drogas e álcool, ingestão de comprimidos perigosos, uso de armas de fogo etc.

Os principais sinais de advertência para o risco de transtorno do humor em


adolescentes que, eventualmente, pode resultar em suicídio são: mudanças
acentuadas na personalidade e na aparência; alterações nos padrões de sono e nos
padrões alimentares; prejuízo no rendimento escolar; falar sobre morte ou suicídio;
provocar ferimentos em si próprio; pânico ou ansiedade crônicos; distribuir objetos
pessoais.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Transtorno de ansiedade
Os transtornos de ansiedade na adolescência podem incluir fobias, transtorno obsessivo-compulsivo,
síndrome do pânico e estresse pós-traumático. Muitos destes transtornos incluem sintomas
psicológicos juntamente com sintomas físicos. A ansiedade também pode estar associada a outros
transtornos mentais, tais como depressão e uso de substâncias psicoativas. É necessário realizar o
tratamento para ansiedade o mais cedo possível, pois quanto mais tempo demorar para iniciar o
tratamento, mais difícil será regredir o quadro. O tratamento deve ser psicoterápico e pode incluir
atendimento psiquiátrico também. A participação da família durante o processo de tratamento é
importante.

De acordo com a Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência (2008), é comum


os adolescentes experienciarem ansiedade. Trata-se de uma emoção importante e natural. Porém, às
 vezes a ansiedade se torna uma resposta exagerada e não saudável. Assim, para alguns adolescentes
a ansiedade se transforma em um transtorno crônico e interfere na sua capacidade de realizar suas
atividades sociais e escolares.

Na adolescência, os transtornos de ansiedade geralmente incluem sintomas como: medo e


preocupação excessivos, sensação de inquietação e tendência a vigilância. Mesmo com a ausência
de ameaças reais, muitos adolescentes descrevem intensa sensação de nervosismo, estresse e medo
de perder o controle. Nestas ocasiões os adolescentes podem demonstrar extrema dependência,
isolamento e fragilidade emocional. Geralmente, os sintomas dos transtornos ansiosos estão
acompanhados de sintomas físicos, tais como: tensões musculares, dores de estômago, taquicardia,
dores de cabeça, fadiga, suor excessivo, tremores, falta de ar, entre outros.

O transtorno do pânico é um transtorno de ansiedade comum em adolescentes. Normalmente, esse


transtorno surge na adolescência entre as idades de 15 anos e 19 anos. Sensações de intenso pânico
podem surgir sem uma causa denida ou pode ser desencadeados por situações especícas. Faz
parte deste transtorno episódios denominados ataques de pânicos, nos quais um episódio abrupto
de ansiedade severa surge acompanhado de sintomas emocionais e físicos. Ataques de pânico
constantes e imprevisíveis geram medo no adolescente de car sozinho ou de ir a lugares públicos.
 Além disso, um ataque de pânico normalmente é seguido por um medo de se ter outro ataque (OMS/
CID-10, 1993).

 A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência (2008) recomenda que se o


adolescente está disposto a falar sobre seus medos e ansiedades, cabe ao adulto escutar cuidadosa
e respeitosamente. O adulto deve confortar o adolescente assegurando-o que ele será capaz de lidar
com tais sentimentos, pois com o tempo irá aprender a lidar com o estresse e a ansiedade de modo
mais ecaz. Caso o medo comece a assumir controle sobre a vida do adolescente, e comece, então,
a limitar suas atividades, ou se a ansiedade dura mais de seis meses, o adulto deve procurar ajuda
prossional. O tratamento requer a combinação de diferentes intervenções, tais como sessões de
psicoterapia e tratamento medicamentoso.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Transtorno de conduta
Comuns na adolescência, os transtornos de conduta são caracterizados por comportamentos
agressivos em relação a outras pessoas e conduta constantemente desaadora em relação às
autoridades. Destaca-se que o transtorno de conduta não está associado àquela natural tendência
adolescente de desaar os pais e de testar seus limites com desobediência. O transtorno de conduta
não é um comportamento natural e inclui ações de crueldade, violação de direi tos, brigas frequentes,
desao à normas sociais, desobediência recorrente, podendo incluir roubos e outras atividades
ilegais (MORRISON-VALFRE, 2009).

De acordo com Bordin & Offord (2000), comportamentos como mentir ou matar aula podem
ser observados em adolescentes saudáveis. Para diagnosticar um transtorno de conduta, é
necessário”vericar se esses comportamentos ocorrem esporadicamente e de modo isolado ou
se constituem síndromes, representando um desvio do padrão de comportamento esperado para
pessoas da mesma idade e sexo em determinada cultura” (BORDIN & OFFORD, 2000, p.12).

 A OMS (CID-10, 1993) estabelece que nos transtornos de conduta existem um padrão repetitivo
e persistente de comportamentos agressivos, antissociais e desaadores. Os casos mais extremos
incluem violações graves e não apropriadas à idade do indivíduo. Por isso, travessuras infantis e
rebeldias adolescentes não são transtornos de condutas e devem ser considerados parte normal do
desenvolvimento. Do mesmo modo, atos criminosos isolados também não podem ser considerados
transtornos de conduta já que não inclui um padrão persistente de comportamento.

O tratamento para o transtorno de conduta deve focar, primeiramente, em estabilizar o ambiente


familiar, melhorando a qualidade das interações entre os membros familiares. Entre as formas de
tratamento destacam-se a psicoterapia individual para o adolescente e a psicoterapia de família. O
tratamento psicofármaco também pode ajudar (MORRISON-VALFRE, 2009).

Transtorno alimentar
 A alimentação do adolescente pode incluir modismos ou reetir as preferências do grupo o qual
este faz parte. Se a saúde do adolescente não está de algum modo em risco, pode não ser o caso para
preocupações. Transtornos alimentares são caracterizados por severos distúrbios no comportamento
alimentar, resultando em severo prejuízo à saúde (MORRISON-VALFRE, 2009).

Os transtornos alimentares mais comuns na adolescência são a Anorexia e a Bulimia. O primeiro


deles está associado a recusa de se alimentar para manter o peso corporal mínimo. É caracterizado
por um intenso temor de ganhar peso e uma persistente busca para emagrecer. A anorexia pode
aparecer em adolescentes muito novos, a partir de 12 anos ou até mesmo antes (MORRISON-
 VALFRE, 2009).

Já a bulimia envolve um ciclo de alimentação compulsiva seguida de comportamentos não saudáveis


para perder peso (MORRISON-VALFRE, 2009). Por exemplo, o adolescente apresenta episódios
em que consome grandes quantidades de comida e podendo chegar a consumir em uma única

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

refeição entre 5 mil a 20 mil calorias. Em seguida, os sentimentos de intensa culpa ou depressão
levam a tentativas não saudáveis de perda de peso. Assim, o adolescente pode recorrer a laxativos,
diuréticos, remédios para emagrecer, uso de drogas ilícitas, autoindução de vômito, entre outros.
No geral, esse transtorno surge por volta dos 17 anos, mas assim como a anorexia, sua incidência
diminui drasticamente depois dos 30 anos de idade (MORRISON-VALFRE, 2009).

Todos os transtornos alimentares têm incidência maior a partir da adolescência. Como já dissemos
antes, os adolescentes estão passando por intensas tranformações no corpo ao mesmo tempo
que estão em busca da formação da identidade e autoimagem. Estes fatores podem contribuir
consideravelmente para o desenvolvimento do transtorno alimentar nesta fase.

O tratamento deve envolver uma equipe multidisciplinar, tal como psiquiatra, psicólogo e
nutricionista. E o envolvimento da família no tratamento é fundamental.

O texto, a seguir, foi publicado no site <drauziovarella.com.br> e reproduz a entrevista que o Dr.


Drauzio Varella fez com o médico psiquiatra da USP, Dr. Táki Cordás. A entrevista aborda a temática
dos transtornos alimentares.

Drauzio – Estamos vivendo uma epidemia de anorexia nervosa ou esses casos


sempre existiram, mas não eram diagnosticados?

Táki Cordás – É muito antigo o registro de histórias de pessoas com bulimia e anorexia
nervosas. Sabe-se que, desde a Antiguidade, algumas faziam jejum ou vomitavam
várias vezes por dia para emagrecer ou manter o peso que julgavam ideal. Na Idade
Média, santas e beatas da Igreja Católica tinham um padrão de conduta bastante
semelhante ao das anoréxicas de hoje. Mudavam apenas os fatores desencadeantes
do processo. São clássicos os casos de Santa Catarina de Sena ou de Santa Maria
Madalena que faziam jejum, vomitavam e usavam ervas purgantes. Tratava-se de um
 jejum beatífico que tinha como propósito maior aproximação com Deus. Não resta
dúvida de que essa tendência assumiu características assustadoras de 1950/1960
para cá. A pressão pela magreza absoluta aumentou o número de portadores dessas
patologias. Cada vez mais gente, que não apresenta motivo algum para fazer dieta,
restringe a alimentação de forma drástica. No Brasil, a situação agrava-se porque,
infelizmente, é fácil obter moderadores de apetite ou hormônios tiroidianos.

Drauzio –Normalmente, quanto tempo leva um quadro desses para chegar à


caquexia, isto é, a esse grau extremo de fraqueza e desnutrição?

Táki Cordás – Às vezes, é muito rápido, tão rápido que as famílias nem percebem
o que está acontecendo, uma vez que as filhas costumam disfarçar a magreza
exagerada vestindo roupas largas e uma peça sobre a outra. Além disso, passam
mais tempo fora de casa e, quando voltam, dão a desculpa de que não querem
comer, pois já jantaram ou almoçaram em outro lugar. Os familiares, em geral, só
descobrem o que está acontecendo meses depois que o problema está instalado,
porque alguém por acaso surpreende a moça trocando de roupa e vê quão
esquelética ela se encontra. Recordo de uma certa mocinha que foi a um programa

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

de televisão à procura de um médico, porque ninguém conseguia diagnosticar seu


caso. Levada de ambulância, deu entrada no Hospital Clínicas pesando 19 kg. Era
uma aula ambulante de anatomia óssea.

Drauzio – Esses quadros podem vir associados a outros quadros psiquiátricos


como a cleptomania, por exemplo?

Táki Cordás  – Exato. Sempre brinco com os residentes ou estagiários que, para
tratar de pessoas com distúrbio alimentar, é preciso conhecer a psiquiatria inteira
porque é frequente a associação dessa patologia à depressão, à síndrome do pânico,
aos comportamentos obsessivo-compulsivos, à cleptomania, à automutilação, à
promiscuidade sexual, ao alcoolismo e ao abuso de drogas. É raro encontrar um
quadro isolado e todas as manifestações da doença precisam ser tratadas. Há uma
foto da princesa da Suécia que andou circulando na imprensa e causou reboliço por
causa de seu estado de absoluta magreza.

Drauzio – Você sempre usa o sujeito no feminino. Esse tipo de problema


acontece também com os homens?

Táki Cordás – Acontece, mas é raro. Em torno de 90% a 95% dos casos ocorrem
com mulheres. No Ambulim, serviço que mantemos no Hospital das Clínicas e que
completou 10 anos em 2002, mais de 700 pessoas já foram atendidas e posso garantir
que o número de homens não chega a dez. Nos Estados Unidos, parece que esse
número se situa entre 10% e15%, mas sabe-se que, nas clínicas privadas, o número
de crianças e adolescentes tem crescido bastante ultimamente. Entretanto, pode-
se dizer que a ideia de emagrecer, de ficar com o corpo “sarado” e a musculatura
abdominal pronunciada está se tornando relevante para os homens. Bulímicos já
existem vários e os ex-atletas representam uma população de risco importante.
Muitos param de praticar esportes, ganham peso e começam a vomitar ou a recorrer
ao uso de laxantes e moderadores de apetite para não engordar mais.

Drauzio – Algum tipo de profissão aumenta o risco de anorexia?

Táki Cordás – As modelos, seguidas das bailarinas, ganham disparado. Uma pesquisa
feita na Argentina demonstrou que o índice de bulimia e anorexia nervosas alcançava
50% das profissionais que dançavam no Teatro Colón de Buenos Aires. Outro grupo
de risco são os jóqueis porque 100 gramas de diferença no peso pode representar
um handicap importante numa corrida. Os atletas olímpicos constituem outro grupo.
Não será de estranhar se, na próxima Olimpíada, houver notícias sobre a morte de
atletas que tomaram anabolizantes ou emagreceram demais. Correm risco, ainda, as
estudantes de medicina, psicologia e nutrição.

Drauzio – Em que faixa etária há a prevalência dessas patologias aumentar?

Táki Cordás  – A faixa etária da prevalência da anorexia está baixando. Tenho


encontrado meninas de 9 anos ou 10 anos com o problema, o que era raro acontecer

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

no passado. Na maioria, porém, os casos de anorexia nervosa despontam na


adolescência e os de bulimia, em mulheres entre 20 anos e 30 anos.

Drauzio – Como fazer para que as pessoas controlem o peso sem cair nesses
casos extremos?

Táki Cordás – Infelizmente, todos os trabalhos realizados no sentido de prevenir o


problema falharam. Há várias razões para isso. Por exemplo, esta entrevista alertando
sobre os problemas que essas doenças acarretam é uma gota d’ água no oceano
da propaganda que defende interesses comerciais milionários, associando seus
produtos a ideais de magreza e sedução. Estudos realizados nos Estados Unidos
demonstraram que palestras sobre anorexia nervosa e bulimia proferidas nas
escolas não ajudaram a diminuir a incidência dessas patologias entre os estudantes.
Talvez adiantasse um programa permanente de orientação para pais e crianças, mas
até o momento não se sabe o que realmente traria resultado satisfatório em termos
de prevenção.

Depois de ler a entrevista realizada pelo Dr. Drauzio Varella, reflita um pouco sobre a
relação da mídia com os transtornos alimentares. Muitas pessoas acreditam que a mídia
exerce grande influência sobre os adolescentes, pois ela tem um papel importante
na formação e na informação dessas pessoas em desenvolvimento. Porém, alguns
argumentam que a mídia explora uma “ditadura da magreza” e isso pode influenciar
negativamente os adolescentes. Qual é a sua opinião sobre este assunto?

Transtornos do uso de substância psicoativa


Faz parte da adolescência a experimentação do novo e as descobertas. A maioria dos adolescentes
 já experimentou álcool e outras drogas, sem que tenham desenvolvido algum comportamento de
dependência ou de abuso. No entanto, os dados do Ministério da Saúde (2005) apontam para um
aumento da ocorrência do uso de substâncias psicoativas entre os adolescentes.

De acordo com dados do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID),
o álcool é a substância psicoativa mais consumida por estudantes de primeiro e segundo graus
nas capitais do país. Cerca de 75,9% dos adolescentes consomem álcool. As outras substâncias
psicoativas tiveram as seguintes estatísticas nesta população: tabaco (32,8%), solventes (13,8%),
maconha (7,6%), ansiolíticos (5,8%), anfetamínicos(4,4%), cocaína (2%), alucinógenos (0,8%).

Entre os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, a dependência química é a


mais grave. Neste estado, a pessoa desenvolve intensa dependência física e psicológica em relação
à droga. A intensa necessidade de ter a droga faz com que a pessoa se coloque em situações de risco
ou situações ilegais.

 Adolescentes que foram abusados durante a infância ou que possuam familiares com histórico de
dependência química têm mais probabilidade de desenvolver o transtorno (MORRISON-VALFRE,
2009).

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Para um número crescente de adolescentes, o uso de substâncias psicoativas está tornando-se uma
maneira de lidar com as diculdades da vida, ou um mecanismo para aliviar o sofrimento. Por
isso, o foco do tratamento deve ser em ajudar os adolescentes a substituir o uso de drogas por uma
maneira mais efetiva de lidar com seus problemas do dia a dia. (MORRISON-VALFRE, 2009).

O tratamento deve ser psiquiátrico e psicoterápico. Muitos dos tratamentos focam no modelo e nos
princípios dos Alcoólicos Anônimos (A.A.). Dependendo do grau de dependência química, pode
ser recomendado o regime de internação. A participação da família durante todo o processo de
tratamento do adolescente é fundamental.

O abuso de álcool e drogas é um problema complexo e afeta todos os aspectos da vida do


adolescente. Poucos adolescentes buscam tratamento por conta própria e as terapias de tratamento
para dependência química variam em sua ecácia. A prevenção e o reconhecimento precoce do
problema continuam sendo as ferramentas mais ecazes para lidar com adolescentes que fazem uso
de drogas (MORRISON-VALFRE, 2009). E o papel da família no processo de prevenção e diálogo é
absolutamente crucial.

Leia a seguir o texto sobre o abuso de drogas entre adolescentes, elaborado pela
UNICEF (2011).

Fonte: <http://www.unicef.org/brazil/pt/br_sabrep11.pdf>.

O uso e o abuso de drogas criam situações de risco pessoal e coletivo. Pessoas que
usam drogas, ainda que eventualmente, estão mais propensas a se envolver em
episódios de violência, como brigas e acidentes de trânsito, a fazer sexo de forma
desprotegida e a se expor, portanto, a doenças como a hepatite e a aids, a acidentes no
trabalho e até mesmo ao abuso sexual. O uso de maneira constante representa esses
e outros riscos, como o comprometimento da saúde física e psíquica, a degradação
de relações familiares e comunitárias, o desemprego. Por isso, o consumo de drogas
por adolescentes é um fator de vulnerabilidade que merece atenção.

O Relatório Brasileiro sobre Drogas, publicado em 2010, com resultados de


levantamentos conduzidos pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad)
em 2001 e 2005, mostra que, em 2005, 54,2% dos brasileiros entre 12 e 17 anos de 108
cidades com mais de 200 mil habitantes do Brasil afirmaram ter feito uso de álcool;
e, em 15,2% havia prevalência de uso de tabaco, pelo menos uma vez na vida. Em
relação às drogas ilícitas, na mesma faixa etária, 4,1% afirmaram ter usado maconha;
3,4%, solventes; e 0,5%, cocaína, pelo menos uma vez na vida. São números inferiores
aos obtidos para a população brasileira de forma geral, mas mesmo assim preocupam,
uma vez que o uso de drogas na adolescência, apontam os especialistas, é a principal
porta de entrada para o uso e abuso de drogas na vida adulta.

Os maiores usuários são os adolescentes homens: em 2005, 52,8% já haviam feito uso
de álcool. Mas o estudo aponta que há tendência de aumento do consumo entre as
adolescentes mulheres. Entre 2001 e 2005, a proporção de meninas que afirmaram

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

ter usado álcool pelo menos uma vez na vida passou de 44,7% para 50,8%. Outro
ponto preocupante é que crescem também os índices de dependência do álcool
entre os adolescentes, tanto entre os meninos quanto entre as meninas.

Enquanto o consumo de álcool aumentou, principalmente entre as meninas, o uso


de tabaco, de acordo com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, não sofreu
alterações significativas entre os meninos e teve queda entre as meninas no período
de 2001 a 2005 (de 16,2% para 11,3%). No que diz respeito à dependência, houve um
pequeno aumento – de 2,2% para 3,2% – entre os adolescentes de sexo masculino.

Os estudos da Senad mostram ainda dados sobre o uso de drogas ilícitas, como
a maconha e os esteroides, indicando, entre os adolescentes, certa tendência de
aumento no uso, por exemplo, de maconha e de drogas alucinógenas (0,3% para
0,7%, entre 2001 e 2005). Além do uso em si, isso representa risco de envolvimento
dos adolescentes em redes de tráfico de drogas.

A Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE) também ajuda a ampliar o


conhecimento sobre o uso de drogas entre os adolescentes e indica o aumento
do uso de drogas, à medida que crescem os adolescentes. Em sua edição de 2009,
a PeNSE mostrou que 12,7% dos alunos de 10 anos a 12 anos de idade já fizeram
algum uso de drogas na vida. O percentual sobe para 23,1% entre os estudantes de
13 anos a 15 anos e para 29,2% entre os de 16 anos a 18 anos.

Outra pesquisa, realizada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em


2011, revelou que o crack   e outras drogas estão presentes em 98% das cidades
brasileiras, uma demonstração clara de que as drogas não são mais um problema
relacionado somente aos grandes centros urbanos, mas uma realidade na quase
totalidade dos municípios do País.

Sobre o uso e o abuso de drogas por adolescentes no Brasil, relatório do Conselho


Econômico e Social das Nações Unidas, publicado em 1999, analisava, entre outros
fatores, pesquisas sobre a mídia e alertava que “adolescentes e jovens estão sendo
expostos a uma cultura que parece ser cada vez mais tolerante com o uso de drogas”.

A análise aplica-se bem à situação que vemos hoje no Brasil. Os dados de diferentes
estudos apontam uma tendência de aumento do uso, da dependência e indicam
facilidade de acesso (seja nas ruas, seja nas escolas, seja nas festas) e tolerância,
pelos adultos e pelos próprios meninos e meninas, com as drogas.

Em 2010, a Presidência da República publicou a cartilha Drogas: cartilha para pais de


adolescentes. Essa cartilha teve como objetivo informar e orientar os familiares dos
adolescentes sobre a temática do uso de drogas. O objetivo desta cartilha foi incluir
a ação dos pais na prevenção dos filhos fazerem uso de drogas.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

Assim, publicação dessa cartilha foi uma ação do governo visando a agir em conjunto
com a comunidade. Relembrando o art. 3 o do ECA: “é dever da família, da comunidade
e do poder público assegurar os direitos da criança e do adolescente”, ou seja, deve-
se sempre prezar as ações em conjunto do poder público e da sociedade no cuidado
e na proteção do adolescente.

Seguem algumas das orientações aos pais dos adolescentes enfatizados nessa
cartilha.

» Ao abordar o assunto do uso de drogas com os filhos, os pais devem


prestar especial cuidado ao tom da conversa. Os pais devem manter a
calma e buscar uma conversa franca e honesta. Deve-se evitar expressar
raiva e não se deve humilhar, rotular ou usar sarcasmo. Essas atitudes
podem ferir de modo profundo a autoestima do adolescentes e afastá-lo.

» Ainda durante a conversa, os pais devem convidar os filhos a reflexão.


Assim, os pais podem compartilhar suas preocupações, razões e
sentimentos e abrir espaço para a continuação da conversa no futuro. Por
exemplo: “Você quer pensar nisso que eu te falei e conversar mais tarde?”
ou “Depois a gente conversa de novo sobre isso porque eu gostaria muito
de saber a sua opinião”. Deste modo, o canal para comunicação e diálogo
é aberto e o adolescente pode estar mais disposto a compartilhar o que
sente.

» Sobre o conteúdo das conversas, os pais não devem evitar o discurso


de “más companhias” ou “turminha da pesada”. Os pais devem buscar
ser mais compreensivos com as amizades de seus filhos ao invés de
imediatamente proibir o filho de sair com seus amigos. Isso significa que
os pais devem, antes de julgar e criticar, buscar conhecer melhor aquele
outro adolescente. Mas se depois disso, os pais ainda tiverem razões para
críticas, eles devem expressar claramente aos filhos o desagrado com a
amizade e suas razões, oferecendo exemplos coerentes. Por fim, os pais
podem negociar com os filhos alguns limites na convivência com as
amizades específicas.

» Muitos pais acreditam que os adolescentes recorrem a drogas porque isso


é “coisa de quem não tem o que fazer”. Por outro lado, subrecarregar o
adolescente de atividades extracurriculares pode não ser uma boa opção.
As atividades extracurriculares do adolescente devem ser escolhidas de
acordo com seus interesses. Além disso, cabe também entender que o
adolescente pode ter tempo livre para ver TV, ficar na internet  e telefonar
para os amigos.

» Quando os pais abrem um canal de comunicação e de diálogo franco


com os filhos, é possível transmitir seus valores adiante e ensinar bons
exemplos.

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Sugestão de filmes que abordam a temática do uso de álcool e outras drogas:

» 28 dias (EUA, 2000). Direção Betty Thomas.

» Ray (EUA, 2004). Direção Taylor Hackford.

» Réquiem para um sonho (EUA, 2000). Direção Darren Aronofsky.

» Meu nome não é Johny. (Brasil, 2008). Direção Mauro Lima.

» Despedida em Las Vegas. (EUA, 1995). Direção Mike Figgis.

» Trainspotting – Sem limites. (Reino Unido, 1996). Direção Danny Boyle.

Transtornos psicóticos
É durante a adolescência que muitos transtornos psicóticos apresentam seus primeiros sinais. Os
transtornos psicóticos são extremamente graves e quanto antes forem identicados e iniciados os
tratamentos, mais chances terá o adolescente de levar uma vida com qualidade. Os transtornos
psicóticos, quando não tratados, podem se cronicar, o que prejudica enormemente a vida do
sujeito. (MORRISON-VALFRE, 2009).

 A esquizofrenia é um dos transtornos mentais mais graves que existem. Não existe cura para esse
transtorno, é uma doença crônica, deteriorante, sendo o seu tratamento baseado no controle de seus
sintomas. Entre os sintomas da esquizofrenia estão: perda de contato com a realidade, distorção e
desorganização do pensamento, alucinações, delírios, pensamentos paranoicos, afeto inadequado,
falta de pensamento crítico e comportamentos bizarros, ritualísticos e repetitivos.

 A adolescência, por se tratar de um período naturalmente repleto de instabilidades e transformações,


pode, muitas vezes, deixar passar despercebidos os primeiros sintomas do transtorno psicótico.
Segundo Machado (2009), a família deve estar atenta aos primeiros sinais da esquizofrenia na
adolescência, tais quais: deteriorização na aparência, falta de persistência na escola, desinteresse
por atividades recreativas que lhe proporcionava prazer, retraimento social, comportamento
estereotipado, agitação, comportamento agressivo e falta de cuidado com a higiene pessoal. À medida
que o transtorno proguide, o adolescente terá cada vez mais diculdade para interagir ao seu redor,
manter suas atividades rotineiras, acompanhar as atividades escolares e manter relacionamento
interpessoais.

Infelizmente, a esquizofrenia na adolescência apresenta o pior prognóstico (MACHADO, 2009).


Isto signica que quando a esquizofrenia se inicia na adolescência, e não na fase adulta, o
desenvolvimento da doença e suas chances de melhoras são piores.

Inevitavelmente, o tratamento para os transtornos psicóticos devem incluir medicamentos


psiquiátricos em combinação com estratégias psicossociais. Destacam-se as terapias ocupacionais e
intensa orientação familiar. Além disso, hospitais-dias e internações pontuais podem ser necessárias .
 A participação da família é muito importante durante todo o processo de tratamento.

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Sugestão de filmes que abordam o tema da Saúde Mental:

» Garota, Interrompida. (EUA, 1999). Direção James Mangold.

» Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2001). Direção Laís Bodanzky.

» Um Estranho no Ninho (EUA, 1975). Direção Milos Forman.

» Veronika Decide Morrer (EUA, 1009). Direção Emily Young.

» Ilha do Medo (EUA, 2010). Direção Martin Scorsese.

Questões atuais na adolescência


Cabe, ainda, abordar algumas questões fundamentais e atuais da adolescência. Primeiramente,
duas problemáticas graves e recorrentes no mundo adolescente: o suicídio e a gravidez. Em seguida,
e nalmente, discutiremos sobre o importante papel da família na vida dos adolescentes.

Suicídio
De acordo com dados da OMS, o suicídio está entre as três maiores causas de morte entre pessoas
com idade entre 15 anos a 35 anos. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil apresenta uma taxa
de mortalidade por suicídios baixa quando comparada a outros países. No entanto, alguns estados
e municípios brasileiros apresentam taxas duas vezes superiors à média nacional. Além disso, as
taxas de suicídio vem aumentando entre os adolescentes brasileiros.

Durante a adolescência ideações suicidas podem surgir, especialmente quando manifestados


 juntamente a algum transtorno mental. A tentativa de suicídio de um adolescente é um pedido
por ajuda (MORRISON-VALFRE, 2009). Fatores que podem contribuir para um comportamento
suicida na adolescência são: perda recente, perda de guras parentais na infância, história de abuso
ou negligência, instabilidade familiar, depressão, entre outros.

Segundo a OMS, suicídio e comportamento suicida são mais frequentes em pacientes psiquiátricos.
Entre os grupos diagnósticos, os transtornos mentais com mais ocorrências de suicídio são:
depressão, transtornos de personalidade, alcoolismo, abuso de substâncias e esquizofrenia.

Cabe ressaltar que muitos adolescentes, mesmo que sem ideação suicida ou qualquer transtorno,
apresentem comportamentos impulsivos. Este fato torna a população adolescente ainda mais
 vulnerável a este tipo de comportamento.

Você sabia que apesar da America Latina apresentar uma das menores taxas de
suicídio do mundo, entre os grupos indígenas da região, encontram-se os maiores
índices de suicídio? E, ainda, de acordo com a UNICEF, os números de suicídios entre
adolescentes indígenas é um dos mais altos?

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 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

Gravidez na adolescência
 A gravidez na adolescência é uma temática séria e que afeta a realidade da população adolescente
 brasileira. O maior caso de incidências é em meninas de classes mais baixas da população, no
entanto, também há ocorrências em adolescentes de classes altas.

Segundo Santos & Nogueira (2009), atualmente, com a liberação sexual e a grande oferta de
contraceptivos , os relacionamentos sexuais estão iniciando-se mais cedo. A sociedade tem
demonstrado mais aceitação em relação à sexualidade dos adolescentes e as famílias estão mais
abertas a assumir que os adolescentes também têm direito a sexualidade. Por outro lado, o excesso
de informação e liberdade também tem levado a banalização do sexo e a falta de limites. Estes
podem ser considerados fatores contribuintes ao aumento da gravidez entre adolescentes.

 Alguns estudos indicaram que muitas adolescentes buscam com a gravidez se identicar com
a imagem de uma mulher independente, madura e com um futuro melhor. Essa idealização de
liberdade é contraditória com o que acaba acontecendo com a maioria das adolescentes ao
engravidarem. A maioria delas se frustam com o companheiro e cam mais dependentes ainda de
seus pais (SANTOS & NOGUEIRA, 2009). O desejo de chegar logo à maturidade e ndar essa fase
de muitas transformações da adolescência é um aspecto que pode, juntamente com a impulsividade
e a baixa autoestima, contribuir para a gravidez adolescente.

 Ainda outro aspecto a se considerar é o afastamento dos membros da família e a falta de diálogo
com o adolescente. Muitas famílias não estão sucientemente estruturadas e próximas de seus
lhos. Assim, o adolescente ganha uma liberdade sem responsabilidades, passando a procurar os
responsáveis apenas quando o problema já se intalou (SANTOS & NOGUEIRA, 2009).

Os principais motivos pelos quais as adolescentes engravidam são: falta de informação sobre os
métodos contraceptivos, objeção ao uso de preservativos pelo parceiro e pens ar que não engravidam.
Muitas adolescentes não utilizam a contracepção de modo efetivo, posto a natural imaturidade e
falta de consideração com as consequências de seus comportamentos sexuais. Deste modo, muito
comumente se colocam em situação de risco e geram a gravidez precoce. (SANTOS & NOGUEIRA,
2009).

 A gravidez na adolescência, portanto, é o resultado de multifatores. Por isso, criar espaços de


diálogo entre adolescentes, professores, prossionais de saúde, pais, responsáveis e comunidade
é, comprovadamente, um importante instrumento para construir uma resposta social com vistas
à superação das relações de vulnerabilidade às DSTs, à infecção pelo HIV e à Aids, assim como à
gravidez precoce e não planejada” (SANTOS & NOGUEIRA, 2009, p.54).

 As ações do governo, neste sentido, são fundamentais, especialmente quando intervindo no ambiente
escolar, onde o adolescente passa grande parte de seu tempo. O Ministério da Saúde realiza várias
ações para reduzir os altos índices de gravidez na adolescência. Algumas das ações são as seguintes.

» Implantação de políticas de direitos sexuais e direitos reprodutivos.

» Políticas em relação ao planejamento familiar incluindo adolescentes e jovens.

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UNIDADE ÚNICA │ SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE

» Distribuição da caderneta do adolescente.

» Disponibilização de métodos contraceptivos, inclusive a contracepção de emergência


na atenção primária. Aquisição de 1 bilhão de preservativos no ano de 2008, sendo
100 milhões, de 49mm, para adolescentes.

» Projeto de Saúde e Prevenção nas Escolas em parceria com o Ministério da Educação.

» Produção de 400 máquinas dispensadoras de preservativos para as escolas que


desenvolvem ações educativas em saúde sexual e saúde reprodutiva.

» 9,2 mil escolas trabalham o tema DST/Aids e disponibilizam preservativos.

» Produção de materiais educativos para prossionais de saúde e educação sobre


sexualidade dos adolescentes.

» Programa Saúde na Escola.

 A seguir um texto da UNICEF (2011) sobre o tema:

A gravidez é outra situação de vulnerabilidade com impactos profundos na vida dos


adolescentes: em sua saúde, no seu desempenho escolar, nas suas oportunidades
de formação para o trabalho. Como a pobreza, a baixa escolaridade e a entrada
precoce e precária no mercado de trabalho, a gravidez na adolescência é um dos
mais importantes fatores para a perpetuação de ciclos intergeracionais de pobreza
e exclusão.

E essas vulnerabilidades se sobrepõem. Vejamos, por exemplo, o impacto da


gravidez na adolescência no direito à educação das meninas. Estudos do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que, no Brasil, entre as meninas
com idade entre 10 anos e 17 anos sem filhos, 6,1% não estudavam, no ano de 2008.
Na mesma faixa etária, entre as adolescentes que tinham filhos, essa proporção
chegava a impressionantes 75,7%. Entre essas mesmas meninas que já eram mães,
57,8% delas não estudavam nem trabalhavam.

No Brasil, 2,8% das meninas entre 12 anos e 17 anos já tiveram filhos, segundo
dados do Sistema Nacional de Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. Isso
significa um contingente de nada menos do que 290 mil adolescentes. A taxa vem
apresentando queda nos últimos anos. Em 2004, esse índice estava em 3,1%.

A queda dá-se porque o número de nascidos vivos de mães de 15 anos a 17 anos vem
caindo, ano a ano (de 2000 a 2009, o número de partos de adolescentes diminuiu
34,6%, segundo dados do Ministério da Saúde). Porém, entre as meninas de até 15
anos, conforme demonstram os dados do Sinasc, a tendência é oposta: a taxa de
fecundidade vem crescendo nos últimos anos. Em 2004, eram 8,6 nascidos vivos
por grupo de mil. Cinco anos mais tarde, a taxa verificada foi de 9,6 por mil  vale

44
 SAÚDE MENTAL DO ADOLESCENTE │ UNIDADE ÚNICA 

lembrar aqui que, pela legislação brasileira em vigência, as relações sexuais antes
dos 14 anos são classificadas como estupro de vulnerável.

Vulneráveis entre as vulneráveis, nesse grupo de meninas com idade até 15 anos,
apenas 38% delas tiveram pelo menos sete consultas pré-natais. Quando se analisa
o grupo etário completo das adolescentes – de 12 anos a 17 anos –, esse índice sobe
para 43,5%22.

Como em outros fatores de vulnerabilidade que afetam os adolescentes brasileiros,


a gravidez na adolescência é um fenômeno complexo, com múltiplas causas
e consequências. Muitas vezes, é resultado de uma trajetória de exclusão e de
imputação de responsabilidades sobre as meninas desde muito cedo, quando
começam a cuidar da casa e de seus irmãos mais novos. Pesquisas recentes, feitas
principalmente por especialistas em Psicologia e Antropologia, apontam que a
gravidez pode ser uma opção das próprias meninas, numa busca distorcida por
autonomia, autoridade, reconhecimento social por parte das próprias famílias e de
seus amigos e colegas. Além disso, apesar de afetar principalmente as adolescentes
mais pobres, é um fenômeno também presente entre as meninas de classe média e
classe média alta.

Por tudo isso, essa vulnerabilidade que impacta de forma tão contundente a vida
das adolescentes demanda respostas multissetoriais, capazes de olhar para além
dos preconceitos. Respostas que permitam proteção às meninas mais novas, apoio
a essas meninas-mães, estímulos para que continuem estudando e sejam capazes
de garantir uma vida melhor para si e para seus filhos.

O papel dos adultos


Finalmente, devemos abordar o importante papel dos adultos na vida dos adolescentes. A família,
assim como todos os outros adultos que participam de algum modo da vida deste adolescente, são
também responsáveis por seu desenvolvimento e têm um importante papel. Para que seus lhos
atravessem a intensidade da adolescência de modo saudável e não vulnerável, a família deve estar
 bem-estruturada. Ela deve servir de apoio, suporte e referência a essa fase de grandes transformações
da adolescência. Isso, certamente, evita a ocorrência, comum neste período, de violência, uso de
drogas e gravidez precoce.

 A adolescência, se por um lado traz novas oportunidades para os adolescentens na construção de


sua autonomia e identidade, por outro, traz oportunidade para as famílias aproveitarem esse novo
momento de conexão com seus lhos. As famílias não podem esquecer que o que os adolescentes
experimentam nessa etapa determinará sua vida adulta. Portanto, trata-se de momento oportuno
para os adultos estarem próximos, estabelecerem um diálogo franco e aberto e incluírem seus lhos
nas decisões familiares. Todo esse processo apenas vem somar para todos (UNICEF, 2011).

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Não podemos esquecer que as próprias famílias também estão aprendendo a lidar com seus
adolescentes. A família também tem de se adaptar com a chegada da adolescência. Durante a
infância os pais estavam acostumados a proteger as crianças e determinar suas vidas. Quando a
adolescência chega, a família deve se abrir e desenvolver com o adolescente um novo modo de
relacionamento e participação.

O texto, a seguir, da UNICEF faz uma boa abordagem sobre o papel dos adultos no desenvolvimento
dos adolescentes e é um excelente fechamento para nossa reexão.

<Fonte: http://www.unicef.org/brazil/pt/br_sabrep11.pdf>.

Para assegurar esse direito de ser adolescente de forma saudável, estimulante


e protegida, a presença dos adultos é crucial. Sejam eles pais, sejam educadores,
sejam parentes, sejam amigos, sejam vizinhos, sejam autoridades ou pessoas que
de alguma forma convivem com essas garotas e garotos, os adultos precisam
assumir uma perspectiva pedagógica, de diálogo, de respeito e de referência para
a construção de limites e de cuidados para com os adolescentes, assegurando seu
desenvolvimento integral.

Não há melhor tempo que este, a adolescência, para proporcionar a meninos e


meninas experiências que os ajudem nas escolhas sobre sua vida, que os orientem
sobre como se proteger e proteger o outro, que os estimulem a construir sua
autonomia, mas também sua alteridade.

Em casa, na escola, na rua, no posto de saúde, em qualquer lugar, nem o autoritarismo,


que reprime a construção da autonomia, nem a ausência da orientação e a falta de
limites, que normalmente resultam em negligência, contribuem para a realização
do potencial de desenvolvimento dos adolescentes como cidadãos e cidadãs. A
presença adulta na vida dos adolescentes deve ajudar a promover o diálogo entre
gerações e a transformar ideias em propostas. Se os adolescentes têm muita energia
e criatividade, os adultos têm mais repertório, maior leque de práticas e devem
assumir perante os adolescentes uma postura de troca de histórias e experiências.

Os adolescentes esperam dos adultos esse papel de guiar e conversar. Quando se


manifestam, em conferências, plenárias, eventos e mesmo quando são ouvidos
em pesquisas, meninos e meninas afirmam com clareza a importância que dão à
presença dos mais velhos em seu processo de desenvolvimento. Realizada pelo
UNICEF nos anos de 2003 e 2007, a pesquisa Voz dos Adolescentes revelou que mais
de 90% dos adolescentes têm na família sua principal referência. Receber apoio e
limites é visto pelos adolescentes como uma forma de cuidado que os pais têm por
eles. Segundo os próprios adolescentes, quando o diálogo é feito com respeito e
com orientações claras, há mais segurança e confiança.

Ao lado dos pais, os professores. Durante o Encontro Nacional de Adolescentes do


Ensino Médio realizado em Brasília em 2010, o tema do papel do professor apareceu
com destaque nos debates. Para os estudantes, o professor representa uma referência

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positiva se, além de “dar o conteúdo”, ele ajuda a refletir sobre as questões da vida,
está aberto para ouvir, mas, principalmente, se contribui com sua experiência de
vida e suas reflexões, e “não quer dar uma de descolado, e ficar querendo parecer
com a gente”, disseram os meninos e meninas.

O diálogo intergeracional é ainda elemento crucial para assegurar aos adolescentes


o direito à participação na família, na escola, no bairro, na cidade, de forma autêntica,
sustentável, significativa e relevante para sua vida e também para suas comunidades
e para o País, contribuindo para a redução de vulnerabilidades específicas dessa fase
da vida , com toda a força renovadora dos adolescentes.

Quando adultos reconhecem que adolescentes são atores sociais e políticos


fundamentais para a construção de uma sociedade menos desigual e mais
democrática, e os adolescentes que os adultos têm mais longas experiências e
também precisam ser ouvidos e respeitados, ganham as famílias, as comunidades,
a sociedade e o País.

Estamos chegando ao final de nossa disciplina. Que tal realizarmos um pequeno


estudo de caso?

Carol era uma menina esperta e cheia de energia aos 5 anos de idade quando seus
pais se separaram. Nesta época, sua mãe teve que deixar o apartamento e ir morar
de favor na casa de um conhecido. Entre as idades de 6 anos a 13 anos, Carol teve
variados “padastros”, pois sua mãe vivia mudando de namorado. Certo dia, um
destes padastros abusou física e sexualmente de Carol. Sua mãe estava sempre fora
de casa ou cercada por outros adultos e Carol logo aprendeu a ficar sozinha e se
isolar. Na idade de 12 anos, Carol havia experimentado diferentes drogas e também
álcool. Aos 14 anos, ela aprendeu a dirigir e frequentemente pegava o carro de
sua mãe escondido quando ela estava dormindo. Com frequência Carol fazia sexo
desprotegidamente. E logo ela abandonou os estudos, pois a escola “não era tão
importante assim...”

» Liste os fatores na vida de Carol que a colocaram em risco.

» Identifique dois de seus problemas na área de saúde mental.

» O que você poderia fazer para ajudar Carol?

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Referências
BALLONE, G.; MOURA, E. Depressão na Adolescência . Disponível em: <www.psiqweb.med.
 br>. Acesso em: maio de 2013.

BORDIN, I.; OFFORD, D. Transtorno de conduta e comportamento anti-antissocial. Revista


Brasileira de Psiquiatria [online]. 2000, vol.22, supl.2, pg. 12-15.

BRASIL.  Drogas: Cartilha para pais de adolescentes / Secretaria Nacional de Políticas sobre
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Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília:
Editora do Ministério da Saúde, 2005.

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na promoção, proteção e recuperação da saúde   / Ministério da Saúde, Secretaria de
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Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, Área Técnica de Saúde do Adolescente e do
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desigualdades / Fundo das Nações Unidas para a Infância. Brasília-DF: UNICEF, 2011.

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BRASIL.  Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial – Ministério da Saúde,


Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília:
Ministério da Saúde, 2004.

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