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Donald B.

Kraybill nasceu
em 1946. É autor, palestrante
e especialista na Fé e Cultura
Anabatista. Kraybill é
amplamente reconhecido
por seus estudos sobre os
Anabatistas, mas sua maior
especialidade é na cultura Amish.

Kraybill é Professor
sobre Cultura Anabatista
na Elizabethtown College,
Pensylvania, onde já liderou o
Departamento de Trabalho Social
e de Sociologia de 1979 a 1985.
Ele também foi diretor
administrativo da Messiah
College de 1996 a 2002,
antes de retornar para
Elizabeth College em 2003.
0 REINO
DE PONTA
CABECA

lâjesuscopy®
O REINO DE PONTA CABEÇA
Donald B. Kraybill

Editora: Mensagem Para Todos


Coordenação Editorial: Douglas Gonçalves
Preparação: Thiago Marques
Tradução: Fernanda Milczarek
Capa: Souto Crescimento de marcas
Editoração: Estúdio Z ebra Serviços Editoriais
Revisão: Salomão Santos
Impressão c Acabamento: Grafica Rettec

Copyright (c) 2017


Revisado em 2011
Herald Press
Scottdale, Pa. U.S.A
Título original: The Upside-Down Kingdom

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos


reservados a: Editora Mensagem para todos
Estr. Crispim Marques Veiga, 511 Curitibanos
Bragança Paulista - SP
CEP 12.929-733

Falar com o autor: contato@jesuscopy.com


( 11) 2277-5126

Proibida a reprodução cotai ou parcial por qualquer meio


sem a autorização por escrito do autor.
0 REINO DE PONTA CABEÇA

SUMÁRIO
PREFÁCIO DA VERSÃO EM INGLÊS 5

PREFÁCIO DA VERSÃO EM PORTUGUÊS 11

PARA BAIXO É PARA CIMA 13

POLÍTICA DA MONTANHA 41

A PIEDADE DO TEMPLO 75

PÃO DO DESERTO 97

ESCRAVOS LIVRES 117

POBREZA LUXUOSA 141

DESVIOS DE “CABEÇA PARA CIMA” 171

PIEDADE ÍMPIA 201

INIMIGOS ADORÁVEIS 239

DE FORA MESMO DENTRO 279

A ESCADA SOCIAL 315

FALHAS BEM-SUCEDIDAS 351

NOTAS 375

RECURSOS NA INTERNET 395


0 REINO DE PONTA CABEÇA

PREFACIO DA
VERSÃO EM INGLÊS

nte para este livro brotou no verão quando eu ensi-


em um estudo Bíblico para Adultos. Fui chamado
às pressas para substituir um professor com apenas dois dias
de antecedência. Eu estava lendo John Howard Yoder, The
Politics ofJesus e decidi fazer minha a aula em cinco sessões
do evangelho de Lucas, que Yoder tinha usado extensiva-
mente. No meio da história de Lucas, um membro da classe
exclamou com entusiasmo e exasperação: “Tudo aqui está
tão de ponta-cabeça!” Era uma imagem inabalável do reino
de Deus. Esse quadro impressionante, deu origem à primei-
ra edição deste livro, tem me intrigado e ficou comigo ao
longo dos anos. Eu me sinto atraído por Jesus e seu reino
de ponta-cabeça de novo e de novo. Suas histórias criativas
e imagens poderosas me puxam de volta ao reino de Deus.

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DONALD B. KRAYBILL

Relendo as histórias do evangelho em preparação para


esta edição do vigésimo quinto aniversário, meu espírito
mais uma vez se despertou, de maneira que só Jesus pode
fazer. Escrevo aqui como um cristão confesso. Um encontro
próximo com a vida de Jesus leva-me ao coração da fé cristã
e à própria natureza de Deus. Para mim, Jesus fornece a re-
velação mais clara e completa da vontade de Deus. Embora
as edições anteriores formem seu núcleo e trechos de texto
permaneçam inalterados, esta terceira edição foi completa-
mente revisada, linha por linha e palavra por palavra.
Entre as alterações e atualizações, o argumento original
permanece intacto: o reino de Deus anunciado por Jesus era
uma nova ordem de coisas que parecia de ponta-cabeça em
meio a cultura palestina no primeiro século. Além disso, o rei-
no de Deus continua a ter características de ponta-cabeça que
rompem com diversas culturas ao redor do mundo de hoje.
Uma abundância de estudos acadêmicos sobre o mundo
social do tempo de Jesus surgiram desde a primeira edição
e esta revisão aproveita muitos destes recursos. Muitas coi-
sas mudaram desde que eu escrevi pela primeira vez, mas
muito permanece o mesmo. A organização do material per-
manece intacta. Eu revisei o texto palavra por palavra para
aumentar sua clareza e fluxo. Estudos recentes sobre Jesus e
os evangelhos sinóticos forneceram novos insights para atu-
alizar alguns dos capítulos. E, apesar de ter me empenha-
do fortemente no trabalho de muitos estudiosos na prepara-
ção desta edição, o livro continua sendo para leitores leigos,
não para estudiosos. Sempre que possível, tenho dispensado
o jargão acadêmico, tentando contar a história com precisão
em um estilo animado e criativo. E um grande desafio en-
colher uma grande história em um livro curto. Muitos pa-
rágrafos poderíam facilmente ser expandidos em tom uni-
versitário completo. Mas esse não era meu objetivo. Muito

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0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

pelo contrário, eu tentei capturar Idéias-chave da história de


Jesus e resumi-las para leitores leigos. Uma trilha de fon-
tes nas notas finais vão ajudar aqueles que querem prosse-
guir em um estudo mais aprofundado de temas específicos.
Há muitos livros sobre Jesus com muitos giros diferentes em
sua história. As páginas que se seguem mostram como eu fiz
a história. Eu digo história porque eu criei a narrativa de ma-
neira que reflete meus interesses como um cristão anabatitista
e como um sociólogo.
A medida que você lê esta história, duas perguntas-chave
surgirão: Primeiro, esta é uma leitura justa da história? Se é,
então o que vamos fazer com Jesus e seu reino de ponta-cabeça?
Se na verdade ele nos aponta para Deus, como a visão e a
mensagem do reino transformam nossas vidas para a honra
e glória de Deus?
Às vezes é difícil ver Jesus porque ele vem até nós
através dos filtros de vinte séculos de história da igreja.
Nossas imagens dele podem vir de livros de histórias,
adesivos de pára-choque, ou palavras teológicas que di-
ficilmente compreendemos. De muitas maneiras, os cris-
tãos têm domesticado Jesus, domando-o para se adequar
à nossa cultura e tempo. Ao relatar a história, eu tentei
remover alguns dos filtros para que possamos vê-lo mais
claramente em seu próprio ambiente cultural. E natu-
ralmente impossível reconstruir todos os detalhes, mas
quando removemos alguns dos filtros, muitas vezes des-
cobrimos um Jesus muito diferente daquele que veio até
nós na escola dominical.
Ele pode ser um Jesus que nunca conhecemos antes.
O Jesus que encontramos pode nos assustar. Ele é um
pouco irreverente, certamente não é um pastor doce cami-
nhando ao lado das águas tranquilas. Na verdade, Ele não

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DONALD B. KRAYBILL

está carregando nenhuma ovelha e Ele agita tanto as águas


políticas que acaba recebendo a cadeira elétrica romana, mas
este é o Jesus que, segundo os Evangelhos, revela a vontade
e a natureza de Deus para todo o tempo.
Eu escrevo a partir de uma perspectiva americana como
um cidadão de uma superpotência mundial. No contexto
global, sou rico simplesmente porque vivo nos Estados Uni-
dos e tenho um emprego.
A história de Jesus pode soar muito diferente para al-
guém que procura comida e abrigo todos os dias. Ela terá
um significado diferente para aqueles que cumprem uma
sentença de prisão perpétua por assassinato, pra quem bebe
água suja, está morrendo com AIDS ou para os torturados
por causa de sua fé. Tentei tornar a história acessível a todos,
independentemente da nossa localização social ou os encar-
gos que carregamos, sejam eles riqueza ou pobreza, saúde
ou doença. Graças a Deus, a história é grande o suficiente e
cheio de graça suficiente para todos nós, independentemen-
te da nossa cultura ou condição. Resisti à tentação de fazer
aplicações específicas por várias razões. Primeiro, problemas
e eventos rapidamente se tornam antigos. Segundo, os lei-
tores em ambientes locais, sob a orientação do espírito de
Deus, precisam discernir o que o reino de cabeça para baixo
significa para eles em seu próprio contexto. Minha tarefa
é contar a história o mais cuidadosamente e criativamente
possível, como Jesus fez com as parábolas, deixando os ou-
vintes aplicarem o significado ao seu próprio cenário. Tercei-
ro, o reino de Deus Será muito diferente em diferentes ce-
nários culturais. As questões para os leitores em uma nação
democrática dificilmente coincidirão com as dos leitores que
sofrem perseguição de um tirano brutal.
Por todas essas razões eu resisti a tentação de falar sobre
aplicações específicas. Em todo o texto, falei do Antigo Tes­

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

tamento e não da Bíblia hebraica, embora esta última tende


a ser a prática mais comum entre muitos estudiosos. Os li-
vros de Moisés, os profetas e outros escritos antes de Jesus
são considerados Escrituras por comunidades judaicas e cris-
tãs. As duas comunidades, contudo, interpretam e usam es-
tes mesmos escritos sagrados de maneira bastante diferente.
Em um caso, eles são interpretados à luz do Talmud e
da tradição judaica. Entre os cristãos, esses primeiros escri-
tos prepararam o cenário para Jesus e a formação da Igreja
primitiva. Eu escrevo como um cristão dentro desta tradi-
ção de dois Testamentos e, portanto, uso o rótulo do Antigo
Testamento, mas o faço com respeito genuíno por seu papel
central na fé e prática judaica.
Tenho uma dívida de gratidão com os muitos amigos e
colegas que ajudaram com este projeto por mais de trinta e
cinco anos. Estou verdadeiramente abençoado por ter um
amplo círculo de amigos generosos que ofereceram suges-
tões e afirmações calorosas ao longo das várias edições do
livro. Além disso, tenho desfrutado apoio inabalável e entu-
siasmo dos editores e funcionários da Herald Press desde o
início do projeto em meados dos anos 1970.
As edições anteriores deste livro tocaram milhares de
leitores em diferentes línguas em muitos países. Cartas de
incentivo vieram de prisioneiros, pastores, professores, estu-
dantes e outros em muitas culturas. Sou grato pelas edições
anteriores que ajudaram a interpretar a história de Jesus e
deram energia aos cristãos ao redor do mundo. Espero que
esta edição continue a fazer o mesmo.

Graças a Deus.
Donald B. Kraybill
Elizabethtown, Pennsylvania
April 2003

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

PREFÁCIO DA VERSÃO
EM PORTUGUÊS

s anos atrás um assunto começou a queimar no


coração: O Reino de Deus! Parece que tudo come-
çou a fazer sentido quando lia a Bíblia e entendia aquilo que
Jesus realmente queria anunciar. Foi então que em busca de
me aprofundar no assunto comecei a garimpar a biblioteca
do meu pai a procura de algo que me ajudasse a iluminar os
pensamentos sobre o assunto. Foi quando me deparei com
o livro que está em suas mãos, na verdade uma versão bem
mais antiga dele. De repente comecei a devorar e me im-
pressionar com a clareza que Donald Kraybill tratava de um
assunto até então muito obscuro para mim. Me impressionei
com a habilidade do autor de nos transportar para o Oriente
Médio do século I e sua capacidade de contextualizar o dia
a dia daquele povo, a ponto de quase conseguirmos ver ou
imaginar a realidade daquela época.

π
DONALD B. KRAYBIU

Com os óculos de Donald comecei a ver que o reino pro-


posto por Jesus poderia realmente ser considerado um Reino
de ponta-cabeça em comparação com o Reino deste mun-
do. Os ensinos e valores propostos por Jesus são totalmente
contrários àquilo que enxergamos hoje como padrão normal
do “mundo”. O conhecimento do contexto judaico da época
de Jesus nos transporta pra dentro das histórias e nos fazem
entender com grande clareza muitas das atitudes e pregações
do nosso mestre.
E impressionante como alguém há quase 40 anos atrás
conseguia enxergar a realidade do Reino de Deus tão pro-
fundamente a ponto de nos inspirar ainda hoje. Impressiona
também como a realidade do mundo e a maneira como ele é
regido desde os tempos de Jesus até os dias de hoje são mui-
to similares, como os padrões de pensamento que moldam
nossa sociedade já estavam moldando a sociedade na época
em que Jesus viveu e que o desejo do mestre era de apresen-
tar uma nova maneira de viver, um jeito de ponta-cabeça.

Boa leitura.
Douglas Gonçalves

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

M ontanhas planas
Voz do que clama no deserto:
Preparai o caminho do Senhor;
Endireitai as suas veredas.
Todo o vale se encherá,
E se abaixará todo o monte e outeiro;
E o que é tortuoso se endireitará,
E os caminhos escabrosos se aplanarão;
E toda a carne verá a salvação de Deus.
(Lc. 3:4-6)

’ oão Batista exclamou essas palavras de Isaías para anun-


J: ciar a vinda de Jesus. As imagens dramáticas retratam
um novo reino revolucionário. Preparando o caminho para
Jesus, João Batista descreve quatro surpresas do reino que
viria: vales aterrados, montanhas aplainadas, curvas retas
e caminhos acidentados, aplanados. Ele espera um sacudir
radical no novo reino. Caminhos antigos serão abalados a
ponto de se tornarem irreconhecíveis. João alerta que essa
nova ordem, o reino de ponta-cabeça, transformará padrões
sociais e em meio ao fermento, toda humanidade verá a sal-
vação de Deus.

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DONALD B. KRAYBILL

No cântico de Maria, de exaltação, ela canta sobre sua


esperança para o novo reino. Junto com João Batista, ela
espera que o Messias inaugure um reino de ponta-cabeça,
cheio de surpresas.

“pois o Poderoso fez grandes coisas em meu


favor; santo é o seu nome.

A sua misericórdia estende-se aos que o te-


mem, de geração em geração.

Ele realizou poderosos feitos com seu braço;


dispersou os que são soberbos no mais íntimo
do coração.

Derrubou governantes dos seus tronos, mas


exaltou os humildes.

Encheu de coisas boas os famintos, mas despe-


diu de mãos vazias os ricos”.

(Lc. 1:4953‫— ־‬ênfase adicionada)

Cinco tipos de pessoas ficam alarmados e surpresos na visão


de Maria. Aqueles no topo da pirâmide social, o orgulhoso, o
rico e 0 poderoso, caem. Despojados de seus tronos, eles são
espalhados e dispersos sem nada. Enquanto isso, o pobre e o fa-
minto, na base da pirâmide, sobem direto para o topo de forma
surpreendente. Maria canta palavras de esperança e julgamento.
Esperança para os humildes, como ela mesma se descreve, e jul-
gamento para aqueles que pisam no necessitado.
Uma pobre menina da Galileia, Maria espera que o reino
messiânico vire seu mundo e sociedade de cabeça para baixo.
Os ricos, poderosos e orgulhosos de Jerusalém serão banidos.
Os pobres agricultores e pastores da área rural da Galileia se­

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0 REINO DE PONTA CABECA

rão exaltados e honrados. Durante muitos séculos, os judeus


têm sido governados por estrangeiros, estrangeiros pagãos.
O anseio de Maria reflete um antigo clamor dos judeus por
um messias que irá trazer um novo reino. Ela representava as
massas que oravam pelo dia em que o Messias expulsaria os
invasores e estabelecería o tão aguardado reino.

Um reino invertido
O tema central no ministério e no ensino de Jesus é o rei-
no de Deus, ou como Mateus chama: o reino dos céus. Essa
ideia chave amarra toda a mensagem. O “reino de Deus”
permeia o ministério de Jesus, dando coerência e clareza a
ele. Esse é o coração inquestionável, a própria essência da
Sua vida e ensino1.
O que Jesus quis dizer quando anunciou a vinda do rei-
no de Deus? Seus companheiros judeus esperavam um reino
político que protegeria e preservaria a fé judaica. Ao longo
dos séculos, estudiosos, teólogos e igrejas desenvolveram
visões diferentes. Debates ao longo dos século agiram em
torno do que Jesus quis dizer.
Nas páginas a seguir, iremos explorar como o reino de Deus
aponta para um estilo de vida invertido, de ponta-cabeça, que
desafia a ordem social predominante. Ele certamente desafia
os antigos padrões da sociedade palestina e faz o mesmo com
nosso mundo hoje. Podemos perceber a ideia de inversão pen-
sando em duas escadas lado a lado —uma representando o
reino de Deus, e outra o reino desse mundo2. Uma relação
inversa entre essas duas escadas significa que algo muito valo-
rizado, colocado em um degrau elevado em uma escada, cias-
sifica-se bem embaixo na outra. Encontramos essa inversão no
refrão de uma música da escola dominical, em que a chuva e a
enchente se movem em direção opostas:

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DONALD B. KRflYBILL

As chuvas desceram e a enchente subiu,


As chuvas desceram e a enchente subiu.

Jesus não retrata o reino à margem da sociedade. Ele não


defende que se evite ou se abstenha da sociedade. Ele também
não presume que o reino e o mundo simplesmente se dividem
em dois reinos. As ações do reino acontecem no mundo, no
meio do estádio da sociedade, porém esse é um jogo diferente.
Os jogadores do reino seguem regras especiais e são coman-
dados por outro treinador. Os valores do reino desafiam os
padrões sociais dominantes e, às vezes, vão contra o padrão
cultural. Porém, não entenda mal. O povo do reino não é de
sectários protestando na grande sociedade apenas para serem
diferentes. Os valores do reino, arraigados em profundo amor
e na eterna graça de Deus, semeiam novas formas de pensar
e viver. Algumas vezes, as novas formas complementam as
práticas dominantes; outras vezes não. Em suma, os padrões
do reino originam-se do amor de Deus, não de um impulso
sectário de se opor ou abster do restante da sociedade.
Além de estar de ponta-cabeça, o reino fala com auto-
ridade hoje. Em outras palavras, ele é mais do que apenas
relevante; também é normativo3. Mais do que idéias em-
poeiradas na lixeira da história, a mensagem do reino vai
ao encontro de nossos problemas hoje. A ética do reino,
traduzida ao nosso contexto contemporâneo, sugere como
devemos ordenar nossas vidas. Certamente não encontrare-
mos respostas específicas nas Escrituras para todas as nossas
questões éticas. Os Evangelhos não nos dão um livro de
receita com soluções para cada dilema ético. Porém eles,
sim, levantam os questionamentos certos. Eles focam nas
questões importantes e sugerem como podemos transfor-
mar nossas vidas hoje.

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

Um reino relacional
O que exatamente é o reino de Deus? O termo desafia a
definição porque carrega dentro de si muitos diferentes sig-
nificados. Isso, na verdade, é a sua genialidade —esse poder
de estimular nossa imaginação vez após vez.
Em linhas gerais, a maioria dos estudiosos bíblicos con-
corda que o “reino de Deus” significa o reinado ou domínio
dinâmico de Deus. O reino envolve as intenções de Deus, a
autoridade e o poder de governo. Não se refere a um território
ou local específico. Não é algo estático. Ele é dinâmico - sem-
pre vindo, se espalhando e crescendo1. O reino não aponta
para um lugar de Deus, mas para as atividades de governo
de Deus. Não é um reino no céu, mas do céu —um reino que
prospera aqui e agora. O reino aparece onde quer que homens
e mulheres submetam suas vidas à vontade de Deus.
Ele significa mais do que Deus governando no coração
das pessoas, mais do que um sentimento místico. A própria
palavra reino implica em uma ordem coletiva além da expe-
riência de qualquer pessoa. Um reino em seu sentido lite-
ral significa que um rei governa sobre um grupo de pessoas.
Acordos ditam as obrigações que os cidadãos têm uns para
com os outros e para com o seu rei. A atividade de governo
do rei transforma as vidas e relacionamentos de seus súditos.
Nas palavras de um estudioso, “O reino é algo em que as
pessoas entram, não algo que entra nelas. E um estado de
relações, não um estado de mente”5.
O viver no reino é fundamentalmente social. Envolve ser
membro, envolve cidadania, lealdade e identidade. Cidada-
nia em um reino acarreta relacionamentos, políticas, obri-
gações, fronteiras e expectativas. Essas dimensões da vida
no reino ultrapassam os caprichos da experiência individual.
Ser um membro do reino esclarece uma relação do cidadão

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DONALD B. KRAYBILL

com o rei, com os demais cidadãos e com outros reinos. Vi-


ver em um reino significa compartilhar da sua história e aju-
dar a moldar o seu futuro.
Embora um reino seja uma ordem social além de qual-
quer pessoa, os indivíduos sim tomam decisões a respeito
de reinos. Nós o abraçamos ou o rejeitamos. Servimos a ele
ou zombamos dele. Nós entramos no reino ou o deixamos.
Juramos nossa fidelidade a ele ou víramos as costas para ele.
A diferença entre um agrupamento e uma coletividade ajuda
a esclarecer a ideia de reino. Um agrupamento é um conjun-
to de pessoas que acabaram estando juntas no mesmo tem-
po e espaço. Considere, por exemplo, um grupo de pessoas
esperando que o sinal abra na faixa de pedestres. Apesar de
estarem de pé, lado a lado, elas normalmente não interagem
uns com os outros. Elas não influenciam umas às outras.
Em contrapartida, o comitê executivo da direção de uma
escola local é uma coletividade - um grupo interdependente
de pessoas. Elas influenciam umas às outras, formulam obje-
tivos comuns e juntas decidem como alcançá-los. Os súditos
de um reino têm uma interdependência coletiva, baseada nas
políticas do seu rei.
O reino de Deus é uma coletividade —uma rede de pes-
soas que têm rendido seus corações e relacionamentos ao reino
de Deus. O reino se torna real quando Deus governa nos co-
rações e relações sociais. A vida no reino é mais do que uma
série de conexões por e-mail individualizadas que ligam o
Rei a cada súdito. O reino de Deus infunde uma rede de
relacionamentos, vinculando o Rei e os cidadãos.
Com que se parece o reino de Deus? Qual é a forma das
políticas reais? Como podemos traduzir a elevada ideia do
reino de Deus para a rotina diária? As respostas estão na
encarnação. Jesus de Nazaré revelou os segredos de Deus - a

20
0 REINO DE PONTA CABEÇA

própria natureza do reino de Deus. Começamos a vislum-


brar o significado do reino à medida que estudamos a vida
de Jesus e seus ensinamentos porque Ele era a Palavra final
e definitiva de Deus. Através da pessoa e do ministério de
Jesus, Deus falou em uma linguagem universal que qual-
quer um - independente de cultura, nação ou raça - podería
entender. As intenções de Deus não estavam escondidas em
vagas doutrinas religiosas. Com eloquência e clareza inegá-
veis Deus falou através dos atos concretos de uma pessoa:
Jesus de Nazaré.
O reino de Deus se entrelaça no tecido dos ensinos e
ministério de Jesus. Logo no início, Jesus anunciou a che-
gada do reino. Ele frequentemente apresentava parábolas
como exemplos do reino. Seus sermões na Montanha e no
Vale descrevem a vida no reino. A oração do Pai Nosso dá
boas-vindas à chegada do reino. O vocabulário do reino é
frequente nos lábios de Jesus. Os estudiosos concordam,
de fato, na centralidade do reino no ensino de Jesus.
Além de suas palavras, os atos de Jesus nos ensinam
sobre o reino. O judeu da Galileia nos dá os exemplos mais
concretos —a expressão mais visível do governo de Deus.
Suas palavras e comportamento oferecem as melhores pis-
tas para solucionar o enigma do reino. Ao longo dos sécu-
los, os cristãos têm usado as palavras de Jesus para criar
doutrinas, muitas vezes negligenciando o Seu ministério.
Com quem Ele falou, o que Ele fez, onde Ele andou, e
como Ele lidou com as críticas nos oferecem dicas sobre
a natureza do reino. Porém, em última análise esse não é
o reino Dele, nem é o nosso. Sempre e acima de tudo Jesus
aponta para o reino de Deus.

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DONALD B. KRAYBILL

P0R QUE DE PONTA-CABEÇA?


Se Jesus inaugurou o reino de Deus, talvez nós devesse-
mos chamá-lo de reino de cabeça para cima. De fato, se o
reino de Deus retrata o desenho original do plano de Deus
para nossas vidas, então certamente merece o rótulo de “rei-
no de cabeça para cima”. Entretanto, eu prefiro a imagem de
ponta-cabeça por diversas razões.
A vida social tem dimensões verticais. A sociedade não é pia-
na; ela tem uma topografia bastante acidentada. Na geografia
social existem montanhas, vales, depressões e planícies. Algu-
mas pessoas estão em altos picos sociais enquanto outros cho-
ram nos vales. A influência social dos indivíduos e dos grupos
varia muito. O presidente de um comitê reúne mais poder do
que outro membro do comitê. Advogados desfrutam de mais
prestígio do que vendedores de uma loja. Um fato central e
persistente da vida social é a hierarquia - classificar as pessoas
em escalas sociais. Nós não jogamos esse “jogo” da interação
social a esse nível. A imagem de ponta-cabeça nos lembra des-
sa dimensão vertical da vida social.
Esquecemos de perguntar por que as coisas são como são. O ró-
tulo “de ponta-cabeça” nos encoraja a questionar o modo
como as coisas são. As crianças aprendem rapidamente valo-
res culturais comuns e a aceitá-los como se não fossem nada
demais. Elas aprendem que o cereal é “correto” no café da
manhã nos Estados Unidos. Socialização - aprender as for-
mas da nossa cultura - molda os pressupostos pelos quais
vivemos. Achamos que nossa vida não é nada demais. Pre-
sumimos que as coisas são como deveríam ser. Comer cere-
al no café da manhã, dia após dia, faz com que isso pareça
inquestionavelmente correto. Internalizamos os valores e
normas exibidos na tela e no mural simplesmente como “o
jeito que a vida é”. Se nosso sistema econômico estabelece

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

o salário mínimo, aceitamos como justo sem pensar duas


vezes. Se alguém invade nossa propriedade, nós alegremente
o processamos. Afinal, “é isso que a lei prevê”. Cobramos
uma comissão de oito por cento em uma transação de venda
porque “é assim que é”.
Os valores e as normas da nossa sociedade se tornam tão
profundamente enraizados em nossas mentes que é difícil
imaginar alternativas. Ao longo dos Evangelhos, Jesus apre-
senta o reino como uma nova ordem que rompe e derruba as
formas antigas, os valores antigos, os pressupostos antigos. Se
existe algo que o reino de Deus faz, é quebrar os pressupostos
que governam nossas vidas. Como cidadãos do reino não po-
demos presumir que as coisas estão certas só porque “é assim
que elas são”. A perspectiva de ponta-cabeça enfoca nos pon-
tos de diferença entre o reino de Deus e o reino desse mundo.
0 reino está cheio de surpresas. Vez após vez em parábolas,
sermões e atos Jesus nos espanta. As coisas nos Evangelhos
geralmente estão de ponta-cabeça. Os bonzinhos acabam
sendo vilões. Aqueles que esperamos que sejam recompen-
sados são corrigidos. Aqueles que pensam que estão a cami-
nho do céu acabam no inferno. As coisas estão invertidas.
Paradoxo, ironia e surpresas permeiam os ensinamentos de
Jesus. Eles invertem nossas expectativas e as deixam de pon-
ta-cabeça. Os menores são os maiores. Os imorais recebem
perdão e benção. Adultos se tornam crianças. Os religiosos
perdem o banquete celestial. Os piedosos são amaldiçoados
—quebrando nossos pressupostos. As coisas não são do jei-
to que esperamos que sejam. Ficamos confusos e perplexos.
Admirados, damos um passo atrás. Será que deveriamos rir
ou chorar? Vez após vez, virando nossas expectativas de ca-
beça para baixo, o reino nos surpreende.

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DONALD 6. KRAYBILL

D esvios em torno de J esus


É possível retroceder no tempo e captar o significado do
reino? Somos capazes de colocar uma ponte sobre o abis-
mo que separa nosso mundo do mundo bíblico? Séculos
de água correram entre as falésias que se erguem em cada
lado do abismo. Duas questões em particular dificultam a
construção de uma ponte entre o nosso mundo e o antigo
mundo palestino.
Primeiro, podemos realmente vislumbrar a missão e a
mensagem de Jesus da distância desse ponto em que nos
encontramos? Essa questão centra-se na evidência histórica e
na diferença cultural. Nós temos informação confiável o bas-
tante para pintar um quadro preciso do que Jesus disse e fez?
Os líderes da igreja ao longo dos séculos têm criado muitas
de nossas impressões de Jesus. Na verdade, a igreja tem se
concentrado nos significados teológicos da doutrina de Cris-
to e não nos ensinamentos éticos de Jesus, o profeta. É pos-
sível voltarmos na história e resgatar a mensagem de Jesus?
Porém, mesmo se pudermos atravessar os mundos culturais
e reunir evidências o bastante para entender do que Jesus
estava falando, isso faz alguma diferença? Essa, em suma,
é a segunda pergunta. Jesus tem alguma coisa a nos dizer
hoje - alguma coisa é relevante para o que devemos viver
em nosso mundo? Ou será que as grandes diferenças entre
os nossos dois mundos tornam Jesus irrelevante? Simples à
primeira vista, essas questões espinhosas enfatizam o abismo
entre nosso mundo e o mundo palestino de Jesus.
Ao longo deste livro, em meio à consciência das com-
plexidades intrínsecas a serem debatidas pelos estudiosos,
eu defendo “sim” para ambas as perguntas. Sim, sabemos o
suficiente sobre quem era Jesus e o que Ele disse para des-
vendar os mistérios do reino. Além disso, à medida que des­

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0 REINO DE PONTA CABEÇA

vendamos o contexto cultural de Sua vida, o significado do


reino de ponta-cabeça entra em foco. Sim, Jesus tem muito a
dizer a nós hoje, não apenas sobre nossas questões espirituais
particulares, mas sobre como devemos viver coletivamente.
Jesus, em outras palavras, é relevante. Sua mensagem e Sua
vida falam às nossas definições de forma poderosa hoje.
No entanto, podemos não querer ouvir o que Jesus tem
a dizer. Podemos achar suas palavras desconfortáveis. Suas
parábolas podem parecer bastante interessantes no início,
mas também podem nos incomodar à medida que se apro-
fundam em nossa mente. Infelizes com o que ouvimos, po-
demos procurar desvios em torno de Jesus, desvios que nos
permitam contornar 0 centro de Sua mensagem. Pelo menos
cinco desvios tentadores tornam possível que evitemos Je-
sus. Ao longo dos séculos, muitas pessoas têm usado essas
alegações para desviar a mensagem do reino, descartando a
sua relevância para suas vidas.

D esvio um: J esus está perdido na história


Não podemos ouvir Jesus se não pudermos encontrá-lo.
Um dos desafios do estudo do Novo Testamento envolve
classificar as muitas camadas de texto - camadas de his-
tórias sobre Jesus e Sua mensagem. Camadas de evidência
arqueológica sobre barcos, potes e outros artefatos aguçam
nosso entendimento do contexto cultural. A classificação
através das camadas paralelas da terra e os textos nos aju-
dam a descobrir Jesus. Existem várias razões para todas
as camadas. Os escritores dos evangelhos escreveram suas
histórias mais de quarenta anos após a morte de Jesus. Eles
usaram suas histórias transmitidas oralmente, assim como
fragmentos escritos sobre Jesus que estavam circulando.
Além disso, Mateus, Marcos, Lucas e João escreveram dife-

25
DONALD B. KRAYBI1X

rentes Evangelhos direcionados a diferentes públicos. Cada


escritor coloca seu próprio estilo na história para enfatizar
um ponto específico. Às vezes suas histórias batem; outras
vezes não. Além disso, nem sempre fica claro se alguns pro-
vérbios vêm de Jesus, dos escritores ou das memórias pro-
fessadas pela igreja primitiva que na época dizia ter visto
Jesus como seu Salvador ressurreto.
Essas questões têm estimulado muitas pesquisas em do-
cumentos antigos em busca do Jesus da Galileia “real”. No
final, temos nas palavras de um estudioso, um Jesus com
muitos rostos7. O Jesus de Mateus parece um pouco dife-
rente daquele de Lucas, e assim por diante. Apesar de seus
muitos rostos, temos firmes evidências de que Jesus era um
profeta judeu que viveu na Palestina e foi crucificado. Além
disso, a maioria dos estudiosos concorda que Ele pregava as
boas notícias do reino de Deus. Ele recebia os desprezados,
comia com pecadores. Pregava amor aos inimigos, criticava
as práticas religiosas dominantes e era uma ameaça tão gran-
de para os líderes judeus e para os governantes romanos que
foi torturado na cruz, sangrando até a morte.
Mesmo que não possamos verificar cada história atribuí-
da a Ele ou saber 0 exato texto de cada frase que Ele proferiu,
temos evidências abundantes e confiáveis dos temas chave
de Sua mensagem. Apesar de Suas diferentes expressões,
podemos identificar as linhas gerais do Seu rosto. Existem,
naturalmente, muitas coisas que não sabemos sobre Jesus e
provavelmente nunca saberemos, mas essa não é uma razão
suficiente para dizer que não podemos encontrá-Lo. Dizer
que Ele está perdido na história se torna uma desculpa fácil
para virarmos as costas para Sua mensagem.

26
0 REINO DE PONTA CABEÇA

D esvio dois: J esus está envolvido pela cultura


M e s m o q u e c o n c o r d e m o s q u e p o d e m o s e n c o n tr a r J e s u s
e n tr e as c a m a d a s e m p o e ir a d a s d e e v id ê n c ia , p o d e m o s e n te n -
d ê - lo ? E le n ã o e s tá e n v o lv id o e m u m a c u l t u r a a n t i g a q u e
n ã o faz s e n tid o h o je ? N ó s o u v im o s q u e M a r ia O e n v o lv e u
e m fa ix a s d e p a n o , m a s o q u e isso s ig n if ic a p a r a n ó s q u e
d if ic ilm e n te e n f a ix a m o s a lg u é m ? E s te d e s v io s u s te n ta q u e
as d ife r e n ç a s c u ltu r a is e n t r e n o sso m u n d o e o D e le são tã o
g r a n d e s q u e q u a l q u e r c o isa q u e E le t e n h a d i t o fa rá p o u c o
s e n tid o p a r a n ó s h o je .

J e s u s m o r a v a e m u m p e q u e n o v ila r e jo r u r a l, sé c u lo s a n -
te s d e c o m p u ta d o r e s , I n t e r n e t , ro b ô s , s a té lite s , a r m a s n u d e -
are s e e m p r e s a s m u ltin a c io n a is . D e a c o rd o c o m esse s in a l d e
d e s v io , a é tic a d o r e in o p o d e f u n c io n a r e m p e q u e n o s v ila re -
jo s o n d e S im ã o c o n h e c e M a r ta — e m p e q u e n a s c o m u n id a d e s
o n d e é p o s s ív e l a m a r os in im ig o s e p e r d o a r o v iz in h o - m a s,
n ã o h o je . A v id a n o r e in o p o d e r ia s e r a d e q u a d a p a r a s im p le s
p a s to r e s e c a m p o n e s e s , m a s n ã o p a r a n ó s. O e n s in a m e n to d e
J e s u s , d e a c o rd o c o m esse d e s v io , e s tá p re s o a u m a p ito re s c a
c u l t u r a r u r a l, m u i to s s é c u lo s d i s t a n t e s d o m u n d o te c n o ló -
g ic o d e a r m a s la s e r e c o m u n ic a ç ã o s e m fio. C e r ta m e n te n ão
p o d e m o s tr a z e r n e n h u m a p e r c e p ç ã o , m u i t o m e n o s a é tic a
d e sse s a n tig o s c a m in h o s e m p o e ir a d o s p a r a n o sso m u n d o d i-
g i t a l a tu a l.

D e a c o rd o c o m e ssa a d v e r tê n c ia , p o d e m o s e s tu d a r as
E s c r itu r a s p a r a a p r e n d e r s o b re é tic a b íb lic a n o s te m p o s d o
N o v o T e s ta m e n to , m a s n ã o d e v e m o s a r r a s tá - la p e lo s sé c u lo s
e a p lic á - la a n o ssa s v id a s . A d if e r e n ç a é m u i t o g r a n d e . E sse
d e s v io n o s d iz p a r a c r ia r m o s n o s s a p r ó p r ia é tic a c r is tã d o
ze ro . E le n o s fa la p a r a f u n d a m e n t á - l a n o b o m se n so p o r q u e
o s a n tig o s e n s in a m e n to s b íb lic o s n ã o fa z e m s e n tid o e m n o s-
so m u n d o c o m p lic a d o - e le s são s im p le s m e n te irre le v a n te s .

27
DONALD B. KRAYBILL

É tolice, é claro, pegar as palavras envoltas nessa cultu-


ra antiga e aplicá-la cegamente aos nossos tempos. Porém,
graças aos esforços de muitos estudiosos, temos um estoque
de informações sobre o cenário cultural de Jesus. Com esses
recursos, podemos desembrulhar um texto bíblico de seu
próprio contexto cultural e trazer o seu significado para o
nosso mundo. Conhecer os valores culturais, práticas e re-
lações entre os grupos no cenário bíblico nos ajuda a de-
sembrulhar o pleno significado de um texto específico. As
histórias bíblicas de repente ganham vida de uma forma
nova quando as interpretamos e entendemos em seu próprio
contexto cultural.
A sociedade camponesa da Galileia era surpreenden-
temente diferente do nosso mundo. No entanto, hábitos
humanos semelhantes persistem nos dois lados do abismo
histórico: nacionalismo, racismo, injustiça, ganância, vio-
lência, abuso de poder e orgulho arrogante. Em suma, o
mal se esconde dentro das estruturas sociais tanto de on-
tem quanto de hoje. Ao desvendar o significado do evan-
gelho em seu próprio cenário cultural, ele fala conosco de
forma nova e poderosa.
O antigo cenário de Jesus não é uma desvantagem se pa-
rarmos para entender seu contexto histórico. Quando o fa-
zemos, as histórias do evangelho aumentam seu significado
e poder. De fato, a relevância de Jesus desaparecería se Sua
vida tivesse flutuado misteriosamente acima da cultura. Ele
fala conosco de forma poderosa exatamente porque está en-
volto em uma cultura específica. A cultura que O envolve
esclarece, e não esconde, sua mensagem do Reino.

28
0 REINO DE PONTA CABEÇA

D esvio três : J esus zombou do tempo


A q u e s tã o d o te m p o d o r e in o é u m p r o b le m a p e r s is te n te
n o s e s tu d o s d o s e v a n g e lh o s s in ó tic o s . T e m p ro v o c a d o aca-
lo ra d o s d e b a te s a c a d ê m ic o s 8. Q u a n d o o r e in o c h e g a ? E le já
v e io o u a in d a o e s p e ra m o s ? E a p e n a s u m a id e ia m ir a b o la n te
o u já é a lg o re a l?

O te r c e ir o d e s v io n o s a d v e r te q u e J e s u s b r in c o u ao p e n -
sa r q u e o m u n d o t e r m i n a r ia e m b re v e . A s s im , t u d o q u e E le
d is s e d e v e s e r v is to c o m u m a p i t a d a d e c a u te la , se E le d e fa to
s u p u n h a q u e o m u n d o e s ta v a p r e s te s a e n t r a r e m co la p so .
Isso n ã o a c o n te c e u e e n tã o , d e a c o rd o c o m esse d e s v io , n ão
p o d e m o s a p lic a r S e u s e n s in a m e n to s s o b re o fim d o m u n d o
à n o ssa s itu a ç ã o .

E ssa v is ã o r e g u l a o c a r á t e r r a d ic a l d a v id a d e J e s u s . E s-
p e r a n d o q u e o m u n d o a c a b a s s e e m p o u c o s a n o s , E le o fe-
r e c e u d i r e t r i z e s t e m p o r á r i a s p a r a se v iv e r. E la s e r a m a p li-
c á v e is a p e n a s a o b r e v e i n t e r v a lo d e t e m p o e à c h e g a d a d o
r e in o . S e v o c ê e s p e r a q u e 0 m u n d o a c a b e e o r e in o ir r o m p a
a q u a lq u e r m o m e n to , você p o d e a m a r seu s in im ig o s e d a r
o s e u m a n t o . D e a c o r d o c o m e ssa i n t e r p r e t a ç ã o , os e n s in a -
m e n t o s “t e m p o r á r i o s ” d e J e s u s sã o ir r e le v a n te s p a r a re la -
ç õ e s s o c ia is d u r a d o u r a s .

A lg u n s e s tu d io s o s a c r e d ita m q u e J e s u s e s p e ra v a a c o n s u -
m a ç ã o fin al d o r e in o d u r a n t e S u a p r ó p r ia v id a 9. E m M a te u s
1 0 :2 3 , p o r e x e m p lo , J e s u s d iz à q u e le s a q u e m e s tá e n v ia n d o
q u e “E u lh e s g a r a n t o q u e v o cê s n ã o te r ã o p e r c o r r id o to d a s as
c id a d e s d e Is ra e l a n te s q u e v e n h a o F ilh o d o h o m e m . M a te u s
1 0 : 2 3 ” . E m L u c a s 9 : 2 7 , d e p o is d e fa la r c o m os d is c íp u lo s
s o b re a c r u z , J e s u s d iz “G a r a n to - lh e s q u e a lg u n s q u e a q u i
se a c h a m d e m o d o n e n h u m e x p e r im e n ta r ã o a m o r te a n te s
d e v e r e m o R e in o d e D e u s L u c a s 9 : 2 7 ” . E ssas e o u tr a s p as-
s a g e n s s u g e r e m q u e J e s u s e s p e ra v a q u e 0 r e in o v ie sse lo g o .

29
DONALD B. KRAYBILL

Em contraste, outros teólogos argumentam que Jesus


pensava que o reino já estava presente em seu próprio minis-
tério. Jesus disse “O Reino de Deus está próximo de vocês
LC 10:9” “então chegou a vocês o Reino de Deus. Lucas
11:20”. Assim, Jesus deve ter compreendido que o reino de
Deus já estava presente em Seu ministério. Essa linha de
interpretação enfatiza a presença do reino na encarnação e no
posterior crescimento da igreja, mas pode minimizar uma
consumação futura10.
Uma terceira posição, a visão dispensacionalista, re-
lega o reino ao governo real e futuro de Cristo na ter-
ra. Nesta perspectiva, Israel rejeitou a oferta do reino na
primeira vinda de Cristo. Essa desfeita obrigou Deus a
adiar a chegada do reino até o retorno de Cristo. A incli-
nação futurista dessa visão dilui qualquer interesse sério
em aplicar os ensinamentos de Jesus a nossas vidas hoje.
Curiosamente, ambas visões “temporária” e “dispensado-
nalista” chegam à mesma conclusão: a ética do reino en-
sinada por Jesus não tem sentido hoje.
Muitos estudiosos colocam uma quarta posição. Eles ar-
gumentam que o reino de Deus nos ensinamentos de Jesus
integra ambos, o futuro e o presente. Um consenso crescente
vê Jesus “falando do reino como presente e futuro”11. Há
pelo menos quatro significados do reino nos Evangelhos. (1)
um significado abstrato do reino ou governo de Deus (2) um
reino futuro no qual os justos entrarão (3) uma realidade
que já está presente na terra (4) um reino em que as pessoas
estão entrando ou para o qual estão virando as costas agora.
Todos os quatro pontos de vista nos fornecem espaço para
uma compreensão do reino.
O reino de Deus é um símbolo cheio de muitos significa-
dos. A diferença entre um símbolo geral e um específico ajuda
a esclarecer o mistério12. Símbolos apontam para algo além

30
0 REINO DE PONTA CABEÇA

de si mesmos. A palavra escrita “cachorro” é um símbolo.


Quando lemos a palavra, ela nos lembra de um certo tipo
de animal. Um símbolo específico nos remete a uma coisa
específica. Um filhote de Cocker Spaniel, preto, fêmea, por
exemplo, nos aponta para um tipo muito específico de cão.
Em contraste, um símbolo geral tem múltiplos significa-
dos. A palavra “animal” por exemplo, sugere muitos tipos
de criaturas.
O reino de Deus é um símbolo geral, e não específico. Se
vemos o reino como um símbolo específico, ele nos limita a
um significado. Se o reino é apenas um evento único, somos
forçados a nos perguntar se ele já ocorreu - sim ou não. Um
símbolo geral é elástico. Ele se estica para frente e para trás,
mais largo e comprido, com muitos significados. Assim, ao
invés de fazer perguntas sobre o tempo, perguntamos o que
o reino evoca ou representa. O que ele defende? Em que
direção ele aponta? Além disso, um símbolo geral não está
ligado a um evento. O reino é mais do que um evento antigo
ou futuro. Ver o reino como um símbolo geral nos permite
apreciar tanto sua complexidade quanto seu poder.
Considere a frase “vai chover”. Dependendo do contexto,
ela pode significar muitas coisas13. Nos lábios de alguém
que acabou de sentir algumas gotas, significa que já está
chovendo. Alguém olhando para 0 céu à noite pode fazer
uma previsão do tempo de amanhã com essa frase. Um me-
teorologista pode usar essas palavras para uma previsão de
longo prazo. A mesma frase pode soar muito diferente em
meio a duas semanas de chuvas torrenciais, a seis meses de
seca ou em um deserto por exemplo. E assim é com o tempo
do reino.
Um estudioso observa que o significado do reino nos lá-
bios de Jesus não dizia respeito ao lugar ou tempo, mas a po-
der. Quem governa e como deveria governar14. Nosso estudo

31
DONALD B. KRAYBILL

abrange os diversos significados do reino: a esperança dos


hebreus por ele. Sua inauguração no ministério de Jesus. O
seu poder no Pentecostes. A sua duração na vida dos cristãos
ao longo dos séculos. E sua consumação futura.
Os sinais do reino surgem quando as pessoas submetem
suas vontades e relacionamentos à forma de Deus. Para citar
o título de um livro, o reino é A Presença do Futuro já entre
nós15. O reino de Deus está presente hoje, à medida que o
Espírito de Deus governa a vida dos cristãos. Os membros
do reino, mesmo agora, são aqueles que obedecem ao Senhor
do reino. Aqueles que seguem o caminho de Jesus já fazem
parte do movimento do reino. Jesus não zombou do tempo;
Ele estava simplesmente falando de algo maior do que o en-
tendimento humano sobre tempo.

D esvio Q uatro: J esus S ó F alou de C oisas E spirituais


Um quarto desvio muitas vezes suaviza os ensinamentos
de Jesus espiritualizando-os. As comunidades humanas cias-
sificam as palavras em caixas. Nós contrastamos o bem e o
mal, o sagrado e o secular e assim por diante. Nos círculos
religiosos o termo espiritual está no topo da escala sagrada,
mas a palavra social cai lá para baixo.
As realidades espirituais, diz a lógica, vêm de Deus. Elas
são santas. As realidades sociais, por outro lado, vêm das
pessoas. Estando longe do coração de Deus, as realidades so-
ciais são suspeitas. Em suma, o espiritual é melhor do que o
social; na verdade, as duas realidades pertencem a mundos
separados. Por exemplo, podemos nos preocupar que uma
atividade da igreja se torne “apenas um evento social” -di-
zendo que ela não teria um significado espiritual. Essa la-
mentável divisão entre espiritual e social muitas vezes nos
desvia da ética do reino.

32
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Realidades espirituais envolvem grandes verdades mis-


teriosas. Elas incluem nossas crenças sobre Deus, salvação
e o misterioso trabalho do Espírito de Deus. As realidades
sociais, por outro lado, nos apontam para preocupações coti-
dianas —casa, amigos, salário, recreação e nossa necessidade
de amor, criatividade e relacionamentos felizes.
Uma falsa divisão entre o espiritual e o social nos leva
a uma leitura deformada das Escrituras. Ela nos tenta a
transformar a mensagem de Jesus em um doce xarope espi-
ritualizado. Tal distorção pode diluir a verdade, tornando-a
inofensiva. Ficamos maravilhados com a morte expiatória
de Jesus, mas esquecemos de que ela aconteceu porque Ele
demonstrou uma nova forma de viver.
De fato, qualquer evangelho sem os pés no chão não é
evangelho. O amor de Deus pelo mundo produziu ação so-
ciai. Deus não apenas sentou em uma grande cadeira de ba-
lanço teológica e refletiu a respeito de amar o mundo. Deus
agiu. Deus entrou nas questões sociais - em forma humana.
Através de Jesus, Deus viveu em um ambiente social real.
Jesus, em essência, revelou os hábitos sociais de Deus. Na
encarnação, o espiritual se tornou social.
Em outras palavras, a encarnação nos comunicou os misté-
rios espirituais de Deus em uma forma social prática —em uma
pessoa. Palavra e ação combinadas em uma única realidade no
Emanuel (Deus conosco). Deus falou conosco não através do
Grego, do Inglês ou do Português, mas através de um Filho
- um evento social (Hb. 1:2). A genialidade da encarnação é
que o mundo espiritual e o mundo social se cruzam em Jesus
Cristo. Separá-los é negar a encarnação. Social e espiritual estão
indissociavelmente entrelaçados na história de Jesus.
Um estudioso argumenta que o arrependimento “é um
ato ético puramente religioso... um ato envolvendo apenas

33
DONALD B. KRAYBILL

a si mesmo e a Deus, e é neutro com relação a outros se-


res humanos e o mundo”16. Essa visão assume erradamente
que o arrependimento é apenas uma experiência espiritual
pessoal sem implicações sociais. Tal segmentação deturpa
o evangelho.
Não temos dois evangelhos. Não temos um evangelho es-
piritual e um social, um evangelho de salvação e um de justiça
social. Em vez disso, temos um único e integrado evangelho
do reino. Esse evangelho funde as realidades social e espiritual
em uma só. Jesus une o espiritual em um todo indivisível.
Por um lado, Ele diz que a verdadeira fé está ancorada no
coração - não no dízimo, no sacrifício, na purificação ou em
outros rituais externos. Nesse sentido, Ele espiritualiza a fé
religiosa. Por outro lado, Jesus argumenta que a fé em Deus
é sempre expressa em atos tangíveis de amor ao próximo.
Ele estava, em resumo, acabando com nossas categorias de
espiritual e social. Na visão de Jesus, elas são um tecido sem
costura, que não pode ser rasgado ao meio.
Um pastor certa vez espiritualizou a história de Zaqueu.
Depois de contar a história, ele lembrou à congregação que
se estamos espiritualmente “em cima da árvore” podemos
ser feitos livres por Jesus. O sermão ignorava as profundas
dimensões econômicas da história. Ele tornou trivial um
terremoto social usando aplicações espirituais banais. Den-
tro do contexto descobrimos um coletor de impostos ganan-
cioso que encontra Jesus, se arrepende e corrige seus erros
econômicos. O arrependimento espiritual e a retribuição so-
ciai formam uma história, uma história que Jesus chama de
“ser visitado pela salvação”.
Descobrir as implicações sociais do evangelho não é de-
preciar ou negligenciar entendimentos espirituais. Significa
simplesmente que os entendimentos espirituais sempre têm

34
0 REINO DE PONTA CABEÇA

implicações sociais. A integração do social e do espiritual


em um todo afirma uma encarnação que se moveu para além
do Santo dos Santos no templo de Jerusalém, para as realida-
des sociais da sociedade palestina. Quando espiritualizamos
textos bíblicos, evaporamos seu poder e significado práticos.

D esvio cinco: J esus só abordou a moralidade


A próxima barreira sugere que o reino fala apenas ao nos-
so caráter pessoal. Em outras palavras, os ensinamentos de
Jesus fornecem bons conselhos a nossas vidas privadas, mas
não para a ética social. Um estudioso afirma que Jesus dese-
ja primariamente um caráter justo. A conduta, ele observa,
deve ser a manifestação de tal retidão de caráter. Porém, ele
conclui erroneamente “que há pouco ensinamento explícito
sobre ética social nos Evangelhos”17.
Tais visões atingem a segmentação entre nossa conduta pes-
soai e nossa vida em comunidade. A distinção entre ética pes-
soai e social é clara, mas problemática. Isso implica em que as
ações pessoais não têm consequências sociais; e pressupõe que os
indivíduos operam em um vácuo social, desvinculado das forças
sociais. Além disso, torna-se mais fácil nos concentrarmos em
nosso comportamento pessoal enquanto estamos cegos para as
implicações sociais de nossa conduta. Mais importante ainda,
essa divisão declara que Jesus é irrelevante para a política social
e restringe Sua autoridade à moralidade pessoal.
Jesus, de acordo com esse ponto de vista, estava preo-
cupado com assuntos pessoais da vida interior. Ele se preo-
cupava principalmente com o caráter, atitudes, motivações,
emoções e traços de personalidade. Por isso, a ética de Jesus
se aplica apenas aos nossos sentimentos íntimos e compor-

35
DONALD B. KRAYBILL

tamentos privados. Jesus transforma nossa perspectiva emo-


cional - nosso senso de esperança e paz interior, mas não
nossas relações sociais.
O problema com tal divisão pessoal/social é que a maio-
ria dos comportamentos é social. Alguma ação é puramente
“pessoal”? Talvez coçar a própria perna passe nesse teste. Po-
rém mesmo isso cria problemas, porque a própria forma de
coçar a perna é aprendida em um contexto social. As normas
culturais determinam o tempo e o método de coçar. Ai de
algum líder nacional que fique coçando as pernas durante a
coletiva de imprensa!
Nossas idéias, valores e traços de caráter têm origens so-
ciais. Eles não caem do céu. Nós os adquirimos através de
várias influências sociais - discutindo com amigos, lendo li-
vros, ouvindo música, assistindo televisão, observando nos-
sos pais. Isso não significa que nos falte originalidade; nem
significa que somos robôs culturalmente programados. Nos-
sas mentes são o crisol onde uma variedade de influências são
processadas em conjunto. Cada pessoa, naturalmente, mis-
tura essas influências sociais de sua própria forma.
Os sentimentos internos e as motivações não têm apenas
raízes sociais, eles também têm ramificações. Sentimentos
de desespero afetam a forma como tratamos ou outros. Jesus
identificou como as atitudes privadas afetam outras pessoas.
Odiar alguém em seu coração, Ele disse, é equivalente ao
assassinato; o desejo sexual equivale ao adultério.
Os sentimentos e as emoções não são isolados das outras
pessoas. Eles emergem em nossa experiência social e mol-
dam nossas ações para com os outros. E difícil pensar em
quaisquer chamados traços de caráter fora de um contexto
social. Alguém preso em uma ilha deserta podería refletir

36
0 REINO DE PONTA CABECA

sobre o significado de integridade, honestidade e mansidão,


mas encontraria palavras vazias separado de outras pessoas.
Se Jesus tivesse se preocupado apenas com o caráter interno,
Ele podería ter passado todo o Seu tempo em um retiro no
deserto falando sobre as virtudes da harmonia interior.
O fato de que as idéias têm origens e consequências não
nega o papel do Espírito Santo. Deus nos criou como seres
sociais e o Espírito de Deus nos estimula a cuidar dos outros.
Só porque nossos pensamentos são produtos sociais com im-
plicações sociais, não significa que nossa vida interior não é
importante —é exatamente o oposto. Pensamentos influen-
ciam o comportamento. Jesus enfatizou a necessidade de ge-
nuína retidão interior em contraste com o ritual hipócrita.
Ele sabia que nossa vida interior produz frutos sociais —de
uma forma ou de outra.
A ética do reino, ensinada e vivida por Jesus, pode ser
transportada sobre a ponte que liga o primeiro século ao
nosso. Este livro resiste à noção de que Jesus deveria vol-
tar para o Seu próprio tempo porque, nas palavras de um
erudito, “Ele não fornece uma ética válida para os dias de
hoje”18. Em contraste, as páginas seguintes ecoam o cres-
cente interesse de muitos estudiosos que relacionam a ética
social aos ensinamentos de Jesus sobre o reino de Deus19.
Os Evangelhos não oferecem um sistema completo de ética
formal para cada situação concebível; e eu certamente não
abraço uma mentalidade sentimentalista de simplesmente
“andar em Suas pegadas”. Porém, eu afirmo que os Evan-
gelhos nos fornecem alguns episódios, imagens e histórias
repletos de entendimentos éticos que abordam a nossa si-
tuação, mesmo que estejamos muito distantes dos pastores
de ovelhas na palestina antiga. As muitas imagens do bom
e do correto nas histórias do reino não são coisas impos­

37
DONALD B KRAYBIU

síveis nem idéias romantizadas. Elas podem ser antigas,


mas ainda correspondem de forma muito viva aos difíceis
problemas da existência humana hoje.
A visão do reino descrita nos Evangelhos não especifica
um programa para a ética social ou ações políticas. A visão
de Jesus, entretanto, nos apresenta claramente os princípios
básicos do direito e do bom para a vida coletiva do reino.
Fazer aplicações específicas, é claro, é a tarefa dos cristãos
guiados pelo Espírito Santo.
Estes cinco desvios nos enrolam em torno dos ensina-
mentos de Jesus. Eles nos oferecem desculpas para ignorar
aquilo que o evangelho exige de nossas vidas. Porém tais
desvios não são honestos para conosco ou para com Jesus.
Precisamos primeiramente ouvir a Sua história antes de de-
cidirmos como responder.
Algo notável sobre nossas tentativas de compreender o
reino é a forma como nós o colocamos em categorias. Nossas
perguntas facilmente o fragmentam em pedaços. E o rei-
no presente ou futuro, nós perguntamos. Pessoal ou social?
Abstrato ou concreto? Terreno ou celestial? Espiritual ou
político? Um presente ou promulgado por nós?
Nossa propensão humana de colocar o reino em cate-
gorias lógicas destrói sua integridade. De fato, o reino de
Deus em sua plenitude, quebra nossas categorias humanas
insignificantes. Não é um ou o outro, sim ou não. É algo
totalmente acima - ambos/e. E de fato o reino de Deus, não
o nosso!
Queremos compreendê-lo, examiná-lo, analisá-lo. Porém
Deus ordena que entremos nele. Deus nos chama a virar as
costas para os reinos deste mundo e abraçarmos um mundo
de ponta-cabeça. Implícito em todo o ensinamento de Jesus

38
0 REINO DE PONTA CABECA

está um chamado à resposta. Ele nos convida não para estu-


dar, mas para participar; não para dissecar, mas para entrar.
O que faremos com ele? Como vamos responder?

39
‫וווו‬
II I
inn
1 ‫ווו‬
in 1
CAPÍTULO 2

POLÍTICA
DA MONTANHA
0 REINO DE PONTA CABEÇA

A rmadilhas triplas
s escritores dos evangelhos sinóticos relatam que rrês
opções do lado direito seduziram Jesus antes que Ele
lançasse o reino de ponta-cabeça. Sua tentação tripla foi uma
provação de quarenta dias. O número quarenta representa
prova e opressão na história hebraica. O dilúvio durou qua-
renta dias e quarenta noites e os hebreus andaram pelo de-
serto por quarenta anos. Moisés ficou em cima da montanha
por quarenta dias e quarenta noites e Golias provocou os
israelitas pela mesma quantidade de tempo. Independente-
mente do número real de dias, o número quarenta assinalou
escolhas dolorosas para Jesus.
Cinco símbolos-chave na história da tentação ajudam
a desvendar o seu significado: o pão, o diabo, o deserto, a
montanha e o templo1. Cada símbolo recorda episódios-cha-
ve na história hebraica. O diabo, a ameaça à santidade, leva
as coisas à total ruína. Os israelitas enfrentaram muitas ten-
tações no árido deserto, onde comeram pão do céu (maná).
Deus revelou os Dez Mandamentos a eles em uma alta mon-
tanha; e, finalmente, Deus habitava no santo templo.

43
DONALD B- KRAYBILL

Marcos não dá nenhuma informação sobre a tentação de


Jesus, mas Mateus e Lucas (ambos no capítulo 4) concor-
dam que Ele lutou com essas três armadilhas simbolizadas
pela montanha, o templo e o pão. Essas opções formaram as
pernas da cadeira sobre a qual Jesus podería ter se assentado
como poderoso Messias político. A tentação aponta para um
reino “de cabeça para cima” que engloba três grandes insti-
tuições sociais daquele tempo: política (montanha), religio-
sa (templo) e econômica (pão)2.
As instituições sociais são os padrões sociais estabelecí-
dos que organizam um aspecto particular da sociedade. As
instituições econômicas, por exemplo, incluem uma rede de
regras que governam a atividade financeira, especificando as
taxas de juros e os direitos dos credores e dos devedores. Os
participantes do sistema econômico sequer prestam atenção
às “regras” desse jogo. Elas tornam o comportamento finan-
ceiro previsível e sistemático. Assim como no setor financei-
ro, um conjunto de normas sociais organiza as esferas edu-
cacional, recreativa, religiosa e outras esferas sociais. Esses
padrões sociais se tornam profundamente enraizados na vida
de uma sociedade.
As tentações enfrentadas por Jesus oferecem verdadeiros
desvios sociais. A tentação tripla prometia satisfazer a espe-
rança dos judeus de um messias que desafiaria os opressores
políticos, alimentaria os pobres e desfrutaria de milagrosa
aprovação do alto. Após a tentação, Lucas diz que o diabo
deixou Jesus “até ocasião oportuna”. Isso sugere que esses
sedutores atalhos não evaporaram depois de quarenta dias no
deserto. Eles continuamente atormentavam Jesus ao longo
de Seu ministério.
Por exemplo, quando Pedro repreende Jesus por falar so-
bre o sofrimento, Jesus enfaticamente declara: “Para trás de
mim, Satanás” (Mc 8:33). O uso de violenta força aparente­

44
0 HEIN□ ΟΕ PONTA CABECA

mente continuava a seduzir Jesus. Em meio a uma disputa


por poder, Jesus lembra os discípulos de permanecerem ao
Seu lado em Suas provações (Lc 22:28). Ao longo de Seu
ministério, Jesus encarou alternativas políticas que ameaça-
ram descaracterizar Seu compromisso de ponta-cabeça em
um amor que sofre.
Para compreender a natureza do reino de ponta-cabeça,
devemos explorar as três alternativas “de cabeça para cima”:
a montanha, o templo e o pão. Apenas quando enxergamos
o que Jesus rejeitou é que podemos conhecer o que Ele afir-
mou. As tentações fornecem um panorama geral do cenário
social do ministério de Jesus. Nesse capítulo e nos próximos
dois, lidaremos com as tentações no contexto político, reli-
gioso e econômico daqueles dias. Cada capítulo aborda uma
dessas ofertas do tentador. Começaremos com a tentação po-
lítica e voltaremos às armadilhas religiosa e econômica nos
capítulos três e quatro.

J esus, 0 G rande
De acordo com Mateus (4:8), o cenário para a tentação
política era “uma montanha muito alta” onde “todos os rei-
nos do mundo e o seu esplendor” foram oferecidos a Jesus.
Essa era a chance de Jesus para ser o novo Alexandre, O
Grande, sua oportunidade de exercer poder político sobre
todo o vasto mundo mediterrâneo. Outra vez Israel seria su-
premo, uma luz e um poder para todas as nações. A vingança
de Deus viría sobre os impérios do Oriente Médio. O eixo
de autoridade e influência mundiais mudaria de Roma para
Jerusalém. César não podería mais tributar e insultar os ju-
deus, pois o próprio Cesar serviría a Israel.
Do alto daquela montanha Jesus podia ver a Si mesmo
exercendo extraordinário poder político. Ele não apenas go-

45
DONALD B. KRAYBILL

vernaria, Seu trono se assentaria sobre o cume mais alto de


poder, e as multidões cantariam sua aclamação. Esta opção
de cabeça para cima contrasta totalmente com o papel de
servo humilde. Porque ela era sedutora‫ ׳׳‬Porque Jesus deve-
ria se preocupar com a ocupação romana?
Um breve passeio pela história nos ajuda a entender as
esperanças políticas judaicas no tempo de Jesus5. Os estu-
diosos normalmente dividem a história com o nascimento
de Jesus. A Era Comum (EC) se refere à era judaica e cristã
comum, após o nascimento de Jesus. Antes da Era Comum
(AEC) marca o período de tempo antes do nascimento de
Jesus.

UNHA DO TEMPO EEVENTOS-CHAVE


538 Fim do cativeiro babilônico
332 Alexandreo Grande
323 Controle egípcio
198 Controle sírio
75 Antíoco IV “O louco”
164 Macabeus ganham controle
63 Pompeu, generalromano
Antes da Era
Comum
37-04 Herodes, o Grande
(AEC / aC)
05 Nascimento de Jesus
04 Morte de Herodeso Grande
04 Levante geral e revolta
04 Divisão do reino de Herodes
Herodes Antipas
Herodes Filipe
Herodes Arquelau

46
0 REINO DE PONTA CABECA

06 Arquelau deposto
06 Controle Romano direto
(Procurador)
06 Impostos Romanos
25- 28 Ministério de Jesus
Era Comum 26- 30 Pôncio Pilatos
(EC / dC) 66-70 Levante geral e revolta
70 Romadestrói o templo e
Jerusalém
132 Revolta de Bar Kochba
135 Destruição romanade
Jerusalém

O antigo testamento termina com os hebreus sob con-


trole persa. Os persas haviam permitido que os hebreus re-
tornassem para casa em 5.38 aC, depois de cinquenta anos
no cativeiro babilônico. Uma coexistência pacífica com os
persas permitiu que o templo fosse reconstruído por Zoro-
babel. A situação mudou rapidamente, entretanto, quando
um jovem grego, Alexandre, o Grade, saltou para a íama.
Ele conquistou os persas em 334 aC e dentro de dois anos
toda a palestina acabou sob seu controle enquanto ele avan-
çava vorazmente em direção ao Egito. Ele esperava inaugu-
rar uma civilização mundial unificada pelo estilo de vida
grego (conhecido como helenização).
Pela primeira vez comerciantes gregos e a língua grega se
sentiram em casa na palestina. Após uma febre que matou
Alexandre aos 32 anos, seu império caiu nas mãos de seus
briguentos generais. A palestina se transformou em uma
zona de conflito empurrada para um lado e para outro entre
esses generais, umas cinco vezes em dez anos. Um dos gene-
rais, Ptolomeu, governador do Egito, juntamente com seus

47
DONALD B. KRAYBILL

sucessores, finalmente ganhou o controle da palestina por


mais de 100 anos. Porém, esses não foram anos felizes. Pto-
lomeu supostamente entrou em Jerusalém em um sábado,
sob pretexto de oferecer um sacrifício, apenas para capturar
muitos hebreus e enviá-los para o Egito.

0 Louco
Em 198 aC a Síria capturou o reino judeu dos egípcios.
Em torno de 175 aC, o rei sírio Antíoco IV chegou ao poder
e causou mais danos aos judeus. Apelidado de “O Louco”,
ele se chamava de “o ilustre”. Ele se chamava “Epifânio”,
significando Deus encarnado!
O rei sírio prontamente estabeleceu políticas para dou-
trinar os judeus à vida grega. A cultura estrangeira grega
brotou em Jerusalém, incluindo a construção de um giná-
sio para treinamento atlético. Jovens homens judeus foram
constrangidos por sua circuncisão, que foi abertamente reve-
lada nas competições nuas que ocorriam no ginásio. Alguns
foram submetidos a operações para esconder sua circuncisão.
Eles também usavam roupas gregas, particularmente um
elegante chapéu de aba larga associado ao deus Hermes.
O judeu, escritor de II Macabeus (4:14) lamenta que até
os sacerdotes judeus tenham abandonado suas responsabili-
dades sagradas para assistir a eventos esportivos —luta livre,
lançamento de discos e corridas de cavalo. A língua grega se
tornou popular em Jerusalém. Todas essas atividades ameaça-
vam a identidade e a herança judaica. Os hebreus resistiram à
helenização, mas não conseguiram deter as agressivas táticas
do louco, Antíoco IV, para acabar com a cultura hebraica.
Duas vezes o louco sírio saqueou o tesouro judeu para
financiar sua atividade de guerra. Ele levou preciosos móveis

48
0 REINO DE PONTA CABEÇA

do templo - o altar do incenso, o candelabro de sete ramos,


a mesa dos pães da proposição - para Antioquia na Síria. Um
estudioso descreve suas políticas:

Os muros de Jerusalém foram derrubados e


uma fortaleza foi construída no monte da an-
tiga cidade de Davi. Os judeus foram proibi-
dos, sob pena de morte, de guardar o sábado
e circuncidar seus filhos. Os inspetores do rei
viajavam por todo o país para supervisionar
o cumprimento desses decretos. Em Jerusa-
lém, um altar pagão foi erguido no lugar do
altar do holocausto, e os sacrifícios eram ofe-
recidos lá ao deus supremo, o Zeus Olímpico
em 167 aC\

Durante o reinado do louco, dois sumos sacerdotes ju-


deus sucessivos o subornaram com grandes somas por suas
posições. Novas leis civis decretaram que qualquer pessoa
encontrada com uma cópia da Sagrada Escritura morrería. A
construção de um altar para Zeus terminou com os sacrifí-
cios a Yahweh. Dez dias após a conclusão do altar um porco
foi sacrificado sobre ele. Matar um porco em um altar pagão
era um horror blasfemo à pureza ritual judaica. O santuário
do templo estava manchado com sangue e os soldados come-
teram as mais grosseiras indecências nos pátios sagrados do
templo. O coração dos hebreus clamava pela misericórdia e
libertação de Deus.
Além disso, houve opressão econômica. A ganância do
louco por impostos incluía o seguinte:

Impostos sobre o sal retirado do Mar Morto;


impostos equivalentes a um terço dos grãos
colhidos; a metade dos já escassos frutos;
DONALD B. KRAYBILL

im p o s to s c o m u n itá r io s , im p o s to d a c o ro a;
im p o s to d o t e m p lo , p a r a n ã o fa la r d o d ir e i t o
s o b e r a n o d e a p r e e n d e r o g a d o e as lo ja s e m
n o m e d a c o n s c riç ã o m i l i t a r - t u d o isso fo -
m e n to u a g ita ç ã o 6.

E m b o r a os s u m o s s a c e rd o te s e a lg u n s d o p o v o te n h a m re -
c e b id o a c u l t u r a g r e g a , u m p e q u e n o g r u p o d e ju d e u s t r a d i -
c io n a is r e s s e n tiu - s e d a in flu ê n c ia e s tr a n g e ir a . E s te e le m e n to
c o n s e rv a d o r, os H a s s íd ic o s ( q u e s ig n ific a p ie d o s o ), p r o te s ta -
v a c o n tr a a a c e ita ç ã o ju d a ic a d a c u l t u r a g r e g a . P o r é m , eles
n ã o se re v o lta v a m c o n tr a as p o lític a s d o lo u c o . A lg u n s o u -
tr o s ju d e u s , e n t r e t a n t o , p e n s a v a m q u e d e v e r ía m l u t a r p o r
s u a c u l t u r a , a d o ra ç ã o e i d e n t i d a d e p a r a s o b re v iv e re m a q u i
e m s u a te r r a n a ta l. E les e r a m c o n h e c id o s c o m o M a c a b e u s.

OS MARTELADORES
A re b e liã o v e io n o c a m p o . U m a n t i g o s a c e rd o te c h a m a -
d o M a ta tia s e se u s c in c o filh o s m o ra v a m e m u m a p e q u e n a
a ld e ia c e rc a d e t r i n t a q u ilô m e tr o s a n o ro e s te d e J e r u s a lé m .
Q u a n d o u m d o s in s p e to r e s d o re i e n tr o u n a a ld e ia p a r a for-
ç a r os ju d e u s a o fe re c e re m s a c rifíc io s p a g ã o s , M a ta tia s se
re c u s o u . E le m a to u o in s p e to r. C h a m a n d o to d o s q u e e ra m
z e lo so s e m s e g u ir a le i, p a i e filh o s f u g ir a m p a r a as c a v e rn a s
n a e n c o s ta . L á, os ju d e u s H a s s íd ic o s , d is p o s to s a f in a lm e n te
l u t a r p a r a liv r a r a te r r a d a m ã o d o s s írio s , se ju n ta r a m a eles.
D a s u a b a se n o d e s e r to , os re b e ld e s ju d e u s a ta c a v a m d ir e -
t a m e n t e e d i r i g i a m c a m p a n h a s p e la s a ld e ia s p a r a d e s t r u i r
a lta r e s p a g ã o s e p e r s e g u ir ju d e u s a p ó s ta ta s .

E m u m a o ca siã o , a lg u n s re b e ld e s , p o r re s p e ito ao sá b a d o ,
se re c u sa ra m a re ta lia r as tro p a s sírias. O s re b e ld e s fo ra m a ta -

50
‫ ס‬REINO OE PONTA CABEÇA

cados e massacrados. Resistência completa e ataques ofensivos


começaram. Matatias logo morreu e seu filho Judas, o Maca-
beu (“o martelador” em hebraico) organizou uma campanha
militar bem-sucedida que literalmente martelou os sírios. Fi-
nalmente, os macabeus recuperaram o controle do templo em
Jerusalém. Em 164 aC, três anos depois de o templo ter sido
contaminado pelo sangue de suínos, ele foi rededicado. Ainda
hoje os judeus celebram o Hanucá, uma festa de dedicação,
para lembrar e celebrar esse grande evento.
Embora os judeus reivindicassem o templo, os sírios man-
tinham o controle da fortaleza militar ao redor. Com o templo
restaurado, os judeus Hassídicos pararam de apoiar a revol-
ta porque tinham pouco interesse na liberdade política. Esse
grupo acabou por formar o berço do movimento fariseu.
No entanto, outro grupo emergente, os saduceus, insis-
tiam em independência política. Eles finalmente alcançaram
seu objetivo sob comando de Simão (um dos cinco filhos de
Matatias) em 142 aC. Ele se declarou sacerdote e líder mili-
tar. Além disso, esse movimento iniciou um período de oi-
tenta anos, monitorado pela chamada família dos asmoneus.
Durante esta época, a mesma pessoa muitas vezes governava
como rei e sumo sacerdote. Moedas foram cunhadas, e o Es-
tado judeu conquistou Moabe, Samaria e Edom.
O conflito entre os fariseus e os saduceus logo os forçou
a tomar partido em facções que brigavam entre si na famí-
lia dos amoneus. Um impasse militar entre os grupos rivais
abriu as portas para os romanos em 63 aC, cerca de sessen-
ta anos antes do nascimento de Jesus. Pompeu, o general
romano, sitiou Jerusalém por três meses. Finalmente, em
um sábado, os romanos tomaram a última fortaleza, o tem-
pio. Mais de 12 mil judeus foram massacrados. Em um ato
ultrajante de profanação, Pompeu entrou no sagrado Santo
dos Santos, aberto apenas pelo sumo sacerdote, uma vez ao

51
DONALD B. KRAYBILL

ano, e para seu espanto, o encontrou vazio. O ato profano do


general romano insultou judeus fieis, que viram isso como
santo juízo de Deus contra o povo judeu.
Após quase 100 anos de liberdade política, o Estado ju-
deu estava novamente sob a mão de um poder estrangeiro.
Por séculos, seria um tributário do grande Império Romano.
Assim, em 500 anos de história antes do nascimento de Je-
sus, o povo judeu era jogado de um lado para outro em um
pingue-pongue político. Eles foram jogados entre as gran-
des potências do Oriente Médio: Babilônia, Pérsia, Grécia,
Egito, Síria e finalmente Roma.
Embora anos de turbulência seguiram a vitória de Pom-
peu, Roma dominou a política palestina depois de 63 aC.
Durante o período de dominação imperial, os exércitos ro-
manos periodicamente tentaram sufocar revoltas campone-
sas através de campanhas de “busca e destruição” que causa-
vam terror. Os exércitos devastavam aldeias, massacravam os
idosos e levavam milhares para Roma para serem vendidos
como escravos. Como um macabro lembrete de sua brutali-
dade, os soldados romanos crucificaram centenas de pessoas
em cruzes ao longo das estradas públicas —avisos para outros
que estivessem revoltosos. As vezes crucificavam, esquarte-
javam ou escravizavam populações inteiras .
Na época em que Jesus nasceu, não muito distante de
onde Ele provavelmente cresceu, os romanos incendiaram
casas e escravizaram milhares para acabar com a revolta po-
pular de 4 aC. Porém, a chama da liberdade, inflamada por
Judas, o Macabeu, não podería ser extinta. Ela reacendia vez
após vez na era de Jesus e, finalmente, explodiu em duas
grandes guerras romano-judaicas em 66 dC e 132 dC. Roma
finalmente sufocou os revoltosos judeus de vez em 135 dC
quando destruiu Jerusalém.

52
0 R EW Q D E PONTA CABEÇA

G rande H erodes
Em 37 aC, Herodes, o Grande, um judeu, chegou ao po-
der na palestina como um fantoche romano. Um símbolo
da tirania opressiva, ele governou até a sua morte em 4 aC,
pouco depois do nascimento de Jesus. Ele segurava firme
as rédeas do reino sobre o povo, contratando soldados es-
trangeiros, construindo fortalezas e orquestrando uma rede
de informantes secretos. Este Herodes consultou homens
sábios, e então matou todos os meninos em Belém, porque
estava assustado com a perspectiva de um novo rei.
Sob o reino de Herodes, o território da palestina quase
dobrou. Ele atingiu um delicado equilíbrio entre o poder
romano e o nacionalismo judeu. Ele só conseguia manter sua
coroa enquanto pudesse agradar o imperador em Roma. He-
rodes não tinha que pagar impostos a Roma, mas era obriga-
do a enviar tropas em tempo de guerra. Ele podería manter
seu próprio exército, desde que não representasse ameaça ao
império. Acima de tudo, ele deveria manter a paz e governar
com eficiência.
O traço marcante do reinado de trinta e três anos de He-
rodes foi um extravagante programa de construção. Embora
ele não tenha forçado a cultura grega aos judeus, a arquite-
tura de Herodes seguiu os padrões romanos. Ele construiu
templos, ginásios, claustros, aquedutos e anfiteatros em
grande escala. Ele construiu várias novas cidades incluindo
Cesaréia, com seu porto artificial na costa do Mediterrâneo.
Fortalezas e palácios surgiram por todo interior. Grandes
projetos de construção incluindo templos pagãos, também
foram realizados nas terras dos gentios de Sidom, Tiro, Ni-
cópolis, Esparta e Atenas, apenas para citar algumas.
Como Herodes provavelmente tinha algum ancestral
gentio, os líderes judeus nunca confiaram plenamente nele.

53
DONALD B. KRAVBILL

Para ganhar a confiança deles, ele começou uma reforma


no templo em Jerusalém, em 20 aC - o décimo oitavo ano
do seu reinado. Os judeus temiam que ele derrubasse o
templo construído por Zorobabel e nunca o substituísse.
Para provar sua sinceridade, ele forneceu mil vagões e con-
tratou dez mil trabalhadores. Além disso, ele treinou 1000
sacerdotes como pedreiros e carpinteiros para que pés não
consagrados não profanassem o templo sagrado durante a
reconstrução. Ele até dobrou o tamanho da antiga área do
templo. A nova magnífica estrutura era o orgulho e a glória
de Herodes. Ele funcionou durante toda a vida de Jesus,
mesmo enquanto a modernização era feita. Este templo foi
destruído posteriormente pelos romanos, em 70 dC —sete
anos após a sua conclusão.
A ambição insaciável de Herodes o tornava, ao mesmo tem-
po, impiedoso e simpatizante com as preocupações dos judeus.
Ele tinha que manter a estabilidade dos judeus para receber o
sorriso constante de Roma. Assim, ele não ousava permitir que
a rivalidade política ou o nacionalismo judeu ganhasse terreno.
Apesar de ter distribuído milho de graça durante um período
de fome e reduzido os impostos durante tempos difíceis, seus
projetos de construção prendiam o povo a impostos pesados.
Parte dessa receita foi para o novo templo, o que obviamente
recebeu aprovação dos judeus. Outros impostos —usados para
subsidiar suntuosos templos pagãos em lugares distantes - irri-
tavam os líderes judeus. Sob domínio de Herodes, o Grande, os
impostos “eram impiedosamente cobrados, e ele sempre estava
pensando em novas formas de subsidiar suas enormes despe-
sas”8. Houve ressentimento popular porque Herodes desperdi-
çou grande parte do patrimônio comum, sugando a força vital
do povo com os impostos opressivos.
Herodes costumava tolerar a adoração e rituais judaicos.
Porém, às vezes, havia confrontações diretas. Por cortesia a

54
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Roma, Herodes colocou uma águia dourada, o símbolo real


do império, sobre o grande portão leste da cidade. Isso en-
fureceu uns quarenta judeus piedosos que, em desacato, a
derrubaram e destruíram. Herodes retaliou essa ação quei-
mando-os vivos. Nos últimos anos do reinado de Herodes,
os fariseus se recusaram a assinar um juramento de lealdade
a ele e ao imperador romano. Eles foram duramente punidos
por desobediência civil.
Embora o reino crescesse, Herodes não era popular. Res-
sentimento ecoava por toda a terra. As suspeitas centravam-
-se em seu terrível tratamento para com sua família; suas
diversas esposas - dez no total —viviam em seu palácio. Ao
longo dos anos ele matou duas delas, além de ao menos três
filhos, um cunhado e outros parentes. Até mesmo o impe-
rador romano disse certa vez: “É melhor ser um porco de
Herodes do que seu filho”9.
Pouco depois do nascimento de Jesus, Herodes estava mor-
rendo. A fim de evitar que o povo em ebulição celebrasse sua
morte, ele ordenou que os principais judeus fossem manti-
dos na arena de Jerico para que fossem executados quando ele
morresse. Herodes queria ter certeza de que as lágrimas dos
judeus fluiríam em sua morte, ainda que não fossem por ele10.
Felizmente, os prisioneiros foram libertados no momento da
morte de Herodes. A morte do brutal tirano, entretanto, de-
sencadeou uma revolta popular generalizada, que se espalhou
pela terra durante a infância de Jesus.

A LIGAÇÃO ROMANA
Após a sua morte, o reino de Herodes foi dividido em três
partes. Seu filho, Herodes Antipas, governou o distrito da Ga-
lileia a oeste do mar, incluindo a cidade natal de Jesus, Nazaré.
Os dois Herodes são frequentemente confundidos. Herodes,

55
DONALO 8 KRAYBILL

o Grande, descrito acima, governou na época do nascimento


de Jesus, porém morreu pouco depois. Herodes Antipas, seu
filho, foi contemporâneo de Jesus. Foi Herodes Antipas que
executou João Batista e a quem Jesus chamou de raposa (Lc
13:32). Durante Seu julgamento, Pilatos enviou Jesus a He-
rodes Antipas, que estava em Jerusalém na época.
Filipe, segundo filho de Herodes, o Grande, recebeu o
território a nordeste do mar da Galileia. Ele reinou pacifi-
camente sobre seu território político durante trinta e sete
anos, mas recebe pouca atenção nos Evangelhos.
O terceiro filho de Herodes, Arquelau, governou a ter-
ceira parte do reino, ao sul, com Jerusalém em seu centro.
José, retornando do Egito com o bebê Jesus, teve medo de
ir para a Judeia quanto ouviu que Arquelau tinha sucedi-
do seu pai no poder. Então, José se estabeleceu em Nazaré,
governada por Herodes Antipas (Mt 2:22). Os três irmãos,
Herodes Antipas, Filipe e Arquelau - precisaram encontrar
o imperador romano para confirmar a vontade de seu pai
e legitimar o seu poder. Arquelau, entretanto, estava com
problemas com os judeus antes mesmo de deixar Jerusalém
para receber a benção do imperador. Ele removeu o sumo sa-
cerdote judeu e nomeou outro. Isso desencadeou revoltas nas
ruas durante a festa da Páscoa em Jerusalém. As multidões
exigiam impostos mais baixos, pediam a libertação de pre-
sos políticos e protestavam pela retirada do sumo sacerdote.
Arquelau enviou tropas para sufocar o protesto. A multidão
fez correr os soldados e apedrejou a maioria deles até a mor-
te. Arquelau imediatamente matou três mil manifestantes e
foi para Roma!

56
IDUMEIA
DONALD B KRAYBILL

Os fervorosos patriotas judeus não suportavam mais. A


insurreição se espalhou. Líderes rebeldes surgiram por todo
o país. Além de Jerusalém, os distritos periféricos da Gali-
leia, Judeia e Pereia entraram em erupção em uma sangrenta
desordem11. Um dos antigos escravos de Herodes, chamado
Simão, liderou ataques de guerrilha contra os palácios e as
ricas propriedades de Herodes.
Na Judeia, um ex-pastor de ovelhas chamado Arranges e
seus quatro irmãos lideraram a resistência contra Arquelau
por vários anos12. Enquanto isso, na Galileia, Judas, cujo pai
Ezequias havia sido porto por Herodes, o Grande, tornou-se
um ardente revolucionário. Judas liderou a revolta da cida-
de de Séforis, cerca de uma hora de caminhada a nordeste
da cidade natal de Jesus, Nazaré. Ele saqueou o arsenal de
Herodes em Séforis. Esses líderes em várias regiões do país
governaram como “reis” autodeclarados durante diversas se-
manas. Atronges, na Judeia, governou por diversos meses.
Porém, o poder imperial de Roma não seria zombado.
Roma logo esmagou os teimosos reis camponeses judeus.
Como Arquelau ainda estava em Roma durante o levante, o
comandante romano na Síria interveio do Norte. Ele moveu
seus exércitos para a Palestina. Ele queimou Séforis até as
cinzas e vendeu sua população judaica como escravos. Con-
tinuando para o sul, o comandante romano matou dois mil
rebeldes, deixando as pessoas no campo atônitas e amedron-
tadas. Jesus provavelmente tinha menos de dez anos quando
essa violência ocorreu nas proximidades, então essas memó-
rias provavelmente moldaram sua perspectiva.
Em Jerusalém, antigos patriotas judeus se envolveram no
combate corpo-a-corpo com soldados romanos. Os rebeldes
lançaram bombas do alto dos muros do templo sobre os sol-
dados e tentaram atear fogo a uma fortaleza que protegia os
romanos. Alguns soldados reais desertaram para os rebeldes,

58
0 REINO DE PONTA CABEÇA

mas no final, os romanos venceram. Os soldados incendia-


ram partes do templo e saquearam seu tesouro.
Arquelau logo retornou de Roma e recuperou o controle
do campo. No entanto, o pavio da bomba político-religiosa
ainda estava aceso. Essa turbulência revolucionária formou
o contexto da infância de Jesus. Essa turbulência explodiría
novamente em 66-70 dC, em uma revolta judaica maciça —
uns trinta anos após a Sua morte.
Pouco se sabe sobre o curto reinado de Arquelau (4 aC a 6
dC). Sabemos que ele antagonizou a sensibilidade judaica, es-
pecialmente casando-se com uma mulher divorciada de seu se-
gundo marido. A indignação e o ódio judaicos eram tão fortes
que tanto judeus quanto samaritanos enviaram uma delegação a
Roma para pedir seu exílio em 6 dC, durante a infância de Jesus.
Infelizmente, isso mudou a organização política da Judeia
para pior. Ao invés de ser governada por um rei quase-judeu,
agora pela primeira vez, ela se tornou província romana. Isso
significava que a Palestina estava agora sob controle romano
direto. Um governante romano (às vezes chamado de pro-
curador, prefeito, embaixador ou governador) supervisiona-
va a Judeia diretamente. Um procurador, como Pilatos, era
responsável para com o imperador romano. O império tinha
dois tipos de províncias:
1. As áreas mais importantes e ricas recebiam um gover-
nante de grau senatorial chamado governador-embaixa-
dor. O governador sírio, Quirino, controlava a Síria ao
norte da Palestina com um exército permanente de várias
legiões, cada uma com até 6000 soldados de infantaria.
2. Províncias menores como a Judeia exigiam menos
tropas para manter a ordem. Elas recebiam um go-
vernante romano chamado procurador, de uma classe
social mais baixa do que um governador-embaixador.
DONALD B KRAYBIU

Um procurador, como Pilatos, respondia diretamente a


Cesar e tinha plena autoridade militar, judicial e financeira.
A Judeia tinha tropas auxiliares recrutadas da população dos
gentios. Os judeus, entretanto, eram dispensados do serviço
militar porque eles não lutariam no sábado. O procurador
tinha cinco grupos de 600 homens cada sob seu comando e
mantinha guarnições em todo o país. Um grupo de 300-500
soldados estava permanentemente alocado em Jerusalém, na
Fortaleza Antônia, vigiando a área do templo, evitando pro-
testos. O procurador, Pilatos, vivia em Cesareia, na costa do
Mediterrâneo. Porém, durante as festas judaicas ele trazia
tropas extras para Jerusalém, para evitar confusão entre os
milhares de peregrinos.
O primeiro procurador romano veio para a Judeia em
6 dC para substituir Arquelau cerca de nove anos após a
revolta generalizada. Junto com o controle romano direto,
vieram os impostos romanos, obviamente. Assim, o coman-
dante romano Quirino foi a Jerusalém para fazer um censo
da população para fins de tributação na época do nascimento
de Jesus (Lc 12:2). Os nacionalistas judeus apaixonados que
queriam uma pátria livre resistiram fortemente aos impos-
tos romanos. A mudança do rei Arquelau que era um fanto-
che, para o governo direto de Roma inflamou uma situação
já tensa. Os zelosos patriotas judeus protestaram contra o
censo. Eles argumentavam que porque a terra pertencia a
Deus, todos os impostos também pertenciam a Deus. Os
impostos sobre a terra e a capitação eram, aos seus olhos,
novas formas de escravidão e idolatria.
O censo para tributação romana de 6 dC enfureceu os
judeus zelosos, que ansiavam por liberdade da opressão e
o estabelecimento de um estado judaico independente. Só
Deus era rei, eles diziam, declarando blasfemo chamar o im-
perador de “rei” e “senhor”. Em suas mentes, isso violava

60
0 R E IN O Ο Ε P O N T A C A B E Ç A

o primeiro mandamento que proibia a adoração de outros


deuses. Alguns acreditavam que pagar impostos ao impera-
dor era pura idolatria. Os super zelotes sequer tocariam em
uma moeda cunhada com a imagem do imperador. Como
observa um estudioso “De todos os povos dentro do Império
Romano, nenhum resistiu tão persistente e resolutamente,
tanto política quanto espiritualmente, à ocupação romana
quanto os judeus”13.

P rotestantes, profetas e bandidos


Nas décadas antes e depois do nascimento de Jesus, sur-
giram diversos movimentos de protestos judaicos. As vozes
de agitação tornaram-se cada vez mais violentas depois da
Sua morte nos anos antes da guerra judaico-romana de 66-
70 dC. Como mostrado na tabela 2.1, quatro tipos diferen-
tes de protestos surgiram - protestos públicos, profetas, os
messias e os grupos de bandidos14. Nos cinquenta anos antes
e depois do nascimento de Jesus, apareceram mais de trinta
momentos de protestos diferentes.

TABELA 2.1
TIPOS DE PROTESTOS CAMPONESES NA PALESTINA
Tipo N úm ero Data
Grandes protestos
7 4 aC a 65dC
públicos
Profetas 10 30 aC a 73 dC
Messias 5 4 aC a 70 dC
Grupos de Bandidos 11 47 aC a 69 dC

61
DONALD B. KRAYBILL

Diversos fatores alimentavam a raiva pública, incluindo a


pobreza rural, os altos impostos, o controle romano, os atos
inflamados dos reis judeus fantoches e a esmagadora violên-
cia dos exércitos romanos. Fatores políticos, econômicos e
religiosos se combinaram para agitar a revolta e a rebelião.
O slogan de muitos dos resistentes zelosos era “Não há Se-
nhor senão Deus”.
Em algumas ocasiões, grandes multidões se reuniram du-
rante vários dias para protestar contra as ações dos governan-
tes. Protestos e revoltas frequentemente surgiam durante a
páscoa judaica e outros dias santos, quando as multidões e
ajuntamentos de rebeldes se reuniam em Jerusalém. Várias
vezes rebeldes judeus lideraram protestos não-violentos que
condenavam o tratamento profano dado a seus objetos e lu-
gares sagrados.
Incluindo João Batista, pelo menos dez profetas surgiram
nesses anos desafiando os poderes governantes e proclaman-
do uma mensagem de libertação. A maioria deles tinha um
considerável grupo de seguidores. Além disso, nas quatro
décadas que seguiram a morte de Herodes, o Grande, pelo
menos cinco messias autodenominados, sem incluir Jesus,
apareceram. Vindos de contextos camponeses pobres, eles
também refletiam a turbulência generalizada. Os profetas e
os messias esperavam que Deus, de forma milagrosa, erradi-
casse os romanos e estabelecesse o governo divino como nos
dias passados.
Os grupos de bandidos e terroristas também se manti-
nham a margem dos governantes. Ao contrário dos ladrões
comuns, que roubam para ganho pessoal, os bandidos sociais
defendiam causas religiosas ou econômicas e assim, muitas
vezes tinham apoio entre os camponeses locais. Pelo menos
onze grupos de bandidos de vários tipos surgiram nas déca-
das anteriores à guerra judaico-romana de 70 dC. Alguns dos

62
0 REINO DE PONTA CABEÇA

terroristas atuavam em Jerusalém, matando oponentes com


punhais, incluindo um sumo sacerdote, em ataques surpresa
e depois se misturando nas multidões. Outros lutavam pela
liberdade no campo, muitas vezes aplaudidos pelos campo-
neses que davam suporte a seu apelo à libertação. Muitos
dos bandidos sociais foram considerados fanáticos religiosos
porque queriam a independência judaica e declaravam “Não
há Senhor senão Deus”.
Barrabás, libertado no julgamento de Jesus, era um rebelde
político que foi considerado menos perigoso do que Jesus. Jesus
morreu entre dois ladrões, provavelmente bandidos sociais que
haviam ameaçado a “paz” imposta por Roma. O movimento
de resistência pulsava amplamente entre grande parte do povo
comum. Enquanto isso, a nata dos líderes judeus, vivendo em
Jerusalém, colaborou silenciosamente com os romanos.
O impulso de resistência tornou-se mais violento nos
anos seguintes à morte de Jesus. Nas décadas de 30 e 60
dC, surgiram os homens da adaga (Sicários). Suas táticas de
ataque envolviam assassinatos seletivos e sequestro. Seus al-
vos: os sumos sacerdotes e outros altos líderes judeus que
estavam em conluio com os romanos. Uma facção organiza-
da de Zelotes surgiu depois de 60 dC e, finalmente, passou
ao combate armado em Jerusalém. Diversas outras facções
revolucionárias, prontas para cortar gargantas romanas e ju-
daicas, surgiram na década de 60 dC. Juntos, esses grupos
rebeldes lideraram a revolta maciça dos judeus de 66-70 dC
que explodiu na primeira Guerra Judaico-Romana15.
Grande parte da resistência nos sessenta anos que prece-
deram a revolta dirigiu-se aos romanos. Porém, crescentes
disputas internas entre as facções judaicas rivais também
alimentavam a agitação. De qualquer forma, o desconten-
tamento e a perturbação generalizados marcaram todo o pe-
ríodo de domínio romano direto (6-66 dC) na Palestina16.

63
DONALD B. KRAVBILL

Assim, quando Jesus começou Seu ministério, cerca de


25 dC, a Palestina era um caldeirão de revolução. Filipe,
filho de Herodes, o Grande, governava a região nordeste
como um rei quase-judeu. Herodes Antipas, outro filho,
governava a região da Galileia de forma semelhante. Um
governador romano (procurador), do porto da costa da
Cesareia, coordenava territórios judeus, incluindo Jeru-
salém, na região sul.

P0NCI0 P1LAT0S
Pôncio Pi latos foi nomeado o quinto procurador romano
da Judeia em 26 dC. Comparado a outros líderes judeus, Pi-
latos aparece neutro em relação a Jesus em alguns relatos do
julgamento de Jesus. Porém, há outro lado de Pilatos —um
lado brutal. Sua administração implacável ofendeu muitas
vezes a sensibilidade judaica.
Pouco depois de assumir o poder, Pilatos ordenou que as
tropas fossem de Cesareia para Jerusalém. Eles entraram na
cidade na calada da noite e colocaram bandeiras que levavam
a imagem do imperador Tibério. Isso violava a lei judai-
ca, que proibia uma imagem na cidade santa. Na manhã
seguinte, as bandeiras idólatras foram descobertas. Judeus
indignados reuniram-se em Cesareia exigindo que as ima-
gens fossem removidas. No sexto dia de manifestação Pi-
latos reuniu a multidão em uma pista de corrida, cercou-os
com soldados e ameaçou matá-los. Quando percebeu que a
multidão preferia morrer a violar sua lei religiosa, ele orde-
nou que as bandeiras ofensivas fossem retiradas.
Em outra ocasião, em Jerusalém, Pilatos dedicou alguns
escudos contendo a inscrição do imperador Tibério. Os lí-
deres judeus que queriam Jerusalém consagrada exclusiva-
mente à adoração de Yahweh ficaram, naturalmente, insul-

64
0 REINO DE PONTA CABEÇA

tados. Os judeus protestaram contra o imperador romano,


que instruiu Pilatos a mover os escudos para o templo de
Augusto, em Cesaréia. Dessa maneira, Pilatos piorou o hu-
mor dos judeus.
Mesmo sua única contribuição positiva trouxe proble-
mas. Pilatos começou a construir um aqueduto de cerca de
40 quilômetros para trazer água para Jerusalém. O siste-
ma de água beneficiou o templo, que precisava de enormes
quantidades de água para purificar os sacrifícios de grandes
animais. Pilatos pensava que o tesouro do templo deveria
ajudar a pagar a conta. As autoridades do templo protes-
taram contra o uso secular do dinheiro dedicado a Deus.
Porém Pilatos insistiu. Multidões de judeus irritados se
reuniram para protestar contra esse sacrilégio. As tropas de
Pilatos os dissiparam e mataram muitos.
A carreira de Pilatos terminou em 36 dC, depois que
suas tropas atacaram um grupo de samaritanos reunidos em
seu santo monte (Monte Gerazin). Os fieis haviam se junta-
do para seguir o autodeclarado messias samaritano. Após o
incidente samaritano, Pilatos foi chamado a Roma e perdeu
sua procuradoria. Filo de Alexandria descreveu a conduta do
ofício de Pilatos como marcada por “corrupção, violência,
degradações, maus-tratos, ofensas, numerosas execuções ile-
gais e crueldade incessante e insuportável”17.

S uicídio em M assada
Após a morte de Jesus, as relações entre judeus e romanos
continuavam a se deteriorar. A crise chegou a tal ponto em
66 dC que o procurador romano, Floro, roubou dezessete
talentos do tesouro do templo. Judeus indignados andaram
por Jerusalém pedindo dinheiro para o “pobre Floro”. Fu-
rioso, Floro enviou seus soldados para saquear a cidade. O

65
DONALD B. KRAYBILL

sacerdote do templo se recusou a fazer o sacrifício de animal


diário em favor do bem-estar do imperador romano. Judeus
insurgentes ocuparam a área do templo, desafiando Floro
para que se retirasse de Cesareia. Enquanto isso, zelotes sob a
liderança de Menahem, filho de Judas da Cfalileia, tomaram
o forte romano em Massada. O forte estava no topo de um
pico bem protegido próximo ao Mar Morto.
Duros confrontos entre os combatentes judeus e os sol-
dados romanos estouraram em Jerusalém. Ao final do verão,
os revolucionários judeus haviam expulsado os soldados ro-
manos de seu país. De fato, Roma levou um ano para recon-
quistar a Galileia e mais três para retomar Jerusalém, mas
eles a reconquistaram.
Os Zelotes de Massada e da Galileia convergiram em Je-
rusalém para uma tomada de posição final contra as brutais
forças romanas. Depois de reconquistarem a Galileia, as for-
ças romanas se moveram para o sul em direção a Jerusalém.
Destruindo aldeias sistematicamente, eles matavam ou es-
cravizavam as pessoas em seu caminho. Durante a época da
Páscoa de 70 dC o general romano Tito, com um exército de
24 mil homens, lançou um ataque total contra Jerusalém. O
poder romano esmagou aqueles que lutavam por liberdade.
Antes que o fogo destruísse o templo, Tito pegou alguns sím-
bolos judaicos sagrados - o candelabro de sete ramos e a mesa dos
pães da proposição - como troféus para o seu retorno triunfal a
Roma. O templo sagrado estava em ruínas fumegantes. Alguns
rebeldes entrincheiraram-se na fortaleza de Massada até 73 dC.
Quando os soldados finalmente conquistaram o acesso ao topo
da cúpula, apenas algumas mulheres e crianças estavam vivas. Os
patriotas zelosos preferiram o suicídio à derrota!
A derrota em Massada, no entanto, não extinguiu a cha-
ma do nacionalismo judaico. Em 132 dC, em resposta a um

66
0 REINO ΟΕ PONTA CABECA

édito romano proibindo a circuncisão, ela explodiu sob a li-


derança de Bar Kochba. Com uma força de 200 mil homens
ele montou um Estado judaico que durou três anos. Os ro-
manos perderam entre 5 e 6 mil soldados antes de finalmen-
te derrotar Bar Kochba na segunda guerra judaico-romana.
No final, os romanos vitoriosos acabaram com cerca de 1000
aldeias, executaram mais de 500 mil pessoas, destruíram Je-
rusalém e fizeram milhares de pessoas como escravas. A des-
truição de Jerusalém em 135 dC alterou, obviamente, tanto
a história judaica quanto a cristã.

A MONTANHA BAIXA
Embora os judeus pudessem realizar seus sacrifícios
prescritos durante a ocupação romana, havia irritantes
implícitos. Desde a era de Herodes, o Grande, os gover-
nantes contratavam e demitiam os sumos sacerdotes. As-
sim, até o sumo sacerdote era, em última instância, um
fantoche romano. Além disso, o uniforme de oito peças
que o sumo sacerdote usava para simbolizar a essência da
fé judaica era guardado por soldados romanos na Forta-
leza Antônia para evitar possíveis revoltas. Os soldados
entregavam-no ao sumo sacerdote somente nos dias fes-
tivos. Um insulto final era a exigência de um sacrifício
diário, oferecido no templo de Yahweh, em nome do im-
perador romano.
Esse turbulento contexto político formava o cenário do
enfrentamento de Jesus com o diabo no alto daquela mon-
tanha. Revolta revolucionaria enchia os vales. A Palestina
da infância de Jesus não era serena. Ela era um caldeirão de
fervor revolucionário. Apenas frente a esse contexto conse-
guimos compreender o significado de sua tentação política.
A possibilidade de uma realeza política não era uma oferta

67
DONALD B KRAVBILL

vã. Esse era o objetivo de muitos profetas messiânicos, por


quem Jesus certamente era conhecido.
A tentação que Jesus recusou não foi apenas um convite
para se juntar ao alto escalão dos patriotas judeus. Não foi
apenas a tentação para se desatar do controle romano. Era
também uma armadilha para endossar a violência - o modo
aceito de governo.
Naquela alta montanha Jesus rejeitou a força bruta como
modo apropriado de governar os outros. As regras do poder
político sancionavam a força, a violência e o derramamento
de sangue. Jesus desprezou essa instituição “de cabeça para
cima” de poder político coercitivo. Ele escolheu demonstrar
um novo poder, um novo modo de governar. Ele se recusou
a jogar o jogo pelas regras antigas. Porém, ao final, seu jeito
“de ponta-cabeça” assustava tanto os antigos reinos que Ele
foi crucificado como “Rei dos judeus”.
A montanha na tentação simboliza o poder divino1*. Foi
na montanha que Deus encontrou seu povo através de Moi-
sés (Ex 24). Pregando na montanha, Jesus descreveu mais
tarde o povo de Seu novo reino como misericordioso, manso,
puro de coração e pacífico (Mt 5). Em uma montanha Ele
chamou os Seus discípulos (Lc 6:12-13)·
Depois de alimentar cinco mil, Jesus retornou à monta-
nha para um tempo de oração e renovo (Mc 6:46). A confir-
mação divina “este é o meu Filho amado” veio de uma nu-
vem sobre o alto de uma montanha (Mc 9:2,7); e do Monte
das Oliveiras, Jesus começou sua descida real para Jerusalém
sobre um jumento (Mt 21:1).
Ele foi preso alguns dias depois no mesmo Monte das
Oliveiras, quando Ele não resistiu à captura (Lc 22:39).
Após a ressurreição, os discípulos O encontraram em uma
montanha na Galileia (Mt 28:16). Finalmente, no monte

68
0 REINO DE PONTA CABEÇA

chamado das Oliveiras, o Jesus ressurreto disse a Seus se-


guidores: “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo
descer sobre vocês” (At 1:8, 12).
A monranha simboliza a força do poder divino e a proximidade
com Deus. Jesus redefiniu o significado de poder quando se recu-
sou a usar força violenta. No entanto, era difícil para Ele se livrar
da sedução da força. Mateus e Marcos relatam três ocasiões em que
Jesus falou do sofrimento como a nova forma do poder messiâni-
co. Todas as vezes, os discípulos estavam discutindo sobre quanto
poder e autoridade eles teriam no reino. Nas três ocasiões Jesus
respondeu ensinando-os sobre o discipulado do sofrimento
Ele deixou algo extremamente claro: os heróis do reino
de ponta-cabeça não são reis guerreiros andando em carru-
agens ou reis camponeses carregando forcados. Os heróis
desse reino são crianças e servos. Estes humildes carregam a
nova bandeira do reino do servo. Eles não operam pelo poder
e pela força, mas pelo poder sustentador do Espírito Santo
fluindo da montanha de Deus.

J esus usou uma adaga?


Jesus era um terrorista? Alguns argumentam que sim19.
Ele supostamente usou as táticas sangrentas dos homens da
adaga. Os defensores desta posição argumentam que os Evan-
gelhos, escritos mais de quarenta anos após a morte de Je-
sus, deliberadamente camuflam Sua raiva violenta, de modo
que os primeiros cristãos não pareceríam ameaçadores para as
autoridades romanas20. Em outras palavras, os escritores dos
evangelhos podem ter mascarado a violência de Jesus com
imagens de um pacífico e amoroso pastor de ovelhas.
Diversas razões são dadas para colocar Jesus com os ze-
losos rebeldes21. Ele instruiu os discípulos a venderem suas

69
DONALD B KRAYBILL

roupas e comprar espadas na Ultima Ceia (Lc 22:36). Com


um chicote, Ele expulsou os cambistas e seus animais do
templo (Jo 2:1 5). Os romanos O consideravam um político
subversivo e agitador, crucificaram-No como “Rei dos ju-
deus” (Lc 23:38). Barrabás, um conhecido rebelde, liderava
uma insurreição política, mas foi considerado menos perigo-
so do que Jesus, Ele foi libertado enquanto Jesus foi morto
(Lc 23:25).
O próprio Jesus disse que não veio trazer a paz, mas a
espada (Mt 10:34). Como outros profetas zelosos, Jesus pro-
clamou um reino. Ele criticou os reis que governavam sobre
o povo (Mc 10:42). Ele até chamou Herodes de raposa (Lc
13:32). Ao menos um de seus seguidores, Simão, foi cha-
mado “o Zelote” (Lc 6:15). Alguns intérpretes usam essas
coisas para colocar Jesus junto com os revolucionários vio-
lentos. Nos relatos do evangelho descobrimos que Jesus era
de fato um revolucionário —um tipo de revolucionário. Ele,
de fato, desafiou os poderes religioso, político e econômico.
Sua afirmação de que a lei do amor substitui as regras das
instituições humanas fez dEle um revolucionário. Porém,
Ele dificilmente era violento.
Sem refutar a acusação de que Jesus era um rebelde zeloso
ponto a ponto, evidências consideráveis sugerem que Jesus
não estava entre os rebeldes violentos de Seus dias22. Terro-
ristas zelosos achavam que os seres humanos deveríam aju-
dar a Deus a inaugurar o reino. Em contraste, Jesus disse a
Seus seguidores “Não tenham medo, pequeno rebanho, pois
foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino” (Lc 12:32). Embora
Jesus tenha criticado fortemente os ricos, Ele nunca recorreu
à violência. Seus ensinamentos sobre riqueza também ame-
açavam os interesses romanos e provavelmente os evange-
lhos teriam sido apagados se eles estivessem apenas tentando
apaziguar os ânimos romanos. Pilatos pode ter visto Jesus

70
0 REINO DE PONTA CABEÇA

tomo uma ameaça política, mas isso não significa que Jesus
agiu de forma violenta.
Limpar o templo do dinheiro dos cambistas não era uma
ordem para a violência, ainda que Jesus tenha sido dramático
e vigoroso. Se uma grande revolta estourasse, os 600 soldados
da Fortaleza Antônia, com vista para o templo, iriam intervir
rapidamente. A cena no templo era uma condenação profética
da profanação dos cambistas e um sinal de que o templo de-
veria ser aberto para adoração dos gentios. A Palavra profética
- não a ação - estava no centro da purificação do templo.
Jesus repreendeu severamente o episódio da orelha cortada
por seu discípulo em resistência quando Ele foi “capturado”
no Getsêmani. Se os discípulos estivessem fortemente arma-
dos, um confronto maior provavelmente teria se desenvolví-
do. Se os discípulos fossem considerados uma ameaça violen-
ta, eles certamente teriam sido capturados e crucificados, não
teriam permitido que eles fugissem no meio da escuridão.
Talvez a evidência mais contundente de que Jesus não
estava no campo revolucionário foi o abraço caloroso aos co-
letores de impostos e publicanos. Os rebeldes zelosos odia-
vam os coletores de impostos - traidores que exploravam os
judeus sob o poder do governo romano. Os rebeldes estavam
dispostos a matar coletores de impostos judeus, mas Jesus
os abraçou. Ele até os convidou para se juntar ao seu grupo
de discípulos. Jesus ensinou que o chamado radical do reino
ultrapassava a lealdade a outras instituições humanas. Esta
mensagem única estava fora das táticas coercitivas e, às ve-
zes, violentas dos zelosos.
Evidências persuasivas de que Jesus rejeitou a violência per-
meiam Sua mensagem e Sua vida. Como já vimos, Ele recusou
a tentação política de governar pela força. Ele nos instruiu, ao
invés disso, a amar os inimigos, abençoar aos que amaldiçoam e

71
DONALD B. KRftYBILL

perdoar 490 vezes. Em suma, Ele nos chama a servir, não a go-
vernar. Ele mostra o caminho do amor em histórias nas quais os
inimigos ajudam uns aos outros. A lição suprema, obviamente,
é o Seu próprio exemplo na cruz. Embora desrespeitado e tortu-
rado, Ele recusou a retaliação. Com cravos rasgando seu corpo,
Ele se recusou a amaldiçoar. Ele pede, em vez disso, o perdão
para aquele que “não sabem o que fazem” - perdoando de uma
só vez a ignorância e a estupidez.
A evidência final para um Jesus não-violento vem dos
ensinamentos da igreja primitiva. Durante os primeiros dois
séculos e meio após a Sua morte, a igreja primitiva proi-
biu os membros de entrarem no serviço militar. Essa prática
dificilmente teria se desenvolvido se, de fato, Jesus tivesse
adotado o uso de resistência violenta durante Sua vida23.
Jesus era um revolucionário ao violar as leis do sábado,
criticar os gananciosos, comer com os pecadores e provocar
os Fariseus. Sua mensagem do reino ameaçava o poder de
grupos com interesses pessoais. Os romanos O consideravam
uma ameaça à sua falsa tranquilidade política. Os Saduceus
de direita O odiavam porque Ele condenava sua lucrativa
operação no templo. Os Fariseus progressistas criticavam
seu desrespeito pelas suas leis de pureza ritual. E os que
lutavam por liberdade não suportavam sua conversa sobre
sofrimento. A tentação de usar a violência era difícil de es-
quecer. Porém, endossar a violência teria negado toda sua
plataforma de um amor que sofre.
Jesus foi revolucionário quando atacou a raiz do proble-
ma —o mal que muitas vezes amarra as intensões e institui-
ções humanas. Ele chamou ao arrependimento; Ele pediu
por amor; Ele anunciou que somente Deus deveria ser adora-
do. Porém sua revolução de ponta-cabeça substituiu a força
pelo sofrimento e a violência pelo amor.

72
‫ ס‬REINO DE PONTA CABEÇA

Jesu s am eaçou o status quo. E le a b a lo u as e s t r u t u r a s ta n t o


d o s S a d u c e u s , q u a n t o d o s F a ris e u s , d o s r o m a n o s e d o s r e b e l-
d e s. D e c e r ta fo r m a , E le p a r e c ia c o m o u tr o s in s u r r e c io n á r io s
d a q u e le te m p o , m a s s u a re v o lu ç ã o e s ta v a d e p o n ta - c a b e ç a .
E la p r o m o v ia a to s d e c o m p a ix ã o , n ã o p u n h a is . O a m o r e ra a
n o v a T o rá , o p a d r ã o d o S e u r e in o d e p o n ta - c a b e ç a .

73
‫וווו‬
II I
ιιιιι
1 ‫ווו‬
in 1
CAPÍTULO 3

A PIEDADE
DO TEMPLO
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Um paraquedas celestial
overnar o mundo pela força não era a única tentação
que Jesus enfrentava. Havia a própria religião contra a
qual lutar. O próximo truque do diabo convidou Jesus para
abraçar a religião institucionalizada. Havia muitos judeus
devotos no primeiro século; entretanto, como pode acon-
tecer em qualquer fé, alguns aspectos da religião formal se
tornaram obsoletos. Um complexo código - entrelaçado en-
tre o que deve ou não deve ser feito, as peregrinações e os
sacrifícios - abrangia grande parte da vida dos judeus, do
direito civil às festas nacionais. Alguns rituais se tornaram
vazios e egoístas.
O fervor religioso, porém, corria firme e forte. A maneira
de ponta-cabeça de Jesus entrava em conflito com os pesos
pesados que guardavam os ritos sagrados hebraicos no santo
nome de Deus. As autoridades se revoltavam à medida que
Jesus demolia suas queridas pressuposições e práticas. Eles
rangiam os dentes com a blasfema sugestão de que o embai-
xador de Deus estava no meio deles, derrubando as mesas no
santo templo - o auge de todo o seu sistema.

77
DONALD B. KRAYBILL

Uma aparição milagrosa, um súbito raio vindo do céu,


certamente convencería mesmo os saduceus mais céticos da
autoridade divina de Jesus. Por isso o diabo ofereceu a Jesus
uma opção atraente: por que não certificar milagrosamente
Sua missão? Isso eliminaria qualquer perseguição por parte
dos líderes religiosos. Uma benção divina milagrosa perto
do templo sagrado apagaria qualquer dúvida sobre a autori-
dade messiânica de Jesus. As massas rapidamente O segui-
riam se os escribas e sábios acolhessem o recém-chegado.
Cair de paraquedas no pátio do templo tornaria Jesus em um
messias instantâneo.
Dessa forma o diabo provocou, “Vamos Jesus, vá em fren-
te. Ignore a raiva dos fariseus. Esqueça a pobreza e a doença.
Não provoque a ira dos ricos. Por que se preocupar com a
cruz? Vamos lá Jesus. Apenas desça lá de paraquedas e todos
saberão que você é o Messias”.

T rinta e cinco acres de piedade


O que estava por trás da tentação do templo? O tem-
pio era o pináculo da vida religiosa, o coração da adora-
ção, dos rituais e da emoção judaica. O templo de Jeru-
salém provocava paixões. Ele era envolto em mistério e
admiração; era o trono da sabedoria, da lei e da Escritura.
Ele abrigava o único altar judeu no qual o sumo sacerdo-
te fazia os ritos sacrificiais de expiação uma vez por ano
por todo o mundo judaico. Lá e somente lá o perdão era
possível com o sacrifício apropriado. No único Santo dos
Santos, o sumo sacerdote entrava na presença de Deus. O
Santo dos Santos era o lar literal de Deus. Jerusalém era
a “cidade do templo”. As artérias da religião judaica pul-
savam por causa do templo. Esse era o lugar óbvio para o
astuto diabo testar Jesus.

78
0 REINO ΟΕ PONTA CABECA

Podemos visualizar o templo como um edifício de igreja


contemporânea, mas um shopping center oferece uma mo-
desta comparação um pouco melhor. O templo em si —cerca
de 30m de comprimento, lüm de largura, 2()m de altura
—ficava dentro de uma área de 35 acres (Aproximadamente
140.000 m2). Herodes, o Grande dobrou essa área do pátio
do templo. Magníficas colunas de mármore e imponentes
paredes que variavam de 30 a 90m de altura cercavam todo
o complexo. Algumas pedras das paredes pesavam cerca de
70 toneladas e aquelas usadas na fundação, 500 toneladas.
Guardas posicionados em diversas entradas monitoravam o
fluxo do tráfego. A parte externa do templo era dividida em
duas áreas: gentios e judeus. O pátio dos gentios, aberto a
todos, cobria cerca de dois terços da área externa. Um muro
baixo de pedras impedia que os gentios entrassem na terça
parte da área dos judeus: o pátio das mulheres, o pátio dos
israelitas e o pátio dos sacerdotes. Homens judeus traziam
suas ofertas à corte dos israelitas e as entregavam aos sacer-
dotes que matavam e sacrificavam os animais no altar no
pátio dos sacerdotes. O Santo dos Santos estava dentro do
santuário, exatamente atrás do altar. Uma sala completa-
mente escura e vazia de cerca de lOm2 era a morada sagrada
do Todo-Poderoso.
O complexo do templo incluía duas estruturas adicio-
nais, dentro dos 275m do muro sul, abrigava as operações
comerciais do templo. Aqui os cambistas trocavam o Shekel
(ou Siclo) necessário para as ofertas e vendiam animais para
sacrifício. Fora dos muros, ao norte estava a Fortaleza Antô-
nia, de onde soldados romanos vigiavam toda a área prontos
para acalmar qualquer tumulto'.
O prédio do templo, que abrigava o Santo dos Santos,
não era usado para adoração pública, porque era conside-
rado, literalmente, a “casa de Deus”. Adoração, sacrifício e

79
DONALD B KRAYBILL

outros rituais aconteciam nos grandes pátios externos, fora


do templo. Ouro e prata cobriam boa parte do edifício, in-
cluindo a mobília e o telhado. Dos campos distantes ele apa-
recia como um pico resplandecente sobre a montanha sagra-
da. Havia tanto ouro dentro do templo que depois de sua
destruição e do saque no ano de 70 dC, a província da Síria
estava tão saturada de ouro que seu valor caiu pela metade.
Um provérbio hebraico dizia “Aquele que não viu o santo
lugar nos detalhes de sua construção nunca viu um edifício
esplêndido em sua vida” (Mc 13:1). O tamanho do templo
se destaca pelo fato de que quase 20 mil trabalhadores per-
deram seus empregos quando a reconstrução foi finalmente
completa em 62 dC.
Aproximadamente 18 mil sacerdotes e levitas divididos
em vinte e quatro grupos chamados “cursos” estavam en-
volvidos na operação do templo. Estes sacerdotes e levitas
viviam nos campos da Galileia e da Judeia e vinham para o
templo em viagens, para uma semana de trabalho duas vezes
por ano. Eles também ajudavam durante três festivais anu-
ais acompanhados pelos peregrinos judeus de muitos países.
Quando o véu do templo foi purificado, foram necessários
300 sacerdotes para mergulhá-lo em um tanque de água.
Eram necessários duzentos levitas todas as noites para fe-
char as portas do templo. Dezenas de cambistas vendiam di-
nheiro “puro” aos peregrinos para os dízimos e negociavam
animais para sacrifício. O templo tinha três funções: ritual,
econômica e administrativa.
Um grupo de elite de chefes dos sacerdotes administrava
toda a operação. O tesouro do templo também funcionava
como um grande banco nacional. Ele mantinha os dízimos
e ofertas exigidos aos judeus de todo o mundo. A elaborada
operação do templo gerava a principal fonte de renda para a
cidade de Jerusalém, e seus tentáculos se estendiam para os

80
0 REINO QE PONTA CABEÇA

campos onde possuía grandes propriedades cultivadas por


pobres camponeses.
Judeus devotos que viviam além da Palestina vinham ao
templo três vezes ao ano para celebrar as festas religiosas.
Na primavera, a Festa da Páscoa narrava a libertação do Egi-
to. Cerca de cinquenta dias depois, a Festa de Pentecostes
agradecia pelos primeiros frutos da colheita. No outono, a
Festa dos Tabernáculos incluía uma marcha solene em torno
do altar em gratidão a Deus pela colheita completa. Mais
importante ainda, o grande Dia da Expiação era celebrado
no outono. Nesse dia, o sumo sacerdote sacrificava um bode
por seus próprios pecados e enviava outro para o deserto pe-
los pecados do povo. Durante essas festas de peregrinos, a
população normal de Jerusalém, de cerca de 25 mil pessoas
passava para 180 mil.

81
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

O templo era uma monumental lembrança de que o povo


eleito de Deus tinha acesso a Ele através de seu ritual sa-
crificial. Todas as manhãs e todas as tardes, dia após dia o
“contínuo” holocausto de um cordeiro imaculado era feito
em favor da comunidade. Essas ofertas perpétuas exigiam
em torno de 1200 animais por ano2. Uma oferta de incenso
misturado a especiarias também queimava diariamente. Os
judeus devotos também ofereciam sacrifícios provados. O
cheiro da fumaça, de carne e gordura animal sendo quei-
madas enchia o ar do templo. Os sacerdotes exerciam vários
deveres no sistema de sacrifícios. Eles removiam as cinzas do
altar, preparavam a lenha, matavam o cordeiro, aspergiam o
sangue no altar, limpavam o candelabro e preparavam ofer-
tas de alimentos e de bebidas’. Ao menos vinte sacerdotes
escolhidos por sorteio todos os dias, realizavam os sacrifícios
regulares, enquanto outros realizavam as ofertas especiais.
O templo era a peça central da fé judaica. Ele simbolizada a
presença viva de Deus na Terra. As pessoas vinham ao templo
para orar, crendo que daquele local suas orações iriam direto
para os ouvidos de Deus. Aqui tanto nazireus quanto gentios
convertidos ofereciam sacrifícios. Para esse lugar era trazida a
esposa suspeita de adultério. Aqui os primeiros frutos eram ofe-
recidos. Aqui mães faziam ofertas de purificação no nascimento
de cada filho. Esse lugar sagrado era a fonte de perdão.
De todo o mundo mediterrâneo, os impostos judaicos
fluíam para sustentar o templo. Três vezes ao ano, o povo en-
chia esse lugar para as festas4. Esse era o lar de setenta mem-
bros do sinédrio, a máxima autoridade judaica para assuntos
religiosos, políticos e civis. Aqui morava o sumo sacerdote.
Em tudo isso o templo pulsava com o batimento cardíaco
da fé judaica de todo o mundo. E quase impossível exagerar
sobre a importância do templo e do sacrifício. Lugar e ritual
formavam o núcleo sagrado da religião hebraica.

83
DONALD B KRAYBILL

R itual de purificação
As imagens contemporâneas do templo como um santu-
ário majestoso num subúrbio tranquilo são distorções histó-
ricas. Pense novamente! Imagine um enorme matadouro à
beira de um pátio de 35 acres cercado por muros. Os animais
grunhiam quando suas gargantas eram cortadas. Litros de
sangue fluíam para dentro dos dutos especialmente cons-
truídos para esse fim na parte inferior do altar externo. O
massacre era de dezenas de milhares de animais por ano.
O ritual de sacrifício era um enorme sistema de purifi-
cação. Como um grande rim, ele filtrava as impurezas do
pecado de vidas coletivas tornando-as aceitáveis a um Deus
santo que exigia pureza. Cerca de seis tipos diferentes de
oferta exigiam um sacrifício no templo: a oferta queimada,
a oferta de cereal, a oferta de paz, a oferta de purificação, a
oferta de reparação e a oferta de gratidão’. Três grandes gru-
pos de ocupações - sacerdotes, levitas e escribas, serviam a
grande operação do templo.
O sumo sacerdote, o sacerdote dos sacerdotes, era a cabeça
simbólica tanto da fé quanto da nação. Ele usava uma vesti-
menta esplêndida, de oito partes, com cada peça invocando
poder para expiar todos os pecados específicos. Apenas o sumo
sacerdote, em perfeita pureza, podería abrir as cortinas e en-
trar no Santo dos Santos na presença de Deus, uma vez por
ano no Dia da Expiação. Ele oferecia os sacrifícios no sábado
e durante as festas de peregrinação. Até a sua morte tinha
poder expiatório. Os assassinos que fugiram para uma cidade
de refúgio após acidentalmente matar alguém, só poderíam
retornar para casa depois da morte do sumo sacerdote.
O sumo sacerdote estava sujeito a estritas leis de pureza
cerimonial. Ele não podia tocar em um cadáver nem entrar
em uma casa de luto. Um “cuspe árabe” certa vez contaminou

84
0 R E IN O D E P O X T A C A B E Ç A

um sumo sacerdote na noite anterior ao Dia da Expiação. De-


pois disso, os sumos sacerdotes foram obrigados a passar por
um isolamento, uma purificação de sete dias antes de oficiar
o Dia da Expiação. Ninguém podia ver o sumo sacerdote nu
ou quando se barbeava ou tomando banho. Sua linhagem ti-
nha que ser imaculada. Isso exigia laços diretos com a família
de Aarão. Regras rígidas exigiam que ele casasse apenas com
uma virgem de 12 anos de idade de pura descendência. Mui-
tos sacerdotes casavam com as filhas dos sacerdotes.
O papel do sumo sacerdote não era apenas pomposo e ce-
rimonial. Ele exercia considerável poder como presidente do
Sinédrio. Este conselho supremo tinha completa autoridade
judicial e administrativa em assuntos religiosos e civis. Seu
julgamento sobre questões religiosas era respeitado muito
além das fronteiras da Judeia. Esse era um corpo autoperpe-
tuante composto de sumos sacerdotes, escribas (geralmente,
embora nem sempre, do partido fariseu), e nobreza. Embora
os tribunais inferiores se reunissem em vários distritos da Ju-
deia, o Sinédrio era o tribunal supremo da autoridade judaica.
O poder do sumo sacerdote cresceu consideravelmente sob
o comando dos procuradores romanos. Ele se tornou o princi-
pal porta-voz judeu, não apenas em questões cerimoniais, mas
também para negociações políticas com os romanos. Dezes-
seis dos dezoito sumos sacerdotes entre 6 dC e 67 dC vieram
de cinco proeminentes e ricas famílias de Jerusalém.
Uma extensa hierarquia de oficiais religiosos se esten-
dia abaixo do sumo sacerdote e do Sinédrio. O capitão do
templo administrava a equipe do templo. Ele estava classi-
ficado próximo do sumo sacerdote porque frequentemente
auxiliava o sacerdote a cumprir deveres solenes. No próximo
degrau estavam os vinte e quatro sacerdotes que dirigiam
vinte e quatro grupos de cerca de 7 mil sacerdotes comuns.
Eles viviam nos campos e participavam do ritual do tem-

85
DONALD B. KRAYBILL

plo pelo menos cinco vezes por ano. Em seguida vinham


os 156 sacerdotes que serviam como coordenadores diários
do trabalho dos demais sacerdotes do templo naquele dia
específico.
As relações administrativas do templo estavam sob a res-
ponsabilidade de sete supervisores permanentes. Em segui-
da vinham três tesoureiros que administravam o tesouro do
templo cobrando impostos, comprando materiais de sacri-
fício e supervisionando a venda de animais aos peregrinos.
Eles também mantinham os noventa e três vasos de ouro e
prata usados para os rituais diários e administravam a pro-
priedade do templo. Em seguida na classificação estavam
os sacerdotes comuns que viviam nos campos e vinham ao
templo cinco vezes por ano executar seus deveres sagrados.
Zacarias, o pai de João Batista (Lc 1:5), era um desses.
No final da escala ritual estavam quase 10 mil levitas. Vi-
vendo em aldeias vizinhas, eles ajudavam no templo quando
estavam em seu turno de trabalho que era de uma semana.
Os levitas eram considerados inferiores aos sacerdotes, em-
bora alguns levitas servissem como cantores e músicos. O
restante fazia o trabalho pesado do templo - servindo como
porteiros, guardas de segurança, coletores de lixo e trabalha-
dores do saneamento em toda a área do templo6. Os escribas
serviam como escriturários, gravadores, especialistas legais
e contadores. Provavelmente havia diversos papéis clericais
ou, como podemos dizer hoje, papéis “de secretariado”- co-
piando documentos, escrevendo cartas e acordos, registran-
do impostos e elaborando papéis legais. Embora esse não
seja um grupo social organizado, os escribas desempenha-
vam funções clericais da vida das aldeias à corte real. Muitos
escribas também eram estudantes da Torá: a Lei.
0 REINO DE PONTA CABEÇA

E stabelecendo a L ei
A piedade e a paixão judaicas estavam enraizadas no
templo e na Torá. No centro das atividades do templo e no
centro da religião judaica estava a Torá7 Normalmente co-
nhecida como “Lei”, é melhor traduzida como “doutrina" ou
“ensino religioso”. Tecnicamente se refere aos cinco livros
de Moisés. Além disso, os estudantes da Torá compunham
interpretações orais ou comentários sobre a Escritura. Estas
“cercas orais em torno da Torá” traduziam a Torá em di-
versas diretrizes práticas para a vida diária. Assim, a Torá
incluía não apenas os cinco livros de Moisés, mas também o
comentário oral que crescia em torno dela.
A Torá, acreditavam os judeus, continha a vontade ab-
soluta e inquestionável de Deus. Obedecê-la era obedecer
a Deus. Um culto de adoração se desenvolveu em torno da
Torá, personificando-a como a “muito amada filha de Deus”.
Dizia-se que Yahweh dedicava horas de lazer ao estudo da
Torá, até mesmo lendo-a em voz alta no sábado. Os judeus
consideravam-na como o padrão absoluto para todos os as-
pectos da vida religiosa. Ela era fonte da verdade de Deus.
A leitura e discussão contínuas da Torá era uma atividade
sagrada primordial. No comentário oral que cercava a Torá,
os judeus piedosos poderíam descobrir se era lícito comer
um ovo colocado no sábado. Eles podiam descobrir se a água
derramada de um balde limpo em um impuro contaminava
aquele que era limpo do qual ela foi derramada. A Torá re-
gia os sacrifícios no templo em Jerusalém e a adoração nas
sinagogas das aldeias.
Como vimos, sacerdotes e levitas forneciam a perícia e a
mão de obra para o trabalho no templo. Além de seus papéis
clericais, os escribas explicavam os segredos da Torá*. Os es-
cribas mais instruídos e de nível mais alto, desvendavam as

87
DONALD B KRAYBILL

complexas tradições que cercavam a Torá. Cuidadosamente


treinados, os escribas eram muitas vezes conhecidos como
“doutores da Lei”. Eles eram reverentemente chamados de
“rabino”, “mestre” e “pai”. Os escribas usavam um manto
especial, longo até os pés, arrematados por uma franja. As
pessoas se levantavam em respeito quando esses sábios ho-
mens passavam pelas ruas. Os lugares de mais alta honra na
sinagoga eram reservados a eles. Em seus primeiros anos de
adolescência, alguns jovens entravam na carreira de escribas,
fazendo um curso regular de estudos. O jovem estudante
aprendia com um rabino mais velho por muitos anos até que
dominasse os detalhes da Torá e seu comentário. Com cerca
de quarenta anos de idade o aluno era ordenado um escriba
pleno, com todos os direitos de um sábio estudioso. Após a
ordenação ele podería tomar decisões sobre a legislação re-
ligiosa e pureza cerimonial, bem como sobre processos cri-
minais e civis. Somente estudiosos ordenados podiam criar e
transmitir as tradições da Torá.
Exceto pelos sumos sacerdotes e aqueles que pertenciam
a famílias nobres, os escribas eram as únicas pessoas que
podiam se assentar no poderoso Sinédrio. Jovens judeus
de todo o mundo iam para Jerusalém no tempo de Jesus
para estudar com os estimados escribas porque Jerusalém
era o centro teológico do judaísmo. Escribas influentes, em
suma, “eram venerados, como os profetas de antigamente,
com respeito ilimitado e temor reverenciai9. Como pro-
fessores do conhecimento sagrado, suas palavras possuíam
autoridade soberana”.
0 REINO DE PONTA CABEÇA

P artidos políticos
Em nossa exploração pela religião judaica, examinamos
os papéis formais do sacerdote, do levita e do escriba. Vi-
mos brevemente o templo, o Sinédrio e a sinagoga. Além
desses papéis e organizações, existiam dois partidos polí-
ticos religiosos - os saduceus e os fariseus. Esses partidos
desenvolveram-se no século II aC devido a diferenças reli-
giosas e sociais.
O divisor de águas entre eles era a sua compreensão da
Torá. Os saduceus consideravam a Torá escrita, os cinco li-
vros de Moisés, sua autoridade final eles rejeitavam o co-
mentário oral sobre a Torá, que os fariseus aceitavaml<). Os
saduceus também negavam a ressurreição, a imortalidade e
a vida futura. Além disso, eles eram céticos quanto a anjos e
demônios. Em suma, os saduceus representavam o elemento
conservador do judaísmo. Eles eram defensores da verdadei-
ra fé de Israel transmitida por Moisés.
Os saduceus viviam principalmente em Jerusalém. Eles
vinham da classe de governo e da rica aristocracia. Alguns
dos principais sacerdotes eram membros do partido sadu-
ceu. Eles estavam intimamente envolvidos nas operações
do templo e dominavam o Sinédrio. Em suma, os saduceus
dirigiam tanto as relações religiosas quanto sociais da rica
classe alta de Jerusalém. Os saduceus apoiavam o status quo
tanto político quanto religioso de Jerusalém. Eles aceitavam
e colaboravam com o controle romano desde que eles pudes-
sem manter o sangue fluindo sobre o altar e manter o seu
status privilegiado.
Em contraste, o partido farisaico representava a ala pro-
gressista do judaísmo11. Como progressistas em busca de
santidade, os fariseus aplicavam a Torá a questões práticas e
cotidianas. Conhecidos como “separados” os fariseus desen­
DONALD B. KRAtBILL

volveram a tradição oral para aplicar a Torá a cada situação


que um judeu podería enfrentar.

A Torá ditava regras de pureza para os sacerdotes oficiantes.


Os fariseus procuravam estender essas regras, esses hábitos de
santidade à vida cotidiana das pessoas comuns. Encorajando
as pessoas comuns a serem puras, piedosas e santas, eles espe-
ravam em algum momento moldar todos os israelitas em um
santo sacerdócio - um reino de sacerdotes, uma nação santa.
Os fariseus são muitas vezes confundidos com os escribas.
Alguns escribas se juntaram ao partido fariseu enquanto ou-
tros se afiliaram aos saduceus. Alguns membros dos fariseus
vinham do meio de piedosas pessoas comuns. Os fariseus
operavam principalmente na área rural, promovendo sua
doutrina em sinagogas locais. Como os campeões da santi-
dade para povo comum, eles se colocavam em oposição à rica
elite dos saduceus. O apelo de Jesus aos plebeus ameaçava a
base da política rural dos fariseus e aumentava sua ferrenha
crítica a Ele.

90
0 REINO DE PONTA CABE(«

Embora tivessem amplo apoio, os fariseus eram apenas


cerca de 6000. Isso se devia, provavelmente, ao seu rigor. Os
membros potenciais tinham um ano de estágio para provar
sua conformidade com as meticulosas leis de pureza. Os fa-
riseus desafiavam o governo estabelecido em Jerusalém, mas
também desdenhavam das pessoas comuns que não se preo-
cupavam com a pureza cerimonial e o dízimo. Eles eram le-
galistas rígidos, mas também acolhiam novas interpretações
- sempre procurando aplicar a Torá a novas questões.
Dois movimentos políticos adicionais eram os essênios e os
combatentes por liberdade. Como vimos, aqueles que lutavam
por liberdade não estavam organizados até algumas décadas
após a morte de Jesus, quando os zelotes se formaram. Antes
disso, bandidos sociais e manifestantes que defendiam a li-
berdade surgiam de forma independente. Entretanto, perto
das margens do Mar Morto, os essênios usavam uma tática
diferente dos combatentes por liberdade: eles se retiravam
da sociedade. Esses separatistas criaram uma sociedade co-
munitária autossuficiente em Qumran. Descontentes com a
liderança do templo de Jerusalém, eles optaram por deixar
o sistema. Eles criaram seus próprios rituais de purificação
e esperavam que o mundo acabasse em uma grande batalha
entre os filhos da luz e os filhos da escuridão - os romanos12.

E speranças messiânicas
Independentemente das opiniões políticas, saduceus, fa-
riseus, essênios e os combatentes por liberdade esperavam
um messias que expulsaria os romanos e colocaria tudo no
lugar novamente na Palestina.
Eles tinham suas diferenças, obviamente, sobre o quanto
pensavam que Deus precisava de sua ajuda. Assim, no nasci-
mento de Jesus, as esperanças messiânicas estavam vivas na co-

91
DONALD B KRAYBILL

munidade judaica. Havia muitas correntes de esperança, mas o


anseio mais profundo era por um novo governante ungido por
Deus - aquele que restabelecería o trono de Davi em toda a sua
antiga glória e inauguraria um reino de Deus pacífico.
Tal esperança se intensificou no século anterior a Jesus.
Os Salmos de Salomão escritos nesse tempo, retratam o Mes-
sias derrubando os rudes gentios que invadem o lugar santo
de Deus e expulsando os sacerdotes judeus corruptos que
pervertem a adoração a Yahweh. O Ungido reunirá as tribos
espalhadas na Terra Prometida. Ele trará dias abençoados
em todos os sentidos. Sob Seu comando Jerusalém, a Cidade
Santa da presença de Deus, reinará soberana - “um lugar
para ser visto em toda a terra”13. Em Lucas (1:32-33) o anjo
Gabriel oferece a Maria uma nova visão do reino messiânico.

“Ele será grande e será chamado Filho do Al-


tíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de
seu pai Davi,e ele ninará para sempre sobre
o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim”
(Lc 1:32,33; ênfase adicionada)

Um refrão semelhante vem da boca de Zacarias, o pai de


João Batista, registrado em Lucas:

“Louvado seja o Senhor, o Deus de Isra-


el, porque visitou e redimiu o seu povo.
Ele promoveu poderosa salvação para nós, na
linhagem do seu servo Davi, (como falara pelos
seus santos profetas, na antigüidade ), salvando-
-nos dos nossos inimigos e da mão de todos os que
nos odeiam, para mostrar sua misericórdia aos
nossos antepassados e lembrar sua santa aliança. ”
(Lc 1:68-72)

92
0 REINO DE PONTA CABECA

Era incerto como o Messias aparecería. Alguns pensavam


que Ele viria dos céus, sobre uma nuvem. Outros esperavam
que Ele fosse nascido como homem, mas de repente revelado
de forma decisiva. Jerusalém, lar do templo sagrado, era o
exato local onde esses textos messiânicos eram cuidadosa-
mente estudados. Esse era o lugar óbvio para a armadilha
do diabo.
O relato da tentação não especifica exatamente onde o
diabo queria que Jesus pulasse. No canto do muro do tem-
pio, caindo por centenas de metros até o Vale do Cédronr‫ ׳‬Ou
Ele deveria despencar dentro do pátio externo na entrada do
templo‫ ׳׳‬Independentemente da forma, uma queda de para-
quedas milagrosa certificaria, acima de qualquer suspeita, a
chegada do Messias. Ele atordoaria todos no centro da vida
religiosa, onde as coisas eram feitas de forma apropriada, em
conformidade exata com a lei. Os escribas, o Sinédrio, os
sumos sacerdotes - todos os pesos pesados religiosos - tes-
temunhariam a chegada miraculosa. Ao verem o milagre
com seus próprios olhos, eles rapidamente aclamariam Jesus
como o verdadeiro Messias.
Tal certificação divina silenciaria qualquer confronto
com a instituição religiosa. Os oponentes ficariam calados.
A aristocracia de Jerusalém recebería o novo “operador de
milagres”. Jesus podería evitar ficar vagando entre os cam-
poneses pobres da Galileia. Não havería dúvida - Jesus, o
Messias, havia chegado!

0 M essias de ponta- cabeça


A ideia de desfrutar da aprovação da instituição religiosa
deve ter tentado Jesus. Porém Ele se afastou. Ele rejeitou a
religião de “cabeça para cima”. A tentação aparentemente
persistia sobre Ele, entretanto, até a crucificação. Quando

93
DONALD B. KRAYBILL

os guardas O prenderam no Getsêmani, Ele lembrou ao dis-


cípulo cortador de orelhas que Ele podería chamar e uma
nuvem de anjos viría em Sua defesa. Porém Ele não o fez.
Em vez de sucumbir à religião institucionalizada, Jesus ar-
rançou até seus fundamentos. Suas parábolas traziam severo
julgamento aos líderes judeus. Ele voluntariamente violou
as leis sagradas do sábado. “Blasfemo!”, gritavam os líderes
religiosos quando Ele espantou os comerciantes do templo e
chamou o templo sagrado de covil de ladrões.
Ainda assim, Ele não desprezou completamente a reli-
gião estabelecida. Ele ensinava nas sinagogas e no templo.
Ele endossou a Torá. Ele pediu que os leprosos curados fos-
sem mostrar-se ao sacerdote, de acordo com a tradição. Ele
ordenou que Pedro pegasse um peixe para pagar o impos-
to do templo. A verdade seja dita, Ele era um judeu, um
profeta judeu aos olhos da maioria das pessoas. Ele apoiava
as virtudes da Lei e a piedade da verdadeira fé hebraica.
Ele assumiu a difícil tarefa de criticar o judaísmo estando
dentro dele.
Porém, quando as práticas religiosas se tornaram ultra-
passadas, Ele as virou de ponta-cabeça e de dentro para fora
e as colocou de volta em seu propósito original. Ele se re-
cusou a abençoar as estruturas religiosas, que classificavam
as pessoas por seus atos piedosos. Ele substituiu a maquina-
ria da religião formalizada por compaixão e amor. Jesus, o
Messias de ponta-cabeça, se tornaria o novo sumo sacerdote.
O Espírito de Deus sairía do Santo dos Santos no templo e
repousaria no coração de cada cristão. As pessoas não ado-
rariam mais a Deus no templo ou no santo monte. Agora
elas poderíam se aproximar de Deus em qualquer lugar em
espírito e em verdade (Jo 4:23). Agora o Espírito habita-
ria no templo de cada cristão. A adoração estaria liberta de
edifícios elaborados e rituais complicados. Nas palavras dos

94
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Evangelhos, “está aqui quem é maior do que o templo” (Mt


12: 6). Maior do que o templo! Tal ideia —quase impossível
de entender - era ultrajante para os ouvidos judeus.
A medida que a história se desenrolava, Jesus se tornava
o sacrifício final e definitivo. Ele seria o imaculado Cordeiro
de Deus morto pelos pecados do mundo. Jesus revelaria
os segredos da nova Torá do amor. Esta Torá acabaria com
cerimoniais de purificação e sacrifício. Ele oferecería perdão
aos pecadores diretamente de Deus, sem peregrinar ao tem-
pio ou cortar gargantas em sacrifício.
Jesus afirmou a nova religião de ponta-cabeça quando
disse a um escriba cjue ele estava perto do reino de Deus se
colocasse o amor a Deus, a si mesmo e ao próximo acima de
todas as ofertas queimadas (Mc 12:31-34). Em Jesus vemos
a religião de ponta-cabeça - sem edifícios, sem programa,
sem clero de elite. Em Jesus temos um sacrifício final, uma
oferta definitiva, um novo templo no coração de cada cristão
e uma nova Torá - a Lei do amor.
Jesus rejeitou a tentação da exibição espetacular. Ele pre-
feria o segredo messiânico - o papel do Salvador servo. Ao
longo de seu ministério, Ele demorou a revelar sua identi-
dade. Ele falou em enigmas e parábolas. Ele proibiu as pes-
soas que ele curou miraculosamente de falarem. Este não
era um Messias arrogante, que tocava trombetas. Ele não
era nenhum mágico que executava sinais especiais para que
as multidões batessem palmas. Sua própria vida era o sinal.
Cuidado com os perdidos, compaixão pelos pobres e amor
até mesmo pelos inimigos. Estes eram os sinais messiânicos.
Os novos heróis eram os desprezados da religião institu-
cional. Eles eram pecadores arrependidos, publicanos, cole-
tores de impostos confessos e meretrizes. O que dizer dos
antigos heróis - escribas, sacerdotes, fariseus e saduceus - os

95
DONALD B KRAYBILL

guardiães do ritual sagrado? Eles agora foram destronados,


trazidos para baixo, e recomendados a se tornarem como
crianças. Não é de admirar que Sua mensagem os incomo-
dasse. Não é de admirar que eles O tivessem matado.

96
CAPÍTULO 4

DESERTO
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

R ei do bem - estar
esus rejeitou o poder pomposo e a religião espetacu-

J lar, mas o diabo tinha mais uma armadilha. Jesus se-


ria um rei do bem-estar? Por que não alimentar milagro-
samente os pobres?
Jesus foi tentado a transformar pedras em pão apenas
porque Ele estava com fome? Esta interpretação pode con-
ter um pouco da verdade, mas o significado mais completo
da tentação está na situação econômica das massas pales-
tinas. O pão simboliza o coração da vida material. Como
o núcleo de muitas dietas, ele está nas mesas refeição após
refeição, semana após semana. Na oração do Pai Nosso —“o
pão nosso de cada dia dá-nos hoje” —o pão representa as
necessidades básicas. Por meio de sua fome literal, Jesus
se identificou com os milhares de camponeses pobres cuja
existência diária girava em torno da busca por pão. Sua
fome gritando o agitou para agir em nome de outros que
compartilhavam sua dor.

99
D O N A LD B K R A V B ILL

A tentação de Jesus, no entanto, não é engolir pães de pe-


dra para aliviar o jejum de quarenta dias1. Pensar em pão O
lembrado maná de Deus distribuído gratuitamente durante
o período de quarenta anos dos israelitas no deserto. Talvez
memórias de Nazaré, Sua cidade natal, também vieram à
mente. Ele vê credores implacáveis tirando camponeses po-
bres de suas terras e um sistema de dupla tributação opri-
mindo as massas. Ele ouve os leprosos, os cegos e os pobres
- pisoteados pelos piedosos e gananciosos - clamando por
socorro. Por que não alimentar milagrosamente as massas
e dar um banquete divino a Seus seguidores? Comida de
graça certamente traria uma onda de apoio público na Gali-
leia. “Alimente-os, Jesus, alimente-os”, o tentador sussurra:
“Você tem o poder. Vá em frente. Asse o pão!”.
Até as autoridades religiosas tinham medo das massas.
A prisão noturna de Jesus foi motivada pelo medo das mui-
tidões. O próprio Jesus percebeu que uma multidão bem
alimentada podería tomá-Lo e torná-Lo rei pela força (Jo
6:15). O pão era o caminho mais rápido para o coração da
multidão. Marcos tempera o seu Evangelho com referências
a multidões (muitos milhares) seguindo Jesus. Lucas (12:1)
observa que as multidões, uma vez estavam tão apertadas,
que se pisoteavam. Nem Pilatos nem o sumo sacerdote po-
diam neutralizar o frenesi contagioso da turba. Alimentar
as multidões oferecia a Jesus um atalho para assegurar seu
apoio político.
A tentação do pão envolveu mais do que um abuso de
poder. Ela reduziría o Deus encarnado a um rei do bem-es-
tar. Os pensamentos tentadores fluem: “Diminua a pobreza
deles sem sofrer. Deixe que as autoridades religiosas conti-
nuem com sua idolatria. Não pregue o juízo de Deus sobre
os gananciosos —apenas distribua pão aos famintos. Não cri-
tique a injustiça econômica, o templo e o controle romano

100
0 REINO DE PONTA CABEÇA

—apenas jogue pão aos pobres camponeses galileus e deixar


a vida seguir”. Essas sugestões diabólicas teriam reduzido os
seres humanos a organismos sem alma —a simples animais
comedores de pão.

M uito rico e muito pobre


A maioria dos membros das sociedades desenvolvidas
pertence a uma grande classe média. Em grande contraste, a
Palestina do primeiro século tinha basicamente duas classes
econômicas: alta e baixa2. Nas sociedades camponesas base-
adas na agricultura, noventa por cento ou mais das pessoas
são geralmente camponeses pobres. A riqueza é baseada na
propriedade da terra, mas grande parte dela é mantida por
ricos proprietários ausentes.
Assim era na Palestina. Uma pequena classe alta repre-
sentava dez por cento ou menos da população. Eram os do-
nos das terras, os aristocratas hereditários; burocratas desig-
nados, líderes dos sacerdotes, comerciantes, funcionários do
governo e vários servidores oficiais que atendiam às necessi-
dades da classe governante. O resto das pessoas —provável-
mente noventa por cento ou mais - estavam na classe baixa.
A maioria era de camponeses pobres vivendo precariamente,
apenas com o suficiente para sobreviver. Eles estavam à mer-
cê do clima, da fome, da peste, dos bandidos e da guerra.
Havia algumas camadas dentro da classe baixa. Perto do
topo havia artesãos, carpinteiros, pedreiros, pescadores e co-
merciantes3. A maioria, no entanto, eram agricultores. Al-
guns eram agricultores arrendatários ou meeiros em grandes
propriedades de donos ausentes. Outros ainda trabalhavam
por diárias, onde surgisse trabalho. No fundo da classe baixa
estavam as ocupações “impuras”, como o curtimento de cou-
ro. No fundo do fundo estavam os desterrados - camponeses

101
DONALD B. KRAYBIU

forçados a sair de suas terras, errantes vagabundos, mendi-


gos e leprosos. Esses baixos e desprezados eram cerca de dez
por cento da classe camponesa.
Na Galileia, onde muito do ministério de Jesus acon-
teceu, a classe média também não existia. Um historiador
descrevendo a Galileia diz: “Pode-se concluir com seguran-
ça que existiam tanto os extremamente ricos como os mi-
seravelmente pobres, sendo estes últimos a maior parte do
povo”4. As parábolas e as palavras de Jesus assumem um
sistema de duas classes, dos ricos e dos pobres. Apesar de
muitas pequenas distinções, uma realidade rígida dominava
a paisagem econômica: os poucos viviam no luxo enquanto os
muitos viviam na pobreza. A grande classe média das socie-
dades capitalistas modernas simplesmente não existia.

A ristocratas de pelúcia
Jerusalém era mais do que um alto pico religioso —ela se
elevava acima do país em prestígio social e econômico. Uma
aristocracia de elite, incluindo líderes dos sacerdotes, ricos
proprietários de terras, comerciantes, cobradores de impos-
tos e saduceus, chamavam Jerusalém de casa\A classe alta -
os proprietários de terra que viviam do seu aluguel, artistas
habilidosos, comerciantes inteligentes e poetas -todos iam
para a cidade do grande templo.
A extravagância escorria da elite afluente. Amarrações de
ouro prendiam os ramos de palma que eles levavam para fes-
tividades. Eles traziam ofertas de primícias em vasos de ouro
no dia de Pentecostes. Uma ordenança municipal proibia de
cobrir seus filactérios com ouro. Conta-se que dois homens,
sabendo disso apostaram o equivalente a mais do que o sa-
lário de um ano para ver quem conseguiría irritar um dos
principais rabinos. A evidência arqueológica documenta o

102
0 REINO DE PONTA CABEÇA

rico estilo de vida da pequena classe aristocrática que vivia


na cidade alta de Jerusalém, adjacente ao templo6.
Muitos dos ricos em Jerusalém derivaram sua riqueza de
vastas propriedades de campo cultivadas por escravos, homens
contratados ou arrendatários. Um dos chanceleres de Herodes
possuía uma aldeia inteira. Dizia-se que outra pessoa tinha
herdado 1.000 aldeias, 1.000 navios e tantos escravos que eles
sequer conheciam o seu mestre. De acordo com os sábios, um
homem rico era aquele que tinha cem vinhas, cem campos e
cem escravos. Alguns dos artistas especiais que trabalhavam
no templo recebiam o equivalente a 300 dólares por dia. Tra-
balhadores não qualificados em Jerusalém recebiam comida e
cerca de vinte e cinco centavos por dia.
No Dia da Expiação, todos precisavam andar descalços.
Para proteger seus pés, a esposa de um sumo sacerdote for-
rou o caminho de sua casa para o templo. Uma atitude es-
nobe permeava a elite de Jerusalém. Eles não assinariam um
documento como testemunha, a menos que as outras teste-
munhas também o fizessem. Eles só aceitavam convites para
jantar se os demais convidados correspondessem ao seu alto
status. A arrogância impedia a elite de se misturar com pes-
soas comuns, exceto para empregá-las como servas.
Os ricos davam grandes dotes quando suas filhas se casa-
vam. De fato, um dote chegou a exceder um milhão de de-
nários de ouro, o equivalente financeiro hoje a um milhão de
dias de trabalho. No caso improvável de um camponês po-
bre se casar com um urbanita, os pobres tinham de pagar
enormes somas. Um homem da aldeia que tomou uma noiva
de Jerusalém foi obrigado a dar o seu peso em ouro como um
presente de noivado. Uma noiva do campo também trouxe
seu peso em ouro a seu noivo da cidade. José de Arimateia
(Mt 27:57), amigo de Jesus é um homem rico, sem dúvida
pertencia a esta rica crosta superior. Jerusalém também ti-

103
DONALD B. KRAYBILL

nha uma classe média considerável de comerciantes e arte-


sãos, bem como muitos pobres.

H p ra 4.1 Dtaribuiçâo aprodm ada das dasses sóooecooómécas da Palestina antiga

AS MASSAS POBRES
No campo, a maioria das pessoas era pobre. As massas
pobres eram chamadas de “pessoas da terra”. Havia um tem-
po em que isso significava simplesmente pessoas comuns,
que moravam fora da cidade. Mais tarde, tornou-se um rótu-
lo colocado naqueles que não observavam as leis religiosas7.
Os fariseus, para evitar o contato com as “pessoas da terra”,
se recusavam até a comer com elas. Os religiosamente des-
cuidados eram tão desprezados que não podiam testemunhar
no tribunal nem ser o guardião de um órfão. Os fariseus

104
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

não se casavam com eles e consideravam suas mulheres um


parasita imundo.
Galileia, a cerca de novenra e cinco quilômetros ao nor-
te de Jerusalém, era o coração do povo comum. Rica em
recursos, a Galileia era a área mais densamente povoada da
Palestina. Antes do reinado de Herodes, o Grande, muitos
gentios compravam terras lá. Porém, nos anos anteriores
ao nascimento de Jesus, os imigrantes judeus estavam se
reinstalando na região. Na época do nascimento de Jesus, a
Galileia era predominantemente judaica. Herodes Antipas,
governante da área, construiu a capital de Tiberíades ao lon-
go do Mar da Galileia. A região, entretanto, ainda carregava
seu antigo estigma: “Galileia dos Gentios”.
A população da Galileia incluía um grande número de
escravos e muitos judeus que haviam absorvido um pouco
da cultura grega. A maioria dos galileus era pouco instruída
e ignorante dos detalhes da lei religiosa. Ocupados com a
própria sobrevivência, os camponeses tinham pouco tempo
para se preocupar com os minuciosos detalhes da pureza ri-
tual. As palavras sarcásticas de um fariseu mostram seu des-
prezo pelas pessoas da terra.

“Um judeu não deve se casar com a filha do


povo da terra, porque eles são animais im-
puros e suas mulheres, répteis proibidos. E
com respeito a suas filhas as Escrituras di-
zem, 'Maldito aquele que se deitar com al-
gum animal...’ (Dt 27:21) disse R. Eleazar:
alguém pode matar uma pessoa da terra em
um Dia de Expiação que acontecer em um
sábado (quando qualquer tipo de trabalho,
como matar constitui uma violação de uma
dupla proibição). Seus discípulos disseram a

105
DONALD B. KRAYBILL

ele, mestre, diga “abate” (em vez da palavra


vil matar). Porém ele respondeu que “o abate
requer uma bênção, o matar nâo”s.

Embora exagerada, essa atitude revela o despeito que os


líderes religiosos mantinham para com os pobres. O senti-
mento era mútuo, pois era dito que o “povo da terra” odiava
os estudiosos judeus mais do que os pagãos odiavam Israel.
Outro rabino, que antes era do povo da terra, disse:

“Quando eu era uma pessoa da terra, eu cos-


tumava dizer: “Eu gostaria de encontrar um
desses estudiosos, e eu o mordería como um
burro”. Seus discípulos disseram, “Você quer
dizer como um cão”. Ele respondeu: Uma mor-
dida de burro quebra o osso; a de um cão, não”.9

Foi a partir dessas pessoas retrógradas que a feroz raiva do


nacionalismo judaico estourou alguns anos após a morte de
Jesus. Este fervor revolucionário, dirigido aos romanos que
ocupavam a região, também se dirigia aos ricos aristocratas
de Jerusalém que cortejavam os romanos. Nazaré, no cora-
ção da região das pessoas da terra, era a casa de Jesus. Estava
situada numa fértil área agrícola da Galileia, que também
exportava peixe. As massas de Nazaré viviam na pobreza.
A maioria tinha de viver com apenas uma muda de roupas.
Havia até um provérbio que “as filhas de Israel são bonitas,
mas a pobreza as faz repulsivas”.
O fermento social na Galileia do primeiro século foi agi-
tado não apenas pelo governo romano e pelo nacionalismo
patriótico, mas também pela dura economia. Os impostos
eram altos durante a época de Herodes o Grande, embora

106
0 REINO DE PONTA CABEÇA

muito do dinheiro fosse canalizado para o magnífico templo


em Jerusalém e consagrado a Deus. Na morte de Herodes,
uma delegação de judeus queixou-se ao imperador romano
que Herodes retirou muito de sua riqueza confiscando terra
e os bens de pessoas comuns. Herodes pode, de fato, ter pos-
suído de dois terços à metade do seu reino10.
Grande parte da Galileia era dividida em grandes proprie-
dades de ricos comerciantes e saduceus que viviam em Je-
rusalém, bem como proprietários gentios em outros países.
As parábolas de Jesus se referem a proprietários ausentes que
colocam um mordomo sobre suas propriedades e servos. Al-
guns camponeses possuíam pequenas parcelas de terra, mas o
aumento de dívidas muitas vezes os expulsava de suas terras.
Eles eram forçados a hipotecar suas propriedades para pagar
impostos que equivaleríam, às vezes, a metade de sua colhei-
ta. Coletores de impostos e donos de imóveis arrancavam,
então, a terra de camponeses endividados, que não podiam
pagar suas contas. Nas sociedades agrárias, como na Palestina,
o governante e os cinco por cento mais ricos muitas vezes con-
trolavam até sessenta e cinco por cento da riqueza nacional".
As famílias camponesas, muitas vezes, ficavam presas na
trama, recebendo apenas pelo dia trabalhado para proprietá-
rios ricos e ausentes. Um escritor descreve sua situação.

“Em poucas décadas, pequenos e médios 10-


tes de terra haviam desaparecido, enquanto
as propriedades possuídas pelo templo e a
coroa imperial cresceram em grande propor-
ção... Impulsionados pela miséria, muitos
camponeses abandonaram as suas terras e se
juntaram a bandos de ladrões que sobrevi-
viam de pilhagem e viviam em cavernas nas
montanhas”12.

107
DONALD B. KRAYBILL

A R eceita F ederal romana


A pobreza foi intensificada por um duplo sistema de im-
postos: civil e religioso. E impossível calcular a proporção
exata de impostos. A maioria dos estudiosos concorda, no
entanto, que de 30 a 60% da renda anual do camponês aca-
bava nas mãos de diversos cobradores de impostos e credo-
res13. A mordida total dos impostos era muito pior do que a
carga tributária nos países desenvolvidos de hoje. Além dos
impostos, o custo das sementes e do arrendamento deixava
muitos camponeses com apenas um décimo do que produ-
ziam para alimentação e subsistência.
A eficiente burocracia romana cobrava tributos sobre
pessoas, casas, animais, vendas, importações e exportações14.
Primeiro, um imposto sobre a terra levava cerca de um quar-
to da safra. Em seguida, a captação, ou imposto per capita,
era cobrado sobre cada homem com mais de catorze anos
e cada mulher com mais de doze anos. Os impostos eram
coletados por coletores de impostos judeus nomeados pelo
governo romano dentro das linhagens de famílias abastadas.
A polícia que acompanhava os cobradores de impostos para
assegurar e proteger os pagamentos era, por vezes, culpada
de abusos tornando mais fácil que fraude se multiplicasse.
Havia também muitas outras tarifas e taxas, incluindo
direitos de importação, pedágios e taxas de mercado. Os
cobradores dessas taxas eram conhecidos como publicanos.
Eles exploravam a ignorância do povo sobre as taxas e eram
vistos como enganadores. Os publicanos trabalhavam para
alguém semelhante a um “auditor fiscal” que supervisionava
a arrecadação de impostos de um grande distrito. O auditor
pagava aos romanos a maior parte das taxas do seu distrito.
A maioria dos auditores de impostos era judia que trabalha-
va para os romanos. Os auditores de imposto recolhiam os

108
a REINO DE PONTA CABECA

impostos romanos, adicionando então suas próprias taxas. O


mercado de produtos agrícolas em Jerusalém, por exemplo,
foi dado a um “auditor” que taxava os comerciantes de pro-
dutos. Zaqueu era provavelmente um auditor de imposto.
A mordida dos impostos romanos irritava muitos no tem-
po de Jesus, porque eles não eram mais usados para recons-
truir o templo, como haviam sido sob o comando de Herodes,
o Grande. Agora os impostos judeus estavam financiando um
exército estrangeiro e os luxos de um império distante.
Visto que os judeus nunca consideraram o domínio roma-
no como legítimo, muitos consideravam os impostos roma-
nos como um roubo direto. Eles viam governantes gentios
na Palestina como ladrões sem direitos sobre a terra ou seu
povon . Na verdade, os rabinos não faziam distinção entre
cobradores de impostos e ladrões. Até mesmo os Evangelhos
retratam coletores de impostos como pecadores. A tributa-
ção era tão opressiva que a Síria e a Judeia imploraram a
Roma uma redução. Depois que os judeus zelotes tomaram
o controle de Jerusalém em 66 dC, eles queimaram todos os
registros de dívida nos arquivos de Jerusalém na esperança
de evitar retaliação futura pelos ricos.

A R eceita F ederal divina


Além dos impostos romanos, a lei judaica prescrevia cer-
ca de vinte tipos de dízimos e ofertas religiosas. Os homens
judeus com mais de vinte anos pagavam um imposto do
templo todos os anos. O equivalente a dois denários, ou dois
dias de salário, esse imposto de meio Shekel (ou ' Siclo’)
era devido no início da Páscoa, em cada primavera. Poucas
semanas antes da Páscoa, os coletores de impostos viajavam
para distritos periféricos para arrecadar o imposto daqueles
que não iriam a Jerusalém para a festa. Em Mateus (17:24),

10 9
DONALD B. KRAYBILL

esses coletores pediram a Pedro o imposto de meio Siclo.


Usado para operar e manter o templo, este imposto só po-
deria ser pago com Siclos de prata de alta qualidade. O
dcnário romano, no entanto, era a moeda corrente. Adicio-
nando à carga tributária, os cambistas no templo lucravam
trocando Siclos de prata pelos denários.
Os agricultores judeus ofereciam os primeiros frutos de
suas colheitas em gratidão pela colheita vindoura. Eles tam-
bém davam um dízimo da própria colheita e um dízimo do
rebanho para sustentar os levitas. No tempo de Jesus, os
sacerdotes em Jerusalém às vezes tomavam o dízimo à força,
prejudicando os levitas. Outro dízimo sustentava os pobres;
e uma oferta adicional também era provavelmente coletada
para os pobres a cada três anos.
Os agricultores eram obrigados a deixar os cantos das la-
vouras e as espigas caídas em seus campos para os pobres.
Além disso,havia a prática do ano sabático de deixar a terra
descansar a cada sete anos. Isto “envolvia a perda de pelo me-
nos um ano e meio de produção agrícolas em cada ciclo de
sete anos —um fardo esmagador, de fato, sobre um povo que
era incapaz de guardar uma parte substancial da colheita em
qualquer ano”16. Além disso, eram necessárias contribuições
pessoais - ofertas de paz e pelo pecado - bem como ofertas
para a dedicação de uma criança. Os fariseus na época de
Jesus estavam dizimando até de ervas de seus jardins - uma
prática ridicularizada por Jesus frente à negligência deles
quanto à justiça e misericórdia (Mt 23:23).
Os dízimos e impostos religiosos não eram vistos como
ofertas espontâneas, mas como ordenanças dadas por Deus.
Não havia, entretanto, nenhuma maneira legal de impô-las.
Os impostos exorbitantes tentavam muitas pessoas do cam-
po a deixar passar o seu dízimo. Tal descuido enfurecia os
líderes religiosos, especialmente os fariseus, que viam o dízi­

110
0 REINO DE PONTA CABEQA

mo como o caminho para a santidade. Um estudioso afirma


que a pressão dos impostos romanos levou a esta ’crise de
santidade”. Isso solidificou a insistência dos fariseus na ob-
servância cuidadosa e estimulou sua repugnância para com
os camponeses que não observavam a Lei1 .De qualquer for-
ma, sem uma classe média, o dinheiro dos impostos- roma-
no e judeu -fluía para cima, beneficiando a pequena crosta
superior à custa dos pobres.

0 F ilho do C arpinteiro
Vemos Jesus crescendo neste cenário de camponeses. Di-
versos fragmentos de evidências O colocam junto aos pobres
da Galileia. Maria descreve-se como uma pessoa de “posição
baixa” em seu canto de exaltação (Lcl :48). A oferta prescrita
para a dedicação de uma criança em Jerusalém era um cor-
deiro e uma pomba. Porém,Maria e José trouxeram apenas
duas pombas, uma prática aceitável para famílias pobres e
incapazes de pagar por um cordeiro.
Embora esta evidência sugira que Jesus veio de uma fa-
mília pobre, Ele provavelmente não veio dos mais pobres
dentre os pobres. Seu pai era um artesão - um trabalhador
habilidoso, provavelmente um pedreiro, um carpinteiro ou
um artesão de carroças18. Jose provavelmente pertencia às
classes mais altas da classe pobre da Galileia - assim tam-
bém Jesus, que era um artesão. Entre os seguidores de Jesus
havia pescadores independentes e cobradores de impostos.
Assim, Jesus e pelo menos alguns de seus seguidores vieram
dos níveis mais altos do campesinato da Galileia19.
Mesmo sendo um artesão habilidoso, Jesus identificou-se
com os mais pobres dentre os pobres211. Ele disse aos Seus
entusiastas seguidores que não tinha lugar onde repousar a
cabeça. As raposas e os pássaros estavam melhores do que ele

111
DONALD B. W AYBILL

(Lc 9:58). Seus discípulos foram apanhados em um sábado


recolhendo trigo no campo. Tais grãos eram deixados para os
pobres de acordo com o código deuteronômico.
Quando questionado sobre o pagamento de impostos ro-
manos, Jesus pediu uma moeda, mostrando um bolso vazio.
Ele não ocupava nenhum cargo depois de começar Seu mi-
nistério. Assim como outros rabinos, Ele não era pago pelo
seu ensino. Ele não tinha apoio formal além da oferta dada
por várias mulheres ao longo do caminho (Lc 8: 3). Jesus
e seus seguidores eram um bando de pregadores errantes,
itinerantes que viviam com o mínimo para sobreviver. Seu
radicalismo ético levou à sua falta de moradia, às escassas
posses e à distância da família21.
Embora crescendo na Galileia marcada pela pobreza,
Jesus não se juntou aos zelosos rebeldes que endossavam a
violência para fins políticos. Os rebeldes capturavam a ima-
ginação dos mais jovens que cresceram em meio à pobreza.
Eles sonhavam que algum dia queimariam os registros de
dívidas nos arquivos de Jerusalém. Jesus certamente ouviu
a retórica revolucionária - mas deixou-a para trás. Sua men-
sagem não promoveu uma reação violenta à opressão econô-
mica. Embora desprezasse a injustiça econômica, Sua paixão
principal era a inauguração de um novo reino que lutaria
contra a pobreza de uma maneira nova.

Pão vivo
A tentação de Jesus com o pão envolvia mais do que ali-
viar a fome pessoal. Ele foi tentado a voltar à Galileia e ali-
mentar milagrosamente as massas. Não podemos pensar em
todas as dimensões do teste. Talvez Ele tenha pensado em
pegar o manto de Judas, o Galileu, e juntar-se a outros com-
batentes da liberdade para resistir aos impostos romanos.

112
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Talvez, como outros bandidos daqueles dias, Ele sonhava em


atacar os estoques de propriedades ricas. Se ele tinha um
toque milagroso, por que não o usar para alimentar as mas-
sas em um grande banquete? Por que não alcançar a justiça
econômica em uma única grande tacada?
Porém, Jesus finalmente rejeitou a opção de “viver só de
pão”. Alimentar milagrosamente o povo era uma solução de
curto prazo. A fome retornaria com a morte do padeiro mi-
lagroso. Jesus ofereceu uma nova alternativa. Sua vida, Seu
caminho, Seu ensinamento formariam um novo fundamento
para a vida. Este seria um pão permanente da vida. A me-
dida que as pessoas digerem este novo pão, ele as encherá
de novo espírito e visão;e aqueles abençoados começariam a
compartilhar seu pão material de novas maneiras.
Perto da metade de Seu ministério, Jesus alimentou os
cinco mil e os quatro mil com pães e peixes. O alimentar
surgiu de Sua compaixão pela fome da multidão (Mc 6:34;
8:2). Porém,o grande piquenique era também um sinal mes-
siânico: o próprio Jesus era o Pão vivo, o tão esperado Messias
(Mc 6-8). O partir do pão veio logo antes da cena em Ce-
sareia de Filipe, onde Pedro confessou que Jesus é o Cristo.
Alimentar a multidão não era uma manobra para estabelecer
a identidade de Jesus como um operador de milagres. Na
verdade, poucos dias depois, Jesus disse à multidão que a
única razão pela qual O seguiram foi porque foram alimen-
tados (Jo 6:26). Ele entendeu que as refeições miraculosas
não cultivavam discípulos sérios.
No entanto, ao partir o pão, Jesus revelou Sua identidade
messiânica, não como um operador de milagres, mas como
O arquiteto de um reino de ponta-cabeça. Em João 6, Jesus
declara: “Eu sou o pão da vida... O pão vivo que desceu do
céu... Quem comer deste pão viverá para sempre”.

113
DONALD B. KRAYBILL

Enquanto se preparava para uma violenta crucificação,


Jesus comeu a refeição da Páscoa com seus discípulos. En-
quanto partia o pão, Ele anunciou: “Isto é 0 meu corpo» (Lc
22:19)· Depois da ressurreição, aqueles que estavam na estra-
da de Emaús, de repente, reconheceram Jesus no partir do pão
(Lc 24: 30-31). Sua identidade messiânica como Salvador do
mundo foi revelada, não ao transformar pedregulhos em pães,
mas permitindo que Sua vida fosse partida por outros.
Quando os valores do reino de ponta-cabeça de Jesus se
tornam o pão de nossa vida, as instituições econômicas da
sociedade perdem o seu fascínio. Os ricos que aceitam o pão
eterno compartilham livremente seu pão de cada dia. Esta é
uma maneira invertida de alimentar os famintos. Não é uma
revolução de camponeses zangados, nem pães miraculosos
do céu. Pelo contrário, aqueles que têm abundância, aqueles
movidos pela misericórdia de Deus, param de acumular e
dão generosamente.
Se a forma de ponta-cabeça de Jesus puxou o tapete da
política convencional e religião, arrancou ainda mais o ta-
pete dos ricos. Vez após vez, história após história, Jesus
prega contra a injustiça econômica. “Ai de vocês que são
ricos... Bem-aventurados os que são pobres”(Lc 6:20, 24).
Seu ensino condena as práticas econômicas que pisoteiam os
pobres para beneficiar os ricos. Como veremos em capítulos
posteriores, os heróis do reino de ponta-cabeça de Jesus não
são os ricos proprietários de terras relaxando em suas Jacuzzi
em Jerusalém, mas os pobres, os mutilados e os fracos.
Jesus desafiou as três principais instituições sociais: po-
lítica, religiosa e econômica;e, como muitas vezes aconte-
ce, as três estavam entrelaçadas. Os ricos aristocratas - os
principais sacerdotes e os saduceus de Jerusalém - possuíam
grandes propriedades na Galileia, que prendiam pequenos
fazendeiros. Esta elite governante também controlava o po­

114
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

deroso tribunal supremo judeu —o Sinédrio. Este corpo, por


sua vez, supervisionava o ritual do templo e os regulamentos
religiosos. Na verdade, esta mesma crosta superior de Jeru-
salém estava em conluio com os romanos. Os ricos aceita-
vam a ocupação romana porque os protegiam dos bandidos
e apoiava o sistema que alimentava suas riquezas.
Esta elite judaica governante comemorou quando os ro-
manos acabaram com os zelosos que lutavam por liberdade.
Os líderes religiosos provavelmente faziam parte da multi-
dão que gritava: “Crucifica-O, crucifica-O”. Eles também
consideravam Jesus mais perigoso do que o líder rebelde
Barrabás. Um bandido solitário poderia ser pego de novo
e morto. Porém um novo ensinamento, um novo modo de
vida, que derrubou os padrões políticos, religiosos e eco-
nômicos, era simplesmente muito perigoso para os poderes
governamentais de Jerusalém.
Assim, a montanha, o templo e o pão simbolizam as três
instituições sociais com as quais Jesus lutou no deserto. As
tentações o convidavam a afirmar políticas corruptas, reli-
gião vazia e economia injusta. Ele estava lutando com as
grandes questões do Seu tempo.Se,de fato, a visão de Jesus
oferecia novas formas de viver para o povo de Deus, faz pou-
co sentido ver as tentações como meros atrativos pessoais.
Esta leitura das tentações nos permite apreciar a angústia de
Jesus enquanto lutava com as poderosas forças da política,
da religião e da riqueza. Também nos lembra de que, em
Jesus, Deus estava introduzindo um novo reino de ponta-
-cabeça —baseado em uma nova fonte de poder, um novo
templo e um novo tipo de pão. Passamos agora a explorar o
novo reino nos próximos capítulos.

115
ESCRAVOS
LIVRES
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O GAROTO DA CIDADE É LINCHADO


esus respondeu com um enfático “não” aos três reinos 'de

J cabeça para cima’. Porém o que era o seu reino de pon-


ta-cabeça? Marcos (1:1 5) e Mateus (4:17) relatam que após
a Sua tentação, Jesus anunciou a chegada do reino de Deus.
Lucas (4:16-30) começa seu relato descrevendo a aparição de
Jesus em Sua cidade natal, Nazaré1. Embora Mateus (13:53-
58) e Marcos (6:1-6) concordem que o público ficou ator-
doado pela aparência de Jesus, eles colocam o evento mais
tarde na sequência de Seu ministério. Lucas, no entanto, vê
maior significado neste tumulto em Sua cidade natal. Para
Lucas, o sermão inaugural de Jesus diante de rostos família-
res desvenda os mistérios do novo reino.
Chegava o momento decisivo. Jesus se colocou na fren-
te da sinagoga de sua cidade natal. O líder lhe entregou o
pergaminho. Jesus abriu em Isaías2, o povo da cidade natal
mal podia acreditar em seus ouvidos. O filho do carpintei-

119
DONALD B. KRAYBILL

ro, o menino de José, declarava que Ele era o ungido. Ele


era Deus em carne. Ele era o Messias há muito aguardado,
diante deles.
Em uma citação concisa do profeta, Jesus resumiu sua
identidade e missão.

“O Espírito do Senhor está sobre mim,


porque ele me ungiu para
pregar boas novas aos pobres.
Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos
e recuperação da vista aos cegos,
para libertar os oprimidos
e proclamar o ano da graça do Senhor”.
(Lc 4:18,19 ênfase adicionada)

Proclamar a liberdade. Libertar. Anunciar o ano aceitável


do Senhor. Estas palavras lembram algo aos judeus. As pes-
soas sabem o que Jesus quer dizer. Eles ouviram essas frases
repetidas vezes. Libertar, liberar, soltar, perdoar, restaurar.
Sim! São imagens de esperança messiânica. E disto que se
trata o Messias, “o Ungido”.
Três elementos destacam-se no uso que Jesus faz da pas-
sagem de Isaías (61: 1-2). Primeiro, Jesus revela que Ele é
o Messias. Segundo, seu papel é trazer notícias libertadoras
aos pobres, aos cegos, aos escravos e aos oprimidos. Terceiro,
esta é a proclamação do ano aceitável de Deus. Então Jesus
conclui com dinamite: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês
acabaram de ouvir’. O anúncio messiânico está vivo hoje em
sua presença. Vocês são testemunhas vivas disso. Você está
vendo isso cumprido diante de seus próprios olhos! Eu sou
muito mais do que o filho de José, Eu sou o Messias!

120
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

A reação dos amigos e vizinhos de Jesus é fascinante. À


medida que 0 impacto total de Suas palavras chegava a suas
mentes, eles ficaram atônitos. Tão atônitos que tentaram
matá-Lo, perseguindo-O até fora da cidade e empurran-
do-O de um penhasco. Por que essa reação homicida para
com o menino da cidade natal? O que Ele disse que os
incitava à violência?
Em seu simples anúncio do início do reinado de Deus,
Jesus omitiu uma frase da passagem de Isaías sobre um Dia
de Vingança quando Deus puniría os ímpios. Na verdade,
Ele contou várias histórias ao final de Seu sermão que con-
firmavam exatamente o oposto. Deus, de fato, estendería
misericórdia e libertação até aos ímpios. Este anúncio de
ponta-cabeça enfureceu a multidão (Mais adiante falaremos
mais sobre isso.).
A leitura usual do sermão inaugural de Jesus espiri-
tualiza o seu significado. Frequentemente supomos que
Jesus proclamou libertação aos cativos do pecado, deu
vista aos cegos espiritualm ente e ofereceu liberdade aos
oprimidos pela escravidão espiritual. Embora isso seja
verdade, o contexto do texto do Antigo Testamento ex-
pande seu significado arraigando-o às realidades sociais
práticas. O “ano aceitável do Senhor” refere-se ao Jubi-
leu hebraico. Assim, Jesus vincula seu papel messiânico
ao Jubileu3. O sermão é, em essência, uma proclamação
do Jubileu.
Jesus está chamando a um programa concreto de reforma
e desenvolvimento social? Os estudiosos do Novo Testamen-
to discordam sobre este ponto. Há mais concordância de que
Jesus esperava que seus seguidores abraçassem as práticas do
Jubileu4. O que é claro, no entanto, é que a visão social anun-
ciada por Jesus, de repente, recebe um novo significado na
perspectiva do Jubileu. A visão do Jubileu oferece uma estru-

121
DONALD B. KRflYBILL

tura interpretativa, uma metáfora que nos permite compreen-


der o ensinamento e o ministério de Jesus de novas maneiras5.
Porém o que foi este Jubileu que Jesus proclamou?

U ma virada para os H ebreus


Três livros - Êxodo, Deuteronômio e Levítico - descrevem
a visão do Jubileu. Estamos familiarizados com um ciclo se-
manal de seis dias de trabalho seguido por um Sabbath. Esse
padrão surgiu da história da criação quando Deus descansou
no sétimo dia. O calendário hebraico, no entanto, não pa-
rou com o ciclo semanal. Ele contava seis anos de trabalho
e então comemorava o sétimo como um ano de descanso.
Este sétimo ano, ou “shemitá”, foi chamado de ano sabático.
Os estudiosos não têm certeza se o Jubileu realmente caía
no quadragésimo nono ou quinquagésimo ano; de qualquer
forma, o ano do Jubileu celebrava 0 final do sétimo período
de sete anos.
Para resumir:

O sábado encerrava uma semana de seis dias.


O ano sabático encerrava uma “semana” de
seis anos.
O Jubileu encerrava uma “semana” de ciclos
sabáticos.
O termo Jubileu significa “chifre de carneiro”. Um chifre
especial, tirado de uma cabra de montanha, era soprado no
Dia da Expiação. Isto assinalava o início das festividades do
Jubileu. Os sacerdotes sopraram o chifre especial apenas no
ano do Jubileu. Outros anos usavam um chifre de carnei-
ro comum. Os anos sabáticos e Jubileus estabeleciam um
ritmo cronológico para a sociedade hebraica. As vibrações
deste ritmo poderíam virar a vida social de ponta-cabeça.

122
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Em resumo, três reorganizações eram esperadas no sétimo


ano, ou ano sabático.

• A terra era dado um descanso no sétimo ano. As la-


vouras não deveríam ser plantadas ou colhidas. Plan-
tas que crescessem sem ser plantadas deveríam ser
deixadas para os pobres. O Senhor prometeu um ren-
dimento abundante no sexto ano, grande o suficiente
para o sexto e o sétimo ano. Como um descanso sabá-
tico após seis dias de trabalho, esta prática garantia à
terra descanso depois de seis anos de produtividade
(Ex 23:10-11, Lv25:2-7).

• Os escravos eram libertos no sétimo ano. Algumas pes-


soas se tornavam escravas por causa do aumento das
dívidas. Depois de trabalhar durante seis anos como
servo, 0 Jubileu os libertava no sétimo ano. Não está
claro se os escravos sempre eram libertados no ano sa-
bático, mas a expectativa de libertá-los após seis anos
de trabalho aparece em várias passagens (Ex21:1-6,
Dt 15:12-18).

• As dívidas eram apagadas no ano sabático. Uma vez


que Israel tinha uma economia agrícola, as dívidas
eram, sobretudo empréstimos a pessoas carentes, não
comerciais. Cobrar juros sobre empréstimos a outros
hebreus era proibido. A maior de todas as dívidas
também era cancelada no ano sabático (Dt 15:1-6).

• O quinquagésimo, ou ano do Jubileu, trazia uma


grande mudança. A posse de terrenos voltava aos pro-
prietários que o detinham no início do período de cin-
quenta anos.

123
DONALD B. KRAYBILL

“E santificáreis o ano quinquagésimo, e apre-


goareis liberdade na terra a todos os seus mo-
radores; ano de Jubileu vos será, e tornareis,
cada um à sua possessão, e cada um à sua fa-
mília. ” (Lv 25:10)

Esta virada dos cinquenta anos ajudava a preservar o pa-


drão original de propriedade da terra. O Jubileu impedia
que os barões gananciosos comprassem mais e mais terra à
custa dos pobres. Embora a terra tenha sido comprada e ven-
dida durante os quarenta e nove anos, o Jubileu restaurava
a propriedade da terra pelo menos uma vez a cada geração.
Os hebreus realmente não compravam a terra nesse intervalo
de tempo; eles compravam seu uso. À medida que o Jubileu
se aproximava, o custo do uso da terra caia porque as taxas
eram calculadas de acordo com o número de colheitas que
restavam antes do Jubileu (Lv 25: 13-16).
É difícil saber quão cuidadosamente as práticas
sabáticas e o Jubileu eram seguidos. Referências históricas
fora das Escrituras sugerem que a prática de deixar a terra
ociosa no ano sabático continuou até a destruição do templo
em 70 dC e, talvez, até mais tarde. Não é certo, no entanto,
quantas vezes os escravos, dívidas e terras foram restaura-
dos. Algumas evidências sugerem, pelo menos, a observân-
cia parcial dessas práticas. Durante o reinado de Zedequias,
antes de Jerusalém cair diante da Babilônia em 586 aC, os
ricos libertaram seus escravos, mas logo os recapturaram.
Jeremias irritou-se com sua desobediência:

“Mas, agora, vocês voltaram atrás e profanaram


o meu nome, pois cada um de vocês tomou de
volta os homens e as mulheres que tinham li-
bertado. Vocês voltaram a escravizá-los.

124
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Portanto, assim diz o Senhor: Vocês não me


obedeceram; não proclamaram libertação
cada um para o seu compatriota e para o seu
próximo. Por isso, eu agora proclamo liberta-
ção para vocês, diz o Senhor, pela espada, pela
peste e pela fome. Farei com que vocês sejam
um objeto de terror para todos os reinos da
terra.” (Jr 34:16,17)

Jeremias viu a violação sabática como uma das razões


para a destruição iminente de Jerusalém (Jr 34:18-22).
Em torno de 423 aC, Neemias (5:1-13) repreendeu o
povo por não ter observado o Jubileu depois de voltar do
cativeiro. Ele disse aos nobres e oficiais para libertar seus
escravos e devolver as terras aos seus proprietários originais.
Nos últimos capítulos de Ezequiel, o profeta pede que se
restabeleça o Jubileu (Ez 45:7-9; 46:16-18).
Embora muitos estudiosos pensem que a reforma agrária do
Jubileu nunca foi praticada, outros acreditam que era periodica-
mente observada. Há uma evidência mais firme de que as dívidas
eram perdoadas. Um líder fariseu, Hillel, que vivia na época do
nascimento de Jesus, iniciou uma prática legal chamada prosbuf’.
Este procedimento legal terminava com efeito devastador de can-
celar a dívida a cada seis anos. Os credores demoravam a empres-
tar dinheiro quando sabiam que o próximo ano sabático acabaria
com seus empréstimos. Em suma, as pessoas se recusavam a em-
prestar dinheiro porque nunca iria vê-lo novamente. A prosbul
permitia que os credores depositassem um certificado junto aos
tribunais quando os empréstimos eram feitos. Este documento
impedia que as dívidas fossem apagadas no ano sabático. Aqueles
que recebiam o empréstimo então sabiam que suas dívidas se-
riam obrigatórias, apesar do ensino sabático.

125
DONALD B. KRAYBILL

A necessidade do prosbul para contornar o sabático sugere


que as dívidas estavam realmentesendo canceladas. Apesar
da prática errática, o sábado e o Jubileu foram importantes
marcadores simbólicos do tempo hebraico. Acima de tudo,
incorporavam valores teológicos fundamentais.

P irâmides niveladas
Mais importantes do que os detalhes do Jubileu são os prin-
cípios teológicos que o sustentam. Não pode haver dúvida de
que a visão do Jubileu causava uma perturbação social, por agi-
tar a ordem social. Como o modelo social para o povo de Deus,
o Jubileu abordava três fatores que podem gerar desigualdade.
(1) 0 controle da terra representa o acesso aos recursos naturais.
(2) A propriedade dos escravos simboliza o trabalho humano
necessário para a produção. (3) Emprestar e tomar emprestado
dinheiro envolve a gestão de capital e crédito.
O uso e a distribuição desses recursos - naturais, huma-
nos e financeiros —pendem para o equilíbrio da justiça em
qualquer sociedade. No mundo moderno, a tecnologia tor-
nou-se uma quarta variável na equação. Ao controlar esses
recursos, algumas pessoas se tornam ricas enquanto outros
caem na pobreza. Seis princípios do Jubileu destacam a visão
divina para o velho problema da injustiça social.
(1) Propriedade Divina. Uma mensagem ousada reverbe-
ra através das Escrituras do Jubileu: Deus possui os recursos
naturais e humanos.
Por que a terra não deveria ser vendida perpetuamente?
“Porque a terra é minha” (Lv 25:23).
Por que os escravos devem ser libertos periodicamente?
“Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não
serão vendidos como se vendem os escravos” (Lv 25:42;55).

126
0 REINO DE PONTA CABEÇA

A terra e o povo são do Senhor! Não devemos abusar


deles. Nós que controlamos a terra e as pessoas não somos
donos. Somos mordomos responsáveis perante Deus, o verda-
deiro dono. Não nos atrevemos a usar a terra e as pessoas
de forma egoísta para construir pirâmides econômicas, criar
dinastias sociais ou alimentar egos gananciosos. Dar à ter-
ra um descanso no ano sabático ou sétimo se encaixa nesta
compreensão. Uma vez que a terra é do Senhor, não deve ser
abusada. No sétimo ano, ela é devolvida a Deus, seu Dono
original. Uma teologia de mordomia está por trás a toda a
visão do Jubileu. Recursos naturais, humanos e financeiros
são, muito simplesmente, de Deus. Estes recursos são nossos
somente em empréstimo. Como mordomos de curto prazo
deles, somos responsáveis perante Deus por seu uso e cuida-
do apropriados.
(2) Libertação de Deus. Por que o povo de Deus foi cha-
mado para participar dessa visão incomum? Por que o povo
deveria perdoar dívidas, libertar escravos e restaurar as ter-
ras? Seria uma concepção humana para evitar a rebelião e
a revolução?
De modo nenhum. A libertação de Deus é o princípio
da motivação. O ato decisivo de Deus no êxodo do Egito
fornece a base teológica para o Jubileu. Que ninguém se
esqueça: “Lembre-se de que você foi escravo no Egito e que
o Senhor, o seu Deus, o redimiu. E por isso que hoje lhe dou
essa ordem.”(Dt 15:15). “Eu sou o Senhor, o Deus de vocês,
que os tirou da terra do Egito para dar-lhes a terra de Canaã
e para ser o seu Deus.” (Lv 25:38).
Em outras palavras, Deus está dizendo: “Durante 450
anos você trabalhou como escravo carregando tijolos para
os mestres egípcios. Não muito tempo atrás vocês eram es-
cravos açoitados e punidos. Você também clamou por liber-
dade. Porém eu, o Senhor o seu Deus, intervim em vosso

127
DONALD B. KRAYBILL

favor. Eu os libertei da escravidão do Faraó. Libertei vocês da


escravidão e os trouxe de volta à Terra Prometida”.
Vez após vez a memória dos atos libertadores de Deus
brilha nas páginas da Sagrada Escritura.
(3) Resposta do Jubileu. O Jubileu foi uma resposta à
graciosa libertação e livramento de Deus. À medida que
o povo recordava como Deus os libertava da escravidão,
sua feliz resposta era passar essa liberdade perdoando dí-
vidas, libertando escravos e devolvendo a terra. Para nos-
sas mentes, liberar um escravo soa como um ato nobre,
mas a prescrição do Jubileu não parava com um tapinha
nas costas de justiça-própria. Simplesmente libertar um
escravo não era suficiente. “
E, quando 0 fizer, não o mande embora de mãos vazias.
Dê-lhe com generosidade dos animais do seu rebanho,
do produto da sua eira e do seu lagar” (Dt 15:13-l4a; ên-
fase adicionada).
Por que tal generosa misericórdia? Não basta libertar 0
escravo? Por que essa dose extra de bondade?
O texto bíblico é claro. “Dê-lhe conforme a bênção que o
Senhor, o seu Deus, lhe tem dado.” (Dt 15: 14b).
Como Deus liberalmente redimiu você do Egito, assim
você deve graciosamente libertar seus irmãos e irmãs.
Os atos de justiça social do Jubileu não são motivados
por medalhas divinas de mérito. Eles são a resposta natural
e alegre às boas novas da libertação de Deus.
(4) A compaixão do Jubileu. A resposta do Jubileu tem um
olho na história, nos atos graciosos de Deus de libertação e
o outro olho nos menos afortunados. O comportamento do
Jubileu responde aos atos de Deus na história e ao clamor
daqueles que são esmagados pela injustiça social. A visão dos

128
0 REINO DE PONTA CABEÇA

marginalizados pisoteados, de acordo com os escritos bíblicos,


deve lembrar os hebreus de sua própria escravidão no passado.
Os pobres são a razão pela qual a terra fica em repouso.
Deus ordena que, “mas no sétimo deixem-na descansar sem
cultivá-la. Assim os pobres do povo” (Ex 23:11).
Deus promete que “Assim, não deverá haver pobre al-
gum no meio de vocês... contanto que obedeçam em tudo ao Se-
nhor, ao seu Deus, e colocarem em prática toda esta lei que hoje lhes
estou dando."(ênfase adicionada). Então Deus prossegue: “não
endureçam o coração, nem fechem a mão para com o seu
irmão pobre.
Ao contrário, tenham mão aberta e emprestem-lhe libe-
ralmente o que ele precisar.

Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu ir-


mão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de
sua terra.” (Dt 15: 4-5, 7-8, 11, ênfase adicionada).
Deus adverte o povo a não recusar empréstimos aos po-
bres apenas porque o ano sabático está próximo. O que eles
emprestam pode não voltar por causa do cancelamento sabá-
tico; ainda assim”.
Dê-lhe generosamente, e sem relutância no coração; pois, por
isso, o Senhor, o seu Deus, o abençoará em todo o seu trabalho
e em tudo o que você fizer.” (Dt 15:10, ênfase adicionada).
Há uma dupla motivação no perdão do Jubileu: uma res-
posta graciosa à libertação de Deus e olhos compassivos que
veem a dor humana.
(5) Revolução de ponta-cabeça. O Jubileu prevê uma revo-
lução social, mas é certamente uma revolução única. As re-
voluções costumam entrar em erupção na parte de baixo da
pirâmide social. Camponeses explorados, irritados por sua

129
DONALD B. KRAV8ILL

opressão, agarram forquilhas ou metralhadoras e atacam os


ricos opressores. Se bem-sucedidos, eles tomam o poder.
Mais frequentemente, eles são esmagados. Motivados pela
raiva, os revolucionários bem-sucedidos de hoje, muitas ve-
zes, se tornam os opressores de amanhã, enquanto continu-
am a usar as mesmas armas de violência.
O Jubileu é revolução de ponta-cabeça. Aqui a chama da re-
volução queima do topo. A graça de Deus move aqueles em lu-
gares de poder, os ricos e influentes. Eles agora olham com olhos
compassivos e se juntam ao Jubileu, redistribuindo recursos na-
turais e humanos. Tal generosidade aplana as pirâmides socioeco-
nômicas à medida que aqueles que estão no topo começam a dar
livremente aos outros como Deus lhes deu livremente.
(6) Graça institucionalizada. O conceito do Jubileu está
enraizado em uma consciência aguda do pecado humano e
da ganância. Sem controles sociais, as pirâmides econômicas
aumentam. Sem restrições e nivelamento periódico, os fra-
cos na parte inferior são afundados na lama. As sociedades
devem ter disposições especiais para defender e proteger os
desamparados. Sem isso, o poder e a riqueza se acumulam
nas mãos da elite.
O Jubileu é um esplêndido exemplo de um plano social
- sim, institucional - para colocar freios no desejo e na am-
bição pessoais. A benevolência não pode ser deixada apenas
para os caprichos e desejos pessoais dos ricos. Alguns dons
pessoais não alterarão as estruturas malignas que perpetuam
a opulência à custa dos pobres. O Jubileu nivela as pirâ-
mides da vida social fazendo da justiça uma nova regra da
prática econômica.
A visão do Jubileu não esmaga a iniciativa individual.
Ela não exige vida com unitária nem prescreve igualdade
legalista. Ela coloca as aspirações pessoais em seu lugar, mas

130
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

sabe que tais coisas facilmente saem de controle. Assim, sa-


biamente, exige mudanças estruturais em intervalos regula-
res para igualar as disparidades que, de outra forma, corre-
riam desenfreadas. Como vimos, a Bíblia entende tal graça
institucionalizada como uma resposta à graça de um Deus
que já tomou a iniciativa. A graça divina provoca mudanças
econômicas.
No verdadeiro modelo bíblico, o Jubileu integra dimen-
sões espirituais e sociais. Ele tece a religião e a economia em
um mesmo tecido. Colocando-as, assim, juntas sob a verda-
de bíblica, que mantém a vida espiritual e econômica juntas.

E nquanto isso, em N azaré .


Boas notícias para os pobres. Libertação para os prisionei-
ros. Visão para os cegos. Liberdade para os oprimidos. O ano
aceitável de Deus! As velhas palavras soam com um novo
significado quando Jesus as cita na cidade natal de Nazaré.
Alguns estudiosos do Novo Testamento acreditam que Jesus
pode ter realmente pregado estas palavras em um ano sabá-
tico7. Um estudioso até argumenta que foi o próprio ano do
Jubileu, mas isso é incerto8.
De qualquer forma, o contexto do Antigo Testamento
embeleza o uso que Jesus faz dessas palavras. Agora elas nos
atingem com um novo significado. A palavra hebraica para
a liberdade é usada apenas sete vezes no Antigo Testamento
- mas cada vez com o ano da liberdade9. O significado literal
do Jubileu era certamente uma boa notícia em Nazaré. Os
pobres poderíam dizer adeus às suas dívidas. Aqueles que
foram levados à escravidão por causa de dívidas poderíam
agora voltar para casa. Os camponeses forçados a vender as
terras, as veriam devolvidas à sua família. Não há dúvida
sobre isso - era uma notícia muito boa!

131
DONALD B. KRAYBILL

Porém há mais. Jesus não estava apenas fazendo outra pro-


clamação do Jubileu. “O Senhor me ungiu”, era um anúncio
messiânico. E notavelmente semelhante à resposta de Jesus
quando os discípulos de João perguntaram se Ele realmente
era o Messias. Jesus não disse sim ou não (Lc 7: 22-23). Ao
invés disso, Ele disse que “os cegos vêem, os aleijados andam,
os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são
ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;
Estas são exatamente as mesmas pessoas que Jesus men-
ciona em Nazaré.
Esta não é a primeira vez que tal lista aparece. Na verda-
de, encontramos o mesmo catálogo nas profecias messiânicas
de Isaías (29:18, 35:5 e 61:1). O que essas imagens signifi-
cam? São todas descrições muito antigas da cultura oriental
para 0 tempo da salvação, quando as lágrimas, a tristeza e o
luto acabarão10. Jesus nos surpreende acrescentando leprosos
e mortos à lista dos salvos. Ambos estão ausentes nas pas-
sagens de Isaías. Ouvintes alertas na sinagoga naquele dia
teriam ouvido Jesus usando estas palavras de código messi-
ânico da Escritura. Eles o teriam ouvido dizer: “O Messias
está aqui\ A salvação está surgindo. O reino de Deus está pró-
ximo. Não está mais longe nas nuvens. A presença de Deus
entrou no meio de vocês agora. Está acontecendo diante de
seus próprios olhos\”.
O tema da restauração reúne o Jubileu, o sermão de Jesus
em Nazaré e Sua resposta aos discípulos de João. As coisas
serão restauradas, devolvidas ao seu estado original. Imagens
do paraíso —sem dívidas, sem pobreza, sem escravidão —bri-
lham a frente. Essas imagens do jardim nos levam de volta
ao Gênesis e à criação. Promover a visão Jubileu irá restaurar
as coisas para a sua perfeição original do jardim.
A fala sobre o Jubileu também esclarece o papel do Mes­

132
0 REINO DE PONTA CABEÇA

sias, Aquele que anuncia a libertação por Deus. O Messias


nos faz livres, perdoando nossas dívidas, redimindo nossos
pecados. Jesus Cristo nos remonta à imagem de Deus. Ele
quebra as cadeias do pecado. Nossos olhos são abertos. As
algemas do mal caem. Esta é a verdadeira libertação. Nós
nos arrependemos e voltamos para o jardim, reacendendo a
harmonia com Deus - encontrando mais uma vez um lugar
na família de Deus.
E assim, em Nazaré, Jesus anunciou o ano aceitável de
salvação de Deus. Porém, o ponto principal dessa história
insultou o orgulho judaico quando afirmou que Deus usa-
va os gentios na história hebraica. A restauração do Jubileu
não foi apenas para os judeus. Agora, nas palavras de Jesus,
Ele restaurou todos— até mesmo os gentios. Jesus, de forma
ultrajante, ofereceu aos gentios palavras de benevolência e
graça em vez da vingança. O dia das pessoas favorecidas ti-
nha acabado. O reino do jubileu era universal; não conhecia
barreiras étnicas, nem favoritos étnicos.
Esta foi a notícia surpreendente que incitou a raiva na
multidão de Nazaré. Em vez de um dia de vingança de Deus
contra os gentios, Jesus havia anunciado um dia de mise-
ricórdia e perdão universal11. Não havia dúvida sobre isso.
Jesus, que amava os gentios, era um falso profeta. E assim
O perseguiram até fora da cidade e tentaram empurrá-Lo de
um penhasco.

133
DONALD B KRAVBILL

O hábito do J ubileu
Um ritmo redentor surge do Jubileu. Ele ecoa do jar-
dim ao túmulo vazio. Os bateristas da história sagrada dão
o ritmo de uma mensagem de quatro tempos, ou quatro
batidas,ressoando ao longo dos tempos:
Jardim - Egito —Êxodo - Jubileu
Perfeição —Pecado - Salvação —Misericórdia
Liberdade - Opressão - Restauração - Perdão.
A primeira batida nos lembra da criação perfeita de Deus.
A segunda batida lembra a opressão no Egito. A poderosa
intervenção de Deus traz restauração e salvação. Finalmente,
podemos responder à salvação de Deus, estendendo miseri-
córdia e perdão aos outros.
Uma vez éramos oprimidos. Uma vez éramos cativos. Po-
rém agora, o Jubileu nos lembra, somos devedores perdoa-
dos. Somos escravos libertos. Qual deve ser a nossa resposta?
De repente, a regra recíproca de Deuteronômio 15:14 faz
sentido: “Dê-lhe com generosidade dos animais do seu reba-
n h o ,... conforme a bênção que o Senhor, o seu Deus, lhe tem
dado.”. Jesus ecoa uma reação em cadeia. Perdoe como Eu
perdoei. Seja misericordioso como Eu tenho sido misericor-
dioso. Ame como Eu amei. Dê livremente como Eu lhe dei.
No modelo do Jubileu, a graça de Deus nos leva a per-
doar os outros. A misericórdia de Deus nos move a cancelar
dívidas. Libertamos nossos escravos porque Deus nos liber-
tou. Em suma, passamos o Jubileu a diante - estendendo
graça aos outros.
Da mesma forma que a resposta dos hebreus à libertação
de Deus tinha consequências reais, também deve ter a nossa.
Não basta sentar e refletir sobre a beleza teológica do Jubi-
leu. Temos de agir. O modelo bíblico nos chama a começar

13 4
0 REINO DE ΡΟΝΙΑ CABEÇA

a p e r d o a r n ã o só os in s u lto s in te r p e s s o a is , m a s ta m b é m os
fin a n c e iro s . N ó s b a ix a m o s os lu c ro s e a u m e n ta m o s o s sa lá -
rio s. N a s p a la v r a s d a o ra ç ã o d o P a i n o sso , “P e r d o a as n o ssa s
d ív id a s , a s s im c o m o p e r d o a m o s ao s n o sso s d e v e d o r e s .” ( M t
6 : 12 ).

D o is p o n to s se d e s ta c a m a q u i. U m d e le s é q u e a c e ita r e
c o n c e d e r o p e r d ã o e s tã o lig a d o s . S o m o s e le g ív e is p a r a re c e -
b e r o p e rd ã o d e D e u s à m e d id a q u e nos a rre p e n d e m o s e p er-
d o a m o s aos o u tr o s . A lé m d is s o , a lg u n s e s tu d io s o s o b s e r v a m
q u e a p a la v r a dívidas n a O ra ç ã o d o P a i N o s s o p o d e re fe rir-s e
a p e c a d o s o u a d ív id a s fin a n c e ira s 12. D e v e m o s p e r d o a r n ã o
a p e n a s s e n tim e n to s r u in s , m a s ta m b é m d ív id a s fin a n c e ira s ?
D e q u a l q u e r fo r m a , n o c o ra ç ã o d a O ra ç ã o d o P a i N o s s o , e n -
c o n tr a m o s o p r i n c í p i o d o J u b i l e u .

A p a r á b o la d o s e rv o im p la c á v e l ( M t 18: 2 3 - 3 5 ) t a m b é m
r e s s a lta a p o s tu r a d o J u b i l e u . U m re i p e r d o a a g r a n d e d ív id a
d e u m se rv o . O se rv o p e r d o a d o a g a r r a o u t r o s e rv o p e la g a r -
g a n t a e e x ig e o r e e m b o ls o d e u m a p e q u e n a d ív id a . Q u a n d o
o a m ig o n ã o p o d e p a g a r, o s e rv o p e r d o a d o o tr a n c a n a p ris ã o .
Q u a n d o 0 re i fica s a b e n d o isso , e le fica fu r io s o e jo g a o se rv o
p e r d o a d o n a c a d e ia a té q u e e le p a g u e a d ív id a . A h is tó r ia
t e r m i n a c o m u m a m o r a l c la r a d o J u b i l e u : “A s s im ta m b é m
lh e s fa rá m e u P a i c e le s tia l, se c a d a u m d e v o cês n ã o p e r d o a r
d e c o ra ç ã o a se u i r m ã o ” ( M t 1 8 :3 5 ).

O p r i n c í p i o d o p e r d ã o re c íp ro c o d o ju b ile u p e r m e i a o
e n s in o d o N o v o T e s ta m e n to . A s p a la v r a s d e J e s u s s o b re a
r iq u e z a d e r e p e n te fa z e m s e n tid o n o c o n te x to d o m o d e lo
J u b i l e u . N e s t e c o n te x to , se u s e n s in a m e n to s a s s u m e m u m
n o v o s ig n ific a d o . E le s n o s c o n v id a m a r e s p o n d e r d e m a n e ir a
c o n c r e ta e e c o n ô m ic a à in ic ia tiv a lib e r ta d o r a d e D e u s.

135
DONALD B. KRAYBILL

A CAUDA DOCÃO
Vimos como o Jubileu conecta as esferas espiritual e so-
cial.Embora ligadas, elas representam diferentes pontos de
partida.Na verdade, a forma como elas se engrenam tem
gerado muita controvérsia filosófica.Os cientistas sociais ar-
gumentam que nossas crenças refletem nosso ambiente ma-
terial. Eis aí a questão da galinha e do ovo. As nossas idéias
influenciam os nossos estilos de vida econômicos ou os nos-
sos estilos de vida influenciam nossas idéias?13
Filósofos e teólogos tendem a se alinhar em um lado deste
argumento. Eles afirmam que nossas crenças moldam nosso
comportamento econômico. Por outro lado, muitos cientis-
tas sociais argumentam que nossas convicções são apenas um
espelho de nosso status econômico.
No último ponto de vista, nosso segmento econômico
molda as crenças a que nos apegamos. Por exemplo, uma
pessoa nascida em uma família rica provavelmente acredita-
rá que abundância é um sinal de benção de Deus. Em con-
trapartida, aqueles nascidos na pobreza são mais propensos a
acreditar que Deus os abençoará no céu, com um belo man-
jar divino. Os camponeses que têm uma vida dura e miserá-
vel provavelmente sonharão com a futura bênção celestial de
Deus enquanto seus opressores veem o aqui e agora como já
bastante celestial.
As canções dos escravos americanos, por exemplo, enfo-
cavam a esperança futura de atravessar o tempestuoso Jordão
e entrar na Terra Prometida. Enquanto isso, seus mestres ci-
tavam versos bíblicos para apoiar sua crença em um sistema
escravocrata que os tornava ricos aqui e agora. Da mesma
forma hoje, a abundante nata da sociedade, cercada por casas
e carros luxuosos, pouco precisa de uma saída divina para
infortúnios financeiros.

136
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Está em jogo a relação entre religião e economia, realida-


de espiritual e material, nossa fé e nosso bolso. Isso levanta
a questão do cão e da cauda. E o cão que abana a cauda ou
a cauda que abana o cão? Nossa fé ‘abana’ nossa carteira,
ou nossa conta bancária ‘abana’ nossas convicções? O que
controla 0 quê? Isso simplifica demais, é claro, a complexa
relação entre carteira e piedade. No entanto, é importante
perguntar como nossa fé afeta nosso bolso.
Fatores econômicos moldam fortemente a forma como
olhamos as coisas. Nosso salário, a renda de nossos amigos,
o valor de nossa casa e nosso status social - todos esses fa-
tores afetam nosso pensamento. Eles fornecem um conjun-
to de lentes pelas quais temos nossa visão do mundo. Nós
nos apegamos a crenças teológicas que apoiam e legitimam
nosso status econômico. Nosso status financeiro filtra nossa
visão da Bíblia e nos encoraja a interpretá-la de maneira que
endossem nosso estilo de vida econômico —quer sejamos
ricos ou pobres.
Em suma, nossas carteiras muitas vezes ‘abanam’ nossas
crenças. Isso contradiz o padrão bíblico. A visão bíblica exi-
ge uma fé que abra bolsos. Forças econômicas moldam nos-
sas opiniões. Não conseguimos pular fora de nossos ambien-
tes sociais. Porém podemos ouvir e obedecer à mensagem
bíblica, que nos incita a colocar nossas decisões econômicas
sob o reinado do Rei Jesus.
O Jubileu fornecia uma solução hebraica para este pro-
blema “da cauda e do cão”. A fé em um Deus que graciosa-
mente livrou da escravidão motivava as pessoas a abrir a sua
mão de misericórdia. Os atos de salvação de Deus na história
santa moviam a comunidade a perdoar dívidas, libertar es-
cravos e devolver terra. Às vezes, os hebreus recusavam-se
a praticar o Jubileu. Sua teimosia atesta o firme domínio
das lealdades econômicas sobre a fé. O modelo bíblico, no

137
DONALD B. KRAYBILL

entanto, é claro: a fé deve mover as carteiras. Este princípio


bíblico sustenta o ensinamento de Jesus, que exploraremos
em capítulos posteriores.
A obediência cristã hoje não significa duplicar os de-
talhes históricos do Jubileu. Muitas pessoas já não vivem
numa teocracia onde a legislação civil e religiosa flui junto
sob 0 reinado de Deus. Além disso, um pequeno grupo de
cristãos não pode impor sua forma de economia a uma socie-
dade maior. Restaurar a terra aos seus proprietários originais
não ajudará as famílias que nunca possuíram a terra ante-
riormente. Os intercâmbios de terras não podem corrigir as
injustiças resultantes do acesso desigual à tecnologia, à in-
formação, ao capital e aos recursos naturais. Permitir que o
trigo fique cada sétimo ano nos campos do Nebrasca não vai
alimentar os famintos em Nova York e Bombaim. Embora
muitos dos detalhes não sejam aplicáveis hoje, os princípios
teológicos do Jubileu oferecem uma estrutura bíblica, para a
prática econômica cristã.
A visão do Jubileu entrelaça o social e o espiritual, o polí-
tico e o pessoal, o interior e 0 exterior. Ela também combina
a iniciativa de Deus com a nossa. Provocados pela libertação
divina, nós perdoamos. Assim como nós perdoamos, então
somos perdoados. Como somos misericordiosos, recebemos
misericórdia. Estas verdades estão no coração do Jubileu; e
a visão do Jubileu permeia o ensinamento de Jesus, não só
em Nazaré, mas em todo 0 seu ministério14. Misericórdia,
libertação, liberdade, compaixão, perdão. Estas são as pala-
vras-chave do Jubileu; e essas mesmas palavras energizam a
visão econômica de Jesus. Elas moldam Seu perdão ao pobre
e humilde.
A visão teológica de Jesus tem consequências sociais. O
Jubileu declara o reinado de Deus. O decreto de Deus traz
a libertação da escravidão às velhas autoridades, o perdão

138
0 REINO DE PONTA CABEÇA

das dívidas com os velhos reinos e a liberdade para aqueles


em escravidão espiritual e social. Esta graça esplêndida é o
Jubileu. E o dia aceitável do Senhor, o dia da liberdade, o dia
da salvação. E é Jesus de Nazaré quem articula e encarna isto
em Suas palavras e ações.

139
CAPITULO 6
0 REINO DE PONTA CABEÇA

J ubileu P erpétuo
'esus dá uma grande atenção à riqueza. Especialmente no
J; Evangelho de Lucas, Ele liga a conversão econômica ao
novo reino. Vamos seguir a história de Lucas com referências
cruzadas aos outros Evangelhos1.
Jesus não condena a propriedade privada. Ele não pede
uma nova comuna cristã. Contudo, Ele condena a ganância.
E, como vimos, havia muito a criticar. Jesus sustenta o mo-
delo do Jubileu como o novo caminho para seus discípulos.
Pessoas no caminho com Ele respondem ao amor gracioso de
Deus compartilhando com os necessitados em torno deles.
A riqueza não cai simplesmente do céu. Conjuntos de re-
gras sociais regulam a sua aquisição e utilização da riqueza.
Ao repreender os gananciosos, Jesus questionou as normas
econômicas de sua época, que permitiam que os ricos opri-
missem os pobres. Ele não disse que as coisas materiais são
inerentemente más. Porém Ele advertiu sobre 0 perigo. Di-
nheiro e bens materiais podem rapidamente se tornar ídolos,
que podem nos controlar e tirar o governo de Deus do trono
de nossas vidas. Começaremos explorando seis perigos de
riqueza que, segundo Jesus, podem minar nossa fidelidade
ao reino.

143
DONALD B. KRAYBILL

C uidado: 0 sufocador
Escondido na parábola do semeador está um sermão sobre
a ameaça de riquezas para os cidadãos do reino3. A semente é a
Palavra de Deus4. Seu crescimento simboliza o surgimento do
reino. A semente que cai entre arbustos espinhosos é sufocada.
“As que caíram entre espinhos são os que ouvem, mas, ao se-
guirem seu caminho, são sufocados pelas preocupações, pelas
riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem”(Lc
8:14 NVI, Marcos 4: 18-19 e Mateus 13:22). As sementes
brotam. Há crescimento e vida nova. Porém afiados espinhos
rapidamente sufocam a vitalidade. Os cuidados, riquezas e
prazeres da vida sufocam as novas plantas.
Os escritores sinóticos usam a palavra asfixiar. A vida es-
pi ritual fica amordaçada. Brotos de frutas aparecem, mas não
há colheita. Os pequenos frutos nunca amadurecem. Hoje, os
cuidados, riquezas e prazeres da vida podem incluir avanço
profissional, casas, casas de férias, férias de luxo, passatempos
exóticos, investimentos financeiros, roupas de grife, carros de
alto desempenho e muitas outras coisas. Esses prazeres da vida
podem abortar o crescimento do reino. Eles nos desviam de
nosso verdadeiro ministério e estragam a colheita.

C uidado: 0 preocupado
O ontem traz culpa. O amanhã traz preocupação. Jesus
entendeu que a riqueza gera ansiedade. Estaremos seguros
amanhã? E se um ataque terrorista tornar a economia em
um caos? E se o mercado de ações cair? Podería o alarme
contra assaltantes falhar? Ter propriedades faz com que nos
preocupemos com sua defesa e proteção. Em Lucas (12: 22-
34) e em Mateus (6:19-21, 25-33) Jesus exorta os discípulos
quatro vezes a não se preocuparem com alimentos e roupas.

144
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

“Não busquem ansiosamente o que hão de


comer ou beber; não se preocupem com isso.
Pois 0 mundo pagão é que corre atrás dessas
coisas; mas o Pai sabe que vocês precisam de-
las.Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas
coisas lhes serão acrescentadas.”Não tenham
medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado
do Pai dar-lhes o Reino.Vendam o que têm
e deem esmolas. Façam para vocês bolsas que
não se gastem com o tempo, um tesouro nos
céus que não se acabe, onde ladrão algum
chega perto e nenhuma traça destrói.Pois
onde estiver o seu tesouro, ali também estará
o seu coração” (Lc 12:29-34)

O texto grego significa “não faça esforços ansiosos para”.


Os pagãos ficam ansiosos por coisas materiais. Eles são es-
forçados. Eles estão sempre inquietos e se preocupam com
o que eles irão vestir, o que eles irão comer, onde eles irão
morar, e quanto eles irão ganhar. As nações do mundo pro-
curam estas coisas.
Não é assim com os discípulos de Jesus. Eles não se pre-
ocupam com essas coisas. Eles se concentram totalmente no
reino! Deus cuidará deles. No contexto do ano sabático, quan-
do as lavouras não eram cultivadas, essa sabedoria adquire um
novo significado. Um estudioso oferece essa paráfrase.

Se você trabalha seis dias (ou seis anos) com


todo o seu coração, você pode contar com
Deus para cuidar de você e dos seus. Portan-
to, sem medo, deixe o seu campo sem culti-
vo. Como Ele faz com os pássaros do céu, que
não semeiam ou colhem ou ajuntam em ce-

145
DONALD B. KRAYB1LL

leiros, Deus cuidará de suas necessidades. Os


gentios que não prestam atenção ao sábado
não são mais ricos do que vocês.5

No contexto do ano sabático, essas palavras não prescre-


vem preguiça; elas não são uma receita para 0 ócio. Eles nos
lembram de que a acumulação de coisas nos distrai do reino.
Jesus nos exorta a colocar nossas prioridades sobre os valores
do reino, não sobre os materiais. Quando abraçarmos sua
visão, o reino de Deus, seremos movidos pela graça de Deus
a compartilhar nossos bens com os necessitados. Os pobres
são 0 foco do discurso de Jesus. A acumulação é uma forma
pagã. Dar esmolas aos pobres reflete a forma de ponta-ca-
beça. O princípio do Jubileu surge novamente. Filhos de
um Deus amoroso respondem ao dom do reino usando suas
posses em favor dos pobres.
Esse mesmo espírito permeia as bem-aventuranças quando
Jesus nos instrui a dar àqueles que pedem e emprestar sem
esperar retorno (Lc 6: 34-35, Mt 5:42). Os lucros excessivos
não atormentam aqueles cujos corações são cativados pelo rei-
no. Quando o reino é nosso tesouro, mudamos de acumular
para compartilhar. Quando elevamos as prioridades do reino,
compartilhamos liberalmente nossa riqueza; e no processo
não só restauramos e liberamos os pobres, mas também a nós
mesmos! Nós nos libertamos da ansiedade e da escravidão da
preocupação, dos grilhões do consumo sem fim.
Nós não herdamos a preocupação. As posses trazem pre-
ocupação. Crianças saudáveis raramente se preocupam. Por
exemplo, um garoto de quatro anos, ouvindo uma música
sobre emoções, ficou intrigado. A cantora perguntou: “Com
o que você está triste?” e “Com o que você está zangado?”
Ouvindo a pergunta “Com o que você está preocupado?” A
criança foi soluçando para sua mãe e disse: “Não tenho nada

!4 6
0 REINO DE ΡΟΝΕΑ CABEÇA

com que me preocupar”. Poucos dias depois, bastante ali-


viada, ela respondeu: “Finalmente encontrei algo com que
me preocupar”. Entrar no reino como uma criança, como
Jesus nos chama a fazer, é permitir que Deus cuide de nossos
amanhãs.
Uma frase concisa do evangelho de Mateus resume bem.
“Portanto, não se preocupem com 0 amanhã, pois o amanhã
se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio
mal” (Mt 6:34). O número de contratos de seguro vendidos
a cada ano pode refletir a quantidade de ansiedade coletiva
em uma sociedade. Uma obsessão com as posses nos escra-
viza ao demônio da preocupação. Jesus nos convida a mudar
nossas prioridades, a nos concentrar no Reino e a comparti-
lhar com os necessitados.

C uidado: A quele que cega


Em uma de suas parábolas mais pungentes, Jesus fala so-
bre como as armadilhas das riquezas pode nos cegar.

“Havia um homem rico que se vestia de púr-


pura e de linho fino e vivia no luxo todos os
dias.Diante do seu portão fora deixado um
mendigo chamado Lázaro, coberto de cha-
gas;este ansiava comer o que caía da mesa do
rico. Em vez disso, os cães vinham lamber as
suas feridas.”Chegou o dia em que o mendi-
go morreu, e os anjos o levaram para junto de
Abraão. O rico também morreu e foi sepulta-
do.No Hades, onde estava sendo atormenta-
do, ele olhou para cima e viu Abraão de lon-
ge, com Lázaro ao seu lado..” (Lc 16:19-23)

147
DONALD B. KRAYB1LL

Normalmente conhecido como a história de Lázaro e do


Rico, um título melhor podería ser: “Surpreendido pelo In-
ferno”. Jesus provavelmente dirigiu essa história aos ricos
saduceus em Jerusalém que duvidavam da existência de uma
vida após a morte. Também pode ser a resposta de Jesus aos
pedidos incessantes de um sinal miraculoso.
De qualquer forma, o ensino é claro. O homem rico vive
em uma casa grande e dá festas todos os dias. Ele usa roupas
roxas finas e as roupas íntimas egípcias mais caras. Ele não era
um ladrão ou trapaceiro. Ele não ganhou suas riquezas ile-
galmente. Ele simplesmente aproveitou o sistema econômico.
Sua riqueza pode ter vindo através de herança, ligações fami-
liares ou trabalho duro. Ele era um homem honesto e decente,
talvez um saduceu, mas certamente não um vigarista.
No canto da propriedade do homem rico estava um pobre
mendigo que sofria de uma doença de pele. Lázaro, o único
personagem com nome entre todas as histórias de Jesus, sig-
nifica “Deus ajuda”6. Dia após dia, ele procura por pedaços
de pão. Os convidados do anfitrião jogam as sobras para ele
enquanto estão festejando. De acordo com o costume local,
os convidados não usavam guardanapos, mas limpavam suas
mãos pegajosas em pedaços de pão e depois os jogavam de-
baixo da mesa. A palavra grega para mendigo está relacionada
com a palavra para cuspir. Lázaro era uma pessoa “cuspida”,-
desprezada pelos qLie festejavam. O mendigo envergonhava
o homem rico e arruinava o espírito de sua festa.
Porém os cães não tinham favoritos. Eles lambiam as fe-
ridas do pobre Lázaro. Os filhotes simbolizavam os não-sal-
vos, os gentios desprezados. O momento de ponta-cabeça se
apresenta. O saduceu rico e religioso cuspiu sobre o mendigo
com desprezo. Mas os cães, dentre todos, foram aqueles que
mostraram compaixão. Em vez de cuspir, eles usaram sua
saliva para curar. Eles lamberam as feridas do pobre Lázaro.

148
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Que sarcástica e afiada lição —os cães têm mais compaixão


do que os ricos saduceus7.
De repente, à medida que a história se desenrola, o mun-
do fica de ponta-cabeça. O homem rico queima no inferno e
o velho Lázaro, em quem cuspiam, se senta à mão direita de
Abraão. Ele ocupa o lugar de honra, o lugar mais prestigiado
na congregação dos justos. O jogo virou. Em cima e embaixo
estão invertidos. Antes, Lázaro tinha ido até o homem rico,
implorando migalhas. Agora, fritando no inferno, o rico fes-
teiro vai até Lázaro e implora por uma gota de água. Ecos
do cântico de Maria chegam aos nossos ouvidos: “Encheu de
bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lc 1:53).
A mensagem é clara. O homem rico, cego pelo luxo, re-
cusou o Jubileu e enfrentou um fim abrasador. O enorme
abismo da história simboliza sua distância de Deus. O Deus
Todo-Poderoso não tinha esquecido o fraco e d esprezado
Lázaro. Porém,cuidado, esta não é uma história para confor-
tar mendigos. A parábola não pede aos pobres que aguardem
pacientemente sua recompensa no céu. Não, o final da his-
tória se concentra nos cinco irmãos ricos que ainda vivem.
No calor do momento, o homem rico sente compaixão.
Ele de repente implora a Abraão que deixe Lázaro ressuscitar
dos mortos e avisar seus irmãos. Abraão recusa. Mais uma
vez, o homem rico implora para que um mensageiro mira-
culoso se levante do túmulo e avise seus irmãos. Novamente
Abraão diz: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampou-
co se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre
os mortos “ (Lc 16: 31).
Em outras palavras, os irmãos do homem rico sabem so-
bre 0 Jubileu desde a infância. Seus ouvidos ouviram as leis
do Jubileu serem lidas em voz alta Sabbath após Sabbath na
sinagoga. A dura conclusão é óbvia. Nenhum mensageiro

149
DONALD 8. KRAYB1UL

especial avisará os ricos. O julgamento irá queimar aqueles


que se recusam ao Jubileu e zombam do reino de Deus.
Deliciosos banquetes e um estilo de vida luxuoso cega-
vam 0 homem rico. Envolvido na boa vida, ele não conseguia
ver as feridas ou ouvir os gritos de desespero nas proximida-
des. Ele estava preso em um sistema cultural que era insen-
sível à compaixão. Quanto mais grave é a cegueira daqueles
que não têm apenas Moisés e os profetas, mas também Jesus,
Paulo, e a história da igreja. Certamente, Jesus nos diria:
“Quemtêm ouvidos para ouvir, ouça”.

C uidado: 0 C hefe
Em outra parábola, Jesus nos informa que as riquezas
não só cegam, mas elas também comandam. Dominam e
ordenam nossas vidas. Um homem rico, possivelmente um
proprietário de terra ausente, tem um mordomo para geren-
ciar sua propriedade (Lc 16: 1-9)8· O proprietário da terra
ausente tem contratos com comerciantes que vendem seus
produtos. O mordomo escreve os contratos em nome de seu
chefe e inclui uma taxa de juros escondidos.
O proprietário descobre que o mordomo está dilapidando
sua propriedade. Então, o proprietário pede um inventário
completo de seus bens antes de dispensar o trapaceiro. Sa-
bendo que estava prestes a ser demitido, o mordomo perce-
be que ele enfrenta possível destruição em outros trabalhos,
como escavar ou mendigar. Ele é muito fraco para escavar
e se ele mendigar, provavelmente vai ficar doente e morrer
como um mendigo. Assim, ele prepara uma solução surpre-
endente. O mordomo perspicaz, sentindo sua iminente mor-
te, rapidamente chama os devedores de seu amo e reduz suas
dívidas. Ao descobrir a surpresa, o senhor elogia o mordomo
por sua ação rápida.

150
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Esta história deixa muitos comentaristas perplexos. A


perspectiva do Jubileu e o conhecimento das práticas finan-
ceiras da época esclarecem o enigma. No centro da história
está o fato de que o mordomo provavelmente cobrava um
juro oculto, cerca de vinte e cinco a cinquenta por cento, nos
contratos com os devedores. O comissário provavelmente ti-
nha escrito os contratos, mas não está claro se 0 juro oculto
era para ele ou para o proprietário.
O juro, considerado usura e contra a lei de Deus, era proi-
bido no Antigo Testamento. Os fariseus, entretanto, haviam
inventado maneiras de cobrar um juro oculto tolerado mes-
mo por tribunais civis judaicos. Ao emprestar grãos, vinho e
óleo, juros ocultos poderíam ser cobrados se o empréstimo não
fosse de “necessidade imediata”. A maioria dos empréstimos
não era considerada de necessidade imediata. Assim, o juro
era, de fato, tipicamente cobrado, violando a lei de Deus.
Por exemplo, se uma mulher tinha uma gota de óleo e que-
ria pegar mais óleo emprestado, o empréstimo não era de
necessidade imediata. Ela já tinha uma gota de óleo! Assim,
seu credor podería cobrar juros sobre seu empréstimo.
A regra da necessidade imediata aplicada principalmente
aos empréstimos de mercadorias como trigo e vinho. Em-
préstimos monetários eram muitas vexes transformados em
valores de mercadoria se então os juros ocultos poderíam ser
cobrados. O juro, no entanto, nunca foi escrito no contrato,
pois isso teria violado a lei de Deus.
De volta à história. O mordomo está em crise. Em breve
ele estará desempregado, sem referências. Sua reputação será
manchada. Em um beco sem saída, ele decide perdoar o juro
que tinha injustamente adicionado aos seus empréstimos dos
devedores. Provavelmente ele havia transformado os emprés-
timos em valores de produtos—óleo ou grãos —para esconder
os juros proibidos que ele cobrava para si. Ao cancelar os juros

151
DONALD B. KRAYBILL

ilegais, o mordomo perdeu uma soma considerável. Ele não


tinha o poder de perdoar toda a dívida, já que o principal era
devido ao seu senhor. “Nosso mordomo, então, emprestando
juros aos judeus era moralmente um transgressor, mas estava
legalmente seguro, contanto que seus contratos ocultassem o
fato de que o empréstimo era com usura”9.
A história começa com os mestres da animosidade
—de que os mestres desconfiam de mordomos, os comercian-
tes que odeiam os mordomos e dos mordomos que enganam
mestres e mercadores. No entanto, termina de um modo
invertido com todos felizes - os comerciantes estão satisfei-
tos com dívidas mais baixas, o mestre elogia um mordomo
por eliminar contratos desonestos e o mordomo feliz por ter
salvado seu trabalho10.
O mordomo, no final, modela a justiça perdoando dívi-
das injustas. Além disso, ao conceder favor aos devedores, ele
agora pode esperar favor em troca deles. Eles irão oferecer
hospitalidade calorosa e apoio se ele algum dia precisar. O
proprietário da terra elogia seu mordomo por seguir a lei
bíblica e agir com retidão (Lc 16: 8). Então vem a fala de
ponta-cabeça dizendo: “porque os filhos deste mundo são
mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz”
Os fariseus, supostamente os filhos da luz, haviam in-
ventado esses modos engenhosos de contornar a lei de Deus
porque eram “amantes do dinheiro”11. O mordomo mun-
dano agiu com justiça cancelando o juro. Se os fariseus não
pudessem ser fiéis em uma coisa pequena como emprestar
dinheiro, como Deus podería confiar neles para lidar com a
maior riqueza do reino?
De acordo com Lucas, a parábola do mordomo perspicaz
levou Jesus a um sermão mordaz: “Nenhum servo pode ser-
vir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se

152
0 REINO DE PONTA CABEÇA

dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir


a Deus e ao Dinheiro”(Lc 16:13). Os fariseus, amantes do
dinheiro, ouviram isso e zombaram dele.
Ainda assim, Jesus disse: “Vocês são os que se justificam
a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os
corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os ho-
mens é detestável aos olhos de Deus”(Lc 16:15).
O mordomo foi pego entre dois senhores. A lei de Deus
proibia o juro, mas a lei dos fariseus permitia. As exigências
dos dois senhores colidiram. O mordomo desonesto perce-
beu o impasse e escolheu obedecer à lei de Deus. No estilo
de ponta-cabeça, 0 vigarista se torna o herói.
Mamon, um termo aramaico, significa riqueza, dinhei-
ro, propriedade ou lucro. A verdade marcante aqui é que
Jesus vê Mamon reivindicando status divino. Em sua opi-
nião, ele compete diretamente com Deus. A riqueza, mais
do que qualquer outra coisa, pode agir como um deus. Jesus
não concede status de deidade ao conhecimento, habilidade,
aparência, ocupação, nobreza ou nacionalidade. E a riqueza,
Ele diz, que clama para nos controlar e nos dominar como
uma divindade.
Jesus não está, neste caso, atacando dinheiro ou bens, mas
a escravidão a eles - obsessão por eles. Essa é a diferença
entre entregar-se totalmente ao reino de Deus ou dedicar
paixão às posses materiais. Precisamos escolher. E impossí-
vel, diz Jesus, servir livremente a Deus se estivermos apri-
sionados pela riqueza.
Flutuações do mercado de ações podem se tornar nossa
obsessão. Nós facilmente ficamos absorvidos em novos dis-
positivos tecnológicos e começamos a servi-los. Como novos
brinquedos cativam as crianças, ambições materiais podem
cativar os adultos. Muito facilmente, nós também nos pros-

153
DONALD B. KRAYBILL

tramos e adoramos no altar do materialismo. O luxo começa


a manipular e ditar nossas vidas. Marnon se transforma em
um deus. Jesus afirma que não podemos servir a Deus e à ri-
queza simultaneamente. Podemos usar a riqueza para servir
os propósitos de Deus, mas isso é bem diferente de servir à
riqueza em si.
Particularmente irritante é a acumulação de riqueza sob
uma camada de propagandas piedosas. Quando Jesus puri-
ficou o templo, Ele atingiu a exploração que oprimia os po-
bres em nome da religião. “A minha casa será chamada casa
de oração para todos os povos? Mas vocês fizeram dela um
covil de ladrões”(Mc 11:17, Mt 21:13, Lc 19:46, Jo 2:16).
Os mercadores que operavam no templo não estavam agin-
do ilegalmente. Eles estavam trocando dinheiro “puro” por
ofertas e vendendo animais para sacrifícios com um lucro
alto. Eles inventaram um sistema “legal” que roubava os po-
bres. Jesus os chamou de “ladrões”, pois eles criaram um
sistema que explorava os pobres em nome de religião.
Os fariseus, engajados em sua própria versão de fraude
cobrando juro oculto, zombavam da repreensão de Jesus. Ele
declarou que a acumulação de riqueza para impressionar os
outros é uma abominação aos olhos de Deus (Lc 16:15). Bens
glamorosos, festas abundantes e grandes ativos financeiros
sobem muitos degraus na escada do sucesso. Os bens mate-
riais, no entanto, cair lá para baixo no reino de ponta-cabeça.
De acordo com Jesus, misericórdia, amor e compaixão são os
novos padrões de sucesso no reino invertido de Deus.

154
0 REINO DE PONTA CABEÇA

C uidado: O D estruidor
A riqueza pode até ter um efeito destruidor em nossas vi-
das. Jesus destaca este ponto em uma história sobre um homem
rico e tolo (LC 12: 13-21)12. Um homem na multidão corre até
Jesus e pede um conselho legal. Ele estava reclamando porque
seu irmão não queria compartilhar a herança da família. O ho-
mem implora a Jesus para repreender seu irmão mesquinho.
Jesus se recusa a mediar. Em vez disso, Ele conta uma história
sobre celeiros, pois percebe um espírito de ganância com toda a
preocupação de obter uma parcela justa da fazenda da família.
O padrão de quarenta e nove anos do Jubileu protegia
os direitos de herança dos pobres. Se a terra era devolvida
aos antigos proprietários de cada geração, uma família não
podería acumular grandes extensões. As práticas de herança
geralmente favorecem os filhos dos ricos, que recebem tudo
numa bandeja de prata. Talvez Jesus estivesse alfinetando
não apenas a ganância desse homem, mas também os hábitos
de herança, que davam a uma pessoa uma fazenda de graça,
enquanto outros não a possuíam nada.
De volta a nossa história13. Um agricultor goza de bons
rendimentos. Ele expande seu espaço de armazenamento e
guarda o grão. Ele planeja uma festa. Naquela noite, Deus
o chama de tolo e exige sua alma. Jesus resume a inversão:
«Assim é aquele que para si ajunta tesouros... não é rico para
com Deus”(Lc 12:21). O celeiro que este colega constrói não
é um galpão para manter o grão até a debulha, mas um silo
para armazenamento permanente. Em vez de praticar o Ju-
bileu compartilhando seu excedente, ele o acumula como
um tolo. Este não é um armazenamento justo e sabático do
rendimento do sexto ano. Esta é a expansão egoísta à custa
dos pobres. Seu motivo egoísta é claro: “descansa, come,
bebe e folga” (Lc 12:19-20).

155
D O N A L D B . K R A V B IL L

Em meio a sua festa, Deus bate na porta e o chama de


tolo. No uso diário “tolo” significa estúpido ou um pouco
louco. O significado bíblico, entretanto, é áspero. O tolo é
aquele que diz que não há Deus (SI 14: 1). Um ateu prático
preso pela ganância, o homem rico vive como se não hou-
vesse Deus. No Evangelho de Mateus (5:22) a pessoa que
chama seu irmão de tolo é digna do inferno. Quando Deus
chama o fazendeiro um tolo, Deus o condena.
No curto espaço de quatro versículos (16-19), o rico tolo
faz onze referências a si mesmo. Seu único foco é a boa vida
para “mim e apenas eu”. Deus não pergunta sobre seus mo-
tivos; Ele tira a sua vida. Chafurdando em auto-obsessão, 0
tolo é insensível às necessidades dos outros. Ele não era um
monstro, mas apenas um membro típico da rica elite. Ele
estava simplesmente protegendo seu futuro e expandindo
seus investimentos.
Porém,a história não é apenas sobre a ganância; é uma
advertência quanto à fragilidade da vida e os verdadeiros
bens que contam para a eternidade. A recusa do tolo em pra-
ticar o Jubileu - seu cativeiro na riqueza condena sua alma.
Acumular seus próprios tesouros o faz um pobre aos olhos de
Deus. Novamente a inversão aparece. Aqueles que a acumu-
lam aqui em baixo são pobres no reino de Deus. Seus bens
pegajosos não permanecerão. Os ricos que entram no reino
de Deus dão generosamente. Ao fazê-lo, eles salvam suas
almas da condenação da riqueza.
Jesus adverte: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra
todo tipo de ganância; a vida de um homem não consis-
te na quantidade dos seus bens “(Lc 12:15). Novamente
encontramos uma inversão entre os valores do reino e os
padrões sociais. Depois que o caixão é enterrado, os fofo-
queiros perguntam, “De que tamanho era a propriedade
dele?” “Quanto dinheiro ele deixou?” Pessoas bem-sucedi­

156
0 REINO DE PONTA CABEÇA

das deixam grandes somas financeiras. As vozes sedutoras


da nossa era proclamam que 0 sucesso financeiro determina
o significado. A vida consiste de posses. Abundantes posses
equivalem à vida abundante. Em uma era de consumismo
ditada por modismos comerciais envolventes, somos ten-
tados a acreditar na mentira da publicidade: os bens deste
mundo irão satisfazer nossa alma.
Jesus é muito claro. Outros valores governam o reino de
ponta-cabeça. Aqui, as carteiras de investimento não me-
dem o valor de uma pessoa. O crescimento financeiro não
é igual ao status mais elevado no reino. Na nova ordem de
Deus, a cobiça e a busca de lucros e privilégios excessivos são
erradas. A mentalidade que constrói celeiros maiores para
fins egoístas é claramente denominada: é ganância, nem
mais nem menos.

C uidado: A M aldição
As bem-aventuranças aumentam o contraste entre ricos e
pobres. Aqui, Jesus, em Seu estilo de ponta-cabeça, recom-
pensa aos pobres e repreende o confortável. Na vida social
normal, muitas vezes fazemos o oposto. Aplaudimos as es-
trelas, as celebridades e as sensações da mídia. Valorizan-
do o sucesso monetário, damos aos “vencedores” sedutoras
recompensas. Nós os enchemos de propriedades privadas,
prêmios públicos, posições de prestígio, atenção glamorosa
e acesso ao poder político.
Presumimos, assim como os contemporâneos de Jesus,
que a riqueza equivale à bênção de Deus. Assim, deploramos
e estigmatizamos os “perdedores”, os excluídos, à beira da
sociedade. Condenamos os pobres como pessoas estagnadas
que não têm motivação e força de vontade.

157
DONALD B. KRAYBILL

Jesus derruba nossas suposições, invertendo-as. “Bem-a-


venturados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino
de Deus....,mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua
consolação.”(Lc 6:20, 24). Em vez de repreender os pobres
por serem preguiçosos, Jesus os exalta. Os desprezados, os
desamparados e os fracos são aqueles que receberão a feliz
bênção de Deus. Para os ricos, a quem aplaudimos, Jesus diz
“ai de vós!”14.
Jesus realmente quer dizer que a pobreza é uma virtude?
Ele está sugerindo que os pobres entrem automaticamen-
te no reino? Provavelmente não. O termo pobre no contexto
bíblico tem pelo menos três significados. Primeiro, refere-
-se aos pobres materialmente - pobres vivendo em miséria
quanto a comida, habitação e roupas. O termo ocorre mais
de sessenta vezes no Antigo Testamento e geraímente se re-
fere à pobreza material.
Em segundo lugar, em um sentido mais amplo, os pobres
da Bíblia são os oprimidos15. São os cativos, os escravos, os
doentes, os destituídos e os desesperados. Esses “ninguéns”
são, de fato, os mesmos a quem Jesus oferece boas notícias
em seu sermão do Jubileu em Nazaré (como explorado ante-
riormente neste livro, no capítulo 5). Eles são os excluídos,
os desprezados que não podem defender-se. Vivendo à mar-
gem da sociedade, dependem da misericórdia dos poderosos.
As multidões que seguiam Jesus muitas vezes incluíam o
desprezível, o ignorante e o estigmatizado. Pelos padrões
dos fariseus, suas imperfeições sociais bloqueavam qualquer
esperança de salvação. Os seguidores de Jesus, na verdade,
eram frequentemente chamados de “pequeninos” e “os me-
nores”.
A terceira conotação de pobres vem de uma tradição do
Antigo Testamento. Aqui os pobres são os humildes de es-
pírito - aqueles que são pobres para com Deus. Independen-

158
0 REINO DE PONTA CABEÇA

temente de sua condição econômica, eles se colocam dian-


te de Deus como mendigos com as mãos estendidas. Eles
imploram misericórdia com espíritos contritos e quebrados.
Foi esta pobreza de espírito - essa humildade - que Mateus
destacou em sua versão das bem-aventuranças:
“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o
Reino dos céus.” (Mateus 5: 3)· Mateus ressaltou a pobreza
espiritual interior, enquanto Lucas claramente tinha os po-
bres materiais em mente16. As bem-aventuranças de Lucas
(6: 20-26) consistem em um quarteto de bênçãos e aflições
(ou ‘ais’).

BEM-AVENTURADOS VOCÊS Al DE VOCÊS


Que são pobres Que são ricos
Que tem fome agora Que estão satisfeitos agora
Que choram agora Que riem agora
Quando os odiarem...
Quando todos falarem bem
excluírem, injuriarem e
de vocês
difamarem

O que tudo isso significaPLucas está claramente pen-


sando naqueles que são literalmente financeiramente po-
bres, que estão realmente com fome, literalmente choran-
do, sendo ativamente perseguidos. Estas são as pessoas que
têm uma coisa em comum: o sofrimento1'. Estes são os
pequeninos que derramam lágrimas de luto porque carre-
gam grandes fardos. Pobres camponeses e mendigos —eles,
de fato, estão com fome, chorando e são pobres. Porém eles
também são humildes em espírito - pequenos- nos can-
tos, embaixo na sociedade. Sua pobreza é tanto em atitude
quanto em circunstância.

159
DONALD B. KRAVB1LL

As palavras de Jesus trazem boas notícias a eles. Descar-


tados na pilha de lixo humano, eles não foram, no entanto,
descartados por Deus. O Deus Todo-Poderoso não os jogou
fora. Na verdade, a bênção de Deus recai sobre eles. Deus se
importa com eles. Enquanto isso, os ricos e arrogantes em
Jerusalém, que se recusam a praticar o Jubileu, podem ser
acusados de desprezar a lei de Deus. Porém, eles também te-
rão nova vida no reino se eles rejeitarem os grilhões das posses.
Jesus está aplaudindo a miséria? Ele está dizendo que
os desamparados estão automaticamente no reino de Deus
só porque são pobres? Provavelmente não. E mais prová-
vel que Ele esteja deixando claro que os pobres são sempre
bem-vindos à presença de Deus. Ao contrário dos ricos que
desprezam os pobres, Deus os recebe. Além disso, de muitas
formas, os pobres estão mais próximos do reino do que aque-
les que estão presos nas armadilhas da riqueza. Na verdade, é
mais fácil para os pobres entrarem no reino porque não estão
emaranhados nas propriedades e no prestígio. O domínio
de Matnon,, muitas vezes, bloqueia o caminho para o reino.
Os desprezados- pecadores, prostitutas, crianças, sem-teto
- podem entrar no reino mais facilmente do que a elite, os
justos, os fortes e os piedosos.
Os pobres entendem dependência, simplicidade e coope-
ração. Eles sabem a diferença entre necessidade e luxo. Ten-
do menos enredos, eles são mais livres para abandonar todo
o resto pelo reino. Eles têm pouco de que abrir mão. Eles
podem simplesmente entrar; e eles são gratos. Eles sabem o
que é ser perdoado. Os altivos, os arrogantes e os ricos têm
dificuldade em se inclinar em humildade à porta do reino e
reconhecer qualquer dependência de Deus.
Jesus oferece boas notícias aos pobres. Sua pobreza não é
um sinal de desaprovação divina, uma visão comum daquele
tempo. Jesus sinaliza a salvação transformando os destituí­

160
D REINO DE PONTA CABEÇA

dos. Os cegos veem. Os coxos andam. Os surdos ouvem. Os


leprosos são limpos. Os oprimidos são libertos (Mt 11:5, Lc
4:18-19, 7:22). Deus recebe os pobres através de Jesus Cris-
to. Os excluídos sociais certamente não são mais vagabundos
aos olhos de Deus. Sua pobreza não traz nenhuma repreensão
divina, mas faz 0 oposto. Eles são tão bem-vindos no reino
como qualquer outra pessoa. Isso é, de fato, uma boa notícia!
Foi provavelmente esta boa notícia para os pobres que
levou Jesus a acrescentar: “e feliz é aquele que não se escan-
daliza por minha causa” (Mt. 11:6 NVI e Lc 7:23). Curar le-
prosos e os doentes causava pouca ofensa,mas Jesus insultou
os ouvidos saduceus e fariseus quando abençoou os pobres e
recebeu esses ‘ninguéns’ no reino. Jesus deixou claro que os
ricos também eram bem-vindos —se eles se soltassem dos
grilhões da riqueza, obedecessem às leis econômicas de Deus
e praticassem o Jubileu.

J ubileu R ecusado
Nós examinamos seis advertências de Jesus sobre a ri-
queza. Agora voltamos nossa atenção para três personagens
bíblicos: o jovem rico governante, Zaqueu, e a viúva com
uma moeda. Jesus usa as histórias deles para expandir seu
ensinamento sobre riquezas.
A história do jovem governante rico (Lc 18:18-30) apre-
senta um jovem profissional que coloca a grande questão
a Jesus; “O que devo fazer para herdar a vida eterna?” O
diálogo de Jesus com este brilhante rapaz é afiado quando
é colocado ao lado da história de Zaqueu, que vem a seguir
(Lc 19: 1-10). Lado a lado, Zaqueu e o jovem fazem escolhas
opostas sobre o Jubileu. Ambos são ricos e tem posições de
poder. Ambos se encontram com Jesus, mas eles se afastam
em diferentes direções.

161
DONALD B. KRAYBILL

O adjetivo rico não éforte 0 suficiente para este querido


“mauricinho”. Ele era muito rico. Ele tinha tudo o que im-
portava. Ele era jovem, rico, poderoso. Esta tríade o mandou
direto para o topo. Podemos apenas especular sobre como ele
se tornou rico em uma idade tão jovem. Foi trabalho duro,
herança, sorte?
Por que ele para Jesus? Sua vida abundante tinha se tor-
nado amarga? O vazio perseguia seus dias? Seja qual for o
motivo, a grande questão o assombra. O que ele deve fazer
para herdar a vida eterna?
Aqui, novamente, como na história de Lázaro, Jesus liga
a vida eterna à riqueza. O jovem rico é sincero e consciente,
não um ladrão esperto. Ele cresceu em uma família devota.
Ele conhece os mandamentos de Deus. Estudou na sinagoga.
Sua frequência na escola dominical, no estudo bíblico, no
coral, no acampamento da igreja e no culto é perfeita. Ele
conhece a Escritura e a doutrina da denominação de cor. Sua
teologia é ortodoxa. Ele não só conhece os credos - ele os
vive em sua vida diária.
Jesus responde a grande pergunta do jovem apontando
para uma deficiência. Ele deve vender suas posses. Elas estão
controlando a vida dele - não Deus. Para experimentar o
reino de Deus, para ganhar o tesouro eterno, ele deve vender
suas posses. Por que ele deveria vender? Porque os pobres es-
tão famintos e necessitados. A riqueza conquistou o coração
dele e reivindicou sua fidelidade. Vendendo suas posses, ele
não somente alimentará o faminto; mas também colocará o
foco de sua atenção de volta no reino celestial. Jesus o convi-
da a “vir e Me seguir”.
Devemos enfatizar 0 “seguir” ao invés de “vender”. Este é
um convite para se juntar ao povo do reino e vender tudo era,
neste caso, um primeiro passo necessário. Jesus nem sempre

162
0 REINO DE PONTA CABEÇA

aconselhou as pessoas a venderem tudo, como veremos na


história de Zaqueu. Porém neste caso Ele faz. A decisão do
jovem foi provavelmente negativa, porque ele se afasta tris-
temente. O grilhão de Mamon é simplesmente muito forte.
Ele perde a vida eterna.
Jesus resume o evento com dureza: “Como é difícil aos
ricos entrar no Reino de Deus!
De fato, é mais fácil passar um camelo pelo fundo de
uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc
18:24-25). Alguns escribas mudaram versões posteriores do
manuscrito para suavizar a dureza deste ensinamento. Uma
edição posterior disse que levar um homem rico para o céu
era como puxar um cordão ou corda através de uma agulha.
Outra versão dizia que era como conseguir um camelo atra-
vés de um pequeno portão. Nenhuma dessas interpretações
provavelmente são autênticas18. Jesus provavelmente queria
dizer um camelo e uma agulha. O camelo era o maior animal
e a agulha tinha a menor abertura. Tal exagero se encaixa em
seus outros ensinamentos sobre a riqueza. Hoje Jesus pode-
ria colocar dessa forma: é mais difícil para os ricos entrarem
no reino do que para um proprietário do cassino passar atra-
vés da abertura de uma máquina de dinheiro.
A explosão da multidão era previsível. “Os que ouviram
isso perguntaram: “Então, quem pode ser salvo” (Lc 18:26-
27). Isso não significa que Deus passará milagrosamente os
ricos através da porta do reino. Significa, antes, que a graça de
Deus pode libertar até mesmo os ricos do domínio demoníaco
da riqueza. Como veremos em breve, mesmo uma pessoa rica
pode se arrepender e praticar o Jubileu. Tudo é possível quan-
do as pessoas abrem suas vidas ao reino de Deus.
Lucas faz uma ponte entre o jovem rico e Zaqueu com
duas pequenas histórias. Costuradas com ironia, as histórias

163
DONALD B. KRAVBia

nos surpreendem. Na primeira história, os discípulos que


“veem” são cegos à verdade. No segundo, um cego abre os
olhos e vê. Quando Jesus fala sobre sua condenação iminente
na cruz, os discípulos não entendem. Eles estão perplexos.
Que tipo de Messias vitorioso é este que fala sobre cruzes?
Os discípulos, que devem saber sobre estas coisas, não sa-
bem. Talvez eles simbolizem a cegueira do jovem rico. A
próxima história apresenta um mendigo cego fora de Jericó.
Ele não consegue enxergar. Porém, ele entende quem é Jesus
e grita por misericórdia. Jesus o cura. De repente, o cego vê;
as pessoas glorificam e louvam a Deus. Lucas está nos prepa-
rando para Zaqueu.

J ubileu aceito
Zaqueu podia ser baixinho, mas ele tinha um negócio
considerável (Lc 19: 1-10). Jericó não era uma pequena al-
deia agrícola. Essa era uma cidade com piscinas, parques e
edifícios greco-romanos típicos. A área no entorno, irriga-
da e extremamente fértil, tornou-a rica. Os rabinos falavam
das “terras gordas de Jericó”. Impressionado por seu clima
ameno, Herodes, o Grande, tornou sua capital de inverno. A
região ganhou o renome por cultivar grandes bosques de ár-
vores de bálsamo. Eles vendiam por um preço enorme, mui-
tas vezes trazendo seu peso em ouro19. Além disso, Jericó era
a porta de entrada para uma rota comercial que passava por
Jerusalém e toda a área dos gentios a leste do Jordão.
Zaqueu era rico porque era o principal “auditor fiscal” do
distrito. Uma equipe de subordinados cobrava os impostos
para ele. Era um trabalho lucrativo em uma área lucrativa.
Zaqueu tinha vencido outros concorrentes para ganhar o di-
reito de cobrar os impostos. Cobradores de impostos muitas
vezes usavam a força e fraude para ter grandes lucros. Pa­

164
0 REINO DE PONTA CABEÇA

trões fiscais como Zaqueu às vezes até mesmo desviavam de


seus empregados.
Compreensivelmente, então, os cobradores de impostos
e, especialmente, os chefes de impostos eram desprezados.
Isso não apenas porque eles eram judeus cobrando impostos
para os romanos, mas porque muitas vezes enganavam e usa-
vam a força para cobrar os impostos. Os chefes de impostos
eram estigmatizados. Não podiam ser juizes nem ser teste-
munhas no tribunal. Como escravos dos gentios, eles sequer
tinham direitos civis e políticos concedidos aos bastardos
manchados20. O dinheiro de um coletor de imposto não po-
deria ser dado como esmola porque era sujo. Comer e se
associar com cobradores de impostos contaminaria os justos.
Era inconcebível que um fariseu almoçasse com Zaqueu.
O povo zombava dele. Talvez o tenham apelidado de Za-
queu por desprezo, pois seu nome significa “o justo”. Ele
era, de fato, qualquer coisa menos justo. No entanto, Jesus
o levou para almoçar. Os rabis e os escribas cuspiam alegre-
mente em seu rosto. Jesus deliberadamente se contamina
comendo com este rejeitado em sua elaborada mansão. Uma
das melhores em Jerico, construída com os lucros excessivos
que Zaqueu tinha espremido dos pobres.
Nós não sabemos os detalhes de sua conversa, mas de al-
guma forma um milagre acontece. O cuidado e a compaixão
de Jesus movem Zaqueu. Eles o comovem tanto que ele deci-
de praticar o Jubileu. Ele chama uma multidão no gramado
da frente. Surpreendidos, ouvem o velho Zaqueu, zangado,
dizer: “Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens
aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei
quatro vezes mais”(Lc 19:8). O povo vibra e aplaude. Eles
não podem acreditar que o milagre se desdobra diante de
seus olhos. O que aconteceu com esse salafrário?

165
DONALD B. KRAYBILL

Não sabemos o saldo final na conta bancária de Zaqueu.


Dependendo do quanto ele devolveu por causa da fraude, ele
pode ter sido zero. Ou talvez ele tenha ficado com alguma
migalha do que sobrou. Não importa. O que conta é uma
mudança de coração que produz mudanças econômicas.
Jesus afirma sua ação. ‫״‬Hoje houve salvação nesta casa!
Porque este homem também é filho de Abraão.”(Lc 19:9‫־‬
10). Este homem foi salvo! Ele se juntou ao povo de Deus.
Ele está na família real, um filho de Abraão. É disso que se
trata 0 dia da salvação. Jesus une a salvação pessoal à ética
social. O que é impossível para os seres humanos é possível
para Deus. Pela graça de Deus, um homem rico passou pelo
buraco da agulha. Jubileu está em andamento.
As coisas estão de ponta-cabeça. O jovem rico tem teolo-
gia perfeita, mas falta obediência. Zaqueu tem uma teologia
ruim ou inexistente, mas pratica o Jubileu. O jovem cha-
ma Jesus de “bom mestre”. Zaqueu, o trapaceiro, O chama
de “Senhor”. O jovem espera a vida eterna, mas se recusa
a compartilhar e não consegue passar pelo buraco da agu-
lha. Zaqueu, que provavelmente pensava pouco sobre a vida
eterna, mas seu novo cuidado com os pobres abre o buraco
da agulha. O líder religioso corre até Jesus. Em contraste,
Jesus se convida para almoçar com um pecador que é movi-
do por sua compaixão.
Na primeira história, preocupações econômicas parali-
sam a fé. Na segunda história, a fé impulsiona a agenda eco-
nômica. Aqui temos duas respostas contraditórias ao evan-
gelho, reações opostas aos pobres. Por um lado, boa teologia,
sem Jubileu, e condenação. Por outro lado, pouca teologia,
Jubileu, e verdadeira salvação. Em ambas as histórias, a ex-
periência espiritual privada conecta-se à justiça social, não,
à justiça econômica!

166
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O J ubileu de ponta- cabeça


Concluímos o ensinamento de Jesus sobre a riqueza com
um caso de Jubileu invertido. Perto do fim de seu ministé-
rio, pouco depois de limpar o templo, Jesus retorna a ele. Ele
está no enorme tesouro do templo, onde as ofertas são colo-
cadas em grandes vasos de ouro. Novamente encontramos
uma comparação de ricos e pobres. Jesus se senta em frente
ao tesouro, e observa a multidão colocando suas ofertas em
vasos de ouro. Muitos ricos colocam grandes somas. Depois
vem uma pobre viúva e coloca duas moedas de cobre, que
somam cerca de um centavo.
Jesus se coloca em pé e chama seus discípulos. Apontan-
do para a viúva, Ele diz: “Afirmo-lhes que esta viúva pobre
colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros.To-
dos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu
tudo o que possuía para viver”(Mc 12: 41-44; Lc 21:1-4).
No versí culo que precede este relato, Jesus condena
aqueles “Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar,
fazem longas orações. Esses receberão condenação mais seve-
ra.”(Mc 12:40). Uma viúva na sociedade palestina era uma
desprezada. Ela não tinha direitos de herança da propriedade
de seu marido. Quando o marido morria, o filho mais velho
adquiria a propriedade. Se não houvesse um filho, um irmão
do falecido marido podería casar com a viúva. Se o irmão
recusasse ou não houvesse um irmão, ela retornaria à casa
de seu pai ou ficaria mendigando. As viúvas, como outras
mulheres, não tinham nenhum papel na vida pública ou re-
ligiosa. Elas costumavam usar roupas pretas para sinalizar
sua situação. Além disso, os ricos muitas vezes as oprimiam.
Jesus condena os escribas por devorar as casas das viúvas.
Os escribas tinham desenvolvido regras religiosas, que em-
purravam as viúvas para fora de suas próprias casas. Porém,

167
DONALD B .K R A Y Bia

os líderes religiosos ignoraram sua injustiça com longas e


pretensiosas orações. Depois de alfinetar os escribas por “de-
vorar as casas das viúvas”, Jesus se volta e destaca a fidelidade
da viúva. Os ricos —provavelmente saduceus e nobres de fa-
mílias de aristocratas —estavam colocando “grandes somas”
nos vasos de ouro, moedas de prata puras e apropriadas.
A viúva pobre coloca duas moedas de cobre que valem
um centavo. O lepton de cobre era a menor moeda grega em
circulação. Eram necessários 128 desses leptons para igualar
um denário —um salário de um dia. Assim, a viúva coloca
0.015% do salário de um dia!
Jesus está impressionado, tão impressionado que Ele en-
sina os discípulos. Esta viúva, diz ele, colocou mais do que
todos esses ricos juntos. Como isso pode ser? Ao contrário
deles, ela colocou tudo o que tinha. Eles apenas entregaram
a nata de sua abundância. A quantidade real de dinheiro era
insignificante. O que contava era a quantidade restante para
consumo. Os ricos ainda eram bastante ricos, mesmo depois
de dar uma oferta considerável. A pobre viúva deu tudo,
não um dízimo de justiça própria. Jesus, a história sugere,
olha para qual proporção de nossa riqueza nós damos, não a
quantidade bruta.
Jesus afirma a atitude de Jubileu da viúva pobre. Cer-
tamente ela podería ter encontrado desculpas convincentes
para não dar as últimas moedas em sua bolsa. O Jubileu de
ponta-cabeça ocorre quando os pobres dão da sua pobreza
“ofertas maiores” do que os ricos.
As histórias deste capítulo resumem 0 núcleo da men-
sagem econômica de Jesus. A quantidade de material nos
Evangelhos lidando com a riqueza é enorme. São poucos os
outros tópicos, exceto o próprio reino de Deus, que apare-
cem com mais frequência nos Evangelhos! As questões eco­
0 REINO DE PONTA CABEÇA

n ô m ic a s sã o c e n tr a is n a v is ã o d e J e s u s s o b re o n o v o r e in o .
A c o n v e rs ã o , q u e n ã o e n v o lv e m u d a n ç a e c o n ô m ic a , n ã o é
c o n v e rs ã o c o m p le ta . J e s u s n ã o só c o n d e n a a g a n â n c ia n a P a -
l e s tin a d o p r i m e i r o s é c u lo ; E le p e d e u m J u b i l e u p e r p é tu o .

A m e n s a g e m d e p o n ta - c a b e ç a re sso a v e z a p ó s vez.

• B e m -a v e n tu ra d o s os p o b r e s ... A i dos r ic o s (L c
6 :2 0 , 2 4 ).

• A q u ilo q u e t e m m u i t o v a lo r e n t r e o s h o m e n s é d e te s -
tá v e l ao s o lh o s d e D e u s L u c a s 1 6 :1 5 .

• L á z a ro v a i p a r a j u n t o d e A b r a ã o e n q u a n to o h o m e m
ric o e n f r e n ta t o r m e n t o (L c 1 6 :2 2 , 2 3 ).

• A q u e le q u e p a r a si a j u n t a te s o u r o s , e n ã o é ric o p a r a
c o m D e u s . (Lc 1 2 :2 1 ).

• P o is o m u n d o p a g ã o é q u e c o rre a tr á s d e ssa s c o isa s...

• B u s q u e m , p o is , 0 R e in o d e D e u s(L c 1 2 :3 0 , 3 1 ).

• O jo v e m ric o re c u s a -s e a c o m p a r t il h a r a s u a riq u e z a ,
m a s a sa lv a ç ã o v is ita a c a sa d e Z a q u e u , o tr a p a c e ir o
(L u c as 1 8 :1 8 a 1 9 :1 0 ).

• N ã o a c u m u le m p a r a v o cê s te s o u ro s n a te r r a ... a c u m u -
le m p a r a v o cê s te s o u ro s n o c é u . ( M t 6 : 1 9 2 0 ‫) ־‬.

• V o c ê n ã o p o d e s e r v ir a D e u s e à riq u e z a . V o cê se rá
d e d ic a d o a u m e d e s p r e z a r á 0 o u t r o ( M t 6 :2 4 ).

D iv e r s a s id e ia s -c h a v e e m e r g e m d a m e n s a g e m d e J e s u s .
O a p e g o à r iq u e z a p o d e c o m p e t i r e d e s t i t u i r o g o v e r n o d e
D e u s e m n o ssa s v id a s . Q u a n d o D e u s se t o r n a v e r d a d e ir a -
m e n t e R e i d e n o ssa s v id a s , D e u s tr a n s f o r m a n o sso s v a lo re s
e p r á tic a s e c o n ô m ic a s . E m b o r a J e s u s t e n h a r e p r e e n d id o
“p e sso a s r ic a s ” , E le ta m b é m e s ta v a a ta c a n d o as p r á tic a s d a
s o c ie d a d e p a l e s t i n a q u e p is o te a v a os p o b r e s p a r a b e n e fic ia r

169
DONALD B. KRAVBILL

os ricos. Estruturas injustas eram uma dupla ofensa quan-


do líderes religiosos as endossavam com linguagem piedosa.
Jesus vira as coisas de ponta-cabeça ao argumentar que a
verdadeira religião estimula a compaixão e a generosidade.
Ela nunca santifica a injustiça.
Os ensinamentos de Jesus surgiram na primeira fase de
um novo movimento religioso, que em um dado momento
se tornou a igreja. Como líderes de novos movimentos di-
vergem, muitas vezes, da corrente de pensamento social ge-
ral, eles tipicamente criticam práticas estabelecidas. Muitos
discípulos cristãos hoje se encontram dentro de instituições
preocupadas com a continuidade e autopreservação. Arran-
jos financeiros estáveis e previsíveis são necessários para que
as organizações continuem. A proteção do equilíbrio finan-
ceiro é fundamental para a sobrevivência institucional.
Como, então, relacionamos os ensinamentos econômi-
cos de Jesus, o “de fora”, com as questões enfrentadas pelos
“de dentro” das organizações, corporações, escolas e igrejas
convencionais? Como pode a sabedoria de Jesus informar as
práticas econômicas das organizações modernas sem amea-
çar sua sobrevivência?
Jesus não prescreve políticas nem nos dá diretrizes espe-
cíficas. Ele, contudo, oferece uma nova visão —que anuncia
a graça em vez da ganância, a compaixão em vez da com-
petição. Essa é uma visão do Jubileu baseada em um novo
espírito e valores do reino: uma visão que muda os corações e
as práticas econômicas. No entanto, a mudança de coração e
prática é difícil. Muitas vezes procuramos desvios em torno
do chamado de Jesus para a transformação econômica. Ex-
pioraremos alguns desses desvios no capítulo sete.

17D
CAPÍTULO 7

DESVIOS DE
“CABEÇA
PARA CIMA”
0 RHINO DE PONTA CABEÇA

ossos compromissos econômicos muitas vezes dis-


torcem nossa leitura das Escrituras e nos desviam do
ensinamento bíblico sobre a riqueza. Somos tentados a ti-
rar versículos, do seu contexto e distorcer o seu significado
para “abençoar” a nossa filosofia econômica pessoal. Além de
torcer as Escrituras à nossa maneira, muitas vezes usamos
a sabedoria popular não-bíblica para racionalizar a riqueza.
Vamos analisar nove desvios - nove exemplos de como a
riqueza pode abalar nossas crenças teológicas. Os contornos
que nos permitem passar pela substância da mensagem de
Jesus. Muitas vezes baseadas em um verso isolado ou em um
ditado, essas evasões nos permitem manobrar em torno do
chamado de Jesus para a conversão econômica.

D esvio um: E sobre a parábola dos talentos?


Uma desculpa frequente se apega a uma parábola familiar
(Mt 25: 14-30 e Lc 19: 11-27)1. É irônico que, às vezes, use-
mos a parábola dos talentos, imediatamente após a história
de Lucas sobre Zaqueu, para contradizer o comportamento

173
DONALD B. WAYBILL

de Zaqueu. Os leitores do mundo capitalista ocidental são


tentados a pensar que a história afirma uma versão caseira do
capitalismo. Nós também facilm ente confundimos a pala-
vra talento no texto, o que significa cerca de 6.000 dracmas
(unidades monetárias), com o uso moderno do talento como
dom pessoal e habilidade.
A interpretação popular da parábola muitas vezes vai nes-
sas linhas. Deus deu a cada um de nós capacidades diferentes
ou talentos pessoais —cantar, administrar, aconselhar e assim
por diante. Os talentos também se referem aos nossos ativos
financeiros e experiência —especialmente a nossa capacidade
de ganhar dinheiro. Deus nos responsabilizará pela forma
como usamos esses dons pessoais e recursos materiais. Deus
nos recompensará por aumentá-los.
A punição, por outro lado, atingirá aqueles que se assen-
tam sobre seus recursos. Então, se ganhar dinheiro é nosso
dom, devemos ganhar dinheiro como loucos. Devemos mui-
tiplicar os bens de capital e as propriedades o mais rápido
possível. De fato, tal leitura pode justificar a especulação.
O Evangelho de Mateus cita o mestre dizendo ao mordomo
infiel: “você devia ter confiado o meu dinheiro aos banquei-
ros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com
juros” (Mt 25:27). Uma interpretação literal dessas linhas
perde completamente o ponto.
Só porque Jesus usa o dinheiro como o símbolo-chave
na história não significa que a parábola aborda a adminis-
tração financeira. Os objetos em uma parábola geralmente
não são prescrições literais para o comportamento cristão.
Símbolos diários são usados para criar uma história com um
significado mais profundo. Não dizemos que a parábola do
semeador signifique que os cristãos realmente devem semear
grãos. Nem dizemos que a parábola da ovelha perdida im-
plica que deveriamos criar ovelhas! Por outro lado, histórias

174
0 REINO DE PONTA CABEÇA

de exemplo como o Bom Samaritano mostram, sim,o com-


portamento cristão quando concluem: “Vá e faça o mesmo”
(Lc 10:37).
Então, qual é o ponto dos talentos? Um nobre confia a
seus servos uma mercadoria e os faz responsáveis por isso.
Seu retorno inesperado causa uma crise. O mestre julga os
servos pelo modo como cuidaram de sua propriedade. A
mercadoria na história é o nosso conhecimento da fé cris-
tã. Talvez Jesus estivesse pensando nos escribas ou no povo
judeu em geral. Como eles tinham lidado com a fé e as Es-
crituras, que lhes tinham sido entregues? Jesus estava agora
julgando sua mordomia da lei. Quão bem eles haviam lida-
do com a mordomia dos mandamentos? Eles preservaram
e interpretaram a Lei de Moisés corretamente? Ou tinham
enterrado o conhecimento da lei?
A igreja primitiva achava que a parábola significava que
Jesus, como o nobre, estava indo embora. Ao retornar, Ele os
julgaria sobre como multiplicaram o reino. De fato, Lucas
(19:11) relata que Jesus contou a parábola precisamente por-
que alguns discípulos pensavam que o reino aparecería ime-
diatamente quando chegassem a Jerusalém. Jesus pode estar
dizendo, com efeito, que o reino não está aqui ainda em sua
plenitude, mas somos responsáveis por investir (espalhar e
aplicar) o nosso conhecimento do reino. Lucas provavelmen-
te pensava que Jesus julgaria a administração de seus segui-
dores do reino depois de seu retorno, não imediatamente.
Jesus podería então perguntar como eles tinham praticado
os ensinamentos do reino. Teriam investido e multiplicado
o conhecimento de sua mensagem?
Como diz um escritor, devemos “trocar” ou “permutar”
nas idéias do reino2. Assim, ao invés de uma história que
justifica a aquisição de riqueza, temos o oposto. Quanto
mais sabemos sobre a forma de ponta-cabeça de Jesus, maior

175
DONALD B. KRAYBILL

a nossa obrigação de vivê-la. A parábola dos talentos ecoa a


história do homem rico e de Lázaro. O homem rico conhecia
Moisés e os profetas. Ele compreendia o Jubileu. Ele tinha
recebido um talento, conhecimento do sistema econômico
de Deus, mas o tinha enterrado. Ele não alimentou o men-
digo Lázaro. Então ele enfrentou a condenação.
Lucas coloca a parábola dos talentos imediatamente após
Zaqueu. Talvez Lucas esteja sugerindo que somos responsá-
veis pela administração das idéias da história de Zaqueu. Va-
mos, como Zaqueu, permitir que o senhorio de Jesus Cristo
abra nossas carteiras? Uma interpretação similar se encaixa
na sabedoria que diz no final da parábola. “A todos os que
têm mais será dado; mas daqueles que não têm nada, até
mesmo o que eles têm será tirado”. A questão-chave aqui
é mais do que> Isso dificilmente significa que aqueles que
têm dinheiro vão ter mais - mesmo que isso muitas vezes
seja verdade. O significado da parábola é claro: aqueles que
investem e multiplicam o seu conhecimento do reino re-
ceberão mais. Aqueles que o desperdiçam podem perder o
reino completamente.

D esvio D ois: B usque o reino e fique rico!


Depois de ensinar sobre a ansiedade, Jesus instrui os dis-
cípulos a esforçarem-se primeiro pelo reino de Deus e sua
justiça, e todas essas coisas lhes serão dadas (Mt 6:33; Lc
12:31). Isso oferece uma prova bíblica de que aqueles que
buscam o reino se tornarão ricos? Podemos ver as riquezas
como um sinal da bênção de Deus? Já vimos que a riqueza
aos olhos de Jesus pode ser considerada mais uma maldição
do que uma bênção.
Qual o significado de aqueles que buscam o reino terem
as coisas materiais da vida também? No contexto do ano

176
0 REINO DE PONTA CABEÇA

sabático, Jesus está simplesmente dizendo que Deus dará


um rendimento adequado de seis anos para cobrir as neces-
sidades, tanto no sexto quanto no sétimo ano. Se as pessoas
seguirem seu mandamento, Ele cuidará delas. As “coisas”
que D eus fornecerá são alimentos e roupas básicas - não
casas luxuosas e propriedades. Deus proverá as necessidades
básicas. No contexto do ano sabático, esta passagem não é
um esquema para se enriquecer do reino. Ela simplesmente
oferece sobrevivência básica no sétimo ano.
Um empreendimento comercial ou uma casa adminis-
trada em harmonia com os princípios cristãos —honestidade
e integridade —provavelmente serão bem-sucedidos. Mas
gerentes e donos que realmente permitem que o governo
de Deus opere em suas vidas não acumularão ganho. Eles
irão compartilhá-lo no espírito do Jubileu. Nossos estoques
materiais podem ser um termômetro da nossa vontade de
seguir os princípios do reino.
Mateus nos aconselha a lutar pelo reino e a “retidão” de
Deus, que poderia ser interpretada como a “justiça” de Deus.
Buscar o reino não significa que o pão cairá misteriosamente
do céu. Nem significa que ficaremos ricos automaticamente.
Buscar o reino com a intenção de ficar rico perverte a própria
essência do reino. Essa atitude zomba da mensagem de Jesus
sobre a riqueza e implica que podemos alcançar a bênção de
Deus por meio de nossas boas obras.

D esvio três : D a r e receber !


Encontramos outra rota evasiva perto do fim da histó-
ria do jovem rico. Jesus conclui: “Respondeu Jesus: “Digo
a verdade: Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs,
mãe, pai, filhos, ou campos, por causa de mim e do evan-
gelho, 40 deixará de receber cem vezes mais, já no tempo

177
DONALD B. KRAYBILL

presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, e com


eles perseguição; e, na era futura, a vida eterna. “(Mc 10:29-
30; Lc 18:29, 30; Mt 19:29)· Mateus e Marcos incluem terra
em sua lista de coisas abandonadas. Isso significa que Jesus
multiplicará nossa propriedade se nós o seguirmos?
Um pastor que preparava sua congregação para uma ofer-
ta usou este verso. Ele prometeu que Deus literalmente de-
volvería 100 dólares por cada dólar colocado na oferta. Dar
com a esperança de ficar rico distorce o espírito do Jubileu.
Tal interpretação também multiplicaria esposas, maridos e
pais nesta era!
Jesus não espera que nossos cônjuges e terras se multi-
pliquem. Ele quer dizer que quando nos juntamos ao reino,
nos juntamos à família de Deus. Os discípulos que vendem
propriedades ou saem de casa encontrarão uma recepção ca-
lorosa em outras casas cristãs enquanto viajam. Eles vão des-
cobrir uma nova rede de irmãs, irmãos e pais no reino que
irão recebê-los com todo carinho. Aqueles que argumentam
que Deus dobrará nossa riqueza se abandonarmos tudo pelo
reino geralmente são aqueles que não deixaram casas ou ter-
ras. Eles estão, ao contrário, tentando encontrar um verso
isolado para justificar a expansão. Suas motivações zombam
do espírito do Jubileu, que se concentra nas necessidades
dos outros —não no ganho pessoal. Jesus diz que aqueles
que sacrificam por causa do reino receberão recompensas
materiais e espirituais agora e na era por vir.

D esvio quatro: os pobres estão sempre com você!


Os quatro Evangelhos relatam a história da mulher der-
ramando um caro perfume em Jesus (Mt 26:6-13; Mc 14:3‫־‬
9;Lc 7:36-30;Jo 12: 1-8). Há uma variação considerável nos
quatro relatos. Todos os escritores (exceto Lucas) contam que

178
0 REINO DE PONTA CABEÇA

os espectadores condenaram esse desperdício de salário de


um ano. Perguntaram-se em voz alta por que 0 perfume não
era vendido e o dinheiro dado aos pobres. Jesus disse: “Pois
os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem
sempre terão” (Mt 26:11)3. Este é um exemplo claro do fa-
talismo de Jesus? Ele aparentemente reconhece a existência
perpétua dos pobres e mostra a prioridade do culto sobre a
justiça social —ou não?
Curiosamente, Jesus cita diretamente de Deuteronômio
15, o capítulo com Jubileu e instruções sabáticas. Ante-
riormente, na passagem, Deus diz aos hebreus que, se fo-
rem obedientes, não haverá pobres na terra. No entanto, se
eles endurecerem seus corações, haverá pobres. Enquanto
a cobiça e o egoísmo continuarem, os pobres estarão entre
eles. Esse fato justifica uma negligência insensível aos po-
bres? Exatamente o oposto! “Sempre haverá pobres na ter-
ra. Portanto, eu ordeno a você que abra o coração para o seu
irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado
de sua terra.” (Dt 15:11).
A luz d a sua contínua súplica em favor dos pobres,
dificilmente é concebível que Jesus agora se contradiga, nos
dizendo para negligenciar os pobres que, afinal, sempre es-
tarão ao redor e não há muito que possamos fazer sobre isso.
Tal sensação de fatalismo bate de frente com tudo o que Ele
diz sobre cuidar dos pobres. Ele provavelmente está sugerin-
do que, enquanto a ganância e a ambição governam as vidas
das pessoas, sempre haverá pobres. Sua observação deste fato
não justifica sua perpetuação. Ao invés de nos dispensar da
obrigação social, Jesus está nos lembrando que o alívio da
pobreza é uma luta sem fim.
Um estudo detalhado da lei judaica mostra que derramar
o perfume era um ato não, de adoração, mas de caridade4. A
prostituta não podia dar a sua oferta no templo porque sua

179
D O N A □ B. KRAYBILL

profissão a contaminava. Rendimentos e unguentos conta-


minados poderíam, contudo, ser usados para preparar um
cadáver. Preparação para 0 enterro se sobrepunha a alimen-
tar e vestir os pobres. Nas palavras de Jesus, “ela o fez a fim
de me preparar para o sepultamento” (Mt 26:12).
A prostituta usa uma ferramenta de seu comércio —per-
fume - e usa em um ato da caridade para preparar o corpo de
Jesus. Ela alegremente dá o perfume, que uma vez seduziu
outros corpos, para preparar o corpo que em breve será es-
magado pelos pecados do mundo. Derramar perfume sobre
o corpo de Jesus simbolizava a rejeição de seus velhos modos
e a sua alegria espontânea do perdão, pois ela tinha muitos
pecados. Realmente de ponta-cabeça!

D esvio cinco: T udo depende da sua postura!


É te n tador resumir o ensinamento de Jesus sobre a
riqueza, dizendo: “É só nossa postura em relação ao dinheiro
que i mporta. Se tivermos a postura correta, as coisas vão
dar c erto”. Obviamente, a postura é importante porque
infl u enciam nosso comportamento. Jesus ensinou que a
postura errada é tão m á quanto os comportamentos errados.
Os pobres podem ser tão materialistas, se não mais, do que
os ricos.
Jesus não disse, no entanto, que podemos substituir um
bom comportamento por uma boa postura. Os bons senti-
men tos são um bom lugar para começar, mas Jesus clara-
mente deseja que possamos ir além deles. Ele condena o rico
tolo por expandir seu celeiro e o rico por jogar migalhas para
Lázaro. Ele nos encoraja a distribuir riqueza. Diversas vezes
ele diz a seus discípulos para venderem as suas posses. Ele
descreve Zaqueu como um filho de Deus porque sua mu-
dança de postura altera seu comportamento econômico. O

180
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

jovem rico tem uma boa postura, mas ela não é suficiente
para alimentar os pobres.
Calorosos sentimentos em nosso coração, boas intenções
em nossa mente e atitudes apropriadas em nossa mente são
um primeiro passo essencial. Porém eles não vestem nem
alimentam os pobres. O comportamento é o verdadeiro tes-
te. Jesus pede mudanças de postura que produzem ação.

D esvio seis: E quanto à M ordomia?


A mordomia é um conceito central na compreensão de
nossa relação com a riqueza. Ironicamente, às vezes usamos
a mordomia para mascarar a ganância. Curiosamente, Jesus
não usa a palavra mordomia para discutir a riqueza. Em vez
disso, Ele alerta sobre os perigos de Alamon e pede compai-
xão. Em hebraico, mordomo significa “gerente sobre a casa”.
O administrador é um funcionário que controla uma grande
casa para o mestre. É certamente apropriado para os cristãos
usarem o termo mordomia para descrever nossa relação com
a propriedade porque o conceito nos lembra de que, de fato,
Deus é 0 dono. Mas, o que queremos dizer com mordomia?
E ú t il distinguir entre os desejos do proprietário e
os d esejos do mordomo. O mordomo é responsável por
administrar a propriedade de acordo com os desejos do mes-
tre, não os do mordomo. As vezes, usamos o termo “mordo-
m ia” para encobrir nossos próprios desejos. Podemos, por
exemplo, dizer que mordomia significa tomar todos os re-
cursos que possuímos, multiplicá-los o mais rápido possível
e usá-los para os nossos próprios propósitos.
Isso distorce a visão bíblica da mordomia. A visão bíblica
começa com a visão de Deus para o uso de recursos natu-
rais e humanos. No Jubileu hebraico e nos ensinamentos

181
DONALD B. W AYBILL

de Jesus, os recursos de Deus devem ser amplamente com-


partilhados. Eles não devem ser usados para elevar algumas
pessoas e colocar outras para baixo. Eles devem ser dados li-
vremente aos necessitados. Os bons mordomos dos recursos
de Deus compartilham e distribuem generosamente. Não
somos mordomos dos recursos de Deus quando acumula-
mos e os multiplicamos para ganho pessoal. Os bons mor-
dom os são guardiões prudentes e cuidadosos dos recursos
que chegaram às suas mãos. Eles desprezam o desperdício e
o abuso insensato de recursos. Os mordomos fiéis são modes-
tos quando calculam suas próprias necessidades e generosos
quando respondem aos outros.

D esvio sete : A penas dê um dízimo!


Mesmo o dízimo pode servir como algo que diverge, uma
autojustificação em torno da mensagem de Jesus. Pode se
tornar uma regra mecânica para justificar a vida luxuosa.
O Novo Testamento não nos instrui explicitamente sobre
o dízimo. Jesus e o apóstolo Paulo encorajam a doação li-
beral. As ofertas liberais, entretanto, vão além do dízimo,
como vimos no caso da viúva pobre. Os dízimos eram parte
integrante do sistema do Antigo Testamento de sacrifícios e
ofertas. O Novo Testamento simplesmente assume o dízimo
como um padrão mínimo para dar.
A fraqueza do dízimo como diretriz primária para dar é
óbvia. Uma pessoa que ganha $ 10.000 por ano dá $ 1.000
e retém $ 9.000. Outra pessoa que ganha US $ 100.000 e
dá US $ 10.000 tem US $ 90.000 para uso pessoal. O dízi-
mo, infelizmente, concentra nossa atenção em quanto damos
e não em quanto nos jnantemos. Na forma de ponta-cabe-
ça, Deus se importa mais com o que mantemos do que com
aquilo que damos. E menos importante que uma pessoa dê $

182
0 REINO DE PONTA CABEÇA

1000, enquanto outra dá $ 10.000. O que conta é que uma


luta para cobrir as despesas com $ 9.000, enquanto outra
pode justificar gastar US $ 90.000 ricamente porque, afinal,
“já dei o dízimo”.
Os dízimos simbólicos não exemplificam necessariamen-
te boa mordomia, compaixão ou Jubileu. Eles se tornam fa-
cilmente manobras para justificar a opulência. Em vez de
usar o dízimo para desculpar a vida sofisticada, podemos ex-
piorar formas de encolher nosso padrão de vida a fim de que
tenhamos mais excedentes a dar.
Um dízimo graduado é uma forma de trabalhar nesta
questão5. Uma família pode estabelecer um orçamento bá-
sico de, digamos, $ 30.000. Eles podem então dar o dízimo
normal sobre este padrão básico.
Cinco por cento é adicionado ao dízimo para cada mil
acima da linha de base.
Uma renda de US $ 31.000 significa dez por cento nos
primeiros trinta mil e quinze por cento no próximo mil, e
assim por diante.
Quando a renda chega a US $ 48.000, todos os últimos mil
são dados, já que o dízimo graduado saltou para 100 por cento.
Com $ 48.000, uma família seguindo este esquema daria
$ 13-350 e reteria $ 34.650 para uso pessoal e poupança.
Sob o dízimo tradicional, dariam US $ 4.000 com $ 43.200
deixados para uso pessoal.
Estes números hipotéticos ilustram como alguma forma
de dízimo graduado pode funcionar. Tal dízimo incorpora o
espírito do Jubileu e nos empurra na direção de uma gene-
rosa mordomia. Diretrizes específicas podem ajudar a disci-
plinar a nossa doação, mas nossos dons devem fluir de um
coração de alegria, não regras legalistas.

183
DONALD B. W AYBILL

A mentalidade de um dízimo de dez por cento também


promove a noção de que não há problema na boa vida “se
pudermos pagar” por ela. O dito popular de “viver dentro
de suas capacidades” sugere que aqueles com um orçamen-
to magro devem seguir ter um estilo austero. Aqueles com
orçamento maiores podem, naturalmente, consumir livre-
mente. “Se você puder pagar; você pode ter”. À medida que
nossos meios se expandem, assim faz também nosso apetite
pelas chamadas necessidades”. As coisas para as quais não
tínhamos recursos no passado se transformam nas coisas que
nós simplesmente não podemos viver sem quando nossas
rendas aumentam. Viver dentro de nossos meios é obvia-
mente necessário - especialmente para famílias de baixa ren-
da. A frase muitas vezes, no entanto, torna-se uma descul-
pa conveniente para endossar um estilo de vida sofisticado.
“Viver dentro dos seus meios” é uma regra cultural que pode
levar as pessoas de renda superior para longe do espírito do
Jubileu e de uma vida que dá em abundância.

D esvio O ito: M antenha o T estemunho!


“M anter o Testemunho” é um argumento piedoso que
tam bém foge do modelo do Jubileu. Ele sugere que um
alto padrão de vida é necessário para “testemunhar” de for-
ma eficaz para pessoas ricas. Para alcançar pessoas de classe
alta com o evangelho, os cristãos devem se comunicar com
eles através de símbolos de classe superior. Em outras pala-
vras, não podemos testemunhar de forma significativa para
a multidão que anda de Jaguar se nós dirigimos um Ford.
Os cristãos precisam ostentar para efetivamente comunicar o
evangelho em um contexto afluente. Os defensores do “evan-
gelismo de luxo” certamente não encorajariam os cristãos a
roubar para serem testemunhas de assaltantes. Tampouco

184
0 REINDOE PONTA CABEÇA

encorajariam a promiscuidade sexual como testemunha para


prostitutas. No entanto, às vezes eles usam essa lógica para
racionalizar um estilo de vida extravagante. No processo, a
boa notícia se torna diluída.
Esse “testemunho” de alto nível chama as pessoas a um
simples “sim” a Jesus no coração, com poucas expectativas
de conversão social e econômica. Isso leva a um evangelho
barato - aquele que faz com que 0 culto a Mamon pareça
justo. O evangelho de Jesus Cristo nos livra da escravização
de outros ídolos. Manter um alto padrão de vida para “efeti-
vamente” testemunhar não só zomba da verdadeira fé, mas
também empurra os outros para um evangelho diluído.

D esvio nove: F ilhos do R ei!


Um desvio final nos lembra de que somos, afinal de con-
tas, filhos de um Rei. A Escritura promete muitas bênçãos
aos fiéis filhos de Deus. Como os reis terrestres vivem em
palácios extravagantes, nós, cristãos, devemos também viver
luxuosamente. Filhos de um rei devem se vestir e comer de
forma régia. Ao vivermos dessa maneira, mostramos nossa
participação na corte real de Deus porque as bênçãos mate-
riais mostram 0 sorriso de Deus sobre nós.
Jesus é, obviamente, nosso Rei. Mas isso dificilmente nos
dá licença para entrar em uma vida pródiga. Exatamente o
oposto. Em sua entrada triunfal em Jerusalém em um ju-
mento, por exemplo, Jesus deixa claro que Ele é, em harmo-
nia com seus ensinamentos, um rei de ponta-cabeça. Assim,
se J esus é realmente Senhor e Rei de nossa vida, procura-
remos maneiras de demonstrar humildade, generosidade e
compaixão comparáveis. Jesus promete “nos abençoar”, nos
oferecendo totalidade, paz e alegria. Mas Ele nunca promete
riquezas financeiras para seus filhos.

185
DONALD B. KRAYBILL

Jesus, na verdade, foi muito claro: a chuva de Deus cai


sobre os justos e os injustos. O sol de Deus brilha para todos.
Deus não tem animais de estimação. Não podemos mani-
pular Deus como um boneco. Dizer que os ricos são aben-
çoados - que suas riquezas são um sinal do sorriso de Deus
- implica dizer que os pobres não o são. Tal atitude é uma
condenação dura e cruel dos pobres, porque sugere que a
pobreza deles é um sinal da maldição de Deus.
Lutar para sobreviver na miséria todos os dias é muito
ruim, mas ter cristãos ricos sugere que os bens materiais são
uma bênção, e a pobreza uma maldição divina, é blasfêmia.
O bem-estar material e a pobreza são alimentados por mui-
tos fatores complicados, mas não pelas bênçãos ou maldições
de Deus. Que os cristãos ricos digam que suas riquezas são
um sinal da bênção de Deus não só insulta os pobres, mas a
própria natureza e mensagem de Deus.

E nquanto isso, em casa


O que tudo isso significa? O governo de Deus na vida
dos cristãos é a chave da mensagem econômica de Jesus6. A
proximidade do reinado de Deus rouba dos demônios eco-
nômicos o seu poder. Vimos os princípios do Jubileu tecidos
ao longo dos Evangelhos. À medida que experimentamos o
perdão de Deus, podemos, por nossa vez, perdoar. À medi-
da que aprendemos da bondade de Deus, já não nos preo-
cupamos com as necessidades. Uma vez éramos mendigos,
estranhos, escravos e devedores. Agora Deus nos fez novos,
enchendo-nos de compaixão pelos que estão presos, como
estávamos antes.
O amor de Deus por nós transforma nosso comportamento
econômico. A misericórdia, e não a acumulação, torna-se nosso
novo critério para medir o sucesso. A doação generosa substitui

186
0 REINO DE PONTA CABECA

o proeminente consumo. O mais alto comando de Deus forma o


cerne desta maneira de ponta-cabeça. Amar a Deus com todo o
nosso coração significa amar nossos vizinhos tanto quanto a nós
mesmos. Isso significa cuidar, compartilhar, dar - valorizando
o bem-estar dos nossos vizinhos tanto quanto o nosso. Cuidar
de nosso vizinho nos solta dos antigos grilhões dos demônios.
Jesus não oferece respostas específicas, mas Ele nos chama
para as perguntas certas. Ele nos leva para além das regras
e regulamentos, apelando a um Jubileu perpétuo. Ele não
rejeita a propriedade privada nem insiste na propriedade co-
mum. De fato, grande parte de Seu ensino assume nossa pro-
priedade privada. Não podemos emprestar ou dar aos que
precisam se não temos propriedade. O que Jesus nos pede
pode variar, mas Ele nos convida a tratar os pobres como
nosso próximo, e na verdade como a nós mesmos.
Embora Ele tenha se dirigido a indivíduos, as palavras
de Jesus abalaram a base da economia palestina. Ainda hoje,
Seu chamado ao Jubileu desafia as políticas econômicas que
incentivam as disparidades entre ricos e pobres. Trabalhar
duro para ganhar dinheiro justifica gastá-lo abundante e
egoisticamente? Há momentos em que a aquisição legal de
riqueza é imoral? Jesus nos adverte que a riqueza pode se
transformar em um deus poderoso, capturando nossa ima-
ginação, exigindo nossa lealdade, dobrando nossos joelhos e
governando nossas vidas.
A perspectiva do Jubileu nos leva a questionar suposi-
ções culturais que, muitas vezes, não consideramos. É mo-
ralmente correto pagar somente um salário mínimo mesmo
quando é legal? Devemos cobrar honorários profissionais
exorbitantes, mesmo que sejam legais e costumeiros? Co-
brar comissões exorbitantes pode dificultar o Jubileu, perpe-
tuando as estruturas econômicas que mantêm miseráveis as
pessoas pobres, enquanto os povos ricos festejam.

187
DONALD B. KRAYBILL

Obter o “melhor preço” por uma propriedade ou produto


é sempre “boa administração”? Vender por um preço infe-
rior para uma pessoa carente podería estar mais no espírito
do Jubileu do que exigir o “melhor preço.” Cobrar as taxas
mais altas que “0 mercado vai suportar” é consistente com
o caminho de Jesus? Será que “boa administração” signifi-
ca espremer o último níquel de cada negócio? De muitas
maneiras sutis, nossos sistemas econômicos podem distorcer
nossa fé. Não nos atrevemos a assumir que só porque “as coi-
sas são assim" significa que elas são necessariamente éticas,
morais ou cristãs.

Q uem é rico?
Jesus falou dos ricos e dos pobres. Estes termos preci-
savam de pouco esclarecimento para o seu público. Numa
sociedade de duas classes, os ricos eram óbvios. E fácil jogar
de lado os comentários de Jesus sobre a riqueza, porque po-
demos supor que não somos ricos. Um momento de reflexão,
no entanto, mostra o significado relativo do termo. Uma
pessoa rica em um contexto pode ser pobre em outro. De-
pende de quem comparamos com quem. Simplesmente não
há padrões absolutos para definir o escorregadio termo rico.
As pessoas da classe média tendem a não dar importância ao
Jubileu porque Jesus estava falando sobre os realmente ricos,
não sobre eles.
Os cientistas sociais observam que a felicidade não au-
m enta automaticamente com a riqueza. Na verdade, um
psicólogo colocou o perene paradoxo americano: Por que
tantas pessoas estão tristes em meio à prosperidade?7.Fica-
mos satisfeitos quando sentimos que temos recursos suficien-
tes para atender às nossas necessidades percebidas. As pes-
soas ao nosso redor moldam o que achamos que precisamos.

188
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Nossas necessidades e, portanto, nossa felicidade, estão ba-


seadas em comparações sociais suaves com os outros, não em
padrões absolutos. Se não achamos que precisamos de mui-
to, podemos ser felizes com pouco. Se tentarmos alcançar
nossos colegas de alto nível, um modesto aumento salarial
pode nos deixar mal-humorados. O que precisamos, o que
nos faz felizes, tudo depende do nosso ponto de comparação.
Quando penso em pessoas ricas, penso no Bill Gates, nos
Ted Turners, nos Rockefeller, nos Kennedy, nos Trumps.
Pen s o em lugares como Palm Springs, Califórnia, onde
“simples e despretensioso” ép a ra casas de milhões de dó-
lares. Penso em diretores executivos que ganham milhões
por ano. Eu penso em estrelas do esporte e do cinema com
enormes salários. Estes são os ricos para mim. Eu certamente
não sou um deles. Ou eu sou?
Uma visita a uma igreja rural na América Central abriu
meus olhos de uma nova maneira. Um irmão cristão levou-
-me para o seu lote de banana, um quilômetro acima de uma
montanha íngreme. Contei enquanto andamos. Ele tinha
mais de cinquenta remendos no único par de calças que ele
possuía. De repente, percebí que eu era rico, muito rico,
com pares de calças e camisas de sobra. O significado de
“rico” depende totalmente do nosso contexto social e ponto
de comparação.
Temos pena de nós mesmos quando olhamos para a escala
social e nos comparamos com aqueles que estão acima de
nós. Nós certamente não somos ricos em comparação com
alguém que faz $ 50.000 por ano a mais do que nós. Não,
não somos ricos ao lado da pessoa com uma casa maior do
que a nossa. Ao olhar para cima na escala, nunca somos ricos.
Se olharmos para cima da escala nos sentiremos pobres. Te-
mos pena de nós mesmos e a mensagem bíblica nos escapa.
Esperamos que aqueles que estão no degrau acima de nós

189
DONALD B. KRAYBILL

soltem algumas sobras e não pisoteiem nossos dedos. Porém


isso é um pensamento ilusório, porque aqueles que estão aci-
ma de nós também estão olhando para cima e se sentindo
pobres em contraste com os ricos acima deles. Assim, 0 sen-
timento de pobreza segue em espiral sempre para cima entre
os ricos, porque ninguém nunca pensa já ter o suficiente.
A perspectiva do Jubileu de ponta-cabeça nos lembra de
que uma vez éramos escravos, uma vez estivemos presos.
Esse lembrete desloca nosso foco para baixo, para onde o foco
bíblico sempre aponta. Os pagãos olham para cima. Quando
seguimos o foco bíblico, olhamos para baixo e percebemos
que somos ricos. Quando olhamos para baixo, as coisas de
repente parecem diferentes e somos movidos à compaixão.
A mensagem do Jubileu alcança o seu destino.
Poucos leitores deste livro são um Lázaro destituído.
Porém os Lázaros estão em nossa comunidade global. Eles
procuram água limpa. Eles morrem de HIV/AIDS e outras
doenças tratáveis. Eles procuram uma moradia decente. Sen-
tam-se ao lado da calçada global com fome e desnutridos.
Mesmo com estimativas conservadoras, mais de meio bilhão
—ou seja, 500 milhões -de pessoas estão literalmente pas-
sand o fome. Outro meio bilhão recebe calorias suficientes,
mas tem pouca proteína. Cerca de 60.000 pessoas morrem
de causas relacionadas à fome todos os dias. Cerca de 20.000
destes são crianças. Quase 1,3 bilhão de pessoas não têm
água limpa. Da fome absoluta a dietas deficientes, cerca de
um quinto da população mundial está com fome e desnutri-
ção8. Comparado a eles, muitos leitores deste livro são ricos.
Muitos cristãos lutam contra os pneuzinhos. Dietas indisci-
plinadas nos levam direto para programas de perda de peso.
Ironicamente, a estrutura de classe global hoje se parece
muito com a antiga Palestina. Uma pequena elite no topo
senhores sobre a vasta multidão embaixo. Cerca de um quin-

190
0 REINO DE PONTA CABEÇA

to da população mundial devora em torno de 80% dos nos-


sos recursos globais e produz 80% da poluição. Os quatro
quintos mais pobres da população mundial lutam pelos 20%
restantes dos produtos. Quase metade das pessoas do mundo
vive com menos de dois dólares por dia —menos do que o
gasto com animais de estimação nos países desenvolvidos.
A renda média dos americanos é 100 vezes mais do que
a renda do bilhão mais pobre do mundo. Mesmo quando os
respectivos padrões de vida são levados em conta e o poder
de compra real é calculado, o americano médio tem mais
de 10 vezes a renda das pessoas típicas em muitos países. A
maioria dos cristãos nos países desenvolvidos ocidentais só
pode ler suas Bíblias como cristãos ricos.

R eduzindo a escala
Por onde começamos? Podemos começar consumindo
menos. Muitas de nossas chamadas “necessidades” são sím-
bolos de status que lustramos para manter uma imagem
respeitável entre nossos amigos. Compras incessantes têm
se tornado um ritual de sacrifício no altar do materialismo.
Reduzir o consumo é o início do processo de ser um mordo-
mo responsável dos recursos não renováveis.
Nossa autoimagem está enraizada em como nós achamos
que as pessoas nos veem. O antigo ditado social é verdade -
Eu sou o que eu acho que você acha que eu sou. Se eu acho
que outra pessoa acha que sou estranho, me sinto inadequa-
do e inseguro sobre mim mesmo, Desejamos que outros nos
respeitem e pensem bem de nós. Para sermos aceitos, mos-
tramos os símbolos de status do nosso grupo - carros, rou-
pas, barcos, livros, computadores e bugigangas. Roupas fora
de moda, carros pequenos/casas modestas e férias simples
violam as regras da etiqueta da classe média. Para proteger e

191
DONALD B. KRAYBILL

melhorar nossa imagem, precisamos sempre devorar mais e


mais produtos, poucos dos quais são necessidades.
O materialismo é uma armadilha sem saída. Quanto mais
temos, mais desejamos. Quanto mais temos, mais precisamos
para manter aquilo que temos. Assim que conseguimos acom-
panhar a nova mania ou moda, alguém passa a nossa frente.
Mais uma vez, ficamos para trás. Alguém sempre nos ultra-
passa com um modelo maior, com mais acessórios, com mais
velocidade, mais conveniência, ou um modelo mais avança-
do. Propagandas incessantes sempre criam novas necessidades
e desejos. Nossos desejos socialmente construídos prendem
nossas vidas em armadilhas artificiais e roubam nossas almas
da integridade moral. O impulso incessante por mais de tudo
deixa os ricos vazios, os pobres famintos e os escassos recur-
sos desperdiçados. Na sociedade americana, por exemplo, o
tamanho médio da família encolheu para metade e durante o
mesmo período o tamanho das casas dobrou.
Na corrida sem fim da escalada de status, estamos sem-
pre atrasados9. E tentador entrar no jogo do consumo eviden-
te —exibindo nossas mercadorias de intermináveis viagens
de compras - na esperança de sermos aceitos e aplaudidos
por nossos amigos. Em nítido contraste, o povo do reino
de ponta-cabeça envolve um serviço discreto— cuidando dos
necessitados, dos doentes, dos destituídos e dos deficientes,
que muitas vezes estão escondidos em instituições ou vivem
à margem da sociedade.
Para suportar as pressões do consumo evidente, precisa-
mos de amigos para dar apoio e afirmação. As pressões so-
ciais para o consumo, conformidade e status social são tão
fortes que dificilmente podemos resistir a elas sozinhas. É
por isso que precisamos de amigos cristãos que também afir-
mam os valores de ponta-cabeça e tentam vivê-los. Somos
todos seres sociais que dependem dos outros para o nosso

192
0 REINO DE ΡΟΝΙΑ CABEÇA

senso de valor. É importante selecionar e criar círculos de


amigos - rede de apoio - que afirmam valores do reino. Esta
rede de amigos cristãos não precisa ter uma estrutura for-
mal, mas pode ajudar a reforçar escolhas modestas de estilo
de vida. O apoio amoroso de uma cultura alternativa, um
enclave cristão, nos permite resistir às forças sedutoras e de-
moníacas do materialismo.
A redução do consumo não é um remédio para a fome
no mundo. Comprar menos carne no supermercado local
não vai levar mais proteína para despensas do terceiro mun-
do. Como cristãos, consumimos menos, não porque é uma
solução eficaz para a fome no mundo, mas porque é algo
moralmente responsável a fazer. Somos responsáveis não por
soluções grandiosas para os problemas mundiais, mas pela
nossa obediência pessoal ao nosso conhecimento do evange-
lho. Isso, de fato, resume a parábola dos talentos.
Considere o tamanho de nossa pegada ecológica. Como
nosso estilo de vida diário devora os recursos naturais e polui
o jardim de Deus? A pegada que deixamos é determinada
por coisas como os produtos que vão para o lixo, os quilo-
metros que dirigimos, a água mandamos pelo ralo, e a ele-
tricidade que usamos. Essas e dezenas de outras atividades
diárias deixam sua marca não apenas nos recursos naturais,
mas também nos pobres10.
E fácil não fazer nada porque tememos que nosso pequeno
ato não faça diferença. E verdade que mais um carro de luxo,
e mais uma casa de férias não fará uma diferença significa-
tiva. No entanto, quando vários milhões de outras pessoas
pensam e agem da mesma forma, as consequências corporativas
da nossa ganância são devastadoras. Cinco milhões de pe-
daços de plástico e 10 milhões de carrões bebendo gasolina
produzirão um imenso impacto coletivo - uma gigantesca
pegada ecológica. A crença de que “meu comportamento

193
DONALD B.KRSYBILL

não fará a diferença de qualquer maneira” não nos desculpa


da responsabilidade moral.
Por outro lado, os atos individuais não são suficientes.
Devemos também agir em conjunto através de organizações
a nível local e internacional que fazem a diferença. Preci-
samos trabalhar para mudar as estruturas e as políticas que
protegem os ricos e pisoteiam os pobres. Acima de tudo, de-
vemos cultivar uma perspectiva global que faça a diferença
no nível pessoal e local11.
Considere várias perguntas simples sobre simplicidade e
justiça econômica.
• Se todo mundo no mundo todo consumisse tantos re-
cursos naturais quanto eu, que tipo de mundo teríamos?
• Quanto do meu nível de consumo drena recursos
energéticos e prejudica o meio ambiente? Em outras
palavras, quão grande é minha pegada ecológica?
• Meu estilo de vida este ano é mais simples do que no
ano passado? Ou é mais complicado, mais consumis-
ta, mais estressante?
• Em que direção estou indo?

P raticando o J ubileu
Jesus não nos chama para sair mundo do comércio e dos
negócios. Ele não nos ensina que administrar dinheiro e pro-
priedade está errado. Em vez disso, Ele nos diz que o reino
de Deus em nossas vidas deve moldar nossa aquisição, admi-
nistração e disposição de riqueza.
Muitos cristãos, habilidosos em administrar negócios e
entender sistemas econômicos, fizeram enormes contribui-
ções ao ministério da igreja e aos necessitados em todo o

194
0 REINO DE POHTA CABEÇA

mundo. A expressão do Jubileu assume diferentes formas,


dependendo da nossa posição numa determinada estrutu-
ra econômica. Se somos o rico em um relacionamento, isso
pode significar compartilhar além da expectativa com pes-
soas em necessidade12.
Como empregadores, praticamos o Jubileu pagando sa-
lários acima da média com alegria, mesmo quando isso re-
duz nossos lucros. Em vez de tentar espremer o máximo da
mão-de-obra dos funcionários, ao preço mínimo, compar-
tilhamos lucros, proporcionamos dignidade no trabalho e
incentivamos a participação acionária na empresa. Esta pers-
pectiva não é uma receita para a falência ou uma visão arro-
gante do fundo do poço. Na verdade, em longo prazo,esse
subsídio pode render mais empregados felizes, trabalhando
melhor para produzir mais para todos. Um compromisso
com a perspectiva do Jubileu exige a distribuição justa da
riqueza entre aqueles que ajudam a criá-la. Afunilar todo o
lucro nas mãos de alguns contradiz o espírito Jubileu.
Os empreendedores cristãos lutam frequentemente com
estas perguntas difíceis.
• De onde vem o lucro?
• Onde ele vai parar?
• Sua distribuição está de acordo com uma visão do Ju-
bileu? Ou empurra alguns para o alto da escala econô-
mica e prende 0 restante na parte inferior?

Lembre-se da injunção bíblica de que as pessoas e os re-


cursos materiais são do Senhor. Somos chamados a valorizar
as pessoas acima das coisas. Devemos usar bens, não pessoas.
Uma corporação, seguindo a visão do Jubileu, fará esforços
especiais para empregar os desfavorecidos —os ex-infrato-

185
DONALD B. KRAYBILL

res, os surdos, os deficientes e os estigmatizados de outras


formas. Para aqueles que prestam serviços profissionais, a
abordagem do Jubileu pode significar uma escala graduada
de pagamento ligada à renda do cliente. Ou pode significar
cobrança de preços abaixo das taxas vigentes. Os ricos, ener-
gizados pela visão bíblica, compartilharão o Jubileu com
aqueles ao redor e abaixo deles com alegria.
Considere um exemplo do Jubileu moderno que vai além
da piedade. Habitat for Humanity (“habitat para a humani-
dade”) é uma organização internacional que aplica criativa-
mente a economia bíblica. A Habitat opera em centenas de
locais em dezenas de países ao redor do mundo. O programa
constrói casas de baixo custo e modestas para quem não tem
casa. Proprietários em potencial devem dar centenas de horas
de sua própria “equidade de suor” (tempo de voluntariado)
para se qualificar para uma casa. Eles também dão alguns dos
“equidade de suor”para outros projetos antes da construção
de sua casa começar. Eles podem pagar hipotecas semjuros por
mais de vinte anos. Os contribuintes compartilham o dinhei-
ro, o tempo, os suprimentos e mão-de-obra com os pobres. A
Habitat constrói mais do que casas - ela constrói relaciona-
mentos e comunidade. Acima de tudo, a Habitat nutre dig-
nidade, prestação de contas e responsabilidade. Isto é, de fato,
um modelo exemplar de compaixão jubilar.
O dar de ponta-cabeça que entrega além da expectativa
sinaliza nossa entrada no reino. É um sinal poderoso de que
o Rei Jesus é o rei dos nossos recursos. Há muitas maneiras
criativas de usar nossos recursos para o bem dos pobres. Em
uma comunidade uma associação de “fiança pré-julgamen-
to”deposita fiança para que os pobres não precisem ficar na
cadeia por meses antes do julgamento. Proprietários forne-
cem suas propriedades como fiança para este programa. Em
outro exemplo, propriedade ou poupança podem ser usados

196
0 REINO DE PONTA CABEÇA

como garantia para pessoas carentes que não têm crédito e


querem comprar uma casa ou iniciar um negócio. Se nós
amamos os nossos vizinhos como a nós mesmos, assinaremos
a fiança de empréstimo do vizinho e arriscaremos pagar pe-
las consequências do não cumprimento?
O espírito do Jubileu pode tomar muitas expressões. Em
vez de bater na porta do escritório do chefe para o nosso próprio
aumento, podemos pedir em nome daqueles que têm menos
do que nós. Podemos oferecer para pagar além do preço esta-
belecido por um produto ou serviço. Podemos dar uma gorjeta
além da expectativa. Podemos acrescentar um dízimo à renda
mensal ou hipoteca como um sinal de Jubileu. Ao invés de ex-
pressões descuidadas de mordomia, esses sinais de ponta-cabeça
sinalizam nossa liberdade da escravidão econômica. Livremente
compartilhar o espírito do Jubileu nem sempre é possível, mas,
como somos capazes, dar com um espírito generoso sinais do
amor de Deus e nossa libertação dos demônios de Matnon.

D ar de ponta- cabeça
Há cinco sinais que indicam o que é dar de ponta-ca-
beça. Em primeiro lugar, canalizamos o compartilhamento
do Jubileu para os marcados pelas disparidades econômicas.
Jesus, vez após vez, nos ordena a dar aos pobres. Em con-
traste com muitos promotores religiosos, Jesus não pleiteou
contribuições para sua causa. Sua paixão era pelos necessita-
dos, não por seu movimento religioso. O testemunho cristão
mais poderoso vem quando nosso dar é livre das amarras
do interesse próprio. Mesmo as instituições cristãs, às vezes,
tornam-se egoístas e desviam fundos para seus próprios in-
teresses ao invés de servir os necessitados. O Jubileu coloca
alvos genuínos, para atendermos aos que precisam, não ins-
tituições que se interessem por si mesmas.

197
DONALDB.KRAVBILL

Segundo, a generosidade do Jubileu inclui outros cris-


tãos no processo de tomada de decisão. O individualismo
da cultura ocidental assume que dar é estritamente um as-
sunto privado, pessoal. Irmãs e irmãos na comunidade cristã
podem nos ajudar a discernir como e onde dar. Ao invés de
fazer manobras para conseguir lugares de influência e reco-
nhecimento público, dar segundo o Jubileu é uma expressão
coletiva de amor da comunidade, não do indivíduo.
Terceiro, dar, segundo o Jubileu, assume que uma forma
de dar é não tomar dinheiro de outros, em primeiro lugar.
Tirar o máximo possível dos outros para dar mais contradiz
o espírito jubilar. O Jubileu afirma que não se trata deter
recursos em primeiro lugar, mesmo os recursos que podem
ser legitimamente nossos, e sim de uma forma de dar. Isso,
em muitos aspectos, protege a dignidade do indivíduo mais
do que os dons paternalistas.
Em quarto lugar, a doação do Jubileu não envia cheques
a todos os fundos de compaixão que retratam crianças
necessitadas. O dinheiro aborda apenas um tipo de neces-
sidade. Dinheiro por si só não é suficiente. Pessoas, tempo,
dignidade e educação também devem ser incluídos no paco-
te do Jubileu. A compaixão é mais do que piedade e peque-
nas porções sentimentalistas. Essa doação deve ser pensada,
ordenada e humana. Ela deve ir além de cestas de Natal, até
empregos, empréstimos a juros baixos, crédito, segurança,
projetos educacionais e de habitação.
Em quinto lugar, a doação do Jubileu decorre da história
do amor de Deus. Ela atesta a história bíblica do Jubileu —
a história da compaixão de Deus encarnada por Jesus. As
ofertas genuínas da compaixão sentida pelo coração são mo-
tivadas pelo amor de Deus e um cuidado genuíno para com
os necessitados. Sem a perspectiva bíblica, a ajuda financei-
ra simplesmente empurra os outros para cima uma escala

19 8
0 REINO DE PONTA CABEÇA

econômica de forma vazia, onde a ganância gera ganância e


materialismo prevalece. A doação do Jubileu proclama a boa
notícia do perdão em Jesus Cristo. A caridade que não traz
uma mensagem de que libertação espiritual é pouco mais do
que o paternalismo do bem-estar que só leva a novas manei-
ras de adorar a Mamon.

199
CAPÍTULO 8

PIEDADE
ÍMPIA
0 REINO DE PONTA CABEÇA

P istas para a crucificação


or que Jesus foi assassinado? Por que um pregador de
P compaixão seria pregado em uma árvore? Já vimos al-
gumas pistas sobre a razão da sua morte em sua crítica aos
ricos. Porém, a mensagem do novo reino foi muito além de
uma crítica da riqueza. O que seguramente selou o destino
de Jesus foi o seu ousado desafio aos símbolos da identidade
judaica. Suas palavras e ações incendiaram a bandeira do na-
cionalismo judaico.
Jesus anunciou o rompimento de um novo reino, uma
nova ordem, um novo dia. A intervenção de Deus na história
trouxe muitas surpresas que colocariam as coisas antigas de
ponta-cabeça. Jesus era um profeta judeu que se mantinha
firme nas tradições de Moisés, mas dizendo que Deus estava
se movendo além delas, transformando-as em novas manei-
ras que cumpriríam mais plenamente seu propósito. O espí-
rito de Deus transformaria símbolos sagrados - observância
do sábado, rituais de pureza, limites sagrados, e sim, até
mesmo o poderoso templo em Jerusalém. Muitas das práti-

203
DONALD B. KRAYBILL

cas que cercam esses símbolos serviram para reforçar a iden-


tidade tribal e nacional. O novo reino teria portas maiores,
mesas maiores e Lima família muito maior. As velhas formas
criaram a identidade tribal através da separação e da exclu-
são. A nova ordem dava as boas-vindas a todos.
Ninguém gosta de ver seus símbolos queimados. Nin-
guém gosta de ver sua bandeira em chamas. Mudança, espe-
cialmente mudança religiosa, é muito difícil. Muitos cristãos
de hoje provavelmente teriam se juntado às forças que defen-
diam a bandeira tribal no tempo de Jesus. Era a coisa razoá-
vel, racional, natural a fazer diante de idéias ultrajantes. Em
todo caso, a crítica de Jesus às práticas piedosas que elevavam
símbolos sagrados e rituais religiosos acima da necessidade
humana engrossava o enredo que conduzia à sua cruz.

A T radição O ral
Por que o ministério de Jesus trouxe um confronto direto
com as autoridades religiosas? Jesus viveu em um mundo
hebraico entrincheirado nos ensinamentos de Moisés. Ele
não veio para destruir a lei ou para desprezá-la. Ele a abraçou
e cumpriu. Se Jesus afirmou a lei, por que Ele colidiu com
líderes religiosos? A resposta está, em parte, em sua atitude
em relação à lei oral do judaísmo. Jesus endossou a Totã
escrita, os cinco livros de Moisés, mas Ele desprezou partes
da lei oral. Ele via a lei oral como tendo menos autoridade
do que as Escrituras. Isto, especial mente, provocou a ira dos
fariseus. Alguns dos escritores dos Evangelhos ressaltaram o
antagonismo entre Jesus e os fariseus, porque a igreja primi-
tiva enfrentava dura oposição deles. Uma breve visão geral
da lei oral nos ajuda a compreender a natureza do conflito.
Na época de Jesus havia realmente duas Tonás, dois tipos
de lei religiosa —escrita e oral. Tanto os saduceus como os

204
0 REINO DE PONTA CABEÇA

fariseus aceitavam a Torá escrita, composta pelos cinco livros


de Moisés, como a santa lei de Deus. Ele continha os man-
damentos dados a Moisés no Monte Sinai. Além disso, uma
Torá oral não escrita passou de boca em boca de geração em
geração. Os escribas desenvolveram a lei oral e no tempo de
Jesus, os fariseus seguiam-na à letra. A lei oral evoluiu atra-
vés de três estágios diferentes - Midrash, Mishná e Talmude.
O primeiro passo, ou Midrash, surgiu depois que os ju-
deus retornaram à sua terra natal do cativeiro babilônico
cinco séculos antes do nascimento de Jesus. O Midrash era
um comentário versículo por versículo explicando a Escritu-
ra. Uma interpretação seguia cada versículo. Por exemplo,
em Levítico 19:13 a lei escrita diz: “Não oprimirás o teu
próximo, nem o roubarás; a paga do diarista não ficará con-
tigo até pela manhã”. O comentário do Midrash seguindo
este versículo diz que:
Isto aplica-se também ao aluguel de animais, ou de uten-
sílios, ou de salário de um empregado mesmo se 0 empre-
gado não veio a ele para pedir o salário... um assalariado
contratado para o dia deve ser pago na noite seguinte; um
contratado para a noite, no dia seguinte1.
Desta forma, o Midrash fornecia um comentário de verso
por verso sobre os cinco livros de Moisés. Este vasto corpus
foi preservado oralmente - passado de boca em boca através
das gerações. Não foi escrito até depois do tempo de Jesus.
Uma segunda forma de interpretação oral, conhecida
como Mishná, surgiu nos dois séculos antes de Jesus. Em
vez de um comentário exato em cada verso, ela fornecia in-
terpretações orais da Torá aplicada a muitas questões não
mencionadas especificamente na escritura sagrada.
Quase dois séculos após a morte de Jesus (cerca de 200
dC), as tradições orais foram gradualmente escritas no Tal-

205
DONALD B. KRAYBILL

muck. Isto gerou a controvérsia feroz, já que muitos rabinos


consideravam escrever a lei o mesmo que queimá-la. O Tal-
mude, esta coleçãofinal de sabedoria e lei oral, tornou-se o li-
vro distintivo do Judaísmo comparável ao Novo Testamento
do Cristianismo.
A lei oral ou “tradição dos anciãos” (Mc 7:5) tinha um
propósito nobre: esclarecer e interpretar as palavras escritas
de Moisés. Inicialmente, a tradição oral estava subordinada
à autoridade das Escrituras. Porém ao longo dos anos a auto-
ridade da lei oral cresceu. Com o tempo, foi dito que Deus
havia dado a lei oral a Moisés e preservado por providência
divina ao longo das gerações. A tradição oral logo assumiu
igual, se não maior, autoridade do que a palavra escrita. O
escopo e os detalhes da lei oral são surpreendentes. Uma
compilação escrita da Mishnd tem cerca de 700 páginas de
letras pequenas2! O s escribas e rabinos memorizavam-na.
Não admira que toda a vida de um escriba fosse dedicada ao
seu estudo e à sua memória.
A Mishnd está organizada em seis grandes divisões cha-
madas ordens. Cada ordem tem sete a doze subdivisões cha-
madas de tratados. Estes são mais detalhados em 523 capí-
tulos. Finalmente, cada capítulo contém cerca de cinco a dez
parágrafos legais3. Não escrita na época de Jesus, a versão
oral da Mishnd guiava a prática religiosa. A Mishnd cobre
toda a gama de perguntas, que podem surgir sobre a legis-
lação religiosa e civil.
Os trabalhadores em cima de uma árvore ou um muro po-
dem oferecer uma oração? Pode-se abrir pedreiras ou poços
durante um ano sabático? Se alguém está nu e faz uma ofer-
ta de pão com cevada em casa, isso torna a oferta imunda?
Amarrar um nó é considerado trabalho que viola o sábado?
Um homem pode se divorciar de sua esposa por ela queimar
uma refeição? Qual é a pena de morte apropriada para quem

206
D REINO DE PONTA CABEÇA

b la s fe m a - s e r q u e im a d o , a p e d r e ja m e n to , d e c a p ita ç ã o o u es-
tr a n g u l a m e n to ? U m h o m e m é c e r im o n ia lm e n te i m u n d o se
e le to c a r u m ra to ? Se u m p á s s a ro im u n d o se s e n ta n o s o v o s
d e u m p á s s a ro lim p o , os o v o s p e r m a n e c e m c e r im o n ia lm e n te
lim p o s ? Se u m cão c o m e a c a rn e d e u m c a d á v e r, e n tã o fica à
p o r t a d e u m a ca sa , isso t o r n a a c a sa im p u r a ?

Aí vezes, a Misbná e n u m e r a as co isa s a fa z e r e a n ã o fazer,


as lin h a s fin as e n tr e o s a g r a d o e o p ro f a n o . C o m o u m a b o la d e
n e v e s a g r a d a , a tr a d iç ã o o ra l se to r n o u c a d a v e z m a is p e s a d o
ao lo n g o d o s sé c u lo s.

F ariseus progressistas
O s fa ris e u s , a o c o n t r á r i o d o s s a d u c e u s , a p lic a v a m a lei
o ra l à v id a c o tid ia n a . S u a in te n ç ã o e ra b o a . O s fa ris e u s a c re -
d i t a v a m q u e a fé r e lig io s a d e v e r ia p e n e tr a r to d o s os a s p e c to s
d a v id a . A p a r t i r d e u m e x a m e c u id a d o s o d a s E s c r itu r a s ,
e le s t e n t a v a m p r e s c r e v e r u m a c o n d u t a a p r o p r ia d a p a r a c a d a
c ir c u n s tâ n c ia . E le s n ã o q u e r ia m q u e a L ei d e M o is é s se to r-
n a sse u m liv ro e s t é r i l , s e p a r a d o d a v id a . E m c o n tr a s te , os
s a d u c e u s a f ir m a v a m a p e n a s a a u t o r i d a d e d a lei e s c rita . Isso
t o r n o u m a is f á c il n ã o a p lic a r a s E s c r itu r a s a n o v a s q u e s tõ e s
d e s e u te m p o . E l e s e r a m c a p a z e s d e a b r a ç a r a p r e s e n ç a ro -
m a n a e a c e ita r a in f lu ê n c ia d e c u ltu r a s e s tr a n h a s p o r q u e os
liv ro s d e M o is é s p a r e c ia m ir r e le v a n te s p a r a essas re a lid a d e s .

A o a d e r ir a p e n a s à p a la v r a e s c r ita e a a lg u n s r e g u la m e n -
to s r itu a is , os s a d u c e u s se d e s c u lp a v a m d a o b e d iê n c ia d iá r ia
à le i. A s s im e le s p o d ia m o p e r a r p ie d o s a m e n te o te m p lo d e
J e r u s a l é m m e s m o q u a n d o e le s fle r ta v a m c o m os ro m a n o s .
O s fa ris e u s , p o r o u t r o la d o , se p r e o c u p a v a m c o m a p r á ti -
c a fiel. E le s m o s t r a r a m s u a s u b m is s ã o à a lia n ç a d e M o isé s
o b e d e c e n d o à l e i o ra l. C u id a d o s a m e n te s e g u ia m as re g ra s
d a p u r e z a r i t u a l e d o d íz im o . E s c r u p u lo s a m e n te o b s e r v a ra m

207
DONALD B. KRAYBILL

regulamentos piedosos, esperando que algum dia todos os


judeus seguissem seu exemplo.
A visão farisaica, em suma, era criar uma nação santa,
uma nação de sacerdotes4. Hoje, o termo fariseu carrega uma
conotação negativa de hipocrisia e autojustiça. No contexto
do seu tempo, porém, os fariseus eram progressistas since-
ros! Eles realmente queriam que a visão de Moisés floresces-
se na vida corporativa do judaísmo.
Em termos gerais, os quatro partidos religiosos (como
observado no capítulo três) respondiam de formas diferentes
à situação política na Palestina. Os essênios eram um grupo
sacerdotal fora do poder. Eles se retiravam para comunida-
des separatistas alojadas em cavernas perto do Mar Morto.
Algum dia eles esperavam deslocar os saduceus em Jerusa-
lém e operar o templo. Usando a estratégia oposta, os rebel-
des patriotas tentavam derrubar os romanos através de mo-
vimentos de protesto e violência. Os saduceus diplomáticos
comprometiam-se, trabalhando de mãos dadas com os ro-
manos para manter o status quo por ganhos financeiros. Em
muitos aspectos, os saduceus eram conservadores políticos,
econômicos e religiosos. Os fariseus, entretanto, trabalha-
vam seriamente na agenda judaica de santidade. Viviam em
tensão criativa. Tentavam encontrar um delicado equilíbrio
entre retirar-se, revoltar-se e comprometer-se. Em meio ao
tumulto, eles se apegavam obstinadamente à visão de uma
nação santa e sacerdotal.

J esus Irreverente
A irreverência de Jesus é uma questão fascinante. Por que
Ele deplorava o ritual religioso? Por que Ele desprezou a
lei civil? Ele quebrou as regras da piedade trabalhando no
sábado, desconsiderou a limpeza ritual, associando-se com

208
0 REINO DE PONTA CABEÇA

pessoas de má reputação e purgando o templo. Explorare-


mos o significado desses quatro atos provocadores e então
resumiremos a crítica verbal de Jesus aos fariseus5.
A violação de Jesus às normas do sábado foi muito ir-
ritante. Claro que Ele sabia disso muito bem! O descanso
sabático foi um dos Dez Mandamentos. Um símbolo de res-
peito e adoração a Deus era uma característica distintiva da
fé hebraica. Ele separou os hebreus. Os judeus preservaram
cuidadosamente o dia do culto sagrado. A transgressão à lei
do sábado era um assunto sério - os infratores recebiam a
pena de morte. Aqueles que quebraram uma ordenança do
sábado após receber uma advertência eram apedrejados. Je-
sus destruiu algumas das tradições humanas incrustando o
sábado, mas não destruiu o princípio do sábado. De fato, ele
o confirmou6.
Todos os quatro Evangelhos relatam o desvio do sábado
por Jesus. Mateus e Marcos registram duas violações: colhei-
ta de grãos e cura (Mt 12: 1-14; Mc 2:23-3: 6). Lucas ob-
serva quatro polêmicas (Lc 6:1-11; 13:10-17; 14:1-6). João
(5:2-18) relata uma cura do sábado. Mateus, Marcos e Lucas
mostram uma sequência de cinco passos em incidentes de
cura e de colheita.
Primeiro, Jesus defende seus discípulos por colher grãos
no sábado. A ofensa não é roubar. Viajantes e os pobres eram
autorizados a servir-se dos grãos de pé em pé no campo.
Provavelmente houve diversas infrações nesse sentido. Je-
sus e seus discípulos provavelmente haviam andado muito
no sábado em violação de limites estritos. Eles estavam tra-
balhando (colhendo grãos) e talvez não comendo a refeição
ritual apropriada no sábado. Eles estavam “debulhando” o
grão em suas mãos e não preparando uma refeição “pura”de
sábado. Todos esses atos violavam os estritos regulamentos
do sábado.

209
DONALD B.KFAYBILL

Segundo, os fariseus discutem a violação com Jesus e ad-


vertem-no a seguir a lei —as tradições religiosas.
Terceiro, eles O colocavam sob vigilância (Mc 3:2) para
ver se eles podiam pegá-lo em uma segunda ofensa punível
com a morte.
Quarto, mesmo depois de uma advertência, Ele profa-
na o sábado de novo, desta vez curando. A tensão aumenta.
Marcos diz: “Irado, olhou para os que estavam à sua volta e,
profundamente entristecido por causa do coração endurecí-
do deles” (Mc 3: 5).
No quinto e último passo, os fariseus fazem planos para
destruí-lo. Jesus de repente se retira da área, aparentemente
fugindo para preservar sua vida.
Por que Jesus é tão ousado? Por que continua com esse
comportamento desrespeitoso? Por que brincar com a mor-
te? Por que Ele ataca a tradição oral, arriscando sua própria
vida? O doente esteve doente há muitos anos. Por que não
esperar educadamente mais um dia até que o sábado passe?
Jesus conhece bem as penalidades da lei. Apesar de um se-
gundo aviso, ele continua a curar. Por quê?
Jesus atingiu o coração da tradição oral. Embora os Dez
Mandamentos proibissem o trabalho do Sábado, a lei oral
englobava um sistema meticuloso de regras para a obser-
vância do sábado. Na forma escrita, a Mishnd contém 240
parágrafos sobre o comportamento do sábado. Um parágrafo
enumera trinta e nove tipos de trabalho proibido: semear,
arar, assar, girar, amarrar um nó, escrever ou apagar duas
letras do alfabeto, apagar um fogo, acender um fogo, golpear
com um martelo, e assim por diante7.
Muitos parágrafos discutem as proibições em detalhes.
Por exemplo, aqueles que guiavam camelos e marinheiros
não podiam amarrar nós no sábado. Mas os nós para redes de

210
0 REINO DE PONTA CABEÇA

cabelo, sandálias e cintos eram permitidos. Os nós, abertos


com uma mão, eram permitidos desde que não fossem con-
siderados nós. Era tão errado desatar um nó quanto amarrar
um. O território era dividido em quatro tipos de espaço: pú-
blico, privado, neutro e livre. As regras do sábado determi-
navam o material que podería ser movido de uma área para
outra. Uma pessoa movendo qualquer coisa de um espaço
privado para um espaço público ou vice-versa era culpada de
uma infração do sábado.
Dispositivos engenhosos foram criados para ignorar a le-
gislação do sábado. A lei ditava que as pessoas não podiam
andar mais de 900 metros no sábado. No entanto, para con-
tornar isso, eles poderíam “estabelecer residência” no final
da caminhada do seu dia de sábado, um dia antes. Eles es-
tabeleciam a residência levando duas refeições a um lugar
que ficasse a 900 metros de sua casa. No dia de sábado, as
pessoas podiam percorrer os 900 metros de sua casa perma-
nente para a sua “residência recém-criada” e depois andar
900 metros adicionais. Esse desvio legal dobrava a duração
das viagens do Dia do Senhor9.
O Sábado, com seu complicado ritual, era um símbolo
central da fidelidade religiosa e da identidade tribal. Aque-
les que seguiam as receitas do sábado eram justos; os que
não o faziam, eram perversos. Os líderes religiosos tinham o
poder de definir e fazer cumprir a prática do sábado. Ao vio-
lar o sábado, Jesus desconsiderou a autoridade dos líderes
religiosos, especialmente os fariseus.
Jesus explicou seu comportamento com estas palavras:
“O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por
causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor
até mesmo do sábado” (Mc2:27-28, Mt 12:8, Lc 6:5). O
ponto é simples, mas profundo. Este ato de desobediência
civil não foi projetado para destruir o sábado, mas para es-

211
DONALD B.KRAYBILL

clarecer o seu propósito e mostrar quem o controlava. O sá-


bado foi projetado para servir às pessoas - para nos revigorar
depois de seis dias de suor. Destinava-se a atender às nossas
necessidades físicas, emocionais e psicológicas. O sábado de-
veria ser servo, não mestre.
Ao longo dos anos, este princípio virou de ponta-cabeça. À
medida que a lei oral se acumulava, o sábado também crescia.
Logo se tornou um mestre; escravizou as pessoas. Elas não
mais o governavam. O Sábado tinha parado de servi-las. As
pessoas cumpriam obedientemente centenas de regulamen-
tos. Em vez de descanso, ele fazia com que tivessem coisas
novas para se preocupar. Em vez de dar boas-vindas ao sábado,
as pessoas esperavam pelos dias de trabalho, que as libertava
dos fardos do sábado. Essa prática religiosa, uma vez tão nobre
em intenção e propósito, se tornara opressora.
Então veio Jesus, alegando que Ele era Senhor do sábado,
dizendo que Ele reinava sobre o ritual religioso e tradição.
Ele se recusou a se curvar e adorá-los. Ele chamou os escravos
dos costumes a servir a Deus e somente a Deus. As pesso-
as não se atrevem, disse Ele, a colocar o costume antes de
alimentar e curar as pessoas. Jesus coloca repetidamente a
necessidade humana acima do dogma religioso. Ele observa
ironicamente que os fariseus cuidam melhor dos animais do
que das pessoas. Eles puxariam um boi de uma cova no sába-
do, mas proibiam um médico de tocar numa pessoa doente.
Para os fariseus, a religião se tornara um ritual vazio. Jesus
virou a religião de ponta-cabeça mostrando que a verdadeira
adoração honra a Deus e serve os outros.

212
0 REINO DE PONTA CABEÇA

M ãos sujas
É difícil compreendermos a piedosa paranoia do judeu
sobre impureza. Os seres humanos traçam linhas para
separar as coisas sagradas das coisas cotidianas. Dizemos que
a vida humana é sagrada para nos separarmos dos animais.
Vemos a oração como uma atividade sagrada, bem separa-
da de jogar videogames. As sociedades ao redor do mundo
traçam linhas entre o sagrado e o profano. Esses mapas cul-
turais classificam pessoas, lugares, coisas e tempo em caixas
sagradas e profanas. Comer pão em um culto de Santa Ceia
é uma atividade sagrada em um lugar sagrado em um tem-
po sagrado. Cada aspecto de comer pizza em uma praça de
alimentação em um shopping é absolutamente cotidiana- o
que os estudiosos chamam de profano.
Não apenas traçamos linhas entre o sagrado e profano, fica-
mos muito perturbados se fatias de pizza aparecerem em uma
bandeja da ceia. Regras de pureza e poluição nos ajudam a ga-
rantir que a sujeira cultural não contamine os lugares limpos.
As regras relativas à limpeza cultural se aplicam a pessoas, lu-
gares, coisas e épocas. Nós, por exemplo, não queremos que os
mendigos desabrigados apareçam em recepções de casamento.
Como outras sociedades humanas, 0 sistema de pureza de Is-
rael tinha um lugar para tudo e cada pessoa - com punições se
coisas sujas ou pessoas sujas caíam em lugares limpos.
Para adorar a Deus, para até mesmo se aproximar de Deus,
era preciso estar absolutamente limpo. Tocar a coisa errada,
conversar com uma pessoa suja ou sentar-se em um banco po-
luído contaminaria 0 corpo e ultrajaria Deus. As regras e ritos
que ajudavam a preservar a pureza não eram brechas humanas
mesquinhas. Aos olhos dos fiéis, elas vinham diretamente do
Deus Todo-Poderoso, que exigia absoluta e completa pure-
za, um Deus ultrajado por máculas e manchas.

213
DONALD B. KRAYBILL

Refletindo essas preocupações de pureza, a lei dividia ob-


jetos, pessoas, lugares e animais em duas categorias - lim-
pos e impuros. Camelos, texugos, suínos, abutres, águias e
insetos alados, para citar apenas alguns, eram considerados
impLiros. Cemitérios eram um tabu. O contato com uma
pessoa ou animal contaminado poluía um objeto limpo. A
Mishná dedicava 185 páginas a leis de impureza e pureza. A
limpeza cerimonial antes de cada refeição marcava os fari-
seus conscientes. Eles higienizavam-se sem falhas, na espe-
rança de engendrar uma nação de sacerdotes purificados10.
Esta nobre visão dirigiu sua obsessão com pureza.
Jesus irritou os fariseus ao ignorar a limpeza cerimonial.
Mateus (15:1-20) e Marcos (7:1 -23) fazem relatos semelhan-
tes. Fariseus e escribas de Jerusalém caminharam quase 100
quilômetros ao norte da Galileia para questionar Jesus so-
bre este assunto. Lucas (11:37-38) observa que o fariseu que
hospedou Jesus para uma refeição estava surpreso que Ele
comeu sem se lavar. Os fariseus ressaltavam a importância
de comer com as pessoas certas —aqueles que obedeciam
às leis de pureza. Eles também mantinham a tradição dos
anciãos que precisavam lavar as mãos antes de comer. O la-
var purificava qualquer “sujeira” religiosa acidentalmente
adquirida durante o dia.
Por que os fariseus se perguntavam, Jesus negligenciou a
limpeza purificadora? Jesus respondeu.
“Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se ape-
gam às tradições dos homens”.
E disse-lhes: “Vocês estão sempre encontrando uma boa
maneira de pôr de lado os mandamentos de Deus, a fim de
obedecerem às suas tradições! ” (Mc 7:8-9)■ Citando Isaí-
as, o profeta, disse-lhes que adoravam com lábios, mas não
com coração. Eles ensinavam idéias humanas como se fos­

214
0 REINO DE PONTA CABEÇA

sem doutrina divina. Em suma, os fariseus elevavam a tra-


dição oral ao status divino. Eles não apenas serviam, mas
adoravam a tradição oral. Eles deram-lhe precedência sobre
a Palavra de Deus e até a usavam como desculpa para deso-
bedecer à vontade de Deus.
Um voto religioso chamado corbã ilustra como mesmo
coisas boas foram pervertidas (Mc 7:10-13). Por meio do
voto corbã, os fariseus incentivavam filhos adultos a consa-
grar sua propriedade ao templo em vez de usá-la para dar
suporte a seus pais idosos. Depois que a propriedade era de-
dicada ao templo, ela não podería mais ser usada para dar
suporte a seus pais idosos. Cortar o apoio financeiro com-
prometia o bem-estar dos idosos. Jesus condenou o voto cor-
bã que promovia a piedade à custa do sofrimento humano.
Palavras e tradições humanas substituíam a lei suprema do
amor ao próximo. O sistema religioso que operava em nome
de Deus, ironicamente, obscurecia a lei de amor de Deus.
Jesus criticou duramente as leis de pureza quando disse
que a corrupção resulta das coisas que saem da boca, e não
daqueles que entram. Palavras de fofoca, engano, falso teste-
munho e calúnia contaminam a pessoa e não o alimento (Mt
15:18-20; Mc 7:20-23). Em poucas palavras, Jesus aboliu
os aspectos da tradição oral que bloqueavam o caminho para
a verdadeira santidade. A limpeza perfeita, Ele disse, vem
quando os atos de caridade fluem do coração (Lc 11:41).

A migos sujos
Um terceiro aspecto do comportamento de Jesus, que ir-
ritava os fariseus, era sua comunhão com pessoas impuras.
Os cobradores de impostos e os pecadores que ridiculariza-
vam as regras de pureza eram considerados imundos. Os pe-
cadores, ou seja, os “ímpios”, cuspiam abertamente nas leis

215
DONALD B.KRAYBILI

d a p u r e z a e e r a m c o n s id e r a d o s a lé m d o a lc a n c e d a r e d e n ç ã o
d e D e u s . O s fa ris e u s , é c la r o , os e v ita v a m . J e s u s n ã o e x c lu iu
n in g u é m . E le c o n v id o u os p e c a d o re s p a r a as re fe iç õ e s (L c 15:
2 ) e ju n to u - s e a su a s fe sta s (M c 2 :1 5 e M t 9 :1 0 ) . I s t o e n f u -
re c ia os fa ris e u s , q u e O r id ic u la r iz a v a m , d iz e n d o : “A í e s tá
u m c o m ilã o e b e b e r r ã o , a m ig o d e p u b lic a n o s e p e c a d o r e s ”
( M t 1 1 :1 9 ; L c 7 :3 4 ) . A lg u n s e s tu d io s o s a f ir m a m q u e o fa to
d e J e s u s se s e n t a r e t e r c o m u n h ã o à m e s a c o m p e c a d o re s e
m a r g in a liz a d o s e ra a m a r c a d i s t in t i v a , q u e o d i s t i n g u i a d o s
o u tr o s p r o f e ta s re lig io s o s d e s e u te m p o .

N a c u l t u r a p a le s tin a , c o n v id a r a lg u é m p a r a u m a re fe iç ã o
e r a u m s in a l d e h o n r a . C o m p a r t i lh a r u m a re fe iç ã o s in a liz a -
v a li m i t e s d e g r u p o — q u e m e s ta v a n o c ír c u lo d e a m ig o s e
q u e m e ra e x c lu íd o . P e sso a s p e rv e rs a s e im u n d a s n u n c a se-
r ia m c o n v id a d a s p o r u m fa ris e u . A re fe iç ã o s in a liz a v a p a z ,
c o n fia n ç a , i n t im i d a d e e p e r d ã o ; c o m p a r t il h a r a m e s a s ig n if i-
ca c o m p a r t il h a r a v id a . N a c u l t u r a h e b r a ic a , a c o m u n h ã o d e
m e s a ta m b é m s im b o liz a v a a c o m u n h ã o p e r a n te D e u s . P a r t i r
o p ã o e m to r n o d e u m a m e s a tr a z ia u m a b ê n ç ã o in c o r p o r a d a
a to d o s q u e p a r tic ip a v a m d a re fe iç ã o . A o c o m e r c o m r e je ita -
d o s s o c ia is —os salv o s d a ir a ju s ta , J e s u s e n c a r n a a c o m p a ix ã o
d e D e u s p o r to d o s . A lé m d is s o , E le s in a liz a s u a in c lu s ã o e m
to r n o d a m e s a d e b a n q u e te c e le s tia l. E le , a s s im , os a c o lh e n a
c o m u n id a d e d a salv a ç ã o .

A o j a n t a r c o m Z a q u e u e p e sso a s d o s e u t i p o , J e s u s d e -
safiav a as n o r m a s d a e t i q u e t a re lig io s a . S u a m e n s a g e m e r a
cla ra : as p e sso a s e r a m m a is i m p o r t a n t e s d o q u e r e g r a s p ie -
d o sa s. N a v e r d a d e , E le d is s e q u e v e io p a r a s a lv a r os d o e n te s .
O s s a u d á v e is n ã o p r e c is a m d e u m m é d ic o ( M t 9 :1 2 - 1 3 ;M c
2 :1 7 ) . I r o n ic a m e n te , os líd e r e s “d o e n te s ” q u e p e n s a v a m q u e
e r a m s a u d á v e is r e je ita r a m o M é d ic o . A q u e le s q u e s a b ia m
q u e e s ta v a m “d o e n t e s ” e re c o n h e c ia m a s u a n e c e s s id a d e fo -
r a m c o n v id a d o s p a r a a fe s ta d o M é d ic o .

216
0 REINO DE PONTA CABEÇA

As regras da piedade religiosa, muitas vezes, se tornavam


idólatras e exclusivas. Eles classificavam as pessoas em caixas
profanas e sagradas, protegendo os “justos” dos estigmati-
zados. Jesus borrou as linhas finas que separavam o sagrado
do profano. Ao receber os ímpios na comunhão da mesa, Ele
deixou claro que o novo reino acolhia a todos, independen-
temente do pecado passado ou piedade.

D edetizando o T emplo
Desonrar o sábado, zombar das regras da pureza e fazer
amizade com os pecadores irritava os fariseus, guardiões
da tradição oral. A provocação final de Jesus criou um
grupo diferente: os saduceus. Como vimos no capítulo
três, este partido político operava o complexo do templo
—o centro do sacrifício e da santidade —em Jerusalém.
Pouco antes de sua crucificação, Jesus caminhou da Ga-
lileia rural para o coração sagrado da religião judaica. As
pistas sobre por que Ele foi executado estavam se tornan-
do claras. O anúncio de seu novo reino estava desafiando
os três assentos sagrados da fé judaica —o Sabbath, a pu-
reza, e agora o próprio templo.
Os ricos saduceus se beneficiavam da renda gerada pelo
templo. O desafio de Jesus no templo repreendeu a hierar-
quia do templo13. O templo era o centro da adoração hebrai-
ca. Uma coisa era atacar a tradição oral dos fariseus no norte
da Galileia; outra coisa muito diferente era atacar o centro
nervoso do poder religioso, político e econômico!
Os saduceus gozavam de acolhedoras conexões romanas.
Uma corte de 500-600 soldados romanos estava na forta-
leza Antônia guardando a área do templo contra qualquer
tumulto. Jesus tinha deixado os dóceis pastores na Galileia.
Agora Ele andava pelos corredores de Jerusalém. Mas Ele

217
DONALD 6. KRAYBILL

veio montado em um burro —acabando com todas as espe-


ranças de um Messias militar montado em um garanhão.
Os quatro Evangelhos relatam seu ato decisivo no tem-
pio. Totalmente consciente de que os saduceus O acusariam
de profanação e blasfêmia, Jesus se moveu habilmente. En-
trou no templo e perseguiu os comerciantes, depois virou as
mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombos.
Além disso, Ele impediu que as pessoas carregassem coisas
através do templo. Explicando sua perturbação dramática,
Ele perguntou: “Não está escrito:‘A minha casa será chama-
da casa de oração para todos os povos’? Mas vocês fizeram
dela um ‘covil de ladrões’.”(Mc 11:15-17).
Os cambistas estavam na área comercial nas cortes gentis
exteriores do templo14. Ali eles trocavam moedas comuns
pelas “puras” necessárias para as ofertas do templo. Criado-
res de animais vendiam ovelhas e cabras para sacrifícios aos
peregrinos. O pátio externo, um lugar de culto, havia se
transformado em um lucrativo mercado de gado e câmbio.
Mesas entulhavam a área. O cheiro de esterco animal pairava
no ar. Oração não era o que o ambiente inspirava.
Não sabemos se Jesus simplesmente perseguiu alguns
vendedores ou se Ele purgou completamente a área. Uma
grande perturbação certamente teria atraído a corte romana,
causando sua p risão imediata. Independentemente do
alcance da purga, aos olhos dos líderes religiosos, Seu ato
era uma profanação ultrajante nas sagradas cortes de Deus.
A ação de Jesus fez mais, porém, do que abrir o pátio para
que os gentios pudessem orar15. Ela fez mais do que reorien-
tar as atividades do templo no Santo dos Santos. Fechou 0
templo. Parando o fluxo de vasos e animais, Jesus fechou o
templo poderoso - pelo menos por alguns momentos. Sem
os animais comprados dos comerciantes, sem moedas puras

218
D REINO DE PONTA CABEÇA

para as ofertas, sem o tráfego através do pátio, o sistema de


sacrifício chegou a uma barulhenta parada.
Os estudiosos se dividem quanto ao significado exato do
ato público de desafio de Jesus no lugar da santidade. Talvez
Ele estivesse tentando reformar as práticas econômicas co-
bradas dos camponeses pobres quando traziam suas ofertas.
Ou Ele era um profeta como Jeremias de antigamente, usan-
do atos simbólicos para sinalizar a destruição do templo pe-
las mãos romanas ou a intervenção de Deus? Ou talvez sua
parada simbólica apontasse para o fim do sacrifício em Seu
novo reino. Seu desafio às restrições e exclusões do templo
abria uma nova era quando todos os povos, judeus e gentios,
limpos e impuros, podiam adorar a Deus sem a mancha de
sangue ou o cheiro de sacrifício?
Independentemente das camadas de significado, temos
aqui o Profeta, cheio de rico simbolismo, atingindo o centro
nervoso da religião judaica. Em um ato decisivo, Ele fecha o
templo16. Esse ato flagrante custou a Jesus sua própria vida.
Marcos coloca a purga do templo entre dois episódios de
maldição sobre uma figueira (Mc 11:12-14; 20-26). Antes
de entrar em Jerusalém para o ato dramático, Jesus viu uma
figueira. Ele estava com fome e procurou por figos. Encon-
trando a árvore vazia, Ele a amaldiçoou. No dia seguinte ao
episódio do templo, as raízes da árvore haviam secado. A
figueira representa o templo, o centro da adoração judaica.
Como a maldição arruinou as raízes da árvore, assim a puri-
ficação profética fazia secar as funções do templo.
O movimento ousado de Jesus abriu simbolicamente o
templo mais uma vez para os gentios e sinalizou que o novo
reino acolhia a todos - independentemente de raça ou na-
cionalidade. Jesus está apontando para uma nova era, um
tempo em que uma nova oferta será feita: um corpo. Um

219
DONALD B. KRAYBILL

sacrifício permanente será oferecido. Cada coração se tornará


um vaso onde o Espírito Santo será derramado. Este é um
movimento ousado. Mas o Profeta não tem medo diante dos
soldados romanos e da autoridade dos saduceus. Ele age de-
finitivamente; atingindo o sistema que oprimia os pobres,
evitava os estigmatizados e afastava as pessoas de Deus com
regras piedosas.
Jesus não é apenas Senhor do sábado e Senhor da tradi-
ção oral; Ele também é Senhor do templo. Ele termina seu
ritual de sacrifício em preparação para o novo reino. Jesus
finalmente responde à provocação do tentador. Ele vem ao
templo! N ão caindo de um paraquedas milagrosamente,
mas como Senhor de suas funções. O próprio Jesus estava
realizando a função do templo - oferecendo perdão a todos
os que queriam ouvir, sem trazer uma oferta de sangue ao
altar. Suas palavras de perdão aos pecadores, fora do pátio
do templo, já a haviam se tornado obsoletas. Em um único
momento dramático Ele critica a religião humana e aponta
para uma nova era.
A purga do templo teve consequências arrebatadoras. Vi-
rar algumas mesas em um em um beco já teria sido ruim o su-
ficiente. Porém dentro dos tribunais sagrados, virar as mesas
parecia um ataque deliberado contra os saduceus. Jesus estava
desafiando corajosamente a autoridade das famílias sacerdo-
tais que dirigiam o templo para lucrar. O Sinédrio - aquele
poderoso tribunal supremo judeu —reunia-se a poucos quar-
teirões dali. Na Galileia rural, um pouco de blasfêmia e um
pouco de ultraje ao sábado podem escapar, mas não aqui. Não
no templo sagrado, nem pelas portas do poderoso Sinédrio,
muito menos bem debaixo do nariz do sumo sacerdote. Os
guardiões da piedade não podem permitir tal irreverência.
No Evangelho de Marcos, o plano de matar Jesus agora se
acende mais abertamente do que em qualquer outro momen­

220
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

to desde os confrontos sobre 0 sábado na Galileia. Jesus solidi-


ficou o ódio dos principais sacerdotes e escribas. Eles não têm
escolha. Eles devem destruí-lo. Jerusalém, o lugar da vida e da
adoração, torna-se o palco da morte e da vingança.
Dado 0 perigo do antissemitismo e o fato de que Jesus era
um profeta judeu dentro do judaísmo, precisamos ressaltar
que as coisas que Jesus critica são afinal a religião humana, não
a religião judaica. Jesus desafia as práticas do sábado e a ope-
ração do templo, não porque sejam judeus, mas porque com
o passar do tempo eles perverteram a verdadeira adoração. A
tendência de que o ritual religioso se torne fechado e exclu-
dente é antiga e mundial. Se Jesus voltasse em carne hoje, en-
contraria muitas mesas para derrubar em templos cristãos.

P iedade pomposa
Se a irreverência não bastasse, Jesus repreendeu os líderes
religiosos com uma leva de acusações e parábolas. Muitas
de suas histórias farpadas irritavam autoridades piedosas,
mas alguns aceitavam ou pelo menos fizeram amizade com
ele. Alguns fariseus amáveis advertiram a Jesus que Herodes
Antipas queria matá-lo (Lc 13:31). O fariseu Simão entrete-
ve Jesus em sua casa (Lc 7:36). Nicodemos, um fariseu que
talvez se sentasse no Sinédrio, conversou calorosamente com
Jesus numa noite (Jo 3: 1). No entanto, os Evangelhos sinó-
ticos mostram Jesus em conflito com os fariseus. Os escri-
tores dos Evangelhos, refletindo tensões na igreja primitiva,
podem ter enfatizado demais o conflito17.
A glória social dos fariseus estava na raiz da crítica mor-
daz de Jesus. Eles ofereciam seus sacrifícios no altar do sta-
tus social. As exigências de Deus pouco importavam. O que
contava era como sua piedade aparecia aos outros. Suas ora-
ções, jejuns e dízimos aumentariam seu status aos olhos de

221
DONALD B. KRAYBILL

seus companheiros? Embora Ele não mencione os fariseus


especificamente em Mateus (6:1), Jesus desmascara seu cia-
mor por aplausos sociais. “Tenham o cuidado de não praticar
suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos
por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recom-
pensa do Pai celestial.”.
Dois tipos de piedade pública eram particularmente irri-
tantes. Trombetas eram soadas nas ruas e sinagogas quando
os líderes religiosos davam um dízimo para “ser louvado pe-
los homens”. Além disso, os líderes disputavam os melhores
lugares na sinagoga e usavam trajes ostentosos. Eles costu-
ravam longas franjas em suas vestes e queriam lugares de
honra em festas. Eles preferiam saudações dignas nas ruas
(Mt 23:5-7, Lc 11:43; 20:46). Ambos, Marcos (12:40) e Lu-
cas (20:47), dizem que os escribas faziam longas orações por
causa da exibição social. Os líderes faziam todas essas coisas,
diz Mateus (23: 5), para uma audiência social, “ser visto pe-
los outros”. Lucas chama-os amantes do dinheiro que se jus-
tificam diante dos outros (Lc 16:14-15). Tal religiosidade,
orientada pelos aplausos dos outros, é uma abominação aos
olhos de Deus, de acordo com Lucas.
João (12:42-43) observa que algumas das autoridades
que acreditavam em Jesus tinham medo de admiti-lo porque
“amaram a glória humana mais do que a glória que vem de
Deus”. No Evangelho de Mateus, Jesus coloca os escribas e
fariseus juntos em uma crítica feroz 18. São como copos sujos,
que parecem limpos no exterior e como túmulos polidos,
que fedem por dentro. “Assim são vocês: por fora parecem
justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e
maldade” (Mt 23:28).
Nos três evangelhos sinóticos, Jesus adverte os seus disci-
pulos para que tomem cuidado com o fermento dos fariseus
(Mt 1 6:11-12, Mc 8:15 e Lc 12: 1). Lucas chama sua hi-

222
0 REINO DE PONTA CABEÇA

pocrisia de fermento canceroso. Embora muitas vezes asso-


ciemos a palavra hipocrisia aos fariseus, a questão, como um
estudioso assinala, não era na verdade hipocrisia. Os fariseus
eram realmente sinceros e devotos. A questão era sobre o que
eram sinceros19.
O ataque verbal aos fariseus continua. Eles falam, mas
não andam, pregam, mas não praticam, teologizam, mas
não obedecem. Consumidos com os detalhes de limpeza de
vasos, eles esquecem a agonia dos doentes e pobres. Em um
comentário satírico, Jesus aconselhou a multidão a “Obede-
çam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam
o que eles fazem, pois não praticam o que pregam”(Mt 23:3,
ênfase adicionada).
Outra vez, depois que os anciãos questionaram a autori-
dade de Jesus, Ele deixou claro o mesmo ponto em uma pa-
rábola mordaz (Mt 21:28-31). Um homem tinha dois filhos.
Ele lhes pediu para trabalhar na vinha. O primeiro disse:
“Não, eu não vou”, mas depois ele se arrependeu e foi. O
segundo filho disse: “Sim, papai”, mas nunca foi. Os escribas
e os fariseus eram como o segundo filho. Eles suavemente
diziam: “Sim, pai”, mas nunca iam para a vinha.
Os líderes religiosos eram como os irmãos do rico na his-
tória de Lázaro. Eles tinham Moiséí e os profetas, mas se
recusavam a praticar o Jubileu. Lembravam-se de triviali-
dades, mas esqueciam-se da justiça, da misericórdia e da fé.
De forma tola tentavam retirar um mosquito do seu chá,
enquanto elevavam engolir um camelo (Mt 23:23-24; Lc
11:42). Eles observavam regulamentos piedosos, mas negli-
genciavam as casas das viúvas (Lc 20:47, Mc. 12:40). Com
o voto de corban eles frustravam a lei do amor, empurran-
do os idosos para a pobreza (Mc 7:9-12). Sua verborragia
não produzia ação e sua doce conversa de Deus camuflava
a injustiça econômica enquanto eles seguiam alegremente

223
DONALD B. KRAYBILL

dizimando de suas ervas. No entanto, suas intenções eram


boas. Eles pensavam sinceramente que seus rituais de pureza
acabariam fazendo com que toda a nação fosse uma nação de
sacerdotes.

Q uão grande és T u
A observância cuidadosa do dogma religioso gera orgu-
lho. Os fariseus eram como uma pessoa cantando “Quão
grande és Tu” na frente do espelho todas as manhãs. Numa
pequena parábola, Jesus condena a sua arrogância20. Um fa-
riseu vai ao templo para oferecer as suas orações (Lc 18:9-
14). O devoto encontra seu lugar proeminente e oferece uma
oração de agradecimento. Ele agradece a Deus por não ser
um trapaceiro; por ele não ser injusto; por não cobiçar as
mulheres. Espiando pelo canto do olho, vê um cobrador de
impostos, que surpreendentemente também veio orar. O fa-
riseu termina sua oração com um agradecimento especial
por não estar contaminado como esse cobrador de impostos
que rouba os pobres.
O fariseu oferece suas ações justas a Deus. Embora a lei
exija um jejum anual no Dia da Expiação, ele lembra a Deus
que ele voluntariamente adiciona um jejum toda segunda-
-feira e quinta-feira. Ele dá dízimos sobre tudo o que ele
compra dos lojistas. Se o produtor já pagou um dízimo dos
produtos, fariseus dão o dízimo novamente para se certificar
de que tudo o que ele usa é sagrado. Este homem representa
o ápice da ortodoxia hebraica. Ele está no topo da escada
religiosa de piedade.
O coletor de impostos, condenado ao ostracismo por pes-
soas decentes, é considerado um ladrão sem direitos civis. Ele
mal consegue alcançar o último degrau inferior da escala
social. Ele fica na beira do pátio do templo, sem se aventurar

224
0 REINO DE PONTA CABEÇA

em um lugar proeminente. Em contraste com o orgulhoso


fariseu, o cobrador de impostos está envergonhado de levan-
tar as mãos para o céu. Em vez disso, ele bate no peito, um
sinal de profunda contrição. Ele clama a Deus em desespero,
consternado pelo abismo da separação. O arrependimento,
para este homem, não significa sorrisos agradáveis. Significa
deixar sua profissão e começar de novo. Significa pagar cinco
vezes todas as pessoas que ele enganou. Ele nem sabe a quan-
tos roubou. Esta é uma situação impossível, então ele clama
por misericórdia.
Três grandes contrastes definem esta história: atitude,
identidade e localização. As atitudes opostas são evidentes
no texto. O que é menos claro é o contraste entre identida-
des. O fariseu representa o papel sagrado da devoção ritual.
O cobrador de impostos simboliza os ímpios que nem se-
quer estão na lista da santidade. Os dois locais - o Templo e
casa - também pintam uma nítida distinção. O ímpio que
vem a Deus em humildade, sem oferta nem jejum, desce até
à sua casa justificado. Mesmo no alto monte sagrado do tem-
pio, o fariseu não encontra salvação. Porém 0 humilde de
coração encontra a acolhida de Deus em sua casa - sem altar,
sacrifício ou dízimo.
Inesperadamente, o momento de ponta-cabeça aparece.
Em uma inversão surpreendente, o cobrador de impostos
arrependido é elogiado. Este bandido social, esse traidor da
nação, encontrou graça diante de Deus. O Todo-Poderoso
aceitou o sacrifício do coletor de impostos com um coração
quebrado e contrito. Enquanto isso, o arrogante fariseu per-
de a bênção.
Esta história certamente soou de ponta-cabeça para a au-
diência de Jesus. Aqueles que arrogantemente confiam em
si mesmos e desprezam os outros rejeitaram Deus apesar de
todos os seus movimentos religiosos. A adoração egocêntrica

225
DONALD B. KRAVBILL

zomba dos outros, em vez de provocar uma análise pessoal.


Ela deriva da falsa piedade da comparação social. As farpas
da parábola espetaram os altivos fariseus.

Não entre
O orgulho condescendente transforma as igrejas em clu-
bes exclusivos. Afastar os de fora e zombar da ignorância
deles não era a iinica culpa dos fariseus. Eles usavam uma
barricada de regras triviais para impedir os pecadores de
chegarem à mesa da salvação. Jesus detestava este espírito
exclusivo dos fariseus.

“Eles atam fardos pesados e os colocam sobre


os ombros dos homens, mas eles mesmos não
estão dispostos a levantar um só dedo para
movê-los.... Ai de vocês, mestres da lei e fa-
riseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos
céus diante dos homens! Vocês mesmos não
entram, nem deixam entrar aqueles que gos-
tariam de fazê-lo.”(Mt 23: 4, 13-15; Lc 11:
45-52)

Em contraste com o peso das regras que esmagavam ju-


deus devotos, Jesus ofereceu uma carga leve. “Pois o meu
jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:30). Em sua ten-
tativa de traduzir os cinco livros de Moisés para a prática di-
ária, os fariseus, por engano, jogaram fora a chave do reino.
Eles se trancaram dentro da sinagoga de seu próprio ritual
e deixaram os outros de fora. Religião cerimonial não são
apenas acentos rituais; ela também cria um fosso entre os
“de dentro” e os “de fora”.

226
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O ÚLTIMO SERÁ O PRIMEIRO


Muitas parábolas de Jesus são uma defesa dos Evangelhos.
Sua aceitação dos pecadores incorporava as boas novas. Os lide-
res religiosos ficavam indignados com o fato de que Jesus aco-
lhia os maus - os iníquos e os adúlteros no reino. “Pecadores”
eram normalmente privados de direitos civis -assumir cargos
e testemunhar no tribunal. A lista inclui cobradores de im-
postos, pastores, vendedores ambulantes, curtidores, criadores
de pombos e outros em trabalhos impuros21. A mensagem
de Jesus em numerosas parábolas é clara. O estabelecimen-
to religioso pode expulsar essas pessoas do reino, mas Deus
ainda as ama. Jesus oferece tal amor na comunhão à mesa nas
casas, apesar do desprezo dos principais fariseus. Adicionando
insulto à ofensa, Jesus diz que a rejeição dos fariseus para com
as pessoas “impuras” não é uma questão irreverente. As coisas
podem virar de ponta-cabeça. Os líderes religiosos podem en-
contrar-se fora das portas do banquete enquanto os pecadores
arrependidos festejam lá dentro com os profetas.
Sim, diz Jesus, Deus se importa com esses marginais so-
ciais. Em quatro histórias ele mostra como a compaixão per-
doadora de Deus acolhe os pecadores rebeldes e os forasteiros.
Jesus compara Deus a um pai que esperava dia após dia
que seu filho rebelde voltasse para casa. Quando ele retorna,
o pai o abraça e beija e até dá uma festa em sua homenagem
(Lc 15:11 -24). Deus é como uma mulher que varre cada can-
tinho de sua casa à procura de uma moeda perdida (Lc 15:8).
Deus pode até ser comparado a um pastor caminhando sobre
um campo montanhoso à procura de uma ovelha fraca pre-
sa nos espinhos das matas (Lc 15:3-5). Ou imaginem Deus
como um fazendeiro que se importava tanto com seus traba-
lhadores que deu a alguns deles um salário de um dia inteiro
por apenas uma hora de trabalho (Mt20:l-16).

227
DONALD B. KRAYBILL

As parábolas abalam as mentes de pesados fardos reli-


giosos: Sua atitude é exatamente oposta a de Deus. Você
é como o filho mais velho que reclama quando vê a festa
feita para seu próprio irmão (Lc 15:25-32). Vocês são como
os agricultores que trabalham o dia todo, recebem o salário
prometido, então se queixam porque os retardatários rece-
beram o mesmo (Mt 20:11-16). Como os arrendatários de
uma vinha, vocês se recusam a dar ao proprietário o vinho
de sua própria vinha. Vocês matam os servos que ele envia
e finalmente vocês ainda têm a audácia de matar seu único
filho (Lc 20:9-16). De repente,o jogo vira e o proprietário dá
a vinha para outros.
As histórias mordazes continuam. Como aqueles que fo-
ram convidados para um banquete, vocês se recusam a vir
quando a festa começa (Lc 14:1 5-24, Mt 22:1-10). Por causa
de sua obstinação, Deus convida os outros a substituí-los na
mesa. Deus acolhe os pobres, os leprosos, os mutilados, os
cegos e os coxos das ruas da cidade. Deus vai até o campo
à procura de excluídos para encher a mesa do banquete. O
momento do julgamento acontece! Nenhum dos convidados
que se recusou a vir, desfrutará do banquete”(Lc 14:24).
Jesus esclarece a inversão em outro quadro de crise imi-
nen te. O julgamento surpreenderá mesmo os defensores
mais firmes da fé. Alguns dirão: “Comemos e bebemos con-
tigo, e ensinaste em nossas ruas”, mas o juiz responderá:

“Não os conheço, nem sei de onde são vocês.


Afastem-se de mim, todos vocês, que pra-
tic am o mal!” Ali haverá choro e ranger de
dentes, quando vocês virem Abraão, Isaque
e Jacó e todos os profetas no Reino de Deus,
mas vocês excluídos. Pessoas virão do oriente
e do ocidente, do norte e do sul, e ocuparão

228
0 REINO DE PONTA CABEÇA

os s e u s lu g a re s à m e s a n o R e in o d e D e u s . D e
f a to , h á ú l t im o s q u e s e rã o p r im e ir o s , e p r i-
m e ir o s q u e se rã o ú l t i m o s ”(Lc 1 3 :2 7 - 3 0 )

F a la n d o aos fariseu s, J e s u s te r m in a a p a rá b o la d o s d o is filhos


n a v in h a c o m estas p alav ras concisas: “D ig o a v erd ad e: O s p u -
b lic a n o s e as p r o s titu ta s e stã o e n tra n d o a n te s d e vocês n o R e in o
d e D e u s ” (M t 2 1 :3 1 ). D e p o is d e a c a b a r c o m os escrib as p o r
d e v o ra r as casas d as v iú v as e fazer lo n g a s orações c o m o p re te x to ,
J e s u s d iz q u e eles e n f re n ta m n ão só a ex clu são d o re in o , m a s
“re c e b e rã o co n d e n a ç ã o m a is sev era!” (M c 1 2 :4 0 e Lc 2 0 :4 7 ).

O s v a le n te s e le a is d a fé t i n h a m acesso a M o is é s e aos
p r o f e ta s . O s líd e re s r e c e b ia m u m t a l e n t o - c o n h e c im e n to d a
le i d e D e u s — m a s o h a v ia m e n te r r a d o t a n t o n a tr a d iç ã o o ra l
q u e os p e c a d o re s p e r d ia m o c h a m a d o d e D e u s . A s p ie d o s a s
tr a d iç õ e s h u m a n a s , d e f a to , r e p e lia m o s e x c lu íd o s e os afas-
ta v a m d e D e u s . J e s u s r e s ta u r a 0 d ia d a g ra ç a . S u a c o m u n h ã o
à m e s a c o m os e s tig m a tiz a d o s s in a liz a a a u r o r a d a sa lv a ç ã o
d e D eu s. O s ímpios e e x c lu íd o s so c ia is, a o c o n tr á r io d o s fa-
ris e u s , a b r a ç a m p r o n t a m e n te a a c o lh id a d e D e u s .

I s s o é t r a g ic a m e n te d e p o n ta - c a b e ç a . A q u e le s q u e tr a -
b a lh a r a m tã o d u r o p a r a a p lic a r a T o rá à v id a c o t id ia n a são
d e ix a d o s p a r a trá s . S eu fe rv o r e e n tu s ia s m o p e la p ie d a d e ce-
r im o n ia l f r u s tr a a lei d o a m o r d e D e u s . A q u e le s q u e lu ta v a m
t a n t o p e la r e lig iã o e s tã o e m risc o . O s re c é m - c h e g a d o s , p o r
s u a v e z , são u m g r u p o h e te r o g ê n e o , m a s a s u a ju s tiç a e x c e d e
a d o s fa ris e u s ( M t 5 :2 0 ). N a v e r d a d e , os ím p io s e s tã o re c e -
b e n d o o r e in o d e D e u s . U m d e n t r e e ssa m u l tid ã o , Z a q u e u ,
d e v o lv e os b e n s q u e r o u b o u . U m a p r o s t i t u t a q u e u n g i u a
J e s u s se a r r e p e n d e e é g r a n d e m e n t e p e r d o a d a . O c o le to r d e
im p o s to s n o te m p lo p e n i t e n t e b a te se u p e ito . U m filh o fu -
g i t iv o v o lta p a r a casa.

229
DONALD B. KRAYGILL

Em contraste com a elite religiosa, esses pecadores estão


realmente arrependidos de seus pecados. Eles entram no
reino pelo tapete vermelho. A mensagem trágica finalmen-
te penetra na cabeça dos altivos. “Quando os chefes dos
sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, com-
preenderam que ele falava a respeito deles. E procuravam
um meio de prendê-lo; mas tinham medo das multidões,
pois elas o consideravam profeta.”(Mt 21:45-46; Mc 12:12
e Lc 20:19).

P anos VELHOS E REMENDOS NOVOS


O que tudo isto significa para nós hoje? Como o reino e a
igreja se cruzam? Jesus descreveu o romper do reino com duas
histórias (Mc 2:21-22). Sempre lave um remendo antes de cos-
turá-lo em uma roupa velha. Caso contrário, o remendo vai en-
colher após a primeira lavagem e rasgar o pano velho deixan-
do-o pior do que antes. Além disso, armazenar vinho novo, em
fermentação em odres novos e maleáveis. O vinho borbulhante
se derramado em odres velhos e frágeis os abrirá e escorrerá.
Em palavras pitorescas, Jesus ressalta a tensão entre o
novo vinho do reino e estruturas religiosas mais antigas.
Novos odres, macios e flexíveis, são necessários para o vinho
novo. À medida que o vinho fermenta as peles se expandem
e se contraem. O vinho do reino do movimento de Jesus
estava quebrando os frágeis odres dos saduceus, fariseus e
escribas. Os odres da lei oral eram muito duros para supor-
tar a fermentação do vinho novo. Os ímpios já não podiam
cheirar o vinho. Tudo o que podiam ver eram odres de peles
velhas e insensíveis. O vinho do reino de ponta-cabeça exige
odres de peles novas - estruturas institucionais flexíveis.
Como distinguimos entre o reino e a igreja instituciona-
lizada?22 O reino é o mesmo que a igreja? A mudança bíblica

23a
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

de “reino” para “igreja” entre os Evangelhos e as epístolas


reflete uma mudança da cultura judaica para a cultura gre-
ga23. Uma das dificuldades em distinguir entre reino e igreja
hoje está em palavras que usamos frequentemente de forma
descuidada -igreja, denominação e povo de Deus.
Uma distinção cuidadosa entre quatro realidades - reino,
igreja, cultura e estrutura- pode esclarecer os conceitos.
O reino que Jesus anunciou nos aponta para algo maior
do que nossas próprias estruturas e nós mesmos. Já dissemos
que o reino se refere ao governo de Deus em nossos corações
e relacionamentos. Deus estava “ao vivo” em Jesus, vivendo
entre as pessoas e chamando-as à obediência. Hoje, Deus
governa através da presença do Espírito Santo. O Espírito
nos aponta para a direção do reino. O vinho na parábola sim-
boliza o poder dinâmico de Deus infiltrando nossas vidas.
Assim como o vinho novo em fermentação, o reino encarna
0 poder dinâmico e criativo do Espírito de Deus. Ele assume
a expressão visível de maneiras novas e animadoras à medida
que as pessoas submetem suas vidas ao governo de Deus.
O reino implica uma nova visão, um novo conjunto de
valores e uma nova abertura para ceder aos caminhos de Deus.
Passado e presente, o agora e o futuro, o reino é o reinar de
Deus na vida dos cristãos. Torna-se visível na forma e na
prática à medida que as pessoas se entregam ao domínio di-
nâmico de Deus.
A igreja é a assembléia de pessoas que acolheram o rei-
nado de Deus em seus corações e relacionamentos. A igreja
consiste dos cidadãos do reino. E 0 corpo de Cristo compos-
to de discípulos obedientes seguindo o caminho de Jesus.
Podemos também imaginar a igreja como a comunidade de
cristãos- a reunião coletiva do povo de Deus. A igreja não é
um edifício, um santuário ou um programa. E a comunida-
de visível daqueles que vivem pelos valores do reino.

231
DONALD B. KRAYBILL

A cultura implica os valores e práticas de um grupo par-


ticular de cristãos. Que opiniões, hábitos e práticas eles
prezam? Quais eles rejeitam? As idéias e valores do reino
assumem diferentes expressões culturais em diferentes con-
textos. Cristãos em Honduras ttrão práticas e padrões di-
ferentes daqueles no Japão. A questão-chave, no entanto, é
esta: como os valores do reino moldam as práticas culturais,
independentemente do país?24 Em outras palavras, o povo
do Reino deve criar suas próprias práticas culturais baseadas
nos valores do reino. Eles podem compartilhar muitas práti-
cas com sua cultura, mas sua vida deve refletir valores do rei-
no, que muitas vezes podem divergir da culttira dominante.
Finalmente vêm as estruturas. O povo de Deus precisa de
veículos sociais —instituições e programas - para atender
às suas próprias necessidades e às necessidades dos outros.
A igreja cria veículos sociais e “estruturas de servo” (aque-
las que são servas da igreja) para cumprir sua missão. As
estruturas de servos incluem toda a gama de órgãos e pro-
gramas organizados da igreja. Eles abrangem denominações,
escolas, tradições litúrgicas, agências missionárias, empresas
de publicação, acampamentos e, claro, comitês, comissões,
tradições e muitos programas. Estas são as peles sociais, as
estruturas de servo que a igreja cria para fazer seu trabalho.
Eles não são, no entanto, a igreja ou o reino.
O reino transcende a igreja de duas maneiras. Ele existia
antes do início da igreja e será o domínio real de Deus du-
rante toda a eternidade. O reino também é maior do que a
igreja. Representa o supremo senhorio de Cristo sobre todos
os povos, principados e poderes. A igreja, o corpo de crentes,
abraça o governo de Deus. A cultura e a estrutura da igreja,
projetadas para expressar maneiras de reino, podem tornar-
-se frágeis deixando vazar o vinho precioso. Essas expressões
culturais e estruturas organizadas, essas criações humanas,

232
D REINO DE PONTA CABEÇA

precisam de revisão periódica para assegurar que permane-


çam como servidores do reino.
Esta distinção quádrupla de reino, igreja, cultura e es-
trutura destaca suas características diferentes. A igreja co-
meçou, e tem existido junto com o reino, à medida que pes-
soas aceitam o governo de Deus em suas vidas. O reino tem
características sociais e políticas visíveis, tanto no corpo de
cristãos que declaram Jesus como Rei, como nas culturas e
estruturas que criam para cumprir sua missão.
Um foco na cultura —os valores e práticas —do corpo de
cristãos levanta a questão de sua origem. A cultura da igre-
ja é impulsionada pela grande sociedade ou pelos valores e
prioridades do reino? Além disso, se vemos os programas e
estruturas da igreja como criações humanas, e não como o
próprio reino, não as sacralizamos tanto. No momento em
que as estruturas da igreja se rornam iguais ao reino, elas se
colocam na altura de algo sagrado. As estruturas da igreja
refletem e encarnam o reino, mas não são nem o reino nem
a própria igreja.
Expressando a visão de um reino, as estruturas que cria-
mos assumirão diversas formas em diferentes culturas. No
entanto, não devem ser meros reflexos de sua cultura. Suas
diversas aparências devem ser culturalmente relevantes, mas
não culturalmente determinadas. A mensagem do Reino,
ancorada na história bíblica, deve moldar a arquitetura so-
ciai dos programas eclesiásticos. Quando os valores cultu-
rais,e não os valores do reino,moldam as formas institucio-
nais da igreja, o sal perde seu sabor.

233
DONALD B.KRAVBILL

V acas S agradas ou E struturas de S ervo?


A visão do reino irrompe sobre nós em maneiras novas
através do ministério do Espírito Santo. Ela toma forma em
novos edifícios, novos projetos, novos programas e novos co-
mitês. Estas estruturas sociais, no entanto, logo se solidificam.
Os participantes da primeira geração acolhem com entusias-
mo os novos programas. Porém padrões espontâneos em breve
endurecem e tornam-se rotina. Gradualmente, eles nem são
mais levados em consideração. Eles se tornam “como as coisas
são”. Eles exalam um senso de “retidão”. Já não são vistos
como uma das muitas maneiras de satisfazer uma necessida-
de. A segunda geração os vê como o único caminho. Eles,
em suma, se tornaram vacas sagradas. As estruturas, uma vez
criadas, buscam sua própria legitimação. Elas se perpetuam,
muitas vezes com a bênção da linguagem religiosa.
A tentação dos fariseus está sempre conosco. Aquela que
uma vez foi expressão espontânea do amor se solidifica à medi-
da que uma organização cresce em tamanho e idade. A consti-
tuição fica mais longa. A burocracia aumenta. Os símbolos são
idolatrados. Procedimentos se tornam rígidos. O evangelismo
cede à etnicidade. A abertura às novas necessidades dá lugar
à preservação do status quo. As palavras e símbolos do grupo
emergem e excluem outros. Quem está de fora se sente exclu-
ído. Políticas e estruturas podem sufocar o caminho do amor.
Quando as estruturas se calcificam, é hora de odres novos.
A genialidade dos Evangelhos é a sua semente de autocrí-
tica ou auto-reforma. Cada geração de cristãos, como os fa-
riseus, é tentada a sacralizar seus programas e congelar suas
rotinas. Jesus mostrou-nos que as estruturas humanamente
criadas não são sagradas. Não há lugares sagrados, organiza-
ções, tempos, objetos, doutrinas ou posições sociais, exceto
no sentido de que todas as coisas boas são, afinal, sagradas.

234
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O altar de um edifício da igreja não está mais perto do


coração de Deus do que uma sala de estar. O triste uso do
termo santuário nos incentiva a ver o edifício da igreja como
um lugar sagrado que merece a reverência especial. Edifícios
religiosos muitas vezes testemunham a nossa rigidez, orgulho
e status social. Quando Jesus purgou 0 templo, Ele declarou
de uma vez por todas que mesmo os mais sagrados edifícios
não merecem nossa adoração. Eles podem ser dedicados como
uma das muitas ferramentas para proclamar e celebrar as boas
novas do reino, mas são apenas criações humanas. Eles devem
ser sempre subordinados à assembléia dos cristãos.
A mesma irreverência amorosa deve se aplicar à doutrina,
aos objetos, às posições sociais e aos programas da igreja. O
credo, que molda a identidade única de uma denominação,
pode substituir a autoridade bíblica. A cadeira da diretoria
entre os anciãos pode oferecer conselhos sábios, mas não tem
nenhuma posição sagrada. O pastor pode oferecer uma per-
cepção e compreensão especial, mas não é um herói colocado
acima dos santos que todos nós somos chamados a ser. Símbo-
los de fé - a cruz, o púlpito, o altar, o tanque —são tão mun-
danos como outros objetos cotidianos. Elas nos apontam para
significados espirituais, mas eles não são sagrados em si mesmos.

E lefantes brancos sabáticos


Os programas institucionais da igreja às vezes se tornam
vacas sagradas - ou devemos dizer elefantes brancos. Or-
ganizações, tradições e programas concebidos como servos
podem, ao longo do tempo, se levantar e nos dominar. Seu
propósito original satisfazia necessidades reais e comunicava
0 Evangelho de forma eficaz,mas ao longo dos anos tornam-
-se frágeis. Práticas rotineiras relacionadas aos cultos de ado-
ração, programas para jovens, conselhos de missões, agências

235
DONALD B. KRAYBILL

educacionais e organizações de serviços facilmente tornam-


-se coercitivas porque são o “trabalho do Senhor”.
As organizações são necessárias e úteis para canalizar a
atividade humana de maneira eficaz. Precisamos de insti-
tuições sociais e as teremos sempre. Nós não somos apenas
produtores deles, mas também seus produtos. Fomos mol-
dados e nutridos por escolas e por muitas organizações rela-
cionadas à igreja. E importante, entretanto, que avaliemos
periodicamente seu papel e propósito. Talvez os períodos sa-
báticos institucionais —períodos de revisão de programas e
projetos - nos ajudassem a rejuvenescer nossas estruturas. Se
eles já não servem a sua intenção original, devemos empur-
rá-los de volta para funções de servo, ou mesmo enterrá-los.
O sétimo ano ou ano sabático no calendário hebraico dava
tempo, não só para descanso, mas também para reflexão.
Seria apropriado, a cada sétimo ano, dar um descanso sabá-
tico para os comitês, comissões e programas que constituem
grande parte da religião institucional hoje? Durante este
sétimo ano, estudos e avaliações extensivos poderíam deter-
minar a eficácia desses programas. Alguns podem precisar
de uma grande modernização. Outros podem continuar na
sua forma atual. Outros ainda podem precisar de um fune-
ral. Intervalos de sete anos permitem tempo suficiente para
testar um programa e refletir sobre sua contribuição.
Muito frequentemente os elefantes brancos religiosos se
arrastam por muito tempo. Uma vez que eles envolvem a
“obra do Senhor”, ninguém ousa mexer com eles. O serviço
aos outros e a edificação da comunidade de fé é a referência
para a avaliação. Quando pastores têm de exortar, persuadir
e implorar para que os membros participem de um deter-
minado programa ou assistam a um determinado culto, ele
pode não estar servindo a uma necessidade real. Talvez seja
hora de um funeral. Quando as estruturas servem às verda­

236
0 REINO DE PONTA CABEÇA

deiras necessidades dos membros, a participação é alegre e


espontânea.
Jesus é Senhor dos “Sabbaths”, aquelas estruturas religio-
sas que criamos. Criações humanas, as estruturas têm uma
maneira misteriosa de assumir o controle e tornar-se os mes-
tres de seus próprios criadores. O Espírito de Jesus e as pers-
pectivas de Seu reino criticam nossos odres sociais. O senho-
rio de Cristo sobre as estruturas organizacionais as impede
de perverter os Evangelhos e escravizar os fiéis. Muitas vezes
esquecemos que Jesus é o Senhor do sábado. Nós também
facilm ente equipáramos nossas próprias estruturas com o
reino. Aquelas que uma vez eram estruturas de servo, com o
tempo, às vezes, se levantam e nos chamam a servi-las.
Como avaliamos estruturas que servem? As perguntas a
seguir podem ajudar a avaliar sua postura de servo.

• Quais são as necessidades específicas que esse progra-


ma atende?
• Será que as pessoas criariam este projeto novamente se
fosse encerrado?
• Ele expressa o espírito e a missão dos Evangelhos?
• Esta estrutura é projetada para servir no Espírito de
Jesus?
• Ela promove uma postura autojustificada exclusiva?
• As pessoas gostam de participar?
• A flexibilidade é incorporada à sua natureza?
• Foi designado um tempo para avaliar suas funções?
• Existe um processo de tomada de decisão para deck-
rar um “funeral” se necessário?
• Está claro que o povo de Deus, liderado pelo Espírito
de Deus, tem autoridade para declarar sua moratória?

237
DONALD B. KRAYBILL

A igreja está sempre presa à tensão entre as soluções


tradicionais do passado e o vinho fermentado de um reino
sempre novo. E uma tensão entre a forma e o amor, a estru-
tura e o Evangelho, a organização e a visão. Os símbolos do
passado ameaçam tornar-se idolatrados. Os velhos rituais se
afirmam como absolutos. O Espírito de Jesus que violou as
regras do sábado, evitou os rituais de pureza, comeu com os
pecadores e purificou o templo, também é Senhor de nossas
estruturas. Ele as julga, as critica e as torna flexíveis para o
vinho novo.
Escondido na excmciante dor do juízo está o germe da
renovação. Os valores do reino formam odres novos e elásti-
cos para o fermento do reino. Neste processo, às vezes dolo-
roso, a igreja se reforma através das gerações.

238
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O Pai Insensato
c r ític a d e J e s u s à r iq u e z a e à r e lig iã o p o d e s o a r se v e ra
ao s n o sso s o u v id o s , m a s e la flu i d e u m c o ra ç ã o d e a m o r.
N a v e r d a d e , o p r ó p r io f u n d a m e n to d o n o v o r e in o d e J e s u s
re p o u s a n o a m o r. Q u e t i p o d e a m o r é esse? C o m o q u e se
p a re c e ? E x p lo ra m o s essas q u e s tõ e s n o c a p ít u l o n o v e .

A v io lê n c ia é o b s o le ta n o n o v o re in o . O a m o r dgape se
to r n a 0 n o v o m o d o d e g o v e r n a r. A p a la v r a g r e g a , ágape,
s ig n if ic a a m o r in c o n d ic io n a l. T o ta lm e n te a l t r u í s t a , ágape
s u p e r a p a ix ã o , a m iz a d e e b e n e v o lê n c ia . S u p e r a o in te re s s e
p r ó p r io . Ágape é m a is d o q u e u m s e n t i m e n t o a l t r u í s t a . E le
a g e . E le a m a àqueles q u e n ã o são a m á v e is , a té m e s m o i n i m i -
g o s . C o m p a ix ã o , g e n e r o s id a d e , p e r d ã o , m is e r ic ó r d ia — e sta s
são a essência do ágape 1.
O ágape flu i d o R e i d o r e in o , q u e é c o m o u m p a i a m o -
ro so . O s s ú d ito s d o g o v e r n a n te n ã o são e sc ra v o s, m a s filh o s.
E le s n ã o d iz e m : “S im , S u a M a je s ta d e ” , m a s c a r in h o s a m e n te
o cham am de abba o u “p a p a i ” . O s c id a d ã o s n e s ta n o v a o r-

241
DONALD B. KRAYBILL

dem amam generosamente, porque um Pai gracioso os arre-


batou. O amor divino provoca o seu amor. Que tipo de pai
desencadeia tal amor?
Respondendo a queixas de escribas e fariseus ,porque es-
tava comendo com pecadores, Jesus contou uma história
para esclarecer o amor de Deus. Deus, pecadores e fariseus
são retratados na história por um pai, um filho fugitivo e um
irmão que se queixa (Lc 13:ll-32).2Como é Deus? Essa é a
questão central da parábola. Jesus sugere que Deus é como
um pai tolo.
De acordo com o costume judeu, o mais novo de dois filhos
tinha direito a um terço da propriedade de seu pai. A riqueza
podería ser transmitida de duas maneiras: por um testamento
na morte do pai ou como um presente durante a vida do pai.
Em contraste com a cultura ocidental, se o filho recebeu a pro-
priedade como um presente, ele não tinha o direito de dispor
dele até depois da morte do pai. Dispor dela enquanto o pai
estava vivo era o mesmo que tratar 0 pai como um cadáver. O
costume judaico esperava que as crianças honrassem seus pais
obedecendo-os e apoiando-os financeiramente.
O jovem apressado viola vários costumes culturais. Pri-
meiro, ele exige sua parte da propriedade muito antes de seu
pai morrer. Ele merecia um flagelo por simplesmente fazer
um pedido tão arrogante. De fato, o grosseiro desrespeito do
filho por seu pai é tão pecaminoso quanto seu vício em um
país estrangeiro. Ele deixa seu pai e esbanja os recursos que
nunca mais poderíam ser usados para sustentar o seu pai. Ele
trata o seu pai como se já estivesse morto! Era a coisa mais
rude que um filho podia fazer a um pai.
Colocando outro insulto sobre o insulto cultural, 0 filho
acaba cuidando de suínos. Tal trabalho era proibido na cul-
tura judaica, que considerava os porcos não apenas imundos,

242
0 REINO DE PONTA CABEÇA

mas a própria morada dos demônios. O filho não só faz 0 tra-


balho degradante, mas também se identifica com os porcos
desejando 0 seu alimento. Simbolicamente, ele caiu abaixo
do fundo do poço cultural.
Imagine a vergonha do pai. Os escribas da aldeia se-
guramente zombavam dele. Por que, em primeiro lugar,
ele,de forma tola, entregou a propriedade a seu filho sendo
tão jovem? Os vizinhos devem ter desprezado o velho com
gargalhadas. O filho tinha destruído a reputação, a estima
e a honra de seu pai. Que vergonha! Esse pai jamais estaria
novamente apto para a liderança da sinagoga.
Para se vingar, um bom pai, pelo menos, lamentaria pu-
blicamente tal comportamento. Um pai sábio não apenas
olharia para o outro lado e aprovaria silenciosamente a deso-
bediência. Ele repudiaria o filho legalmente.
Porém,não este pai. Ele não se defende. Ele não retalia
para proteger seu status social. Ele não corre atrás do filho
com um grupo de busca. Ele dá a seu filho a liberdade de
ir. Seu amor por seu filho é mais forte do que sua própria
necessidade de aprovação social. Além disso, espera pacien-
temente que seu filho volte. Ele nunca se esquece dele. Ele
vai até o caminho todos os dias - esperando, observando,
com esperança e expectativa.
Finalmente, o filho “cai em si” No aramaico, esta frase
sugere arrependimento. Ele finalmente percebe a estupidez
de seus caminhos e volta. Ele volta para casa esperando o
pior. Ele sabe quão duramente os pais reagem quando são
publicamente desonrados. Então ele vem confessando, im-
piorando a seu pai para aceitá-lo como um simples servo.
Podemos esperar muitas respostas de um pai judeu que vê
o filho dele voltando para casa salpicado de esterco. Um pai
razoável podería bater a porta na cara dele e declará-lo um des-

243
DONALD B. KRAYBILL

c o n h e c id o . E le p o d e r ía p e d ir ao se u filh o p a ra se lav ar a n te s d e
u m lo n g o d isc u rso so b re a d e so b e d iê n c ia . E le p o d e r ia in v e s ti-
g a r os d e ta lh e s d o d e sv io e e n tã o p u n ir. A ju s tiç a c e r ta m e n te
p re sc re v e ría p u n iç ã o p a ra e n s in a r ao ra p a z u m a lição. T alv ez,
u m c h ic o te estiv esse n a lista . T alvez, o f u g itiv o d evesse se rv ir
c o m o escravo. D e ix e -o p ro v a r q u e é re a lm e n te sin cero .

O p a i r e je ita to d a s essas so lu ç õ e s ju s ta s e d e se n so c o -
m u m . V e n d o s e u filh o , e le é m o v id o à c o m p a ix ã o . D o je ito
“d e p o n ta - c a b e ç a ” , e le , p a r e c e n d o to lo , a c o lh e o p a tif e e m
ca sa c o lo c a n d o p a r a e le , n a v e r d a d e , o ito ta p e te s v e r m e lh o s .

• E le n ã o e s p e ra q u e o filh o b a ta . S u a c o m p a ix ã o o o b r i-
g a a c o rre r. E r a c o n s id e r a d o in d i g n o q u e u m a p e sso a
m a is v e lh a c o rre s s e . O p a i n ã o t i n h a id e ia d o q u e 0
filh o d ir ia . C o r r e r p a r a e le c e r ta m e n te a s s in a la r ia o e n -
d o s s o d e s e u s v íc io s.

• E n tã o 0 p a i a b r a ç a o m e n in o , q u e b r a n d o o u t r a r e g r a
d e e t i q u e t a s o c ia l. A b r a ç a r e ra u m a v e r g o n h a p a r a
u m a p e s s o a id o sa . E le e s ta v a r e c e b e n d o u m filh o re -
b e ld e c o b e r to d e e s te rc o .

• U m b e ijo - o s ím b o lo b íb lic o d o p e r d ã o - se s e g u e . O
p a i z e ra a c o n ta . E le re c e b e a o filh o d e v o lta d o c h i-
q u e ir o , n ã o c o m o e s c ra v o , n ã o c o m o e m p r e g a d o c o n -
t r a t a d o - m a s c o m o u m filh o .

• N a v e r d a d e , o p r ó x im o s in a l d e b o a s - v in d a s a n u n c ia o
filh o c o m o u m c o n v id a d o d e h o n ra . A m e lh o r t ú n i c a
é colocada e m to r n o d e le . E s ta b e la r o u p a e ra u m a
m a r c a d e a l t a d is tin ç ã o . E s ta v a re s e rv a d o p a r a o s c o n -
v id a d o s re a is , n ã o p a r a os filh o s d e s o b e d ie n te s .

• O filh o re c e b e u m a a lia n ç a q u e s im b o liz a a a u to r id a -


d e . E le n ã o r e to r n a c o m o u m m e r e c e d o r d e lib e r d a d e
c o n d ic io n a l e e s t ig m a tiz a d o , m a s c o m o a lg u é m d i g n o
d e p o d e r e p r e s tíg io .

244
0 REINO DE PONTA CABEÇA

• O s s a p a to s q u e os se rv o s c o lo c a m e m se u s p é s ta m b é m
s in a liz a m o se u a lto s ta tu s . O s h o m e n s liv re s u s a v a m
s a p a to s . E sc ra v o s a n d a v a m d e sc a lç o s. E s te filh o re c u -
p e r a d o r e to r n a r ia c o m o u m a p e s s o a liv re . O s se rv o s
ir ia m s e rv i-lo .

• U m b e z e rr o g o r d o fo i m o r to . C a r n e d e g a d o e ra re se r-
v a d a p a r a o c a siõ e s e s p e c ia is . O filh o , q u e o n t e m c o m ia
c o m p o rc o s , h o je t e m b ife n o ja n ta r .

• N ã o se o u v e o s o m d o c h ic o te . E m v e z d is s o , o u v e -s e
a m ú s ic a e os d a n ç a r in o s se a p r e s e n ta m . E h o r a d e ce-
le b r a r a re s s u r re iç ã o d e u m filh o m o r to . U m p e c a d o r
v o lto u p a r a casa. V a m o s fe ste ja r!

O b a r u lh o d a fe s ta s u r p r e e n d e o filh o m a is v e lh o q u a n d o
e le r e to r n a d o tr a b a lh o n o c a m p o n a q u e la n o ite . O in s e n s a to
p erd ão d o pai é um u l t r a j e p a r a ele. E le e x ig e ju s tiç a e e q u i-
d a d e . O n d e e s tá o c a s tig o d e v id o a o s e u ir m ã o r e b e ld e q u e
d e s p e r d iç o u as re se rv a s d e s e u p a i ?

A lé m d is s o , o n d e e s tá a fe s ta d e v id a a o filh o m a is v e -
lh o ? Q u e m e s tá c e le b r a n d o s e u s a n o s d e tr a b a lh o fiel n o s
c a m p o s ? D e s d e n h o s a m e n te , 0 filh o m a is v e lh o c h a m a se u
p r ó p r io ir m ã o “e s te s e u filh o ” .

P o r é m , o p a i a m o ro s o r e s p o n d e c o m “m e u q u e r id o filh o ” .

O filh o m a is v e lh o , c o n s u m id o p e la ra iv a , n u n c a e n t r a n a
casa. C o m o os e s c rib a s e fa ris e u s , e le se re c u s a a p a r ti c ip a r d a
fe sta . A g o r a e le e s tá p e r d id o , n o m o m e n t o e m q u e s e u ir m ã o
é e n c o n tr a d o .

D e u s é c o m o u m p a i d e p o n ta - c a b e ç a . D e u s p e r d o a g e n e -
r o s a m e n te q u a n d o n o s a r r e p e n d e m o s . D e u s é c o m o u m p a i
ju d e u q u e re c o m p e n s a o s e u filh o , q u e c o m ia c a r n e d e p o rc o ,
c o m u m b ife . E m v e z d e e s p a n c a r o filh o , q u e tr a z d e s g ra ç a ,
e le o e le v a p a r a o a lto p o s to d e “c o n v id a d o m a is h o n r a d o .”

245
DONALD B. KRAYBILL

Deus é como um pai que não faz perguntas, mesmo quando


tratado como morto. Este é o amor ilimitado, incondicional,
sem amarras. Esta história nos leva ao próprio coração de
Deus e expõe a natureza de Deus —ãgape.
Tal pai nos impulsiona a agir. Como o homem que en-
controu um tesouro no campo, tal perdão, espantoso, nos
deixa chocados. Este amor esmagador energiza uma reação
em cadeia. Os filhos de tal amor querem passá-lo adiante.
Como seu Pai, eles se tornam misericordiosos. Eles amam
como Deus amou. Porque Deus os perdoou, eles também
podem perdoar.
A resposta grata a Deus é o motivo da ação no reino de
ponta-cabeça. Os atos de amabilidade, movidos pela bonda-
de de Deus, encarnam o abraço carinhoso de Deus por este
mundo. Desencadeadas pelo amor de Deus, estas ações são
uma doce oferta no altar de adoração.
Outra camada de significado fundamenta a história. O
filho pródigo também representa Israel no exílio que agora
está sendo restaurado no ministério de Jesus. O filho mais
velho tipifica os escribas e fariseus que estão resistindo ao
romper do novo reino em seu meio. A festa que comemora
o retorno do filho rebelde também aponta para a mesa de
comunhão de Jesus com os pecadores que são acolhidos no
novo reino. Neste sentido mais profundo, a história capta o
significado do anúncio do reino feito por Jesus.

S aia de cima do seu jumento


Como o amor ágape age na vida diária? Se a compaixão
de Deus parece insensata, os filhos de Deus também parecem
tolos? Jesus esclareceu a essência de ágape com uma história.
Ele descreve a natureza radical do amor de ponta-cabeça em
seu novo reino (Lc 10:25-37)'*. A história é a resposta de

248
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

Jesus à pergunta de um “advogado”- a grande questão sobre


como obter a vida eterna.
Ela começa de uma maneira crível. Um homem caminha
ao longo da estrada sinuosa e desolada que vai de Jerusalém
a Jerico. O público assume que esse homem é um compa-
nheiro judeu. Os bandidos que viviam em cavernas infesta-
vam as encostas descobertas ao longo da sinuosa estrada para
Jericó. Um assalto não surpreendia.
Sacerdotes e levitas que viviam em áreas periféricas re-
tornavam por esta estrada depois de realizarem os seus deve-
res no templo de Jerusalém. Todos sabiam que sacerdotes e
levitas, que seguiam as leis de pureza com obsessão, seriam
contaminados se a sombra deles tocasse um cadáver. O via-
jante na história de Jesus, roubado e espancado, parecia qua-
se morto. Um sacerdote preocupado o evitaria a todo custo.
O público espera que a história termine com uma críti-
ca mordaz a elite religiosa. Como muitas outras parábolas
de Jesus, esta criticará os líderes insensíveis que não têm
compaixão. A multidão espera que um fazendeiro comum se
torne herói resgatando um companheiro judeu. Esse fim vai
alfinetar os sacerdotes e levitas. Um camponês judeu mostra
mais compaixão do que líderes religiosos! Mais uma vez,
Jesus acerta os pesos pesados com uma história pungente.
De repente, Jesus inverte suas expectativas de ponta-ca-
beça. Um samaritano, não um judeu, aparece como herói. O
público está horrorizado. Como isso pode ser? Por que um
samaritano? Seu mundo simbólico acaba.
Por que um samaritano é tão chocante? A tensão amarga
dividia judeus e samaritanos. Samaria, ao norte de Jerusa-
lém, estava encurralada entre a Judéia e a Galileia. Os sa-
maritanos surgiram cerca de 400 aC de casamentos mistos
entre judeus e gentios. Os judeus os consideravam bastar­

247
DONALD B. KRAYBILL

dos mestiços. Eles tinham a sua própria versão dos livros


de Moisés. Eles tinham construído seu próprio templo no
Monte Gerizim, ao norte de Jerusalém. Eles até afirmavam
que o seu templo era o verdadeiro lugar de adoração. Os
sacerdotes samaritanos traçaram suas linhagens de volta à
linhagem real sacerdotal na história hebraica.
Para a mente judaica, os samaritanos eram piores do que
pagãos, porque pelo menos sabiam mais. Os samaritanos,
odiados e desprezados pelos judeus, estavam bem embaixo
na escala social5. A Escritura atesta o racismo beligerante
entre os dois grupos. João (4: 9) relata que os judeus não
mantinham relações com os samaritanos. Quando alguns sa-
maritanos se recusam a dar alojamento a Jesus, Tiago e João
estão tão irritados que imploram a Jesus que queimasse a
aldeia com fogo do céu (Lc 9:51-56). Os líderes judeus cha-
mam Jesus de “samaritano”, um apelido depreciativo para
os endemoninhados (Jo 8:48).
Quando Jesus tinha cerca de doze anos, os samaritanos
entraram no templo de Jerusalém, à noite, e espalharam os-
sos humanos sobre o santuário. Este ato ultrajante inflamou
os ânimos judaicos. Os judeus não comiam pães ázimos fei-
tos por um samaritano, nem um animal morto por um sa-
maritano. Um rabino disse: “Aquele que come o pão de um
samaritano é como aquele que come a carne de um suíno”6.
O casamento entre eles era um tabu. Os judeus consi-
deravam as mulheres samari tanas menstruantes perpétuas
desde o berço e seus maridos perpetuamente impuros. A
saliva de uma mulher samaritana era impura. Toda uma al-
deia era declarada contaminada se uma mulher samaritana
ficasse lá. Qualquer lugar que um samaritano dormisse era
considerado imundo, como qualquer comida ou bebida que
tocasse o lugar. Outro rabino disse que os samaritanos “não
têm lei nem os restos de uma lei e, portanto, eles são des­

248
0 REINO DE PONTA CABEÇA

prezíveis e corruptos”7. Os samaritanos frequentemente ata-


cavam judeus galileus que iam para Jerusalém. Para os ju-
deus devotos, os samaritanos eram piores do que os romanos
porque os mestiços ridicularizavam a fé judaica praticando
uma religião rival na Terra Santa de Deus. Os samaritanos,
em suma, nem sequer estavam na lista de pureza —eram to-
talmente poluídos.
De volta à nossa história. Jesus chocou as mentes judai-
cas quando disse que um mercador samaritano, um inimigo
desprezível, parou para ajudar a vítima. Se Jesus quisesse
simplesmente ensinar sobre o amor ao próximo, o herói da
história poderia ter sido outro judeu. Melhor ainda, por
que não contar uma história em que um judeu resgatou um
samaritano? Isso teria acariciado egos tribais —mostrando
como o mocinho ajuda o cara mau.
Transformar um patife em um herói? Impensável! Jesus
vira o mundo social da multidão de ponta-cabeça. Os bons —
sacerdotese levitas —se tornam maus. O vilão se transforma
em herói. Jesus une duas palavras impensáveis: bom e sama-
ritano. Uma mistura equivalente em nosso mundo pode ser
bom e terrorista.
Que terremoto! Isso abala as suposições da multidão. As
linhas de falhas estão no mapa cultural. Os juízos dogmá-
ticos, as conclusões estabelecidas e os pressupostos conven-
cionais de repente entram em colapso8. Fatos contraditórios
colidem. Os líderes judeus agem sem compaixão. Um vil sa-
maritano se comporta como um vizinho amoroso. O inimigo
é movido pela compaixão, pela mesma força que dominou
o pai tolo. O sacerdote e o levita, representando o templo
judeu, se recusam a ajudar por causa de regulamentos reli-
giosos. O samaritano, levantando a bandeira de um templo
rival, desafia prescrições cerimoniais e oferece ternura.

249
DONALD B. KRAYBILL

O óleo e o vinho eram frequentemente usados como un-


guento e antisséptico. Porém eles estavam contaminados se
tocados por um samaritano. O templo de Jerusalém continha
óleo sagrado e vinho, guardados em lugares sagrados, para
ocasiões especiais de sacrifício. Somente sacerdotes oficiantes
podiam tocar o óleo e o vinho sagrados. Agora, um estranho,
um samaritano, polui os emblemas sagrados com seu toque, e
depois os usa para curar seu inimigo judeu. Esta é a verdadei-
ra adoração, verdadeiro perdão, sacramento genuíno sem um
sacrifício de animais, longe do Santo dos Santos!
O samaritano derrama generosamente os elementos sa-
grados sobre seu oponente, nem mesmo separando o dízimo
segundo o procedimento judaico apropriado. Como o amor
de Deus, o óleo e o vinho não são restritos a pessoas espe-
ciais em lugares santos. Eles são compartilhados livremente,
mesmo com inimigos. Em poucas linhas, esta história não
só redefine o amor, como também destrói a necessidade do
templo e do seu altar sacrificial.
Só duas vezes no Evangelho Jesus foi perguntado sobre
como ganhar a vida eterna. Na primeira vez, Jesus recomen-
da ao jovem rico que venda tudo e de aos pobres e siga-O.
A segunda vez que Jesus conta a história do Bom Samari-
tano para explicar o amor do reino a um advogado judeu,
um estudante da Torá. Esta história de ponta-cabeça revela
a resposta mais chocante às perguntas do advogado: “Como
herdar a vida eterna?” e “Quem é 0 meu próximo?”.
A Torá definia os limites tribais do povo de Israel. Amar
o próximo certamente se referiría àqueles dentro da tribo ju-
daica. Em poucas palavras, Jesus esmaga as antigas frontei-
ras étnicas e mostra que os muros do novo reino vão muito
além de Israel. Não se trata apenas de uma história sobre no-
vas fronteiras e uma boa ação. É também uma história sobre
uma boa pessoa, uma história que mostra a bondade até para

250
0 REINO DE PONTA CABEÇA

com um inimigo. Ao fazê-lo, Ele estende o guarda-chuva


do novo reino sobre toda a humanidade. Em uma pequena
história, Jesus derruba nossos rótulos de vizinho e inimigo,
os “de dentro” e os “de fora”9.
A história esclarece os valores do reino e o amor ágape
de várias maneiras. (1 ) 0 ágape é indiscriminado. O reino do
amor zomba dos rótulos por trás da pergunta do mestre da
lei, “Quem é o meu próximo?” Ele quer classificar as pessoas
em caixas de “próximos” e “inimigos”. Os discípulos de Je-
sus amam indiscriminadamente; Seu amor se estende além
do próximo. Agentes do ágape não traçam linhas de respon-
sabilidade e exclusão. A resposta à pergunta do advogado é
clara. Se, mesmo os inimigos são definidos como próximos,
então certamente qualquer pessoa menos hostil merece a
graça do ágape.
Em outras palavras, a questão, “Quem é meu próximo?”
é irrelevante. A história define todos, mesmo meu inimigo,
como meu próximo. Nosso “próximo” inclui a todos no rei-
no de ponta-cabeça. Num amplo apelo à solidariedade hu-
mana, as categorias de amigo e inimigo se dissolvem, uma
vez que todos são o próximo. Tratamos como vizinhos, mes-
mo aqueles a quem não temos obrigação de agir de forma
favorável - até mesmo inimigos que poderiamos odiar com
razão. O amor ágape responde às pessoas, não às categorias
sociais. Jesus inverte as coisas perguntando ao advogado, em
essência, “Você está agindo como um vizinho a todos?”.
(2) O ágape ousado. Os costumes religiosos não o impe-
dem. A compaixão suspende as normas sociais que podem
justificar um desinteresse insensível. Ao contrário do sacer-
dote, que temia que sua sombra pudesse tocar um cadáver, 0
ágape valoriza as pessoas acima das regras religiosas. O ágape
ultrapassa barreiras sociais que escondem pessoas em prisões,
hospitais, centros de recuperação e guetos de todos os tipos.

261
DONALD B. KRAYBILL

(3) O ágape é inconveniente. O sacerdote e o levita “vi-


ram e passaram pelo outro lado”. O samaritano teve com-
paixão e desceu de seu jumento. Ele colocou a vítima em
seu jumento e caminhou ao lado. Muitas vezes é inconve-
niente sair de cima dos burros que nos levam a lugares de
segurança confortável. O ágape do reino nos chama a tais
inconvenientes.
(4) O ágape é arriscado. Toda a cena desta história podería
ter sido uma armação. Talvez os ladrões estivessem se es-
condendo nas proximidades esperando para atacar qualquer
pessoa que oferecesse ajuda. Caminhando com a vítima, em
vez de montar, o samaritano tornou-se vulnerável a mais ata-
ques após o resgate. No entanto, este bom inimigo assume
um risco por causa da vítima.
(5) O ágape leva tempo. O resgate interrompe a agenda
do comerciante samaritano. Parar e fazer curativos na víti-
ma, caminhar ao lado dele, e parar na estalagem certamente
atrasou a viagem do comerciante. Compaixão requer ação
que exige tempo.
(6) O ágape é caro. O Samaritano pagOLi ao dono da es-
talagem o equivalente a vinte e quatro dias de alojamento
e ofereceu um “cheque em branco” para quaisquer custos
adicionais. Se os judeus estivessem ajudando judeus, um
tribunal civil teria provavelmente reembolsado aquele que
ajudou. Porém,um tribunal judeu jamais reembolsaria um
samaritano. O inimigo livremente empresta recursos sem
esperança de retorno. Isto é exatamente o que Jesus diz em
uma instrução formal: “emprestem a eles, sem esperar rece-
ber nada de volta” (Lc 6:35).
(7) O ágape compromete 0 status social. O que aconteceu
quando a notícia chegou à cidade natal do samaritano, de
que ele estava ajudando judeus? Ele, provavelmente, foi ro­

252
0 REINO DE PONTA CABEÇA

tulado como traidor da causa samaritana. Sua reputação e


status social foram manchados. Certamente ele foi ridícula-
rizado por seu próprio povo.
Esta história de ponta-cabeça não deixa dúvidas sobre a
natureza corajosa do dgape. A compaixão envolve mais do
que confusos sentimentos calorosos. É mais do que boas ati-
tudes em relação aos outros. Não acaba apenas com sorrisos
doces. Este amor “tolo” é assertivo. E caro, tanto social e
quanto economicamente.
Embora a história mostre a forma do dgape, ela não res-
ponde a todas as nossas perguntas. E se o samaritano tivesse
encontrado os ladrões batendo na vítima? Como 0 dgape
teria respondido? A força deveria ser usada para parar a
atrocidade? O dgape só aplica Band-Aids aos feridos? O sa-
maritano chegou à raiz do problema voltando às cavernas e
procurando os ladrões? Se os tivesse encontrado, o que po-
deria ter feito com eles? E se alguém vê muitas vítimas mal-
tratadas? Quais recebem prioridade? Essas perguntas, sem
resposta no incidente, muitas vezes imploram por respostas
no nosso mundo de hoje.

A L ei de um pé só
Os Evangelhos anunciam o amor dgape como o único sa-
cramento do reino de ponta-cabeça. Depois do grande man-
damento de amar a Deus com todo o nosso ser vem a ins-
trução revolucionária. Ame seu próximo da mesma maneira
que você ama a si mesmo. Todos os três escritores sinóticos
destacam este manifesto cristão (Mt 22:37-40, Mc 12:28-
31, Lc 10:25-27).
A frase simples é cheia de significado. Primeiramente,
supõe que o amor-próprio é apropriado. Há um lugar para

253
DONALD B. KRAYBILL

o respeito pessoal e dignidade. É bom ter aspirações pesso-


ais, mas há um porém. A frase revolucionária diz para nos
importarmos com o próximo tão intensamente quanto nos
importamos com nós mesmos. Devemos trabalhar tão duro
para ajudar nossos vizinhos a alcançar seus objetivos en-
quanto trabalhamos pelos nossos.
O convite para amar o próximo como a nós mesmos co-
lide com o individualismo egoísta. A sábia admoestação
equilibra a busca do interesse próprio com as necessidades
dos outros. Ela celebra as necessidades e desejos pessoais,
mas então os restringe, chamando por igual atenção para
os outros. O individualismo egoísta é abolido no reino de
ponta-cabeça. Aqui, doses iguais de amor próprio e amor
ao próximo fluem de nosso amor supremo - nossa devoção
a Deus. Esse amor erradica o orgulho. Cuidar do bem-estar
do próximo com a mesma intensidade com que cuidamos do
nosso, elimina o egoísmo ganancioso.
Para Jesus, a norma do amor ágape resumia toda a lei e
a mensagem dos profetas (Mt7:12). Embora o ágape fosse a
chave da justiça hebraica, Jesus a chamou de um novo man-
damento. Devemos amar os outros como Deus nos amou.
Nossa prática de amor é o sinal de que somos realmente
discípulos de Jesus (Jo 13:34-35).
Jesus acrescentou novas dimensões ao significado do
amor. Um gentio cético disse, certa vez, a um rabino que
aceitaria a fé judaica se o rabino pudesse resumir a lei judai-
ca enquanto o gentio estava de pé em um pé só. O rabino
respondeu: “Não faça a outro o que seria prejudicial para
você”. Jesus virou a regra negativa de ponta-cabeça e trans-
formou-a em uma diretriz para a ação. “E como vós quereis
que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós,
também” (Lc 6:31, Mt 7:12).

254
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Jesus foi o modelo do ágape. Ele o encarnou, por ser um


defensor dos pobres. Ele violou leis civis e religiosas para
servir à necessidade humana. Suas palavras e ações insulta-
ram os ricos e poderosos. Ele defendeu os espezinhados, os
excluídos e os oprimidos, mesmo quando seu comportamen-
to criava tumulto.
Embora o ágape sofra de bom grado, ele entende que um
“não” firme é também uma expressão de cuidado amoroso.
A criança pequena, emocionalmente perturbada, 0 adoles-
cente com um transtorno de caráter e o adulto irresponsável
podem precisar de um “não” em vez de um doce sorriso. Um
confronto amável, mas firme, pode ser uma profunda expres-
são de ágape. O verdadeiro amor confronta mesmo quando
o confronto é doloroso. Na verdade, o confronto gentil ex-
pressa ágape mais do que evitar o confronto ou a aprovar de
forma implícita o comportamento irresponsável. Dizer que
o ágape pode ser firme e confrontador não serve, no entanto,
como desculpa para o uso de meios violentos, mesmo para
fins bons.
Sugerir que o ágape seja única ordenança do reino soa
agradável, mas não é solução milagrosa. Como se responde
quando as necessidades de três ou quatro diferentes “vizi-
nhos” estão em choque? Cuidar de um vizinho pode preju-
dicar os interesses de outro. Em uma época de competição
agressiva, como uma empresa cristã aplica o ágape diante
de concorrentes veementes? Os concorrentes corporativos
são também “vizinhos”? Como amamos 0 nosso próximo
quando os objetivos do vizinho se chocam com os valores
cristãos? Embora tais perguntas implorem respostas, a visão
ágape oferece novas perspectivas. Ela nos afasta do indivi-
dualismo arrogante e nos estimula a fazer as perguntas certas
sobre o amor ao próximo.
DONALD B. KRftYBILL

A lém do toma lá dá cá
O amor ágape revisa uma regra social generalizada —a
norma da reciprocidade. Em todo o mundo, a reciprocidade
molda nossas expectativas para dar e receber favores - tanto
verbal quanto material. Se eu comprar uma xícara de café
para você, você é obrigado a dizer “obrigado” e devolver o
favor algum dia. A troca não precisa ser igual em valor ou
forma. Um chocolate pode ser um aceitável obrigado por
uma xícara de café. A regra por trás, no entanto, é simples:
devemos apreciar e devolver favores.
A norma da reciprocidade pressupõe que as pessoas de-
vem ajudar —e certamente não prejudicar - aqueles que as
ajudaram. A reciprocidade mantém um equilíbrio de obri-
gações nas relações sociais. Sentimo-nos constrangidos se
não podemos retribuir um presente. Consideramos rudes
aqueles que quebram as regras da reciprocidade. Dar um
presente e trocar um cartão no fim do ano ilustram a nor-
ma. Presentes precisam ser de valor semelhante para que as
coisas não fiquem desequilibradas. Dar um presente de R$
2,00 em troca de um de R$ 25,00 nos deixa desconfortá-
veis. Nós enviamos cartões de “boas festas” para aqueles que
achamos que vão enviar um de volta. Nossas relações saem
do equilíbrio quando um presente de Natal ou felicitação
não é devolvido.
Esta regra não é apenas uma coisa sazonal. Ela permeia
todos os aspectos das relações humanas. Os pequenos “obri-
gados” que dizemos e fazemos ao longo do dia são gover-
nados pela reciprocidade. Assim é a troca de trabalho por
salários e taxas por serviços. Podemos manipular relaciona-
mentos para ganho pessoal, aumentando a dívida com os
outros. Isto acontece quando os vendedores trazem diversas
amostras e explicações a potenciais clientes, obrigando as-

256
0 REINO DE PONTA CABEÇA

sim os clientes a devolver o favor, fazendo uma compra. Se


quisermos pedir um favor aos outros, podemos levá-los para
almoçar, obrigando-os a nos ajudar.
A troca sutil desta norma, muitas vezes, dispensa pala-
vras, mas ainda é penetrante e poderosa. Embora se espere
que ajudemos àqueles de dentro da nossa rede de reciproci-
dade, não somos obrigados a sair do nosso caminho para fa-
zer favores para estranhos. Não temos obrigações para com
pessoas de fora. Este é o motivo de atos aleatórios de bon-
dade para com estranhos serem tão surpreendentes. Não
temos dívidas com aqueles que não fizeram nada por nós.
Podemos ignorar estranhos sem sentir culpa. Mas quando
se trata de inimigos, é uma história diferente. Temos o
dever de odiá-los.
Jesus corta a norma da reciprocidade: ,‘Que mérito vo-
cês terão, se amarem aos que os amam? Até os ‘pecadores’
amam aos que os amam...E que mérito terão, se empresta-
rem a pessoas de quem esperam devolução? Até os ‘pecado-
res’ emprestam a ‘pecadores’, esperando receber devolução
integral”(Lc. 6: 32-34).
Jesus chega ao ponto perguntando: “Se vocês amarem
aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os
publicanos fazem isso !E se vocês saudarem apenas os seus
irmãos, o que estarão fazendo demais? Até os pagãos fazem
isso!”(Mt 3:46-47). Em outras palavras, o amor dgape se
estende muito além da simples reciprocidade.
Não seja enganado, diz Jesus, em pensar que o amor ága-
pe é o mesmo que a norma da reciprocidade. Ágape não se
trata de devolver sorrisos com sorrisos ou favores com favo-
res. Até os pecadores jogam com essa regra. Os fariseus e
cobradores de impostos sorriem quando as pessoas sorriem
para eles. Pagãos devolvem favores a pessoas que lhes fazem

257
DONALD B. KRAYBILL

favores. Os gentios eclucadamente obedecem a essas regras


de etiqueta social. Não é grande coisa se você simplesmente
jogar pelas regras de reciprocidade. Isso não é o amor do
reino.
Ágape é uma norma de excesso. Vai além da reciprocidade.
O pai tolo não jogou pela regrada reciprocidade quando re-
cebeu seu filho fedorento em casa. O mestiço samaritano não
jogou pela regra da reciprocidade quando saiu do jumento.
Seu Pai celestial também não joga com essa regra. Deus en-
via sol e chuva sobre os injustos e também sobre os justos
(Mt 5:45). Deus é 0 modelo da norma do excesso. Devemos
ser misericordiosos como Deus é misericordioso” (Lc 6:36).
“Vocês receberam de graça; deem também de graça” (Mt
10 : 8 ).
Deus injeta uma dimensão divina na antiga fórmula
“toma lá dá cá”. Deus entra na equação das relações sociais.
Deus tomou a iniciativa fazendo-nos um favor. Deus amou
tanto o mundo que Deus se tornou uma pessoa humana.
Deus nos redime e nos salva por meio de Jesus Cristo. Deus
age primeiro e inicia uma reação em cadeia. Nós fomos gra-
ciosamente perdoados. Como devolvemos? Ao compartilhar
a iniciativa amorosa de Deus com os outros. Nesta rede de
relações sociais existem três atores. Deus toma a iniciativa es-
tendendo amor incondicional como o pai tolo. Nós retribui-
remos nossa dívida para com Deus, espalhando a iniciativa
amorosa para os outros.
Agradecemos ao perdão de nossa dívida com Deus aman-
do os outros. Paulo descreve sucintamente o funcionamento
desta “dívida amorosa”: “Não devam nada a ninguém, a não
ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu
próximo tem cumprido a Lei.”(Rm 13:8). Jesus diz isso com
clareza quando afirma: ‘“Digo a verdade: O que vocês fize-
ram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’”

258
0 REINO DE PONTA CABEÇA

(Mt 25:40). Neste contexto, Ele descreve atos de amor para


com os mais necessitados: os famintos, os sedentos, os doen-
tes, os prisioneiros, os estranhos e os nus. A medida que você
ama mesmo o menor destes - colocado lá no último degrau
da escala social - você tem me retribuído!
A transação está concluída. Começa uma nova reação em
cadeia. O menor destes que experimenta o cuidado de Deus
passa-o adiante agora. O refrão do Jubileu toca em nossos
ouvidos novamente. Assim como vos libertei, libertai os ou-
tros! Esta não é uma troca fria, calculada, onde buscamos
“pagar” a Deus de alguma maneira legalista. E impossível
retribuir totalmente nossa enorme dívida. Esta é uma alegre
resposta do jubilei- gratidão espontânea pela graça maravi-
lhosa de Deus.
O amor ágape excede a norma da reciprocidade de três
maneiras. Primeiro, a iniciativa agora é nossa. Em vez de
esperar para devolver um favor, damos o primeiro passo por-
que Deus já nos favoreceu.
Em segundo lugar, o ágape serve aos outros, independen-
temente do seu status. Não se concentra em amigos ou iguais
com quem devemos “ser bons”. Como a história do Samarita-
no sugere, sob o reino do ágape, estranhos, inimigos e margi-
nalizados são cuidados tanto quanto amigos íntimos.
Em terceiro lugar, o amor ágape não espera um retorno.
Porque Deus tomou a iniciativa, já fomos pagos. Na forma
típica de ponta-cabeça, o ágape exorta os outros a passar o
amor, oferecendo 0 favor a alguém em vez de devolvê-lo.
Jesus articula isso claramente. “Quando você der um
banquete ou jantar, não convide seus amigos, irmãos ou
parentes, nem seus vizinhos ricos; se o fizer, eles poderão
também, por sua vez, convidá-lo, e assim você será recom-
pensado. Mas, quando der um banquete, convide os pobres,

259
DONALD B. KRAYBILL

os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque


estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na res-
stirreição dos justos”(Lc 14:12-14)10.
Os discípulos de Jesus não amam por interesse pessoal,
nem esperam um retorno. Depois de zombar daqueles que
se orgulham de seguir a norma da reciprocidade, Jesus es-
clarece a natureza ilimitada do ágape. “Amem, porém, os
seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem
esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão
será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é
bondoso para com os ingratos e maus. ” (Lc 6:35).
Os discípulos de Jesus são anormais de ponta-cabeça.
Eles excedem as expectativas convencionais. Eles tomam a
iniciativa. Eles não fazem diferença entre inimigos e vizi-
nhos. Eles não esperam retorno. Quando esperamos retor-
no, transformamos os destinatários do presente em clientes.
Quando não esperamos retorno, os liberamos da dívida11.
Muitas vezes é difícil aceitar um presente. Odiamos nos
sentir em dívida. Nós nos preocupamos em como retribuir.
Nossos presentes aos outros podem fazê-los sentir estranhos
também. A postura ágape alivia a estranheza. Quando al-
guém nos dá um presente e diz: “Só passe o favor adiante”,
isso alivia o nosso senso de d/vida. Isso também protege nos-
sa dignidade, pois podemos retribuir em tempo oportuno a
outra pessoa. Passando adiante a bondade, também, é claro,
nós ampliamos 0 círculo de amor redentor.

U ma bofetada por uma bofetada?


Olhamos para o lado positivo da norma da reciprocida-
de - faça bem àqueles que fazem o bem para você. O lado
negativo, no entanto, nos permite prejudicar alguém que

260
0 REINO DE PONTA CABEÇA

n o s p r e ju d ic o u . É u m jo g o j u s t o r e ta l ia r se a lg u é m n o s m a -
g o o u d e lib e r a d a m e n te . N a v e r d a d e , p o d e m o s i r a lé m d e u m
o lh o p a r a u m o lh o . Se a lg u é m p õ e o d e d o e m u m d o s n o sso s
o lh o s , n ó s p o d e m o s p ô r o d e d o n o s d o is d e le s . E s ta n o r m a d e
r e c ip r o c id a d e n e g a tiv a s u b ja z o e s p e c tr o d o c o m p o r ta m e n to
h u m a n o d e s d e b i r r a e n tr e ir m ã o s a g u e r r a s in te r n a c io n a is .
E m re s u m o , se as p e sso a s m e f e r ir e m , t a m b é m p o s s o fe ri-la s .

Se a lg u é m m o v e u m a ação c o n tr a m i m , p o s s o m o v e r u m a
aç ão d e v o lta . Se a lg u é m m e e n g a n a , te n h o d ir e ito d e tra p a c e -
a r d e v o lta . Se o u tr a n a ç ã o la n ç a r m ís se is c o n tr a n ó s, p o d e r e -
m o s c o n tra -a ta c a r. N a v e r d a d e , m e s m o se p e n s a rm o s q u e es-
tã o p re s te s a la n ç a r, te m o s o d ir e ito d e la n ç a r p r im e ir o . O la d o
n e g a tiv o d a re c ip ro c id a d e n ã o só p e r m ite a a u to d e fe s a , m a s
ta m b é m l e g itim a u m c ic lo d e re ta lia ç ã o s e m fim . A v in g a n ç a
p o d e e x c e d e r o in s u lto o r ig in a l p a r a “e n s in a r ” ao a g re s s o r u m a
“liç ã o ” . N ó s re fle tim o s isso q u a n d o d iz e m o s : “E la fez p o r m e -
re c e r” , “E le te v e o q u e m e re c ia ” , o u “É b e m f e ito ” .

D e u m a fo r m a in v e r tid a , J e s u s d e r r u b a a r e g r a n e g a tiv a
d a r e c ip r o c id a d e . S u as p a la v r a s e aç õ e s sã o in c is iv a s . N ã o
p o d e h a v e r d ú v id a . J e s u s s u s p e n d e o n e g a tiv o , b e m c o m o o
la d o p o s itiv o d a n o r m a .

V o c ês o u v ir a m o q u e fo i d i t o : O l h o p o r
o lh o e d e n t e p o r d e n t e ’. M a s e u d i g o : N ã o
r e s is ta m a o p e r v e r s o . Se a l g u é m o f e r i r n a
fa ce direita, o f e r e ç a - lh e t a m b é m a o u t r a . E ,
se a lg u é m q u i s e r p r o c e s s á - lo e t i r a r d e v o c ê
a t ú n i c a , d e ix e q u e le v e t a m b é m a c a p a . Se
a l g u é m o fo r ç a r a c a m i n h a r c o m e le u m a
m i l h a v á c o m e le d u a s . D ê a q u e m p e d e , e
n ã o v o lte as c o s ta s à q u e le q u e d e s e ja p e d i r
a lg o e m p r e s ta d o .

261
DONALD B. KRAYBILL

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu


próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu digo:
Amem os seus inimigos, façam o bem aos
que os odeiam e orem por aqueles que os per-
seguem.. (Mt. 5:38-44; ênfase adicionada)

Os cristãos têm ignorado em grande parte essas instru-


ções surpreendentes ou as usam como receitas para não re-
sistir ao mal. Jesus está nos chamando para ser esponjas que
absorvem qualquer insulto ou dano? Ao contrário, um es-
tudioso mostra que Jesus estava provavelmente chamando
seus discípulos a resistir ao mal com esses atos simbólicos de
não-violência12. Alguns contextos culturais ajudam a escla-
recer o significado do texto.
Em primeiro lugar, Jesus não está falando de brigas aos
socos ou rixas no pátio da escola. Um tapa na bochecha direi-
ta era muitas vezes dado com a parte de trás da mão direita
por um mestre que queria repreender ou humilhar um ser-
vo. Segundo, essa cultura fazia uma grande distinção entre
as mãos direita e esquerda. A mão esquerda era usada para
tarefas impuras, mas nunca a direita. Um tapa na bochecha
direita simbolizava o desprezo supremo. Se alguém ficava
com raiva e dava um soco em seu igual na bochecha direita,
ele era multado em um dia de salário. Se ele desse uma bo-
fetada humilhante com o dorso da mão, a multa era multi-
plicada cem vezes. As multas, no entanto, só se aplicavam a
iguais, não a empregados. Um mestre podería bater em um
escravo e não ser multado.
Assim, Jesus está falando de insultos, não de brigas. Mais
importante ainda, Ele está apontando relações de poder de-
siguais entre mestres e escravos, senhores e mordomos, ma-
ridos e esposas. Jesus está falando com seus discípulos e com

262
0 REINO DE PONTA CABEÇA

outros que haviam sido humilhados com tapas por aqueles


superiores —mestres, soldados, maridos —em posições de
poder. Se insultado por uma bofetada, um escravo basica-
mente tinha duas escolhas: bater de volta ou esconder-se
na humilhação. A maioria dos servos se acovardava porque
bater de volta daria ao mestre uma desculpa para bater no
escravo. Por que Jesus diria a essas pessoas já humilhadas
para dar a outra face?
Jesus propõe não um golpe de retaliação ou cair no chão
em submissão - mas um terceiro caminho. Ofereça a outra
face e roube do agressor o poder de humilhar. Ao oferecer a
outra face, a esquerda, o escravo está dizendo: “Tente nova-
mente. Eu me recuso a ser humilhado”. Tal resistência não
violenta expõe o ato mau e envergonha o agressor. Ele não
aceita complacentemente o dano, mas resiste a ele, não com
violência, mas com amor. Os exemplos de Jesus de dar a úl-
tima vestimenta e andar a segunda milha ilustram o mesmo
princípio da resistência não-violenta13.
Formas simbólicas de resistência que humilham e en-
vergonham o opressor devem ser equilibradas pelo manda-
mento de Jesus de amar o inimigo. Amar o inimigo requer
respeito e apreciação da sua dignidade humana. Os atos sim-
bólicos de resistência nunca devem difamar ou degradar o
malfeitor. De fato, qualquer resistência deve ser guiada pelo
amor, porque Jesus nos chama a amar nosso inimigo.
“Vocês ouviram que foi dito” continua Jesus, “Ame seu
próximo e odeie seu inimigo, mas eu digo: Amem os seus
inimigo se orem por aqueles que os perseguem”(Mt 5:38-44).
Amar nossos inimigos? Eles são a única categoria de pes-
soas que a norma de reciprocidade nos encoraja a odiar14. O
amor pelos inimigos é a derradeira inversão, pois ele derruba
a regra da reciprocidade. O amor ao inimigo, no entanto,

263
DONALD B. KRAYBILL

flui não apenas deste texto, mas de todo o espírito das histó-
rias e do ministério de Jesus.
No Evangelho de Lucas, Jesus oferece respostas de ponta-
-cabeça a sete tipos de agressores (Lc 6:27-30). Como os cris-
tãos devem responder quando alguém faz uma maldade? Que
tratamento a antiga norma de reciprocidade prescreve para
os agressores? Um contraste item por item entre uma respos-
ta típica e uma respostado reino de ponta-cabeça é esboçado
abaixo. As reações propostas pelo reino parecem totalmente
injustas de acordo com a norma da reciprocidade.

TIPO D E P ES S O A R ES P O S TA TÍPIC A R ES P O S TA 00 R EIN O j

Inimigos Matar Amar


Aqueles que nos
Odiar Fazer 0 bem
odeiam
Aqueles que nos
Amaldiçoar Abençoar
amaldiçoam
Aqueles que nos
Explorar Orar
maltratam
Oferecer a outra
Agressores Revidar
face
Mendigos Evitar Dar
Não exigir bem
Ladrões Processar
algum

Ao ensinar o amor aos inimigos, Jesus se choca com os es-


sênios, os rebeldes e os fariseus. Os rebeldes patriotas, como
vimos, não hesitavam em matar inimigos. Os essênios, que
viviam em comunidades isoladas do Mar Morto, acredita-
vam que era seu dever justo odiar os pecadores. A lei judai-
ca, ensinada pelos fariseus, dizia que não era necessário amar

264
0 REINO DE PONTA CABEÇA

um inimigo. Jesus inverte essas soluções típicas para o mal.


A vingança e a retaliação são obsoletas no novo reino.
À medida que o amor assertivo substitui a reciprocidade,
assim o perdão elimina pouco a pouco 0 toma lá dá cá da
vingança. O perdão é a marca surpreendente dos discípu-
los de Jesus. Eles perdoam 490 vezes por dia (Mt 18:22;Lc
17:3-4). Jesus não está estabelecendo limites legais. Com
um brilho nos olhos, Ele sugere que o perdão é a marca per-
pétua da cidadania do reino. Se 490 soava bem-humorado
para alguns, certamente ultrajava os líderes religiosos que
pensavam que o perdão só viria no templo com um sacrifí-
cio de sangue. Os discípulos de Jesus podem perdoar aqui e
agora porque eles foram tão graciosamente perdoados.
Além disso, aqueles que não perdoam, comprometem
seu próprio perdão. “Mas, se não perdoarem uns aos outros,
o Pai celestial não perdoará as ofensas de vocês.” (Mt 6:15).
Jesus é o modelo deste perdão generoso quando diz à mulher
apanhada em adultério para ir e não pecar mais. De acordo
com a lei judaica, ela podería ter sido apedrejada no local. O
perdão substitui a retaliação. E a marca distintiva da forma
de ponta-cabeça.
Jesus é o modelo do caminho do perdão, até mesmo na
cruz. Se a retaliação tivesse lugar, alguma vez, este seria 0
momento. Se a autodefesa violenta fosse, alguma vez, jus-
tificada, este era o momento. Porém, em uma inversão sur-
preendente, em meio a sangrenta tortura, Jesus pede em
favor de seus inimigos: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23:34). Ele
nos exorta a “O meu mandamento é este: Amem-se uns aos
outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que
aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15:12-13).
No novo reino tratamos inimigos como amigos. Esse tipo
de perdão, entretanto, é arriscado. Levou Jesus para a cruz.

265
DONALD B. KRAYBILL

Ainda assim, ele também nos convida a perdoar abundante-


mente, mesmo pondo em risco as nossas vidas. Não há ne-
nhuma testemunha, nenhuma redenção, nenhum amor se nós
jogamos pela velha regra da retaliação. A disposição de so-
frer em meio à injustiça testemunha o poder do amor divino.
Diante da cruz Jesus rejeita a autodefesa, “todos os que em-
punham a espada, pela espada morrerão” (Mt 26:52). O meu
Reino não é deste mundo. “Se fosse, os meus servos lutariam
para impedir que os judeus me prendessem” (Jo 18:36).
Diante de uma tortura brutal, Jesus oferece essa rejei-
ção radical de retaliação violenta. Sua oração agonizante
no Getsêmani: “não seja feita a minha vontade, mas a tua”
(Lc 22:42), não era mera submissão a uma ordem divina de
acontecimentos. Era o compromisso de Jesus em encarnar o
amor perdoador mesmo na sombra da desgraça. Deus pra-
tica o perdão paciente em meio ao ódio. Até mesmo Jesus
achou isso difícil enquanto lutava com a perspectiva de mor-
te no jardim do Getsêmani.
Quando enfrentamos conflitos, nosso impulso natural é
a kita ou a fuga. Queremos pegar as armas ou fugir para as
colinas. Jesus oferece um terceiro caminho: o amor ágape
diante do mal. Abominando a violência e a passividade, Je-
sus é 0 modelo tanto da resistência quanto da não resistência.
Focalizar somente em um distorce sua mensagem. A resis-
tência e a não resistência devem estar em tensão saudável15.
Já vimos o lado resistente de Jesus. Muitas de suas his-
tórias e atos eram formas diretas de resistência. Ele nos en-
sinou, porém, a não resistir ao mal com o mal, mas com o
bem. Ele pede que usemos meios não violentos para resistir
ao mal —não os violentos. No momento em que sucumbi-
mos à violência, espelhamos o próprio coração do mal. Iro-
nicamente, nos tornamos o que odiamos16.

266
0 REINO ÜE PONTA CABEÇA

A imagem de um Jesus passivo e fraco - um covarde


na cruz - distorce o fato de que o ministério ativo de Jesus
desencadeou sua morte. Foi, em primeiro lugar, precisamen-
te por cama de seu amor assertivo que a cruz surgiu. Jesus
agiu de forma decisiva e vigorosa, comendo com pecadores,
curando no sábado e desafiando líderes religiosos. Jesus con-
frontou a injustiça. Enfrentar o mal serenamente nem sem-
pre é suave e passivo. Jesus não nos chama a ser pacificadores
passivos que meramente preservam 0 status quo. Sua bênção
cai sobre os pacificadores ativos (Mt 5:9)·
Porém, há também um lado não-resistente a Jesus. Ele
carrega sua própria cruz, o instrumento da tortura. Ele não
foge, luta ou resiste. Quando os poderes malignos reagem
à sua crítica da injustiça, ele demonstra a graça paciente de
Deus. Ele oferece perdão. Ele ama os seus inimigos que, li-
teralmente, O torturam. Ele pratica o amor paciente e não
resistente de Deus. Esse é um corajoso amor não resistente
que tem o poder de transformar inimigos em amigos e con-
verter vilões em seres humanos com uma força mais podero-
sa que qualquer outra. É a poderosa força do amor paciente
e perdoador de Deus - o amor não resistente de Deus que
pode absorver as dolorosas garras do mal. Resistir- desafiar
0 mal - deve ser sempre verificado pelo ágape de Deus que
não resiste.
A mensagem de Jesus é clara. O uso da violência, seja
ela física ou emocional, não é a forma de Deus. Jesus nos
mostra como absorver o sofrimento, não como infringi-lo.
Ao recusar-se a apoiar os rebeldes revolucionários, Jesus re-
jeita a resistência violenta mesmo que para se proteger do
sofrimento. Jesus foi o modelo do novo caminho de Deus - o
poder da graça paciente e do amor perdoador.

267
DONALD B. KRAYBILL

D esvios em torno do amor agape


Muitos estudiosos concordam que a não violência é cen-
trai nos ensinamentos de Jesus e na mensagem do Novo Tes-
tamento'fi A igreja primitiva praticou a não violência por
quase três séculos depois da morte de Jesus. No entanto, o
apelo a amar os inimigos tem confundido a lógica humana
ao longo dos séculos. Até mesmo a igreja tem tolerado o uso
de meios violentos de várias maneiras18.
Os cristãos têm evitado a mensagem do Príncipe da Paz
através de vários desvios. Uma desculpa tentadora surge da
guerra no Antigo Testamento. Deus não mandou Israel para
a batalha? À primeira vista isso parece uma licença para lu-
tar. A guerra moderna, no entanto, não segue as estratégias
do Antigo Testamento. Quando Yahweh ordenava a Israel
que se engajasse numa ação militar, ficava claro que Yahweh
era o guerreiro principal que triunfaria. Assim, a força mi-
litar era deliberadamente reduzida, de modo que qualquer
vitória seria milagrosa e louvaria a intervenção divina de
Yahweh. Se levássemos a sério o antigo modelo bíblico de
guerra, nossos exércitos modernos seriam drasticamente re-
duzido tem seu tamanho e poder de fogo e confiariam na
intervenção milagrosa de Deus para a vitória!
Além desta diferença fundamental, e mais importante,
Jesus introduziu uma nova norma, a Torá do amor. Como
revelação completa e definitiva de Deus, Jesus é a chave para
interpretar toda a Escritura. Ele é a autoridade suprema.
Como a palavra final na revelação progressiva de Deus, Jesus
oferece uma nova forma que transforma e vai além dos anti-
gos padrões de toma lá dá cá.
Um segundo desvio surgiu nos séculos XI a XIII, quando
as cruzadas cristãs, supostamente sob a bandeira da bênção
de Deus, mataram muçulmanos que haviam conquistado

268
0 REINO DE PONTA CABEÇA

á re a s s a n ta s c r is tã s n o O r i e n te M é d io . N e s s e t r i s t e e tr á g ic o
m o m e n to , os c r is tã o s se e n g a n a r a m e m a c r e d ita r q u e D e u s
e s ta v a ao s e u la d o , a b e n ç o a n d o o u s o d a v io lê n c ia . A te n t a -
ç ã o d e p e n s a r q u e D e u s a b e n ç o a e l u t a p o r n a ç õ e s p a r ti c u -
la re s , c o m o fez Y a h w e h n o a n t i g o Is ra e l, c o n t i n u a a té h o je .

O p o d e r s e d u to r d o n a c io n a lis m o p r o c u r a e n v o lv e r a b ê n -
ção d e D e u s e m to r n o d e d e s tin o s n a c io n a is q u e n a d a tê m a
v e r c o m a fé c ris tã . A lg u n s c ris tã o s a in d a p r o s titu e m o ev a n -
g e lh o ju s tif ic a n d o c ru z a d a s m ilita r e s so b a b a n d e ir a d a b ê n ç ã o
d e D e u s . P o r e x e m p lo , c a n ta n d o “D e u s a b e n ç o e a A m é r ic a ”
e n q u a n to m a r c h a m p a r a a g u e r r a , tr a n s f o r m a D e u s e m u m a
d e id a d e tr ib a l q u e fav o rece as n aç õ es d e e s tim a ç ã o . E s ta d is -
to rç ã o d o e v a n g e lh o im a g in a q u e D e u s so rri c a lo ro s a m e n te
p a r a os esfo rço s m ilita r e s d e a lg u n s p a íse s, m a s n ã o p a r a o u -
tro s. O u so d a p a la v ra d e D e u s p a r a ju s tif ic a r o m ilita r is m o
se e s te n d e p o r m u ito s sé c u lo s — d e s d e as c ru z a d a s sa g ra d a s a té
v ersõ es m o d e rn a s — c o m a firm a ç õ e s d e q u e D e u s “a b e n ç o a ” a
aç ão m ilita r . A s m o e d a s in s c rita s c o m “In God We Trust”(“E m
D e u s n ó s c o n fia m o s ”) são u m a z o m b a r ia q u a n d o u m a n aç ão
g a s ta b ilh õ e s d e d ó la re s e m defesa. O s a m e r ic a n o s , o b v ia m e n -
te , c o n fia m e m a rm a s , n ã o e m D e u s.

U m te rc e iro d e sv io , a id e ia d e u m a “g u e r r a ju s t a ”, s u r g iu
d o p e n s a m e n to c ris tã o n o te rc e iro sé c u lo , à m e d id a q u e a ig re -
ja se f u n d iu m a is n a so c ie d a d e ro m a n a e p r o c u r o u m a n e ir a s
d e ju s tif ic a r s u a defesa. E m b o r a b a s e a d a n a p r e m is s a d e q u e a
g u e r r a só d e v e ria se r u m ú l t im o re c u rso , a d o u t r i n a d a g u e r r a
ju s ta c o lo c o u u m a b ê n ç ã o d iv in a s o b re 0 u so d a v io lê n c ia p a r a
a a u to d e fe s a e a p ro te ç ã o d e v ítim a s in o c e n te s . A s d ire triz e s
d e g u e r r a a p e n a s e sp e c ific a v a mquando u m a g u e r r a e ra ju s tifi-
cáv el e re g ra s a d e q u a d a s p a r a como e la p o d e r ía s e r lu ta d a .
A o lo n g o d o s s é c u lo s , a a b o r d a g e m d a g u e r r a ju s t a p e r m i -
t i a q u e os líd e re s p o lític o s re c e b e s s e m u m a b ê n ç ã o d a ig r e ja
q u a n d o u s a v a m a v io lê n c ia . Isso ta m b é m t o r n o u a c e itá v e l

269
DONALD B.KRAYBILL

que os cristãos participassem em vários papéis nas operações


militares. Ironicamente, porém, os inimigos no mesmo con-
flito muitas vezes chamavam sua causa de “justa”, levando
ambos os lados a reivindicar a bênção de Deus. Um estu-
dioso cristão argumentou que, em vez de tentar justificar a
guerra, devemos desenvolver políticas e passos específicos
para o simples estabelecimento da paz19.
Um quarto desvio sugere que Jesus só nos chama a amar
inimigos pessoais. As palavras de Jesus, nesta visão, se apli-
cam apenas às relações interpessoais. Porque Deus institui
governos, somos obrigados a obedecer ao chamado da cons-
crição e defender o país. Devemos amar nossos inimigos pes-
soais, sim, mas não os nacionais. Fazer esta distinção estabe-
lece uma linha entre a moralidade pessoal e a obrigação de
cada um com o Estado. Essa visão eleva a lealdade nacional
acima da lealdade ao reino.
O texto cristão clássico que requer submissão ao governo
(Rm 13:1-7) é colocado entre dois apelos ardentes do após-
tolo Paulo para o sofrimento por amor. Além disso, há uma
grande diferença entre obedecer ao governo e submeter-se à
sua autoridade sem recorrer à violência quando discordamos.
Além disso, esta passagem soará muito diferente no contex-
to de um governo democrático versus um governo tirânico.
Muitas vezes, interpretando fora de contexto, usamos essa
passagem para colocar as lealdades nacionais acima dos valo-
res do reino, negando assim a fidelidade a Jesus e nos incli-
nando para deidades tribais.
Temos ainda um quinto desvio quando as igrejas afir-
mam o caminho da paz em declarações públicas, mas a veem
como um anexo ao evangelho. Em vez de ver o perdão e
suas implicações sociais como o núcleo da salvação, vemos
isso como algo marginal. A não violência é vista como um
mero acessório agradável quando funciona. Além disso, con­

270
0 REINO DE PONTA CABEÇA

sideramos a pacificação uma questão de “consciência indivi-


dual”, não um mandato do evangelho. Podemos levá-lo ou
deixá-lo. Da mesma forma, o serviço militar é uma questão
de consciência individual, concluímos. O que está em jogo
aqui é a nossa aliança final. A lealdade nacional muitas vezes
se eleva acima de nossa lealdade a Jesus.

P erguntas persistentes
Apesar do chamado claro de Jesus para a pacificação, mui-
tas questões espinhosas espreitam nossas mentes. A violência
pode ser usada para a autoproteção? Nunca é da vontade de
Deus que os cristãos usem a violência para promover a justiça?
Por exemplo, a violência pode ser usada para proteger vítimas
inocentes? Jesus não fala diretamente sobre a questão, mas
com base em seu ensino e ministério, sua provável resposta
não é nem fugir nem lutar, mas resistência não violenta. Suas
próprias ações sugerem isso. Ele não era um espectador pas-
sivo diante da opressão romana, mas tampouco liderou uma
revolta armada. Na verdade, é necessária mais coragem para
envolver-se em resistência não violenta do que para puxar um
gatilho ou pressionar um botão para lançar um míssil.
As questões de pacificação e violência em nosso mundo
agitam muitas questões éticas difíceis. Estou plenamente
convencido de que Jesus rejeitou o uso da violência para en-
frentar 0 mal, mas eu percebo que há muitas perguntas per-
sistentes. Em uma breve pesquisa, não posso explorar essas
questões em profundidade, mas quero observar algumas das
perguntas com as quais os cristãos de boa fé lutam quando
procuram praticar a maneira não violenta de Jesus em meio
a um mundo mal21.
Existe uma diferença entre usar força e violência letal? Os
governos usam a força para conter criminosos violentos. O

271
DONALD B.KRAYBILL

uso de força não letal é aceitável para conter o mal? É mo-


ralmente aceitável atirar para aleijar agressores beligerantes,
desde que nós não os matemos?
As ações policiais para manter a ordem dentro de uma
sociedade são diferentes do uso de meios militares para a
autodefesa nacional? Os cristãos podem participar de ações
policiais para manter a ordem civil?
Pode-se traçar uma linha moral entre atos privados de
agressão e o uso de força letal por unidades militares de go-
vernos legítimos? Existe uma diferença entre assassinato e
homicídio sancionado pelo Estado? Ou sempre que você
mata é assassinato?
Existe uma diferença ética entre o uso da violência para
a autoagressão, para a autodefesa, ou para a proteção de
vítimas inocentes? Os cristãos de boa fé podem usar força
violenta para defender pessoas inocentes contra tiranos que
possam matá-los? E aceitável atirar ferindo ou ameaçando
crianças pequenas em um pátio de escola? E um tiro em um
conflito internacional?
As instruções de Jesus sobre a pacificação aplicam-se ape-
nas a seus seguidores ou a outros também? Os cristãos deve-
riam esperar e exortar os governos a praticar a não violência?
Em outras palavras, a ética da não violência é aplicável às
relações internacionais?
Mesmo sabendo que a violência não é o caminho de Jesus,
em algum momento é necessário pecar conscientemente (en-
volver-se em violência) para proteger os outros e conter o mal?
Estas são perguntas difíceis sem respostas fáceis ou sim-
pies. Apesar de sua complexidade moral, o chamado de Je-
sus a amar o inimigo corta as questões com simplicidade e
clareza. Ficamos facilmente presos na armadilha de pensar
que a violência é a maneira mais eficaz de resolver proble­

272
0 REINO DE PONTA CABEÇA

mas. Jesus nos chama à fidelidade; a incorporar fielmente o


perdão amoroso de Deus. Muitas vezes esse amor pode, em
longo prazo, ser mais eficaz do que recorrer à violência. No
entanto, é difícil descartar a nossa crença de que a violência
é a resposta final para muitos problemas.

O mito da violência redentora


Vivemos em um mundo violento. À medida que a tecno-
logia avança, nossos meios de destruição crescem. O gran-
de século XX do “progresso” deixou cerca de 140 milhões
de mortos em dezenas de guerras - provavelmente mais
de noventa por cento das pessoas já mortas em guerras em
todos os tempos. Trilhões de dólares foram investidos em
armas de destruição em massa que poderíam ter destruído
sociedades inteiras, bem como toda a humanidade. O mal
está bem e vivo, mas não só “lá fora”; ele também está
nas profundezas dos nossos corações. Vez após vez, somos
tentados a pensar que a violência nos ajudará a consertar as
coisas e torná-las melhores.
O mito da violência redentora prospera sempre que as-
sumimos que a violência é a maneira mais eficaz de resolver
um problema. Por mais terrível que seja, somos tentados a
acreditar que a violência pode trazer coisas boas a uma cena
ruim. Na verdade, a violência assume um caráter virtuoso
sempre que esperamos que nos salve do mal. O mito da vio-
lência redentora preenche videogames, filmes e interpreta-
ções típicas da história nacional e mundial.
Se acreditarmos que a violência funciona, que ela redime
coisas ruins, então nós rapidamente nos voltamos para ela
quando enfrentamos uma luta. Quando queremos conser-
tar coisas que ficaram erradas, buscamos armas, bombas e
mísseis. Porém, infelizmente, quando tentamos redimir as

273
DONALD B. KRAYBILL

coisas por meios violentos, podemos realmente nos tornar o


mal que odiamos.
E difícil ouvir falar de amar os inimigos em um mun-
do carregado de armas de destruição em massa. As nações
superpotentes têm a capacidade de pulverizar umas as ou-
tras muitas vezes. Um único submarino tem a capacidade
de destruir cerca de 400 cidades separadas cada uma com
uma explosão cinco vezes mais forte do que a bomba usada
em Hiroshima. Arma após arma, sistema após sistema —
a capacidade de extermínio é alucinante. Os preparativos
para a guerra roubam dos pobres do mundo as necessidades
básicas, como alimentos, abrigo e saúde. Construir arsenais
de armas de destruição em massa é um desperdício imoral
de recursos quando um quarto da população mundial vive
na miséria.
Q uando acreditamos que a violência redime, a espiral
ascendente de violência nunca termina. As ameaças geram
m ais ameaças. Atos de violência desencadeiam mais vio-
lência. As guerras contra o terrorismo criam mais terror e
nascem mais terroristas. Em meio a guerras e atos de ter-
ror, o apelo do carpinteiro para amarmos nossos inimigos
de repente soa como um bom conselho. Não é mais razoável
aprender a viver com nossos inimigos e buscar soluções di-
plomáticas do que usar armas que não apenas destroem, mas
também alimentam o fogo do ódio? Os cristãos de todas as
nações devem insistir que a guerra em nome da paz é, na
verdade, a morte disfarçada. Imagine o impacto global se os
cristãos de todos os países estivessem dispostos a prometer
que nunca matariam outro ser humano.

274
0 REINO DE PONTA CABEÇA

U ma visão de S halom
Muitas vezes pensamos na paz como a ausência de conflito.
Shalom, a palavra hebraica para a paz, está intimamente ligada a
idéias de justiça, retidão, salvação e bem-estar. Sugere um senti-
do completo de bem-estar nas esferas pessoal, social, econômica
e política23. Não há paz quando os sistemas gananciosos opri-
mem os pobres. A paz desaparece quando os estigmatizados não
encontram justiça nos tribunais. A “paz” que repousa sobre um
precário equilíbrio de ogivas nucleares não é shalom. Um indivi-
dualismo, que se preocupa apenas com o número um também
destrói a harmonia da comunidade.
A igreja é chamada à não violência porque isso reflete
a própria natureza de Deus. Somos chamados a praticar a
não violência em todas as áreas da vida, não porque ela seja
sempre eficaz, mas porque testemunha o amor e o caráter
de Deus. Considere três de muitas abordagens não violen-
ta s que desprezam o mito da violência redentora e lutam
pelo shalom: mudança social não-violenta, testemunha não-
-violenta e justiça restaurativa. Estas iniciativas positivas
ilustram algumas formas possíveis de interromper o ciclo
mortal da violência.
Ao longo dos séculos, muitos cristãos e vários movi-
mentos testemunharam o poder da não violência diante do
conflito e da agressão. Alguns desses movimentos usaram
a resistência não violenta para exigir justiça social para os
pobres. Outros usaram táticas não violentas para parar cam-
panhas militares e derrubar ditadores militares. Estudiosos
e historiadores descreveram literalmente centenas de exem-
pios de intervenções não violentas eficazes em diversas de
lutas em muitos países24
As estratégias não violentas, por exemplo, impulsiona-
ram o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos,

275
DONALD B. KRAYBILL

desmantelaram a tirania racial na África do Sul e coopera-


ram para o colapso repentino dos ditadores na Europa orien-
tal comunista. A mudança social em todas essas áreas teria
sido muito mais sangrenta sem as intervenções não violentas
de milhares de pessoas.
Aplicações práticas da não violência variam de programas
de prevenção do bullying em escolas primárias a programas
internacionais de consolidação da paz - para prevenir inti-
midações maiores. Os programas de mediação e transforma-
ção de conflitos buscam resolver hostilidades de formas não
violentas em disputas familiares, brigas nas igrejas, confli-
tos corporativos e enfrentamentos internacionais. Christian
Peacemaker Teams (“Equipes de pacificadores cristãos”), um
programa ecumênico baseado na igreja, envia voluntários
para focos de conflito internacionais, onde eles intervém em
confrontos violentos. Arriscando suas vidas, esses voluntá-
rios testemunham o amor de um Deus sem inimigos. Eles
transpõem linhas inimigas e incorporam tal amor mesmo
em meio ao ódio. Seu confiável testemunho afirma que os
pacificadores cristãos devem estar dispostos a morrer pelo
reino pacífico como soldados morrem por seu país25.
O movimento de justiça restaurativa oferece uma abor-
dagem de shalom dentro do sistema de justiça criminal. A
vingança e a retaliação muitas vezes florescem quando os
criminosos são punidos. Muitas vezes, a “justiça” parece
mais uma vingança do que uma verdadeira justiça. O pa-
drão “prenda-os e jogue a chave fora”, em uma abordagem
de justiça retributiva ressalta leis infringidas, propriedade
danificada, culpa, punição e vingança.
Em contraste, a justiça restaurativa enfatiza a reconstru-
ção de relacionamentos, reconciliação e reparações. Além
disso, os infratores muitas vezes têm de enfrentar suas ví-
timas e reconhecer o prejuízo que causaram. Diversos pro-

276
0 REINO DE PONTA CABEÇA

gramas de reconciliação de criminosos e vítimas que fazem


parte deste movimento colocam vítimas e criminosos juntos
para a prestação de contas cara a cara. A justiça restaurativa é
apenas um exemplo de uma iniciativa de pacificação dentro
e junto do sistema de justiça penal em vários países26.
A shalom surge quando as relações certas florescem entre
as pessoas em todos os âmbitos da vida. As Escrituras nos
dizem que a paz é dom de Deus. Através de Jesus Cristo te-
mos paz com Deus e com nossos vizinhos. Shalom é o projeto
de Deus para a ordem criada. Deus é um Deus de paz. Jesus
é o Príncipe da paz. O Espírito Santo é o Espírito de paz. O
reino de Deus está alicerçado em justiça, paz e alegria. Os
filhos de Deus são pacificadores. O evangelho é a boa notícia
da paz. Shalom é o centro, não apenas uma composição, da
salvação de Deus.

277
CAPÍTUL010

DE FORA
MESMO
DENTRO
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

V oando com aves semelhantes


capítulo nove explorou o ensinamento de Jesus sobre
o amor ágape. Agora, consideraremos como o ágape
se traduz em interação social. Que tipo de pessoas se jun-
tam ao reino de Deus? Um sábio observou certa vez que
“pássaros de mesma plumagem voam juntos”. As pessoas de
mentalidade semelhante se juntam. Nós gostamos daqueles
com quem compartilhamos coisas em comum. Sentimo-nos
estranhos em novos cenários com pessoas de lugares estra-
nhos. Nós gostamos daqueles que pensam como nós e co-
meçamos a pensar como as pessoas que respeitamos. Porém,
não são os opostos que se atraem? Talvez , emocionalmente
falando,eles se atraiam, mas quando se trata daquilo em que
acreditamos, os opostos se repelem e pássaros de mesma plu-
magem voam juntos.
Muitos fatores sociais unem os seres humanos- renda,
educação, ocupação, raça, religião, política, estilo de vida,

281
DONALD B. KRAYB1U

família, etnia e herança nacional. Nós migramos em direção


a pessoas semelhantes a nós e nos sentimos mais à vontade
com elas. É mais fácil falar com pessoas em ocupações seme-
lhantes. Somos atraídos por aqueles cujas opiniões sociais
espelham as nossas. Buscamos amigos que reforcem nossas
idéias. Sem critérios objetivos para confirmar a verdade de
nossas crenças, encontramos segurança e apoio entre amigos
com a mesma opinião. Idéias diferentes podem ameaçar nos-
sas crenças e nos forçar a repensar nossas convicções. Pode-
mos até precisar mudar!
O princípio dos “pássaros de mesma plumagem” não se
aplica apenas às relações pessoais, mas também forma intera-
ções de grupo. Pessoas com formação e empregos semelhan-
tes, muitas vezes, vivem na mesma área. Se soubermos que
uma pessoa vive na “parte alta da cidade”, no “centro” ou na
“baixada”, podemos, muitas vezes, prever sua raça, renda e
prestígio social. Podemos arriscar estimativas seguras sobre
estilos de vida, opiniões políticas e níveis educacionais de
pessoas que residem em bairros específicos. Congregações e
igrejas muitas vezes atraem pessoas semelhantes também.
Há, é claro, exceções.
Porém, as exceções não anulam o fato de que na maioria
dos lugares, na maioria das vezes, a maioria das pessoas voa
com pássaros de mesma plumagem.

J ogo de damas social


As comunidades humanas traçam linhas. Elas criam li-
mites que separam o bem do mal, limpo do sujo, estigma
do respeito, os de dentro daqueles de fora. Um tabuleiro
de damas nos ajuda a visualizar as linhas que organizam a
interação social. Cada quadrado no tabuleiro representa ti-
pos diferentes de pessoas. As cores dos quadrados definem

282
0 REINO DE PONTA CABEÇA

caixinhas, padrões de interação social. Grupos, bem como


i ndivíduos, ocupam uma cor no tabuleiro. Nós jogamos,
patinamos, jantamos, viajamos, e nadamos com pessoas de
nosso próprio quadrado ou de quadrados da mesma cor do
nosso. E raro relacionar-se intimamente com alguém de um
q uadrado do outra cor. Tratamos os membros do ,‘nosso
quadrado” como amigos e vizinhos. Convidamos pessoas de
quadrados similares para nossa casa. Esses hábitos familiares
eliminam preocupações sobre lidar com pessoas estranhas de
quadrados distantes. Os agrupamentos humanos dentro dos
quadrados sociais ordenam a vida e a tornam previsível.
A maioria das pessoas ocupa várias caixinhas da mesma
cor. Sou pai, marido, professor, vizinho e escritor. Algumas
de nossas caixinhas - raça, gênero e país de origem - her-
damos sem escolha. Geralmente temos mais o que dizer so-
bre nossa ocupação, religião, política e educação. Cada caixa
inclui certos direitos, privilégios e obrigações. A definição
social de uma caixa determina, em grande medida, como
nos percebemos e como esperamos que os outros nos tratem.
Os rótulos de cada caixa dizem a todos como se relacionar
com quem está naquela caixa. Pegue um uniforme da polí-
cia, por exemplo. Ele lembra aos oficiais para se comporta-
rem adequadamente quando em serviço. Porém, os policiais
também esperam que os cidadãos mostrem respeito quando
estão usando um distintivo. Os rótulos das caixas sociais
moldam nossos padrões de interação social para o bem ou
para o mal.
Nós carregamos tabuleiros de damas sociais em nossas
mentes. À medida que encontramos pessoas, as classifica-
m os em caixas sociais. Na falta informações detalhadas,
simplesmente as jogamos em caixas com base em sua apa-
rência externa. Elas são brancos, orientais, desarrumadas,
formais, uma enfermeira, ou um motorista de caminhão.

283
DONALD B. KRAYBILL

Outros fragmentos de informação nos permitem rotulá-los:


fundamentalistas, budista, carismático, pacifista, agricultor,
viciado em drogas ou gay.
Além de rotular as pessoas, generalizamos sobre todos
em uma caixinha específica. Em outras palavras, nós este-
reotipamos. Assumimos que uma pessoa em particular se
comporta de acordo com nossa visão de todos naquela caixa.
Assumimos que os carismáticos tentam fazer com que as
pessoas falem em línguas. Os liberais teológicos, é claro, não
acreditam no nascimento virginal. Os porto-riquenhos são
preguiçosos. Os asiáticos são inteligentes. Os fundamenta-
listas não se importam com a justiça social. Os republicanos
são fiscalmente conservadores. Os democratas pegam mais
leve na defesa nacional. Judeus são severos. Pessoas ricas são
indiferentes e insensíveis. Os vendedores são ardilosos. As
mulheres são emocionais. Os adolescentes são irresponsáveis.
Os pais são rígidos. Vez após vez colocamos estereótipos.
Jogo de damas social é perigoso e mortal. Nós facilmente
colocamos as pessoas na caixa errada. Nossos rótulos, muitas
vezes, vêm do mito, em vez do fato. Mesmo que um estere-
ótipo seja parcialmente verdadeiro, ele pode não se encaixar
em uma determinada pessoa. Classificar as pessoas assim,
não só prejudica os outros, como restringe o nosso compor-
tamento. Relacionamo-nos com os outros por rótulos em vez
de conhecê-los como pessoas reais. Nós podemos evitar cer-
tas pessoas porque seus rótulos dizem o surdo, o ex-presidiá-
rio, o democrata, o deficiente, a prostituta, o rico, o homos-
sexual, ou o branco. Colocar as pessoas em caixinhas não é
inteiramente prejudicial, no entanto. Isso ajuda a estabilizar
a vida social, tornando-a ordenada e previsível.
Jesus joga um novo jogo de damas social. Ele é 0 mo-
delo de formas criativas de entrar nas caixinhas. Ele cruza
as linhas. Ele caminha sobre fronteiras e lida com pessoas

284
0 REINO DE PONTA CABEÇA

reais. Ele passa através de barricadas sociais. Andando pelo


tabuleiro de damas do seu tempo, Ele desconsidera os sinais
de “Ν λο ultrapasse” e “Entrada proibida” pendurados no
pescoço de muitos.
Jesus ignora as normas sociais que explicam quem, quan-
do e onde deve ocorrer a interação social. Na verdade, quan-
do os herodianos e fariseus tentam pegá-lo com uma per-
gunta sobre a questão dos impostos, eles antecedem a sua
pergunta complicada com alguma lisonja: “Mestre, sabemos
que és íntegro e que não te deixas influenciar por ninguém,
porque não te prendes à aparência dos homens, mas ensinas o
caminho de Deus conforme a verdade”... (Mc 12:14; ênfase
adicionada). Em outras palavras, Jesus ignorava as caixinhas
sociais. Ele ignorou os rótulos culturais e invadiu os quadra-
dos sociais.

L inhagem de raça pura


Nas sociedades modernas, a identidade pessoal é larga-
mente moldada pela realização individual e pelas escolhas.
Ocupações, estilos de vida e passatempos refletem e definem
a identidade individual. Na sociedade antiga, a identida-
de pessoal estava completamente ligadaà tribo, à fa m ília
e ao grupo. O individualismo, como é conhecido no mun-
do moderno, simplesmente não existia. A tribo, o povo de
alguém era tudo o que importava. Por exemplo, todos os
membros da família de um ladrão poderíam esperar vingança
da comunidade, não apenas o ladrão. A identidade de grupo
ofuscava completamente a identidade pessoal. Além disso,
alguns grupos eram puros e outros, de acordo com padrões
religiosos, eram sujos.
Uma das caixinhas que Jesus quebrou foi pureza étnica.
A pureza racial era crucial na cultura palestina1. As pessoas

285
DONALD B. KRAYBILL

tomavam o cuidado de não contaminar as linhagens familia-


res casando-se com uma pessoa com sangue ruim. As linha-
gens puras não eram apenas um passatempo genealógico.
Elas determinavam os direitos civis na cultura hebraica. Era
necessário ser de uma raça limpa para participar da corte e
ter um escritório público. Em suma, uma árvore genealógica
pura era um bilhete para o poder e a influência.
Os de linhagens puras —levitas, sacerdotes e outros que
podiam provar sua linhagem pura —viviam no topo do ta-
buleiro de dama. Em uma caixinha abaixo estavam os judeus
ligeiramente manchados, muitas vezes descendentes ilegí-
timos de sacerdotes e prosélitos. Muito mais baixos eram
aqueles gravemente manchados —os bastardos, eunucos e
pessoas sem pais conhecidos. Os escravos gentios eram exi-
lados para uma caixa sozinhos. Embora circuncidados, eles
não faziam parte da comunidade judaica. Jogados na pior
caixa —fora do tabuleiro de damas —estavam os samaritanos.
Essas rígidas classificações sociais formavam a interação diá-
ria na antiga Palestina.

Q uebrando as caixinhas dos gentios


Sobre as caixas menores havia duas grandes caixas—ju-
deus e gentios. Os judeus tratavam os gentios com 0 mes-
mo desprezo e a mesma animosidade que os samaritanos. Os
gentios eram os impuros de fora. Eram pagãos que conta-
minavam a pureza do ritual cerimonial. Os judeus evitavam
os gentios, a quem eles chamavam de “cães selvagens”. Eles
tiveram cuidado de não deixar que os gentios os manchas-
sem na vida cotidiana. As Primeiras Escrituras Hebraicas
imaginam a bênção de Abraão tocando todas as nações. Nas
primeiras páginas dos livros de Moisés, os gentios recebem
a bênção divina. No tempo de Jesus, porém, essa visão já

286
0 REINO DE PONTA CABEÇA

tinha desaparecido. Para a maioria dos judeus, os gentios


eram cães pagãos que poluíam a pureza racial.
Deixamos um enigma pendente no capítulo cinco, quan-
d o Jesus anunciou seu reino na sinagoga. Lucas relata que,
após o discurso inaugural de Jesus, “Todos os que estavam
na sinagoga ficaram furiosos quando ouviram isso. 29Levan-
taram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o topo da
colina sobre a qual fora construída a cidade, a fim de atirá-lo
precipício abaixo. 30Mas Jesus passou por entre eles e retirou-
-se.”(Lc 4:28-29). Por que a multidão explodiu com raiva?
Lembrando a eles que profetas não são bem-vindos em seu
próprio país, Jesus contou duas histórias. Havia muitas viú-
vas em Israel nos dias de Elias, disse ele. Porém no tempo de
fome, Elias não visitou uma viúva de pura linhagem judaica.
Ele foi a uma viúva gentia na terra de Sidon para ajudar. A
segunda história tem a mesma linha de abertura e confronto.
Havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, o pro-
feta. Porém foi Naamã, um gentio sírio, que foi purificado.
A mensagem atravessou o orgulho judeu. Ela agitou
Israel porque não dava a ninguém um direito especial de
cura. Ter uma linhagem pura não oferece vantagens no rei-
no de Deus. A notícia do Jubileu é uma boa notícia para
todos. Em dois rápidos golpes, Jesus cortou a etnia da mui-
tidão. Ele acabou com seu orgulho tribal. Ele demoliu a
identidade nacional.
A visão original do Jubileu aplicava-se apenas aos He-
breus. Os escravos e as dívidas dos gentios não eram libe-
rados no sétimo ano. Os hebreus podiam cobrar juros sobre
empréstimos aos gentios. Os judeus esperavam que a vin-
gança de Deus caísse sobre os gentios. Agora, em uma fração
de segundo, Jesus coloca a comunidade gentia em equidade
com Israel2.

287
DONALD B.KRAYB1L1

Os cartões exclusivos para membros, no fim das contas,


são impensáveis no reino de ponta-cabeça. O ano favorável
de Deus, o dia da salvação, aplica-se a todos. Jesus faz em
pedacinhos o patriotismo da audiência da sinagoga. Suas
palavras alfinetam. Elas esmagam o orgulho étnico. Indig-
nada, a multidão tenta empurrá-lo para o precipício até a
sua morte3.
As implicações são claras. O novo reino se estende além
da nação judaica. Novamente no Evangelho de Marcos, Je-
sus inclui gentios impuros no reino. Escritos entre Marcos
6:30 e 8:30,estão os sinais simbólicos da inclusão dos gen-
tios no reino4. A sequência começa com Jesus alimentando
os cinco mil. Mais tarde naquela noite, ele caminha sobre as
águas e anuncia: “Sou eu”. O Messias está aqui. O feito de
caminhar sobre a água surpreende os discípulos, mas eles
não têm o significado espiritual do pão e do piquenique.
Em seguida, os fariseus discutem com Jesus por se recu-
sar a lavar antes de comer. Então Jesus entra no território
dos gentios. Uma viúva insiste com ele quando Ele se recusa
a curar seu filho. Em sua resposta, ela o chama de Senhor.
Surpreendido por ela reconhecer seu senhorio, Ele expulsa o
demônio de seu filho.
Agora começa uma nova sequência. Jesus vai para uma
região gentia no lado leste do Mar da Galileia e cura um sur-
do mudo. Alimenta outros 4.000, outra controvérsia com os
fariseus sobre um sinal, e outra discussão com os discípulos
sobre o pão acontecem. Jesus pergunta a seus discípulos se
eles entendem o significado dos números. O cego recebe vi-
são depois de dois toques de Jesus. Isto é seguido pela clecla-
ração de Pedro: Jesus é 0 Cristo!
Os incidentes nesses capítulos vêm em dois. Duas mui-
tiplicações de pães. Dois lados do lago. Duas travessias com

288
0 REIND DE POHTA WBEÇA

p a s s e io s d e b a rc o . D u a s d is c u s s õ e s s o b re o p ã o . D u a s c o n -
tr o v é r s ia s c o m os fa ris e u s . D u a s c u ra s . D o is to q u e s . D o is
c o n ju n to s d e n ú m e r o s c o m as d u a s m u ltip lic a ç õ e s . O q u e os
n ú m e r o s s ig n ific a m ?

A p r i m e i r a m u ltip lic a ç ã o q u e a l i m e n t o u c in c o m i l e n -
v o lv e c in c o p ã e s. D o z e c e s ta s s o b r a r a m . E s tá n o la d o o c id e n -
ta l d o la g o — o la d o ju d e u . H á c in c o liv ro s d e M o is é s e d o z e
tr ib o s d e Is ra e l. E s ta é a m u ltip lic a ç ã o ju d a ic a . O p ã o d iá r io
é p a r ti d o p a r a os c in c o m il f a m in to s . N o e n t a n t o , 0 s ig n i-
fic a d o d o p ã o é p r o f u n d o . E sse é u m p ã o p r o f é tic o . A p r ó -
p r i a v id a d o M e ssia s e s tá p r e s te s a s e r p a r t i d a p e la v id a d e
s e u p r ó p r io p o v o ju d e u . D e p o is d e s ta m u ltip lic a ç ã o , J e s u s
a n u n c ia n a á g u a : “S o u e u ” (M c 6 :5 0 ) . A m e s m a d e c la ra ç ã o
a p a re c e e m Ê x o d o 3 :1 4 q u a n d o D e u s d e c la ra : “E U S O U O
Q U E E U S O U ” . D e a c o rd o c o m M a rc o s , J e s u s e s tá d iz e n d o
ao s d is c íp u lo s q u e o D e u s T o d o -P o d e r o s o e s tá n o m e io d e le s .
O M e s s ia s e s tá e n tr e e le s a q u i e a g o ra ! Se tiv e s s e m c o m p r e -
e n d id o a m u ltip lic a ç ã o e a lim e n ta ç ã o s im b ó lic a , o M e ssia s
n ã o os te r ia c h o c a d o . P o r é m e le s n ã o e n t e n d e r a m o s s in a is .

M ais S inais e S urpresas


O p r ó x im o e p is ó d io e n c o n tr a os fa ris e u s d i s c u t i n d o c o m
J e s u s s o b re s u a i m p r ó p r i a lim p e z a c e r im o n ia l. E le s r e je ita m
e s te p r o f e ta q u e z o m b a d o s se u s r ito s e r itu a is . A s s im , J e s u s
s e g u e p a r a 0 c a m p o d o s g e n tio s n a te r r a d e T ir o e S id o m
(M c 7 : 2 4 - 3 0 , M t 1 5 :2 1 - 2 8 ) . E le t e n t a e s c a p a r d o s o lh o s d o
p ú b l i c o , m a s u m a m u l h e r c o ra jo s a i m p lo r a q u e e le e x p u ls e
o d e m ô n io d e s u a filh a . E la im p lo r a p a r a q u e J e s u s c u r e su a
filh a . E le p a r a e se a fa sta . E la p e r s is te .

F in a lm e n te , J e s u s d e f e n d e s u a h e s ita ç ã o c o m u m p ro v é r-
b io ju d e u : “ n ã o é c o r r e to t i r a r o p ã o d o s filh o s e la n ç á -lo aos
c a c h o r r in h o s ”, s ig n if ic a n d o os g e n tio s . J e s u s d iz a e la q u e

289
DONALB B. KRAYBILL

é imprudente compartilhar o Messias judeu com gentios.


Porém ela corajosamente usa seu próprio provérbio para ar-
gumentar: “Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos, debaixo
da mesa, comem das migalhas das crianças” (Mc 7:28). Ela
reconhece Sua autoridade e Jesus cura sua filha.
O momento invertido, mais uma vez cheio de ironia e pa-
radoxo, acontece. A mulher gentia, dentre todas as pessoas,
recebe cura para sua filha. Na multiplicação e alimentação
dos cinco mil, Jesus anunciou simbolicamente sua missão
messiânica. Porém tanto os discípulos como os fariseus esta-
vam cegos e surdos à boa nova. No entanto, aqui no campo
dos gentios uma mulher pagã O chama de Messias. Ela vê
e ouve!
Então Jesus vai para o leste até a Decápole, um círculo de
dez cidades gentias. Ali ele cura um surdo mudo, outro sinal
de que os gentios ouvem. Este milagre conduz à segunda
multiplicação e alimentação.
A nova multiplicação envolve um novo conjunto de nú-
meros - sete pães, sete cestos de sobras e quatro mil pessoas.
E apenas mais uma multiplicação? Em contraste com o pri-
meiro, este banquete está no lado oriental do lago —o lado
gentio. Sete é o símbolo bíblico de totalidade, completude e
perfeição. Sete completa o ciclo do Jubileu. Quatro representa
os quatro cantos da terra. Significa o tempo em que pessoas
de leste a oeste, de norte a sul virão comer do banquete de sal-
vação. Na segunda multiplicação, o pão messiânico é partido
para toda a humanidade. Esta refeição messiânica completa e
perfeita inclui os gentios e todos os outros povos.
A ironia se apresenta novamente. Depois da multiplica-
ção, os fariseus vêm a Jesus pedindo um sinal, um símbolo.
Em meio a todos esses símbolos, eles não veem, nem ouvem!
Depois de partir o pão judeu para os cinco mil, os fariseus

290
0 REINO DE PONTA CABEÇA

incomodam Jesus para se lavar antes de comer. Agora, de-


pois de alimentar os gentios, eles vêm pedir um sinal! Os
discípulos estão no mesmo barco. Assim como os fariseus,
eles também estão surdos e cegos ao significado simbólico
dos números (Mc 8:17-21).
Jesus tenta novamente quando um cego clama por cura.
Jesus o toca e pergunta: “Você está vendo alguma coisa?” O
homem responde: “Vejo pessoas; elas parecem árvores an-
dando” (Mc 8:24). Jesus o toca de novo. Agora ele vê tudo
claramente. Dois toques: um produz uma visão desfocada;
outra visão perfeita. Os fariseus e os discípulos tinham olhos
enevoados e os ouvidos tapados. Eles não estavam ouvindo e
nem vendo o anúncio messiânico.
Ironicamente, as coisas estavam perfeitamente claras para
a mulher gentia, mesmo antes da segunda multiplicação. De
repente, agora, até Pedro começa a ouvir e a ver. Os números
começam a fazer sentido, o nevoeiro desaparece. “Tu...” ele
gagueja de espanto. “Tu és o Messias!” (Mc 8:29).
No rico simbolismo dessas passagens, Marcos nos aponta
para a forma como Jesus acolhe os gentios. Partes da mensa-
gem surgem das próprias palavras de Jesus e partes fluem do
trabalho editorial de Marcos. Porém a mensagem é simples.
Jesus quebrou as caixas sociais. Judeus e gentios marcham
lado a lado para o novo reino.
Em outro exemplo, um centurião —comandante roma-
no de 100 homens - pede a Jesus para curar seu servo (Mt
8:5-13, Lc 7:1-10). O centurião não fala diretamente com
Jesus no relato de Lucas, mas ele deixa claro que acredita
que Jesus pode curar seu auxiliar de longe. A fé do coman-
dante impressiona a Jesus. Sem ir à casa do homem, Jesus
cura o subordinado e exclama, “Digo a vocês a verdade: Não
encontrei em Israel ninguém com tamanha fé” (Mt. 8:10).

291
DONALD B.KRAYBILl

Um oficial do exército gentio demonstra maior fé do que


os líderes religiosos de Israel. Isso é algo realmente de pon-
ta-cabeça! Ao final do incidente, Mateus relata as seguintes
palavras de Jesus: Eu digo que muitos virão do oriente e
do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó
no Reino dos céus. Mas os súditos do Reino serão lançados
para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de den-
tes”(Mt 8:11-12). No reino de ponta-cabeça, os gentios vêm
dos quatro cantos da terra, enquanto alguns filhos e filhas de
Abraão são proibidos do banquete.
Jesus se encontra com outro gentio, o endemoninhado
que quebrava correntes. Ele perambulava pela terra de Ge-
rase no território gentio, a leste do Mar da Galileia. Marcos
diz que o endemoninhado adorou Jesus e o chamou de “Fi-
Iho do Deus Altíssimo”. Depois que Jesus expulsa os de-
mônios, ele diz ao homem: “Vá para casa, para a sua família
e anuncie-lhes quanto o Senhor fez por você e como teve
misericórdia de você (Mc 5:19). Isso contrasta com as curas
judaicas, onde Jesus adverte os curados para que se calem e
não digam a ninguém!
Vemos, então, Jesus interagindo com três gentios: a mu-
lher siro-fenícia, o centurião romano e o endemoninhado
geraseno. Não eram apenas gentios; gênero, política e do-
ença os estigmatizavam. Ouvimos dois deles, a mulher e o
endemoninhado, confessando Jesus como o Messias. O cen-
turião recebe 0 prêmio de “Grande Fé”, e Jesus fala para que
o endemoninhado espalhe as boas novas. O movimento de
ponta-cabeça está crescendo. O reino está entrando no meio
dos gentios!
A visão dos gentios transparece através dos Evangelhos
em outros lugares também. Jesus envia setenta missionários,
um número que simboliza a totalidade e completude de sua
missão (Lc 10:1). Ele instrui os discípulos a serem luz e sal,

292
0 REINO DE PONTA CABEÇA

não apenas dentro do judaísmo, mas em todo o mundo (Mt


5: 13-14). Ele persegue os cambistas do pátio externo do
templo para que possa ser uma casa de oração para todas as
nações (Mc 11:17). A jornada terrestre de Jesus começa e
termina na “Galileia dos Gentios”, onde os seus discípulos
recebem um mandato final para ir e fazer discípulos de todas
as nações (Mt28:19)·
Outros também testemunham a visão multiétnica do rei-
no. Mateus vê o ministério de Jesus cumprindo as palavras
de Isaías: “porei sobre ele o meu Espírito, e anunciará aos
gentios o juízo... E no seu nome os gentios esperarão”(Mt.
12:18, 21 ARA)5. Simeão devoto, vendo 0 bebê no templo,
diz que esta salvação foi “que preparaste à vista de todos os
povos: luz para revelação aos gentios” (Lc 2:31-32; ênfase
adicionada). João Batista preparou o caminho no deserto
para que “E toda a humanidade verá a salvação de Deus” (Lc
3:6; ênfase adicionada).
Não pode haver nenhuma dúvida. O novo reino trans-
cende as caixinhas hebraicas. Isto está claro nos Atos dos
apóstolos também. O conceito de justificação de Paulo en-
volve a reconciliação social de judeus e gentios na comu-
nidade de fé6. As barricadas sociais entre judeus e gentios
desmoronam na presença de Jesus, o Messias, e continuam a
rachar na igreja primitiva.

Q uebrando as caixinhas dos samaritanos


Já observamos a barreira entre judeus e samaritanos. Je-
sus quebra esta parede étnica também. Atingindo o orgulho
judeu na história do Bom Samaritano, Jesus destaca um sa-
maritano, não um judeu, como o exemplo supremo do amor
ágape. Isso era terrível porque os samaritanos eram, por
definição social, “maus”. Outro samaritano, a quem Jesus

293
DONALD B. KRAVBILL

chamou de estrangeiro, foi 0 único de dez leprosos a retornar


e agradecer por uma cura. Este mestiço grato foi o único
destinatário da bênção de Jesus (Lc 17:16-19).
O último lugar onde um rabino judeu queria ser en-
contrado era em uma aldeia samaritana. Porém, a cami-
nho de Jerusalém, Jesus, o rabino de ponta-cabeça, en-
trou no território samaritano. Com ousada irreverência
com relação às caixas sociais, ele iniciou uma conversa
com uma mulher samaritana desprezível (Jo 4:7). Em um
incidente relacionado, alguns samaritanos inflamaram os
discípulos negando a eles e a Jesus um alojamento. Os
samaritanos conscientes das caixas não podiam perm itir
que um judeu estivesse no seu quintal, especialmente não
um a caminho do templo rival em Jerusalém. Então eles o
expulsaram. Não se perturbando, Jesus se recusa a obede-
cer, quando alguns de seus discípulos, “os Filhos do Tro-
vão”, que pediram-lhe para incendiar a aldeia samaritana
com fogo do céu (Lc 9:55).
O registro é claro. Jesus não se desvia dos samaritanos
apenas por causa de seus rótulos. Ele ousadamente anda em
seu território. Ele interage com eles. Ele os ama.

R ecebendo as M ulheres
E difícil compreender o triste estado das mulheres na
cultura hebraica. Elas estavam escondidas no fundo com os
escravos e as crianças. As caixas masculinas e femininas eram
diferentes como o dia e a noite7. Uma das seis principais
divisões da Mishná é inteiramente dedicada às regras sobre
as mulheres. Nenhuma das divisões, é claro, trata exclusiva-
mente de homens. A seção da Mishná sobre a impureza tem
setenta e nove parágrafos legais sobre a contaminação ritual
causada pela menstruação!

294
0 REINO DE POHTA CABEÇA

As mulheres eram excluídas da vida pública. O lugar de-


las era em casa. Ao andarem fora de casa, elas se cobriam
com dois véus para ocultar sua identidade. Um sumo sacer-
dote em Jerusalém nem mesmo reconheceu sua própria mãe
quando a acusou de adultério. As mulheres mais rígidas se
cobriram em casa para que nem mesmo as vigas vissem um
cabelo de sua cabeça! Mesmo em locais públicos, elas per-
maneciam invisíveis. O costume social proibia os homens
de ficarem sozinhos com mulheres fora de casa. Os homens
não se atreviam a olhar para as mulheres casadas nem mes-
mo a cumprimentá-las na rua. Uma mulher era passível de
divórcio por simplesmente conversar com um homem em
público. A vida pública pertencia aos homens.
As jovens ficavam noivas em torno dos doze anos de ida-
de e casavam um ano depois. Um pai podería vender sua
filha como escrava ou forçá-la a se casar com qualquer um
de sua escolha antes dos doze anos. Depois desta idade, ela
não podería se casar contra sua vontade. O pai da noiva nor-
malmente recebia um considerável dote em dinheiro de seu
novo genro. Por causa disto, as filhas eram consideradas uma
fonte de trabalho barato e de lucro.
Na casa, a mulher estava confinada a tarefas domésticas.
Ela era praticamente uma escrava do marido, lavando o ros-
to, as mãos e os pés dele. Considerada o mesmo que um
escravo gentio, uma esposa era obrigada a obedecer a seu
marido como faria um mestre. Sob uma ameaça de morte, a
vida do marido deveria ser salva primeiro. Sob a lei judaica,
apenas o marido tinha o direito de se divorciar.
A função mais importante da mulher era ter bebês do
sexo masculino. Seu ventre era o jardim temporário onde
o marido plantava a semente dele. A ausência de filhos era
considerada punição divina. Havia alegria na casa no nas-
cimento de um menino e lamento no nascimento de uma

295
DONALD B. KRAYBILL

menina. Uma oração diária repetida pelos homens entoa-


va: “Bendito seja Deus que não me fez mulher”8. Uma mu-
lher estava sujeita a muitos tabus na Torá. As meninas não
podiam estudar a Sagrada Lei - a Torá. As mulheres não
podiam se aproximar do Santo dos Santos no templo. No
pátio do templo, não podiam entrar na Corte dos israelitas
—o domínio exclusivo dos homens. Durante sua purificação
mensal da menstruação, elas eram excluídas até mesmo do
Átrio das Mulheres no pátio do templo.
As mulheres eram proibidas de ensinar. Elas não podiam
dar graças depois de uma refeição. Elas eram impedidas
como testemunhas no tribunal porque elas eram geralmen-
te consideradas mentirosas. Mesmo a estrutura linguística
refletia o baixo status das mulheres. Os adjetivos hebraicos
para “piedoso”, “justo” e “santo” não têm uma forma femi-
nina nas Escrituras Hebraicas.
Nesse contexto, Jesus, conscientemente, contraria o costu-
me social quando permite que as mulheres o sigam em públi-
co9. Sua interação com as mulheres mostra que ele as vê como
iguais aos homens diante de Deus. Em uma sublevação des-
lumbrante e ultrajante, Ele declara que as meretrizes podem
entrar no reino de Deus antes dos líderes religiosos (Mt 21:31).
A proeminência das mulheres nos Evangelhos, bem como a in-
teração de Jesus com elas, mostra sua irreverência para caixas de
gêneros. Sem hesitação, Ele viola as normas sociais para elevar
as mulheres a uma nova dignidade e um status superior.
Considere alguns exemplos da atitude de Jesus de pon-
ta-cabeça em relação às mulheres. O mais impressionante é
a sua conversa com a mulher samaritana no poço de Jacó (Jo
4:1-42). Samaria estava prensada entre duas áreas judaicas:
Galileia ao norte e Judéia ao sul. Os judeus que andavam
entre essas áreas muitas vezes desviavam de Samaria para
evitar o ataque.

296
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Neste contexto, Jesus pega 0 atalho e passa por Samaria.


Ele espera so2inho, perto de um poço, enquanto os discípu-
los compram comida em uma vila próxima. Uma pessoa se
aproxima com três estigmas pendurados ao pescoço: mulher,
samaritana e namoradeira. Jesus pede que ela lhe dê de be-
ber. Em uma fração de segundo Ele quebra todas as regras
destinadas a evitar esse comportamento. Jesus não está me-
ramente sendo educado. Seu simples pedido atravessa seis
normas sociais.
Em primeiro lugar, Jesus viola as regras de território. Ele
não tinha nada que estar ali. Samaria está fora da caixa judai-
ca. Jesus entrou em território inimigo controlado por uma
religião rival.
Em segundo lugar, ela é uma mulher. Os homens não de-
viam sequer para olhar para as mulheres em público, muito
menos falar com elas. Os rabinos diziam: “Um homem não
deve conversar com uma mulher na rua, nem mesmo com sua
própria esposa, e menos ainda com qualquer outra mulher,
para que os homens não façam fofocas”10. Ela pode ser mulher,
mesmo assim Jesus se dirige a ela. Isso o torna vulnerável.
Qualquer pessoa que se aproximasse do poço e vendo a con-
versa podería arruinar Sua reputação. Ele não se importa. Ele
se importa mais com a pessoa do que com Sua reputação.
Terceiro, esta não é apenas mais uma mulher. Ela está
tendo o seu sexto caso. Ela é uma mulher promíscua. Todos
na cidade sabem o seu número. Rabinos e homens santos fo-
gem de tais mulheres. Jesus não corre. Ele assume um risco;
Ele coloca sua carreira em risco pedindo a ajuda dela.
Quarto, ela não é apenas promíscua, ela é uma samari-
tana. Rabinos judeus diziam que as mulheres samaritanas
eram menstruantes desde o berço e, portanto, permanen-
temente impuras. As normas sociais judaicas eram claras:

297
DONALD B. KRAVBILL

olhe para o outro lado. Evite-a. Aja como se você não a visse.
Jesus destrói corajosamente as barricadas sociais.
Quinto, Ele se dirige a ela. Ele inicia a conversa. A si-
tuação seria menos desagradável se Ele tivesse respondido a
um apelo dela. Porém Ele é o mendigo. Ele se obriga a pedir
algo dela.
Finalmente, e pior de tudo, Ele deliberadamente se conta-
mina. Como uma suposta menstruante desde o berço, ela es-
tava impura. Tudo o que ela toca torna-se impuro. Toda uma
aldeia judaica era declarada impura se uma mulher samari-
tana entrasse nela. Ao pedir água suja, que ela tocou, Jesus
está intencionalmente contaminando a si mesmo. A regra
religiosa era clara: “Fique o mais longe possível de coisas
impuras”. Seu breve pedido zomba das normas de pureza.
Jesus estava completamente fora do lugar em todos os
sentidos - fazendo a coisa errada com a pessoa errada no
lugar errado. Sim, apenas dizendo: “Dê-me de beber”, Ele
quebrou seis normas sociais que regulavam o gênero, a reli-
gião, a pureza e a etnia.
Tal comportamento, sem precedentes,chocou a mulher e
os discípulos. Ela gaguejou: “Como o senhor, sendo judeu,
pede a mim, uma samaritana, água para beber?” Quando os
discípulos voltaram, ficaram chocados e “ficaram surpresos
ao encontrá-lo conversando com uma mulher” (Jo. 4:9-27).
Seu pedido simples quebra as armadilhas sociais que sepa-
ram as pessoas e as prende a suas caixas.
Tudo começou com água —o único elemento da vida do
qual todos os seres humanos precisam, independentemente
da sua caixa. Quando se trata de água, somos todos iguais.
Como água viva, Jesus proporciona vida para todos. Nenhu-
ma outra pessoa nos Evangelhos recebeu a revelação privada
de Jesus em sua identidade messiânica. Jesus não se revela

298
0 REINO DE PONTA CABEÇA

aos principais sacerdotes em Jerusalém, nem aos membros


do Sinédrio, nem aos escribas, mas a esta mestiça promíscua.
Ela pergunta sobre o Messias, e Jesus responde tacitamente:
“Eu sou ele”.
Que momento de ponta-cabeça! Uma mulher corrom-
pida, de uma religião rival recebe a maior honra —ouvira
confissão messiânica em primeira pessoa. Jesus não apenas
acaba com a burocracia social para pedir água, Ele eleva essa
mulher contaminada até o Santo dos Santos e sussurra: “Eu
sou o Messias”. Deus está com você. Que reviravolta!
Este milagre leva os moradores samaritanos a implorar
para que Jesus fique com eles. Além de tudo que se pode
sonhar, o inimaginável acontece. Inimigos têm comunhão e
comem juntos. Muitos creem. Eles mudam de templo, não
do monte Gerizim para Jerusalém, mas para o templo vivo
do Espírito e da verdade. Essa é esta nova igreja de samarita-
nos mestiços que então declara: “este é realmente o Salvador
do mundo” (Jo 4:42). Não o Salvador dos judeus, mas o
Salvador de todos. Os desprezados, os fora da lei, os inimi-
gos - Jesus os tira de suas caixas e os eleva para a autêntica
personalidade e dignidade em seu reino de surpresas.
Em outro encontro com uma mulher já mencionado no
capítulo sete, encontramos coisas de ponta-cabeça nova-
mente. Uma prostituta unge Jesus em um banquete fariseu
(Lc 7:36-39). O termo Messias significa “O Ungido”. Jesus,
o Messias, é ungido por uma mulher - uma prostituta. A
mulher, inundada por Seu amor perdoador, toma o perfume
manchado do seu comércio (que vale um salário de um ano)
e unge-O. Perfume era usado para preparar corpos para o
enterro. Esta mulher desprezada, ao mesmo tempo unge o
Messias e sinaliza Sua morte. Uma mulher tem a honra de
ungir o Messias! As caixas religiosas estilhaçam-se outra vez!

299
DONALD B. KRAYBILL

Em outra ocasião, uma mulher com uma hemorragia ha-


via doze anos (Mc 5:23-34) toca Jesus. Marcos relata que ela
sofreu passando por muitos médicos, gastou todo seu dinhei-
ro, e estava ficando pior. Tal pessoa era considerada imunda
e cerimonialmente impura. As leis de pureza de Levítico a
consideravam um menstruante perpétua (Lv 15:26-27). Seu
toque infectava os outros. Além disso, qualquer pessoa que
tocasse o que ela tocava ficava impura. A contaminação só
podería ser removida por lavagem cerimonial. Ela encontra
uma atitude diferente em Jesus. Em um movimento ousado,
ela toca a borda de seu mantò e é curada.
Um rabino típico teria amaldiçoado a mulher imunda e
corrido para a limpeza cerimonial. Jesus a convida para se
aproximar não para uma repreensão, mas para uma bênção.
“Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofri-
mento 1” (Mc 5:34). Jesus entende sua agonia. Apesar de seu
estigma, Ele a ama.
Em outro episódio, Lucas relata a compaixão de Jesus
por uma viúva quando comparece a um funeral. O mor-
to é o filho único da viúva. Quando um homem morria,
sua propriedade ficava para o filho mais velho, não para
a esposa. Se não existissem filhos, o irmão mais novo do
marido morto muitas vezes casava com a viúva; porém ele
tinha o direito de recusar. Nesse caso, a viúva tornava-
-se alvo de caridade, sem meios de sustento. A morte do
único filho desta viúva significa incerteza financeira para
ela —possivelmente pobreza. Jesus, movido por compai-
xão, traz o filho dela de volta à vida.
Lucas, que parece ter um interesse especial no relaciona-
mento de Jesus com as mulheres, conta outra história (Lc
10:38-42). Jesus está prestes a jantar com Marta e Maria.
Como uma boa dona-de-casa judia, Marta está envolvida nas
tarefas da cozinha. As mulheres eram servas da casa; elas

300
0 REINO DE PONTA CABEÇA

eram proibidas de estudar a Torá ou conversar com rabinos.


Maria interrompe seu papel culturalmente prescrito. Ela es-
quece a cozinha. Ela desfruta dos ensinamentos de Jesus.
Isso irrita Marta. Talvez tanto o comportamento inapropria-
do de Maria quanto o trabalho extra na cozinha a enfureçam.
Em poucas palavras, Jesus redefine o papel das mulheres
judias. Ele repreende Marta por se preocupar com o desvio
de Maria. Maria, Ele diz, escolheu a “melhor parte”. Ela é
plenamente humana, com direito a pensar, capaz de se en-
volver em discurso intelectual. A mensagem é clara: as mu-
lheres pertencem à caixa humana. São mais do que empre-
gadas domésticas.
Algumas mulheres acompanhavam o grupo de discípulos
de Jesus. Ao anunciar as boas novas do reino, Maria Madale-
na, Joana e Susana estavam entre os muitos que O acompa-
nhavam. Lucas observa que essas mulheres ajudavam finan-
ceiramente o grupo dos discípulos (Lc 8:1-3). O texto grego
desta passagem sugere que as mulheres eram diaconisas.
Ao permitir que as mulheres viajassem com Ele em pú-
blico e escutassem Seus ensinamentos, Jesus estava destruin-
do outros pedregulhos sociais. A estimada tradição dizia que
as mulheres só podiam andar em público se elas tivessem
incumbências domésticas. Não deveríam vagar pelo campo.
Não era da conta delas estudar e discutir assuntos religiosos.
Além disso, viajar num grupo misto fazia com que fos-
sem sexualmente suspeitas. Os outros grandes rabinos nun-
ca permitiríam que as mulheres os seguissem ou ouvissem
seus ensinamentos. Um mestre disse que era melhor quei-
mar a lei do que deixar uma mulher estudá-la. Ao permitir
que as mulheres se unissem ao grupo de discípulos, Jesus
transtornou o protocolo social e religioso. As caixas de gêne-
ro estavam se desfazendo com a chegada do reino.

301
DONALD B. KRAYBILL

Surpreendentemente, os Evangelhos retratam as mulhe-


res como os discípulos mais leais. Apesar de Pedro ter jurado
que ele nunca iria amarelar, sob pressão, ele correu para se
esconder - negando qualquer associação com Jesus enquanto
o galo cantava. Os discípulos do sexo masculino adorme-
ceram ou escaparam quando chegou o momento crítico no
Getsêmani (Mc 14:50). As mulheres, corajosamente, persis-
tiram até o amargo fim. Todos os quatro Evangelhos obser-
vam que as mulheres, que seguiram da Galileia, assistiram
à sangrenta crucificação (Mt 27:55;Mc 15:40; Lc 23:49 e Jo
19:25). Elas não abandonaram Jesus no momento da crise e
logo tiveram sua recompensa. A ressurreição foi anunciada
para elas - para as mulheres. Maria Madalena foi honrada
como a primeira pessoa a ver Jesus depois da crucificação
(Jo 20:11-18). Quando os discípulos ouviram a história das
mulheres sobre a ressurreição de Jesus, Lucas observa que
zombaram porque “as palavras delas lhes pareciam loucura”
(Lc 24:11).
O momento de ponta-cabeça acontece novamente. As
mulheres, excluídas das cortes judaicas por serem conside-
radas mentirosas, são as primeiras testemunhas da ressur-
reição. Estas chamadas “mentirosas” certificam o momento
espetacular. Elas têm a distintiva honra de anunciar a vitó-
ria. As mulheres indignas tornam-se os arautos do reino de
ponta-cabeça. Enquanto isso, os homens se recusam a acre-
ditar na história.
Além de seus encontros face a face com mulheres, Jesus
também as inclui em Seu ensino. Em um capítulo anterior,
vimos que Ele destacou uma viúva como o modelo de ofer-
ta. Ele usa imagens femininas para descrever sua compaixão
por Jerusalém. “ Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos,
como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas
asas, mas vocês não quiseram” (Mt 23:37). Em outro exem­

302
0 REINO DE PONTA CABEÇA

plo, Jesus compara Deus a uma mulher que procura uma


moeda (Lc 13:8-10). Os intérpretes do sexo masculino enfa-
tizaram demais a perda da moeda, porém há outro lado para
essa moeda. Deus é como uma mulher que diligentemente
procura —quem não desiste procurando até que ela encontre.
Ela encarna a compaixão divina.
Pela palavra e pela ação Jesus confere uma nova dignidade
às mulheres. Uma O confessa como Senhor (Mt 15:22-28).
Ele derrama o seu segredo messiânico para outra (Jo 4:26).
Uma mulher é a única pessoa a ungi-Lo como Messias (Lc
7:38). As mulheres, dentre todas as pessoas, são escolhidas
para testemunhar a ressurreição. Em uma cultura dominada
pelos homens, em meio ao patriarcado abençoado pela reli-
gião, estes eram sinais chocantes de que as mulheres tinham
um novo status no reino de ponta-cabeça.

C onvidando os excluídos e aqueles que não são ninguém


O chamado dos doze apóstolos oferece um caso fascinan-
te de desconsiderar as caixas. Neste grupo tão heterogêneo
encontramos Mateus, um coletor de impostos. Os cobrado-
res de impostos judeus, trabalhando para os romanos, eram
considerados os maiores traidores —especialmente por re-
beldes patriotas. Mateus aparentemente parou de cobrar im-
postos para seguir Jesus, pois Lucas diz que ele deixou tudo
(Lc 5:28). Outro discípulo era Simão, o Zelote (Lc 6:15). E
possível que outros discípulos fossem ex-rebeldes ou, pelo
menos, simpatizantes de suas idéias. E provável que Tiago
e João, “Filhos do Trovão”, Judas Iscariotes e Simão Pedro
tivessem conexões rebeldes.
De qualquer modo, Simão, o zelote, um rebelde político,
teria vorazmente derrotado os romanos antes de conhecer Je-
sus. Juntar-se ao grupo de discípulos exigia arrependimento

303
DONALD B. KRAYBILL

e uma mudança de lealdade. Mateus, o cobrador de impos-


tos e Simão, o Zelote, vieram de extremidades opostas do
tabuleiro político. Simão provavelmente havia hostilizado
sua parcela de cobradores de impostos.
Agora, os oponentes políticos estão caminhando e dor-
mindo juntos. Nunca se ouviu falar de algo assim! Que
poderoso testemunho sobre o fim das divisões qLie ocorre
quando Jesus é Senhor. Antigos rótulos e etiquetas são ar-
rançados. Antigos inimigos estão juntos como amigos em
um novo reino, sob o novo senhorio.
Os adversários políticos também se reúnem na cruz de Jesus.
Um dos bandidos pendurado ao lado de Jesus é movido por seu
amor que perdoa. Este rebelde confessa sua fé e pede a Jesus que
se lembre dele. Naquele mesmo dia, Jesus assegura-lhe, ele estará
no paraíso (Lc 23:43). A crucificação também espanta o centu-
rião romano, exterminador de rebeldes judeus. Ele está aterrori-
zado e exclama: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus!” (Mt
27:54). Ladrão e centurião, um infrator da lei e um mestre da lei,
encontram-se cara a cara com Jesus em meio a eles.
As caixas de ocupação, poder e riqueza muitas vezes se
sobrepõem. Jesus move-se pelo tabuleiro de damas palestino
não ligando muito para rótulos sociais. Ele conversa com
Nicodemos, um governante dos fariseus. José de Arimateia,
um simpatizante rico e silencioso, doa um túmulo. A filha
de Jairo, governante de uma sinagoga, é curada. O pedi-
do do centurião romano é honrado. O rico Zaqueu tem um
convidado surpresa para 0 almoço. Os doutores da lei deba-
tem com ele. O jovem rico O desafia. Magos, astrólogos de
longe, visitam a manjedoura. Pessoas de riqueza, prestígio
e influência 0 procuram. Eles percebem uma abertura inco-
mum. Jesus os aceita, independentemente do rótulo em sua
caixa. Estas pessoas vivem nas caixas grandes no alto, mas
Jesus vai além do alto e poderoso.

304
0 REINO ΟΕ ΡΟΝΙΑ CABEÇA

J e s u s v ai a té o fu n d o e in te r a g e c o m os h u m ild e s . P as-
t o r e s d e o v e lh a s e s á b io s v i s i t a m a m a n j e d o u r a . P a s t o r e a r
o v e lh a s e r a u m a o c u p a ç ã o s u j a e d e s p r e z a d a . O s r ic o s q u e
v iv ia m e m J e ru s a lé m c o n tra ta ra m p a s to re s p a ra v ig ia r
se u s re b a n h o s n o c a m p o . P o ré m os p a s to re s e ra m s u s p e i-
t o s . E le s e r a m c o n s id e r a d o s d e s o n e s to s p o r v á r ia s ra z õ e s .
À s v ez es, c o n d u z ia m seu s re b a n h o s p a ra a te r r a d e o u tra s
p e s s o a s . À s v e z e s , v e n d i a m l e i t e e a n i m a i s jo v e n s a e s m o
e e m b o ls a v a m 0 d in h e ir o . N a v e rd a d e , e ra p r o ib id o c o m -
p r a r lã , l e i t e e f ilh o te s d e p a s t o r e s p o r q u e m u i t a s v e z e s
e le s d e s v ia v a m o d i n h e i r o . A l g u n s r a b in o s c h a m a v a m d e
a ocupação mais d e t e s t á v e l 11.

A e ssa a l t u r a as s u r p r e s a s n ã o d e v e m m a is n o s s u r p r e -
e n d e r. O s a n jo s c a n ta r a m as b o a s n o v a s d a e n c a rn a ç ã o d e
D e u s , n ã o ao s s a c e rd o te s n o t e m p l o d e o u r o , m a s ao s p a s to -
re s v ig a r is ta s e m u m c a m p o d e B e lé m . D o c o m e ç o a o fim ,
d e u m a p o n t a a o u tr a , o fio d a in v e rs ã o e d a ir o n ia te c e seu s
c a m in h o s a tra v é s d o e v a n g e lh o . M a r ia c rê n o a n jo , m a s Z a -
c a ria s , o p a tr ia r c a , d u v id a d a m e n s a g e m d o a n jo . O s p a s to re s
o u v e m as b o a s n o v a s p r im e ir o . P o r m e io d e p a r á b o la s , J e s u s
c o m p a r a D e u s a u m p a s to r q u e se m o v e a tra v é s d e e s p in h o -
sos p a r a e n c o n tr a r u m c o r d e ir o p e r d id o . J e s u s a té se c h a m a
de Bom P a s to r, r e s s a lta n d o s u a r e p u ta ç ã o n e g a tiv a . A s m u -
lh e re s t e s t e m u n h a m a re s su rre iç ã o . A s o c u p a ç õ e s e s t i g m a t i -
z a d a s re c e b e m h o n r a n o r e in o d e p o n ta - c a b e ç a . V ez a p ó s v e z ,
e m c a d a m o m e n to , J e s u s d e sfa z n o ssa s c a ix a s so c ia is.

J e s u s a c o m p a n h a os p e s c a d o re s q u e g o z a m d e p r e s tíg io
m o d e r a d o . E le m e s m o m a r te la p r e g o s c o m o u m c a r p in te ir o .
P o r é m , E le p a s s a a m a io r p a r te d o te m p o c o m as m a ssa s - os
p o b r e s e os d o e n te s . E m b o r a E le se r e la c io n e c o m to d o s os
tip o s d e p e sso a s, os E v a n g e lh o s m o s t r a m o c u id a d o e sp e c ia l
d e J e s u s p a r a c o m a q u e le s m a r c a d o s c o m e s tig m a . S u a re d e
d e re la ç õ e s in c lu i os e n d e m o n in h a d o s , c e g o s , s u r d o s , co -

305
DONALD B. KRAYBIU

xos, doentes, paralíticos, prostitutas, publicanos, pecadores,


adúlteros, viúvas, leprosos, samaritanos, mulheres e gentios.
Em suma, uma grande parte daqueles que não eram nin-
guém, em lugar nenhum12.
Embora Ele circule por todo o tabuleiro de damas, Jesus
passa boa parte do seu tempo com os marginalizados. Estes
eram os excluídos - despejados na pilha de lixo social. Em
vez de cuspir neles, como a maioria das pessoas, Jesus os toca,
os ama e os nomeia povo de Deus. A comunhão da mesa na
Palestina envolvia refeições rituais que refletiam caixas e esca-
las de status e estigma. As refeições marcavam limites sociais
- incluíam alguns e excluíam outros. A comunhão de Jesus
com os marginais sociais transformou as regras da comunhão
da mesa. Todos eram bem-vindos em sua mesa!
As palavras de Jesus ressaltam seu compromisso. Repe-
tidamente Ele cita a mesma lista de pessoas: os pobres, os
cegos, os coxos, os oprimidos. Eles aparecem em seu sermão
inaugural. Ele os menciona quando os discípulos de João
provam sua identidade messiânica. Ele os recebe no banque-
te quando os convidados se recusam a vir. Ele nos diz para
convidá-los, ao invés dos amigos, para as nossas refeições.
Na cena do julgamento final, eles aparecem novamente.
As pessoas são recompensadas ou condenadas por sua respos-
ta ao faminto, ao sedento, ao nu, ao estrangeiro, ao prisionei-
ro e ao enfermo (Mt 25.31-46). No Oriente, essas palavras
incitam a imagem da morte13. São pessoas sem esperança.
Estas são pessoas sobrecarregadas de sofrimento. A vida para
eles é muito miserável para ser chamada de vida. Jesus traz
vida para aqueles que são tão bons quanto mortos. Ele traz
cura, audição, andar, falar, sanidade, pureza e liberdade. Es-
sas imagens de transformação sinalizam a era da salvação. O
Messias está aqui. A restauração está completa. Agora é o ano
favorável do Senhor.

306
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O espírito de Jesus penetra em caixas sociais. Barricadas


de suspeita, desconfiança, estigma e ódio desmoronam em
sua presença. Ele também nos convida a ver os seres huma-
nos por trás dos rótulos de estigma. Seu reino transcende
todas as fronteiras. Ele recebe pessoas de todas as caixas. O
amor de Deus subjuga os costumes sociais que dividem, se-
param e isolam.
Todos são convidados para a mesa no novo reino. Nin-
guém é deixado de lado ou excluído. A grande acolhida de
Jesus está no coração do evangelho. A reconciliação forma o
seu núcleo. Esta boa notícia derrete as barreiras espirituais
entre os seres humanos e Deus e desmantela os muros entre
as pessoas. O ágape de Jesus alcança as pessoas antes separa-
das por caixas, diz-lhes que o amor de Deus lava o estigma e
as acolhe em uma nova comunidade14.

0 CÃO, A CAUDA E 0 TABULEIRO DE DAMAS


Mais uma vez uma pergunta do tipo “o cão e a cauda” se
coloca a nossa frente. Como o “cão” da fé se relaciona com a
“cauda” da interação social? Nossa fé faz a diferença em nos-
sas relações sociais? Ou os padrões sociais habituais abalam
nossa teologia? A fé cristã nos empurra em direção às caixas
marcadas como “Manter fora” e “Indesejável”? Ou fazemos
o jogo de damas sociais como todos os demais —interagindo
com aqueles que são como nós e educadamente obedecendo
aos sinais de “Não ultrapasse” pendurados nos pescoços dos
esquisitos? Os nossos piedosos slogans nos mantêm afasta-
dos dos outros - “Cada um no seu quadrado” ou “Nunca
confie em um estranho”? Quando isso acontece, é a cauda
do costume social que sacode o cão da fé.
Deus nos criou como seres sociais. Colocar as pessoas
em caixas ou colocar rótulos nelas são processos sociais na-

307
DONALD B. KRAYBIU

tu r a is . E le s o r g a n iz a m a v id a so c ia l e a to r n a m p re v is ív e l.
P o ré m ,e s s a s r o tin a s s o c ia is p o d e m r e b a ix a r e d e s u m a n iz a r .
O E s p ír ito d e D e u s p o d e r e d im i r n o ssa s a t i t u d e s e n o s p e r -
m i t i r v e r as p e sso a s p o r tr á s d o s r ó tu lo s . D e s ta fo r m a , D e u s
tr a n s f o r m a n o ssa in te r a ç ã o s o c ia l. Isso n ã o s ig n if ic a q u e v a -
m o s v iv e r s e m c a ix a s. N o e n t a n t o , isso s ig n if ic a q u e n ã o v a -
m o s p e r m i t i r q u e r ó tu lo s so c ia is b lo q u e ie m o n o sso a m o r e
c u id a d o p o r o u tr o s .

C o m o o p o v o d e D e u s se re la c io n a e n tr e si? C o m o n o s-
sas re la ç õ e s so c ia is se tra n s f o rm a m ? N ó s ro tu la m o s os o u tr o s
c o m o to d o m u n d o ? L e v a m o s m u ito s d o s r ó tu lo s q u e a p r e n d e -
m o s n a s o c ie d a d e p a r a a ig re ja . M u ita s vezes n o s re la c io n a m o s
c o m o u tro s m e m b r o s d o c o rp o d e C ris to c o m b a se e m seu s
r ó tu lo s so ciais. N ó s os v e m o s c o m o m é d ic o s , s e c re tá rio s , p r o -
fesso res, m e x ic a n o s , e s tu d a n te s , re p u b lic a n o s , d e m o c r a ta s o u
c o m o irm ã o s n a f a m ília d e D e u s. E sses ró tu lo s e x te rn o s g e r a l-
m e n te m o ld a m n o ssa in te ra ç ã o a té m e s m o n a ig re ja .

A s re d e s in f o r m a is n a ig r e ja se f o r m a m e m to r n o d e i n -
te re s s e s o c u p a c io n a is , e d u c a c io n a is e te o ló g ic o s e m c o m u m .
C a r is m á tic o s se a g a r r a m u n s ao s o u tr o s . O s m e m b r o s d o
c lu b e d e c a m p o lo c a l se a m o n to a m e c o n v e rs a m d e p o is d o
c u lto . O p e s s o a l d a f a c u ld a d e fica j u n to . O s id o s o s s e n ta m -
-se p e r to u n s d o s o u tr o s n o s b a n c o s . A q u e le s q u e a n d a m d e
s k a te e a q u e le s q u e p e g a m o n d a fo r m a m se u s b a n d o s . M e m -
b ro s “c o m p r o m e ti d o s ” , e n v o lv id o s n a lid e r a n ç a d a ig r e ja ,
i n te r a g e m u n s c o m os o u tr o s . G r u p o s e c o n e x õ e s s u r g e m . O
n ú m e r o e o t i p o d e s u b g r u p o s v a r ia m d e ig r e ja p a r a ig r e ja ,
m a s o s o b s e r v a d o re s c u id a d o s o s p o d e m d e te c tá - lo s e m c a d a
a m b i e n t e re lig io s o . A b a ix o d a s u p e r f íc ie , essas re d e s in fo r-
m a is r e g u la m o flu x o d a v id a c o n g r e g a c io n a l.

A fo r m a ç ã o d e s u b g r u p o s n ã o é d e to d o r u im . M e s m o os
p á s s a ro s m a d u r o s c o m p lu m a g e m s e m e lh a n te p r e c is a m v o a r
ju n to s . G a n h a m o s s e g u r a n ç a e m c írc u lo s c o m u n s . P o r é m ,

308
0 REINO □Ε PONTA CABEÇA

também precisamos transformar nossos grupos sociais. Eles


nos oferecem a segurança necessária, mas também podem
fragmentar a vida da congregação. Eles podem se tornar
grupos exclusivos - panelinhas de fofoca que dividem. As
controvérsias relacionadas à liderança pastoral, aos edifícios,
à teologia, ao currículo educacional e outros semelhantes
muitas vezes resultam da lealdade a subgrupos.
Várias etapas podem acelerar a redenção de grupos so-
ciais. Primeiro, precisamos reconhecer abertamente sua ine-
vitabilidade. Precisamos deles e eles podem nutrir nossa fé,
desde que não se tornem exclusivos e divisivos.
Segundo, os ministérios de ensino e pregação devem cha-
mar as pessoas a uma fé comum em Jesus Cristo, que trans-
cende os laços sociais. O nosso vínculo comum de unidade
em Cristo é mais forte do que a cola social que mantém pe-
quenos grupinhos juntos? Esta é precisamente a genialidade
do evangelho - pessoas diversas, de todos os tipos de caixas,
que se unem em Jesus Cristo.
Isso não significa que as pessoas saem completamente
fora de suas caixas. Isso significa que no novo reino as cai-
xas sociais devem se mesclar de forma complementar. Com-
panheiros cristãos precisam uns dos outros. Os intelectuais
precisam dos carismáticos. Os fundamentalistas precisam
dos ativistas sociais. Os jovens precisam dos velhos. A natu-
reza complementar dos diferentes grupos edifica toda a co-
munidade para que todo 0 corpo amadureça em Jesus Cristo. A
analogia do corpo do apóstolo Paulo se aplica aos subgrupos,
bem como aos indivíduos. Os grupos sociais precisam uns
dos outros para manter as coisas equilibradas.
Em terceiro lugar, podemos, enquanto indivíduos, pro-
curar maneiras de cruzar as fronteiras estabelecidas. Po-
demos nos aventurar além de nossas caixas. Podemos nos

309
DONALD B. KRAYBILL

sentar em bancos diferentes no culto de adoração. Podemos


convidar pessoas de outras caixas para nossas casas. Podemos
participar de atividades para toda a Igreja. Podemos visitar
pessoas com rótulos diferentes dos nossos.
Finalmente, podemos alterar padrões de vida da congre-
gação para abrir nossas caixas. O tempo para a interação so-
ciai é necessário para retirar máscaras e arrancar os rótulos.
Retiros congregacionais de fim de semana ou de um dia em
um ambiente diferente ajudam a mudar padrões antigos
e construir novos relacionamentos. Mais caixas podem ser
quebradas em um retiro de três dias do que em cinquenta
e dois domingos esquentando um banco da igreja. Trabalho
em projetos, envolvendo uma variedade de idades, são gran-
des construtores de comunidades que também podem servir
às necessidades dos outros.
Em uma era de especialização, a igreja desenvolveu ati-
vidades únicas para aqueles com necessidades especiais —
idosos, adolescentes, pais adotivos, solteiros, deficientes,
profissionais e outros. Embora eles sejam úteis, também
precisamos de momentos em que pessoas de todas as faixas
se misturam na vida congregacional.
Uma congregação mudou a rotina da sua escola na igreja
desta forma. Um quarto de cada ano, as classes se formavam
em função do aniversário em comum. Todos os nascidos em
outubro, por exemplo, se reuniam durante doze domingos.
Desta forma, jovens e idosos, homens e mulheres, demo-
cratas, republicanos e outros estudavam juntos. O resto do
ano retornavam às suas próprias classes. Tais idéias criativas
derrubam os muros, constroem compreensão, e embelezam
a vida comum do corpo.
Embora precisemos destravar as portas que nos isolam dos
outros, precisamos de caixas sociais para o nosso bem-estar

310
0 REINO DE PONTA CABEÇA

emocional. Precisamos de uma rede de cuidado de ourros que


escutem nossas frustrações, dúvidas e aborrecimentos. Podemos
encontrar uma aceitação mais calorosa entre aqueles mais pare-
cidos conosco. Eles compreendem e cuidam melhor porque se
identificam com os nossos problemas. Embora Jesus estivesse
no tabuleiro social de seu tempo, Ele também tinha um círculo
interno, de três amigos. Pedro, Tiago e João testemunharam
a transfiguração e achegaram-se intimamente a Jesus no Get-
sêmani. Nós também precisamos da comunhão próxima com
outros semelhantes, enquanto usamos nossos dons especiais
para ministrar a todo o corpo. Precisamos de uma tensão saudá-
vel entre nossa tendência natural de aconchegar-se com outros
semelhantes e o espírito inclusivo de Jesus que aceita os outros,
independentemente do seu status social.

A CAIXA DA IGREJA E TAPETES DE BOAS‫ ־‬VINDAS


Igrejas, bem como as pessoas carregam rótulos. As deno-
minações esculpem identidades históricas únicas. Canções,
práticas e credos articulam a história e a identidade das de-
nominações. Escolas religiosas, publicações e conferências
afiam a consciência de um povo e moldam uma identidade
denominacional. Os católicos agem assim e assim. Um bom
presbiteriano pensa assim e assim.
As palavras específicas em uma cultura denominacional
adquirem significados secretos, conhecidos apenas pelos ini-
ciados - “confirmação”, “segunda obra de graça”, “amizade
evangelística”, “discipulado”, “missional”. Essas palavras
podem se tornar códigos que agitam as paixões daqueles
que estão “dentro” e sabem seus significados secretos, mas
deixam os “de fora” frios, sem entender.
É natural que as igrejas cultivem um sentimento de
solidariedade e identidade comuns. Uma cola social comum

311
DONALD B. KRflYBILL

aumenta o sentimento de pertencimento dos membros. Eles


sabem quem são, de onde vêm e para onde estão indo. Os
membros têm um lugar, um grupo - um povo. As tradições
e as identidades, embora boas, também podem criar proble-
mas. Elas podem se tornar ídolos, exigindo mais respeito
do que as próprias Escrituras. Uma etnicidade forte pode
nublar a centralidade de Jesus Cristo. O Jesus bíblico pode
facilmente se tornar um Jesus denominacional - um Salva-
dor Batista, um Senhor Menonita e um Criador Episcopal.
A cola denominacional pode obstruir a troca liberal do amor
e da cooperação entre denominações.
Mais seriamente, as tradições denominacionais podem
barrar outros a entrar no reino. Já ouvimos a acusação de
Jesus aos fariseus. A cola denominacional excessiva espanta
as pessoas. Palavras estranhas, ritos estranhos e tradições ob-
soletas obscurecem o sinal de boas-vindas. Uma identidade
teológica acentuada e práticas distintivas são essenciais para
uma igreja vigorosa, mas devem ser equilibradas com pro-
gramas que acolhem os recém-chegados.
Um dos dilemas enfrentados pelas igrejas em crescimen-
to é que os pássaros de mesma plumagem voam juntos. As
pessoas de classe baixa se sentem em casa em congregações
com os da classe social semelhante. Congregações sofisticadas
atraem os mais abastados, com um contexto de classe alta. Os
hispânicos sentem-se mais à vontade quando o culto brota da
cultura hispânica. Os profissionais migram para congregações
em que desfrutem de intermináveis conversas impetuosas.
As congregações devem concentrar seus esforços em bair-
ros homogêneos que correspondam ao seu perfil racial, social
e econômico? Esta pode ser uma boa estratégia se o único
objetivo é um aumento na frequência. Embora a rota mais
fácil para o crescimento envolva muitas vezes atrair pessoas
semelhantes, a mensagem de reconciliação social pode ser

3 12
0 REINO DE PONTA CABEÇA

facilmente perdida. Simplesmente conseguir o mesmo tipo


de pessoas juntas não é, na verdade, uma grande façanha.
Acontece o tempo todo em todos os tipos de organizações
e clubes. Se o evangelho transforma as relações sociais, se a
igreja deve ser mais do que apenas um Rotary Club, então
a reconciliação espiritual e social precisa liderar seu minis-
tério.
Na genialidade do evangelho, quando as pessoas decla-
ram Jesus como Senhor, experimentam uma nova unidade
que transcende as caixas sociais. O verdadeiro crescimento
da igreja usa as melhores idéias da ciência social para chamar
diferentes tipos de pessoas a estarem juntas sob um Senhor
comum. Um evangelho que só atrai pessoas semelhantes
embaça a boa notícia que liga judeus e gentios, homens e
mulheres, negros e brancos.
Isso não significa que ignoramos as características sociais.
Exatamente o oposto. Nós as levamos a sério como ingre-
dientes reais na vida congregacional, mas também procu-
ramos um delicado equilíbrio entre mesmice e diferença.
Nossa tendência natural é nos reunir com outras aves seme-
lhantes a nós. A boa nova de Jesus Cristo, no entanto, dá as
boas-vindas a todos, independentemente de suas penas.

313
A ESCADA
SOCIAL
0 REINO DE PONTA CABEÇA

A E scada S ocial
o último capítulo, vimos a interação humana em um
tabuleiro social. A vida social, no entanto, não é plana.
Pessoas e grupos se classificam de baixo para cima. Podemos
captar essa dimensão vertical da vida com a imagem de uma
escada social. As pessoas não são iguais. Alguns são mais im-
portantes e distintos do que outros. A desigualdade, de uma
forma ou de outra, permeia todas as sociedades. Hierarquias
estão profundamente enraizadas na experiência humana em
todo 0 mundo. Este capítulo explora os pontos de vista de
Jesus sobre 0 poder, status e desigualdade.
Algumas pessoas preferem sorrir docemente e pensar
que, no final, todos são iguais. Porém, pense novamente. A
sociedade tem camadas. A mãe com uma filha que se forma
em direitos se enche de orgulho quando fala com os amigos
sobre a realização da filha. A mesma mãe fica embaraçada ao
informar que o outro filho abandonou a escola.

317
DONALD B. KRAYBIIL

Vamos encarar a realidade—a presidência de um comitê


tem mais poder do que os membros da base do comitê. Os
episcopais são mais elevados na escada das denominações do
que os pentecostais. Pastores de grandes congregações levam
vantagem sobre os de igrejas pequenas. Os hispânicos, tor-
nando-se o maior grupo étnico na América, exercem mais
influência sobre a política americana do que os Amish. Cida-
des, igrejas, grupos étnicos, ocupações e pessoas são classifi-
cadas e mergulhadas em nossas mentes. As nações da super-
potência se elevam sobre pequenos países subdesenvolvidos.
O ranking social encolhe o valor de algumas pessoas e ex-
pande o valor de outras. Valorizamos as pessoas pela sua ca-
pacidade de realizar um determinado trabalho. Presidentes,
médicos e gerentes são tipicamente considerados mais valio-
sos do que engraxates, ajudantes de cozinha e datilógrafos.
Nossos salários salientam esta dura realidade. Somos pa-
gos de acordo com valores socialmente determinados. Nosso
salário nos lembra do quanto valemos. E difícil classificar a
diferença entre o valor pessoal e financeiro. Nossa visão dos
outros se apoia pesadamente em seu valor financeiro como
um assalariado. Podemos dizer às pessoas que elas são im-
portantes, mas se pagarmos a elas metade do que a outras,
elas sabem muito bem o que pensamos.
Um sociólogo observou, enigmático, que deveriamos es-
colher nossas mães cuidadosamente1. Nosso nascimento de-
termina nosso degrau na escada da vida e molda nossas opor-
tunidades e barreiras. Nascer rico ou pobre faz um mundo
de diferença. Um fosso gigantesco se estende entre as opor-
tunidades desfrutadas por uma criança nascida de uma mãe
com um milhão de dólares e uma nascida de uma viciada
em drogas e pobre. Nosso ângulo de nascimento influencia
se sofreremos desnutrição, mortalidade infantil, faculdade,
prisão e tortura mental. Nossa qualidade de vida, nossos

318
0 REINO DE ΡΟΝΤΛ CABEÇA

c u id a d o s m é d ic o s , e d u c a ç ã o , t r a b a l h o , a b r ig o , e q u a n t o
t e m p o v iv e m o s , e m g r a n d e m e d i d a , d e p e n d e m d o n o s s o
d e g r a u d e n a s c im e n to .

M úsculo S ocial
O p o d e r s o c ia l a u m e n t a e d i m i n u i c o m os d e g r a u s d a
e s c a d a . N u m s e n t i d o a m p lo , p o d e r é a c a p a c id a d e d e a f e ta r
a v i d a s o c ia l. É a c a p a c id a d e d e “fa z e r a s c o is a s a c o n te -
c e r e m ” . P a r a q u e as c o is a s a c o n te ç a m , p r e c is a m o s d e re -
c u r s o s . P r e c is a m o s d e c o n h e c i m e n t o , d i n h e i r o e p o s iç ã o .
A q u e le s q u e p o s s u e m e c o n t r o l a m e sse s re c u r s o s p o d e m
fa z e r as c o isa s a c o n te c e r e m m a is f a c i l m e n te d o q u e a q u e le s
q u e não possuem .

Q u a tr o tip o s p r in c ip a is d e p o d e r flu e m d e n o sso s re cu rso s.

• (1)0 poderfinanceiro e s tá e n r a iz a d o e m re c u rs o s e c o n ô -
m ic o s . O d i n h e ir o faz c o m q u e as co isa s a c o n te ç a m .
E le é u m a d a s fo n te s m a is i m p o r t a n t e s d e p o d e r.

• (2 ) 0 poder de expertise p r o v é m d e c o n h e c im e n to e x -
te n s o e in fo rm a ç õ e s e sp e c ia is. M é d ic o s e a d v o g a d o s ,
p o r e x e m p lo , e x e rc e m 0 p o d e r d e expertise p o r q u e eles
a d q u i r i r a m e p o s s u e m c o n h e c im e n to s e s p e c ia is e m
m e d ic in a e d ir e ito .

• (3 ) 0 poder organizacional s u r g e d a p o s iç ã o d e u m a p e s -
so a d e n t r o d e u m a o rg a n iz a ç ã o . U m v ic e - p r e s id e n te
e x e c u tiv o te m m a is p o d e r d o q u e u m z e la d o r, p o r q u e
o e x e c u tiv o t e m u m a p o s iç ã o m a is a lta n o o r g a n o g r a -
m a o rg a n iz a c io n a l.

• (4 ) 0 poder pessoal e m e r g e d a a p a r ê n c ia p e s s o a l e tra ç o s


d e p e r s o n a lid a d e . C e rta s p e sso a s n o s a tr a e m p o r c a u sa
d e s e u e s tilo in te r p e s s o a l a g r a d á v e l e c o n d u ta . O s e u
c h a r m e n o s a tra i e m o ld a as n o ssa s o p in iõ e s .

319
DONALD B. KRAYBILL

Quando indivíduos ou instituições têm acesso a todos os


quatro tipos de poder, eles exercem influência enorme. Ser
presidente, bem-apessoado, rico e inteligente rende enor-
me poder! O músculo social não é necessariamente bom ou
ruim. Todos nós exercemos algum poder todos os dias. Essa
é uma parte natural da vida social. Nós, no entanto, precisa-
mos lidar com a forma como usá-lo e despendê-lo. Quais são
as maneiras apropriadas de flexionar o poder a partir de uma
perspectiva cristã?

0 C hico e o D outor F rancisco


Um exemplo do mundo acadêmico acentua as desigual-
dades produzidas pelo status social. Vamos comparar Dr.
Francisco, um professor pleno em um campus universitário,
com o Chico, um zelador que limpa o escritório do Dr. Fran-
cisco. Considere algumas de suas diferenças.
O Chico e o Dr. Francisco compartilham as extremidades
opostas da hierarquia do campus. O Dr. Francisco está perto
do topo da comunidade “profissional”. O Chico faz parte da
humilde equipe de manutenção. A diferença de status está
presente em seus títulos. Dr. Francisco é muitas vezes cha-
mado de “Professor” ou “Doutor.” Os alunos são muito cui-
dadosos para chamá-lo pelo título. O nome e o título do Dr.
Francisco estão em uma placa de identificação na porta de seu
escritório. O Chico não tem um título. Ele é simplesmente o
“Chico”. Ele não tem escritório ou placa de identificação.
O vestuário também sinaliza suas diferenças de status.
O Chico usa jeans velhos, camisetas e tênis esfarrapados. O
Dr. Francisco usa gravata e paletó. Ele verifica sua gravata e
cabelo frequentemente com um espelho no armário privado
de seu escritório. O Chico, é claro, não tem armário ou es-
pelho particular.

320
0 REINO DE PONTA CABEÇA

O Chico e o Doutor Francisco também estão bem separa-


dos quando se trata de poder. O doutor pode pedir para que
Chico trabalhe para ele no escritório —pendurando as fotos,
arrumando a mobília e movendo caixas. Se o aparelho de ar
condicionado central estiver muito alto, o Doutor pede a Chi-
co para desligá-lo. Se o Doutor esquecer a chave de sua porta,
ele pede que Chico a abra. Chico até faz o café para o Doutor
Francisco e seus colegas. Se o Chico comete erros, o Doutor
Francisco envia um memorando ao supervisor do Chico e bin-
go, pode esquecer qualquer tipo de aumento de salário.
O Chico não tem controle sobre 0 Doutor Francisco. Ele
pode pedir um favor ao Doutor, mas 0 Chico não tem poder
real. Ele certamente não pode recompensar ou punir. Doutor
Francisco conhece pessoalmente o reitor da universidade e, às
vezes, pede favores especiais. O presidente nem sequer sabe o
nome de Chico, muito menos faz favores a “um velho zelador”.
Quando se trata de prestígio, há também um grande
abismo. Quando o Doutor passa pelo corredor, os alunos o
recebem com sorrisos e coros de “Olá, Doutor.” Eles educa-
damente saem de seu caminho se ele está com pressa. O pre-
sidente da universidade aperta a mão do Doutor Francisco e
sorri calorosamente.
Quando os alunos trazem seus pais para o campus, eles
vão ao escritório do Doutor Francisco para as apresentações.
O Doutor tem um site para que estudantes e pessoas ao redor
do mundo possam rastrear seu importante trabalho. Doutor
Francisco gosta de dizer aos amigos na comunidade que ele
é um professor universitário. Esse é um trabalho respeitável.
Quando Chico vem pelo corredor, o máximo que ele re-
cebe é um aceno ou um “Olá” de algumas pessoas que o
conhecem. Ele raramente recebe sorrisos calorosos do presi-
dente ou apresentações aos pais. Ele não tem um computa-

321
DONALD B. KRAYBILL

dor, muito menos um site. Poucas pessoas no campus sabem


o que ele faz, muito menos o mundo. Ele realmente não
gosta de dizer às pessoas o que ele faz. Ele sabe que é o tipo
de coisa que qualquer João, Zé ou Maria podería fazer.
Em termos de privilégio, as coisas também são bem diferen-
tes. O salário é a vantagem óbvia do Doutor. Ele ganha três vezes
mais do que o Chico por apenas oito meses de trabalho. Joe, por
outro lado, recebe uma semana de férias, alguns dias de licença
e um terço do salário do Doutor. Os benefícios extras do Doutor
Francisco excedem os de Chico porque estão atrelados ao salário.
Os benefícios de aposentadoria do Doutor também são mais altos
porque estão ligados a uma porcentagem de seu salário.
O Doutor tem uma secretária e escritório particular só
para ele. O Doutor controla sua agenda. Chega de manhã
quando sente vontade e sai quando precisa. Se algo impor-
tante aparecer, o Doutor pode cancelar suas aulas do dia e
simplesmente colocar um aviso “fora da cidade”. Desde que
ele não perca aulas, o Doutor pode sair para consultas mé-
dicas ou um lanche com um amigo de fora, sem informar
ninguém. Ele vai para o centro da cidade para um cafezinho.
Para o Chico, as coisas são diferentes. Pela manhã e à
noite ele bate o ponto. Ele deve programar seus dias de fé-
rias com pelo menos com dois meses de antecedência. Se ele
quiser tomar um cafezinho, precisa ser no campus. Sobre o
único privilégio que o Chico tem é a oportunidade de ler o
lixo do correio de todos enquanto ele esvazia lixeiras.
Apesar de todas as suas diferenças, o Chico e o Doutor
Francisco pagam o mesmo preço pelo pão, gás e utilidades
domésticas. Dois seres humanos, eles interagem diariamen-
te, mas com status e recursos muito diferentes.
Um senador dos EUA descreve o prestígio e o privilégio
que acompanham seu status:

322
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Todos os meus movimentos pelo Senado


perpetuam essa mensagem do ego. Quando
saio de meu escritório para ir ao andar do Se-
nado, um elevador chega imediatamente ao
comando senatorial, invertendo sua direção,
se necessário, passando direto pelos andares
dos outros passageiros desconcertados dentro
do elevador para me levar até o subsolo. En-
quanto caminho pelo corredor, um policial
me avista chegando e avisa para que um car-
ro do sistema de metrô do Capitólio espere
minha chegada e me leve para o Capitólio.
O operador de elevador, o policial do Capi-
tólio, e os motoristas do metrô, todos me
cumprimentam de forma diferente. No car-
ro do metrô, posso pegar o banco da frente,
reservado para senadores que podem pegar o
metrô sozinhos; se turistas já estiverem sen-
tados lá, eles são removidos por um policial,
a menos que eu insista no contrário. No Ca-
pitólio outro elevador com a placa APENAS
PARA SENADORES me leva ao andar do
Senado. Lá, só levantando uma sobrancelha,
um serviçal vem me trazer um copo d’água,
entregar uma mensagem, ou fazer o que eu
preciso. Os assistentes se apressam em me
dizer quando as votações ocorrerão e sobre
quais contas, embora ninguém me incomode
com todos os detalhes a menos que eu peça2.

Escadas de poder e prestígio estão por toda parte - em


famílias, clubes, locais de trabalho e igrejas. Os dois pro-
cessos sociais mais básicos envolvem comparação e domina­

323
DONALD B. KRAYBILL

ção. Continuamente nos comparamos com os outros, e nosso


grupo com outros grupos. Nós verificamos incessantemente
quem está adiante ou atrás, quem está para cima ou para
baixo, quem ganhou ou perdeu, e quem está subindo nas
escalas ou deslizando para baixo. Das equipes esportivas aos
mercados de ações, das paradas musicais à política, estamos
constantemente rastreando quem está acima e quem está
abaixo e como estamos em relação a eles - pessoalmente e
nosso grupo.
O sistema vertical se apoia sobre o poder e a dominação.
Aqueles no topo dominam os degraus inferiores. De escri-
tório à política internacional ou aos comitês da igreja, os de
cima influenciam e controlam aqueles abaixo. A dominação
não precisa levar ao abuso, mas é um processo social básico
que penetra todos os grupos e todas as sociedades.

Q uem disse?
A linguagem de classificação social apimenta os Evange-
lhos. O anjo disse a Maria que Jesus seria chamado filho do
Altíssimo e o poder do Altíssimo a envolvería (Lc 1:32, 35).
Zacarias esperava que seu filho João fosse um profeta do Al-
tíssimo (Lc 1:76). Jesus disse que aqueles que amam os ini-
migos, fazem o bem e aqueles que emprestam sem esperar
retorno, serão filhos do Altíssimo (Lc 6:35). Um endemoni-
nhado chamou Jesus de filho do “Deus Altíssimo” (Mc 5:7).
O Altíssimo é usado nas Escrituras como outro nome para
Deus, sugerindo que Deus está no topo da escada mais alta.
A palavra autoridade frequentemente aparece nas histó-
rias do evangelho. Lucas começa com Jesus rejeitando a “au-
toridade” e a “glória” dos reinos do mundo (Lc 4:6). Mais
tarde, no mesmo capítulo, Jesus expulsa um demônio e as
pessoas ficam maravilhadas. Eles perguntam: “Que palavra é

324
0 REINO DE PONTA CABEÇA

esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e


poder, e eles saem?”(Lc 4:36).
Jesus virou as costas ao direito legal de governar pela au-
toridade política, mas não rejeitou totalmente a autoridade.
Seu direito de governar não vem da força política coercitiva,
mas do Altíssimo. Ele não dá ordem a exércitos, mas Ele dá
ordem aos demônios. Embora sua autoridade não venha de
cavalos brancos, carros e vitórias militares, o povo reconhece
sua autenticidade. “Quando Jesus acabou de dizer essas coi-
sas, as multidões estavam maravilhadas com o seu ensino,
porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não
como os mestres da lei.” (Mt 7:28-29; Mc 1:22).
Ironicamente, Jesus vem para o povo sem as armadilhas
tradicionais da autoridade. Ele não tem qualquer influência
política nem o treinamento de um escriba. Depois de ouvir
uma de suas lições, Os judeus ficaram admirados e pergun-
taram: “Como foi que este homem adquiriu tanta instrução,
sem ter estudado?” (Jo 7:15). Sem uma licença de escriba,
Ele não está meramente ensinando, mas ensinando de ma-
neira convincente. Suas palavras ganham sua própria auto-
ridade. O público certifica sua autoridade, não um conselho
de especialistas teológicos em Jerusalém.
As multidões não são as únicas que ratificam a sua auto-
ridade. Quando o centurião se aproxima de Jesus para pedir
cura ao seu servo, Jesus se volta para a casa do centurião.
Porém 0 centurião se justifica, dizendo que não é digno de
Jesus entrar em sua casa. Respondeu o centurião: “Senhor,
não mereço receber-te debaixo do meu teto. Mas dize ape-
nas uma palavra, e o meu servo será curado. 9Pois eu tam-
bém sou homem sujeito à autoridade e com soldados sob
o meu comando. Digo a um: Vá, e ele vai; e a outro: Ve-
nha, e ele vem. Digo a meu servo: Faça isto, e ele faz” (Mt
8:8-9). Quando Jesus ouve isto, maravilha-se e cura 0 servo.

325
DONALD 6. KRAYBILL

Os soldados e escravos sob o centurião se chocam com suas


palavras. O centurião, por sua vez, reconhece a autoridade
espiritual de Jesus.
Por que Jesus se maravilha quando o oficial descreve sua
poderosa posição? Ele está ameaçando Jesus - cure meu ser-
vo ou então? Em vez disso, o centurião está comparando a
autoridade de Jesus com a sua própria. Este gentio entende
que Jesus, assim como ele, é um homem de autoridade. Esta
é uma confissão gentia de fé, não uma ameaça militar. Ele
reconhece que Jesus tem o poder de curar seu servo mesmo
de longe. Jesus maravilha-se de que este Gentio tenha uma
compreensão tão completa da autoridade e poder de Deus.
Ironicamente, os camponeses e o centurião compreen-
diam a natureza da autoridade de Jesus enquanto as auto-
ridades religiosas ficavam perplexas. Um dia, os principais
sacerdotes e os anciãos interromperam seu ensinamento e
perguntaram: Jesus entrou no templo e, enquanto ensinava,
aproximaram-se dele os chefes dos sacerdotes e os líderes re-
ligiosos do povo e perguntaram: “Com que autoridade estás
fazendo estas coisas? E quem te deu tal autoridade?” (Mt
21:23 e Mc 11:28). Em outras palavras, quem disse isso?
Quem deu a Jesus o direito de ensinar? Quem assinou seus
papéis de ordenação?
Jesus respondeu fazendo uma pergunta. De onde veio o
batismo de João? Os pesos pesados estavam em um beco sem
saída. Se eles dissessem que a autoridade de João vinha do céu,
então por que eles se recusariam a ouvir João? Se eles disses-
sem que a autoridade de João vinha apenas de seus poderes
pessoais de persuasão, a multidão ficaria zangada porque eles
acreditavam que João era um profeta. Jesus não respondeu à
pergunta porque eles não puderam responder à sua. Porém ao
fazer a pergunta sobre o Batista, Ele alinhou-se com João. As
perguntas e respostas sobre a autoridade do ministério de João

326
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

também se encaixavam para o Seu. Os fariseus tinham ante-


riormente acusado a Jesus dizendo que a Sua autoridade vinha
de Belzebu. Agora, os principais sacerdotes se deparavam com
duas opções. Ou Jesus tinha o endosso do Altíssimo, ou Ele
era um astuto encantador da multidão.

No Evangelho de João, Jesus esclarece a fonte


de sua autoridade:

Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo


apenas conforme ouço, e o meu julgamento é
justo, pois não procuro agradar a mim mes-
mo, mas àquele que me enviou..(Jo 30:‫) צ‬

Pois, da mesma forma como o Pai... deu-lhe


autoridade para julgar, porque é o Filho do
homem. (Jo 5:26-27)

O meu ensino não é de mim mesmo. Vem


daquele que me enviou. (Jo 7:16)

nada faço de mim mesmo, mas falo exata-


mente o que o Pai me ensinou.. (Jo 8:28)

Pois não falei por mim mesmo, mas o Pai


que me enviou me ordenou o que dizer e o
que falar. Sei que o seu mandamento é a vida
eterna. Portanto, o que eu digo é exatamente
o que o Pai me mandou dizer .(Jo 12:49-50)

Vez após vez, de acordo com João, Jesus destaca a raiz de


sua autoridade. Não é Dele. Ele é mordomo da autoridade
de Deus. Ele tem o poder de advogado. Ele age em nome
de Deus. Seu Pai lhe deu o “direito” de falar sobre o reino.

327
D O N A LD B . K R A Y B ILL

Aquele que fala em nome de outro dirige as pessoas para o


outro. Os líderes auto declarados que falam por sua própria
autoridade apontam os outros para si mesmos. Jesus entende
isso bem quando diz: “Quem fala de si mesmo busca a sua
própria glória” (Jo 7:18). Depois que Jesus curou o paralítico,
a multidão “ficou cheia de temor e glorificou a Deus, que dera
tal autoridade aos homens” (Mt 9:8). Jesus usa Sua autoridade
de uma forma que claramente aponta para Deus. Ele não é um
profeta autodeclarado levando os aplausos da multidão.
Em resumo, vários temas se relaciona má compreensão de
Jesus de autoridade.
• (1) Não há dúvida de que Ele se via como um mor-
domo do poder de Deus. Foi Deus quem lhe deu o
direito de falar.
• (2) Ele teve o cuidado de usar Sua autoridade de uma
maneira que não trouxesse prestígio pessoal. Suas pa-
lavras e atos refletiam os desejos de Deus.
• (3) Ele usou Sua autoridade para servir e ajudar os ou-
tros. Eles eram os beneficiários do Seu poder.
• (4) Embora a sua ordenação não fosse certificada pelos
canais adequados, as multidões sentiam a autentici-
dade de sua mensagem e davam-lhe crédito popular.

Pare de tentar subir


Jesus, ao longo dos evangelhos sinóticos, repreende os
líderes que buscam subir em sua escalada. Ele identifica três
maneiras nas quais os líderes religiosos dão brilho a seus
eminentes degraus na escada judaica. Primeiro, ostentam
roupas que os destacam. Nas palavras de Jesus, eles fazem
seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes bem
longas (Mt 23: 5;Mc 12:38; Lc 20:46). Os fariseus usavam

328
0 REINO DE PONTA CABEÇA

roupas extravagantes para lembrar as pessoas de seu nicho


superior no sistema social.
Em segundo lugar, a sinagoga reservava um lugar espe-
ciai para dignitários proeminentes. Um escriba se sentava
no assento de Moisés na frente da sala, de frente para o povo.
Todos podiam vê-lo e admirar seu assento especial. Jesus
ridiculariza os escribas por procurar assentos de prestígio na
casa de adoração (Mt 23:6; Mc. 12:39; Lc 20:46). Os escri-
bas também procuravam os melhores lugares nos banque-
tes—as posições distintas ao lado direito do anfitrião. Jesus
deixou claro que tais manobras em reuniões públicas não se
encaixam no reino de ponta-cabeça.
Terceiro, os escribas usavam a linguagem para polir o seu
prestígio. Eles insistiam em ser chamados de rabinos (Mt
23: 8). Levando em conta que uma saudação representava
uma comunicação de paz, regras estritas de cerimônia coor-
denavam a quem e como uma saudação era feita5. Jesus sabia
que os títulos reforçam o ranking social chamando a atenção
para o status, que nos lembra que nem todo mundo é igual.
Com um só golpe, Jesus apaga os títulos. “Mas vocês
não devem ser chamados mestres; um só é o Mestre de vo-
cês, e todos vocês são irmãos. A ninguém na terra chamem
‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus.
Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto
vocês têm um só Chefe, o Cristo “(Mt 23: 8-10). Colocar
rótulos uns nos outros de acordo com títulos é algo que
não tem lugar no reino de ponta-cabeça, onde todos estão
em pé de igualdade. Em sua crítica àqueles que desejam o
prestígio, Jesus desfaz o desejo de status que impulsiona
muitas pessoas.

329
DONALD B. KRAYB1LL

C rescendo para baixo


Tentar escalar a escada não era apenas um problema de
fariseus. Ele também pegou os discípulos. Um dia, eles co-
meçaram a discutir quem era o maior (Mc 9:33-34). Pe-
dro achava que ele merecia ser o número um, porque ele
foi o primeiro a perceber que Jesus era o Messias. Tiago e
João, no entanto, pensavam que deveríam ser os primeiros
porque tinham visto a transfiguração. Tiago e João estavam
tão ansiosos para estar no topo que puxaram Jesus de lado e
imploraram, “Mestre, queremos que nos faças o que vamos
te pedir” (Mc 10:35). Eles queriam sentar-se nos melhores
lugares, do lado direito e esquerdo de Jesus, em seu reino.
Mateus até mesmo relata que sua mãe encorajou sua sú-
plica (Mt 20:20-21). De qualquer forma, encontramos o ve-
Iho espírito ditatorial de “faça isso e faça aquilo” entre os
discípulos. A mentalidade de chefe classifica as pessoas do
maior ao menor. Jesus repreendeu a forma que Pedro e Tia-
go pensavam pegando uma criança no colo. “Quem recebe
uma destas crianças em meu nome, está me recebendo; e
quem me recebe, não está apenas me recebendo, mas tam-
bém àquele que me enviou” (Mc 9:37).
Alguns dias depois, quando os discípulos estavam fazen-
do uma triagem dos visitantes, eles afastaram as crianças que
tentavam tocar em Jesus. Ele ficou furioso com este jogo
de poder (Mc 10:13-14)6. Para os discípulos, essas crianças
eram “ninguéns” sociais. Eles não tinham posições proemi-
nentes. Eles não ajudariam a causa. Jesus deveria passar seu
tempo com os que poderíam mover e abalar as estruturas.
Brincar com crianças desviaria Jesus de sua missão.
Os discípulos ainda não haviam compreendido a lógica
de ponta-cabeça. Para Jesus, as crianças eram tão importan-
tes quanto os adultos. Ele não só passou tempo com esses

330
0 REINO PE PONTA CABEÇA

pequeninos, como os considerou cidadãos modelo no novo


reino, “pois o Reino de Deus pertence aos que são seme-
lhantes a elas. Digo a verdade: Quem não receber o Reino
de Deus como uma criança, nunca entrará nele” (Mc 10:14,
15). De maneira nenhuma entrará nele? Os adultos nunca
entrarão nele a menos que se tornem como crianças?7
Como os discípulos estavam disputando 0 status e afas-
tando as crianças, Jesus usou uma criança para simbolizar
os valores do reino. Normalmente, dizemos às pessoas para
crescer e “agir de acordo com sua idade”. Jesus inverte a
lógica. Ele nos convida a crescer e regredir para um compor-
tamento infantil. Por quê? Como as crianças podem instruir
os aprendizes do reino? Por que ir até o fundo, no final da
escada social como modelo da cidadania do reino?
As crianças têm baixo nível de status e poder. Total-
mente dependentes dos outros, são passivos econômicos.
Crianças pequenas fazem poucas distinções sociais. Elas
não colocam os outros em caixas. Elas não aprenderam a
brincar segundo as regras sociais adultas. Elas se tornam
amigas de estranhos sem medo. Elas ainda não apren-
deram insultos raciais e étnicos. Caixas segundo a cor,
nacionalidade, título e gênero significam pouco para os
pequenos. Eles não têm nenhum sentido de estruturas
burocráticas e hierarquias.
O uso e manipulação do poder são desconhecidos a um
bebê. Seu grito certamente faz com que as coisas aconte-
çam. Os pais vêm correndo. Gritos, no entanto, são uma
resposta às necessidades biológicas, não um movimento
astuto para manipular os outros. As crianças aprendem as
táticas do poder à medida que crescem. Nos primeiros anos
elas demonstram confiança simplesmente confiando. Uma
criança com bons pais confia neles completamente.

331
DONALD B. KRAYBILL

Jesus convida os cidadãos do reino à infância em to-


das essas áreas. Em vez de perseguir o primeiro lugar, ele
nos estimula a ignorar a hierarquia como as crianças. Ele
nos diz para sermos cegos às diferenças de status e, como
os bebês, vermos todos os outros como igualmente signifi-
cativos, independentemente de sua posição social. Em vez
de clamar por mais e mais poder, nós, seguidores de Jesus,
compartilhamos o poder com alegria. Nos alegramos com a
interdependência. Em vez de reivindicar a autossuficiência,
reconhecemos nossa necessidade de comunidade e depen-
dência de outros. Cegos às distinções sociais, dependentes
dos outros, vivemos como crianças, pois destes é o reino de
Deus.

D ebaixo para cima


Os discípulos permanecem confusos. Enquanto eles se sen-
tam ao redor da mesa durante a Última Ceia, uma discussão
sobre grandeza explode. Depois de todo o ensinamento sobre
a infância, em meio a este evento sagrado culminante, os dis-
cípulos brigam sobre quem é o maior. Como seres humanos típi-
cos, eles se perguntam como eles podem se colocar acima dos ou-
tros. Jesus tenta novamente. Ele renova o significado da grandeza.

“Os reis das nações dominam sobre elas; e os


que exercem autoridade sobre elas são chama-
dos benfeitores. Mas vocês não serão assim. Ao
contrário, 0 maior entre vocês deverá ser como
o mais jovem, e aquele que governa, como
o que serve. Pois quem é maior: o que está
à mesa, ou o que serve? Não é o que está à
mesa? Mas eu estou entre vocês como quem

332
0 REINO DE PONTA CABEÇA

serve.”(Lc. 22:25-27)

Mais uma vez Jesus vira nossos mundos sociais de pon-


ta-cabeça. Ele inverte nossas suposições e expectativas. Ele
redefine radicalmente a grandeza. Estas palavras atingem a
raiz da dominação em todas as sociedades —grandes e peque-
nas. Nossas suposições típicas sobre a grandeza fluem juntas
nesta equação:

• Grandeza = Topo, poderoso, mestre, primeiro, gover-


nante, adulto.
• Jesus inverte radicalmente a equação:
• Grandeza = Parte de baixo, servo, escravo, último,
criança.

Não pode haver mal-entendidos aqui. Jesus vira a nos-


sa definição convencional de grandeza de ponta-cabeça. Os
senhores pagãos dominam seus súditos. Eles desenvolvem
hierarquias de poder. “Não é assim entre vocês”, sussurra
Jesus. No Reino de ponta-cabeça a grandeza não é medida
pelo poder que exercemos sobre os outros. O prestígio de
ponta-cabeça não é calculado pela altura do nosso degrau na
escada social. No reino invertido de Deus, a grandeza é sig-
nificada por nossa disposição de servir. O serviço aos outros
se torna o padrão de estatura no novo reino.
Jesus propõe uma pergunta profunda. Quem é maior, o
diretor executivo de uma das maiores empresas do país sen-
tado no salão de jantar executivo? Ou o garçom que o serve?
O presidente do país voando em um jato particular? Ou a
aeromoça que o serve? O executivo e o presidente são mais
importantes, é claro. Eles foram selecionados através de um
grande e caro processo de busca. Garçons são figurinhas re-

333
DONALD B. KRAYBILL

petidas, fáceis de encontrar. Qualquer um pode fazer seu tra-


balho. O diretor executivo tem anos de treinamento especial
e experiência. Qualquer idiota sabe que um executivo é mais
importante do que um garçom.
Não no meu reino, diz Jesus. Eu sou um Messias servo.
Eu estou entre vocês como garçom, escravo, servo, não pa-
trão. Em vez de dar ordens e diretrizes segundo a hierarquia,
Jesus está perguntando como Ele pode servir. A maneira de
Jesus olha de baixo para cima, não de cima para baixo. Tal
postura bate de frente com o individualismo egoísta, que
luta por direitos e privilégios pessoais mais do que tudo.
Jesus convida à humilde servidão, não ao individualismo
assertivo. Ao invés de perguntar como podemos avançar, sa-
tisfazer nossas necessidades e subir ao topo, os discípulos
perguntam como podemos servir melhor aos outros.
A conversa contemporânea sobre “serviço” muitas vezes
fica aquém da forma de Jesus. Às vezes, usamos slogans de
serviço nem tanto para servir os outros, mas para seduzi-
-los a comprar produtos ou “serviços” que eles não precisam
realmente. Quando isso acontece, o chamado servo se tor-
na manipulador artístico. Ela ou ele se torna um agente de
publicidade, usando a linguagem de serviço para promover
interesses egoístas. Alguns profissionais no alto da escada de
status olham para seus clientes de uma perspectiva “de cima
para baixo”. Eles vão “servir” seus clientes, enquanto seu
serviço pagar bem em dinheiro e prestígio. Porém, quando
as necessidades do cliente vão contra os interesses do pro-
fissional, o “serviço” abruptamente termina. Não era esse
“serviço” egoísta que Jesus tinha em mente.
Em contraste, o servir de Jesus terminou na cruz. Ele es-
tava disposto a servir as necessidades dos enfermos no sába-
do, mesmo sob o risco de sua vida. Ele perdoou pecados, não
no templo, mas em caminhos empoeirados, rurais, onde tais

334
D REINO DE PONTA CABEÇA

palavras eram pura blasfêmia. O estilo de serviço de Jesus


não trouxe lucro nem prestígio social. Muito pelo contrário.
Seu serviço ultrajou as autoridades e provocou uma morte
violenta. Para Jesus, servir não significava fornecer algo para
os afortunados, que poderíam pagar preços elevados. Ele se
importava com aqueles que tinham necessidades genuínas,
independentemente do status.
Jesus serviu o “menor destes”, aqueles no fundo. Os me-
nores dos menores não podem pagar de volta. Servi-los pode
manchar a reputação de um profissional na comunidade
profissional. Afinal, apenas advogados, médicos e professo-
res incompetentes atendem aos estigmatizados; e só o fazem
se não puderem desenvolver uma prática lucrativa entre os
respeitáveis. Os discípulos de Jesus não se preocupam com
isso. Eles generosamente dão “apenas um copo de água fria
a um destes pequeninos” que têm pouco poder ou prestígio
social (Mt 10:42).
Em algumas histórias arrebatadoras, Jesus redefiniu a
grandeza. Porém, o que ele quer dizer? Como são os me-
nores entre nós os maiores no reino? Ele entende que a
grandeza social aumenta com o acesso ao poder. Conside-
ramos grandes aqueles com autoridade sobre os outros. O
presidente, o diretor executivo e o chefe de departamento
são aplaudidos - pela sociedade em geral, se não necessa-
riamente por seus subordinados.
Jesus está sugerindo que os porteiros, os diaristas, os tem-
porários, os fracos, os pobres e os estigmatizados sobem au-
tomaticamente para topo em seu reino? Ele está chamando
a uma inversão completa onde os primeiros colocados deste
mundo caem para o último degrau no reino de Deus? Cer-
tamente não. Em vez de virar a antiga hierarquia de cabeça
para baixo e fazer uma nova, Jesus questiona a necessidade
dela. Ele declara a hierarquia inconstitucional para seu povo.

335
DONALD 8. KRAYBIU

Além disso, propõe novos critérios para avaliar a grandeza.


Ao descrever João Batista, Jesus diz: “Eu digo que entre
os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que
João; todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele”
(Lc 7:28). O que significam essas palavras desconcertantes?
Entre as pessoas nascidas na carne, nenhuma é maior do que
João. Ele é o maior, o último dos profetas.
Porém no reino, entre os nascidos do Espírito, mesmo
o menor é maior do que João. Se o menor dos cidadãos do
reino é maior do que João, o resto é obviamente maior. Jesus
não está zombando do significado de João. Ele está apenas
dizendo que todo o nascido do Espírito é tão grande quanto
o maior profeta. Os olhos dele cintilam. Ele está argumen-
tando que no reino de ponta-cabeça, todo mundo é 0 maior!
Em suma, não existem pessoas pequenas neste reino.
Jesus está parodiando a linguagem do “maior e menor”.
Esse tipo de conversa não tem lugar nas conversas do reino.
Em vez de trocar uma antiga hierarquia por uma nova, Jesus
aplaina as hierarquias8. Ele entende que as hierarquias, mui-
to facilmente, começam a agir como divindades. Os seres
humanos se curvam, adoram e obedecem. Jesus, de uma vez
por todas,desfaz a autoridade das hierarquias em agir como
deuses. Ele nos chama a participar de um reino plano onde
todos são os maiores. Neste reino, os valores do serviço e da
compaixão substituem os do domínio e do comando. Nesta
família plana, os maiores são aqueles que ensinam e obe-
decem aos mandamentos de Deus (Mt 5:19)· Eles amam a
Deus e aos outros tanto quanto a si mesmos.
Não entenda errado. Jesus não está nos chamando à anar-
quia social - para lançar fora todas as regras da organização
social. Ele não dá uma receita para a desordem e confusão.
Os papéis e as regras sociais são essenciais e necessários para

336
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

uma vida humana feliz. Linhas claras de comunicação e co-


ordenação são necessárias nas organizações sociais das fa-
mílias às grandes corporações. Pessoas diferentes têm dons
diferentes, empregos diferentes e diferentes níveis de autori-
dade e responsabilidade. No entanto, em meio a essas redes
de responsabilidade, o povo do reino trata os outros e as suas
contribuições com dignidade, igualdade e respeito —reco-
nhecendo que aos olhos de Deus não há pessoas pequenas.
Todos são importantes.

O lhando de cima para baixo


Arrogância vem com poder e prestígio. Alguns que che-
gam ao topo dos reinos mundanos orgulham-se de seu su-
cesso. Eles se colocam no centro das atenções, ao sol das ce-
lebridades. Não é assim no novo reino.
Jesus conta a história de um homem em uma festa que
cuidadosamente inspeciona 0 prestígio de todos os lugares
a mesa. Ele escolhe um lugar distinto para exibir seu status.
Os assentos se enchem. Um convidado de prestígio chega
alguns minutos atrasado depois que todos os assentos supe-
riores estão cheios. O anfitrião pede ao convidado anterior
para tomar um assento humilde longe da mesa principal.
Embaraçado por seu rebaixamento ele deixa o assento.
E melhor, diz Jesus, escolher o assento inferior, a menos
que o mestre de cerimônias lhe determine um superior. A
inversão aparece novamente. “Pois todo o que se exalta será
humilhado, e 0 que se humilha será exaltado” (Lc 14:11).
Esta regra de ouro aparece depois da parábola do coletor de
impostos e fariseu altivo (Lc 18:14) e depois que Jesus re-
preende os fariseus por procurar status com roupas e títulos
(Mt 23:12).

337
DONALD B. KRAYBILL

O que significa esse enigma da humildade? Jesus não está


ensinando etiqueta para jantares. Ele está revelando coisas
maiores. Nossa tendência normal é buscar posições de honra.
Desfrutando de “oh” e “ah” de aprovação especial, acreditamos
que quanto mais para cima é melhor. Ao invés de endossar tal
voo ascendente, Jesus nos chama a nos movermos para baixo.
Ele nos pede para tomar os assentos no fundo. Seus discípulos
se entregam aos outros, cedendo alegremente os bons assentos.
Eles estão tão ocupados servindo às mesas, na verdade, que têm
pouco tempo para sentar. Servir, não brigar por assentos, é sua
ocupação. Aqueles que se exaltam terão um lugar ao fundo no
reino de Deus. Aqueles que confessam seu orgulho e servem si-
lenciosamente os outros são exaltados no reino de ponta-cabeça.
Contrariamente ao pensamento do reino, geralmente nós
olhamos de cima para baixo a escada social e desprezamos
aqueles abaixo de nós. Nós murmuramos, “Se eu consegui
chegar aqui, eles também conseguem. Se os pobres sim-
plesmente trabalhassem um pouco mais e fossem mais res-
ponsáveis, eles poderíam ascender por suas próprias pernas
também”. Os orgulhosos primeiros colocados muitas vezes
assumem que apenas seu trabalho duro e motivação os leva-
ram para o topo. Nós gostamos de pensar que nosso trabalho
duro é o único fator por trás de nosso sucesso. Na realida-
de, pelo menos sete fatores, de uma forma ou de outra, nos
colocam em um determinado degrau da vida social. Nós
controlamos alguns deles, mas muitos estão além de nosso
alcance. Uma mistura única de fatores - cultura, contexto,
providência, lugar e pessoas - esculpe nosso nicho especial.
Quais são esses fatores formativos?
• (1) Restrições biológicas moldam nosso lugar na vida.
Traços físicos, inteligência, níveis de energia, cor da
pele, sexo e algumas doenças são obviamente herda-
dos. Nós não os controlamos. Uma criança deficiente

338
0 BEING DE PONTA CABEÇA

não escolhe ser estigmatizada. Essas algemas genéti-


cas limitam alguns e favorecem outros.
• (2) Valores culturais também condicionam a nossa ex-
periência. Em algumas culturas, as crianças são en-
sinadas a trabalhar duro. Eles até mesmo gostam da
ideia. Em outros, 0 trabalho árduo é ridicularizado.
Quem trabalha duro mal consegue agradecer pela fe-
licidade dessa oportunidade, se eles nasceram em uma
cultura que lhes ensinou a apreciar o trabalho duro.
• (3) Motivação pessoal tem muitas vezes raízes biológi-
cas e culturais. A quantidade de determinação pes-
soai, desejo e pura persistência media o impacto de
outros fatores. A motivação pessoal pode nos ajudar
a superar certas barreiras. A falta dela pode levar ao
desespero diante de obstáculos.
• (4) Recursos da comunidade também fazem a diferença.
As cartas da vida favorecem às crianças nascidas em
comunidades de classe alta com empregos, escolas e
hospitais de alto nível. Não importa o quão duro elas
trabalhem, crianças mergulhadas em bairros pobres
enfrentam enormes obstáculos.
• (5) Estabilidade familiar também molda a composição
emocional de uma criança. A insegurança ao longo da
vida pode importunar as crianças de lares disfuncio-
nais. As crianças felizes largam na frente na corrida
da vida.
• (6) Herança fnanceira pode impulsionar uma criança
ao destaque. Algumas pessoas simplesmente nas-
cem ricas. Herdar um negócio, uma fortuna ou um
nome político impulsiona muitos a posições pode-
rosas que provavelmente nunca poderíam alcançar
por conta própria.

339
DONALG B. KRAYBILL

• (7) Acaso igualmente ajuda a modelar nosso nicho na


vida. Alguns se tornam ricos porque os preços dos
imóveis em sua região triplicaram da noite para o dia.
Outros perdem tudo por catástrofe social ou financei-
ra. Estar no lugar certo com as pessoas certas no mo-
mento certo pode fazer toda a diferença sem qualquer
ajuda de trabalho duro ou inteligência.
A influência e a combinação destes fatores variam muito.
Obviamente, não escolhemos nossos pais, nosso direito de
nascença, nossas comunidades ou nossas culturas. Muitos fa-
tores que moldam nosso lugar na vida estão, simplesmente,
além de nosso controle. Isso não significa que somos meros
robôs ou fantoches levados para cima e para baixo por for-
ças misteriosas. Escolhas e decisões moldam nossos destinos.
Motivação pessoal faz a diferença. O trabalho duro importa,
mas é um dentre muitos fatores.
Contrariamente ao mito do individualismo triunfante, a
ambição não é o único fator que explica o sucesso. O individua-
lismo gera um orgulho infundado em conquistas pessoais e des-
prezo por outros em degraus inferiores, que, muitas vezes,estão
lá por motivos alheios ao seu controle. Somente a arrogância
pode levar as pessoas a pensar que elas “conseguiram” apenas
por causa de seu trabalho duro. O individualismo arrogante
leva crédito pessoal por todas as conquistas, negligenciando o
papel de grilhões sociais e de berços de ouro. Para usar outra
imagem, nem todo mundo começa a corrida da vida na linha de
partida. Alguns ganham uma bela vantagem na largada outros
correm com uma perna só.
A cor da pele, por exemplo, pode ser uma fonte insidiosa
de status ou estigma. Em muitas sociedades, a pele clara é
melhor. Pessoas de pele clara têm privilégios especiais apenas
por causa de sua cor. Elas não têm que se preocupar com obs-
táculos para os trabalhos, casas ou seu próprio avanço por cau­

340
0 R E IN O D E F O N T S C A B E Ç A

sa de sua pigmentação. Em contraste, a dura corte da opinião


social retém os bebês de pele mais escura desde 0 momento
do nascimento. Esses julgamentos e práticas desagradáveis,
chamados de racismo, estigmatizam as pessoas pela cor de sua
pele e colocam obstáculos extras no caminho da vida.
Aqueles que se saem bem na corrida geralmente gostam
de citar a bênção de Deus em sua vida. Um espírito de gra-
tidão reflete adequadamente ações de graças sinceras pelo que
nos aconteceu. Porém, assumir descuidadamente que tudo em
nosso prato é um sinal da bênção de Deus implica que aqueles
com pratos vazios não têm nenhuma bênção celestial. Jesus foi
muito claro sobre isso. A chuva de Deus cai sobre os justos e in-
justos. O sol de Deus brilha sobre cada um todos os dias- sobre
os maus e sobre os bons (Mt 5:45). E, como já vimos, as aflições
e bênçãos entregues por Jesus surpreenderam a quase todos.
Olhar para baixo a escada social move os seguidores de
Jesus à compaixão. A humildade enche seu espírito. Eles
entendem que eles estão onde estão por causa de muitos fa-
tores diferentes. Eles também percebem que não é preguiça,
mas fatores sociais ou genéticos complexos que podem ter
prendido muitos dos que estão abaixo deles. Isso não anula
a importância da iniciativa pessoal, mas coloca a iniciati-
va pessoal em perspectiva como uma das muitas correntes
que influenciam nosso destino. Uma compreensão realista
de como chegamos a diferentes degraus na escada social tira
toda a arrogância e impulsiona o povo de Deus a compaixão
e compreensão empática.

P oder de ponta- cabeça


Jesus não era um rei típico. Não deu ordens a seus ge-
nerais nem ameaçou seus súditos. Ele não comandou uma
dinastia religiosa ou política. Nos organogramas, ele era

341
DONALD 8. KRAVBILL

impotente. Ele não comandou exércitos. Para os heróis ele


sustenta 0 jovem, o último e o menor. Ele aclama a criança,
0 servo e 0 escravo como cidadãos modelo. Ele se descreve
como gentil e humilde de coração, dizendo que Seu jugo é
suave e Seu fardo leve (Mt 11:29-30). Ele revela Sua verdade
aos bebês ao invés dos sábios intelectuais (Mt 11:25).
Ele era, no final das contas, um covarde, um frouxo sem
esperança? Não. Jesus não fugiu do poder. Na verdade Ele
exerceu uma grande parte dele. Se Ele permanecesse no deser-
to e ensinasse silenciosamente seus discípulos em uma caver-
na, Ele não teria ameaçado os poderes governantes. Embora
Ele não tivesse um lugar formal no poder, certamente não era
impotente. Longe disso. Jesus era tão poderoso, capaz de fazer
as coisas acontecerem tão rapidamente, que Ele foi morto. Seu
poder perturbava as autoridades religiosas e políticas.
Por que Jesus se tornou uma ameaça? Sua vida e sua mensa-
gem ameaçavam as autoridades políticas e religiosas. Designan-
do-se um servo, Ele criticou a busca de prestígio dos escribas.
Ele condenou os ricos por dominar os pobres. Ao desafiar a lei
oral e purgar o templo, ele atacou a cidadela do poder religioso.
Seu apelo à servidão ofereceu um modelo alternativo de poder.
Ele dificilmente era um político, mas o reino que anunciava
tinha implicações políticas. Esse era um movimento político
que prometia reordenar a vida social e religiosa9.
O reinado de Deus na vida de Jesus cortou os múscu-
los dos poderes estabelecidos10. As autoridades O mataram
porque não podiam lidar com a instabilidade política. Na
verdade, eles tinham que ter cuidado em como eles o remo-
veríam. Ele não tinha só um pequeno grupo de seguidores
devotos, mas atraía grandes multidões. Sua influência sobre
as massas era tão forte que as autoridades temiam a revolu-
ção. Se eles não O removessem com cuidado, teriam que li-
dar com uma revolta (Lc 22:2). Na verdade, eles prenderam

342
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Jesus na calada da noite para evitar um tumulto.


Jesus tinha poder, mas não o explorou. Ele escondeu sua
identidade messiânica para impedir que a multidão o de-
clarasse rei? Quando ele pensou que poderíam coroá-lo rei
a força fugiu para os montes (Jo 6:15). Seu poder sobre a
multidão não fluiu de posições formais ou credenciais. As
massas seguiam-no porque Ele tinha autoridade autêntica
legitimada por seu poder de realizar milagres e pela promes-
sa de um novo reino.
Jesus exibiu tanto poder especializado quanto pessoal. Seu
conhecimento da lei e suas penetrantes percepções espirituais
eram a base de seu poder especializado. Ele conhecia os segre-
dos do reino. O poder pessoal de Jesus não vinha do charme
físico, mas de Sua compaixão notável por todos. Ele não tinha
poder financeiro ou organizacional. Ele exercia poder através
da influência, não da coerção e do controle. Ele não era um
demagogo irracional. Ele contava histórias provocativas que
despertavam imaginações e viravam mundos sociais de pon-
ta-cabeça. Mesmo aqui Ele ganhou respeito através da influ-
ência racional, não de manipulação emocional11.
Jesus não tinha acesso a soldados. Ele não comandou um
exército. Nem podería usar aumentos de salário para esti-
mular seus seguidores. Ele simplesmente falou a verdade e
permitiu que os indivíduos fizessem escolhas livres. Ele se
descreveu como o Bom Pastor. Ele não perseguia ou dirigia
suas ovelhas, Ele as chamava. Aqueles que reconheciam Sua
voz seguiram (Jo 10: 4).
Jesus acrescentou atos poderosos à Sua palavra potente.
Ao quebrar normas sociais - curas no sábado, comer com
pecadores, conversar com mulheres, purgar o templo - Ele
anunciou um novo conjunto de valores em um novo reino12.
Eis aí um homem com a sabedoria de um profeta que violou

343
DONALD B.KRAYBILL

o costume social quando ele oprimia o povo e os mantinha


embaixo. Aqui estava um homem cujo poder não estava nas
ameaças coercitivas, mas em obediência radical ao reino de
Deus. Tal lealdade jogava para escanteio todos os outros
deuses. Jesus não estava prestes a saudar outro rei. Foi esta
entrega total ao reino de Deus, mesmo diante da cruz, que
assustou as autoridades.
A marca do poder de ponta-cabeça de Jesus era Seu de-
sejo de desprezar 0 que era legitimamente dele. Em vez de
imitar um rei típico, Jesus trabalhou de baixo para cima.
Em vez de exigir serviço, Ele serviu. Em vez de dominar,
Ele convidou. Como servo, garçom e zelador, ele ministrou
àqueles espalhados nos lixões da cidade. Os poderosos não
se divertiam. Eles estavam nervosos e responderam com seu
tipo de poder - uma cruz violenta.
Jesus não era impotente. Porém, Ele rejeitou a domina-
ção e a hierarquia na governança social. Dois fatores susten-
tam Seu uso do poder.
• (1) Influência, não controle, era seu modo primário.
Ele convida indivíduos a segui-lo. Suas palavras e atos
criam uma crise e nos convidam a fazer uma escolha,
uma decisão voluntária.
• (2) Ele usou o poder e mobilizou recursos para atender
às necessidades dos feridos e dos estigmatizados. Jesus
não usou 0 poder para a autoestima ou glória.
Desse modo, Ele voluntariamente suspendia Seus pró-
prios direitos e servia na parte mais baixa da escada. Desa-
fiando o costume social, Ele redefiniu os direitos e as expecta-
tivas sociais na nova ordem do reino de Deus.

344
0 R E M O D E PONTA C ABEÇA

De lá para cá
O que podemos aprender com a compreensão de Je-
sus sobre o poder? Para essa discussão, considere diver-
sas sugestões.
Devemos usar 0 poder para capacitar os outros’3. Esse é
o oposto do que normalmente acontece. O poder normal-
mente se torna uma bola de neve. Pessoas e instituições po-
derosas procuram cada vez mais poder, muitas vezes, à custa
dos outros. Os poderosos usam seu poder para protegê-lo e
perpetuá-lo. Os poderosos usam seu poder para ganhar mais
músculos. Consequentemente, o exercício do poder frequen-
temente aumenta as desigualdades de poder. A perspectiva
de ponta-cabeça usa o poder para capacitar os outros. Procura
fornecer aos outros os recursos para a autodeterminação. Isso
não significa que o poder é ruim ou deve ser descartado. Em
vez disso, ele deve ser usado para servir e capacitar outros.
Devemos distribuir o poder o mais amplamente possível.
O poder tende a gravitar para as mãos de alguns poucos.
Aqueles que estão no centro de uma organização têm mais
influência do que aqueles nas margens. Sempre haverá dife-
renciais de poder. Os cristãos, entretanto, trabalharão para
compartilhar e descentralizar o poder tanto quanto possível.
As pessoas do Reino também lutarão para minimizar a
hierarquia na governança social. A medida que as organi-
zações crescem, o número de degraus nas escadas sociais se
multiplica. Embora alguns degraus sejam necessários, deve-
ríamos encurtar as escadas tanto quanto possível. A medida
que isso acontece, a coordenação substitui a dominação. Re-
trair escadas é outra maneira de difundir o poder.
Os seguidores deveríam dar livremente a autoridade para a
liderança. A liderança não deve ser autonomeada nem impos-

345
DONALD B. KRAYBILL

ta a um grupo por uma agência externa. A liderança só é dig-


na de fidelidade quando os liderados a concedem livremente
ao líder em resposta à postura de servo que o líder adota.
A perspectiva cristã olha para baixo na escada. Muitas ve-
zes, queremos escalar e subir escadas o mais rápido possível.
Os discípulos de Jesus trabalham para servir aos impoten-
tes no lugar mais baixo da escada. Isso pode acontecer por
meio de formas diretas de ministério ou por remodelação
de estruturas sociais. À medida que adotamos o modelo da
postura de Jesus, ficamos mais preocupados com a situação
dos que estão no lugar mais baixo do que com o avanço de
nossa própria posição.
Historicamente, a igreja cristã, algumas vezes, perpetuou
sistemas de hierarquia e estratificação. Dentro da vida da igre-
ja, ocasionalmente santificamos, por meio de uma linguagem
piedosa, as cadeias de comando e camadas de dominação.
Embora nossas inclinações humanas construam pirâmides de
poder, Jesus não as abençoa, nem mesmo na igreja.
Uma coisa ainda é repetida: Este não é um chamado a
anarquia, desordem ou confusão. O poder não é intrinse-
camente errado ou mau. O problema aqui é como usá-lo.
Construímos impérios egoístas? Abusamos dos outros por
meio de nossos músculos sociais ou organizamos nossos re-
cursos para realmente servir aos outros? O Espírito de Deus
traz ordem à vida do povo de Deus. Porém, a busca pela
ordem não exige que adotemos cegamente estruturas secu-
lares. A maneira e a forma da vida corporativa da igreja, se
padronizadas pelos princípios do reino, provavelmente terão
um toque diferente de modelos burocráticos típicos.
Usaremos o consenso sempre que possível para confir-
mar as decisões. Isso incentiva a participação e a proprieda-
de coletiva. Todos os membros devem ter a oportunidade

346
0 REINO DE PONTA CABEÇA

de debater e ratificar as ações propostas por líderes servos.


O consenso pode não ser possível, mas as vozes dissidentes
merecem respeito. No entanto, considerando que um gru-
po corporativo é justo (caso contrário, testemunho profético
pode ser necessário), os indivíduos precisam ceder seus inte-
resses ao bem-estar geral do grupo corporativo.
O tamanho grande é 0 amigo da burocracia e da hierar-
quia. A tomada de decisão que envolve todos os membros
acontece melhor em grupos com menos de 150 pessoas. As
grandes congregações precisam de unidades menores para
permitir uma maior participação em sua vida corporativa,
ao invés de permitir que estruturas burocráticas se multi-
pliquem.
Uma liderança firme e decisiva é fundamental para a saú-
de e o bem-estar de um grupo grande. Porém, servos fir-
mes e decisivos podem liderar sem ditar metas e políticas.
Eles ajudam na realização de objetivos comuns, propondo
orientações e projetos para uma avaliação mais ampla. Ao
invés de declarar “Eu acho isso e eu acho aquilo”, os líderes
servos perguntam: “Para onde nós queremos ir?” “O que nós
estamos dizendo?” “O que nós estamos sentindo?” E “Como
nós podemos ser fiéis ao caminho de Jesus?”. Os líderes ser-
vos usarão seu poder para ajudar os membros a discernir a
vontade do Espírito para o grupo.
O Espírito Santo dá a cada um de nós dons e habilidades
únicas. Usamos esses dons de várias maneiras para construir
e ministrar a todo o corpo. Devemos igualmente estimar
cada contribuição, seja pregar, lavar janelas, cuidar de crian-
ças, gerenciar projetos, ou arrumar as cadeiras. Em um reino
plano, cada trabalho faz uma contribuição importante. Se
todos os empregos são importantes, eles devem ter remu-
nerações diferentes? O que dizemos a respeito do valor das
pessoas se fizermos uma distinção nítida em seu salário?

347
DONALD B. KRAYB1LL

Os títulos são estranhos ao corpo de Cristo. Termos como


Doutor e Reverendo perpetuam as diferenças de status em
prejuízo ao espírito de Cristo. Os títulos prestam homenagem
à posição, ao grau e ao status, não ao indivíduo como pessoa.
Membros de reinos planos chamam uns aos outros, como o
sinal do mais alto respeito pessoal, por seu primeiro nome.
Membros do Reino envolvidos em negócios, educação e
outros tipos de vida pública usarão sua influência para levar
as organizações em direção a uma estrutura mais plana. Os
cristãos em altos níveis de gestão e em papéis profissionais
procurarão expressar o poder através da atitude de servo, não
da dominação. A perspectiva de baixo para cima não significa
que os professores irão varrer o chão e os advogados vão engra-
xar sapatos. Há uma beleza em encontrar o ajuste adequado
entre habilidades pessoais e encaixe vocacional. Boas combi-
nações trazem satisfação pessoal e honram o reino de Deus.
Talvez a questão-chave seja como buscamos uma vocação
ou paixão particular. Um médico pode atuar em uma área
nobre, com um excesso de médicos. Ou ele pode desafiar o
apelo de mobilidade ascendente e trabalhar em uma comu-
nidade pobre por um salário módico. Um motorista de ca-
minhão pode ter salários elevados e viagens que atravessam
o país, mas separam e destroem sua família. Ou ele pode
aceitar carregamentos locais e passar mais tempo com sua fa-
mília. Uma empresária pode construir uma nova fábrica em
uma comunidade com mão-de-obra confiável e baixo desem-
prego, ou ela pode construir seu novo empreendimento em
uma área que precisa desesperadamente de novos empregos,
mas tem menos mão de obra qualificada.
Independentemente da vocação, lugar ou posição, os dis-
cípulos de Jesus perguntam o seguinte: Como podemos usar
nossos dons e recursos para servir o reino de Deus? Estamos
usando nossa posição e poder para perpetuar a desigualdade

3 «
0 REINO DE PONTA CABEÇA

e o nosso próprio avanço? Ou estamos usando-os para real-


mente servir os outros? Como nossa vocação e chamado aju-
dam a servir as prioridades do reino e honrar o seu Senhor?

349
CAPÍTUL011

FALHAS
BEM-
SUCEDIDAS
0 REINO DE PONTA CABEÇA

S ímbolos triplos
imos como Jesus conduziu um curso independente dos
partidos religiosos existentes na Palestina. Ele não en-
dossou os saduceus “realistas” trabalhando lado a lado com
os romanos. Ele desprezava os rituais da religião conven-
cional liderados pelos progressistas fariseus. A vida serena
de uma comunidade essênica também não o atraía. Como
observamos, Jesus disse um enfático não à violência revolu-
cionária dos rebeldes patriotas. Estas quatro respostas à do-
minação de Roma, Jesus rejeitou. O reino que Ele anunciou
evitou essas opções convencionais. Porém Jesus tinha um
reino e seu reino, como outros reinos, tinha uma bandeira.
Meros pedaços de pano, bandeiras geram emoções pro-
fundas e nos estimulam à ação. As bandeiras simbolizam os
significados sagrados e a identidade de um grupo ou de uma
nação. Nós nos importamos profundamente com os signifi-

353
DONALD B. KRAYBILL

cados por trás de nossas bandeiras. Nós explodimos em raiva


quando alguém as mancha ou queima. As bandeiras do reino
de ponta-cabeça são de cabeça para baixo de fato! Elas não
são aquelas que tipicamente tremulam ao lado direito de
reis. As bandeiras deste reino são uma manjedoura, estábulo,
burro, bacia, espinhos, cruz e túmulo. Estes não são os sinais
de reis bem-sucedidos nascidos em suítes de hospitais pro-
eminentes. Reis convencionais simbolizam seu poder com
limusines blindados, seguranças e coroas de ouro. Imagine
a surpresa quando Jesus disse que Seu reino era como uma
minúscula semente de mostarda, uma mulher caçando uma
moeda e um pastor desprezível procurando uma ovelha.
Porém não se engane. Jesus é Rei. Ele não entra em Jeru-
salém; Ele cavalga como um rei. Sua montaria, no entanto,
não é o garanhão branco de um comandante, mas o corcel
de um pobre homem —um burro. A profecia judaica vis-
lumbrou o jumento como uma montaria real para um rei
gentil e pacífico (Zc 9:9-10). Jesus vem como um rei, mas
um rei muito incomum e surpreendente. O burro é apenas
um dos vários símbolos do reino que emergem quando Jesus
se move em direção ao Gólgota.
A bacia, a cruz e o túmulo tornam-se sinais fundamentais
do novo reino. A cruz tem servido por muito tempo como o
símbolo proeminente —a bandeira —da igreja cristã. Olhar
somente para a cruz, no entanto, nos afasta de sua própria
razão de ser. Três símbolos de ponta-cabeça fluem juntos na
história do evangelho: a bacia, a cruz e o túmulo. A bacia
é realmente o símbolo cristão mais importante. O próprio
Jesus escolhe voluntariamente uma bacia para captar o sig-
nificado de seu ministério. A cruz é um símbolo romano,
um sinal áspero do poder do estado para executar crimino-
sos. Os poderes governantes usaram a cruz, um instrumento
de morte, para responder às iniciativas da bacia de Jesus.

354
0 R E IN O D £ P O N T A C A B E Ç A

Porém Deus tinha a última palavra com o túmulo vazio. Ele


permanece através das eras como um sinal do reinado de
Deus sobre as forças do mal.
Embora a crucificação tenha capturado a atenção cristã
ao longo dos séculos, a Ultima Ceia foi o grande momento
para Jesus. Naquela refeição dramática, Ele decretou o sig-
nificado de sua vida e ministério1. Jesus e seus discípulos
chegaram a Jerusalém durante a festa anual de peregrinos na
Páscoa. Este era o grande ritual que celebrava o êxodo dos
hebreus da escravidão no Egito. Mais tarde eles foram leva-
dos ao exílio novamente em Babilônia. Embora finalmente
retornassem à Palestina, muitos judeus na época de Jesus
ainda consideravam sua nação sob exílio devido à ocupação
romana. As celebrações da Páscoa despertavam memórias
da libertação da escravidão egípcia, bem como esperança de
liberdade da opressão de Roma.
Além de muitas festividades, a Páscoa centrava-se em
dois rituais: (1) matar um cordeiro sacrificial e aspergir seu
sangue no poderoso altar do templo como expiação pelo pe-
cado, e (2) comer uma refeição especial da Páscoa consistin-
do de cordeiro sacrificado e vinho. A refeição, consumida em
pequenos grupos dentro da cidade santa, incluía lembretes
litúrgicos sobre o poderoso êxodo do Egito e esperanças de
um messias que libertaria o povo do controle romano.
Jesus reuniu seus discípulos para a refeição ritual, mas
não foi uma ceia de Páscoa comum. Jesus encheu o momen-
to dramático com significados triplos. De fato, há várias ca-
madas de significado para esta ceia especial. Primeiro, esta
era uma refeição de Páscoa que relembrava todos os ricos
significados históricos de libertação e êxodo da escravidão.
Esta era uma refeição do Jubileu! Porém, provavelmente era
uma refeição ilegal sem o cordeiro sacrificial necessário.

355
DONALD B.KRAYBILL

S e g u n d o , a c e le b ra ç ã o d a re fe iç ã o e ra u m e v e n to p r o f é tic o
q u e a c o m p a n h o u a d r a m á tic a p u rific a ç ã o d o t e m p l o p o r J e -
su s u m d i a a n te s . C o m o v im o s n o c a p ítu lo o ito , J e s u s v iro u
as m e s a s d e tr o c a d e d i n h e i r o p a r a s im b o liz a r o fim d o s is te -
m a d e s a c rifíc io . A g o r a n o c e n á c u lo , d e fo r m a d r a m á tic a , E le
i n t r o d u z u m a a lt e r n a t iv a ao te m p lo . E le to m a u m p e d a ç o
d e p ã o , n ã o u m p e r n il d e c o r d e ir o , e d iz , c o m e f e ito , “I s to é
o m e u c o r p o , q u e p o r v ó s é d a d o ” . E n tã o e le p e g a u m a ta ç a
d e v in h o e d iz : “I s to é o m e u s a n g u e ... q u e é d e r r a m a d o e m
fa v o r d e m u i to s , p a r a p e r d ã o d e p e c a d o s ” .

N e sse s m o m e n to s d r a m á tic o s , E le re v ira to d o o s is te m a


sa c rificial - o fe re c e n d o p e r d ã o s e m u m c o rd e iro , s e m s a n g u e ,
lo n g e d o a lta r d o te m p lo . T ais d e c la ra ç õ e s s e ria m p u r a b ia s-
fê m ia aos o u v id o s d o s u m o sa c e rd o te . T al c e ia ile g a l e m u m a
n o ite s a n ta e m u m b e c o d a r u a se ria c e r ta m e n te u m a ú l t im a
ceia! R e a liz a r a re feiçã o im p r ó p r ia d e P ásco a foi p r o v a v e lm e n -
te u m a d a s m u ita s razões p e la s q u a is J e s u s foi p re so .

T e rc e iro , J e s u s c o n tin u a o d r a m a . “O R e in o d e D e u s e s tá
r o m p e n d o s o b re n ó s e n q u a n to E u falo. O m o m e n to d a re d e n -
ção e d a lib e rta ç ã o d e D e u s e s tá s o b re n ós. ” C o m p a la v ra s
a e s te e fe ito , E le a n u n c io u q u e e ra o tã o e s p e ra d o M e ssia s e,
a tra v é s d e S u a m o r te , q u e se a p r o x im a v a , u m a n o v a a lia n ç a
s u b s titu ir ia 0 s a n g u e n o a lta r sa c rific ia l” . O p e r d ã o — a q u a l-
q u e r h o ra e m q u a lq u e r lu g a r - já o fe re c id o e m se u m in is té r io ,
lo g o e s ta r ia d is p o n ív e l p a r a to d o s e m to d o s os lu g a re s .

L ib e rta ç ã o e p e r d ã o e r a m te m a s d o J u b i l e u q u e e c o a v a m
c o m e sp e ra n ç a s m e ssiâ n ic a s. A o o u v ire m esta s p a la v ra s n o ce-
n á c u lo , os d is c íp u lo s c e r ta m e n te im a g in a r a m u m g o lp e m i-
lita r. E les s e r ia m a tu a n te s n a d e r r u b a d a d o s ro m a n o s e eles
iria m o c u p a r lu g a re s p r o e m in e n te s n o n o v o re in o p o lític o .

E n tã o J e s u s os c h o c o u n o v a m e n te ! D e p o is d e c o m p a r ti-
lh a r o p ã o e o v in h o , E le p e g o u u m te r c e ir o s ím b o lo — u m a

356
0 REINO DE PONTA CABEÇA

bacia - e começou a lavar os pés. “Jesus... levantou-se da


mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cin-
tura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a
lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha
que estava em sua cintura.”(Jo 13:3-5). Pedro ficou tão sur-
preso que no início ele se recusou. Ao pegar a bacia, Jesus
deixou bem claro que os discípulos de seu reino não iriam
atacar o templo com punhais. Ele era um Messias de ponta-
-cabeça —um que carregava uma bacia, não um punhal.

A P olítica da B acia
A toalha e a bacia são as ferramentas do escravo2. Este Rei
de ponta-cabeça usa as ferramentas comuns do servo - não os
símbolos reais de espada, carruagem e garanhão. Era costume
na cultura palestina que um escravo doméstico lavasse os pés
dos convidados já que eles se reclinaram em sofás enquanto
comiam uma refeição. Como mestre de seus discípulos, Jesus
teria o direito normal de esperar que lavassem seus pés. Porém
Ele perde esses privilégios. Quando Jesus se ajoelha para lavar,
o discípulo senta-se no assento de poder do mestre.
Lavar os pés não é uma tarefa agradável. Significa curvar-
-se e enfrentar os pés empoeirados. O curvar-se simboliza o
serviço obediente, muito diferente da arrogante atitude de
“Eu sirvo se você me pagar bem”. As mãos do servo tocam os
pés salpicados de sujeira e lama. Normalmente, um mestre
lavava as próprias mãos e o rosto, mas não os pés cobertos
de sujeira. Esse era o trabalho sujo dos escravos. O escravo
se concentrava nos pés de seu mestre, ignorando sua própria
fome. Jesus se inclina e faz o trabalho sujo. Ninguém o for-
ça. Ele escolhe servir. Ele está disposto a aceitar ordens. A
toalha que ele usa é flexível. Ela dá cuidados pessoais, ajus-
tando-se ao tamanho do pé do outro.

357
DONA□ B. KRAYBILL

A toalha e a bacia foram chamadas de ferramentas e


agentes de shalomi . Não são meros símbolos decorativos
pendurados na parede. Elas são o meio pelo qual algo é real-
mente feito. Essas ferramentas do escravo definem nossa tro-
ca. Elas fazem o trabalho que um profissional ou um mestre
nunca faria. Essas ferramentas nos colocam na posição infe-
rior, servindo e elevando o outro como um superior. Nesse
simples ato, Jesus coloca velhas hierarquias sociais de cabeça
para baixo e as substitui por um novo valor: o serviço. À
medida que pegamos as ferramentas do serviço e lavamos
os pés do outro, a distinção entre senhor e servo desaparece.
Quando nos tornamos servos uns dos outros, todos nos tor-
namos grandes no reino plano de Deus.
Esta não era a primeira vez que o nosso Rei tinha tocado
fundo. O rei Jesus lavou os pés dos outros por toda a vida. O
comportamento da toalha e da bacia caracterizou toda a sua
missão. Durante três anos, Ele estava usando a bacia. Porém
não para excluir outros como fizeram os fariseus com seus
rituais de purificação. Nem como Pilatos, que usou uma ba-
cia para se livrar da responsabilidade pela morte de Jesus.
Ao contrário de Pilatos e os fariseus, a bacia de Jesus era um
sinal de amor e serviço. Ele assumiu a responsabilidade pe-
los outros e os acolheu no reino plano. Porém não se engane
- foi o trabalho de sua bacia que preparou o terreno para a
cruz. Foi de fato a política de seu ministério da bacia que o
levou a morte.
A cruz não caiu milagrosamente do céu. Jesus poderia
ter evitado isso suavizando Sua mensagem, permanecendo
fora de Jerusalém, ou não oferecendo perdão livre, mas Ele
não o fez. Ele, ousadamente, anunciou e decretou o reino de
Deus. A cruz era a reação natural das forças do mal à presen-
ça assertiva do serviço amoroso, sem considerar sexo, nação,
religião ou etnia. O árduo madeiro era a ferramenta violenta

358
0 RHINO DE PONTA CABEÇA

dos poderosos tentando esmagar o ministério de sua bacia.


Sem uma bacia, provavelmente não havería cruz. Em outras
palavras, devemos distinguir entre a cruz e 0 que conduziu
a ela4. A bacia e a cruz, bandeiras de dois reinos, mostram a
grande diferença em seus valores e métodos.
Já vimos a bacia em ação. Jesus irritou os ricos que opri-
miam os pobres. Ele curou e colheu grãos no sábado. Ele
comeu com pecadores e aceitou coletores de impostos. Ele
cometeu blasfêmia, chamando a Deus de Abba, seu papai, e
perdoando pecados sem um sacrifício. Ele violou e condenou
a lei oral. Ele recebeu 0 óleo derramado por uma prostitu-
ta. Ele viajava com as mulheres em público. Suas parábolas
pungiam líderes religiosos. Ele falava livremente com sarna-
ritanos e gentios. Ele curou os doentes. Ele abençoou os de-
samparados. Ele tocou leprosos. Ele entrou em casas pagãs.
Ele purgou o templo sagrado. Ele agitou grandes multidões.
Este era o Movimento de Jesus em ação. Esses atos, essas
políticas da bacia, O levaram diretamente à cruz. Esses eram
atos escandalosos que só podiam ser silenciados por uma ver-
gonhosa morte pública para provar que as autoridades ainda
estavam no comando.
Em quase todos os casos, Jesus desafiava os entendimen-
tos convencionais. Ele perturbou os pressupostos do piedo-
so. Ele usou ativamente a bacia e toalha para servir os inde-
fesos, independentemente do costume ou posição. Ele sabia
que tal comportamento desviante podería desencadear uma
cruz. Porém o assédio de oficiais e a ameaça de morte não
sufocavam Sua cruzada de amor.
Tal comportamento ameaçava os poderes entrincheirados.
Os chefes dos sacerdotes e os fariseus disseram: “Se o deixar-
mos, todos crerão nele, e então os romanos virão e tirarão
tanto o nosso lugar como a nossa nação.” (Jo 11:48). Muitas
acusações em seu julgamento eram falsas, mas não há dúvida

359
DONALD B. KRAYBILL

de que os líderes do sinédrio achavam que Seu ensino novo


quebraria a frágil paz estabelecida com Roma. Do mesmo
modo, Pilatos estava temendo que qualquer turbulência reli-
giosa perturbasse seu controle sobre a Palestina. Assim, lado
a lado, líderes religiosos e políticos se juntaram para executar
Jesus. Ele era mais perigoso do que Barrabás, o rebelde políti-
co. Em uma advertência a outros supostos messias, seus assas-
sinos zombaram dele com um sinal colocado na cruz —“Rei
dos Judeus”. A advertência era clara: Messias que perturbam
a paz vão ser pendurados e sangrar numa cruz.
O Movimento de Jesus não era uma cruzada de uma só
pessoa. Foi a inauguração de um reino com muitos discípu-
los-cidadãos. Assim, depois de lavar os pés dos discípulos
no cenáculo, Jesus os convidou a seguir seu exemplo: “Pois
bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os seus pés,
vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o
exemplo, para que vocês façam como lhes fiz.(Jo 13:14, 15).
Ele os convida a pegar suas bacias e se juntar ao movimento.
Jesus também nos convida a participar da troca da bacia.
Ele nos convida, no entanto, a mais do que um ritual ceri-
monial periódico. Ele nos convida a segui-lo com vidas de
serviço e pacificação. Ele nos chama a ser o povo da bacia,
não santos que se sentam em cadeiras de balanço ponderando
sobre os mistérios da salvação de Deus. A palavra e o aconte-
cimento tornam-se um em Jesus Cristo. A Palavra se tornou
carne e habitou entre nós. A facticidade de Jesus —Deus na
pele humana - revela a própria natureza de Deus. Encarna-
mos a Palavra quando usamos a bacia, quando agimos em
nome de Jesus. As palavras sem atos estão vazias. Atos do
ministério da bacia autenticam nossas palavras.
As Escrituras são claras. Os maiores discípulos do reino são
os que praticam e ensinam os mandamentos (Mt 5:19). “Nem
todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor! ’ Entrará no reino dos céus,

360
0 REINO DE PONTA CABEÇA

mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”
(Mt 7:21 ARC, ênfase adicionada). O julgamento final cias-
sifica as pessoas com base em como elas vestem, alimentam,
visitam e acolhem aos outros (Mt 25:31-46). Os membros da
família de Deus são aqueles que fazem a Sua vontade (Mc 3:35).
Jesus compara aquele que ouve e age em Suas palavras a
um homem sábio. “Por que” Ele pergunta, “vocês me cha-
mam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem 0 que eu digo??” (Lc
6:46). Jesus diz ao mestre da lei que ele viverá se cumprir o
Grande Mandamento (Lc 10:28ARC). Depois de contar a
história do Bom Samaritano, Jesus nos instrui a ir e fazer o
mesmo (Lc 10:37). Em forma de parábola, Jesus nos diz que
o servo que conhece a vontade de seu mestre, mas não o fa z,
receberá uma severa surra (Lc 12:47, ênfase adicionada nos
versículos acima). Este chamado a um ministério ativo da
bacia permeia os Evangelhos. Somos convidados a vender,
dar, amar, perdoar, emprestar, ensinar, servir e ir. Há apenas
uma advertência: Iniciativas da bacia são caras.

D ecisões caras
“Jesus dizia a todos: “Se alguém quiser acom-
panhar-me, negue-se a si mesmo, tome dia-
riamente a sua cruz e siga-me. Pois quem
quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem
perder a sua vida por minha causa, este a sal-
vará. Pois que adianta ao homem ganhar o
mundo inteiro e perder-se ou destruir a si
mesmo? Se alguém se envergonhar de mim
e das minhas palavras, o Filho do homem se
envergonhará dele quando vier em sua gló-
ria e na glória do Pai e dos santos anjos”(Lc
9:23-26)

361
D O N A L D B . K R A Y B iL L

Durante muitos anos, presumi que uma cruz era um sím-


bolo de sofrimento - sofrimento pessoal que eu precisava
suportar. Eu via tragédia, acidente, deficiência genética ou
doença física como uma cruz. A cruz era algo que eu não po-
dia evitar; algo que, segundo a divina providência de Deus,
tinha caído sobre mim. Como discípulo de Jesus, suportar
minha cruz significava aceitar minha tragédia - suportar
meus sofrimentos sem queixas ou amargura.
Não entenda errado. Deus caminha conosco através de
tragédias pessoais. O Deus que conta cada fio de cabelo em
nossas cabeças certamente deve contar cada lágrima. Na
verdade, o sofrimento de Jesus é um distintivo-chave da fé
cristã porque demonstra que Deus é mais do que uma força
mística que transcende a dor deste mundo. Deus também
sofre. Deus entende e caminha conosco pelo vale da dor e do
sofrimento. A cruz pode ser um símbolo da participação de
Deus em tal sofrimento.
Porém, pensar primariamente que carregamos uma cruz
através da dor pessoal distorce o seu significado5. Uma cruz
não é algo que Deus nos coloca. Não é um acidente ou tra-
gédia além do nosso controle. Uma cruz é algo que escolhe-
mos deliberadamente. Podemos decidir se queremos aceitar
uma cruz ou não. O uso de Jesus das palavras, “Se alguém”,
implica uma escolha livre e deliberada. A cruz para Jesus
não era algo que Deus lhe impusesse. A cruz foi o resultado
natural, legal e político do Seu ministério da bacia.
Muito antes do Getsêmani, Jesus percebeu que uma
cruz seguiria seu ministério da bacia. Ele repetidamente
adverte seus discípulos que Ele acabará por sofrer e morrer.
Mesmo no Getsêmani o apelo “passa de mim este cálice”
não é uma luta para aceitar um plano predeterminado. É
uma luta sobre viver 0 caminho do amor, mesmo no desti-
no pendente da destruição. E uma tentação a fugir, lutar e

362
0 REINO DE PONTA CABEÇA

retaliar diante da feia cruz. Apesar dessas tentações, Jesus


acolhe ficar em Jerusalém e enfrentar os ásperos gritos de
“crucificá-O, crucificá-O”.
Ver a cruz como algo menos do que uma escolha transfor-
ma numa farsa a tentação de Jesus no deserto. Além disso,
torna-O um fantoche que não pensa e torna toda a Sua vida
irrelevante. Isso também implica que um deus irado mata
um filho apenas para satisfazer a própria necessidade de san-
gue sacrificial6. Ironicamente isso está longe da imagem do
Deus compassivo retratado por Jesus ao longo dos Evange-
lhos. Além disso, e duplamente irônico, Jesus destruiu todo
o sistema sacrifical quando anunciou o pleno perdão, direto
de Deus -a qualquer hora, em qualquer lugar sem uma ofer-
ta de sangue. A metáfora do sacrifício nos dá uma maneira
de ver a morte de Jesus, porém ela não vem dos lábios de
Jesus, mas de líderes da igreja que anos depois usaram essa
metáfora para interpretar Sua morte —depois do fato.
Uma cruz é uma decisão cara. Tem consequências sociais
dispendiosas. Podemos parafrasear Jesus dizendo: “Tome sua
bacia com a plena consciência de que pode trazer sofrimen-
to, rejeição, punição e aparente fracasso”. Jesus esclarece as
consequências sociais de tomar a cruz de três maneiras. Pri-
meiro, devemos estar dispostos a negar a ambição pessoal
quando tomamos uma cruz. Os valores de nossa sociedade
podem aplaudir ganho egoísta, poder político e fortuna in-
dividual. Negar a nós mesmos não significa menosprezar ou
humilhar nosso eu, entretanto isso significa recusar-se a per-
mitir que os valores da cultura popular dominante moldem
nosso chamado, nossa vocação, nossa ambição.
Segundo, Jesus diz que se seguirmos o Seu caminho, pode
parecer que “perdemos” nossas vidas neste mundo. Podemos
parecer como fracassos sociais se nos empenharmos em sig-
nificativos ministérios da bacia. Uma vez que as ferramentas

363
DONALD B. KRAYBILL

do nosso trabalho são as ferramentas de um escravo, e os es-


cravos são considerados fracassos, podemos às vezes parecer
ter “perdido” nossas vidas segundo os padrões deste mundo.
As palavras de Jesus articulam a inversão mais fundamental
do reino de ponta-cabeça. Ele diz, em essência, que se pegar-
mos uma bacia e uma toalha por causa Dele, o mundo pode
nos menosprezar. Por outro lado, se jogarmos pelas regras
do jogo deste mundo e servirmos aos ídolos deste mundo,
podemos perder nossas vidas no reino de Deus. Tentando
salvar nossa vida, podemos perdê-la. Dando a nossa vida em
serviço amoroso, podemos encontrá-la.
Jesus indica a terceira consequência social de tomar a
cruz quando fala sobre vergonha. A vergonha é um conceito
social. Ele observa que podemos ter vergonha de participar
de um ministério de bacias que abala as correntes sociais
predominantes. Podemos por um tempo usar nossa toalha e
bacia,mas ser ridicularizado pode nos tentar a colocá-las de
lado e jogar pelas regras antigas. Então Jesus conclui dizen-
do que, se estamos envergonhados Dele e de Suas palavras,
assim também Deus se envergonhará de nós quando Deus
vier em plena glória (Lc 9:26). Mateus resume assim: “Mas
aquele que me negar diante dos homens, eu também o nega-
rei diante do meu Pai que está nos céus.” (Mt 10:33). O galo
lembrou a Pedro disso alguns dias depois. E o galo canta vez
após vez sempre que os futuros discípulos negam Jesus em
palavras ou ações.
Essas pistas apontam para o fato de que Jesus não estava
falando principalmente sobre uma cruz interior, espiritual
ou mística. Nem estava falando de acidentes ou deficiências
genéticas. Ele estava descrevendo decisões caras, decisões
com consequências sociais reais (Lc 9:23). Ele estava falando
sobre as decisões de entrar em Jerusalém e decretar parábo-
las dramáticas de julgamento no pátio do templo debaixo do

364
0 REINO □Ε PONTA CABEÇA

nariz do sumo sacerdote. Tais decisões, tais cruzes, são caras


porque trazem consequências políticas.

A nálise de custos
A vida de discipulado era um compromisso sério para
Jesus. Ele rompeu todas as outras lealdades e laços. “Da mes-
ma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que
possui não pode ser meu discípulo.” (Lc 14:33). Ele enten-
deu que o caminho da bacia era caro. Ele temia que os en-
tusiastas que se achegavam pudessem desconsiderar o custo
de segui-lo. Então, um dia, quando os entusiastas estavam
surgindo atrás Dele, Ele contou duas parábolas para ressaltar
o custo (Lc 14:25-33).
Um fazendeiro constrói uma torre magnífica. Ele se senta
e calcula o preço dos materiais antes de começar a construir.
Porém, se depois que ele começar, seus recursos acabarem, os
vizinhos zombarão dele e ridicularizarão sua estupidez. Da
mesma forma, os discípulos que não levam em conta cui-
dadosamente o custo antes de dizer “sim” a Jesus parecerão
tolos se quebrarem sua promessa mais tarde.
Na segunda história, um rei se prepara para a batalha
com outro rei. Ele se senta e calcula a força do exército ad-
versário para ver se ele tem uma chance razoável de vencer.
Se ele calcular mal a força do adversário e entrar na batalha
com poucos soldados, seu exército será esmagado. Os disci-
pulos também devem calcular o custo real de seguir Jesus
antes de iniciar a jornada.
De fato, Jesus desencorajou alguns seguidores do tempo
ameno. Em uma ocasião um entusiasta de olhos brilhantes
correu e pediu para se juntar à multidão de discípulos. Jesus
lembrou-lhe que a vida de um discípulo pode trazer insegu­

365
DONALD B. KRAYBILL

rança e ostracismo social porque até mesmo “Filho do homem


não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9:58). Em outro exem-
pio, Jesus convida alguém a segui-lo, mas o candidato quer ir
para casa para uma cerimônia de luto de seis dias por seu pai
que morreu. Jesus diz a ele para vir imediatamente, proclamar
o reino, e deixar os mortos enterrarem os mortos (Lc 9:60).
Outro candidato potencial queria ir para casa para dizer
adeus. Jesus recordou: “Ninguém que põe a mão no arado e
olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9:62). Uma
mão guia o leve arado palestino7. A outra mão, normalmen-
te a direita, carrega um longo bastão com uma ponta afiada
para cutucar e corrigir a direção dos bois. A mão esquerda
regula a profundidade do arado, levanta-0 para desviar das
rochas, e mantém-no reto. O fazendeiro observa continua-
mente as pernas dos bois para manter o sulco à vista. Um
fazendeiro que perde o foco termina ziguezagueando em
círculos pelo campo. Tal confusão aguarda o discípulo que
não está totalmente absorvido nos ministérios da bacia.
Em todos esses casos, Jesus está dizendo três coisas. Pri-
meiro, segui-Lo será socialmente caro. Quando os discípu-
los decidiram seguir Jesus, “deixaram tudo” (Lc 5:11, 28).
Segundo, Ele espera que os futuros discípulos se sentem e
calculem o custo de segui-Lo antes de decidir. Caso con-
trário, eles acabarão ridicularizados, confusos e devastados.
Terceiro, a vida no reino requer uma singularidade de foco e
energia. E um trabalho em tempo integral que requer dedi-
cação em tempo integral.
Nenhum oba-oba está envolvido aqui. Os discípulos se-
guem 0 caminho de Jesus, plenamente conscientes, de que
podem enfrentar resistência. Nós deliberadamente amamos
e servimos, mesmo que isso nos ridicularize. Escolher a cruz
significa que nos envolvemos em um ministério de bacia
ativa sabendo que, às vezes, isso pode nos trazer rejeição.

366
0 REINO DE PONTA CABEÇA

A natureza da cruz e suas consequências dependem do con-


texto social e político. O mesmo ato de amor em um contexto
político pode trazer sorrisos - mas em outro país a prisão, a
tortura, ou mesmo a morte. Independentemente da respos-
ta, os discípulos do Jesus, de ponta-cabeça, não retaliam com
violência. Eles procuram, em vez disso, uma terceira opção
que estenda respeito e amor mesmo aos inimigos.
Levar a cruz não é uma decisão única. É uma avaliação
diária de nossa disposição para tomar decisões caras por cau-
sa de Cristo. Vez após vez, dia após dia, vem o chamado: E
aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser
meu discípulo”(Lc 14:27). “e quem não toma a sua cruz e
não me segue, não é digno de mim” (Mt 10:38).
Seguir o caminho de Jesus não significa andar descalço,
permanecer celibatário, pastorear ovelhas ou acampar em
áreas rurais. Não estamos falando de usar sandálias e pescar
com redes. Nós O seguimos ao nos envolvermos nos minis-
térios da bacia que incorporam valores do reino. Nós segui-
mos fazendo decisões caras.
A substância da fé cristã está no nosso desejo de andar
no caminho de Jesus. Discipulado caro não é uma fé macia
que adora os deuses culturais do sucesso. Basta seguir Jesus
— nos dizem —e teremos sucesso em quase tudo. Apenas
entreguem seus corações a ele, nós ouvimos, e subiremos
para o topo da escada. Seja “nascido de novo” e ganhará mais
concursos de beleza, vencerá mais jogos, fará mais vendas e
receberá mais prêmios. Tal discurso apenas reveste antigos
valores sociais com uma crosta religiosa açucarada.
Em contraste, Jesus nos chama ao discipulado dispendio-
so —a decisões dispendiosas. Seguir Jesus significa não ape-
nas mudar hábitos e práticas pessoais, mas voltar-se para uma
nova maneira de pensar. Esta nova lógica do reino contesta

367
DONALD B. KRAYBILL

muito do que nós tomamos por certo. Jesus pede uma refor-
ma dos valores, do comportamento e do pensamento. Seguir
Jesus, ser convertido, significa dar meia-volta e unir-se a uma
comunidade ancorada nas normas e valores do reino.
Isso fica claro quando Jesus diz que Seus seguidores po-
dem parecer ter perdido suas vidas neste mundo. Nossa ten-
tação primordial é salvar nossas vidas em ambos os sistemas.
Queremos salvar nossa vida neste mundo e no reino de Deus.
Queremos ter sucesso segundo padrões seculares e segundo
os valores do reino. Vencer segundo os reinos deste mundo
muitas vezes exige acomodação e compromisso. Jesus dese-
nha Lima linha dura quando diz que aqueles que se esforçam
para salvar suas vidas podem perdê-las —podem perceber
suas vidas evaporando. Entretanto, aqueles que perdem stias
vidas nos ministérios da bacia podem descobrir novas ale-
grias e vida eterna.
Em meio a essa conversa dura, uma grande palavra de
esperança brilha. A cruz não é a última palavra. É apenas o
passo do meio na sequência tripla da bacia, a cruz e o túmu-
10. Felizmente a cruz não é o símbolo da derrota que parece
ser. Além da Escritura, temos poucos detalhes da história da
ressurreição. O que sabemos é que a igreja primitiva foi for-
talecida e energizada pelo túrmilo vazio. Nas cartas de Paulo
e em outros documentos da igreja primitiva, é a realidade da
ressurreição que persuade completamente a igreja apostólica
de que Jesus de fato era o Messias. A ressurreição assegurou-
-lhes, sem dúvida, que a nova era do reino de Deus rompera
sobre eles com suas boas novas para gentios e judeus8.
A palavra final de Deus é o túmulo vazio. A cruz revela o
poder desagradável do mal com toda a sua brutalidade e vio-
lência. A ressurreição revela a vitória não violenta de Deus
sobre os principados das trevas. Com a sepultura vazia em
foco, os cristãos podem viver com esperança, sabendo que

368
0 REINO DE PONTA CABEÇA

Deus triunfou sobre os poderes do pecado. Com esperança,


agora pegamos bacias que podem trazer cruzes. A luz brilha
no final do túnel. Além disso, temos força para sofrer diante
do mal porque o túmulo vazio sinaliza o amor e o cuidado
firmes de Deus.

A COMUNIDADE DE PONTA‫ ־‬CABEÇA


O poder do reino de ponta-cabeça está na vida corpo-
rativa de seus cidadãos9. Os ensinamentos de Jesus sobre
riquezas, poder e compaixão pressupõem que seu povo com-
partilha uma vida juntos. A vida do Reino significa fazer as
coisas de Deus juntos. Jesus teria causado pouca ameaça sem
uma comunidade de seguidores. Um vagabundo vagando,
usando dizeres sábios não ameaça a ordem estabelecida.
Deixando para trás ambições pessoais, os cidadãos do
reino usam seus dons para enfeitar e enriquecer o corpo de
Cristo. Uma comunidade em forma de corpo, eles encarnam
o reino vivificante de Deus em meio a culturas inclinadas à
violência, destruição e morte. Jesus nos chama a uma comu-
nidade de discipulado, a uma cultura de discipulado à me-
dida que damos testemunho corporativo do amor de Deus.
A vida congregacional diminui, às vezes, para pouco
mais do que frequentar uma hora do culto de adoração.
Muitas pressões competem pelo nosso tempo, fidelidade
e dinheiro. Envolvimento em assuntos cívicos, profissões,
passatempo ou lazer se interpõe em nosso compromisso
com a igreja. A participação na vida congregacional tor-
na-se uma das muitas opções se, na verdade, temos algum
tempo de “sobra”. O chamado de Jesus ao discipulado ele-
va a vida corporativa do seu povo acima de outros com-
promissos. Independentemente do tamanho ou forma de
nosso corpo de Cristo local, não deve ser o reboque entre

369
DONALD B. KRAYBILL

os nossos compromissos; ele deve impulsionar e energizar


todos os nossos envolvimentos.
A tarefa de reconstruir a igreja é um mandato novo e ur-
gente para cada geração. Criar uma vida corporativa baseada
em valores do reino é mais crítico do que encontrar todas as
respostas certas para as questões políticas e econômicas urgen-
tes de nossos dias. A criação da comunidade cristã é um ato
político em si, uma vez que representa uma nova realidade
social distinta. Como um estudioso declara categoricamente:
“Esta é a revolução original; a criação de uma comunidade
distinta com seu próprio conjunto de valores desviantes”10.
Esta é a criação de uma comunidade de contracultura, uma
nova banda que marcha de acordo com uma batida diferente.
Quando é fiel à sua missão —estar no mundo, mas não
dele - a igreja é uma minoria profética, uma subcultura al-
ternativa. Jesus nos chama a ser sal e luz no mundo. Como sal
e luz, a comunidade de discípulos que compartilha seu nome
e carrega sua cruz, enriquece a cultura maior. Estas imagens
de Jesus simbolizam uma subcultura distinta, uma realidade
social alternativa. Os cidadãos do novo reino têm uma visão
diferente, um conjunto diferente de valores. Eles prometem
fidelidade a um rei diferente. E às vezes essa fidelidade signi-
fica que eles vão navegar contra os ventos sociais dominantes.
A participação na comunidade cristã sustenta e suporta
nosso bem-estar espiritual e emocional. Seguir uma batida
diferente exige um círculo de irmãos espirituais que fornecem
apoio e cuidados mútuos. Diferentes partes do corpo servem
uns aos outros em momentos de necessidade especial. Como
membros uns dos outros, precisamos do cuidado mútuo por
nossas necessidades espirituais, bem como sociais e materiais.
A comunidade de discípulos oferece um testemunho cor-
porativo do amor e da graça de Deus. Sem uma comunidade,

370
0 REINO DE PONTA CABEÇA

o discípulo solitário parece como apenas outro “que faz o


bem”. O testemunho de amor e cuidado corporativo sinaliza
o reino de Deus em meio a culturas cheias de malícia, amea-
ça e medo. A comunidade cristã encarna o desígnio de Deus
para a integridade humana, completude e shalom. Torna-se
nossa base para discernir os tempos, afirmando nossos dons
pessoais e capacitando-nos para o ministério.
Os tipos de testemunho do reino irão variar. Em alguns
casos, as comunidades cristãs podem desenvolver e operar seus
ministérios. Muitos discípulos encarnarão os valores do novo
reino através do ministério cristão e de agências de serviço.
Outras pessoas do reino fornecerão serviços sociais e legais aos
necessitados sob vários guarda-chuvas institucionais.
Os cidadãos do Reino também participarão nos mundos da
política, da profissão e do comércio, desde que possam perse-
guir fielmente as agendas de ponta-cabeça. Muitos discípulos
testemunharão os caminhos de ponta-cabeça de Jesus em seu
trabalho diário e em sua vida familiar. Outros irmãos cristãos
se engajarão em projetos que testemunham contra o abuso
dos direitos humanos, 0 militarismo, a injustiça econômica, o
racismo, o sexismo e outras formas de opressão.
Independentemente do tempo ou local, os cidadãos no
reino de ponta-cabeça sempre juram sua fidelidade à bandeira
do Rei Jesus. Eles sempre estarão mais preocupados em fazer
justiça para os outros do que exigir isso para si mesmos.
A questão crítica não envolve encontrar a estratégia
perfeita. A questão primordial é esta: estamos dispostos a
abraçar um ministério de bacias - dispostos a dedicar nossas
energias ao serviço de nosso Rei? Mais importante do que as
estratégias finamente aperfeiçoadas é o serviço compassivo
que flui de uma experiência vital de adoração e oração dentro
da comunidade cristã. Finalmente, todas as formas de teste­

371
DONALD B. KBAYBILL

munho devem apontar os outros, não para nós mesmos ou


para a igreja. Elas devem apontar em última instância para
Jesus, nosso Salvador e Senhor.

H ábitos da C omunidade do R eino


Como membros do reino, levamos a nossa cidadania de
ponta-cabeça a sério. Porém também sabemos rir. Nós pro-
vamos a graça de Deus. Sabemos que a nossa esperança eter-
na não depende de um discipulado de cara fechada. Levamos
nossas cruzes a sério. No entanto, também rimos. Desde que
a graça de Deus tocou nossas vidas e aqueceu nossos corações,
nós podemos rir de nós mesmos e de nossos fracos esforços.
Entendemos que, como de costume, a verdade está no seio da
graça - em algum lugar entre as exigências do discipulado e
o prazer alegre que flui do espírito de misericórdia de Deus.
A vida corporativa do povo de Deus será visível e prática.
Nós somos aqueles que se envolvem na partilha conspícua.
Nós praticamos o Jubileu. A generosidade substitui o consu-
mo e a acumulação. Nossa fé abana nosso bolso. Damos sem
esperar um retorno. Perdoamos liberalmente como Deus nos
perdoou. Nós negligenciamos os sinais do estigma que es-
tão pendurados no pescoço daqueles não amados. A genuína
compaixão pelos pobres e destituídos nos move. Olhamos
para baixo e descemos a escada. Nós não levamos as nossas
próprias estruturas religiosas muito a sério porque sabemos
que Jesus é Senhor e Mestre dos costumes religiosos. Servi-
mos em vez de dominar. Convidamos, em vez de coagir.
O amor substitui o ódio entre nós. Shalom vence a vingança.
Nós amamos até mesmo os inimigos. Bacias substituem espa-
das em nossa sociedade. Nós compartilhamos poder, amamos
assertivamente, e fazemos a paz. Nós nivelamos hierarquias
e nos comportamos como crianças. A compaixão substitui a

372
0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA

ambição pessoal entre nós. Igualdade ofusca concorrência e re-


alização. A obediência a Jesus apaga o encanto do mundo. As
estruturas dos servos substituem as rígidas burocracias. Nós
nos chamamos pelo nosso primeiro nome, porque temos um
Mestre e um Senhor, Jesus Cristo. Nos unimos em uma vida
comum para adoração e apoio. Ali discernimos os tempos e as
questões. Na vida comum, descobrimos a direção do Espírito
para nossos ministérios individuais e corporativos.
Generosidade, Jubileu, misericórdia e compaixão —estas
são as marcas da nova comunidade. Liberados do domínio
dos reinos “de cabeça para cima”, saudamos um novo Rei e
cantamos uma nova canção. Nós transcendemos fronteiras
terrestres, limites e passaportes. Prometemos fidelidade a
um novo e já presente reino.

Prometemos fidelidade ao Senhor


Do reino mundial de Deus
E aos valores
Para o qual ele permanece -
Um reino, sob Deus,
Com compaixão e perdão
para todos.

Nós vivemos em um futuro que já está sobre nós. Somos


nós que víramos o mundo de ponta-cabeça porque sabemos
que existe outro Rei chamado Jesus. Como filhos do Altíssi-
mo, recebemos o reinado de Deus em nossa vida corporativa
todos os dias. Nas palavras de Jesus, nós proclamamos: “Ve-
nha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como
no céu”. Pois é de fato o Reino de Deus, o poder de Deus e a
glória de Deus para todo o sempre. Amém.

373
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

NOTAS
Capítulo 1 : P ara baixo é para cima
1. Jeremias (1971: 97) ressalta que os termos reino de Deus e reino dos céus têm
um significado idêntico. Os estudiosos do Novo Testamento geralmente
concordam com a centralidade e a saliência do tema do reino no ensinamento
de Jesus. Veja, por exemplo, Borg e W right (1999: 33-36), Crossan (1992:
265-266), Vermes (2001: 215-224) e W right (1999: 34-35). Crossan (1992:
457-60) fornece um inventário detalhado de ditados do reino nos evangelhos
e outros documentos de origem. Em um estudo provocativo, Sheehan (1986)
propõe que a essência do reino foi distorcida porque a igreja primitiva transfer-
mou o reino em uma outra religião - o Cristianismo.

2. Verhey (1984) explora o tema da “Grande Inversão” em um excelente estudo


da ética e do Novo Testamento. Sua interpretação da inversão social nos Evan-
gelhos, embora desenvolvida independentemente do meu trabalho, coincide
em muitos aspectos com a perspectiva deste livro. Para outras discussões sobre
o tema da reversão nos Evangelhos, consulte Herzog (1994), Neyrey (1991b:
296-301) e Sanders (1995: 196-204).

3. Esta é essencialmente a posição assumida e mais plenamente desenvolvida


em Yoder (1994: 11). Em suas palavras, Jesus é "não apenas relevante, mas
também normativo para uma ética social cristã contemporânea”. Para uma
análise dos pontos de vista éticos de Yoder, veja Carter (2001).

375
DONALD B. KRAYBILL

4. Jeremias (1971: 98). Discussões úreis sobre a história da erudição que trata
do reino de Deus podem ser encontradas em Chilton (1984: 1-26), Chilton e
McDonald (1987), Riches (1982: 87-111) e Sanders (1985: 244).

5. Verhey (1984: 13).

6. Em seu livro, Excavating Jesus (em tradução livre"Escavando Jesus”), Crossan


e Reed (2001) combinam as descobertas da crítica textual e da arqueologia
para descobrir novas evidências sobre Jesus de ambos os campos.

7. O cítulo do livro de Vermes (2001) é The Changing Faces of Jesus (em tra-
dução livre "As diferentes faces de Jesus”). Os Evangelhos incluem diferentes
camadas ou estratos de material histórico: as palavras de Jesus, as opiniões dos
redatores, as tradições orais e as influências das comunidades cristãs primitivas.
Os respectivos editores dos Evangelhos, naturalmente, oferecem diferentes
inclinações, diferentes visões, de Jesus. Embora eu esteja ciente da multidão
de interesses que moldam o texto histórico, estou principalmente interessado
no rosto sinóptico de Jesus como melhor podemos vê-lo. Concentrar-se no seu
rosto sinóptico é menos sensível às nuances dos editores em particular, mas,
capta a essência da sua mensagem.

8. O tempo do reino e seu caráter escatológico têm sido abordados por numero-
sos estudiosos. Para ter exemplos veja Chilton e McDonald (1987), Hiers (1970,
1973), Ladd (1974a, 1974b), Pannenberg (1969), Perrin (1963, 1976), Sanders
(1995: 169-188), Vermes (2001: 217 -220), e W right (1996: 198-228).

9· Schweitzer (1922), em seu clássico estudo, The Quest of the HistoricalJesus


(em tradução livre "A busca pelo Jesus histórico”), publicado pela primeira vez
em 1906, argumentou que a visão apocalíptica de Jesus moldou sua instrução
ética. Alguns defensores da interpretação apocalíptica de Schweitzer incluem
Hiers (I97O, 1973) e Sanders (1975). Herzog (1994: 30-39) faz uma distinção
entre anacronizar e modernizar Jesus em sua crítica aos estudos anteriores do
Jesus histórico que o consideravam irrelevante para a ética social. Para uma
revisão completa da pesquisa acadêmica do Jesus histórico, veja o estudo abran-
gente de Allen (1998).

10. O teólogo britânico, Dodd (1936), foi um dos primeiros defensores deste
ponto de vista, muitas vezes chamado de "escatologia realizada”. Crossan (1992:
282-283, 287-288) enfatiza que o reino de que Jesus falou era “aqui e agora”.

11. Borg e W right (1999: 37). O consenso acadêmico claramente mudou para
múltiplos significados sobre o momento do reino. Veja Bright (1953: 216-
217), Chilton (1984), Chilton e McDonald (1987), Crossan (1992: 287- 292,
1994: 55-58), Kraus (1974: 32), Perrin (1985: 150- 56) e W right (1996:
198- 228).
12. Perrin (1976: 29-35) oferece essa distinção útil. A fim de favorecer a
simplicidade, eu rotulei o símbolo esteno de Perrin como “específico” e seu

376
0 REINO DE PONTA CABEÇA

símbolo tensivo como “geral”. Borg e W right (1999: 74-75) discutem alguns
dos múltiplos significados do reino.

13· Tomei emprestada esta ilustração diretamente de W right (1996: 198).

14. Crossan (1992: 287)

15. Ladd (1974b).

16. Sanders (1975: 31).

17. Ladd (1974b: 303).

18. Sanders (1975: 29).


19■ John Howard Yoder (1994) em The Politics of Jesus (em tradução livre “A
política de Jesus") desenvolveu esse argumento e estimulou meu interesse
inicial por escrever a primeira edição de O reino de ponta-cabeça. A tendência
crescente dos estudiosos de vincular a ética social cristã com o reino de Deus e
os ensinamentos de Jesus é ilustrada por Cassidy (1978), Hays (1996), Haue-
rwas (1983), Longenecker (1984), Mealand (1981) e Myers (1988). Chilton e
McDonald (1987) e Perkins (1981) argumentam que as parábolas fornecem as
melhores idéias sobre a ética social do reino.
Uma das dificuldades em moldar a ética social moderna a partir dos evange-
Ihos sinóticos é o fato de que Jesus e seus discípulos eram um bando itinerante
que vagava pelo campo. Eles foram a fase inicial de um movimento social de
revitalização religiosa e mostraram pouco interesse nas questões relacionadas à
construção e manutenção das instituições sociais necessárias para sustentar uma
ordem social duradoura e uma sociedade estável. Nos Atos dos Apóstolos, bem
como em algumas das cartas do Novo Testamento, as questões de construção de
instituições e preservação assumem uma prioridade maior do que nos Evange-
lhos. Para um tratamento sociológico do caráter itinerante de Jesus e seu bando
de discípulos, veja Theissen (1978). Uma discussão das diferentes necessidades
sociais que correspondem às etapas institucionais de um movimento social e
como elas se aplicam ao papel da riqueza em Lucas e Atos pode ser encontrada
em Kraybill e Sweetland (1983).

Capítulo 2: P olítica da M ontanha


1. McVann (1991: 346-348) discute a importância desses símbolos na literatu-
ra bíblica.

2. Hengel (1977: 17-21) sugere que Jesus tomou uma posição crítica contra
todos os poderes políticos de seu tempo. Hengel, entretanto, não relaciona essa
postura crítica com a tentação.

3. Uma série de estudos são úteis para reconstruir a história polírica e social

377
DONALD B. KRAYBILL

da Palestina nos séculos que cercam a vida de Jesus. Por exemplo, ver Bruce
(1971), Enslin (1956), Guignebert (1959), Horsley (1987), Horsley e Hanson
(1985), Lohse (1976), Martin (1975), Metzger (1965) e Myers ).

4. Enslin (1956: 8).

5. Lohse (1976: 25).

6. Enslin (1956: 13-14).

7. O material nesta seção geral é adaptado de Horsley (2002: 2).

8. Jeremias (1975: 124).

9. Enslin (1956: 60).

10. Metzger (1965: 24).

11. Para uma discussão do levante de 4 a.C., veja Freyne (1980) e Horsley
(1987: 50-54). Freyne (1980, 1988) argumenta que, em sua maioria, os movi-
mentos de protesto judaico estavam enraizados principalmente na Judeia e não
na Galiléia.

12. Ver Crossan (1992: 198-202), Hengel (1973: 29) e Horsley (1987: 113).

13. Hengel (1971: 10).

14. Estou em dívida com Horsley e Hanson (1999), cuja extensa pesquisa
sobre bandidos, profetas e messias colocou as bases para a compreensão desses
movimentos de protesto. Com base na obra de Horsley e Hanson, Crossan
(1992: 451-452) fornece uma lista cronológica dos vários tipos de manifestan-
tes, bem como uma discussão extensa de cada incidente. Meus números vêm
de Crossan. Os números reais podem ser maiores, porque esses números são os
registrados pelo historiador judeu Josephus, em quem a maioria dos estudiosos
confia. Hanson e Oakman (1998: 86-95) em sua discussão sobre grupos de
bandidos, identificam 16 desses grupos entre 47 a.C. e 195 d.C.

15· Os zelotes não surgiram como um movimento organizado de resistência


até 67-68 d.C. de acordo com Horsley (1987) e Crossan (1992). Os Sicários
(homens da adaga) eram provavelmente terroristas urbanos e os Zealotes
podem ter sido bandidos rurais que eventualmente se organizaram e entraram
em Jerusalém. O Judas revolucionário, filho de Ezequias (4 a.C.), era a mesma
pessoa de Judas da Galiléia (6 d.C.), fundador da Quarta Filosofia? Horsley
(1987) e Horsley e Hanson (1999) afirmam que a evidência histórica oferece
respostas negativas a todas essas questões. Freyne (1980: 216-29) ressalta, no
entanto, que este Judas podería ter mudado de ideia durante um período de
dez anos e de fato ser a mesma pessoa. Para mais informações sobre os zelotes,
veja Hengel (1989).

16. Crossan (1992) e Horsley (2002).

378
0 REINO DE PONTA CABEÇA

17. Lohse (1976: 42).

18. Kelber (1974: 78) aponta o significado simbólico da montanha no Evange-


lho de Marcos.

19■ Em um livro influente, Brandon (1968) argumentou que Jesus era um


zelote e apoiou o uso da violência. Horsley (1987) e Crossan (1992) provam
que os zelotes não se formaram como um movimento até depois da morte de
Jesus. No entanto, além da ligação zelote, pode-se argumentar que Jesus pode
ter apoiado o uso de força violenta, mesmo que Ele não fosse violento.

20. Esse é o argumento de Harris (1975: 179-203).


21. Veja Brandon (1968) e Cullmann (1970).

22. Cullmann (1970), Hays (1996: 332-335) e Hengel (1971, 1973) refutam
as alegações de que Jesus usou ou apoiou o uso de meios de força violentos. O
argumento central de Yoder (1994), A Política de Jesus, é que Jesus ensinou
e encarnou a não-violência. Cassidy (1978) e Ford (1984), usando o Evange-
lho de Lucas, argumentam que Jesus defendia a não-violência. Myers (1988),
em uma leitura política de Marcos, afirma que Jesus praticou não apenas a
não-violência, mas também a resistência não-violenta - ação direta simbólica.
Veja também W ink (1992 e 1998) para uma visão similar. Em contrapartida,
Horsley (1987: 318-26), em seu longo estudo de Jesus e da violência, conclui
que há pouca evidência de que Jesus defendesse a não-violência ou a violência.
Sua conclusão repousa, contudo, em uma leitura questionável da ordem de
Jesus para “amar inimigos”.
23. Para evidências esmagadoras de que a Igreja Cristã nos dois primeiros
séculos endossou o pacifismo, veja Fiensy (2002: 558-561) e W ink (1992:
209-229).

Capítulo 3: A piedade do T emplo


1. Excelentes descrições da arquitetura do templo e sua operação podem ser
encontradas em Crossan e Reed (2002: 193-201), Jeremias (1975: 200-205)
e Hanson e Oakman (1998: 139-156). Veja Elliot (1991: 218-224) para uma
breve, mas completa análise do sistema de pureza do templo e do ritual.

2. Esta é a estimativa de Hanson e Oakman (1998: 143).

3. Metzger (1965: 55).

4. Jeremias (1975: 75).

5. Veja Hanson e Oakman (1998: 144) para mais detalhes e injunções escritu-
rais que prescrevem os vários sacrifícios.

6. Jeremias (1975: 160-212).

379
DONALD B. KRAYBILL

7. Minha discussão sobre a Torá baseia-se principalmente em Guignebert


(1959: 62-67). Para uma introdução à Torá, ver Neusner (1979).

8. Jeremias (1975: 233-245) e Saldarini (1988: 241-276) são as referências


básicas para esta seção sobre os escribas.

9. Jeremias (1975: 243).


10. Este comentário oral é chamado, "a tradição dos anciãos" em Marcos 7:3·
Saldarini (1988: 298-307) fornece uma excelente visão geral dos escassos dados
disponíveis sobre os saduceus. Embora muitos estudiosos notem que os sadu-
ceus se opunham à lei oral dos fariseus, Saldarini afirma que é possível que os
saduceus tivessem algumas de suas próprias interpretações orais também.

11. Para discussões ampliadas sobre os fariseus, veja Borg (1984), Jeremias
(1975: 246-67), Moxnes (1988) e Saldarini (1988).

12. Ver Crossan e Reed (2002: 154-158) para uma visão geral das evidências
arqueológicas sobre Qumran.

13■ Martin (1975: 109-16) e Ford (1984: 13-36) resumem o messianismo revo-
lucionário na tradição judaica. Veja Crossan (1992: 106-113, 198-206), Vermes
(2001: 29-54) e W right (1999: 74-125) para discussões adicionais sobre as espe-
ranças messiânicas e a autocompreensão de Jesus de sua identidade messiânica.

Capítulo 4: Pão do deserto


1. Yoder (1994) sugere esta leitura da tentação do pão.

2. Existem numerosas descrições da estratificação social na Palestina do pri-


meiro século. Para uma análise da região da Galiléia, ver Freyne (1980, 1988).
Consultar Hanson e Oakman (1998: 99-130), Herzog (1994), Mealand (1981),
Moxnes (1988), Myers (1988), Saldarini (1988) e Stambaugh e Balch (1986)
para discussões aprofundadas sobre classes sociais e estratificação econômica na
época de Jesus. Oakman (1986) fornece uma descrição detalhada da produção
e distribuição econômica na Palestina. Harland (2002) analisa as principais
fontes e literatura secundária a respeito do estado do nosso conhecimento sobre
a economia palestiniana. Duas diferenças fundamentais entre a organização
social da anciga sociedade palestina e as sociedades modernas eram as relações
patrono-cliente e um conjunto limitado de bens materiais numa economia
pré-capitalista. Para discussões aprofundadas sobre essas questões, veja Hanson
e Oakman (1998), Malina (2001b) e Neyrey (1991a).

3. Certamente houve algumas relações comerciais e mercantis na Palestina,


mas estudiosos debatem a extensão do comércio dentro da Palestina e sua con-
tribuição para a economia nacional (Harland, 2002: 517-520).

4. Hoehner (1972: 73).

380
0 REINO □Ε PONTA CABEÇA

5. Jeremias (1975: 92-99) e Finkelstein (1962: 11-16) descrevem a afluência


dos aristocratas de Jerusalém.

6. Crossan e Reed (2002: 211-271).

7. Sanders (1985: 174-211) argumenta persuasivamente que o “povo da terra”


não deve ser aglomerado junto com “pecadores", como é freqüentemente feito
pelos estudiosos do Novo Testamento. Oakman (1991) fornece uma descrição
cuidadosa da cultura e economia dos camponeses na Palestina.

8. Baron (1952: 1: 275).

9. Enslin (1956: 127).


10. Hoehner (1972: 70).

11. Hanson e Oakman (1998: 113-115).

12. Trocme (1973: 87-88). Freyne (1980, 1988) afirma que, apesar do crescí-
mento de grandes propriedades, alguns camponeses, pelo menos na Galiléia,
continuaram cultivando suas próprias parcelas de terra.

13. Oakman (1986: 72), em cálculos detalhados, estima que no mínimo, um


agricultor pagava metade da sua safra em impostos e aluguel, podendo chegar
a dois terços. Mais importante ainda, quando as sementes e outros custos são
adicionados aos impostos, Oakman estima que no máximo 1/5, podendo che-
gar a apenas 1/13 da cultura estava realmente disponível para o agricultor para
a vida de subsistência. Veja Harland (2002) para uma visão geral da literatura
sobre impostos na Palestina.
14. Grande parte da informação tributária vem de Guignebert (1959: 39),
Hanson e Oakman (1998: 113-116), e Jeremias (1971: 110).

15. Neusner (1975: 29).

16. Baron (1952: 279).


17. Esta é essencialmente a tese desenvolvida por Borg (1987). Outros, que
argumentam que Jesus tinha uma visão econômica que se estendia além de
uma nova compreensão da santidade, a desafiaram.

18. Oakman (1986: 176-82) oferece uma descrição detalhada do papel e do


trabalho de um carpinteiro na Palestina do primeiro século.

19. Jeremias (1971: 221) e Bately (1972: 5-9) argumentam que Jesus era da
classe pobre. Freyne (1988: 241) demonstra que Jesus e seus seguidores não
eram proprietários de terras, mas tampouco eram mendigos destituídos. Eles
estavam entre os mais economicamente móveis da cultura camponesa. Hengel
(1974: 27) afirma que por causa de sua ocupação, Jesus veio de uma classe de
trabalhadores qualificados.
Embora Jesus crescesse em uma família de classebaixa, era uma família de

381
DONALD B.KRAYBILL

artesãos, provavelmente nas fileiras superiores da classe baixa. Em segundo


lugar, o estilo de vida de Jesus e seus discípulos pode ter sido escasso durante
Seu ministério porque eles deliberadamente rejeitaram seu status familiar
original. Quando Jesus chamou os discípulos a segui-lo, Ele os exortou a deixar
suas ocupações. Assim, enquanto Jesus e pelo menos alguns de seus discípulos
tinham raízes nas fileiras superiores da classe baixa, o comportamento subse-
quente durante Seu ministério refletiu em assumir um estilo de vida dos mais
pobres dos pobres itinerantes do dia-a-dia, vagando, vivendo com o mínimo
necessário. Theissen (1978: 10-16) mostra que, depois que Jesus começou a
ensinar, Ele e seus discípulos eram andarilhos itinerantes que tinham poucas ou
nenhuma posses.

20. Bately (1972: 3-9).

21. Este é essencialmente 0 argumento de Theissen (1978: 10-16) em seu


estudo sociológico.

Capítulo 5: E scravos L ivres


1. Crossan e Reed (2001: 27-41) fornecem uma visão concisa de Nazaré na
época de Jesus, tanto a partir de evidências textuais como arqueológicas.
Eles sugerem que elementos dessa história podem ter sido criados por Lucas
e refletir com mais precisão o mundo de Lucas do que o cenário de Jesus em
30 d.C. Outros estudiosos também acham que a história de Lucas do sermão
de Jesus em Nazaré é a própria versão ampliada de Lucas do relato de Marcos
sobre Jesus em Nazaré (Marcos 6: 1-6). Veja por exemplo Meier (1994: 491).
Sanders (1995: 98-101) descreve a função de uma sinagoga e sua relação com
o templo. Veja Meier (1991) para um extenso estudo do contexto social e das
origens de Jesus.

2. Não está claro se Jesus seguiu uma leitura designada para o dia ou sele-
cionou a passagem de Isaías. Ringe (1985: 39) acha que a hipótese do leitura
designada é suspeita.

3. Diversos estudiosos fizeram extensas discussões sobre o Jubileu hebraico:


Blosser (1978), Ford (1984), Gnuse (1985), Gregorios (1975), Norte (1954),
Sider (1999: 65-67), Sloan (1977), Strobel (1972), Trocme, (1973, 2002) e Yo-
der (1994). Talvez o melhor que liga a imagem do Jubileu em Lucas 4 ao resto
do ensinamento de Jesus é o excelente trabalho de Ringe (1985, 1995: 65-71,
2002: 70-78). Uma exceção é Vaux (1965: 1: 176) que rejeita a noção de que
Isaías 61: 1-2 se refere ao Jubileu.

4. A questão-chave, resumida por Sloan (1977: 166-94), é saber se Jesus estava


invocando a proclamação do Jubileu com todas as suas ramificações sócio-eco-
nômicas, ou simplesmente usando-a em um modo escatológico para pedir uma
resposta à proclamação da salvação de Deus. Yoder (1994) e Trocme (1973) de-

382
0 REINO DE PONTA CABEÇA

fendem os significados sociais concretos do Jubileu no uso de Jesus, enquanto


Sloan (1977: 171-73) opta por uma interpretação mais escatológica, alegando
que essa visão não o priva de significado social. Edwards (s.d.) rejeita a hipótese
de que Jesus estava explicitamente restaurando o programa do Jubileu em
Nazaré. Gregorios (1975) faz clara uma interpretação do jubileu em Lucas 4:
18-19· W right (1996: 294-295) levanta boas objeções à ideia de que Jesus es-
tava tentando persuadir Israel a manter 0 ano do jubileu. No entanto, W right
argumenta que Jesus provavelmente esperava que seus seguidores abraçassem o
jubileu entre si.

5. Além da questão da especificidade social do uso do Jubileu por Jesus no


contexto de Nazaré, os temas do jubileu da libertação, liberdade e perdão são
importantes na interpretação de Lucas do ministério de Jesus. Blosser (1978),
Sloan (1977), Yoder (1994) e especialmente Ringe (1985, 1995: 65-71, 2002:
70-78) demonstram a centralidade do tema do Jubileu na teologia de Lucas.

6. Neusner (1973: 14-18).

7. Trocme (1973: 39) calcula que Jesus pregou em Nazaré em um ano sabático.

8. Strobel (1972) argumenta que não foi apenas um ano sabático - mas foi na
verdade o próprio ano do jubileu quando Jesus apareceu na sinagoga de Na-
zaré. Estou em dívida com Walton Z. Moyer por traduzir o artigo de Strobel
para mim do alemão.

9. Gregorios (1975: 187).

10. Jeremias (1971: 104).


11. A rejeição de Jesus em Nazaré tem dois cenários plausíveis: (1) a multidão
mudou de aplauso para condenação no curso do sermão ou (2) o público ficou
atônito com raiva durante todo o episódio. A interpretação tradicional favorece
a tese da reversão da multidão, uma vez que, a princípio, "falaram bem dele e
se maravilharam com as palavras graciosas que saíam de sua boca”, e mais tarde
“encheram-se de ira” (Ford, 1984: 64) Jeremias, mostra que a multidão pode
ter ficado irritada durante todo o incidente, especialmente quando Jesus fez
referência ao Dia da Vingança para com os pagãos. Assim, é possível que "eles
ficassem espantados porque falou da misericórdia de Deus” (para os Gentios).

12. Trocme (1973: 42). Oakman (1986: 153-56) argumenta persuasivamente


sobre um significado material das dívidas no contexto da Oração do Senhor.

13· Isso, é claro, é uma simplificação excessiva do debate idealista/materialista


clássico tanto na filosofia como nas ciências sociais. Ao invés de um processo
monocausal, o vínculo intrincado entre as idéias e seu contexto material é um
processo dialético complexo de interação contínua.

14. Ringe (2002: 70-78) mostra a variedade de formas como o tema do Jubileu
aparece nos ensinamentos e ministério de Jesus.

383
DONALD B. KRAYBILL

Capítulo 6: P obreza luxuosa


1. Yoder (1994) segue a narrativa dc Lucas em The Politics of Jesus (em tradução
livre “A política de Jesus”) ao desenvolver seu argumento de que a ética social
de Jesus é normativa para hoje. Análises e interpretações sociais úteis da
história de Lucas podem ser encontradas em Cassidy e Scharper (1983), Neyrey
(1991a) e Ringe (1995).

2. Para discussões extensas sobre o ensinamento de Jesus sobre a riqueza e as


posses, consulte Hengel (1974), Herzog (1994), Johnson (1977), Kraybill e
Sweetland (1983), Mealand (1981), Moxnes (1988), Myers ), Oakman (1986),
Pilgrim (1981), Ringe (1985) e W right (1999).

3. Para uma exegese das histórias e parábolas de Jesus que estão enraizadas no
contexto da Palestina, recomendo especialmente Bailey (1983). Uma visão
geral concisa das questões relacionadas à erudição sobre as parábolas é fornecida
por Gowler (2000). Ver Herzog (1994), Hultgren (2000), Longenecker (2000),
Scott (1989) e Wierzbicka (2001) para interpretações das parábolas sensíveis ao
contexto cultural e socioeconômico da Palestina.

4. Como observa Ringe (1995: 115-16), a semente tem um duplo significado


na parábola. É tanto a Palavra de Deus como as pessoas que recebem a Palavra.
A alegoria dupla é resolvida com a distinção (versículo 10) de que ouvir e
entender nem sempre acontecem juntos. É possível que a interpretação da
parábola (versículos 11-15) seja uma adição editorial à história original. Para
um excelente resumo das várias interpretações acadêmicas desta parábola, veja
Wierzbicka (2001: 156-265).

5. Yoder (1994: 61).

6. Jeremias (1972: 183). Historicamente, muitos exegetas separaram esta


história em duas partes, sugerindo que a última seção (versículos 27-31),
talvez acrescentada mais tarde, era uma polêmica contra o pedido de Jesus para
fazer "sinais" para persuadir seus ouvintes. Sigo Herzog (1994: 115-130), que
defende a unidade da história e situa-a diretamente no contexto econômico das
disparidades de classe na Palestina.

7. Jordânia e Doulos (1976: 65-66).

8. Para uma exegese de Lucas 16: 1-13, situada no contexto cultural da Pales-
tina, veja o trabalho de Bailey (1983: 86-118). A discussão de Derrett (1970:
48-85) da história fornece uma imagem detalhada das normas econômicas na
Palestina e fornece a base para minha discussão. Baseando-se no trabalho de
Derrett, Moxnes (1988: 139-142) fornece uma interpretação plausível desta
história que tem informado minha análise. Uma das melhores e mais profundas
análises da história - que resolve a maioria de suas aparentes inconsistências - é
dada por Herzog (1994: 233-258). Veja também W right (1999) que constrói
em Herzog.

384
0 REINO DE PONTA CABEÇA

9■ Derrete (1970: 62).

10. Estou em dívida com Herzog (1994: 257) por ver esse contraste entre o
início e o fim da história.

11. Lucas ou outros editores podem ter adicionado os versículos 10 a 16 para


a história original. Veja Moxnes (1988) para uma discussão da relação entre os
fariseus e a riqueza, particularmente no contexto do Evangelho de Lucas.

12. Exemplo de histórias como o Jovem Rico e o Bom Samaritano, ao contrário


de muitas parábolas, mostram como os cidadãos do reino devem viver e agir.

13. Para uma exegese exaustiva do significado desta história, veja Wierzbicka
(2001) a quem devo algumas ideias-chave. Ver também W right (1999)■

14. Ringe (1995) e Wierzbicka (2001) fornecem interpretações úteis desses


versículos.

15. Malina e Rohrbaugh (1992: 324-25) esclarecem o uso bíblico dos termos
“ricos" e “pobres” e ressaltam as dimensões do poder social. Os pobres são
vulneráveis nas mãos dos ricos.

16. Jeremias (1971: 112) sugere que a versão Lucana é ccrtamente o original.
O Evangelho de Mateus foi formulado em uma igreja que lutava contra a
tentação da justiça própria dos fariseus. A ênfase "pobre de espírito” era um
corretivo necessário. Wierzbicka (2001: 28-40) desenvolve o convincente argu-
mento de que, com a palavra aramaicaanaivtm, Jesus provavelmente significava
tanto atitude quanto condição. Ele certamente queria dizer a respeito da pobre-
za econômica real quando falava do "faminto” nas bem-aventuranças.

17. Wierzbicka (2001: 32-38) mostra como o sofrimento é o tema fundamen-


tal ressaltado, de que todas as pessoas empobrecidas nas bem-aventuranças
compartilham.

18. Myers (1988: 274-75) e Ringe (1995: 228) argumentam que este ditado
deve ser entendido literalmente como significando um camelo e uma agulha.

19. Baron (1952: 252).

20. Jeremias (1975: 311-12).

Capitulo 7 : D esvios “ de cabeça para cima”


1. Veja Ringe (1995: 233-335) e Wierzbicka (2001: 404-413) para inter-
pretações cuidadosas desta história. Herzog (1994: 150-168), numa exegese
completa e criativa, situada no antigo contexto econômico, argumenta que o
terceiro servo, ao contrário das interpretações típicas, era um herói, um "de-
do-duro”, que expôs a ganância dos outros dois servos e do rico proprietário,
todos os quais estavam se beneficiando de altas taxas de juros.

385
D O N ALD B . W A Y B IL L

2. Jordânia e Doulos (1976: 118).

3. Birch e Rasmussen (1976: 179-182) citam a interpretação errada desta afir-


mação como um exemplo clássico do uso errado das Escrituras na ética social.

4. Derrett (1970: 266-278).


5. Sider (1997) propôs este conceito como uma maneira criativa de dizimar a
renda em expansão.
6. Hengel (1974: 29). Para uma teologia bíblica das posses materiais, veja
Blomberg (1999)·
7. David Meyers (2000) coloca esta questão em seu livro, The American
Paradox: Spiritual Hunger in An Age of Plenty (em tradução livre'O paradoxo
americano: A fome espiritual em uma era de abundância”). Veja também Frank
(2000) para um argumento semelhante.
8. As estimativas da pobreza global e da fome variam de acordo com a fonte;
no entanto, esses números são típicos. Para obter estimativas adicionais e atua-
lizadas, consulte algumas das organizações como "The Worldwatch Institute”,
“Bread for the World” e UNICEF. O Worldwatch Institute publica um livro
anual sobre o Estado do Mundo, que inclui dados e relatórios recentes sobre
muitas dessas questões. Outros recursos úteis incluem Anderson e Cavanaugh
(2000) Field Guide to The Global Economy (em tradução livre“Guia de campo
para a economia global") e Gardner and Halweils (2000) Underfed e Overfedlem
tradução livre“Subnutridos e supernutridos”).

9■ O escalonamento do status do termo vem do livro de Robert Frank (2000),


febre luxuosa.

10. Para um estudo aprofundado dessas questões, veja o livro, Our Ecological
Footprint (em tradução livre"Nossa pegada ecológica”), de Wackernagel e Rees
(1996).
11. Veja a lista de sites no final deste livro com organizações que estão tra-
balhando para mudar as políticas e estruturas globais que promovem ações e
protegem contra a injustiça econômica.

12. Ronald Sider (1999) em Just Generosity (em tradução livre" Apenas gene-
rosidade”) articula uma visão bíblica para superar a pobreza na América e cita
exemplos do Jubileu em ação.

Capítulo 8: P iedade ímpia


1 . Adler (1963: 40-41).

2. Danby (1933).

386
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

3. Strack (1969: 26-28).

4. Para uma excelente análise da paixão pela santidade no meio religioso no


tempo de Jesus, especialmente quando os fariseus a encarnam, consulte Borg
(1984, 1987). W right (1992: 181-203) fornece uma introdução histórica e
teológica aos fariseus que os situa no contexto de Jesus.

5. Para uma visão contrastante, ver Sanders (1985: 245-80, 1995: 205-223),
que argumenta que Jesus não violou a Lei, exceto por uma ou duas pequenas
infrações. Esta visão é baseada, em parte, na pouca distinção entre a lei escrita
e a oral, mas na maior parte também, na suposição de que os confrontos de
Jesus com a lei são criações posteriores da igreja primitiva e de redatores que
estavam escrevendo a polêmica contra os Fariseus. W right (1999: 56-58) refuta
a opinião de Sander e argumenta que é improvável que os redatores adicionas-
sem todas as críticas aos fariseus ao texto. W right afirma que Jesus estava de
fato quebrando a lei, não para destruí-la, mas para mostrar como o novo reino a
transforma e quem estava no comando dela.

6. Swartley (1983: 70) fax esta observação e usa o Sabbath para um estudo de
caso fascinante em hermenêutica bíblica comparativa.

7. Danby (1933: 106).


8. Danby (1933: 110).

9. Danby (1933: 123-127).

10. Jeremias (1971: 271-380) lançou as bases para a compreensão da pureza


racial e religiosa em Israel em sua obra clássica ,Jerusalem in the Times oj(Jesus(em
tradução livre'Jerusalem nos Tempos de Jesus”). Dois estudos aprofundados
da pureza religiosa na antiga Palestina, que refletem maior sofisticação das
ciências sociais, são Malina (2001b: 161-197) e Neyrey (1991b).

11. Borg (1984: 78-96) oferece uma excelente análise do significado da comu-
nhão à mesa de Jesus à qual estou em dívida.

12. Jeremias (1971: 115-16).

13· Para maiores discussões sobre a provocação de Jesus no templo, consulte


Borg (1984: 1 6 3 1 7 4 - 7 7 :1987 ,200‫)־‬, Horsley (1987: 285-300), Myers (1988:
297-306) e Sanders 1985: 61-76).

14. Várias cortes externas circundando o próprio templo foram utilizados para
o culto público e designadas para grupos particulares, por exemplo, a côrte
das Mulheres e a côrte de Israel. Borg (1987: 174) afirma que a "Côrte dos
Gentios", tipicamente referida pelos estudiosos, é uma designação moderna,
não antiga.

15. Kelber (1974: 97-102) expande a interpretação tradicional de que a limpeza do


templo era feita principalmente para abrir o pátio exterior aos gentios. Ele também

387
DONALD B.KRAYBILL

sugere que a proibição de transportar vasos tinha mais significado religioso do que
simplesmence evitar que as pessoas fizessem um atalho através do templo. Sanders
(1985: 61-91) afirma que o incidente do templo não foi meramente perseguir
cambistas de dinheiro ou "limpar’' o templo com a finalidade de restaurá-lo para
a operação rotineira. Era mais um ato público de desafio dirigido contra o próprio
templo, e foi este ato provocativo que mais do que qualquer outro levou à morte
de Jesus. Myers (1988: 297-306) argumenta que o templo era fundamentalmen-
te uma instituição econômica e vê Jesus tomando ação direta simbólica contra a
operação do templo. Para discussões adicionais das perspectivas acadêmicas sobre
o significado das ações de Jesus no templo, vejaCrossan e Reed (2001: 218-222),
Myers (1988: 297-304), Sanders (1995: 253-262) e Wright (1999: 62-72).

16. Kelber (1974: 101) advoga que a purga tinha a intenção de encerrar a
operação do templo pelo menos num sentido simbólico, se não final.

17. Talvez não tenhamos uma visão objetiva do que Jesus disse sobre os fari-
seus, porque os conflitos judeu-cristãos levantavam-se à medida que os Evan-
gelhos estavam sendo escritos. Os relatos do Evangelho refletem um lado da
história. Escritos depois que judeus e cristãos se tornaram inimigos amargos, os
Evangelhos podem exagerar o conflito com os fariseus. W right (1999: 56-57),
no entanto, afirma que todo o conflito de Jesus com os fariseus não pode ser
atribuído às controvérsias posteriores na igreja primitiva.

18. Jeremias (1975: 253-55) aponta que Mateus colocou escribas e fariseus na
mesma categoria. Jesus denunciou os fariseus principalmente por sua ênfase
nos dízimos e limpeza ritual, enquanto os escribas ou doutores da lei foram
criticados por sua atenção ao status social. Veja Lucas 11: 37-52.

19· Ver Borg (1987: 157-60) para uma discussão excelente sobre este ponto.

20. Jeremias (1972: 139-44) fornece uma visão útil sobre esta história. Elliot
(1991: 213-240) situa a história em uma análise provocativa da distinção entre
templo e família em Lucas - Atos.

21. Jeremias (1972: 132).

22. Para uma discussão das relações entre a igreja e o reino, consulte Ladd
(1974a: 105-19) e Bright (1953), especialmente o capítulo 8 de Bright, “Be-
tween Two Worlds: The Kingdom and the Church" (em tradução livre"Entre dots
mundos: o reino e a igreja”).

23. Kraus (1974: 34).


24. Rodney Clapp (1996), em A Peculiar People (em tradução livre’TJm povo
peculiar”), mostra corno a igreja pode moldar sua própria cultura em socieda-
des pós-cristãs.

25. Klaassen (2001) mostra como a irreverência em relação aos objetos, lugares
e tempos sagrados era típica dos anabatistas do século XVI

388
0 R E M O D E PONTA C AB EÇ A

Capítulo 9: Inimigos adoráveis


1. Vários intérpretes asseguram diferentes temas como o principal na articula-
ção do reino por Jesus. Eu enfatizei agape. Borg (1987) enfatiza a compaixão de
Jesus - ou “wombishness” (algo semelhante a afeição desde o ventre), como ele
gosta de chamá-la. Para Oakman (1986) o tema-chave é a generosidade.

2. Bailey (1983: 138-206) e Jeremias (1972: 128-32) fornecem uma base


cultural útil a esta parábola, pela qual estou em dívida.

3. W right (1996: 125-131) argumenta que a parábola neste sentido mais


profundo falava da história da chegada do novo reino.

4. Veja Bailey (1983: 33-56) para detalhes do contexto cultural.

5. Jeremias (1975: 352). Para mais informações sobre os samaritanos, consulte


Coggins (1975). e Ford (1984: 79-95).

6. Jeremias (1975: 357).

7. Jeremias (1975: 358).

8. Crossan (1973: 65).


9· Wierzbicka (2001: 373-379) esboça algumas das visões conflitantes desta
história e oferece um resumo sucinto de seu significado. W right (1996: 304-
.307) enfatiza que Jesus usa a história para redefinir os limites da aliança do
povo pela Torá e assim define a missão inclusiva e o amplo escopo de seu reino.

10. Moxnes (1988: 129-34) oferece uma excelente discussão desta história de
hospitalidade no contexto de padrões de troca recíprocos na cultura palestina.

11. Moxnes (1988: 157).

12. Walter Wink (1992: 175-193) faz uma exegese de Mateus (5: 38-42) de
forma convincente dentro do contexto cultural do tempo de Jesus. Ele mostra
como dar a outra face, dar o manto, e caminhar a segunda milha eram todas
as formas de resistência não-violenta que as pessoas oprimidas poderíam usar
para humilhar seus opressores. Agradeço a ele por minha interpretação desta
passagem.

13· Veja Wink (1992: 177-184) para uma exegese detalhada destes exemplos.

14. A definição de ,,inimigos" nesta passagem bíblica é crucial. Se, como


afirma Horsley (1987: 255-272), os inimigos que Jesus tinha em mente eram
locais e pessoais - não estrangeiros e políticos - o ensinamento perde seu im-
pacto político. A análise cuidadosa de Klassen (1984) sobre este ensinamento
discorda de Horsley. Os exemplos de inimigos que Jesus usa em parábola e
história sugerem uma definição mais ampla do que a proposta por Horsley.
Schwager (1987: 171-80) em uma análise criativa discute o amor aos inimigos

389
DONALD B. KRAYBILL

no contexto das teorias psicológicas sociais de bode expiatório. Uma variedade


de ensaios em Swartley (1992) exploram Love of Enemy and Nonretaliation in
The New Testamentiem tradução livre‘0 amor aos inimigos e a não retaliação no
Novo Testamento”)·
15. Sou grato a Tom Yoder Neufeld por ter visto os temas complementares
de resistência e não-resistência na mensagem de Jesus e no contexto geral das
escrituras. Neufeld apresentou esse argumento em uma palestra no Messiah
College, em abril de 2002, intitulada “Resistance and Nonresistance: Two Legs of
a Biblical Reace Stance”(em tradução livre"Resistência e Não Resistência: Dois
Lados de uma Postura de Paz Bíblica").

16. Walter W ink (1992: 175-229, 1998: 98-111), com uma exegese bíblica
cuidadosa, descreve a terceira via de Jesus em contraste com as opções de fuga e
luta. Estou em dívida com ele por esses entendimentos.

17. Hays (1996: 317-346) oferece um excelente resumo dos textos sobre a
não-violência no Novo Testamento, bem como cerca de seis desvios em torno
da não-violência, todos os quais ele refuta.

18. A literatura sobre as várias respostas da igreja à violência e ao militarismo


é volumosa. Para uma útil introdução às posições hermenêuticas contradito-
rias tomadas por várias tradições teológicas, veja Swartley (1983: 96-149).
Os ensaios que descrevem os esforços de pacificação de muitas igrejas foram
compilados por Schlabach e Hughes (1997).

19· Em seu trabalho pioneiro, Glen Stassen (1992) identifica sete etapas especí-
ficas para a pacificação que são aplicáveis às relações internacionais.

20. John Howard Yoder (1994: 193-211) oferece uma exegese incisiva de
Romanos 13:1-7, que recomendo e com à qual estou em dívida.

21. Para uma discussão mais aprofundada de algumas dessas questões difíceis,
veja Friesen (1986), Roth (2002) e Yoder (1983).

22. W ink (1992: 13-31, 224-25) descreve o mito da violência redentora de


uma maneira convincente que se aplica à violência tanto na vida cotidiana
como na guerra.

23· Veja Brueggemann (1982) para uma exegese do significado bíblico do


shalom. Perry Yoder (1987) fornece uma das melhores introduções ao conceito
de shalom, especialmente no que se refere à salvação e à justiça. Uma série de
ensaios bíblicos editados por Yoder e Swartley (1992) fornecem recursos úteis
para a compreensão das noções bíblicas de shalom e paz.

24. Veja, por exemplo, as muitas obras de Gene Sharp, mas especialmente seu
Methods of Nonviolent Action (em tradução livre"Métodos de Ação Não-violen-
ta”) (1973). Ackerman e Duvall (2001) fornecem uma excelente visão geral
das intervenções não-violentas no século XX. Embora o trabalho de Walter

390
0 R E IN O O E P O N T A C A B E Ç A

W ink seja principalmente teológico, ele cita muitos exemplos de interven-


ções não-violentas. Veja especialmente Wink (1992: 243-257). Hays (1996:
317-344) faz um forte argumento teológico para a não-violência com base nos
ensinamentos de Jesus e na visão moral do Novo Testamento.

25. Para obter informações sobre Christian Peacemaker Teams (em tradução
livre“Equipes de pacificadores cristãos”), consulte seu site na seção Recursos do
site deste livro. Os escritos do pacificador internacional, John Paul Ledera-
ch (1995, 1997, 1999), fornecem muitos exemplos de meios não-violentos
de transformação de conflitos e estabelecimento de paz internacional. Veja
também o sice doConflict Transformation and Peace-Building Program (em
tradução livre'Trograma de Transformação de Conflitos e Consolidação da
Paz”) da Eastern Mennonite University na seção Recursos.

26. Para introduções à justiça restaurativa baseada no modelo de Jesus e do


Novo Testamento, recomendo especialmente Marshall (2001), Strang e Brai-
thwaite (2001) e Zehr (1990, 2003).

Capítulo 10: De fora mesmo dentro


1. Jeremias (1975) dedica seis capítulos (12-17) à manutenção da pureza racial
na comunidade hebraica. Minha discussão está em dívida com sua cuidadosa
pesquisa.

2. A medida com que o próprio Jesus acolhe os gentios é um tanto ambígua.


Sanders (1985: 212-21) afirma que Jesus iniciou um movimento que "veio a
enxergar a missão gentia como uma extensão lógica de si mesmo”. Mas Sanders
duvida que o próprio Jesus tenha recebido os gentios.

3. Para uma elaboração, veja Tannehill (1972).

4. Estou grato a Willard M. Swartley, meu ex-instrutor, por resolver o enigma


dos símbolos nestes três capítulos do evangelho de Marcos. Um tratamento
abrangente pode ser encontrado em Swartley (1973). Para um tratamento
popular, veja Swartley (1981: 94-130). Myers (1988: 223-27) concorda com
esta interpretação.

5. Mateus geralmente tem uma visão mais negativa em relação aos gentios
do que Marcos ou Lucas. Talvez por estar escrevendo a um público judeu,
Mateus muitas vezes retrata Jesus com atitudes judaicas típicas. Mateus é o
único escritor que relata Jesus dizendo que Ele é enviado apenas para as ovelhas
perdidas da casa de Israel (Mt. 10: 6; 15:24). Jesus adverte Seus seguidores
a não orar como os gentios que amontoam frases vazias (Mt. 6: 7). De uma
maneira depreciativa, Jesus junta coletores de impostos e gentios juntos como
modelos negativos para seus discípulos (Mt. 5:47; 18:17). Os gentios procuram
ansiosamente as coisas (Mt. 6:32). E os gentios têm hierarquias de autoridade

391
DONALD B. KRAYBILL

(Mt. 20:25). Os discípulos podem esperar ser levados diante dos gentios (Mt.
10:18). O próprio Jesus espera ser escarnecido diante dos gentios (Mt. 20:19).
Em todos esses casos, os gentios são castigados no evangelho de Mateus.

6. Yoder (1994) dedica o capítulo 11 ao conceito de justificação de Paulo em


relação à reconciliação entre judeu e grego.

7. Jeremias (1975) tem uma excelente discussão sobre o papel das mulheres na
cultura hebraica no capítulo 18. Essa é a fonte histórica básica para esta seção.
Para várias fontes incrodutórias sobre o papel das mulheres no Novo Testamen-
to, considere Evans (1983), Praeder (1988), Ruether (1981), Siddons (1980) e
Swartley (1983).

8. Jeremias (1975: 375).

9· Jeremias (1975: 376).

10. Wahlberg (1975: 94).

11. Jeremias (1975: .305, 311).


12. Crossan (1994: 54-74) diz que a ênfase constante de Jesus no igualitarismo
radical e na comensalidade aberta encheu seu reino de perturbações e “ninguéns”.

13· Jeremias (1971: 104).

14. Longenecker (1984), em vários ensaios perspicazes, argumenta que a


ordenança do evangelho praticado pela igreja primitiva vislumbrava uma nova
comunidade onde as barreiras sociais se desmoronavam entre homens e mulhe-
res, escravos e livres, judeus e gregos.

Capítulo 11:0 baixo é alto


1. Este comentário sobre o significado determinante da classe social se origina
com Peter Berger. Veja Berger e Berger (1975: 62).

2. Hatfield (1976: 17).

3. Comparação e dominação são consideradas duas das realidades sociais mais


básicas por muitos sociólogos. Esses temas nas muitas obras do sociólogo fran-
cês Pierre Bourdieu foram resumidos por Swartz (1997). Kerbo (2003) oferece
muitos dados e uma análise que confirma a extensão da estratificação social
e desigualdade em vários países, bem como no sistema global. Walter Wink
(1992) fornece uma análise teológica completa do que ele chama de “sistema
de dominação”.

4. W right (1996: 168-197) discute a visão de Jesus e o uso da autoridade e sua


autocompreensão como profeta ao redefinir o significado do reino de Deus.

392
0 R E IN O D E P O N T A C A B E Ç A

5. Jeremias (1971: 219).

6. Chilton e McDonald (1987: 79-90) oferecem uma análise penetrance da con-


trovérsia sobre as crianças, com ênfase especial nas suas implicações éticas.

7. As palavras aramaicas e gregas para a criança são um tanto ambíguas e em


certos casos são usadas também para o escravo ou o empregado. É possível que
os discípulos estivessem afastando os escravos, mas mesmo assim, o significado
da ação e do ensino de Jesus permanece inalterado.

8. Minear (1976: 21) no Capítulo 1 fornece uma discussão especialmente útil


sobre a visão de Jesus da hierarquia.

9■ É claro que isso é o que John Howard Yoder (1994) quer dizer pelo título de
seu livro, The Politics ofJesus (em tradução livre"A política de Jesus").

10. Minear (1976: 21) e Hengel (1977: 18-20).

11. Hengel (1977: 21).

12. N. T. W right (1992 e 1996), em seu estudo maciço de Jesus, argumen-


ta persuasivamente que a melhor maneira de entender Jesus e Seu reino é se
concentrar em Seus atos, histórias e enigmas. O significado de Jesus é revelado
nestas ações e histórias de ação, mais do que em idéias verbais.

13. Redekop (1976: 147) sugere esta tese. Para uma discussão sobre o uso e
abuso de poder nas comunidades anabatistas, veja a série de ensaios editados
por Redekop e Redekop (2001)

Capítulo 12: F alhas bem - sucedidas


1. Minha interpretação da Última Ceia é, em grande parte, devida à análise de
W right (1996: 554-611, 1999: 82-92) do significado simbólico da refeição da
Páscoa em justaposição com o ato profético de Jesus no templo dias antes. Wri-
ght também argumenta persuasivamente que Jesus, de maneiras que podem
parecer estranhas para nós no mundo moderno, provavelmente se compreendeu
como um profeta judeu que antecipou que morrería como parte do processo de
limpeza e restauração do templo em preparação para o novo Reino. Ele prova-
velmente viu sua morte como um sacrifício, como parte da tarefa messiânica
cjue inauguraria uma nova realidade, um novo reino que eclipsaria o templo
(W right 1996: 604-605).

2. Estou em dívida com o excelente ensaio de Brueggemann (1982) sobre as


ferramentas e o comércio do ministério cristão da bacia.

3· Brueggemann (1982).

4. Burkholder (1976: 134) desenvolve este ponto. As razões para a crucificação

393
DONALD B. KRAYBILL

de Jesus são muitas e complicadas. Eu cercamente não afirmo ter resolvido


a política e mistérios teológicos de seu assassinato, mas eu afirmo que Seu
ministério de três anos de ensino, cuidado e ações é o que produziu a mistura
complicada de fatores que levaram à Sua morte. Infelizmence algumas inter-
pretações de Sua morte a atribuem a um plano robótico divino. Tais pontos de
vista, construídos por teólogos ao longo dos séculos, em grande parte olham
Sua vida em seu contexco social real, e assim não só distorcem o evangelho cris-
tão básico, mas também tornam Jesus irrelevante para a ética social. Devemos
lembrar-nos continuamenre de que as interpretações sacramentais de Paulo e
da igreja primitiva sobre a morte de Jesus eram interpretações pós-Páscoa. Para
um intercâmbio vivido entre dois estudiosos com diferentes interpretações,
veja Borg e W right (1999: 79-1 10). Outras discussões para reflexão sobre as
razões da morte de Jesus podem ser encontradas em Crossan (1992: 361-394),
Myers (1988: 354-411), Crossan e Reed (2001: 222-222), Sanders (1995: 249-
274 ), Weaver (2001) e W right (1996: 540- 611).

5. Veja Yoder (1994: 129-133) para uma crítica sobre maneira como o termo
"cruz” é tipicamente usado no cuidado pastoral protestante.

6. Uma das melhores discussões sobre a morte de Jesus a partir de uma pers-
pectiva pacifista no contexto das reorias clássicas da expiação é o livro de J.
Denny Weaver (2001), The Nonviolent Atonement(em tradução livre“A Expiação
Não-violenta”).

7. Jeremias (1972: 195).

8. Para um caso provocador e que causa reflexão sobre a realidade da ressurrei-


ção que repousa sobre o testemunho da igreja primitiva, veja W right (1999:
126-149).

9. Hauerwas (1983) oferece uma visão criativa para a comunidade pacífica do


novo reino.

10. Yoder (1971: 28).

11. Para os recursos sobre a centralidade e a primazia da igreja como uma


comunidade local de apoio mútuo e testemunha consulte Clapp (1996), Haue-
rwas (1991), Hauerwas e Willimon (1990), Hinton (1993) e Yoder (1992).

394
0 REINO DE PONTA CABEÇA

RECURSOS NA
INTERNET
As organizações listadas abaixo fornecem informações úteis e recursos em justi-
ça social, serviços e atividades pacificadoras.

America’s Second Harvesc: Ending Hunger (em tradução livre: A Segunda


Colheita Americana: Acabando com a Fome)
www.secondharvest.org

American Friends Service Committee (Em tradução livre: Comitê de Auxílio


dos Amigos Americanos)
215-241-7000, www.afsc.org

Amnesty International (F.m tradução livre: Anistia internacional)


1-800-AMNESTY, www.amnestyusa.org

Bread for the World— Seeking Justice, Ending Hunger (Em tradução livre:
Pão para o Mundo - Buscando Justiça e o Fim da Fome)
l-800-82Bread, www.bread.org

Brethern Press www.brethrenpress.com

Cascadia Publishing House www.cascadiapublishinghouse.com

395
DONALD B. KRAYBILL

Christian Peacemaker Teams (Em tradução livre: Equipe de PacificadoresCris-


tãos)
773-277-0253, www.prairienet.org