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CIP-Brasil.

Catalogação-na-Fonte
Câmara Brasileira do Livro, SP

Heimstra, Norman Wesley, 1930-


H379p Psicologia ambiental / Norman W. Heimstra,
Leslie H. McFarling ; | tradução de Manoel An­
tônio Schmidt | . — São Paulo : EPU : Ed. da
Universidade de São Paulo, 1978.

Bibliografia.

1. Psicologia ambiental I. McFarling, Les-


lie H. II. Título.

C D D -155.9
78-1126

índices para catálogo sistemático:


1. Ambiente : Influência no comportamento humano :
Psicologia 155.9
2 Homem : Comportamento : Influência ambiental :
Psicologia 155.9
3 Psicologia ambiental 155.9
Norman W. Heimstra
Leslie H. McFarling

Psicologia
ambiental

E.P.U. — Editora Pedagógica e Universitária Ltda.


EDUSP — Editora da Universidade de São Paulo
São Paulo
Título do original norte-americano:

Environmcntal Psychology

Original English language edition published by


Brooks/Cole Publishing Company, Monterey, Califórnia, U .S.A .
Copyright © 1974 by Wadsworlh Publishing Company, Inc.,
Bclmont, Califórnia, U.S.A.
AI1 rights reserved

Tradução:

M anoel Antônio Schmidt

Código 6018

© E.P.U . — Editora Pedagógica e Universitária Ltda., São Paulo, 1978.


Todos os direitos reservados. Interdito qualquer tipo de reprodução, mesmo
de partes deste livro, sem a permissão, por escrito, dos editores. Aos infratores
se aplicam as sanções previstas na Lei (artigos 122-130 da Lei 5.988, de 14 de
dezembro de 1973).
E.P.U. — Praça D om José Gaspar, 106 — 3.° andar — caixa postal 7509 —
01.000 — São Paulo, Brasil.
Impresso no Brasil Printed in Brazil
Sumário

P refácio ............................................................................................. XI

Capítulo 1 — Introdução .. ............................................................ 1


Capítulo 2 — O ambiente construído: salas e moradia . . . . 27

Capítulo 3 — O ambiente construído: edifícios e instituições

sociais ..................... 65

Capítulo 4 — O ambiente construído: cidades ...................... 93


Capítulo 5 — O ambiente natural e o comportamento . . . . 125
Capítulo 6 — O ambiente como fonte de ameaça ................ 161
Epílogo — Psicologiaambiental: e agora, que rumo vai tomar? 203

Referências .................................................................................... 207


Índice ............................................................................................. 215

IX
Prefácio

Hoje em dia, em toda parte está presente a preocupação cora


a qualidade de nosso ambiente físico. Esta preocupação vemo-la
traduzida na prática em muitos níveis — desde a dona-de-casa que
usa um detergente para roupas, que ela julga ser menos prejudicial
à água, até as campanhas de escoteiros para limpar as ribanceiras
de rios e os severos regulamentos federais que atingem uma varie­
dade de poluentes. Ao lado do interesse pela ação do homem sobre
o ambiente, existe uma crescente preocupação com a maneira pela
qual o ambiente físico influencia o comportamento do homem.
O presente livro tem por finalidade apresentar uma breve aná­
lise dos conceitos básicos e dos principais itens de pesquisa no campo
que se tomou conhecido como psicologia ambiental. O tema cen­
tral desta nova área de estudos é constituído pelas várias relações
que existem entre o ambiente físico e o comportamento do homem.
À base deste problema está a premissa de que o comportamento é
profundamente influenciado pelo ambiente físico — tanto pelo am­
biente “construído” quanto pelo “natural” — e que se toma neces­
sário um conhecimento deste processo de condicionamento, para
compreender mais completamente por que o homem se comporta
desta ou daquela maneira e para melhor se esboçar o ambiente com
o qual o homem entra em relacionamento.
Constituiu um objetivo básico deste livro a elaboração de um
texto que fosse de fácil leitura para estudantes de diferentes disci­
plinas, uma vez que há poucos campos de estudos que, pelo menos
até um certo grau, não abordem o relacionamento existente entre o
homem e o ambiente. Embora o livro não esgote em profundidade
o tema, as áreas nele discutidas propiciam uma introdução à disci­
plina da psicologia ambiental para leitores das áreas de psicologia,
sociologia, outras ciências sociais, planejamento urbano, estudos am­
bientais, arquitetura, projetos, engenharia e áreas correlatas. Ao in­
vés de desenvolver um estudo enciclopédico, procedemos à seleção
de tópicos representativos dos principais aspectos da psicologia am­
biental. Procuramos evitar o uso excessivo do jargão psicológico.

XI
Como acontece com qualquer novo campo de pesquisa, existe
uma certa dúvida com relação aos objetos de estudo considerados
próprios do campo da psicologia ambiental. Conforme se tomará
evidente no decorrer do texto, a definição do assunto em questão
está longe de ser precisa e o que um pesquisador considera apro­
priado para a psicologia ambiental poderá não parecer o mesmo
para outro investigador. Entretanto, certos tipos de relaciona­
mento homem-ambiente foram objeto de mais atenção do que outros
e a maioria dos pesquisadores certamente concordaria em que os
tipos de relacionamentos discutidos neste livro constituem áreas de
investigação particularmente relevantes para psicólogos do ambiente.
Foi dispensada considerável atenção aos efeitos do ambiente
construído (como sejam cômodos, prédios, edifícios públicos e ci­
dades) sobre o comportamento. O ambiente natural e seus efeitos
sobre o comportamento foram também pesquisados, embora em es­
cala mais limitada. Todavia, tipicamente as relações que receberam
a maior atenção foram aquelas de caráter negativo — por exemplo,
os efeitos da poluição ou da superpopulação sobre o comportamento.
Entretanto, as relações positivas, como sejam muitos tipos de rela­
cionamentos que o homem tem com o seu ambiente natural, foram
também estudadas e muitas delas são discutidas no presente livro.
Desejamos externar nosso agradecimento à equipe da Brooks/
Cole Publishing Company e às seguintes pessoas, por suas valiosas
revisões em nosso manuscrito: Evan Brown, da Universidade de
Nebraska, Carolyn Toepfer, do Slippery Rock State College, Robert
Sommer, da Universidade da Califórnia, em Davis, e Edward L.
Walker, da Universidade de Michigan.

Norman W. Heimstra

Leslie H. McFarling

XII
Capítulo 1

Introdução

Há poucos anos atrás, apenas um pequeno número de cientistas


e funcionários públicos estava interessado nos efeitos que o avanço
da tecnologia e o crescimento da população vêm tendo sobre a
qualidade do nosso ambiente físico. Nos meios de comunicação, só
raramente se usava a palavra “ambiente” e poucos legisladores, se
os havia, envidavam algum esforço concentrado no sentido de votar
leis para a proteção do ambiente. Mas agora os problemas am­
bientais são discutidos em jornais e revistas, em programas de tele­
visão e em outros meios que atingem milhões de pessoas. A cons­
ciência pública do problema resultou em numerosas leis de âmbito
local, estadual e federal e na criação da Agência de Proteção Am­
biental. O relacionamento do homem com o seu ambiente é de
interesse de muitas áreas, inclusive da arquitetura, do planejamento
urbano e regional, da engenharia civil e sanitária, da administração
florestal e de parques, da geografia, da biologia, da sociologia e da
psicologia; isto, para citar apenas alguns setores. Como diz Wohlwill
(1970), “são poucos, se é que os há, os campos que não tocam,
em algum ponto, no relacionamento existente entre o homem e seu
ambiente” (pág. 303).
Muito se fala sobre a poluição do ar e da água, sobre a des­
truição do ambiente natural, os ruídos e a superpopulação. No
entanto, ouve-se consideravelmente menos a respeito de ações posi­
tivas, tais como a renovação de áreas naturais, a restauração de
áreas faveladas, os progressos em projetos ambientais. Tem havido,
contudo, mais ênfase nos efeitos do comportamento do homem sobre
o ambiente e menor atenção se deu aos modos como o ambiente e
as próprias alterações nele provocadas pelo homem afetam o com­
portamento. Cientistas do comportamento estão agora começando a
demonstrar interesse por este assunto, pois, como frisam Proshansky,
Ittelson e Rivlin (1970):
“Esta é, precisamente, a tarefa que as ciências ambientais esta­
beleceram para si próprias — o estudo das conseqüências das ma-

1
nipulaçõcs ambientais para o homem. À medida que progredirem
estes estudos, aumentará nossa capacidade de predizer e controlar
essas conseqüências. Saberemos quais os resultados decorrentes de
uma manipulação ambiental específica e compreenderemos as conse-
qüências de alterações ambientais” (pág. 3).
Preocupar-nos-emos tanto com a relação entre o homem e seu
ambiente físico quanto com os efeitos de manipulações ambientais
sobre o homem. Grande parte da pesquisa levada a efeito nesta
área tem sido classificada sob o título de Psicologia ambiental, em­
bora, conforme veremos, as áreas-problema que constituem esta dis­
ciplina não estejam claramente definidas.

ALGUNS PROBLEMAS DE DEFINIÇÃO

Seria difícil chegar a um consenso entre psicólogos ambientais


sobre a definição de sua disciplina. De fato, Proshansky e colabo­
radores (1970) questionam se a mesma pode efetivamente ser de­
finida:
“Existe, no momento, uma definição adequada de psicologia
ambiental? Achamos que não. Há, em geral, dois modos pelos
quais pode ser estabelecida a definição de um campo de estudo. Um
— a longo prazo, o único realmente satisfatório — é em termos de
teoria. E o fato é que, até o momento, simplesmente não há, em
psicologia ambiental, teoria própria ou mesmo pressupostos teóricos
que possam dar base a tal definição.
“O segundo modo de definição — muito menos satisfatório, mas
muito mais exeqüível — é operacional: Psicologia ambiental é aquilo
que os psicólogos ambientais fazem” (pág. 5).
Usaremos essencialmente, neste livro, o último tipo de definição.
Embora os tópicos abrangidos sejam muito diversos e representem
contribuições de investigadores de muitas disciplinas, estes pesquisa­
dores têm em comum o interesse pelas relações existentes entre o
homem e o ambiente físico. Desta forma, para fins de definição,
consideraremos a psicologia ambiental como “a disciplina que trata
das relações entre o comportamento humano e o ambiente físico do
homem”, Para esclarecer esta definição, entretanto, é necessário dis­
cutirmos, mais detalhadamente, os seus diversos aspectos. Assim,
nesta seção, trataremos de uma explanação mais precisa do que sig­
nificam ambiente físico, comportamento humano e os relacionamen­
tos que existem entre ambos.

L
O ambiente físico

Psicólogos e outros cientistas do comportamento sempre falaram


sobre o papel do ambiente na conformação do comportamento. En­
tretanto, via de regra, os mesmos têm concebido o ambiente como
social ou interpessoal, considerando as outras pessoas como os de­
terminantes principais do comportamento humano. Ao se referirem
a outras influências ambientais, os cientistas do comportamento ge­
ralmente se têm pronunciado em termos inespecíficos, com o con­
ceito de ambiente “usado para se referir ao mais diverso conjunto
de condições experienciais, variando desde o atendimento em escolas
maternais até as atividades socializantes dos pais; desde a preparação
para a prática ou treinamento para uma tarefa até o papel da cul­
tura ou da sociedade, num sentido global” (Wohlwill, 1970, pág.
304). Embora também o comportamento seja influenciado por seu
ambiente físico, até recentemente o relacionamento existente entre
ambos tem sido alvo de pouca atenção.
Em seu sentido mais amplo, “ambiente físico” compreende tudo
o que rodeia uma pessoa. Entretanto, na maneira como é usado
em psicologia ambiental, o termo tem um significado mais limitado
(embora seja ainda bem amplo, como se evidenciará na leitura sub-
seqüente). Os psicólogos ambientais dividem o ambiente físico em
dois tipos: o construído pelo homem ou modificado pelo homem e
o natural.
Obviamente, o ambiente físico construído ou modificado pelo
homem encerra muita coisa. Entretanto, de particular interesse para
os pesquisadores tem sido o relacionamento existente entre o com­
portamento do homem e as características do ambiente físico, tais
como os espaços das construções nas quais ocorre o comportamento,
a relaçãp entre os diversos tipos de moradia e o comportamento, o
projeto de instituições e a maneira como as características de um
projeto podem afetar o comportamento e os efeitos da vida urbana
sobre o mesmo. As características do ambiente criadas pelo homem
deram origem, também, à poluição, à superpopulação e a outras
consequências indesejáveis. Os efeitos destas condições sobre o com­
portamento têm sido de considerável interesse para os psicólogos
ambientais. É principalmente destes aspectos do ambiente construído
que trataremos neste texto.
A distinção entre o ambiente construído ou modificado pelo ho­
mem e seu ambiente natural é de primordial importância, de vez
que há muito pouco do ambiente natural que, até certo ponto, não
tenha sido modificado pelo homem. Entretanto, muitos consideram

3
ainda um grande número de parques nacionais e áreas virgens como
sendo naturais e têm sido desenvolvidas algumas pesquisas sobre a
relação existente entre o comportamento e estes tipos de ambiente.
Os pesquisadores têm-se interessado também por outro tipo de am­
biente natural, ou geográfico, que inclui clima, solo e danos naturais,
tais como enchentes, terremotos e furacões, os quais, sem nenhuma
exceção, influenciam o comportamento.
Cumpre ressaltar que o uso do termo “ambiente natural” neste
sentido difere um tanto da maneira como é frequentemente utilizado
por psicólogos. Estes podem usar o termo simplesmente para refe­
rir-se a uma situação ou condição que não tenha sofrido modificação
pelo experimentador. Desta forma, um psicólogo que estudasse o
comportamento de crianças em idade escolar em uma classe relataria
que seu comportamento foi observado em ambiente natural.
Para estudar as relações entre o comportamento humano e as
muitas facetas do ambiente físico, o cientista comportamental de­
fronta-se com uma tarefa desafiadora. É difícil, quando não impos­
sível, isolar uma faceta do ambiente e estudar seus efeitos sobre o
comportamento sem que, pelo menos até certo ponto, outros aspec­
tos do ambiente venham a modificar o comportamento. Por exem­
plo, suponhamos que um pesquisador esteja interessado na relação
entre a forma de uma sala e o comportamento dos seus ocupantes.
Ele poderia planejar seu estudo de diversas maneiras e poderiam
estar envolvidos vários tipos de comportamento. Além disso, a sala
representa apenas uma unidade de um edifício, mas há diversas ou­
tras características de edifícios que influenciam o comportamento. O
edifício, por sua vez, poderia ser elemento de um complexo entre
vários outros, com o complexo constituindo-se numa parte da vizi­
nhança. A vizinhança é parte duma cidade, na qual se observam
clima quente ou frio e um potencial de dados naturais, como en­
chentes ou terremotos. O ambiente pode ser composto de subsiste-
mas — condições climáticas, cidades, edificações, etc. — , todos eles
relacionando-se e influindo no comportamento. Por conseguinte, é
difícil isolar um destes componentes ou subsistemas e determinar a
relação entre o mesmo e o comportamento humano. Conforme ve­
remos nos capítulos adiante, este constitui o problema maior da
pesquisa da psicologia ambiental.

Comportamento humano

Temos definido a psicologia ambiental como a disciplina que


trata do relacionamento entre o comportamento humano e o ambiente

4
físico. Conforme Craik frisa (1970), “enquanto o ambiente físico
diário constitui o seu tema unificante, a matéria objeto da psicologia
ambiental é o comportamento humano conjorme o mesmo se rela­
ciona, por exemplo, com formações rochosas, ruas da cidade e can­
tos de salas propriamente ditos” (pág. 13). Desta forma, embora
o psicólogo ambiental possa gastar grande parte de sen tempo e es­
forço descrevendo e definindo características do ambiente físico, seu
objetivo último consiste em relacionar estas características com o
comportamento humano.
Quando falamos de comportamento humano, referimo-nos, na­
turalmente, a uma faixa quase que ilimitada de atividades. Con­
forme Skinner afirma (1953):
“O comportamento é um assunto difícil, não por ser inacessível,
mas porque é extremamente complexo. Dado que é um processo e
não uma coisa, o mesmo não pode ser facilmente retido para obser­
vação. É mutável, fluido e efêmero e, por esta razão, apresenta
grandes exigências técnicas que ultrapassam a energia dos cientistas”
(pág. 15).
Conforme veremos, devido à natureza das relações entre o com­
portamento e o ambiente físico, as questões feitas aos psicólogos
ambientais são freqüentemente mais severas do que as feitas a outros
cientistas do comportamento.
Comportamento, então, é qualquer forma de atividade obser­
vável, seja diretamente ou com o auxílio de instrumentos. São ne­
cessários equipamentos altamente aperfeiçoados para observar al­
gumas espécies de comportamento — alterações elétricas no cé­
rebro, por exemplo. Podem ser usados diversos tipos de testes para
se detectar processos mentais e psicológicos. Há outros tipos de
comportamentos que são manifestos e basta ao pesquisador anotar
o que ouve ou vê. O que se deve ter em mente é que o comporta­
mento varia de formas muito sutis de atividade até atividades mani­
festas, que são facilmente observáveis.
Posteriormente, neste capítulo, serão discutidas as espécies de
comportamento que têm sido de interesse específico para os psicó­
logos ambientais, juntamente com os métodos usados para medir o
comportamento.

Relações entre o comportamento e o ambiente

O comportamento humano está, de muitas formas, relacionado


funcionalmente com os atributos do ambiente físico. Wohlwill

5
(1970) distinguiu três formas deste relacionamento e, nesta seção,
vamos focalizá-las mais detalhadamente.
Wohlwill ressalta que o comportamento ocorre num contexto
específico de ambiente. Este contexto impõe restrições fundamentais
sobre as espécies de comportamento que nele podem ocorrer e “fre-
qüentemente serve para determinar, num sentido mais positivo, as­
pectos ou padrões particulares do comportamento de um indivíduo”
(pág. 304). Por exemplo, o comportamento apresentado por uma
pessoa que viva numa fazenda ou numa pequena cidade difere con­
sideravelmente daquele de um habitante de cidade grande. Um
tipo de relação, então, consiste em que o ambiente determina a classe
de comportamento que nele pode ocorrer.
No segundo tipo de relação, determinadas qualidades associa­
das a um ambiente particular podem ter um amplo efeito sobre o
comportamento e a personalidade do indivíduo. Wohlwill cita como
exemplos “a habitual brutalidade do típico motorista de ônibus na
cidade de Nova York em seu trabalho [e] o proverbial ‘motorista
maluco’ de Manhattan”. Sugere ele que, pelo menos na medida em
que se mantenham verdadeiros tais estereótipos, “parece plausível
relacioná-los com as condições de stress e tensão às quais esses in­
divíduos ficam sujeitos em sua batalha diária com o tráfego urbano
e o congestionamento” (pág. 304). Este tipo de relação pode tam­
bém explicar diferenças registradas entre as incidências de moléstias
mentais e várias desordens físicas, bem como a apatia do espectador
em face da violência, em ambientes urbanos e rurais.
O terceiro tipo de relação é aquele em que o ambiente serve
como força motivadora.
“Os indivíduos evidenciam atitudes, valores, convicções e rea­
ções afetivas, mais ou menos fortemente definidas, com relação a seu
ambiente. . .. Desenvolvem diversas formas de ajustamento e adap­
tação às condições ambientais. Diante de certas situações ambientais
mostram reações temporárias ou permanentes de aproximação e de
fuga ou esquiva, variando em toda uma gama de possíveis situações,
desde a recreação e o turismo até a migração para os subúrbios ou
outros pontos do país” (pág. 304).
Assim, este último tipo de relação tem três importantes facetas:
(1) reações afetivas e “atitudinais” diante de características ambien­
tais, (2) reações de aproximação e esquiva diante de atributos do
ambiente, e (3) adaptação às qualidades ambientais. Conforme
ressalta Wohlwill (pág. 305), estes tipos de relacionamento não só

6
estão diretamente ligados a muitos problemas atuais do ambiente,
como podem ser analisados, também, em termos de princípios ou
hipóteses existentes em psicologia.
Grande parte da pesquisa realizada por psicólogos ambientais
tem tratado do primeiro tipo destas relações, o ambiente como uma
fonte de afeto e atitudes. Conforme veremos nos capítulos seguintes,
o ambiente físico pode instigar fortes sentimentos e atitudes, tanto
positivos como negativos. Pode também resultar num comporta­
mento de aproximação ou de esquiva. Desta forma, uma pessoa
pode mudar-se de uma área de que não goste por alguma razão —
clima frio ou superpopulação, por exemplo — para uma região que
ache mais atraente. Este tipo de comportamento acha-se também
envolvido quando uma pessoa escolhe um local para férias e não
outro, prefere um local e não outro para construir, e assim por
diante. Este aspecto da relação comportamento-ambiente começa
agora a ser investigado.
A questão de como uma pessoa se adapta a seu ambiente físico
é também de considerável interesse para os psicólogos ambientais.
Sabemos que o homem é capaz de se adaptar, tanto comportamental
como fisiologicamente, a uma ampla série de ambientes. Embora
grande parte da pesquisa nesta área tenha sido realizada em labo­
ratório, tratando da adaptação à temperatura, luz, etc., o homem
adapta-se também à vida nos guetos, ao ruído das aeronaves a jato,
ao tráfego, à poluição e a outras características do ambiente físico.
Discutiremos este processo de adaptação em diversos pontos do texto,
uma vez que o mesmo leva a uma série de perguntas intrigantes
para o pesquisador que estude o homem em relação com seu am­
biente físico.
Embora não seja discutida em detalhes neste texto, a antítese
do efeito do ambiente sobre o comportamento é, naturalmente, o
efeito do homem sobre o ambiente. Desta forma, ao invés de estudar
os efeitos da poluição do ar sobre o comportamento, poderiamos
optar pelo estudo do tipo de comportamento que ocorre em situação
de poluição do ar. Quando definimos psicologia ambiental como o
estudo das relações entre o comportamento e o ambiente físico, de­
vemos ter em mente que tais relações são como uma rua de mão
dupla: o ambiente físico influencia o comportamento do homem, mas
o homem modifica também seu ambiente físico.
Temos procurado definir “Psicologia ambiental” e discutir al­
guns tipos de relações existentes entre o comportamento humano e
o ambiente. No restante deste capítulo, analisaremos como os psi­
cólogos ambientais estudam tais relações.

7
MÉTODOS DE PESQUISA EM PSICOLOGIA AMBIENTAL

A pesquisa científica destina-se a descobrir a resposta a uma


questão mediante técnicas científicas. A questão que o pesquisador
procura responder depende de muitos fatores. Algumas vezes, a
questão é gerada por um problema prático encontrado em nossa so­
ciedade tecnológica. Outras vezes, trata-se de uma questão abstrata.
Independentemente do tipo de questão, os mesmos métodos usual­
mente aceitos podem ser usados por pesquisadores em suas tentativas
de encontrar uma resposta.
Embora qualquer classificação de tais métodos de pesquisa seja
algo arbitrária, todo esquema se baseia no controle que o investi­
gador exerce sobre a situação em que ocorre o comportamento e as
condições que o influenciam. Nesse esquema de classificação, o pes­
quisador usa o sistema chamado “Método experimental”, quando
tem controle direto sobre o comportamento e pode manipular as va­
riáveis ou condições apropriadas. Na outra ponta do espectro está
o “Método de observação naturalística”, no qual o pesquisador não
faz nenhuma tentativa no sentido de manipular ou controlar variá­
veis. Entre estes dois extremos acha-se uma série de outros métodos,
diversos dos quais serão discutidos posteriormente nesta seção.

O método experimental

O método experimental de estudar o comportamento envolve,


basicamente, a manipulação de determinados aspectos ( variáveis in­
dependentes) de uma situação com portam ental e a observação do
efeito da manipulação no com portam ento ( variável dependente) . Por
exemplo, suponhamos que um pesquisador esteja investigando os
efeitos do nível de ruído sobre a capacidade de concentração. Neste
estudo, o ruído é a variável independente, ao passo que a capaci­
dade de concentração, uma forma de com portam ento, constitui a va­
riável dependente.
Num experimento, o investigador usa geralmente diversos níveis
da variável independente para determ inar se m udanças em seu nível
resultarão em alterações em sua m edida da variável dependente.
Desta forma, no estudo do ruído, o investigador poderá utilizar qua­
tro níveis da variável independente, ou seja, o ruído. Um grupo de
indivíduos seria testado em condições de ausência de ruído (grupo
de controle), outro grupo sob 70 db (decibéis), outro sob 80 db,
e o quarto grupo sob 90 db. Em cada uma destas condições os

8
indivíduos seriam solicitados a revisar um artigo que contivesse uma
série de erros tipográficos. Uma tabela com o material concluído e
o número de erros não observados serviria como medida de concen­
tração, ou seja, a variável dependente. Se o desempenho dos indi­
víduos na tarefa de revisão diferisse sob as diversas condições de
ruído, o investigador usaria um teste estatístico para determinar se
as diferenças foram devidas somente ao acaso ou se foram estatisti­
camente significativas.
O método experimental é usado geralmente em estudos de la­
boratório, uma vez que esses estudos podem ser conduzidos em con­
dições cuidadosamente controladas. Conforme se verá, em laborató­
rios têm sido efetuadas relativamente poucas pesquisas em psicologia
ambiental. O método experimental, entretanto, pode ser usado em
experiência de campo em muitos contextos naturais, tais como uma
escola, uma cidade e uma floresta ou área deserta.
Embora a situação experimental num estudo de campo freqüen-
temente não possa ser tão rigorosamente controlada como no labo-
tório, o estudo de campo tem diversas virtudes que o tornam um
método útil para os pesquisadores interessados nos efeitos do am­
biente, construído ou natural, sobre o comportamento. Uma van­
tagem importante do estudo de campo está no fato de que o contexto
é muito mais realista do que no laboratório. Este realismo geral­
mente torna mais válidas as generalizações das descobertas da pes­
quisa. Finalmente, muitas espécies de comportamento, variando de
reações relativamente simples até complexos processos sociais que
são difíceis de estudar no laboratório, podem ser estudados no campo.
Por exemplo, no laboratório seria difícil determinar os efeitos da
dimensão ou do desenho de uma sala de aula sobre o aprendizado,
mas podem ser estudados segundo um enfoque de campo.

O método de observação naturalística

O pesquisador que usa o método de observação naturalística


observa o comportamento em seu contexto natural e, de alguma for­
ma, registra os eventos comportamentais que são considerados rele­
vantes. Embora possa estar interessado nos efeitos de determinadas
variáveis sobre o comportamento que está observando, não tenta,
de forma alguma, manipular tais variáveis ou influenciar o compor­
tamento.
Muitas técnicas específicas estão associadas com o método de
observação naturalística. O observador pode usar equipamentos que

9
vão desde um bloco e um lápis para o registro de observações até
sofisticados sistemas fotográficos ou de vídeo-teipes. O observador
poderá estar oculto dos sujeitos que desejava observar, ou poderá tor­
nar-se efetivamente um membro do grupo cujo comportamento es­
teja interessado em observar. Como em outros métodos, o compor­
tamento estudado segundo esta norma pode variar desde simples res­
postas motoras até tipos sofisticados de comportamento social. A
característica importante, naturalmente, reside no fato de que o ob­
servador não tenta, de forma alguma, influenciar ou controlar o
comportamento.
Este método é popular, junto a investigadores, em muitas áreas
diferentes. Por exemplo, muitas coisas que sabemos sobre o com­
portamento animal, particularmente sobre o que ocorre fora de um
laboratório, têm sido obtidas por pesquisadores que observam os
animais em seus habitats naturais. Os psicólogos têm estudado
freqüentemente o comportamento de crianças segundo técnicas de
observação naturalística. Este enfoque tem sido usado muitas vezes
para analisar o comportamento em situações específicas, tais como
em pequenas cidades, áreas urbanas, escolas ou outras instituições.
Para estudar o comportamento humano que ocorre naturalmente
nestes e em outros tipos de situações, os psicólogos interessados nesta
espécie de pesquisa (freqüentemente designada “psicologia ecológi­
ca” ) devem usualmente apoiar-se em alguma forma de técnica de
observação naturalística.

O método de testagem

“O método de testagem” inclui diversos enfoques que os psicó­


logos ambientais usam em seus estudos. De modo específico, ao uti­
lizar um de tais métodos, o pesquisador investiga uma característica
particular de um grupo de indivíduos. Uma situação-padrão de es­
tímulos (chamada teste) é projetada para medir a característica.
Foram projetados testes para medir a inteligência, a personalidade,
a aptidão e os estados afetivos. Constituem também testes as en­
trevistas, os questionários, as pesquisas de opinião e as pesquisas de
atitude. Embora os instrumentos reais usados em testes possam di­
ferir, todos envolvem uma situação de estímulo controlada, planejada
para provocar respostas que revelem alguma coisa sobre o indivíduo
em que o pesquisador está interessado.
O método de testagem é freqüentemente empregado por psicó­
logos ambientais interessados em atitudes de um grupo de pessoas

10
acerca de um problema ambiental, tal como a poluição do ar ou da
água. Para obter este tipo de informações, o pesquisador usa de
maneira específica um método especial de teste chamado pesquisa de
levantamento.
Estamos frequentemente expostos a informações colhidas por
levantamentos; de fato, antes de uma eleição, o público é bombar­
deado com os resultados de uma espécie de pesquisa de levantamen­
to: o voto da opinião pública. Em pesquisa de levantamento, o
investigador tenta de forma sistemática obter dados de uma popu­
lação (mais especificamente, amostras de uma população) a fim de
avaliar alguma característica da mesma.
Realizar um levantamento de forma que os resultados sejam
significativos é um processo complexo que não podemos discutir em
detalhes. Diversos aspectos do processo revestem-se, entretanto, de
especial importância. Um deles consiste no fato de que somente em
raras ocasiões uma população pode ser estudada em sua totalidade
por um investigador. Consequentemente, na maioria dos estudos o
pesquisador escolhe amostras de uma população e, destas amostras,
tenta inferir características. O modo como a amostra é selecionada
é decisivo. Há uma série de métodos para selecionar a amostra a
ser utilizada num levantamento e o investigador deverá utilizar um
processo correto, se desejar que as generalizações de suas descober­
tas, com base na amostra, para aplicação na população, sejam vá­
lidas.
Outra característica decisiva da pesquisa de levantamento é a
elaboração de questões da entrevista. É relativamente simples ob­
ter quase qualquer tipo de resposta de uma pessoa, se a questão
é formulada de uma forma particular. Por exemplo, possivelmente
todas as pessoas a quem se perguntasse “A fumaça incomoda você?”
provavelmente responderíam pela afirmativa, de forma que o pes­
quisador podería tirar a conclusão de que a fumaça é realmente uma
questão de grande importância para as pessoas que entrevistou. Po-
der-se-ia obter uma resposta muito diferente se a pergunta fosse “O
que você considera ser o mais sério problema ambiental nesta área?”.
O instrumento da entrevista deve ser elaborado de forma a obter
aquilo em que o investigador está interessado, bem como evitar a
distorção ou a dissimulação das respostas. Muitas vezes isto é difícil
de conseguir.
Muito mais podería ser dito acerca dos métodos que são comu-
mente usados pelos pesquisadores para estudar o comportamento, em
muitos campos diferentes. Entretanto, no restante deste capítulo,

11
trataremos da muneira como estes métodos são usados pelos psicó­
logos ambientais, em seu trabalho, e analisaremos alguns dos pro­
blemas com que se defrontam.

VARIÁVEIS EM PESQUISA AM BIENTAL

Enfatizamos que o método experimental para estudar o com­


portamento envolve a manipulação de determinados aspectos (va­
riáveis independentes) da situação ambiental e a observação do efeito
da manipulação sobre o comportamento (variável dependente). No
método de testagem e no método de observação naturalística, ao es­
tudar o comportamento, as variáveis independentes não são mani­
puladas.
O método experimental não tem sido empregado com tanta fre-
qüência em estudos de psicologia ambiental como o foi em outras
áreas de pesquisa do comportamento, isto devido à natureza das va­
riáveis independentes envolvidas. Muitas das variáveis não se pres­
tam à manipulação e é difícil, se não impossível, usar diferentes
níveis da variável independente, como se requer no método experi­
mental. Suponhamos, por exemplo, que um investigador esteja inte­
ressado nos efeitos da poluição do ar sobre alguma forma do compor­
tamento. Seria difícil para ele exercer qualquer controle sobre o nível
de poluição a que os indivíduos sujeitos à pesquisa estariam expostos,
em qualquer tempo determinado. Do mesmo modo seria difícil ma­
nipular o nível de poluição num rio, a densidade de população numa
área urbana, a poluição sonora nas proximidades de um aeroporto
ou de um lago, e assim por diante.
Tendo em mente, então, que é difícil para um pesquisador ma­
nipular diversos tipos de variáveis ambientais independentes, consi­
deramos algumas variáveis que são de interesse para os psicólogos
ambientais e os modos segundo os quais eles estudam as relações
existentes entre essas variáveis e o comportamento.

Variáveis independentes

Na verdade, qualquer aspecto do ambiente construído ou na­


tural com o qual o homem se relaciona pode influenciar o seu com­
portamento e, conseqüentemente, pode ser selecionado como uma
variável independente. De vez que há tantas variáveis independentes
em potencial, não nos daremos ao trabalho de discuti-las de forma

12
exaustiva. Ao invés disso, mencionaremos brevemente alguns tipos
dc variáveis que têm sido estudadas, muitas das quais serão consi­
deradas mais detalhadamente em capítulos posteriores.
Durante muitos anos, os pesquisadores têm-se mostrado inte­
ressadas na maneira como aspectos do ambiente construído influen­
ciam determinados tipos de comportamento. Por exemplo, psicólo­
gos e engenheiros têm estudado sistematicamente o efeito, sobre a
eficiência no trabalho e o conforto, de variáveis tais como a ilumi­
nação, níveis de ruído, aquecimento, ventilação e desenho e posição
de máquinas. Embora estudos como estes possam ser considerados
como de pesquisa ambiental, relacionam-se mais apropriadamente
com estudos da psicologia industrial ou de engenharia e não serão
discutidos com nenhum pormenor neste texto.
Arquitetos, engenheiros, planejadores urbanos, cientistas do
comportamento e outros interessaram-se recentemente pelas variáveis
do ambiente construído que influenciam o comportamento e, desta
forma, estão tentando agora levar em consideração o “fator humano”.
Entre as variáveis que podem influenciar o comportamento estão o
tamanho e a disposição de salas e de passagens, o número e tamanho
de janelas e portas, bem como a disposição do mobiliário; iluminação
interior, temperatura e ruído; plano da comunidade, instalações re­
creativas e acomodações para compras, além dos meios de transporte,
inclusive localização e rapidez de transporte público, espaço para
estacionamento e disposição das ruas (McCormick, 1970, pág. 575).
Do mesmo modo, numerosos aspectos do ambiente natural po­
dem afetar o comportamento. Entre estes estão as características
físicas de um ambiente natural, como a presença ou ausência de
árvores, montanhas, rios ou lagos. Características como a acessibi­
lidade, possível caráter inóspito, custos e muitas outras são também
variáveis que devem ser consideradas. Clima e incidentes naturais
negativos como enchentes, secas e terremotos são outras caracterís­
ticas do ambiente natural que podem influenciar o comportamento.
À medida que o nível de tecnologia em nossa sociedade aumen­
tou, também a deterioração do ambiente se acentuou. Desta forma,
a poluição do ar e da água, a poluição sonora e a violação da paisa­
gem tornaram-se itens prioritários de discussão para um grande nú­
mero de pessoas. Estas características do ambiente constituem, as­
sim, outra importante categoria de variáveis independentes que têm
efeito sobre o comportamento.
As variáveis independentes que relacionamos podem ser consi­
deradas como influências físicas sobre o comportamento, não resul­
tantes do convívio social. Entretanto, é importante ter em mente

13
que, quando uma pessoa está exposta a estas variáveis, geralmente
não está isolada, mas na companhia de outras pessoas. Consequen­
temente, o indivíduo não somente reage a estas variáveis como tam­
bém se relaciona com outros indivíduos, podendo esta alteração mo­
dificar os efeitos das variáveis ambientais. Em muitos casos, a
condição social existente pode ser uma variável ambiental importante.
Por exemplo, uma variável de particular interesse para os pesquisa­
dores são os efeitos dos vários graus de densidade populacional sobre
o comportamento. Consideraremos esta variável, com alguns deta­
lhes, num capítulo posterior.
Deve-se ter claro, assim, que uma ampla variedade de carac­
terísticas ambientais pode servir como variáveis independentes. De­
ve-se também ter em mente que as mesmas não constituem variáveis
perfeitas, facilmente quantificáveis, prontamente controladas e ma­
nipuladas que se prestem a um oportuno esboço experimental de
projetos de pesquisa.

Apresentação da variável independente

Uma vez que o pesquisador ambiental estuda o efeito de al­


guma característica do ambiente sobre um tipo especial de compor­
tamento, naturalmente tal característica deverá ser apresentada de
alguma forma às pessoas em cujo comportamento esteja interessado.
Em grande parte da pesquisa ambiental realizada, as pessoas cujo
comportamento está sendo estudado já foram expostas à caracterís­
tica ambiental de interesse. Por exemplo, grande parte da pesquisa
relacionada com atitudes perante a poluição do ar, da água e sonora
é deste tipo. Os pesquisadores também comparam, freqüentemente,
atitudes ou outras formas de comportamento de pessoas expostas a
diferentes tipos de características ambientais. Assim, atitudes rela­
tivas à poluição de pessoas que vivem em áreas poluídas podem ser
comparadas com as de pessoas que vivem em áreas “limpas”; o com­
portamento de pessoas que moram em áreas de alta densidade de­
mográfica com o de pessoas das áreas de baixa densidade; atitudes
perante terremotos ou outras catástrofes naturais de pessoas que ha­
bitam regiões onde tais eventos ocorrem, comparadas com as de
habitantes de áreas onde não ocorrem, e assim por diante. Em es­
tudos como estes, a exposição (ou falta de exposição) à caracterís­
tica ambiental ocorreu, de forma que o investigador não tem que se
preocupar com o aspecto como a variável independente é apresen­
tada aos seus indivíduos.

14
Em muitos outros tipos de estudo de psicologia ambiental, en­
tretanto, a apresentação da característica ambiental aos indivíduos
constitui uma preocupação importante para o pesquisador. Além
disso, a forma pela qual é apresentada é decisiva para o êxito da
investigação. Os métodos exatos a serem utilizados dependerão, na­
turalmente, da variável ou das variáveis específicas com que o in­
vestigador esteja tratando, e não podemos descrever todas as pos­
síveis abordagens. Entretanto, conforme ressalta Craik (1970),
certos métodos de apresentação de características ambientais abran­
gem, com algumas modificações, muitos dos enfoques usados por
psicólogos ambientais; estas técnicas gerais serão aqui discutidas.
Quando se refere à característica ambiental que deve ser apre­
sentada a um indivíduo, Craik usa o termo “contexto ambiental”
(págs. 65-66). Um evento ambiental pode incluir virtualmente to­
das as variáveis independentes que discutimos nesta seção. Assim,
uma sala, um edifício, uma clareira de floresta, uma rua apinhada
de gente e uma atmosfera fumacenta, são todos exemplos de con­
textos ambientais. Craik discute três métodos gerais segundo os
quais os contextos ambientais podem ser apresentados aos indiví­
duos: apresentação direta, representação e apresentação imaginária.

Apresentação direta. Neste tipo de apresentação, os indivíduos


são expostos à característica ambiental real, ou contexto, e podem
vê-lo, possivelmente tocá-lo, talvez melhor caminhar ou dirigir em
volta do mesmo ou voar sobre ele. Suponhamos, por exemplo, que
um investigador esteja interessado no efeito de um rio bastante po­
luído sobre o estado de ânimo ou os sentimentos das pessoas que o
vêem. Poderá tomar um grupo de indivíduos de uma área próxima
ao rio, medir seu estado de ânimo (técnicas para isto serão discuti­
das mais tarde), fazê-lo então caminhar ao longo do rio, olhar para
o mesmo, talvez até mesmo prová-lo e medi-lo novamente, para
determinar se foi alterado pela exposição ao rio. Embora haja uma
série de contextos ambientais aos quais se possam expor indivíduos
por apresentação direta, obviamente será difícil, por outro lado, fa­
zê-lo em outros estudos que envolvam outros determinados contextos.
Conseqiientemente, para estes estudos o método de representação é
mais viável.

Representação. Conforme ressalta Craik, “os diversos meios de


representação oferecem alternativas atraentes em oposição à apre­
sentação direta, por serem métodos menos onerosos, mais convenien­
tes e mais padronizados” (pág. 68). Um experimentador pode
optar por empregar um entre muitos expedientes em lugar da apre-

15

scntação direta. Desenhos, mapas, modelos e réplicas da caracte­


rística ambiental podem ser apresentados aos indivíduos, sendo então
estudadas suas respostas a estas representações. Podem também ser
usadas fotografias, filmes e televisão.
Com este enfoque, o investigador interessado no efeito de um
rio poluído sobre a disposição de observadores pode realizar o seu
estudo um laboratório e não ter preocupação com o transporte de
seus indivíduos para o rio propriamente dito. Neste caso, pode me­
dir o estado de ânimo dos indivíduos, mostrar-lhes um filme ou al­
guma outra representação do rio e, então, medir novamente aquele
estado para verificar se a amostra experimental teve qualquer efeito.
Obviamente, a poluição não seria tão “real” para os indivíduos como
no caso de uma apresentação direta; e uma desvantagem deste mé­
todo está em que não sabemos se as pessoas reagem a uma repre­
sentação de um contexto ambiental da mesma forma como reagiríam
a uma apresentação direta do mesmo.

Apresentação imaginária. O pesquisador que usa esta técnica


pede aos indivíduos que visualizem um contexto. Este método é
conveniente porque o pesquisador não tem que levar seus indivíduos
ao contexto ou preparar representações para seu estudo. Usando a
apresentação imaginária para medir a reação face a um rio poluído,
pode determinar o estado de ânimo de seus indivíduos, pedir a eles
que imaginem um rio poluído (poderá descrever-lhes um rio com
alguns detalhes) e então determinar-lhes novamente o estado de
ânimo. A apresentação imaginária tem sido usada numa série de
estudos ambientais, alguns dos quais serão posteriormente descritos.

Variáveis dependentes

A exposição de indivíduos a alguma característica do ambiente


de interesse para o pesquisador constitui somente um aspecto de
investigação. O investigador deve preocupar-se também com a se­
leção e a mensuração da reação comportamental que deseja estudar.
O comportamento envolve muitas atividades, algumas das quais
facilmente observadas pelo experimentador, algumas observadas so­
mente mediante sensíveis equipamentos eletrônicos e algumas “ob­
servadas” por testes e entrevistas. A reação comportamental exata
selecionada por um pesquisador será determinada pela questão a que
deseje responder. Nos capítulos a seguir veremos que, embora a

16
psicologia ambiental seja um campo novo, os pesquisadores já es­
tudaram uniu série de comportamentos.
Em alguns estudos, estas variáveis envolvem claras reações
comportamcntais. O movimento através de uma sala serviu como
variável dependente em um estudo sobre os efeitos da cor da sala.
Em outros estudos, a variável dependente foi o número de pessoas
que visitaram um certo parque nacional. O tempo de reação, a de­
tecção de sinais que aparecem raramente, a irritação dos olhos co­
mo função do nível de fumaça e o desempenho de uma tarefa sob
condições de superpopulação constituem somente algumas das va­
riáveis utilizadas. De modo específico, a medição destas variáveis
é relativamente direta, não suscitando grandes problemas para o
investigador.
A maior parte do trabalho em psicologia ambiental envolve va­
riáveis mais difíceis de se tratar do que as do tipo acima descrito.
Freqüentemente, o pesquisador trata do que uma pessoa sente so­
bre uma dada característica ambiental, ao invés de como a carac­
terística afeta seu comportamento manifesto. Uma vez que senti­
mentos, julgamentos e reações similares são mais difíceis de serem
medidos de forma confiável do que tempo de reação, locomoção e
outras variáveis dependentes deste tipo, e posto que os mesmos são
tão comuns em pesquisa ambiental, vamos considerá-los com alguns
detalhes.
Há diversos modos de provocar e registrar estes tipos de
reações ao contexto ambiental. Craik categoriza estas reações como
“reações descritivas, reações globais, reações inferenciais, reações
atitudinais e reações p r e f e r e n c i a i s Embora todas estas tenham
sido usadas em pesquisa ambiental, algumas são mais comuns que
as outras e serão enfatizadas na discussão logo a seguir.

Reações descritivas

Em alguns casos, pede-se aos indivíduos que descrevam ver­


balmente ou por escrito sua reação face a um contexto ambiental.
O pesquisador que usa esta técnica, denominada descrição livre, não
faz nenhum esforço para estruturar as reações dos seus indivíduos;
analisa somente o que é dito ou escrito. Esta técnica apresenta
uma desvantagem, que consiste na dificuldade de quantificar e
comparar as reações obtidas com a. mesma. Conseqüentemente, a
maioria dos pesquisadores que desejam provocar reações descritivas

17
1,7
usam cm seu lugar uma técnica de descrição padronizada. Os nu­
merosos formulários descritivos padronizados incluem escalas de
avaliação c listas de verificação de adjetivos.
Escalas de avaliação. Embora existam escalas de avaliação de
várias formas, todas têm determinadas características em comum.
Especificamente, apresentam-se ao indivíduo diversas categorias das
quais o mesmo seleciona aquela que julga melhor caracterizar o
contexto ambiental ou a característica do contexto. As categorias
recebem normalmente números, que podem ser diretamente utiliza­
dos em análises estatísticas. Se um pesquisador desejasse medir, por
exemplo, reações diante da poluição do ar, poderia pedir a seus in­
divíduos que selecionassem, na escala indicada abaixo, a categoria
que melhor descrevesse seus sentimentos sobre a poluição do ar. As
respostas dos indivíduos a uma série de tais escalas de avaliação,
cada uma com diferentes categorias descritivas, dariam ao pesqui­
sador um quadro relativamente amplo do sentimento de seus indi­
víduos acerca da poluição do ar.

Muito Prejudicial Pouco N ão


prejudicial prejudicial prejudicial

Um método de escala de avaliação que tem sido bastante usado


em pesquisa comportamental é o diferencial semântico. Com esta
técnica, desenvolvida por Osgood, Suei e Tannenbaum (1957), so­
licita-se aos indivíduos que façam um julgamento sobre um contexto
ambiental numa escala com adjetivos antônimos — tais como agra-
dável-desagradável, confortável-desconfortável ou favorável-desfavo-
rável — em extremos opostos.
Por exemplo, suponhamos que um investigador deseje determi­
nar como as pessoas vêem duas salas de um edifício que sejam
idênticas, exceto quanto à cor das paredes e do carpete. O pesqui­
sador indica cada sala para seus indivíduos e pede-lhes que com­
pletem as diferenciais semânticas como as abaixo indicadas. Se
cada posição das escalas, da esquerda para a direita, for numerada
de 1 a 7, então o indivíduo que completou as escalas indicadas
percebe que esta sala deve ser classificada como 3 na escala
agradável-desagradável; 5, na escala confortável, e 4, na escala fa-
vorável-desfavorável. Normalmente, seria aplicado um número mui­
to maior de escalas do que as indicadas no nosso exemplo. Ex-
trair-se-iam, então, as médias dos números correspondentes aos jul­
gamentos para se determinar se os indivíduos visualizaram de modo
diferente as duas salas.

18
Sala A

Agradável __ __ 2L __ __ __ __ Desagradável

Confortável __ __ __ __ 2L __ __ Desconfortável

Favorável __ __ __ 2Í. __ __ __ Desfavorável

As escalas de avaliação têm algumas vantagens precisas em pes­


quisas ambientais. Via de regra exigem menos tempo do que os
outros métodos, têm uma ampla faixa de aplicações, são especifi­
camente interessantes e de fácil utilização dos indivíduos e, na maio­
ria dos casos, são mais econômicas do que outras medidas.

Listas de verificação de adjetivos. Uma lista de verificação de


adjetivos consiste em uma longa relação de adjetivos (algumas cen­
tenas, às vezes) que o indivíduo verifica serem aplicáveis ou não a
uma característica ambiental. Assim, o pesquisador que esteja in­
teressado em saber como as pessoas vêem as duas salas de paredes
e tapetes de cores diferentes usa a lista de adjetivos indicada abaixo
(juntamente com muitos outros) ao invés da diferencial semântica.
Pediría ele então aos indivíduos que vissem as salas e verificassem
se cada adjetivo é ou não aplicável às mesmas. As listas de veri­
ficação deste tipo são facilmente aplicáveis e podem ser usadas com
eficiência com muitos tipos de contextos ambientais.

Sala A

Sim N ão
Agradável X

Confortável X

X
Favorável

Fria X

Grande X

Coerente X

Uma reação comum a determinados tipos de características


ambientais se traduz numa alteração no estado afetivo. Por exem-

19
pio, o fato de ver um rio de montanha pode fazer uma pessoa sen­
tir-se feliz; se o rio foi poluído, a pessoa poderá sentir-se triste.
Uma forma de lista de verificação de adjetivos desenvolvida para
capacitar as pessoas a descreverem seu estado de ânimo em forma
quantificável é a de Nowlis (1965): Mood Adjective Check List
(MACL) — Lista de Verificação de Adjetivos de Estados de Âni­
mo. A MACL consiste em um grupo de adjetivos que descrevem
oito fatores de estados de ânimo, tais como ansiedade, fadiga,
agressão e concentração. Para cada um desses adjetivos, um indi­
víduo classifica como está se sentindo no momento, numa escala de
quatro pontos, como a que vemos abaixo. O indivíduo em questão
assinala “MM”, no caso de sentir-se definitivamente relaxado no
momento; “M”, no caso de estar ligeiramente relaxado; se não
puder decidir; e “Não”, se definitivamente não se sentir relaxado.
A análise das reações (que poderão ser designadas por números)
oferece ao experimentador uma visão geral do estado de ânimo do
indivíduo.

Relaxado MM * M ? Não

A MACL pode ser usada numa série de métodos de pesquisa


ambiental. Aplicando a lista de verificações antes e depois da apre­
sentação de um contexto ambiental, o pesquisador pode determinar
o efeito deste sobre o estado de ânimo do indivíduo. Algumas ve­
zes, contextos ambientais diferentes apresentam-se a diferentes gru­
pos de indivíduos e assim os membros de cada grupo complefam
uma MACL. Desta maneira, o pesquisador pode comparar os efei­
tos de diversos contextos ambientais sobre a disposição dos que os
vêem.
Têm-se desenvolvido novas técnicas para provocar reações des­
critivas que possam ser utilizadas em pesquisa ambiental. Entre­
tanto, as escalas de avaliação e as listas de verificação de adjetivos,
conforme as que foram descritas, são as técnicas mais comumente
usadas.

Reações globais

Embora as simples descrições de reações perante o ambiente


dadas pelas escalas de avaliação e pelas listas de verificação de ad-
* A letra M é abreviatura de “muito”. (N . do T.)

20
I

jctivos sejam úteis, o registro de reações sutis diante de eventos


ambientais pode requerer técnicas diferentes. Por exemplo, con­
forme ressalta Craik (1970): “Uma reação aparentemente implí­
cita face a contextos como edifícios, salas, vales rurais e galerias
urbanas é reação automática de perserutação em resposta à questão
‘O que poderia haver aqui?’ ” (pág. 73). Para provocar esta Tea-
ção, solicitar-se-ia aos indivíduos que escrevessem uma breve his­
tória sobre o contexto a eles mostrado. Leitores familiarizados com
alguns dos testes de personalidade comumente usados por psicólogos
reconheceríam a semelhança entre este procedimento e o uso do
Thematic Apperception Test (TA T). Reações globais, pois, en-
, volvem especificamente pouco trabalho de estruturação por parte do
pesquisador. Os indivíduos reagem diante de um contexto ambien­
tal, relatando uma história sobre o mesmo, descrevendo como se
sentem nele, interpretando quais os efeitos que tal contexto poderia
ter sobre outras pessoas, e assim por diante.
Outra técnica para obtenção de reações globais requer que os
-^indivíduos desenhem modelos ambientais. Em estudos de áreas ur-
v banas, os indivíduos são freqüentemente solicitados a rascunhar no­
tas para exprimir suas concepções sobre as cidades. Em capítulo
‘ posterior serão discutidos, com pormenores, os resultados deste
“mapeamento cognitivo”.

Reações injerenciais

Fazemos continuamente inferências sobre características do am­


biente e aos poucos vamos elaborando noções sobre as mesmas.
Estas convicções podem ou não corresponder à realidade. Há di­
versos modos de provocar e registrar estas reações inferenciais.
Suponhamos, por exemplo, que estejamos interessados em descobrir
como as pessoas de uma pequena cidade de Dakota do Sul vêem as
pessoas que moram em Nova York e vice-versa. Às pessoas em
cada um destes locais pode-se dar uma determinada lista de verifi­
cação de adjetivos na qual descrevam o que pensam ser as pessoas
que moram no outro local, o que fazem para viver, como são seus
entretenimentos, etc. Inferências sobre uma característica ambiental
podem ser também provocadas, fazendo-se com que as pessoas enu­
merem consequências, tantas quantas possam imaginar, que possam
estar relacionadas com a presença de algum contexto amb:ental (tal
, como um novo lago formado por uma represa) ou remoção de al-
i gum contexto (uma área arborizada que é destruída para desenvol-
; vimento de um núcleo habitacional).

21
Embora estes enfoques e outros semelhantes acarretem algumas
dificuldades em termos de quantificação e análise, podem indicar ao
investigador uma dimensão de comportamento que é importante
para uma melhor compreensão dos relacionamentos homem-am-
biente.

Reações “atitudinais”

Grande parte da pesquisa em psicologia ambiental tem sido rea­


lizada com a mensuração das atitudes das pessoas perante caracte­
rísticas do ambiente como poluição do ar e da água, ruídos de
avião e de outros transportes e áreas de recreação ao ar livre. Al­
gumas vezes os levantamentos têm sido dirigidos ao público em ge­
ral e, outras, a populações mais restritas, tais como camponeses de
áreas ermas ou pessoas que residam próximas a um aeroporto. As
atitudes podem ser medidas de diversas formas, mas a maioria dos
pesquisadores usa questionários detalhados.
Embora o termo “atitude” signifique coisas diferentes para di­
ferentes psicólogos, uma atitude pode ser vista como uma prontidão
mental para reagir, que é organizada através da experiência e que
influenciará o comportamento. Atitudes, entretanto, não modificam
sempre o comportamento; conforme veremos posteriormente, as
pessoas têm fortes atitudes negativas diante da poluição do ar, da
água e da poluição sonora, mas, aparentemente, fazem muito pouco
a respeito.
Conforme frisamos anteriormente, a medição de atitudes pe­
rante uma característica ambiental requer considerável cuidado por
parte do investigador. É particularmente importante que as ques­
tões sejam elaboradas de tal forma que não coloquem as palavras
na boca de quem vai responder. Por exemplo, uma pessoa que re­
sida próxima a um aeroporto poderá não ser suficientemente inco­
modada pelo ruído para queixar-se do mesmo, ou mesmo não estar
particularmente interessada. Entretanto, se lhe fosse indagado “vo­
cê acredita que o ruído das aeronaves é o problema mais sério da
vizinhança?” , ela provavelmente respondería pela afirmativa. Em­
bora a medição de atitudes seja um setor importante da pesquisa
em psicologia ambiental, pode ser que tenha sido demasiado enfa­
tizada. Conseqüentemente, outros tipos de pesquisa, que poderíam
resultar em informações úteis, podem ter sido descurados.

22
Reações preferenciais

Provocar e registrar reações preferenciais são processos relati-


varnenle simples. Um indivíduo pode, por exemplo, dar sua prefe­
rência depois de simplesmente olhar fotografias de contextos am­
bientais, como paisagens, vizinhanças, áreas desertas ou instalações
de camping. O pesquisador com uma série de fotografias de, di­
gamos, diferentes instalações para camping poderá pedir aos seus
indivíduos que escolham entre alternativas paralelas, classifiquem as
fotografias em ordem de preferência, ou que as avaliem. Após te­
rem expressado suas preferências, o pesquisador poderá analisar os
contextos com algum detalhe a fim de determinar quais caracterís­
ticas podem ser associadas com classificações de alta ou baixa pre­
ferência.
Nossa discussão sobre diversos tipos de reação não esgotou,
de forma alguma, as reações possíveis que foram ou poderíam ser
usadas em variáveis dependentes, em pesquisa ambiental. Os am­
bientes naturais e construídos influenciam o comportamento do ho­
mem de formas tão diferentes que virtualmente qualquer aspecto de
comportamento pode ser tratado como variável apropriada para es­
tudo.

SELEÇÃO DE INDIVÍDUOS EM PESQUISA AMBIENTAL

Enfatizamos que duas decisões críticas que o investigador tem


que tomar relacionam-se com seleção e manipulação de variáveis
independentes e seleção e medida de variáveis dependentes. Uma
terceira decisão trata da seleção e tarefa dos indivíduos a serem uti­
lizados num estudo.
Em alguns casos, o investigador deve decidir se, em sua pes­
quisa, usa indivíduos humanos ou algumas espécies de animais infe­
riores. Conforme veremos no cap. 6, grande parte da pesquisa
sobre os efeitos psicológicos e comportamentais da densidade po­
pulacional foi realizada com ratos e camundongos como sujeitos.
Geralmente, entretanto, os pesquisadores em psicologia ambiental
estão interessados nos efeitos de características ambientais sobre'o
comportamento humano e reconhecem que generalizações de desco­
berta de estudos com animais podem ser feitas para seres humanos
somente com muito cuidado. Assim, embora o pesquisador que
planeje usar animais se depare com alguns problemas de seleção,
trataremos aqui da seleção e da tarefa de indivíduos humanos.

23
Amostras c populações

Nas ciências do comportamento, em quase todos os estudos, o


número de indivíduos que o investigador realmente utiliza é rela-
tivamente pequeno. Não obstante, o pesquisador pode frequente­
mente generalizar as descobertas de seu estudo para um número
maior de pessoas, se selecionar uma amostra de indivíduos de uma
população que possuam as características em que esteja interessado.
Suponhamos, por exemplo, que um investigador deseje determinar
as atitudes perante o ruído de aeronaves dos habitantes de uma pe­
quena cidade, onde, cada dia, os voos de jatos militares produzem
estampidos sônicos. Neste caso, a população abrange todos os ha­
bitantes da cidade — talvez 40.000 pessoas. Uma vez que não
seria possível entrevistá-las todas, o pesquisador selecionaria uma
amostra. Se for adequada a estratégia de amostragem, as opiniões
das pessoas que constituem a amostra refletirão muito apropriada­
mente as opiniões de toda a população. Este procedimento, natu­
ralmente, é o seguido pelos diversos grupos de levantamento pro­
fissional que, com base nas informações obtidas de uma amostra
de somente umas duas mil pessoas, pode determinar de forma muito
exata o que pensa a nação sobre um determinado assunto.

O pesquisador que estude o comportamento num laboratório


deve preocupar-se também com a maneira como os indivíduos são
selecionados e designados para os experimentos. Embora muito fre­
quentemente os indivíduos da pesquisa de laboratório sejam estu­
dantes universitários de cursos de graduação em psicologia, que po­
dem ou não participar por opção pessoal, o investigador pode tomar
medidas para tornar mais válida a generalização de seus dados.
Normalmente, sua estratégia envolve algum tipo de seleção ao acaso
bem como tarefa de indivíduos em diferentes níveis da variável in­
dependente.

A seleção de amostras constitui freqüentemente um processo


complexo e ultrapassa a finalidade deste texto. Pode-se encontrar
discussões detalhadas de estratégias de amostragem em Ellingstad e
Heimstra (1974) e em Babbie (1973). O que se deve ter em
mente é que os indivíduos para um estudo, seja ele um levanta­
mento em larga escala ou uma pequena experiência de laboratório,
deverão ser cuidadosamente selecionados, caso o pesquisador espere
generalizar suas descobertas.

24
Características dos indivíduos

As características dos indivíduos selecionados dependem, ob­


viamente, da questão a que o investigador espera responder. Se es­
tiver interessado nos efeitos dos ruídos de aeronaves sobre o desem­
penho de uma sala de aulas de crianças, sua amostra consistirá de
crianças tomadas daquela área ruidosa. Do mesmo modo, se esti­
vesse interessado nas atitudes de camponeses de áreas agrestes diante
de uma estrada que estivesse sendo construída numa área deserta,
sua amostra consistiría de camponeses residentes na área. Em alguns
casos, os indivíduos são selecionados com base numa característica
de personalidade, tal como extroversão ou introversão, e suas reações
face a diversos tipos de contextos ambientais são comparadas. Visto
que muitas questões sobre o efeito do ambiente sobre o comporta­
mento permanecem sem respostas, praticamente qualquer pessoa pode
ser membro de um grupo com alguma característica de interesse para
os psicólogos ambientais.
Freqüentemente, entretanto, os indivíduos são tomados de si­
tuações a que Craik (1970) se refere como grupos de especialistas
e grupos de usuários. Nos primeiros estão engenheiros, arquitetos,
planejadores urbanos, arquitetos paisagistas e outros com compe­
tência em uma área particular. Em grupos de usuários estão pessoas
idosas, pacientes de hospitais, internos de prisões ou outros tipos de
instituições, camponeses de áreas agrestes, etc. O tipo de grupo de
especialistas ou grupo de usuários selecionados depende, natural­
mente, dos objetivos do estudo.
Uma última categoria da qual são retirados indivíduos é o
grande número de pessoas que costuma viver em áreas onde algum
aspecto do ambiente esteja se deteriorando. Em muitas áreas, a
poluição do ar chega a um nível extremamente alto ou os residentes
são bombardeados com o ruído de aeronaves ou outros transportes,
ou então a densidade populacional é muito alta. Uma única área
tem, com freqüência, todas estas características ambientais. Grande
parte da pesquisa em psicologia ambiental tem sido uma tentativa
para determinar como a deterioração ambiental afeta o comporta­
mento dessas pessoas.

25
Capítulo 2

O ambiente construído: salas e moradia

Os dois tipos principais de ambiente físico são o ambiente


construído e o ambiente natural. Não devem, entretanto, ser con­
siderados como mutuamente exclusivos, mas, sim, como parte de
uma continuidade numa série de dimensões. Para nossos objetivos,
a mais importante destas dimensões é a relativa contribuição (em
número ou em espaço ocupado) de estruturas projetadas ou cons­
truídas pelo homem num determinado espaço físico. Consideremos,
por exemplo, a diferença de composição do espaço físico geral en­
tre um subúrbio ou uma sala de aula e uma área campestre ou um
atalho num parque nacional. Ambos os tipos de locais contêm es­
truturas ou características projetadas pelo homem, mas estas pre­
dominam na composição do espaço do subúrbio ou da sala de aula.
Assim, um ambiente construído é aquilo que foi projetado e for­
mado, em larga escala, pelo homem.
De acordo com esta concepção geral do significado do termo
“ambiente construído”, grande parte de nosso comportamento ocor­
re em ambientes construídos de um ou de outro tipo. Obviamente,
pois, o ambiente construído tem grande potencial de influência sobre
nossas atividades.
Conforme previamente mencionado, o ambiente construído po­
de ser considerado como um sistema composto de muitos subsiste-
mas. Embora estes subsistemas variem tremendamente em dimensão
física, função e quantidade de relacionamento social que neles
ocorre, cada um pode ser dividido em elementos que podem afetar
o comportamento humano no sistema. Pelo mesmo enfoque, o ele­
mento humano em diferentes ambientes construídos varia também,
dando origem a relações únicas entre comportamento e ambiente,
em cada ambiente construído. Desta forma, o comportamento numa
sala de uma casa pode diferir substancialmente dos tipos de com­
portamento que ocorrem num grande terminal de aeroporto. Con­
sideraremos em primeiro lugar, portanto, os relacionamentos entre

27
homem e ambiente construído ao nível relativamente simples das
salas c seus acessórios, para depois abordarmos sistemas homem-
ambiente mais complexos, tais como casas, grandes edifícios e ins­
talações c instituições sociais.
ê importante ter em mente que, embora cada nível do am­
biente construído venha a ser discutido como se fosse uma entidade
em si, é sempre um componente de algum sistema maior. Conforme
é mostrado na fig. 2-1, embora possamos estar interessados nas carac­
terísticas físicas de uma sala, que influenciem o comportamento da
pessoa que nela estiver, a mesma não passa de uma sala num edi­
fício específico de um bairro duma cidade numa região geográfica
— neste caso, a costa ocidental. Cada um destes subsistemas (o
edifício, o bairro, a cidade e a região geográfica) possui caracterís­
ticas físicas únicas que podem influenciar o comportamento do in­
divíduo na sala. Além disso, estas mesmas características físicas
afetam outras pessoas em cada nível do sistema e, desta forma, po­
dem promover comportamento social que envolva a pessoa em con­
sideração.

Figura 2-1 U m exemplo dos níveis de ambiente físico que podem afetar o
comportamento.

28
SALAS

A influência mais significativa de uma sala sobre o comporta­


mento é a finalidade da sala. Em muitos casos, a função de uma
sala é parcialmente definida pela finalidade de um sistema maior
— uma única sala de aula numa escola, por exemplo. O fato de
esta sala constituir parte da escola tem como característica o tipo
de comportamento, por assim dizer, que nela ocorre. O tipo de
influência sobre o comportamento depende de ser a sala um audi­
tório de palestras, um laboratório químico ou uma pequena sala de
seminários. Além disso, para cada tipo de sala, presumimos uma
determinada forma, determinado mobiliário e determinadas condi­
ções ambientais, todos os quais afetam, certamente, o comporta­
mento.
Em outros casos, a finalidade de uma sala não é tão explícita.
Exemplo disso é uma sala de estar de uma residência. Posto que
muitos tipos diferentes de comportamento podem ocorrer nesta sala,
as especificações para a sua forma física e conteúdo não são tão
claras como para um tipo específico de sala de aula.
Quando, entretanto, uma sala tiver que fornecer tipos específi­
cos de comportamento, dever-se-á ter em mente determinadas consi­
derações quanto ao projeto. Para uma sala de aula, a consideração
mais óbvia é a precaução para facilitar o aprendizado do aluno.
Assim, se uma sala de aula tiver que servir como sala de palestra,
os assentos deverão ser dispostos de forma que cada aluno tenha
uma visão mais clara possível do instrutor bem como dos recursos
que o mesmo usará para sua exposição; todos os estudantes deve­
rão estar, evidentemente, de frente para o professor, seja qual for a
disposição das carteiras ou mesas. Associados a este tipo de sala
de aula estão os regulamentos sociais de comportamento implícitos;
por exemplo, a interação dos alunos deverá ser minimizada, de modo
a não interferir nas conferências. Este pré-requisito comportamen-
tal significa especificações adicionais para disposição de assentos.
Nestes exemplos, deve ficar claro que há duas modalidades pos­
síveis de projeto físico que afetam o comportamento, A primeira
diz respeito aos aspectos do ambiente construído que devem ser in­
corporados no projeto de uma sala para que ela possa preencher sua
função; por exemplo, um laboratório químico deverá ter uma sala
para as mesas de laboratório. A segunda modalidade se refere às
características físicas da sala que não são diretamente exigidas por

29
sua função. Ambas as categorias de projeto físico contêm variáveis
independentes que exercem considerável influência sobre o compor­
tamento. Uma das variáveis pertencentes à última categoria é a cor.

Cor
i

A cor é provavelmente a dimensão física de uma sala que me­


nos sofre com as restrições impostas pela função planejada de uma
sala, embora a cor da parede e do teto sejam freqiientemente esco­
lhidas para complementar a colocação de janelas e de dispositivos
de iluminação no sentido de reduzir o brilho e aumentar os reflexos
da luz. Assim sendo, o esquema de cores de uma sala é geralmente
deixado para o arquiteto ou decoradores de interiores. Sua decisão
não deve, entretanto, ser puramente de ordem estética; conforme se
verá na pesquisa que discutiremos adiante, as cores suscitam estados
afetivos e exercem influência sobre comportamentos manifestos.

Características da cor
A luz colorida tem três dimensões: luminosidade, tonalidade e
saturação. A luminosidade é a intensidade da cor e a tonalidade é
simplesmente a cor de um objeto ou o comprimento de onda no
espectro de cores que predomina na composição da cor. A saturação
é a quantidade de branco presente em qualquer cor; quanto mais
saturada estiver, menos branco conterá. O vermelho, por exemplo,
é mais saturado que o rosa.
Na especificação de cores compostas de pigmentos, ao invés
de luz mantém-se, de preferência, o termo “tonalidade”, mas o ter­
mo “chroma” é freqiientemente substituto de “saturação” e a di­
mensão de valor é acrescentada. Valor é “o grau de aclaramento
da cor com relação a uma escala branco-para preto” (Woodson e
Conover, 1966, págs. 2-211). Uma vez que uma ou mais destas di­
mensões podem variar no planejamento de disposições de cores para
a sala, os projetistas têm bastante liberdade para tentar produzir rea­
ções subjetivas desejadas nas pessoas que usam as salas.

Estudos sobre cores de salas e comportamento


Uma das noções mais comuns sobre as cores de salas é a de
que as cores para o lado vermelho do espectro (amarelos, laranja
e vermelhos) são quentes, ao passo que as cores para o outro lado
(azuis e verdes) são frias. Chegou-se a esta idéia provavelmente
por associações do senso comum. Água azul e clareiras verdes de

30
florestas sugerem temperaturas frias, ao passo que amarelos, verme­
lhos c laranja fazem lembrar o sol ou o fogo. Estes tipos de asso­
ciações levaram à hipótese tonalidade-calor aparentemente intuitiva
de “que um ambiente que tenha freqüências de luz dominantes para
o lado vermelho do espectro visível é quente e de que aquele onde
dominam freqüências para o azul é frio” (Bennett e Rey, 1972,
pág. 149).
Estes autores testaram uma extensão lógica da hipótese tona­
lidade-calor: o calor percebido originário da cor de uma sala e a
temperatura real da sala podem atuar conjuntamente para afetar de
maneira diferencial o conforto térmico dos ocupantes da mesma. A
sala usada para investigação foi uma câmara ambiental, uma sala
com controles precisos sobre umidade e temperatura. A tempera­
tura na câmara foi alterada, fazendo-se circular fluido frio ou quente
através de serpentinas conectadas às paredes, que eram de alumínio.
A cor, que é outra variável independente, foi controlada, exigin-
do-se que cada pessoa usasse sucessivamente óculos vermelhos, azuis
e claros. Sob cada condição de cor, a temperatura da parede foi
aumentada para 39°C e, depois, diminuída para 15°C. Solicitou-se às
pessoas, que foram sentadas próximas às paredes, que classificassem
periodicamente suas sensações de conforto térmico. As leituras de
temperatura foram obtidas nos pontos em que as pessoas mudaram
de uma condição de conforto térmico para outra — por exemplo,
de “ligeiramente quente” para “quente” — em cada uma das con­
dições de cores. A análise dos pesquisadores revelou que, quanto a
conforto térmico, o vermelho não afetou as sensações das pessoas
de modo diferente daquele das condições azul ou clara. Bennett e
Rey sugeriram que a hipótese tonalidade-calor é somente intelectual,
uma crença arraigada de que certas cores tornam as salas mais quen­
tes do que as outras.
Foi obtida prova deste efeito intelectual também por Berry
(1961), numa investigação semelhante. As pessoas deste estudo fo­
ram colocadas numa sala sob diferentes cores de iluminação e, en­
quanto o experimentador aumentava a temperatura do ar na sala,
solicitava que relatassem quando a sentissem muito quente. Embora
não fossem descobertas quaisquer diferenças entre as cores e o ponto
em que os indivíduos declararam uma sensação de desconforto, os
participantes indicaram que as cores mais quentes (usualmente âm­
bar e amarelo) conduziam mais calor do que as cores frias (verde
e azul).
Estes dois estudos ilustram um ponto importante. Embora não
se tenha podido estabelecer nenhum efeito comportamental da cor

31
da sala sobre o conforto térmico, as pessoas dos estudos mantiveram
ainda a percepção cognitiva de variação de calor à medida que as
cores eram alteradas. Por isso, na seleção de cores para uma sala,
este efeito de percepção de cores pode ser tão importante quanto as
indicações comportamentais reais de confoTto.
A cor afeta a percepção não somente do calor de uma sala
mas também de qualidades, tais como o seu espaço, a complexidade
e o status social. Acking e Küller (1967, 1972) solicitaram a pes­
soas que classificassem slides coloridos de salas numa extensa lista
de adjetivos que pudessem descrever o ambiente. As classificações
foram usadas por uma equipe de arquitetos e psicólogos para sele­
cionar um conjunto de adjetivos que melhor descrevessem o con­
forto, status social, complexidade, unidade e “fechamento” de uma
sala. Usando a lista resultante de classificação, os participantes da
segunda investigação avaliaram slides de esboços de salas nos quais
as cores das paredes e alguns detalhes da sala variavam. Verifi­
cou-se que a avaliação social das salas variava em função da lumi­
nosidade; à medida que o escuro da cor da sala e seus detalhes au­
mentavam, os indivíduos achavam as salas mais ricas ou caras.
Também a dimensão de valor influenciou a percepção do espaço de
uma sala. À medida que as cores da sala se tornavam mais leves,
as salas eram geralmente julgadas mais espaçosas. Também o efeito
de amplitude foi conseguido, aumentando-se a intensidade cromática
dos detalhes da sala, enquanto se deixava a cor das paredes relati­
vamente fraca em termos de saturação. Evidenciou-se, também, que
o julgamento da complexidade da sala depende da força cromática
das tonalidades e que as cores de sala mais saturadas recebem clas­
sificações de maior complexidade. A classificação do conforto da
sala variava de indivíduo para indivíduo, sem qualquer estabeleci­
mento de preferências firmes de cores.
Até este ponto, nossa discussão de cores como uma variável
independente tratou dos efeitos de dimensões diferentes de cores so­
bre as percepções de uma sala. Embora as percepções de uma pes­
soa quanto a valor ou sensação de espaço possam ser consideradas
um tipo de comportamento, são difíceis de ser medidas. Outra for­
ma de estudar os efeitos de cores consiste na tentativa de unir a
percepção que uma pessoa tenha de uma sala a um comportamento
que seja mais observável, ou pelo menos mais passível de avaliações
objetivas. Entretanto, tais medidas de comportamento tornam-se
progressivamente difíceis de ser obtidas à medida que a relação ho-
mem-ambiente se tom a mais natural.
Na Environment Research Foundation, em Kansas, foi de­
senvolvido um engenhoso dispositivo que mede comportamento “lo-

32
cncionul” c indica como o mesmo é afetado por características am­
bientais. Este dispositivo registrou o comportamento Iocacional de
pessoas não previamente alertadas, numa sala do museu da Univer- .
sidade de Kansas. O dispositivo designado hodômetro (hodos é um
termo grego para curso, caminho) consiste em uma rede de termi­
nais eletrônicos achatados, semelhantes aos usados para portas auto­
máticas. Os terminais são dispostos no solo, cobertos por um car­
pete e ligados a contadores colocados numa sala lateral que fica
oculta às pessoas que visitam a sala do museu. O número de lugares
a que os visitantes vão na sala, o tempo que passam num dado lugar
e outros tipos de comportamento podem ser, assim, medidos. Bet-
chel (1967) usou este hodômetro para estabelecer correlações entre
comportamento Iocacional e preferência de quadros em exposições
de arte.
De interesse mais imediato, entretanto, é o estudo feito por
Srivastava e Peel (1968), que usaram o hodômetro para medir o
comportamento exploratório de visitantes de salas de museu. Em
cada uma das duas condições de estudo, as cores do carpete que
ocultava os terminais e a cor das paredes foram alteradas. Quando
as paredes e o carpete eram bege-claro, as pessoas exploravam me­
nos (usavam menos o espaço de chão disponível) do que quando
eram de cor chocolate. As pessoas nesta última condição davam
mais passos, cobriam aproximadamente duas vezes a área e passa­
vam menos tempo na sala.
Esta seção deu pelo menos uma visão preliminar dos efeitos da
percepção de cores sobre outras forma de comportamento. Infeliz-
mente, os estudos aqui apresentados não representam sequer um pe­
queno aspecto da pesquisa realizada neste particular; constituem, po­
rém, a maior parte da pesquisa relatada. Além de dar informações
importantes sobre os relacionamentos homem-ambiente, tais estudos
sobre eliciação de sensações e idéias sugerem futuras diretrizes de
pesquisa. O estudo feito por Srivastava e Peel sugere que a cor nas
salas não deve ser desconsiderada ou relegada a funções puramente
estéticas, nas considerações de futuros projetos.

Conforto ambiental *

A experiência de cores numa sala é visual. Outros aspectos de


uma sala acarretam outras diferentes modalidades sensoriais. Tais

* Do inglês Ambient environment, referente a fatores considerados em por­


tuguês sob a classe de fatores de conforto ambiental. (N . do T.)

33
aspectos, conhecidos como de conforto ambiental, são o ruído, a
temperatura, a iluminação e o odor. Tradicionalmente, têm sido
alvo de mais consideração em discussões sobre ambientes de traba­
lho, tais como escritórios e fábricas, ou sobre ambientes especiais,
como o caso de hospitais. O conceito de ruído como fator ambien­
tal de stress será abordado com detalhes num capítulo posterior,
como o serão os aspectos de conforto ambiental referentes a escri­
tórios e edifícios com finalidades especiais. Entretanto, algumas de­
clarações sobre os efeitos do conforto ambiental sobre as percepções
das pessoas quanto às salas podem servir para conscientização de
sua existência no esquema de qualquer ambiente de uma sala.
Um conforto ambiental aceitável constitui requisito prévio para
a satisfação estética. De acordo com Fitch (1965), “o processo
estético somente começa a operar ao máximo, ou seja, como facul­
dade unicamente humana, quando o impacto sobre o corpo de todas
as forças ambientais é mantido dentTo de limites toleráveis. . . . Uma
temperatura de 45°C ou um nível sonoro de 120 decibéis podem
tornar inabitável a mais bela sala” (págs. 707-708). Desta forma,
não só devem ser aceitáveis todas as condições ambientais, como não
se deve permitir que qualquer estímulo domine os demais, mesmo
que tal estímulo possa ser tolerável. Se o estímulo for extremo, pode
resultar numa sobrecarga sensorial, o que constitui um fator de
stress para o indivíduo. O conceito do ambiente como criador de
stress será examinado em profundidade em capítulo posterior. Em­
bora os exemplos apresentados neste capítulo tratem da poluição,
superpopulação e outras características do ambiente físico causadoras
de stress, deve-se ter em mente que os aspectos de conforto am­
biental de uma sala, causadores de stress, podem provocar muitos
comportamentos do mesmo tipo. Mesmo não causando stress,
uma quantidade excessiva de um ou mais aspectos de conforto am­
biental numa sala pode fazer com que o indivíduo a perceba como
desagradável, o que pode levar a um comportamento mais ativo —
evitando a sala no futuro, por exemplo.
As condições ambientais requeridas para satisfação e valoriza­
ção podem variar de sala para sala, uma vez que constituem uma
função da finalidade para a qual a sala foi projetada. Desta forma,
dependendo da finalidade de uma determinada sala, diferentes as­
pectos de conforto ambiental podem ser manipulados para produzir
uma atmosfera que, por sua vez, irá despertar o estado comporta-
mental desejado em seus ocupantes. Os exemplos seguintes de salas
comuns, juntamente com um exame de seus aspectos de conforto
ambiental e o comportamento desejado, constituem ilustrações.

34
Numa discoteca, são altamente manipuladas duas condições
ambientais: iluminação e som. A música e outras fontes de som fre­
quentemente alcançam um nível mantido em geral em mais de 100
decibéis. Embora o nível de iluminação seja frequentemente bas­
tante baixo, as luzes podem estar em lugares incomuns — por exem­
plo, sob um piso de plexiglass — e poderão ser programadas em
seqüências de jlashes ou piscadelas, numa tentativa de produzir uma
experiência de excitação visual. Além disso, a temperatura, em es­
tabelecimentos desta espécie, é provavelmente mais elevada do que
a que os ocupantes considerariam agradável em outras situações.
No gabinete de um dentista, a luz e o som são usualmente ma­
nipulados para auxiliarem a criação de uma atmosfera agradável.
Os níveis sonoros são muito mais baixos do que numa discoteca,
embora seja desejável música suave. A iluminação, por outro lado,
é de um nível mais alto, não só devido às necessidades do dentista
para o seu trabalho, mas também porque a sala assim parece mais
alegre. Tais recursos auxiliam a criar um ambiente que é vantajoso
tanto para o cliente como para o dentista. Do ponto de vista do
dentista, quanto mais agradável a atmosfera de seu gabinete, maior
a possibilidade de uma impressão favorável no paciente. A impres­
são que o paciente recebe pode influenciar a sua volta ou a refe­
rência que ele fará a seus amigos. O paciente aprecia um consultório
agradável e acolhedor, enquanto estiver esperando ou sob trata­
mento.
Obviamente, outras condições estão também atuando nestas
duas situações e, entre as que mais influem, podem estar as condi­
ções sociais. Os relacionamentos sociais e a maneira como são afe­
tados por diversos aspectos de uma sala serão discutidos posterior­
mente neste capítulo.

Tamanho e forma

Se pensarmos nas diversas características que compõem uma


sala, quer fixas ou variáveis, sem dúvida o tamanho e a forma cons­
tituem as mais rígidas. Embora, conforme veremos mais tarde, a
natureza das salas possa ser alterada pela redistribuição de seu mo­
biliário, as dimensões físicas de uma sala não se prestam a alterações
sem considerável esforço e despesa. Assim, o tamanho e a forma de
uma sala em particular foram amplamente aceitos como fixos e os
pesquisadores têm-se concentrado no trabalho de manipular outros

35
aspectos do ambiente da sala, tais como a cor, condições ambientais
e disposição do mobiliário.
A razão principal da carência de pesquisa quanto ao efeito da
forma de uma sala sobre o comportamento é a nossa quase total
falta de variedades de formas. Em sua grande maioria, as salas ame­
ricanas são retangulares; é difícil Iembrarmo-nos de uma sala que
não seja formada de ângulos de 90°. Somente em arquitetura futu-
rística e em outras culturas — o iglu na cultura esquimó e o tepee
na cultura indígena, por exemplo — há salas de forma diferente.
De fato, a sala retangular é tão comum que nos sentimos inclinados
a acreditar que uma sala em particular seja retangular, mesmo que a
disposição dos objetos que estejam na sala nos diga que não. ItteJson
e Kilpatrick (1951) apresentam excelente exemplo deste fenômeno,
que ocorre numa sala distorcida:
“ . . . o piso inclina-se para a direita do observador, a parede
de trás recua da direita para a esquerda e as janelas são de tama­
nhos diferentes e trapezoidais na forma. Quando um observador
olha para esta sala com um olho só a partir de um determinado pon­
to, a sala aparece como se o piso fosse plano, a parede de trás como
se estivesse em ângulo reto com a linha de visão e as janelas como
se fossem retangulares e do mesmo tamanho. Presumivelmente o
observador escolhe esta aparência particular ao invés de alguma ou­
tra devido a conceitos e formas preestabelecidas que traz para a
ocasião” (pág. 55).
A importância deste estudo para a psicologia ambiental reside
no fato de que a percepção do examinador da sala distorcida é in­
fluenciada por sua experiência prévia com salas. Infelizmente, têm
sido relatadas poucas pesquisas sobre os diferentes efeitos comporta-
mentais das diversas formas de salas. Ittelson e Kilpatrick, em seu
estudo, sugerem que as descobertas em tal área seriam de conside­
rável interesse.
O tamanho da maioria das salas é determinado por sua função.
De forma geral, o tamanho de uma sala é o mínimo requerido para
servir à sua função. Por exemplo, se a função de uma sala de aula
consiste em abrigar trinta pessoas, é pouco provável que a mesma
possa acomodar confortavelmente um grupo de cinqüenta. Quanto
a este aspecto, considerações de ordem econômica têm prioridade
sobre possíveis benefícios de ordem psicológica de maior amplitude.
Uma vez que o tamanho depende, em larga escala, da função
da sala, o efeito do tamanho sobre o comportamento pode ser con­

36
siderado como uma interação com outras variáveis independentes,
tais como o número de pessoas em uma sala. Neste contexto, o ta­
manho torna-se importante como um possível determinante do com­
portamento. Por exemplo, a presença de muitas pessoas numa sala
pode torná-la apinhada, o que pode acarretar conseqüências com-
portamentais (a superocupação é discutida no cap. 6). Desta
forma, o tamanho pode ser visto como um total de espaço dispo­
nível para cada pessoa em uma sala. Discutir-se-ão posteriormente
neste capítulo os diferentes modos pelos quais as pessoas utilizam o
espaço para assegurar privacidade, para afirmar propriedade ou sta-
tus, bem como para influenciar o relacionamento social.

Mobiliário e sua disposição

Enfatizamos até aqui, neste capítulo, os efeitos de alguns as­


pectos de uma sala — tamanho e forma, cor e condições ambientais
—- sobre as percepções, valoração e comportamento locacional do
indivíduo. Nesta e nas seções a seguir, nossa ênfase recairá sobre
os efeitos dos diversos aspectos das salas sobre as pessoas que estão
se relacionando. Uma razão para esta mudança na ênfase reside no
fato de que os efeitos no mobiliário das salas sobre o indivíduo são
em geral reduzidos à percepção que ele tem da eficiência, conforto,
beleza e valor de seus componentes. Quando duas ou mais pessoas
estão se relacionando num ambiente educacional, de trabalho, re-
creacional ou outro, os efeitos comportamentais do mobiliário ou de
sua disposição podem ser mais facilmente observados (Mehrabian &
Diamond, 1917; Sommer, 1959, 1962). Outra razão para se foca­
lizar o comportamento de grupo ao invés do individual é que, con­
forme veremos mais tarde, determinadas variáveis associadas a um
indivíduo somente podem ser estudadas em relacionamentos sociais.
Por exemplo, o comportamento territorial de uma pessoa e sua ne­
cessidade de privacidade são melhor observados em situações que
envolvem contato real ou potencial com outros. Finalmente, grande
parte de nosso conhecimento dos efeitos do ambiente sobre o com­
portamento tem sido obtida através da observação de pessoas ocupa­
das numa variedade de atividades em lugares como salas de aula,
bibliotecas, salas de descanso e dormitórios.
Conforme exposto no início deste capítulo, muitos componentes
de um ambiente construído são projetados com o fito de atender
tanto a objetivos funcionais como comportamentais. A função de
uma cadeira, por exemplo, é obviamente a de prover a necessidade

37
dc alguém de sc sentar. Ao mesmo tempo, uma cadeira pode ser
projetada para influenciar o comportamento. Sommer (1969) relata
que um desenhista de móveis dinamarquês foi contratado para de­
senhar uma cadeira que se tornaria tão desconfortável, após um curto
período de tempo, que um ocupante dela seria forçado a levantar-se.
Este desenho foi encomendado por proprietários de restaurantes que
não desejavam que seus fregueses prolongassem o café. Sommer
(1969) descreve também considerações semelhantes referentes aos
desenhos das disposições de assentos de um aeroporto típico:
“Na maioria dos terminais, é praticamente impossível duas pes­
soas sentarem-se para conversar confortavelmente por qualquer pe­
ríodo de tempo. As cadeiras ou são dispostas juntas e colocadas
em fileiras em estilo de teatro, de frente para o balcão de passagens,
ou de costas uma para a outra e, mesmo que estejam de frente uma
para a outra, situam-se a distâncias tais que é impossível uma conversa
confortável. O motivo para tal disposição é o mesmo que em hotéis
e outros lugares comerciais — levar as pessoas para fora das áreas
de espera e encaminhá-las para bares e lojas, onde gastarão dinhei­
ro” (pág. 121-122).
Se o objetivo das acomodações para se sentar, nos aeroportos,
realmente consiste em desencorajar o relacionamento social e pro­
piciar ganhos financeiros, a disposição é altamente apropriada. Nu­
ma série de experiências, Sommer (1959, 1962) investigou as pre­
ferências quanto a assentos para pessoas envolvidas em conversações.
No primeiro estudo, pares de indivíduos foram solicitados a senta-
rem-se em dois sofás numa sala de estar e a discutirem um determi­
nado assunto. Os sofás foram colocados frente a frente, a distâncias
variáveis segundo as condições experimentais. Sommer descobriu
que, até uma distância de cerca de um metro entre os sofás, seus
pares de indivíduos preferiam sentar-se frente a frente. Quando a
distância era maior, preferiam sentar-se no mesmo sofá.
Usando as descobertas desta experiência, Sommer efetuou um
segundo estudo, em que os sofás foram substituídos por quatro ca­
deiras, de forma a permitir maior variação na distância lado a lado.
As situações experimentais foram feitas de forma que a distância en­
tre cadeiras situadas lado a lado e de frente poderíam variar desde
33 cm até 1,70 m. Novamente, foi dado a pares de indivíduos
um assunto para discussão, sendo-lhes determinada uma disposição
das cadeiras. Como no estudo anterior, os indivíduos preferiram, de
forma geral, sentar-se frente a frente se a distância fosse igual oü
inferior à distância lado a lado (ver fig. 2-2). Ao interpretar estas

38
Figura 2-2 A pesquisa indica que a disposição das cadeiras influencia a escolha
de assentos de duas pessoas que desejam conversar. As pessoas preferem sen­
tar-se de frente enquanto conversam, se as cadeiras forem suficientemente
próximas, na forma como se acha na parte superior da ilustração. Se a dis­
tância que separa as cadeiras for muito grande para uma conversação confor­
tável, como na parte inferior da ilustração, as pessoas sentar-se-ão lado a lado.

descobertas, entretanto, Sommer chama a atenção de que foram ob­


tidas numa mesma sala e num relacionamento estruturado. Enfatiza
que a manipulação de outras variáveis ambientais, tais como o ta­
manho e a função da sala, bem como a situação social, podem
provocar diferentes reações. ^
A sala de aula e o que nela ocorre foram sempre assuntos de
muito interesse para administradores, professores e pais. Novas téc­
nicas educacionais, tais como o planejamento modular e a sala de
aula aberta, coin metas amplamente definidas para incrementar a
qualidade da experiência educacional, têm aumentado ainda mais, e
substancialmente, este interesse. Entretanto, não tem sido dada tanta
atenção para a contribuição do ambiente físico da sala de aula para
o processo educacional. Na maioria das vezes, se o ambiente da
sala de aula é alterado de alguma forma, tal alteração se dá para
promover algum objetivo comportamental — por exemplo, para in­

\
39
tensificar o nível de discussão em classe. Os pesquisadores defron­
tam-se então com uma série de variáveis independentes. Se o nível
de discussão em classe demonstrar haver aumentado, foi isso devido
à nova técnica de ensino ou foi possivelmente por causa da dispo­
sição do mobiliário de uma forma mais útil para o relacionamento
aluno-professor? É muito rara a pesquisa que se tenha orientado no
sentido de responder a este tipo de pergunta.
Entretanto, Sommer (1969) e Richardson (1967) penetram um
pouco na questão das condições físicas da sala e dos comportamen­
tos do aluno. Richardson defende o ponto de vista de que a dis­
posição física tradicional da sala de aula — carteiras de alunos em
filas retas, de frente paia o professor — pode não ser a melhor for­
ma de promover envolvimento e satisfação do aluno. Cita uma série
de razões: (1) os alunos podem não ser capazes de ver o professor
ou o que este está fazendo porque outros alunos podem, inadverti-
damente, bloquear sua visão; (2) muitos alunos podem estar tão
distantes do professor que se sentem isolados da aula e do assunto
em questão; (3) os alunos têm dificuldade de ver e ouvir outros
alunos. Se uma pessoa na fila da frente responde a uma questão,
sua voz pode não chegar aos alunos do fundo da sala. Além disso,
fica difícil para o aluno da frente perceber a reação da classe à sua
resposta. Os alunos no fundo da sala, que responderem a uma ques­
tão, também não podem ver e ouvir as reações de seus colegas de
classe; (4) o papel dominador do professor é acentuado pelo uso
de mobiliário diferente daquele usado pelos alunos e pela distância
entre os alunos e o professor; (5) a disposição fila a fila inibe os
tipos de aula baseados em “ação”.
Richardson oferece diversas alternativas para a disposição tra­
dicional do mobiliário da sala de aulas, alternativas estas que enco­
rajariam a participação na aula. Uma sugestão é dispor as carteiras
em um ou mais círculos ou semicírculos. Salienta, também, que a
substituição de carteiras por grandes mesas possibilitaria a unidade e
a cooperação em aula. Embora as opiniões de Richardson derivas­
sem de observações e não representassem mais do que evidência ane-
dótica, suas idéias básicas são apoiadas por Sommer (1969), que
investigou as disposições de assentos, propriedades das salas e a par­
ticipação em aula.
Sommer utilizou seis salas em seu estudo. Quatro tinham a dis­
posição tradicional de filas retas. Duas destas salas eram laborató­
rios para estudantes, contendo o equipamento usual, além de mesas
fixas. As outras duas salas tradicionais diferiam numa outra di­
mensão: uma era sem janelas e. uma parede da outra era envidra-

40
çatla. As restantes eram salas para seminários, com mesas formando
um quadrado numa das salas e nos três lados, na outra. A obser­
vação de alunos durante as aulas regulares indicou que,-nas dispo­
sições em fila reta, participava nas discussões em aula um número
médio maior de alunos por sessão. Entretanto, o número absoluto
de afirmações por questão era mais elevado nas aulas que eram da­
das nas salas para seminários. Sommer relata também que os alunos
declararam não gostar de ter suas aulas nos laboratórios e nas salas
sem janelas. Os resultados desta investigação sugerem que as carac­
terísticas físicas de uma sala de aula são determinantes importantes
do comportamento que nela ocorre.

VARIÁVEIS INDIVIDUAIS E SALAS

Transferiremos nossa ênfase, neste ponto, das variáveis físicas


de salas para propriedades ou variáveis inerentes às pessoas que
usam as salas. Os fatores individuais são importantes porque (1)
todo indivíduo tem estas características em algum grau e (2) as
mesmas influenciam a interação com as propriedades físicas de uma
sala, bem como com as demais pessoas na sala.
Estas variáveis individuais têm uma série de fontes diferentes.
A atitude de uma pessoa sobre a função social e física de uma sala
pode ser o resultado de sua experiência passada na mesma sala ou
em outra semelhante. Por exemplo, Richardson (-1967) relata que
um professor inovador decidiu mudar filas retas tradicionais de car­
teiras de sua sala de aula para um agrupamento típico de uma sala
de seminários. Seus estudantes de nível secundário não gostaram da
nova disposição. Aparentemente, suas experiências passadas com
salas de aula convencionais haviam formado atitudes sobre como
deve ser a disposição de uma sala de aula. Os resultados do estudo
previamente discutido sobre as percepções de uma sala distorcida
refletem também o efeito de associações passadas sobre as expecta­
tivas ou conceitos de um indivíduo.
O aprendizado social do indivíduo é uma determinante igual­
mente importante de seu comportamento em determinados ambien­
tes e tenderá a suscitar o comportamento que é esperado numa si­
tuação específica. A discoteca anteriormente mencionada constitui
um delimitador de comportamento, pois o conhecimento acumulado
de uma pessoa sobre o comportamento típico numa discoteca, mais
as “pistas” que a mesma recebe do ambiente, determinam o seu com­
portamento nela.

41
Alguns fatores individuais, como a necessidade inerente de pri­
vacidade, não são tão facilmente influenciados por experiências an­
teriores. Estas sào variáveis mais universais, que determinam certos
aspectos dc comportamento social em aproximadamente todos os
contextos sócio-ambientais. Duas destas variáveis são a necessidade
dc estabelecimento de território e a necessidade de preservação de
espaço pessoal.

Espaço pessoal

O espaço pessoal pode ser considerado como um invólucro em


volta de um indivíduo, formando o seu território “portátil”. O espaço
pessoal é social porque sua existência pode ser diretamente obser­
vada somente quando uma pessoa se introduz inadvertida ou propo­
sitalmente no espaço pessoal de outra. O fenômeno pode ser facil­
mente visto em muitas situações. Sommer (1969) usa como exemplo
um parque de uma cidade onde uma pessoa está sentada, sozinha,
numa ponta de um banco. Outra pessoa aproxima-se do banco e
senta-se, não na outra ponta, mas no centro. A vítima desta cir­
cunstância (a pessoa cujo espaço pessoal foi invadido) usualmente
alterará sua postura, inquietar-se-á ou mostrará algum outro sinal de
perturbação. Este tipo de comportamento é um indício de que a
vítima se movimentará um pouco mais para longe do intruso
ou possivelmente deixará o banco. O observador de tal cena
poderá ficar surpreso com a reação da vítima, mas, se estivesse em
situação semelhante, provavelmente reagiría da mesma forma. O
tempo transcorrido até que reagisse, entretanto, podería ser diferente,
dependendo de suas próprias necessidades de espaço pessoal.
Além de diferir entre os indivíduos, as necessidades de espaço
pessoal têm-se mostrado diversas em diferentes culturas e subgrupos
de população. Por exemplo, Horowitz, Duff e Stratton (1964) ex­
ploraram a possibilidade de que as exigências de espaço pessoal de
pessoas “normais” são diferentes daquelas de pessoas internadas em
instituições psiquiátricas. Os pacientes psiquiátricos classificados co­
mo esquizofrênicos foram solicitados a aproximar-se de um objeto
e de outras pessoas por três ângulos diferentes — caminhando para
a frente, caminhando para trás e caminhando para os lados. Após
cada indivíduo ter parado de se locomover em direção ao objeto ou
pessoa, foi medida a distância entre o mesmo e o objeto ou indi­
víduo. As mesmas condições experimentais foram usadas para in­
divíduos não hospitalizados. Os pesquisadores distribuíram seus da­
dos em volta de desenhos dos corpos de cada um dos indivíduos.

42
As Unhas que ligaram estes pontos foram determinadas como fron­
teiras da zona pessoal do indivíduo. Mediante comparação do ta­
manho médio destes pontos para os dois grupos de indivíduos, os
pesquisadores descobriram que os pacientes esquizofrênicos possuíam
uma zona maior de espaço pessoal do que os indivíduos não pa­
cientes.
Muitas das idéias que os norte-americanos têm sobre o povo de
outros países ou culturas derivam de diferenças quanto às necessi­
dades de espaço pessoal. Os estereótipos comuns do distante inglês
e do afoito ou agressivo latino-americano podem ter surgido dos re­
lacionamentos pessoais dos norte-americanos com nativos desses paí­
ses. Por exemplo, um norte-americano poderá ficar perplexo ao
conversar com um latino-americano, pois a necessidade deste de estar
muito próximo para realizar uma conversação confortável pode violar
seriamente as fronteiras espaciais do norte-americano. Se esta si­
tuação for repetida uma série de vezes, o norte-americano poderá
chegar facilmente à conclusão de que os latino-americanos são agres­
sivos (Hall, 1966).
O espaço pessoal varia também em função da situação social.
O limite para amigos íntimos difere daquele imposto para estranhos,
como difere entre membros do sexo oposto e membros do mesmo
sexo. As necessidades de espaço pessoal revelaram-se variadas em
situações de agrupamento de pessoas, embora a natureza da multi­
dão possa também ser de considerável importância. Se a razão para
a formação de um grupo ou multidão for comum — por exemplo,
viajar no metrô ou esperar numa fila — , os limites pessoais fatal­
mente desmoronam. As pessoas aceitam a situação e permanecem
em pé muito próximas umas das outras, mostrando pouco descon­
forto à presença de outro indivíduo que seria, de outra forma, con­
siderada excessivamente próxima. Entretanto, esta adaptação espa­
cial resulta no desencorajamento de relacionamento social entre os
membros do grupo. Quando uma situação de superpopulação resulta
de espaço limitado, ocorre o mesmo tipo de comportamento. Em
investigações em que foram simuladas as condições em abrigos de
emergência, por exemplo, os indivíduos tiveram gradualmente mais
cuidado em se movimentar no abrigo, além de mover-se apenas
quando necessário (J. W. Altman, 1960).
Infelizmente, o estudo detalhado do espaço pessoal deve esperar
pelo desenvolvimento de métodos de mensuração mais apurados,
a menos que a situação experimental possa ser altamente controlada,
como o foi na investigação feita por Horowitz e seus colaboradores.

43
Em situações sociais menos rígidas, podemos somente tirar conclu­
sões com base cm simples observação.

Territorialidade

Outro aspecto do comportamento espacial humano, frequente­


mente difícil de ser separado da manutenção de espaço pessoal, é a
territorialidade. As relações entre numerosas variáveis e o compor­
tamento territorial foram relatadas por I. Altman e colaboradores
(Altman e Haythorn, 1967; Altman, 1970; Sundstrom e Altman,
1972; Left, Clark e Altman, 1969); Esser (1971); e Sommer (1969).
Uma pessoa demarca um território, usando aspectos existentes
de seu ambiente ou pela modificação de seu ambiente para estabe­
lecer marcações ou limites. Estas linhas de demarcação são enten­
didas e respeitadas por outros indivíduos. Este comportamento é
surpreendentemente semelhante ao dos animais inferiores. Os ursos,
por exemplo, estabelecem os limites de seu território, deixando mar­
cas de garras em árvores. Um cão pode usar a cerca de seu dono
(uma marcação territorial humana) como sua própria marcação ter­
ritorial e tornar-se agressivo se um estranho adentrar a mesma.
Grupos de pessoas podem também estabelecer territórios, como no
caso evidente de atitudes de quadrilhas de adolescentes na cidade.
Estes exemplos de comportamento territorial envolvem áreas
maiores que as do espaço pessoal. A importância de cada família
ter um território estabelecido será estudada em nossa discussão acerca
de habitação. Entretanto, o estudo do comportamento territorial hu­
mano em lugares públicos, onde a propriedade real de espaço é ne­
gada, fornece também informações interessantes sobre o uso do am­
biente imediato para ampliar o espaço pessoal.
Sommer (1969) realizou notável pesquisa sobre a defesa do
espaço e território pessoal, sob diferentes condições sociais e am­
bientais, em bibliotecas públicas. Os resultados dos seus esforços
oferecem informações valiosas sobre o projeto e mobiliários de salas
para bibliotecas, bem como uma melhor compreensão do comporta­
mento territorial.
Uma das investigações de Sommer referiu-se à posição dos as­
sentos que as pessoas escolheríam ao tentar manter uma defesa ativa
ou passiva da área que estivessem usando. As pessoas receberam
diagramas de mesas retangulares, com 3, 4 e 5 cadeiras de cada
lado. Perguntou-se às pessoas em condição de defesa espacial ativa:
“Se você desejasse ter uma mesa para si próprio, onde você se sen­
taria de forma a desencorajar qualquer outra pessoa a ocupá-la?”
(pág. 49). Aos indivíduos em condição de defesa espacial passiva
foi indagado: “Se você desejasse evitar o máximo possível distrair-se
com as outras pessoas, onde você se sentaria à mesa?” Estas duas
perguntas levaram a uma diferença substancial nas preferências de
assentos nos grupos experimentais. Os indivíduos a quem se dirigiu
a pergunta de defesa ativa escolheram claramente as cadeiras do
meio, de um lado, ao passo que aqueles da defesa passiva escolheram
regularmente uma cadeira da ponta da mesa. Desta forma, a es­
colha dos indivíduos quanto ao assento dependeu de seu interesse
pelo controle do ambiente espacial imediato.
Sommer interessou-se também em saber se uma pessoa pode,
com sucesso, “defender” uma sala inteira mediante mera ocupação.
Colocou uma estudante numa das diversas saletas de uma área de
descanso muito frequentada. Cada sala continha uma série de me­
sas, com 4 cadeiras cada mesa. Devido ao grande número de pes­
soas na área, a estudante nunca foi capaz de desencorajar outras
pessoas a utilizar a sala, embora em todas as sessões experimentais,
com exceção de uma, tenha obtido êxito na manutenção de seu
controle sobre a mesa em que estava sentada. Esta descoberta in­
dica que o indivíduo pode defender seu território físico imediato
com sucesso, quando o número de outras pessoas em volta é de baixo
a moderado, mas que, quando o número de pessoas aumenta, seu
território fica com maior probabilidade de ser utilizado por outro.
Outras observações levaram Sommer a sugerir que a forma e o
tamanho da sala podem constituir variáveis importantes na determi­
nação da defensibilidade. Declara ele: “O isolamento (defesa pas­
siva) funciona melhor em salas com muitos cantos e áreas laterais
ocultas da visão” (pág. 47). Por outro lado, a defesa de uma área
de fornia inteiramente irregular é mais difícil do que a defesa de
uma com proporções regulares. O tamanho pode representar tam­
bém uma vantagem: “Uma grande área homogênea, com falta de
linhas de demarcação, barreiras ou obstruções, torna difícil a mar­
cação e defesa de territórios individuais” (pág. 51).
As investigações de Sommer e outros indicaram que diferentes
ambientes de salas produzem diferentes estratégias e níveis de êxito
no estabelecimento e manutenção de controle sobre o ambiente ime­
diato. Este conhecimento podería ser de valia para planejadores de
salas onde a privacidade é um dos requisitos.

45
RESIDÊNCIA

O próximo plano lógico em nossa discussão do ambiente cons­


truído é a residência. Aqui as salas tornam-se componentes de um
sistema maior e são determinadas pelos objetivos do sistema: prover
abrigo físico para a família, lugares para as suas atividades e abrigo
psicológico contra as pressões do mundo exterior. Cada habitação
individual é, por sua vez, um componente de um sistema habitacional
mais amplo, seja uma vizinhança suburbana ou um edifício de apar­
tamentos.
As casas e unidades de habitação são consideradas importantes
fatores na investigação da relação ambiente-comportamento, por ra­
zões que vão do âmbito comercial ao social. O interesse nos efeitos
da habitação sobre o comportamento desenvolveu-se com o reco­
nhecimento da tremenda necessidade de novas moradias para evitar
deficiências atuais e futuras. Uma estimativa conservadora diz que
o número total de unidades habitacionais na nação deverá multipli­
car-se até o final do século. Serão necessárias novas moradias de
todos os tipos, desenvolvimento dos subúrbios para atender às exi­
gências da crescente classe média, projetos adicionais de habitação
pública para os de classe econômica baixa e números de estruturas
destinadas a motivar as pessoas a permanecerem nas cidades.
Porta-vozes das indústrias de construção indicam que é impossível
atçnder às novas necessidades de habitação pelo uso de métodos
convencionais. Desta forma, a habitação pré-fabricada está se ex­
pandindo rapidamente de forma a preencher a lacuna deixada pelos
métodos de construção no local. Aos que advogam cada um dos
tipos de construção, entretanto, falta o conhecimento dos correlatos
comportamentais dos métodos de construção e projetos atuais, sem
falar nas possíveis influências de novos conceitos habitacionais sobre
o comportamento.
Por exemplo, uma idéia que tem sido considerada para a habi­
tação militar é uma unidade modular, consistindo de uma concha
em fibra de vidro com diversos componentes de salas adaptáveis,
para adaptar a concha a famílias de diferentes tamanhos. Algumas
concepções aplicadas nestas unidades — por exemplo, os materiais
usados na construção e a forma das unidades propriamente ditas —
afastam-se radicalmente das associadas à construção de casas no pas­
sado. Algumas perguntas que os pesquisadores interessados no am­
biente e no comportamento poderíam formular são: es$s cas
serão tão satisfatórias para as famílias quanto as construídas com
materiais mais convencionais? Os níveis específicos de ruídos serão

46
aumentados ou diminuídos pelos novos materiais e seus componen­
tes? A aparência da casa, praticamente idêntica à de todas as demais
casas do conjunto, terá efeitos comportamentais? Estas e outras
perguntas necessitam de respostas antes que qualquer tipo de habi­
tação seja executado em larga escala.
Questões igualmente relevantes podem ser levantadas acerca dos
efeitos de habitações coletivas sobre o comportamento.
Tais questões são particularmente importantes em face do cres­
cimento populacional de nossas cidades e devido à diminuição de
terrenos adjacentes disponíveis. Além disso, os crescentes progra­
mas de renovação urbana envolvem a mudança de muitas pessoas
para grandes complexos habitacionais de que seus ocupantes fre-
qüentemente não gostam e que parecem encorajar o comportamento
anti-social. Todas estas considerações devem ser observadas durante
a discussão a seguir.

Habitações familiares individuais

Nossa sociedade atribui considerável valor à habitação em casas


individuais e a posse de sua casa própTia constitui uma das metas
principais de muitas famílias. Entretanto, a pesquisa sobre os efeitos
da unidade habitacional individual sobre seus ocupantes é limitada.
Uma das razões disso reside no fato de que é difícil para o investi­
gador determinar se a atratividade da habitação de uma única família
é devida a normas culturais ou sociais ou a necessidades psicológicas.
Outro obstáculo na determinação dos aspectos de habitação de uma
só família, responsáveis pela satisfação ou insatisfação de seus ha­
bitantes, é a relativa independência da população que o pesquisador
tenta estudar. Se uma casa prova não ser satisfatória, a família
usualmente a modifica ou muda-se para outra. Desta forma, o pes­
quisador defronta-se com uma população que está geralmente satis­
feita com sua habitação. Por estas razões, só podemos fazer afir­
mações generalizadas sobre algumas das características da habitação
individual, que explicam os motivos que a levam a ser preferida.
Um requisito importante da habitação para uma só família e
seu ambiente é o tratamento de espaço. Neste caso, é assegurado
às famílias um espaço onde possam desenvolver atividades sem inter­
ferências de vizinhos. Embora tenhamos poucos dados que indiquem
que o espaço, que não o de dentro da casa propriamente dito, con­
tribua para a satisfação dos residentes, a ausência deste tipo de es­

47
paço revelou-se prejudicial às relações familiares e às atividades em
habitações coletivas.
Michelson (1970) fornece provas evidentes, com base num le­
vantamento, de que o estilo de vida desejado determina, até certo
ponto, a busca de espaço para a família. Afirma ele que um grande
número de famílias que se m udaram de cidades para subúrbios in­
dicaram que a razão primordial de sua mudança foi fugir dos rela­
cionamentos intensos com outros parentes, além do círculo familiar
imediato. Aparentemente, estas pessoas viram o ambiente da habi­
tação suburbana para uma só família como o meio de mudar sua
ênfase das atividades de uma grande família para as de uma família
“nuclear”. Desta forma, o espaço proporcionado pela habitação para
uma só família, bem como a distância de seus parentes, serviu como
fonte de satisfação em seu novo estilo de vida.
Outro fator que pode ser parcialmente responsável pela escolha
de habitações para uma só família é o papel típico do homem no
ambiente doméstico como m antenedor das instalações físicas e fac-
tótum geral do lugar. A prova da importância do espaço na exe­
cução deste papel é de novo dada indiretamente, ressaltando-se os
aspectos negativos das habitações coletivas:
“Quando um homem mora em habitação coletiva, especialmente
quando é cercado por todos os lados por outros proprietários, não
pode executar qualquer atividade ruidosa dentro de sua própria casa
sem provocar seus vizinhos — a menos que haja adequado isola­
mento acústico, o que é uma adaptação cara. Não poderá ele, de
forma alguma, ampliar o interior de sua casa sem provocar indig­
nação do proprietário, ou até provavelmente ser vítima de uma ação
legal.
Mas em que outro lugar pode ele fazer isto? O espaço privado
externo oferece uma saída adequada. O homem que acabou de con­
cluir um trabalho ativo e permanece conversando com seu vizinho,
com os pés na cerca divisória, constitui um sonho dos americanos.
Todavia, a maioria das habitações coletivas, especialmente altos con­
juntos de apartamentos, não têm qualquer espaço aberto privado
para tais finalidades” (Michelson, 1970, pág. 81).
Michelson cita também Kumove (1966), que realizou um estudo
comparativo entre altos prédios de apartamentos e casas de cidades.
Um visitante informal em um arranha-céu não vê homem algum, em
geral, ao passo que em complexos de casas na cidade, onde cada
unidade tem acesso direto ao nível do solo, os homens podem ser
vistos numa série de atividades, a maioria das quais recreativas.

48
KumoVc sentiu que estas atividades auxiliam o homem a executar o
papel social que lhe é prescrito.
Embora tais variáveis sociológicas influenciem a escolha de uma
casa, variáveis individuais estão também envolvidas. O desejo de
habitações para uma só família e o espaço que as mesmas propor­
cionam podem ser considerados como uma extensão da necessidade
de território. A posse de uma casa e do terreno pode satisfazer a
necessidade de exercer influência territorial. Uma vantagem adicio­
nal da posse de território na forma de propriedade de uma casa pode
ser uma redução na tensão social que pode existir quando a forma
de posse do espaço for ambígua, como no caso de áreas públicas
usadas para atividade familiares. Esta concepção apóia-se, até certo
ponto, nos estudos anteriormente citados de Sommer.
O estudo de Michelson investigou também as relações existentes
entre os valores dos indivíduos e seus julgamentos sobre diferentes
tipos de habitações. Dos resultados de um inventário-padrão pro­
jetado para determinar a estrutura de valores de uma pessoa, Mi­
chelson obteve medidas da cooperadvidade, expressão, dependência
do grupo, individualismo e propensão para atividades de seus com­
ponentes. Solicitou-se a cada um deles que classificasse fotografias
de quatro tipos diferentes de casas, variando desde habitações fa­
miliares individuais até altos prédios de apartamentos, nas mesmas
classes de dimensões de valores usadas no inventário. Solicitou-se
também a cada indivíduo uma planta esquemática de seu ambiente
ideal, inclusive a posição de sua casa ideal em relação às casas da
vizinhança e aos estabelecimentos comerciais. Destes esquemas, e
das reações às fotografias, Michelson tentou extrair relações existen­
tes entre a estrutura de valor do indivíduo e sua preferência quanto
à habitação. Por exemplo, se uma pessoa atribuísse valor a ativi­
dades de grupo, qual tipo de ambiente habitacional parecer-lhe-ia o
ideal para isso? Embora os resultados gerais de Michelson não fos­
sem conclusivos, resultaram na emergência de uma série de relações
potenciais. Em geral, os indivíduos que em seus esboços expressa­
ram preferência por terrenos de grandes proporções tinham um alto
grau de individualismo. Além disso, a habitação de uma só família
foi considerada pelos indivíduos como altamente relacionada à busca
de atividades familiares, muito mais do que em qualquer outro tipo
de casas apresentado. E mais: independentemente de seus indivíduos
expressarem um desejo por terreno grande ou pequeno em seus es­
quemas, eles frisaram de maneira significativa que a finalidade
do mesmo era a de proporcionar atividades familiares e individuais
que sentiam não serem possíveis numa área pública. As descobertas

49
desta investigação forneceram alguma indicação da importância da
habitação para uma só família nos tipos de comportamento gerados
pelo espaço.

Ambientes das habitações familiares individuais e comportamento


social

Nesta seção, estenderemos nossa discussão às áreas residenciais


construídas de números variáveis de habitações familiares individuais.
Estas áreas são muito menores do que aquilo que poderia ser con­
siderado um bairro de subúrbio ou urbano, que será discutido num
capítulo posterior. A presente discussão focaliza o papel que as
propriedades físicas de um ambiente residencial exercem na deter­
minação do relacionamento social entre as pessoas que aí residem.
Outro aspecto do ambiente residencial que afeta o comporta­
mento é o sócio-econômico. Os planejadores e construtores de um
empreendimento particular minimizam propositalmente, com freqüên-
cia, a variação de custo de habitação para habitação. O resultado
desta prática é que as famílias que moram em tais conjuntos são
regularmente homogêneas em renda, antecedentes sociais e educa­
cionais e status ocupacional e têm, geralmente, interesses compatí­
veis, se não semelhantes. Embora as implicações comportamentais
gerais deste fato sejam sociológicas e situem-se além da finalidade
deste texto, não devem ser esquecidos os fatores sócio-econômicos
existentes em qualquer área habitacional, quando se examinam os
aspectos físicos destes ambientes que influenciam também, por sua
vez, os comportamentos.
Duas características básicas dos ambientes residenciais que mos­
traram afetar o comportamento são espaciais: distância entre as casas
e localização relativa das casas. Uma série de investigadores estudou
a relação entre a proximidade das residências e as relações sociais
de seus ocupantes. Um antigo estudo feito por Festinger, Schachter
e Back (1950) observou padrões de amizade entre estudantes resi­
dentes num complexo habitacional universitário, que consistia em ca­
sas para uma só família, separadas e dispostas em volta de pátios
públicos. O estudo revelou relação direta da distância entre as
casas e a amizade. Houve, de forma geral, maior estabelecimento
de contatos sociais entre famílias do mesmo grupo residencial. Além
disso, a probabilidade de amizade tendia a aumentar à medida que
a distância entre as casas localizadas na mesma área diminuía. Os

50
autores ressaltaram, entretanto, que as relações reveladas por seu
estudo poderiam ser devidas à homogeneidade social.
Levando em conta este fator, Yoshioka e Athanasiou (1971)
entrevistaram 300 residentes de habitações para uma só família, es­
colhidas numa série de locais diferentemente planejados. Os indi­
víduos variavam consideravelmente em termos de renda e ocupação,
de forma que algumas relações descobertas, referentes ao ambiente
residencial e o comportamento social, poderão ser interpretadas com
mais confiança do que no caso do estudo feito por Festinger e seus
colaboradores. Os indivíduos foram indagados acerca dos estilos de
vida, atitudes e antecedentes sociais, educacionais e ocupacionais de
suas famílias. Solicitou-se também a cada indivíduo que fizesse um
mapa de sua área residencial, incluindo a localização de amigos que
freqüentasse de maneira regular ou ocasional.
Entre a série de relações descobertas estava o fato de que a
distância até a casa dos amigos era uma função do plano particular
do local. Geralmente, as famílias residentes em vilas ou ruas sem
saída moravam mais próximas de seus amigos do que os indivíduos
residentes em outras ruas. Os autores sugerem que duas caracterís­
ticas da disposição residencial podem contribuir para este padrão de
relacionamento social. A primeira é que a densidade populacional
mais baixa da rua normal pode exigir que seus residentes andem
mais para satisfazer às suas necessidades de relacionamento social.
A segunda sugestão é que uma rua principal pode atuar como uma
barreira para o contato social, o que não ocorre com a vila.
Outros investigadores apresentam prova de mais uma caracte­
rística do ambiente residencial que influencia o comportamento so­
cial: a colocação das portas. Caplow e Forman (1950), num estudo
acerca de habitação em universidades, observaram que as amizades
tinham mais possibilidades de se desenvolver entre residentes de casa
cujas portas se abrissem para uma calçada comum. Esta descoberta
referia-se também a portas que estivessem próximas umas das ou­
tras, mesmo que se abrissem para calçadas diferentes. Assim, a
orientação das portas, além do espaço público compartilhado, mos­
trou afetar os padrões de amizade.
Um dos estudos mais significativos sobre o ambiente residencial
e o comportamento é apresentado por Whyte (1956) que efetuou
um levantamento de uma parte de um novo subúrbio de crescimento
rápido, ao sul de Chicago. Os residentes deste subúrbio eram, de
forma geral, homogêneos; a maioria deles consistia de jovens em
posições gerenciais ou profissionais e com grande mobilidade tanto

51
cm stutus social quanto em termos de localização de residências.
Desta forma, o subúrbio ficou sujeito a uma rotação anual substan­
cial de residentes. Whyte estava interessado em saber se determina­
das atividades sociais estavam relacionadas à localização das casas,
umas com relação às outras, ou a características dos residentes.
Conforme se poderia esperar da pesquisa anteriormente discutida,
descobriu que as pessoas que residiam próximas umas das outras es­
tavam ligadas às mesmas atividades sociais. Por exemplo, as pessoas
que moravam em portas contíguas ou próximas umas das outras en­
contravam-se regularmente para jogar bridge. Três anos mais tarde,
Whyte retornou à área e novamente estudou seus moradores. Des­
cobriu que, embora muitas famílias se tivessem mudado e a natureza
de algumas atividades tivesse sido alterada, grande parte dos mora­
dores das mesmas casas ou locais estava ainda envolvida socialmente,
independentemente da identidade das pessoas lá residentes na pri­
meira ocasião. Whyte concluiu que a distância casa a casa e a orien­
tação das casas influenciou significativamente a retenção dos padrões
de relacionamento social, mesmo quando da mudança dos indivíduos
envolvidos.
Da pesquisa até agora discutida, obtivemos uma idéia das carac­
terísticas ambientais importantes da habitação de uma só família,
especialmente do espaço que a mesma proporciona para atividades
privadas da família e o atendimento à necessidade territorial. Os
resultados destes estudos indicaram ainda a importância da distância
entre as casas, a localização relativa das mesmas e a orientação de
suas portas na determinação da formação de amizade e de relacio­
namento social. Grande parte da pesquisa revela também que os
moradores estão altamente satisfeitos com suas habitações.
Em bora os mesmos conceitos de privacidade, espaço, dispo­
sição de residências e orientação dos componentes das habitações
tenham sido considerados em pesquisas nas habitações coletivas, os
resultados freqüentemente revelam insatisfação dos moradores ou
comportamento anti-social. Antes de discutirmos as possíveis razões
para as diferenças relatadas sobre satisfação e comportamento dos
moradores em habitações individuais e coletivas, entretanto, deve ser
notado um ponto importante. O status sócio-econômico dos mora­
dores das habitações é freqüentemente muito diferente daquele dos
moradores de habitações coletivas. Os indivíduos típicos dos estudos
em habitações coletivas vivem em em preendimentos habitacionais pú­
blicos. Estas pessoas passam geralmente por privações econômicas,
ficam freqüentemente expostas a preconceitos raciais ou étnicos e, em
geral, moram em tais locais por uma questão de necessidade e não

52
de escolha. Sem dúvida, estes fatores, bem como aspectos físicos do
ambiente, influenciam significativamente o comportamento.

Habitações coletivas

As habitações coletivas distribuem, naturalmente, menos área


territorial para cada família do que as habitações para uma só fa­
mília. Se a família tem acesso a uma área privada de terreno para
atividades familiares, isto depende do tipo de habitação coletiva.
Seja como for, estas pessoas estão quase sempre mais próximas de
seus vizinhos do que as pessoas que moram em habitações para uma
só família. Outra característica de habitações coletivas é a partilha,
<je paredes, tetos e pisos. O número de divisões compartilhadas
varia, desde paredes únicas em apartamentos com jardins e casas |
nas cidades até paredes, pisos e tetos, em arranha-céus ou aparta- j
mentos de escada. Como é claro, à medida que aumenta o número
de divisões comuns, diminui a privacidade.
A falta de privacidade é grandemente enfatizada num relatório
feito por Kuper (1953), que realizou um levantamento extensivo em
Braydon Road, num complexo habitacional em Coventry, Inglaterra.
Construídas em fins de 1940, com aço pré-fabricado, as unidades
semidestacáveis eram baseadas em um plano padrão, empregando
tanto ruas contínuas como becos sem saída. As figs. 2-3, 2-4 e 2-5
mostram a disposição interior e a orientação de unidades e o com­
plexo todo. Como se pode ver por estas ilustrações, as relações fí­
sicas, dentro e em meio às unidades habitacionais, além do material
estrutural incomum, deram a Kuper uma série de características po­
tencialmente determinantes do comportamento.
Uma das fontes principais de insatisfação por parte dos mora­
dores era uma pronunciada falta de privacidade. As paredes comuns
entre unidades resultavam em aborrecimentos quase constantes de
eada família por parte da vizinha. Uma vez que ambas as áreas de
labitação compartilhavam a divisão, grande parte da atividade de
ima família em sua sala de estar era ouvida pela outra família e
rice-versa, fosse o barulho causado por atividades diárias de rotina
>u por celebrações barulhentas. Esta violação de privacidade existia
:ambém em um nível mais pessoal, uma vez que as unidades com­
partilhavam igualmente paredes de quartos. Muitos moradores ex­
pressaram embaraço por poderem ouvir claramente o que conside­
ravam conversas e atividades particulares. Uma vez que os mora-
lores estavam conscientes do problema, muitos tentaram manter o

53
Figura 2-3 O primeiro e o segundo andares de um a unidade em B raydon
Road. As divisões comuns podem ser uma fonte de aborrecim ento entre v izi­
nhos. De Living in Towrts, Leo Kuper (e d .). Copyright 1953 por T h e C resset
Press. Reimpresso com permissão do editor, Barrie & Jenluns, L td., "Londres.

54
ruído cm nível mínimo. Entretanto, o fato de assim proceder im­
plicava frequentemente cm restringir as brincadeiras normais de
crianças, manter os rádios, televisores e instrumentos musicais em
nível muito baixo e apressar as tarefas diárias de limpeza, se o vi­
zinho estivesse dormindo. Kuper expressa preocupação com os pos-

Figura 2-4 Primeiro andar de duas unidades adjacentes em Braydon Road. A


curta distância entre os vestíbulos provê intenso relacionamento social, seja
positivo ou negativo. D e Living in Towns, Leo Kuper (ed .). Copyright 1953
por The Cresset Press. Reimpresso com permissão do editor, Barrie & Jenkins,
Ltd., Londres.

55
sívcis efeitos a longo prazo de tul comportamento forçado sobre o
desenvolvimento de relações intcrfamiliares saudáveis.
A violação de privacidade, em Braydon Road, não ficou restrita
à dimensão auditiva. A disposição das portas entre os edifícios pro­
vocava considerável aborrecimento numa série de moradores. Em­
bora a disposição de portas laterais encorajasse relações sociais entre
os moradores das unidades, um morador de uma unidade podia fa­
cilmente ver o interior da próxima, se ambas as portas estivessem
abertas. Ainda mais prejudicial à privacidade era a disposição dos
edifícios nos becos sem saída. Qualquer pessoa que entrasse ou
saísse de qualquer casa podia ser vista pelos demais. Os moradores
declararam também que era difícil olhar para fora de sua sala de
estar ou da janela de seu quarto sem inadvertidamente olhar o in­
terior das unidades que estivessem do outro lado da área.-

Figura 2-5 D iagram a do complexo de Braydon Road. As disposições dos


becos sem saída B, C, D e E oferecem grande oportunidade para relacionamento
social, m as perm item também invasão visual da privacidade. De Living in
T ow ns, Leo K uper (ed .). Copyright 1953 por The Cresset Press. Reimpresso
com perm issão do editor, Barrie & Jenkins, Ltd., Londres.

56
O utra falha citada refere-se às cercas situadas entre os quintais
e jardins de cada casa. Cercas sólidas teriam assegurado conside­
rável privacidade a cada família em seus quintais, mas estas cercas
eram pouco mais que simbólicas, consistindo somente em fios de
arame. Em suma, a privacidade em Braydon Road era altamente
desejada, mas escassa.
Se confiássemos unicam ente nas descobertas da pesquisa pTe-
viam ente citada sobre habitações para uma só família, poderiamos
presum ir que um a série de características ambientais do complexo de
B raydon R oad seria propícia à criação de amizade e relacionamento
social saudáveis.
A colocação de portas, os becos sem saída e as linhas infor­
mais de dem arcação dos quintais aumentavam, todos, o contato vi­
sual entre m oradores, o que é considerado por alguns como fator de
aum ento de relacionam ento social (Michelson, 1970). Entretanto,
K uper nota que, em bora os vizinhos com uma parede em comum
estivessem fisicamente mais próximos, havia muito pouco relaciona­
m ento social entre conjuntos destes vizinhos. Uma razão para esta
situação pode ser o considerável contato involuntário entre os con­
juntos de vizinhos, o que pode resultar em mútua esquiva. Outra
possível razão é a disposição das portas de cada unidade. Como se
pode ver na fig. 2-4, as entradas principais das duas unidades de
cada edifício estão em pontas opostas da estrutura. Em termos de
relacionam ento social, esta distância (mencionada por alguns inves­
tigadores com o distância fundam ental) é efetivamente muito maior
do que a distância física que separa os dois apartamentos.
M esm o que seja ignorada a violação múltipla de privacidade,
esta característica do ambiente tendería a desencorajar interação so­
cial dentro dos edifícios. Por outro lado, esta mesma disposição de
' nortas laterais provê máximo contato de vizinhos entre as estruturas.
E n treian w , H*»nendendo da natureza do relacionamento existente en­
tre os vizinhos, esta cuw j a^ H e wnortas podería estimular conver­
sação amigavel ou um a confrontação nossm.- _ ~u«aruniL ambos
os tipos d e com portam ento em Braydon Road.

C om portam ento em habitações públicas

C onform e anteriorm ente mencionado, os ocupantes de comple­


xos habitacionais públicos são tipicamente mais desfavorecidos social
e econom icam ente do que os m oradores de outros tipos de habita-

57
çôes. Um número substancial de pessoas residentes em projetos ha­
bitacionais públicos são objeto de assistência de instituições benefi­
centes. A ausência de pais é comum, de forma que muitas mães
precisam sacrificar a supervisão em tempo integral de seus filhos
para ganhar a vida. Muitos complexos são administrados por bran­
cos, embora os proprietários sejam de outras raças, situações estas
que contribuem para tensões raciais.
Outro fator que pode ter um efeito indesejável sobre o compor­
tamento reside no fato de que a habitação pública é, de forma geral,
construída com um objetivo: prover acomodações de baixo custo
para o maior número possível de famílias. Conseqüentemente, para
o construtor, o espaço é usualmente um fator de investimento, tanto
dentro dos edifícios como em volta deles. Este ambiente habitacio­
nal de alta densidade e de orçamento restrito combina-se com as
características dos moradores em complexos, para produzir um qua­
dro sem paralelos favorável a reações adversas.
Conforme será discutido num capítulo posterior, os moradores
de favelas freqüentemente as defendem fielmente como sendo lu­
gares adequados para viver, embora os programas de renovação ur­
bana tenham, com freqüência, resultado em extinção das mesmas e
na construção de complexos habitacionais para substituí-las. Uma
questão decisiva consiste em saber se os projetos habitacionais pú­
blicos proporcionam mais satisfação aos moradores do que o faziam
as vizinhanças de favelas. Geralmente, verificou-se que se dá o
contrário.
Lewis (1970) relata uma entrevista com uma mulher que se
mudou de uma área favelada para uma habitação pública, por su­
gestão de seu orientador social. Embora a pessoa externasse satis­
fação geral com seu apartamento, expressava insatisfação quanto às
demais pessoas que moravam no conjunto, temor pela segurança de
suas crianças, desejo de relacionamento informal mantido na ™»iha
favela e arrependimento por ter-se mudado.
Relatos maí* ue levantamento de moradores são apre-
—-vuaus por Yancey (1972) e Hollingshead e Rogler (1963).
Yancey Telata os resultados de uma pesquisa feita junto a moradores
de Pruitt-Igoe, um grande complexo habitacional público em St.
Louis, e de uma favela próxima, acerca de sua satisfação com di­
versos aspectos de seus ocupantes. Setenta e oito por cento do$
moradores de Pruitt-Igoe indicaram satisfação geral com seus apar­
tamentos, ao passo que 55% dos habitantes das favelas sentiram o
mesmo com relação às suas casas. Entretanto, quando indagados
se estavam satisfeitos com a vizinhança, 74% dos moradores da fa-

58
vela responderam afirmativamente, em contraste com os 53% dos
moradores de Pruitt-Igoe que se externaram. As razões citadas com
mais freqüência como causadoras da insatisfação do complexo habi­
tacional público eram a impossibilidade de observar as atividades
das crianças, desconfiança das demais pessoas residentes nos edifícios
e o medo de serem assaltadas ou roubadas fora do apartamento.
As descobertas de Rogler e Hollingshead corroboram as de
Yancey. Comparando-se favelas e habitações públicas em Porto
Rico, descobriram que 7% dos homens nas habitações públicas con-
sideravam-nas local adequado para o estabelecimento de uma famí­
lia, ao passo que 38% dos habitantes de favelas declararam que sua
área era adequada para esta finalidade. A proporção dos moradores
em habitação pública que expressaram satisfação geral com sua si­
tuação era de aproximadamente 25% , em contraste com mais de
60% dos moradores nas favelas. Estas são descobertas típicas da
pesquisa sobre a satisfação dos moradores em habitações públicas.
De acordo com a pesquisa atual, a disposição física de habi­
tações públicas contribui significativamente para a insatisfação dos
moradores. Esta conclusão se baseia em dois fatores. O primeiro
é que as características físicas dos edifícios não fomentam relações
sociais entre os moradores ou atividades familiares normais —
cadeiras de crianças, por exemplo. O segundo fator é o resu
do primeiro: devido ao desencorajamento inadvertido oe relaciona­
mentos informais-de grupo pela sua^disposição, certos tipos de habi­
tações públicas promovem uma quantidade desproporcional de com­
portamento indesejável. O restante deste capítulo centralizar-se-á
sobre a contribuição de pesquisas quanto a esta conclusão.
Uma estrutura típica em habitação pública é o prédio alto de
apartamentos. Este tipo de estrutura parece ter o maior número de
características de projeto que produzem insatisfação e medo nos mo­
radores. Uma destas características é a altura do edifício propria­
mente dita. Mães de crianças, em prédios altos, estão sempre
prontas a expressar sua preocupação com a falta de controle sobre
o paradeiro e as atividades de seus filhos (ver fig. 2-6). Yancey
(1972) relata a resposta de uma mãe a perguntas acerca de sua sa­
tisfação quanto a morar em um prédio alto:
“Bem, não gosto de ficar aqui em cima como agora. O pro­
blema é que não posso ver as crianças. Elas simplesmente estão
muito longe. Se uma delas se machuca, precisa ir ao banheiro, ou
qualquer outra coisa, está simplesmente muito longe. E não se pode
ver lá fora. Nós não temos varanda” (pág. 131).

59
^ Segundo opinião de mães residentes em edifícios de apartamentos
vicilãnría^ ^ ureS’ j ®*tuaÇao da foto de cim a é de preferência geral Para a
vigiiancia das brincadeuas dos filhos.
ii
60
k

Hall (1959) fornece um comentário semelhante de outra resi­


dente em prédio alto: “Não é lugar para se criar uma família. Uma
müe não pode cuidar de suas crianças se estas estão quinze andares
abaixo, no playground (pág. 159). Os resultados de uma pesquisa
feita por Kumove (1966) sugerem que o problema de controle das
atividades de uma criança, em prédios altos, aumenta com a idade
da mesma. Observou que, após a idade de 7 anos, as crianças que
moram em prédios altos tendem a passar muito mais tempo fora de
casa do que as de mesma idade que moram em habitações para uma
só família.
Um resultado indireto de famílias morarem em prédios altos é a
oportunidade reduzida da mãe num relacionamento social. Se, por
exemplo, a família tiver euma criança pequena, suas brincadeiras se­
rão restritas ao apartamento, ao invés de um quintal fechado como
no caso de uma habitação para uma só família, onde a mãe teria
mais oportunidade de contato informal com os vizinhos. De forma
semelhante, se a mãe estiver ocupada no apartamento, ela não des­
cerá até o solo para supervisionar a brincadeira de suas crianças de
mais idade. Assim, é negada às mães que morem em dois aparta­
mentos adjacentes a oportunidade de relacionamento social, devido
à maior distância funcional envolvida.
Já ressaltamos que os projetistas de unidades habitacionais pú­
blicas são forçados a usar o espaço na forma mais econômica pos­
sível. Esta ênfase freqüentemente resulta em corredores duplamente
utilizados, passagens retas com apartamentos de ambos os lados.
Este corredor é considerado pelos moradores e administradores como
sendo igualmente espaço público, uma vez que muitas pessoas devem
usá-lo para chegar a seu apartamento. Desta forma, devido ao trá­
fego no espaço bastante limitado e a função implícita do corredor
(se um morador estiver nele, o mesmodeverá estar indo para algum
lügãr)7 é improvável que nele ocorram relacionamentos sociais in­
formais. Outra desvantagem deste tipo de corredor é a falta de li­
mites físicos ou simbólicos para atuar como demarcações territoriais
para apartamentos individuais ou pequenos grupos de apartamentos.
Duas características finais dos prédios altos e suas vizinhanças
também são consideradas como enfraquecedoras da coesão social dos
moradores. Uma delas é que o prédio alto típico tem escadas para
atender os regulamentos de incêndio bem como um elevador central.
Assim, os moradores podem entrar e sair por uma série de pontos
diferentes, e esta falta de entrada comum reduz o relacionamento
social. A segunda característica é que os prédios têm, com freqüên-

61
I

cia, grandes espaços abertos entre eles. A freqliente falta de cercas


ou muros desencoraja os moradores a envolverem-se em atividades
dentro dos limites do território de seus edifícios.
Entretanto, um resultado comportamental mais sério das carac­
terísticas acima mencionadas é o crime. Ao discutir este problema,
Newman (1973a, 1973b) apresenta o conceito de espaço defensável,
definido como:
“Um termo para definir uma faixa de mecanismos-barreiras
reais e simbólicas, áreas de influência fortemente definidas e opor­
tunidades melhoradas para vigilância — que se combinam para
manter um ambiente residencial de vida que pode melhorar as vidas
dos habitantes porquanto oferece segurança às suas famílias, vizinhos
e amigos” (1973b, pág. 57).
Newman deixa claro que a provisão de espaço defensável aten­
de a dois objetivos que podem, por sua vez, desencorajar compor­
tamento criminoso. Em primeiro lugar, o espaço defensável enco­
raja relacionamento social, o que promove promissoramente os
sentimentos de coesão do grupo, resultando em auxílio mútuo dos
membros do mesmo. Em segundo lugar, provê maior possibilidade
de contatos sociais ou vigilância, de forma informal entre os mora­
dores e formalmente entre os membros de unidade de policiamento.
Outra característica física de habitação pública, que tem sido
considerada fator significativo para a incidência de crimes, é a altura
dos edifícios. Com base em dados sobre ocorrência de crimes nas
habitações públicas da cidade de Nova York, Newman (1973a) re­
lata diferenças substanciais nos índices criminais entre edifícios de
seis andares ou menos com relação aos de sete andares para mais.
Em complexos que envolvem estruturas com seis andares ou menos,
a taxa criminal foi de aproximadamente 46 por 1000 unidades de
habitação, contra aproximadamente 59 por 1000 em complexos com
edifícios mais altos. Uma análise dos crimes graves cometidos nos
edifícios dos conjuntos, ou em suas proximidades, revelou uma di­
ferença igualmente dramática. A fig. 2-7 mostra o índice de crimes
graves para quatro categorias diferentes de alturas de edifícios. A
taxa para edifícios na categoria mais baixa (2 ou 3 andares) foi de
cerca de metade da dos edifícios da categoria mais alta (16 andares
ou mais).
ri
Newman ressalta uma série de fatores que podem contribuir
para a elevação do índice de criminalidade nos edifícios altos. Um
t deles é o número de pessoas que moram em cada um dos tipos de
Índice de crimes graves por população de 1.000 pessoas

Altura dos edifícios em andares


Figura 2-7 índice de criminalidade grave em complexos habitacionais públicos
proporcional à altura dos edifícios que os compõem. D e O. Newm an, Archi-
tecíural Design for Crime Prevention. Washington, DC: National Institute of
Law Enforcement and Criminal Justice. Ministério da Justiça dos Estados
Unidos, 1973.

edifícios. Por natureza, os edifícios maiores contêm mais pessoas,


resultando desta forma maior anonimato. É difícil para os mora­
dores de um prédio alto identificar outra pessoa como um residente
no edifício.
Outro fator são os poços de escadas e elevadores. Os edifícios
maiores têm maior número de cada um destes do que as estruturas
menores. Como é de se esperar, Newman descobriu uma relação
direta entre a altura da edificação e o índice de criminalidade quan­
do considerados separadamente os crimes cometidos em elevadores.
A hipótese de espaço defensável de Newman pode explicar por que
existem estas diferenças. Na maioria das habitações públicas, as es­
cadas são isoladas das passagens, eliminando-se assim não somente
quaisquer queixas de território por parte dos moradores dos apar-

63
lamentos próximos mas, também, a oportunidade de vigilância in­
formal. Conscqücntcmcntc, as escadas são notórias pela frequência
de atos criminosos. Esta situação é também notada por Yancey
(1972) que relata que os moradores de prédios altos, em seu estudo,
expressaram grande medo de utilizar as escadas. Ainda mais óbvio,
entretanto, é o isolamento de que dispõe um delinqüente em um ele­
vador fechado.
Outra característica física de habitações públicas, discutida por
Newman, é o tamanho do hall. É bom lembrar que uma ocorrência
comum em unidades habitacionais públicas é o corredor de dupla
utilização, que pode às vezes servir a até vinte famílias. Newman for­
mulou a hipótese de que os corredores que servem a pequeno nú­
mero de apartamentos tenderíam a inibir comportamento criminoso
devido a um possível alto grau de vigilância informal e ao estabele­
cimento de comportamento territorial. Reciprocamente, a falta des­
tes tipos de comportamentos em corredores maiores aumentaria o
crime. A hipótese se confirma, quando os índices de criminalidade
são computados para diferentes tipos de passagens; são relatados
menos crimes em corredores que levam a cinco apartamentos ou
menos.
Newman sugere que os complexos de grande porte (os que con­
têm mil unidades habitacionais ou mais), compostos de prédios altos,
revelaram ter a pior taxa geral de crimes, não só devido aos pro­
blemas das estruturas propriamente ditas, mas também à disposição
do projeto. Prédios altos requerem, como é natural, muito menos
terreno do que prédios mais baixos, para um mesmo número de uni­
dades habitacionais. Consequentemente, os complexos de prédios
altos têm, freqüentemente, grandes áreas abertas entre os edifícios.
Estas áreas não são facilmente observáveis pelos moradores dos edi­
fícios, os quais não sentem, geralmente, qualquer ligação com o solo.
Os edifícios mais baixos, por outro lado, são tidos como melhores
definidores de áreas de controle informal dos moradores e promovem
sentimentos de responsabilidade destes, no tocante a territórios par­
ticulares em volta de seus edifícios.
Infelizmente, um estudo mais completo da pesquisa relatada por
Newman não é possível neste livro. Entretanto, os pontos discutidos
neste capítulo indicam o papel que os aspectos do ambiente físico
podem exercer, fomentando ou inibindo determinados tipos de com­
portamento.

64
Capítulo 3

O ambiente construído:
edifícios e instituições sociais

Em nossas discussões anteriores quanto aos sistemas ambientais


construídos, enfatizamos a importância da função do sistema na
determinação das características físicas principais das estruturas.
Neste capítulo, a função novamente determina as características das
estruturas construídas, bem como o comportamento que nelas ocorre.
Entretanto, trataremos aqui de ambientes construídos que foram pro­
jetados para atividades ocupacionais e de serviço, ou para a modifi­
cação de comportamento. Estas diferentes funções resultam numa
série de diferenças entre as características destes sistemas e aquelas
dos que discutimos anteriormente.
Uma diferença importante consiste no número de pessoas envol­
vidas. No cap. 2, tratamos principalmente do comportamento de
indivíduos e famílias influenciados pelo ambiente. As estruturas,
como escritórios e hospitais, contêm, especialmente, mais pessoas
interagindo para atingir um objetivo geral, seja a gestão de um
negócio ou a dispensa de cuidados à saúde de um grande número de
pacientes. Tais objetivos comuns não existem em complexos habi­
tacionais públicos, que podem conter mais pessoas; os moradores não
têm interesses comuns, a não ser o envolvimento com suas próprias
famílias. Grande número de indivíduos é também reunido para
atingir uma finalidade comum nos sistemas ambientais construídos
para produzir alteração comportamental em determinados segmentos
da população — os de instituições penais e hospitais de doentes men­
tais, por exemplo. Obviamente, as funções dessas instituições são
determinantes importantes das características físicas incorporadas em
qualquer estrutura determinada.
Uma segunda diferença existente entre os ambientes construídos,
ventilados neste capítulo, e os considerados anteriormente é quanto
aos tipos de comportamento de interesse para o pesquisador e suas
razões para estudá-los. Por exemplo, a cor da parede em um escri-

65
tório pode ser uma variável independente importante a se considerar.
Embora o pesquisador possa estar interessado na aparência estética
geral dc uma disposição particular de cores para os empregados, há
mais probabilidade de o mesmo estar interessado em seu efeito sobre
a produtividade do trabalho. Além disso, os tipos de comportamento
que lhe dariam conhecimento sobre satisfação estética e eficiência no
trabalho diferiríam acentuadamente. Em um hospital, entretanto, a
cor seria provavelmente considerada mais sob o aspecto estético por
sua contribuição para uma atmosfera agradável e minoração do des­
conforto e insatisfação desnecessária ao paciente. Em instituições
penais, a cor pode ser usada para dar aos internos uma fonte de
variação ambiental.
A última diferença refere-se à variedade de pessoas envolvidas
nestes sistemas maiores e suas variáveis necessidades numa estrutura
particular. As duas categorias principais, nos sistemas discutidos
neste capítulo, são clientes, pacientes ou internos, por um lado e o
quadro de funcionário ou empregados, por outro. As necessidades
destes duas categorias são freqüentemente quase opostas. Além disso,
segmentos diferentes da mesma categoria podem ter diferentes neces­
sidades.
Desta forma, é projetado um sistema particular para abrigar pes­
soas ligadas ao atendimento dos objetivos do sistema. A extensão
em que estes esforços foram bem sucedidos e as características físicas
que se revelaram importantes na determinação do sucesso ou falha
constituem os tópicos do presente capítulo.

ESCRITÓRIOS

Como característica geral, o comportamento em escritórios é


orientado para uma finalidade de máximo rendimento dentro de
razoáveis limitações de custo. Para se conseguir atingir esta meta, o
projetista de um edifício de escritório deverá ter em conta, entre ou­
tros itens, ótima comunicação entre as seções, fluxo de trabalho dentro
de e entre diversos grupos, o relacionamento entre supervisor-subor-
dinado e a distribuição de taferas entre homens e máquinas. Consti­
tui parte integrante destas considerações a contribuição contínua para
a eficácia do trabalho individual, seja de um escriturário ou de um
executivo.
Fatores importantes para a máxima eficiência individual são o
projeto prévio do trabalho, o treinamento adequado e a conjugação
eficiente empregado-tarefa. Estes fatores receberam considerável

66
atenção em termos de pesquisa e interesse gerencial, durante muitos
anos. Até recentemente, entretanto, as relações existentes entre as
características físicas dos ambientes do escritório e o desempenho no
trabalho receberam relativamente pouca atenção por parte dos pes­
quisadores. Uma possível razão disso pode ser que, se os outros
fatores mencionados forem providenciados, o ambiente físico poderá
ter tão pouco efeito sobre o desempenho do trabalho que sua consi­
deração não é economicamente viável. Não obstante, o pequeno po­
rém crescente grupo de pesquisas sobre equipamento, disposição e
acomodações de escritório, condições ambientais e satisfação geral dos
empregados sugere que estes fatores merecem outras pesquisas e
maior ênfase nos projetos.

Equipamento e disposição

O ambiente imediato de um escriturário num escritório consiste


com freqüência de escrivaninha, cadeira, mesa e máquina de escrever
e, possivelmente, de uma peça mais especializada de mobília ou de
equipamento, tal como mesa de desenho, ou uma máquina para per­
furação de cartão de computador. Uma vez que o empregado pre­
sumivelmente passa aí a maior parte do seu tempo, parecería razoável
estudar os efeitos do desenho e disposição dos equipamentos sobre
o conforto e a eficiência do empregado.
Durante anos, os investigadores no campo da ergonomia — o
estudo do desempenho humano em situações de trabalho — coletaram
dados e estabeleceram padrões sobre as dimensões aceitáveis de ca­
deiras, mesas, escrivaninhas e demais equipamentos de escritório. Es­
tes padrões são baseados em medidas tomadas de diversos milhares
de homens e mulheres para determinar, por exemplo, a que altura do
piso deve situar-se um assento de cadeira para permitir que os pés de
uma pessoa de altura média toquem o piso. São úteis somente para
evitar grandes movimentos corporais desnecessários e posições que
resultem em fadiga, inconveniência ou ferimento. Investigações mais
recentes incluíram um requisito adicional no desenho de equipamentos,
ou seja, o conforto. Grandjean, Hunting, Wotzka e Scharer (1973)
obtiveram cinqüenta avaliações de doze tipos diferentes de cadeiras
usadas em geral em escritórios, quanto aos seus vários aspectos de
conforto. O método de classificação foi o de comparações pareadas
no qual cada cadeira era comparada, quanto ao conforto, com todas
as outras cadeiras. O indivíduo classificava a cadeira em relação ao
conforto que sentia na altura do pescoço, ombros, costas, pernas e

67
braços, nos inclinar-sc para a frente e quando sentado normalmente
na cadeira. Os pesquisadores tomaram também medidas detalhadas
do íingulo de assento da cadeira, largura, altura e curvatura e ano­
taram o tipo de cadeira e seu estofamento. Das classificações obtidas,
determinaram eles quais características contribuíam para maior con­
forto c incorporaram-nas em uma recomendação de projetos, indicada
na fig. 3-1. Se os desenhistas e fornecedores de equipamentos de
escritórios usarem estes tipos de padrões para as dimensões de con­
forto da mobília, poderão aumentar a eficiência dos trabalhadores.
Outro fator do ambiente de trabalho do indivíduo é a disposição
dos equipamentos. Embora muito pouco tenha mudado neste setor,
propôs-se que a adoção de diferentes disposições podem favorecer as
diferentes atividades de trabalho e, conseqüentemente, aumentar a efi-

Figura 3-1 O uso de recom endações para o desenho de móveis de escritório,


como indica a ilustração, pode contribuir para aumentar o conforto e a efi­
ciência do empregado. Extraído da E. Grandjean, W. Hunting, G. Wotzka &
R. Scharer, An ergonomic investigation o f multipurpose chairs, Human Factors,
1973, 7 5 (3 ): 247-255. Reproduzida com perm issão da Hum an Factors Society.

68
ciência geral. Propst (1966) propôs um escritório que denominou
“Escritório de Ação”, cujos móveis e disposição cie considerou favo­
ráveis para uma maior eficiência, atividade e criatividade. As figs.
3-2, 3-3 e 3-4 apresentam exemplos de escritórios que ele considerou
apropriados para um gerente de fábrica, um especialista em pesquisa
e um médico. Fucigna (1967) tentou avaliar a eficiência do Escri­
tório de Ação. Conforme ressalta Fucigna, a série de características
do Escritório de Ação que propiciam e levam ao desempenho máximo
são estas:

“ 1. Superfícies para trabalho sentado e em pé, para reduzir a


permanência na posição sentada.
2. Estantes atrás das escrivaninhas, bem como painéis remo­
víveis de amostras, para facilitar a guarda e a retirada de informações.
3. Mesas com tampo de trava e painéis removíveis, para pro­
ver privacidade nas informações. Estes mantêm, também, limpas as
superfícies de trabalho.
4. Um centro de comunicações com telefone, ditafone, etc.
5. Uma série de estantes de informações para as pastas de
dados codificados a serem revistos. Gavetas com caixas, prateleiras
e cofres portáteis limitam acúmulos desnecessários” (pág. 593).

69
Figura 3-3 U m Escritório de A ção para um especialista em pesquisa. De R.
L. Propst, The action office, Human Factors, 1966, 5 (4 ) : 299-306. Repro­
duzida com permissão da Hum an Factors Society.

O critério de Fucigna para avaliação do Escritório de Ação foi


o grau que favorece as atividades tidas como importantes no planeja­
mento e na tomada de decisões. Sugere ele um processo típico de
planejamento e tomada de decisão, descrito a seguir.
Com base em informações recebidas, o indivíduo determina que
uma decisão deve ser tomada. Identifica, então, as informações ne­
cessárias para uma decisão eficiente. A próxima medida é a coleta
das informações oriundas de diversas fontes e por vários meios e o
armazenamento temporário de algumas delas até que todos os fatos
pertinentes tenham sido coligidos.
A informação é, então, processada, o que pode incluir discussões
com outras pessoas, leitura, reformulação e comparação das infor­
mações, etc. Esta fase pode, naturalmente, tomar um longo tempo,
de forma que podem ser novamente envolvidas as fases de armaze­
namento e coleta. Finalmente, a informação é posta em forma ade­
quada para a tomada de uma decisão e a execução de ação apro­
priada.

70
Figura 3-4 U m Escritório de Ação para um médico. D e R. L. Propst, The
action Office, Human Factors, 1966, 5 (4 ): 299-306. Reproduzida com per­
missão da Human Factors Society.

Para avaliar o Escritório de Ação, Fucigna solicitou a funcioná­


rios de escritórios que mantivessem registros do tempo gasto em cada
uma das atividades acima, o local de trabalho usado, os dados utili­
zados, a localização dos dados e o envolvimentos de outros indiví­
duos. Os funcionários foram observados durante um mês em seus
escritórios convencionais, sendo-lhes dado tempo para se adaptarem
ao Escritório de Ação; foram, então, estudados quando em trabalho
no mesmo.
Não foram achadas quaisquer diferenças entre as duas disposi­
ções de escritórios, nas porcentagens de tempo gastas em cada ativi­
dade (leitura, escrita, visita, armazenamento e coleta de informa­
ções, etc.).
A análise de conferências e chamadas telefônicas revelou que
num Escritório de Ação as mesmas eram inferiores em número, mas
duravam mais. A razão presumida foi que, nele, mais informações
estavam prontamente à disposição, de forma que o funcionário obti­
nha, numa conferência ou chamada telefônica, o que podería ter

71
tomado mais tempo num escritório convencional. Embora a eficiên­
cia não tivesse sido melhorada, muitos indivíduos declararam gostar
da organização do Escritório de Ação, de sua disponibilidade de infor­
mações, funcionalidade e conveniência física. Fucigna conclui que,
embora a estrutura do escritório não afete as atividades, não deve
ser ignorada a. percepção dos trabalhadores sobre o Escritório de
Ação como sendo mais eficiente e conveniente.

Conforto ambiental

Outro fator que pode afetar o comportamento em escritórios são


as condições de conforto ambiental. Temperatura, umidade, ilumi­
nação e ruído podem produzir conforto ou aborrecimento, afetando
desta forma o desempenho. Estes efeitos comportamentais podem
ser um resultado direto ou indireto de alguma condição ambiental.
Por exemplo, iluminação inadequada pode afetar diretamente a efi­
ciência de um funcionário de escritório ocupado numa tarefa que
requeira esforço visual. Se o planejamento para a redução de ruídos
for inadequado, um funcionário pode ficar aborrecido e distraído por
uma conversação mantida entre dois colegas seus. O ruído afeta,
assim, não só o estado emocional do funcionário, mas também a sua
eficiência. Este efeito é indireto, sendo o resultado de um relacio­
namento entre uma característica física do ambiente do escritório e
as pessoas que nele estão.
A criação de condições ambientais pelo menos satisfatórias pode
parecer relativamente simples, mas tal impressão é errônea. Uma
razão para isso é que as preferências de alguns indivíduos quanto a
condições ambientais podem ser diferentes daquelas de outros. Estes
conjuntos de necessidades físicas e psicológicas, somados aos limites
impostos pelo desenho atual dos escritórios, atuam juntamente com
as condições ambientais para produzir situações comportamentais úni­
cas no quadro de um escritório.
Deu-se relativamente pouca atenção ao efeito da temperatura so­
bre o comportamento de funcionários de escritório. Pesquisas
(Manning, 1965; Nemecek e Grandjean, 1973) indicaram que as
temperaturas de escritórios são geralmente confortáveis. Nemecek
e Grandjean mediram temperaturas em diversos grandes edifícios de
escritórios na Suíça e colheram relatos de atitudes dos funcionários
sobre a melhor temperatura. A maioria das temperaturas medidas
(de 22° C a 24° Ç) estavam dentro da faixa que os empregados consi­
deravam aceitável. Consideraram eles, entretanto, que além de 24° C

72
seria quente demais. Ambas as pesquisas relatam alguma insatisfa­
ção entre os empregados com o sistema de ar condicionado. Embora
as temperaturas fornecidas por estes sistemas fossem satisfatórias, as
queixas sobre as correntes de ar provocadas pelos sistemas eram fre-
qüentes mesmo em alguns casos em que as medidas obtidas pelos
investigadores indicaram que o movimento de ar estava dentro da
faixa de conforto. Outras queixas foram dirigidas contra a grande
diferença existente entre as temperaturas interna e externa durante o
verão e a necessidade de manter as janelas fechadas durante os
meses mais quentes. As atitudes expressas nessas pesquisas podem
ser consideradas como estados comportamentais.
Infelizmente, entretanto, nada pode ser dito sobre os efeitos des­
sas dimensões de condições ambientais sobre a eficiência do empre­
gado, porque não foram obtidas quaisquer medidas de desempenho.
A questão de iluminação em ambientes de escritório resultou em
alguma controvérsia mesmo quando os padrões de níveis de luz e o
total de brilho (reflexos de luz em superfícies de trabalho, paredes e
tetos) são bem estabelecidos e podem ser encontrados em qualquer
escritório. A discussão é sobre vantagens e desvantagens da luz na­
tural ou artificial. Os resultados de uma investigação (Wells, 1965)
indicam que os empregados consideram uma característica importante
do escritório a luz que penetra pelas janelas. Wells obteve estima­
tivas do pessoal em um grande edifício de escritórios sobre a porcen­
tagem de luz disponível em suas mesas que era fornecida através das
janelas.
Descobriu que, quanto mais longe as pessoas estivessem sentadas
das janelas, mais tendiam a superestimar a proporção de luz natural
de que dispunham. Wells mostra também que, quando os sujeitos
eram questionados sobre a qualidade da luz natural comparada à luz
artificial, aproximadamente 70% declararam que a luz natural era
melhor para o trabalho do que a luz artificial.
Essa preocupação pela luz natural num escritório parece ter
pouca relação com as condições reais de iluminação; parece ser con-
seqüência de um desejo psicológico por janela. Wells relata que qua­
se 9 entre 10 pessoas nos escritórios sentiam ser importante que lhes
fosse permitido olhar para fora do edifício, independentemente da
qualidade da luz artificial. Manning (1965) relata uma evidência
gritante obtida de entrevistas, de que as pessoas não desejam neces­
sariamente uma vista agradável; desejam simplesmente olhar para
fora.
A aparente necessidade de janelas em escritórios não é particular­
mente surpreendente. Lembre-se, dos capítulos anteriores, que os

ir> * S T f '
! : l. i o r £ .
alunos do estudo de Sommer não gostavam das salas sem janelas.
Além disso, grandes edifícios quase sempre têm janelas, mesmo que
sejam caras e tornem o isolamento e a ventilação mais difíceis do
que em edifícios sem janelas. Assim, a redução de custo é freqüente-
mente sacrificada pela simples necessidade de janelas para se olhar
para o exterior. Esta decisão de projeto constitui, naturalmente, um
contraste marcante face a outras decisões que encontramos em nos­
sas discussões acerca do ambiente construído.
Nossa discussão relativa ao ruído como variável independente
no ambiente de escritório deve começar com uma restrição. A maio­
ria das pesquisas recentes sobre ambientes de escritório, que incluem
aspectos de ruído, foi feita em grandes escritórios de planta aberta.
Estes escritórios são muito diferentes dos tipos pequenos e mais pes­
soais, que têm somente uns poucos ocupantes. As características dos
escritórios de planta aberta provavelmente determinam os tipos de
sons que são definitivamente rotulados como ruídos e se estes ruídos
são ou não considerados incômodos. Os mesmos sons poderão não
sê-lo (ou sê-lo mais ainda) em pequenos escritórios. Esta ressalva
deve ser considerada durante nossa discussão.
Dois fatos importantes surgem das investigações sobre o ruído
em grandes escritórios. O primeiro é que, geralmente, os índices de
ruídos estão muito próximos dos padrões aceitáveis, nos escritórios
estudados.
Em sua investigação de diversos grandes escritórios, Nemecek e
Grandjean (1973) referem níveis de ruído de fundo que variam de
47 a 52 decibéis, com os níveis mais altos de ruído (definidos como
“picos freqüentes” do nível de ruído) chegando à faixa de 56 a 64
decibéis. Estes níveis acham-se bem dentro dos limites considerados
aceitáveis pelos engenheiros projetistas. Todavia, quando os em­
pregados foram indagados sobre se eram perturbados pelo ruído nes­
tes escritórios, 35% indicaram que o eram “ grandem ente” , com 45%
adicionais declarando que se sentiam ligeiramente incomodados pelos
ruídos de diversos tipos. Q uando estas pessoas foram ainda inda­
gadas quanto à fonte específica de sua queixa, quase metade relacio­
nou a conversação como o irritante principal e especificaram que o
seu conteúdo, e não a sua intensidade, era o fator do incômodo. Esta
controvérsia é um contraste bastante surpreendente face às listas
usuais de fontes de ruídos em escritórios, como máquinas de escrever,
perfuradoras, telefones e assim por diante.
As razões tornar-se-ão mais evidentes quando discutirmos o
conceito de grandes escritórios de planta aberta.

74
O escritório de planta aberta

Um grande escritório com um desenho de planta aberta consiste,


tipicamente, em um andar inteiro que não tenha divisões internas do
piso ao teto. Este tipo de escritório pode ocupar uma área do tama­
nho de um campo de futebol, ou maior, e seus ocupantes podem ir
de escriturários a gerentes e diretores. Tal disposição física tem as
vantagens econômicas de flexibilidade, baixa manutenção e baixo
custo inicial. Além disso, o escritório de planta aberta é considerado
como de maior facilidade para a comunicação interdepartamental e
para o fluxo de trabalho interdepartamental. Finalmente, podem-se
ver, nele, vantagens sociais e psicológicas. Desenvolvem-se, presu­
mivelmente, sentimentos de coesão de grande grupo, devido à falta
de paredes entre gerentes, supervisores e funcionários, além de man­
ter a cooperação nos pequenos grupos pela colocação de barreiras
baixas (80 a 125 centímetros) entre grupos definidos de trabalho.
Igualmente, considera-se que o desenho do escritório-protótipo pro­
porciona maiores facilidades para um ambiente esteticamente agra­
dável, pois o projetista pode usar plantas como divisores e tem maior
liberdade na utilização de cores.
Assim, além de ser econômico, o escritório aberto de grande
porte implica em vantagens comportamentais, tanto nas atividades
relacionadas com o trabalho como na satisfação estética e sentimento
de bem-estar que todos os empregados experimentam.
Uma vez que um escritório de planta aberta é um conceito
relativamente novo no desenho de ambientes de escritórios, o sucesso
do mesmo em alcançar estes objetivos comportamentais não tem
sido extensivamente pesquisado. Entretanto, duas investigações re­
centes tentaram fornecer informações sobre seus efeitos no compor­
tamento pessoal relativo ao trabalho.
Brookes e Kaplan (1972) apresentam um tipo relativamente
raro de investigação ambiental: uma avaliação comparativa antes-
depois. Seu estudo envolveu avaliações feitas por funcionários que
trabalhavam em escritórios de concepção tradicional e foram poste­
riormente transferidos para escritórios de planta aberta. Inicialmen­
te, os indivíduos completaram escalas de adjetivos de classificação
sobre o escritório de estilo antigo e sobre o que consideravam o am­
biente ideal de escritório. As escalas foram feitas de forma que
pudessem ser obtidas informações sobre uma série de fatores consi­
derados importantes para a qualidade do ambiente de escritório, como,
por exemplo, funcionalidade, privacidade, sociabilidade e estética.
Estes dados foram usados como sugestões para o projeto das novas

75
acomodações. Após um período de tempo no novo escritório, os
empregados fizeram novas avaliações com as escalas de adjetivos de
classificação c foram também entrevistados pessoalmente.
As comparações das classificações do escritório antigo e as do
novo revelaram algumas descobertas bastante surpreendentes. Causou
grande surpresa o fato de que o projeto de planta aberta não foi
julgado como sendo mais funcional ou eficiente do que a disposição
antiga. Em um nível mais pessoal, a maioria dos funcionários
declarou que a privacidade havia declinado, tanto em dimensões
visuais como acústicas; o ruído de conversações foi freqüentemente
citado como incômodo e na nova disposição aberta foi julgada como
substancialmente redutora da privacidade e segurança. Por outro
lado, os funcionários julgaram, de forma geral, que seu novo escri­
tório era mais apto a levar às relações sociais e como tendo mais
estímulo estético do que o antigo. Entretanto, o aumento da coesão
de grupo resultante da maior sociabilidade não foi considerado fator
de aumento significativo de eficiência.
Nemecek e Grandjean (1973), em sua pesquisa de escritórios
na Suíça, deram a diversas centenas de empregados, em quinze escri­
tórios de planta aberta, questionários para ouvir suas opiniões sobre
as-condições de trabalho. Os resultados dos questionários revelaram
que os grandes escritórios envolvidos na pesquisa tinham vantagens
e desvantagens. Mais freqüentemente citadas como principais des­
vantagens estavam a dificuldade de concentração no trabalho e as
interrupções nas conversações confidenciais. Quando indagados
sobre a sua capacidade de concentração nestes escritórios, em com­
paração com os escritórios que haviam ocupado anteriormente, mais
da metade dos indivíduos indicou ser ela mais afetada nos grandes
escritórios. Entretanto, esta resposta foi tida como resultado do
número de pessoas presentes nos antigos escritórios. As pessoas que
haviam trabalhado anteriormente sozinhas ou com poucas pessoas
eram as que mais se perturbavam no escritório de planta aberta. As
razões para esta perturbação (máquinas de escritório, telefones, trá­
fego de escritório) sugerem que estas pessoas eram mais distraídas no
seu trabalho do que atrapalhadas devido à falta de privacidade. O
sentimento de invasão de privacidade era mais refletido nas respostas
do pessoal da administração, que se queixava de poderem ser casual­
mente ouvidas suas conversações confidenciais, sentindo-se, assim,
algo atrapalhados no desempenho de suas funções.
Quanto ao lado positivo, os empregados de funções ocupacionais
mais inferiores indicaram que os escritórios de planta aberta promo­
viam mais atividade social do que as antigas disposições. O pessoal

76
administrativo indicou que foi melhorada a comunicação relativa ao
trabalho.
Nas classificações médias gerais de trabalho, 63% sentiram que
seu trabalho era realizado com menos esforço e mais eficiência. Esta
descoberta é importante do ponto de vista de atitudes dos funcionários
em face dos seus trabalhos. Poder-se-ia especular se um sentimento
de eficiência melhorada promovería maior satisfação. Entretanto, esta
possibilidade ainda poderá ser empiricamente testada. Uma nota
final sobre as atitudes dos funcionários em face dos escritórios de
planta aberta é que a maioria das pessoas inicialmente insatisfeitas
com os escritórios declararam que se haviam ajustado suficientemente
às suas novas condições ambientais de trabalho para sentirem satis­
fação geral.

HOSPITAIS

De há muito tempo que o hospital tem sido considerado como


uma instituição de características próprias. Tão firmemente arrai­
gada e padronizada é a sua imagem que a simples menção da palavra
“hospital” nos sugere um quadro de um edifício que não é particu­
larmente belo, com longos corredores, salas operatórias azulejadas
em verde, utensílios reluzentes e uniformes brancos movimentando-se.
Ali se cuida da saúde.
Embora o hospital seja tão padronizado em sua imagem e ativi­
dades, é ainda de interesse para um psicólogo ambiental porque ofe­
rece inúmeras oportunidades para os estudos dos relacionamentos
homem-ambiente.
Muitas das atividades num hospital são altamente especializadas,
exigindo muita estruturação e planejamento. Um exemplo óbvio de
tal atividade é um processo cirúrgico de porte, como um transplante
de um órgão importante. Aqui, as funções de muitas pessoas devem
ser conduzidas e coordenadas com alto grau de precisão, para que se
obtenha êxito. Exigências severas impõem-se também no tocante ao
ambiente da sala de operações e seus diversos componentes, para que
ofereçam o máximo apoio. Assim, segurança e eficiência constituem
fator de primeira importância no projeto de ambientes hospitalares.
Um segundo aspecto do quadro de um hospital é a variedade de
pessoas que nele se movimentam — pacientes, pessoal médico, admi­
nistrativo e de manutenção, visitantes. Cada uma destas categorias
faz diferentes exigências sobre as características ambientais do hos­
pital. Além disso, cada categoria pode ser subdividida. Por exem­
plo, as duas categorias de paciente e pessoal podem ser divididas, de­
pendendo da idade do paciente, do tipo de doença ou ferimento, da

77
especialidade dos médicos, das funções das enfermeiras, e assim por
diante. Dc forma semelhante, nos estágios de diagnósticos, trata­
mento c convalescença cada subcategoria de pacientes ou funcionários
pode ter necessidades ambientais diferentes daquelas de outras subca-
tegorias. Conforme veremos, estas necessidades são freqüentemente
conflitantes, resultando em situações de tensão para uma ou mais
das pessoas envolvidas.
Uma prática corrente no projeto de hospitais tem sido a de tentar
elevar ao máximo a eficiência médica pessoal pela manipulação do
ambiente. Está implícito neste esforço um aumento do bem-estar
do paciente (Ronco, 1972). As ramificações psicológicas de tal
prática serão discutidas mais adiante; examinaremos no momento
algumas das pesquisas sobre o comportamento do pessoal médico em
diferentes tipos de disposições hospitalares e seus efeitos sobre a
eficiência.
Um problema controverso e atual entre projetistas de hospitais e
o pessoal médico refere-se aos méritos e falhas das diferentes dispo­
sições de alas em aspectos como custo, aproveitamento da mão-de-
obra e satisfação do paciente. Em sua comparação de diversas alas
hospitalares, Lippert (1971) utilizou o movimento das enfermeiras
pelas enfermarias como variável dependente. A movimentação foi
considerada como um importante fator de avaliação do projeto das
alas, uma vez que uma parte substancial do tempo de uma enfermeira
é tomada na movimentação; além disso, houve enfermarias que cita­
ram a movimentação excessiva como fonte de insatisfação. Ao de­
senvolver sua mensuração, Lippert construiu o que chamou de “mo­
delo de percurso”. No modelo, um percurso foi definido como a
movimentação feita por uma enfermeira de seu posto para visitar um
paciente e o seu retom o até o posto. As diversas paradas de trajeto
para troca de roupas brancas ou outros artigos foram consideradas
“paradas para serviço” e foram incluídas como parte do percurso.
Desta forma, uma enfermeira pode deixar o posto, verificar o estado
de um paciente, proceder a uma parada para serviços, atender dois
outros pacientes e retornar ao seu posto.
Lippert aplicou seu modelo a quatro alas de hospitais, sendo
três retangualres e uma circular (ver fig. 3-5) e tentou aferir medidas
relativas da eficiência de cada uma. Duas medidas de eficiência
obtidas da aplicação do modelo de percurso foram a medida de para­
das de serviço em cada paciente e o número médio de pacientes
visitados por percurso. Lippert sugere que o desenho mais eficiente
de ala é o que permite um número maior de pacientes visitados por
percurso, com o menor número de paradas para serviços. A tabela
3-1 mostra os resultados comparativos das medições.

78
■WV

unidade retangular com 12 leitos

Figura 3-5 Projetos de alas hospitalares usados na investigação da m ovim en­


tação de enfermeiras. D e Stanley Lippert, Travei in Nursing Units, Human
Factors, 1971, 7 5 ( 3 ) : 269-282. Reproduzida com permissão da Human Factors
Society.

Embora Lippert não estabeleça conclusão sobre a superioridade


de qualquer das alas sobre as outras, ele nota que, devido à ala
circular examinada e uma das retangulares estarem no mesmo hospital,
a situação experimental foi provida de um controle: as enfermeiras
eram do mesmo quadro de pessoal, estavam sob a mesma adminis­
tração e tratavam de tipos similares de pacientes. As enfermeiras,

79
entretanto, usaram padrões de percurso diferentes nestas duas enfer­
marias, embora as diferenças não fossem suficientemente grandes
para fornecer muitas informações sobre eficiência comparativa. Não
obstante, o método de Lippert teve sucesso, porque refletiu os dife­
rentes efeitos comportamentais das diferentes alas.
Como em outras situações ambientais, as normas sociais e de
organização em hospitais atuam com características do ambiente físico
para produzir comportamento previsível. De fato, as distinções de
status rigidamente mantidas entre médicos, residentes, internos, estu­
dantes de medicina, enfermeiras registradas, enfermeiras de cirurgia,
atendentes e pacientes acham-se firmemente arraigadas na estrutura
social de qualquer hospital. Um indivíduo que ocupe qualquer
uma das ditas posições mantém um papel comportamental bastante
rígido. Entretanto, este papel (e portanto o comportamento) pode
alterar-se com o local em que a pessoa se encontre no hospital.

Tabela 3-1 Resumo das descobertas do m odelo de percurso. De Stanley


Lippert. M ovimentação em enfermarias. Fatores Humanos, 13(3): 269-282,
1971. Reproduzido com permissão da Human Factors Society.

Ala em que foi N úm ero de paradas de Número de pacientes


feita a observação serviço por paciente por percurso

Pratt-4 0,375 2,00


Yale 0,50 2,00
Rochester Methodist, Ala
Retangular (12 leitos) 0,125 2,67
Rochester Methodist, A la
Circular (12 leitos) 0,22 2,25

Rosengren e DeVault (1963) observaram a gama de comporta­


mentos e atividades numa ala obstétrica de um grande hospital, desde
a sala de administração até as salas de convalescença. Seu enfoque
foi de cunho ecológico, no sentido de que praticamente todas as ati­
vidades foram consideradas como contribuintes para um quadro com­
portamental geral. Por isso, encararam o comportamento não tão
estritamente como resultado do ambiente mas como resultado da
interação de variáveis sociais e organizacionais com as pessoas em
quadros ambientais particulares.
Usando esta abordagem, Rosengren e DeVault relacionaram
status a diferentes componentes da ala. As salas de trabalho, por
exemplo, eram de domínio das enfermeiras que lá atendiam os pacien­
tes e elas sabiam disso e agiam de acordo. Já numa sala de partos,

80
o médico antendente cra, sabidamente, a pessoa dotada de autoridade
inquestionável. Os pesquisadores notaram, entretanto, que os rela­
cionamentos entre os médicos e as enfermeiras eram mais informais
em locais onde o papel de cada pessoa era ambíguo — por exemplo,
nos corredores. Outros locais onde se refletia o status, em termos
físicos e comportamentais, eram as salas privativas para residentes e
médicos praticantes. Embora ambas as salas servissem à mesma
função, havia duas que diferiam substancialmente quanto a caracte­
rísticas interiores. Além disso, os residentes e internos hesitavam
em usar a sala privativa dos médicos, embora estivessem autorizados
a usá-la a qualquer hora. Assim, ficou evidente aos investigadores
que alguma coisa além das características do ambiente da sala estava
produzindo o comportamento que observaram.
Mencionamos anteriormente que o aspecto de projeto mais
importante para hospitais é o de facilitar as atividades do pessoal
médico, o que, por sua vez, é tido como meio de provar satisfação e
bem-estar ao paciente. Em outras palavras, consideram-se atendidas
as necessidades do paciente mediante o preenchimento dos requisitos
do pessoal médico. Entretanto, em algumas situações, as necessi­
dades do paciente e as do quadro de funcionários são conflitantes, de
forma que um deve ser favorecido em detrimento do outro. Fitch
(1965) descreve tal situação na sala de operações:
“O cirurgião e sua equipe terão seu período de maior stress
durante a cirurgia. Nesta situação, seus requisitos serão opostos aos
do paciente. Onde este último requer ar quente e úmido (e medidas
anti-explosivas requerem umidades ainda mais altas), a equipe, sob
tensão nervosa, deveria estar, idealmente, em atmosfera de ar fresco
e seco.
“Mas, uma vez que o stress é de duração limitada, ao passo que
qualquer carga adicional pode ser desastrosa para o paciente, o am­
biente termo-atmosférico da sala é usualmente projetado em favor
deste último. A equipe transpira e sofre, recuperando-se mais tarde”
(pág. 713).
Embora neste caso a decisão seja tomada em favor do paciente,
para proteger seu bem-estar físico, em detrimento do conforto da
equipe, Ronco (1972) ressalta que as considerações de ordem psico­
lógica que envolvem os pacientes são freqüentemente rejeitadas em
favor do aumento da eficiência da equipe. O resultado de tais deci­
sões é o confinamento físico e psicológico do paciente. Devido às
condições de superocupação de hospitais, os pacientes são freqüen­
temente desencorajados a movimentar-se pelas suas salas ou enfer-

81
marias, mesmo que suas doenças ou ferimentos sejam de tal ordem
que possibilitem agir desta maneira.
Ronco nota também que os corredores são freqüentemente tão
pouco atraentes que os pacientes evitam passar pelos mesmos e, se
o fazem, é de forma rígida, para evitar infringir a privacidade de
outros pacientes, olhando-os inadvertidamente pelas portas abertas.
Além disso, os pacientes têm pouco controle sobre a mobília de
seus quartos e não lhes é permitido dispor as coisas da maneira
que desejariam.
A falta de privacidade é ainda outro resultado de projeto para
a função e não para a necessidade do paciente. Ronco cita um
estudo feito por Jaco (1 9 6 7 ), que investigou as reações psicológicas
de uma unidade radial de enfermaria. Muitos pacientes relataram
uma falta de privacidade, presumivelmente devido à possibilidade de
a enfermeira olhar diretam ente para seus quartos, a partir do seu
posto. A falta de privacidade fica expressamente evidente durante
as horas de visita. Sem quaisquer áreas privadas para visitação, a
m aior parte dos relacionam ento paciente-visitante se dá em volta da
cama do paciente e é testem unhada por outros. Conforme declara
R onco, esta situação é pouco favorável a conversações francas ou
confidenciais em grandes enferm arias de múltiplos pacientes.
Obviamente, é funcional e financeiram ente impossível a qualquer
hospital fornecer o conforto de um a casa. Todavia, ignorar as ne­
cessidades dos pacientes e negar-lhes a oportunidade de pelo menos
se aproxim arem de diversas atividades normais pode tomar mais
grave seu desconforto, o que, p o r sua vez, pode resultar em necessi­
dade de m aiores cuidados. Assim, quaisquer efeitos comportamentais
de projetos de hospitais que visem apenas funcionalidade, sem levar
em conta as necessidades do paciente, serão provavelmente deletérios.

IN ST IT U IÇ Õ E S SO C IA IS

Nesta seção, que trata de instituições psiquiátricas e penais, nossa


ênfase será transferida dos tipos ocupacionais de quadros ambientais
para situações em que a finalidade primária é a de mudar o compor­
tamento considerado pela sociedade como desviante. Um exame dos
métodos de reabilitação usados e de sua crítica recente por psicólogos
e sociólogos é certamente apropriada a qualquer discussão sobre ins­
tituições psiquiátricas e penais, mas não constitui objetivo deste livro.
A discussão a seguir limita-se a saber se determinadas características

82

i
físicas dessas instituições podem facilitar ou retardar o processo de
reabilitação.
Tanto as instituições psiquiátricas como as penais oferecem uma
oportunidade única para a investigação dos efeitos de ambiente físico
sobre as pessoas que nelas estão. Qualquer uma delas pode ser con­
siderada um microcosmo, quase livre de quaisquer influências ou
controles externos. Embora os quadros de funcionários de ambas
as instituições tenham contato diário com o “mundo real”, os internos
ou pacientes estão confinados num único ambiente físico e compor-
tamental. Por isso, com exceção de visitas ocasionais de família ou
de amigos ou de experiências anteriores à instituição, a influência de
variáveis externas é desprezível. Este isolamento permite a formação
de relacionamentos estáveis homem-ambiente, tornando mais fácil a
sua observação. Entretanto, devido à natureza das instituições e as
razões pelas quais seus internos nelas se acham, qualquer tentativa de
generalização dos resultados de uma investigação seria vista, quando
muito, com ceticismo. Não obstante, quaisquer laços estabelecidos
entre as características físicas do ambiente institucional e o compor­
tamento de seus ocupantes podem revelar-se extremamente valiosos
para os projetos que visem uma máxima reabilitação.

Instituições psiquiátricas

Comportamento social em instituições de doentes mentais

Uma noção que prevalece no tratamento de doentes mentais é


que estes precisam ligar-se à interação social, tanto como uma forma
de atividade durante o seu período de tratamento como uma prepara­
ção para os encontros sociais que terão logo que deixem a instituição.
Embora o comportamento social seja uma função de muitas variáveis,
tais como a técnica terapêutica, política administrativa e característica
do paciente, determinadas características do ambiente da instituição
podem ser isoladas como possíveis determinantes de atividade social.
Entre estas características estão o tamanho da instituição, tamanho
de suas subdivisões (por exemplo, quartos, pátios, enfermarias) e sua
disposição. Como característica, as enfermarias psiquiátricas contêm
todos os componentes necessários para apoiar a atividade do paciente:
salas para comer, dormir, de recreação e socialização, tratamento e
higiene pessoal. Assim, quando as outras variáveis mencionadas são
levadas em consideração, os efeitos de enfermarias que diferem em
características físicas podem ser comparados pelas observações das
atividades que nelas ocorrem. Tais investigações são relatadas por

83
Ittclson, P roshansky e R ivlin (1 9 7 2 ), G um p e James (1970); e
B arton, M ishkin e Spivack (1 9 7 1 ).
E m b o ra a fin alidade principal do estudo de Ittelson e seus cola­
boradores fosse a de ob serv ar a estabilidade de padrões de compor­
tam ento entre unidades psiquiátricas, o relatório dá também informa­
ções sobre os aspectos físicos das enferm arias e suas relações poten­
ciais com o com p o rtam ento. Os investigadores escolheram enfer­
m arias de unidades psiquiátricas de três hospitais. Estas enfermarias
variavam substancialm ente em tam anho (ta n to em termos gerais como
em suas subdivisões) e aparência, bem com o quanto à população de
pacientes.
A prim eira enferm aria consistia em um a ex-enfermaria médica
convertida em psiquiátrica, num hospital geral. Assim, mantinha a
aparência de hospital, com corredores azulejados, fortes iluminação e
grande atividade. Os quartos eram de três ou seis ocupantes e
abertos p ara os corredores, perm itindo observação direta. Além de
um a sala p ara uso geral diário, esta enferm aria continha um solário
p ara uso dos pacientes.
D uas outras enferm arias eram de um a instituição psiquiátrica
estadual. E ste hospital era um exem plo das instalações estaduais de
saúde m ental, no sentido de que funcionava sob rígidas aperturas
financeiras. A m bas as enferm arias eram utilitárias em estruturas e
acessórios. C ada um a continha alguns quartos particulares e uma
m istura de quartos de três, seis ou vinte cam as, ou tipo dormitório.
Devido a diferenças na política adm inistrativa, as enfermarias diferiam
bastante num aspecto. U m a delas evidenciava a cooperação dos
pacientes na m anutenção d a lim peza e na decoração atraente. A
outra tinha um a atm osfera consideravelm ente mais melancólica.
A q u arta enferm aria era a de um hospital particular. Os inves­
tigadores relatam que esta parecia m ais um atraente hotel do que uma
enferm aria psiquiátrica. Os esquem as de cores eram agradáveis e os
acessórios bem dispostos. T odos os quartos tinham uma ou duas
cam as e portas que não deixavam entrever qualquer atividade nos
corredores.
P ara observar e registrar a variedade de comportamentos que
ocorria nestas enferm arias, os investigadores desenvolveram uma
técnica cham ada “ m apeam ento com portam ental”. Para construir
um m apa de cada enferm aria, foram colocados observadores treinados
em locais específicos da m esm a. E m intervalos de tempos predeter­
minados, cada observador registrava os tipos de comportamento que
ocorriam em sua área e o núm ero e características das pessoas nela

84
envolvidas. Por exemplo, num intervalo de tempo, um observador
na sala de uso diário poderia registrar que seis pacientes do sexo
masculino, duas pacientes e um atendente de enfermaria estavam
vendo televisão; quatro pacientes do sexo masculino estavam jogando
cartas; três pacientes do sexo feminino estavam lendo e um paciente
do sexo masculino estava dormindo em sua cadeira. Assim, a com­
binação de todos os dados dos observadores, num intervalo de tempo,
fornece uma descrição exata do comportamento que ocorre em toda
a enfermaria. De forma semelhante, a combinação dos dados de
todos os observadores em todos os intervalos de tempo estabelecem
os padrões de comportamento dos pacientes e do quadro de atendentes
da enfermaria. Tais mapas comportamentais das atividades normais
do dia foram construídos para cada enfermaria para longos períodos.
Para uma apresentação significativa, os investigadores dividiram
os locais de comportamento em duas categorias principais — quartos
e salas de uso público. Os lugares considerados como salas de uso
público incluem os corredores, salas de uso diário, salas de alimenta­
ção e o solário, no hospital da cidade. Também o comportamento
foi dividido em categorias de acordo com o tipo de atividades, tipos e
quantidade de encontros sociais envolvidos. Estas categorias são:
isolado-passivo (sentado ou deitado sozinho em sua cama, acordado
ou dormindo); ativo (encargos pessoais, leitura e recreação indi­
vidual) e social (pacientes relacionado-se com outros pacientes,
visitantes ou quadro de atendentes). A análise dos dados nestas
categorias revelou diferenças entre as enfermarias bem como acen­
tuadas diferenças nos tipos de comportamento como função do
local.
A comparação das atividades gerais nas quatro enfermarias reve­
lou que no hospital particular ocorria mais freqüentemente um com­
portamento ativo ou social do que passivo. Nas enfermarias esta­
duais ou convertidas da cidade, predominava o comportamento iso­
lado-passivo. Nos locais de uso público das enfermarias, o compor­
tamento no hospital particular foi novamente muito mais ativo ou
social do que o isolado-passivo. O comportamento nas enfermarias
estaduais e da cidade, por outro lado, foi distribuído Telativamente
por igual entre todas as categorias comportamentais. Entretanto, os
pesquisadores sentiram que estas diferenças estavam mais relaciona­
das com diferenças das populações de pacientes e políticas adminis­
trativas do que com diferenças do ambiente físico.
As descobertas mais intrigantes do estudo são as acentuadas
diferenças comportamentais observadas nos quartos de cada uma das
alas psiquiátricas, diferenças estas que os investigadores logo perce-

85
beram. Embora prevalecesse o comportamento isolado-passivo em
todos os quartos de todas as alas, a porcentagem dos pacientes do
hospital particular que exibia este tipo de comportamento era menor
do que a dos pacientes das enfermarias estaduais e da cidade, Esta
diferença foi logo atribuída à presença de quartos de apenas uma ou
duas camas na instituição particular. Os pesquisadores descobriram
então que a porcentagem do comportamento isolado-passivo em quar-
tos aumentou em todas as quatro enfermarias com o número de camas
por quarto e, conseqüentemente, com o tamanho do quarto. À pri­
meira vista, poder-se-ia presumir que estes resultados seriam previsí­
veis; quanto maior o quarto, mais pessoas o ocupariam e se entrega­
riam a um comportamento isolado-passivo, a qualquer hora. Entre­
tanto, a taxa de utilização dos quartos não aumentou em tamanho
suficiente para que possamos incluí-la como fator ligado às diferenças.
Os autores interpretam esta descoberta como segue:
“... O paciente, nos quartos menores, experimenta toda uma
série de possíveis comportamentos aberta para si, sente-se livre para
escolher entre toda uma gama de opções e, de fato, escolhe mais ou
menos igualmente entre todas as possibilidades. Isto ocorre (muito)
dramaticamente nos quartos pequenos de hospitais particulares, onde
o comportamento é igualmente distribuído em todas as categorias.
Em contraste, o paciente dos quartos maiores é muito mais
suscetível a um comportamento isolado-passivo do que qualquer outra
coisa e em geral passará deitado em sua cama, seja adormecido ou
desperto, de dois terços a três quartos do tempo que estiver no
quarto. Parece que o mesmo vê a gama de opções comportamentais
à sua escolha como severamente limitada e pode ser constrangido a
escolher o comportamento isolado-passivo em relação a qualquer
outro” (pág. 103).
Desta forma, se o relacionamento social em enfermarias psiquiá­
tricas é desejável e acelera a reabilitação, então para os projetistas
este estudo implica que os quartos menores podem ser preferíveis.
No capítulo anterior, discutimos o trabalho de Sommer (1969),
que estabeleceu relações entre a disposição do mobiliário em salas de
aula e a atividade da classe e que mostrou que as pessoas que
desejam conversar têm fortes preferências à disposição e distância
entre as cadeiras. A pesquisa de Sommer comprova, também, que a
disposição de mobiliário e acessórios em instalação de instituições
psiquiátricas é importante na determinação da extensão dos encontros
sociais entre pacientes. Ressalta ele que a disposição de cadeiras
nas salas de instituições psiquiátricas não difere daquela dos terminais
de aeroportos.

86
Como característica no caso, as cadeiras ficam em filas retas ao
longo das paredes e, no centro da sala, de costas umas para as outras,
com a distância entre as cadeiras centrais e as que estão ao longo da
paredes excedendo em muito o limite estabelecido para conversação
confortável. As razões para esta disposição são facilidade de manu­
tenção, aparência de limpeza e a tradição implícita do aspecto que as
instituições devem aparentar.
Sommer relata que, numa investigação de tal disposição de enfer­
maria numa instituição do Canadá, seus observadores registraram
tanto comunicações sociais unilaterais (cumprimentos ou perguntas
dirigidas por um paciente a outro, por exemplo) como recíprocas,
durando de dois segundos para mais. Estes dados foram coletados
para uso como “linha de base” para comparações posteriores com
dados reunidos sob diferentes condições. Ao final d o . período da
“linha de base”, diversas mesas quadradas foram levadas para o
interior da sala de estar e as cadeiras ao longo das paredes foram
recolocadas ao lado das mesas. Esta nova disposição provocou resis­
tência por parte do pessoal de manutenção e outros, os quais se
queixaram que a mesma era prejudicial às suas atividades. Alguma
resistência inicial partiu também da parte dos pacientes. Depois de
ter-lhes sido dado algum tempo para adaptação à nova disposição, os
observadores registraram novamente o número de comunicações e
descobriram que tanto as unilaterais como as recíprocas haviam au­
mentado.
Os resultados desta investigação, acrescidos das descobertas de
Ittelson e seus colaboradores, fornecem informações importantes a
administradores e planejadores no campo de projetos de instituições.
Embora a pesquisa seja exploratória e uma série de outras variáveis
possam ter influenciado os resultados, pelo menos já se tem uma
base para alternativas quanto às disposições atualmente existentes
em enfermarias psiquiátricas.

Necessidades dos pacientes

Os estados emocionais de pacientes de instituições psiquiátricas


levam-nos a comportar-se de formas consideradas anormais em nossa
sociedade. Devido às suas desordens comportamentais, estas pessoas
têm necessidades acima e além de um indivíduo normal. Por isso, o
conhecimento destas necessidades é importante no projeto de institui­
ções psiquiátricas, mesmo que a sua finalidade última seja a de reabi­
litação ou de custódia.

87
Num estudo acerca das relações entre as necessidades dos pa­
cientes c os projetos de instituições, Osmond (1970) cita as anorma­
lidades nas percepções de um esquizofrênico — visuais, auditivas, de
tempo e as próprias — e oferece sugestões para projetos institucionais
que possam auxiliar ou, pelo menos, não agravar essas distorções.
Experiências de privação sensorial têm indicado que uma falta de
alteração na estimulação visual pode fazer com que pessoas normais
experimentem alucinações visuais. Embora não tão extremas nas
experiências, condições algo análogas existem na maioria dos hospitais
psiquiátricos; esquemas uniformes de cores, geralmente pardacentos e
tristes, ou paredes, pisos e tetos áridos oferecem ao paciente estímulos
visuais com mínimas alterações. Embora não tenhamos evidência
empírica que prove que o estímulo visual reduzido nas instituições
provoque alucinações, a alteração visual ao sair de uma instituição
para o mundo exterior tem sido uma fonte de confusão e trauma
para uma série de pessoas (Wildeblood, 1959).
Conforme mencionado no cap. 2, a autopercepção distorcida de
esquizofrênicos resulta numa ampliação de suas necessidades de es­
paço pessoal (Horowitz, Duff & Stratton, 1964). Esta necessidade
exagerada de espaço pessoal, em combinação com um desejo do
paciente de ter um lugar para se esconder, leva Osmond a sugerir
que os projetistas devem prever espaços privados nos desenhos ou,
pelo menos, reduzir o potencial de contatos pessoais não desejados.
Estes requisitos podem ser atendidos de uma série de formas diferen­
tes. quartos de ocupação única, enfermarias pequenas, pequenos re­
cantos e tratamentos dos espaços da instituição para que sejam con­
fortáveis e favoreçam a reclusão.
Outras incapacidades dos pacientes que requerem consideração
por parte dos projetistas são a tendência para rápidas alterações de
estado de ânimo e a dificuldade de tomar decisões. Osmond declara
que pequenos grupos que tenham tido oportunidade de formar rela­
cionamentos compreensíveis são mais resistentes a mudanças de
estado de espírito do que os grupos maiores, menos coesos. Assim,
pequenas enfermarias e quartos podem servir novamente para uma
finalidade útil. Para aliviar as dificuldades da tomada de decisões,
Osmond advoga a redução de situações ambíguas (junções de cor­
redores longos e não marcados, grandes halls de refeitórios e dormi­
tórios, por exemplo) mediante o uso de unidades menores destes
exemplos, reduzindo o número de alternativas presentes em cada
situação de decisão.
Em todo o seu artigo, Osmond sustenta que a mudança de deter­
minadas características ora comuns às instituições (estimulação visual

88
reduzida, por exemplo) c a adoção de outras características (espaço
privado) podem facilitar os esforços de reabilitação. Estes esforços
podem também ser auxiliados se as instituições forem projetadas de
forma a requerer o mínimo de adaptação por parte de novos pacientes,
reduzindo assim as situações potenciais de stress.

Instituições penais

As características físicas de instituições penais são algo seme­


lhantes àquelas das instalações para doentes mentais. Entretanto, há
diferenças importantes entre os dois tipos de instituições que podem
afetar qualquer manipulação de características físicas que pretendem
ajudar a alcançar os objetivos da instituição. Enquanto a finalidade
das instituições psiquiátricas consiste em devolver o indivíduo à socie­
dade o mais rápido possível, as sentenças compulsórias em instituições
penais e o tempo mínimo passado nas mesmas antes da sentença de
livramento condicional tendem a enfatizar sua função de custódia, e
não de reabilitação. Entretanto, a disponibilidade de um ambiente
físico que atenda às necessidades pessoais dos internos pode ser tão
importante numa prisão como num hospital psiquiátrico. Esta con­
sideração é freqüentemente conflitante, infelizmente, com a exigência
da sociedade por punição.
Outra diferença entre os dois tipos de instituição está em suas
populações. Com exceção de alguns casos especiais, as pessoas in­
ternadas em instituições psiquiátricas não são consideradas nocivas
umas às outras e são encorajadas suas disposições para diversos tipos
de relacionamento social. Em prisões, o relacionamento social deve
ficar sujeito a muito maior controle, por razões de custódia. Certos
tipos de relacionamento social podem também ser desencorajados,
para fins de reabilitação — um exemplo disso é a manutenção de
delinqüentes jovens separados de criminosos mais inveterados.
Esta necessidade de controle implica em restrições adicionais no
projeto de instalações penais. Obviamente, uma técnica útil no con­
trole de relacionamentos sociais é a provisão de separação física entre
os internos. Igualmente óbvio é que a construção de miniprisões
independentes para internos individuais excede, provavelmente, em
muito as limitadas possibilidades econômicas. Apesar disso, entre
administradores e cientistas sociais ligados a pesquisas em instituições
penais prevalece um sentimento geral de que a disposição de priva­
cidade para os internados é favorável, em termos de reabilitação.
Com uma sala ou uma cela própria, um internado pode ocupar-se de

89
atividades privadas com o leitura, escrita c estudo, sem ser perturbado
por colegas dc cela. Jê igualmcntc desejável agrupar-se internos, de
acordo com o estágio do projeto de reabilitação. Esta concepção
resultou na com partim entalização usada em diversas penitenciárias
mais recentes.
Num estudo realizado sobre o uso de celas separadas como
dissuasoras de influências crim inogênicas, G laser (1972) efetuou um
levantam ento de atividades de internos em celas individuais e em
dormitórios, em cinco instituições. Coletou dados sobre o número
de horas que cada interno passava em atividades rotineiras, tais como
trabalhar, comer, dorm ir, conversar com colegas prisioneiros, recrea­
ções, leitura. E m bora as instituições diferissem quanto à política
adm inistrativa e aos program as de tratam ento, o tempo passado na
leitura e em com er era seguram ente m aior para os ocupantes de celas
individuais. G laser atribui o m aior tem po passado em comer à
necessidade dos internos de celas individuais de se socializarem ou
de fugirem ao isolam ento de sua cela. Os resultados desta pesquisa
sugerem que, em bora os ocupantes de celas individuais tenham mais
privacidade, estes não a aproveitam como poderíam.
Glaser obteve tam bém os mesmos tipos de inform ação em relação
a unidades separadas de habitação num a prisão. As unidades de
habitação foram organizadas de acordo com diferentes estágios do
processo de reabilitação e, desta form a, variavam em características
físicas e na política adm inistrativa e na vigilância vigentes sobre seus
internos. Basicam ente, as unidades na base do sistema do procedi­
m ento consistiam em dorm itórios, cada um com um encarregado de
vigilância. À m edida que um interno avançava na escala de proce­
dimento, seu am biente físico era alterado, assim como a vigilância. A
prim eira alteração significativa era do dorm itório para uma sala única
não fechada, as unidades de “boa conduta” . D aí para a frente, o
quarto do interno aum entava em tam anho e na unidade de “ótima
conduta” a luz estava à sua disposição a qualquer hora. Associado às
alterações do am biente estava o decréscim o de vigilância que na uni­
dade de “ótim a conduta” praticam ente não existia.
E m bora a análise de G laser sobre as atividades nestas unidades
reflita pouca influência de suas características físicas sobre o compor­
tam ento dos prisioneiros, algum as de suas descobertas podem fornecer
bases para futuras decisões nos projetos de instituições penais. Uma
descoberta bastante inesperada leva a questionar o sucesso do sistema
de procedim ento. A análise de G laser do trabalho e das atividades
recreativas dos internos nas unidades de habitação revelou que o
tempo de trabalho aum entava, ao passo que o tempo de recreação

90
diminuía, até que os prisioneiros chegassem às duas unidades de
“ótima conduta”.
Aí, então, a tendência inverte-se, com as atividades recreativas
ocupando substancialmente mais tempo do que em outras unidades e
o tempo gasto no trabalho proporcionalmente diminuído. Além
disso, a “qualidade intelectual” das atividades de recreação pareceu
diminuir nas duas unidades de ótima conduta. Os registros de ma­
trícula e de graduação nos cursos por correspondência feitos pelos
prisioneiros indicou também a participação em cursos de uma forma
dramaticamente reduzida, nas duas unidades de ótima conduta. Gla-
ser concluiu então que “as unidades de honra com base na conduta
podem freqüentemente contribuir mais para o conforto dos internos e
do pessoal administrativo do que para a reabilitação dos prisioneiros”
(pág. 112).

O AM BIENTE CONSTRUÍDO — UM A ANÁLISE GERAL

Até aqui, examinamos os ambientes construídos e seus diversos


componentes, desde quartos até instituições para os mentalmente
perturbados. Cada um destes ambientes compartilha uma caracte­
rística comum: aspectos físicos da estrutura e de seus componentes
podem afetar o comportamento. Faremos agora uma breve revisão
de algumas características destes ambientes e do comportamento que
neles ocorre.
Discutimos, no início, variáveis dependentes e independentes na
pesquisa psicológica. Lembremo-nos que a variável independente é
usualmente uma condição ou uma situação em que uma pessoa está
se comportando; variáveis dependentes são tipos de comportamento
que podem variar com as variáveis independentes. Para fins de revi­
são, apresentaremos as variáveis que têm sido de maior importância
nos ambientes construídos que consideramos até agora.
A primeira categoria de variáveis ambientes consideradas referia-
se às características integrais das estruturas — tamanho e forma de
quartos e edifícios; disposições de paredes, corredores e salas; colo­
cação de portas e janelas; disposições externas. Várias combinações
destas características estruturais determinam a quantidade e o tipo de
espaço interno e externo, uma variável estrutura adicional.
Uma segunda categoria, mais flexível, de aspectos físicos do
ambiente construído, foi tratada como abrangente de componentes de
disposições particulares. Entre estes aspectos acham-se o esquema
de cores, o mobiliário e sua disposição. Numa categoria semelhante

91
I

estão as diversas dimensões de conforto ambiental: temperatura, ruído


c iluminação. Estas duas categorias incluem a maior parte daquilo
que consideramos variáveis independentes, na pesquisa do ambiente
construído e do comportamento.
Nos estudos discutidos nos cap&r 2 e 3, foi observada a ocor­
rência de diversos tipos de comportamento que ocorrem dentro das
características dos ambientes construídos que mencionamos, ou como
resultados dos mesmos. Estes tipos de comportamento, ou variáveis
dependentes, diferem substancialmente em tipo e complexidade.
Grande parte do comportamento relatado foi perceptual. As
expressões de conforto térmico, impressões visuais de cores das salas,
confusão perceptual causada por salas experimentais distorcidas e o
nível de ruídos percebidos são exemplos destes tipos de comporta­
mento.
Relatou-se também uma série de atividades nas investigações
discutidas. O problema da satisfação é repetidamente mencionado
em muitos contextos diferentes. Numerosas pesquisas determinaram
as atitudes dos residentes perante o seu ambiente, seus vizinhos e
seus empregos, bem como as expressões não verbais da luta pelo
espaço pessoal e pela territorialidade, assim como o medo, em si­
tuações particulares.
O comportamento social em ambientes físicos foi também co-
mumente mensurado, variando de olhadelas casuais ou breves cum­
primentos até amizades constantes ou crime. Tal comportamento
foi tido como possivelmente encorajado ou desencorajado, segundo
algumas características do ambiente físico.
Finalmente, comportamentos mais funcionais mostraram ser
afetados por características do ambiente construído. Atividades em
salas de aula, movimentos em museus e padrões de tráfego em
hospitais indicaram, todos, graus variáveis de influência ambiental.
Obviamente, os exemplos de comportamento aqui relacionados
não esgotam a lista. Diversos aspectos de estruturas físicas podem,
indubitavelmente, estar ligados ao comportamento do consumidor,
jogos de crianças (ou falta deles) em hospitais, ações de hóspedes em
hotéis, razões pelas quais os compradores de casas desejam salas de
estar rebaixadas, etc. Infelizmente, a pesquisa nestas áreas, como
na maioria das demais em psicologia ambiental, é por hora limitada.

92

i
Capítulo 4

O ambiente construído: cidades

Vimos, em capítulos anteriores, como diversos aspectos do am­


biente — salas, casas, edifícios, vizinhanças e outros — podem afetar
o comportamento. Estes tipos de ambiente construído podem ser
considerados subsistemas do ambiente construído final: a cidade.
Embora neste capítulo discutamos estudos que tratam primariamente
do ambiente e do comportamento urbano, o leitor deverá lembrar-se
que, direta ou indiretamente, o comportamento estudado é influen­
ciado por todos os subsistemas que compõem uma cidade:

A VIDA N A CIDADE

Conforme ressaltado anteriormente, atributos ambientais podem


eliciar reações de aproximação ou de esquiva (Wohlwill, 1970). Em
parte alguma isto é mais claro do que nas cidades. A vida de um
indivíduo numa cidade está continuamente exposta a uma série tre­
mendamente variada de características ambientais, algumas possivel­
mente muito atraentes, outras muito ameaçadoras. Desta forma,
embora o ambiente urbano possa impor grandes restrições a alguns
tipos de comportamento, possibilita a ocorrência de uma série de
outros, que nenhum outro ambiente permite.
É impossível, naturalmente, qualquer tentativa de levantar todos
os atributos ambientais que caracterizam a vida na cidade, assim como
discutir quais destes servem como fontes de satisfação ou insatisfação
para os que nela vivem. A razão principal é que os habitantes da
cidade constituem uma população extremamente heterogênea, dife­
rindo de modo marcante em praticamente todas as suas características
— econômicas, educacionais, motivacionais, e assim por diante.
Conseqüentemente, o que um executivo abastado — que reside numa
casa cara em um bairro residencial e que dela se desloca diariamente
para um caro escritório na cidade — consideraria satisfatório sobre
a vida na cidade pode ser muito diferente daquilo que uma pessoa
dependente de auxílio institucional, moradora numa favela, conside-

93
raria satisfatório ou insatisfatório. Devido a esta heterogencidade,
os pesquisadores que realizam estudos ambientais em área urbana
devem tomar o cuidado de apontar as características das pessoas cm
estudo.
Algumas características de ambientes urbanos que têm efeito so­
bre a maioria dos habitantes da cidade, infelizmente, constituem aspec­
tos negativos dos mesmos c, assim, resultaram no que se tornou co­
nhecido como crise urbana. A complexidade da crise urbana é con-
vincentementc analisada por Arthur Naftalin (1970), cujos antece­
dentes incluem não somente um doutoramento em ciências políticas
mas, também, oito anos como prefeito de Minneapolis. Diz ele:
“O assunto é tão extenso, abrangente e profundo, afetando-nos
de tantas formas diferentes, que veio a englobar todas as coisas,
para todas as pessoas. Envolve ao mesmo tempo interesses go­
vernamentais, econômicos, sociais, psicológicos, tecnológicos, morais
e filosóficos e refere-se a todos os aspectos da vida na comunidade e
do comportamento individual: relações humanas, cumprimento da lei,
habitação, sanidade, serviços de saúde, distribuição de renda, educa­
ção — enumere-os e você terá uma parte apenas da crise urbana.
“ . . . Envolve a totalidade de nosso ambiente físico: congestiona­
mento e poluição crescente, a destruição de nossos recursos naturais,
especialmente em nossa terra, a falta crítica de habitação adequada,
a falha de preservação do espaço aberto, os crescentes problemas de
abastecimento de água, esgotos e tratamento do lixo, a frustrante
explosão de tecnologia que introduziu a velocidade, o movimento e
a mudança num ritmo que confunde e desconcerta quase todos.
“Quanto ao lado social da crise, não se resume somente numa
questão de pobreza, embora este seja certamente seu elemento mais
crítico. Envolve uma estrutura mutante de valores que está alte­
rando fundamentalmente a natureza da vida em família e o padrão
geral de relacionamento humano. Envolve também um aumento
alarmante do uso de álcool e drogas e tensões cada vez maiores que
derivam da crescente insegurança e de nossa incapacidade em con­
trolar ou nos pôr a salvo das hostilidades. Envolve um enfraqueci­
mento geral de nossas instituições principais de controle social, espe­
cialmente a família e a educação” (pág. 108-109).
Estes fatores, entre outros, contribuem para a crise urbana e
têm impacto profundo sobre a vida de milhões de habitantes das
cidades. Não obstante, sabemos pouco sobre as reações comporta-
mentais associadas aos problemas urbanos. Os psicólogos ambien­
tais investigaram somente alguns destes problemas, de forma que, na
maioria dos casos, podemos apenas especular sobre os efeitos de um
aspecto particular da crise urbana sobre o comportamento.

94
Conquanto tenhamos poucos dados que liguem um problema
urbano específico a tipos específicos de comportamento, dispomos
de dados que mostram que os problemas associados à crise urbana
contribuem grandemente para a insatisfação das pessoas que vivem
na cidade. Os resultados de pesquisas diferem de acordo com as
características do segmento particular da população urbana tomado
como amostra, mas quase todos relacionam os mesmos atributos am­
bientais como contribuintes importantes para a insatisfação com a
vida na cidade. Alta densidade populacional, que leva à falta de
espaço, consta da maioria das relações, assim como o crime, agres­
são e violência, habitações pobres e, virtualmente, todos os demais
problemas urbanos relacionados por Naftalin. Desta forma, não
é particularmente difícil a determinação dos fatores que contribuem
significativamente para a insatisfação com a vida na cidade; mais
difícil é a investigação dos fatores que contribuem para a satisfação
com a mesma.

Fontes de satisfação da vida na cidade

As cidades atraem, é claro, muitas pessoas, por um número


muito grande de razões. Oferecem tipos de experiências que não
podem ser encontrados em qualquer outro lugar e muitos deles podem
ser fonte de intensa satisfação pessoal. Conforme sugere Milgran
(1970a), “as cidades têm grande atrativo devido à sua heterogenei-
dade, movimentação, possibilidades de escolha e estimulação por uma
atmosfera intensa que muitas pessoas consideram desejável como
pano de fundo para suas vidas” (pág. 1416).
Mais pesquisas têm sido realizadas sobre os fatores ambientais
urbanos que contribuem para a insatisfação do que sobre os que le­
vam à satisfação. Além disso, grande parte da pesquisa que tem
tratado dos aspectos satisfatórios da vida urbana centraliza-se nos
fatores da vizinhança imediata em que um indivíduo reside, e não
nas características da área maior — a comunidade e a região — que
possam ser satisfatórias ou insatisfatórias. Em outras palavras, a
maior parte das pesquisas sobre aspectos satisfatórios da vida urbana
aborda o ambiente microrresidencial, ao invés dos atributos da cidade
da qual a área residencial é parte. Embora pareça razoável presu­
mir que a eliminação dos problemas associados à crise urbana resul­
taria numa porcentagem mais elevada de residentes satisfeitos, há
pouca pesquisa sistemática nesta área.

95

, IN S T IT U T O c.
I O T Ê C A - r-'
Ao tentar determinar os aspectos satisfatórios de um ambiente
microrresidcncial, os pesquisadores se concentraram, cm geral: (1)
nas características físicas das residências c áreas circundantes; (2)
nos intercâmbios sociais dos habitantes. Na verdade, não é possível
separar as duas áreas de modo efetivo; as características físicas deter­
minam, cm grande parte, os tipos de relacionamento social. Em
capítulos anteriores, discutimos uma série de estudos que demons­
traram a importância de tais fatores físicos, como localização de por­
tas c janelas, na determinação de padrões de amizade e de relacio­
namento sociais entre residentes de diversos tipos de agrupamentos
habitacionais. Foi discutida, também, a importância do espaço pes­
soal e da privacidade na determinação do nível de satisfação ou insa­
tisfação. Embora não venhamos a considerar estes fatores aqui,
deve-se ter em mente que representam fontes importantes de satisfa­
ção com a vida urbana. Discutiremos, nesta seção, estudos que tra­
tam das características das proximidades das residências urbanas
consideradas satisfatórias por duas populações marcantemente dife­
rentes: uma composta de residentes em áreas suburbanas, de renda
elevada, e a outra, de residentes numa área favelada.

Satisfação residencial numa favela urbana

Nos últimos anos, muita atenção tem sido dada às favelas urba­
nas e aos problemas a elas associados. Os residentes destas áreas
têm chamado a atenção não somente por demonstrações de desor­
dens mas, também, por se tomarem muito mais eloqüentes, fazendo-
se ouvir a nível de governo local e nacional. O resultado foi uma
série de programas governamentais de ação, como, por exemplo, de
renovação urbana. Embora os fundos para estes e outros programas
estivessem sendo retirados, quando da redação deste trabalho, é pos­
sível a continuação da preocupação com as áreas faveladas e o com­
portamento de seus residentes.
Infelizmente, os dados disponíveis não apresentam um quadro
muito claro das áreas faveladas e de suas populações. Uma razão,
naturalmente, é que não há duas áreas faveladas semelhantes. Con­
forme ressaltam Fried e Gleicher (1972):
“As áreas faveladas apresentam, indubitavelmente, muitas varia­
ções: tanto diferenças de uma favela para outra como heterogenei-
dade dentro de cada área favelada urbana. Começaram a aparecer,
entretanto, no corpo crescente da literatura, certas características
consistentes e comuns a várias áreas faveladas. Empresta-se muita

96
ênfase ao fato de que os estudos sistemáticos disponíveis sobre áreas
faveladas indicam serem estas compostas por uma faixa muito ampla
da classe operária, variando de operários altamente especializados até
membros não-trabalhadores, ou trabalhadores esporádicos da classe
‘trabalhadora’. Além disso, mesmo em nossas piores favelas, é pro­
vável que somente uma minoria dos habitantes (embora, algumas
vezes, uma minoria mais ou menos abrangente e visível) seja afdgida
por uma ou outra forma de patologia social” (pág. 137-138).
Tendo-se em mente, então, que há diferenças importantes entre
áreas faveladas e que as descobertas dos estudos de uma área podem
não ser completamente aplicáveis às demais, consideremos o estudo
realizado por Fried e Gleicher (1972), relativo aos residentes da
parte oeste de Boston (West End). Os dados desta investigação
incluíram somente as casas em que havia uma mulher com idade entre
20 e 65 anos. Cinqüenta e cinco por cento dos moradores da amos­
tra haviam nascido na área ou lá residiam há pelo menos 20 anos.
Os autores relatam que houve uma acentuada estabilidade residen­
cial e que a maioria dos moradores mudou poucas vezes de residência
e, se o fizeram, foi para outra dentro do próprio West End. Esta
descoberta, naturalmente, é contrária à idéia comumente aceita de
que uma área favelada tem uma população altamente transitória.
Fried e Gleicher descobriram também que contrariamente à visão
popular dos sentimentos dos habitantes de favelas sobre a área em
que vivem, 75 por cento dos indivíduos da amostra gostavam de
morar no local, ao passo que somente 10 por cento declararam não
gostar.
Ao explorar as razões para esta alta taxa de satisfação, surgiram
dois fatores principais. Um é que a área física tem um considerável
significado de extensão do lar e diversas partes dela são delineadas
e estruturadas com base num sentimento de pertinência. Em outras
palavras, a área local em volta da unidade habitacional é conside­
rada parte integrante do lar. A força do sentimento de pertencer
a uma área, ou seja, um sentimento de “bairrismo”, aqui encarado
sem as costumeiras conotações negativas, foi um fator importante
na determinação do fato de os moradores gostarem ou não de resi­
dir ali.
O segundo fator é que a área residencial fornece uma estrutura
para um conjunto vasto e intrincado de vínculos sociais, que são im­
portante fonte de satisfação. Fried e Gleicher encontraram uma
forte associação entre a satisfação dos indagados com o fato de morar
em West End e os relacionamentos sociais que haviam estabelecido.
O estudo revelou uma série de relacionamentos sociais, mas os laços

97
dc parentesco (que envolvem as famílias nucleares de ambos os côn­
juges) pareceram ser de importância ainda maior do que os relacio­
namentos com vizinhos. “Quanto mais extensos forem estes laços
dc parentesco disponíveis em meio à área local, maior será a pro­
porção dos que demonstram um sentimento positivo com relação ao
West End” (pág. 144). Entretanto, Fried e Gleicher enfatizam
que a falta destes tipos de relacionamentos não acarreta necessaria­
mente sentimentos negativos para com a área.
Em muitos casos, moradores sem fortes vínculos sociais rela­
taram sentimentos muito positivos sobre o West End, de forma que
devem existir fontes alternativas de satisfação para algumas pessoas.
Este estudo revelou também a importância do espaço físico e
os usos especiais da área feitos pelos moradores. Uma discussão
completa destes fatores envolver-nos-ia novamente com conceitos de
espaço pessoal, privacidade, territorialidade, e assim por diante.
Basicamente, entretanto, nas áreas de classes operárias como o West
End, o lar é visualizado como toda a área local, e não somente como
a casa. Os limites entre a unidade habitacional e seu ambiente ime­
diato são usualmente muito mais “permeáveis” em áreas faveladas do
que nas áreas de classe média. Numa favela, uma grande parte da
atividade ocorre fora de casa: crianças brincam nas ruas, mulheres
saem às ruas para conversar com amigas, as famílias se reúnem em
escadas e conversam com vizinhos, as esquinas das ruas servem como
locais de encontro para contatos sociais, e assim por diante. O am­
biente externo, de certa forma, torna-se uma extensão da casa. Fried
e Gleicher declaram:
“Em conjunção com a ênfase nos relacionamentos sociais locais,
esta concepção e uso do espaço físico local dão uma força particular
aos sentimentos de compromisso e pertinência à área residencial.
É claramente visível que não só a unidade habitacional é significativa,
mas também uma região local mais ampla, que partilha estes fortes
sentimentos de envolvimento e identidade. Não é surpreendente, por­
tanto, que o ‘lar’ não seja meramente um apartamento ou uma casa,
mas, sim, uma área local, em que alguns dos aspectos mais signifi­
cativos da vida são experimentados” (pág. 151).
Aparentemente, assim, a vida numa área favelada fornece tantas
fontes de satisfação que uma alta porcentagem dos moradores gosta
de residir nela. Este fato tem implicações importantes, particular­
mente para os projetos de renovação urbana. Tem-se presumido,
tipicamente, que a alteração das características físicas das áreas fave­
ladas, através de novas casas, ou a redistribuição dos moradores

98
beneficiam não só estes últimos mas também a cidade, como um todo.
Talvez sim; sabemos ainda muito pouco sobre as consequências com-
portamentais de se morar numa favela. Entretanto, sabemos pouco
também sobre os efeitos comportamentais de mudança radicais nas
características físicas de favelas ou sobre mudanças forçadas. Parece,
ainda, que a área local provê estruturas para uma extensa integração
social, que os habitantes das favelas acham altamente satisfatória.
Os programas que deslocam pessoas e destroem os relacionamentos
sociais podem ter efeitos negativos superiores aos benefícios espe­
rados.

Satisfação residencial em subúrbios

Num esforço para determinar as fontes de atração da comuni­


dade, Zehner (1972) estudou quatro áreas suburbanas, todas situadas
a uma distância de vinte e cinco a trinta quilômetros de uma área
metropolitana central, com moradores predominantemente abastados
e de bom nível cultural. O valor médio das casas, em todas as qua­
tro áreas, situava-se acima de 33.000 dólares e a renda média fami­
liar ia além de 17.000. Em duas das áreas, a proporção de casais
em que tanto o marido como a esposa tinham pelo menos o grau de
licenciado em ciências humanas * era superior a quarenta por cento;
nas outras duas áreas, tal proporção era de dezessete por cento numa
e vinte por cento na outra. Obviamente, os moradores destas áreas
diferiam substancialmente das pessoas incluídas no estudo de Fried
e Gleicher.
Quando foram solicitados a classificar as comunidades em que
viviam como excelente, boa, média, abaixo da média ou pobre, mais
de 80 por cento dos moradores em cada um dos subúrbios classifi-
caram-nas como excelentes ou boas. Entre as razões dadas para as
avaliações positivas estavam: instalações físicas bem planejadas e
acessíveis, boas escolas, vizinhos amistosos, relativa segurança contra
crimes, bom acesso a lojas, empregos, etc., boa qualidade ambiental,
com disponibilidade de árvores, lagos, colinas, etc., muito espaço e
pouco congestionamento. Além de investigar os fatores que con­
tribuíam para a satisfação com a comunidade, Zehner coletou dados
sobre os fatores ligados à satisfação com a vizinhança. Agrupou es­
tes fatores em cinco categorias gerais: densidade de população da
área, acessibilidade de instalações, casa do entrevistado, compatibi­
lidade social e grau de apoio da vizinhança. Zehner descobriu que

* B. A. degree. (N . do T .)

99
os entrevistados das íircas de menor densidade populacional — as
mais calmas c as que fornecem maior privacidade — expressaram
um alto grau de satisfação com as mesmas. A falta de ruído pareceu
ser a variável mais importante no aspecto referente à densidade de
população. A acessibilidade de instalações não foi considerada como
altamente associada com a satisfação com a vizinhança, embora a
proximidade de playgroimds tenha sido importante para as famílias
com crianças.
A compatibilidade social foi uma fonte de satisfação com a
vizinhança, exatamente como o foi no estudo das favelas. Entre­
tanto, Zehner descobriu que seus entrevistados sentiram ser mais im­
portante ter vizinhos considerados compatíveis do que vizinhos com
quem mantivessem freqüente relacionamento social.
O apoio da vizinhança foi o fator mais altamente relacionado
com a satisfação, nas comunidades estudadas. Esta variável teve
um coeficiente de correlação de 56, amizade de 44 e similaridade de
vizinhos da ordem de 36. A densidade da área, relacionada com o
nível de ruído, teve uma correlação de 34. Os fatores menos rela­
cionados com satisfação com a vizinhança foram os que envolvem
acessibilidade às várias instalações da comunidade.
Os estudos de Fried e Gleicher e de Zehner, bem como diversos
outros que não foram citados, indicam que uma porcentagem signi­
ficativa de habitantes da cidade declara-se satisfeita com sua vida.
Estes estudos isolaram diversas características do ambiente urbano
que servem de fontes de satisfação. Deve-se ter em mente, entre­
tanto, que outras características do ambiente urbano são tidas como
ameaçadoras (algumas destas serão discutidas no cap. 6). Possi­
velmente, as pesquisas realizadas para determinar as fontes de satis­
fação com a vida na cidade não levam suficientemente em conta, nas
questões indagadas aos entrevistados, os aspectos insatisfatórios da
vida na cidade. O fato de que diversas pesquisas revelam uma alta
porcentagem de habitantes da cidade, que declaram que o que mais
gostariam de fazer seria mudarem-se para áreas mais próximas às
zonas rurais, pode indicar que os mesmos não estão tão satisfeitos
com a vida na cidade como se podería presumir.

A imagem da cidade

Estudos como os de Fried e Gleicher e de Zehner dão aos pes­


quisadores alguma idéia sobre como seus entrevistados vêem a vizi­
nhança ou a comunidade em que vivem. Outros pesquisadores inte-

100
rcssam-sc mais cspecificamentc na imagem que as cidades dão aos
seus habitantes ou visitantes e elaboraram técnicas engenhosas para
estudar essas imagens. Estes métodos estão, tipicamente, baseados
na premissa de que os habitantes de uma cidade adquirem um “mapa
cognitivo” da mesma e que este mapa resulta tanto das características
pessoais do indivíduo quanto das características físicas da cidade.
O problema, então, para o investigador, consiste em desenvolver
meios de “ler” os mapas, característicos de cada um dos habitantes.
Discutiremos, nesta seção, diversos processos desenvolvidos e usados
por pesquisadores neles interessados.

A atmosfera urbana

Um dos fatores importantes na formação de uma imagem de


cidade tem sido designado como a “atmosfera urbana”. Os psicó­
logos têm encontrado dificuldades simplesmente para definir o que
seja uma atmosfera urbana, assim como para isolar seus componen­
tes. Entretanto, Heimstra e McDonald (1973) ressaltam alguns
componentes que podem ser importantes:
“Obviamente, a aparência ou disposição física de uma cidade
exercerão um efeito sobre sua atmosfera; algumas pessoas podem
dizer que a aparência de Paris, Londres ou Nova York pode ser
considerada como sendo a atmosfera propriamente dita dessas cida­
des. Há, indubitavelmente, muitos componentes visuais de uma
cidade que contribuem para tais atmosferas e são, portanto, de im­
portância para qualquer pessoa nelas interessada.
“Por exemplo, o tempo ou ritmo de uma cidade contribui para
a sua atmosfera. Um visitante de uma cidade fica imediatamente
impressionado com a sua aparente agitação. Esta pode ser uma
impressão errônea (por falta de dados empíricos), mas constitui, cer­
tamente, parte da atmosfera. De forma semelhante, a densidade da
população, os tipos de pessoas nela incluídos e a atitude e comporta­
mento das pessoas perante outras e perante os visitantes são fatores
influentes. É uma interação complexa das características dos habi­
tantes e das características da cidade que forma a ‘atmosfera urbana’ ”
(pág. 46).
Por ser complexa tal interação, é difícil quantificar a atmosfera
urbana. Consideremos, por exemplo, algumas das características
pessoais que determinarão a impressão de um indivíduo sobre uma
cidade. Milgram (1970a) aponta três fatores pessoais que podem
afetar a reação de um indivíduo face a uma cidade. Em primeiro

101
lugar, a impressão de uma pessoa sobre uma dada cidade dependerá
de seu padrão de comparações. Um parisiense que esteja visitando
Nova York poderá ler uma impressão de uma cidade frenética; para
um nativo de Tóquio, Nova York poderá parecer relativamente calma.
Em segundo lugar, a impressão de uma cidade é afetada pela situação
do examinador. Um turista, um recém-chegado, um antigo habitante
e alguém que esteja retornando à cidade, após uma longa ausência,
terão todos diferentes impressões. Finalmente, uma pessoa vem a
uma cidade com idéias e expectativas preconcebidas sobre a mesma.
Embora tais “pré-concepções” possam não ser exatas, contribuem
para formar uma impressão da cidade.
Milgram (1970b) descreve também um estudo por ele realizado
relativo à “atmosfera das grandes cidades”. Foram desenvolvidos
questionários e aplicados em sessenta pessoas familiarizadas com
pelo menos duas entre três cidades: Londres, Paris e Nova York.
Os questionários foram feitos para eliciar descrições da cidade e, em
geral, revelar o caráter das mesmas. Por exemplo, um dos itens
do questionário pedia que os entrevistados relacionassem diversos
adjetivos que julgassem aplicáveis a uma determinada cidade. A
análise destes adjetivos mostrou que Nova York eliciou mais descri­
ções relativas às suas qualidades físicas, ritmo e impacto emocional
do que Paris ou-Londres. No caso de Londres, os entrevistados
colocaram maior ênfase nos relacionamentos sociais do que nos por­
menores físicos. No caso de Paris, os entrevistados distribuíram-se
mais ou menos igualmente quanto à enfatização dos relacionamentos
com os habitantes ou com os atributos físicos da cidade.
Outra forma de estudar as impressões criadas por uma cidade
é exemplificada pela pesquisa de Lynch (1960).

Os estudos de Lynch

O livro de Kevin Lynch, A Imagem da Cidade ( The Image of


the City), descreve estudos realizados em Boston (Massachusetts),
Jersey City (New Jersey) e Los Angeles (Califórnia). Embora não
possamos resumir as investigações de Lynch sobre as caractersticas
destas cidades e as descobertas de seus estudos, no espaço de que
dispomos, estudaremos com alguns detalhes os métodos usados em
sua pesquisa. O livro de Lynch fornece um amplo referencial de
sua abordagem e suas descobertas têm implicações importantes para
os planejadores urbanos.
Lynch usou dois métodos principais para estudar a imagem
destas cidades. No primeiro método, uma amostra de cidadãos foi

102
entrevistada sobre a imagem que tinham do ambiente urbano em que
viviam. No segundo método, observadores treinados procederam a
um estudo de campo preliminar e sistemático de cada cidade. Usan­
do informações que provaram ser significativas nas análises de estu-
dos-piloto, esses observadores mapearam a presença de elementos
ambientais, sua visibilidade, a força ou fragilidade de sua imagens, e
assim por diante. Este estudo permitiu a comparação dos dados das
entrevistas com os dados das análises de campo.
As entrevistas foram extensas, levando cada uma cerca de uma
hora e meia, e foram gravadas em fita. Segundo Lynch, os entre­
vistados estavam altamente interessados nas entrevistas e, frequente­
mente, mostraram emoção. Os indivduos foram solicitados a:
1. Relatar o que lhes vem à mente quando pensam em sua
cidade e dar uma descrição da mesma.
2. Desenhar um mapa rápido da área central da cidade, como
se estivessem esquematizando para um estranho a locali­
zação de algum ponto.
3. Descrever detalhadamente seus trajetos de casa para o tra­
balho. Foi-lhes também solicitado que fizessem o mesmo
para um percurso imaginário ao longo de uma rota forne­
cida pelo entrevistador. Suas reações emocionais face a
cada percurso foram pedidas junto com a descrição física.
4. Dar os elementos que considerassem como característicos
da área central da cidade.

Assim, a entrevista consistiu essencialmente em pedir aos entre­


vistados que esquematizassem o mapa da cidade e dessem uma des­
crição detalhada de diversos percursos através da mesma, bem como
uma breve descrição das partes da cidade que sentiam ser mais carac­
terísticas ou notáveis. A análise das imagens obtidas através destas
perguntas foi limitada aos efeitos de objetos físicos, perceptíveis, em­
bora Lynch ressalte que há outras influências sobre o desenvolvimen­
to de uma imagem de uma área, tais como seu significado social, sua
história, suas funções e mesmo seu nome. Lynch descobriu que os
elementos físicos das imagens das cidades podem ser classificados
convenientemente em cinco tipos: passagens, orlas, distritos, pontos
nodais e marcos.
Passagens são ruas, calçadas, linhas de trânsito, ferrovias e ou­
tros aspectos. São os canais ao longo dos quais o observador se
move e, para muitas pessoas, são os elementos predominantes em

103
suas imagens de uma cidade. Orlas são os “elementos lineares não
usados ou considerados como passagens pelos observadores’’. Po­
dem ser praias, segmentos de ferrovias, limites de desenvolvimento,
c assim por diante; servem para separar uma região de outra ou
para relacionar e unir duas regiões. As orlas constituem também
importantes características de organização de uma cidade, para mui­
tos observadores. Distritos são as “seções de médias para grandes
áreas da cidade, concebidas como tendo extensão bidimensional, em
que o observador mentalmente ‘ingressa’ e que são reconhecíveis
como tendo algum caráter comum de identificação”. Pontos nodais
são áreas importantes ou estratégicas em que uma pessoa pode entrar
e que são focos dos quais ou para os quais está seguindo. Estas
áreas são junções, locais de parada dos transportes, cruzamentos ou
convergências de passagens, e assim por diante. Podem ser tam­
bém pontos de reunião, ou áreas fechadas. Como sugere Lynch,
“alguns destes pontos nodais são o foco e a síntese de um distrito,
sobre o qual a sua influência se irradia e do qual permanece como
um símbolo”. Imagens de uma cidade quase sempre têm pontos
nodais que, em alguns casos, são as características dominantes da
imagem. Finalmente, marcos são, como os pontos nodais, pontos de
referência. Entretanto, os marcos são tipicamente objetos físicos e
não áreas. Exemplos de demarcação são torres, sinais e lojas (págs.
47-48).
A análise das imagens mostrou também que os elementos acima
discutidos não existiam isolados; tipicamente, distritos eram estru­
turados com os pontos nodais, definidos por orlas, penetrados de
várias formas por passagens e freqüentemente tinham uma série de
marcos distribuídos por toda parte. Conforme ressalta Lynch, entre­
tanto, embora seu método permita a coleta de dados adequados sobre
elementos simples, o mesmo não fornece muitas informações sobre
as suas inter-relações, padrões, seqüências e quadros totais. Enfa­
tiza ele que outros métodos devem ser desenvolvidos para se estudar
estes aspectos vitais das imagens de cidades.
Com algumas modificações, uma técnica semelhante à que foi
usada por Lynch pode tom ar possível a determinação da imagem
de uma cidade, de uma forma bastante exata. Por exemplo, quando
os habitantes são solicitados a relatar o que lhes vem à mente quando
pensam em suas cidades e a dar uma ampla descrição das mesmas.
“Alguns indivíduos podem descrever características de superpo­
pulação, favelas, poluição, determinados edifícios que acham atraen­
tes ou repulsivos, o desenho das ruas ou o comércio, e assim por
diante. Algumas características, tais como certos edifícios, parques
e praças da cidade, podem ser encaradas favoravelmente por muitos

104
dos habitantes, ao passo que outras características podem ser quase
que uniformemente vistas com desagrado. Algumas características
resultariam em imagens fortes; outras poderíam ser notadas somente
por uns poucos indivíduos.
Quando as informações obtidas por uma série de entrevistas fo­
rem combinadas, o pesquisador terá uma visão bastante ampla da
imagem que os ocupantes têm da cidade” (Heimstra & McDonald,
1973, pág. 47).

Outros tipos de mapas psicológicos

A técnica de mapeamento psicológico utilizada por Lynch é


relativamente desestruturada; as pessoas entrevistadas respondem a
perguntas ou instruções abertas. O método de mapeamento psico­
lógico por Milgram (1972) é mais estruturado. Mostrou a seus entre­
vistados slides coloridos de uma série de cenas de Nova York, pe­
dindo-lhes que identificassem os locais. As cenas foram seleciona­
das de forma objetiva, por meio de um sistema de grade de coorde­
nadas, com cada intersecção de uma linha de latitude e de uma de
longitude definindo uma cena. Para fins de economia, os pontos
visualizados foram reduzidos a 25 em Bronx, 22 em Brooklyn, 31
em Queens, 20 em Staten Island e 54 em Manhattan *. Os indiví­
duos foram recrutados através de um anúncio no New York Maga­
zine. A maioria dos 200 entrevistados obtidos tinha idade entre
20 e 30 anos (idade média de 28,9), com uma ligeira maioria para
as mulheres. O indivíduo “médio” tinha um nível profissional baixo,
morava em sua residência atual fazia cinco a dez anos e vivia na
cidade de Nova York há mais de vinte anos.
Os indivíduos testados em grupos receberam, cada um, um
livreto de respostas e um mapa da vizinhança e foi-lhes solicitado
que se familiarizassem com o mapa. Foram informados que a fina­
lidade primária do estudo era a de descobrir até que ponto as pes­
soas podem reconhecer diversas cenas da cidade. Os slides coloridos
das diversas cenas foram então projetados numa tela. Solicitou-se
aos indivíduos que imaginassem estar vendo as cenas da janela de
um ônibus em viagem pela cidade e que indicassem no livreto de
respostas o bairro onde se passava cada cena. Foram também soli­
citados a identificar a vizinhança e a rua de cada cena. Todo o pro­
cesso de teste levou mais ou menos uma hora e meia.

* Bairros de N ova York. (N . do T .)

105
Somando a porcentagem de respostas corretas para todas as
cenas em um bairro e dividindo esta cifra pelo número de cenas,
Milgram determinou o “índice de reconhecimento” , ou média do dis­
trito. As médias dos distritos foram as seguintes:
M anhattan 64,12 por cento
Queens 39,64
Brooklyn 35,79
Staten Island 26,00
Bronx 25,96
Ao considerar estes resultados, o leitor deve ter em mente que
as cenas usadas não foram selecionadas segundo a probabilidade
com que seriam reconhecidas, mas, sim, selecionadas ao acaso.
Milgram descobriu também diferenças substanciais, de acordo
com o bairro, na proporção de cenas colocadas na vizinhança correta.
A proporção de cenas de M anhattan colocadas na vizinhança correta
foi três vezes maior do que aquelas de Brooklyn ou Queens, e cinco
vezes maior do que as de Bronx ou Staten Island. Foi descoberto
um padrão similar na identificação de localização de ruas.
Desta forma, conforme declara Milgram:
“A cidade de Nova York, como um espaço psicológico, é muito
irregular. Não está absolutamente claro que metrópoles como Lon­
dres, Paris, Tóquio e Moscou tenham texturas psicológicas compa-
ravelmente desiguais. Seria altamente interessante construir um
mapa psicológico similar de outras cidades do mundo para se deter­
minar o grau de sucesso com que cada cidade, em todas as suas par­
tes, comunica ao habitante um senso específico de lugar que lhe per­
mita localizar-se, acalmar o pânico de desorientação e construir uma
imagem articulada dela como um todo” (pág. 2 00).
Entre outros estudos recentes de imagens de cidades está o de
Rand (1969), que utilizou um enfoque similar ao de Lynch. Rand
entrevistou pilotos de avião e motoristas de táxi e descobriu que as
imagens da cidade obtidas por ambos os grupos eram acentuada-
mente diferentes. Em outro estudo, Rozelle e Bazer (1972) entre­
vistaram habitantes de Houston, Texas, para determinar como em­
prestavam significado e valor a elementos de suas cidades, pergun­
tando-lhes o que nelas consideravam im portante, como as viam e
como delas se lembravam. Cada tipo de questão levou a uma
resposta. Rozelle e Bazer concluíram que tais questões verbais po­
dem eliciar o mesmo tipo de informações que os mapas de Lynch,
com maior flexibilidade.

106
Estudos com o uso de técnicas fotográficas incluem os de Honik-
man (1972), que mostrou aos seus indivíduos fotografias para deter­
minar a relação entre a avaliação qualitativa e as características físi­
cas de um contexto ambiental, e o de Kaplan e Wendt (1972), que
estudaram as preferências ambientais urbanas por meio de uma série
de slides. As conclusões destes estudos e de outros semelhantes têm
importantes implicações para o projeto urbano mas, infelizmente,
tem-se feito pouco uso das mesmas. Conforme ressaltam Bell,
Randall e Roeder (1973) na discussão do trabalho de Lynch:
“O trabalho original de Kevin Lynch tem tido um efeito signifi­
cativo sobre os planejadores somente por causa da utilidade de seus
métodos analíticos como ferramenta de descrição. Lynch obteve
sucesso porque tem sido a leitura exigida a todos os estudantes de
projetos na última década e devido ao valor do seu trabalho na cria­
ção de uma estrutura em que as observações pessoais podem ser co­
locadas. Isto é uma ferramenta para percepção visual, mas não uma
metodologia de projeto” (pág. 22).

A vida na cidade — Uma experiência patogênica?

Crê-se comumente que fatores associados à vida na cidade cau­


sam uma série de formas de patologia social, bem como diversos
tipos de patologia física. No limitado espaço de que dispomos não
poderemos nos dedicar à discussão de todos os tipos de patologia
social que, com toda probabilidade, são causados por aspectos do
ambiente urbano. Tomemos, por exemplo, o crime em áreas urba­
nas. Esta forma de patologia social recebe imensa dose de atenção
e tem sido extensamente pesquisada. Estudos sobre as relações en­
tre determinados tipos de ambientes construídos e o crime foram
discutidos com algum detalhe em capítulo anterior. Nestes estudos,
o ambiente urbano foi tomado como variável independente e o índice
de crimes como a variável dependente.
Outros pesquisadores tomaram a taxa de criminalidade como
variável independente e determinaram os efeitos de altos índices cri­
minais numa área sobre o comportamento de não criminosos nela
residentes. Desta forma, os pesquisadores têm relatado não somente
a alteração de atitudes frente ao crime e aos criminosos, com as
crescentes taxas criminais, mas também alterações de comportamen­
tos abertos, tais como a compra de cães de guarda, instalação de no­
vas fechaduras e alarmes contra ladrões, ou o porte de “canetas” de
gás lacrimogêneo e outras armas. Embora o crime seja certamente

107
um fator visto como nrncoça pela maioria dos habitantes da cidade,
com pronunciados efeitos sobre seu comportamento, uma discussão
deste tópico ultrapassa a finalidade deste livro. Restringiremos nos­
sa discussão a diversos tópicos de interesse mais direto para os psico-
lógos ambientais.
Ê fato recente um maior interesse existente no possível caráter
patológico do comportamento quotidiano dos habitantes das cidades.
Os numerosos artigos acerca deste comportamento — frequentemente
baseados em não mais do que observação casual — sugerem que os
habitantes urbanos não se preocupam, que perdem espontaneidade,
isolam-se atrás de uma fachada crítica, que existe um estado perene
de desconfiança e reserva, e assim por diante. Conforme veremos
posteriormente neste capítulo, tais conclusões são freqüentemente
resultados da comparação do comportamento de habitantes de cida­
des com o de habitantes de áreas rurais. Entretanto, o que deve ser
questionado é a interpretação do comportamento de habitantes da
cidade como patológico. Michelson (1970) ressalta, ao discutir
comportamentos de habitantes de cidades e a tendência dos obser­
vadores a classificá-los como patológica:
“Ao glorificar a postura presumidamente aberta, confiante e
espontânea de pessoas residentes em áreas não urbanas, considera-se
como prejudicial aquilo que pode simplesmente ser um padrão dife­
rente, nas cidades. Prejudicial ele pode ser, tanto encarado absolu­
tamente quanto em relação a determinadas circunstâncias, mas clas­
sificá-lo como patológico é, apesar da ressalva, uma decisão valo-
rativa, que pode dizer tanto sobre os classificados como sobre os clas-
sificadores” (pág. 149).
Independentemente de serem tais padrões comportamentais pa­
tológicos ou não, as pesquisas têm mostrado uma relação entre certas
características do ambiente urbano e a doença mental, males cardía­
cos ou hipertensão. Uma característica tida como associada a estes
tipos de patologia é a alta densidade populacional, que leva a uma
experiência de falta de espaço. A falta de espaço e as pesquisas
relacionadas com este tópico serão discutidas em detalhes no capí­
tulo 6; consideremos aqui, brevemente, a superpopulação como fa­
tor de patologia.
Há imensa quantidade de pareceres de especialistas sobre os
efeitos da falta de espaço, bem como de artigos sobre seus muitos
e prováveis efeitos adversos. Estes artigos, geralmente, são escassa­
mente documentados ou baseados em dados de estudos com animais,
dados correlacionais ou pareceres. Zlutnick e Altman (1972) exa-

108

minaram o Reader’s Guide to Periodical Literature durante um pe­


ríodo de dez anos e, de uma série de artigos, extraíram 17 propo­
sições referentes à superpopulação ou falta de espaço que têm sido
mencionadas na literatura popular. Os pesquisadores agruparam
estas concepções populares em três categorias, com base nos tipos
de efeito indesejáveis atribuídos à falta de espaço.
' “ 1. Efeitos físicos. Inanição, poluição, favelas, doenças, dis-
funções físicas...
2. Efeitos sociais. Educação pobre, instalações de saúde fí­
sica e mental pobres, crimes, tumultos, guerras.
3. Efeitos interpessoais e psicológicos. Vício em drogas,
alcoolismo, desorganização de famílias, solidão, agressão,
deterioração da qualidade da vida” (pág. 49).

Embora haja poucas experiências controladas sobre os efeitos


da falta de espaço (estes serão discutidos em capítulos posteriores),
a maior parte dos dados que embasam as concepções populares sobre
tais efeitos vem dos estudos com animais e de correlações. Os pri­
meiros têm uma série de limitações e é perigoso tomá-los como base
para generalizações extensivas ao comportamento humano.
Os estudos de correlações tentam estabelecer relações entre a
densidade populacional e os índices de desorganização social, tais
como taxa de criminalidade, freqüência de doenças físicas e mentais,
e assim por diante. Conforme notado anteriormente, uma série de
estudos tem descoberto associações entre altas densidades populacio­
nais e taxas elevadas de crimes. Outros estudos indicaram que cer­
tos tipos de doenças físicas são encontrados em taxas mais elevadas
nas áreas de alta densidade populacional. Entretanto, Hay e Want-
man (1969) compararam a taxa de males como hipertensão e doen­
ças cardíacas (todas presumivelmente associadas ao stress) da cidade
de Nova York, com amostras de âmbito nacional e descobriram que
os índices de hipertensão são apenas ligeiramente mais altos em Nova
York. Descobriu-se ser o índice de doenças cardíacas inferior em
Nova York, comparativamente aos dos Estados Unidos como um
todo. Conforme declara Srole (1972), a “pressuposição de que a
cidade é inerentemente patogênica para certas desordens somáticas
degenerativas pode, ao que parece, ser rejeitada” (pág. 578-579).
Da série de pesquisas que tentam estabelecer vínculo entre den­
sidade populacional e doenças mentais, a maioria relata uma corre­
lação positiva (Faris e Dunham, 1965; Lantz, 1953; Chombart de

109
Lauwc, 1959; c Hollingshcatl c Redlich, 1958). Entretanto, Srole
(1972) questiona a perspectiva de que uma área urbana densamente
habitada seja necessariamente menos “mentalmente saudável”. Revc
as pesquisas nesta área e ressalta que as diferenças existentes entre
as cifras sobre saúde mental urbana e rural frequentemente não se
revestem de significação estatística e podem ser explicadas com base
em fatores outros que não a densidade populacional. Srole conclui
que os dados disponíveis sugerem;
“ 1. Para crianças, em determinadas combinações especiais de
condições, tanto as favelas metropolitanas quanto as rurais,
são mais psicopatogênicas do que as vizinhanças não fave­
ladas adjacentes.
2. Para adultos que buscam uma mudança de ambiente, a
metrópole é, em geral, muito mais terapêutica do que uma
cidade pequena” (pág. 583).

Evidentemente, assim, não podemos declarar com certeza que


a alta densidade das áreas urbanas leva a condições patológicas como
doença mental, hipertensão e doenças cardíacas.
Nestas pesquisas, a variável independente é tipicamente o nú­
mero de habitantes por meio hectare ou alguma outra medida de
superfície. Outras variáveis, entretanto, são diretamente associadas
com a densidade populacional, mas foram consideradas separada­
mente como possíveis fatores que contribuem para a patologia em
áreas urbanas. Por exemplo, o ruído é freqüentemente correlacio­
nado com a densidade populacional e há algumas indicações de que
o mesmo aumenta a incidência de patologia. F arr (1967) relata
que níveis altos de ruído aumentam a probabilidade de doenças asso­
ciadas com tensão, tais como úlceras duodenais. O tipo de habi­
tação constitui outro exemplo. Fanning (1 9 6 7 ), num estudo com­
parativo da saúde de esposa e filhos de integrantes das forças arma­
das que moravam em edifícios de apartamentos de três ou quatro
andares ou em casas simples, descobriu que o índice de óbitos dos
moradores de apartamentos era 57 por cento mais alto do que o
daqueles que moravam em casas. Os efeitos tanto dos ruídos como
dos tipos de habitação sobre o comportamento foram discutidos no
cap. 2 e não serão considerados com mais detalhes aqui.
Ressaltamos anteriormente, neste capítulo, que muitos mora­
dores em favelas estão altamente satisfeitos com sua área habita­
cional, devido ao extenso relacionamento social lá estabelecido. No­
tamos, também, que muitos habitantes de favelas foram obrigatoria-

110
mente recolocados por programas de renovação urbana, mas que
há relativamente poucas informações sobre os efeitos da mudança.
Os pesquisadores descobriram, entretanto, que as pessoas forçadas
a mudar de áreas às quais estavam profundamente ligadas são
levadas com freqüência ao que foi denominado uma “síndrome de
tristeza”, que pode resultar em crises de choro e doenças psicosso-
máticas, tais como desordens intestinais, vômitos e náuseas. Muitas
pessoas não sentem, naturalmente, qualquer ligação com a área em
que moram; de fato, alguns moradores de favelas demonstraram
franca aceitação da demolição da área em que habitavam com vista
à renovação urbana.
A melhor síntese para nossa breve descrição da cidade como
uma fonte de patologia é que se sabe muito pouco sobre a relação
existente entre as diversas condições físicas do ambiente urbano e
a patologia comportamental ou física. Conforme declara Michelson
(1970), a busca de causas convencionais para a patologia, tais como
as condições de habitação, alta densidade de população, ruído e tipos
de casas tem resultados incertos, devido a: (1) efeitos documentados
muito limitados; (2) ambigüidade das referências físicas; (3) a saliên­
cia de variáveis intervenientes e (4) a falta de definição precisa de
patologias dependentes. Mas tais causas permanecem potencialmente
significativas (pág. 167). Fica para futuras pesquisas a determina­
ção do real grau de significância que tem a relação entre o ambiente
urbano e a patologia.

O COMPORTAMENTO DE HABITANTES DE CIDADES

Ressaltamos, atrás, que o fato de morar numa cidade resulta,


ao que se crê, em padrões comportamentais diferentes daqueles que
se encontram em áreas rurais menos habitadas. O habitante típico
da cidade é freqüentemente considerado como uma pessoa que não
parece preocupar-se com os demais, a quem falta espontaneidade,
que tem uma maneira de ser racional e mesmo calculista no desem­
penho de sua rotina diária, e assim por diante — embora, conforme
sugeriu Michelson (1970, pág. 149), a rotulação deste tipo de com­
portamento como patológico seja um julgamento de avaliação. An­
tes de considerarmos as pesquisas comparativas do comportamento
de habitantes urbanos com o de residentes em áreas rurais ou menos
densamente habitadas, discutiremos uma estrutura teórica — que foi
antecipada, numa tentativa de se explicar o comportamento de pes­
soas que residem em cidades.

111
0 conceito de sobrecarga de sistema

Tornou-se conveniente considerarmos nossa complexa sociedade


tecnológica em termos de sistemas, em que indústrias, organizações,
máquinas c mesmo pessoas são consideradas como componentes inter­
dependentes (subsistemas) que trabalham em conjunto para atingir
algum objetivo. Os analistas de sistemas estudam as relações entre
os subsistemas e os modos pelos quais elas contribuem para as fina­
lidades do sistema. Estes analistas tendem a pensar em termos de
entradas para o sistema e transformações das entradas em saídas
(produção). Se pensarmos numa pessoa nestes termos, os estímulos
ambientais são entradas; as transformações são efetuadas por uma
série de subsistemas comportamentais (percepção, funções cognitivas,
memória, motivação, e assim por diante); e as saídas constituem o
comportamento (Heimstra & Èllingstad, 1972).
Se há excesso de entradas para o sistema, seja humano ou não-
humano, falamos então em sobrecarga do sistema. Para os seres
humanos, sobrecarga de informações pode servir como uma fonte
de stress (discutida com maior detalhe no cap. 6) e pode modificar
seu comportamento através de uma série de formas. Uma vez que
a sobrecarga de informações pode ser sempre evitada em sistemas
homem-máquina, ou em quaisquer outros sistemas dos quais o homem
seja uma parte integrante, têm sido realizadas pesquisas para se deter­
minar como as pessoas manipulam a sobrecarga de informações e
como esta afeta o comportamento. Num resumo de algumas dessas
pesquisas, Miller (1964) enumera alguns processos de ajustamento
que os humanos tendem a adotar como reação à sobrecarga de infor­
mações:
“ 1. Omissão, que consiste em não processar informações se
houver sobrecarga.
2. Erro, processamento incorreto e falha na correção do
mesmo.
3. Preterir, retardar reações durante períodos de sobrecarga e
superá-las durante eventuais períodos de calmaria.
4. Triagem, omissão sistemática de determinados tipos de in­
formações, usualmente de acordo com um esquema de
prioridade.
5. Aproximação, uma reação menos precisa, por não haver
tempo para detalhes.
6. Canais múltiplos, que usam subsistemas paralelos, caso o
sistema os tenha à sua disposição.

112
7. Descentralização, um caso especial tlc canais múltiplos.
8. Fuga, seja deixando a situação ou tomando outras medidas
que impeçam a entrada de outras informações” (pág. 93).

Embora a pesquisa que trata destes mecanismos tenha sido rea­


lizada em laboratórios, Milgram (1970) sugere que mecanismos de
adaptação algo similares estão envolvidos no comportamento de habi­
tantes de cidades. Considera que a vida na cidade é constituída de
contínuos encontros com sobrecarga de entrada e assevera que esta
sobrecarga ‘‘deforma a vida diária em diversos níveis, atingindo o
desempenho de papéis, a evolução de normas sociais, o funciona­
mento cognitivo e o uso de recursos” (pág. 1462). Discute ele uma
série de reações externadas por habitantes de cidades em face da
sobrecarga de sistemas. Estas incluem:
“ 1. Deixar menos tempo para cada entrada. Uma forma de
adaptar-se a algumas espécies de sobrecarga, tais como o
encontro de grande número de pessoas, cada dia, consiste
em deixar pouco tempo para estes tipos de entrada. Desta
forma, os habitantes das cidades ‘conservam energia psíqui­
ca, familiarizando-se com uma proporção muito menor de
pessoas do que o fazem os habitantes rurais, e mantendo
relacionamentos mais superficiais mesmo com estas ami­
zades’.
2. Desconsideração de entradas de baixa prioridade. Os ha­
bitantes de cidades tornam-se seletivos: aplicam seu tempo
e energia em entradas cuidadosamente definidas, desconsi­
derando outras. Desta forma, o habitante urbano que ca­
minha por uma rua ignora entradas como mendigos e bê­
bados.
3. Redefinição de limites em determinadas transações sociais.
Neste mecanismo de adaptação, o peso de uma sobrecarga
é levado à outra parte, num intercâmbio social. Por exem­
plo, ‘motoristas de ônibus superlotados de Nova York fa­
ziam o troco para os clientes; agora, porém, esta responsa­
bilidade foi transferida para o usuário, que deverá ter o
preço da passagem pronto e trocado’.
4. Bloqueio de entradas. Como exemplo deste processo, Mil­
gram usa a tendência que habitantes urbanos têm de pos­
suir números de telefone não constantes nas listas ou de
deixar seus telefones fora do gancho. Ressalta ele tam­
bém que um exemplo mais sutil desta reação ocorre quan-

113

iMsrrrl .,A
do um habitante da cidade desencoraja outras pessoas a
iniciarem contato m ediante o uso de um a expressão não
amistosa.
5. Diminuição da intensidade das entradas. A pessoa que
reage desta form a estabelece ‘dispositivos de filtragem’,
para evitar o desenvolvim ento de envolvimentos profundos
ou duradouros com outras pessoas.
6. Criação de instituições especializadas. Os habitantes da
cidade desenvolvem diversos tipos de instituições para ‘ab­
sorver entradas que de outra form a colocariam o indivíduo
em com plicações’. U m exem plo disso temo-lo nas insti­
tuições de beneficência, que tratam das necessidades de
indivíduos que ‘criariam de outra form a um exército de
mendicantes que im portunariam continuam ente o pedes­
tre’ ” (pág. 1 462).

O conceito de sobrecarga de sistemas de M ilgram é uma estru­


tura teórica interessante para explicar o com portam ento de um habi­
tante urbano num a ampla gama de situações. Em seu artigo, Mil­
gram trata de uma série de conseqüências específicas das reações à
sobrecarga dos sistemas e examina como essas reações traçam dife­
renças no com portam ento observado nas cidades e povoados. Con­
quanto diversas das investigações por ele citadas sejam discutidas
neste capítulo, os leitores interessados num aprofundam ento maior
da questão deverão ler o artigo de M ilgram .

Algumas pesquisas sobre o com portam ento de habitantes de cidades

Em bora não seja grande o núm ero de estudos que tratam espe­
cificamente do com portam ento de habitantes urbanos, os que existem
envolvem uma série de abordagens técnicas. E m alguns estudos,
foi comparado o com portam ento de habitantes de diferentes cidades
(Feldman, 1968; Zimbardo, 1 9 6 9 ); em outrps como os de Altman,
Levine, Nadien e Villena (citados por M ilgram, 1970b), foi compa­
rado o comportamento de habitantes de áreas mais rurais. Diversas
outras investigações representam estudos de determ inados aspectos de
comportamento considerados característicos dos habitantes urbanos.
Latané e Darley (1 9 6 9 ), por exemplo, estudaram a intervenção de
espectadores num a série de diferentes condições, enquanto Mann
(1970) investigou o conjunto típico de norm as sociais e procedi­
mentos comportamentais associados às filas de espera.

114
Todos os estudos acima serão discutidos nesta seção. Entre­
tanto, muitas outras investigações descritas em outras partes deste
livro poderiam ser também adequadamente consideradas aqui. Por
exemplo, os estudos que tratam dos efeitos da alta densidade popu­
lacional sobre o comportamento, discutidos no cap. 6, são relevantes,
como o são diversos estudos discutidos nos capítulos anteriores. O
leitor deverá ter em mente que o ponto no texto onde é discutido um
determinado assunto constitui uma decisão algo arbitrária por parte
dos autores e não significa que o estudo não seja igualmente rele­
vante em outra parte do livro. Por exemplo, embora possa ser con­
veniente discutir um determinado relacionamento comportamento-
ambiente sob o título de “habitações coletivas”, o fato de estas habi­
tações se localizarem, provavelmente, numa área urbana e de o com­
portamento de seus habitantes ser afetado pelo ambiente urbano
justificaria a discussão do mesmo relacionamento sob o título de “o
comportamento de habitantes de cidades”. Desta forma, grande
parte da pesquisa em psicologia ambiental está direta ou indireta­
mente relacionada com o comportamento de habitantes urbanos, em­
bora não seja usualmente classificada como tal.

Diferenças entre o comportamento rural e urbano

Se a sobrecarga de sistemas, resultante das condições existentes


nas cidades, produz comportamento adaptativo, então as pessoas que
moram nas pequenas cidades não devem estar em sobrecarga e, con-
seqüentemente, nem mostrar as formas adaptativas de comportamento
supostamente características dos moradores nas cidades. Estudos
que comparassem o comportamento de habitantes urbanos com aque­
les de moradores de pequenas cidades, numa série de diferentes situa­
ções, revelariam se realmente existem diferenças no comportamento.
Tnfelizmente, embora seja abundante a especulação sobre tais dife­
renças, praticamente não existe nenhuma pesquisa empírica. Mil-
gram (1970a) cita duas investigações não publicadas que ilustram
este tipo de pesquisa e sugerem que não deixaria de ser proveitoso
um trabalho mais apurado que se fizesse em torno desses estudos.
Um desses dois estudos é o de Altman, Levine, Nadien e Villena
(1969), que compararam habitantes de grandes e pequenas cidades
que concordavam em prestar um tipo de ajuda que aumentasse a sua
vulnerabilidade pessoal e que exigisse alguma confiança em estranhos.
Neste estudo, os investigadores (dois do sexo masculino e dois do
sexo feminino) tocaram campainhas de casas em Nova York e em

115
pequenas cidades, explicaram que haviam perdido o endereço de um
amigo que morava perto c solicitaram o uso do telefone. Os inves­
tigadores fizeram cem solicitações na metrópole e sessenta em peque­
nas cidades.
Os investigadores tiveram êxito muito maior em ser admitidos
nas pequenas cidades do que na metrópole. Embora as pesquisa­
doras fossem admitidas com maior frequência do que os dois inves­
tigadores, tanto nas grandes como nas pequenas cidades, todos os
quatro foram pelo menos duas vezes mais bem-sucedidos em ganhar
acesso às casas nas pequenas cidades do que na metrópole. Além de
registrar o número de admissões, os investigadores observaram dife­
renças qualitativas no comportamento de moradores rurais e urbanos.
Relataram que os habitantes das cidades pequenas foram muito mais
amistosos e menos desconfiados do que os moradores da metrópole,
os quais, mesmo quando permitiam acesso dos investigadores, pare­
ciam desconfiados e pouco à vontade.
O outro estudo não publicado, feito por McKenna e Morgenthau
(1969), foi realizado, em parte, para comparar a disposição de habi­
tantes de metrópoles quanto à concessão de favores a estranhos, em
comparação com a dos moradores de pequenas cidades. Os favores
solicitados exigiam pequena parcela de tempo e causavam algum
incômodo mas, diferentemente das solicitações feitas no outro estudo,
não podiam de forma alguma ser encarados como qualquer ameaça
pessoal. Os pesquisadores telefonaram para um certo número de
pessoas residentes em Chicago, Nova York, Filadélfia e em 37 peque­
nas cidades dos mesmos Estados das três metrópoles. Metade das
chamadas foi para donas-de-casa e outra metade para vendedoras
de lojas de trajes femininos. O investigador telefonou e apresentou-se
como alguém que estivesse chamando por telefonema interurbano e
que, por engano, havia ligado àquela pessoa. O investigador come­
çou a pedir informações sobre vários assuntos e então disse: “Queira
aguardar um instante”, e reteve a ligação. Depois de aproximada­
mente um minuto, pegou o telefone e pediu mais informações. Atri­
buiu-se uma nota às pessoas indagadas com base no grau de colabo­
ração que haviam prestado.
Os resultados dos estudos indicaram que as donas-de-casa eram
menos solícitas do que as vendedoras, tanto nas metrópoles quanto
nas pequenas cidades. Milgram (1970a) ressalta, entretanto, que
“o nível absoluto de cooperação das pessoas residentes nas me­
trópoles foi bastante elevado e não está de acordo com o estereótipo
do habitante urbano indiferente, egocêntrico e pouco disposto a au­
xiliar estranhos” (pág. 1465).

116
Os resultados destes dois estudos podem ser discutidos segundo
o .conceito de sobrecarga de sistema de Milgram. Uma razão pos­
sível para o reduzido envolvimento social dos habitantes urbanos
considerados nestes estudos é a necessidade de reduzir a sobrecarga
do sistema. Milgram ressalta que “a última adaptação para um am­
biente social em sobrecarga consiste em desconsiderar totalmente as
necessidades, interesses e solicitações daqueles que a pessoa não con­
sidere importantes para a satisfação de suas necessidades pessoais. .
(pág. 1462). Um exemplo deste tipo de adaptação é o fato de cida­
dãos estranhos deixarem de auxiliar uma pessoa em perigo. Uma
adaptação semelhante pode servir em situações menos urgentes, con­
forme ilustrado neste estudo de Altman e seus colaboradores, em
que muitos habitantes de cidade deixam de socorrer um estranho à
sua porta. O estudo de McKenna e Morgenthau revela também
comportamento adaptativo em que a cooperação com o solicitante era
uma questão de responsabilidade social.
Milgram (1970b) enfatiza que dispomos de muito pouca do­
cumentação objetiva sobre as diferenças entre habitantes urbanos e
de pequenas cidades. Entretanto, seu conceito de sobrecarga urba­
na fornece uma estrutura teórica para posteriores estudos sobre tais
diferenças. Declara ele:
“O conceito de sobrecarga ajuda a explicar uma ampla varie­
dade de contraste entre o comportamento da metrópole e o das pe­
quenas cidades: (1) as diferenças na determinação de tarefas (a
tendência dos habitantes urbanos de tratar com os demais em termos
altamente segmentados, funcionais; o tempo e serviços restritos ofere­
cidos aos clientes pelo pessoal de vendas); (2) a evolução de normas
urbanas bastante diferentes dos valores tradicionais das pequenas
cidades (tais como aceitação de não envolvimento, impessoalidade
e indiferença na vida urbana); (3) conseqüências nos processos cog­
nitivos dos habitantes urbanos (incapacidade de identificar a maioria
das pessoas vistas diariamente; embotamento em face de estímulos
sensoriais; desenvolvimento de uma atitude de alheamento diante de
comportamento estranho ou extravagante; seletividade em reagir às
exigências hum anas); e (4) competição muito maior, por recursos
escassos, na cidade (o movimento do metrô, a luta pelos táxis, os
engarrafamentos de tráfego, a permanência em filas de espera de
serviços). Eu diria que os contrastes entre os comportamentos da
cidade e os rurais refletem, provavelmente, reações de tais pessoas
a situações muito diferentes, ao invés de diferenças intrínsecas entre
‘personalidades rurais’ e ‘metropolitanas’. A cidade é uma situação
à qual os indivíduos reagem de forma adaptativa” (pág. 161-162).

117
Há, naturalmente, outros estudos que, por uma ou outra razão,
tetn comparado o comportamento de pessoas que moram em áreas
urbanas c rurais. Por exemplo, Martin e Heimstra (1973) testaram
crianças em áreas rurais e urbanas quanto à percepção de perigo,
para determinar o grau de risco percebido numa série de cenas repre­
sentando diferentes graus de perigo — uma criança segurando uma
arma, carregando uma arma, engolindo uma aspirina, e assim por
diante. Crianças residentes em áreas rurais e urbanas percebiam
diferentes graus de perigo para as cenas.
Por exemplo, as crianças de áreas rurais viam mais perigo que
suas companheiras das metrópoles nas cenas com armas, cenas de
rua ou que mostravam diversos tipos de dispositivos elétricos. Ou­
tros estudos, que os investigadores não consideravam propriamente
como pesquisas de psicologia ambiental, são também importantes
aqui, tais como os estudos que mostram diferentes índices de uso
de narcóticos, alcoolismo, suicídio e doença mental entre as áreas
rurais e urbanas.

Diferenças entre cidades

Ressaltamos anteriormente que cidades diferentes têm diferentes


“atmosferas” e que tem sido envidado algum esforço no sentido de
determinar como a “atmosfera” de uma cidade é criada e como a
imagem da cidade se desenvolve na mente de seus moradores e dos
visitantes. Alguns investigadores interessaram-se, também, nas
diferenças de comportamento que podem ser demonstradas pelos
habitantes de diversas cidades. Um a dessas investigações foi a de
Feldman (1968), que estudou o comportamento de habitantes de
Boston, Paris e Atenas com relação a compatriotas e estranhos.
Este estudo, bastante complicado, consistiu de cinco situações ou
experimentos, nas quais experimentadores “nativos” ou estrangeiros
(por exemplo, um francês em Boston) envolviam-se em situações
com habitantes de cada uma das cidades. As situações incluíram:
(1) pergunta ao habitante da cidade sobre as direções a tomar; (2)
solicitação ao habitante que fizesse um favor a um estranho, reme­
tendo uma carta (sendo metade das cartas não seladas); (3) per­
gunta ao morador se ele havia perdido uma nota de um dólar (ou
o equivalente em moeda estrangeira) para ver se o mesmo recla­
maria falsamente o dinheiro do estranho; (4) pagamento a mais,
deliberado, a um caixa, para ver se o mesmo corrigiría o engano;
e (5) averiguar se os motoristas de táxi, com passageiros estrangei-

118
ros, cobram a mais ou tomam percursos mais longos, a fim de obte­
rem tarifas mais altas.
Feidman descobriu que mais de 3.000 indivíduos nos cinco
experimentos mostraram diferenças substanciais no tratamento de
compatriotas e de estranhos. No experimento de indagação da
direção a tomar, tanto os indivíduos de Paris como os de Atenas
deram ajuda com maior freqüência aos pedidos de cidadãos com­
patriotas do que aos de estrangeiros; em Boston houve pouca dife­
rença. No experimento em que se solicitava aos indivíduos que
remetessem uma carta a um estranho, não houve grandes diferenças
no modo como eram tratados os compatriotas e os estrangeiros em
Boston e Atenas. Surpreendentemente, em vista do estereótipo
americano do comportamento parisiense, os indivíduos parisienses
trataram os estranhos de forma significativamente melhor do que os
seus próprios compatriotas. Além disso, os parisienses foram signi­
ficativamente mais honestos em resistir à tentação de reclamar
desonestamente o dinheiro e, novamente, houve menos probabili­
dade de procederem à falsa reclamação no caso de estar envolvido
um estrangeiro do que quando estava envolvido um compatriota.
Entretanto, o estereótipo do motorista parisiense de táxi típico
provou ser verdadeiro: cobraram a mais dos estrangeiros e com
maior freqüência do que de seus compatriotas. Tal não ocorreu nas
cidades de Boston ou Atenas.
Podemos apenas brevemente resumir os resultados do estudo
de Feidman. O artigo original contém muito mais dados sobre os
comportamentos dos habitantes das três cidades e bem que merece
ser lido por toda pessoa interessada neste tipo de pesquisa.
Outra investigação comparando o comportamento de habitan­
tes de diferentes cidades é o de Zimbardo (1969). Providenciou
que um automóvel fosse deixado durante 64 horas próximo ao
campus de Bronx, da Universidade de Nova York, e que fosse dei­
tado outro carro próximo ao campus da Universidade Stanford, em
Paio Alto, Califórnia, durante o mesmo número de horas. Em
imbos os casos, os investigadores removeram as chapas dos carros
j deixaram os capôs abertos. Os carros foram continuamente
rigiados durante as 64 horas e foram batidas fotografias em diversas
Dcasiões. Zimbardo declara:
“O que aconteceu em Nova York foi inacreditável! Em dez
ninutos o Oldsmobile 1959 recebeu seus primeiros depredadores
— um pai, uma mãe e um filho de oito anos. A mãe parecia
rigiar, enquanto o filho auxiliava o pai a vasculhar o cofre, o porta-

119
luvas e o motor. Trouxe para ele as ferramentas necessárias para
remover a bateria e o radiador. Tempo total de contato destruidor:
sete minutos” (pag. 287).
Ao final das primeiras 26 horas, o carro havia sido privado de
tudo o que tivesse valor. Começou então uma destruição desor­
denada, em menos de três dias, o que restou foi um amontoado dis­
forme e inútil de metal. Muitas das pessoas envolvidas nos “con­
tatos” eram adultos bem vestidos e respeitáveis. “Em um contraste
surpreendente, o carro de Paio Alto não só permaneceu intocado
como foi alvo de uma atenção notável: quando começou a chover,
uma pessoa que passava pelo local abaixou o capô para que o
motor não se molhasse” (pág. 290).
Os estudos mencionados visaram principalmente a comparação
do comportamento de habitantes urbanos com aquele dos habitantes
de áreas rurais, ou com a comparação de comportamento de habi­
tantes de diferentes cidades. Outros estudos representam investigações
de um tipo especial de comportamento que se julga associado com
a vida urbana. Ao concluir este capítulo, consideraremos dois estu­
dos deste tipo — um que trata da intervenção de espectadores e
outro que se refere a comportamento em filas de espera.

Estudos de intervenção de espectadores e filas de espera

Já salientamos que uma reação adaptativa à sobrecarga urbana


vemo-la na desconsideração das necessidades de outros em circuns­
tâncias que vão desde a intervenção numa emergência até a presta­
ção de um auxílio a um estranho. Um exemplo freqüentemente
citado de recusa de espectadores em se envolverem nas necessi­
dades de outra pessoa, mesmo que ela necessite urgentemente de
assistência, é o caso do assassinato praticado por um genovês em
1964, em Queens. Uma jovem foi apunhalada repetidamente e, em­
bora seus gritos pedindo socorro fossem ouvidos por muitas pessoas,
ninguém acudiu nem mesmo chamou a polícia, só o fazendo depois
que já estava morta. Este assassinato, bem como outros casos em
que os espectadores deixaram de prestar auxílio a alguém em casos
de problemas sérios, levou a uma série de investigações controladas
acerca da intervenção de espectadores.
Os estudos mais conhecidos desta espécie são provavelmente
os de Latané e Darley (1969). Estes estudos abrangeram uma
série de diferentes condições experimentais. Entretanto, todos en­
volviam situações engendradas de forma tal que os pesquisadores
pudessem observar as reações de “espectadores” (que eram efeti-

120
vamente os indivíduos do estudo, embora não tivessem consciência
disso) diante de diversos tipos de “emergências”. Por exemplo,
num estudo, os indivíduos estavam num supermercado onde pensa­
vam estar prestando auxílio a uma pesquisa. Foram colocados
numa sala sob uma série de condições. Alguns estavam sós; alguns
foram reunidos a mais uma ou duas pessoas. Os demais eram ami­
gos ou estranhos, em experiência ou não, e assim por diante.
Logo depois de o indivíduo entrar na sala, ocorria um forte
barulho de coisas se quebrando na sala adjacente, juntamente com
gritos e gemidos como os de alguém que se tivesse machucado. A
variável dependente neste estudo era se o sujeito iria ou não auxiliar
a pessoa “ferida” e, se o fizesse, quanto tempo levaria para agir.
Quando os indivíduos estavam sós na sala, 70 por cento deles inter­
vieram. Entretanto, sob todas as condições em que mais de uma
pessoa estava presente, a porcentagem dos que participaram caiu
sensivelmente. Outros estudos com envolvimento de falsas emer­
gências e a intervenção de espectadores tiveram os mesmos resul­
tados. A conclusão geral tirada destas investigações é que, quanto
maior o número de espectadores, menor a probabilidade de que
algum deles intervenha numa emergência.
Uma característica da vida na cidade é o gasto de uma parcela
considerável de tempo em filas de qualquer espécie. Embora os
responsáveis por vários serviços e operações tenham reconhecido há
algum tempo que as filas são ineficientes e consomem tempo e te­
nham realizado pesquisas no sentido de reduzir e acelerar todos os
tipos de filas de espera, somente há pouco os psicólogos interessa­
ram-se no comportamento de pessoas forçadas a esperar em filas.
Mann (1970) e seus colaboradores investigaram o conjunto
especial de normas sociais e métodos comportamentais associados
às filas de espera. Em experiências de campo, estudaram uma
série de filas para a compra de ingressos para jogos de futebol,
divertimentos e outros. Em outros estudos, formaram suas próprias
filas experimentalmente, em bibliotecas e em outras situações.
Consideraram uma série de aspectos das filas de espera: estrutura
social, o “furar” fila e outros tipos de comportamentos. Os pes­
quisadores descobriram que a estrutura social de uma fila de espera
centra-se na preservação de um direito da pessoa de deixar a fila
momentaneamente sem perder seu lugar. Caso a mesma não siga
um protocolo claramente definido ao sair, poderá ser impedida de
retomar. Mann ressalta que saídas com ausências breves de uma
fila dão-se segundo dois processos universalmente reconhecidos:

121
“Uma técnica é o sistema de turnos, no qual a pessoa toma
parte 11a fila como integrante de um pequeno grupo, cumprindo seu
turno ao passar uma hora na fila para cada três horas fora. . . . Uma
segunda técnica para sair um pouco é designada especialmente para
pessoas no final da fila, que tenham vindo sozinhas. Estas
guardam 0 lugar, deixando algum objeto de propriedade pessoal,
tal como uma caixa etiquetada, uma cadeira de dobrar, ou saco de
dormir. De fato, durante as horas iniciais de espera em fi l a. . . a
fila consistia de uma parte de pessoas para duas partes de objetos
inanimados” (pág. 392).
Embora os furadores de fila violem a norm a básica da mesma,
raramente se usa violência física para punir ou expulsar o violador.
Curiosamente, o campo de ação favorito do furador de fila é a parte
de trás da mesma, e não a da frente.
1
Outra forma interessante de comportamento foi notada em
algumas filas. Quando é sabido que há um número limitado de
lugares disponíveis (100 entradas para um jogo de futebol, por
exemplo), geralmente muito mais de 100 pessoas permanecem em
fila. Num estudo, Mann pediu a cada décima pessoa de uma fila
que estimasse quantas pessoas estavam à sua frente. Até 0 ponto
em que os ingressos estavam provavelmente esgotados, a pessoa
tendia a superestimar o número à sua frente. Em outras palavras,
se houvesse 100 entradas à disposição, as pessoas até mais ou menos
0 número 100 da fila estimariam haver mais gente à sua frente do
que realmente havia. Até 0 ponto crítico de 100, a disposição dos
espectadores começava a se alterar e as pessoas constantemente
subestimaram 0 número de pessoas à sua frente. Os investigadores
chamaram este fenômeno de hipótese de atendimento de desejo.
Os pesquisadores descobriram também que, quanto mais longa a
fila, mais forte era a sua força de atração e que uma fila que
crescia rapidamente tendia a atrair espectadores.

RESUMO

Tratamos, neste capítulo, de diversos aspectos do ambiente


urbano e de seus efeitos sobre o comportamento. Alguns aspectos
deste ambiente que, direta ou indiretamente, afetam a quase todos
os habitantes urbanos são coletivamente designados por crise urbana
— pobreza, crime, poluição, etc. Em todas as pesquisas, estes
fatores são relacionados como fonte de insatisfação com a vida
urbana. Entretanto, há também uma série de fontes de satisfação

122
associadas com a vida urbana, mesmo nas áreas faveladas. Por
exemplo, muitos moradores dessas áreas têm um forte sentimento de
pertinência. A área física que circunda suas casas é tida como
parte integrante delas e serve como base para um vasto conjunto de
vínculos sociais. Tais vínculos sociais e o senso de pertinência são
fatores importantes para que os moradores das favelas tenham sen­
timentos positivos ou não em relação ao fato de morarem nelas. A
satisfação com a própria residência em áreas suburbanas é determi­
nada por outros fatores. Entre eles estão: boas instalações físicas;
boas escolas; vizinhos amistosos; relativa segurança contra crimes;
acesso a lojas, empregos, e assim por diante; boa qualidade ambien­
tal e pouco congestionamento de tráfego.
Os pesquisadores interessaram-se também em saber como é
que os moradores de uma cidade realmente a vêem — no tipo
de imagem formada em cada relacionamento habitante-cidade.
Duas técnicas populares para a diagramação destas imagens de
uma cidade consistem em pedir aos moradores que construam mapas
mentais, desenhando efetivamente um mapa da cidade, e solicitar-
lhes a visualização e possível identificação de cenas da mesma.
Estes mapas mentais revelaram que elementos físicos de uma cidade
podem ser convenientemente classificados em cinco tipos, relacio­
nados por Lynch (1960): passagens, orlas, distritos, pontos nodais
e marcos. As técnicas de mapeamento desta espécie levaram
também a uma melhor compreensão da maneira como as pessoas
vêem as cidades em que vivem.
Muitos investigadores têm tratado dos efeitos que a vida nas
cidades pode ter sobfe o comportamento e a saúde. Estudos reve­
lam uma relação entre determinadas características do ambiente
urbano, tais como alta densidade populacional e patologias, como
doenças mentais, problemas cardíacos e hipertensão. Entretanto,
Srole (1972), numa revisão geral da literatura sobre esta área, ques­
tiona se estas relações estão tão firmemente embasadas quanto
parecem.
Outros estudos compararam o comportamento de moradores
urbanos com o de habitantes em áreas mais rurais, para determinar
a natureza e a amplitude de quaisquer possíveis diferenças. Embora
o habitante típico da cidade seja geralmente considerado uma pessoa
que não se preocupa com os demais, com pouca espontaneidade,
com uma visão calculista da vida diária, e assim por diante, é
difícil estudar sistematicamente estes tipos de comportamento. Os
estudos até agora efetuados indicam que há diferenças no compor­
tamento entre os moradores urbanos e rurais, mas não há qualquer

123
base para a rotulaçílo de um ou outro tipo de comportamento como
sendo mais ou menos “normal”. Embora esta área careça de refe­
rencial teórico, Milgram (1970a) tentou explicar o comportamento
de habitantes urbanos em termos de sobrecarga de sistema, onde a
vida na cidade é vista como uma convivência contínua com sobre­
carga de entrada. De acordo com esta teoria, grande parte do
comportamento de habitantes urbanos pode ser considerada como
ura comportamento adaptativo, destinado a reduzir a sobrecarga.
Têm sido feitas, também, comparações entre o comportamento
de moradores em diferentes cidades. Demonstrou-se que há dife­
renças, entre cidades, quanto à maneira como os moradores tratam
os estranhos em assuntos como prestação de assistência e na hones­
tidade de seus contatos. De igual modo, o comportamento de habi­
tantes de diversas cidades pode diferir consideravelmente na forma
como os mesmos tratam a propriedade de outra pessoa, tal como
um automóvel. Num estudo realizado, um carro deixado em Nova
York foi praticamente destruído pelos moradores dentro de 24 horas,
ao passo que um carro deixado em circunstâncias parecidas em Paio
Alto permaneceu intocado.
Embora não tenha sido feita tentativa no sentido de estudar de
maneira exaustiva os ambientes urbanos e o comportamento humano,
os estudos apresentados neste capítulo representam o tipo de pes­
quisa que está sendo realizada por psicólogos ambientais nesta área.
Deve ficar claro que ainda sabemos muito pouco sobre os efeitos de
vida numa cidade. Com efeito, muito do que “sabemos” está ba­
seado em especulação e não na pesquisa empírica. O número de
estudos neste campo está aumentado, mas, considerando-se os vários
milhões de pessoas que moram em cidades, um número muito maior
de pesquisa deve certamente ser ainda empreendido.

124
Capítulo 5

O ambiente natural e o comportamento

Nos capítulos anteriores, tratamos do ambiente construído pelo


homem e de algumas das formas pelas quais este tipo de ambiente
pode influenciar o comportamento humano. Vimos como as salas,
casas, edifícios, instituições e cidades podem afetar, direta ou indire­
tamente, o comportamento de seus ocupantes ou habitantes. Em­
bora grande parte da pesquisa em psicologia ambiental tenha tratado
do ambiente construído e de seus efeitos sobre o comportamento,
alguns pesquisadores têm-se interessado na relação existente entre o
ambiente natural e o comportamento. Discutiremos, neste capítulo,
algumas teorias e as pesquisas concernentes a este contexto.
Seria conveniente considerarmos o ambiente natural como o
ambiente não feito pelo homem, mas, se agirmos assim, teremos
então em mãos uma definição mais restrita do que a que temos em
mente. Conforme tem sido utilizado neste capítulo, o termo “am­
biente natural” significa não somente regiões geográficas, áreas natu­
rais e parques, mas também grandes e pequenas áreas de recreação
que, usualmente, apresentam muitas características produzidas pelo
homem. Estas áreas de recreação, entretanto, são ambientes naturais
simulados, no sentido de que são construídos para propiciar às pessoas
algum contato com árvores, espaço aberto, água corrente, etc., ele­
mentos estes que são tidos como componentes de um ambiente natural.
Passar uma hora ou duas num parque urbano, com seus lagos e árvo­
res, significa, para muitos habitantes da cidade, contato com ambiente
natural, em contraste com o ambiente construído dos edifícios, ruas,
automóveis etc. Este é o caso, mesmo que o lago tenha sido feito
pelo homem e as árvores cuidadosamente plantadas em filas ordenadas.

TIPOS DE RELACIONAM ENTO EN TRE O HOMEM E O


AMBIENTE N A T U R A L

O homem relaciona-se com o ambiente natural de muitas ma­


neiras e em diferentes níveis. Entretanto, podemos imaginar estes

125
relacionamentos, em geral, como agrupáveis em duas categorias:
relacionamentos temporários e permanentes, Por exemplo, uma
visita a um parque nacional ou área virgem, ou a um parque regional
ou área de recreação representaria para muitas pessoas um relaciona­
mento temporário; para os guardas do parque e outras pessoas
associadas às áreas em questão, estaria envolvido um relacionamento
mais permanente. Conforme veremos, estes relacionamentos tem­
porários são intensamente procurados por muitos indivíduos, sendo
por eles encarados como fontes de satisfação ou prazer. Veremos,
entretanto, que a motivação que leva milhões de pessoas, anual­
mente, a esta busca de ambiente natural não é claramente entendida
e pode ser muito complexa.
Todos nós relacionamo-nos com o ambiente natural numa base
mais permanente, embora a natureza e a intensidade deste relaciona­
mento variem de acordo com a circunstância individual. Moramos
em regiões geográficas que podem ser caracterizadas por calor ou
frio extremos, aridez ou enchentes freqüentes, furacões, tufões ou
terremotos, ou por combinações destes elementos. Cada região tem
também características distintas de terreno, como sejam montanhas,
planícies ou desertos.
Embora as relações entre estes terrenos e as características cli­
máticas e o comportamento não tenham sido claramente demons­
tradas, muitos psicólogos ambientais presumem que tais relações
efetivamente existem. Discutiremos posteriormente, com detalhes,
neste capítulo, estes relacionamentos permanentes. Por ora, trata­
remos de um dos tipos mais importantes de relacionamento tempo­
rário homem-ambiente natural: recreação ao ar livre.

RECREAÇÃO AO A R LIVR E

Até poucos anos atrás eram relativamente raros os artigos sobre


os aspectos psicológicos da recreação ao ar livre. Recentemente,
entretanto, tem crescido o interesse pelas motivações que levam à
participação nessa atividade e a satisfação a ela associada. Este
aumento de atenção deve-se provavelmente a dois fatores primários.
O primeiro é que determinados tipos de instituições de recreação ao
ar livre, tais como parques nacionais e áreas naturais, já alcançaram,
em muitos casos, o ponto de saturação em núm ero de usuários,
embora este continue a crescer. Um a vez que tais parques e áreas
são limitados em número e não são reproduzíveis, o sistema admi­
nistrativo deverá encontrar uma maneira de enfrentar a procura.

126
Numa mcdidn extrema, pode deixar continuar o uso das áreas, sem
interferir no seu ritmo crescente; numa outra atitude pode restringi-
lo scvcramcnlc. Nenhuma das opções é viável, de forma que a ação
administrativa deve colocar-se em algum ponto entre esses dois ex­
tremos. Para tomar as suas decisões, a administração deverá dispor
de informações consideráveis sobre as características dos usuários,
inclusive suas motivações para frequentarem a área e as exigências
que fazem e os tipos de relacionamentos estabelecidos numa área
em particular, que lhes proporcionam satisfação máxima. Embora
os pesquisadores tenham tentado colher informações sobre estes tipos
de características de usuários, é necessário saber muito mais para
que se possa tomar decisões sobre a administração de parques e
áreas virgens, com certa segurança.
A outra razão para o aumento de interesse sobre o compor­
tamento e a recreação ao ar livre é a quantidade sempre crescente de
tempo de lazer de que muitos segmentos de nossa sociedade dispõem.
Algumas organizações já instituíram a semana de trabalho de quatro
dias e uma semana de trabalho mais curta tornou-se um ponto
importante de negociação em muitos contratos trabalhistas. Em­
bora o tempo total de lazer possa aumentar por muitas outras razões
(redução da idade de aposentadoria, por exemplo), milhões de pes­
soas parecem ter agora mais tempo de lazer do que nunca e podem
vir a tê-lo em quantidade ainda maior em futuro próximo.
Há uma estreita relação, naturalmente, entre lazer e recreação,
seja dentro de casa ou ao ar livre. À medida que aumenta o
tempo de lazer, os que preferem alguma forma de recreação ao ar
livre aumentarão a procura das alternativas existentes e novas ins­
talações de muitos tipos terão que ser construídas. Estão sendo
realizadas algumas pesquisas sobre o comportamento dos usuários
destas instalações, pesquisas estas que, como se espera, oferecerão
informações úteis aos administradores das áreas existentes e aos
projetistas de novas áreas.

Tipos de recreação ao ar livre

Naturalmente, a gama de atividades de recreação ao ar livre é


ampla e estas podem ocorrer numa série de locais diferentes. Um
dos esquemas para classificação destes locais é o de Clawson (1966):
“Em um extremo estão as áreas orientadas para os usuários:
próximas aos locais onde moram as pessoas, adequadas para o uso
após a escola ou depois do trabalho, com freqüência bastante redu-

127
zidn c sem muiíus características físicas; o fácil acesso é seu requi­
sito primário. Mais distantes estão as áreas de uso intermediário:
principalmcntc projetadas para uso c recreação durante todo o
dia, geralmcntc a menos dc uma hora de viagem para a maioria dos
usuários c situadas nos melhores locais disponíveis, apresentam
muito mais flexibilidade cm localização c qualidade dc recursos ne­
cessários. No outro extremo estão as áreas csscncialmcnte baseadas
em suas riquezas, cujas soberbas c originais características físicas ou
históricas tornam-nas desejáveis, apesar dc uma localização freqüen-
temente inconveniente para a maioria dos usuários. As primeiras
visam o lazer diário ou estão melhor adaptadas para o mesmo, ao
passo que as segundas destinam-se ao lazer dos fins de semana e as
terceiras são para as férias” (pág. 253).
Neste capítulo, nosso interesse se voltará principalmente para o
último tipo de área, aquela que Clawson caracteriza como baseada
em seus próprios recursos. Deste tipo fazem parte os parques
nacionais e as regiões naturais, que são importantes fontes de rela­
cionamento com o ambiente natural para milhões de pessoas, a cada
ano. Entretanto, conforme veremos, os demais tipos de áreas são
também importantes; para muitos, as áreas orientadas para usuários
e as intermediárias constituem as fontes principais de relacionamento
temporário com o ambiente natural.

Os tipos de comportamento estudados

Grande parte da pesquisa sobre o comportamento de usuários


de áreas e instituições de recreação ao ar livre tem sido do tipo
pesquisa aplicada —■ ou seja, pesquisa projetada para responder a
questões específicas do “mundo real”. Especificamente as questões
foram levantadas por pessoas ligadas à administração das áreas,
diante da necessidade de tomarem decisões sobre o seu uso atual e
futuro.
Algumas das informações necessárias são diretas e não apresen­
tam especial dificuldade em sua obtenção. Por exemplo: o com­
portamento de usuários dos diversos tipos de áreas recreacionais
pode ser observado, obtendo-se assim dados sobre o uso de recursos
com áreas de camping, trilhas ou lagos. Os usuários podem ser
indagados sobre o que fizeram e o que deixaram de fazer durante
a visita a uma área recreacional e pode-se obter uma idéia relativa­
mente exata sobre os padrões de comportamento aberto do usuário
típico. Outros tipos de dados necessários, entretanto, não são tão fa-

128
cilmcntc coligldos. Por exemplo: o pessoal administrativo está inte­
ressado cm saber quais fatores associados aos usuários e aos ambien­
tes são mais importantes em determinar se a experiência com a
recreação ao ar livre 6 satisfatória ou insatisfatória. Dessa forma,
diversas investigações têm sido realizadas visando a determinação
das características de áreas virgens que devem ser consideradas as­
pectos críticos da “experiência em áreas virgens”. Neste tipo de es­
tudo, o pesquisador deve isolar diversos estados afetivos dos usuá­
rios — estados de ânimo e sentimentos, atitudes, experiências esté­
ticas, etc. — e relacioná-los com as características físicas da área
virgem.
O método de pesquisa predominante neste tipo de estudo é a
entrevista ou a aplicação de questionários aos usuários da área de
recreação, seja enquanto os mesmos lá estão ou imediatamente após
terem saído. Embora os instrumentos de pesquisa variem, depen­
dendo dos objetivos do estudo, muitos são projetados para eliciar
as atitudes ou sentimentos dos indagados acerca de sua experiência
de recreação. Outras técnicas têm sido também utilizadas com algum
grau de êxito. Craik (1972), por exemplo, desenvolveu uma lista
de verificação de adjetivos relativos à paisagem, que foi usada pelos
indivíduos para descrever um grande número de diferentes tipos de
paisagens. Outros pesquisadores têm utilizado diversos tipos de
representações de uma área, tais como um mapa (Lucas, 1964), na
tentativa de determinar as exigências percebidas pelos usuários
quanto a uma área virgem. Em geral, entretanto, o levantamento
tem sido o principal método usado em pesquisa, neste campo.

PARQUES NACIONAIS E ÁREAS VIRGENS

Duas das principais fontes de relacionamentos temporários


entre o homem e o ambiente natural são os parques nacionais e as
áreas virgens. Anualmente, milhões de pessoas visitam estas áreas
e ligam-se a uma série de atividades — pescaria, campismo, cami­
nhadas, equitação e muitos outros. Todo ano, o número de pessoas
que visitam tais áreas aumenta substancialmente e muitos parques
e áreas ermas já atingiram o seu ponto de saturação. O proble­
ma promete tomar-se ainda mais crítico. Desde a Segunda Guerra
Mundial, o uso de áreas silvestres tem aumentado em cerca de 10%
ao ano e não há razão para se esperar que tal taxa de crescimento
diminua. Na verdade, Stankey (1972) ressalta que a mesma pode
até crescer:

129
“Simples projeções não mostram a história toda. Os usuários
dc áreas virgens tendem a ser desproporcionalmente provenientes
dos grupos de alto rendimento monetário, das categorias profissio­
nais média-alta e alta, de áreas urbanas, e estudantes dos cursos
universitários ou de pós-graduação. Além disso, estas características
aplicam-se a uma proporção francamente crescente da população.
Se existe, na verdade, alguma relação casual entre quaisquer destas
variáveis ou todas e o uso de áreas virgens, então a sua possibilidade
de expansão, no futuro, aumenta ainda mais” (pág. 90).
Devido ao tremendo aumento do uso de parques nacionais e
de áreas naturais, as pessoas responsáveis pela sua administração
têm-se defrontado com uma série de decisões cruciais. O ponto
nodal do problema é a questão de quantas alterações, que visem à
acomodação de mais visitantes, podem ser feitas nestas áreas sem
que se altere a “experiência em área virgem” que visam. A neces­
sidade, por parte das administrações, de mais informações que ofe-
çam base para as decisões levou a pesquisas sobre as características
dos usuários das áreas, características do ambiente natural que lhes
são importantes e a relacionamentos entre o homem e o ambiente
natural que ocorrem nestes tipos de áreas. Discutiremos nesta seção
algumas destas pesquisas.

Características dos usuários

As pesquisas mostram que pessoas provenientes de todas as


classes sócio-econômicas e ocupações visitam parques nacionais e
áreas virgens. Entretanto, conforme já mencionado, os usuários
tendem a ser sócio-economicamente atípicos quando comparados
com a população como um todo. Uma porcentagem desproporcio­
nal dos mesmos tem grau universitário ou de pós-graduação, exerce
uma profissão liberal e tem uma apreciável renda média. Conside­
rem-se, por exemplo, os resultados de uma pesquisa realizada por
McDonald e Clark (1968) no Parque Nacional de Yellowstone,
E .U .A . Aproximadamente 3.000 visitantes receberam questio­
nários em diferentes pontos do parque. Embora estes fossem
projetados para obter dados sobre as reações dos usuários em face
do parque, foram também obtidos dados sobre as ocupações e a
instrução dos visitantes. Algumas das 57 ocupações identificadas
são mostradas na tabela 5-1. Note-se que, embora ocorram flu­
tuações durante o verão, professores e alunos compuseram um seg­
mento relativamente amplo da população de visitantes. Uma desco­
berta implícita nas ocupações relacionadas no quadro é que, do total

130
dc visitantes entrevistados, 68% tinham, no mínimo, instrução
superior. Naturalmcnte esta porcentagem é muito maior que a en­
contrada no todo da população. A descoberta de McDonald e
Clark é semelhante à de Gilligan (1962), que relata que cerca de
80% do total dos visitantes de uma área virgem tem formação uni­
versitária e 27% algum curso de pós-graduação.

Tabela 5-1 Porcentagem de ocupações dos visitantes, por mês.

Ocupação Junho Julho Agosto

Professores 7,88 6,07 7,97


Estudantes 5,76 2,80 7,97
Trabalhadores 6,97 7,48 5,18
Engenheiros 5,45 6,54 7,17
Atividades comerciais 9,09 9,81 8,37
Militares-Funcion. públicos 5,76 3,74 7,17
Atividades ligadas à agricultura 3,33 3,27 5,18
Aposentados 6,67 5,14 4,38

É relativamente simples, é claro, a obtenção de informações


sobre as ocupações e os antecedentes educacionais dos usuários de
parques e áreas virgens. As informações sobre outras características,
entretanto, são mais importantes para as decisões administrativas e
mais difíceis de se obter. Por exemplo, a determinação do caráter
de “natural” da área é amplamente função da percepção humana
e a administração necessita conhecer os fatores associados a uma de­
terminada área que fazem com que a mesma seja percebida como
“natural”. Semelhantemente, a relação entre as diversas caracterís­
ticas físicas das áreas e os estados afetivos de seus usuários precisa
ser determinada. O que leva tantas pessoas a visitá-las? Por que
algumas são preferidas e outras não? O que os “puristas” recrea-
cionais procuram numa área, em contraste com os usuários normais?
As respostas a estas e a muitas outras questões são necessárias para
uma administração apropriada de parques e regiões virgens. Infe-
lizmente, algumas das questões são difíceis de responder. Tomemos,
por exemplo, a questão: por que as pessoas visitam estas áreas?

131
Motivações dos usuários

Sabemos que, todo ano, muitos milhões de pessoas visitam os


parques nacionais e áreas virgens e que esse número aumenta sem
parar. Sabemos também muita coisa sobre as características desses
visitantes: de onde vêm, a sua idade, instrução, ocupação e assim por
diante. O que não é muito claro, entretanto, é por que vão essas
pessoas a esses locais. Em geral, quando indagada sobre o porquê
de ter ido a uma determinada área, a maioria dos visitantes dá
razões tais como querer fugir da cidade, busca de paz e tranqüilidade,
busca de mudança da rotina diária e a necessidade de “fugir de tudo
isso”. Embora motivos como estes possa responder parcialmente
à questão de por que visitam eles o parque ou a área virgem,
as razões para a necessidade de “fugir de tudo isso” não têm sido
sistematicamente estudadas. Driver (1972) sugere que o stress
ambiental encontrado em áreas urbanas pode criar necessidades desta
espécie e que a recreação em parques e áreas similares pode servir
como um meio de enfrentá-lo. O conceito de stress ambiental será
discutido com algum detalhe no capítulo a seguir; assim sendo, não
o abordaremos nesta seção. Rapidamente, apenas, podemos dizer
que uma série de características associadas à vida na cidade constitui
fatores de stress e que o número de pessoas que a elas ficam expostas
aumenta a cada ano. Na literatura sobre stress e o comportamento
é abundante o tema da fuga temporária como um mecanismo de
enfrentamento do stress. Driver sugere que as áreas de recreação
fornecem meios temporários de fuga do stress encontrado na vida
urbana diária e que estas fugas possibilitam às pessoas recobrarem-se
um pouco dos seus efeitos.
O ponto de vista de que a recreação ao ar livre tem valor como
atuante sobre o stress levanta, entretanto, uma questão interessante.
Se a recreação ao ar livre serve como fuga temporária ao stress da
vida na cidade, o que acontecerá à medida que o stress encontrado
nas áreas de recreação se torna mais pronunciado? Por exemplo,
uma fonte de stress usualmente associada à vida na cidade é a alta
densidade populacional, que resulta na experiência de falta de espaço.
A alta densidade populacional como fonte de stress será discutida no
capítulo a seguir, bem como o conceito de falta de espaço. Confor­
me veremos, a experiência de aglomeração é grandemente depen­
dente de variáveis situacionais; uma pessoa que não experimente
falta de espaço numa rua de cidade poderá experimentá-la quando
for forçada a partilhar um local de camping num parque nacional ou
quando encontrar outro campista numa trilha de área virgem. Os
engarrafamentos de tráfego nos parques nacionais e a superlotação

132
das áreas tlc camping poderão ser uma fonte mais significativa de
stress do que as associadas à cidades. Cada vez mais os visitantes
se queixam do congestionamento nas áreas de recreação e, embora
as administrações estejam tentando aliviar esta situação, a tarefa é
difícil, se não impossível. Se a visita à área de recreação se torna
uma questão de fuga de uma condição provocadora de stress para
outra condição igualmente provocadora, a popularidade dos parques
e regiões naturais poderá declinar. Além de sugerir que as áreas
de recreação servem como meio de fuga ao stress, Driver sugere
algumas outras razões pelas quais as pessoas visitam estas áreas:
“As atividades recreacionais oferecem oportunidades interes­
santes e às vezes únicas para a satisfação de outras necessidades
humanas. Entre estas estariam: desenvolver, manter ou proteger
a auto-imagem (esta necessidade parece particularmente verdadeira
para as pessoas mais idosas que selecionam tipos de recreação que
resguardem ou realcem sua imagem de ‘idade’); reter, desenvolver
ou mais simplesmente filiar-se a identidades sociais; ganhar estima,
incluindo a redução do conflito de tarefas; exibir, aplicar, desen­
volver ou obter habilidades; exercitar técnicas, por exemplo, em
barcos a motor, trenós de neve ou na caça; satisfação dos impulsos
exploratórios e de curiosidade; engajamento numa auto-suficiência
criativa; ou obtenção de algum grau satisfatório de solidão ou do­
mínio de outros estados individuais de necessidades ou problemas”
(pág. 237).
O exposto acima representa uma lista substancial de necessi­
dades que podem ser atendidas por uma visita a um parque nacional
ou a uma área virgem. Conforme enfatizamos, entretanto, a ques­
tão exata do porquê de as pessoas visitarem estas áreas em número
tão elevado permanece ainda em aberto. Embora a pesquisa desti­
nada a descobrir as motivações de usuários apresente ao investigador
uma série de problemas, é um campo importante que requer um
estudo muito mais sistemático, antes que possamos ter uma resposta
satisfatória.

Requisitos indicados para parques e áreas virgens

O que, exatamente, as pessoas procuram ou esperam quando


visitam um parque nacional ou uma área virgem? Que características
servem como fonte de satisfação e quais as que os visitantes acham
insatisfatórias? Em outras palavras, o que os visitantes percebem
como requisitos para que uma área lhes proporcione satisfação em

133
seus relacionamentos com o ambiente natural? Respostas a estas
perguntas são de considerável importância para as pessoas ligadas às
administrações na tomada de decisões sobre o fornecimento de um
tipo particular de experiência recreacional.
Tem-se realizado uma série de estudos para responder a estas
questões. Um dos estudos mais abrangentes foi realizado por
Stankey (1972), que examinou as atitudes de usuários de áreas
virgens diante das características de áreas consideradas importantes.
Entrevistou mais de 600 visitantes de quatro áreas virgens: Bob
Marshall Wilderness, em Montana, Bridger Wilderness, Wioming,
High Uintas Primitive Area, em Utah, e Boundary Waters Canoe
Area, em Minnesota.
Solicitou-se a cada entrevistado que classificasse 14 itens ou
declarações, no contexto de área virgem, numa escala de cinco
pontos que ia de ‘‘muito indesejável” até “muito desejável”. Por
exemplo, o item isolamento — não ver muitas outras pessoas exceto
as de seu próprio grupo — poderia ser classificado “muito desejável”
e ser-lhe-ia dado um total de 5 pontos na escala. As respostas
foram classificadas de forma que o indivíduo com atitudes muito
fortemente puristas quanto ao conceito de área virgem teria uma
classificação alta, e as pessoas com atitudes menos radicais seriam
classificadas abaixo. A faixa possível de totais de classificação ia
de 14 a 70. Com base em suas classificações, os indagados foram
classificados em quatro grupos: puristas radicais, puristas moderados,
neutros e não puristas. Embora as comparações fossem feitas entre
as respostas dos diversos grupos, Stankey considerou os puristas
radicais (classificações entre 60 e 70 na escala) como os usuários
mais importantes para as decisões administrativas das áreas virgens.
Não podemos resumir todas as conclusões desse estudo. Conside­
raremos, com alguns detalhes apenas, uma das mais importantes ca­
racterísticas de áreas indicadas pelos usuários — a característica do
isolamento.
Quando os entrevistados foram indagados sobre a importância
do isolamento como característica de área natural, 82% da amostra
geral responderam de forma positiva, enquanto 96% dos puristas
o consideraram uma característica altamente desejável. Desta for­
ma, esta característica de área virgem pareceria muito importante
ao^ usuários. A atitude em face do isolamento é, entretanto, mais
complexa do que se poderia imaginar. Numa análise de fatores
importantes na gênese dos sentimentos de solidão, Stankey ressalta
que, se uma pessoa a deseja verdadeiramente, pode esperar encon­
trá-la viajando sozinha em áreas virgens. Entretanto, no estudo,

134
somente 2% dos indagados estavam viajando sós. O isolamento,
mesmo concebido por um purista, envolve aparentemente uma si­
tuação na qual o contato com outros grupos é mínimo; o relaciona­
mento com membros do próprio grupo não interfere com o senti­
mento de solidão. (Efetivamente, para muitas pessoas, o relaciona­
mento social com membros de outros grupos ao redor de uma
fogueira, acampando, ou em outras circunstâncias, parece ser tam­
bém uma parte importante e positiva da experiência em áreas virgens,
embora somente 1 entre 10 puristas considerasse o relacionamento
social como uma parte importante de experiência.)
Perguntou-se aos visitantes se por acaso se incomodavam: (1)
com o encontro com muitas pessoas na trilha e (2) por não encon­
trar ninguém o dia todo. Cerca de 25% dos indagados, que não os
puristas, indicaram que gostavam de encontrar outras pessoas, mas
somente 10% dos puristas opinaram desta forma. Cerca de 3 entre
4 dos puristas declararam que gostariam de não encontrar ninguém
o dia todo, ao passo que somente 3% dos mesmos indicaram que
encontros não os incomodariam.
Poucos ou nenhum encontro, desta forma, parecem constituir
uma dimensão importante, para os puristas, da experiência em áreas
virgens. Entretanto, outros fatores associados à solidão são tão
importantes quanto a freqüência de encontros. Por exemplo, Lucas
(1964) descobriu que canoeiros sentiam sua solidão mais ameaçada
quando encontravam um único barco a motor do que quando en­
contravam diversas outras canoas. Os usuários de áreas virgens são,
também, tipicamente mais perturbados por grandes grupos de pessoas
do que por pequenos grupos. O local do encontro constitui outra
variável importante. Por exemplo, tanto os puristas quanto os não
puristas parecem preferir encontros em trilhas aos encontros nos
arredores de seus campos; a maioria de ambos os grupos concorda
em que o local de campismo em áreas naturais deva permitir com­
pleta solidão. Quando os entrevistados da pesquisa de Stankey
foram solicitados a considerar uma situação em que diversos outros
grupos chegassem após ter sido estabelecido o acampamento, a
maioria dos puristas indicou que isto os incomodaria. Muitos deles
declararam que tentariam descobrir outra área para acampar ou dei­
xariam o local imediatamente.
Outro aspecto de solidão que não envolve efetivamente encon­
tros, mas é também importante, é a evidência de uso anterior de uma
área natural por outros visitantes. Duas óbvias indicações de uso
anterior são a desordem ou a deterioração do local de camping.
Não surpreende que os puristas no estudo de Stankey expressassem

135
forte insatisfação com os locais de catnping que indicassem mau uso,
ou ao encontrarem desordem na área.
Num estudo algo semelhante desenvolvido por Shafer e Mietz
(1972), foram selecionadas cinco declarações tidas como repre­
sentativas do que um indivíduo pode apreciar mais numa expe­
riência de contato com área natural. As declarações descreviam as
qualidades da experiência recreacional — físicas, emocionais, esté­
ticas, educacionais e sociais. Assim, uma experiência física envol­
veu a oportunidade de exercício e esforço que estimulavam o corpo;
uma experiência emocional foi identificada por reações físicas tais
como a emoção de experimentar novas sensações e de explorar
regiões naturais, e assim por diante.
Cada uma das cinco afirmações sobre os valores de áreas
virgens foi impressa em cartões separados, dispostos em jogos de 2
em todas as combinações possíveis para um total de 10 conjuntos.
Um total de 76 excursionistas, de duas áreas, foram solicitados a sele­
cionar, em cada conjunto, a afirmação que descrevesse o valor que
lhes fosse mais importante. Os resultados indicaram que as expe­
riências estéticas eram as mais importantes, com as experiências
emocionais ocupando o segundo lugar. Estas eram cerca de dez ve­
zes mais importantes do que os valores sociais, que vieram por úl­
timo. . As. experiências físicas estavam em terceiro e as educacionais
em quarto lugar na classificação.
Os resultados deste estudo sugerem que os mais críticos atribu­
tos de uma área virgem são os que resultam da experiência estética.
Embora seja difícil fazer uma distinção entre experiência estética e
emocional (ambas classificando-se em alto grau como requisitos),
tem sido sugerido que, pelo menos no contexto de área virgem, as
experiências emocionais são identificadas por reações físicas, enquan­
to as experiências estéticas estão mais relacionadas com a apreciação
mental. Obviamente, estas experiências acham-se intimamente liga­
das e podem ocorrer durante a mesma atividade recreacional. Desta
forma, pode-se ter uma experiência emocional quando uma truta-
arco-íris morde a isca e, simultaneamente, sentir satisfação estética
pelos aspectos circundantes.
Sabe-se muito pouco sobre as características de um ambiente
natural que resultam em resposta estética. Litton (1972) tentou
definir as dimensões estéticas da paisagem e estabelecer “critérios es­
téticos” apropriados. Considera unidade, vivacidade e variedade
como critérios básicos e enfatiza que estes não são discretos mas, sim,
envolventes. De acordo com Litton, “unidade é a qualidade da tota­
lidade, na qual todas as partes se relacionam não meramente como

136
uma montagem, mns como uma unidade harmônica distinta” (pág.
284), ao passo que "vivacidade é a qualidade da paisagem que lhe dá
distinção c a torna visualmentc surpreendente” (pág. 285). " Varie­
dade pode ser definida como um índice de quantos objetos e relações
diferentes são encontrados numa paisagem” (pág. 286). Craik
(1972) avaliou a objetividade destas dimensões, desenvolvendo uma
escala de classificação e obtendo, de uma série de indivíduos, classi­
ficações de diversas paisagens. Conclui ele: “Os resultados desta
avaliação da objetividade de um sistema de dimensões paisagísticas
são encorajadores” (pág. 306). A importância da experiência esté­
tica para o usuário de áreas naturais parece justificar consideravel­
mente mais pesquisas sobre este aspecto.
Outros fatores envolvidos na determinação de ser ou não uma
área indicada como virgem foram examinados em estudos desenvol­
vidos por Muriam e Amons (1968) e Lucas (1964). No primeiro
estudo, 108 indivíduos foram entrevistados em três áreas selvagens de
Montana, que diferiam consideravelmente em isolamento e acesso.
Os pesquisadores identificaram, entre os indivíduos, basicamente dois
tipos de usuários temporários — um grupo formado por excursionis­
tas e cavaleiros e outro por campistas de beira de estrada. Quando
solicitados a definir o que consideravam uma área selvagem, os
excursionistas e cavaleiros citaram critérios como não desenvolvi­
mento da área natural, dificuldade de acesso, pouca quantidade de
pessoas e ausência de melhoramentos trazidos pela civilização. Os
excursionistas entrevistados na área maior e mais acessível (Glacier
National Park) foram muito específicos ao declarar que uma pessoa
tinha que estar ao menos a cinco quilômetros da estrada mais próxima
ou de uma trilha usual de turismo para que se considerasse numa
área virgem. Para os campistas, o caráter “natural” começa no
limite da área de camping.
No estudo de Lucas, foram pesquisados os usuários de uma área
natural ao norte de Minnesota. Ao saírem dela, os entrevistados vi­
ram um mapa da mesma e foram solicitados a indicar onde haviam
estado e a traçar o limite entre o que considerassem área virgem e
área não virgem. Geralmente, os usuários ligados a atividades mais
puristas (andar de canoa, por exemplo) indicaram uma área muito
menor do que os usuários mais casuais (usuários de barcos a motor
e campistas de fins de semana, por exemplo).
Implicações dos requisitos indicados para administração de áreas
naturais. Vimos que diversas características de um parque ou duma
área virgem são importantes na determinação de esses locais serem
ou não indicados como naturais pelos usuários. Um exemplo de tal

137
característica é o sentimento de solidão. No estudo de Stankey, a
solidão foi muito valorizada por puristas ou por não puristas. De
igual modo, no estudo de Shafer e Mietz, os indagados classificaram
a experiência social como o menos importante dos valores de uma
área natural. Evidências indiretas de alta utilização de uma área,
tais como desordem e deterioração de locais de camping, tendem
também a resultar em insatisfação. Estas descobertas têm implica­
ções importantes para as administrações.
Ê evidente que o ambiente virgem desejado deveria apresentar
pouco uso. Através de projetos, esquemas e outras modificações, é
possível que o uso total de algumas áreas virgens seja mantido nos
níveis atuais e a maioria dos usuários possa ter, ao menos, uma expe­
riência satisfatória de solidão. É possível, entretanto, que limitações
de uso tenham, eventualmente, que ser impostas para que se conserve
essa possibilidade. Poder-se-ia argumentar que o problema da ma­
nutenção da possibilidade do sentimento de solidão não é tão sério
como parece ser, porque a sensação de solidão se alterará à medida
que aumentar a população. Stankey ressalta:
“Um argumento padrão para não fazer uso das atitudes do visi­
tante como meio de formulação de estratégias administrativas em
áreas virgens é considerar que as atitudes do público quanto ao que
constitui solidão, primitivismo ou ‘natureza’, tornar-se-ão menos dis-
criminativas à medida que aumentarem a população, a densidade de­
mográfica, etc. A idéia de que as opiniões sobre o que é uma “área
virgem pura” serão menos rígidas no futuro pode ser um exemplo
clássico de profecia que se realiza. Se orientarmos a administração
de áreas naturais em tom o de diretrizes que visem a acomodação
gradual a menores exigências, quase que certamente atrairemos uma
clientela que, com o tempo, terá para si uma concepção menos exi­
gente de área virgem” (págs. 113-114).
Naturalmente, muitas outras características de áreas virgens pa­
recem contribuir para a satisfação geral dos usuários, sendo, assim,
importantes para as decisões administrativas. Por exempo, a ausên­
cia de aspectos construídos pelo homem (excetuando-se as trilhas)
parece ser uma delas. Se uma área tem estradas e trilhas, muitos
usuários sentirão que estas devem ser restritas a andarilhos ou prati­
cantes de equitação, sendo vetada a passagem de qualquer veículo
motorizado. Muitos outros destes requisitos dos aspectos físicos de
uma área parecem ser importantes para os usuários. Mesmo o ta­
manho desta é importante. Se uma área não é suficientemente gran­
de (mesmo que atenda à maior parte dos demais requisitos), não
será tão satisfatória quanto outra de m aior tamanho. Os requisitos

138
dependem também do tipo de área silvestre envolvido. Assim, em
áreas onde o motivo central das atividades mais importantes é a água,
os puristas usam canoas e, se dependesse deles, baniríam todos os
barcos a motor. Obviamente, as características de uma área, que
contribuirão em maior grau para uma experiência estética ou emo­
cional, dependem das características pessoais do usuário.
Não obstante, algumas características específicas, tidas como
satisfatórias do ponto de vista estético, foram determinadas por Sha-
fer e Mietz em suas entrevistas com os campistas das duas áreas vir­
gens que inspecionaram (ver fig. 5-1). Os campistas sentiam que
a satisfação cênica mais forte era obtida em trilhas que:
“ (1) incluam grandes afloramentos de rochas onde os campis­
tas possam observar a paisagem circundante; (2) passem através de
caminhos naturais em florestas onde haja diversidade de iluminação,
cor, temperatura e âmbito máximo de visão da floresta; e (3) sigam
correntes de água, sempre que possível, de forma que as quedas de
água e águas correntes sejam parte da beleza natural ao longo da
trilha” (pág. 214).
“Os campistas relataram também que as áreas florestais que
apresentam uma mistura de pinheiros com vidoeiros brancos parecem
esteticamente mais atraentes do que as áreas que tenham apenas pi­
nheiros, mas que, em outras ocasiões, áreas puras de vegetação an­
tiga e majestosa podem ser mais desejáveis. Do ponto de vista esté­
tico, as trilhas devem localizar-se em aclives que evitem erosão pela
água ou por demasiado uso. De forma geral, os entrevistados dese­
javam, acima de tudo, variação na paisagem da trilha” (pág. 214).
Diferenças individuais nos requisitos indicados. Evidentemente,
todos os estudos que analisamos sobre preferências percebidas de
usuários de parques e áreas virgens indicaram serem estas conside­
ravelmente diferentes para cada indivíduo. Assim, um tipo de usuá­
rio poderá se incomodar ao encontrar outro andarilho numa trilha
ao passo que outro tipo poderá encarar favoravelmente tal contato
social. O fato de que os usuários percebem praticamente todas as
características dessas áreas de maneira diferente e, também, diferen­
temente respondem a elas torna-se óbvio mediante os estudos de
Stankey, já que este autor pôde classificar os usuários em vários tipos
distintos, de acordo com respostas aos itens sobre características de
uma área virgem.
Sabe-se relativamente pouco, entretanto, sobre no que se baseiam
as diferenças em tais requisitos. É relativamente seguro afirmar que
estas diferenças são devidas aos antecedentes e experiências anteriores

139
Figura 5-1 Os exploradores de áreas selvagens preferem cam inhos com gran­
des picos rochosos, atravessam clareiras naturais em florestas e seguem o curso
de regatos que têm cachoeiras e corredeiras. F o to Abril Press.

dos usuários, mas isto não nos diz m uita coisa. Por exemplo, que
tipos de experiências anteriores são im portantes para fazer com que
uma pessoa seja ou não purista em suas atitudes face a uma área vir­
gem? Os fatores de personalidade estão relacionados com os requi­
sitos indicados de tais áreas?
Um estudo que fornece algumas respostas é o de Cicchetti
(1972). Através de técnicas estatísticas sofisticadas, o autor tentou

140
analisar u relação cnlrc as preferências e padrões comportamentais
dc usuários de áreas virgens c fatores como (1) idade, sexo, renda e
educação c (2) experiência residencial e recreacional na infância.
Usando a tubcla purista de Stankey, Cicchetti conseguiu relacionar
unia série destas variáveis para as classificações puristas dos usuários.
Os detalhes deste estudo são muito técnicos para serem discutidos na
íntegra, mas mencionaremos algumas das relações que ele estabe­
leceu.
Cicchetti descobriu que, quanto mais velha fosse uma pessoa, ao
visitar pela primeira vez uma área virgem, mais tenderia sua classifi­
cação ao extremo purista. Uma relação direta também foi encon­
trada para a variável educação; para cada ano de educação além do
8.° grau, o índice de purismo aumentava cerca de 0,65 pontos. Pa­
rece, assim, que quanto maior for a idade ou a instrução de um indi­
víduo, mais pura e oculta será a experiência em área natural
de que necessitará. Em alguns casos, foram também encontradas
relações entre outras variáveis. Por exemplo: na área de Bridger, os
visitantes do sexo masculino tendiam a classificar-se como mais pu­
ristas do que os do sexo feminino. A forma de habitação e as
experiências de recreação na infância foram também consideradas
como fatores de influência na determinação do purismo dos visitan­
tes. De um modo geral, aqueles que tinham crescido em cidades
pequenas ou em áreas rurais obtiveram índices de purismo mais bai­
xos do que os que haviam crescido em áreas urbanas. Cicchetti
sugere que residir em áreas rurais leva ao desenvolvimento de uma
visão utilitária da natureza, ou seja, as árvores ou outros recursos
das áreas virgens são valiosos e devem ser explorados. Os usuários
que disseram ter excursionado freqüentemente quando crianças,
classificaram-se mais alto na escala de purismo do que os que decla­
raram não o terem feito. Outros tipos de experiências na infância,
como o campismo, tiveram também efeito positivo na classificação.
Já indicamos que a solidão parece ser a característica mais im­
portante de uma área virgem, para os usuários. Relacionando algu­
mas das variáveis acima com este valor de áreas virgens, Cicchetti
relata que os resultados de seus estudos:
“Parecem indicar que os que mais provavelmente se incomoda­
rão com congestionamento são os visitantes mais idosos quando de
sua primeira visita a uma área virgem, os que tenham tido conside­
rável experiência em campismo e em excursões quando crianças, os
que tenham uma visão discriminativa de áreas naturais e os que não
tenham crescido em uma pequena cidade poderão até mesmo abre-

141
viar sua viagem previamente planejada e voltar para casa” (pág.
158).
Uma fonte óbvia de diferenças individuais nas reações às carac­
terísticas do ambiente natural é, naturalmente, o tipo de relaciona­
mento com o ambiente que o usuário espera ou procura, Embora
este fator tenha estado implícito em nossa discussão, sua importância
não pode ser superestimada. Obviamente, se um visitante espera
encontrar outros grupos em uma área selvagem, não se perturbará
como o faria se não esperasse tais encontros. A expectativa de um
usuário, ou conjunto deles, constitui, assim, um determinante impor­
tante do grau em que o mesmo ficará satisfeito ou insatisfeito com a
experiência em área virgem. Semelhantemente, o seu objetivo ao
visitar uma área determinará em grande parte a sua satisfação com
a mesma. Assim, o mesmo usuário que visitar uma determinada área
virgem, em duas ocasiões, tendo em mente dois objetivos diferentes,
poderá ficar altamente satisfeito numa visita e altamente insatisfeito
na outra. Imaginemos, por exemplo, um usuário que visite uma área,
por vários dias, na primavera, para campismo, e torne a visitá-la por
vários dias no outono, para caça ao veado. Poderá caminhar em
trilhas idênticas, mas seus requisitos serão bastante diferentes. Na
primavera, poderá considerar diversas características do terreno, do
ponto de vista estético, e achá-las muito satisfatórias. Poderá con­
siderar as mesmas características durante a caça do outono como um
aborrecimento porque, por diversas razões, interferem na sua caçada.
De igual modo, poderá não ser incomodado por outros excursionis­
tas na primavera, mas o encontro com outros caçadores no outono
poderá ser-lhe molesto. Ambas as viagens, no entanto, podeTão
ser satisfatórias — a da primavera, devido às experiências estéticas
(objetivo primário) e a do outono, devido ao sucesso na caça ao
veado. Para a maioria dos caçadores, embora possam preferir ca­
çar em ambientes naturais onde possam gozar do cenário, o critério
dominante para o prazer de um relacionamento com o ambiente na­
tural é o de obter ou não sucesso na caça.
Foi realizada uma série de outros estudos, que seguem as mes­
mas linhas dos relatados nesta seção. Em bora as descobertas de to­
dos estes estudos difiram de alguma forma, dependendo da área vir­
gem particularmente envolvida e da finalidade da pesquisa, temos
realmente uma idéia satisfatória das percepções dos usuários sobre
as áreas virgens. À medida que aumenta o uso destas áreas, será
essencial que suas administrações utilizem estas informações, se é que
pretendem atender aos requisitos indicados por seus usuários.

142
Ncsla seção conccntramo-nos em áreas virgens e não aborda­
mos os parques nacionais. Embora os requisitos para as áreas vir­
gens e parques nacionais difiram um pouco, os enfoques dos estudos
de apreciação são bastante semelhantes. Além disso, as motivações
para visitas aos parques parecem-se muito com as das visitas às áreas
naturais. Conseqüentemente, ao invés de discutirmos os estudos que
focalizam o comportamento de usuários de parques, consideraremos
agora os relacionamentos do homem com o ambiente natural em
outros tipos de recreação ao ar livre.

ALGUNS OUTROS RELACIONAMENTOS TEMPORÁRIOS

Muitos dos milhões de pessoas que visitam parques nacionais e


áreas virgens, todo ano, bem como milhões de outras, ligam-se a mui­
tas outras formas de relacionamentos temporários com o ambiente
natural. Ressaltamos anteriormente que a nossa definição de am­
biente natural é muito ampla e inclui uma série de ambièntes em que
estão presentes aspectos construídos pelo homem, os quais podem
até mesmo preponderar. Alguns desses ambientes podem ser con­
siderados como ambientes naturais simulados, no sentido em que dão
ao usuário o que ele sente ser pelo menos uma aproximação a algumas
características de ambientes naturais. Um exemplo são as requin­
tadas instalações de recreação ao ar livre desenvolvidas em bairros
e comunidades residenciais. Para muitas pessoas, as modalidades
de recreação oferecidas por tais instalações, tais como natação, golfe,
caminhadas, barcos e tênis servem como fonte primária ou única de
relacionamento com o que consideram um ambiente natural.
Há, naturalmente, muitas atividades recreativas que permitem
que seus participantes “fiquem ao ar livre” e, pelo menos até certo
ponto, se relacionem temporariamente com o ambiente. Algumas são
o esqui, barcos e os carros de neve; seus usos tiveram um tremendo
aumento, nos últimos anos. Um grande número de pessoas liga-se
também à caça ou pesca, caminhadas, coleção de pedras, exploração
de cavernas, alpinismo, pesca submarina ou simplesmente dirigir no
campo. Esta última pode ser, de fato, um importante relacionamento
homem-ambiente, não sendo geralmente reconhecida como tal. Con­
forme ressalta Suholet (1973), a auto-estrada pode servir como es­
paço aberto e, desta forma, propiciar significativos relacionamentos
homem-ambiente natural (ver fig. 5-2).
Outro tipo importante de atividade ao ar livre, geralmente igno­
rada como tal é a jardinagem. Vogt (1966) ressalta:

143
Figura 5-2 U m tipo de interação com o ambiente natural, aproveitado por
milhões de pessoas, é simplesmente dirigir pelo campo. Embora em muitas
partes do país as estradas que atravessam o campo não possam ser conside­
radas espaços abertos, em outras áreas, com o a da foto, as estradas oferecem
oportunidade de interação com o ambiente. F oto Abril Press.

“Em jardinagem — numa estimativa modesta — devem envol­


ver-se acima de 20 milhões de pessoas, número que se aproxima da­
quele que inclui caçadores e pescadores, superando o dos frequenta­
dores de jogos principais de beisebol e excedendo, por ampla mar­
gem, o das pessoas que possuem lanchas e barcos, que constituem uma
ampla fração dos recreacionistas ao ar livre. Em vista do relacio­
namento diário da jardinagem com a maneira como as pessoas vivem
e gostariam de viver e, portanto, do impacto que a mesma podería —
e deveria — ter sobre o futuro desenvolvimento de nossa sociedade,
deve-se lamentar que os jardineiros não tenham recebido a conside­
ração a que fazem jus, quando pensamos no futuro do ambiente ame­
ricano” (pág. 383-384).

144
Todas as utividades acima c muitas outras são fontes importan­
tes dc recreação ao ar livre. Os puristas de áreas virgens poderão
zombar destes tipos de relacionamentos com o ambiente natural, mas
deve-se ter em mente que estes indivíduos representam somente uma
pequena porcentagem das pessoas que valorizam e obtêm satisfação
de qualquer um dos muitos tipos de recreação ao ar livre.

Motivações dos participantes

Variam tremendamente as motivações das pessoas que gozam


das muitas espécies de relacionamentos temporários citados acima.
Entretanto, aquilo que leva uma pessoa a visitar parques nacionais e
áreas naturais pode também levá-la a engajar-se em outros tipos de
recreação ao ar livre. Assim, a recreação ao ar livre pode servir
como fuga temporária ao stress e preencher também todas as necessi­
dades relacionadas na pág. 133 — desenvolver e manter a auto-ima-
gem, desenvolver uma identidade social, promover sentimentos de
pertinência ao grupo, de estima, promover o desenvolvimento e apli­
cação de habilidades, e assim por diante. Os leitores interessados
numa análise detalhada de comportamento recreacional devem ler
Driver e Tocher (1970), que abordam este assunto em grande pro­
fundidade.
Há uma motivação para recreação ao ar livre que não é tratada
em grande profundidade, mas que pode ser muito importante. Mui­
tos tipos de recreação ao ar livre envolvem o risco de ferimentos ou
mesmo de morte. Tem-se freqüentemente apontado que a cultura
americana sempre os apreciou, chegando a premiar o comportamento
que envolve a tomada de riscos de qualquer espécie. De fato, em
nossa sociedade, um homem é freqüentemente definido como alguém
que tem coragem ou assume riscos. Assim, muitas pessoas podem
conscientemente procurar formas de recreação ao ar livre que envol­
vam alto nível de risco, para satisfazer um valor ou necessidade
social.
Conforme enfatizamos anteriormente, são complexas as moti­
vações de usuários de qualquer área de recreação ao ar livre, seja
uma área virgem ou parque de bairro. Embora tenham sido subme­
tidas a estudos nos últimos anos recentes, ainda há muito mais para
ser aprendido antes que tenhamos um conhecimento razoavelmente
completo deste tipo de comportamento.

145
Requisitos apontados

Ressaltamos que os usuários de parques nacionais e áreas natu­


rais (particularmente estas últimas) têm alguns requisitos muito defi­
nidos quanto a estas áreas. Na medida em que tais requisitos apon­
tados são atendidos, a experiência em áreas virgens pode ser consi­
derada satisfatória. Um dos elementos-chave para que uma área
virgem seja satisfatória é o isolamento. Experiências estéticas, emo­
cionais e outras são também importantes. Como é de se esperar, os
requisitos percebidos são igualmente associados a outros tipos de
áreas de recreação.
As áreas de recreação ao ar livre foram anteriormente classifi­
cadas como áreas orientadas para o usuário, áreas de uso interme­
diário e áreas baseadas nos próprios recursos. O primeiro tipo é o
mais adequado ao lazer diário; o segundo, ao lazer dos fins de sema­
na; e o terceiro, às férias. Assim, a acessibilidade é um requisito
importante para os primeiros dois tipos, mas poderá ser uma carac­
terística indesejável para o terceiro ou para áreas virgens, onde a ina­
cessibilidade pode ser considerada como fator de isolamento e, con-
seqüentemente, de experiência satisfatória. A paisagem é tipica­
mente de menor interesse aos que visitam as áreas orientadas para o
usuário e as intermediárias, do que aos que se dirigem às áreas ricas
em recursos naturais onde a paisagem é importante para experiência
estética. Analogamente, os que usam os dois primeiros tipos de
áreas esperam encontrar um número considerável de características
e instalações construídas pelo homem, ao passo que as mesmas são
indesejáveis para os usuários de áreas virgens.
Em outras palavras, os requisitos percebidos dos vários tipos
de áreas de recreação ao ar livre dependem grandemente dos obje­
tivos das pessoas que as utilizam — um ponto que já enfatizamos
previamente. Não podemos discutir ou mesmo resumir tais requi­
sitos devido ao seu número e diversidade. Aquilo que os usuários
percebem como requisitos de uma área de esqui difere consideravel­
mente dos requisitos de uma área de excursão que, por sua vez, tem
requisitos diferentes dos de uma área de caça. Entretanto, os parti­
cipantes de cada tipo de recreação ao ar livre estabelecem requisitos
para suas experiências recreativas e, na medida em que tais requisi­
tos são atendidos, a experiência será considerada satisfatória.

A experiência de recreação

Ao concluir nossa discussão sobre os relacionamentos tempo­


rários do homem com o ambiente natural, devemos ressaltar que enfa-

146
tizamos somente uma pequena parte de tudo o que pode ser consi­
derado experiência recreativa. Ao discutir a recreação ao ar livre,
Clawson (1966) nota que esta experiência, particularmente quando
envolve áreas baseadas nos recursos naturais, tem cinco fases distin­
tas. Clawson denomina a primeira destas fases como antecipação
ou fa^e de planejamento, na qual a família ou grupo decide quando
e aonde ir, o que fazer, o que levar, e assim por diante. Esta fase
pode levar alguns meses, como no caso de planejar uma longa visita a
um parque nacional ou área virgem, ou somente uns poucos minutos,
como no caso de planejar uma visita a uma área local de recreação.
Para muitas pessoas, esta fase é um tempo de agradável expectativa,
constituindo parte importante de experiência de recreação. Poder-
se-á passar horas discutindo o planejamento da viagem, a compra de
equipamentos, fazendo talvez sacrifícios financeiros para que a famí­
lia ou o grupo possam realizá-la, fazendo coincidir as férias, solici-
tande-as, e assim por diante. Embora possa ainda estar longe o
momento do relacionamento efetivo com o ambiente natural, o com­
portamento dos participantes já será modificado em grau considerável
durante a fase de planejamento (pág. 254).
A segunda fase da experiência de recreação é a viagem ao local.
Essa viagem poderá envolver considerável tempo e dinheiro. Muitas
pessoas acham a experiência da viagem em si uma parte agradável
e satisfatória de recreação, embora outras já não a apreciem tanto.
A terceira fase é a experiência no local, sobre o qual nos concentra­
mos nas páginas anteriores. A viagem de volta é a quarta fase.
Embora os pontos extremos da viagem na ida e na volta sejam os
mesmos, o estado de ânimo e as atitudes dos viajantes poderão ser
muito diferentes nas duas viagens. Este aspecto da experiência
recreativa não tem sido objeto de estudos, mas a maioria dos leitores
concordará que seus sentimentos são muito diferentes ao voltar de
uma área de recreação ao ar livre do que ao ir para a mesma. Ao
discutir a última fase — recordação — Clawson declara: “A recor­
dação é a última e possivelmente a mais importante fase da expe­
riência completa. É inteiramente possível que esta fase seja mais
valorizada e aproveitada do que todas as demais em conjunto” (pág.
254).
Clawson enfatiza que a experiência toda deve ser considerada
como um conjunto fechado e que a procura de recreação ao ar livre
pode ser estudada significativamente somente em termos da expe­
riência completa. Embora nos tenhamos concentrado na experiên­
cia no local — e a maior parte das descobertas de pesquisas refere-se
a esta fase — , as outras fases são também importantes. Conforme
ressalta Clawson:

147
“O rccrcncionistn confrontará aquilo que obteve de satisfação
da experiência completa com as partes negativas da mesma; um toa-
lctc sujo terá tanto peso para algumas pessoas quanto o novo e belo
parque do museu” (pág. 256).

RELAC IO NA M EN TO S P E R M A N E N T E S EN T R E O
HOM EM E O A M B IE N T E N A T U R A L

Nas páginas anteriores tratamos de uma série de tipos de rela­


cionamentos entre o homem e seu ambiente natural. Estes relacio­
namentos ocorrem numa ampla variedade de áreas de recreação ao
ar livre, variando de regiões selvagens a parques locais e instalações
recreativas. Em bora a duração destes relacionamentos possa variar
de apenas uma hora até diversas semanas, ou até mais, podemos
considerá-las relacionamentos temporários. Examinaremos nesta se­
ção tipos mais permanentes de relacionamentos, que duram tipi­
camente anos ou mesmo vidas inteiras.
Tratam os em capítulos anteriores, com alguns detalhes, das rela­
ções entre os ambientes construídos e o comportamento. Discuti­
mos, neste contexto, como um sistema em expansão, as salas, casas,
edifícios, instituições e cidades e seus efeitos sobre o comportamento.
Estes ambientes, entretanto, constituem parte do que chamaremos
ambientes geográficos, que também influenciam o comportamento.

O ambiente geográfico e o comportamento

Por “ ambiente geográfico” entendemos as características físicas


natm ais de um a região, tais como sua geologia, clima e possíveis even­
tos naturais, como enchentes, tempestades de neve, tufões, furacões e
terremotos. Os psicólogos consideravam, no passado, o ambiente
geográfico como sendo de pouco significado como determinante de
comportamento, mas o crescente interesse nas relações homem-am-
biente tem sido acom panhado de um aumento na atenção dada ao
ambiente geográfico como influência potencial do comportamento do
homem.
D urante muitos anos, antropólogos, historiadores, geógrafos e
outros têm escrito sobre a influência das variáveis ambientais físicas
sobre as atividades hum anas. Estes escritores, que têm sido chama­
dos de deterministas ambientais, sustentam que há fatores no ambien­
te geográfico que influenciam de m aneira importante os hábitos e o

148
caráter das pessoas. Assim, os deterministas ambientais argumentam
que características “nacionais” como bravura, lassidão ou crendices
podem ser determinadas por diversos fatores geográficos. Esta visão
contrasta com a dos que tendem a considerar o homem como o agen­
te ativo em relacionamentos com o ambiente natural. Estes teóricos
minimizam a influência do ambiente sobre o comportamento e, ao
invés de considerar o ambiente como conformador do organismo,
imaginam o organismo como o conformador do ambiente. Muitos
psicólogos e cientistas sociais sustentam este ponto de vista; membros
das profissões ligadas a projetos têm mais probabilidade de sustentar
o primeiro ponto de vista.
Os dados disponíveis não comprovam a afirmação dos deter­
ministas ambientais, uma vez que as relações entre as características
nacionais (que não são facilmente identificadas) e as características
geográficas não estão firmemente estabelecidas. Talvez os dados
mais convincentes venham de estudos antropológicos, tais como os
relatados por Barry, Child e Bacon (1959), que descobriram alguma
evidência de que o tipo de economia de subsistência determinada pelo
ambiente geográfico pode ter um efeito significativo sobre as práticas
de educação de crianças. As sociedades em que a acumulação de
alimentos e o cuidado para com suas fontes são necessários aparen­
temente enfatizam o desenvolvimento de traços tais como obediência
e responsabilidade. Em sociedades baseadas na caça e pesca, por
outro lado, tendem a ser acentuadas a realização pessoal e a auto­
confiança.
Muitas evidências, naturalmente, comprovam a idéia de que o
homem tem uma influência considerável sobre o ambiente físico.
Suas atividades podem resultar, e frequentemente resultam mesmo, em
danos temporários e, muitas vezes, permanentes ao ambiente geográ­
fico. Conforme anteriormente mencionado, o homem e suas rela­
ções com o ambiente podem ser estudados sob dois pontos de vista.
Um deles é considerar o comportamento do homem como variável
dependente e algum aspecto do ambiente físico como variável inde­
pendente. Este enfoque seria o modo lógico de estudar os rela­
cionamentos em questão, do ponto de vista do determinista ambien­
tal. Entretanto, os relacionamentos homem-ambiente podem envol­
ver também situações em que o comportamento do homem seja a
variável independente e as alterações do ambiente físico, decorrentes
de suas atividades, sejam a variável dependente. Este tipo de rela­
cionamento é de maior interesse para os conservacionistas e outros
que se preocupam com mudanças que o homem provoca em seu
ambiente natural. Embora os psicólogos ambientais tratem também

149
deste problema, limitamos nossa discussão neste livro às situações
cm que o comportamento do homem é tido como influenciado pelo
ambiente natural.

Tipos de comportamentos estudados

Pode-se facilmente imaginar uma série de atividades humanas


que são, direta ou indiretamente, influenciadas pelo ambiente geográ­
fico. Os tipos de roupa que uma pessoa compra serão determinados,
até um certo ponto, pela região em que mora, como o serão suas
atividades de lazer. Seu emprego, o tipo de casa que deseja, o auto­
móvel que compra, todos estes podem ser função do ambiente geo­
gráfico específico envolvido. Obviamente, o ambiente de uma região
tem muita influência sobre sua economia que, por sua vez, influi dire­
tamente sobre o comportamento de seus habitantes. Tipicamente,
entretanto, estes tipos de relações ambiente-comportamento têm sido
de maior interesse para os economistas do que para os psicólogos
ambientais.
Os psicólogos ambientais, em lugar disso, têm-se interessado
principalmente pela compreensão e percepção do homem quanto ao
seu ambiente geográfico. As escassas pesquisas relatadas nesta área
tratam, por exemplo, das atitudes dos habitantes face a perigos natu­
rais como enchentes ou terremotos. Analogamente, alguns estudos
têm tratado da maneira como as características físicas de regiões são
percebidas pelos habitantes de tais áreas. Os pesquisadores indaga­
ram, por exemplo: Quais são as características de uma região que
influenciam as decisões quanto à escolha de residências e migração?
Quais as características que tendem a tomar uma experiência satisfa­
tória à vida numa determinada região? Uma experiência insatisfa­
tória?
Obviamente, os pesquisadores que tentam estudar os efeitos de
ambientes geográficos sobre o comportamento estão tratando com um
tipo extremamente complicado de variável independente. Embora
um ambiente geográfico específico possa englobar outros embientes
físicos, tais como edifícios e cidades, constitui somente parte do am­
biente total da pessoa. Em outras palavras, é difícil utilizar-se algu­
ma característica do ambiente geográfico como variável independente
sem confundi-la com uma série de outras variáveis, que também po­
dem influenciar o comportamento da pessoa. Estes estudos são mui­
to compÜcados pelo fato de que as pessoas que moram numa deter­
minada região não estão igualmente expostas ao ambiente geográfico.

150
Alguns habitantes acham-se "mais próximos à natureza” do que
outros, de forma que o ambiente natural pode ter um efeito muito
mais profundo sobre o seu comportamento.

Efeitos diferenciais do ambiente geográfico

Quando consideramos os tipos de comportamentos que po­


dem ser afetados pelos relacionamentos permanentes com o am­
biente natural, é importante ter em mente que esse ambiente pode
afetar diferentemente os indivíduos que moram numa dada região
(ver fig. 5-3). Por exemplo, consideremos o efeito do ambiente
natural sobre fazendeiros ou sitiantes e sobre os habitantes de cidades
da mesma região geográfica geral. Ambos os tipos de indivíduos
estão expostos, basicamente, às mesmas condições climáticas, mas
têm uma atitude muito diferente face ao clima. Embora o habitante
da cidade possa queixar-se de uma longa temporada de calor, por
ter que regar freqüentemente seu jardim ou consumir muita energia
elétrica devido ao uso de condicionador de ar, o clima será, na pior
das hipóteses, uma fonte de perturbação e aborrecimento. O chma
quente, entretanto, poderá prejudicar os animais domésticos ou as
plantações do sitiante ou fazendeiro.
O clima neste caso não é simplesmente um aborrecimento; o
sustento do fazendeiro poderá estar ameaçado. Conforme ressaltam
Heimstra e McDonald (1973):
"Uma das diferenças na comparação da vida rural versus vida
urbana mais citada por pessoas da cidade é o seu espanto com
as muitas referências que as pessoas da zona rural fazem ao
clima. Entretanto, toda a comunidade rural em uma economia
agrícola depende do clima. Se não houver suficiente chuva, as plan­
tações não crescem; se houver chuva em demasia por ocasião de
colheita, as plantações estarão perdidas; se houver clima gelado ou
quente em demasia, a produção estará perdida. Isto afeta não so­
mente os fazendeiros mas os fornecedores de maquinaria, gêneros,
produtos para a agricultura, bancos, corretores de imóveis, vende­
dores de carros, e assim por diante” (pág. 315).

A percepção de um ambiente geográfico

As pessoas que buscam emprego relacionam freqüentemente em


seu curriculum vitae uma preferência regional, além de suas qualifi­
cações e exigências de trabalho. Uma pessoa poderá indicar uma

151
Figura 5-3 Ü ambiente geográfico afeta vários indivíduos de diferentes ma­
neiras. Assim, o fazendeiro, cujo m odo de vida é afetado pela seca, desen­
volverá atitudes e sentimentos sobre o am biente geográfico diferentes daqueles
dos moradores das cidades. Fotos Abril Press.

152
preferência pelo sul, outra poderá procurar emprego no nordeste ou
na região central, ao passo que outra ainda poderá declarar simples­
mente que preferiría cargo numa região onde tivesse acesso a mon­
tanhas ou a alguma outra característica do ambiente geográfico. Al­
guns indivíduos preferirão sofrer perdas econômicas para viver em um
ambiente geográfico específico.
Obviamente, a percepção da região por parte de uma pessoa é
um fator importante para se determinar se ela aí estabelecerá sua
residência ou se aí permanecerá, caso já more na mesma. A escolha
da habitação ou a decisão de migrar baseiam-se também, natural­
mente, em muitas outras variáveis. Para a maioria dos indivíduos,
os fatores econômicos são mais importantes do que os fatores geográ­
ficos, particularmente durante períodos de escasso mercado de traba­
lho, como nos últimos anos. Desta forma, não se vêem tantas decla­
rações de preferência regional em fichas de seleção de pessoal, como
acontecia alguns anos atrás, quando a oferta de trabalho era maior.
Entretanto, se interrogadas, em sua maioria as pessoas estariam pron­
tas a fornecer uma lista das características do ambiente geográfico
consideradas desejáveis ou indesejáveis.
A forma como uma pessoa percebe seu ambiente geográfico
depende de uma série de fatores. O grau de dependência de uma
pessoa face ao ambiente determina, em parte, sua atitude diante de
características ambientais, tais como o clima. Como sugerimos ante­
riormente, a percepção que um fazendeiro tem de uma dada região
pode ser muito diferente daquela de um habitante da cidade. De igual
modo, uma pessoa da indústria de construção, onde suas oportuni­
dades de trabalho dependem freqüentemente das condições climáti­
cas, é mais consciente do ambiente geográfico do que um auxiliar
de escritório. As características do ambiente, percebidas por uma
pessoa como desejáveis ou indesejáveis, dependerão em grau consi­
derável, portanto, do impacto direto do ambiente geográfico sobre
suas atividades e meio de vida.
As características pessoais são também importantes na deter­
minação da maneira como o ambiente é percebido. Tanto quanto
atitudes e crenças, preferências estéticas por montanhas, desertos ou
qualquer outra característica do terreno têm um papel importante
para muitas pessoas. Por exemplo, atitudes frente à superpopulação,
industrialização ou poluição podem resultar em satisfação ou insatis­
fação com referência a uma determinada região.
Numerosos fatores, portanto, contribuem para a satisfação de
uma pessoa quanto a uma dada região e determinam se a migração da

153
região será renlizndn ou scrinmentc considerada. Entretanto, ao con­
siderar os aspectos comportamcntais da migração, um ponto impor­
tante deverá ser mantido cm mente. Wolpert (1966) assim se ex­
pressa sobre a migração:
"A explicação comum para esses movimentos giram em torno
da atração oferecida por novas oportunidades econômicas e sociais,
climas ou paisagens, e da repulsa às áreas de oportunidades limitadas
ou de meios negativos. . . . Não obstante, o registro de migrações
está cheio de casos de mudanças e retornos entre ambientes seme­
lhantes. Assim, hipóteses deterministas baseadas em causas econô­
micas, climáticas, estéticas e outras são apenas parciais e não corres­
pondem a qualquer determinismo inerente ao comportamento de mi­
gração” (pág. 92).
Wolpert prossegue discutindo um modelo bastante complicado
no qual a migração é visualizada como um ajuste ao stress ambiental.
Sugere ele que, “além de forças de atração e repulsão que podem
estar latentes na decisão de migração, o acionamento de tal decisão
poderá estar freqüentemente associado a um ímpeto de stress”
(pág. 95).
Será necessário pesquisar muito mais, antes que todos os fato­
res associados à satisfação com o ambiente geográfico, escolha de
residência e migração sejam entendidos. Entretanto, alguns estudos
têm sido realizados, tratando de aspectos algo mais específicos do
ambiente geográfico. Consideraremos agora as pesquisas sobre per­
cepção de perigos naturais associados às diversas regiões geográficas.

A percepção de perigos naturais

Conforme Burton (1972) aponta, parece haver uma tendência


persistente de as pessoas se concentraram em regiões sujeitas a diver­
sos tipos de perigos naturais. Ressalta ele ainda que, apesar da rein­
cidência de inundações, estiagens, terremotos e outros riscos, as pes­
soas não somente ocupam essas regiões em grande número mas ten­
dem também a retom ar a essas áreas após um desastre. As áreas
onde ocorrem danos são rapidamente repovoadas e as novas edifica­
ções são freqüentemente mais aprimoradas e caras do que as que
foram destruídas. Burton declara: “O padrão parece ser universal.
Ocorre em culturas amplamente diferentes e em relação a uma série
de eventos danosos. Como pode este comportamento ser descrito
e qual a explicação para o mesmo?” (pág. 184). Conforme vere-

154
mos, a descrição c a explicação deste comportamento são tarefas difí­
ceis c foram realizadas apenas parcialmente.
Burton sugere que a tendência que as pessoas têm de permanecer
ou retornar às áreas com alta probabilidade de riscos naturais é de­
vida a um conjunto complexo de fatores entremeados e que este tipo
de comportamento ocorre “às vezes como resultado de um certo con­
junto de circunstâncias e, outras vezes, como resultado de um outro
conjunto, totalmente diferente do primeiro” (pág. 185). A análise
dos fatores envolvidos indica que este comportamento pode ser devi­
do a qualquer um (ou a uma combinação) dos 3 fatores primários:
(1) as comparativas vantagens econômicas das áreas perigosas; (2)
a aparente falta de percepção da ameaça por parte dos indivíduos
afetados ou sua falta de interesse e (3) o que Burton designa como
problema de rigidez institucional e social. Embora nosso interesse
neste capítulo recaia sobre o segundo fator, mencionaremos breve­
mente os outros dois.
As áreas ameaçadas, em muitos casos, oferecem mais vantagens
econômicas para os moradores do que as outras. Por exemplo, uma
planície onde ocorram enchentes pode ser mais fértil do que outras
áreas; pode oferecer vantagens para construção de indústrias ou para
os sistemas de transporte. Assim, a oportunidade para ganhar a
vida pode ser melhor numa área ameaçada do que em outras regiões.
Com referência ao problema da rigidez institucional ou social, Burton
sugere que frequentemente “as disposições institucionais, numa socie­
dade, operam para manter as pessoas num mesmo lugar e para pro­
teger interesses existentes a curto prazo, reforçando o status quo e
oferecendo meios pelos quais os indivíduos possam desembaraçar-se
de uma situação desagradável” (pág. 187). Por exemplo, em alguns
casos, as vítimas de uma catástrofe são indenizadas com a condição
de que reconstruam suas casas no mesmo local.
Burton e colaboradores (Barker e Burton, 1969; Burton, 1962,
1965, 1972; Burton e Kates, 1964; Burton, Kates, Mather e Snead,
1965; Burton, Kates e White, 1968; Golant e Burton, 1969) e ou­
tros (Kates, 1962; Saarinen, 1966) interessaram-se principalmente
no segundo fator acima relacionado — a aparente falta de percepção
da ameaça ou falta de interesse por parte de indivíduos que moram
em regiões perigosas.
Estes pesquisadores, assim como outros, estudaram a forma pela
qual as pessoas percebem o perigo, sua consciência das prováveis
conseqüências do mesmo, suas atitudes e convicções frente a ele, e
as variações das reações individuais ao mesmo. Não podemos resu-

155
mir todas estas investigações, mas consideraremos diversas delas, para
ilustrar as técnicas usadas e os tipos de resultados obtidos.
Kates (1962) investigou habitantes de planícies sujeitas a en­
chentes, quanto à sua forma de encarar o problema. Entrevistou
habitantes de seis cidades nas quais estavam à disposição dados abun­
dantes sobre enchentes anteriores. Suas entrevistas revelaram a exis­
tência de uma relação entre a experiência anterior com enchentes e
as expectativas de enchentes futuras e revelaram também que a ado­
ção de medidas de proteção estava relacionada com a experiência
anterior com enchentes.
Não obstante, muitas pessoas que tinham passado anteriormente
por uma ou mais inundações declararam que não esperavam enchen­
tes futuras.
Tais expectativas são baseadas em atitudes e convicções. Em­
bora alguns habitantes acreditem que as enchentes são, de fato, even­
tos repetitivos e que provavelmente se repetirão, poderão sentir que,
por razões especiais, não serão atingidos novamente. Outros não
encaram as enchentes como eventos repetitivos e sentem que as cir­
cunstâncias são tais que suas regiões não serão novamente inundadas.
Poderão basear esta expectativa em programas de controle de en­
chentes existentes ou esperadas ou em sua fé em Deus.
Assim, o interesse em estudos como os realizados por Kates é
que a compreensão de muitas pessoas quanto ao perigo das enchen­
tes não corresponde à realidade. Quando uma região sofre inunda­
ções por muitos anos, seria lógico que a maioria dos habitantes espe­
rasse futuras enchentes, particularmente se não tivessem sido em­
preendidos quaisquer programas de prevenção. Não obstante, mui­
tos deles, quando interrogados, respondem não esperar novas catás­
trofes.
Burton, Kates e White (1968) estudaram as respostas obtidas
em muitas entrevistas que tratavam de catástrofes naturais. Desco­
briram que as respostas dadas por habitantes de áreas flageladas,
quando indagados sobre a possibilidade de repetição das catástrofes,
são de dois tipos. Algumas respostas podem ser classificadas como
“eliminadoras do perigo”, ao passo que as outras podem ser enqua­
dradas na categoria das “eliminadoras da incerteza”. Cada uma
destas categorias tem duas subcategorias. As respostas da categoria
“eliminadoras do perigo” são divididas em: (1) as que negam ou
menosprezam a existência do perigo ( “não pode ocorrer aqui”) e
(2) as que negam ou menosprezam sua reincidência (“um raio nun­
ca bate duas vezes no mesmo lugar” ). As respostas enquadradas

156
- ■C.-1'
Figura 5-4 A percepção de muitos tipos de riscos naturais depende de uma
série de fatores. Certamente a mesma classe de desastre natural pode criar
diferentes percepções e sentimentos. Uma enchente que prejudique colheitas e
construções mas não cause perda de vidas humanas pode ser vista de modo
bem diferente de outra com resultados semelhantes ao que mostra a ilustração.
Foto Abril Press.

como “eliminadoras da incerteza” são divididas em (1) as qüe tomam


a incerteza determinada e conhecida (“as enchentes ocorrem somente
a cada dez anos” ) e (2) as que transferem a incerteza a uma autori­
dade superior (“Deus cuidará de nós” ). Ê evidente que os habitan­
tes de regiões suscetíveis de perigos naturais têm construído sistemas
aprimorados de atitudes e convicções que, para eles, justificam sua
permanência nas áreas perigosas.
Embora enchentes, terremotos, furacões e eventos abruptos e
devastadores semelhantes sejam exemplos óbvios de catástrofes natu­
rais, outros eventos naturais podem ser considerados como catástro­
fes. Consideremos, por exemplo, as secas. São, como outras catás-

157

nstitut A -vJ
o TECA * C ^ f
/
trofcs, amplamentc imprevisíveis e inevitáveis. Apesar disso um
grande número de pessoas mora em áreas a elas suscetíveis, podendo
ser por elas prejudicado. Os efeitos deste tipo de catástrofe natural
sobre o comportamento não têm sido estudados de forma extensa,
embora Saarinen (1966) tenha realizado uma investigação ampla
sobre as expectativas e atitudes de habitantes de regiões áridas das
grandes planícies. Selecionou seis municípios em quatro Estados
(Nebraska, Oklahoma, Kansas e Colorado) que constavam como
muito semelhantes no tocante ao índice de secas e entrevistou
uma série de pessoas em cada uma das seis áreas. Em termos de
incidêhcia efetiva de secas, os moradores de todas as áreas tendiam
a subestimar a frequência de ocorrência. Entretanto, os habitantes
das comarcas mais áridas tendiam a considerar uma maior proba­
bilidade de ocorrência de secas no futuro e, mais especificamente, a
prever uma seca para o ano seguinte.
Em pesquisa mais profunda para comprovar a adaptação dos
habitantes ao seu ambiente semi-árido, Saarinen aplicou em seus
indivíduos de teste não somente os cartões-padrão do Teste de Aper-
cepção Temática (TA T), mas, também, diversos cartões TAT espe­
cialmente elaborados envolvendo cenas do ambiente árido. O TAT
é um teste projetivo que exige que a pessoa componha uma história
sobre cada foto do conjunto de teste, sendo destinado a revelar a um
aplicador treinado os diversos impulsos, necessidades e conflitos que
compõem a estrutura de personalidade do indivíduo. Presume-se
que, na composição da história de cada foto, o indivíduo projetará
sua própria personalidade na situação e revelará aspectos da mesma
que podería não revelar diretamente ao aplicador. A análise das
reações dos indivíduos a esses testes envolve muitos detalhes e não
se enquadraria na finalidade deste livro. Entretanto, Saarinen efeti­
vamente descobriu variações interessantes entre seus indivíduos.
Certamente este enfoque é de potencial considerável nos estudos de
reação do homem às catástrofes naturais de seu ambiente.
Em resumo, portanto, os habitantes de áreas sujeitas a catástro­
fes naturais demonstram atitudes e convicções que podem parecer
bastante estranhas aos que não habitam tais regiões. Especificamente,
a ameaça de ocorrência futura de catástrofes tende a ser subestimada,
com base na probabilidade estatística de repetição do evento. Pare­
ce que os habitantes constroem um sistema elaborado de convicções
e atitudes que reduz, para eles, a ameaça presente no ambiente. Deve-
se tem em mente, entretanto, que a percepção do perigo no ambiente
geográfico fica sujeita a considerável variação individual e que, até
certo ponto, pelo menos, a relevância de uma catástrofe natural (em

158
lermos de impacto direto sobre o indivíduo) c a frequência esperada
de sua ocorrência estão relacionadas com a maneira como é per­
cebida.
Limitamos nossa discussão dos relacionamentos temporário e
permanente do homem com seu ambiente aos estudos de campo,
geralmente do tipo levantamento. Praticamente todas as pesquisas
mais importantes têm sido desta espécie. Entretanto, foram realiza­
dos alguns estudos de laboratório destinados a examinar certos as­
pectos de relacionamento do homem com seu ambiente natural. Ao
concluir este capítulo, mencionaremos brevemente algumas dessas
investigações.

PESQUISA DE LABORATÓRIO

Uma vez que o homem deve trabalhar e lutar sob condições de


calor e frio extremos, diversas entidades governamentais, inclusive
as militares, interessaram-se pelos efeitos desses extremos de tem­
peratura sobre o desempenho. Embora tenha havido algum tra­
balho de campo sobre este assunto, grande parte da pesquisa tem
sido feita em laboratórios onde foi exercido um controle cuidadoso
sobre a variável independente (calor ou frio) e foram obtidas diver­
sas medidas de desempenho de indivíduos expostos a essas variáveis.
Podem ocorrer, é claro, alterações fisiológicas quando os seres
humanos são submetidos a calor ou frio extremos. Podem também
ocorrer alterações comportamentais. Por exemplo, Mackworth
(1961) relata o desempenho de uma série de tarefas sob stress pro­
vocado por calor.
As pessoas ficaram expostas a atmosferas quentes durante várias
horas, obtendo-se, então, temperaturas rectais; as pessoas procede­
ram, então, à execução das tarefas. Em geral, à medida que aumen­
tava a temperatura rectal, piorava o desempenho nas diversas tare­
fas. Em outros estudos, entretanto, foram obtidas descobertas um
tanto diferentes, como o desempenho de certas tarefas melhorando
sob condições de alta temperatura. Poulton (1970) sugere que, à
medida que a temperatura corporal começa a aumentar, os erros serão
também aumentados, uma vez que o nível de ânimo da pessoa é
diminuído. Entretanto, elevando-se suficientemente a temperatura
corporal, o nível de ânimo se elevará e, consequentemente, será
melhorado o desempenho em alguns tipos de tarefas. Embora este
conceito de nível de ânimo dos efeitos do calor não tenha sido

159
verificado, ajusta-se bem ao resultado de outros estudos que tratam
mais diretam ente da relação Anim o-desem penho.
M uito do trab alh o de lab o rató rio que tem sido realizado não
trata do com portam ento, m as de outros tipos de reações ao calor.
Tem sido feita considerável q u an tid ad e de pesquisa, por exemplo,
sobre os fatores envolvidos na aclim atação ao calor. Alterações
fisiológicas, tais com o circulação sangüínea, têm sido estudadas com
detalhes. Estes tópicos, en tretan to , são mais adequadamente dis­
cutidos em livros de fisiologia.
Um a série de estudos tem sido tam bém realizada sobre os efeitos
da variação do nível de frio. E studos iniciais interessavam-se pri-
m ordialm ente pelos efeitos de m ãos frias em determ inados tipos de
tarefas que envolvem destreza. C om o seria de se esperar, a destreza
dos dedos é tanto m enor q u an to m enor a sua tem peratura. Um
estudo feito p or P oulton, H itchings e B rooke (1 9 6 5 ) tratou dos
efeitos da baixa tem p eratu ra corporal sobre o desempenho. Neste
estudo, os indivíduos eram m arinheiros que m ontavam guarda numa
ponte aberta de um navio, d u ran te o inverno. C ada um dos 16 indi­
víduos era solicitado a co n tro lar diversas luzes e relatar o apareci­
m ento de um a luz m uito fraca que vinha a intervalos irregulares.
Q uando o indivíduo observava este sinal fraco, apertava uma grande
tecla com a palm a da m ão ou com o lado de sua m ão enluvada. No
frio ártico (q u an d o co m parado com o desem penho em clima mode­
ra d o ), o desem penho piorava, levando os pesquisadores a concluir
que, com o esfriam ento do corpo, a eficiência do cérebro é prejudi­
cada. O utros estudos têm tam bém indicado um decréscimo no de­
sem penho de vários tipos de tarefas sob condições de frio.
C om o foi o caso na pesquisa com o calor, num erosos estudos
trataram de alterações fisiológicas d u ran te a exposição ao frio e com
a habilidade d o hom em em se aclim atar a ele. H á evidências de
que as pessoas que vivem em clim as frios produzem mais calor ao
descansar do que as pessoas dos clim as m ais quentes, e que as pessoas
que m oram em clim as frios têm um suprim ento mais farto de sangue
em suas extrem idades. O utros estudos revelaram também diversos
tipos de efeitos de aclim atação. E stes estudos, apesar de serem de
interesse p ara os psicólogos am bientais, são discutidos mais adequa­
dam ente em outros tipos de textos.

160
Capítulo 6
O ambiente como fonte de ameaça

O CONCEITO DE STRESS

Expressões como stress e causador de stress constituem parte


de nosso vocabulário diário. Infelizmente, porém, têm vários sig­
nificados diferentes, para diversas pessoas, sejam leigos ou pesqui­
sadores.
Onde um pesquisador usa o termo stress, outro poderá usar
“ansiedade”; outro ainda poderá usar “tensão” e um quarto prefe­
rirá “conflito”. Todos poderão estar se referindo ao mesmo fenô­
meno (Lazarus, 1966, pág. 2). Uma vez que não há concordância
quanto à terminologia no estudo do stress, qualquer definição de
termos aqui utilizados será necessariamente algo arbitrária.
Na literatura neste campo, distinguem-se freqüentemente duas
espécies de stress — stress orgânico e psicológico. O conceito de
stress orgânico foi primeiramente introduzido nas ciências biológicas
por Hans Selye, em 1936, e desde então milhares de artigos e nu­
merosos livros têm sido publicados sobre o assunto. Basicamente,
o stress orgânico é uma situação na qual os tecidos de um organis­
mo reagem a determinados tipos de estímulo nocivo ou são por eles
danificados. Selye refere-se a estas condições de estimulação nociva
como causadores de stress; stress é a reação do organismo aos cau­
sadores de stress. Geralmente nas pesquisas sobre stress orgânico,
é introduzido algum tipo de estímulo adverso, como um agente quími­
co, calor ou frio, e manipulado, sendo então determinados os efeitos
desta manipulação sobre vários sistemas biológicos do indivíduo em
estudo.
Muitos tipos de condições de estimulação, entretanto, não en­
volvem causadores físicos de stress, tais como os tipicamente usados
em estudos de stress orgânico, mas também resultam em reações
consideradas como indícios de um estado de stress no organismo.
Estas condições de estimulação freqüentemente envolvem fatores psi-

161
cológicos que servem como causadores de stress. Embora o orga­
nismo humano possa encontrar situações que envolvam fatores físicos
de stress c stress orgAnico, 6 muito maior a probabilidade de que ele
encontre fatores psicológicos de stress. Enquanto em condições
de stress orgAnico a reação ao stress ó representada pelas alterações
físicas no sistema biológico do organismo, as reações às situações
de stress psicológico são frequentemente bastante diferentes (embora
possam tambóm ocorrer alterações físicas).
Consideremos brevemente as condições que produzem as reaçpes
de stress psicológico c a natureza de tais reações. Appley e Trum-
bull (1967) ressaltam que as condições de estímulo envolvidas no
stress psicológico “são caracterizadas como novas, intensas, de al­
teração rápida, súbitas ou inesperadas, chegando às vezes ao limiar
de tolerância. Ao mesmo tempo, o déficit de estímulos, a falta
de estímulos esperados, estimulação altamente persistente e condi­
ções causadoras de fadiga e tédio, entre outros, têm sido também
descritos como causadores de stress; assim, também estímulos possi­
velmente alucinógenos, além de estímulos que eliciam reações con­
flitantes” (pág. 5 ).
Obviamente, portanto, pode-se conceber muitas situações po­
tencialmente causadoras de stress psicológico. Conforme ressalta­
mos, embora haja muita discordância entre os pesquisadores neste
campo, o acima exposto tem sido utilizado por investigadores como
recurso operacional para definição e produção de stress psicológico.
Uma forma possivelmente mais simples de visualizar o com­
plexo de situações de estimulação que resultam em stress psicoló­
gico consiste em encontrar uma característica comum para a maioria
dessas situações. Conforme frisa Lazarus, “a análise de stress psi­
cológico . . . distingue-se de outros tipos de análises de stress pela
variável ocorrente de ameaça. A ameaça implica um estado no qual
o indivíduo antecipa uma confrontação com uma condição prejudicial
de alguma espécie” (pág. 25).
Desta forma, muitos investigadores sentem que uma situação
de estímulo que envolve ameaça ou antecipação de dano futuro pode
resultar em stress psicológico. Deve-se frisar que o fato de a situa­
ção ser ou não realmente prejudicial para o indivíduo é irrelevante,
uma vez que ele a perceba como ameaçadora. É também importan­
te ter-se em mente que o termo “dano” não designa somente danos
físicos de alguma espécie. Uma situação pode ser considerada amea­
çadora e potencialmente perigosa se envolver constrangimento, em­
baraço, perda financeira, etc.
Na pesquisa sobre stress psicológico, vários tipos de reações
ou respostas têm sido usadas como índice de stress, Lazarus sugere

162
que tais variáveis dependentes se enquadram em quatro categorias
principais: relatórios de afetividade perturbada, reações motoras-
comportamentais, alterações na adequação de diversos tipos de jun­
ções cognitivas e alterações fisiológicas. Os distúrbios afetivos, tais
como ansiedade, cólera e depressão são reações comuns ao stress.
bem como determinados tipos de comportamento motor, como a
tensão muscular permanentemente alta, distúrbios da fala, expres­
sões faciais, postura corporal e perda de controle dos esfíncteres.
Alterações na função cognitiva são outras reações ao stress; há
“uma farta literatura a respeito dos efeitos de stress sobre a percep­
ção, pensamento, julgamento, resolução de problemas, habilidades
motoras e perceptivas e adaptação social” (Lazarus, 1966, pág. 7).
Muitos tipos de medidas fisiológicas e psicofisiológicas têm sido
utilizados como índices de estado de stress. Entre estes índices
estão alterações na composição do sangue (especialmente, em se
tratando dos eosinófilos), elevações na taxa de 17 cetosteróides
na urina, alterações no funcionamento da glândula adrenal, aumentos
ou diminuições na influência de diversas glândulas, alterações na
taxa cardíaca, reação galvânica da pele (GSR), etc.
Não se deve enfatizar com exagero, entretanto, que a possibili­
dade de uma situação qualquer produzir tais reações de stress de­
penda muito das características da ou das pessoas envolvidas. Si­
tuações percebidas por uma pessoa como ameaçadoras poderão sê-lo
de forma muito diferente por outras. Além disso, a experiência ante­
rior de um indivíduo com uma dada situação determinará, em grande
parte, a sua percepção da mesma. Desta forma, com a repetida
exposição a uma situação, pode ocorrer adaptação; a situação não é
mais tida como ameaçadora como o fora antes e pode ou não ocorrer
uma reação de stress, porém consideravelmente modificada.
O fato de os indivíduos diferirem quanto aos modos segundo
os quais percebem situações específicas ou condições de estímulos
toma freqüentemente difícil a pesquisa sobre o stress psicológico.
Não se pode presumir que todos os indivíduos percebam as condi­
ções de estímulo da mesma forma. E ainda: mesmo que todos os
indivíduos percebessem a situação de forma semelhante, fatores de
personalidade e experiências anteriores determinariam em grande
parte a reação de stress apresentada.

O ambiente como fonte de ameaça

Considerando-se a tremenda faixa de atividade a que o homem


está ligado, pode-se presumir que muitas destas atividades colocam

1 63
uma pessoa em situações percebidas como ameaçadoras e que, conse­
quentemente, sào causadoras de stress. Tais situações podem ?cr
encontradas no lar, no trabalho, em divertimentos, em muitos rela­
cionamentos sociais — de fato, em quase tedas as situações em que
o homem se relaciona com o ambiente. Uma parte significativa da
literatura de muitas áreas de psicologia trata do que pode ser con­
siderado stress ambiental e das reações do homem em situações de
stress. Por exemplo, grande parte da psicologia da anormalidade
trata de reações de stress, bem como grande parte da psicologia
industrial, social e de aconselhamento de casais.
Trataremos, neste capítulo, de alguns dos fatores causadores de
stress que estão associados à nossa sociedade urbana cada vez mais
complexa.
Os muitos problemas sociais básicos que podem ser considera­
dos causadores de stress incluem a falta de espaço, pobreza urbana,
deterioração educacional, serviços de saúde inadequados, crimes,
discriminação racial e muitos outros. Fatores ambientais como a
poluição do ar, da água e sonora podem também ser considerados
causadores de stress, posto que muitas pessoas os consideram uma
ameaça ou fonte potencial de danos. Estas espécies de problemas
revestem-se de especial interesse para os psicólogos ambientais. Não
podemos discuti-los todos, mas examinaremos particularmente diver­
sos deles de forma a ilustrar sua complexidade e os enfoques usados
pelos investigadores para melhor entendê-los e ajudar a solucio­
ná-los.

SUPERPOPULAÇÃO

Um problema social de primeira ordem, considerado por muitos


como uma séria ameaça, é a população mundial sempre crescente.
Lemos e ouvimos muito sobre o desastre iminente da população
mundial e as muitas predições sobre multidões famintas e falta total
de espaço. Embora não tenhamos ainda alcançado este estágio nos
Estados Unidos, determinadas partes do mundo estão se aproximando
dele e, certamente, em muitas áreas neste país a densidade popula­
cional e a consequente falta de espaço são tais que se tornam sério
problema.
Embora o termo “superpopulação” seja comum e o usemos com
freqüência, o mesmo exige uma definição. Em discussões dos pro­
blemas de população são freqüentemente utilizados dois termos:
densidade de população e superpopulação. Densidade de população

164
6 o número de pessoas ou de animais que ocupam uma determinada
unidade de espaço. “Espaço” neste caso pode referir-se a uma sala,
um edifício, uma cidade ou qualquer outra unidade definível. Embo­
ra seja uma definição simples de densidade de população — há quem
considere densidades internas, densidades externas, densidade social,
densidade espacial, etc. — a definição apresentada aqui é adequada
para nossas finalidades. Quando a densidade populacional alcança
um alto nível, é comum dizermos que ocorre superpopulação. Desta
forma, em algum ponto ao longo do contínuo da densidade popula­
cional, presume-se a ocorrência da condição da superpopulação.
Embora seja conveniente definirmos superpopulação objetiva­
mente como um nível de densidade populacional, esta condição é
mais apropriadamente concebida em termos mais subjetivos. Enfa­
tizamos que a experiência passada de uma pessoa e sua personalidade
são fatores importantes na determinação de sua percepção de uma
situação específica. Assim, quando a densidade populacional au­
menta e as pessoas são forçadas a viver cada vez mais próximas umas
das outras, em um determinado ponto uma pessoa sentir-se-á em
condição de superpopulação, perceberá a situação como portadora
de algum grau de ameaça e, conseqüentemente, sofrerá stress.
Entretanto, o ponto em que ocorrerá a experiência subjetiva de su­
perpopulação dependerá tanto das características da pessoa envolvida
como das da situação específica. Assim, alguns indivíduos podem
não se sentir em condição de superpopulação em áreas urbanas de
densidade populacional muito alta, ao passo que outros experimentam
tal condição se encontram algumas pessoas numa área de camping
no alto de montanhas. Por outro lado, a mesma pessoa que não
sente falta de espaço na cidade, poderá experimentá-la quando, numa
viagem de campismo, for forçada a compartilhar a área de cam­
ping com outros. Isto pode ocorrer mesmo quando as densidades
populacionais das duas situações forem muito diferentes.
Numa análise mais formal Zlutnick e Altman (1972) enumeram
as variáveis ligadas à superpopulação sob três grupos principais. No
primeiro grupo acham-se as variáveis situacionais, que incluem fato­
res associados a um quadro especial, tais como o número de pessoas
por unidade de espaço dentro de uma sala ou residência (densidade
interna); as pessoas por unidade de espaço fora da sala ou da re­
sidência, como no caso da vizinhança (densidade externa); a duração
de exposição à situação e às características do quadro, tais como o
tipo de sala, o modo como é disposto o espaço e assim por diante.
Estas e outras variáveis situacionais auxiliam a determinar se a ex­
periência de superpopulação ocorrerá.

165
A segunda categoria consiste em determinantes interpessoais da
população. Uma destas variáveis de grande importância é a capa­
cidade dc uma pessoa de controlar relações com outros. As pessoas
controlam relações com os demais de várias formas, desde o isolar-se
completamente numa sala para evitar relacionamento, até súbitos
comportamentos não verbais, como desviar-se ou assumir algum tipo
de postura corporal que possa desencorajar relações com os demais.
Conforme ressaltam Zlutnick e AItman: “Todo um espectro de téc­
nicas é usado para controlar o ritm o dos relacionamentos com as
demais pessoas. Uma hipótese é que, quando falham tais meca­
nismos de controle, especialmente em situações de alta densidade,
pode existir uma condição comumente descrita como superpopulação”
(pág. 5 2 ).
O terceiro grupo de variáveis são os fatores psicológicos. Con­
forme ressaltado, a experiência passada e a personalidade de uma
pessoa são impoTtantes para determ inar se essa pessoa experimenta
falta de espaço numa situação particular. Entre os muitos fatores
adicionais que podem auxiliar a determ inar se o indivíduo em questão
sente o efeito de superpopulação, acham-se suas expectativas quanto
ao que considera uma densidade ótima numa determinada situação
e a sua capacidade perceptiva de controlar relacionamentos.
Os efeitos da superpopulação sobre o comportamento humano
têm sido relativamente pouco pesquisados. Entretanto, tem-se rea­
lizado um número substancial de investigações dos efeitos da
densidade populacional sobre o com portam ento animal (particular­
mente roedores) e estes estudos podem ter algumas implicações rela­
tivas ao comportamento hum ano. Conseqüentemente, consideramos
com detalhes as descobertas de estudos efetuados com animais, em­
bora com a ressalva de que os roedores estão muito distantes de
modelos perfeitos de seres hum anos, de form a que as generalizações
obtidas desse estudo para o com portam ento humano devem ser feitas
com muito cuidado.

Estudos de densidade populacional com animais

H á uma evidência considerável de que a população de muitas


espécies de mamíferos, especialm ente de roedores, é autolimitante.
Uma vez alcançada um a determ inada densidade populacional, as
capacidades reprodutivas dos animais são modificadas de modo a ga­
rantir que a população perm aneça estável ou decresça. Grande parte
da pesquisa sobre densidade populacional em animais tem-se desti­
nado a explicar por que ocorre este fenômeno de autolimitação.

166
Uma explicação corrente baseia-se no conceito de stress social.
Ê opinião unânime que, à medida que aumenta a densidade popula­
cional, os animais ficam sujeitos a sempre mais contatos com outros
animais e que, em algum ponto, estes contatos sociais tornam-se
fatores de stress. Assim, a condição de alta densidade populacio­
nal é considerada causadora de stress que cria diversas alterações
comportamentais e físicas nos animais.
Estas alterações podem ser dramáticas e facilmente observáveis
ou sutis e observáveis somente sob condições cuidadosamente contro­
ladas. Um exemplo de reação dramática associada a densidades
populacionais altas é a migração em massa de lemingues *. Entre­
tanto, o comportamento de animais sujeitos a altas densidades po­
pulacionais pode também envolver comportamento mais agressivo do
que o normal, diversas formas de comportamento sexual “aberran-
te”, mães que devoram suas crias jovens e outros tipos de comporta­
mento que, para os animais envolvidos, podem ser considerados não
usuais ou anormais. Podem também ocorrer alterações físicas, com
modificação de vários órgãos internos e distúrbios endócrinos. As­
sim, sob condições de stress, as glândulas de adrenalina e a pituitária
aumentam e se tornam hiperativas, ao passo que as gônadas podem se
atrofiar e tornar-se hipoativas. Discutindo os efeitos dos causadoras
de stress sobre tais glândulas, Thiessen e Rodgers (1961) ressaltam:
“Se a densidade populacional fosse causadora de stress, estaria
inversamente relacionada com a atividade gonadal e, portanto, com
o comportamento reprodutivo, bem como com os outros fatores que
afetam a sobrevivência. Tais relações poderiam explicar a aparente
natureza autolimitante da densidade populacional e ajudariam a
explicar o ciclo trifásico de população.
Sob condições de baixa densidade populacional e outras cir­
cunstâncias favoráveis, a atividade gonadal e reprodutiva seria alta,
resultando numa expansão de população. A crescente densidade
populacional, atuando como um crescente causador de stress, redu-
ziria eventualmente a reprodução até o ponto em que as mortes se
igualassem aos nascimentos. A população alcançaria equilíbrio na­
quele ponto e entraria na segunda fase do ciclo de população. Tal
estabilidade seria mantida até que a população ficasse sujeita a um
causador adicional de stress, como seja o aumento da luz do dia ou
do frio, decorrentes de alteração sazonal. O causador adicional de
stress podería destruir o equilíbrio e precipitar um declínio mais ou
menos rápido da população, em parte pelos seus efeitos sobre o ín-

* Pequeno roedor das regiões árticas. (N . do T .)

167
dicc dc rep ro d u ção , cm p arte p o r outros efeitos letais decorrentes
do au m en to dc strc ss” (págs. 441 c 4 4 2 ).
N ão ten tarem o s resu m ir todos os estudos deste campo. Descre­
verem os, ao invés disso, diversas investigações que são representati­
vas dos en fo q u es u sados pelos pesquisadores no estudo dos efeitos
do au m en to de p o p u la ç ã o so b re os anim ais. Em geral, estes estudos
são ou estu d o s de cam p o , em que o investigador tenta estudar os
an im ais sob co n d ições n a tu ra is ou aproxim adam ente naturais, ou
estu d o s de la b o ra tó rio , nos q uais os anim ais são pesquisados sob
condições cu id a d o sa m e n te co n tro lad a s.

Estudos de campo

E ra u su al, em c e rta época, explicarem as alterações de popula­


ção de p eq u e n o s m am ífero s com o re su ltad o de ciclos ambientais —
p o r ex em p lo , te m p e ra tu ra e chuvas, populações de predadores, ou
ciclos d e d o en ças o u de d isp o n ib ilid ad e de alim ento e abrigo. Em­
b o ra estes p o ssam ser fato res im p o rtan tes, em alguns casos, um estu­
do d esen v o lv id o p o r C a lh o u n (1 9 5 2 ) d em o n stro u que outros aspectos
d o am b ien te p o d em ser ain d a m ais im p o rtan tes na limitação da po­
p u laçã o .
N esses estu d o s, C alh o u n o b serv o u ra to s num cercado de pouco
rnais de 9 0 0 m etro s q u a d ra d o s, d u ra n te 28 meses. Durante este
tem p o , a p o p u la ç ã o d a colônia cresceu de uns poucos espécimes até
cerca de 150 e e n tã o estab ilizo u -se neste núm ero. De especial in­
teresse n este estu d o foi que a p o p u la ç ã o perm aneceu neste nível,
e m b o ra C alh o u n estim asse h a v e r alim en to e espaço bastante para
diversos m ilh a res d e rato s. D e ac o rd o com a tax a reprodutiva ob­
serv ad a, p o d e r-se -ia e sp e ra r u m a p o p u la ç ã o de pelo menos 5.000
ra to s ad u lto s; esta, e n tre ta n to , e sta c io n o u em cerca de 150 devido
à tax a de m o rta lid a d e “ in fa n til” e x tre m a m e n te alta.
M esm o com so m en te 150 ad u lto s n a área, o stress resultante
do re la c io n a m e n to social lev o u a u m a ru p tu ra do comportamento
m a te rn o d e ta l o rd e m q u e a m a io ria d o s ra to s jovens não sobreviveu.
C alh o u n d e c la ra ;
“À m ed id a q u e a p o p u la ç ã o a u m e n ta v a em núm ero, havia um
au m en to n a freq íiên cia, in te n sid a d e e co m p lex id ad e dos ajustes de
c o m p o rta m e n to n ecessário s d e n tro de c a d a g ru p o e entre vários gru­
pos. Isto levou um n ú m e ro ca d a vez m a io r de ratos à instabilidade
social p a ra le la m e n te a u m a d im in u iç ã o do potencial biótico até o
p o n to em q u e h o u v e eq u ilíb rio e n tre n a ta lid a d e e m ortalidade —

168
tudo isso em contínua superabundância de alimentos e incomum dis­
ponibilidade de espaço para abrigo” (pág. 141),
Embora Calhoun não relate quaisquer alterações físicas nos ratos
à medida que sua população crescia até atingir seu nível máximo de
mais ou menos 150 indivíduos, outros estudos demonstram que há
uma relação definida entre a densidade populacional e a atuação das
supra-renais em populações naturais de ratos, na Noruega. Christian
e Davis (1956), por exemplo, estudaram ratos de 21 quarteirões da
cidade de Baltimore. Ressaltam que “cada quarteirão da cidade é
efetivamente uma ilha e seus ratos formam uma unidade distinta de
população, uma vez que a imigração e emigração de ratos é insigni­
ficante ou inexiste” (pág. 476). Em todos os quarteirões estudados
houve disponibilidade de alimentos em abundância (em latas de
lixo) e de abrigos adequados.
No início da investigação, dispunha-se de quantidade conside­
rável de informação — proveniente dos estudos anteriores — sobre
as características populacionais dos diversos quarteirões. Estes da­
dos e outros, coletados de ratoeiras, permitiram aos investigadores o
estágio de ciclo populacional de cada um dos quarteirões. Estes
estágios ilustrados na fig. 6-1 foram denominados: estágio estacioná­
rio baixo, crescente baixo, crescente alto, estacionário alto e decres­
cente.
Desta forma, se um estudo longitudinal tivesse sido realizado
num só quarteirão, dever-se-ia esperar que sua população de ratos
seguisse cada um dos estágios mostrados na fig. 6-1. No estudo de
Christian e Davis, entretanto, foi selecionada para estudo uma série
de quarteirões, determinando-se em qual estágio estavam os ratos
de cada um.
Foram apanhados e mortos ratos de todos os quarteirões, tendo
sido determinados os pesos de uma série de órgãos. Embora o
peso da glândula supra-renal fosse o de principal interesse, os pesos
das glândulas do timo, tireóide e pituitária foram também medidos.
Não se constatou nenhuma alteração nos pesos do timo, pituitária e
tireóide. Entretanto, foi descoberto um aumento progressivo nos
pesos das glândulas supra-renais, com início no estágio crescente
baixo, progredindo até os estágios crescentes alto e estacionário alto,
encerrando-se com um aumento geral de 18% no peso das supra-
renais dos ratos das populações em estágio. Na medida em que o
peso dessas glândulas correlaciona-se com sua atividade, os resultados
desta investigação indicam que o stress aumenta na medida que pro­
gride o ciclo da população. Uma vez que havia ampla disponibili­
dade de alimentos, parece que fatores sociais, e não puramente bio-

169
Estágios do crescimento demográfico

População

Figura 6-1 Curva de crescimento populacional hipotético. N o estudo de


Christian e Davis, cada população de ratos fo i colocada em um dos cinco
estágios populacionais na época da coleta de cada amostra. Extraído de Chris­
tian, J. J. e Davis, D . E., The relationship between adrenal weights and popu-
lation status of urban Norway rats, Journal of Mammalogy, 1956, 37: 475-486.
Reproduzido com permissão do Journal of Mammalogy.

lógicos, foram de primordial importância na determinação da dife­


rença dos pesos das supra-renais.
Uma série de outros estudos de campo descobriram a existência
de associação entre a densidade populacional e alterações nos pesos
da supra-renal e outros índices fisiológicos presumivelmente refletores
do stress. Em todos estes estudos, a abundância de alimentos e
ausência de outros fatores de stress ambientais sugerem que os cau­
sadores sociais de stress resultantes de alta densidade populacional
são responsáveis pelas reações de stress observadas.

Estudos de laboratório

Estudos de laboratório, nos quais a densidade populacional pode


ser cuidadosamente controlada e nos quais as variáveis estranhas
que podem atuar como causadoras de stress podem ser ou elimina­

170
das ou controladas, têm confirmado as descobertas de campo de que
a densidade populacional elevada é causadora de stress. Desco­
briu-se, nestas investigações, que as glândulas supra-renais aumen­
tam proporcionalmente com a densidade populacional; pode-se notar,
também, alterações em outros órgãos. Um dos estudos que mos­
tram relação entre o tamanho da população e o tamanho da glândula
supra-renal é o de Christian (1955). Colocou camundongos des-
mamados em grupos de 1, 4, 6, 8, 16 e 32, durante uma semana.
Os animais foram então mortos e suas glândulas supra-renais
pesadas. Os pesos da glândula indicaram uma relação linear ao
logaritmo do tamanho da população em todos os casos, exceto no do
grupo de 32 ratos, nos quais o peso da supra-renal diminuiu. Tni-
cialmente, Christian interpretou sua descoberta como um resultado
de uma “deterioração da estrutura social”, até este tamanho de
grupo, representativa de alguma diminuição do stress. Entretanto,
um trabalho posterior desenvolvido por Christian indicou que o de­
créscimo do peso da supra-renal a este nível da população era re­
sultante de uma perda de lipídios das células corticais da glân­
dula, o que indica intensa ativação do córtex adrenal. Assim, a
tendência de proporcionalidade entre os aumentos da atividade supra-
renal e da densidade populacional revelou-se verdadeira, para to­
dos os limites de estudo.
Quando a densidade populacional atinge determinado nível,
indubitavelmente ocorrem alterações fisiológicas que refletem uma
situação de stress no animal. Entretanto, conforme indicamos, as
reações de stress podem refletir-se também em alterações no com­
portamento. Embora haja número consideravelmente maior de pes­
quisas sobre os tipos físicos das reações de stress que resultam de
alta densidade populacional, um estudo clássico por Calhoun (1962)
revela grande parte das alterações comportamentais que podem estar
associadas neste tipo de fator de stress. Calhoun dividiu uma sala
de aproximadamente 3x4 metros em quatro espaços, conforme in­
dicado na fig. 6-2. Cada um dos espaços era uma completa uni­
dade habitacional para ratos, incluindo um frasco com água, um
cocho com alimentos e uma toca artificial elevada, acessível por
uma escada em espiral. Os espaços eram separados por divisões
eletrificadas com rampas construídas sobre elas, de forma que os
ratos tinham acesso a todos os espaços. O comportamento dos
ratos foi observado através de uma janela no teto da armação. A
população de ratos foi mantida constante em 80 ratos, deixando-se
nos espaços ratos jovens em quantidade suficiente apenas para subs­
tituir os mais velhos que haviam morrido.

171
Figura 6-2 Visão superior do arranjo de celas usado por Calhoun para estu­
dar superpopulação em ratos. Notar que as rampas são conectadas com todas
as celas, menos com as celas 1 e 4. Extraído de Heimstra, N . W. e McDonald
A. L., Psychology and contemporary problems, Monterey, Calif.: Brooks/Cole
1973.

Conforme pode ser visto na fig. 6-2, não havia rampa entre os
espaços 1 e 4. Estes espaços eram alcançados por somente uma
rampa cada um, ao passo que os espaços 2 e 3 eram atingidos por
duas rampas cada. Assim, devido ao número de rampas que in­
gressavam nos espaços, os números 1 e 4 podiam ser considerados
espaços finais e os 2 e 3, espaços médios. Devido ao número de
rampas disponíveis, e por outras razões, os espaços 2 e 3 tinham den­
sidade populacional mais alta que os espaços 1 e 4. Os membros
fêmeas da população tendiam a distribuir-se quase que igualmente
nos quatro espaços, ao passo que os animais machos concentravam-
se nos espaços 2 e 3. Os espaços 1 e 4 continham, cada um, um
macho dominante que toleraria apenas alguns machos a mais, que
respeitassem seu domínio. O amontoamento de animais em núme­
ros desusadamente grandes, conforme ocorria nos espaços 2 e 3, é
chamado desmoronamento comportamental. Conforme ressalta Ca­
lhoun, “as conotações doentias do termo não são acidentais: um
desmoronamento comportamental efetivamente atua de forma a agra­
var todas as formas de patologia encontradas num grupo” (pág. 144).

172
Formas extravagantes de comportamento começaram a se de­
senvolver muito rapidamente, em especial entre os animais em des­
moronamento comportamental. Tanto o comportamento dos ratos
machos como o das fêmeas veio a ser afetado. Estas tornaram-se
menos hábeis na construção de ninhos e eventualmente pararam de
vez com essa atividade. Além disso, ao invés de transportar seus
filhotes de um lugar para outro, que é o comportamento normal, as
fêmeas simplesmente apanhavam-nos e deixavam-nos cair em dife­
rentes lugares no cercado. Durante os períodos de cio, as ratas
eram quase continuamente perseguidas por bandos de machos. A
taxa de mortalidade entre estas fêmeas, durante a gravidez e o parto,
era muito elevada.
Uma série de tipos de comportamento foi exibida pelos ratos
machos. Os machos agressivos, dominantes, eram os mais normais,
mas, algumas vezes, também estes animais ficavam frenéticos e ata­
cavam as fêmeas, os jovens e os machos submissos. Alguns dos
machos não dominantes revelaram comportamento homossexual por
não poderem discriminar entre parceiros sexuais apropriados e im­
próprios. Outros machos tornaram-se completamente passivos, mo-
vendo-se através do cercado, ignorando outros ratos e sendo, por
sua vez, ignorados. Embora fossem gordos e lisos, sem quaisquer
cicatrizes, sua desorientação social era quase completa.
Possivelmente o tipo mais estranho de comportamento foi de­
monstrado pelos ratos machos que Calhoun denominou “prova­
dores”. Estes ratos, que sempre moravam nos cercados médios,
eram hiperativos e hipersexuais. Estavam sempre na expectativa
de uma fêmea no cio e, caso não pudessem achar uma em seu pró­
prio cercado, permaneciam à espera no topo de uma rampa que
levasse a outro cercado. Estes animais eram também homossexuais
e alguns eram canibais.
Marsden (1972) descreveu outro estudo efetuado no laborató­
rio de Calhoun que é um tanto parecido com o estudo anterior.
Nesta investigação, foram introduzidos 8 camundongos naquilo que
Marsden, com base em seu critério de fornecimento de alimentos e
de acomodações, descreve como “uma utopia potencial para ratos”.
Quatro camundongos eram machos e quatro fêmeas. A “utopia”
foi observada atentamente à medida que a população de camundon­
gos aumentava, excedendo o que era considerado uma população
ótima, e se aproximava do máximo. No decorrer desta evolução
“resultaram processos que implicaram na emergência de tipos de
animais progressivamente mais divergentes, desviando-se fortemente
do comportamento ideal que deveria ter um camundongo — ou seja,

173
um macho ocupante e defensor de seu espaço pessoal e procriador
de sua espécie, c a fêmea como apoio e proteção de jovens saudá­
veis” (pág. 9).
Os padrões anormais de comportamento foram primeiramente
vistos em camundongos machos. Os machos que tinham sido ex­
pulsos de seus cercados usuais moravam agora em espaço aberto, em
grandes grupos de indivíduos semelhantes. Moviam-se até onde
havia alimento e água, mas voltavam então aos seus grupos. O
comportamento normal de camundongos desapareceu e estes retira-
ram-se quase que totalmente de suas relações sociais normais.
Os machos expulsos, agrupados no piso, foram os primeiros di­
vergentes a emergir à medida que aumentava a densidade popula­
cional. Um segundo tipo apareceu imediatamente após. Estes
eram machos expulsos solitários, que viviam sós no piso, na base
dos cochos de comida ou no topo dos mesmos. Havia também
um terceiro tipo de machos devoradores que Marsden denominou
“os bonitos”, uma vez que eram gordos, macios e de boa aparência
e tinham poucas feridas, se não nenhuma. Moravam nos cercados
mas não participavam de atividades de sexo ou competição de terri­
tório. Estes camundongos pareciam estar realmente menos envol­
vidos em atividades sociais do que quaisquer dos grupos ou dos ex­
pulsos solitários. Aparentemente, este tipo não tinha stress; testes
de enzimas das supra-renais indicaram que os “bonitos” tinham nível
mais baixo de enzimas que os camundongos expulsos.
A população de camundongos atingiu um máximo de cerca de
2.000, o que era metade do máximo teórico mas um valor bem aci­
ma do que era considerado ótimo. Quando o número de camun­
dongos chegou por volta de 2.000, a população começou a diminuir
sensivelmente. De fato, enquanto este capítulo estava sendo escri­
to, Calhoun acabava de relatar que o último camundongo de sua
“utopia” para ratos tinha morrido.
Fica claro, a partir destes e de diversos outros estudos que não
analisamos, que a pressão social exercida pela alta densidade popu­
lacional resultará em alterações drásticas de comportamento bem
como em reações de stress manifestadas por alterações fisiológicas
no animal.

Combinações de fatores de stress

Em estudos de laboratório, bem como em muitos estudos de


campo, os pesquisadores tentam eliminar ou controlar as variáveis

174
outras que não a variável indepbndentc que sc crê poder afetar os in­
divíduos cm estudo. Embora esses esforços constituam um proce­
dimento experimental necessário, levam os estudos para além do
mundo real, onde numerosas variáveis atuam em conjunto e afetam
o organismo. Desta forma, sabemos que uma alta densidade po­
pulacional é um fator de stress e causa uma série de reações. O
que acontece, entretanto, em situações de alta densidade populacio­
nal, quando são adicionados outros fatores de stress?
Relativamente pouca pesquisa tem sido feita sobre os efeitos
da densidade populacional em combinação com outros fatores de
stress. Entretanto, para ilustrar os efeitos dramáticos que as com­
binações de fatores de stress podem exercer, vamos abordar breve­
mente a pesquisa em que os fatores sociais de stress associados à
densidade populacional são combinados com fatores químicos de
stress.
O sulfato de anfetamina é um estimulante do sistema nervoso
central que começou a ser usado por um número significativo de
pessoas, devido às suas propriedades de alteração do estado de
ânimo. Além deste uso ilícito, a droga passou a ser amplamente
utilizada no tratamento de determinados tipos de desordens compor-
tamentais em crianças. Quando administrada a um indivíduo de
pesquisa, como seja um camundongo ou um rato, a mesma o levará,
geralmente, à hiperatividade e a outras alterações comportamentais.
Alguns anos atrás, descobriu-se que a anfetamina era muito
mais letal para camundongos reunidos em grupos de 3 ou 4 do que
para animais isolados. Por exemplo, um LD 50 (dose letal para
50% dos indivíduos) podería ser de cerca de 125 mg/kg para ca­
mundongos que são tratados com a droga e colocados em isolamen­
to. Entretanto, o LD 50 para camundongos tratados e colocados
em grupo é de somente 10 mg/kg.
Se injetássemos nos sujeitos 50 mg/kg de anfetamina e os co­
locássemos em isolamento, observaríamos uma série de efeitos com­
portamentais. A maioria dos camundongos tornar-se-ia hiperativa;
alguns desenvolveríam comportamento estranho, como morder a ar­
mação da gaiola ou mover rapidamente cabeça para a frente e
para trás. Em geral, seria fácil ver que estes camundongos se
comportam diferentemente dos camundongos não tratados. Muito
poucos morreríam, entretanto. Por outro lado, se déssemos a uma
série de camundongos 50 mg por quilo e os colocássemos em grupos
de 4 em pequenas jaulas, as alterações comportamentais mostradas
por este grupo em comparação com grupos de controle não medi­
cado seriam gritantes. Quase que imediatamente os camundongos

175
começariam a dcbatcr-sc em volta dc suas jaulas a uma velocidade
tremenda. Ocasionalmente, quando se encontrassem, adotariam
uma postura defensiva, ficando sobre suas patas traseiras e man­
tendo as patas dianteiras em posição de boxe. Quase que imedia-
tamente a corrida seria retomada. Dentro de poucos minutos, to­
dos os camundongos tratados com anfetaminas na condição de grupo
entrariam em convulsões e morreríam.
A letalidade desta combinação de densidade populacional e an-
fetamina pode inclusive ser aumentada pela adição de outros fatores
de stress. Por exemplo, camundongos em grupos morrerão com
uma dosagem ainda menor de anfetamina se for adicionado o calor
como fator de stress numa sala de testes com alta temperatura. Ou­
tras variáveis diminuem a letalidade. Um estudo feito por Mast e
Heimstra (1962) indicou, por exemplo, que a experiência social an­
terior modificará a taxa de óbitos de camundongos tratados por an­
fetamina quando colocados em condições de grupo. Os camun­
dongos criados em condições de grupo, quando tratados com a droga,
têm uma taxa de mortalidade inferior à dos camundongos criados
em isolamento. Obviamente, assim, muitos fatores modificarão os
efeitos de stress da densidade populacional.
Com base nas descobertas dos estudos de densidade populacio­
nal com animais somos, logicamente, tentados a fazer predições de
mau agouro sobre a eventual sorte dos seres humanos, se as pres­
sões populacionais se tornarem demasiada altas. Conforme ressal­
tamos, entretanto, os roedores estão muito longe de um modelo per­
feito do ser humano e quaisquer generalizações a partir de descober­
tas de estudos de animais para o comportamento de seres humanos
deverão ser feitas com grande cautela. Clough (1965) ressalta:
“Como se pode esperar, as idéias propostas para explicar os
ciclos animais — especialmente a descoberta de que a vida em con­
dição de superpopulação pode ter profundos efeitos fisiológicos —
estão sendo usadas agora para se discutir os problemas da popula­
ção humana. Mas, no meu ponto de vista, há muitas diferenças bá­
sicas para que se leve a sério grande parte desta especulação. Por
um lado, historicamente, as populações humanas têm mostrado so­
mente crescimentos equilibrados através de milhares de anos — ou
nenhuma alteração significativa, no caso de alguns povos isolados.
Nunca houve o crescimento e o decréscimo regulares, a curto prazo,
que se constatam na população de roedores. Por outro lado, em­
bora seja provavelmente verdade que os seres humanos que super-
povoam os centros urbanos sejam atormentados por determinadas
doenças mentais e físicas de civilização, suas taxas de nascimento

176
mio ficam grandcmcntc inibidas (c mesmo não o ficam, absoluta-
mcnle) nem aumentam as suas taxas de mortalidade. De fato, as
taxas de nascimento são comparativamente altas nos povos que vi­
vem nas condições mais pobres de nutrição, habitação e, talvez mes­
mo, em condições de opressão emocional e mental” (págs. 204-205).

Superpopulação e comportamento humano

Ressaltamos que os dados empíricos rigorosos sobre os efeitos


da superpopulação sobre o comportamento humano são escassos.
Discutimos, em diversos pontos do livro, estudos relativos a esta
seção, e não os consideraremos novamente. Por exemplo, parte da
pesquisa realizada sobre o relacionamento existente entre a densida­
de populacional e as doenças físicas e mentais foi discutida no cap. 4.
Do mesmo modo, algumas das investigações no mesmo capítulo, que
trata da vida na cidade, seriam apropriadas aqui, como o seriam
os estudos que comparam o comportamento de habitantes de grandes
cidades com os habitantes de áreas rurais. Entretanto, concluire­
mos nosso estudo quanto à densidade populacional, considerando al­
gumas investigações de laboratório referentes à superpopulação e
seus efeitos sobre o comportamento.
Em estudo de superpopulação em laboratório, emprega-se espe­
cificamente o método experimental de observação do comportamen­
to. É bom lembrar que os pesquisadores, usando este método, ma­
nipulam algum aspecto do ambiente (uma variável independente) e
observam os efeitos desta manipulação sobre alguma forma de com­
portamento (uma variável dependente). Usualmente, em estudos
de superpopulação, a densidade populacional é a variável indepen­
dente, ao passo que uma série de diferentes tipos de comportamen­
to pode servir como variável dependente. Relativamente poucos
estudos deste tipo têm sido efetuados, mas o crescente interesse no
problema de superpopulação deve levar sempre a mais investigações
deste tipo.
De modo característico, nos estudos que relatamos, os indiví­
duos são expostos a vários graus de densidade populacional e soli-
cita-se-lhes que classifiquem seus sentimentos sob tais condições.
Uma pessoa pode ser solicitada a completar uma escala de ansie­
dade, uma escala de stress de algum tipo, uma escala de nível adverso
ou outra qualquer, em meio a uma série de escalas propostas, para
medir o seu estado afetivo. Diferenças entre as classificações obti­
das sob as várias condições de população são então comparadas.
Raramente são obtidas medidas de desempenho em tarefas.

177

X* i N S T i r i : " .
r *-l C I O T Ç _ • • -
Smith c Haythorn (1972) usaram 56 homens alistados na Ma­
rinha como indivíduos num estudo dos efeitos do isolamento a longo
prazo sobre o comportamento. Os indivíduos foram isolados em
grupos de 2 ou 3 durante 21 dias. Embora a variável independen­
te principal neste estudo fosse o tamanho do grupo, os investigado­
res estavam também interessados numa série de outras variáveis, in­
clusive a quantidade de espaço disponível. Assim, alguns dos gru­
pos foram testados sob condições de isolamento e confinamento que
permitiam espaço utilizável de aproximadamente 20 metros cúbicos
por homem, ao passo que outros grupos foram confinados em salas
de teste com pouco mais de 50 metros cúbicos por homem. O pro­
jeto envolveu, então, grupos de dois homens sob condições de mais
e menos espaço disponível e grupos de três homens, sob as mesmas
condições. As variáveis dependentes foram muitas, tanto de ordem
fisiológica como psicológica.
Entre as medidas psicológicas estavam divèrsos testes projetados
para medir stress, ansiedade e aversão. A medida de stress indicou
que os grupos eram altamente semelhantes durante os primeiros 9
dias de confinamento. Entretanto, durante o restante de tempo, a
população pareceu ter efeito maior sobre os grupos de três homens
do que sobre os de dois. Os primeiros, na condição de menor es­
paço, apresentaram o grau mais alto de stress e, na condição de maior
espaço, exibiram o grau mais baixo. Os grupos de 2 homens clas­
sificaram-se entre esses extremos. Medidas do grau de ansiedade
mostraram que os grupos de 2 homens, sob ambas as condições de
espaço, e os grupos de 3 homens, sob a condição de menor espaço,
eram quase equivalentes, mas, nos grupos de 3 homens sob con­
dição de maior espaço, o nível de ansiedade era consideravelmente
menor. Uma descoberta surpreendente deste estudo é que se revelou
maior hostilidade aos parceiros pelos indivíduos dos grupos em con­
dição de maior espaço do que pelos dos outros grupos.
Uma investigação feita por Baxter e Deanovich (1970) foi pro­
jetada para determinar as propriedades de incitação à ansiedade ori­
undas da quantidade imprópria de espaço. Os indivíduos deste es­
tudo eram 48 mulheres voluntárias, de uma classe de psicologia.
Foram testadas sob duas condições. Em condição de falta de espaço,
o indivíduo sentava-se numa cadeira e a experimentadora (outra
mulher) colocava a sua cadeira muito próxima dele. Em condição
de espaço suficiente, a experimentadora colocava sua cadeira na
ponta de uma mesa, a alguma distância da cadeira da pessoa em es­
tudo.
Foi apresentado aos indivíduos o teste “faça a história de um
quadro”, consistindo em 8 quadros contendo duas figuras de bonecas

178
c acompanhados por uma breve narrativa descrevendo cada um.
Solicitou-se aos indivíduos classificarem o grau de ansiedade sentida
pelas bonecas nas diferentes situações. Os resultados indicaram que
as pessoas colocadas na situação de falta de espaço projetavam mais
ansiedade em suas classificações das cenas do que as pessoas colo­
cadas em situação de disponibilidade de espaço. Os efeitos toma­
ram-se mais pronunciados durante a última metade do período ex­
perimental.
Griffith e Veitch (1971) investigaram os efeitos de condições de
calor e falta de espaço sobre o comportamento. Testaram indiví­
duos numa câmara ambiental sob condições de temperatura normal
e elevada. Testaram-nos, também, sob diferentes densidades popu­
lacionais (grupos pequenos ou grandes de indivíduos, reunidos numa
sala de testes). Foram usadas diversas medidas de comportamento.
Sob as condições de alta temperatura e alta densidade populacional,
os indivíduos solicitados a avaliar um estranho, por intermédio de
respostas a um questionário, indicaram maior antipatia por ele do
que os indivíduos testados em outras condições.
O estado de ânimo dos indivíduos foi também considerado como
afetado negativamente pelas condições de temperatura e de alta den­
sidade populacional.
Estudos como os acima relatados sugerem que a quantidade de
espaço disponível afeta a sensibilidade das pessoas. Entretanto, é
difícil inferir-se, com base em tais estudos, como essa quantidade de
espaço pode afetar os comportamentos abertos. Os estudos de la­
boratório não têm constatado, em geral, diferenças de desempenho
entre indivíduos expostos a diversos graus de quantidade de espaço.
Por exemplo, Freedman (1971) e seus colaboradores deram a seus
indivíduos uma série de tarefas intelectuais variáveis em complexi­
dade a serem cumpridas, e que tomavam diversas horas para serem
concluídas. As tarefas foram executadas sob diferentes condições
de quantidade de espaço e os resultados não revelaram quaisquer
diferenças de desempenho, em nenhuma das tarefas, que pudessem
ser atribuídas à aglomeração.

Os efeitos da aglomeração — uma vista geral

Deve ficar claro, depois do material apresentado nesta seção,


que são raros os dados empíricos sobre os efeitos da aglomeração
sobre o comportamento humano. Embora existam muitas suposi­
ções e predições sobre o que acontecerá às pesosas em condições

179
dc alta densidade populacional, em que se experimenta falta de es­
paço, a maioria destas predições baseia-se em pesquisas realizadas
com roedores. Os estudos revelaram que estes animais, quando su­
jeitos a condições de alta densidade de população, demonstram alte­
rações substanciais do comportamento, bem como alterações fisioló­
gicas que indicam estarem sendo sujeitos a altos níveis de stress.
Outros estudos indicaram que as populações de roedores são auto-
limitantes; quando uma determinada densidade populacional é atin­
gida, a população nivela-se e passa a diminuir — supostamente de­
vido a fatores sociais de stress que interferem no comportamento
reprodutor. Embora sejamos tentados a generalizar tais descobertas
para os seres humanos — e muitas dessas generalizações foram fei­
tas — não há qualquer indicação de que a superpopulação tenha
realmente efeitos similares ao nível humano.
Conforme ressaltamos no cap. 4, a superpopulação tem sido
também apontada como causa de doenças físicas e mentais. Dados
comprobatórios de tais afirmações têm sido caracteristicamente obti­
dos em investigações nas quais certo índice de densidade popu­
lacional é correlacionado com um índice de problemas de saúde
mental ou de frequência de determinada condição física, como sejam
doenças cardíacas ou hipertensão. Uma série de estudos tem indi­
cado correlações que sugerem a existência de uma relação entre estas
variáveis. Entretanto, é difícil tentar estabelecer fatores causais com
dados correlacionais, de forma que não podemos estar certos de que
a densidade da população causa, em si, uma taxa mais elevada de
distúrbios mentais ou físicos. Srole (1972) questionou o ponto de
vista de que a urbanização leva a taxas mais elevadas de distúrbios
de saúde mental e desordens físicas como os problemas cardíacos.
Apresenta um argumento impressionante pelo fato de que efetiva­
mente não existem diferenças entre as áreas de alta e baixa densidade
populacional na incidência de transtornos mentais e físicos, comu-
mente associados com as áreas de alta densidade.
São raros os estudos controlados de laboratório dos efeitos
da superpopulação sobre o comportamento humano. Os poucos que
foram realizados sugerem que a aglomeração pode afetar a sensibi­
lidade de uma pessoa, produzindo um aumento de ansiedade e in­
fluenciando outros estados afetivos. Há, entretanto, poucos dados
de laboratório que sugiram que a aglomeração acarrete quaisquer
alterações significativas no desempenho de tarefas intelectuais ou de
outros tipos.
Podería parecer, então, que, embora haja considerável especula­
ção sobre os possíveis efeitos negativos da aglomeração sobre o com­
portamento humano, estão faltando dados que comprovem as espé-

180
culaçõcs. Obvinmcnle, precisamos realizar muito mais pesquisas,
tanto de campo como de laboratório, antes de podermos ter conhe­
cimentos fundamentais das alterações do comportamento humano que
possam resultar da aglomeração.

POLUIÇÃO E SEUS EFEITOS COMPORTAMENTAIS

Considerando o ambiente como uma fonte de ameaça, tratamos,


até aqui, da superpopulação como fator potencial de stress. Há,
naturalmente, muitos outros aspectos dos ambientes construído e
natural que algumas pessoas percebem como ameaças. Por exem­
plo, nossa sociedade está baseada numa tecnologia cada vez mais
complexa que tende a poluir o ambiente de muitas maneiras. A po­
luição — do ar, sonora, da água e de outros tipos — é tida por
muitos indivíduos como uma ameaça tanto à sua saúde física como
psicológica. A existência de poluição no ambiente de um indivíduo
pode servir, então, como fator de stress. Novamente, entretanto,
deve-se ter em mente que a percepção da poluição ou de qualquer
outro aspecto do ambiente como ameaça depende das características
pessoais do indivíduo envolvido. Uma pessoa, por força de sua
experiência anterior e personalidade, pode encarar um tipo específi­
co de poluição como uma séria ameaça, ao passo que outra pode
nem ter consciência de que a mesma exista.
Embora poucos se tenham preocupado com os problemas de
poluição durante muitos anos, só recentemente o interesse de alguns
segmentos do público sobre tais problemas de poluição obrigou a
uma reação por parte do governo. Parte desta reação foi a forma­
ção da Agência de Proteção Ambiental, que é encarregada do con­
trole e eventualmente da redução dos diferentes tipos de poluição.
Embora o sucesso dos esforços desta entidade ainda não possam ser
constatados, ao menos estão sendo feitas tentativas para interromper
e, certamente, reverter a deterioração do ambiente, o que deve ser
considerado um gigantesco passo à frente.
Em sua maioria, a pesquisa sobre a poluição tem sido realizada
por engenheiros interessados no desenvolvimento de técnicas que re­
duzirão a poluição e por cientistas, físicos e biólogos, interessados
nos efeitos de poluentes sobre o ambiente e sobre organismos ex­
postos aos mesmos.
Os cientistas comportamentais tardaram em voltar sua atenção
para este problema, embora o impacto psicológico da poluição te­
nha sido reconhecido há longo tempo. Agora, entretanto, um núme­

181
ro sempre crescente de psicólogos, sociólogos e outros cientistas
coinportamentais estão se envolvendo nas pesquisas sobre poluição.
Tem sido feita relativamente pouca pesquisa sobre os efeitos com-
portamentais da poluição. Grande parte do trabalho feito tratou
das atitudes face à poluição e dos efeitos da poluição sobre os vários
estados afetivos.
Há, naturalmente, muitas espécies diferentes de poluição, todas
elas capazes de causar fortes sentimentos negativos em diversas pes­
soas. Algumas espécies de poluição, devido à óbvia ameaça à saúde,
resultarão numa reação na maioria das pessoas envolvidas, tão logo
elas se conscientizem de que existe um perigo. Desta forma, uma
liberação acidental de gás venenoso ou de algum outro poluente pe­
rigoso atrairía uma reação imediata das pessoas das vizinhanças.
Na ocasião em que este livro estava sendo escrito, foi descoberta
uma quantidade desusadamente elevada de bactérias na água de beber
de um grande reservatório municipal de Eastem Seaboard. A rea­
ção, neste caso, face à poluição da água, foi imediata e forte.
Nesta seção, entretanto, trataremos daqueles poluentes que po­
dem ser designados como “crônicos”, aqueles a que as pessoas fi­
cam expostas durante longos períodos. A maioria dos tipos de
poluição do ar são deste tipo, como o é a poluição da água. A po­
luição sonora tornou-se também um problema crônico em muitas
áreas, como também a poluição por pesticidas. Estes tipos de polui­
ção não têm, geralmente, um impacto imediato e dramático sobre o
indivíduo. Normalmente, não se percebe nenhuma ameaça imedia­
ta à saúde e o problema é encarado como um aborrecimento, ao invés
de uma ameaça física. Muitas pessoas nem se perturbam e pare­
cem adaptar-se rapidamente, tanto psicológica como biologicamente
ao ambiente poluído. Conforme será posteriormente ressaltado, a
reação do homem à poluição é um fenômeno psicológico complexo
de difícil explicação.

Poluição do ar e da água

Levantamentos e pesquisas de âmbito nacional revelam, consis­


tentemente, que uma porcentagem significativa da população expres­
sa interesse pelo problema da poluição do ar e da água. Numa
pesquisa recente, que trata de interesses nacionais prioritários, mais
de 50% dos indagados designaram a poluição do ar e da água
como um dos três problemas internos mais importantes que desa­
fiam o governo. Poder-se-ia presumir, então, que a maioria das
pessoas, em nossa sociedade, vê a poluição como uma ameaça e

1 82
sente realmente que alguma coisa deve ser feita sobre o caso. Con­
forme veremos, isto não ocorre.
Embora praticamente não tenha sido feita nenhuma pesquisa
em torno dos efeitos da poluição sobre o comportamento, uma série
de estudos tem tentado determinar as atitudes e sentimentos das
pessoas face à poluição. A maioria destas pesquisas tem sido feita
em regiões onde ocorre alto nível de poluição e onde se chamou a
atenção do público para a sua existência mediante repetidas cobertu­
ras dos meios de comunicação.
Algumas descobertas interessantes se evidenciaram nestes estu­
dos. Conforme foi ressaltado no capítulo sobre os métodos de pes­
quisa comportamental, os resultados obtidos das pesquisas e levan­
tamentos dependem em grande parte de como as questões são ela­
boradas. Por exemplo, se um pesquisador indagasse aos seus in­
divíduos “Você acha que a poluição do ar é um problema primordial
para a saúde?”, poderia esperar uma porcentagem muito alta de
respostas positivas. Por outro lado, se a questão fosse formulada
em termos de “O que você considera um problema primordial de
saúde neste local?”, a resposta seria provavelmente bastante diferen­
te. De fato, uma descoberta comum das pesquisas de opinião pú­
blica sobre a poluição do ar é que muito poucas pessoas se queixam
espontaneamente dela, mesmo que residam em áreas onde ocorra
em níveis extremamente altos. Assim, em diversas pesquisas rea­
lizadas em áreas com sérios problemas de poluição do ar, quando se
perguntou se a área podia ser considerada um lugar saudável para
se morar, uma alta porcentagem dos indagados respondeu que sim.
Entretanto, quando indivíduos indagados nesta mesma área foram
consultados sobre se eram incomodados pela fumaça, uma porcen­
tagem significativa respondeu afirmativamente.
Desta forma, se o instrumento de pesquisa for formulado de
uma maneira específica, a maioria das pessoas indicará que consi­
dera a poluição como uma ameaça à saúde no pior dos casos, ou um
aborrecimento no melhor.
Poder-se-ia presumir que um efeito da poluição sobre o com­
portamento seria o desenvolvimento de uma atitude tipo “vamos fazer
alguma coisa sobre isto” no ânimo do público. Vimos tal desenvolvi­
mento em relativamente poucos indivíduos; estes mostraram-se elo-
qüentes e assumiram larga responsabilidade nos programas de ação
que foram implantados. Entretanto, a maioria dos indivíduos não
faz nada, mesmo quando expressa interesse sobre a poluição, quan­
do consultados. Por quê?

183
Figura 6-3 ' Há muitos tipos e graus de poluição e as reações de uma pessoa
dependerão do tipo e grau a que seja exposta. Embora uma pessoa venha a
ter reações negativas ao ver um rio coberto por espuma de sabão, como na
foto superior, suas reações serão, provavelmente, muito mais fortes se for
exposta à visão de milhares de peixes mortos por produtos químicos em um
rio. Fotos Abril Press.

184
Há provavelmente uinu série de razões para a falta de reação
por parte da maioria do público. Muitas pessoas carecem de co­
nhecimentos sobre a natureza da poluição e têm somente um vago
conhecimento dos seus possíveis efeitos prejudiciais. Embora a fal­
ta de conhecimento não signifique que não possam ser desenvolvidas
firmes posições frente ao problema (de fato, alguns dos mais deci­
didos iniciadores de campanha antipoluição parecem saber muito
pouco sobre ele), geralmente é difícil combater com eficácia algo
de que pouco se sabe.
Mesmo que uma pessoa na realidade sinta intensamente que
algo deve ser feito sobre a poluição, o que pode ela fazer? A maio­
ria das pessoas não tem idéia alguma sobre a quem apresentar quei­
xas ou, caso tenham, muitas sentem que a sua queixa não resultará
em nada. Se uma pessoa percebe que sua posível função na reso­
lução de um problema de poluição não terá nenhum efeito, prova­
velmente não envidará esforço algum neste sentido.
Possivelmente, uma das principais razões pelas quais o público
tende a não fazer nada sobre os problemas de poluição é que a
resolução dos problemas implicará certamente em algum custo.
Temos poluição porque dependemos de uma tecnologia altamente
complexa e, qualquer alteração na tecnologia que possa reduzir a
poluição, está fadada a resultar em alguma alteração drástica em
nosso estilo de vida. A maioria das pessoas parece encarar a luta
contra a poluição dentro de um padrão custo-lucro. Se o lucro
parece grande e o custo reduzido, parece haver uma tendência para
se tentar fazer alguma coisa sobre o problema da poluição.
Assim, se uma fonte de poluição é diagnosticada numa indús­
tria especial e o fechamento ou modificação da indústria vier a ter
pouco impacto econômico sobre a região, as atitudes das pessoas,
que moram nesta região, face à poluição causada pela indústria ten­
de a ser negativa. Por outro lado, se o fechamento da indústria
resultar em perda de muitos empregos e num sério impacto sobre
a economia, as atitudes das pessoas da região face aos problemas
de poluição serão provavelmente muito diferentes. Em outras pa­
lavras, o custo parece ser consideravelmente maior do que o lucro
auferido. Embora o custo seja, com freqüência, medido em termos
financeiros — impostos elevados, por exemplo — poderá, em alguns
casos, ser tal que as pessoas sejam envolvidas de uma forma muito
direta.
Os resultados de diversas pesquisas permitem afirmar com se­
gurança que muitos têm interesse ou, pelo menos, expressam ter in­
teresse no problema da poluição. Embora esse interesse nem sem-

185
prc seja traduzido cm ação de qualquer tipo, pode-se observar, oca-
sionalmcntc, formas de comportamento que podem ser motivadas
por atitudes face à poluição. Um exemplo é a série de demonstra­
ções com finalidade declarada de chamar a atenção para os proble­
mas de poluição. Um acontecimento importante é que na Califórnia,
atualmente, a emigração é maior do que a imigração; muitos daqueles
que emigram declaram que sua principal razão para a mudança é
a poluição do ar.
Outras formas de comportamento podem ser resultado direto da
poluição, mas são difíceis de ser identificadas. Obviamente, se um
alto nível de poluição resulta em perigos físicos de algum tipo, tais
como queimaduras nos olhos ou dificuldade de respiração, ocorre­
rão alterações comportamentais associadas, que poderão ser consi­
deradas como de responsabilidade da poluição. Se a colheita agrí­
cola de alguém ou de outras propriedades forem danificadas, pode­
mos esperar algumas alterações de comportamento. Tornou-se ha­
bitual alguns moradores de áreas com alta taxa de poluição do ar
fugirem ocasionalmente da fumaça nos fins de semana.
Assim, a poluição pode estar modificando, em certo grau, o
comportamento recreativo, embora seja bastante provável que, se a
fumaça não estivesse presente, haveria outras razões para a fuga.
Possivelmente, a conclusão mais segura a que se pode chegar
no momento sobre os efeitos da poluição sobre o comportamento é
que não sabemos como o comportamento é afetado. Como já res­
saltamos, os cientistas comportamentais estão começando a interes­
sar-se nesta área e existem no momento muito poucos dados de
apoio para quaisquer conclusões.
Embora se disponha de algumas informações sobre as atitudes
face à poluição e sobre as reações comportamentais gerais, tais como
demonstrações públicas e emigração, a poluição provavelmente in­
fluencia o comportamento com uma série de formas mais sutis. Pro-
valvelmente teremos que utilizar diferentes abordagens para estudar
o problema e podermos compreender essas modificações sutis. A
pesquisa de laboratório, na qual uma variável particular associada
com a poluição pode ser estudada com alguns detalhes, enquanto
outras variáveis são controladas, pode ser uma de tais abordagens.
Um exemplo de tal estudo de laboratório é o realizado por
Swan (1970), que utilizou como indivíduos da pesquisa uma série
de alunos de escola secundária residentes em Detroit. Todos os
indivíduos assistiram à apresentação de uma série de slides mos­
trando diferentes ambientes urbanos, sendo-lhes perguntado qual o
problema ambiental que observavam em cada slide. A finalidade

1 86
principal do estudo era a de avaliar a consciência perceptiva da po­
luição do ar.
Para se atingir esse objetivo, cada série de slides apresentava
um contínuo de qualidade de ar visível, variando de relativamente
limpo até altamente poluído. O número de slides no contínuo que
o indivíduo reconhecesse como mostrando indicador do problema de
poluição do ar foi usado como uma medida de sua consciência per­
ceptiva da qualidade do ar. Swan descobriu que a consciência per­
ceptiva da poluição era significativamente menor para alunos de
antecedentes sócio-econômicos baixos. Em nível hipotético, levan­
tou a possibilidade de que tais alunos tivessem menos chance de
sair da cidade e ver as cores naturais do céu, vindo a aceitar a
atmosfera poluída castanho-azulada como normal. Esta conclusão
levanta uma questão interessante, com implicações para a pesquisa.
Conforme ressalta Swan, “é difícil determinar se as pessoas são efe­
tivamente conscientes, perceptivamente, do ar poluído de seu am­
biente, ou se tendem mais a basearem suas reações em pesquisas de
opinião pública sobre o enfoque do problema pelos meios de co­
municação” (pág. 68). É de considerável importância para a in­
terpretação dos dados de pesquisas de atitudes sabermos se as rea­
ções estão baseadas em percepções diretas ou em informações obti­
das pelos meios de comunicação.
Outros tipos de estudos de laboratório podem contribuir com
informações importantes sobre os efeitos da poluição sobre o com­
portamento.
Realizaram-se estudos com diversos tipos de animais, por exem­
plo, nos quais estes foram expostos a níveis extremamente altos de
poluição do ar, sendo então determinados os efeitos desta polui­
ção sobre o seu comportamento e saúde em geral. É difícil, natu­
ralmente, realizar estudos desta espécie com seres humanos, embo­
ra seja possível, em situações de laboratório, estudar os efeitos de
alguns aspectos de poluição sobre uma pessoa. Assim, num estu­
do relatado por Jones (1972), criou-se smog no laboratório e deter­
minaram-se os efeitos de diversos componentes da fumaça sobre os
olhos. Os indivíduos usavam máscaras nos olhos, através das quais
era introduzida a fumaça. Usou-se o método psicofísico de limites,
com as pessoas sendo expostas a concentrações cada vez mais fortes
de fumaça durante uma série de experiências. O ponto em que a
pessoa indicou irritação nos olhos foi considerado o limiar para uma
determinada concentração e tipo de smog. Usando esta técnica, Jo­
nes descobriu que a presença de hidrocarbonetos no smog é o melhor
prenúncio isolado de irritação dos olhos e que o formaldeído situa-se
logo em seguida.

187
IN STITU TO ■o ;;'
. -v
v » > U l _ I O T £ C A — c rr .
Tratam os principalm ente, nesta seção, da poluição do ar. Mui­
to do que foi dito sobre este tipo de poluição é também aplicável
ao problema de poluição da água. Pesquisas indicaram que as pes­
soas têm interesse a respeito da poluição da água, mas, como no caso
da poluição do ar, a m aioria não sabe ao certo o que pode fazer sobre
o problema. H á fortes reações por parte de alguns indivíduos e
grupos, o que tem levado a Agência de Proteção Ambiental a en­
vidar esforços no sentido de fazer alguma coisa para sanar o pro­
blema. E ntretanto, m uito pouca pesquisa acerca dos efeitos da po­
luição da água sobre o com portam ento tem sido efetuada.

Poluição sonora

Q uando usam os o term o “som ” , referim o-nos tanto a uma for­


ma de energia física como àquilo que ouvimos. Em outras pala­
vras, o som pode ser considerado com o tendo dimensões físicas e
psicológicas. Com o energia física, consiste em variações da pressão
do ar, que são causadas por algum tipo de corpo vibrante que co­
locou as m oléculas do ar em m ovimento. Podemos medir esta
energia p o r m eio de diversos tipos de m edidores e especificar, com
exatidão considerável, a com posição física de um som particular.
Com o aquilo que ouvim os, o som pode tam bém ser estudado como
um fenôm eno psicológico. A m ensuração é, neste caso, muito me­
nos precisa. E m bora os atributos físicos do som estejam relacio­
nados com os seus atributos percebidos — ou seja, o que ouvimos
ou experim entam os quando expostos a um som — , a maneira como
o som é percebido depende de um a série de fatores. Discutiremos
alguns destes fatores posteriorm ente nesta seção.
E n tre os incontáveis sons aos quais estam os expostos regular­
m ente, alguns são indesejáveis. P oderão sê-lo por produzirem da­
nos fisiológicos ou psicológicos ou p o r interferirem nas comunicações,
no trabalho, n o descanso, na recreação e no sono. Quando por
essas ou p o r outras razões um som é indesejável, referimo-nos ao
mesm o com o ruído. Vim os que a poluição do ar degrada a quali­
dade de vida, interrom pe atividades e por vezes ameaça a saúde.
O barulho é um poluente am biental que pode ser gerado de formas
diferentes, m as que tem efeitos sim ilares.
A poluição sonora está se transform ando num problema de se­
riedade sem pre crescente em nossa sociedade, por diversas razões.
E m prim eiro lugar, a cada ano, o núm ero de novas fontes de ruído
aum entá trem endam ente. E m b o ra o ruído dos transportes seja a
fonte principal de queixa — e este problem a aum enta anualmente

188
—. numerosas outras fontes, que vão da máquina de lavar aos equi­
pamentos de construção, aparecem todo ano. Uma segunda razão
pela qual a poluição sonora está se agravando é que as alterações
demográficas estão levando a maior parte da população a expor-se a
fonves de ruídos. À medida que sempre mais pessoas se movem
para regiões urbanas, aumentam as densidades populacionais, que
por sua vez aumentam significativamente o número de pessoas ex­
postas à poluição sonora.
A poluição sonora promete permanecer como um problema
sério. Temos poluição sonora porque é mais barato produzir pro­
dutos ruidosos por meios ruidosos do que produtos silenciosos por
meios silenciosos. Desta forma, os produtores de ruído perdem in­
centivo econômico para diminuir sua produção do mesmo. O público
americano é geralmente inconsciente da natureza e da magnitude do
problema da poluição sonora. Embora existam atualmente alguns
esforços do governo para reduzi-la, não estarão próximos de qual­
quer forma real de solução até que o público se conscientize e exija
ação.

A natureza do som

Quando falamos de ruído, estamos, naturalmente, falando sobre


um tipo particular de som que, por diversas razões, é indesejável.
Conforme indicamos, o som pode ser considerado em termos de suas
características físicas e psicológicas. Fisicamente, o som tem duas
características: freqüência e intensidade.
Os corpos vibrantes fazem com que as moléculas do ar sejam
alternadamente reunidas (pressão positiva) e separadas (pressão ne­
gativa), resultando numa onda de pressão positiva que se movimen­
ta através do ar, imediatamente seguida por uma onda de pressão
negativa. Esta é a onda sonora, que é o estímulo físico para a au­
dição. O movimento para frente e para trás das moléculas de ar
pode ser graficamente representado com ondas senoidais, conforme
indicado na fig. 6-4.
A jreqüência de uma onda sonora é indicada em ciclos por se­
gundo (cps) ou, segundo uso mais recente, hertz por segundo (Hz).
Na fig. 6-4, a onda senoidal média tem uma freqüência duas vezes
maior que a onda senoidal superior. A freqüência em cps ou
Hz é uma qualidade física do som. A freqüência de uma onda so­
nora é a responsável principal pela dimensão psicológica da audição
a que nos referimos por altura. Em outras palavras, a percepção
de quão alto ou baixo, agudo ou grave seja um som é devida prin­
cipalmente à sua freqüência.

189
Exfensâo do ondo

Freqüência em ciclos por segundo ou hertz


Tempo em segundos

Figura 6-4 Três ondas senoidais com diferentes frequências e amplitudes. A


amplitude é a mesma para as duas ondas seno superiores; as freqüências são
diferentes. A onda seno inferior tem a mesma freqüência (ciclos por deter­
minado período de tempo) da onda do m eio, mas tem o dobro da amplitude.
D e Heimstra, N . W. e Ellingstad, V. S., Human behavior: A systems approach,
Monterey, Calif.: B rooks/C ole, 1972.

A intensidade de uma onda sonora é a amplitude da onda (ver


fig. 6-4). Note-se que na figura as ondas senoidais central e in­
ferior têm a mesma freqüência, mas a amplitude da onda inferior é
duas vezes a da central. O fator psicológico correspondente à inten­
sidade (amplitude) da onda sonora é a força do som (forte ou fraco).
Assim, uma determinada onda sonora resultará na sensação auditiva
de altura, que é relacionada com sua freqüência, e na intensidade
que é relacionada com sua amplitude.

190
As dimensões físicas e psicológicas do som não são mais com­
plexas do que as acima descritas. Por exemplo, uma alteração em
intensidade poderá produzir também uma alteração percebida na fre-
qiiência, e uma alteração na freqüência poderá resultar numa alte­
ração na intensidade percebida. Além disso, encontramos raramente
os tons puros ilustrados na figura 6-4. Normalmente, os tons são
complexos e compostos de uma série de freqüências. Esta mistura de
freqüências leva a uma terceira dimensão psicológica dos sons, de­
nominada timbre ou qualidade tonal. A faixa de intensidade sonora
à qual o homem reage é tão grande que a intensidade é medida
numa escala muito ampla, chamada escala decibel.
O decibel é uma relação que indica a diferença de intensidade
relativa entre dois sons. Entretanto, esta relação somente tem signi­
ficado se todas as pessoas usarem o mesmo valor de referência.
O valor de referência selecionado é .0002 dinas por cm2 (o dina é
uma unidade de pressão), que é provavelmente a alteração mais baixa
na pressão à qual o ouvido é sensível. Deve-se também ter em
mente que a escala de decibel é uma escala logarítmica, o que signi­
fica que, se um som é 100 decibéis mais intenso do que outro, será
10 bilhões de vezes mais poderoso. Os níveis de pressão sonora
(decibéis) de uma série de sons estão indicados na fig. 6-5. Nesta
escala, o limiar da dor é alcançado em algum ponto por volta de
125-135 decibéis. Em outras palavras, a pressão sonora por volta
deste nível faz efetivamente com que uma pessoa experimente uma
sensação dolorosa.

Quando um som é indesejado?

A maneira como um som é percebido depende de uma série de


fatores. Conforme anteriormente mencionado, as dimensões psico­
lógicas do som — altura, intensidade e timbre — dependem de atri­
butos físicos de freqüência e intensidade e da mistura de freqüências
diferentes. Quando certas características físicas estiverem presentes
em um som, este terá maior probabilidade de ser percebido como
indesejado do que quando estas características estiverem ausentes.
Entretanto, outros fatores, tais como as variáveis situacionais, são
também importantes. Desta forma, um determinado som poderá
ser considerado indesejado numa igreja, mas não em um bar. De
forma semelhante, um som poderá não ser desejável durante a tarde
mas ser considerado ruído às duas horas da manhã. A personalidade
e a experiência anterior são também variáveis importantes na de­
terminação da maneira como um som é percebido. Há uma grande

191
Ruídos comuns
Nível de pressão Fontes de ruído
cm decibéis *
130 -
Motor a jato a 75 pés

120 “

110 -
Metrô
100 -

90
Motor de 10 cavalos a 50 pés

80

70 Tráfego intenso a 15-75 pés

Conversa a 3 pés
60

50 Auto silencioso

Cômodo em residência média


40

30
Sussurro a 5 pés
20

10

0 * 0 decibéis = 0,0002 dinas por cm2

Figura 6-5 Níveis de pressão de som para uma série de sons diferentes. De
Heimstra, N . W. e Ellingstad. V . S., Human behavior: A sysíems approach,
Monterey, Calif.: B rooks/C ole, 1972.

quantidade de pesquisas já prontas e ainda sendo realizadas sobre


todas estas variáveis.
Conforme ressalta Kryter (1970), o uso da palavra “ruído”
significando som indesejável resulta algumas vezes em confusão, por­
que há duas categorias gerais de indesejabididade. Muito freqüen-

192
temente, não é o som em si que 6 indesejável mas a informação que
o som carrega. Por exemplo, se fôssemos acordados durante a noite
por um som que reconhecéssemos como indicativo de um intruso,
a informação, e não o som, seria indesejável. Assim, não conside­
raríamos estes sons como um ruído na forma em que consideramos
outros tipos de sons indesejados, numa situação particular. As
pessoas julgam bastante freqüentemente estes últimos tipos de sons
como indesejados, inoportunos ou condenáveis e são estes tipos de
sons que provocam a poluição sonora.
Entre as características físicas de um som que resulta no fato
da percepção do mesmo como ruído, a intensidade parece ser a mais
importante. Entretanto, a freqiiência é também um fator; sons de
elevada altura mais provavelmente podem vir a ser considerados in­
desejáveis ao contrário daqueles de baixa. De igual modo, um som
intermitente é usualmente considerado indesejável com mais frequên­
cia do que um som contínuo, de mesma freqiiência e intensidade.
A duração, os aumentos e diminuições de intensidade, o conteúdo do
espectro e outras características físicas são também associados ao
grau de ruído percebido de um determinado som.
Como é de se esperar, uma série de fatores situacionais são
importantes na determinação da percepção de um som como ruído.
Seria impossível relacionarmos todos os fatores situacionais, mas
podemos proceder a algumas generalizações. Quando um som in­
terfere em alguma atividade em andamento, o som tem de ser per­
cebido como indesejado, mesmo que as suas características físicas
possam ser tais que não implicariam normalmente em reconhecimento
do mesmo como ruído. Quando algum som interfere com a comu­
nicação pela fala, por exemplo, há uma alta possibilidade de ser
considerado indesejado. Quando o sono é perturbado por um som,
este tem ainda maior probabilidade de ser considerado indesejado.
Os sons podem interferir na concentração de uma pessoa, no seu
descanso, trabalho, e assim por diante. Em geral, quando um som
interfere em alguma atividade, torna-se ruído.
A personalidade do indivíduo e sua experiência anterior atuam
também com a situação e com as características do som para de­
terminar se o mesmo será considerado indesejado. Pesquisas indi­
cam, por exemplo, que introvertidos e extrovertidos reagem aos sons
de forma diferente. Há alguma evidência de que as queixas a res­
peito de ruídos provêm desproporcionalmente de pessoas neuróticas
e que os indivíduos que são mais aborrecidos pelo barulho podem
ter dificuldades de ajustamento pessoal.

193
As atitudes, avaliados pela experiência anterior do indivíduo,
desempenham um papel im portante no nível percebido de ruído. A
atitude do ouvinte perante um a fonte de som é crítica na determina­
ção da percepção do som com o ruído. D esta forma, o som de um
cortador de gram a do vizinho poderá não incom odar uma pessoa, ao
passo que o som de um a m otocicleta incom odará.
Obviamente, então, se um som é ou não percebido como inde-
sejado c, consequentem ente, com o ruído, é assunto de definição
complexa que depende de um a série de variáveis que foram justa­
mente m encionadas nesta seção. Os engenheiros estão sendo cada
vez mais consultados para predizer se o som de uma peça de equi­
pamento, uma nova rodovia ou um novo aeroporto será percebido
como ruído pelas pessoas a eles expostas. Tais predições, no melhor
dos casos, são freqüentem ente tím idas suposições, uma vez que não
há dados disponíveis necessários para que as predições sejam feitas
com um alto grau de exatidão.

Poluição sonora e com portam ento

Um a quantidade considerável de pesquisas tem tratado dos efei­


tos dos ruídos sobre o com portam ento hum ano. Grande parte deste
trabalho tem tratado da relação já discutida entre as características
físicas do som, variáveis situacionais e de personalidade, e o ruído
percebido de diversos sons. C aracteristicam ente, nestes estudos, as
variáveis relacionadas acim a servem com o variáveis independentes;
a variável dependente é alguma indicação do aborrecimento ou do
nível percebido do ruído causado por um determ inado som. A va­
riável dependente é geralm ente m edida p o r um a escala de classifi­
cação de algum tipo.
Outros estudos têm tratado da reação da comunidade ao ruído,
geralmente associado com aeronaves ou outros tipos de transporte.
Estes estudos têm usualm ente m edido atitudes face ao ruído e o
“ aborrecim ento” que é gerado. A lgum as investigações tentaram cor­
relacionar a exposição ao ruído com dim inuições de audição, dis­
túrbios psicológicos e diversos outros problem as de saúde. Final­
mente, grande núm ero de estudos de laboratório tem sido realizado
para determinar os efeitos do ruído sobre o desempenho de uma
série de tarefas. R esum irem os brevem ente as descobertas de cada
um destes tipos de estudos.
Reação da com unidade ao ruído. Estudos têm demonstrado
que é difícil a predição de reação da com unidade ao ruído, uma vez

194
que estão envolvidas muitas variáveis. Como no caso da poluição
do ar, uma porcentagem significativa de pessoas em uma comunidade
exposta a altos níveis de ruídos indicará que consideram o ruído como
um problema. Os mesmos apontarão, geralmente, como uma das
razões o fato de que o ruído interfere nas conversações, no sono,
e assim por diante, É característico, entretanto, que não tentarão
fazer qualquer coisa sobre o problema a menos que o ruído seja
muito alto. Se o nível do ruído alcançar 90 decibéis, ou por volta
disto, muitas das pessoas reagirão violentamente através de queixas,
ameaças e ação.
Têm sido relativamente numerosas as investigações de atitudes
da comunidade para com o ruído e os fatores que as modificarão.
Como se podería esperar, quando a fonte de ruídos é um fator eco­
nômico primordial na comunidade, as atitudes face ao ruído são
mais favoráveis do que em caso contrário. Muitos outros fatores
situacionais e pessoais, tais como o tipo de distúrbio desenvolvido
pelo ruído e quando o ruído ocorre, determinarão atitudes face à
poluição sonora. A pesquisa sugere também que podem ser esta­
belecidas atitudes mais favoráveis face ao ruído, algumas vezes por
métodos bastante simples. Por exemplo, cartas aos cidadãos expli­
cando uma fonte de ruídos e discutindo sua necessidade revelaram
ser, em um estudo, elemento de redução significativa da porcentagem
de pessoas que consideravam o ruído como uma inconveniência.
Descobertas semelhantes foram relatadas nas proximidades de bases
aéreas militares quando o público foi conscientizado da importância
da base e dos esforços que estão sendo feitos pelos pilotos para con­
forto e segurança dos cidadãos.
Embora estudos demonstrem que os membros de uma comuni­
dade têm freqüentemente atitudes negativas para com a poluição
sonora, estas atitudes são raramente traduzidas em ação. Talvez
a melhor conclusão sobre a reação da comunidade ao ruído é que
essa reação é muito reduzida. Embora leiamos ou ouçamos ocasio­
nalmente sobre um grupo que toma medidas legais contra alguma
fonte de ruído, tal como um aeroporto ou uma indústria, conside­
rando-se a magnitude do problema, as reações são certamente mí­
nimas.
Os efeitos dos ruídos sobre o desempenho. Um grande número
de estudos tem tratado dos efeitos do ruído sobre o desempenho de
diversos tipos de tarefas, mas as descobertas são ambíguas. Os
resultados de algumas investigações demonstram que o ruído tem
um efeito prejudicial sobre o desempenho, outros estudos não mos­
tram nenhum efeito e outros revelam ainda que o ruído facilita o

195
desempenho. O que se tornou evidente é que os efeitos do ruído so­
bre o desempenho dependem das características do ruído, da tarefa c
do indivíduo. A freqüência e a intensidade do ruído, bem como ou­
tras características físicas, ajudam a determinar os efeitos do ruído so­
bre o comportamento. A intermitência aparece como uma variável
física particularmente im portante; em diversos estudos em nosso la­
boratório (W arner e Heimstra, 1971, 1972, 1973), o ruído intermi­
tente com uma relação liga-desliga de 30% (1,5 segundo ligado,
3,5 segundos desligados) facilitou o desempenho de uma série de
tarefas.
Variáveis de desempenho im portantes na determinação dos efei­
tos do ruído incluem fatores sobre como é difícil a tarefa, se a mesma
requer estado constante de alerta, se é largamente psicomotora ou
principalmente mental e quanto tempo demora sua execução. As
variáveis pessoais incluem tanto fatores transitórios como relativa­
mente permanentes. O estado de ânimo ou motivação de uma pessoa
numa dada ocasião é um determinante importante dos efeitos do
ruído, como o são a personalidade, idade, sexo e atitudes. A previ­
sibilidade do ruído e a possibilidade ou impossibilidade de uma
pessoa controlar seu término influenciam o nível de aborrecimento
por ele causado e seu efeito sobre o comportamento (Reim, Glass e
Singer, 1972; Glass e Singer, 1972). Entretanto, todas as variáveis
associadas com o ruído, a tarefa e a pessoa interagem segundo for­
mas imprevisíveis e torna-se difícil precisar exatamente os efeitos do
ruído sobre o desempenho.
Ruído e saúde. Uma longa exposição a um ruído de alta in­
tensidade resulta efetivamente em perda de audição. Porque este
fato foi bem estabelecido, o governo tem disposto padrões de per­
missão a exposições a ruídos. Por exemplo, sob estes padrões, o nível
máximo de som permitido para um trabalho de 8 horas por dia é de
90 decibéis. Uma pessoa poderá ficar exposta a 100 decibéis so­
mente duas horas por dia e a 110 decibéis somente meia hora. Em­
bora a maioria das pessoas esteja protegida, ao menos enquanto tra­
balha, fica frequentemente exposta a níveis de ruído que excedem os
limites permissíveis de exposição em outras situações. Por exemplo,
em discotecas e em concertos de rock, a música é freqüentemente exe­
cutada por longos períodos em níveis que chegam por volta de 110
db e às vezes até 120 db. Diversos estudos têm indicado que as
pessoas que passam grande parte do tempo ouvindo música nestas
situações sofrem de danos tem porários ou permanentes de audição.
Foram apresentados relatos de que a longa exposição ao ruído
poderá resultar em problem as de saúde mental para algumas pessoas,

196
mas esta conclusíío não eslá bem documentada. Há também algu­
ma evidência de que poderá haver diferenças de saúde entre grupos
sujeitos a diferentes exposições ao ruído. Um estudo europeu relata
correlações existentes entre irregularidades cardiovasculares e expo­
sição ocupacional a ruído intenso; e um estudo realizado na Rússia
descobriu que os adultos que moram próximos a aeroportos tinham
uma taxa de morbidez mais elevada do que as pessoas que moravam
a alguma distância do mesmo. Outros estudos dos europeus sugerem
que a longa exposição a ruídos poderá ainda ter outros efeitos sobre
a saúde.
Nos Estados Unidos, a opinião predominante entre peritos em
ruídos é de que a tolerância do homem ao barulho é alta e que é
possível a adaptação às condições atuais do ruído sem efeitos físicos
danosos. Esta opinião tem sido contestada, entretanto, por pesqui­
sadores do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos. Anti-
gaglia e Cohen (1970) declaram:
“Não há qualquer dúvida de que o Tuído e o som podem causar
alterações fisiológicas. A questão é saber se as exposições repeti­
tivas aos mesmos, a longo prazo, podem induzir a alterações físicas
que sejam eventualmente degeneradoras da saúde de uma pessoa.
A posição dos peritos dos Estados Unidos de que o ruído não tem
quaisquer efeitos danosos é difícil de ser defendida, neste momento,
em vista da falta de um estudo sistemático e de dados objetivos nesta
área. Por exemplo, nunca foram empreendidas pesquisas epidemio-
lógicas relacionadas com a incidência de dores agudas e crônicas em
diferentes grupos de trabalho neste país, e as mesmas tomaram-se
gravemente urgentes. Tais informações poderíam corroborar ou
refutar as descobertas da literatura européia que.. . sugerem asso­
ciações claras entre o ruído e os efeitos adversos à saúde.”

Efeitos comportamentais da poluição — considerações gerais

Não podemos, evidentemente, fazer quaisquer afirmações sobre


os efeitos comportamentais da poluição. Provavelmente, a poluição
afeta o comportamento, mas apenas recentemente os psicólogos e
outros cientistas comportamentais têm dado atenção a este problema
e não fizeram até o momento quaisquer progressos significativos
para a resolução do mesmo. Embora saibamos que muitos mem­
bros da sociedade têm atitudes negativas face à poluição, as pesquisas
não estabeleceram por que as pessoas que são incomodadas pela
poluição do ar, da água ou sonora tendem a não se queixar, não se

197
mudam da área ou níio procedem a qualquer outra ação que possa
aliviar o problema.
Conforme ressaltam Maloney e Ward (1973), ao discutir sua
pesquisa nesta área, “a maioria das pessoas declara estar disposta
a fazer muita coisa para auxiliar a refrear a poluição e seus proble­
mas c que se acham bastante emocionalmente impelidas a isto mas,
na verdade, fazem efetivamente pouca coisa a respeito e sabem ainda
menos” (pág. 585). Grande parte do estudo sobre os efeitos com-
portamentais da poluição têm sido pesquisas de comunidades para
determinar a porcentagem de pessoas que são incomodadas por um
determinado poluente. A obtenção de dados deste tipo é relativa-
mente simples, mas não nos diz muito sobre os efeitos comporta-
mentais da poluição. Se as pessoas são de fato incomodadas, entre­
tanto, é provavelmente seguro dizer-se que seu comportamento foi
modificado de alguma forma, talvez sutilmente, de maneiras difíceis
de se medir. Poderiamos perguntar: Quais alterações no estilo de
vida ocorrem quando há exposição crônica à poluição? Os relacio­
namentos sociais, tanto dentro como fora dos grupos familiares,
alteram-se de alguma forma? O estado afetivo de uma pessoa é de
alguma forma alterado? Estas questões e muitas outras permane­
cem sem resposta.
Um ponto tomou-se óbvio, através da pesquisa nesta área. Caso
se queira achar respostas significativas às questões levantadas sobre
a poluição e o comportamento, haverá a necessidade de técnicas so­
fisticadas de pesquisa. É claro que o relacionamento comporta-
mento-poluição é extremamente complexo, sendo influenciado por
muitas variáveis. As características físicas do poluente, a situação
em que a pessoa fica exposta ao mesmo e as características da pró­
pria pessoa interagem, todas, de forma complexa, para determinar
exatamente que efeitos comportamentais ocorrem. Estamos longe
do ponto em que poderemos predizer os efeitos de um poluente sobre
o comportamento.
Não enfatizamos, neste capítulo, os possíveis efeitos prejudiciais
dos diversos tipos de poluição sobre a saúde. Se a poluição efe­
tivamente afeta a saúde, então é óbvio que ocorrerão também efeitos
comportamentais. Desta forma, uma pessoa cuja audição tenha sido
permanentemente prejudicada pela exposição a ruídos elevados com-
portar-se-á de forma algo diferente do que fazia antes de ter ocorrido
esse dano. Entretanto, à parte a perda de audição demonstrada,
causada por ruídos, há ainda uma pergunta que preocupa muitos
investigadores: Quais os efeitos da poluição do ar e sonora sobre a
saúde?

1 98
Uma conclusão que pode ser tirada da pesquisa sobre a poluição
e comportamento é aquela com que o leitor já está bastante familia­
rizado: são necessárias mais pesquisas. Embora um número cres­
cente de cientistas comportamentais esteja começando a estudar este
assunto, considerando-se a magnitude do problema, este número é in­
significante. A soma de dinheiro disponível para pesquisa no campo
é também mínima. Oxalá alguém tentasse rever a literatura sobre
poluição e comportamento dentro de cinco anos a partir de agora,
e então havería mais dados a considerar a este respeito. Certamente,
entretanto, na proporção em que a pesquisa está sendo realizada no
momento, não há qualquer garantia neste sentido.

ADAPTAÇÃO AO AMBIENTE

Vimos, neste capítulo e nos anteriores, que determinadas carac­


terísticas do ambiente físico são percebidas como ameaçadoras por
alguns indivíduos e, conseqüentemente, agem como fatores de stress.
Embora tenhamos enfatizado as características de superpopulação e
poluição no presente capítulo, o conceito de ambiente indutor de
stress foi discutido em diversos outros pontos do livro. Por exem­
plo, determinados tipos de áreas residenciais têm altos índices de
criminalidade, que são fatores de stress para muitos moradores,
como o são diversos ambientes geográficos onde a probabilidade de
danos naturais é bastante elevada. Uma questão de certo interesse
para os pesquisadores ambientais é como o homem é capaz de adap­
tar-se às diversas condições ambientais, muitas das quais são fatores
de stress, onde ele vive.
Os psicólogos e outros cientistas sabem, há muitos anos, que
um sistema sensorial é modificado pela apresentação contínua de
estímulos. Este processo de modificação é denominado adaptação.
Embora os mecanismos fisiológicos que apoiam a adaptação variem,
em função da modalidade sensorial envolvida, a adaptação como um
processo geral ocorre em todos os sentidos, quando estes estão ex­
postos a estímulo constante.
Entretanto, alguns dos sentidos adaptam-se muito mais que ou­
tros. Embora consideremos usualmente a adaptação como resultan­
te da diminuição da sensibilidade dos receptores envolvidos, a mesma
constitui um processo de duplo sentido, que pode envolver tanto um
aumento como uma diminuição no desempenho dos receptores. Por
exemplo, quando os olhos se adaptam à escuridão, os receptores tor­
nam-se muito mais eficientes durante o curso da adaptação. Uma

199
luz que não seria detectada antes da adaptação é facilmente detectada
após a mesma ter ocorrido. Entretanto, no caso de adaptação
cutânea, os receptores tornam-se menos eficientes.
Desta forma, enquanto um indivíduo pode sentir um suéter em
seu corpo quando o veste pela primeira vez, em pouco tempo não o
sentirá mais. O paladar e o olfato adaptam-se também rapidamente.
A maior parte das pesquisas sobre adaptação tem envolvido di­
mensões simples de intensidade sensorial, tais como claridade da luz,
temperatura e odor, e tem sido realizada sob condições de laborató­
rio cuidadosamente controladas. A adaptação ao ambiente do
mundo real é, indubitavelmente, muito mais complexa, devido às
características multidimensionais dos estímulos envolvidos. Quando
se tenta generalizar com base nas conclusões de estudos de labora­
tório para a adaptação ao mundo rea), uma questão levantada por
Wohlwill (1970) deverá ser sempre lembrada: “Como são consi­
derados os atributos de estímulos, tais como complexidade, incon­
gruência, ambigüidade, ou o caráter multidimensional de experiên­
cias rotineiras, como aquelas a que está sujeito um usuário do metTÔ
de Nova York ou das freeways de Los Angeles?” (pág. 307). Em­
bora saibamos que o homem é dotado de uma excelente fisiologia
adaptativa e que efetivamente se adapta a muitos tipos de ambientes
construídos e naturais, há muitas questões sobre este processo às
quais ainda não há respostas.
«
Uma questão trata das características ou dimensões dos estí­
mulos que são importantes no processo de adaptação. A intensida­
de do estímulo é, naturalmente, uma dimensão importante e tem
sido de interesse para os planificadores, durante algum tempo, con­
forme indicado pelas suas tentativas de fornecerem níveis especifi­
cados de ruído e iluminação. Wohlwill (1966) ressalta outras
dimensões de estímulo, que podem ser de importância: complexidade,
variação, seu caráter inesperado e incongruência. Mas como um
pesquisador determina e manipula dimensões como o caráter ines­
perado e a complexidade, para estudar a adaptação aos mesmos? Por
ser tão difícil esta tarefa, não dispomos de muitas informações sobre
estes aspectos do ambiente físico e sobre a adaptação a eles.
Outra questão-chave trata dos limites de adaptabilidade. Tanto
o senso comum quanto alguns dados empíricos indicam que há limi­
tes mas, até agora, sabemos relativamente pouco sobre os mesmos
ou sobre o comportamento a ser esperado quando os limites são
atingidos. Presume-se geralmente que há um nível ótimo de esti­
m ulação'ao longo das dimensões de estímulos acima Telacionadas e
que estímulos em grau muito baixo ou muito elevado podem ter

200
efeitos prejudiciais. De fato, as pesquisas de privação sensorial, em
que os indivíduos são deliberadamente privados de grande parte de
sua experiência sensorial normal, têm demonstrado que, sob estas
condições, ocorrem alucinações e outros efeitos comportamentais.
Caracteristicamente, entretanto, as condições ambientais são tais que
ocorre estimulação excessiva, ao invés de estímulo em pouca inten­
sidade. Quando estes limites excessivos são atingidos pode ocorrer,
em alguns casos, doença física ou mental. Em outras situações, há
probabilidade de ocorrerem efeitos mais sutis — nervosismo, irrita­
bilidade, e assim por diante. Indubitavelmente existem acentuadas
diferenças individuais em nível de tolerância à estimulação, mas,
novamente, sabe-se relativamente pouco sobre este tópico.
Uma última questão é aquela dos efeitos da adaptação a longo
prazo. Wohlwill (1966) indaga: “Quais são os efeitos a longo
prazo da exposição a um dado ambiente caracterizado por um nível
especial de intensidade, complexidade, incongruência, etc., de esti­
mulação?” (pág. 36).
Prossegue, então, com a questão de “se, a despeito da capaci­
dade individual de adaptação a uma faixa surpreendentemente ampla
de condições ambientais, a exposição prolongada aos ambientes de
estímulos, chegando por exemplo aos extremos das dimensões de
complexidade ou intensidade, não obstante pode não deixar sua
marca”. Este tipo de exposição tem provavelmente uma série de
efeitos comportamentais. Lembremos, por exemplo, nossa discussão
sobre sobrecarga de sistema, experimentada por pessoas que moram
em cidades, e as reações adaptativas que se supõe desenvolver, para
redução da sobrecarga. De acordo com a teoria de sobrecarga do
sistema, muitos dos tipos de comportamento tidos como caracterís­
ticos de habitantes urbanos podem ser considerados reações adapta­
tivas que se desenvolveram devido a longa exposição a estimulação
excessiva.
Por conseguinte, a adaptação ao ambiente constitui um processo
que realmente ocorre, mas sobre o qual pouco sabemos. Uma vez
que a adaptação pode resultar numa ampla gama de comportamentos,
este assunto deveria ser um campo importante de pesquisa para os
interessados nas relações comportamento-ambiente. Embora vários
pesquisadores estejam começando a dedicar alguma atenção ao pro­
blema, questões como as acima mencionadas ainda não têm respostas.

201
Epílogo

Psicologia ambiental:
e agora, que rumo vai tomar?

Conforme anteriormente ressaltado, a psicologia ambiental é um


campo recente de pesquisa, cujo objeto principal ainda não está
completamente definido. Os pesquisadores de muitas disciplinas
têm contribuído com descobertas científicas para o campo mas, como
se viu, muito há ainda por fazer no campo da pesquisa. Embora
uma quantidade relativamente ampla de pesquisa empírica embase
o conhecimento atual neste campo, ela é ainda restrita. Neste estágio
de desenvolvimento do campo, poderiamos legitimamente perguntar:
e agora, que rumo vai tomar? Dentro de poucos anos, irá a psico­
logia ambiental se expandir e firmar-se decididamente como um
campo científico, ou será retrospectivamente considerada como uma
moda passageira, nunca atingido sua promessa inicial?
Embora nenhuma bola de cristal consiga responder a esta per­
gunta, parecem-nos necessários diversos desenvolvimentos para o fir­
me estabelecimento da psicologia ambiental. Em primeiro lugar,
conforme ressaltamos, há somente uma restrita margem de pesquisas
sobre a qual este campo se baseia. Conseqüentemente, se a psico­
logia ambiental deve desenvolver-se, é imperativo que se aprofunde
ainda mais esta margem de pesquisa. Igualmente importante é que
esta pesquisa deverá ser tal que as descobertas possam ser utilizadas
por pessoas que tomam decisões quanto a características ambientais,
em áreas que vão do projeto de edifícios e outros ambientes cons­
truídos até o uso de áreas virgens.
A psicologia ambiental tem suas origens nas relações entre o
homem e o seu ambiente físico e, se não fornecer soluções para os
problemas que surgem destas relações, provavelmente não subsistirá.
O futuro ambiental centraliza-se em duas questões-chave: Haverá
mais pesquisas no campo? As descobertas das pesquisas serão uti­
lizadas? Uma terceira pergunta: Serão alteradas as atitudes públi­
cas perante o ambiente e, neste caso, tais alterações afetarão o desen­
volvimento deste campo?

203
O aumento no nível de pesquisa cm psicologia ambiental de­
penderá de uma série de fatores, que vão desde necessidade de maio­
res fundos até a alteração das atitudes atuais dos psicólogos em
relação á pesquisa deste tipo. Toda pesquisa é onerosa e as pes­
quisas no campo da psicologia ambiental não constituem uma ex­
ceção. Embora os programas atuais de pesquisa em muitas áreas
sofram cortes nos fundos a eles destinados, estes programas ainda
são, em muitos casos, viáveis. A maioria das áreas de pesquisa em
psicologia ambienta], entretanto, nunca teve apoio financeiro adequa­
do e a pesquisa atual tem concessões e contratos insuficientes, de
forma que é difícil para os investigadores da área a continuação dos
programas de pesquisa que existiram por algum tempo; e os novos
pesquisadores são desencorajados a ingressar neste campo. A menos
que haja disponibilidade de verbas adicionais, não veremos em fu-v
turo próximo um aumento sensível das pesquisas relacionadas com
o campo de psicologia ambiental.
A concessão de verbas é um fator crítico, mas a pesquisa ocupa
também mão-de-obra e relativamente poucos psicólogos acham-se
agora interessados em psicologia ambiental. Conforme ressalta Craik
(1973): “À luz do número de equipes atualmente em pesquisa, ao
longo do ponto de contato comportamento-ambiente, toma-se evi­
dente que o campo poderia suportar um aumento significativo na
mão-de-obra de pesquisa, embora ainda perdure o seu status de cam­
po de comportamento subexplorado” (pág. 412). Isto poderá ser
alterado, caso se tomem as providências necessárias para sanar o
problema de concessão de verbas.
Poderemos ver, entretanto, mais psicólogos ocupando-se da
área de psicologia ambiental. Em primeiro lugar existe agora a
disponibilidade de programas de treinamento graduados, para que os
alunos obtenham títulos avançados. Embora estes programas sejam
raros e preparem apenas alguns alunos, uma tendência geral em mui­
tos deles poderá resultar em números substanciais de graduados que
possam contribuir para o campo de psicologia ambiental. Os pro­
gramas graduados reconhecem, sempre mais, que o treinamento tra­
dicional não tem preparado os alunos para as situações do mundo
real — para a pesquisa relativa aos problemas que pressionam a
sociedade moderna. Deverão ser apresentados aos alunos métodos
de pesquisa que não o estrito enfoque experimental, onde uma entre
todas as variáveis é controlada; igualmente, deverão ser alteradas as
atitudes para com as pesquisas voltadas para a resolução de pro­
blemas do mundo real. A “pesquisa aplicada” não é mais uma área
para alunos que não poderíam dedicar-se à pesquisa “pura” ou “bá­
sica”. Deverá haver, em futuro próximo, mais graduados interessa­
dos na realização de pesquisas em psicologia ambiental.

204
Serão utilizadas as descobertas das pesquisas? A resposta cen­
traliza-se nos relacionamentos de três grupos: os pesquisadores em
psicologia ambiental, os usuários potenciais das descobertas das pes­
quisas (arquitetos, planejadores, entidades governamentais) e os
usuários últimos do ambiente, o público em geral.
Existe, atualmente, um problema para os que tomam decisões
quanto a problemas ambientais. Se desejam considerar os efeitos
comportamentais de suas decisões, os dados comportamentais para
um planejamento inteligente provavelmente não existam. Entretan­
to, Ward e Grant (7970) apontam:
“Nota-se que outro problema grave tem sido o fato de que o
planejador não tem sabido quais os tipos de dados de que necessita
em primeiro lugar, independentemente de existirem ou não. Um ter­
ceiro problema, o maior de todos, é que, se o planejador sabe qual
tipo de dados seria útil e se, como tem ocorrido cada vez mais nos
últimos anos, sabe da disponibilidade dos dados, não sabe como in­
corporá-los em seu processo de tomada de decisões” (pág. 2).
A solução destes problemas define áreas adicionais de respon­
sabilidade para futuros cientistas do comportamento, em pesquisa
ambiental. Em primeiro lugar, o pesquisador deverá auxiliar os
planejadores ambientais a determinar quais informações se aplicam
ao problema. Por exemplo, os planejadores necessitarão de medidas
de atitudes ou medidas de atividade? Quais atitudes ou atividades
representam efeitos de decisão de planejamento? Estes tipos de
questões exigem respostas antes da coleta de dados. Em segundo
lugar, o pesquisador não deverá somente projetar suas investigações
para responder a perguntas pertinentes; deverá também transformar
suas descobertas em instrumento inteligível para os planejadores. O
pesquisador deverá apresentar também mais do que observações in-
cidentais ou resultados de manipulações estatísticas de dados para in­
fluenciar pessoas no planejamento ou administração ambientais.
Finalmente, o pesquisador deverá difundir suas descobertas entre os
que possam necessitar de suas informações.
Além de cooperar com as pessoas que tomam decisões em assun­
tos ambientais, na formulação de novos métodos de planejamento e
administração baseados em resultados de pesquisa, o futuro pesqui­
sador ambiental deverá atuar como defensor ou representante dos
últimos usuários das instalações ambientais e pré-construídas exis­
tentes. No momento, os planejadores e administradores não são res­
ponsabilizados pelos efeitos comportamentais que suas decisões pos­
sam ter. Portanto, o cientista do comportamento envolvido em

205
^ INSTITUTO- : • r- .C O L O G U
«IILIOTECA — r t - O r A O <j A ç g ^
pcsqulsu ambiental deverá fornecer informações básicas aos que
tomam decisões sobre o sucesso ou falha comportamental de seus
projetos. Esta exigência poderá ser rigorosamente atendida median­
te rígida avaliação dos ambientais existentes; por exemplo, projetos
habitacionais públicos, parques, desenvolvimentos de subúrbios, sis­
temas de transporte na cidade — para determinar as necessidades e
desejos dos consumidores ambientais. Estas informações, por sua
vez, deverão ser comunicadas aos que tomam decisões. Finalmente,
a aceitação pública de tais investigações de pesquisa aumentará, à
medida que o público mais se conscientizar da influência que o am­
biente tem sobre a vida diária.
A atitude do público em geral perante o ambiente e os problemas
ambientais influenciarão o futuro desenvolvimento da psicologia am­
biental. Este campo atingiu seu estágio atual devido ao interesse
do público pela deterioração do ambiente físico, por problemas de
população e outros, abordados neste livro. Tal interesse e atenção,
entretanto, poderão mudar abruptamente e, se isso acontecer, dimi­
nuirá o apoio a todas as ciências ambientais, inclusive a psicologia
ambiental. O público parece sentir os esforços voltados para a pro­
teção do ambiente como válidos, enquanto não houver impacto
significativo sobre o seu próprio comportamento. Os esforços de
entidades governamentais terão efeitos pronunciados sobre o com­
portamento; entretanto, se tais efeitos forem por demais dramáticos,
os “ambientalistas” poderão ser condenados, ao invés de aplaudidos.
Para onde vai a psicologia ambiental, de agora em diante? Não
respondemos a esta questão. Ressaltamos, entretanto, o que deverá
acontecer se o campo vier a expandir-se significativamente daqui a
alguns anos.
A concessão de verbas, a mão-de-obra, a aplicação das desco­
bertas das pesquisas e a atitude pública são fatores decisivos. A
psicologia ambiental deu e dará contribuições para auxiliar a resolver
alguns dos problemas que atualmente pressionam a sociedade. O
reconhecimento crescente deste fato resultará em um forte desenvol­
vimento do campo.

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214
Índice

Abordagem ecológica, em hospitais —• de residentes em favelas 97-98


8-81 — futuro da psicologia ambiental
adaptação 206
— fatores estimulantes da 201 — mensuração das 22
— limites de 200 — sobre eventos naturais 156-157
Agência de Proteção Ambiental 1, atividade social
181 — áreas selvagens 135
ambiente — equipe hospitalar 80-81
— adaptação do 199-201 — escritórios 76
— construído, como uma variável — favelas urbanas 97
independente 12 — influência da distância entre as
------- definição de 27 casas 50
------- níveis de sistema do 28 — influência da localização da porta
— definição de 3 51
— físico, definição de 148 — instituições penais 90
— geográfico, definição de 148 — instituições psiquiátricas 83-87
fatores que influenciam a — no espaço t defensável 62
percepção do 151-154 — projetos de unidades habitacio­
------- migração 153 nais públicas 62
------- percepção do habitante do atividades ao ar livre
151-154 — fases das 147
— natural, como uma variável de­ — motivações dos participantes nas
pendente 13 145-146
------- definição 125-126 atmosfera urbana 101-102
------- tipos de interações no 125-
Cidades
126
— atmosfera das 101-103
— ver também áreas virgens; re­
— crime nas 107
creação ao ar livre
— crise urbana nas 94-95
amizade, influência da distância
— diferença entre as 118-120
entre as casas 50
— favelas nas 96-99
áreas de atividades ao ar livre, re­
— imagem das 100-107
quisitos dos usuários 146
— intervenção em espectadores nas
áreas virgens, características dos 120-122
usuários puristas 141 — mapas cognitivos das 101, 102-
— requisitos para a satisfação dos 107
usuários 134-139 — patologia e 107-111
— ver também recreação ao ar — rurais versus urbanas 115-117
livre — satisfação da vida nas 95-100
atitude pública e psicologia am­ — sobrecarga no sistema da 112-
biental 206 118
atitudes (reações) — subúrbios das 99-101
— através da poluição 181-186 — superpopulação das 108
— como medidas dependentes 22 clima, influência no comportamento
— definição de 21 151

215
coletivas, hnbitnçõcs escritórios
— ntividndc social nas 61-62 — iluminação em 73
— crime nas 61-64 — janelas em 73
— patologia nas 110 — privacidade nos 76
— privncidndc nas 53-57 — protótipo 75
comportnmcntnl, desmoronamento — ruído nos 74
176 espaço defensável
comportamento — crime e 62-64
— como uma variável dependente — definição de 62
16-23 espaço pessoal
— definição de 5 — definição de 42
— de furar fila 122 — diferenças culturais 42
contexto ambiental — diferenças individuais 42
— apresentação do 14-15 espectadores, intervenção de 120-122
— definição de 15 experiência estética
— imaginário 16, 102 — critério para áreas naturais 136-
— representação do 103, 106-107 139
conversação e a disposição do mo­ — usuário de áreas naturais 137
biliário 37-39
cor Habitação
— da sala e comportamento aberto — atividade social 51-52
32 — coletiva 53-64
— influência da cor de uma sala — individual 47-53
na percepção da temperatura do — insatisfação 57-61
ambiente 30-31 — material estrutural 53
— na percepção de salas 30-33 — privacidade 47-49, 53-57
crime — território 49-50
— e áreas das unidades habitacio­ hipótese tonalidade-calor 31
nais 64 hodômetro 33
— e densidade de população 109
— e unidades habitacionais públicas Iluminação, em escritórios 73-74
61-64 individual, habitação familiar
— influência da altura das constru­ — atividade social 51
ções no 62 — privacidade 47-48
— influência do hall 64 — território 48-50
— nas cidades 107 — valor à 47-49
— poços de escadas e elevadores instituições de doentes mentais
63 — atividade social 83-87
crise urbana 94-95 — disposição do mobiliário 86-87
— privação sensorial 88
Determinismo ambiental 148-149 — privacidade 88
diferencial semântico 18 isolamento, importância dada ao 134
distância fundamental 57
Janelas
Educação — importância em escritórios 72-74
— pesquisadores ambientais 204 — importância em salas de aula 41
— usuários de parques 130 jardinagem 143-144
enchentes, como uma catástrofe na­
Lista de Verificação de Adjetivos de
tural 156-157
Estados de Ânimo (MACL) 20
escritório de ação 69-72
escritório de planta aberta Mapa cognitivo
— comparado a escritórios conven­ — componentes do 103-104
cionais 75-76 — definição de 101
— condições de trabalho no 76-77 mapeamento cognitivo
— descrição do 75 — como uma reação global 21

216
— uso da técnica do 103-106 — ruído 188-197
materiais estruturais, influôncia na população, crescimento da, estágios
privacidade 53 do 170
meio ambiente — densidade de, definição de 164-
— escritórios 71-74 165
— hospitais 81 -------estudos de campo com ani­
— poluição do 181-188 mais 167-170
— ruído no 188-197 -------estudos de laboratório com
— salas 33-35 animais 167-170, 174
mobiliário, arranjo do ------- fatores de stress adicionais
— atividade social em enfermarias 174-176
mentais 87 -------reações comportamentais dos
— escritórios 67-72 animais 172-173
— pesquisa básica 37-38 -------reações físicas dos animais
— planejamento do 67-68 167-170
— salas de aula 39-40 ------- stress social 166-170
— ver superpopulação
Papel dos pesquisadores ambientais portas, colocação das
205 — influência na amizade 51-52
parques, ver recreação ao ar livre — influência na privacidade 53-56
percepção de catástrofes naturais privação sensória em instituições psi­
156-157 quiátricas 88
pesquisa, métodos de privacidade
— abordagem ecológica 80-81 — em habitações coletivas 53-57
— apresentação das variáveis inde­ — em habitações familiares indivi­
pendentes 14-16 duais 47-48
— estudos de campo 8-9 — em hospitais 82
— estudos de laboratório 159-160 — em instituições penais 89
— hodômetro 33 — em instituições psiquiátricas 88
— interações no ambiente humano psicologia ambiental
natural 128-129 — considerações para o futuro 203-
— lista de verificação de objetivos 206
129 — definição 2
— mapeamento cognitivo 101, 102- — história 1-2
107
— método experimental 8-9 Reações
— método de observação naturalís- — fisiológicas a ambientes naturais
tica 9-10 159-160
— método de testagem 10-12 — globais, como uma medida de­
— pesquisa de levantamento 11, 23- pendente 20-21
25, 129 — inferenciais, como uma medida
— seleção de indivíduos 23-25 dependente 21-22
— técnica de mapeamento compor- — preferenciais, como medidas de­
tamental 84-85 pendentes 23
recreação ao ar livre
— teste de Apercepção Temática
— ambientes naturais simulados
158 143-148
poluição — áreas virgens e parques 129-143
— como uma ameaça ao ambiente — características do usuário 130-
182 143
— consciência da poluição do ar — como meio de fuga ao stress
186 132-133
— do ar e da água 181-188 — fases da 146-148
— fatores de, influenciando atitudes — necessidades do usuário 133
183-185 — requisitos do usuário da 133-137

217
— superpopulação 133 — poluição 181-197
— tipos dc 127-128 — ameaça de 162-163
ruído — problemas sociais como causa
— definição dc 188, 192-193 de 164
— c desempenho humano 195-196 — reações ao 163
— cm escritórios 74 — superpopulação de animais 166-
— c patologia nas cidades 110 177
— c saúde 196-197 — superpopulação humana 177-
— fatores físicos na percepção 193 180
•— fatores situacionais na percepção superpopulação
do 193 — áreas de recreação e 133
— nos subúrbios 100 — definição 164
— reação da comunidade ao 100 — e doença mental 110
— efeitos nas cidades 177-179
Salas — investigações de laboratório 177
— conforto ambiental e comporta­ — variáveis envolvidas na percep­
mento 33-35 ção da 165
— cor e comportamento 30-33 — ver também população, densida­
— defesa do território nas 44-45 de de
— forma e percepção 36
— forma e territorialidade 45 Temperatura
— mobiliário, como determinante de — aglomeração e 179
comportamento 37-41 — de escritórios 72
— tamanho e comportamento 35 — de salas 30-31
salas de aula territorialidade, definição 44-45
— disposição das, como um deter­ território
minante comportamental 39-41 — defesa em salas 45-46
— janelas nas 40-41 — em favelas urbanas 98
satisfação
— em habitações coletivas 62
— áreas virgens e parques 133-138
— em habitações familiares indivi­
— e moradores de favelas 96-98 duais 48-49
— e moradores de subúrbios 99-100
Teste de Apercepção Temática 21
— e usuários de áreas selvagens
142 Unidades habitacionais públicas
— e vida na cidade 95-100 — atividade social 61
secas 158 — crime 61-64
sistema, sobrecarga de — insatisfação 57-61
— definição 112 — privacidade 53-60
— diferenças entre comportamento usuários de parques, ocupações dos
urbano e rural 115-118 130
— mecanismos adaptativos 113
— reação ao 112-114 Variáveis dependentes
som — em ambientes construídos 92
— características do 189-190 — tipos de 17-20
— mensuração do 191 variáveis independentes
stress — definição de 12
— calor 160 — no ambiente construído 92
— causa de 161-162 — tipos de 13
— estado de 161 viajar (movimentar-se)
— fatores múltiplos de 174 — atividade ao ar livre 147-148
— frio 160 — em hospitais 78
— migração humana 155 — recreação ao ar livre 147

218
O tema central desta obra é o relacionamento entre
o ambiente físico e o comportamento humano,
comportamento é profundamente moldado pelo
mbiente — tanto pelo ambiente “construído”
uanto pelo ambiente “natural”. Um conhecimento
ada vez mais completo dos efeitos desta
ontínua influência é necessário para compreender
s causas do agir humano e planejar um ambiente
ais adequado às aspirações do homem para
ma vida melhor.

O objetivo principal deste livro é oferecer aos


estudantes de diversas disciplinas correlatas
uma introdução à Psicologia ambiental, sejam
eles das áreas de Psicologia, Educação, Ciências
ociais, Urbanismo, A ura, Ecologia ou
Construção Civil. J

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