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Da aufozu: Maple-France Hirigoyen

Mal-estar no Trabalho:
Rede$nindo Q AssédioMoral

.+

ASSÉDIO MORAL
A violência perversa
no comi,di,an,o

7a E01ÇÃ0

Tradução
ManamelenaKühner

61C. gS8
R 6é&PK

BERTRÁND BRASll
É vedada a reprodução e a distribuição

X
g
?. b5- 103 Lu
#q4. 20q
2
O ASSÉDIO
NA EMPRESA

De que estamos falando?

POR ASSÉDIO EM UM LOCAL DE TRABALHO TEMOS QUE


entender toda e qualquer conduta abusivamanifestando-se
sobretudo por comportamentos, palavras, aros, gestos, escritos
que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à inte-
gridade física ou psíquica de uma pessoa,p6r em perigo seu
emprego ou degradar o ambiente de trabalho.
Embora o assédio no trabalho seja uma coisa tão antiga
quanto o próprio trabalho, somente no começo destadécadaâoi
realmente identiâcado como âenâmeno destruidor do ambien-
te de trabalho, não só diminuindo a produtividade como tam-
bém favorecendo o absenteísmo,devido aosdesgastes psicológi-
cos que provoca. Esse6enâmeno âoi estudado principalmente
nos,países-anglo-saxões e nos países nórdicos, sendo quali6cado
dé.mobbÍn#,.!dmo derivado de mo&(horda, bando, plebe), que
implierãidéia de algo importuno. Heinz LeymannÍ, pesquisa-
dor em psicologia do trabalho que ãtiiã iiãSuéciã; Reftim levan-

l H. Leymann, À4a&bíng,trad. Êanc« Paria, Seuil, 1996

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66 O assédio na empresa Assédiomoral 67

tamento junto a diferentes grupos proâssionais, h4..94ig-.d!!-dqz rem manter-se cora da questão. Mas quando essetipo de intera-
anos, sobre esseprocesso que ele qualiâcou de(:jjpsicoterrorl). ção assimétrica e destrutiva se processa,só tende a crescer se
Anualmente, em inúmeros países, os sindicatos, os méditõíão ninguêm de cora intervier energicamente. Na realidade, em um
trabalho e as organizações de planos de saúde começam a inte- momento de crise, tende-se a acentuar o mecanismo mais habi-
ressar-sepelo âenõmeno tual: uma empresa rígida torna-se ainda mais rígida, um empre-
Na França,nos últimos anos, tanto nas empresasquanto na gado depressivo torna-se ainda mais depressivo, um agressivo
médiaa questãotem girado sobretudoem torno do assêdio ainda mais agressivoetc. Acentua-se aquilo que se é. Uma situa-
sexual, a única levada em conta pela legislação 6'ancesa,e que ção de crise pode, sem dúvida, estimular um indivíduo e levá-
não passa, porém, de um dos aspectos do assédio /afo senso. lo a dar o melhor de si para encontrar soluções,mas uma situa-
Essaguerrapsicológica no local de trabalho agregadois ção de violência perversatende a anestesiara vítima, que não irá
âenâmenos:
mostrar senãoo que tem de pior.
-- o abusode poder, que é rapidamente desmascaradoe não Trata-se de um 6enâmeno circular. De nada serve, então,
é necessariamenteaceito pelos empregados; procurar quem estána origem do conflito. Até mesmo asrazões
-- a manipulação perversa, que se instala de forma mais insi- são esquecidas.Uma seqüência de comportamentos deliberados
diosa e que, no entanto, causa devastaçõesmuito maiores. por parte do agressor destina-se a desencadear a ansiedade da
O assédio nasce como algo inofensivo e propaga-se insidio- vítima, o que provoca nela uma atitude defensiva, que é, por sua
samente. Em um primeiro momento, as pessoasenvolvidas não vez, geradora de novasagressões.Depois de certo tempo de evo-
querem mostrar-se ofendidas e levam na brincadeira desavenças lução do conflito, surgemÊenâmenos
de fobia recíproca:ao ver
e maus-tratos. Em seguida essesataques vão se multiplicando e a pessoa que ele detesta, surge no perseguidor uma raiva ária,
a vítima é seguidamente acuada, posta em situação de inferiori- desencadeia-se na vítima uma reaçãode medo. E um reflexo
dade, submetida a manobras hostis e degradantes durante um condicionadoagressivoou defensivo.O medo provocana vítima
período maior. comportamentos patológicos, que servirão de álibis parajustiâ-
car retroativamente a agressão.Ela reage,na maior parte das
Não se morre diretamente de todas essasagressões,masper-
vezes,de maneira veemente e confusa. Qualquer iniciativa que
de-se uma parte de si mesmo. Volta-se para casa,a cada noite,
tome, qualquer coisa que faça, é voltada contra ela pelo perse-
exausto, humilhado, deprimido. E é difícil recuperar-se.
guidor. O objetivo de tal manobra é transtorno-la,leva-la a umà
Em um grupo, é normal que os conflitos se manifestem.
total confissão que a faça cometer erros.
Um comentário merinoem um momento de irritação ou mau
Mesmo quando a perseguição é horizontal (um colega
humor não é signiâcativo, sobretudo se vier acompanhado de
agredindo um outro colega), a chefia não intervém. Ela se recu-
um pedidode desculpas.
É a repetiçãodosvexames,dashumi- sa a ver, ou deixa as coisasacontecerem. Por vezesnem toma
lhações, sem qualquer esforço no sentido de abranda-las, que consciência do problema, a não ser quando a vítima reage de
torna o âenõmeno destruidor.
maneira muito ostensiva (crise de nervos, choro...) ou quando
Quando essecerco se inicia é como uma máquina que se falta muito seguidamente ao trabalho. O conflito, na verdade,
põe em movimento e pode atropelar tudo. Trata-se de um âenâ-
degenera porque a empresa se recusa a inteúerir: "Vocêsjá estão
meno assustador,porque é desumano,sem emoções e piedade. bem grandinhos para resolver isto sozinhosl" A vítima não se
Os que estãoem torno, por preguiça,egoísmoou medo, prefe- sente defendida, por vezes pode até sentir-se enganada pelos
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68 ,4ssédíomoral 69
O assédio na empresa

que estão assistindo à agressãosem intervir, pois a chefia rara- então totalmente dedicada a seu trabalho, anuncia sua gravidez.
mente propõe uma solução direta: "Mais tarde tratamos distol" Para o empregador isso quer dizer: licença-maternidade, saída
mais cedo à tarde para ir pegar a criança na creche, faltas quan-
A solução proposta é, na melhor das hipóteses, uma mudança
para outro posto, sem que se pergunte se o interessadoestá de to o bebê âcar doente... Em suma, ele tem medo de que essa
empregada-modelonão dique:mais inteiramente à sua dis-
acordo. Se, em determinado momento do processo,alguém
reage de maneira sadia, o processo é detido. posição
Quando o processo de assédio se estabelece, a vítima é
estigmatizada: dizem que é de difícil convivência, que tem mau
Quem é visado? caráter, ou então que ê louca. Atribui-se à sua personalidade
algo que é conseqüênciado conflito e esquece-seo que ela era
Contrariando o que seusagressorestentam fazer crer. as antes, ou o que ela é em um outro contexto. Pressionadaao
auge,não é raro que ela se torne aquilo que querem fazer dela.
vitimas, de início, não sãopessoasportadoras de qualquer pato-
logia, ou particularmente frágeis. Pelo contrário, 6reqüente- Uma pessoaassim acossadanão conseguemanter seu potencial
mente o assédioseinicia quandouma vítima reageao autorita- máximo: fica desatenta,menos eficiente e de flanco aberto às
rismo de um chefe, ou se recusaa deixar-sesubjugar.É sua críticas sobre a qua]idade de seu trabalho. Torna-se, então, 6aci]
aeastá-lapor incompetência profissional ou erro.
capacidade de resistir à autoridade, apesar das pressões, que a
leva a tornar-se um alvo. ' ' ' O caso específico dos pequenos paranóicos que se fazem
O assédiotorna-se possívelporque vem precedido de uma passarpor vítimas não deve mascarara existência de vítimas reais
desvalorização da vítima pelo perverso, que é aceita e até cau. de assédio.Os primeiros são pessoastirânicas e inflexíveis, que
nada posteriormente pelo grupo. Essa depreciação dá uma entram facilmente em conflito com os que os cercam, que não
justi6lcativa a poster/orí à crueldade exercida contra el, . l.va ', aceitam a menor crítica e se sentem facilmente rejeitados.
pensarque ela realmente merece o que Ihe estáacontecendo. Longe de serem vítimas, são potenciais agressores, caracteriza-
No entanto, asvítimas não sãobranco-atiradoras.Pelo con. dos por sua rigidez de caráter e sua incapacidade de assumir
Erário, encontramos entre elas inúmeras pessoasescrupulosas, culpas.
que apresentam um "presenteísmo patológico": são empregados
peMeccionistas,muito dedicadosa seu trabalho, e que almqam
ser impecáveis. Ficam até tarde no escritório, não hesitam em Quem agride quem?
trabalhar nos fins de semana e vão trabalhar mesmo quando
estão doentes. Os americanos usam o termo wor&aAo/fcpara O comportamento de um grupo não é a soma dos compor-

mostrar que se trata de uma forma de dependência. Depen- tamentos dos indivíduos que o compõem: o grupo é uma enti-

11 dência que não estáligada exclusivamentea uma predisposição


caráter da vítima, mas que é sobretudo conseqüência do
dade nova, que tem comportamentos próprios. Freud admite a
dissoluçãodasindividualidades na multidão e nela vê uma dupla
domínio exercido pela empresa sobre seus assalariados. identificação: horizontal, em relaçãoà horda(o grupo), e verti-
Como efeito perverso da proteção das pessoasna empresa -- cal, em relação ao chefe.
uma mulher grávida não pode ser demitida - o processo ie assé.
dio muitas vezespassaa ter lugar quando uma empregada, até
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/
70 O assédio na empreslÍ Y' ,4ssédíomora/ 71

Um colegaagride outro colega gaveta está aberta. Ela recebe uma advertência, por ter deito
algo errado. Cathy sabeque só uma pessoapode ter aberto a
Os grupos tendem a nivelar os indivíduos e têm diâculdade gaveta. Pede para ver o comissário, decidida a pâr as coisas
em conviver com a diferença (mulher em um grupo de homens, em pratoslimpos. Ele a convocajuntamente com o colega
homem em um grupo de mulheres, homossexualidade,diferen- suspeito, ÊHando em sanção disciplinar. No momento da
ça racial, religiosa ou social...). Em certas categorias tradicional- entrevista, o comissário "se esquece" de calar do problema
mente reservadasaos homens, não é Hacila uma mulher fazer-se pelo qual se encontram reunidos e emite vagascríticas a res-
respeitar quando chega. São brincadeiras grosseiras, gestos obs- peito do trabalho dela. E em seguidao relatório é extraviado.
cenos, menosprezo por tudo que ela diz, recusa a levar seu tra- Alguns mesesdepois, quando ela encontra seu amigo e
balho em consideração.Parece até "trote de calouros", e todo companheirode equipe com um balana cabeça,vítima de
mundo ri, inclusive as mulheres presentes. Elas não têm escolha. suicídio, ninguém vem consola-la.
E debocham de sua âagilidade quando ela pede alguns dias
Cathy tornou-se inspetora de polícia por concurso público. de licença por questõesde saúde: "Ora, estamosem um
Mesmo sabendoque as mulheresrepresentamapenasum mundo de machosl
sétimo do pessoal da polícia, ela espera ser admitida e depois
passarpara o Juizado de Menores. Mas, logo que surge um Inúmeras empresas revelam-se incapazes de fazer respeitar
1. os mínimos direitos de um indivíduo e deixam desenvolver-se
primeiro desentendimento com um colega, ele encerra a
discussão, dizendo: "Você não é mais que um buraco em ci- em seu Interior o racismo e o sexismo.
ma de patas!" O que Êazcom que os outros colegas caiam Por vezes, o assédio é suscitado por um sentimento de inve-
na risada e digam outras coisas.Ela não dá a mão à palma- ja em relação a alguém que tem alguma coisa que os demais não
tória, zanga-se e protesta. Em represália, isolam-na e tentam têm (beleza, juventude, riqueza, relações influentes). E também
desvaloriza-la junto às demais inspetoras: "Vocês, sim, são este o caso dosjovens portadores de vários diplomas que ocu-
mulheres competentes, não são presunçosasmetidas a bes- pam um posto em que têm como superior hierárquico alguém
tas"Quando há uma chamadapo]icia], todo mundo se agi- que não possui o mesmo nível de estudos.
ta, mas a ela não se dá qualquer explicação.Ela Êazpergun-
tas: "Onde, quando, como, em que quadro jurídico?", e Cecília é uma mulher alta e bonita, de 45 anos, casadacom
não Ihe dão resposta:"Ora, sqa lá o que âor, você não vai um arquiteto e mãe de três alhos. As di6culdades proâssio-
saber fazer mesmos Melhor ficar aqui e ir fazendo o caRel" nais do marido obrigaram-na a procurar um emprego para
Ela não consegue marcar uma entrevista para discutir a fazer crente às despesascontratuais do apartamento. Ela
questão com a chega. Como dar nome a alguma coisa que guardou de suaeducaçãoburguesauma forma elegantede
ninguém quer sequer ouvir? Ela tem que se submeter ou vestir-se, boas maneiras e facilidade de expressar-se.No
opor-se ao grupo. Como seirrita, dizem que é uma desa- entanto, não tendo qualquer diploma, ocupa um posto de
justada. E esserótulo torna-se um refrão que Cathy tem trabalho de valor menor, que não Ihe exige mais que Cozer
que carregar consigo em todas as suasmudanças. classificações sem maior interesse. Desde o momento em
Uma noite, depois do serviço, ela deixa, como de costume, que entrou para a empresa,Cecília 6oi deixadade lado pelas
sua arma em uma gaveta fechada a chave. No dia seguinte a colegas, que começam a multiplicar pequenas observações
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72 0 assédiona empresa 73
,4ssédíomoral

desagradáveis:"Não ê com o salário que você ganha que sua capacidade de escrever,de calcular ou de usar um com-
conseguecomprar essetipo de roupasl" A chegadade um putador. Diante dela, Denise não ousa depender-see reage
novo superior hierárquico, uma mulher secae invejosa, vem voltando-se para dentro e acumulando falhas, o que acaba
acelerar o processo. Retiram-lhe até as últimas tareÊu que pondo em perigo seu emprego. Ela tenta fazer contado com
tinham algum interessee ela se vê na condição de emprega- o superior hierárquico de suachefe, visando obter suatrans-
da doméstica do serviço. Quando tenta protestar, retrucam- ferência. Dizem-lhe que o que âor necessárioserádeito. E
Ihe: "A madameé exigente,não quer fazer trabalhosinfe- nada muda.
riores!" Cecília, que nunca teve muita autoconfiança,não Deprimida, angustiada,dão-lhe licença para tratamento de
entende bem o que se passa,e tenta primeiro demonstrar saúde.Fora do contexto do trabalho, seu estado melhora,
sua boa vontade, aceitando as tarefa mais ingratas. Depois mas assim que há uma retomada, ela recai. Vai assim alter-
se culpa: "A íàlha é minha, eu é que devo ser despeitada!" nando períodos de doença e recaídasdurante dois anos. O
Nas raras vezes em que ela se enraivece, sua chefe comenta médico do trabalho, contatado,faz tudo que pode para
6'lamente que ela não passade uma desajustada. resolver a situação, mas a direção não quer tomar conheci-
Então Cecília se cala e se deprime. Em casa,o marido não mento de nada. Devido a suasqueixas e a suas inúmeras fal-
entende suasqueixas, pois seu trabalho não representa mais tas por motivo de saúde,consideram-na"psicologicamente
que um modesto salário de buda. Seu médico, a quem ela perturbada". Não há mais solução para o seu caso.A sus-
descreve seu cansaço, seu desalento, sua faca de interesse. pensão de trabalho de Denise poderia prosseguir, assim, até
crê resolver o problema rapidamente prescrevendo-lhe a aposentadoria por invalidez, mas, depois de examinada por
Prozac. Espanta-se ao ver que sua prescrição resultou abso- uma junta médica, o médico do Conselho da Seguridade
lutamente ineficaz e, em desesperode causa,manda que ela Social a considera apta a retomar o trabalho.
procure um psiquiatra.
Paranão ter que voltar àquelelocal em que sesente tão mal,
Denise chega a pensar em pedir demissão. Mas, com 45
As agressõesentre colegaspodem também ter origem em anos e sem maiores qualificações, que poderia Cozer?Ela
inimizades pessoais relacionadas com a história de cada um dos passaa calar em suicídio.
protagonistas, ou na competitividade, com um tentando Êazer-
se valer às custas do outro.
Os conflitos entre colegassão difíceis de seremresolvidos
pelas empresas, que se mostram inábeis para tal. Muitas vezes o
S
l Há muitos anos Denise mantém más relações com uma que sucedeé que o apoio de um superior acabareforçandoo
colega de trabalho que Êoi amante de seu ex-marido. Essa processo:surgem boatos falando em favoritismo ou em favores
incómoda situaçãolevou-a primeiro a uma depressão.Para sexuaisl
fugir de encontros com ela, pede para ser transferida de Na maior parte dasvezes,o processoê assimreforçado
posto. Mas suasolicitação não tem resultado. devido à incompetência dos chefes menores. Realmente,
Três anos depois, ao ser designadapara um novo cargo, muitos responsáveishierárquicos não são administradores. Em
Denise vê-se colocada diretamente sób as ordens dessapes- um trabalho de equipe designa-secomo responsávelaquele que
soa,que passaa humilha-la diariamente, desquali6lcando é o mais competente no plano profissional, e não aquele que é
seu trabalho, debochando de seusecos, pondo em dúvida mais capaz em termos de direção. Mas mesmo que soam, no
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caso,muito competentes, inúmeros responsáveisnão conhecem trabalhava alguns anos antes: não Ihe entregam a correspon-
a dinâmica de uma equipe e não têm consciência dos problemas dência que chega, exrraviam arquivos, ouvem suasconversas
humanos que suasresponsabilidadesenvolvem. Ou pior, quan- privadas ao telefone, não Ihe transmitem os recados. Muriel
do tomam consciência dessesproblemas, muitas vezes apenas se queixa a sua chefia, que Ihe retruca que, se ela não conse-
ficam com medo, não sabendode que maneira intervir. Essa gue fazer-se respeitarpelas secretárias,é porque não tem
incompetência é um fator agravantequando se inicia um assé- envergadura para ser quadro de direção. E sugerem-lhe que
dio porque, quando os perseguidoressãocolegasAo primeiro se transâra para um cargo de menor responsabilidade.
termo de socorro deveria ser o responsável hierárquico ou a
escalasuperior. Mas, se não existeum clima de confiança,é
impossívelpedir buda a seu superior. Quando não é por Um subordinadoagredidopor wmsapetiot
incompetência, é por indiferença ou por covardia que cada um
tende a escudar-se nos demais. Esta situação é demasiado Êreqüente no contexto atual, em
que se busca fazer crer aos assalariados que eles têm que estar
dispostos a aceitar tudo se quiserem manter o emprego. A
Um st+perior agredido por SBbotdiwados empresadeixa um indivíduo dirigir seussubordinados de ma-
neira tirânica ou perversa, ou porque isto Ihe convém, ou por-
E um casobem mais raro. Pode dar-se no caso de uma pes- que não Ihe parece ter a menor importância. As conseqüências
soavinda de cora, cujo estilo e métodos soam reprovadospelo são muito pesadaspara o subordinado.
grupo, e que não faça o menor esforçono sentido de adaptar-se -- Pode ser simplesmente um caso de abuso de poder: um
ou impor-se a ele. Pode ser também o caso de um antigo cole- superior se prevalece de sua posição hierárquica de maneira des-
ga que tenha sido promovido semque o serviço tenha sido con- medida e persegue seus subordinados por medo de perder o
sultado.Em ambosos casos,a direção não levou suâcientemen- controle. Ê o caso do poder dos pequenos chefes.
te em contaasopiniõesdo pessoalcom o qual estapessoaserá -- Pode ser tambêm uma manobra perversa de um indivíduo
levada a trabalhar. que, para engrandecer-se, sente necessidadede rebaixar os
O problema tende a complicar-se quando a relação dos demais;ou que tem necessidade,para existir, de destruir um
objetivos do serviço não tiver sido previamente estabelecida e as determinado indivíduo escolhido como bode expiatório. Vere-
tarefas da pessoa promovida duplicarem indevidamente as de mos como, por procedimentos perversos,pode-se fazer um
algum de seussubordinados. empregado cair nessaarmadilha.

Muriel 6oi inicialmente secretária-assistente do diretor de


um grande grupo. Em razãode seu empenho no trabalho e Como impedir uma vítima de reagir
de inúmeros cursos noturnos durante anos seguidos,ela
acabaobtendo um cargo de responsabilidadedentro deste Apenas o medo de ficar desempregado não é explicação
mesmo grupo suâciente para a submissãodas vítimas de assédio.Os patrões e
Quando toma possedo cargo,elase vê imediatamente trans- os pequenoschefesque perseguemvisandoà própria onipotên-
formada em alvo da hostilidade das secretáriascom quem cia servem-se, conscientemente ou não, de procedimentos per-
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76 O assédio na empresa ,4ssédlomoral 77

versos que, atando psicologicamente as vítimas, impedem-nas conaito, levando sempretal atitude a crédito do outro. É uma
de reagir. Essesmesmos procedimentos, que se assemelham a maneira de dizer, semÊazê-locom palavras,que o outro não Ihe
armadilhas, coram utilizados nos campos de concentração e interessa, ou que sequer existe. Como nada é dito, ele pode ser
continuam a ser a norma nos regimes totalitários. incriminado por tudo.
Paramanter o poder e controlar o outro, utilizam-se mano- Essasituação torna-se ainda mais grave quando a vítima tem
brasaparentementesem importância, que vão se tornando cada propensãoa culpar-se: "Mas o que âoi que eu fiz a ele? Que é
vez mais violentas se o empregado resistea elas.Em um primei- )
que ele tem a censurarem mim?
ro momento, busca-seretirar dele todo e qualquer sensocrítico, Quando há censuras, elas são vagas ou imprecisas, podendo
até que ele não saibamais quem estáerrado e quem tem razão. dar lugar a todas asinterpretações e a todos os mal-entendidos.
Ele é estressado,
crivado de críticase censuras,vigiado, crono- Outras vezeseles entram na linha do paradoxo,para evitar qual-
metrado, para que sesinta seguidamente sem saberde que modo quer réplica: "Minha querida, eu gosto muito de você, mas
agir; sobretudo,não se Ihe diz nada que possapermitir-lhe você é uma nulidades"
compreender o que acontece. O empregado sente-se acuado. E todas as tentativas de explicação não levam a mais que
Vai aceitando cada vez mais, sem chegar sequer a dizer que vagasobservações.
aquilo é insuportável. SQa qual Êor o ponto de partida e sejam
quais porem os agressores,os procedimentos são os mesmos: não
se menciona o problema, mas age-sede maneira insidiosa para Desqwali$car
eliminar a pessoaem vez de encontrar uma solução.Essepro-
cessoé ampliado pelo grupo, que é chamado como testemunha, A agressãonão se dá abertamente,pois issopoderia permi-
ou que até participa ativamente do âenâmeno. tir um revide; ela é praticada de maneira subjacente,na linha da
O assédio em uma empresa passaa seguir por diferentes comunicação não-verbal: suspirosseguidos,erguer de ombros,
etapas,que têm como denominador comum uma recusaà olharesde desprezo,ou silêncios,subentendidos,alusõesdeses-
comunicação. tabilizantes ou malévolas, observações desabonadoras... Pode-se,
assim,levantar progressivamentea dúvida sobre a competência
pro6lssionalde um empregado,pondo em questãotudo que ele
Rec#sat a com#mÍcação dÍreía Eazou diz.
Por serem indiretas, é difícil defender-se dessas agressões.
O conflito não é mencionado, masas atitudes de desquali- Como descreverum olhar carregadode ódio? Como relatar
ficação são permanentes. O agressor recusa-se a explicar sua ati- subentendidosou silêncios?A própria vítima por vezesduvida
tude. Essa negação paralisa a vítima, que não pode se depender, do que percebe,não estábem certa de não estarexagerandoo
o que possibilita a continuidade da agressão.Recusando-se a que sente. Por menos que essaspalavrasvenham fazer eco a uma
mencionar o conflito ou a discuti-lo, o agressorimpede o deba- falta de autoconfiança do empregado,esteperderá de vez a con-
te que poderia levar a uma solução. No mecanismo da comuni- .dança em si próprio e desistirade depender-se.
cação perversa, o que se busca fazer é impedir o outro de pen- A desqualificaçãoconsiste também em não olhar para al-
sar,de compreender, de reagir. guém, não Ihe dizer sequerbom-dia, calarda pessoacomo de
Subtrair-se ao diálogo é uma maneira hábil de agravar o um objeto (não seÊdacom ascoisasl),dizer a alguém diante da
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78 O assédio na empresa Assédiomoral 79

vítima: ."Você viu, é preciso ser muito descarada para usar rou- lso/af
pas assiml" E negar apresença da vítima, não Ihe dirigir a pala-
vra, ou aproveitaruma ausênciasua de cinco minutos da sala Quando alguém decide destruir psicologicamente um
parapâr em cima de sua mesaum post-ífem vez de pedir-lhe empregado, para que ele não possa defender-se é preciso pri-
diretamente tal trabalho. meiro isola-lo, cortando as aliançaspossíveis.Quando alguém
Existem também as críticas indiretas, dissimuladasem brin- estásozinho, é muito mais difícil rebelar-se,sobretudo sejá Ihe
cadeiras, zombarias, ironias, sarcasmo. Pode-se em seguida âzeram crer que todo mundo estácontra ele.
dizer: "Ah, isso ê só uma brincadeira, ninguém vai morrer por Por insinuações ou por preferências ostensivas,provocam-se
causade uma brincadeira!" A linguagem é pervertida: cada ciúmes, jogam-se as pessoas umas contra as outras, semeia-se a
palavraescondeum mal-entendido que se volta contra a vítima discórdia. O trabalho de desestabilização é deito, assim, por cole-
escolhida.
gasinvejosos,e o verdadeiroagressorpode dizer que ele não
tem nada a ver com isso.
Quando esseafastamentovem dos colegas,consiste em dei-
Desacreditar xa-lo comer sozinho no refeitório, em não convida-lo quando
saem para beber juntos... Quando"a agressãovem da chefia, a
Para isso basta insinuar a dúvida na cabeça dos outros: "Você vítima escolhida -é progressivamente privada de toda e qualquer
não acha que..." Pode-se a seguir, com um discurso Caso,deito informação. É isolada, não é chamada para as reuniões. Sabe o
de um aglomerado de subentendidos, de não-ditos, dar origem que esperamde seu trabalho na empresapor meio de notas de
a um mal-entendido, visandoexplora-lo em proveito próprio. serviço. Depois é posta em quarentena, arquivada. Não Ihe dão
Parapâr o outro para baixo, ele é ridicularizado, humilha- nada para fazer, mesmo estando seus colegas sobrecarregados,
do e coberto de sarcasmosaté que perca toda a autocon6ança. mas também não Ihe dão permissão de ler seujornal ou de sair
81 Dá-se-lhe um apelido ridículo, caçoa-sede uma enfermidade mais cedo.
ou de uma deformação sua. Ou usam-se a calúnia, as mentiras, Foi o que aconteceu em uma grande empresaestatal,à qual
os subentendidos malévolos. Faz-se tudo de modo a que vítima chegou,semaviso,um diretor executivodo qual queriam man-
perceba o que se passa,sem que possa,no entanto, depender-se. ter-se abastados.Ele 6oi instalado em uma sala distante, sem mis-
Essasmanobras nascem de colegasinvqosos que, para sair são definida, sem contados, com um telefone que não estava
de uma situação embaraçosa,acham mais Haciljogar o erro sobre conectadoa nada.])epois de um certo tempo em tal situação,
o outro, ou de dirigentes que pensam estimular seus emprega- esseexecutivo preferiu matar-se.
dos criticando-os seguidamentee humilhando-os. Pâr em quarentena é algo muito mais gerador de estressedo
Quando a vítima se mostra abalada, ou se irrita, ou se que sobrecarregarde trabalho, e torna-se rapidamente um pro-
deprime, issojustiâca a perseguição: "Ah, nada disso me espan- cessodestruidor. Os dirigentes sentem-seà vontade para servir-
ta, essapessoaé loucas" se deste sistema com o üm de levar à demissão alguém de quem
não mais necessitam.

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80 O assédio na empresa
,4ssédfo mora/ 81

aceitar e até sentir-se lisonjeada, realçada, por ter sido "escolhi-


da". O assediadornão admite que a mulher visada possa dizer
Consiste em contar à vítima tarefas inúteis ou degradantes.
não. Aliás, se ela o Eaz,sobe em revide humilhações e agressões
E assim que Soda, apesar de seu título de mestrado, vê-se
Não é raro que o agressordiga que âoi ela quem o provocou,
colando selosem um local de trabalho exíguo e mal-ventilado.
que ela era permissiva ou que âoi ela quem tomou a iniciativa.
Ou 6lxar objetivos impossíveis de serem atingidos, obrigan-
Diferentes tipos de assediadorescoram descritos -- tendo
do a pessoaa ficar até tarde da noite, a voltar nos fins de sema-
todos em comum o ideal de papel masculino dominante e ati-
na, para ver em seguida essetrabalho tão urgentejogado no lixo.
tudes negativas para com as mulheres e o feminismo -- e diferen-
Ou podem serigualmente agressõesfísicas,masnão diretas,
tes categorias de assêdio sexual coram assim identiâcadas2:
negligências que provocam acidentes: obÜetos pesados que
-- o assédiode gênero, que consisteem tratar uma mulher
caem, como que por acaso,sobre os pés da vítima.
diferentementepor ser uma mulher, com comentáriosou com-
portamentos sexistas;
Ind zir ao erro -- o comportamento sedutor;
-- a chantagem sexual(a única a ser eâetivamentereprimida
na França);
Um meio bastante hábil de desqualificar uma pessoa consis-
-- a atenção sexual não desqada;
te em induzi-la a cometer uma falta não só paracritica-la ou re-
-- a imposição sexual;
baixo-la,,mastambém para que tenha uma má imagem de si
-- a ofensiva sexual.
mesma.E muito 6aci],com uma atitudede menosprezoou de
provocação, levar uma pessoa impulsiva a um acesso de cólera Desde 1976, o sistemajudiciário americano reconhece o
ou a um comportamento agressivo,observávelpor todos, para assêdio sexual como forma de discriminação sexual, ao passo
poder dizer em seguida:"Vocêsviram, estapessoaé completa- que na França ele só é consideradoinâação quando inclui uma
mente loucas Ela atrapalha o serviço." chantagem explícita à possibilidade de demissão.
Em uma pesquisarealizada nos EstadosUnidos,3 uma
média de 25% a 30% dos estudantesrelata ter sido vítima de
O assédio se:c%at pelo menos um incidente de assédiosexualna universidade
(comentários sexistas, olhares sugestivos, contatos ou observa-
O assédiosexualnão é senãoum passoa mais na persegui- ções sexuais impróprias) por parte de professores.
ção moral. Tem relação com os dois sexos,mas a maior parti
dos casosdescritos, ou de que há queixas, refere-se a mulheres
agredidaspor homens,âeqüentementepor seussuperioreshibt-
rarquicos.
Não se trata tanto de obter favoresde naturezasexual quan- 2 Fitzgerald,"SexualHarassment:
the Definition and Measurement
of a
to de aârmar o próprio poder, de considerara mulher como seu Construct", in M.A. Paludi(org.), Jvoy Poder: Sexual llarassmenf on Campus,
objeto(sexual). Uma mulher assediada
sexualmenteé conside- Albany, State Univeisity ofNew York Press.
rada por seu agressorcomo estando "à disposição". Ela deve 3 MacKinney e Maroules, 1991, citado por G.-F. Pinard, in Crímínalífé efps7cbü-
É vedada a reprodução e a distribuição
rríe, Pauis, Eclipses, 1997.
H

82 83
O assédio tla empresa ,4ssédÍomora/

O ponto de partida do assédio empresas, esse abuso pode transmitir-se em cascata, da mais alta
chefia ao menor chefe na escala.
Embora os grandes perversos soam raros nas empresas, eles O abuso de poder dos chefes sempre existiu, mas atualmen-
são perigosos nessesambientes em virtude de seu poder de atra- te 6ca muitas vezes disfarçado. Os diretores fiam em autonomia
ção e de sua capacidade de levar o outro a ultrapassar os próprios e espírito de iniciativa a seusempregados,mas só exigem deles
limites. submissãoe obediência. Os assalariados produzem porque estão
Uma luta pelo poder é legítima entre indivíduos rivais obcecados com as ameaças referentes à sobrevivência da empre'
quando se trata de uma competição em que cada um tem sua sa, ou pela perspectiva de perder o emprego, ou por estarem
oportunidade. Certas lutas, no entanto, são,de saída,desiguais. sendo continuamente chamados à atenção, ou seja, por sua
E o que sucedeno casode um superior hierárquico, ou quando eventual culpa.
um indivíduo reduz sua vítima a uma posição de impotência
para depois agredi-la com total impunidade, sem que ela possa Eva trabalha há um ano em uma microempresa familiar de
revidar. tipo comercial. O ritmo de trabalho é rápido e as horas
extras não são computadas.Quando há reuniões nos 6ns
de semana, até os empregados que têm que estar no traba-
O abuso de poder lho na segunda-beiraàs oito horas da manhã precisam com-
parecer.
A agressão,no caso,é clara:é um superior hierárquico que O patrão é tirânico, nunca estásatisfeito.Todo mundo tem
esmagaseussubordinadoscom seu poder. Na maior parte das que obedecer à risca. Se o pessoalnão se mostra extrema-
vezes,é esteo meio de um pequenochefe valorizar-se.Para mente eÊciente,ele se põe a gritar. E não há meio de se
compensar sua fragilidade identitária, ele tem necessidadede depender: "Se não está satisfeito, caia coral" Essasagressões
il dominar e o íàz tanto maisfacilmente quanto mais o empregado, verbais paralisam Eva. Cada vez que as ouve, sente-se à bei-
temendo a demissão,não tiver outra escolhaa não ser submeter- ra de um mal-estar e tem que tomar remédios para gastrite
se.A pretexto de manter o bom andamentoda empresa,tudo se e calmantes. Esgotada, ela tenta recuperar-se passandoos
justifica: horários prolongados,que não se podem sequer nego- fins de semanadormindo, mas até mesmo seu sono é agita-
ciar, sobrecarga de trabalho dito urgente, exigências descabidas. do e pouco reparador.
Porém, pressionar sistematicamenteos subordinados é um Depois de um período com essasobrecarga pro6ssional, ela
estilo de gerenciamento ineâcaz e de pouco rendimento, pois a tem crises de angústia cada vez mais íteqüentes, cai em pran'
sobrecargade estressepode gerar erros profissionaise levar a tos por qualquer motivo, não dorme mais, não consegue co-
licençasde tratamento de saúde.Uma mão-de-obra feliz é mui- mer. Seu médico a põe em licença paratratamentode saú-
to mais produtiva. No entanto, um pequeno chefe, ou até mes- de, devido à depressão. Depois de dois meses de licença, ela
mo a direção,mantêm a ilusãode que assimobtêm um máximo está6nalmente em condições de retornar ao trabalho. Na
de rentabilidade. volta, ela é mal-acolhida pelos colegas,que põem em dúvi-
da a realidade de suadoença. Ela não encontra mais nem a
Em princípio, o abuso de poder não é dirigido especi6ca-
mente contra um único indivíduo. Trata-se,apenas,para o sua mesa de trabalho, nem o seu computador. E passaa en-
&entar um ambiente de terror: censuras injustificadas, agres-
agressorde esmagaralguém mais fraco que ele próprio.É vedada
$as a reprodução e a distribuição
/
84 85
O assédio na empresa ,4ssédíomoral

iões verbais, tarefashumilhantes em relação a seu nível de Se não tivesseido à entrevista acompanhada,seu patrão a
competência, cúticas sistemáticasao trabalho apresentado. teria aterrorizado,como costumavafazer,em vez de "dar-
Ela não ousa dizer nada e vai chorar no banheiro. l)e noite. Ihe uma outra chance", como disseem tom paternalista.
está exausta. Pela manhã, ao chegar a seu local de trabalho. Eva esperasua carta de demissão, que não chega. Continua
sente-seculpada, mesmo não tendo deito nada errado, pois fazendo seu trabalho com certo prazer, mas o estresseno
todos na empresaestão pisando em ovos e vigiam-se uns aos ambiente é tal que, de novo, ela não conseguedormir e
outros. sente-se esgotada. A partir da(]!!elaWtrevista sua situação
torna-se ainda mais incomoda.'Diariamente, recebe um íàx
Eva descreveseu trabalho como sendo uma fábrica de
com pequenas admoestações. Seus colegas Ihe dizem:
estresse.Todos os colegas se queixam de sintomas psicosso-
"Você não devia ter deito aquilo, você atiçou a raiva deles"
máticos: dores de cabeça, dores na coluna, contes, eczemas.
Ela tem que justificar-se por tudo e, prudentemente, Caz
mas, como crianças apavoradas, não ousam queixar-se dire-
fotocópias de todas as comunicações importantes. Tem
tamente do patrão que, de qualquer forma, "não tem nada
a ver com isso". também que estar atenta em não cometer erros, não ser
apanhadaem Efta. Na hora do almoço, ela leva consigo suas
Seis meses depois de sua licença no trabalho, Eva é chama-
notas pessoais,mesmo vendo os colegasrirem de sua para-
da para uma entrevista que antecipa a demissão.Isto acon-
nóia: "Você sai para almoçar com suapasta,como uma
tece exatamente depois de ter faltado um dia após uma reu-
estudantes"Alguns delesatiram os relatórios em cima de
# nião em que e]a havia passadoma]. A carta de chamada
#
sua mesa sem dirigir-lhe a palavra. E se ela protesta, retru-
constitui para ela um detonador. Pela primeira vez ela sente
cam: "Qual é o problema?" Eva se encolhe para não atrair
raiva, sente a injustiça e a má-fé do patrão, e estárealmente
brincadeiras. O patrão a evita e Ihe transmite todas asordens
decidida a não deixar que caçam dela gato e sapato. Apesar
por escrito.
de sentir-se culpada -- "Eu me pergunto até que ponto eu Um mês depois, ele recomeça um processo de demissão
mesmanão provoquei isso" --, ela age. porque, segundo diz, a atitude de Eva não se modiâcou.
Faz consultas e vai à entrevista acompanhada de um advo- Desta vez, como já 6cou claramente visto que ele não tem
gado trabalhista de cora da empresa. O motivo oâcial alega- outros motivos para dispensa-laa não ser o eito de que não
do é a perda de confiança porque ela se ausentou por múl- a suporta, o advogadonegocia por ela os termos económi-
tiplas licenças de saúde e não avisou imediatamente. O cos da demissão. Temendo que Eva vá àjustiça do Trabalho,
advogado Eazver que sua última falta âoi por ocasião de o patrão assinaum termo de acordo.
uma reunião de 6lm de semana,quando era impossível Depois de suasaída, Eva âca sabendoque cinco de seus
comunicar-se com o patrão- E que nada do que o patrão colegas,dos quais três tinham a função de executivos, vão
alegaconstitui motivo sério parauma demissão.Ele diz que sair também. Um pediu demissãoporque encontrou
vai pensar,pois tem tempo de sobraantes de chegar a uma emprego melhor em outro lugar, masos outros quatro sim-
demissão. plesmente pediram demissão e saem sem vantagem alguma.
Para depender-seeficazmente, é preciso que alguém conhe-
ça bem seusdireitos. Eva informa-se sobre seusdireitos.
Sabetambém quais os erros que não devem ser cometidos.
É vedada a reprodução e a distribuição
86 O assédio na empresa Assédiomoral 87

As manobrasperversas ascensão,ou que sda demasiadolúcido quanto a suasformas de


consegui-lo. Ele não se contenta em atacaralguém que estáíta-
Quando um indivíduo perverso entra em um grupo, tende gilizado, como no casodo abusode poder: ele cria a fragilidade
a reunir em torno de si os membros mais dóceis do grupo que a âm de impedir que o outro possa defender-se.
ele seduz. Se um indivíduo não se deixa entrar nessatropa, é O medo gera condutas de obediência, ou mesmo de sub-
rejeitado pelo grupo e passaa ser escolhido como bode expia- missão, por parte da pessoa visada, mas também por parte dos
tório. Cria-se, assim, um vínculo social entre os membros do colegasque deixam que tal aconteça, que não querem ver o que
grupo, com críticas à pessoaisolada por meio de maledicências sepassaem torno deles.É o que sedá no atualreinadodo indi-
e ironias. O grupo âca, então, sob influência do perverso e o vidualismo, do "cada um por si". Quem está em torno teme,
imita em seucinismo e falta de respeito.Cadaindivíduo não caso se mostre solidário, ser estigmatizado e ver-se jogado na
perde com isso todo o seu senso moral, mas, tornando-se próxima onda de demissões.Em uma empresa,não se pode
dependente de um indivíduo sem escrúpulos, perde todo o sen- levantar ondas. É preciso vestir a camisa da arma e não se mos-
so critico. trar demasiado diferente.
rl Stanley Milgram, psicólogo social americano, estudou entre O Hme americano Su,ímmínEu,íf/zs/zarhs,de George Huang
1950 e 1963 os âenâmenos de submissãoà autoridade.4 Seu (1995), resume todas as humilhações e todas as torturas mentais
l
l método era o seguinte: "Uma pessoa vem a um laboratório de que um patrão egocêntrico e sádico pode infligir a um empre-
psicologia, onde seIhe pede que execute uma série de ações que gado ambicioso, pronto a aceitar tudo a 6lm de ter sucesso.
vao, progressivamente,entrar em conflito com a sua consciên- demo-lo injuriar seupessoal,mentir semescrúpulos,dar ordens
cia. A questão é saber até que ponto ela seguirá asinstruções dó incoerentes, manter um empregado à sua disposição dia e noite,
pesquisador antes de recusar-se a executar as ações prescritas." e mudar as regraspara mantê-lo seguidamente pisando em ovos.
Em suaconclusão,Milgram é levadoa crer que "pessoasco- O pessoal é avisado: "Terjogo de cintura é não só aconselhável,
muns, desprovidasde qualquer hostilidade, podem, simples- como traz recompensasl"Alêm de tudo isso,o patrão continua
mente, para levar a cabo astarefas, tornar-se agentes de um atroz provocando sua nova contratada e, para seduza-la,acena-lhe
processo de destruição". Essa.constatação'éiãiiliêàda.gor Chris-
L..l T\. r ns ./. .. \
com uma promoção: "Dê-me prazer. Cale-se, escute e registre,
tophe DqoursS, que fHa dzCbanalização
social do Hall apenas.Você não tem cérebro. Suasopiniões pessoaisnão valem
Há, realmente,indivíduos qüé'têm necessi(!adêde uma nada.O que você pensanão tem o menor interesse.O que você
autoridade superior para chegar a um certo equilíbrio. Os per- sente também não interessa.Você estáa meu serviço. Você está
11 versosrecuperam em proveito próprio essadocilidade e a utili- aqui para proteger meus interessese responder a minhas neces-
zam para infligir sofrimento aos outros. sidades...Eu não quero martiriza-la. SÓquero 4udá-la, porque,
A ânalidade de um indivíduo perversoé chegarao poder, se você fizer bem o que eu mando,se
l
ouvir e registrar tudo,
ou nele manter-se, não importa por que meios, ou então mas- então poderá vir a ter tudo que quiser.'
carar a própria incompetência. Para isso ele precisa desembara- Um perversoage tanto melhor em uma empresaquanto
çar-sede todo aquele que possaconstituir um obstáculoà sua mais ela 6or desorganizada, mal-estruturada, "depressiva"
Basta-lhe encontrar a brecha e ele vai amplia-la para realizar seu
4 S. Milgram. Soiimlssíon à I'aiflon'fé. üad. 6ranc., Pauis. Calman-Lévy, 1974. desejo de poder
5 C. Ddoun. Soi!dance en Frulzce,Paria. Seui]. 1998. ' A técnica é sempre a mesma-.utilizam-se as fraquezas do
É vedada a reprodução e a distribuição
,4ssédíomora/ 89
88 O assédio na empresa

outro e leva-seo outro a duvidar de si mesmo, a fim de aniqui- tenso, como se apanhadoem falta. Paraevitar aborreci-
lar suasdefesas.Por um procedimento insidioso de desqualifica- mentos, a maior parte dos empregadosdecidiu-se pela
autocensura.
ção, a vítima perde progressivamentea confiança em si, e por
vezesâca tão confusa que pode chegar a dar razão a seu agres- Tendo em vista o excessode trabalho,o diretor permitiu
sor: "Eu sou nulo, eu não consigo, eu não estou à altura!" que Minam chamasseum assistente.Imediatamenteele
Assim, a destruição se dá de forma extremamente sutil, até que procurou coloca-los um contra o outro. Quando MiriaJn
a própria vítima sepõe na condiçãode quem estáem erro. diz o que achade um prometo pelo qual é responsável, éle
não a ouve e, com um dar de ombros, vira-se para o assis-
Minam é des@ner numa agênciade publicidade. Em princí- tente: "E você, você certamentetem uma idéia melhor,
pio, ela é a única responsávelpor suascriações, mas tudo é não?''
a

coordenadopor um diretor que é o interlocutor direto do Ele exige de Minam que ela baçacadavez mais, e cada vez
presidente. Sendo uma profissional responsável, ela se mais rápido. Se Ihe pede para fazer alguma coisa que ela
empenha no que Êaz,trabalha até nos âns de semanae pas- considera inadequada e recusa, pois ela tem sua criação em

sa noites em claro pelasquaisnão recebe extra. Mas a partir alto conceito, ele a culpa dizendo-lhe que ela é uma pessoa
do momento em que afirma claramentesuaautonomia de di6lcil. E ela acabaaceitandoisso.

criação, inquietando-se com o que acontece com seus pro- Mas, quando resiste,isso gera nela um tal estresseque âca
jetos, colocam-na "em seu devido lugar". com dor no ventre desdeo momento que acorda.Em seu
Quando ela remete um prometo,o diretor, Mesmo não sen- local de trabalho ela tem apnéia,sente-sesufocada.
do um desegfzer,
retoma o que ela âeze modifica-o a seu-bel O diretor de Minam quer controlar tudo, não quer com-
prazer, sem sequer avisa-la. Se ela pede explicações, ele res- partilhar o poder. Invejoso, ele gostaria de apropriar-se das
ponde com desenvoltura e um grande sorriso: "Mas o que criações dela. Essamaneira de administrar, quando funcio-
é isso,Minam, issonão tem a menor importâncias" Minam na, torna o patrão onipotente. Certas pessoasacomodam-se
sente uma cólera interior que ela raramente consegue a essaposição infantil; os conflitos entre colegastornam-se y
expressar: "Eu trabalhei três dias neste pmyeto e em alguns então briguinhas de irmãos. Minam resiste,masnão ousa ir
segundosele apagatudo sem sequer se dar ao trabalho de até o âm porque não quer perder o emprego. Mas ela está
me dar explicações. Como querem que eu tenha vontade atingida, desmotivada: "Eu agora compreendo como é que
de criar para alguém que nega meu trabalho?" se pode chegar a um crime, porque, vendo-me impotente,
Não há meios de se falar a esserespeito.Tudo âca em um a violência interna que eu sinto é terrívell"
não-dito. Diante do diretor, empregadoalgum pode dizer o
que pensa,todos têm medo de suascrises.A única solução Se alguns empregadores tratam seus empregados como
é esquivar-se permanentemente. Instala-se um clima de crianças,outros os consideram como "coisas" suas,que podem
desconfiança. Todos se perguntam aonde isso vai chegar.
ser utilizadasa seubel prazer.Quando se trata,como no caso
acima, de criação, é um golpe ainda mais direto contra a pessoa.
Utilizando-se do humor ou do deboche,ele agede modo a
Extingue-se, assim,no empregado, tudo que ele poderia ter de
fazer com que cadaum sqa conforme o que ele espera.
inovador, toda iniciativa. No entanto, se o empregado é útil ou
Quando ele chega, todo mundo Bicaimediatamente mais
É vedada a reprodução e a distribuição
90 O assédio na empresa 91
Assédiomoral

indispensável,para que ele não vá embora é preciso paralisa-lo, narem um novo alvo, ou até, por vezes, por gozarem de manei-
impedi-lo de pensar,de sentir-secapazde trabalhar em outro ra sádica com o espetáculo dessadestruição.
lugar. E preciso leva-lo a crer que ele não vale mais que sua Em uma relação normal, é sempre possível, por necesidade
posição na empresa. Se ele resiste, é isolado. Cruzam com ele surgidano próprio conflito, pâr um limite ao excessode poder
sem Ihe dizer bom-dia, sem olha-lo, ignoram suassugestões, do outro, paraimpor um equilíbrio de corças.Mas um perverso
recusa-se-lhetodo e qualquer contato. A seguir começam a sur- manipulador, não suportando a menor oposição a seu poder,
gir as observações õerinas e desabonadoras e, se isto não basta, transformaráuma relaçãoconílitiva em ódio, a ponto de querer
aparecea violência. a destruição d(5.parceiro.
Quando a vítima reage e tenta rebelar-se, a maldade latente
dá lugar a uma hostilidade declarada. Tem início, então, a fase de Lúcia trabalha há dez anos como comerciária eM uma
destruição moral, que já 6oi denominada de psícoferror.Nela pequenaempresafamiliar à qual é muito apegada,tendo
todos os meios são permitidos.para demolir a pessoavisada, participadode suacriação No início, era um verdadeiro
desafio conseguir clientes.
inclusive a violência física, o que pode levar a um aniquilamen-
O patrão mostrou-se sempre encantador, paternal, sobera-
to psíquico ou ao suicídio. Nesta forma de violência, o interes-
seda empresa some da vista do agressor,que quer unicamente a
no, mas,a partir do momento em que a empresalevantou
derrota de sua vítima. võo, passoua impor-se como tirano, como déspota.Não
diz bom-dia ao chegar, não olha para os empregados quan-
No,funcionamento perverso, não existe apenasa busca do
do lhes dá ordens, exige que as portas das salasfiquem
poder, há sobretudo um enorme prazer em usar o outro como
fechadas,dá os avisosde reunião cinco minutos antes etc.
objeto, como uma marionete. O agressorreduz o outro a uma
Todos essespequenos detalhes são exaustivos, pois os obri-
posição de impotência para em seguida destrua-lo com total
gam a estar permanentemente de sobreaviso.Para melhor
impunidade. Para obter o que desça, ele não hesita em servir-
dominar, ele estimula a maledicência, os conflitos, adula os
se de todos os meios, mesmo, ou sobretudo, se isso se dá em
mais dóceis e opõe-se aos que Ihe resistem. Para resistir ao
detrimento dos outros. Rebaixar os demais a fim de conseguir
que considerauiva tomada de poder, súcia tende a manter-
uma boa auto-estima parece-lhe legítimo. Ele não tem o míni- se à parte, o que ê'interpretado como forma de rebelião.
mo respeito para com o outro. O que espantaé a sua animosi- Tudo vem abaixo quando o patrão contrata uma outra fiin-
dade sem limites pelos motivos mais uteis e uma absoluta falta cionária. De imediato, a recém-chegadaé colocada em um
de compaixãopelaspessoasencurraladasem situaçõesinsupor- pedestal, com um tratamento de favor evidente a todos.
táveis.Aquele que inflige tal violência ao outro julga que este a Diante de injustiça tão flagrante,que soacomo uma indis-
merecee não tem sequero direito de queixar-se.A vítima não Êarçadatentativa de sedução, a jovem contratada mostra-se,
passade um objeto incomodo, cuja identidade é negada.Ele por sua vez, desconfiada e prefere sair. O patrão a Eazvoltar,
não Ihe reconhece qualquer direito a um sentimento ou a uma convence-a, faz saber a todos que essaconfusão 6oi por
emoção. causa dos ciúmes de Lúcia.
Diante dessaagressão,
que não compreende,a vítima vê-se Ao colocar as duas mulheres como rivais, o patrãojulga que
sozinha, pois, como em todas as situações perversas, existe nos elasirão agredir-se reciprocamente e que assimas controla-
que a rodeiam covardia ou complacência,por medo de se tor- rá mais facilmente.
É vedada a reprodução e a distribuição
92 O assédio na empresa ,4ssédíomora/ 93

A partir daí, Lúcia é isolada.As informações não Ihe são total, o equivalentejurídico à licençade trabalho)por oito
mais transmitidas. Seu trabalho não é reconhecido, nada dias. No final do expediente ela apenaspassade novo no
está bom nunca. Espalha-se por toda a empresa que ela trabalho para pegar sua bolsa.
ê incompetente. Mesmo sabendoque é eficiente em seu
trabalho, ela acaba duvidando da própria capacidade. Tor- Dar queixa é o único meio de acabarcom essepsicoterror.
na-se estressada,confusa, mas esforça-se em não demonstrar Mas é preciso ter coragem, ou ter chegado realmente a uma
isto, pois sente que é algo que poderá ser usado contra ela situação-Emite,pois issoimplica em uma ruptura de6nitiva com
Os outros empregados mantêm-se a distância, pois os que a empresa. Além disso não há a certeza de que a queixa será aco-
parecem muito próximos a ela são imediatamente desquali- lhida, nem que o processodesencadeadovenha a ter um resul-
ficados.
tado positivo.
Como muitas outras vítimas de perseguição moral, Lúcia
demorou a reagir. Inconscientemente, ela havia colocado
seu patrão na posição de pai.
A empresa que nada faz
No dia em que ela o ouve proferir basesinjuriosas a seu res-
peito diante de uma colega, ela exige uma entrevista com Essetipo de procedimento só é possível quando a empresa
ele
finge não vê-lo, ou mesmo quando o encorpa. Há diretores que
"0 senhor me insultou. O que é que o senhor tem a sabem tomar medidas autoritárias quando um funcionário não
reclamar de mim?"
é competente, ou quando seu rendimento é insuâciente, mas
"Eu não tenho medo de nada.Pode ir embora." não sabem repreender um empregado desrespeitoso ou incon-
"Eu não vou embora enquanto o senhor não me disser veniente em relação a um(a) colega. "Respeitam" o domínio
o que é que tem contra mim." privado, não se metem nele, alegandoque os empregadossão
l O patrão então perde o sangue-brio.Furioso, vira a mesa e suficientemente adultos para resolver tudo sozinhos, mas não
quebra tudo que estáem volta dele: "Você é uma incapaz e respeitam o próprio indivíduo.
eu já estou farto de sua maldades"
Se a empresa é assim condescendente,a perversão gera a
Não percebendoque ela não vai ceder, o patrão joga a car- emulação entre indivíduos que não são propriamente perversos,
tada do terror: inverte os papéis e coloca-se na posição de mas que perdem seusreferenciais e se deixam persuadir. Não
vítima de uma filncionária agressiva. acham mais chocante que um indivíduo seja tratado de manei-
Lúcia, que durante muito tempo se sentira como que pro- ra injuriosa. Não sesabeonde estáo limite entre o fato de cri-
tegida por ele, não conseguecompreender o menosprezo e ticar ou censurarseguidamentealguém paraestimula-lo e o bato
o ódio que ora vê em seusolhos. Mas a violência âsica ser-
de persegui-lo. A fronteira corresponde ao respeito pelo outro,
ve de gota d'água. Ela decide dar queixa. Seuscolegasten- mas, em um contexto de competição, todos os direitos -- e até o
tam dissuadi-la: 'Pára com isso,você vai ter problemas. Ele sentido primeiro deste termo, inscrito na Declaração dos
vai acabarse acalmandol" Ela eazpé 6rme e telefona para Direitos do Homem -- são esquecidos.
seu advogado, para saber como deve proceder. É trêmula e A ameaçade perder o emprego permite erigir a arrogância
em lágrimas que vai dar queixa à polícia. A seguir procura e o cinismo como métodos de gerenciamento. Em um sistema
um médico, que Ihe dá um ITT(incapacidade temporária de concorrência desenfreada,a fi'reza e a durezatornam-se a
É vedada a reprodução e a distribuição
94 O assédio tia empresa ,4ssédíomoral 95

norma. A competição, sejam quaisporem os meios utilizados, é excessivose atípicos e, cada vez mais, uma inédita Efta de con-
considerada válida e os perdedores são deixados de lado. Os sideraçãopelo trabalhador."
indivíduos que temem o conítonto não usam procedimentos O estresseno trabalho e o custo económico de suasconse-
diremospara obter o poder. Eles manipulam o outro de maneira qüências sobre a saúde continuam sendo um âenâmeno ainda
sub-reptícia ou sádica a âm de obter sua submissão.Realçam pouco quantiâcadona França.O estresse
não é reconhecido
suaprópria imagem desqualiÊlcandoa do outro. nem como doença proâssional nem como causa direta de licen-
Em tal contexto, um indivíduo ávido de poder pode utilizar ça de trabalho. No entanto, os médicos do trabalho e os psiquia-
a confusão do ambiente para desestruturar com total impunida- tras têm constatado um aumento de distúrbios psicossomáticos,
de seusrivaispotenciais.Uü único indivíduo que não sqa con- de abuso do álcool ou de psicotrópicos relacionados com uma
trolado pela empresapode impunemente manipular e destruir excessivapressãono trabalho.
outros indivíduos a íim de conquistar,ou conservar,o poder. A desorganização de uma empresa é sempre geradora de
Certas características da empresa podem facilitar a implan- estresse,quer se trate de uma inadequadadeânição dos papéis
l tação desseestado de cerco ou assédio.
4': (não se saber quem Eazo quê, quem é responsávelpor quê), de
l O que nenhum especialistacontestaé que, nos grupos que
l um clima organizacional instável(alguém acabade sernomeado
trabalham sob pressão, os conflitos nascem muito mais facilmen-
para um cargo e não se sabe se vai permanecer nele), ou ainda
te. As novas formas de trabalho, que visam fazer crescer o de uma Cata de coordenação (as decisões são tomadas sem a
desempenhonas empresas,deixando de lado todos os elemen. concordância das pessoas interessadas). O peso de certas admi-
tos humanos, são geradoras de estressee criam, assim, as condi- nistrações, ou de empresas excessivamente hierarquizadas, per-
}
ções favoráveis à expressão da perversidade. mite a alguns indivíduos sequiosos de poder encarniçam-se con-
Í.

+.
Em seu início, o estresseé um âenâmeno 6lsiológico de tra outros indivíduos com total impunidade.
1' adaptaçãodo organismo a uma agressão,sqa ela qual âor. Nos Certas empresassão "espremedoras de sucos". Fazem vibrar
(
animais é uma reação de sobrevivência. Diante de uma agressão, a corda aüetiva, utilizam seu pessoal pedindo sempre mais, pro-
eles têm que optar entre a fuga ou a luta. Para um assalariado metendo mil coisas. Quando o empregado, usado, não é mais
essaescolha não existe. Seu organismo, como o do animal, rea- suficientemente rentável, a empresalivra-se dele sem o menor
ge em três Êssessucessivas:alerta, resistência e depois esgota. escrúpulo. O mundo do trabalho é extremamente manipulador:
mento. Mas esseâenâmenofisiológico perdeu seu sentido mesmo quando, em princípio, o aâetivonele não estádireta-
primeiro, de reação física, e passou ao de adaptação social e psi- mente emjogo, não é raro que, para motivar seu pessoal,uma
cológica. Pede-seaosassalariadosque trabalhem demais,que empresa estabeleça com ele uma relação que ultrapassa em mui-
trabalhem com urgência e que soam polivalefites. Médicos do to a relaçãocontratual normal que se pode ter com um empre-
trabalho de Bourg-en-Bresse, em seu relatório a;;i)::Lde 1996, gador. Exige-se dos empregadosque invistam corpo e alma em
fizeram uma análisedasconseqüênciasda anual"ílexil;ihzação'l seutrabalho,em um sistemaque os sociólogosNicole Aubert e
sobre os trabalhadores dos matadouros: "Existem, não há liüvü
Vincent de GaujelacÓ qualiÊcam de "managinário"'P, transfor-
da, pressõeseconómicas que atuam fortemente sobre este secar mando-os, assim,em "escravosdourados". Por um lado, exige-
de atividade, mas, se pormos ver mais de perto, constatamos em
certos matadouros uma ultrapassagem das pressões 'habituais'.
6 N. Aubert e V. de Gauldac, lz Coar de /'exce/vence,
Paras, Seuil, 1991.
ou sqa, a exigênciade uma rapidezcadavez maior, horários + Fusãode manager--
gerente, empresárioou treinador -- com ímayínóno.(N.do T.\
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96 O assédio na empresa
97
,4ssédíamoral
se demasiado deles, com todas as conseqüências de estressedaí
decorrentes;por outro, não há o menor reconhecimento em - pode-se então demiti-lo por razões económicas;
relação a seusesforços e a sua pessoa. Eles se tornam peões inter-
-- dar-lhe uma carecadifícil e procurar os erros que tenha
cometido para depois demiti-lo por essaÊdha;
cambiáveis. Além disso, em certas empresas age-se de modo que
os empregadosnão àquem por muito tempo no mesmo cargo, -- pode-se também acossá-lo psicologicamente para eazê-lo
no qual poderiam adquirir um maior número de aptidões. desmoronar e, por que não?, leva-lo assim a pedir demissão.
Preferemmantê-los em estadopermanente de ignorância, de Mesmo quando issonão é deito conscientemente,o assédio
inferioridade. Toda originalidade ou iniciativa pessoalperturba. passaa ter lugar quando o empregadojá estáfragilizado por
Cassam-se os é/am e as motivações recusando-se toda responsabi- alguma causa exterior ao trabalho. Se uma pessoadá a impressão
lidade e toda formação. Os empregadossão tratados como cole. de estar menos disponível para a empresa por razões pessoais
giais indisciplinados. Não podem rir ou ter um ar descontraído (um divórcio, por exemplo), começa-se insidiosamente a censu-
sem serem chamados à atenção. .Às vezes se lhes pede que caçam ra-la por coisas que, certas ou erradas, não eram antes oUeto de
uma autocática durante as reuniões semanais,transformando reclamação.O que antesseaceitavanão mais setolera porque se

t assimos grupos de trabalho em humilhação pública. sente que a pessoabaixou a guarda. Os instigadores desseassé-
#

O que agrava esseprocesso é que, anualmente, inúmeros dio estão persuadidos de que têm razão e que a pessoa é real-
1.

deles são subempregados e têm um nível de estudo equivalente mente incompetente.


ou até mesmomaisalto que o de seusuperior hierárquico.Que Servir-se dasâaquezasdo outro é um procedimento habi-
passa,então, a aumentar a pressãoaté um ponto em que o hn- tualmente utilizado, e até mesmo valorizado, no mundo dos
cionãrio não possa mais aceitar conscientemente, ou que ele negóciosou da política. Há orgulho em ter sucesso"em um
acabe por vir a cometer erros. As pressõeseconómicas fazem cesto de caranguejos" ou em um "mundo de tubarões".
com que se peça cada vez mais aos assalariados, com considera-
ção cadavez menor. Há uma desvalorizaçãoda pessoae de seu Olivier ê sócio maioritário de um grandeescritório de con-
sultoria. Desde que 6oi inaugurado, o escritório veio cres-
Énow-&ow.O indivíduo não conta. Sua história, sua dignidade,
seu so6'imento estão importando muito pouco. cendo muito, e recentementejovens com diplomas corama
Diante dessa "coisiâcação", dessa robotização dos indiví- ele agregados, esperando uma ascensãorápida. O outro
duos, a maior parte dos empregados em empresas privadas sen- sócio majoritário do grupo, François, amigo de longa data,
te-se em uma situação excessivamenteÊági] para fazer algo mais nem seidpre tem práticas muito claras. Olivier não partici-
que protestar interiormente e baixar a cabeça, à espera de dias pa de suas tramóias, que desaprova, mas não chega, por isso,

melhores.Quando o estresse
aparece,com seu cortqo de insó- a p6r em questão uma sociedadeque, para ele, é a base de
seu sucesso.
nia, cansaço, irritabilidade, não é raro que o assalariado recuse a
licença de trabalho que Ihe é proposta por seu médico com Um dia, ele ouve seus colaboradores edarem de um boato
medo das represáliasno momento da volta. segundo o qual alguém quer a pele dele e que ele vai ter
Há várias maneiras de lavrar-se de um empregado que inco- aborrecimentos com empregadosdescontentes devido a um
moda, mesmo quando não se tem nada a censurar-lhe: litígio causado por François. Decide indagar François a esse
-- uma reestruturaçãodo serviço que leve a suprimir seu respeito, que Ihe responde com um ataque: "Se você quer
cargo; ficar quebrando a cabeça,fique, eu não estou sabendo de
))
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nadam
98 99
O assédio tla empresa ,4ssédío mora/

Olivier há muito sabe que François não respeita ninguém. za,humilha, geree injuria o pessoalem nome do rendimento.
Que usa os outros acenando-lhes com possíveis vantagens Seus mêtodos: acossar as operárias para aumentar o ritmo de
no poder e agindo de modo a atiçar os conflitos entre os produção,cronometrar aspausas,insultar,tudo issocom a cum-
sócios minoritários para melhor assegurar a própria posição. plicidade da presidente, que tem plena ciência de tais métodos e
No escritório reina um clima doentio, de luta subterrânea. nada diz contra eles.
Sentindo isso, um jovem colaborador prefere demitir-se. As operárias acabam articulando uma greve, mas, antes
pois sabeque, no casode um crua, os que chegarampor mesmo de explodir o conflito, que vai durar seis meses, as
último serão os mais vulneráveis.
câmerasde televisãodo "Sfr@-fease"
(canalFrance3) gravam
Para desestabilizar Ohvier, François controla os relatórios. um programa na fabrica âocalizandoprincipalmente o diretor.
ou os deixa em mãos dos colaboradores mais influenciáveis. Embora sabendo-se âlmado, este em nada modi6lca seusméto-
De início Olivier depende-semal. Mesmo conhecendo seus dos humilhantes: ele os consideralegítimos. E nem por um ins-
duvidosos métodos de gerenciamento, não consegue crer tante questiona o que faz. Quando estoura a greve, em Janeiro
que seu velho companheiro de faculdade possa, com ele, de 1997, 85 das 108 operárias saem da fabrica pedindo demissão
agir dessa maneira. SÓ quando constata que François faz do diretor, o que acabamconseguindo,mas64 operáriassão
saquesna conta conjunta sem avisa-lo é que Olivier reage e demitidas. O diretor, apesarde ter tido seusmétodos denuncia-
arma uma estratégia de defesa.
dos em toda a média,encontra rapidamente um novo posto em
uma fabrica duas vezesmaior.
O poder constitui uma arma terrível quando em mãos de
A empresa que estimula os métodos perversos
um indivíduo -- ou de um sistema-- perverso.

A própria empresa pode tornar-se um sistema perverso


Clemência é uma mulher jovem e bonita, diplomada por
quando o íimjustiâca os meios e ela se presta a tudo, inclusive a
uma Escola de Administração e com um diploma universi-
destruir indivíduos, se assimvier a atingir seusobjetivos. Neste
tário em marketing. Ao concluir seuscursos conseguiu ape'
caso, é no nível da organização do trabalho que, por um proces-
nas um contrato temporário, e depois 6cou desempregada.
so perverso, a mentira serve ao desenvolvimento da empresa.
Em um sistemaeconómico competitivo, inúmeros dirigen- Foi, portanto, com alívio que se viu chamadapara ser a res-
tes só conseguem enfrentar essacompetição e manter-se com ponsávelpor marketing e comunicaçãoem uma arma de
um sistemade defesadestruidor, recusando-sea levar em conta grande porte, cujo presidente tinha até então preenchido
os elementos humanos, mugindo de suas responsabilidades e che- também estaunção. Vê-se na condição de única mulher no

gando por meio da mentira e do medo. Os procedimentos per- quadro de direção-- primeiro sob responsabilidade
de um
versosde um indivíduo podem, então, serutilizados deliberada- sócio, que decide ir embora, depois sob as ordens diretas do
mente por uma empresaque esperedelestirar um melhor ren- presidente.
dimento. Foi o que aconteceu na fábrica Maryflo, pequena A partir dessemomento ele começa a trata-la rudemente:
empresa de prof-à'porfer do Morbihan. "0 que você Cazé nulo, não vale nadam" "Parece até que
Nessafabrica, todo o pessoalé feminino, inclusive a presi- você não conhecenada de marketingl" Nunca ninguém Ihe
havia Calado dessamaneira, mas ela não ousa dizer nada por-
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dente. O único homem é o diretor, um cheâeteque menospre-
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100 O assédio na empresa

te. Ignorando deliberadamente Clemência, o presidente


que tem medo de perder um posto que, acima de tudo, Ihe limita-se a tranqüilizar a secretária,que se preocupavade o
mteressa.
estar incomodando.
Quando ela dá sugestões,ele se apropria delas, e depois Pouco a pouco Clemência vai perdendo a autoconâança,
comenta que ela não serve para nada porque não sabe tomar
pondo em dúvida o próprio comportamento: "Que âoi que
iniciativas. Se ela protesta, ele se irrita: ''Cala essaboca e Eaz
eu âz para que eles me tratem assim?"Elq, que havia sido
o que eu estou mandandol" Nunca Ihe pede um trabalho dasmelhores alunasde suaescola,agoraduvida de suacom-
diretamente: joga um relatório sobre sua mesa com uma
petênciapro6lssiona[.
Dorme ma], vê com temor a chegada
pequenanota ordenando a execução.Nem jamais a âelicita de cadamanhã de segunda-beira em que tem que voltar ao
pelos bons resultados obtidos ou a estimula de algum modo.
trabalho. Tem enxaquecase crisesde choro quando, à noi-
Os executivosda empresa,em suamaioria homens que se te, balade seu dia de trabalho com o marido. Perdeu todo o
identificam com o presidente,põem-sepor suavez a Ealar- entusiasmo, não tem mais vontade de sair, de ver os amigos.
Ihe com rispidez e a evita-la. Como as salasnão são fecha-
das,todo mundo espionatodo mundo. E muito maisdifícil
depender-se. As empresas são complacentes em relação aos abusos de cer-
tos indivíduos desde que issopossagerar lucro e não dar moti-
Um dia ela se arrisca a ir calar com o presidente. Ele não vo a um excesso de revolta. Em vez de permitir que as pessoas
respondenadae fica olhandopara outro ponto, i:omo se
progridem, essasempresasmuitas vezesnão fazem mais que
não houvesseescutado. Quando ela insiste, ele banca o
idiota: "Não estou entendendol" quebra-las.
No âlme .4sséd/oSexual,de Barry Levinson, vemos como
Embora seutrabalho sejaantesde mais nada um trabalho de
uma empresatorna possível uma tentativa de destruição de um
comunicação, proíbem-lhe de "incomodar as pessoas'
indivíduo por outro. A história desenrola-seem uma empresa
falando diretamente com elas. Tem que se comunicar
de Seattle, especializadana fabricaçãode material eletrânico.
exclusivamente por e-mai'J.
Quando se dá suafusão com uma outra arma que trabalha com
Os postosde telefone e de computador da 6lrma têm seu
programas,é precisonomear um responsável.Meredith (que
acessoatravés de senhas.Ao voltar de alguns dias de licença
tem no papel Demi Moore) obtém essainesperada promoção,
para tratamento de saúde, ela vê que suas senhas coram
em detrimento de Tom (representado por Michael Douglas),
mudadase tem que esperarque uma secretária,próxima ao
que tinha, no entanto, mais experiência, profissionalismo e
presidente, se digne a desbloquear seu computador. Ela pro-
testa: competência para o cargo. Poderíamos pensar que ela saborea-
datranqüilamente suavitória... Nada disso:ela quer também a
"Você poderia ter reposto as coisas no lugar, já que tra-
cabeça de seu rival, pois acima de tudo tem invda da felicidade
balhou em meu equipamentos
dos outros. Tom é um homem saudável,feliz junto a uma
"Não me Caçaabrir o bico, eu não sei quem você pen-
mulher meiga e dois filhos encantadores. Meredith, quejá havia
saque é, todo mundo sabeque você é paranóical"
sido sua amante, não pode Ihe tomar essasimples 6ehcidade. E
Em seguir Clemência fica sabendo que chamadas tele$âni- decide destrua-lo. Para isso, ela se serve do sexo como de uma
cas importantes para ela coram canceladas por essa mesma
arma. Faz-lhe propostas, que ele rqeita. Ela se vinga acusando-o
secretária, por ordens do presidente. Segue-se uma troca de
de assédiosexual. A agressãosexual não passade um modo de
e-maíZs É vedada a reprodução e a distribuição
entre a secretáriae ela, com cópiaspara o presiden-
102 O assédio na empresa /4ssédíomoral 103

humilhar o outro, de trata-lo como objeto, para6nalmente des- de trabalho, onipotência da empresa, tolerância ou cumplicida-
trua.lo. Se a humilhação sexual não se mostra suficiente, ela de para com o indivíduo perverso.
encontrará outros meios de "demolir" sua vítima. Nos locais de trabalho,cabeaosque têm poder de decisão
Neste Hme, revemos a luta pelo poder que caracteriza uma (os dirigentes da empresa,os executivos, os coordenadores)
agressãopor um perverso narcisista, e também a necessidade de Eazeremjuntos a escolha de um "não" ao lafsser:#aíre,
de recusar
tentar apropriar-se da felicidade do outro, ou, se isso não é pos- tais formas de assédio, de velar para que, em todos os escalões, a

sível, de destrua-la. Para isso utilizam-se suascalhas, e se as que pessoa humana sqa respeitada. Os sindicatos, cqo papel e
ele tem não porem suâcientes, criam-se outras. dependeros assalariados,deveriam colocar entre seusobjetivos

Quer o ponto de partidasejaum conflito de pessoas,


quer uma proteção eâcaz contra o assédiomoral e outros atentadosà
nasça da má organização da empresa, cabe a esta encontrar uma pessoado trabalhador.
Não se deve banalizar o assédio fazendo dele uma fatalida-
solução, pois, se há um assédio, é porque ela assim o permite.
de de nossasociedade.Ele não é conseqüênciada crise econó-
. Há sempreum momentodo processoem que a empresapode
mica atual, é apenasum derivado de um laxismo organizacional.
intervir e buscarsoluções.Mas, apesarde hoje existirem os
l
4 Diretores de Recursos Humanos, as empresas,salvo exceções,
raramente levam em conta o Eatorhumano, e menos ainda a
dimensão psicológica das relações de trabalho.
No entanto, as conseqüências económicas desse estado de
coisas para uma empresa não deveriam ser negligenciadas. A
deterioração do ambiente de trabalho tem co.mo corolário uma
diminuição importante da eficáciaou do rendimento do grupo
ou da equipe de trabalho.A gestãodo conflito torna-se a prin-
cipal preocupação dos agressores e dos agredidos, e por vezes até
das testemunhas, que deixam de se concentrar em suas tareEu.
As perdas para a empresa podem, então, assumir proporções sig-
nificativas, por um lado, pela diminuição da qualidade do traba-
lho, e por outro, pelo aumento dos custosdevido àsfaltas.
Pode, assim,acontecerque o âenâmenose inverta: a empre-
sa torna-se vítima dos indivíduos que a dirigem. Ela é vampiri-
zadapor predadorescuja única preocupaçãoé manter-se em um
sistema que os valoriza.
O assédio é sempre resultante de um conflito. Resta saber se
esse conflito provém do caráter das pessoas nele envolvidas, ou
se está inscrito na própria estrutura da empresa. Nem todos os
conflitos degeneram em assédio.Para que isso aconteça, é pre-
ciso a conjunção de vários Estores:desumanizaçãodas relações
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