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CANTO II

39

"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,

Que, para as cousas que eu do peito amasse,

Te achasse brando, afábil e amoroso,

Posto que a algum contrário lhe pesasse;

Mas, pois que contra mim te vejo iroso,

Sem que to merecesse, nem te errasse,

Faça-se como Baco determina;

Assentarei enfim que fui mofina.

No início do seu canto, Vênus inicia seu argumento a Júpiter afirmando sempre ser
obediente às vontades do pai dos deuses em relação ao amor, e por esse motivo
imaginava que por ela Júpiter nutrisse alguma estima. Em vez disso, o vê iroso em
relação a ela, mesmo sem causar desgosto ao pai, pois percebe que Baco, seu
antagonista nas conquistas portuguesas, age com a complacência de Júpiter.

40

"Este povo que é meu, por quem derramo

As lágrimas que em vão caídas vejo,

Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,

Sendo tu tanto contra meu desejo!

Por ele a ti rogando choro e bramo,

E contra minha dita enfim pelejo.

Ora pois, porque o amo é mal tratado,

Quero-lhe querer mal, será guardado.

Vênus afirma retoricamente que se Júpiter é tão contrário asua vontade, de


conceder a glória aos portugueses, promete então ser contrária a eles para ver o pai
dos deusesconceder-lhes a boa fortuna merecida.

41

"Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,

Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,

O rosto banha em lágrimas ardentes,

Como co'o orvalho fica a fresca rosa.


Calada um pouco, como se entre os dentes

Se lhe impedira a fala piedosa,

Torna a segui-la; e indo por diante,

Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

E que então morram nas mãos dos mouros (brutas gentes). Em lágrimas e pálida,
Vênus cessa sua fala, dando lugar às palavras de Júpiter, identificado pelo nome de
Tonante, aquele que faz soar os trovões dos seus raios.

42-43

Consolando a filha com o seu rosto junto ao dela, Júpiter começa sua fala
prometendo a glória aos portugueses:

44

"Formosa filha minha, não temais

Perigo algum nos vossos Lusitanos,

Nem que ninguém comigo possa mais,

Que esses chorosos olhos soberanos;

Júpiter inicia suas promessas afirmando que nada o convence mais do que a
comoção da filha, que chora ao fazer um pedido ao pai dos deuses.

Que eu vos prometo, filha, que vejais

Esquecerem-se Gregos e Romanos,

Pelos ilustres feitos que esta gente

Há-de fazer nas partes do Oriente.

Júpiter faz uma promessa, ou seja, há de se cumprir aquilo que foi dito. Iniciam
essas promessas com a de que gregos e romanos serão esquecidos por seus feitos
quando comparados aos feitos lusitanos no Oriente. Essa fala de Júpiter está em
consonância e a escolha das palavras feitas pelo poeta assemelha-se àquela feita na
terceira estância do Canto I, quando o poeta pela primeira vez compara gregos e
romanos aos portugueses usando como metonímia as figuras de Alexandre Magno e
Trajano.

45

"Que se o facundo Ulisses escapou

De ser na Ogígia ilha eterno escravo,

A partir daqui Camões remete a saga de três heróis conhecidos pelos feitos
náuticos: o primeiro deles é Ulisses, o facundo herói construtor de Cavalo de Troia e
personagem central da Odisseia, de Homero. Ao buscar o caminho de retorno da
batalha, Ulisses aporta e permanece na ilha de Ogígia por diversos anos prisioneiro
da nereideCalipso, com quem tem dois filhos. De lá saiu apenas com o auxílio de
Minerva,que desejosa do regresso do herói pediu a Júpiter a sua libertaçãoda
obsessiva nereide. Júpiter então envia Mercúrio para que transmita a ordem divina
a Calipso, que apenas assim permite que Ulisses parta aÍtaca.

E se Antenor os seios penetrou

Ilíricos e a fonte de Timavo;

O segundo dos heróis citados é Antenor, príncipe troiano que traiu sua pátria e ao
fim da guerra parte em expedição náutica, aportando perto da foz do Timavo e mais
tarde funda a cidade de Pádua, na Itália.

E se o piedoso Eneias navegou

De Cila e de Caríbdis o mar bravo,

O último exemplo de grande navegador comparado aos portugueses é Eneias, filho


da própria Vênus e herói troiano, que escapou graças ao auxílio divino da ira de
Juno e aportou na foz do rio Tibre. Sua descendência fundou Roma.

Os vossos, mores cousas atentando,

Novos mundos ao mundo irão mostrando.

Já os portugueses novos mundos mostrarão com suas grandes descobertas,


segundo a promessa do deus a Vênus.

46

"Fortalezas, cidades e altos muros,

Por eles vereis, filha, edificados;

Os Turcos belacíssimos e duros,

Deles sempre vereis desbaratados.

Os Reis da índia, livres e seguros,

Vereis ao Rei potente sojugados;

E por eles, de tudo enfim senhores,

Serão dadas na terra leis melhores.

Os reis da Turquia e da Índia serão subjugados pelos portugueses, continua Júpiter


pelo rei potente, ou seja, pelos portugueses ao comendo do seu monarca.

47

"Vereis este, que agora pressuroso

Por tantos medos o Indo vai buscando,


Tremer dele Neptuno, de medroso

Sem vento suas águas encrespando.

Agora ela verá Vasco da Gama ir apressado a buscar as margens do Indo. O ímpeto
português é tanto que Netuno, deus dos mares, ao ver as frotas a romper seus
caminhos, treme.

Ó caso nunca visto e milagroso,

Que trema e ferva o mar, em calma estando!

Ó gente forte e de altos pensamentos,

Que também dela hão medo os Elementos!

Até os elementos temem os portugueses, tamanha é a intrepidez desse povo.

48

"Vereis a terra, que a água lhe tolhia,

Que inda há-de ser um porto mui decente,

Em que vão descansar da longa via

As naus que navegarem do Ocidente.

Júpiter inicia a longa lista de terras que serão conquistadas pelos lusos. Começa
falando de Moçambique, onde os mouros negaram água aos portugueses, como
conta a estância 86, I. Moçambique no futuro será um porto em que as frotas
lusitanas descansarão da longa rota até a Índia.

Toda esta costa enfim, que agora urdia

O mortífero engano, obediente

Lhe pagará tributos, conhecendo

Não poder resistir ao Luso horrendo.

Aqui a costa oriental da África é relembrada como um local hostil ao português,


como percebemos dos cantos I e II, durante as malfadadas aproximações dos
portugueses aos povos de Moçambique, Quíloa e Mombaça.

49

"E vereis o mar Roxo, tão famoso,

Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;

Vereis de Ormuz o Reino poderoso

Duas vezes tomado e sojugado.

O Mar Vermelho e o reino de Ormuz, conquistado duas vezes, em 1507 e em 1515,


na costa do Golfo Pérsico também ficarão sob o jugo dos portugueses.
Ali vereis o Mouro furioso

De suas mesmas setas traspassado:

Que quem vai contra os vossos, claro veja

Que, se resiste, contra si peleja.

E o mouro, eterno inimigo português encontrará nos portugueses a causa de sua


morte, pois quem aos lusos resiste luta (destrói) a si próprio.

50

"Vereis a inexpugnábil Dio forte,

Que dous cercos terá, dos vossos sendo.

Ali se mostrará seu preço e sorte,

Feitos de armas grandíssimos fazendo.

Invejoso vereis o grão Mavorte

Do peito Lusitano fero e horrendo:

Do Mouro ali verão que a voz extrema

Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

Trata agora de Diu, na costa norte da Índia, onde os portugueses chegaram em 1513
e controlaram em 1535 após encarniçada luta contra o império mugal, de religião
muçulmana sunita.

51-54

Os vaticínios de Júpiter à Vênus prosseguem: Cananor (1505) ,Calecute (1498) ,


Cochim (1502) e Áurea Quersoneso (Malaca) (1509) são outras conquistas
portuguesas prometidas por Júpiter.

55

"De modo, filha minha, que de jeito

Amostrarão esforço mais que humano,

Que nunca se verá tão forte peito,

Do Gangético mar ao Gaditano,

Nem das Boreais ondas ao Estreito,

Que mostrou o agravado Lusitano,


Posto que em todo o mundo, de afrontados,

Ressuscitassem todos os passados."

Júpiter conclui sua promessa dizendo que os portugueses hão de mostrar tanto
esforço nas suas empreitadas marítimas e bélicas que do gangético mar (o Oceano
Índico) ao gaditano (ou seja, o Atlântico, mar que banha a cidade chamada pelos
romanos de Gades, hoje Cádiz, na Espanha). Nem das boreais ondas, ou seja, do
mar do polo Norte até o Estreito (de Magalhães), ao sul, algum povo pôde o que os
portugueses fizeram. Nem mesmo se todos os grandes homens do passado
ressuscitassem poderiam se equivaler aos portugueses.

56

Como isto disse, manda o consagrado

Filho de Maia à Terra, por que tenha

Um pacífico porto o sossegado,

Para onde sem receio a frota venha;

E, para que em Mombaça, aventurado,

O forte Capitão se não detenha,

Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostrasse

A terra, onde quieto repousasse.

Para oferecer recepção amigável, Júpiter envia Mercúrio a Melinde para aprontar a
chegada dos portugueses e alertar em sonho Vasco da Gama para que não se
detenha em Mombaça e navegue em direção a Melinde.

É interessante notarmos que a diplomacia é um dos principais atributos de


Mercúrio, mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes, associado à hospitalidade,
ao comércio e à comunicação falada e escrita.

60

Meio caminho a noite tinha andado,

E, as estrelas no Céu, coa luz alheia,

Tinham o largo Mundo alumiado;

E só co'o sono a gente se recreia.

O Capitão ilustre, já cansado

De vigiar a noite que arreceia,

Breve repouso então aos olhos dava,

A outra gente a quartos vigiava;