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ÁVILA, Thiago Pierobom de.

O controle pelo Ministério Público das políticas de segurança


pública. In: BRASIL. O Ministério Público e o controle externo da atividade policial: Dados
2016. Brasiĺ ia. CNMP, 2017, p. 24-31.

O controle externo da atividade policial, atribuído ao Ministério Público, tem


como fundamentos os seguintes: a) constitucional, art. 129, VII, CRFB/1988; b) regulamentar,
artigos 3º e 9º da LC nº 75/1993; c) complementar, Res. nº 20/2007 – CNMP.

Com base no art. 3º da LC nº 75/1993, tem-se a seguinte divisão da atividade:


a) controle procedimental do IP, com vistas não só à eficiência da investigação criminal
(considerando que o MP exerce a direção mediata da investigação como consectário de sua
titularidade para a ação penal de iniciativa pública), mas também com a finalidade de evitar
arbitrariedade durante a investigação criminal (atuando como custos legis); b) controle
extraprocessual, que se subdivide em: i) eficiência da investigação criminal; ii) eficiência das
políticas de segurança pública; iii) não arbitrariedade da investigação criminal e do
policiamento de segurança pública (prevenção e responsabilização).

Observa-se que “o controle externo da atividade policial está associado a um


novo paradigma de atuação do Ministério Público, que não se limita à atuação demandista,
processual e repressiva, antes atua de forma resolutiva, extrajudicial, proativa, preventiva,
promovendo diretamente entendimentos e gestões tendentes à resolução de problemas, atuando
como um relevante ‘catalizador jurídico’ para que o Estado ou as outras instituições da
sociedade venham a aderir ao projeto constitucional de justiça social” (ÁVILA, 2017. p. 23)

Nesse sentido, objetiva-se demonstrar que o controle externo da atividade


policial, sob a ótica extraprocessual, tem como nova fronteira a atividade de segurança pública
a cargo das instituições referidas no art. 144, inciso I, CRFB/1988. Nesse ponto, tem-se que o
controle também deve ser extrajudicial, proativo e preventivo, buscando evitar a escalada da
violência e que se atue de forma repressiva e processual residualmente.

Embora as atividades policiais de segurança pública não estejam


necessariamente ligadas à investigação criminal, não deixam de ser atribuição do MP dentro do
controle externo da atividade policial, como se constatou das normas acima referidas.

A atuação do MP no controle das atividades de segurança pública estão


relacionadas à sua função de Ombudsman social, cabendo-o a interlocução com as organizações
da sociedade civil e com os órgãos estatais no sentido de proteção e promoção da segurança
pública. Observa-se que a segurança pública é direito fundamental de segunda dimensão, social
portanto. Ainda que se discuta a existência de direito subjetivo à segurança, não resta dúvida
que há dever fundamental do Estado no sentido de prestá-la adequadamente. Ademais, a
segurança pública, como direito fundamental, é pressuposto para os demais direitos
fundamentais sejam usufruídos.

Neste ponto, vê-se que o Brasil vai mal1. Verifica-se que a insegurança é
crônica, consubstanciando violação inaceitável a direitos fundamentais provocada pela falta de
políticas públicas em torno da temática da segurança pública concatenadas de forma sistemática
e com vistas ao monitoramento gerencial de eficácia e efetividade. Tais constatações
demonstram que se faz necessária uma intervenção fiscalizatória e propositiva, resolutiva e
proativa do Ministério Público.

Desta forma, são trazidas ao debate as atribuições legais do MP em sua função


de Ombudsman social (artigo 27, parágrafo único, da Lei nº 8.625/1993), dentre as quais a de
receber notícias de irregularidade promoção das apurações cabíveis, zelar pela celeridade e
racionalização dos procedimentos administrativos, promover audiências públicas e emitir
relatórios, anual ou especiais e recomendações dirigidas aos órgãos e entidades da
Administração Pública.

A atuação do MP como Ombusdman social na área da segurança pública é


ainda incipiente no Brasil, uma vez que, por exemplo, não se produzem relatórios a esse
respeito, assim como também o é a accountability das políticas de segurança pública.

Desta forma, sugere o autor que o MP tem de procurar atuar de forma


resolutiva e preventiva, aberto ao diálogo com a sociedade e com as entidades da Administração
Pública, buscando “soluções adequadas” aos problemas, bem como “participando do debate
democrático tendente à concretização das políticas públicas sob sua fiscalização” (ÁVILA,
2017). No âmbito interno, sugere-se a especialização de promotorias no sentido de uma atuação
funcional que se adeque à complexidade do problema em si, dado o caráter intersetorial e

1
“Pesquisa do IPEA documentou que 78,6% da população brasileira possui muito medo de
ser assassinada, 11,8% possuem pouco medo e apenas 9,6% não possuem medo. Segundo o UNODC, das 30
cidades mais violentas do mundo, 11 são brasileiras. Segundo o índice de percepção da corrupção, o Brasil está na
79ª posição no ranking internacional da corrupção, perdendo para diversos vizinhos sul-americanos. Em 2014,
houve 42.291 homicídios praticados por armas de fogo, um aumento de 592% desde 1980. Todas as capitais
brasileiras (à exceção de Boa Vista) possuem taxas proporcionais de homicídios superiores ao considerado como
‘tolerável’ pela Organização Mundial da Saúde. Trata-se de uma violência que vem atingindo sistematicamente o
mesmo perfil populacional: homens, jovens, negros, pobres e de baixa escolaridade. Paradoxalmente, 67% dos
presos são negros, indicando que o mesmo perfil populacional que agride (ou que é selecionado pelo sistema penal
pela agressão) é igualmente vitimado. O Brasil possui a 3ª maior população carcerária do mundo, indicando que a
penologia neoliberal não tem dados respostas suficientes ao problema da segurança pública”.(ÁVILA, 2017)
transversal das políticas de segurança pública.

Análise crítica:

A segurança pública é tema bastante complexo. Tomando-se a abordagem


realizada, o Ministério Público tem como atribuição constitucional a fiscalização das atividades
realizadas no âmbito da segurança pública, atuando como custos societatis. Contudo, por
diversas razões, como o padrão histórico de atuação calcado na repressão processual criminal,
bem como a crescente demanda e carga de serviço, fazem com que se crie atrito no sentido
cumprir tal atribuição. Em verdade, trata-se de uma construção, adequada ao contexto
constitucional, que ainda carece de realização prática. Ademais, a segurança pública é tema
bastante espinhoso e muitos se deixam levar pela paixão e posicionamento político quando se
encontram em debate acerca do tema. Contudo, tratando-se de debate institucional e
democrático, não há espaço para ponderações de acordo com viés político no sentido cego da
palavra. Há que se dar cumprimento devido e adequado aos mandamentos constitucionais,
consubstanciando direitos fundamentais. Nesse ponto, percebe-se que há descolamento entre o
texto e a realidade da política no Brasil (o que inclui membros dos três Poderes constituídos),
que caminha no sentido das práticas ultraliberais (tome-se como exemplo a privatização dos
presídios, última fronteira do capitalismo no Brasil). Portanto, cabe ao MP, na sua condição de
defensor da sociedade, da democracia e dos direitos fundamentais, participar ativamente do
debate democrático e ser ator na promoção dos direitos sociais, dentre os quais a segurança
pública, monitorando e fiscalizando a execução de políticas adequadas aos objetivos
democráticos da CRFB, com foco na prevenção.