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POR QUE

FAZEMOS O MAL?
ARTE DA CAPA
Fábio Failde
Frederico Mattos

POR QUE
FA Z E M O S O M A L ?
Transformando a sombra da personalidade
Copyright© Frederico André Salles de Oliveira Mattos
5011/1 – 1000 – 164 – 2009

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proprietário(a) do Direito Autoral.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Mattos, Frederico
Por que fazemos o mal? : transformando a sombra
da personalidade / Frederico Mattos. -- São Paulo :
Scortecci, 2009.

ISBN 978-85-366-1583-7

1. Autoajuda 2. Bem e mal - Aspectos psicológicos


3. Personalidade - Mudança 4. Psicologia junguiana
5. Sombra (Psicanálise) 6. Transformação pessoal -
Psicologia aplicada I. Título.

09.09992 CDD-155.264

Índices para catálogo sistemático:

1. Sombra da personalidade : Transformação :


Psicologia junguiana 155.264

Grupo Editorial Scortecci


Scortecci Editora
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Agradecimentos

Aos meus pais que me deram a vida e o exemplo de grandeza


de espírito.
À Vivian, minha companheira inestimável e paciente.
Ao Instituto Evoluir pelo espaço maravilhoso de trabalho.
À Del Mar Franco por tudo o que me proporciona de
aprendizado pessoal e no campo da psicologia.
Ao Sergio Miranda pelo aprendizado espiritual.
Ao Antônio que apaziguou minhas sombras.
Ao Marcelo Cardoso pelas lições de propósito de vida.
Ao Enéas, Luis Carlos e André pelo incentivo literário.
Ao Newton Branda pela clareza literária e toda revisão desta obra.
À Editora Scortecci que apoiou esse sonho.
Aos grandes mestres do pensamento humano que trilharam
um longo caminho na direção da cura emocional.
E fundamentalmente às pessoas que compartilharam sua
história em terapia e que me deram a oportunidade de descobrir o
melhor da vida que estava escondido na escuridão do sofrimento.

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Sumário

Apresentação ............................................................................. 9
Introdução ................................................................................ 12
Conceito de sombra ................................................................ 14
As várias caras da sombra ...................................................... 18
Máscara ..................................................................................... 27
O mundo das sombras tem as suas leis ................................. 30
A sombra no dia-a-dia ............................................................ 46
Sobre a mente criminosa......................................................... 59
Alerta importante – sobre a culpa ......................................... 62
Sobre os sentimentos .............................................................. 65
Por que eu nunca tenho sucesso? ........................................... 67
Sombras em casal .................................................................... 69
Sombras familiares .................................................................. 73
Sombras profissionais ............................................................. 77
Agressividade ........................................................................... 80
Sexualidade ............................................................................... 84
Dinheiro .................................................................................... 87
Existencial ................................................................................ 90
Vender a alma ao diabo .......................................................... 93
A sombra de nossos tempos .................................................. 97
Afinal, o que é o mal? ............................................................ 100
Qual o limite do mal? ............................................................ 102
Para quem quiser trabalhar com a sombra ......................... 106
O que as sombras escondem de bom ................................. 108
Paradoxo: o bem e o mal ..................................................... 114
Benefícios de integrar as sombras........................................ 117
Exercícios ............................................................................... 123
Básico ...................................................................................... 126
Intermediário ......................................................................... 136
Avançado ................................................................................ 146
Conclusão ............................................................................... 151
Filmes indicados .................................................................... 154
Indicação de livros................................................................. 162
Apresentação

“Abandonem as esperanças,
todos vocês que entrarem aqui!”

Dante Aliguieri, poeta italiano

Por que fazemos o mal?


Essa pergunta é muito atual. Numa época de atentados
terroristas, tráfico de drogas, assassinatos entre pais e filhos, marido
e mulher queremos entender o que se passa na cabeça de quem
mata, abusa, engana e seqüestra.
A preocupação que está por trás dessa pergunta é: até que
ponto esse mal pode chegar perto de mim? E pior, até onde esse
mal pode estar dentro de mim.
Na medida que conheci a psicologia e iniciei minha busca
pessoal e espiritual comecei a chegar em respostas incômodas. O
trabalho como psicólogo clínico me colocou novamente diante
dessa questão embaraçosa.
Por que fazemos o mal?
Raras são as pessoas que chegam no consultório do
psicólogo fazendo essa pergunta. Na maior parte das vezes elas se
queixam dos problemas da vida cotidiana. Por que meu casamento
não dá certo? Por que não tenho sucesso financeiro? Por que não
me dou bem com minha família?
No entanto, ela é fundamental para explicar e solucionar os
problemas da vida cotidiana. Por isso fiquei motivado a repassar
às pessoas algumas conclusões que cheguei ao longo do tempo.
Para chegar a essas respostas conheci o trabalho com a
SOMBRA.
Você se sentiria tranquilo em falar sobre assuntos tabus?

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Frederico Mattos

Confessar alguma maldade que cometeu? Ou mesmo tirar a sujeira


debaixo do tapete e encarar os fantasmas do passado?
Se fosse chamado a um palco para dar um depoimento sobre
seus maiores defeitos você teria coragem de revelar todos os seus
“podres”?
Pois isso é a sombra, aquilo que rejeito, reprimo e deixo de
lado na minha personalidade.
E para chegar à resposta de por que fazemos o mal, é
essencial um mergulho nos aspectos sombrios da sua vida.
Esse livro tem o objetivo de trazer de forma didática e prática
meios de definir, identificar e transformar a sombra psicológica.
Você será conduzido a regiões muito profundas da sua alma na
busca de auto-conhecimento.
Espero que você encontre toda a força, sabedoria e
humildade que estão escondidas dentro do seu coração.
Esse assunto é muito vasto e gostaria de proporcionar um
mergulho no tema, com a finalidade de abrir o seu entendimento,
sem fechar diagnósticos.
As reflexões contidas no livro são frutos de observações,
leituras, atendimentos e a experiência de vida que muitos
compartilham em consultório. Portanto, pode chegar em respostas
parecidas na sua vida, mas só você poderá personalizar seu trabalho
pessoal. Os exercícios no final do livro tem o objetivo de facilitar
esses passos.
Procurei poupar a identidade das pessoas citadas no livro e
oferecer alguns exemplos reais, afinal fazemos parte da mesma
espécie humana.
Jung, psiquiatra suíço, foi sábio ao dizer que “o que não
enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino.”
E se você for ao encontro da sombra ela será generosa e
trará grande paz na sua vida.
Espero que a leitura seja agradável!

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Por Que Fazemos o Mal?

“Quando penso na alegria voraz


com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha


e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.”

Clarice Lispector,
escritora ucraniana naturalizada brasileira

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Introdução

“Se você puser para fora o que está dentro de você,


aquilo que traz à tona irá salvá-lo.
Se você não puser para fora o que está dentro de você,
o que não vem à superfície vos matará.”
Evangelho de Tomé

Alguns livros de autoajuda prometem resultado rápido diante


dos problemas. É compreensível, afinal vivemos num mundo
acelerado. O confronto com a sombra vai, sem dúvida nenhuma,
mudar radicalmente sua vida. Mas exigirá um pouco mais de calma
da sua parte para fazer essa travessia tranqüilamente.
Assim como você, procurei respostas rápidas para minhas
dores, lembranças ruins e traumas do passado. Os livros me
ajudaram muito, mas a terapia deu a ajuda definitiva.
Você é uma pessoa única nesse planeta. Cada acontecimento
de sua vida criou uma rede delicada que resultou no que você é hoje.
E para desfazer alguns pontos emaranhados é preciso ter cuidado e
profundo respeito.
Garanto que seu corpo, sua mente e seu espírito serão tocados
com as revelações do mundo sombrio. Cada passo o levará a (re)conhecer
a riqueza interna que você possui guardada num jardim secreto.
Você não será mais o mesmo!
Na descoberta do por quê fazemos o mal existe um preço:
sair da condição de vítima inocente.
Na prática, você irá se debater com feridas antigas,
lembranças indesejadas e sentimentos inadequados. A ignorância
que viveu até hoje dará lugar para um conhecimento profundo de
sua natureza. Terá que mergulhar no seu inferno pessoal, fazer as
pazes com o “demônio interior” e os fantasmas do passado.

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Por Que Fazemos o Mal?

Para fazer mudanças essenciais na sua vida é preciso


amadurecer. Portanto, assumir plena responsabilidade de seus
pensamentos, sentimentos e ações. Isso inclui a aceitação dos
impulsos mais estranhos e terríveis que possuímos.
Alegar que o mundo é ruim, as pessoas são más e você é um
anjo diminuirá suas chances de alcançar uma vida feliz e plena.
O maior inimigo da sua felicidade está escondido nos
assuntos incômodos que você tenta deixar de lado.
No momento que você se liberta de sua sombra e a integra
muita energia estará disponível à seu favor!
Você terá ânimo para sair da depressão, calma para conter
ataques de ansiedade, força para superar a morte de entes queridos,
sucesso na profissão e amor nos relacionamentos afetivos. Muitas
perguntas sem solução terão resposta.
E isso será fruto de persistência, coragem e disciplina durante
a caminhada de volta para sua casa interior.
Você sairá dessa jornada mais forte, lúcido e pronto para
amar a vida com tudo o que ela tem a oferecer.
Convido você a prosseguir a leitura!
Bem-vindo ao mundo da sombra!

“Se cada dia cai, dentro de cada noite,


há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira


do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.”

Pablo Neruda, poeta chileno

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Conceito de sombra

“O fato sombrio é que somos a espécie mais cruel e implacável que


jamais pisou sobre a Terra e que, embora possamos ficar horrorizados
quando lemos, no jornal ou nos livros, histórias sobre atrocidades cometidas
pelo homem contra o homem, sabemos, intimamente, que cada um de nós
abriga dentro de si os mesmos impulsos selvagens que levam ao assassínio, à
tortura e à guerra.”
Anthony Storr, psicanalista

Para entender a essência do mal é necessário o confronto


com a sombra.
Sombra é tudo aquilo que você deixa de lado em sua
personalidade, desde os impulsos primitivos até as aspirações mais
nobres.
A consciência humana abrange uma pequena parte da realidade
de acontecimentos externos e reações internas. Seria estranho pensar
que ela daria conta de tudo o que se passa na sua vida.
A sombra é como um ímã que atrai para si o que
consideramos lixo psicológico. E, portanto é um movimento
criativo contínuo, visto que estamos sempre selecionando o que
queremos ou não. Não tem substância em si, ou seja, cada pessoa
ao longo de sua vida vai formando várias sombras diferentes, afinal,
cada um tem o seu segredo, medo e trauma.
Nas histórias em quadrinhos o Incrível Hulk personaliza bem a
sombra. Bruce Banner é um cientista calmo, racional e ponderado que
ao ser agredido transforma-se no gigante verde, furioso e incontrolável.
Carl Gustav Jung (1875-1961) – o psiquiatra suíço criador da
psicologia analítica e do termo sombra – se refere a ela como
“aquela personalidade oculta, recalcada, freqüentemente inferior”,
que em geral tem um valor afetivo negativo.

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Por Que Fazemos o Mal?

Segundo Jung é um arquétipo, uma força anímica, que está


presente no homem e no inconsciente coletivo. Em toda a história
da humanidade a sombra foi personificada nos mitos, religiões e
na vida cotidiana por formas monstruosas, demoníacas e
desumanas. Nos romances é personificada pelo papel do bandido
e do inimigo que se opõe ao herói.
A sombra é um grande ladrão de energia. E quanto mais
você ignora sua presença, maior será o dano causado.
Você pode colocar a culpa dos seus problemas na sociedade
injusta, no parente chato, no colega de trabalho, no marido infiel,
mas isso não diminuirá seus problemas concretamente.
A sombra pode ser aquilo que você não gostaria de ser:
desonesto, egoísta, invejoso, ciumento ou burro. É, também, aquilo
renega em você: como uma parte do corpo que não aceita ou um
acontecimento do passado que quer esquecer. Pode ser aquilo que
te irrita e incomoda no jeito dos outros.
Cada cultura e sociedade elege as características que são
aceitáveis e condenáveis. A sombra se origina dessa seleção interna
entre aquilo que devo fazer e aquilo que não devo.
Faça uma pequena análise de sua vida e isso será revelado.
Observe tudo aquilo que gostaria de ser e não é, ou aquilo
que desejava conquistar e fracassou, isso é sombra também.
Se fizermos uma comparação com uma casa, a sombra seria
o porão, o sótão ou o quarto da bagunça. Você gostaria de
apresentar apenas a sala bem arrumada com móveis novos, bonitos
e aconchegantes. A velharia, objetos quebrados e imprestáveis você
joga no quarto da bagunça, bem longe dos olhos.
Quando conhece alguém, qual impressão você quer causar?
Quer parecer uma pessoa equilibrada, boa e digna de amor? Ou
gosta de jogar tudo na cara e não se importa em mostrar seus
defeitos? De qualquer maneira, você tem uma sombra, pois ela
representa sua fragilidade.

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Frederico Mattos

Somos incompletos e cheios de polaridades. Temos um lado


equilibrado e doentio, ou seja, duas faces da mesma moeda. Já
pensou que dentro de você existe um Gandhi e um Hitler à espera
de se manifestar?
O estranho é que por pior que uma pessoa pareça ela tem
uma faceta boa e agradável, e toda pessoa boa esconde algumas
coisa repugnante.
O objetivo dessas descobertas não é diminuir a autoestima ou
gerar desesperança, mas lançar luz assuntos incômodos do dia-a-dia.
A sombra também tem algo de imoral, porque está contra
as regras de um determinado grupo. Ou pelo menos nos coloca
num dilema moral contra os costumes vigentes na sociedade. E
por isso nos constrange, já que a sociedade está cheia de regras
que atestam se você é “normal” ou não.
Você já deve ter se sentido mal ao fazer alguma coisa que ia
contra as normas de um lugar.
Mas para ir fundo com a sombra você precisa agir como
uma criança que curiosamente descobre todos os cantos da casa.
Vai até o porão e sem nenhum julgamento moral olha tudo com
surpresa, interesse e encanto.
A criança está aberta, sem pudor ou vergonha, e menos
preocupada com a opinião dos outros. Pode admirar o feio, reutilizar
o objeto desprezado e até fazer perguntas a respeito de assuntos tabus.
Quando eu era criança tive a oportunidade de visitar
Botucatu – terra de minha avó materna – vi a foto de meu bisavô
na lápide do cemitério. Achei curioso os óculos tortos no seu rosto
bonito e perguntei inocentemente, “porque ele tem os óculos
caídos, ele era louco?”. Um burburinho repercutiu em meio às
caras misteriosas.
Uma pergunta feita por uma criança a respeito de um assunto
tabu gerou susto e depois um riso constrangido de todos.

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Por Que Fazemos o Mal?

Cada um queria me explicar que o fotógrafo desatencioso


colocou os óculos de qualquer jeito. Eu não sabia que ele cometera
suicídio, fato que abalou toda família. Nesse caso pessoal, a sombra
da família era o suicídio. Minha mãe relata que esse acontecimento
sempre foi comentado com muito pesar e revolta e muitas pessoas
se sentiam parcialmente culpadas e deprimidas com o acontecido.
Quando um assunto não é dito vira mal dito ou maldito, gerador
de angústia, desconforto e mal-estar. É assim que reagimos diante da
sombra, com desgosto e espanto.
O trabalho com a sombra tem o objetivo de fazer o maldito
virar bendito, a maldição, uma grande bênção e as trevas virem à luz.

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As várias caras da sombra

“Cada uma das virtudes deste mundo é validada pelo seu oposto.
A luz nada significaria sem as trevas, o masculino sem o feminino, o
cuidado sem o abandono.
As verdades sempre vêm aos pares e temos de suportar isso para
estar em harmonia com a realidade.
Sofrer significa permitir; e nesse sentido sofremos o mistério da
dualidade.”
Robert Johnson, psicólogo junguiano

A sombra é gerada de diferentes maneiras. Ao longo da vida


vamos selecionando à partir da cultura e da educação que
recebemos o que colocar “debaixo do tapete”. Os mecanismos
pelos quais colocamos algo na sombra na maior parte das vezes
não é consciente. Por isso apresento as maneiras mais comuns
que a sombra é criada e se apresenta.

Repressão

“Se a sociedade está em perigo, não é por causa da agressividade do


homem, mas devido à repressão da agressividade pessoal nos indivíduos.”

Donald Winnicott,
Psicanalista de crianças britânico

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Por Que Fazemos o Mal?

A repressão é um mecanismo de proteção que nos poupa o


contato com todo tipo de vivência desagradável que causou dor
profunda. Ela também nos ajuda a afastar de perto aquilo que nos
agride internamente, como um assunto espinhoso com o qual não
temos capacidade de enfrentar.

Cleber sempre foi extremamente regrado em todas as suas


atividades pessoais. Desde cedo foi o melhor aluno, amigo,
namorado, marido e profissional. Com moral ilibada sempre
desempenhou suas atividades religiosas com dedicação.
Nunca se via nenhuma atitude de agressividade, ainda que
leve. Desenvolveu uma depressão tão acentuada a ponto de precisar
de internação e medicamento.
Reprimiu sua raiva e hostilidade de tal forma que ela se
voltou contra ele em forma de autoacusações.
Quando conseguiu perceber que sua raiva não era tão
perigosa e condenável, pôde lentamente se libertar da depressão e
dos medimentos, vontando passo-a-passo ao convívio com as
pessoas. Dessa vez se posicionando frente os assuntos difíceis.
A repressão é o mecanismo mais básico que utilizamos diante
da sombra. A sexualidade e agressividade são temas mutio
reprimidos na nossa cultura. Forças tão poderosas e fonte de
criação são colocadas de lado sob o peso do moralismo.

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Frederico Mattos

Negligência

“O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos.”

Jean Paul Sartre,


filósofo existencialista francês

Podemos pensar na sombra como uma característica que


possuímos, mas vamos deixando de lado para poder nos adaptar a
grupo de pessoas com as quais convivemos.
É muito comum deixarmos alguns hábitos de lado quando
passamos a conviver com outra pessoa num mesmo espaço. Até
no ambiente profissional deixamos algumas características que
acabam sendo postas de lado.
Denise sempre deixou de lado seus gostos pessoais para
dedicar-se à família, à casa e ao bem-estar de seus parentes. Preferia
renunciar às suas vontades para atender qualquer chamado pessoal
ou telefônico de ajuda.
Seu autocuidado foi negligenciado e com o passar do
tempo começou a chamar atenção através de uma patologia como
a Síndrome do Pânico que a impedia de correr em socorro aos
outros e a forçava cuidar de si mesma.
Era tão grande a sua necessidade de cuidar um pouco de si
mesma que precisou de uma grande dose de desconforto para sair
de sua paralisia emocional.
Graças ao pânico começou a ir a médicos, terpeutas, buscar
momentos para relaxar e colocar limites onde não havia nenhum.
Assumiu seu auto-amor, algo que há muito anos condenava como
egoísmo.

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Por Que Fazemos o Mal?

Segredo

“No momento que o espírito humano conseguiu inventar a idéia do


pecado, surgiu a parte oculta do psiquismo; em linguagem analítica – a coisa
recalcada. O que é oculto é segredo.”

Carl Gustav Jung

O segredo é resultado de nossa vergonha e impotência em


compartilhar com alguém um fato obscuro e condenável num certo
núcleo de pessoas.
Alguns podem passar décadas de sua vida carregando
segredos pessoais ou de outros pelo medo de serem repreendidas
caso contem a verdade dos fatos ou por lealdade cega a alguém
que já morreu ou se distanciou.
No entanto, o efeito de carregar um segredo doloroso é
muito mais pesado e problemático do que o segredo em si e seria
mais prudente encontrar uma oportunidade de compartilhar com
alguém esse tipo de dor enjaulada.
Vitor sentia-se diferente da família. Um adolescente que
reivindicava um espaço entre os irmãos bem mais velhos. Achava
que era o temporão de pais idosos. Sua rebeldia chegava ao extremo,
quebrava móveis e objetos pessoais dos pais. Na verdade era um
filho adotivo. E, pelo ciúme agressivo, do irmão exigia
inconscientemente que o segredo viesse à tona.

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Frederico Mattos

Trauma

“O homem que teme o sofrimento já está sofrendo pelo que teme.”

Michel de Montaigne,
escritor e ensaísta francês

A definição do trauma é tarefa difícil exatamente por ser


uma vivência muito específica e peculiar para cada ser humano.
Para uma pessoa mais sensível o trauma pode ser resultado
de uma ação inofensiva de alguém.
Mas de forma simples o trauma psicológico é uma
experiência dolorosa de grande intensidade que marca um
momento da vida de uma pessoa ou um grupo. Não importa se a
ação agressiva foi direta ou indireta, uma vez ou intermitente, pois
a interpretação que a vítima dá ao fato e a intensidade do fato
define o tamanho do trauma e da sombra.
Normalmente é uma experiência que excede a capacidade
de absorção e assimilação da pessoa. É o oceano tentando caber
numa pequena bacia.
Vera foi molestada por seu padrasto quando pequena. As imagens
do homem se tocando diante dela ficaram registradas na memória. Por
mais que quisesse evitar, as imagens surgiam na sua mente.
Quando adulta não conseguia relacionar-se com os homens
e queria apagar de seus pensamentos o que lhe ocorreu na infância.
Mas o passado se tornava presente a cada novo parceiro que
escolhia. Todos terminavam em algum tipo de violência.
O trauma deixa umas sequela tão grande que não importa se
a situação atual é parecida com aquela do passado. Qualquer coisa
que lembre o primeiro incidente é o bastante para gerar o conflito.

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Por Que Fazemos o Mal?

Condenação

“Apenas as grandes almas


podem julgar as grandes coisas.’’

Arsène Houssaye, escritor francês

Quando você condena alguém por uma atitude na verdade


está analisando o que seus olhos alcançam. Se pensamos pequeno,
julgamos pequeno. Tendo uma visão complexa sobre a vida
julgamos com mais amplitude.
A sombra é gerada toda vez que condeno a atitude de alguém
em favor da minha. Passo a acreditar que sou melhor e repudio a
ação dos outros em defesa da minha.
Andréa sempre condenou seu namorado pela agressividade
nas palavras e nos gestos. Recriminava cada atitude de frieza e
desprezo do parceiro e se queixava vítima de incompreensão.
Terminou o relacionamento de dois anos a duras penas.
No relacionamento seguinte via-se agindo de maneira grosseira
e ríspida com o novo namorado. E desta vez sem razão e com violência
redobrada. Justificava que não queria passar por tudo de novo.
Essa é a maneira mais simples de reconhecer a nossa sombra,
pois diante daquilo que repudiamos em nós a reação imediata é a
condenação do outro. Passamos a agir com superioridade diante do
mal que temos dentro de nós manifestado no comportamento alheio.

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Frederico Mattos

Negação

“Estamos tão acostumados a nos disfarçar para os outros que no


fim acabamos nos disfarçando para nós mesmos.”

François de La Rochefoucauld,
escritor francês do século XVII

A maneira mais simples de lidar com uma realidade brutal é


ignorar que ela existe.
Fazemos isso o tempo todo, com as crianças de rua, com a
injustiça social, os velhos à beira do caminho, a guerra no mundo,
a crise ecológica. Parece que negar que alguma coisa existe faz
com que desapareça magicamente.
No entanto, quanto mais negamos algo mais ele se evidencia.
A negação é um grande fermento para a sombra.
Sebastião sempre criou sua filha para ser sua princesa.
Sempre cuidada com muito zelo, passeava co,m ela desde cedo e
acompanhava cada passo da menina.
Na adolescência não compreendia o distanciamento da filha
que começou a se rebelar e se afastar dele. Seu coração de pai não
conseguia encarar os fatos, até que descobriu uma carta de amor
de uma mulher para sua filha. Toda sua dedicação de anos
transformou-se num repentino ódio cheio de desgosto pela “nova
opção sexual” da filha.
Negar um assunto, acontecimento ou característica só prolonga
o sofrimento de vivê-lo. Acreditar-se mais do que é ou menos do que
poderia ser não torna você realmente grande ou pequeno

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Por Que Fazemos o Mal?

Medos

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a


real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”

Platão, filósofo grego

O medo é uma das emoções mais primárias que possuímos.


É o resquício saudável da evolução das espécies. Possibilita a
autopreservação de nossa integridade física, psicológica e espiritual.
É o sinal de alerta para agir diante de uma ameaça.
A sombra do medo patológico a que refiro é quando
passamos a temer ameaças imaginárias. Passamos a temer algo
que vai acontecer no futuro. Na realidade o medo que temos é
que o passado se repita.
O grande problema é que quanto mais você quer afastar
aquilo que tem medo, sem perceber atrai o que mais teme para
perto de você.
Joyce sempre teve medo da solidão. Esforçava-se para nunca
terminar um relacionamento e logo que um acabava outro estava
engatilhado. Como acreditava que ninguém gostaria o suficiente
dela agia de forma ciumenta, possessiva, insegura e pouco atraente.
Nenhum relacionamento durava mais de dois meses. Até
que se viu sozinha. Exatamente da maneira que mais temia,
trabalhando quase treze horas por dia.
Pessoas assustadas acabam vendo ameaças onde não existem
e agem como se aquilo que temem estivesse diante dos olhos.
A pessoa dominada pelo medo vê o pai violento no chefe
exigente ou no trânsito caótico. Como consequência age de forma
tão defensiva que o chefe passa a ser mais hostil ou comete
“barbeiragens” no trânsito. Concretiza o próprio medo a todo instante.

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Frederico Mattos

Culpas

“Há um remédio para as culpas, reconhecê-las.”

Franz Grillparzer, dramaturgo austríaco

A culpa é fruto da evolução das espécies. O cérebro humano


é o único capaz de reconhecer um mal cometido e experimentar
um pesar depois de quebrar um trato ou regra.
O desenvolvimento do córtex pré-frontal dá a capacidade
de julgamento.
Vivemos numa sociedade com regras. Na primitividade, uma
pessoa que transgredia regras era punida e levada a não repetir a
ação por medo de punição. Mas com o passar dos tempos, a nossa
cultura internalizou esse tribunal e passou a assumir culpas por
ações fora-da-lei.
O peso da culpa é do tamanho da regra quebrada.
Fábio não entendia porque engordava tanto com sua dieta
equilibrada. Desde criança engolia muitos sapos, sempre assumia
a culpa pelas traquinagens do irmão mais novo e, além disso se
sentia responsável pelo casamento dos pais. Certa vez presenciou
uma briga dos pais e achou que era sua culpa.
Passou a acreditar que se fosse um bom menino seus pais
nunca se separariam. Mas, seus pais se divorciaram e ele se culpou
por isso. Sua obesidade era um reflexo do peso exagerado que
carregava no coração.
A pessoa culpada não busca o autoperdão, pelo contrário
vive sob o domínio do mal cometido, castiga-se e vive com piedade
de si. Ainda que não seja condenado por nenhuma de suas vítimas
reais ou imaginárias. o culpado carrega cada sombra nebulosa do
passado como se fosse o dia presente.

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Máscara

“Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a


tirei e me vi no espelho, já tinha envelhecido.”

Fernando Pessoa,
poeta português

“Mantenho a máscara, para ninguém se aperceber das lágrimas e


das marcas que este mundo me faz.”

Anônimo

Na essência a sombra é um segredo que você guarda de si


mesmo e do mundo. E normalmente é um aspecto inconsciente
da sua vida e personalidade. E como todo segredo precisa ser
protegido do ataque externo. A maneira que deixamos esse segredo
seguro é desenvolvendo escudos, que chamamos de máscaras.
Diante disso a reação imediata de alguns é dizer: “mas não
sou mascarado!”. Porque associam a máscara a falsidade e
fingimento.
Mas se há sombra, há máscara. É a proteção natural que
todos criamos para esconder aos nossos olhos e dos outros o lado
obscuro de nossa personalidade.
Essa maneira segura se torna uma capa protetora que
demonstra aos outros e idealiza ser e o que acha que é aceitável
para os outros.
Você mesmo já deve se visto arrumando a roupa e penteando
o cabelo, antes de chegar num lugar. Isso é uma máscara leve, sem
danos, prejuízos ou falsidades. Na outra ponta da extremidade
existe o fingimento. Algumas pessoas estão muito identificadas
com a máscara que se esquecem do que realmente são.

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Frederico Mattos

Se num grupo é valorizado, a lealdade ao chefe, a eficiência


nas tarefas e o jogo agressivo para vender um produto, logo você
se molda para sobreviver nesse contexto. Ainda que discorde do
chefe, seja relapso diante da tarefa e pacato nas vendas, você se
torna mais leal, proativo e violento.
Tudo para corresponder às expectativas declaradas que a
sociedade espera.
A máscara se forma basicamente quando você é pequeno e
tenta obter o amor dos pais e se submete ao que eles esperam para
alcançar isso.
Quando age inadequadamente e tem medo de perder esse
amor e passa a se moldar.
A criança mexe no bibelô de porcelana em cima da mesa da
sala e toma um tapa nas mãos com um grito da mãe “não mexa aí,
moleque!”. Sua espontaneidade vai por água abaixo e dá a uma
regra que não compreende bem. Ela aceita a regra irracional para
manter o amor da mãe. “Se mexo ali, ela pára de me amar”.
Para proteger e assegurar o amor, cria máscaras de acordo a
situação. Em contrapartida cria uma sombra “não farei aquilo que
me der na telha”. No dia seguinte a criança está mexendo no bibelô
às escondidas. Se o objeto fosse mostrado com calma ela brincaria
um pouco e logo o brinquedo estaria de lado. Mas a proibição aguça
sua sombra. A proibição cria interesse imediato, pois a mente humana
tem o desejo inato de ampliar seu relacionamento com o mundo.
Mas sob a repreensão materna o que era espontaneidade se
transforma (ao toque sombrio) em atrevimento e a criança começa
fazer tudo por rebeldia. Então, uma série sucessiva de ordens, regras
e mandatos vão sendo passados para modelar seu jeito de ser.
Máscara e sombra vão sendo construídas em pares. Você
começa a sorrir mais do que gostaria, a ceder à vontade dos outros
e amar pessoas desagradáveis.

28
Por Que Fazemos o Mal?

Minha tristeza, vontade própria e autoamor vão sendo


varridos para debaixo do tapete e renegados à subcategoria do
comportamento humano.
Na busca de amor você sufoca alguns sentimentos genuínos
para mostrar bom humor, simpatia e gentileza, mesmo contrariado.
Em nome do amor cego.
O problema da máscara é quando ela se torna tão rígida e
pesada que o rosto debaixo dela não é mais reconhecido. E assim,
por pretexto de ser bom, me torno insensível.
Às vezes por desejo de manter a consciência tranqüila e
dormir com a cabeça leve no travesseiro somos capazes de passar
como um trator sobre os outros sob a desculpa de buscar a justiça
e a honestidade.
A máscara causa essa sensação de apatia bondosa. Você age
com bondade por hábito e não por desejo.
Aí reside a fonte de todos os conflitos internos, desejo versus
expectativa social, lugar fértil para a proliferação da sombra.
No fundo, a máscara o protege de tudo aquilo que poderia
ferir seu orgulho pessoal. É uma defesa natural que torna nossos
sentimentos menos expostos e vulneráveis.
Esse é o conforto e segurança que sentimos ao permanecer
com o rosto coberto.

29
O mundo das sombras tem as suas leis

“Todo homem tem uma sombra e,


quanto menos se incorporar à sua vida consciente,
mais escura e densa ela será.
De todo modo,
ela forma uma trava inconsciente
que frustra nossas melhores intenções.”

Carl Gustav Jung

Ao longo de algumas observações, reuni algumas idéias a


respeito da dinâmica da sombra em nossa alma.
Apresento agora algumas leis desse universo caótico da
mente humana.

1 – Tudo que tem substância gera sombra

Todo fenômeno humano pode ser visualizado em pares de


opostos, como o dia e a noite, o norte e o sul. Assim tudo o que há
no universo mantém o equilíbrio nessa dança dos pólos.
E toda vez que exageramos demasiadamente num pólo o
outro é colocado na sombra.
Uma pessoa extremamente racional gera a sombra da
emotividade que pode irromper num momento de paixão
avassaladora ou numa crise nervosa ou colapso físico.
Portanto, temos uma máscara aparente para agradar a cultura,
a família ou os grupos que pertencemos e temos a sombra que é o
avesso da imagem que queremos passar.

30
Por Que Fazemos o Mal?

2 – A sombra anseia um espaço na consciência

Apesar de a realidade ser concebida aos pares na consciência


existe um anseio profundo pela totalidade. Surge aí a necessidade
constante da sombra ser trazida à luz.
Quanto maior a aceitação da sombra, menos sofrido é o
processo de iluminação interior.
Há pessoas que teimam em manter uma formalidade rígida
como se morassem num castelo da monarquia. Querem manter a
todo custo e justificativa uma imagem límpida, pura e inocente.
Muitas vezes, seguram sua vida com uma rédea severa e nada
desenvolvem de criativo, arriscado ou inovador pelo simples medo
de perder o controle no desconhecido.
Inconscientemente. boicotam sua vida financeira pelo simples
medo de serem gananciosas ou orgulhosas. Não cuidam da aparência
por medo da vaidade. São silenciosas para evitar extravagâncias.
Temem dar espaço ao seu potencial mais precioso por receio
de se fascinarem ao fazer mau uso de sua força.

3 – A sombra pode ser projetada no outro

Um dos mecanismos que utilizamos para fugir das sombras


é projetá-la nos outros.
É como se houvesse uma novela diante dos olhos. Você fica
bravo com o bandido e feliz quando o mocinho vence. No entanto,
essa novela se passa em sua cabeça.
A dificuldade de olhar para as imperfeições (e cada um cria
a sua) faz com que você olhe esse espetáculo de uma platéia onde
tudo é confortável.
Toda vez que você fofoca sobre o azar do vizinho ou do
colega de trabalho está na verdade falando de si mesmo.

31
Frederico Mattos

Você pode passar uma vida inteira vendo a sua sombra (e


chance de evolução) rondar seus passos e fingir que o problema
está nos outros.
Talvez agora esteja se perguntando, então, tudo o que me
incomoda nos outros é minha sombra?
A resposta é sim e não. Sim, pois se isso te incomoda e afeta
descontroladamente é sombra. E não, se considerar que, além de
sua sombra, a pessoa pode ser realmente chata, arrogante ou
egoísta. Sua projeção sombria não exclui o fato da pessoa ter
realmente esse defeito.
O vizinho implicante, o sócio pilantra, o chefe grosseiro, a
sogra invasiva despertam em nós a ira pela nossa própria
implicância, pilantragem, grosseria e inconveniência. Isso não
diminui neles esses atributos, mas nosso olhar já está contaminado.
E, quando reconhece, pode fazer as pazes com o defeito
dos outros sem que isso te desequilibre. Eles continuaram
perturbando o outro, mas não a você.

4 – Alguém pode carregar a sombra por você

Existem pessoas que carregam nossa bagagem ruim.


Uma mulher bem-sucedida projeta a sombra do fracasso no
marido, e este carrega o insucesso dela ao ficar muito tempo
desempregado. Maridos explosivos jogam sua sombra em cima de
esposas submissas. Pais perfeccionistas jogam sua sombra de
inpacacidade em filhos problemáticos.
Por um tipo de amor desmedido, essas pessoas acabam
carregando o lixo dos outros, mesmo à custa de prejuízo pessoal.
Mas ser o bode expiatório não é consciente ou voluntário...
A chamada “ovelha negra” encarna o mal que a família não
quer encarar. É mais fácil ver uma pessoa problemática que

32
Por Que Fazemos o Mal?

perceber que toda uma família é doente. Muitas vezes a ovelha


negra é a pessoa que tem mais saúde e consegue carregar a podridão
de todos os membros. Normalmente. é essa pessoa problemática
que é encaminhada para terapia e ser “curada”.
Na sociedade. ocorre o mesmo com os criminosos e terroristas.
Quando vemos um crime na televisão nós ficamos indignados pelas
vítimas e acusamos os agressores. Inconscientemente. nos
tranqüilizamos que aquilo não aconteceu dentro de casa e que o
criminoso foi preso. Bem longe de nós. Ele carrega a sombra de uma
sociedade injusta, individualista e gananciosa.
O resultado é que ambos paralisam a evolução. Tanto aquele
que carrega a sombra não vê sua sombra como aquele que é poupado.
Enquanto o marido continua falando que sua esposa é uma
megera reclamona, ele mesmo não percebe o seu lado turrão e
insatisfeito. Ambos ficam estagnados!

5 – Renegar a sombra causa transtornos externos e


observáveis

O preço que se paga por essa negligência é catastrófico. A sombra


não agüenta desaforo, pois fatalmente retorna com força redobrada.
A sombra tem um efeito energético poderoso. Quanto mais
ignorada, mais ela acaba surgindo numa situação externa e
inesperada de forma destrutiva.
É a maneira que o inconsciente encontra de trazer à luz os conteúdos
sombrios. Uma perda de emprego obriga a pessoa a olhar para sua preguiça,
desonestidade e insubordinação. Uma quebra financeira obriga a olhar
para sua ganância, escassez ou desorganização. Um divórcio súbito obriga
a olhar para o egoísmo, a imaturidade e as mágoas.
A maior parte das pessoas ignora os sinais que a vida dá e
prefere culpar os acontecimentos externos.

33
Frederico Mattos

6 – A energia sombria pode ser usada a seu favor ou


contra você

A sombra tem uma energia intensa. Ela não é ruim em si,


mas é destrutiva enquanto está subutilizada.
Uma energia parada que consome esforço como se você
tentasse afundar um barril vazio no fundo do mar. Quanto maior a
força para baixo, maior a força que o barril faz para subir à superfície.
Essa energia bem canalizada gera frutos maravilhosos.
Quando mal conduzida vira um animal feroz e sedento que avança
nas suas costas.
Como alguém que é muito passivo e submisso e resolve
utilizar sua agressividade para tomar decisões importantes na vida.
Ou alguém que consegue usar a sombra da malandragem a
seu favor consegue se tornar um grande negociador e estrategista
e identificar prontamente quando alguém está querendo lhe pregar
uma peça, contar uma mentira ou trapacear.
Um exemplo excelente é o de Frank Abagnale Jr. que foi o
homem mais jovem procurado pelo FBI por estelionato e hoje,
depois de preso, se tornou uma agente do FBI especialista em fraudes.

7 – As sombras podem ser passadas de geração em


geração

A sombra é atemporal e, portanto, podem passar de geração


em geração.
É comum ver filhas de pai alcoólatras que se casam com
um homem com o mesmo problema.
Havia uma família onde as filhas tinham dificuldade em
manter relacionamentos longos e saudáveis.

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Por Que Fazemos o Mal?

A mãe das moças dizia “fique com esse homem como forma
de salvação”. Todas elas se uniam com rapazes problemáticos para
poder atender ao pedido da mãe. A mãe tinha sido vítima do mesmo
pedido de sua mãe, horas antes de falecer, para que se casasse com
aquele namorado (pai das meninas) como uma missão de salvá-lo.
Esse mandato de geração em geração causou muito desconforto e
infelicidade em nome de promessa sem sentido e irracional. Isso
acobertava uma grande sombra familiar: quando decidiu deixar o
noivo para casar com o avô da meninas, aquele morreu num acidente.
Você pode fazer essa análise em seu núcleo familiar, basta
observar quais são as histórias que se repetem na vida profissional
ou amorosa de seus pais, tios e avós e comparar com a sua.

8 – A sombra pode ser passada entre os povos ao


longo da história

Se a sombra é repassada entre famílias, acontece o mesmo


entre povos, clãs e tribos.
A sombra. além de individual, pode ser coletiva. São histórias que
ficam impregnadas ao longo de tempos. Um povo age como dominador
e explorador em uma época e, em outra, é vítima de outra nação.
Romanos, egípcios, judeus, muçulmanos, cristãos e tantos
outros já se alternaram em momentos de domínio ou submissão.
Os assuntos obscuros que não são resolvidos de maneira
consciente por um povo, em certa época, geram conflitos para as
próximas gerações que se sentem no direito de vingar a humilhação
da geração anterior.
O resultado disso é guerra, morte e uma disputa que segue
de tempos em tempos. Cada jovem guerrilheiro briga por uma
causa explícita e explicada, no entanto, morre por motivos
sombrios, dos quais não teve participação consciente.

35
Frederico Mattos

9 – Há pessoas que assumem as sombras coletivas,


matam e morrem em nome do mal

A humanidade elege de tempos em tempos pessoas que


servem como porta-vozes do Bem e do Mal.
A humanidade usa essas figuras de grande potência para
exaurir sua sombra de pureza e divindade ou seu sadismo e
sordidez. Ainda não entendemos que fazemos parte de uma teia
complexa de relações conscientes e inconscientes.
Aqueles que são considerados grandes vilões da história
como Caim, Calígula, Nero, Pilatos, Tomás de Torquemada, Benito
Mussolini, Adolf Hitler e, atualmente, Osama Bin Laden assumem
sombras coletivas sobre os ombros.
Acabam encarnando o mal do mundo com tal força que
aliviam a sombra da humanidade. Enquanto isso, o restante das
pessoas mantém a boa consciência, acreditando que nunca seriam
capazes de cometer tanta crueldade quanto os vilões que condenam.

10 – Sempre haverá sombra

Algumas pessoas acreditam que dedicando tempo suficiente


para acabar com todas as sombras elas desaparecerão.
A má notícia é que esse desejo de perfeição gera mais sombra. A
vida é incompleta por natureza, pois a evolução é constante e isso leva
a criação de aspectos ainda não integrados que podem virar sombra.
Lembram-se do jogo Tetris e de como as peças caiam
sequencialmente? Pois bem, a vida vai nos enviando peças para
encaixar em nosso coração. Na medida que o desespero toma conta
e tentamos encaixar todas as peças elas caem, se complicam e
criam espaços vazios.

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Por Que Fazemos o Mal?

O jogo é interminável. A diferença é que ficamos mais


conscientes, rápidos e experientes a cada novo desafio. Nas fases da
vida, cada conquista e perda natural acarretam um elemento imprevisto.
Portanto, não há como prever e antecipar todas sombras
sem caminhar adiante. A sombra precisa ser solucionada na prática,
é impossível antecipá-la intelectualmente.
Agarrar a sombra apenas como um conceito intelectual é como
o ouro dos tolos, parece ouro, mas é uma pirita sem grande valor.

11 – A sombra nem sempre é uma característica


negativa

Os temas que as algumas pessoas consideram como o lado


obscuro da realidade são raiva, sexo, depravações e tudo o que é
considerado repreensível na sociedade.
Porém, a sombra pode ter elementos como o amor e a
gentileza. Pessoas muito ranzinzas e amargas acobertam o seu amor
na sombra. Pessoas frias, também.
Isso se deve ao fato de que cada cultura tem suas leis morais.
Num grupo de mafiosos ou bandidos, a piedade fica na sombra e
por isso, quando se convertem a uma religião, passam a ser pessoas
exageradamente piedosas e rígidas.
A religiosidade pode estar na sombra de uma pessoa cética
que perdeu o contato com o elemento misterioso da vida.
Chamamos isso de ouro da sombra, ou seja, os elementos
divinos com os quais perdemos contato.

37
Frederico Mattos

12 – A sombra também está a seu favor.


Mas só a seu favor!

A sombra tem uma finalidade em seu psiquismo. A força


busca resultados imediatos, individuais e prazerosos. Quando mais
reprimida for a sombra mais autonomia ela adquire na mente, às
vezes assumindo um comportamento parasita e distinto da
personalidade. É como um verme instalado no corpo do
hospedeiro que age por conta própria a seu favor.
Esse “parasita” sombrio quer aquilo que você deseja, mas
não tem coragem e aprovação social para executar.
Por exemplo, uma nota de dinheiro cai do bolso de um estranho
na rua. A moral comum induz você pegar o dinheiro, correr atrás da
pessoa e devolver a nota. O pensamento sombrio seduz você a pegar
a nota e gastar com sua vontade. Se você negar esse impulso imediato,
acabará pegando a nota para devolver, mas perdendo o dono do
dinheiro de vista no meio de uma multidão. No final das contas, fez o
que sua sombra queria, mas que a princípio repudiou.
A sombra, como uma força autônoma, além de buscar aquilo
que você deseja e não tem coragem, ela também contém os
gérmens de sua evolução. Por ser uma parte renegada da mente
ela possui seus potenciais não desenvolvidos. Conduz a dimensões
profundas, inexploradas e sagradas da natureza humana.
Quantas pessoas não sofrem acidentes, perdas financeiras e
morte de familiares como um chamado à vida espiritualizada.
Uma pessoa percebe que tem impulsos altruístas e
humanitários, mas considera isso inútil e patético. No fundo, essa
sombra caridosa o ajudaria a ser mais humano. Mas sabe que para
seguir esse caminho terá que abrir mão do seu egoísmo e soberba.

38
Por Que Fazemos o Mal?

13 – Você pode ser engolido pela sombra

A sombra pode ser tão densa que a pessoa acaba sendo


pega numa peça do seu inconsciente.
Não queria ter dito algo no meio de uma briga, mas disse
com todas as letras e com gosto. Não queria ter feito (sombra)
mas fez, foi engolido pela sombra.
Isso acontece das formas mais inusitadas, de modo que a
própria pessoa não se dá conta da cilada que criou para si mesma.
Na década de 60 e 70, muitos jovens pelo mundo pregaram
a filosofia de paz e amor e se engajaram no movimento hippie.
Passados 40 anos que esse sonho revolucionário se apagou, muitos
daqueles jovens se tornaram empresários mercenários, presos ao
capitalismo que tanto criticavam.
A maneira como repudiaram o sistema, o dinheiro, a
instituição, a propriedade, a hierarquia voltou para alguns como
um bumerangue moral. O ditado popular diz que cuspiu no prato
que comeu, aqui eu diria que comeu no prato que cuspiu.
No momento em que são engolidas pela sombra é como se
tivessem sido “possuídas” por uma personalidade paralela que é
responsável por todo o trabalho sujo.
A pessoa usa a máscara e sente-se como se nada de anormal
tivesse acontecido. Como se tivesse duas memórias distintas. “Não
fui eu que disse aquilo no meio da briga!”, ou “normalmente, eu
não invadiria o computador do meu chefe para roubar aquelas
informações!”.
Algumas pessoas desenvolvem tamanha habilidade de sair
de sua máscara para assumir repentinamente sua sombra sórdida
e maldosa que causam grande surpresa e decepção quando são
descobertas por pessoas queridas.
Qualquer pessoa pode ser engolida pela sombra!

39
Frederico Mattos

14 – Os templos da sombra

Em todas as épocas da humanidade alguns lugares são


transformados em espaços para a sombra ser liberada sem
repressão. São os templos da sombra!
Um exemplo claro é o carnaval brasileiro em que, por alguns
dias, as pessoas se permitem fazer tudo o que desejam. Homens
se vestem de mulher, se abraçam nos salões e dão o direito de ter
relações extraconjugais.
Nos jogos de futebol, os homens machões se agarram na
comemoração do gol. Assim como a torcida que além da alegria
libera também o ressentimento, a frustração e o fracasso pessoal
nas torcidas inimigas e no juiz.
Os campos de guerra são templos propícios para exalar o
odor da morte provocada voluntariamente. O assassinato sob o
pretexto nacionalista de honrar à pátria.
As festas de criança são lugares extraordinários para a
liberação do lado criança.
As prisões, os hospícios, os asilos e os orfanatos – com
exceções – são verdadeiros templos onde todo tipo de crueldade
é abertamente cometida com adultos, idosos e crianças.
Baladas em que os jovens fazem tudo aquilo que os pais
proibiram. Bebem, se drogam, beijam e deixam a adrenalina
comandar o espetáculo de rebeldia.
O trânsito é o clima impessoal perfeito para despachar toda
a agressividade, revolta, egoísmo e má-educação sem ser
condenado.
As festas de final de ano são a oportunidade excelente para
as pessoas soltarem a sua sombra de amor e carinho reprimidos.
Aqueles que têm dificuldade em abraçar e demonstrar afeto durante
o ano acabam liberando suas emoções e choros contidos.

40
Por Que Fazemos o Mal?

Enfim, todas essas ocasiões e lugares facilitam a manifestação


das sombras de modo que ninguém vai ser acusado de louco.
Você pode estar se perguntando, essas ocasiões devem ser
incentivadas? O mais importante é que a humanidade sempre
encontrará meios de extravasar sua sombra, a menos que consiga
buscar um movimento consciente de integração.

15 – A sombra pode ser integrada

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.


A energia que está contida na sombra está à espera de ser
bem canalizada na vida cotidiana.
Ao invés de ser engolida pela sombra. a pessoa pode integrar
seu conteúdo.
É o processo gradual de lançar luz sobre tudo aquilo que
realmente incomoda.
Seria como a criança que tem medo do escuro e pega uma
lanterna acende dentro do armário e vê que só havia roupa.
A sombra é sempre menos terrível do que pensamos ser.
Quando olhar para o seu quarto da bagunça (ainda que seja
uma gaveta) verá ali muitas coisas que um dia julgou útil. Finalmente
decide fazer a faxina anual e vê que o objeto guardado pode ser
reciclado, reaproveitado ou organizado. Aquilo é usado a nosso favor
e começa a fazer parte de nossa vida doméstica-psíquica novamente.
Um paciente de quarenta anos vivia um conflito desde criança
com o pai. Seu ódio era imenso e, segundo ele, seu pai era um criminoso.
Havia negligenciado socorro à sua mãe quando ele tinha
quatro anos e, como conseqüência. ela faleceu vítima de uma
pneumonia. Ele dizia que seu pai era um covarde e medroso com
os médicos. Isso intrigou meu faro sombrio e pedi que investigasse
mais a história.

41
Frederico Mattos

Depois de algumas semanas ele trouxe a revelação. Sua mãe


tentou esconder uma gravidez do marido e fez um aborto. Como
resultado do aborto. escondeu a hemorragia até ser descoberta
pelo seu marido. O socorro foi tardio e a mãe faleceu.
Isso causou grave impacto sobre ele, pois toda a imagem da
mãe imaculada e do pai austero e negligente vieram abaixo. Mas,
isso também lhe trouxe uma esperança, de alguma maneira a
sombra familiar pôde vir à luz e esclarecer alguns impulsos
autodestrutivos que carregava.
Integrar a sombra é como reutilizar material orgânico do
lixo e fazer um adubo útil para as plantações.

16 – Lição não aprendida é lição repetida

Uma lei da sombra é que ainda que você finja que um problema
está resolvido na verdade ele está lá, aguardando por você.
Você pode tirar a conta bancária do vermelho mas se não
aprender a lidar com o dinheiro é provável que venha a cair
financeiramente. Isso se repetirá inúmeras vezes até que se perceba
que o dinheiro é ferramenta valiosa da evolução humana e social.
Enquanto a consciência não estiver completamente
esclarecida sobre aquilo que necessita progredir a lição se repete.
A sombra aumenta e surge em seguida com força redobrada.

17 – Você pode gastar sua sombra

Mas o que isso significa?


Existem algumas maneiras práticas para gastar a sombra.
Até aqui compreendemos que a sombra é uma força vulcânica.
Mas você não sabe que essa força pode ser extravasada de maneira segura.
É possível canalizar os sentimentos destrutivos em atividades inofensivas.

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Por Que Fazemos o Mal?

Por exemplo, um médico pode gastar sua arrogância no


momento em que precisa ser firme e transmitir autoridade ao
paciente. Ao invés de ser indelicado no momento do óbito, ele
pode ser firme ao convercer um paciente a aderir ao tratamento.
Em vez de você ficar disputando poder no casamento.
procure fazer um esporte competitivo para canalizar seu desejo
de ser melhor que os outros.
Comprar revistas de fofocas e falar mal dos artistas para evitar
a conversa maldosa sobre pessoas que você convive de verdade.
Participar de terapia de grupo dando bons conselhos para
gastar a mania de se intrometer e controlar a vida dos outros.
Cultuar a beleza frente ao espelho para não ficar se exibindo
e humilhando os outros.
Escrever suas raivas e mágoas num papel e depois picotar
ou queimar.
Fazer uma bagunça voluntária no próprio quarto para gastar
a desorganização, a rebeldia e o descontrole.
Eventualmente tirar um dia de folga no meio da semana
para dormir e para sentir o poder da preguiça.
Escrever contos eróticos para extravasar a tensão sexual.
Gastar a sombra é dar vazão a ela nos momentos “você com
você” para que não surja em momentos impróprios afetando os outros.

18 – Resta-nos uma salvação

Daqui pra frente você deve ceder aos seus impulsos


sombrios?
Jung dizia que é necessário uma certa atitude moral diante
da sombra.
Se a pessoa se identifica abertamente com seu lado traiçoeiro,
desonesto ou violento, e não se responsabiliza e nem olha para
dentro de si mesma, a luz não vem à tona.

43
Frederico Mattos

O conflito entre o que se quer (sombra) e o que se deveria fazer


(máscara) se soluciona no momento em que sou capaz de sustentar por
um bom tempo esse paradoxo (querer X dever) dentro de mim.
Esse amadurecimento faz a mente produzir algo realmente
criativo.
Deixar-se levar pelos impulsos que aparecem é ser engolido
pela sombra sem resultado, pois é só um instinto desenfreado.
Fazer dever traz resultados previsíveis e sem graça. Mas, da tensão
entre ambos, surge à luz da verdadeira consciência. A maior parte
de nós não está disposta a aguardar esse parto psicológico.
Como disse de início, preferimos manter a boa consciência
e o não-sofrimento ingênuo a ter que passar pelo fogo revitalizante
das paixões humanas.
Queremos aprender a lidar com as emoções de longe,
posicionados numa arquibancada. Bem distantes do espetáculo e
de preferência com grades entre nós e o show.
Já viu criança num filme de terror? Ela põe a mão no rosto
para não ver o filme, mas no fundo está de olho em cada lance.
Isso somos nós diante da sombra.
Não quero perceber que algumas atitudes ferem, maltratam,
agridem e prejudicam as pessoas que amo.
Como a mãe que priva os filhos de liberdade (e de respirar
emocionalmente) em nome de um amor protetor. Tanto ela como os
filhos vivem a ilusão de que não há um mal real (interno e nem externo).
A essência da tragédia grega foi o reconhecimento de que existem
forças dentro do indivíduo que levam a ações que causam dor.
Na medida em que você segue seu caminho carrega todos
aqueles que caminham contigo
Para fazer a sombra vir à luz, assuma a consciência dela e
deixe-se queimar por um tempo com o incômodo causado por
essa autodescoberta.

44
Por Que Fazemos o Mal?

Lembre-se que no caso de reconhecer uma sombra sua auto-


imagem de boa pessoa será manchada, seu histórico pessoal terá
cicatrizes. Mas sua consciência será mais ampla e você irá mais longe.

19 – O mundo pode se beneficiar da sua


consciência sombria

Na medida em que podemos individualmente cuidar de


nosso lixo mental sem projetá-lo ou manifestá-lo nos outros
estamos beneficiando o planeta.
O mesmo raciocínio ecológico que nos faz economizar luz,
reciclar o lixo, preservar a água e cuidar dos restos de alimentospode
ser aplicado à sombra.
Quanto mais você recicla a sua sombra fazendo dela um fermento
de realizações positivas mais poupará o mundo de sua toxina mental.
As energias que criarmos com a transformação interior do
contato com a sombra promoverá menos desastres no meio
ambiente mental do planeta Terra.

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A sombra no dia-a-dia

“Se nós não pudéssemos rir


das coisas que não fazem sentido,
nós não poderíamos reagir a muitas coisas da vida.”

Calvin
De Calvin e Haroldo,
criado por Bill Watterson

Talvez alguns exemplos práticos ajudem a esclarecer todas


essas questões.
Existem algumas maneiras pelas quais encontramos a nossa
sombra no dia-a-dia:

1. Em tiradas humorísticas como “piadas sujas” ou


brincadeiras tolas.

No momento das piadas você está autorizado socialmente


a zombar dos outros sem ser condenado. As piadas de português,
de negros, de judeus, de sogra, de homossexuais, enfim, são
maneiras socialmente aceitas de expressar nosso preconceito e
dificuldade com essas pessoas.
A cada piada que contamos estamos reforçando o
preconceito coletivo que projeta em determinado grupo a matéria
de sua sombra.
Uma tabela indicando quais sombras estão por trás das piadas
típicas (e do piadista) ajudará a compreender melhor o que estou dizendo.

46
Por Que Fazemos o Mal?

Tem a P r e c on c e ito s s o c ia is im p líc itos


P o rtu gu ê s B u rric e
L o ira b u rra D e se jo m a sc u lin o d e d o m in a ç ã o d e m u lh e re s
H o m o s s e xu a is D ific u ld fi
a d ie ic o(m d ej s e jo
d s h o m ol e ró
i tic) o s

S o g ra O s a sp e c to s d e s tru tiv o s d e no ssa s m ã e s


B ê ba dos P e sso a s q u e e sc a n c a ra m su a fra gilid a d e
“ Jo ã o z in h o ” A m a líc ia in fa n til
C o rn o s O m e d o d e s e r tra íd o
G aúc hos D e se jo h o m o e ró tic o s
Jud eu A vareza e a inve ja d e p e sso a s rica s
Jap o nês D ep reciaçã o d e p esso as intelige ntes
A d vo gad o s D esejo d e c o rrup ção e d e tira r va ntage m

Não deixe de contar piadas, mas saiba que elas representam


aspectos de sua sombra. O outro extremo das pessoas
excessivamente piadistas é daquelas sem nenhum senso de humor
e têm uma sombra altamente reprimida.

2. Coisas que achamos engraçadas, como alguém


escorregando numa casca de banana ou se referindo a
uma parte “proibida” do corpo.

O riso nos ajuda a aliviar algumas tensões cotidianas. A


brincadeira torna as situações amenas e não revelam nosso sadismo.
Por isso rimos dos vídeos de pessoas comuns tendo acidentes
domésticos, para gastar a sombra.

47
Frederico Mattos

3. Nos exageros em relação aos outros. “Eu


simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!”

Todo exagero revela sombra. Projetamos toda nossa


inconformação com nossos erros nos equívocos dos outros.
Aproveitamos as situações estrondosas para manifestar nossa sombra.
Adoramos cultivar os escândalos de vizinhos e celebridades.
Quanto maior e mais apimentada a história mais ficamos aguçados em
acusar, julgar e degenerar o outro a pretexto de comentar um assunto.

4. Nas chamadas de atenção que recebemos dos


outros: “Já é a terceira vez que você chega tarde sem
me avisar!”

Costumo brincar que a sombra está na nossa nuca, todos


vêem menos nós. Devemos ficar atentos com as opiniões das
pessoas que convivem conosco. Ao invés de alegar que estão
fazendo um complô para nos derrubar, seria prudente ouvir as
queixas sem ser refratário.
Certa vez recomendei a um paciente – dono de empresa –
que pedisse a seus funcionários que escrevessem anonimamente
sobre seus defeitos. O resultado foi muito positivo do ponto de
vista terapêutico, pois pudemos conversar sobre aquelas
características que mais se repetiam nas listas.
Com isso ele foi capaz de rever suas atitudes e encarar o que
estava resistindo ver há anos.

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Por Que Fazemos o Mal?

5. Quando repetimos as mesmas coisas com


diferentes pessoas. “Eu e fulano achamos que você
não está sendo justo conosco.”

Quando temos as mesmas atitudes com pessoas diferentes


se revelam nossas tendências e padrões de comportamento e
também a nossa sombra. Portanto, é fundamental estar aberto à
opinião dos outros para evoluir e integrar a sombra.

6. Nos nossos atos intempestivos e não-intencionais.


“Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!”

Durante as brigas somos tomados de uma força e dizemos


palavras duras e sem escrúpulo nenhum.
Revelamos o que não nos permitimos revelar quando
tranqüilos. Quando digo isso as pessoas rebatem indignadas, “mas
eu não penso realmente daquele jeito”.
Respondo dizendo que apesar dela achar a mãe a pessoa
mais amável no mundo também a acha insuportável e chata. É
parte do que pensamos, não o todo.

7. Pensamentos, sentimentos e energias intrusas que


persistem em nossa mente.

Todo tipo de força intrusa que sentimos em nós revela uma


natureza sombria que não quer ser vista ou integrada em nossa
personalidade.
Por exemplo, as pessoas que sofrem com o Transtorno
Obsessivo Compulsivo (TOC) são muitas vezes acometidas por
pensamentos repetitivos de que algo desastroso pode acontecer.

49
Frederico Mattos

Inconscientemente desejam que esse algo aconteça. Pensa


algo “impuro” e precisa fazer uma ação ou ter um pensamento
“puro” que limpe o anterior.

8. Através das traições, perdas, fraudes e sofrimentos a


que somos submetidos.

Já disse que a conseqüência de negligenciar a sombra causa


situações externas e observáveis.
Se você sofre uma traição amorosa isso é resultado de
sombras que deixou no caminho: negligência com o parceiro,
vontade de ser solteiro, fantasias de amor ideal.
As perdas denunciam nosso apego e o quanto estamos
amarrados a idéias, postos, lugares, objetos e pessoas.

9. Nas doenças que geramos.

As doenças podem ser símbolos de um desejo de expiação,


como se quisesse pagar por um crime que você acha que cometeu.
A doença pode ser uma mensagem do inconsciente de que
chegou a hora de colocar no lugar algo que estava fora de ordem. As
pessoas que adoecem têm a chance de analisar sua vida sob um outro
ponto de vista, acontecimentos que antes seriam invisíveis aos olhos.
As doenças revelam questões que vivem ocultas na mente.
Mágoas que não são vistas, perdas que causaram ressentimentos,
amores perdidos e tantas outras situações que recusamos encarar.
Analisar, portanto, o simbolismo das doenças ajuda a compreender
aquilo que foi negado e esquecido.

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Por Que Fazemos o Mal?

10. Numa pretensiosa compulsão de ajudar os outros.

A necessidade exagerada de ajudar os outros e ser servil


também esconde a sombra da culpa pelo egoísmo e a necessidade
de se sentir superior aos outros. Atrás da aparência de bondade
humilde está o desejo por reconhecimento.
Ajudam sem parar para criar uma necessidade nos outros,
serem importantes e requisitadas. Está sempre criando dependência
nos outros e gerando uma dívida de gratidão que a protege do
ataque dos outros. Portanto, a sombra dessas pessoas prestimosas
é do egoísmo e da vaidade. Inconscientemente usam a caridade
para ama(rra)r o próximo.

11. Na busca de prazer a todo custo e nas compulsões


com comida, sexo, compras, trabalho,
dinheiro e drogas.

Todo tipo de compulsão revela uma angústia sem limites.


Um vazio interior que precisa ser preenchido de forma exagerada
e repetitiva. É uma sombra de dor e desespero que precisa ser
colocada bem longe da consciência.
Os adictos temem sentir o mínimo de sofrimento e por isso
se entopem de comida, droga, trabalho, sexo, compras para
anestesiar o coração. E antes que a angústia se anuncie vem uma
nova dose de prazer para aplacar os sentimentos de dor.

51
Frederico Mattos

12. Na busca incessante por saúde e forma física,


dietas, medicamentos e longevidade a qualquer preço.

Toda procura desenfreada por qualidade de vida da


atualidade esconde um elemento sombrio: o medo crescente do
envelhecimento e da morte.
Os jovens e saudáveis são modelos da vida ideal, do corpo
malhado e auge do vigor sexual. Os rostos mais evidentes em comerciais,
filmes e novelas são expressos na pele jovem e sem rugas. O apelo
irresistível por uma vida livre, sexualmente hiperativa e emoções à flor
da pele escondem o pânico coletivo do anonimato e da vida sem
holofotes representados pela velhice, o cansaço e a morte solitária.

13. Em nossos pesadelos, devaneios e fantasias.

O mundo dos sonhos anuncia o que a mente consciente


resiste em revelar. Os desejos mais loucos e doentios acabam se
formando em pesadelos que causam desconforto no sonhador.
As imagens intrusas que perturbam a tela mental
desconcertam a pessoa para olhar na direção daquilo que evita.
Pessoas puritanas e caridosas que são invadidas por idéias e fantasias
agressivas, imorais e egocêntricas. É o inconsciente agindo e trazendo
à mente com toda a força o que é deixado no porão mental.

14. Nas pessoas que elegemos como bode expiatório


(filhos, cônjuges, pais, amigos e colegas de trabalho
problemáticos) de uma situação de conflito.

A figura carimbada por todos de uma família, repartição ou


grupo, de forma geral representa o depósito de lixo do grupo.

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Por Que Fazemos o Mal?

Existe até um esforço da pessoa em sair do papel de lerdo


da sala de aula, ou de problemático na família, ou funcionário
incompetente do mês da empresa. No entanto, a força sombria
do grupo oprime qualquer mudança, pois o palhaço precisa estar
no picadeiro para que a platéia continue rindo.

15. Nos xingamentos.

Certa vez ouvi que os xingamentos são formas de mantras que


espantam as energias ruins. No reino das sombras isso é real. É a
maneira mais usual e corriqueira de extravasar as nossas raivas e angústias.
Mas é só um paliativo para a necessidade de trazer a sombra à luz.

16. Nos comentários preconceituosos que fazemos


enquanto assistimos novelas, seriados e filmes.

Essa é a maneira mais comum de denunciar nossas


imperfeições sem perceber.
Na medida que fala do personagem que está na tela de
cinema ou de TV você não se compromete.
Pode rogar todas as pragas, destilar o veneno, amargor e
angústia sobre a imagem do bandido.
Toda sua capacidade de amar e se entregar é deixada ao
encargo da mocinha da novela. As pessoas com dificuldades
amorosas adoram assistir comédias românticas para se ver na tela.
A enorme vontade de agir e tomar decisões importantes é deixada
para que o mocinho viva a vida que você não tem coragem de viver.

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Frederico Mattos

17. Na hora da fofoca.

Naquele tempo reservado para comentar a vida alheia o mal


é exorcizado.
Esse momento mágico da fofoca confere um poder de vida
e morte ao fofoqueiro. Ele está sentado numa poltrona confortável
onde dá os veredictos (todos parciais, maldosos e contestáveis)
como verdades absolutas. Enquanto a mulher fofoca da vizinha
traída, seu marido está se encontrando com a amante. É a sombra.

18. Na curiosidade exagerada por celebridades.

As celebridades são o alvo principal de projeções coletivas.


Essa indústria mobiliza milhões em revistas, sites e programas de
TV especializados em perseguir pessoas célebres.
Todo o despudor e atitudes chocantes geram ondas
progressivas de comentários e julgamentos por todos. Se a atriz se
separa do marido querido do público será alvo de ataques e
condenações mil. Atacar a celebridade alivia o peso de tomar
decisões da vida real.

19. Nas generalizações como “nós homens temos o


instinto para traição”, “as mulheres são mais fracas.”

A linguagem auxilia a terceirizar nossa sombra. Na medida


em que falo “todas as pessoas” eu me escondo atrás do comentário
geral e caso seja repreendido por alguém me justifico dizendo que
aquela não é minha opinião.
Quando generalizo “todos devem estar...” na verdade estou
dizendo “eu devo estar”. Isso me compromete com aquilo que
digo e assumo o encargo e o peso de minha sombra.

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Por Que Fazemos o Mal?

20. Nas ironias feitas em situações sociais.

Há pessoas que adoram ironizar o comportamento alheio e


riem sozinhas de suas piadas. Aproveitam o humor para
ridicularizar e depreciar os outros. Agridem com sorriso nos lábios.
Alfinetam e depois fazem o curativo.
É o marido que brinca charmoso em um restaurante com
os amigos “se não fosse minha mulher lavar minhas cuecas o que
seria de mim?”. O riso geral afunda a esposa na cadeira. Fica clara
a posição de inferioridade da esposa frente o marido irônico,
debochado e destrutivo.

21. Nos comportamentos abusivos cometidos sob


efeito do álcool ou droga.

A fala típica “eu não tive controle do que fazia” ou “não me


lembro de nada do que fiz” oferece ao drogadicto uma das maiores
vantagens sociais conhecidas.
De fato, algumas pessoas sofrem bloqueio por uso abusivo
de substâncias que afeta o cérebro, a memória e o juízo de valores,
mas aquilo que é dito e feito denuncia o abusador.
Mas a bebedeira só revela a face oculta das pessoas.

22. Nos apelidos que os outros nos atribuem.

Os apelidos são nomes sombrios com toque de carinho.


Pessoas obesas que são chamadas por Carlinhos ou um
baixinho chamado de Carlão. Um homem negro chamado de
alemão. Um apelido jocoso só “pega” quando toca a sua sombra.
Se o nome não te incomoda de verdade não gruda.

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Frederico Mattos

23. Nos programas de terror ou humor bizarro.

É possível gastar a sombra de desastre, violência e fúria no


gosto por filmes de terror.
Pessoas que tem uma repressão muito forte se sentem
exageradamente mal diante desse gênero cinematográfico.
O humor bizarro no estilo das “cacetadas” também ajuda a
gastar inofensivamente o sadismo. Pessoas que acham isso
extremamente sem graça lidam mal com seu sadismo.

24. Nos momentos tórridos de paixão.

A sombra também vale para aqueles momentos de entrega


amorosa onde as promessas mais irreais são feitas.
Mas porque algo tão bonito seria sombra? Nem todo mundo
se sente à vontade em declarar amor por achar uma demonstração
de fraqueza. Então só dizem “quero passar a vida inteira do seu
lado” sob efeito da paixão.

25. Na admiração exagerada a alguém.

O ouro da sombra são aquelas capacidades positivas que


perdemos contato.
Admirar alguém é sinal de saúde psicológica, pois expressa
gratidão, vontade de evolução e reconhecimento dos outros. Mas,
idolatria e idealização é sinal de projeção sombria, pois você coloca
na imagem de alguém as virtudes que não tem coragem de
demonstrar.
Toda força de realização que poderia utilizar para seus
projetos fica projetada nos ídolos que realizam tudo em seu lugar.

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Por Que Fazemos o Mal?

26. Nos contratempos que a vida traz.

Os contratempos podem ser sinalizadores de um freio


inconsciente da sombra que sabota suas ações.
Por exemplo, um homem pode estar prestes a obter uma
promoção ilícita que foi conquistada à base de mentiras e
conchavos. Inesperadamente a pessoa que ia ceder a vaga resolve
permanecer por mais cinco anos na empresa.

27. Nas hipérboles que dizemos como “nunca vou


fazer tal coisa”, “ninguém faria isso comigo.”

Todo radicalismo esconde uma sombra.


“Nunca” é uma palavra que leva o tempo ao infinito. O que seria
nunca? Onde se mede isso?
O peso da afirmação revela uma polaridade interna. Pois, se
“nunca” fosse fazer tal coisa eu não precisaria ser tão enfático. O exagero
é uma forma de se convercer a não cair em contradição no futuro.

28. Nos medos.

Atrás do medo existe um desejo sombrio de ele se concretize


para confirmar a catástrofe.
O medo que a mãe morra pode esconder um desejo de
libertação da relação sufocante. O medo da traição revela um
desejo de solidão. O medo da morte traz um desejo por
autodestruição. Quando mais foco você coloca no medo maior a
chance de ele se concretizar.

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Frederico Mattos

29. Nas justificativas.

“Não leve a mal o que eu disse, é brincadeira”. Se não queria


dizer não diga. Ficar se explicando muito denuncia o desejo secreto
que a afirmação escondia.

30. No corpo.

Os nossos gestos nos entregam. Quantas vezes você já falou


SIM e balançou a cabeça como NÃO.
Você diz que está adorando um lugar, mas a postura mostra
que seu pé está correndo para fora.
A primeira impressão também revela a sombra. É comum
o comentrário “quando te conheci achei que você era tão metido,
mas depois de te conhecer vi que não era nada disso”. Pode
esperar, em algum momento esse lado metido sombrio vai
reaparecer com força total!

31. No mundo virtual.

O mundo atual oferece um espaço para a manifestação das


sombras. Muitas pessoas mergulham numa vida paralela com o
recursos como bate-papos, encontros virtuais, simuladores de vida
e personalidade.
Cada pessoa pinta na internet aquilo que sente que falta na
vida real. Alguns são mais falantes, interessantes, sexys e charmosos
diante do teclado, outros são mais impositivos, bravos e
dominadores.
Sejam aspectos positivos ou negativos as pessoas acabam
manifestando aquilo que está debaixo da máscara.

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Sobre a mente criminosa

“Se a cólera que espuma a dor que mora


n’alma e destrói cada ilusão que nasce;
tudo o que punge, tudo o que devora
o coração, nos rosto se estampasse;
se se pudesse o espírito que chora
ver através da máscara da face,
quanta gente talvez que inveja agora
nos causa, então, piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez consigo,
guarda um atroz, recôndito inimigo,
como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez, existe,


cuja ventura única consiste
em parecer aos outros venturosa!”

Raimundo Correia, poeta maranhense,


em Mal Secreto

O noticiário policial leva para a sua casa um retrato


assustador. A maldade ronda solta perto de você.
O jornal anuncia “Marido assassina esposa com um tiro”.
Você demora alguns segundos até se mexer, olha para o seu marido
sentado à mesa fazendo contas. Respira fundo e pensa “ele nunca
seria capaz”. Troca de canal, chacoalha a cabeça e tenta esquecer
o que acabou de ver.
Mas não sai da sua cabeça o que levou aquele homem a
matar a mulher e o que ela teria feito para merecer aquilo. Cada
um vai tentar se colocar no lugar da vítima e familiares. Alguns

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Frederico Mattos

poucos tentam imaginar como seria o lugar do agressor.


Esse distanciamento frio diante do assassino tem alguma
validade. Você não quer se misturar na monstruosidade dele. Nem
sequer pensar até onde você iria. Mas a verdade é que os assassinos
estão por aí, à solta e à espreita de uma vítima.
Alguns destes se enquadram no quadro de psicopatas que
vemos raramente no jornal e, freqüentemente, em filmes.
Diferente daqueles que cometem crimes passionais por
serem traídos, os psicopatas são frios e não têm motivos claros, a
não ser o desejo de matar. Premeditam, calculam, examinam as
melhores condições e executam a vítima.
Elegem segundo seu gosto e tara, são violentos até na sutileza
dos golpes mais cirúrgicos. O mal assume o comando e agem
compelidos pelo desejo de matar.
Desalmados? Monstruosos? Desumanos?
Imaginar que os criminosos são monstros, e não humanos,
talvez dê a você uma sensação tranqüila de que há uma distância
segura entre vocês.
Mas é impossível negar que ele está por aí, bem perto.
Quando um crime doméstico aparece na televisão o susto
que você toma é: “meu Deus, poderia ser o meu vizinho, meu
filho... Eu mesmo?”
Ninguém está livre de cometer o mal.
O criminoso é uma pessoa como você e eu, que possui
impulsos comuns a todas as pessoas
Faça uma experiência, olhe para si mesmo no espelho num
momento de fúria doméstica.
Verá a sua face raivosa explodindo em cores brilhantes no
olhar de ódio. Mesmo por alguns segundos verá certo prazer
experimentado pela cólera. Você poderá ver pelos olhos do mal.
Aquela vileza capaz de lançar uma bomba contra uma nação, aviões

60
Por Que Fazemos o Mal?

contra grandes prédios, pessoas em uma câmara de gás e mulheres


numa fogueira santa.
Estamos todos conectados nessa aliança maligna.
Por que somos monstruosos? Porque somos humanos.
Por que agimos como psicopatas? Não. Somos capazes do
mesmo bem e do mesmo mal que qualquer santo ou bandido.
Céu e inferno estão dentro de nós.
Metaforicamente anjos e demônios convivendo na mesma
sala de estar. Deus e o diabo tramando suas ações na mesma mesa
de negociação do inconsciente.
Não há uma linha divisória precisa entre o bem e o mal. Por
isso você, eu e o criminoso estamos todos comprometidos.
Há um preço alto a ser pago se você quer compreender por
que fazemos o mal.
O seu bom comportamento não impede que seja pego num
momento de fúria assassina.
Quanto mais autocontrole você pensa que tem mais impulsos
estará reprimindo e deixando fora da consciência.
E quando mais longe da consciência, maior é a sombra e
mais vulnerável você está a deflagrar o mal!
O mal que gostaria de ver bem longe, só na TV, pode estar
mais perto do que pensava!

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Alerta importante – sobre a culpa

“Desculpa é pior do que culpa,


pois a desculpa vicia e nunca a si assume”

Elanklever

Se até esse ponto do livro você ainda está se justificando ou


se explicando a cada linha pelas suas atitudes, sugiro que relaxe,
você não está sendo acusado!
No mínimo você dirá “eu nunca faria isso” ou “nossa! Fulano
precisaria ler isso, é a cara dele” ou “será que ele não está exagerando
nesse negócio de sombra?” ou o mais comum de todos “mas eu fiz
aquilo com a melhor das intenções, não sabia que era errado!”.
No mergulho com a sombra qualquer posutra defesniva ou
moralista paralisa sua evolução. A pessoa que se considera vítima
e passiva de circunstâncias externas dificilmente será madura.
Se você se sente uma vítima, nada pode ser feito. Se for uma
pessoa brava é porque tiram você do sério. Se for passivo, porque
ninguém te dá chance. Se for azarado é porque ninguém reconheceu
o seu potencial. Se for sozinho é porque não encontrou ninguém
que presta. É pobre porque o dinheiro sempre fugiu do bolso.
A vítima é sempre vítima. Ela quer encontrar culpados, pois
seu prazer é lamentar.
E o preço disso é a impotência frente os problemas.
O benefício de encarar o demônio interior é conquistar força
ao enfrentar a correnteza da vida.
Está caçando um culpado no qual despeje seu fardo de dor.
Algumas frases típicas de vítima são: “Os outros me prejudicam, por
isso agi sem pensar”, “nunca ataco antes de ser atacado, só me defendo”.
A vítima sempre tem um jeitinho de sair ilesa.

62
Por Que Fazemos o Mal?

Se a pegam cometendo erros cai numa autoacusação sem


fim. “Sim, fui eu, eu não valho nada, sou errado mesmo, eu nunca
vou me perdoar pelo que fiz”.
Essa maneira de proteger a si mesma não dura para sempre,
o peso da culpa será inevitável. As pessoas que se culpam por
tudo estão de mãos dadas com a sombra, aliás, estão engolidas
pela sombra. Por melhor que sejam as intenções da culpa, a
autoacusação camufla o problema real. A promessa “eu vou
melhorar” só empurra a dificuldade para frente.
A pessoa comete o mal, se culpa, promete mudanças, mas
seu impulso sombrio a leva a cometer o mesmo mal, pois a duração
da culpa é pequena e passa. Vive no ciclo mal-culpa-redenção-
mal. A culpa alivia e adia a verdadeira dor da transformação que é
atributo da verdadeira consciência moral.
O desejo imediato da vítima culpada é querer se retratar
frente o agredido, para que se livre imediatamente do peso.
Há uma grande diferença entre sentir culpa e assumir
a culpa.
Quando você se sente culpado sua fala é cheia de
lamentação e vitimosidade. Você quer fazer a roda da vida girar
para trás e começa a condenar moralmente uma atitude tomada
há muito tempo. E julgar-se moralmente pelo passado é uma forma
de enlouquecer, pois voltar no tempo é impossível. E essa
prepotência pode fazer sua vida paralisar por muitos anos.
Mas quando você assume a culpa e percebe a seriedade do
prejuízo, a culpa cede lugar a uma consternação silenciosa. E esse
sentimento é realmente curativo.
Depois do mal cometido é preciso que a dor e não a culpa
tenha lugar no seu coração. A culpa busca explicações racionais e
justificativas para amenizar o problema. Mas explicar o mal
cometido é uma forma de querer minimizar o prejuízo e
desrespeitar quem foi prejudicado.

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Frederico Mattos

É como uma mãe que acabou de esbofetear o rosto da filha


e logo em seguida exige perdão. Seria demais para a criança, fazer
isso, pois além de apanhar, ainda tem que desculpar a mãe. Mas
por amor a mãe acaba se sobrecarregando.
A pessoa madura sustenta conscientemente a dor do mal
cometido. É madura o suficiente para suportar o peso das
conseqüências. Não tem pretensões de se retratar imediatamente.
E por isso não paralisa, se transforma e encara o problema.
Sabe o tamanho do dano que causou e isso não a diminui, a
dignifica e torna grande. Segue sua vida com mais consistência,
como alguém que viveu algo significativo. Aceita um destino difícil
em função do que fez.
Um homem tem uma relação fora do casamento e engravida
a outra mulher. Se for uma vítima, fugirá, mentirá para a esposa e
a mãe do futuro filho. Depois ficará anos não se perdoando pelo
que fez. Passará anos chorando, lamentando e se ausentando do
casamento e até impondo a si mesmo castigos como fracassar em
tudo o que faz.
Se for maduro irá assumir o que aconteceu, mesmo sob o
risco de seu casamento chegar ao fim. Assumirá a criança que
nasceu e ainda que não fique casado com a mãe do filho dará
respaldo ao que aconteceu. O protagonista assume o mal cometido
com uma coragem incomum, absorve o significado de tudo que
aconteceu e age de forma íntegra.
A pessoa que quer encarar a sombra se modifica frente
alguém que foi prejudicado. Constrói pontes com as pedras do
caminho. Deixará a ferida cauterizada doer até o momento
adequado. Então estará pronta para seguir em frente, sem
lamentação, com força e dignidade.
Portanto, se você está disposto a ser protagonista e maduro,
prossiga, a evolução está ao seu alcance!

64
Sobre os sentimentos

“Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem


nada de bondade e sem nada de maldade.”

Friedrich Nietzsche,
filósofo alemão

É muito curiosa a maneira que lidamos com os nossos


sentimentos. A cultura ocidental tem nos domesticado a tratar os
sentimentos como algo inferior e que atrapalha nossos objetivos
profissionais e pessoais.
“Não chore na frente dos outros”, “nunca diga o que você
realmente está sentindo, pois senão ele vai te deixar”, “não
demonstre fraqueza no seu trabalho”, “se você mostrar o que está
sentindo vão se aproveitar de você”. Essas frases tão comuns são
ditas, pensadas e executadas inúmeras vezes durante o dia. Já são
crenças generalizadas que todos concordam.
As pessoas racionais, frias, insensíveis e até tiranas são o
modelo de conduta profissional. Mas o excesso de trabalho acaba
extendendo esse comportamento para a vida pessoal.
Qualquer sinal de sua vida emocional passa a ser visto como
algo perigoso, danoso e potencialmente desastroso.
Quantas vezes você já ouviu alguém dizer “não vou nem
dizer isso que sinto porque pode virar verdade” ou “é melhor nem
pensar nisso, vai que acontece”. Temos medo de sentir emoções
por correr o risco que elas se materializem.
Os sentimentos fazem parte de uma realidade fundamental
do nosso psiquismo. Sem os sentimentos seria como viver numa
casa sem portas e janelas, longe do contato com o mundo. As
emoções trazem o colorido da realidade que precisamos para reagir

65
Frederico Mattos

humanamente a cada acontecimento. A ausência de sentimentos


nos faria incapazes de interagir com outras pessoas adequadamente.
Os mesmos sentimentos presentes num assassinato, traição,
ato egoísta, relacionamento interesseiro estão presentes num gesto
de carinho, num sorriso alegre, no olhar entusiasmado e numa
declaração apaixonada.
Se você bloqueia o canal das emoções para evitar a dor
existente nesse mundo fechará a mesma porta onde passa a
felicidade. A dor da perda só existe porque houve amor; a da
saudade só é possível porque houve o relacionamento; a do adeus
pois houve o encontro.
Bloquear a dor é fechar os olhos para uma parte essencial
da sua alma. Fechar-se para os sentimentos, portanto, é morrer
um pouco a cada dia da sua vida.
Os sentimentos são amigos leais nas situações de ameaça,
pois é o medo que você sente que o permite fugir do perigo. A raiva
que faz você reagir diante uma humilhação vai preservar que sua
integridade se despedace. Cada sentimento é um sinal de movimento
interno que garante sua evolução. O tédio e o vazio que você sente
anunciam que você está fechado para aprender coisas novas.
Você talvez tenha medo de sentir o sentimento porque
intuitivamente sabe que lá no fundo guarda uma dor terrível. Sente
que se abandonar essa casca de racionalidade e dureza vai ser vítima
desse sofrimento insuportável.
Garanto a você que a vida puramente racional que tem
tentado levar é muito mais amarga do que a dor que tenta proteger.
Quando você pemite que uma dor antiga tenha lugar no seu
coração algo se modifica radicalmente. A sensação de terror inicial
é substituída por um alívio nunca antes imaginado.
Estar aberto para a vida e seus sentimentos irá libertar
lentamente as sombras que você mais teme. Mas também para a
felicidade mais radiante ao seu alcance...

66
Por que eu nunca tenho sucesso?

“Do sofrimento emergem as almas mais fortes.


Os personagens mais impressionantes estão coalhados de cicatrizes.”
Kalhil Gibran, poeta árabe

Em muitos momentos de sua vida já deve ter feito essa


pergunta: por que eu estou perto de conseguir o que queria e tudo
dá errado?
Estava prestes a conseguir a promoção e tudo fica na estaca
zero. Ia ficar com o amor da sua vida e de repente surge um ex
que atrapalha os planos. As malas estavam prontas para mudar de
casa e a documentação começa a dar problemas.
É a sombra!
Mas como uma coisa que eu não vejo pode me prejudicar?
É simples, ela está dentro de você e tem acesso a coisas que
você tem deixado de lado há muito tempo.
Talvez você não se lembre que sempre criticou seu chefe
por ser autoritário, arrogante e cruel. Na hora de você chegar à
chefia terá que enfrentar dentro de você as críticas que tinha feito.
Pois se seu moralismo entrar em ação você não vai progredir por
medo de sucumbir ao autoritarismo e crueldade.
No caso amoroso você não conseguiu tratar de todas as
mágoas com um ex-relacionamento. Fingiu que tudo passou e que
se tornou outra pessoa. Investe em outra pessoa. “Do nada” surge
aquela pessoa com quem tinha pendências e você fica abalado e
dividido entre o amor antigo machucado e a esperança de um
novo amor.
Na história da mudança da casa tudo corria bem. No entanto,
você fez questão de esquecer que aquela casa foi fruto de uma
herança e que você não fez a partilha honestamente.

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Frederico Mattos

Inconscientemente você vai paralisar o trâmite da documentação


para que não venha a se tornar uma pessoa desonesta.
Talvez, você não tenha sucesso no amor, nos negócios e na
vida porque não olhou para histórias incômodas, perturbadoras e
que abalaram seus princípios morais.
Se você acha que as pessoas ricas são prepotentes como
terá sucesso financeiro? Se condena os políticos corruptos como
irá assumir posições que exerça o poder? Se acha os casais
apaixonados bobos e iludidos como irá se entregar para um
verdadeiro amor? Se acredita que os familiares são sugadores como
irá ter paz na sua casa?
Faça uma retrospectiva e veja quais eram suas idéias sobre
os assuntos que hoje te perturbam.
Se o seu problema é financeiro, tente se lembrar das idéias
ruins que passavam a respeito do dinheiro. Se o problema é
amoroso, force a memória em relação aos ex-relacionamentos e
veja as promessas que fez, as “pragas” que rogou e os
comportamentos que você condenou. Se o problema é familiar,
pense na maneira que você tratou os seus pais, como trata o parceiro
e como trata os filhos e veja as semelhanças dos problemas.
Enquanto você não recicla os seus sentimentos, sensações
e crenças colocadas na sombra, a vida irá repetir os fatos até que
consiga dar uma nova resposta.
Talvez você descubra que é tão arrogante quanto aquele
rico que você condenou, por se achar melhor que ele. Pode ser
que perceba que errou com o ex da mesma forma que aconteceu
com você. Sem querer repete com os filhos os mesmos
comportamentos problemáticos dos quais se queixava nos pais.
O mundo dá voltas. E, na hora que você assume a sua
sombra, o sentimento de não merecimento que impedia seu sucesso
desaparece. A partir daí você fica com o coração aberto e livre
para assumir o sucesso que tanto deseja para sua vida.

68
Sombras em casal

“Fantasias abandonadas pela razão


produzem monstros impossíveis.”

Francisco Goya, pintor espanhol


O relacionamento amoroso é um dos pratos preferido para
que a sombra se manifeste.
O amor coloca você numa situação de extrema
vulnerabilidade, pois faz depender de outra pessoa para se sentir
completo e feliz. Você pode imaginar que o resultado disso é muita
briga, disputa, possessividade, mágoa e separação.
Nenhuma relação amorosa começa numa página em branco.
Você já traz na bagagem o exemplo de relacionamento dos seus
pais. Se eles aparentavam felicidade você se sente obrigado a fazer
o mesmo. E se foram infelizes também. É inconsciente, pois em
sã consciência você jamais iria imitar alguém que caiu no abismo.
Mas, do ponto de vista amoroso é o que mais acontece.
Nos primeiros relacionamentos você está mais fragilizado
pela inexperiência, ingenuidade e ansiedade. Ali é o cenário ideal
para os primeiros desastres amorosos que poderá carregar para
uma vida inteira.
Homens e mulheres nunca foram habilidosos na arte do
amor, um quer liberdade e a outra aconchego. Por que isso seria
diferente entre homens e mulheres jovens e cheios de hormônios?
As possibilidades do seu primeiro relacionamento amoroso
ter acabado mal são altas. Depois disso, a chance de você se fechar
para um novo relacionamento é maior. Dificilmente você se
entregaria da mesma forma num segundo namoro como se
entregou no primeiro.

69
Frederico Mattos

A sombra começa a ser criada nesse momento. É a soma


das sombras de seus pais e das suas primeiras desilusões amorosas.
“O amor não existe”, “isso não é pra mim”, “preciso sofrer
muito antes de encontrar o verdadeiro amor”, “homens e mulheres
são incompatíveis”, “garanta o seu homem e pare de se queixar”,
“um dia vou encontrar o amor perfeito”...
Tantas frases, muitas crenças e inúmeras sombras amorosas.
Os relacionamentos estão recheados disso.
O maior medo de um casal na atualidade é de perder
a individualidade. Antigamente, era comum a mulher abrir mão
de sua individualidade para seguir o seu marido. Hoje, o assunto é
bem diferente.
Mulheres e homens têm o mesmo desejo de autonomia,
sucesso profissional e destaque social. No entanto, esse movimento
vem na contramão de séculos de condicionamento amoroso. A
maior parte das pessoas não sabe o que fazer para conquistar o
seu par ideal e muito menos mantê-lo.
A paixão é o primeiro estágio de manifestação da sombra.
Tudo que você nega ou negligencia é projetado na pessoa amada.
Projeto todo o desejo de felicidade em cima do outro com a
esperança de não ser magoado.
Você encontra seu namorado e está meio carente. Se, por
descuido, ele não percebe que você não está nos melhores dias o
resultado é desastroso. Você o acusará de insensível e frio e toda a
sua frustração pelas inúmeras situações de rejeição que já passou
são despejadas sobre o rapaz. Briga na certa!
Se um homem com forte instinto paternal se une a uma
mulher mimada e exigente podem se completar durante algum
tempo. A longo prazo, ela se tornará infantil e fria sexualmente e
ele frio e distante. Pois, no fundo, uma relação amorosa não
comporta um amor paternal. As pendências com os pais devem
ser resolvidas com eles e não na relação amorosa.

70
Por Que Fazemos o Mal?

Cheguei numa conclusão diante tantos relatos semelhantes.


As pessoas se separam porque não conseguem mais carregar a
sombra do parceiro. Enquanto havia uma vantagem nessa troca
de projeções na qual você se sentia bem em proteger uma pessoa
frágil tudo bem. No momento que você começa a carregar a
sombra de outros relacionamentos e da história dos pais do
parceiro, fica mais difícil.
Passada a fase inicial da paixão as projeções positivas não
correspondidas dão lugar às projeções destrutivas. Cada atitude é
vista com desprezo justificado pelas mágoas sucessivas. Agora
ninguém é algoz, todos são vítimas vingadoras.
Há casos (raros) em que a maturidade emocional de ambos
leva a um divórcio pacífico. Mas, de maneira geral, os divórcios
mal resolvidos denunciam sombras não reconhecidas.
Um jovem senhor estava com problemas sérios na justiça
quanto ao divórcio. O casamento conturbado perdurou até cinco
anos depois da separação, já que ela não abria mão dos bens.
Durante a terapia, ele reconheceu que queria terminar o casamento
sustentando a imagem do bom homem injustiçado pela mulher
descontrolada. Eu disse a ele que se quisesse continuar mantendo
essa imagem pagaria o preço de mais alguns anos de litígio. Diante
dessa afirmação, ele reconheceu que fazia a ex-esposa carregar
sua sombra de descontrole enquanto ele posava de homem
equilibrado. Sem nenhuma palavra, na semana seguinte, ela parou
de brigar na justiça e eles se divorciaram.
É no relacionamento amoroso que exercitamos a nossa
maturidade emocional. Não é de se estranhar que é também onde
nossas infantilidades afloram.
Os opostos se atraem?
Não há resposta precisa. Mas, de forma geral, a pessoa certa
é aquela que tenha sombras que você pode suportar. Como
isso não é nítido a olho nu, só irá descobrir no convívio.

71
Frederico Mattos

A sombra não é motivo de vergonha ou condenação. Nessa


altura da leitura, eu espero que você já tenha alguma simpatia pelas
suas sombras. Todos terão sombras. É impossível escolher alguém
que não tenha. Mas deve ser uma sombra que você tenha
consciência que suportará conviver.
Certa vez, um homem veio para atendimento intimidado
pela esposa. Ele realmente era um homem com pouco consciência
emocional. Ela se queixava que ele era distraído, não-participativo
e pouco caloroso. E, na medida que a terapia trouxe mais clareza
de seus problemas conjugais, ela ficou incomodada. O homem
percebeu que sua desatenção encobria muitos comportamentos
manipuladores da mulher em relação ao dinheiro. Quando ele
cutucou sua sombra, revelou a dela de manipuladora.
O sucesso amoroso depende de três fatores.
O primeiro, resolva o problema com seus pais. Na verdade,
a imagem que você guarda deles dentro de você independente de
estarem vivos ou mortos.
Segundo, honre e respeite seus relacionamentos passados.
Pois cada pessoa que passou pela sua vida fez você tomar mais
consciência de quem você é. Eles foram, ente outras coisas,
portadores de suas sombras. Agradeça o pesado e trabalhoso favor
que fizeram. Essa é a melhor maneira de higienizar sua cabeça
para um novo relacionamento. Caso contrário corre o risco de
permanecer solteira ou num casamento ruim.
Terceiro, sustente sua capacidade de conviver
harmoniosamente com as suas sombras e com as do parceiro. Sem
isso, é impossível conviver a dois por muito tempo. Bom humor,
flexibilidade e leveza sempre são bons amigos de um
relacionamento que funciona.
Vale a pena tentar? Tenho certeza que ainda vale.
Sempre vale a pena!

72
Sombras familiares

“Nada é mais fácil do que censurar um malfeitor.


Nada mais difícil do que entendê-lo.”

Fiodor Dostoievsky,
escritor russo

Imagine um berçário em que as crianças pequenas são


cuidadas por outras um pouquinho mais velhas. A isso damos o
nome de família. Crianças cuidando de crianças.
Com essa imagem você não se surpreende mais com
nenhuma notícia de violência dentro de uma família.
A velha imagem que venderam para você é falsa. Pais
responsáveis e cheios de amor cuidando com zelo e delicadamente
de crianças dóceis com bochechas rosadas.
Os pais são crianças crescidas tentando suportar o peso da
vida. E para tornar esse peso menor resolvem ter filhos. Para não
falar dos casos (grande parte) que, enquanto brincavam de médico
com a namoradinha, esqueceram que ela podia engravidar.
Você provavelmente acredita que seus pais deveriam ser mais
maduros e amorosos do que você. Como você sempre foi muito
pequeno e eles eram enormes, acreditou durante anos que eles
teriam a obrigação de serem mais sábios que você. No entanto,
eles são humanos com limitações humanas.
O passar do tempo pode trazer abertura de consciência ou
bloqueio. E seus pais não fogem à regra. São crianças que
cresceram, assim como você.
Seus pais – de quem você esperou amor exclusivo e
incondicional – estavam presos nas suas próprias histórias. O
resultado é que pais pouco disponíveis emocionalmente não
conseguirão educar os filhos plenamente.

73
Frederico Mattos

Toda a criança merece o máximo de amor possível, pois ela


está cheia de amor também. Mas os pais normalmente estão presos
nas suas próprias teias do passado.
As mágoas, medos, traumas da infância dos pais são revividas na
paternidade. Todo o sentimento de abandono, rejeição, raiva, angústia e
tristeza são reavivados com o nascimento e crescimento de um filho.
E tem mais um complicador, a sombra do homem e sua
família acrescida da sombra da mulher e sua família que já se
manifestavam no relacionamento de casal são transferidas para a
próxima geração.
Se o casal já não se entendia completamente com dinheiro,
casa, carreira, sexo, convívio e contas a pagar, não seria uma
surpresa que um filho causasse mais transtorno.
É curioso como o nascimento de uma criança faz “milagres”.
Os nove meses de gestação mais o primeiro ano de vida da criança
viram uma trégua para os conflitos do casal. Mas será que é uma
trégua ou a massa do pão (sombrio) foi colocado para descansar e
aumentar de tamanho com o fermento?
Dilma engravidou muito cedo. Não se sentia pronta para receber uma
criança quando estava no segundo ano de faculdade. O pai da criança
desapareceu quando soube da gravidez.
Como sua mãe pressionou para que desse à luz, Dilma deu seguimento
à gravidez mesmo se sentindo contrariada. Seu filho nasceu e o incômodo com
a criança foi encoberto, mas crescente.
Quando seu filho estava com quatro anos Dilma quase não conseguia
olhar para ele. Era agressiva, negligente e delegava à sua mãe, avó da criança,
o papel de mãe. Por outro lado, seu coração não estava satisfeito, pois gostava
da criança, apesar de tudo.
O problema de Dilma era simples, ela não podia confessar a
ninguém sua raiva pelo nascimento do bebê. Quando isso veio à tona
na terapia, o rosto de Dilma se transfigurou, aquele abatimento deu
lugar a um ódio que se transformou em tristeza e depois em amor.

74
Por Que Fazemos o Mal?

A criança lembrava Dilma do namorado que desapareceu,


do sentimento de solidão e abandono e dos planos que interrompeu
para cuidar da criança. Ela fez um acordo interno, teria tempo
para seu filho, outro para cuidar de si mesma e retomar seus estudos
e um pouco para namorar.
Lentamente sua vida entrou nos eixos quando pôde
reconhecer todas essas sombras que pairavam no seu inconsciente.
No entanto, esse caso poderia se transformar em algum fato do
noticiário policial.
A sombra dessa situação entre pai,mãe e filho poderia ter
criado um cenário de horror. Depois de anos de hostilidade velada
ou declarada, essa mãe poderia expor o filho inconsciente a algum
acidente ou agressão. Ou essa criança poderia cometer uma
agressão contra a mãe após anos de tortura psicológica e física.
Poderia ter usado drogas como forma de expressar todo o amargor
e falta de carinho. São tantas as probabilidades que corremos o
risco de cair no campo das generalizações.
Situações de aborto provocado podem ser analisadas sob
essa ótica. Por isso é tão arriscado julgar os motivos que levaram
uma mulher a fazer o aborto. Qualquer julgamento é uma forma
de banalizar e desrespeitar as histórias dolorosas que estão por
trás desse acontecimento.
Outra sombra a ser levada em consideração na família são os
segredos escondidos. Muitos assuntos causam constrangimento no
seio de uma família como filhos ilegítimos, um filho com deficiência
física ou mental, infidelidade, homossexualidade, internações
psiquiátricas, uso de drogas, suicídios, abuso sexual e assassinatos.
Toda família tem seu segredo e todo segredo anseia vir a
luz. Quando é deixado de lado, provoca brigas e desarmonias,
quando encarado de frente, liberta.
Os pactos familiares inconscientes para manter um segredo

75
Frederico Mattos

escondido formam uma cadeia longíngua muito rígida e duradoura.


Normalmente, são processos inconscientes e que se perdem no tempo.
Um homem jovem veio procurar tratamento com uma
queixa de compulsão sexual. Seus pais perceberam o problema e
recomendaram a terapia. Essa família revelou um histórico de
abusos sexuais sofridos pelo rapaz, pela sua mãe e pela sua avó. O
mais surpreendente é que um tio-bisavô do rapaz fora condenado
pela família e expulso do convívio pela acusação de pedofilia. Esse
segredo foi aberto pela mãe do rapaz que sentiu um alívio imediato.
Com o tempo, ele pôde tomar consciência de seus próprios desejos
e reencontrou a paz que desejava.
O trabalho com a sombra familiar normalmente manifesta
um amor muito profundo que inclui todos os membros, mesmo
aqueles que foram rejeitados e condenados.
Quando olhamos a família como pessoas que se amam, mas
com pouca conciência de suas sombras, não nos surpreendemos
com os dramas que se manifestam.
O cuidado dos pais com os filhos está recreado de todos os
sentimentos humanos, do amor ao ódio. E quanto mais se condena
esses sentimentos, maior a criação de sombras.
Os problemas familiares podem ser curados na medida em
que se compreende que cada membro é uma criança que busca
crescer emocionalmente. E, na essência, se for olhada com o amor
maduro, poderá voltar a manifestar amor.

76
Sombras profissionais

“Entre a idéia e a realidade, entre o movimento e a ação, tomba a


sombra. Entre o desejo e o espasmo, entre a potência e a existência, entre a
essência e a decência, tomba a sombra.”

T. S. Eliot, escritor americano


Se pudermos falar em sombras no campo afetivo, por que
não falar delas na vida profissional?
Muitas pessoas consideram o ambiente profissional
preservado de problemas pessoais.
Esse engano leva muitos a tratarem a questão profissional
de maneira puramente racional.
O campo profissional envolve relações de poder e dinheiro.
Nada mais propício para a sombra.
No ambiente profissional atuam as máscaras mais elaboradas.
Máscaras de profissionalismo, ética, trabalho em grupo e alta
competência escondem sombras de fragilidade, ganância,
individualismo e fracasso.
Cada profissão tem seu lado iluminado e sombrio. E para
ter sucesso na profissão é fundamental compreender o lado
obscuro do trabalho.
Caso o profissional não olhe de frente para a sombra de seu
ofício, maior a probabilidade de ser engolido por ela e sofrer uma
queda profissional irreversível. Por exemplo, um pugilista que
canaliza sua agressividade é aplaudido e ganha dinheiro com sua
força. Se fizesse o mesmo na rua, iria para a cadeia.
Se você analisar quais são os medos específicos de cada
profissional e o tipo de problema que solucionam poderá descobrir
qual é a sombra de cada profissão. É baseado nesse raciocínio que
fiz uma lista de algumas possíveis sombras das profissões:

77
Frederico Mattos

Médico – morte, negligência médica, imperícia, arrogância.


Advogado – injustiça, deslealdade, corrupção.
Psicólogo – loucura, suicídio, manipulação.
Enfermagem – imperícia, prostituição.
Comissário de bordo – prostituição
Chaveiro – arrombador de carros e casas
Juiz – injustiça, corrupção, onipotência e impunidade.
Policial – violência, corrupção.
Presidência – ingerência, corrupção.
Pintor – desleixo, perfeccionismo.
Cozinheiro – gula, desleixo.
Nutricionista – anorexia, bulimia.
Educador físico – feiúra, compulsão alimentar.
Artista – fracasso, ostracismo, extremismo.
Professor – burrice, dificuldade na comunicação.
Economista – falência, consumismo.
Consultor – fracasso, ingerência.
Segurança – violência, furto.
Empregada doméstica – sujeira, furto.
Prostituição – frigidez, impotência.
Jornalista – invasão, espetáculo.
Secretária – domínio e comando

Essa lista não se esgota e segue interminável dada a infinidade


de possibilidades. Mas de modo geral é preciso analisar qual o
objetivo virtuoso da profissão e pensar no seu oposto. A outra
maneira de identificar é analisar quais são os erros típicos que seus
colegas de categoria cometem.
Isso o ajudará a prevenir cair no mesmo buraco.
Muitos profissionais altamente competentes buscam a
terapia para tratar de questões de trabalho.

78
Por Que Fazemos o Mal?

Queixam-se da empresa, do chefe, do empregado, do


trabalho em equipe e, principalmente, da falta de aumento salarial
e promoção.
A maior parte dos profissionais desconhece o conceito de
sombra.
A maior sombra profissional é o fracasso. Se o profissional
não está pronto para encarar a possibilidade da derrota e do
fracasso, jamais conseguirá atingir o sucesso.
Inconscientemente, você busca provar alguma coisa para si
ou um dos seus pais por meio da profissão que escolheu. Está
querendo provar o seu valor e sentimento de merecimento.
Esse é um dos motivos pelos quais algumas pessoas não
conseguem ascender profissionamente, pois não se sentem
merecedoras do sucesso assim como não se sentiram dignas do
amor dos pais. Essa sombra de inferioridade se manifesta
sabotando sua promoção tão esperada.
Pense nos chefes que você já criticou. Talvez você tenha
medo de ser promovido ou ter seu próprio negócio por medo de
ser igual a ele. Se você lida mal com o poder que um cargo oferece,
nunca será promovido.
Se você se comporta de forma humana e age com a sensação
de ser superior ao seu chefe, está mostrando um sinal de sua
prepotência também.
Enquanto você negar que pode agir da mesma forma que
aqueles que criticou, sua energia está aprisionada. Toda a energia
de realização ficará sufoca pelas críticas que você alimenta. Seu
sentimento de superioridade moral irá bloquear seu crescimento
rumo à realização e reconhecimento profissional. O trabalho será
apenas um sonho transformado em pesadelo.
Mas se você puder olhar abertamente para suas sombras
profissionais, o sucesso virá numa questão de tempo.

79
Agressividade

“O homem, em virtual contraste com todos os mamíferos, é o único


primata que pode sentir intenso prazer no ato de torturar e matar.”

Erich Fromm, psicanalista alemão


A agressividade é uma das grandes sombras da humanidade.
O desejo de poder é um instinto bem antigo e primitivo, herança
de nosso passado animal e adquire sua maior singularidade na
espécie humana. As guerras comprovam isso.
De forma bem simples, a agressividade assume dois
movimentos, para fora e para dentro. Portanto, no que se refere a
agressividade, você tem uma tendência explosiva ou implosiva.
O agressor não era julgado como mau na primitividade. O
processo civilizatório resultou na necessidade de manter o controle
sobre o convívio humano. A crescente busca por dominação de
território, inexistente entre os nômades, fez com que os homens
passassem a brigar por espaço.
A religião católica deu sua contribuição final e decisiva na
condenação da agressividade como sendo um impulso diabólico.
A raiva passou a ser um sentimento contrário a Deus. A
destrutividade, que antes estava a serviço da expansão da vida, se
tornou um defeito moral e falha espiritual.
A civilização impôs condições bem rígidas sobre a
agressividade. Quanto mais prendemos o leão na jaula mais sua
fúria se exalta. Então, passamos a acreditar que ele nunca pode ser
solto. A agressividade passou a ser uma energia mal direcionada e
desconectada da busca pela vida.
A agressividade entre os animais é usada de maneira direcionada,
objetiva e conclusiva. Raramente se vê um animal torturando outro
por simples prazer. Entre os seres humanos isso passou a ser comum.

80
Por Que Fazemos o Mal?

A agressividade desconectada dos impulsos de vida ganhou


traços de sadismo e prazer ao causar sofrimento aos outros. Prazer,
agressividade e desejo de poder juntos causaram as maiores
catástrofes humanas que vemos na atualidade.
A agressividade quando reprimida pode seguir em duas
direções, ou dois pólos sombrios: a violência e a passividade.
Muitas pessoas pacatas e contidas represam sua agressividade
por anos. Vivem a fantasia de que se colocarem para fora toda a
mágoa que está reprimida seriam capazes de matar alguém.
Enzo tem quinze anos e é o mais velho de três irmãos
homens. Ele traz uma queixa de depressão e problemas escolares.
Durante a terapia, confessa que seu pai é muito exigente, que
fica descontrolado e tenta agredi-lo e, na maioria das vezes, consegue.
Sua pele fica marcada pelos socos e pontapés. O garoto falta alguns
dias na escola e quando retorna, se vinga nos colegas mais novos.
Oscila entre momentos de fúria e depressão. Na depressão, se
sente culpado pelo seu comportamento e diz que é uma pessoa má.
Na fúria, agride os colegas de escola. Sobre seu pai, nada comenta.
Na primeira vez que vi Enzo, seu olhar meigo e abatido
revelava uma malícia que poucas pessoas percebiam.
Durante a terapia, dei a ele a oportunidade de expressar a
mágoa do pai. Além disso, percebeu que acabava colocando a perder
tudo aquilo que mais gostava, os amigos, a namorada e os estudos.
Quando pôde assumir o ódio que sentia do pai, seu amor veio à
tona. Entendeu que sua fúria era uma forma de se proteger da tristeza
que sentia pelo comportamento do pai. E lentamente sua depressão
deu lugar ao amor-próprio de que tanto precisava. Seu pai diminuiu
as agressões, pois agora Enzo colocava limites bem firmes ao pai.
Sem perder o respeito e o amor, impunha seu espaço.
Todo leão raivoso está carente de atenção. Se você der
atenção para a sua raiva, verá que o leão é um gatinho dócil. A
agressividade se manifestará de forma disciplinada e produtiva.

81
Frederico Mattos

Você pode estar pensando “não consigo controlar minha


raiva”. Eu digo que consegue, sim. Pois, se você estivesse prestes
a explodir e seu chefe aparecesse na sua frente (em dia de aumento
salarial),você imediatamente conteria sua raiva e agiria
pacificamente. Se é capaz de conter a sua raiva (pelo aumento), é
porque consegue controlar sua agressividade.
Se você diz que não consegue é porque está abertamente
identificado e engolido pela sombra. Você é do tipo explosivo se
está habituado a agredir abertamente em suas relações.
O poeta italiano Giacomo Leopardi fala bem dessa sensação:
“O sentimento da vingança é tão agradável, que muitas vezes o homem deseja
ser ofendido para poder se vingar, e não falo apenas de um inimigo habitual,
mas de uma pessoa indiferente, ou até mesmo, sobretudo, em alguns momentos
de humor negro a um amigo”. O tipo explosivo não se reconhece se
não está “brigando pelos seus direitos” com alguém. Ele só conhece
a posição de dominador e dominado.
No nível básico, as pessoas que são geniosas, briguentas,
estouradas, oprimem e constrangem os outros.
Há um nível intermediário de pessoas que agridem e
provocam abertamente quando provocadas, fecham carros no
trânsito, xingam quando contrariadas, levantam a mão e batem
“se necessário”. Podem progredir para matar ou fazer roubos caso
se sintam injustiçadas.
E há o nível máximo de pessoas que violentam
inescrupulosamente e podem matar os outros.
Essa mesma agressividade, quando bem orientada, realiza
prodígios. A prática de atividade física exige esse esforço agressivo. Correr,
pular, competir, nadar, enfim, requisitam todos os músculos, tendões e
articulações voltados agressivamente para uma finalidade esportiva.
A agressividade que mata alguém nas ruas é a mesma que
salva um doente na mesa de cirurgia.
Muitas pessoas agridem de forma passiva. São discretas,

82
Por Que Fazemos o Mal?

falam baixo e mal olham nos olhos, mas sua teimosia revela seu
desejo de ferir os outros. São do tipo implosivas ou ruminantes,
pois podem ficar anos amargando uma mágoa.
Também alguns maridos de mulheres extremamente
agressivas e que são vistos como homens humilhados por suas
mulheres “megeras” se enquadram nesse perfil.
Eles falam baixo e não respondem quando são questionados,
mas no silêncio da intimidade são hostis e ditadores. Calam as
mulheres só com um olhar.
Essas figuras passivo-agressivas são danosas, pois ninguém
desconfia delas. Sob a máscara de fragilidade repreendem e
constrangem os outros, chutam de baixo da mesa e se dizem vítimas
de todos. Algumas pessoas sentem falta de seu agressor quando
este se vai, ou sentem saudades da vítima. Parece que a violência
se torna um vício difícil de erradicar.
O suicídio no extremo é uma manifestação dessa
agressividade implosiva. A vontade de agredir alguém se dirige
para dentro num ato de violência autoimposta.
Enquanto você achar que tem controle sobre todos os seus
instintos é mais provável que já esteja dominado por eles. Nunca
submestime a raiva que existe dentro de você!
Canalizar a violência e hostilidade em atitudes positivas de
assertividade e empreendedorismo só é possível se você estiver
disposto a sustentar a energia agressiva do seu interior. As pessoas
que negam sua agressividade normalmente progridem pouco na
vida, pois se recusam a entrar na dança social.
Sobre esse assunto encerro com uma frase brilhante de
Gandhi:”é melhor ser violento, se existe violência em seu coração, que vestir o
manto da não-violência para disfarçar impotência.”
Portanto, quando a agressividade sai da sombra e pode ser vivida
sem julgamentos, ela revela uma grande capacidade de ação firme.

83
Sexualidade

“É instintivo da mente humana que um homem mais deseje os


prazeres que lhe são proibidos.”

Torquatto Tasso,
poeta italiano do século XVI

O desejo humano não conhece limites. O desejo deseja.


Como o desejo procura ser satisfeito, não seria absurdo dizer
que a maior sombra da sexualidade é o descontrole. Quando o
desejo domina aquele que deseja.
Assim como a agressividade, a sexualidade humana é um
instinto primitivo de rara beleza. O desejo sexual é o gatilho
biológico que leva os animais a perpetuar a espécie e procriar.
Quando esse desejo se manifesta nos seres humanos, carrega
todas as tintas de sua complexidade. Na espécie humana, o desejo
sexual vai muito além da busca por procriar, pois é uma forma de
obter prazer, carinho, atenção e amor. Além disso, a sexualidade
também se presta como canal de liberação de tensões, sofrimentos,
angústias e agressividade.
As religiões começaram a exercer controle sobre a
sexualidade tratando-a como uma oposição à pureza divina. A
sexualidade foi taxada como pecado por desafiar os limites
impostos pelo ideal de harmonia social.
A proibição pode inibir a manifestação do desejo, mas, ao
contrário de fazê-lo desaparecer, o instiga. A proibição e idéia de
pecado transformam o desejo em fonte de sofrimento e sombra.
O desejo sexual pode assumir manifestações primitivas,
incompletas, distorcidas e até patológicas. A energia sexual pode
seguir em dois pólos sombrios: o compulsivo e o bloqueado.

84
Por Que Fazemos o Mal?

E nessa dança dos desejos se debatendo com as proibições é que


conhecemos as mais estranhas manifestações da sexualidade humana.
Após séculos de repressão, a sociedade do século XXI vem
adotando o sexo como um objeto de consumo. Projeta-se na
liberação dos desejos a cura para todos os problemas. Quanto
mais você faz sexo mais é feliz. A publicidade usa desse apelo para
vender qualquer tipo de produto.
A visão do sexo saiu de um extremo ao outro, de secreto
virou público. Antigamente as pessoas sofriam porque o sexo era
proibido e hoje sofrem porque não conseguem a libertação plena
com alta performance.
A incapacidade de controlar o desejo sexual associada à
angústia própria do mundo sem sentido que vivemos incorre na
busca compulsiva do sexo como fonte de satisfação.
A compulsão sexual é diferente do desejo comum, pois
quanto mais se concretiza maior é a angústia e desejo de nova
descarga. Quanto mais sexo, maior a angústia, a culpa e busca de
nova satisfação sexual. Esse ciclo sem fim da compulsão faz com
que a pessoa busque formas cada vez mais extremas e bizarras de
satisfação.
A sensação de insatisfação crônica que a sociedade atual
vive, cada vez mais seduzida por novos objetos de desejo e
consumo cria o pano de fundo para o outro extremo da
sexualidade: o da inibição do desejo.
As promessas de grandes orgasmos alegram alguns e
pressionam outros. Essa pressão se converte em autocrítica,
exigência e fracasso sexual. Acabam vendo os limites do seu
desempenho como um defeito moral e psicológico.
Muitos homens se escondem atrás do machismo para não
assumir as dificuldades que têm no ato sexual. O comportamento
do tipo “só eu tenho prazer” pode esconder uma ansiedade
masculina de ejaculação precoce e impotência. A mulher pode

85
Frederico Mattos

mostrar-se inibida para se preservar da dor do sofrimento. Para


essas, ter um vínculo é sinônimo de dependência, apego, traição,
perda e dor. E para evitar isso permanece sozinha e frígida,
repetindo a si mesma “nenhum homem vai me machucar
novamente”. E nem dar prazer...
Se você ainda enxerga o sexo como se fosse manifestação
de safadeza, baixaria e promiscuidade, é bem provável que não
libere toda a capacidade de dar e receber prazer. Sua relação sexual
será morna e seus parceiros de queixarão de sua ausência.
O medo de perder o controle e se tornar uma pessoa
promíscua será sempre uma boa desculpa para você não
experimentar os vários sabores da vida.
Na verdade, esse medo esconde um medo mais profundo
que é a entrega para uma relação de intimidade, sem fronteiras
para o desejo.
Um casal que chega num ponto de maturidade sexual terá
muita clareza dos seus limites e possibilidades. Sabe qual potencial
do parceiro(a) pode ser melhor explorado. Mas reconhece também
quais são os limites. Esse tipo de maturidade expõe o casal a muitas
vulnerabilidades e isso transcende o nosso controle.
Quando você se entrega plenamente no ato sexual, o amor
preenche aquilo que o sexo não conseguiu alcançar, então o sexo
vai muito além do desejo. E é disso que temos medo, da plenitude
que a intimidade sexual proporciona.
Os compulsivos buscam prazer para fugir da plenitude e os
inibidos bloqueiam o prazer para evitar a entrega plena. Ambos
estão fechados nos medos pessoais.
Essa é a razão pela qual o sexo vem sendo motivo de grandes
conflitos, pois tememos ir além da superfície.
Quando finalmente a sexualidade puder sair da sombra e
ser vivida com intimidade e sem julgamentos, ela revelará uma
grande capacidade de prazer e plenitude.

86
Dinheiro

“Quem acredita que o dinheiro faz tudo costuma estar habituado a


fazer qualquer coisa por dinheiro. “

Jorge Luís Luciano


Dinheiro... Quem vive sem ele?
A resposta é: ninguém. Então por que nem todos têm
dinheiro suficiente para viver o melhor que a vida material pode
oferecer? Porque as idéias que associamos ao dinheiro estão bem
escondidas em nossa sombra: o desejo de poder!
As pessoas podem assumir duas posições típicas frente ao
dinheiro: o ganancioso e o miserável.
Muitas pessoas temem ganhar dinheiro por medo de ser
corrompidas pelo poder que ele proporciona. Elas acreditam que
as pessoas ricas são gananciosas, frias, infelizes e maldosas.
Realmente existem pessoas gananciosas que pisam em quem
precisar para conquistar a riqueza.
Os filmes sempre mostram os vilões usando sua fortuna
para corromper e comprar as pessoas. O pensamento comum diz
que as pessoas simples se transformam em mostros depois que
enriquecem. E, se você quiser, achará inúmeros exemplos de
pessoas que enriqueceram e ficaram insuportáveis.
O único problema é que você não tinha reparado que essas
pessoas já eram insuportáveis antes, porém pobres.
O dinheiro não transforma ninguém em monstro, mas dá o
poder necessário para que o monstro apareça.
O dinheiro compra quase tudo no mundo: prestígio, fama,
influência, propriedades, sexo, prazer e pessoas. E oferece poder, muito
poder. Se sua influência comprar a lei, a sua sensação de onipotência
será absurdamente grande quando associada à impunidade.

87
Frederico Mattos

É nesse momento que o dinheiro pode corromper uma


pessoa, pois ela passa a mostrar tudo aquilo que estava reprimido
sob a máscara da simplicidade e da bondade.
Carla sempre criticou o pai no trato com o dinheiro. Dizia que ele era
excessivamente generoso e isso o impedia de fazer bons investimentos.
Menosprezando a opinião do pai ao abrir um negócio ela deixou os
cuidados administrativos de sua clínica de estética com sua sócia. A sócia,
além de atender os clientes cuidava da conta conjunta da clínica.
Depois de um ano de sociedade, descobriu os roubos da sócia e seu
nome foi protestado. Na divisão da sociedade deixou que a sócia levasse metade
dos objetos da clínica. No final, a sócia não pagou a dívida e deixou Carla
obcecada pela raiva.
Carla não consegue assumir que faria tudo por dinheiro,
mas para fugir desse desejo prefere acreditar que não necessita
tanto de bens materiais. O resultado é que o “radar sombrio” dela
falhou na hora de perceber a estratégia da sócia. E toda a ambição
saudável que ela poderia canalizar em sua busca profissional ficou
projetada na sócia.
Ela só poderá começar a ser mais empreendedora no
momento que perceber que o dinheiro é parte fundamental de
sua vida e que ela gosta de conforto material.
As pessoas que se monstram sempre pobres e esfarrapadas
escondem sua verdadeira natureza, sua fala autopiedosa mascara uma
arrogância. Menosprezam as pessoas de sucesso e maldizem aqueles
que conseguiram fama e dinheiro. Nunca buscam uma condição
melhor na vida alegando que não precisa de muito para serem felizes.
A pobreza e o aperto financeiro serão suas constantes
companhias enquanto não reconhecerem que têm ressentimento
das pessoas ricas e que são incapazes de fazer algo para mudar.
Preferem se queixar da sua pobreza e que não tiveram sorte, ao
invés de buscar cada centavo por mérito próprio.

88
Por Que Fazemos o Mal?

A fuga para as buscas espirituais também é muito comum


entre os miseráveis. O mundo seguro e abstrato das realidades
espirituais conservava sua sensação de pureza.
Muitos espiritualistas radicais se vêem tão acima da visão
mundana e se compadecem tanto com a humanidade gananciosa
que acabam não percebendo a sua própria arrogância.
Estão sempre apertados financeiramente e ameaçados pela
idéia do dinheiro como ladrão da felicidade espiritual.
Quando os miseráveis e espiritualistas radicais perceberem
a força que o dinheiro tem para promover o avanço espiritual,
mudarão de idéia.
O filósofo alemão Martin Heidegger para esclarecer essa
questão falou: “crescer, significa abrir-se à amplidão dos céus, mas também
deitar raízes na escuridão da terra. Só este crescer pode guardar o que dura e
frutifica.”
Algumas pessoas me dizem “tenho medo de ficar rico e me
tornar insuportável” e eu respondo “fique rico, que é o mais difícil
e se ficar insuportável eu te aviso, e isso é muito fácil!”
Mas, se mesmo assim você estiver na dúvida quanto a ser
engolido pela sombra do poder que o dinheiro trás, siga a
recomendação do escritor francês Victor Hugo: “Que você tenha
dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano
coloque um pouco dele na sua frente e diga ‘isso é meu’, só para que fique bem
claro quem é o dono de quem.”
O universo é abundante e Deus não poupou nenhum
centavo do cosmo para criar as maiores belezas que podemos
vizualizar na natureza.
A miséria é uma recriminação moral que criamos como
condição de elevação espiritual. Mas a verdadeira iluminação é
aquela que espiritualiza a matéria e materializa o espírito.
E é na abundância que o dinheiro promove que o espírito
se torne presente.

89
Existencial

“A existência do homem quando plena e assumida, já é uma


oração”

Anônimo

Aparentemente a vida não teria uma sombra em si. A morte


não é a sombra da vida, é o seu ciclo final. Mas se você pensar na
vida como a manifestação da plenitude interior, a vida terá muitas
sombras.
A doença, a feiúra, a velhice, a solidão e o esquecimento são
todas sombras da existência humana.
Assim como na agressividade, na sexualidade e no dinheiro,
na vida existem dois pólos sombrios: da dramatização e da
ausência.
Os ausentes são aqueles que se recusam a “brincar” na vida
quando os jogos não seguem suas regras. Tão grande é o medo de
sofrer que nem sequer participam dos acontecimentos que a vida
trás.
Helene é uma pessoa dura com tudo. Sempre regrada, passa a maior
parte do tempo calculando suas finanças, sua agenda, seus afazeres e nunca se
permite fazer nada fora do comum.
Sua rotina de funcionária pública é exaustivamente a mesma durante
20 anos. Não casou, não teve filhos e nunca fez uma viagem para além de sua
cidade.
Na verdade, nunca se arriscou em nada. Só que ultimamente vem
sendo assaltada por um medo constante de morrer. Fica apavorada com idéia
de ninguém se dar conta de sua morte.
Não fez amizades na vizinhança e sequer sabem o nome dela no
condomínio.

90
Por Que Fazemos o Mal?

Os ausentes, na verdade, têm medo da vida.


Para eles, a vida é tão cheia de imprevisibilidade, surpresas e
acontecimentos inesperados que preferem sua rotina maçante.
Ficam enquadrados no padrão familiar, político, religioso. Qualquer
coisa que saia do previsível é pecado.
Não conseguem questionar as ordens que recebe. Seguem
os líderes cegamente e nunca contrariam as regras.
Os dramáticos são aqueles que simulam viver intensamente,
mas na verdade não sentem a vida real, como é.
Vivem simulações de sentimentos, relacionamentos,
experiências e por isso sentem um profundo vazio interior. A olho
nu passariam despercebidas, pois até parecem felizes, bem-
sucedidas e belas. No entanto, ao olhar mais cuidadoso mostram-
se com alma inexpressiva. Atormentadas pela opinião social, estão
sempre representando os acontecimentos frente o olhar das outras
pessoas.
Associam sucesso à juventude, beleza e boas companhias.
Ficam constrangidas com pessoas feias e só se aproximam de outras
pessoas que considere ter beleza parecida. Durante o processo de
envelhecimento, retardam o máximo que puderem os sinais
corporais. Cabelos brancos, rugas e gordurinhas são vistas como
verdadeiras aberrações.
A solidão é sinônimo de fracasso pessoal. Sinaliza que não
conseguiram conquistar ninguém ao longo do tempo. Ser rejeitada
é o mesmo que desaparecer, por essa razão a solidão acaba sendo
uma forma ficar invisível.
Os que rejeitam viver plenamente a idéia e a aproximação
da morte vivem um desespero.
Quando encarada de frente a morte desestabiliza as certezas
humanas, ela coloca todas as nossas verdades de lado e nos lança
frente a angústia de existir. A morte rompe com aquilo que mais

91
Frederico Mattos

amamos, desejamos e buscamos. É o ciclo final de quebra, não


poupa ninguém e não concede privilégios.
Não há morte pior ou melhor.
O que existe são vidas mal vividas. Pouco sentidas,
aproveitadas e exploradas.
A falta de curiosidade é o pior tipo de condenação que
alguém pode viver.
O maior mal a que nos impomos é a paralisia e a estagnação
existencial. O que está em movimento cria, e aquilo que cria gera vida.
Toda vez que mutilamos, limitamos e restingimos a intesidade
da vida escolhemos por uma existência pobre, triste, ressentida,
cheia de dor e culpa. Cheia de sombras.
Mudarei um pouco a frase do início desse capítulo: uma
boa forma de orar é ter uma vida bem vivida...

92
Vender a alma ao diabo

“O homem saudável não tortura os outros, em geral é o torturado


que se torna um torturador.”
“... mais tarde ou mais cedo,
tudo se transforma no seu contrário.”

Carl Gustav Jung

A pergunta sobre o destino da alma após a morte é uma


inquietação humana antiga.
No mundo ocidental ocorre uma preocupação transcedental
freqüente: Deus ou o diabo virá me socorrer?
A briga entre essas duas forças já foi tema de grandes
discussões. Foi expressa em contos populares, na bíblia, em mitos
de diferentes povos. O escritor alemão Goethe escreveu seu
aclamado romance Fausto baseado numa lenda alemã que trata
desse assunto.
Na história, Fausto é um cientista que deseja superar os
conhecimentos de sua época. Para permanecer jovem por muitos
anos evoca o demônio. Eis que surge Mefistófeles que propõe um
pacto de ter sua alma em troca dos prazeres da juventude.
Pelo que seríamos capazes de vender nossa alma?
Fausto, no livro de Goethe, fez a sua escolha.
E nós, venderíamos nossa alma por qual preço?
Alguns até se perguntam onde podem encontrar esse ser
diabólico, fazer o trato, se livrar dos problemas cotidianos e ter
felicidade plena.
O trato do diabo seria esse: “eu lhe dou o que você quiser e
em troca você me dá sua alma!”
Tentação curiosa, não?

93
Frederico Mattos

Obter tudo o que você quer. Todos os sonhos mais secretos


realizados num passe de mágica. Imagine as delícias que iria
experimentar.
Só pela bagatela de sua alma!
Mas, afinal o que você perderia se a vida lhe parece tão dura
e sem graça?
Perder a alma seria um baixo investimento para tanta
recompensa...
E quando o diabo vier me cobrar a alma, como será?
Sofrimentos nunca antes imaginados? Torturas perpétuas? Ficar
retorcido nos caldeirões do inferno? Nem pensar!
O que Goethe chamou de “vender a alma ao diabo” acontece
na vida cotidiana mais do que você imagina.
Você é sempre tentado pela sombra. E a vida moderna instiga
essa tentação.
Vender a alma ao diabo é sinônimo de ser engolido,
absorvido ou possuído pela sombra.
É quando sua natureza obscura e reprimida vem à tona e
cega sua capacidade de reação.
Aquela pessoa que teve uma infância pobre e sem luxo e
que prometeu a si mesma que ainda que tivesse muito dinheiro
nunca iria esquecer a vida dura que teve cresce, prospera e trata
todas as pessoas pobres como serviçais. Mas sua cegueira não
permite ver isso. Acha que trata os pobres com dignidade, fala
com seus empregados como escravos pessoais.
A sombra engoliu!
Esse pacto com o diabo-sombra vai sendo travado aos
poucos, silenciosamente e sem grandes mudanças externas. As
pessoas à volta se surpreendem com a mudança súbita.
O diabo-sombra vai se mostrando fascinante,
recompensador e positivo diante das desvantagens superadas. .

94
Por Que Fazemos o Mal?

A pessoa vai cometendo pequenos deslizes até perceber que


se perdeu nesse acordo sombrio e não tem mais controle de si.
O diabo-tempo vai consumindo pouco a pouco a pessoa.
Um dia você deixa de descansar aqui, estende o horário de trabalho
acolá e, quando vai ver, já não tem tempo para mais nada e ninguém.
É uma armadilha para que a pessoa não possa olhar para si
mesma e ver como tudo gira rapidamente. Cai vertiginosamente
numa rotina sem parada, reflexão e contemplação da vida. A
ansiedade toma conta e a sensação de passar o tempo rapidamente
é constante.
Alma vendida!
O diabo-vaidade vai lentamente dominando. Hoje, surge uma
preocupação com o que os outros vão pensar, amanhã você está
se arrumando para que lhe elogiem e logo estará obcecado pelo
que todos pensam a seu respeito.
Sua reputação é seu bem mais precioso. A escravidão pela
autoimagem assume o comando. Conforme o grupo que quer
impressionar, muda de hábitos, opiniões e cai em contradição.
Alma vendida!
O diabo-promiscuidade salta aos olhos. O mundo está mais
liberal com relação ao sexo. E daquela busca saudável por prazer
sexual, você pode começar a se relacionar sexualmente sem estar
conectado com seus reais sentimentos.
Alma vendida!
O diabo-trabalho se une ao diabo-tempo e promovem muito
trabalho bem longe da vida pessoal. Na medida em que se atola
no trabalho – remunerado ou voluntário – não precisa olhar suas
relações pessoais fracassadas.
Alma vendida!
O diabo-corpo-perfeito também escraviza os que desejam
ter corpo de modelos de revista. Horas de academia, plásticas,
dietas e produtos faciais e corporais para garantir que o tempo

95
Frederico Mattos

não passe. O pânico de ser chamado velho ou gordo consome


horas de pesadelos.
Alma vendida!
O diabo-dinheiro promete te poupar de todas as frustrações
comuns. Oferece uma segurança e felicidade sem fim. O dinheiro
é adorável e abundante, mas se você espera ficar mais seguro e
feliz com ele, está enganado.
Alma vendida!
E, finalmente, o grande diabo-poder que pode estar nosos
altos cargos em empresas até em comandar um vira-lata da rua. O
fascínio que o poder oferece uma atração irresistível. Você travaria
lutas para defender sua posição pessoal para não abrir mão do
poder.
Depois de tantas vendas, você percebe que não sobrou nada
da sua vida para o diabo confiscar.
O inferno é o tesouro que perdeu a simplicidade e beleza da
vida!
Depois que a pessoa se vendeu para a sombra está cega e
irreconhecível.
A pessoa se transformou no seu oposto. A isso Jung chamou
de enantiodromia, ou seja, quando a energia psíquica flui de um
extremo ao outro.
Cabe aqui a resposta de Dalai Lama sobre o que mais o
impressiona no mundo: “os seres humanos. Porque perdem a saúde para
ganhar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por se
concentrarem demasiadamente no futuro, não vivem nem o presente nem o
futuro, e vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem
vivido”.
Ser engolido pela sombra ou vender a alma ao diabo é algo
que acontece com mais freqüência do que pensamos...

96
A sombra de nossos tempos

“Quando você olha demais dentro de um abismo, o abismo olha


dentro de você.”
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão
Vivemos tempos estranhos.
Há cerca de 80 anos, o mundo era mais simples. O Estado
dizia o que era verdade política, a religião dizia o que era o padrão
moral e a família ditava o comportamento dos filhos. Era muito
mais fácil acusar o governo, o padre e os pais pela nossa infelicidade.
Hoje, a realidade é bem outra. A diversidade cultural, étnica,
social, ética, religiosa e econômica amplia o cenário. É mais difícil
culpar o governo, a religião ou os pais pelos males do mundo sem
se incluir na conclusão.
Isso quer dizer que você tem menos páginas em branco para
projetar sua sombra. Portanto, está sendo mais confrontado com
a verdadeira causa dos problemas.
O resultado é que agora ninguém combate um grande
inimigo, mas todos entraram numa corrida do ouro em direção à
felicidade.
A busca e a promessa por sucesso, dinheiro, fama, beleza e
juventude tem sido alvo de campanhas publicitárias.
Você já deve ter visto uma revista de moda e se perguntado
porque não é tão magra quanto a modelo, tão rica quanto aquele
empresário ou tão famosa como aquela atriz.
O tédio se tornou o demônio que todos querem evitar. Você
nunca permitirá ser visto de pijama às nove horas da noite de
sexta-feira em casa. Você sente que a vida tem que estar à beira de
um grande acontecimento.
Quanto mais a pessoa foge do tédio em busca de curtição, mais
tédio encontra em forma de fracasso, depressão e falta de sentido de vida.

97
Frederico Mattos

Cada um corre para um lado na tentativa de ser feliz.


A felicidade passou a ser a maior busca dos nossos tempos.
Ninguém sabe o que ela significa de verdade, mas todos buscam.
A felicidade é confundida com prazer e alegria. E quanto
mais prazer, mais tédio.
Transformamos a felicidade numa droga que deve ser
consumida a todo custo. A internet aumentou o espaço onde as
pessoas buscam um grande amor, amizade, emprego ou viagem
que vá mudar sua vida.
O problema é que a felicidade não é conquistada no laço.
Não tem um padrão de vida que seja modelo para outras. O que é
felicidade para uma pessoa não é para outra. A fortuna e a beleza
de uma pessoa podem não satisfazer a outra.
A ansiedade, na verdade, só irá retardar a busca pela vida
feliz porque a felicidade é a manifestação contínua dos seus
potenciais adormecidos.
Na busca da felicidade, surge o desejo de ser único, especial
e exclusivo e como conseqüência a fama é a busca por essa
singularidade.
Se você não tem uma personalidade única, uma roupa feita
sob encomenda, um carro personalizado e não é reconhecido pela
sua unicidade, você é um “Zé-Ninguém”.
O tédio e o anonimato são duas entre a maiores sombras
do nosso tempo que incitam a violência, o egoísmo e a super-
exposição da intimidade.
Ninguém quer ser mais um na multidão e por isso a busca
incessante de felicidade intensa e identidade exclusiva é a marca
de nossos dias.
A internet está recheada de anônimos famosos, os sites de
relacionamento são povoados de pessoas ou avatares com descrições
de si mesmas que as diferenciem das demais. O perfil virtual amplia
sua preocupação com quantos amigos possuem, e recados recebem.

98
Por Que Fazemos o Mal?

Essa necessidade de exclusividade tem um efeito devastador para


os relacionamentos amorosos. Passada a fase inicial da paixão em que
você se sente único e exclusivo, vem a fase de acomodação em que uma
pessoa começa a fazer parte natural da vida da outra. Isso é visto como
tédio na relação. E ninguém tolera o tédio, daí o florescimento de manuais
e cursos para apimentar sua vida amorosa e sexual. Essa sensação de
ser mais um em mais um dia na vida da pessoa amada é arrasadora e
a maior causa de ciúme e término de relação.
Suportar a sensação de que os dias da vida se passam como
qualquer outro (manhã, tarde e noite) e que você (como qualquer
outra pessoa) se dirige em direção à morte é fato raro. De modo
nenhum é um convite ao pessimismo ou desânimo, pois o sonho e o
sentimento de importância pessoal é fundamental para a autoestima.
Mas quando uma busca por felicidade se torna problemática
e causadora dos problemas cotidianos dos indivíduos e culturas
inteiras, é necessário acionar o botão de alerta.
Sustentar o paradoxo do tédio e da novidade, bem como o
do anonimato com a singularidade cheia de prestígio é a solução
para a sombra de nossos tempos.

99
Afinal, o que é o mal?

“Os grandes momentos da nossa vida


são aqueles em que temos a coragem
de rebatizar a nossa maldade
como o melhor que em nós existe.”

Friedrich Nietzsche
Definir o mal é uma tarefa quase impossível. Portanto,
tentarei me aproximar ao máximo da resposta decisiva.
O mal é aquilo que é contrário ao bem, como esse é contrário
ao mal. Mas a definição de bem é diferente se olharmos a realidade
por óticas diferentes.
Para alguns o bem é manter a sobrevivência. O mal seria a
miséria da condição humana.
Para outros o bem é pertencer a um grupo e ser aprovado
por ele. O mal seria o sentimento de exclusão, não pertencimento
e desaprovação de uma comunidade ou família.
Há também os que buscam o prazer e a satisfação de seus
desejos. O mal para estes seria a frustração dessas satisfações.
Há os que vêem o bem como proporcionar bem-estar e
felicidade aos outros. O mal seria fazer sofrer e causar dano.
Para uma maioria, o bem é manter-se conforme exigem as
regras morais e as leis vigentes. O mal seria transgredi-las.
Para outros o bem é buscar a realização de seus potenciais.
O mal seria viver preso a uma conformidade ressentida.
Há os que vêem o bem como uma interpretação da realidade.
O mal seria outra interpretação.
E raros vêem o bem como um aspecto fundamental do
paradoxo da vida e o mal, também. E para estes bem e mal são
faces da mesma moeda que fazem a roda da vida girar.

100
Por Que Fazemos o Mal?

O mal do qual tratamos aqui pode ser visto de todos esses


prismas, porque o mal é um conceito multifacetado e
intercambiável. Em cada situação, o mal toma feições diversas.
Definir o mal é reduzir toda essa riqueza de visões em uma
apenas que não abrange a complexidade do fato.
Dependendo do seu nível de maturidade, você pode
condenar o mal sob certo aspecto e redimi-lo em outro.
Quando o mal chega perto de você, talvez você precise se
defender mesmo que consiga perceber a transitoriedade do mal.
O mal assim como o bem não tem uma substância em si,
pois são visões de uma realidade sob o olhar de um observador
que pode estar mergulhado e contaminado pelo seu desejo pessoal.
Ao mesmo tempo, nosso desejo de padronizar o que é o
mal nos traz a garantia de quais são os limites em que podemos
transitar sem ferir a linha tênue entre fazer o bem e o mal.
Cada contexto demanda um olhar que sempre será
fragmentado, particular e tendencioso. Mesmo aquele em que os
fatos declarem abertamente que um mal foi feito, pode-se a partir
de um outro ponto alargar a visão para uma outra linha que não
diferencie o mal do bem.
O mal existe e simultaneamente não, assim como a vida.
Quando o mal é ignorado, ele danifica, prejudica e rouba a essência
do que nos faz humanos. Mas quando olhado, reconhecido e
canalizado, ele nos devolve a humanidade, pois o mal também
nos pertence no direito de seres livres para escolher.
Bem e mal nos definem e nos diferenciam, pois denunciam
a verdade transcendente que somos. Indefiníveis, impalpáveis e
mutantes. É como olhar para um cubo. Posso ver uma faceta de
minha personalidade e, no entanto, outras mais existem que estão
ocultas para mim.

101
Qual o limite do mal?

“O mal nunca é fora do comum e sempre humano,


compartilha a nossa cama e come à nossa mesa.”

W. H. Auden,
poeta britânico

Ao olhar a história nos impressionamos com todo tipo de


barbaridade que já foi cometida contra o ser humano.
O que realmente nos apavora é ver até que ponto chega a
maldade de um ser humano contra o outro.
Amparados em todo tipo de justificativa religiosa ou
ideológica os homens matam cruelmente. Diferente dos animais
que agridem para preservar o território ou obter alimento, o ser
humano fere, machuca e tortura sem razões claras.
Os rastros de sangue deixados nas páginas da história
denunciam o prazer que sentimos enquanto destruimos.
A maldade humana a serviço do poder revelou a face mais
cruel de todos nós. Cada um agride, rouba, mata com alguma
justificativa. Pobreza, infância traumatizada, problemas cerebrais,
mas a verdade é que cometemos todo tipo de ato cruel. E a
crueldade pode gerar prazer.
Muitas crianças adoram roubar chicletes no supermercado
e quanto maior o risco, mas excitadas ficam. Depois de receber
uma surra dos pais, elas podem chegar na escola ávidas para
espancar um colega mais fraco.
Já adultas, no trabalho, podem ter um prazer especial ao
gritar com um empregado ou destratar um fornecedor. No
relacionamento amoroso alguns se deliciam ao criar pequenas
torturas psicológicas para infernizar a vida do parceiro.

102
Por Que Fazemos o Mal?

Na maior parte das vezes não nos damos conta desses


detalhes sórdidos do cotidiano. A sensação de impunidade pode
aumentar ainda mais o gosto pelo delito. Os pais ficam amparados
pela justificativa de educar os filhos e assim espancam e abusam
emocionalmente das crianças.
Faça um exame crítico: quem você trata como se fosse
um escravo pessoal? O excesso de intimidade já fez você acreditar
que seus pais devem agüentar seus gritos? O fato de pagar o salário
do estagiário dá direito de o humilhar? Conviver com sua mulher
por vinte anos dá a você o direito de tratá-la aos berros como sua
serva?
Certamente você encontrou a pessoa em quem descarrega
sua sede de maldade. Você até pode justificar que não tem paciência,
seu temperamento é forte ou que a pessoa deu razão para a
agressão. Mas no fundo, eu e você sabemos que tudo isso poderia
ser evitado.
Os animais quando vêem o inimigo acuado e não se sentem
mais ameaçados se afastam e seguem seu rumo. Mas, nós, seres
humanos temos uma satisfação sórdida de agredir as vítimas
indefesas.
O problema fundamental é que se não fôssemos pegos,
flagrados, descobertos, presos ou punidos chegaríamos a uma
conclusão terrível: aquilo que chamamos de mal ou má ação, na
verdade, tem resultados extremamente prazerosos e
compensadores para os nossos desejos.
Pegar o dinheiro dos outros para uso pessoal é vantajoso.
Sair com a mulher do próximo é prazeroso. Tirar uma pessoa
inconveniente do caminho passando a perna nela ou assassinando-
a é solução fácil. Ou seja, o mal é rápido e recompensador a curto
prazo. No entanto, fazer qualquer uma dessas coisas fere princípios
de convivência que agridem a integridade dos outros.

103
Frederico Mattos

A ação considerada má é, por natureza, imediatista, egocêntrica


e vantajosa, mesmo que às vezes autodestrutiva. Por isso cedemos
ao mal e nos debatemos com as regras morais. Isso quer dizer que
só não fazemos o mal pelo medo da punição? Em parte sim e, de
outro lado, porque gostamos de nos ver como virtuosos e manifestá-
las a uma sociedade que reforça essas virtudes.
Como disse anteriormente o mal é um conceito difícil de
definir exatamente por ser uma vivência única que depende de
múltiplos fatores envolvidos com agravantes e atenuantes.
Como você veria uma pessoa que ajuda um amigo a conseguir
um emprego, mas acaba precipitando a demissão de outro?
E o que dizer de uma criança ou alguém com atraso mental
que machuca alguém por não entender o que está fazendo?
Pode ocorrer de uma mãe tentar proteger o filho e acaba
retardando seu desenvolvimento. É condenável?
E aquelas pessoas que estão sempre temerosas de errar ou
prejudicar e acabam prejudicando alguém por negligência?
As vezeses também ocorre de uma pessoa subestimar o poder
da fofoca e gerar um mal maior do que a inocência do comentário.
Certos agravantes devem ser analisados, como alguém que
ignora a conseqüência de sua atitude. É o caso de uma jovem
desesperada que comete um aborto e anos depois se tortura pelo ato.
Também é de pensar que algumas pessoas que se submetem
a trabalhar em empresas clandestinas com produtos piratas,
contrabandeados ou ilegais. Promovem indiretamente atos
criminosos à pretexto de sobrevivência.
Será que uma boa justificativa deveria nos fazer relevar um
prejuízo causado? E se o ato foi premeditado deve aumentar o peso?
Há os que envolvem mais pessoas ao redor de uma ação
danosa, como num linchamento do meio de uma festa.
E existem aqueles que prejudicam com uma frieza premeditada
e cheia de ódio. Além disso, arrastam muitos comparsas e deixam

104
Por Que Fazemos o Mal?

um legado de terror para que outros sigam seu exemplo.


Enfim, tantas possibilidade envolvidas em cada
circunstâncias que se complica mais qualquer classificação e até
estabelecer qual o limite da maldade. E, alguma medida, todos já
fizemos o mal.
Permancer relutando contra esse fato cria sombras. Todos
têm uma história da qual se envergonhe a respeito de um mal
cometido, ainda que bem justificado.
Ghandi fala algo muito pertinente sobre isso “sou contra a
violência, pois quando ela parece fazer o bem, o bem é apenas temporário.”.
Sabendo que nossa capacidade para o mal é ilimitada e não
cede diante da vítima, também somos capazes de realizar muito
bem. Se você mergulhar no fundo de suas capacidades malignas
encontrará forças para realizações construtivas, no entanto elas
são mais demoradas e nem sempre compensam seus desejos. Pelo
contrário, as vezes o bem fere a própria pele.
Apagar algum mal cometido seria como amputar um
membro do corpo saudável. Se você bateu no seu filho quando
pequeno, olhe para esse momento da vida e assuma para si mesmo
“eu bati no meu filho, reconheço que exagerei, e sem negar a
agressividade que existe em mim serei enérgico quando precisar”.
Essa capacidade de suportar o paradoxo de que o mal existe
dentro de você possibilita uma vida completa, madura e plena.
Não é a perfeição que buscamos no trabalho com a sombra, mas
sim a totalidade.

105
Para quem quiser trabalhar com a sombra

“Não é o diploma médico,


mas a qualidade humana, o decisivo.”

Carl Gustav Jung

Para quem quer trabalhar a sua sombra, recomendo cuidado.


Muito cuidado!
Nem sempre a viagem de descida ao reino obscuro percorre
caminhos suaves e de descobertas adoráveis. Os resultados, ao
longo do tempo, são positivos e ricos, mas de início você pode
sentir uma queda de energia.
Como não estava acostumado a olhar para dentro você, pode
se sentir desamparado, desesperado e até um pouco sujo por dentro.
Tenha persistência, essa fase passa.
Um trabalho terapêutico na maior parte das vezes é
fundamental. Correr uma maratona exige acompanhamento de
alguém mais preparado para não deixar que você desista. Um
homem gordo, com diabetes e saído de cirurgia cardíaca teria pouca
legitimidade para treinar você para uma corrida.
Assim como o maratonista precisa ter um mestre indicando
as pegadas, o profissional precisa ter ido longe no contato com a
própria sombra para dar um passo a mais que você. Caso contrário
ele só irá até o ponto que ele já chegou.
Médico que fuma pode até aconselhar o paciente a parar de
fumar, mas não terá força energética pra isso. O paciente pode
até parar por respeito próprio, mas não por força do médico.
Além disso, no acompanhamento com a pessoa atendida, o
profissional sente o próprio movimento sombrio ser ativado. Se
ele não tiver sua sombra consciente corre o risco de ser engolido
pela sombra do cliente.

106
Por Que Fazemos o Mal?

Certa vez uma colega se precipitou a trabalhar com a sombra


de sexualidade de um cliente. A psicóloga percebeu muitas questões
reprimidas e mal resolvidas. Colocou-se como a mãe boa que iria
resgatar as sombras do cliente.
No entanto, ela própria estava com problemas no seu
casamento e sem perceber ficou hipnotizada pelas histórias
dramáticas do paciente. Em pouco tempo, ambos estavam
envolvidos num amor platônico, engolidos cada um pela sua
sombra. O desejo reprimido no casamento dela encontrou
esconderijo na sexualidade pouco ameaçadora do cliente.
Ao cuidar da sombra do outro, a sua própria é tocada. A
pessoa precisa dar autorização e, mesmo assim, tem que estar
preparada. Freud fez uma belíssima recomendação a esse respeito:
“Alguém que, como eu, exorciza os piores demônios semidomesticados que habitam
o coração humano e que procura lutar com eles não pode sair ileso da luta.”
Para trabalhar com esses aspectos é preciso um preparo
peculiar porque tocamos em dimensões que vão além da
compreensão racional.
No entanto, existe um limite para o trabalho com a sombra.
Existe um território que nos é proibido. Um terreno lodoso e
escorregadio que ninguém está autorizado a entrar, sob o risco
de ser engolido pela areia movediça.
Não é sinal de incompetência ou fracasso perceber esse
limite. Pelo contrário, aquele que sabe até onde chegar tem grande
sabedoria. Stephen King, escritor americano de histórias fantásticas,
disse: “monstros são reais e os fantasmas são reais também. Vivem dentro
de nós e, às vezes, vencem!”.
O melhor terapeuta, sacerdote ou filósofo do mundo não
seria capaz de enfrentar certos fantasmas que envolvem questões
de vida e morte. E se você se deparar com alguns deles faça uma
profunda reverência de agradecimento e retire-se respeitosamente
antes de enlouquecer.

107
O que as sombras escondem de bom

“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. . .


Se não houver flores, valeu a sombra das folhas . . .
Se não houver folhas, valeu a intenção da semente...”

Henfil, cartunista, quadrinista,


jornalista e escritor brasileiro

Aqui traremos alguns exemplos do que fazer quando você


reconhecer em alguém a sua sombra.
Quando conseguir encontrar a essência saudável da sombra
ela se tornará sua aliada. Jung com propriedade disse que
“tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a um melhor conhecimento
de nós mesmos.”

Promiscuidade

O sedutor promíscuo que te incomoda anuncia a sua sombra


de sedução. Na essência o sedutor quer obter prazer rápido, fácil e
egoísta. O que indica que talvez você esteja se levando muito a sério,
privado de prazer e sacrificando seus desejos. Seria o sinal para pensar
em satisfazer seus desejos pessoais com mais frequência.

Falsidade

A pessoa falsa incomoda porque no fundo ela tem coragem


de mentir para não fazer o que não quer.
Quem se incomoda com as pessoas falsas são aquelas que
costumam se levar muito a sério e aceitam tudo o que os outros
dizem. A pessoa falsa, no fundo, quer proteger suas fragilidades,
tanto quanto você.

108
Por Que Fazemos o Mal?

Mentira

A pergunta principal a fazer é: até que ponto você prefere


mentiras agradáveis e se recusa a ver verdades dicífeis?
A rigidez é um convite à mentira, pois você está fechado
para ouvir e ver a verdade dos fatos.
O mentiroso na verdade cria uma realidade sempre maior.
Ele quer sentir que está além da realidade e acima do bem e do
mal. E cria uma ilusão fundada nessa necessidade.
Se os mentirosos lhe incomodam, será que você não vive
esse tipo de ilusão?

Intrometido

O intrometido perturba por querer entrar num assunto que


não foi chamado. Acha que é convidado e chega sem avisar em
conversas, lugares e eventos. Ele é pegajoso e carente.
Nossa sociedade, que vem, cada vez mais, estimulando a
independência e o individualismo, rejeita ostensivamente esse tipo
de atitude.
Na essência o intrometido quer ser aceito e valorizado. Se
ele o incomoda é fundamental olhar para si mesmo e perguntar
onde você também se sente rejeitado e negligenciado.

109
Frederico Mattos

Preguiçoso

O preguiçoso deve te irritar por ser sosssegado demais para


o seu gosto, estou certo?
Quanto mais o organizado se incomoda com o preguiçoso
parece que mais esse se acomoda. Um é a sombra do outro. Quanto
mais o organizado quer consertar o preguiçoso, mais sua sombra
fica afastada e o cansaço do preguiçoso aumenta.
Nessas horas, é preciso reconhecer que você já não agüenta
estar “sempre alerta” e no controle de tudo e quer ter um dia de
preguiça.
A sombra da preguiça e lentidão pode o ajudar a ter mais
calma no dia-a-dia e diminuir a ansiedade de ver tudo sob seu
controle e desacelerar o ritmo.

Vingativa

Se há uma pessoa vingativa no seu encalço é melhor


permanecer atento. Na essência, o vingador quer justiça e
reivindica uma condição que lhe foi tirada. O problema é seu
método, pois quer a paz de sua consciência tranqüila às custas da
desgraça de quem lhe fez mal.
Será que você foi completamente justo em todas as situações
da sua vida?

110
Por Que Fazemos o Mal?

Invejosa

O invejoso sempre se constrange com a vitória alheia sentindo


um prazer em diminuir o valor das conquistas dos outros. Essa
sombra remete ao quanto você está em paz com suas conquistas e
se acha realmente merecedor de crescimento. Será que você precisa
do olhar do invejoso para confirmar a sua grandeza?
Na essência, o invejoso quer progredir e não sabe buscar
por si mesmo. Para integrar essa sombra, use o máximo de sua energia
para o seu crescimento e em que área sente inveja dos outros também.

Carente

Quando uma pessoa carente lhe incomoda é hora de meditar


sobre como você dá e recebe amor.
Há pessoas que rejeitam os outros para se sentir superiores.
Outras buscam ser rejeitadas para confirmar sua sensação interna
de menos valia.
Você está querendo reviver uma sensação de superioridade
ou inferioridade no relacionamento amororo? Em essência a
carência remete à nossa criança interior que está em busca de
amor, se puder ouví-la talvez o carente saia do seu pé.

111
Frederico Mattos

Arrogante

Esse é o tipo de sombra a que todos sucumbem. Ninguém


gosta de ter perto uma pessoa altiva, esnobe e cheia de si.
Na essência, o arrogante quer auto-reconhecimento e
necessita que alguém se sinta inferior para que ele cresça. Quer
perceber que está vivo às custas do outro.
Para integrar a sombra da arrogância é preciso perguntar.
Quanto consigo me ver e valorizar? Por que o outro se valoriza
em excesso e eu tão pouco?
Além disso, olhar para si mesmo e reconhecer a fragilidade
que você também tenta evitar.

Controlador

Você já conviveu com uma pessoa controladora?


Provavelmente, sim. São aquelas que controlam seus horários,
atitudes, gestos e até os pensamentos. O controlador pode até
passar despercebido à uma análise mais superficial, pois parece
uma pessoa discreta e até contida em seus impulsos. Mas um pouco
de convívio revela a natureza paranóica do controlador, ele pode
deixar você louco de raiva.
A reflexão que deve fazer diante do controlador é sobre o
seu próprio autocontrole.
Por que precisa de um controlador externo o importunando?
Será que você é maduro o suficiente para se controlar sozinho?
Em essência, o controlador quer a harmonia e se pudesse
obter isso sem muito transtorno ficaria bem. Mas ele não confia
na harmonia que depende dos outros, não está em paz com seu
passado. Você está?

112
Por Que Fazemos o Mal?

Burro

Há quem não consiga lidar com a estupidez alheia. Atribuem


à burrice o mal do mundo.
Na verdade, não existe burrice, mas uma interpretação do
que é inteligência ou não. Mas aqueles que achamos burros querem
se manter na inocência da vida intelectual.
O burro não tem muita credibilidade, pois ninguém leva
muito à sério o que ele fala. A sombra da burrice só revela sua
prepotência intelectual e dificuldade de lidar com os erros.
E se quiser viver em paz com as limitações intelectuais alheias
é preciso olhar para a sua própria limitação.

Dondoca

Um alvo fácil de irritação popular é ver uma dondoca


andando pela rua exibindo-se acompanhada de um cachorro de
raça (tratado como se fosse um ser humano).
“Esnobe, iludida e golpista” muitos pensam.
Especificamente mulheres casadas com maridos ricos.
Elas despertam a ira, pois escancaram o sonho de muita
gente, viver uma vida boa e sem esforço. Se você se irrita com as
dondocas, tire um dia de folga sem avisar ninguém. Talvez sua
irritação indique uma necessidade de cuidar mais de si. Dê a si
mesmo um presente!

113
Paradoxo: o bem e o mal

“Movemo-nos para além do bem e do mal quando nos abrimos


para as fontes de energia criativa (...) Compreendemos melhor o mal se o
considerarmos como a incapacidade ou recusa em vencer a separação.
É a recusa em considerar o mundo como processo.”

Charles Drekmeier
No fundo sempre seremos crianças. Chego a essa conclusão
quando percebo nossa atitude perante a sombra.
Cada um conviveu em algum momento com dores
inimagináveis. Passou por traumas físicos, psicológicos, sexuais e
morais que criaram uma rachadura em sua personalidade.
Toda criança em maior ou menor grau é tomada por esse
tipo de sensação. O resultado é uma quebra fundamental em sua
mente. Depois passa o resto da vida buscando a pureza original.
No princípio de nosso desenvolvimento vivemos um estado
paradisíaco bem demonstrado no mito de Adão e Eva, nus diante
de Deus. Indiferenciados, sem culpas, maldades e vergonhas.
Nessa fase, você tem a sensação de que eu sou bom e o
mundo é bom. Não teme um tiro, um abuso, uma mentira e não
finge ser o que não é. Está entregue a uma realidade agradável.
Confia nos adultos, nos amigos e irmãos e não se protege de nada
e de ninguém. Está psicologicamente no colo de Deus.
Nada o atinge e sabe que será protegido e poupado.
Porém, a serpente rompe esse silêncio no Éden e lhe
atormenta com necessidades e desejos que não podem ser
atendidos prontamente. O cenário para a quebra psicológica está
armado, e a expulsão do paraíso é próxima.
Passamos naturalmente ou precocemente para a segunda
fase em que ficamos alertas e desconfiado com o mundo. Sou
bom e o mundo é mau. Este é o lema!

114
Por Que Fazemos o Mal?

Passa a se rebelar e se defender de tudo e todos. O toque, a


conversa e as pessoas são interpretados como possíveis abusos
pessoais e manifestações interesseiras. Esforça-se para acreditar
nos outros e fica cético com demonstrações de bondade.
Fica envolvida em todas as expressões revolucionárias como
forma de se manter no grupo do bem enquanto combate o mundo
do mau. Isso é muito comum quando alguma pessoa se converte
a uma religião e passa a rejeitar os não-adeptos.
Em uma terceira fase, começa a perceber rachaduras em
sua máscara e perceber que também é capaz de cometer deslizes
em nome do amor e da paz. Percebe que possui a maldade
dentro de si, da mesma forma que a bondade. Nessa etapa,
começa a se sentir culpado por não ser tão bom quanto gostaria e
de repente pode ter sido injusto com alguém.
Entra na quarta fase que equaliza sua visão externa, o
mundo e os outros têm algo de bom também. É quando
percebe que seus pais que, um dia idolatrou, depois contestou e
odiou, tiveram uma dose de razão.
Na última fase e raramente alcançada, desfruta de uma visão
privilegiada que pode identificar o bem e o mal no mundo e no
seu interior como faces de um diamante que não podem se
desconectar. Presencia a sensação de plenitude frente os
acontecimentos e vê que o certo e o errado são interepretações da
ralidade e que acontecimentos contraditórios são verdades paradoxais.
Nesse ponto a sombra se encontra plenamente integrada
na essência. Você não experimenta mais conflito e amplia seus
valores ainda que estejam em pólos opostos.
Uma morte traz uma perda e um ganho, um acidente
também, assim como a guerra.
Depois de um tempo você já não é tomado de radicalismo.
Posiciona-se e se engaja abertamente com o bem-estar do ser humano,
mas compreende o mundo e contempla os desajustes sem indignação.

115
Frederico Mattos

Percebe que o bem e o mal estão a serviço de uma força


transpessoal em prol da transformação global.
Para alguns essa pode parecer uma proposta ingênua, mas
quando sutentamos o paradoxo que vai muito além do bem e do
mal o que reina é a transformação.
E a transformação acontece nos contextos mais belos e
também catastróficos.

116
Benefícios de integrar as sombras

“Essa noite sonhei,


Ah, doce ilusão,
Que havia abelhas em meu coração
a transformar em mel o que errei”

Antônio Machado, poeta sevilhano


A integração da sombra enquanto processo de longo prazo
nem sempre resulta benefícios imediatos.
A lenta comunhão interior com os aspectos desagradáveis
de sua personalidade resulta numa vida mais íntegra e menos falsa.
Pode olhar para o espelho e reparar em todos os seus ângulos.
Integrar a sombra é uma prevenção para problemas de uma
forma geral.
Nem sempre somos fiéis na auto-análise e na balança moral
e não admitimos a capacidade em fazer coisas terríveis. Nelson
Rodrigues, escritor pernambucano escreveu brilhantemente: “O
ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo
proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de
nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de
cena e anunciar, de testa erguida: Senhoras e senhores, eu sou um canalha.”
Todos somos passíveis de erros ou atitudes injustas e se
pudermos olhar com serenidade e sem autocondenação teremos
ferramentas para nos reparar (se quisermos)..

117
Frederico Mattos

Maior consciência de você

A primeira vez que tive ciência de uma de minhas sombras


foi quando tinha nove anos. Eu estava extremamente aborrecido
porque minha avó materna tinha me repreendido por uma
traquinagem. “Quem era ela”, perguntei, “para falar daquele jeito
comigo”. Arquitetei o plano, sabia que ela tomaria seu tradicional
café da tarde enquanto eu estaria na escola. Peguei o açucareiro e
coloquei o máximo de pimenta que pude.
Fui para a escola em paz com minha consciência, pois nunca
desconfiariam. Tomei meu lanche no recreio quando a groselha
desceu a garganta foi como veneno. Tossi e quase vomitei de tanta
ardência. Sem saber do meu plano criminoso ela “adoçou” minha
groselha com o açúcar preparado com pimenta. E o pior, cheguei
em casa rosnando e brigando. Além de não usar o açúcar, ela
adoçou meu suco. A sombra me engoliu.
Com maior consciência, não precisará se esconder, poderá
agir sem medo. As máscaras se tornarão dispensáveis e poderá
conviver com os outros sem justificativas.
A sua autoestima irá melhorar, pois você se aceitará como
é, com todos os defeitos. Não será escravo da aprovação social.
Certo e errado, bom e ruim não farão mais sentido.

Consciência das emoções negativas

Como já disse, os sentimentos são o motor que movimenta


a vida. Se eles sinalizam um movimento interno, você precisa ouvir
cada alarme que toca.
O seu egoísmo, inveja, ciúme, desejo, agressividade, sede de
poder e vingança indicam um caminho mental.
Quando você olhar para o seu ódio, desejo, vício e sadismo,
tirará deles uma força incomum. Quando esses sentimentos voltam

118
Por Que Fazemos o Mal?

a participar da consciência eles são excelentes conselheiros.


Quando sentir raiva, não precisará se culpar e punir. O
desejos serão aceitos. A inveja, canalizada; o medo, encarado e a
tristeza, superada.
Cada emoção conflitiva indicará uma tendência da sua alma.
Na medida que perder a vergonha ou a culpa, encontrará um
médico curador dentro do seu coração.
Perdoar as pessoas e acontecimentos passados

O que lhe faz ficar magoado? Uma ofensa sofrida.


O que lhe faz não perdoar essa mágoa? O seu sentimento
de superioridade. Baseado no quê? Na idéia de que você seria
incapaz de agir da mesma forma. E o que é isso? Sombra.
Isso responde porque não conseguimos perdoar. Estamos
num patamar moral acima do agressor. A condição de vítima dá o
direito de julgar e tira do agressor o direito de ser humano. É
sentenciado como um monstro. E entre humanos e monstros não
há perdão, pois não há comunicação.
Jung foi sábio ao dizer: “Como posso ser substancial sem dispor de
uma sombra? Eu também preciso ter um lado escuro, se quiser ser inteiro; e,
tornando-me consciente de minha sombra, lembro-me, novamente, de que sou
um ser humano como qualquer outro”
Quando um jovem se torna pai e se vê cometendo os
mesmos erros começar a entender seu pai.
O perdão não é um ato simples e mecânico, é uma longa
revisão dos passos para além do bem e do mal. É um processo
emocional que nada tem de moral, pois para perdoar, o inimigo
precisa ser visto como um ser humano, assim como eu mesmo.
Depois que integrar sua sombra e perceber que é uma pessoa
capaz do bem e do mal, estará lado a lado com seu agressor. Só assim será
capaz de perdoar o mal sofrido e o agressor no silêncio de seu coração.

119
Frederico Mattos

Identificar a sombra dos outros agindo sobre você

O contato com sua sombra permite perceber intuitivamente


quando está sendo enganado, trapaceado, traído e humilhado.
E isso tem uma explicação simples, toda vez que você
subestima sua capacidade de prejudicar alguém, corre o risco de
cair no “conto do vigário”. Acreditará que as outras pessoas não
conseguiriam ser tão maldosas.
Não há limite para a maldade humana. As grandes tragédias
da história denunciam até que ponto podemos chegar.
Somos capazes de atentados terroristas, radicalismos
religiosos, genocídio, parricídio, corrupções, estupros e atrocidades
de todos os tipos.
Assim como grandes empresas terceirizam seus serviços para
pequenas empresas, nós, “grandes consciências limpas”,
terceirizamos nossa sombra.
Quando se apropriar de sua sombra, conseguirá identificar
uma mentira, pois sabe que a mentira pode sair de sua boca.
Por exemplo, o seu amigo pede um dinheiro emprestado e
conta uma história que justifique. O “radar sombrio” te dirá, “meu
amigo está mentindo”, mas minha boa consciência diz, “o que é
isso, ele não seria capaz de mentir tão descaradamente”. Mas, para
manter a amizade de anos, fingirá que acredita na história.
Emprestará um dinheiro que não tem, na certeza que será
reembolsado em breve. Se tivesse ouvido seu “radar sombrio”
teria dito: “ok, amigo, nos conhecemos há muito tempo, você deve
estar com alguma dificuldade. Acho que não quer me contar, posso
te ajudar de outro jeito, deve haver outra saída, além do dinheiro”.
Preservaria seu dinheiro, a amizade e, o melhor, não deixaria
que seu amigo fosse engolido pela sombra da trapaça.

120
Por Que Fazemos o Mal?

Ser livre diante dos sentimentos difíceis

Muitas pessoas acreditam que sentir culpa é o passo final


para o reconhecimento da sombra.
Vivem com um chicote moral golpeando a si mesmas.
Estar vivo é perceber que está participando do sofrimento
que existe nesse mundo.
Muitas vezes a dor que nos atinge arrasa com todas
esperanças. O medo assume o controle e queremos desistir de
tudo. A sensação de que nada vai mudar domina o pensamento.
Esse tipo de auto-acusação é estéril, pois é um julgamento
incompleto da realidade. Os sentimentos sombrios são
sinalizadores sábios para indicar novas direções.
A dor da perda aponta para uma conquista. A raiva pela
injustiça sofrida sinaliza um recomeço. Um acontecimento trágico
possibilita um aprofundamento de certos valores.
Por isso, assumir sentimentos difíceis fará de você uma
pessoa realmente madura.

Reconhecer suas projeções

Toda vez que você fizer fofocas, falar mal de alguém terá
um valioso tesouro.
Além de enxergar algo de maldoso que alguém tenha
realmente feito, conseguirá identificar a sua sombra.
Bin Laden, Genghis Khan, Hitler, Napoleão Bonaparte,
Bush e os escândalos sensacionalistas na mídia carregam nossa
sombra. Enquanto você senta no sofá confortável e julga as
maldades do mundo, fica limitado diante da sua maldade.
Se não for com a cara de alguém, reconhecerá sua sombra,
recolherá sua projeção e desfará o mau entendido.

121
Frederico Mattos

Fazer as pazes com a sombra prevenirá seus julgamentos


equivocados sobre os outros.
Esse presente abundante será depositado diariamente no
seu cofre emocional. Cada oportunidade cotidiana será uma chance
de conhecer uma nova faceta de sua personalidade.
Isso é realmente fantástico!
Clareza nos relacionamentos

Com maior consciência do que você é e do que os outros


representam na sua vida, seus relacionamentos serão mais felizes.
Seu olhar para as pessoas será menos contaminado pela sua
sombra. Nas sua família, perceberá o que tem de sombrio e
semelhante ao seu pai, mãe e irmãos.
Um casal com essa consciência fica desarmado. Os
desentendimentos são tratados com mais respeito e sem acusações
infantis. Sem projeção, você assume sua parte nos problemas e na solução.
“Essa pessoa me enganou”, dará lugar a: “me deixei enganar,
no fundo queria enganar também”. Tudo fica mais honesto e
transparente. No trabalho, as relações melhoram de qualidade. Seu
chefe e seus colegas lhe ensinarão como você lida com a sombra
do poder e espírito de equipe.
Essa prevenção de conflitos desgastantes e inúteis permitirá
a você relacionamentos mais abertos.
Equilíbrio interior

Integrar a sombra possibilita a diminuição do mal dentro de


você e como resultado, a paz de espírito.
Com o coração em paz com a sombra, ocorre um equilíbrio
saudável entre as tendências construtivas e destrutivas de sua
personalidade. Você adquire autocompaixão e liberdade para agir
com amor frente a tudo.

122
Exercícios

“Uma pessoa não se torna iluminada


ao imaginar formas luminosas,
mas sim ao tornar consciente a escuridão.
Este último procedimento, no entanto,
é desagradável e, portanto, impopular.”

Carl Gustav Jung

Todos os exercícios aqui expostos são sugestões para


autoconhecimento. Você não precisa se obrigar a fazer qualquer
um deles.
Não existe uma ordem temporal para realizá-los, mas
procure não realizar todos de forma apressada. O trabalho com a
sombra é gradual. Se a pressa o dominar, é muito provável que
acabe realizando uma descoberta intelectual sobre a sombra. E a
verdadeira revelação é integral, corpo, mente e espírito sentem
as repercussões positivas com resultados observáveis pelo mundo
à sua volta.
Subdividi os exercícios em básico, intermediário e avançado.
E, portanto, se quiser seguir alguma ordem, procure iniciar pelos
básicos. Nenhum deles tem contra-indicação, mas os avançados
requerem mais de experiência e podem gerar maior desconforto
e angústia.
Qualquer desses exercícios podem incluir a realização de
terapia. Aliás, a terapia individual, de grupo, de casal e outras
sempre são recomendadas em paralelo, pois a terapia será
enriquecida com esses novos elementos.
No momento que quiser interromper qualquer exercício,
fique livre. Com cuidado, sempre reserve um tempo adequado à

123
Frederico Mattos

realização das atividades. Não sabemos quais sentimentos irão


despertar em você.
Não retome as atividades cotidianas imediatamente após a
realização de qualquer exercício. Dê um tempo a você para digerir
o que vivenciou.
Lembre-se você não é obrigado a seguir todos até o fim.
A conexão com sua essência antes de qualquer exercício
é fundamental. Ela é sua lanterna no meio da escuridão. Os
mergulhadores mais experientes que descem nas profundezas do
oceano se munem de uma série de cuidados para que o seu
organismo não seja afetado.
Eles descem equipados com os aparelhos de respiração,
comunicação com a base que está acima da superfície, trabalham
em equipe e nunca fazem descidas ou subidas bruscas. Estão
conectados com a superfície.
Isso pode ser feito em grupo, em dupla ou sozinho, você
escolhe segundo o seu maior grau de confiança. Existem pessoas
que preferem fazer esses exercícios supervisionadas, ou outros
preferem a liberdade da solidão para não sofrerem a censura
externa.
Durante qualquer exercício, se percebeu muito desconforto,
pare, relaxe, respire e espere.
É possível que você fique muito ligado em imagens,
sensações corporais e sentimentos que talvez perdurem sobre você.
Se for algo muito perturbador, você pode adotar duas posturas,
retornar ao exercício ou deixar que ele dissipe sua força.
Retornar ao exercício pode aumentar o incômodo até que
você possa absorver uma quantidade maior de energia.
Para dissipar a energia, faça novamente o exercício padrão e
básico para início de qualquer exercício.

124
Por Que Fazemos o Mal?

Exercício básico e padrão antes de realizar


qualquer exercício

Procure um lugar onde não possa ser interrompido com


facilidade.
Sente-se de maneira confortável. Respire tranquilamente.
Se tiver com a respiração mais fraca, force suavemente a
respiração, deixe o ar entrar. Se tiver com respiração acelerada,
busque serenar para uma respiração natural e fluida.
Se quiser feche os olhos. Essa é uma maneira simples de se
desligar das distrações externas. Se consegue boa concentração de
olhos abertos ou se isso o deixa mais seguro, prossiga.
Faça contato com seu corpo. Observe cada parte e membro
do corpo. Respire e se mantenha atento a cada reação.
Quando perceber que estiver fugindo do seu centro pessoal,
volte o foco para a sua respiração.
Para fazer contato com sua essência, lembre-se de momentos
felizes, simples e que sentiu mais fortemente o amor ou afeto de
alguém.
Deixe-se dominar por essa sensação agradável.
Busque conexão com o mundo que você vive, imagine a Terra
à distância e sinta a grandeza que ela representa. Afaste-se mais e
veja a Terra em relação com os outros planetas do sistema solar.
Você está conectado à imensidão do universo.
Sinta como tudo se conecta a tudo e você está tomado por
essa sensação positiva de grandiosidade.
Se quiser imagine os seres iluminados que passaram ou vivem
na Terra e se ligue a eles.
Agora vá sentindo que retorna a atenção ao seu corpo e
lentamente vai abrindo os olhos. Agora está ligado à sua dimensão
mais profunda, essencial ou espiritual.

125
Básico

Contato com as emoções

As emoções são reações psicológicas aos eventos internos e


externos que dão a textura e base para suas ações cotidianas.
São como nuvens no céu que se fazem, desfazem e
readquirem formas diferentes, mas fatalmente são passageiras.
Algumas emoções são mais básicas e freqüentes.
Afeição, medo, alegria, tristeza, raiva, vergonha, tranqüilidade,
entusiasmo.
É fundamental você saber diferenciar cada uma delas, ainda
que estejam ligadas a outras emoções, sentimentos e pensamentos.
Pois cada emoção vivenciada é uma pista importante para atingir
nosso inconsciente.
É importante diferenciar emoções de sentimentos, pois os
sentimentos formam um tecido mais complexo e duradouro de
emoções misturadas com avaliação não-racionais da realidade
externa e observável. O sentimento não é pensado e por isso é
não-racional, mas não deixa de ter uma atração e/ou repulsão
com relação a algo.
O amor é um sentimento que envolve afeição, admiração,
confiança, entrega, aceitação e empatia. O ódio é um sentimento
que envolve mágoa, raiva, desgosto, amargor e fragilidade.
É importante diferenciar os sentimentos dos pensamentos,
ainda que emoções, sentimentos, pensamentos e sensações físicas
estejam extremamente conectados na essência e sejam um todo
psicológico inseparável.
Preocupação é um sentimento povoado de pensamentos de
antecipação sobre o futuro, emoções de medos difusos sobre um
mal vindouro e tristeza por algo que já aconteceu.

126
Por Que Fazemos o Mal?

Os pensamentos assumem vozes mais ou menos claras sobre


um acontecimento e tecem avaliações ou julgamentos sobre esse
evento de forma positiva ou negativa. Rotulam, restringem, ampliam,
separam, unem, enfim, os pensamentos tem muitas propriedades.
As pessoas psicologicamente maduras conseguem sustentar
pensamentos aparentemente contraditórios e paradoxais sem
grande problema, constrangimento ou favoritismo.
Portanto, quando me pergunto o que sinto e respondo
“ansioso com tudo que ocorrerá essa semana”, preciso separar o
que é sensação, emoção, sentimento e pensamento. Todos estão
misturados. Sinto fisicamente agitação corporal nas mãos, coração
acelerado; emocionalmente sinto medo se serei bem-sucedido no
que fizer; nutro sentimento de insegurança sobre o papel que irei
desempenhar e pensamentos confusos sobre mau desempenho
associado com memórias de reprovação de algumas pessoas das
quais gosto e de quem busco aceitação.

Identificação da máscara

Já falamos sobre as máscaras que assumimos durante a vida


diante das situações de possível conflito pessoal.
Faça uma lista de tudo aquilo que as pessoas costumam falar a
seu respeito, como característica marcante, não necessariamente elogiosa.
Todos os seus talentos e os motivos pelos quais as pessoas
gostam de você. Tente estabelecer um padrão de como normalmente
se comporta para obter aceitação dos outros para então indentificar
quais são as fragilidades escondidas atrás da máscara.
Aqui seguem algumas sugestões: o perfeitinho, o bondoso,
o amigo de todos, o realizador, o intelectual, o sensível, o forte, o
alegre, o bravo, o espiritualista, o cético.
Agora a partir da máscara comece a revertê-la como se
pudesse virá-la do avesso e olhar a sua sombra.

127
Frederico Mattos

O perfeito – raiva, desorganização


O bondoso – egoísmo, inveja, manipulação
O amigo – egoísmo, interesseiro
O realizador – caótico, destruidor, manipulador
O intelectual – a ignorância, a emocionalidade
O justo – a trapaça, desonestidade
O emotivo – a racionalidade, praticidade
O forte – fragilidade, docilidade
O alegre – tristeza, dureza da vida
O bravo – a leveza, carinho
Espiritualista – materialismo, ceticismo
Cético – fé, entrega

Não procure julgar e nem rejeitar o que identificou. Apenas


permaneça em contato com esse sentimento de constrangimento
e talvez culpa.
Esse é um dos primeiros passos para reconhecer
profundamente o que está no mundo subterrâneo da sua mente.
Você se sentirá tentado a justificar cada uma das descobertas,
mas isso só fará você perder a riqueza do que descobriu. Se não
conseguir passar por essa etapa é ideal ter persistência, pois o
método funciona quando você consegue desvendar a sua máscara
para acessar sua sombra.

128
Por Que Fazemos o Mal?

Recortes de jornal

Pegue o jornal do dia e recorte todas as reportagens que


causem em você algum desconforto ou indignação.
Depois destaque os assuntos que são mais chocantes para
você. Faça uma lista dos itens que saíram com mais freqüência.
Medite sobre os motivos sombrios que estavam por trás de
cada um dos recortes.

Brinque de bobo da corte

Esse exercício consiste em dizer abertamente o que vêm à mente.


Os bobos da corte eram pessoas que zombavam da realeza
da maneira mais honesta possível. Trazia a voz revoltada do povo
aos palácios de maneira cômica. O rei ouvia os comentários de
maneira jocosa, ainda que ele fosse o alvo da zombaria.
Vamos tratar nosso imperador interno, cheio de ordens, leis
e proibições como os bobos da corte faziam com os reis.
Diga tudo que lhe vier à mente, como um bobo da corte
fazia. Deixe sua mente solta, sem restrições. No começo pode
parecer difícil, principalmente para aqueles que tem um nível de
autojulgamento acentuado.
Qualquer coisa é válida. Se ficar preocupado em registrar o
que está sendo dito como material de análise traga um gravador
ou uma câmera. Se preferir apagar tudo depois, não importa. O
importante é você ultrapassar a barreira inicial da vergonha, da
culpa ou da reprovação.
Não se preocupe se Deus, seres celestes ou espirituais estarão
lhe reprovando, esse é um exercício de autoconhecimento e não
será utilizado para afetar ninguém.
Quando você sentir um esgotamento das idéias, procure

129
Frederico Mattos

tentar um pouco mais. Mas se já foi o suficiente para você, pare e


relaxe. Normalmente, isso por si só cura algumas feridas
superficiais. Algumas imagens, sensações corporais e sentimentos
continuarão perdurando sobre você.

Técnica da reversão de afirmativas

Essa técnica visa fazer você sair da posição de vítima passiva


dos acontecimentos e assumir uma responsabilidade em pelo
menos 50% da situação.

Ex: A minha mãe me deixa aborrecido


Eu quero aborrecer a minha mãe
Eu quero ser aborrecido pela minha mãe

A meu marido se afasta de mim sexualmente


Eu afasto sexualmente meu marido
Quero me sentir desprezada

Todos me enganam
Eu gosto de enganar os outros
Eu procuro pessoas que me enganam para me sentir vítima
da trapaça alheia

Esse exercício devolve para você a sensação de poder e


controle sobre a sua vida. Ajuda a desfazer a sensação de fraqueza
diante da realidade externa.
Pode ser constrangedor à princípio, mas com o tempo se torna
uma técnica fundamental para desfazer auto-enganos que criamos
inconscientemente para manter o sofrimento em nossa vida.

130
Por Que Fazemos o Mal?

Identifique as manifestações da sombra no dia-a-dia

Ao longo do livro citei oito caras que a sombra assume.


Agora procure identificar esses aspectos em sua vida
respondendo com tranquilidade às perguntas abaixo. Se preferir,
escreva as respostas.

Repressão

O que você vem reprimindo no seu mundo interior?


Quais são seus desejos mais profundos?
O que você esconde sobre a sexualidade?
O que você faz com sua raiva?
O que você faria com muito dinheiro?
O que faria se tivesse muito poder?
O que faria se fosse famoso?
Que parte do corpo você esconde?

Agora procure analisar onde essa energia que você reprimiu


pode estar sendo descarregada. Veja se tem alguma doença física
que foi gerada pela raiva acumulada. Perceba se o estresse que
vive tem relação com essa energia reprimida. Se existe alguma parte
do corpo que tem angústia acumulada. Sua ansiedade tem ligação
com essa repressão? Sente bloqueio no desempenho sexual? Acha
que alguém pode estar usufruindo da energia financeira que você
reprime? Sua timidez pode ser um sinal da repressão do seu desejo
de fama? Você tem se submetido à situações humilhantes por
reprimir seu sentimento de poder?

131
Frederico Mattos

Negligência
Quais são as coisas que você fazia quando criança e jovem e
deixou de fazer?
Como você se cuidava antes de entrar no ritmo alucinado
da vida adulta?
Qual era a característica que tinha quando pequeno e que já
não tem mais?
Quais momentos bons você guarda do passado?
O que você admira nos outros e acha que não conseguiria fazer?

Observe se a vida não está trazendo situações que resgatem seus


potenciais escondidos e negligenciados. Perceba se aquilo que admira
em alguém se associa a algo que já fez em sua vida e não se lembra.

Culpa
Quais são as maiores culpas que você carrega?
Quais os erros que você normalmente comete e vê que
sempre pede desculpas?
Quais pessoas se afastaram de você e por qual motivo?
Você já se sentiu responsável por coisas em sua vida que
considerou um fracasso?
Quais suas frustrações?
Veja se existe alguma coisa que se culpa nos momentos de
depressão?
Já agrediu física ou psicologicamente alguém?

Analise cuidadosamente quais inibições você carrega por


ter se sentido culpado. Escreva situações de fracasso em sua vida
e como você pode estar se boicotando por sentir um peso na
consciência? Veja se já não se acostumou a cometer os mesmos
erros e só finge que se culpa.

132
Por Que Fazemos o Mal?

Segredo

Conte pelo menos cinco segredos que você esconde dos


outros com detalhes. Se tiver receio, depois queime o papel ou
apague o documento do computador.

Agora analise que situações de sua vida foram prejudicadas


pelo seu medo de ser descoberto. O que você deixou de fazer para
seu segredo ser preservado ou o que você fez em excesso?
Quais mentiras tem que contar ou assuntos omitir para
manter tudo guardado debaixo de sete chaves? E como isso acaba
prejudicando seus desenvolvimento integral (físico, psicológico,
espiritual, social e cultural)?

Trauma

Quais os momentos mais traumáticos que você teve em sua vida.


Traumas físicos-sexuais
Traumas emocionais
Traumas intelectuais
Traumas espirituais
Traumas amorosos
Traumas familiares
Traumas sociais
Traumas materiais

Analise quais bloqueios você ainda carrega devido a esses


traumas. Para cada tipo de trauma, identifique a sequela que existe
no seu cotidiano.

133
Frederico Mattos

Condenação

Quais são os seus assuntos tabus?


Quais as pessoas que critico?
Que tipo de comportamento mais me incomoda nos outros?
Quais atitudes me irritam no dia-a-dia?
Quais são as maiores mágoas que você guarda?
Quais são os temas e pessoas preferidos de minhas fofocas?
O que me causa indignação nas notícias da mídia?

Observe os temas que se repetem e comece a analisar o que eles


escondem sobre minha personalidade ou acontecimentos de minha
vida pessoal. Perceba atitudes que você teve semelhantes àquelas com
as quais você se magoou. Pense onde sua energia é gasta em criticar e
condenar os outros e em que poderia estar sendo melhor empregada.

Negação

O que as pessoas costumam falar sobre seus compor-


tamentos e personalidades que você rejeita?
Que acontecimento pode estar ocorrendo em sua vida que
você prefere nem olhar?
Qual acontecimento desastroso está se formando em sua
vida que não tem dado atenção?
Quais são os assuntos evitados com as pessoas à sua volta?
Pais _____________________
Cônjuge _____________________
Familiares _____________________
Amigos _____________________
Chefe _____________________
Subordinados _____________________

134
Por Que Fazemos o Mal?

O que você nega sobre si mesmo com relação à sua vida?


___________________________________________

Analise que situações na sua vida estão paralisadas,


complicadas ou mornas pelo fato de estar negando essas situações,
pessoas ou assuntos.

Medo

Qual medo tem de objetos, lugares e animais?


Qual medo tem nos relacionamentos?
Quel medo sobre o futuro?
Qual medo tem sobre a existência?

Perceba se seus medos têm realmente afastado o que você teme


ou se pelo contrário, só atraíram o objeto de temor para mais perto.

Maldade

Quais foram as maiores maldades que você cometeu na


infância?
Quais foram as crueldades que cometeu na adolescência?
Quantos desafetos você conquistou ao longo da vida?
Quais são as acusações que seus inimigos lhe fazem?
Quais são os hábitos perversos que comete com relação ao sexo?
Quais são os hábitos perversos que comete com relação ao
dinheiro?
Quais são os hábitos perversos que comete com relação ao
campo profissional?
Quais são os hábitos perversos que comete com relação ao
relacionamento amoroso?

135
Frederico Mattos

Você explora alguém? (emocionalmente, financeiramente,


espiritualmente, mentalmente ou socialmente)
Quais chatangens costuma fazer?
As auto-acusações que faz quando está deprimido tem uma
dose de verdade?
Em que tipo de intrigas você se envolve?

Intermediário

Vítima-algoz-salvador

Esse exercício pode ser feito individualmente, mas é muito


mais produtivo, intenso e até divertido em grupo.
Um tema de conflito é eleito, como uma história retirada do
jornal, ou alguma fofoca que se tenha ouvido.
Formam-se grupos de três pessoas. Não se recomenda
realizar o exercício com pessoas que não estejam abertas a essa
proposta, pois podem pensar que você está maluco!
A partir daí uma pessoa representa a vítima da situação e
age como ela. Se lamenta, se explica, se justifica e fica auto-piedosa.
Outra pessoa representa o advogado de defesa, ou o salvador,
para intervir em favor da vítima e rebater o algoz.
Por último, alguém representa o algoz, atacando, rechaçando,
humilhando, agredindo a vítima e o salvador.
Cada representante terá o seu primeiro momento de
argumentação e depois entram num debate acalorado.
Após o primeiro debate os representantes fazem um rodízio
e cada um defende a posição de outro personagem. Até que na
última rodada todos tenham interpretado todos os papéis.
Essa técnica visa desenvolver a empatia, ou seja, conseguir

136
Por Que Fazemos o Mal?

se colocar em vários papéis e situações na vida, e, além disso


desenvolver as várias facetas de sua personalidade.
Cada pessoa tem dentro de si algumas posturas mentais
diante dos conflitos. Nos desenhos animados, são representados
pelo anjinho que tenta levar para o bom caminho e o diabinho
que tenta levar a fazer aquilo que é “errado”.
O problema é que nessa dinâmica mental não há resolução.
A vítima está presa no fracasso e na queixa, o algoz na violência e
vileza e o salvador na pretensa e ilusória superioridade moral.
Todos esses papéis são caricaturas fragmentadas da condição
humana, pois, quando assumimos as fragilidades da vítima, a força
do algoz e a benevolência do salvador podemos viver tudo o que
nos pertence.
Podemos ser inteiros e protagonistas de nossa existência.
Assim, podemos fazer com situações da vida, permanecer
na condição de vítima, algoz e salvador só nos limita os passos e
restringe à impotência.

Busca das raízes do mal – crenças distorcidas

Crie uma lista de características negativas dos seus pais, de


comportamentos ruins no seu relacionamento com eles, frases
que eles diziam e de traumas que passou.

Ex: Colocarei um caso mais complexo para ficar claro como


fazer o exercício, mas situações mais simples também podem
ser analisadas.
Uma mulher de 37 anos com problemas de depressão e solidão.

137
Frederico Mattos

Características negativas

Pai Mãe
Autoritário Passiva
Dominador Manipuladora
Invasivo Chantagista
Boca suja Agressiva
Alcoolista Vitimesca
Intempestivo Instável
Comportamentos ruins

Pai Mãe
Me batia Me diminuía na frente das amigas
Nunca estava presente nos Falava mal de meu pai o tempo todo
momentos bons e ruins
Reclamava de tudo que eu fazia Dizia que eu tinha que me casar com um homem rico

Me humilhou em vários Ficava deitada na cama o tempo todo


aniversários
Frases
Pai Mãe
Mulher é tudo vagabunda Seu pai é um louco
Onde eu estava com a cabeça Os homens não prestam
quando casei com sua mãe
Eu só trabalho e não ganho Você tem que ser forte e rica
nada em troca
Eu ainda dou um tiro na cabeça Case com um homem que te dê tudo

Traumas
Vi meu pai se suicidar, minha mãe ficou internada num hospício, fui levada para um
abrigo, meninos mais velhos me usaram sexualmente, já tentei o suicídio

Crenças distorcidas

138
Por Que Fazemos o Mal?

No momento em que você for capaz de identificar as raízes


de suas crenças sombrias já será um grande passo para redirecionar
suas ações para a escolhas pessoais.
Robert Bly, psicólogo junguiano, diz que “passamos nossa vida,
até os 20 anos, decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na
“sacola”, e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá”, ou seja,
depois que chegamos a uma maturidade de vida começamos rever
nossas crenças distorcidas para construir o nosso próprio destino.

Técnica de cercar seu inimigo

Imagine o seu “inimigo” (pessoa ou situação) à sua frente e


imagine quatro pessoas que estão ligadas à pessoa. Em seguida, se
imagine no lugar dessas pessoas e faça reflexões e julgamentos
positivos ou negativos sobre seu inimigo.

Ex.: minha sogra – minha inimiga, porque se intrometeu no


meu casamento.
Empregada dela – ela é uma patroa carinhosa, respeitosa e zelosa
Irmã dela – ela sempre me ajudou em muitas ocasiões apesar
do temperamento difícil
Filha dela e minha esposa – minha mãe é uma pessoa sofrida,
sei que me atrapalha em muitas coisas, mas eu a amo.
Marido dela e pai da minha esposa – já não suporto mais
essa mulher na minha vida, só a voz autopiedosa dela me dá vontade
de me enforcar.
Agora obtenha uma imagem geral do seu inimigo.
Acrescente o ponto de vista de uma Consciência Suprema, ou
divina ou como quiser nomear.
Consciência – essa pessoa está em processo de evolução
possui a coragem, o amor ao outro e a honestidade como pontos

139
Frederico Mattos

fortes, e possui a instabilidade pessoal, a autocomiseração e o amor-


próprio como pontos fracos.
Se quiser fazer com você mesmo o processo, siga os mesmos
passos. Esse exercício auxilia a olhar a mesma situação ou pessoa
por diferentes ângulos, desenvolvendo a alteridade, empatia e a visão
sistêmica sobre a vida. Isso previne julgamentos parciais, projeções
de sua sombra e ajuda a ter um olhar mais maduro sobre a realidade,
já que temos muitas limitações no modo de ver. Essa técnica só
funciona se conseguir se entregar emocionalmente ao processo. Se
for somente uma análise intelectual, o seu desconforto continuará.

Linha do tempo sombria

Fazer duas linhas do tempo, dividir por idades e anotar em


que fases da vida você agiu como algoz de alguém e quando foi
vítima de alguém.
A lg o z id ad e V ít im a id ad e
A g red i m eu m elh o r 6 A p an h ei d o am ig o d a 5
am ig o es co la

B at i n o irm ão caçu la 8 M eu irm ão m ais v elh o 7


m e d eu u m a s u rra

Z o m b av a d e u m p rim o 1 0 Fu i caço ad o co m 9
d eficien t e ap elid o s

No ex ércit o , eu 1 8 F u i h u m ilh ad o n u m a 17
h u m ilh ei u m calo u ro en t rev is t a d e em p reg o s

E u ch am o at en ção d o s 3 1 M eu ch efe m e o fen d e 28


m eu s fu n cio n ário s d e n a fren t e d o s co leg as
fo rm a g ro s s eira

G o s to d e faz er m in h a 3 6 M in h a m u lh er me 37
m u lh er p arecer lo u ca n a en fren t a e o fen d e n a
fren t e d o s filh o s fren t e d o s filh o s

140
Por Que Fazemos o Mal?

A técnica da linha do tempo nos ajuda a perceber uma série


de eventos que se relacionam no tempo.
No exemplo acima, pode-se perceber que as situações de
vítima antecediam as de algoz e parece que possuem alguma
relação. É como se o histórico de agredido-submisso e agressor-
dominador se intercalassem.
Na medida em que era agredido e sentia dor emocional queria
descontar a dor agredindo e submetendo alguém mais frágil. E por
sua conta, sentia culpa e ficava vulnerável para que uma agressão
posterior acontecesse. Até que o papel de vítima e algoz ficam difusos
e numa mesma situação a pessoa transita pelos dois papéis.
Assumir consciência disso é algo libertador e doloroso para
nós, pois toda vítima já dominou e todo dominador foi vitimado
por alguém. Só a consciência nos liberta desse ciclo.
Se quiser incluir também uma linha do tempo em que se
sentiu salvador de alguma situação também é possível.

Técnica do diálogo com os pais

Os pais são nossa primeira fonte de amor na vida. Por


conseqüência são nossa primeira fonte de frustração, dor e raiva.
A mágoa que sentimos deles são decorrentes da privação real ou
imaginária de amor. Digo imaginária, pois quando crianças a nossa
percepção sobre o amor é limitada e podemos enxergar situações naturais
da vida cotidiana dos pais como rejeição, agressão ou abandono.
Queremos amor exclusivo e na ausência deste nos
sentimentos não-amados.
Esse exercício visa reencontrar os sentimentos originais de amor
e carinho que foram tirados de nós. Para isso é preciso reconhecer
que atrás de nossas mágoas e raivas havia um sentimento original de
amor machucado. Se tiver paciência para fatiar uma mágoa, de qualquer
espécie, por traz encontrará um amor decepcionado.

141
Frederico Mattos

Feche os olhos e busque imaginar cada um dos pais e crie


um diálogo sincero com cada um deles.
Sempre respeite algumas regras básicas nessa conversa.
Fale na primeira pessoa.
Fale de seus sentimentos.
Não acuse, mas fale do que sentiu diante de fatos.
Busque a sua paz no diálogo e atacar alguém só aumentará
sua culpa frente o que sente de ruim.

Ex:
“Mãe, eu fiquei com muita raiva por tudo que aconteceu.
Eu me senti fraca para lutar pelo que queria na escola e não me
senti apoiada por você diante do papai para continuar estudando.
Isso prejudicou minha carreira. Sempre esperei de você uma
demonstração de amor através de elogios à minha aparência, mas
você fazia questão de debochar de minhas roupas e de meu rosto.
Me senti tão triste quando você se recusou a me dar um abraço
quando meu cachorro morreu. No fundo queria que você me
olhasse como uma pessoa especial. (choro) Que me amasse como
sua filha querida.”

Técnica do diário sombrio

Registre tudo o que lhe aborreceu durante uma semana. Veja


quais pontos existem em comum.
E forme uma imagem global de suas sombras diárias e
perceba onde você age do mesmo jeito na sua vida, mesmo que
seja em outra área e em me.+nor intensidade.
Faça a análise no final de um mês para que possa ter uma
visão global de sua sombra.

142
Por Que Fazemos o Mal?

Ex.:
Data:
Situação:
Reação interna que você teve:
Reação externa que você teve:
O que esperava:
Conteúdo da sombra:
Data: 30 de janeiro
Situação: Meu amigo se atrasou para um almoço
Reação interna que você teve: Fiquei irado, porque não
admito atrasos.
Reação externa que você teve: fiz um comentário rápido e
tive dificuldade de manter a conversação sem dar algumas alfinetadas.
O que esperava: Pontualidade, respeito e consideração
Conteúdo da sombra: Desorganização, desrespeito

Data: 7 de fevereiro
Situação: minha namorada fez uma brincadeira de mau
gosto na frente de meus amigos.
Reação interna que você teve: fiquei com vontade de meter
a mão na cara dela.
Reação externa que você teve: sorri sem graça e ignorei
ela durante meia hora.
O que esperava: sobriedade, companheirismo e respeito
Conteúdo da sombra: Desrespeito e sadismo

Fica claro nesse exemplo o conteúdo de desrespeito que está


na sombra. A reação interna de raiva, a externa de tolerante, porém
usando de agressões passivas para atingir os outros. E os idéias e
expectativas de um companheirismo perfeito e sem manchas.
É interessante analisar qual a reação interna, pois ali poderá

143
Frederico Mattos

ver indícios da sombra. Também a reação externa que nos ajuda a


identificar a máscara que usamos.
Observe que aquilo que esperamos dos outros é tudo aquilo
que nutrimos de expectativas a nosso respeito e que, muitas vezes,
são anseios impossíveis na realidade prática.

Convide seus amigos

Entregue um papel para as pessoas mais próximas de você


e peça para que escrevam anonimamente seus defeitos sem
poupar nenhum.
Em seguida analise aqueles que mais se repetiram e faça
uma meditação sincera sobre acada um deles. Lembre-se que o
anonimato pode fazer algumas pessoas exagerarem e até projetarem
coisas delas em você.
Mas ainda assim é interessante você analisar que consegue
receber projeções por algum motivo sombrio na sua personalidade.

Técnica dos preconceitos

Faça uma lista dos preconceitos que você tem. E em seguida


faça uma análise dos conteúdos subjacentes em cada preconceito.
Coloquei essa técnica entre as intermediárias, pois é difícil para o
principiante admitir que tenha algum preconceito com algo ou alguém.
A lista seria interminável, mas seguem algumas sugestões.
Cor, raça, condição social, financeira, aparência, tamanho,
peso, gênero sexual, orientação sexual, comportamento sexual,
religião, política, esporte e outros.
Depois descreva o que mais incomoda nessa classe e vá
buscando causas mais profundas para esse incômodo em situações
específicas da sua vida.

144
Por Que Fazemos o Mal?

Deixe-se afetar por aquilo que sente repugnância para que o


relato seja mais verdadeiro

Técnica da Sombra das profissões e papéis sociais

Pense em sua profissão e escreva qual o objetivo ideal para


a existência dessa atividade.
Em seguida, pense no contra-objetivo, ou seja, o que não
gostaria de atingir com essa profissão. Também inclua nessa
categoria quais seriam os efeitos colaterais do mal uso da profissão,
bem como os erros típicos (personalidade ou comportamento) de
alguns profissionais da sua área.
Depois escreva onde em sua vida profissional ou pessoal,
você pode estar fazendo o mesmo.

Ex:
Médico – curar, salvar vidas
Sombra – incentivar a doença, matar, arrogância
Na vida – acabo fazendo alguns pacientes esperar e isso
piora o quadro clínico deles.

Advogado – equilibrar a justiça, fazer a lei ser cumprida


Sombra – injustiça, corrupção
Na vida – já enrolei alguns clientes alegando que precisaria
de mais tempo só para poder ganhar dinheiro

Mãe – ajudar, amar, educar


Sombra – prejudicar, destruir, deseducar
Na vida – sou muitas vezes relapsa e gostaria de tirar férias
da vida e dos meus filhos só para ter a sensação de que eu existo
por mim mesma

145
Avançado

Técnica: desenho da sua sombra

Para começar a tocar as suas sombras mais à fundo, procure


se concentrar, fechar os olhos se quiser e deixe as imagens
desconfortáveis tomarem forma e corpo no seu interior.
Deixe o lápis e papel ao seu lado e comece a desenhar. Não
se preocupe com a qualidade artística do desenho, pois o mais
importante é a expressão emocional que vem à tona.

Tribunal interior

Nessa técnica, você pode se beneficiar libertando seu coração


do peso de um ato que considerou ruim na sua vida. Você pode
escolher escrever, fazer uma dramatização ou um diálogo interno.

1º passo – Confissão

Relate aquilo que você fez que considerou muito ruim

2º passo – Julgamento

Agora julgue cada pequeno detalhe da maneira mais dura,


rígida e feroz possível, seja o juiz mais severo que puder no
julgamento e na condenação.

3º passo – Distanciamento

Agora procure deixar de lado um pouco o exercício, ou mude


a atenção para outra coisa. De alguma forma procure se desapegar

146
Por Que Fazemos o Mal?

do que relatou anteriormente. Mude de cadeira ou lugar e sente-se


como se estivesse olhando para onde estava anteriormente.

4º passo – Acolhimento

Procure acolher essa pessoa que fez uma confissão sobre algo
muito ruim que pesava em sua alma. Como se fosse uma pessoa
estranha lhe pedindo ajuda, traga ela para seus braços e tente aliviar
sua culpa. Mas não alivie sua culpa negando o que aconteceu, mas
incentivando a aceitação do fato ainda que tenha sido duro.

5º passo – Integração

Para haver a integração de aspectos sombrios é necessário


encontrar o lado positivo de cada um deles. Ao longo do livro
você pôde identificar que não há nada perdido na natureza humana.
Tudo que tenha sido usado para algo destrutivo pode também
construir algo de grande importância. Pode canalizar sua raiva para
realização, seu desejo de trair para seduzir seu parceiro, sua
arrogância para se posicionar em situações difíceis. Dessa maneira
posso admitir que tal ato, sentimento ou característica me pertence
sem receio ou autocondenação.

Ex:
1º passo – Traí o meu marido com o sócio dele.
2º passo – Essa mulher (eu mesma) é uma vagabunda,
promíscua, mentirosa, vadia, vulgar, falsa e tarada.
3º passo – Essa situação diz respeito a outra pessoa que
nem conheço...
4º passo – Você deve ter bons motivos para fazer o que fez.
Deve ter sido difícil para você trair um valor tão importante quanto

147
Frederico Mattos

a fidelidade. Talvez seu casamento não esteja trazendo o bem estar


que você almejava. Talvez você precise dar um tempo para você
se decidir e dar a chance para seu marido repensar a relação. Analise
seus sentimentos pelo sócio dele e veja se são verdadeiros.
5º passo – Sim, eu trai. Sei que fiz com intenção de magoá-lo.
Usei o sócio dele para que tudo fosse mais doloroso. Quis me vingar do
dia que me traiu. Mas agora sei que tenho força, não sou feia e péssima
amante como ele dizia. Sei que posso reconstruir um relacionamento
com ele ou com outra pessoa. A traição me fez ver outras faces minhas.
Não sou vítima. Agora sou uma mulher por inteiro!

Esse exercício tem o objetivo de reencenar aquilo que


fazemos no plano inconsciente. Nos julgamos, mas mentimos e
omitimos fatos para manter o conforto moral. Sabemos que em
nossos momentos de culpa, o julgamento que fazemos é cruel. E
como somos condescendentes e acolhedores com os erros dos
outros,devemos ser com aquilo que consideramos errado em nós.

Técnica da escrita

A escrita possibilita uma descarga sombria em ambiente


saudável. Por meio das palavras, o inconsciente se manifesta de
maneira surpreendente.
Quando você perceber que está num nível de contenção de
aspectos obscuros de sua personalidade tente trazê-las para uma
vivência literária.
Não precisa ter muita estrutura, lógica ou final feliz. O
importante é ter um contexto em que sua sombra possa ser expressa
sem causar nenhum dano à realidade concreta à sua volta.
Escreva histórias de todos os tipos, gêneros e intensidades
de conflito e maldade.

148
Por Que Fazemos o Mal?

Técnica do extremo emocional

A maior parte das pessoas nega que tenha sombras pelo


simples fato de não terem sentido nenhum desabono com coisas
comuns da vida. Acreditam que levam tudo numa boa e que têm
equilíbrio das suas emoções.
Esse exercício ajuda a pessoa a assumir a consciência de
que os sentimentos desconfortáveis e “negativos” são produzidos,
criados e alimentados por ela.
Escolha um sentimento que esteja incomodando, depois
deixe que ele aumente em intensidade até o seu limite. Em seguida
observe como ele caminha na sua mente e veja como no fundo
cada sentimento toma o rumo que você permitir.

Técnica da carta para a sua sombra

Imagine que você pudesse mandar uma carta para sua


sombra e pedir a ela que te auxilie na integração do lado obscuro
da personalidade.
Escreva tudo que desejar, para que possa se reconciliar com
sua face negativa.

Técnica do diálogo interior com a sombra

Essa técnica consiste num diálogo interior com a sombra.


Ela é mais complexa, pois exige um trabalho honesto de auto-
conhecimento. Qualquer intenção de controle consciente abortará
o processo, que é basicamente intuitivo. Você pode descobrir muitas
coisas a seu respeito.
Se quiser escrever o diálogo ou digitar, é válido para posterior
análise, mas o fundamental é manter a mente o mais solta possível.

149
Frederico Mattos

Isso possibilita que o conteúdo inconsciente venha à tona.


Como sugestão, tenha uma questão clara que lhe aborrece,
incomoda ou perturba. Os sentimentos associados a essa questão
são a matéria-prima de onde surgem as imagens interiores.
Vá deixando a imagem surgir com formas animais, humanas,
grotescas ou de objetos. Se quiser encontrar um nome para se
comunicar com ela, um tom de voz, um cheiro, enfim, todos
elementos que ativem os cinco sentidos.
Em seguida faça um convite suave para que a sua sombra se
manifeste. Faça a maior quantidade de perguntas que puder, não
tente convencer a sombra de algo, se quiser argumente, mas não
tente dobrar a opinião da sombra para concordar com a sua.
Lembre-se que o ponto de vista da sombra deve ser avaliado
como um elemento importante para uma tomada de decisão ou
atitude. A sombra pode estar enxergando aspectos que você não
deseja ou consegue enxergar na vida prática.
Portanto, tente esclarecer o máximo de questões que tiver e
a sombra estará aberta para você. Se você tentar se contrapor ,ela
aumentará e tentará lhe dobrar por meio da angústia.

Agora imagine que Deus é esse pai amoroso e despeje sobre Ele
tudo aquilo que o aborrece na vida, seja honesto e não tenha pompas.

Lembre-se que esse diálogo tem o objetivo de produzir alívio


e honestidade com seu ressentimento com Deus, a vida e si mesmo
e não buscar punição.
Alguns talvez considerem uma heresia, no entanto, quando
estabelecemos uma relação de intimidade com Deus a ponto de
podermos expressar os sentimentos mais difíceis e antagônicos
com nossa fé, aí sim, estamos em contato com Ele.

150
Conclusão

Ainda resta a pergunta: por que fazemos o mal?


Porque ignoramos as sombras que nos pertencem.
No exato momento em que paralisamos o fluxo criativo
que nos cabe no universo, estaremos criando sombras e condições
para o mal, que é a própria estagnação do movimento da vida.
É preciso lembrar que. além da felicidade e da alegria,
vivemos em um mundo também com tristeza e dor. Aceitar essa
realidade como parte da existência faz a roda da vida girar. Na
medida em que trazemos nossa sombra à luz, ficamos conectados
com uma força mais ampla.
Essa força serena, pacífica e plena está acima do mal e do
bem. Ela consente que os dois conceitos façam parte da vida. Ela
paira suave sustentando cada acontecimento no planeta.
Nossa evolução aponta para essa dimensão e o trabalho com
a sombra nos leva nessa direção. Ao final, chegaremos repletos da
maturidade, felicidade e consciência.
Seu coração – em contato com essa força – estará cheio de
alegria diante dos destinos mais difíceis.
Sua necessidade de controle dará lugar para um amor livre e
voltado para o momento presente. Você terá autonomia para agir
em sintonia com o fluxo da vida.
A luz e as trevas conviverão tranqüilas no seu interior.
O bem e o mal dançarão como crianças no palco de seu
coração. Livres de julgamentos!

151
Frederico Mattos

Então, com sua alma entregue ao infinito, a luz passará


límpida e poderosa, revelando todo o amor que a sombra encobre!
Finalmente, frente a todas as transformações internas ou
externas, você terá aceitação e, com a voz que vem da alma, dirá
um revitalizante SIM à vida!

152
Por Que Fazemos o Mal?

“A aceitação de si mesmo é a essência do problema


moral e a prova dos nove de toda uma perspectiva
de vida. Que eu dê alimento ao pedinte, que eu
perdoe um insulto, que eu ame o meu inimigo em
nome de Cristo – todas estas são, sem sombra de
dúvida, grandes virtudes. O que eu faço ao menor
dos meus irmãos, faço a Cristo. Mas que aconte-
cerá se eu descobrir que o menor de todos, o mais
pobre dos mendigos, o mais ardiloso dos ofensores,
sim, o próprio demônio – estão dentro de mim e
que eu mesmo necessito das esmolas da minha
própria bondade – que eu mesmo sou o inimigo que
precisa ser amado – e então? Então, nenhu-
ma conversa de amor e sofrimento; dizemos ao ir-
mão dentro de nós: ‘Raca’, e o condenamos, e ter-
mos raiva de nós mesmos. Nós o escondemos do
mundo, negamos jamais haver encontrado o pior
dos piores em nós mesmos e, fosse ele o próprio
Deus que se aproximasse de nós nessa forma
desprezível, tê-lo-íamos negado mil vezes antes que
um único galo tivesse cantado.”

Carl Gustav Jung

O que fazer agora com tudo que aprendeu?


O mestre indiano Osho pode nos ensinar algo sobre
isso:“Cada passo que era uma ajuda, torna-se um obstáculo para o progresso
além... Você tem de abandonar toda ponte que atravessa. Ela era útil no
atravessar, mas torna-se um obstáculo, um peso, se você se apegar a ela.”

153
Filmes indicados

“O cinema é um modo divino de contar a vida.”

Federico Fellini, cineasta italiano

“Difícil de ver o Lado Negro é.”

Mestre Yoda,
personagem do filme Guerra nas Estrelas

Você já deve ter parado diante da tela do cinema e sentido


como se sua vida estivesse sendo contada diante dos seus olhos!
Os filmes nos cativam pelo realismo ou poesia que
apresentam a realidade comum. Criam um pouco de mágica e
exagero em torno de pequenos gestos, mas conseguem retratar os
segredos mais íntimos em forma de arte.
Aqui seguem alguns filmes modernos que apresentam de forma
lúdica um pouco da idéia da sombra. Talvez seus autores nem
estivessem atentos ao conceito de sombra, mas conseguiram pela arte
retratar as belezas do nosso mundo interior. Aproveite analisar seus
filmes favoritos e ver se você descobre uma face de sua sombra.
Pegue a pipoca e assista ao show!

Guerra nas Estrelas I, II, III, IV, V e VI


Direção: George Lucas

A saga de George Lucas é o clássico confronto que todos


passamos da transição da vida infantil e ingênua para a vida adulta
e cheia de riscos.

154
Por Que Fazemos o Mal?

Anakin Skywalker desde cedo submetido à escravidão tenta


subjugar ao longo dos anos, com o auxílio dos mestres jedis e de
suas habilidades especiais, toda a injustiça e corrupção.
Tamanha foi sua vontade de justiça que acabou se deixando
corromper pela sombra para adquirir o poder. Para salvar a sua amada,
ficou cego, egocêntrico e frio, se rendeu ao Lado Negro da Força, o
que acabou por transformá-lo no tirano e robótico Darth Vader.
Se não bastasse seu conflito, isso prosseguiu para a geração
seguinte, pois seu filho Luke Skywalker herdou o conflito entre
fazer o bem a qualquer custo e o bem sob a inspiração da Força.
Quando pôde reconhecer que o inimigo que precisava
enfrentar era a si mesmo, ficou pronto para a batalha final com o
inimigo externo. Descobriu que seu inimigo Darth Vader era seu
pai. Por fim, venceu o Lado Negro da Força (Sombra) pelos
caminhos do amor maduro e não da dominação e do poder.
Pela luz da consciência, não cedeu à ganância que fez
sucumbir seu pai Anakin.

Um Dia de Fúria

(Falling Down) EUA, 1993. Direção: Joel Schumacher. Elenco:


Michael Douglas, Robert Duvall. Duração: 113 min.

O personagem principal é o típico trabalhador honrado,


honesto, cumpridor dos seus deveres, mas distante de sua sombra.
Quando uma série de eventos o leva à exaustão emocional e
ele rompe a frágil película que contém sua raiva do mundo começa
a saga de violência.
Até então julgava as pessoas como irresponsáveis, incapazes,
preguiçosas e dignas de sua piedade e complacência. Mas tudo

155
Frederico Mattos

isso virou do avesso quando se viu injustiçado e humilhado. Toda


a aparente bondade que mostrava veio abaixo e surgiu o ódio e
ressentimento encobertos pela rigidez.
Toda a intolerância que ele reprimia na busca de um mundo
justo, honesto e perfeito saiu com a força de um vulcão em cada
gesto do dia de fúria. A sombra o engoliu!

Os Últimos Passos de um Homem

(Dead Man Walking) EUA, 1995. Direção: Tim Robbins.


Elenco: Susan Sarandon, Sean Penn. Duração: 122 min.

O prisioneiro Mathew Poncelet permanece aguardando a


decisão e execução de sua pena de morte e durante a espera é
aconselhado pela freira Helen.
Essa relação de profundo amor ajuda o criminoso a confessar
para si mesmo sua face mais obscura. O segredo que esconde do mundo
ao negar que participou do assassinato do casal de jovens se torna sua
sombra. Essa sombra persegue sua consciência por todo o filme.
Quando consegue compartilhar com a freira e assume seus atos,
ele se liberta da história macabra que arrasta e consegue paz de espírito.

O Advogado do Diabo

(The Devil´s Advocate) EUA, 1997. Direção: Tylor Hackford.


Elenco: Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron. Duração: 145 min.

Nessa intrigante trama, o jovem e ambicioso advogado é


tentado pelo diabo a corromper os seus mais valiosos conceitos
morais para conquistar o sucesso, o poder e o dinheiro.

156
Por Que Fazemos o Mal?

Esse filme retrata como essa força sombria pode nos


envolver sedutoramente a corromper a máscara de bondade.
Quando o jovem advogado percebeu que teria uma escolha
consciente para lidar com o mal, teve uma segunda chance e agiu
conforme seus princípios. Mas dessa vez agiu por escolha, pois
experimentou até onde iria sua capacidade de destruir e corromper.

Clube da Luta

(Fighting club) EUA, 1999. Direção: David Fincher. Elenco:


Edward Norton, Brad Pitt. Duração: 140 min.

Essa trama complexa de várias realidades psicológicas


demonstra de maneira bem prática o quanto uma pessoa pode se
tornar inconsciente de si mesma.
O personagem de Edward Norton é um típico funcionário
medíocre, que vive uma rotina entediante e odeia tudo o que faz.
Como consolo, busca grupos de auto-ajuda para sentir algum tipo
de emoção ao ouvir histórias mais infelizes que a sua.
Quando encontra com Tyler Durden que é seu oposto
(ousado, cativante, empolgante, gosta de aventura e vive
perigosamente), inicia uma vida paralela de violência dirigida.
“Juntos” fundam o clube da luta. Na verdade, Durden é a
sombra do personagem de Norton, ele é o próprio Durden que
empolga, violenta e cria um caos na cidade ao inspirar os homens
numa guerra civil no submundo das lutas.
Como ele não consegue se enxergar como autor de tantas
crueldades criou um alter-ego desinibido e dominador que fosse capaz de
executar tudo o que sua máscara covarde e submissa via como impossível.

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Frederico Mattos

Deus é Brasileiro

Brasil, 2002. Direção: Carlos Diegues. Elenco: Wagner Moura,


Antônio Fagundes, Bruce Gomlevsky, Paloma Duarte, Hugo Carvana,
Stepan Nercessian. Duração: 101 min.

Esse filme brasileiro traz uma face da sombra que pouco


olhamos: a bondade e grandeza interior.
De mentalidade simples, o personagem principal é
convocado por Deus a assumir a condução do mundo para que o
altíssimo tirasse suas merecidas férias.
A grandeza espiritual que não queremos assumir também é
sombra e não somente os aspectos destrutivos da personalidade.
Renegamos a bondade e a capacidade de promover impactos
benéficos à nossa volta. Preferimos nos acovardar nos hábitos a
ter que arriscar nossa segurança doméstica no mundo da renovação
e crescimento planetário.

Dogville

(Dogville) Dinamarca, EUA, 2003. Direção: Lars Von Trier.


Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc
Barr, Paul Bettany e Blair Brown. Duração: 171 min.

Nessa obscura história, Nicole Kidman consegue


brilhantemente retratar qual o limite de nossa mediocridade e vileza.
Numa provinciana cidade do interior, a personagem de
Nicole chega como forasteira sem moradia e dinheiro. Mas para
ser abrigada por aquela cidade conservadora passou a prestar
pequenos serviços para cada morador.

158
Por Que Fazemos o Mal?

Seu zelo era tão grande que acabou por se tornar escrava da
cidade que projetava nela todo o tipo de fantasia sombria.
Quando ela se recusou a carregar a sombra da cidade e
denunciou sua sujeira moralista, sofreu com isso. Os moradores
reagiram com violência quando desmascarados.
Mas não tardou para que a vingança da sombra-Kidman desse
o troco, não é possível rejeitar a sombra sem pagar o preço por isso.
A cidade insistiu na negação da sua sombra e por isso foi dizimada

Identidade

(Identity) EUA, 2003. Direção: James Mangold. Elenco: John Cusack,


Ray Liotta, Amanda Peet, John C. McGinley, Jake Busey, John Hawkes, Clea
DuVall, William Lee Scott, Rebecca De Mornay, Alfred Molina, Bret Loehr,
Pruitt Taylor Vince, Leila Kenzle, Holmes Osborne. Duração: 90 min.

Nesse enigmático triller psicológico-policial, podemos ver


de maneira simbólica como se constitui a mente humana no seu
mais alto grau de patologia.
Um criminoso com múltiplas personalidades é analisado por
um pequeno tribunal para comprovar que ele é um doente
precisando de cuidados e não um assassino comum.
Cada personagem retratada no filme é uma de suas
subpersonalidades. São faces de suas sombras. O pai rígido e
culpado, a mocinha histérica e dramática, a prostituta frágil e
arrependida, a mãe morta, o criminoso sádico e frio, o balconista
trambiqueiro, o policial justiceiro, a criança órfã e maltratada.
Cada uma dessas partes sombrias foram recortes de aspectos
rejeitados nas pessoas que passaram pela sua vida.
O filme retrata como cada parte da sua sombra tramava
para obter o domínio do grupo.

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Frederico Mattos

Amigo Oculto

(Hide and Seek) EUA, 1995. Direção: Tim John Polson. Elenco:
Robert De Niro, Dakota Fanning, Famke Janssen. Dur: 105 min.

Todo pai exageradamente zeloso esconde um infanticida


dentro de si.
Esse é o enredo do filme brilhantemente interpretado por
Robert De Niro. Ele está tão cego com a derrocada de sua vida
conjugal, pessoal e profissional que nem percebe como sua
personalidade se dissociou.
De um lado o pai preocupado com o comportamento bizarro,
contraditório e medroso da filha e de, outro, um homem amargo e
vingativo que utiliza a filha como canal para escoar seu ódio da vida.
Esse tipo de divisão de personalidade típica de Incrível Hulk
afeta as pessoas com freqüência. A pessoa age de um jeito em casa
e de outro na rua, com uma pessoa é dócil e com outra é violenta.
A menina do filme sofre nas mãos do pai que se viu engolir
pela sombra.

Janela Secreta

(Secret Window) EUA, 2004. Direção: David Koepp. Elenco:


Johnny Depp, John Turturro. Duração: 96 min.

Nesse filme, o personagem de Johnny Depp é traído e se


separada da esposa. Para superar sua mágoa e depressão, vai para
um chalé onde quer terminar de escrever seu novo livro.
No entanto, começa a receber visitas de um homem que alega
ter sido plagiado por ele e exige que o final do livro copiado seja alterado.
Na verdade o homem de preto que o persegue durante a

160
Por Que Fazemos o Mal?

trama é sua sombra que quer dele apenas uma coisa, o assassinato
da esposa traidora.
Como em sua consciência não podia admitir seu desejo
homicida ele projeta uma figura sombria para o atormentar como
se fosse um diabo tentador.
Mesmo se debatendo contra a figura sombria nada consegue
e acaba sucumbindo ao desejo de eliminar a ex-mulher.

Instinto Secreto

(Mr. Brooks) EUA, 2007. Direção: Bruce A. Evans. Elenco:


Kevin Costner, Demi Moore, Dane Cook, William Hurt. Dur: 120 min.

Um dos mais belos filmes sobe a sombra. Belo pela precisão


com que foi retratado o conceito de sombra.
O personagem de Kevin Costner é considerado o homem
do ano, porém guarda um estranho vício, o de matar pessoas.
Durante o filme, ele se debate contra esse desejo homicida
e dialoga com sua sombra sobre tais impulsos.
As conversas são interessantíssimas e mostram como no
reino das sombras não temos escrúpulos e pudores, tudo acontece
como manda o desejo. Sem dó e nem piedade.
Em uma cena Mr. Brooks conversa com sua filha que lhe dá
uma explicação sobre um acontecimento confuso. Diante da
resposta da filha à sua sombra, Marshall, avisa que ela está
mentindo. Isso é a representação exata do radar sombrio, quando
uma pessoa está sintonizada com sua sombra consegue perceber
a atuação da sombra do outro. No caso do filme, ele estava engolido
pela sombra, com um pacto aberto com ela e não saudável.
Apesar da luta moral que vivia, Mr. Brooks estava fascinado
pelo poder que sua sombra lhe concedia e por isso não conseguia
resistir aos seus impulsos homicidas.

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Indicação de livros

Fausto
Goethe – Ed. Martin Claret, 2002

O Retrato de Dorian Gray


Oscar Wilde – Ed. Civilização Brasileira , 2003

Dr. Jekyll e Mr. Hyde


Robert L. Stevenson – Ed. Scipione , 2003

Ao Encontro da Sombra
J. Abrams Connie Zweig – Ed. Cultrix, 2001.

Magia Interior
Robert Johnson – Ed. Mercuryo, 2002

O Jogo das Sombras


Connie Zweig e Steve Wolf – Companhia das Letras, 1997.

“A luz acha que viaja mais rápido que tudo, mas está errada.
Não importa quão rápido a luz viaje, descobre que a escuridão
sempre chega antes e está a sua espera.”

Terry Pratchett, escritor inglês

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