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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ


VICE-REITORIA DE GRADUAÇÃO – VRG
COORDENADORIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – CEaD

Coleção Educação a Distância


Série Livro-Texto

Ivo dos Santos Canabarro

TEORIA E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil


2008
1

EaD
2008, Edit ora Unijuí T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I
Rua do Comércio, 1364
98700-000 - Ijuí - RS - Brasil
Fone: (0__55) 3332-0217
Fax: (0__55) 3332-0216
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www.editoraunijui.com.br
Editor: Gilmar Antonio Bedin
Editor-adjunto: Joel Corso
Capa: Elias Ricardo Schüssler
Revisão: Véra Fischer
Designer Educacional: Jociane Dal Molin
Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:
Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil)

Catalogação na Publicação:
Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – Unijuí

C212t Canabarr o, Ivo dos Santos.


Teoria e métodos da história I / Ivo dos Santos Canabarro. – Ijuí :
Ed. Unijuí, 2008. – 98 p. – (Coleção educação a distância. Série livro-
texto).
ISBN 978 -85-7 429-719-4
1. História. 2 . Historiador. 3. Historiografia. 4. Escolas históricas.
I. Título. II. Série.
CDU : 9 3 0
93 0.1

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Sumário

CONHECENDO O PROFESSOR ..................................................................................................5

APRESENTAÇÃO ............................................................................................................................7

UNIDADE – A TAREFA DO HISTORIADOR É ESCREVER A HISTÓRIA ...........................9

Seção 1.1 – O Ofício do Historiador ................................................................................... 10


Seção 1.2 – A Importância da Teoria da História.............................................................. 12
Seção 1.3 – A Narrativa H istórica ....................................................................................... 15

UNIDADE 2 – A HISTÓRIA ESCRITA PODEMOS CHAMAR DE HISTORIOGRAFIA .. 19

Seção 2.1 – A Historiografia ................................................................................................. 20


Seção 2.2 – A História Como Ciência ................................................................................. 28
Seção 2.3 – A História Como Não-Ciência ........................................................................ 34

UNIDADE 3 – A IMPORTÂNCIA DAS ESCOLAS HISTÓRICAS ........................................ 41

Seção 3.1 – As Escolas Históricas ....................................................................................... 42


Seção 3.2 – A Escola Metódica Também Conhecida Como Positivista ......................... 43
Seção 3.3 – O Positivismo de August Comte ...................................................................... 52

UNIDADE 4 – O MARXISMO COMO UMA ESCOLA HISTÓRICA REVOLUCIONARIA .. 57

Seção 4.1 – O Marxismo e o Materialismo Histórico....................................................... 58


Seção 4.2 – O Marxismo Vulgar .......................................................................................... 67

UNIDADE 5 – UMA ESCOLA HISTÓRICA CONTEMPORÂNEA: a Escola dos Annales .. 75

Seção 5.1 – A Escola dos Annales ....................................................................................... 76


Seção 5.2 – A Primeira Geração dos Annales .................................................................... 77
Seção 5.2.1 – Marc Bloch ................................................................................................ 78
Seção 5.2.2 – Lucien Febvre ............................................................................................ 81
Seção 5.3 – A Segunda Geração dos Annales ................................................................... 85
Seção 5.3.1 – Fernand Braudel ....................................................................................... 85
Seção 5.4 – A Terceira Geração dos Annales ..................................................................... 91

REFERÊNCIAS ............................................................................................................................. 97

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Conhecendo o Professor

IVO DOS SANTOS CANABARRO

Gosto muito de trabalhar com fotografias, sou fascinado pe-


los elementos visuais, acho que eles nos permitem o conhecimento
de outras realidades. Comecei a pesquisar os arquivos fotográficos
no curso de graduação em História que fiz na Unijuí, pois naquele
período fui bolsista de iniciação científica do CNPq. Depois no
mestrado, que fiz na Ufrgs, continuei a utilizar as fotografias, alia-
das aos depoimentos orais. Após concluir o mestrado comecei a
trabalhar na Unijuí no curso de História.

O trabalh o como professor no curso de História sempre esteve aliado às atividades de


pesquisa, pois considero i mportante que o professor não apenas trabalhe com o conheci-

mento já produzido, mas que ele também tenha a capacidade de produzir novos conheci-
mentos. Foi nesta pe rspectiva que fiz o curso de doutorado na Universidade Federal

Fluminense, no Rio de Janeiro, e na Universidade de Paris III, na França. A minha tese de


doutorado é um estudo sobre a cultura fotográfica na Região Noroeste do Rio Grande do

Sul.

Fazer pesquisas é um desafio constante, pois a cada momento descobrimos coisas


novas que nos fazem repensar os conhecimentos produzidos. Neste sentido, considero que
trabalhar com as teorias da história é uma possibilidade de pensar o ofício do historiador,
que além de dar aulas deve desafiar-se a fazer pesquisas. Atualmente participo de um grupo
de pesqui sa intitulado História e Cultura Visual, que comporta pesquisadores de imagens
de todo o Brasil. A minha pe squisa chama-se “A História pela fotografia”, e já venho desen-
volvendo-a há alguns anos, mas sempre acho questões novas para pesquisar.

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Apresentação

O componente curricular Teoria e Métodos da História I tem como objeti vo central


estudar a importância da teoria para a produção do conhecimento histórico, é uma discipli-
na instrumental, pois vai auxiliar você a compree nder como os historiadores escrevem a
história. O sentido instrumental da disciplina está na sua possibilidade de servir como su-
porte para o entendimento dos textos históricos que iremos utilizar no decorrer de todo o
curso de graduação.

Para nós, futuros historiadores, é importante conhece r os nossos próprios instr umen-
tos de trabalho, a leitura dos textos é a base para a nossa formação, quanto mais leitura
fizermos, mais qualificados seremos. Os textos históricos consti tuem a nossa base, a partir
deles entramos no mundo dos historiadores, e a partir deles, vamos nos familiarizando com

uma linguagem específica que caracteriza a nossa própria profissão, o que podemos chamar
de ofício do historiador.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Unidade 1

A TAREFA DO HISTORIADOR É ESCREVER A HISTÓRIA

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

Nesta unidade você vai estudar algumas idéias iniciais sobre o trabalho do historiador,

como ele constrói o conhecimento histórico e o que diferencia o conhecimento his tórico do
conhecimento comum.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

– Seção 1.1 – O Ofício do Historiador

– Seção 1.2 – A Importância da Teoria da História

– Seção 1.3 – A Narrativa Histórica

Para você entender como se constrói o conhecimento histórico, é importante perceber


que para a construção do conhecimento é preciso também conhecer as teorias que nos au-
xiliam a pensar a história.

Neste sentido é fundament al esclarecer que a teoria é um poderoso instrumento para

pensarmos qualquer forma de conhecimento, em particular o conhecimento histórico que


depende da pesquisa para ser construído. Quando nós escreve mos a história, geralmente

recorremos a um tipo específico de escrita, que é a narrativa, desta forma você vai conhecer
com detalhes o que realmente se constitui como uma narrativa histórica.

Esta unidade está dividida em três partes: o ofício do historiador; a importância da


teoria da história e a narrativa histórica, ela apresenta-se como uma forma introdutória para
você entender o que se constitui realmente como conhecimento h istórico.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 1.1

O Ofício do Historiador

O ofício do historiador é produzir a própria história, além de ensinar e divulgar a histó-

ria. Para tanto, durante a realização do curso de história você está se preparando para ser

um historiador, podendo escolher uma das três funções ou exercer as três, ao mesmo tempo.

Não devemos ter a idéia de que ser historiador é somente pesquisar e escrever, pois além de

aprender a ensinar vamos exercitar a tarefa de pesquisa e escrita da história, para enfim nos

apresentarmos como historiadores.

O historiador tem uma relação próxima com a produção do conhecimento e esta tarefa

é bem sofisticada, pois para produzir conhecimento é preciso dominar alguns conceitos que

são próprios desta atividade. Produzir conhecimento não significa escrever um amontoado

de coisas sem ordenação e sentido, é preciso construir um certo sentido para aquilo que

escrevemos, e este é dado pela lógica das idéias que apresentamos.

O historiador escreve a partir daquilo que ele pesquisa, e esta é a primeira tarefa para

a produção do conhecimento em história, num certo sentido é preciso provar aquilo que se

afirma, ou seja, com os documentos que ele consegue em suas pesquisas.

Os documentos são sempre a nossa matéria-prima, a primeira tarefa é fazer uma leitu-

ra destes, é preciso fazer “perguntas” ao mat erial que temos em mãos realizando um traba-

lho de crítica interna e externa. Para a realização desta tarefa é preciso conhecer teorias e

metodologia de pesquisa histórica, isto requer uma certa formação, o que significa que seu

ofício é bem qualificado, nos colocando na posição de historiadores profissionais, ou seja,

que já desenvolvemos uma série de leituras que nos habilitam a exercer a nossa profissão de

forma correta.

Para a produção do conhecimento é sempre preciso uma série de reflexões que nos

auxilia a ir muito além da mera observação de um fenômeno, é preciso superar esta etapa,

conhecer a profundidade daquilo que se deseja estudar. Descrever um determinado fenôme-

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

no é uma tarefa que qualquer observador pode fazer, a descrição é a apresentação de seus

aspectos visíveis, aquilo que todos nós vemos em uma primeira impressão, não precisa ser

um historiador profissional para fazer uma determinada descrição.

Alguns trabalhos que nos apresentam como obras históricas são meras descrições, são

completamente superficiais, não apresentam uma análise de talhada do objeto de pesquisa.

O objeto de pesquisa é realmente aquilo que o historiador escolhe para pesquisar, é preciso

fazer este para seguir a tarefa de produção do conhecimento h istórico.

Os objetos de pesquisa são escolhas livres por parte do h istoriador, cada um tem a

liberdade de aprofundar aquilo que realmente lhe interessa e que traga uma contribuição

important e para o conhecimento de nossa história. Quando eu escolho um objeto eu já

estou dando um direcionamento para a minha pesquisa e este é o primeiro passo que eu

tenho que dar. Após fazer isto, deve-se procurar saber se eu tenho fontes de pesquisa, ou

seja, se existem documentos para realmente comprovar aquilo que eu desejo de monstrar,

pois o trabalho de produção do conhecimento é uma tarefa de construção, e se estabelece a

partir daí uma relação entre o pesquisador (historiador) e seu objeto de pesquisa.

O objeto é sempre uma escolha do historiador, pois ele não é obrigado a fazer aquilo

que não lh e interessa. O historiador é um sujeito subjetivo, isto quer dizer que ele tem seus

próprios valores, suas idéias, sua forma de pensar que é singular, suas ideologias, seu imagi-

nário, enfim devemos considerar que ele é um sujeito pensante que tem uma de terminada

sensibili dade. Naquilo que o historiador escrever vai ficar gravado o que ele pensa, a sua

sensibili dade e sua visão de mundo, por isso podemos dizer que ele é um sujeito s ubjetivo,

ele não é um sujeito neutro como pensavam as teorias do século 19.

O historiador, além de ter a liberdade de e scolha de seu objeto de pesquisa, tem tam-

bém a liberdade para escolher uma determinada teoria e metodologia para a construção do

conhecimento histórico. Quando o historiador escolhe uma teoria que vai orientar a cons-

trução de sua pesquisa, ele já está se posicionando por uma determinada visão da história,

isto significa que o conhecimento que ele vai produzir não é qualquer conhecimento, mas já

possui um certo direcionam ento, um balizamento que a teoria pode proporcionar, ou seja,

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

não é uma mera descrição do fenômeno, é essencialmente uma análise mais detalhada que

vai buscar as relações do foco escolhido com o contexto daquela sociedade que ele deseja

conhecer.

É fundamental perceber que os objetos de pesquisa não estão soltos por aí, mas que

fazem parte de um determinado contexto histórico, têm relações com a sociedade e descortinar

estas relações significa conhecer com profundidade o foco.

Seção 1.2

A Importância da Teoria da História

Mas em que sentido a teor ia pode nos auxiliar nesta tarefa de produção de conheci-

mento? A teoria é essencialmente um instrumento que o historiador dispõe para interrogar o


seu objeto de pesquisa. A teoria, entendida como instrumento, permite que o historiador

estabeleça relações de seu objeto com a sociedade a ser analisada, saindo do estágio inicial

de mera descrição do objeto, sendo assim é possível que ele conheça o que está por trás das

meras aparências.

A partir do uso da teoria é possível dizer que estamos construindo conhecimento cien-

tífico, pois a teoria e a me todologia é o que caracterizam as diversas formas de manifesta-

ções da ciência. Isto quer dizer, de imediato, que o conhecimento produzido a partir da

teoria se diferencia daque le construído sem o uso da mesma. Alguns autores afirmam que

este conhecimento sem qualquer baliza teórica pode ser entendido como um resultado vul-

gar.

A utilização da teoria científica permite que o historiador explique, ainda que de uma

forma provisória, um determinado domínio da sociedade, ou seja, um determinado objeto de

pesquisa. A teoria pode ser entendida como uma mediação entre o pesquisador e a realidade

a ser estudada, neste sentido é importante observar que este papel vai permitir que se regule

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

de uma determinada forma a subjetividade do historiador, pois oferece um conjunto de con-

ceitos e categorias que balizam seu trabalho, permitindo que ele pense de forma consistente

a realidade na qual vai trabalhar.

A teoria é um instrumento que o historiador dispõe para a realização de seu ofício, e a

produção de conhecimento é conseqüência. Ist o significa que ele é um sujeito responsável

pela formação histórica de uma determinada sociedade, pois o conhecimento circula e atua

também na construção de nosso sentimento de identidade. Se a teoria é tão importante

assim par a o historiador produzir o conhecimento, por que ne m todos os historiadores a

utilizam? Esta é uma importante interrogação para a nossa disciplina que trata especifica-

mente de teorias. Nós podemos começar a responder a questão a partir de algumas conside-

rações:

1ª – O uso da teoria é mais freqüente entre os historiadores profissionais, aqueles que

têm uma formação acadêmica, que conhecem as escolas históricas e os diversos métodos de

pesquisa. Estes historiadores estariam mais qualificados para a produção do conhecimento

histórico, pois a sua experiência permitiria uma reflexão mais profunda acerca de um conhe-

cimento que passaria da m era descrição para a análise de uma determinada sociedade.

2ª – O desconhecimento das teorias por aqueles historiadores que poderíamos chamar

de amadores, pois são pessoas que produzem algum tipo de conhecimento que qualificam

como histórico, quando na verdade é um amontoado de coisas sem nenhuma racionalidade,

são simplesmente apresentados alguns fatos de forma totalmente descritiva. Temos ainda o

caso de profissionais de outras áreas que se apresentam como historiadores e dizem que o

conhecimento que produzem é histórico.

Como vimos, nestes dois casos apresentados, os historiadores que utilizam a teoria e a

metodologia para a produção do conhecimento, conseguem superar este estágio i nicial de

um estudo meramente especulativo e passam para outro, de um conhecimento mais qualifi-

cado. Esta passagem de um estágio para o outro significa que o uso adequado da teoria

permite que o historiador conheça não apenas a mera aparência do fenômeno estudado mas

também a estrutura interna do mesmo, bem como as suas causas.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Nesta perspectiva, é possível afirmar que o emprego da teoria revolucionou a constru-

ção do conhecimento, permitiu avançar na busca das relações que os fenômenos desenvol-

vem com o próprio mundo social, desta forma pode-se dizer que a teoria possibilitou adentrar

na complexidade de um determinado fenômeno.

A teoria é um instrumento bem complexo e sistematizado, pois oferece um conjunto

de conceitos e categorias que permitem ao pesquisador desvendar de forma qualitativa o seu

objeto de pesquisa proposto. Sendo assim, est e referencial teórico que todo o historiador

deve utilizar para a construção do conhecimento serve como uma baliza, para transformar

os dados obtidos com a pesquisa em um resultado satisfatório.

O texto histórico é o resultado de todo um investimento que o historiador faz, a come-

çar pelo trabalho empírico (trabalho de pesquisa), perpassando pela teoria até o seu produto

final, que é o texto propriamente dito. O texto expressa toda a subjetividade do historiador,

controlada pelo uso da teoria, pois esta é um diferencial que o orienta na direção a ser

tomada, durante o processo construtivo, onde se apresenta o resultado de toda a sua pes-

quisa.

Acreditamos que é importante observar que o texto não deve ser um am ontoado de

coisas sem lógica ou racionalidade, ele deve expressar de forma clara as idéias norteadoras

que nos fazem entender o processo histórico de um determinado objeto escolhido pelo histo-

riador. No texto devemos encontrar as premissas que garantem um determinado sentido

para aquilo que nele expressamos. Isto significa que o historiador deve construir uma série

de argumentos que sintetizem de forma totalmente coerente os significados daquilo que

expressa.

O texto perpassa por uma discussão sobre a sua forma de expressão, e geralmente nós,

os historiadores utilizamos a narrativa, pois de certa forma estamos contando de forma ana-

lítica algo que realmente aconteceu.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 1.3

A Narrativa Histórica

A narrativa que o historiador utiliza é a histórica, um pouco diferente da literária, pois


nós escrevemos a partir de dados de alguma coisa que aconte ceu num determinado tempo e
espaço. A narrativa literária não tem este mesmo compromisso da narrativa histórica, pois a
literária pode-se constituir a partir da livre imaginação do escritor. O historiador tem outro
compromisso, ele escreve a partir de dados concretos, ele não pode escrever simplesmente
com a sua imaginação, de certa forma temos que provar aquilo que escrevemos. É claro que
o historiador também expressa a sua subjetividade, mas esta de certa forma é controlada
pelo uso da teoria, como já foi dito.

A narrativa histórica para ser construída precisa, necessariamente, de um determina-


do referente, ou seja, toda a história vivida, tudo aquilo que já acontece u, pode ser há um
longo tempo ou a pouco tempo, pois podemos trabalhar também com a história do presente.
O referente comporta toda a série de acontecimentos, de experiências que a sociedade passou.
Isto tudo existe independente da vontade do historiador, pois é a coisa concreta, o que real-
mente aconteceu e que ficou registrado nas fontes de pesquisa, à espera de ser desvendado.

Sem o referente não é possível construir conhecimento histórico, pois as experiências


históricas estão situadas em um determinado tempo e espaço. A ficção, a literatura, o cine-
ma e outros gêneros não precisam necessariamente do referente, podem ser criadas apenas
com a imaginação, mas estes gêneros recorrem com freqüência a este para contextualizar as
suas produções. A literatura tem recorrido com freqüência ao referente, várias obras apre-
sentam dados importantes de um determinado contexto histórico.

O cinema também busca no referente ligar as suas tramas aos acontecimentos históri-
cos, mas convém salientar que quando o roteirista de cinema cria um roteiro histórico não é
necessariamente com a mesma visão do historiador, é uma forma de situar a sua produção
num determinado contexto, muitas vezes alguns personagens são meramente fictícios. O
cinema pode aproximar a his tória da ficção, o historiador tem que aproximar do referente,
ou seja, de uma determinada realidade.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A obra do historiador é diferente da literatura por trabalhar com dados que fazem parte
de um det erminado referente , ou seja, ele sempre remete a uma realidade a algo que real-
mente aconte ceu. O historiador pode utilizar-se de sua imagi nação para a construção do
texto histórico, uma imaginação criativa que lhe permita tornar o seu texto mais acessível
ao público leitor, uma obra, digamos, de fácil compreensão, isto é um verdadeiro desafio
para quem escreve história.

Os textos devem ser apresentados de uma forma que qualquer pessoa que os leiam
consiga compreender, ou seja, que não precise ser um especialista naquela área para enten-
der o que está sendo dito. O historiador deve escrever para um grande público, a sua obra
deve estar ao alcance de t odos, neste sentido estaríamos fazendo certa popularização do
conhecimento histórico.

A construção da narrativa histórica perpassa pela compreensão de que é possível es-


crever de uma forma ordenada, coerente e com um determinado sentido, pois o historiador
tem o compromisso de trazer à tona visões de uma determinada realidade, o seu trabalho
deve atender a demanda de uma sociedade em conhecer questões fundamentais que expli-
cam o seu funcionamento.

O historiador tem este importante papel de construção de um conhecimento que traga


elementos imprescindíveis para a formação da cidadania, ou seja, o conhecimento histórico
tem um valor crítico para o nosso entendimento de mundo, para formarmos uma visão criti-
ca da própria sociedade.

A teoria aparece para fornecer uma visão mais aprofundada sobre a realidade que
pretendemos investigar, pois passamos deste papel meramente descritivo do conhecimento
histórico para uma visão aprofundada de uma determinada realidade. A teoria é este ele-
mento instrumental, ela serve para dar subsídios ao historiador, para que ele realmente co-
nheça como se produz um conhecimento de qualidade, pois este conhecimento meramente
descritivo qualquer um pode fazer.

Considera-se importante observar que este conhecimento meramente descritivo não


nos auxilia a entender a sociedade em que vivemos. Neste sentido o conhecimento histórico
perderia o seu sentido, de ser um conhecimento que leve ao entendimento do nosso mundo.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Assim, é fundamental construirmos certa crítica a este conhecimento descritivo, pois ele
não nos serve em vista que necessitamos de uma formação mais sólida, embasada em um
estudo que nos faça compreender os acontecime nt os de forma mais aprofundada.

A construção da narrativa histórica perpassa pela perspectiva de pensar no estatuto


do próprio texto histórico, o qual demanda o conhecimento teórico para a sua construção,
pois não é um texto qualquer, mas sim, acima de tudo, é um texto que necessita da legitimi-
dade dos enunciados. Além disso, observa-se que o texto está situado em uma de terminada
for ma d e se e screve r e pensar te oricam ente a h istória, para isto dam os o nome de
historiografia, termo que significa o conjunto da produção do conhecimento hist órico bem
como as suas teorias e métodos.

A historiografia de cada período é diferente, pois a cada geração os historiadores se


utilizam de uma série de proposições e teorias para a produção do conhecimento.

A historiografia é sempre contemporânea, pois existe uma atualização constante dos


historiadores, em relação aos seus conhecimentos, e isto tudo converge em uma produção
intelectual que atenda às expectativas da sociedade naquele momento, pois o conhecimen-
to histórico deve essencialmente servir para entendermos a sociedade em que vivemos.

Neste sentido, podemos afirmar que sempre há uma necessidade de renovação destes
saberes, para que sirvam de instrumento para a elaboração de uma crítica do mundo social.
Os proble mas de cada época são os maiores desafios dos historiadores, pois eles procuram
dar respostas para a problemática de cada pe ríodo, e naturalmente procuram as origens e
causas destes problemas, com isto podemos afirmar, como dizem os estudiosos da Escola
dos Annales, que a história não deve ser uma mera descrição de um acontecimento ou de
uma experiência.

O historiador em seu ofício de escrever os acontecimentos passados, presentes e futu-


ros, deve ter consciência de que existe uma determinada diferença entre o que realmente
aconteceu com aquilo que e le escreve, ou seja, deve pensar que história-como-realidade-
passada não é exatamente i gual à história-como-acontecimento-presente, pois o historia-
dor com seu arsenal teórico e metodológico constrói uma interpretação da realidade passa-
da, uma interpretação que suas fontes documentais lhe permitem, é claro sempre mediado
pela teoria, que faz com que ele trabalhe de uma forma sistemática e coerente.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O h istoriador não possui uma máquina do tempo para poder voltar ao passado e

reconstituí-lo de forma tal qual aconteceu, ele sempre chega perto da realidade , pois as
fontes nos permitem uma visão do passado, uma visão totalme nte fragmentada e, ele faz

uma conexão destes pequenos fragmentos, que são os indícios, e constrói um texto na pers-
pectiva de trazer à tona uma articulação coere nte destas pequenas partes.

SÍNTESE DA UNIDADE 1

Nesta unidade estudamos o ofício do historiador e como ele cons-


trói o conhecimento histórico que se difer encia do conhecimento co-
mum. Aprendemos que o ofício do historiador é a forma de constituir
esta profissão, a qual requer uma formação específica para a apresen-
tação como tal.

Para o historiador realmente atuar em sua profissão de produtor


de conhecimento, ele precisa necessariamente utilizar teorias para
pensar o conhecimento histórico, portanto, ele deve escolher uma das
teorias da história para exercer o seu ofício. Nesta perspectiva, é im-
portante salientar que o uso da teoria vai qualificar a produção do
conheciment o, para que realmente possamos nos apresentar como
historiadores.

Quando o historiador exerce o seu ofício de construir o conheci-


mento, ele escreve a história de uma forma específica, por isso se uti-
liza da narrativa para expressar as suas idéias. Neste sentido, a nar-
rativa histórica é diferente das demais formas de expressão da narrati-
va, pois o conhecimento histórico é um tipo de conheciment o especí-
fico e, que para construirmos, é necessári o conhecer algum as regras
que o caracterizam.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Unidade 2

A HISTÓRIA ESCRITA PODEMOS CHAMAR DE HISTORIOGRAFIA

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

Nesta unidade você vai conhecer com mais detalhes o que podemos chamar de

historiografia, que é uma forma específica de escrita da história.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

– Seção 2.1 – A Historiografia

– Seção 2.2 – A História Com o Ciência

– Seção 2.3 – A História Como Não-Ciência

O conhecimento da historiografia é fundamental para compreendermos que a história

escrita é extremamente diversa, ou seja, existem diferentes formas de construir o conheci-

mento hi stórico.

O te rmo hi storiografia deve fazer parte do nosso conhecimento cotidiano para nos

apresentarmos como historiadores, pois quanto mais a conhecermos, mais habilitados esta-

remos. No conjunto de toda a historiografia, encontramos historiadores que consideram

que a verdadeira história é a científica, portanto, vamos discutir estes princípios que defi-

nem a história como uma ciência. Por outro lado, encontramos também historiadores que

defendem a idéia de que a história não deve se apresentar como uma ciência.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 2.1

A Historiografia

O historiador ao escrever a história está fazendo um exercício de historiografia, pois


ele estará utilizando todo um arsenal teórico e metodológico que pertence a uma determi-
nada escola histórica. Quando o historiador começa a escrever o seu texto ele primeiramen-
te faz uma pesquisa bibliográfica para situar o seu objeto de pesquisa em um de terminado
contexto historiográfico.

Este exercício é uma prática historiográfi ca na perspectiva de que ele está buscando
nas obras importantes para a sua pesquisa referências para situar o seu objeto de pesquisa.
O historiador sempre recorre à historiografia, seja para situar os seus objetos de pesquisa,
seja para escolher uma teoria e uma metodologia para dar conta do andamento de seu
tr abalho.

A historiografia também permite ao historiador fazer uma crítica mais detalhada sobre
o seu trabalho, pois na medida em que vamos conhecendo as obras dos demais hi storiado-
res, dese nvolvemos a capacidade de realizar comparações sobre o conhecimento histórico.
Nesta per spectiva é possível afirmar que conhecer a historiografia é adentrar num campo
muito vasto e, ao mesmo tempo, complexo, de um conhecimento específico sobre determina-

do tema.

Quando conhecemos as teorias e as metodologias descobrimos os verdadei ros segre-


dos dos historiadores, pois estamos em contato mais direto com a forma com que eles escre-
vem os seus textos. As teorias nos permitem conhecer as escolhas que fazem os historiadores
em seu momento de elaboração de uma abordagem e um recorte de seu objeto de pesquisa,
ou seja, é possível conhecer porque eles escrevem de uma form a específica a partir de um
conjunto de conceitos e categorias de uma determinada teoria.

Ao pensarmos a historiografia nos vem em mente um conjunto de historiadores. Isso


mesmo! A historiografia é também a história que os historiadores fazem, cada um com seu
estilo, suas escolhas, seus objetos e suas teorias. Quanto mais conhecemos os historiadores

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

mais conh ecemos a historiografia, pois cada um deles contribui de alguma forma para a

construção de um saber que forma um conjunto significativo de obras, um de terminado

produto cultural.

Os historiadores seguem teorias que os aproximam das escolas históricas e, cada uma

delas, representa um legado cultural que é orientado por um conjunto teórico e metodológico

utilizado para orientar a produção do conhecimento.

O historiador também é um sujeito capaz de criar certas tendências a partir de teorias,

pois alguns trabalhos são tão inéditos e inovadores que são capazes de constituir uma nova

tendência, uma nova forma de produzir conhecimento histórico. Estas novas tendências são

responsáveis pela constante renovação do conhecimento, dando oportunidade de pensar a

história sobre múltiplos olhares, e assim é i mportante salient ar que é salutar entender a

história a partir de vários pontos de vista, ou mesmo de outras abordagens.

O conhecime nto deve sempre passar por diferentes fases, a cada nova fase costuma-

mos dizer que a própria historiografia é renovada, pois isto significa que a escrita da história

também passa por renovações. Neste sentido, pode-se afirmar que cada geração de historia-

dores escreve a história de uma forma e estilo diferente.

O exercício de escrever a história é uma tarefa que também pertence à historiografia,

pois quando o historiador escreve, está fazendo uma escolha específica de uma determinada

teoria e metodologia para orientar o seu trabalho. A escolha da teoria é uma ação livre, ou

seja, ele não é obrigado a escolher esta ou aquela teoria, a sua escolha reflete a sua subjeti-

vidade, ele vai escolher uma teoria por acreditar que esta possa lhe dar condições de melhor

responder as suas interrogações, de melhor or ientar e direcionar o seu objeto de pesquisa.

A escolha de uma teoria é uma ação que reflete a sua posição em relação à história,

pois pode revelar as suas preferências pessoais de trabalhar uma tendência e não outra

qualquer. Quando escolhemos uma teoria estamos nos posicionado pessoalmente , estamos

definindo um determinado lugar dentro da historiografia, estamos de certa forma dizendo

por que preferimos certos historiadores ou certa escola histórica.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O historiador ao escolher um determinado posicionamento dentro da historiografia


está manifestando uma consciência histórica, pois a partir daí ele sabe o que seguir, signifi-
ca dar um determinado rumo ao seu trabalho de pesquisa, isto não quer dizer que ele deva
seguir a mesma teoria a vida inteira, mas a sua opção vai formar a sua especificidade.

Atualmente est amos cada vez mais nos especializando, e esta tendência também che-
gou à história, agora temos especialistas em áreas específicas, que pesquisam e publicam
artigos e livros expressando o seu saber em uma determinada área do conhecimento históri-
co. A especialização situa o profissional em uma tendência específica do conhecimento, isto
permite o seu aprofundamento, mas devemos cuidar para não perdermos a possibilidade de
um conhecimento mais geral que vai permitir ao historiador entender questões significativas
do contex to histórico, ou seja, de termos um conhecimento que nos situe num campo mais
vasto da historiografia.

O campo da historiografia é extremamente vasto e também muito complexo, pois abran-


ge uma diversidade muito grande de tendências que expressam as áreas do conhecimento
em história. Há tempos atrás o campo era mais simplificado, pois era basicamente divido em:
história social; história econômica; história política e história cultural. Esta divisão dava
conta praticamente do campo historiográfico, os historiadores situavam suas pesquisas e
obras nestas divisões.

No século 20 este campo torna-se cada vez mais complexo, sendo possível situar as
pesquisas em várias divisões e subdivisões, podemos observar trabalhos em história das men-
talidades, história do cotidiano, da vida privada, de gênero, da sexualidade, da loucura, dos
jovens, enfim uma infinidade de classificações. Nesta perspectiva podemos observar que a
historiografia torna-se cada vez mais complexa e dividida em compartimentos.

No final do século 20 e início do século 21 é possível obser var a importância concedi-


da à história cultural. A cultura passou a ser interesse dos historiadores que buscam entendê-
la em sua diversidade de manifestações e nos países. O cultural é trabalhado em sua plena
manifestação, pois no início do século 20, os historiadores se i nteressavam mais pela cultu-
ra erudit a, a cultura das classes dominantes e atualmente parece acontecer o reverso, ou
seja, os historiadores estão mais interessados em trabalhar com as manifestações da cultura
popular.

22
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A cultura não é mais trabalhada como uma dimensão separada do mundo social, pois
antigamente a cultura era quase como algo decorativo, que ficava à margem dos estudos
dos historiadores, agora a cultura é pensada como algo vivido, que faz parte da realidade
como algo integrante, ou seja, ao lado da economia, do social e do político ela participa
integralmente do mundo das pessoas.

Os historiadores estão mais interessados em trabalhar com as manifestações da cultu-


ra popular mostrando que as pessoas comuns também têm cultura, pois anteriormente pare-
cia que as pessoas pobres não tinham cultura. Agora os pobres, os populares, os considera-
dos marginalizados, os negros, os índios, os prisioneiros, as prostitutas, os operários, cada
um em sua especificidade produz também alguma manifestação da cultura.

A cultura é pensada em sua diversidade de manifestação, desta forma a historiografia


entende que é possível estudar a cultura em suas distintas dimensões, pois cada grupo social
se expressa de forma diferente. Nesta perspectiva é importante observar que pensar em uma
história cultural plena é possível a partir da compreensão de que convivemos em um mundo
marcado pela diversidade, sendo assim o ponto inicial dos estudos deverá ser feito, pensan-
do principalmente na dife rença existente entre os grupos em uma determinada sociedade.

A historiografia é responsável pela nossa própria atualização, pois a mesma é uma das
expressões da cultura que nos propicia o entendimento dos diversos movimentos do homem
na sociedade, tanto nas sociedades mais distantes, quanto na sociedade contemporânea.
Neste sentido a historiografia serve como um instrumento de crítica do próprio mundo soci-
al, pois ela nos oferece os instrumentais necessários para a formação do nosso pensamento,
nos proporcionando conteúdos sobre a vida do homem e do movimento das sociedades.
Sendo assim, é possível adentrar em um universo de conhecimento histórico, que forneça
base para a reflexão, pois é importante conhecermos as coisas e situações para poder formu-
lar a nossa crítica, caso contrário nossa crítica ficaria esvaziada de sentido.

Os movimentos da própria historiografia refletem os movimentos da sociedade, pois a


cada tempo diferente temos uma expressão da historiografia, neste sentido podemos afirmar
a sua contemporaneidade. A cada período os historiadores formulam um tipo de conheci-
mento det erminado, pois devemos estar atentos ao movimento que o homem e a sociedade
realizam, cabe ao historiador analisar e escrever sobre cada um deles.

23
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O conhecimento se renova constantemente para dar respostas aos problemas que a


sociedade enfrenta cotidianamente, os historiadores não podem permanecer alheios à soci-
edade em que vivem, precisam acompanhar todos os movimentos, pois a seu ofício exige que
permaneçam atentos a tudo o que acontece ao re dor. Neste sentido, podemos afir mar que a
historiografia é também o produto da cultura e que o historiador deve se aprese ntar como
um produtor cultural, que produz um conhecime nto que expressa a cultura de um determi-
nado pe ríodo.

A cultura está expressa no conhecimento produzido pelo historiador, pois o conheci-


mento histórico é também uma forma de expressão da própria cultura, neste sentido pode-
mos afirm ar que escrever história é um constante exercício de produção da mesma. Mas é
importante salientar que é uma prática cultural bem especializada, pois perpassa pela com-
preensão de que a historiografia é a escrita da história de uma forma bem sistemática, ou
seja, não é qualquer tipo de conhecimento, pois é produzido a partir de teoria e métodos que
caracterizam a forma específica de se escrever a história.

É um conhecimento que expressa a profundidade de seus enunciados, pois reflete toda


a trajetória de pesquisa do historiador, seus pontos de vista e seu posicionamento teórico.

A própria pesquisa histórica também é influenciada pela historiografia, pois a partir


desta é possível escolher uma teoria e uma metodologia a ser trabalhada e, sendo assim,
toda a pesquisa realizada pelo historiador perpassa pela compreensão de que é necessário
realizar uma escolha.

Nesta perspectiva, entendemos a historiografia como portadora de um conjunto bem


significativo de teorias e métodos que per mitem a construção do conhecimento histórico-
científico, ou seja, não é qualquer conhecimento, é uma e xpressão que reflete todo um
referencial que permite uma construção inteligível e organizada e produz um material acei-
to em uma determinada sociedade. É um tipo de conhecimento que permite trazer contribui-
ções significativas para o entendimento da própria sociedade, nos proporcionando sair das
meras especulações para entrar na profundidade do que realmente aconteceu.

Pensar na importância da historiografia é um exercício racional e inteligíve l que con-


siste na tentativa de entender os discursos dos historiadores, como estes pensam em um tipo
de conhecimento que permite adentrar nas aproximações daquilo que realmente aconteceu
em uma determinada sociedade.

24
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Os discursos dos historiadores nos aproximam de certa verdade histórica, pois de ime-
diato podemos pensar que a escrita da história reflete de uma maneira mais direta aquilo
que realmente aconteceu, não é uma mera suposição, este é o sentido da verdade, um dis-
curso daquilo que aconteceu. Os historiadores produzem vários discursos, os quais refletem
a sua própria maneira de entendimento das sociedades estudadas, todos estes configuram
para a construção das representaçõe s e da memória.

Os discursos são representações daquilo que aconteceu, certa maneira de ver as coisas
e que fica registrado com o texto histórico. O texto sintetiza tudo o que o historiador pensa
sobre a história, pois é uma forma resumida de apresentar tudo aquilo que ele acredita ser
uma verdade.

A historiografia comporta este conjunto de textos, nos permitindo entender tudo o que
realmente os historiadores escrevem, neste sentido podemos pensar que a partir disto pode-
mos entender a plenitude da própria sociedade . Nesta perspectiva, é fundamental salientar
que quanto mais nós conhecermos a historiografia, mais estaremos entendendo como funci-
onam as sociedades que temos a intenção de estudar.

Ao escolher os textos que vamos trabalhar com nossos alunos, estamos trabalhando
com historiografia, pois a escolha do material adequado é fundamental para que o ensino
realmente seja de qualidade. No momento de seleção de textos para nossos alunos é impor-
tante que este material represente o que há de mais inovador na historiografia, pois não
adiantaria de nada termos um belo discurso sobre a história, se o material que escolhemos
para ensinar seja conservador.

Somente o conhecimento da teoria da história vai permitir ao professor fazer uma aná-
lise mais detalhada do conteúdo dos textos selecionados. Toda a linguagem que o historia-
dor utiliza ao escrever os seus textos, expressa de certa forma a sua opção por uma determi-
nada teoria, pois no texto podemos encontrar os conceitos e categorias que identificam de
forma clara a teoria utilizada. A teoria é um traço marcante na escrita de um texto.

A historiografia brasileira é bem diversificada e complexa, como a européia. No Brasil


os estudos mais significativos de historiografia aparecem com mais freqüência a partir do
século 19, momento em que alguns historiadores começam a pensar a escrita da história.

25
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Mas realmente é no século 20 que a historiografia realmente acontece como uma expressão

da cultura, pois neste longo século ela passou por diferentes fases, marcando de forma deci-
siva a influência das teorias que os historiadores europeus desenvolveram para a escrita da

história.

Muitos historiadores brasileiros foram estudar e pesquisar na Europa e trouxeram para


o Brasil o que havia de novo e revolucionário em termos de teorias e metodologias.

1
No final do século 19 e começo do século 20 temos na Eu-
ropa a influência decisiva da Es cola Metódica e do Positivismo,
ambas as correntes são tomadas como referência pelos historiado-
res para escrever a história. A Escola Metódica nasce na Alemanha
com o historiador Leopoldo Von Ranke, e logo os historiadores fran-
ceses trazem para a França, desta forma tendo uma influência sig-
nificativa na produção historiográfica. Esta escola era marcada mais
por um método de leitura documental, do que por uma teoria pro-
priamente dita.

2
O Positivismo nasceu na França, também no século 19, a
partir da doutrina de August Comte, que estabe lece algumas leis
para a construção do conhecimento histórico e se aproxima mais
de uma teoria.

Ambas as correntes têm uma influência significativa na pro-


dução do conhecimento histórico no Brasil, e continuaram durante
boa parte do século 20 a influenciar os nossos historiadores, princi-
palmente os que escreviam os manuais didáticos que eram utiliza-
dos nas escolas. Principalmente a Escola Metódica, com uma história mais política, com

seus heróis e fatos históricos, o que le vava os alunos a decorar o nome dos heróis e os “princi-

1
Disponível em: <http://ger manhistorydocs.ghi-dc.org/images/334 4-Leopold%20von%20Ranke%20@%20530.jpg>. Acesso em: 3
set. 2008.
2
Disponível em: <http://records.viu.ca/~mcneil/jpg/comte.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

26
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

pais fatos ocorridos com a humanidade”, era uma história muito descritiva, que não incen-
tivava o aluno a desenvolver o seu senso críti co. Felizmente, esta corrente historiográfica
está totalmente superada.

3
O marxismo foi uma outra corrente teórica e metodológica,
que nasceu também no século 19, fruto de todo um trabalho de pes-
quisa e observação a partir das idéias de Karl Marx, que desenvol-
veu a concepção teórica e explicativa sobre a sociedade de sua época,
e que viria a ser utilizada para muito além de suas origens, influen-
ciando a construção do conhecimento no decorrer do século 20.

O marxismo, como é conhecido e desenvolvido pelos segui-


dores de Marx, é essencialmente uma teoria social, serve como um
modelo de explicação sobre o funcionamento das sociedades, por isso a sua visão de totali-
dade, pois pretendia ser uma teoria que compreendesse e explicasse as sociedades na sua
íntegra. O marxismo foi elaborado para ser uma teoria social, que oferece instrumentos para
os atores sociais desenvolverem a sua própria crítica social, bem diferente do positivismo
que pregava a importância de se manter a ordem social para se conseguir o progresso.

Karl Marx foi um atento observador dos problemas da sociedade, dessa forma demons-
trava em suas obras a importância de se pensar a sociedade e seus conflitos, ou seja, as lutas
de classe como motor da história e, neste sentido, as suas concepções de história apontam
para uma perspectiva da história-problema. Os historiadores vão buscar no marxismo a pos-
sibilidade de se pensar o conhecimento onde a história é pe nsada com uma pe rspectiva
singular, denominada de materialismo histórico.

No materialismo histórico temos uma perspectiva de pensar o próprio desenvolvimen-


to das sociedades, bem como a sua organização, tudo isto a partir de um concei to básico
que é o modo de produção. Este conceito é a chave da teoria marxista. No m arxismo é
possível trabalhar teoricamente com conceitos e categorias, que nos possibilitam o entendi-
mento da sociedade em suas estruturas internas e externas.

3
Disponível em: <http://portrait.kaar.at/Verschiedene%2019.Jhd/images/karl_marx.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

27
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Outra escola histórica de importância fundamental para a historiografia é a Escola

dos Annales, criada na França no final da década de 1920 e continua atuante até a atuali-
dade, cada vez ganhando mais espaço entre os historiadores do mundo inteiro. A Escola dos

Annales é considerada como uma verdadeira revolução para a produção do conhecimento


histórico, pois a partir do seu surgimento a história passou a ser pensada de uma outra

forma.

A história tornou-se interdisciplinar, ou seja, teve aproxim ações com as demais disci-
plinas das ciê ncias sociais, permitindo um ganho explicativo extraordinário. Os objetos de
pesquisa passaram a ser extremamente variados, começando a pensar a história sobre dife-
rentes perspectivas e permitindo conhecê-la a partir do cotidiano, das mentalidades, da vida
privada, das mulheres, dos jovens, dos velhos e dos atores sociais considerados excluídos. O
tempo passou a ser pensado em diferentes fases, como a curta duração, a média duração e a
longa duração.

A Escol a dos Annales não se uti li za de um a t eor ia úni ca, m as d e v árias te ori as e
met odologias, q ue vão d ecisivamente rev olucionar a produção do conhe cim ent o his tó-
rico.

Seção 2.2

A História Como Ciência

Para a Escola Metódica Positivismo, Marxismo e Escola dos Annales, a história deve
ser pensada e construída a partir de teorias e métodos, isto significa que história é uma
ciência. A noção de ciência na história prevê a utilização de uma teoria e de um método,
isto significa que pode ser pensada a partir de algum parâmetro científico.

A própria utilização da teoria para a produção do saber já caracteriza a ciência e,


nesta perspectiva, podemos dizer que a ciência influencia na produção de um conhecimento
com certo sentido, ou seja, não é um amontoado de coisas se m nexo ou racionalidade. O

28
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

conhecimento científico diferencia-se do conhecimento não-científico ou vulgar por ser um

conhecimento ordenado, racional e com sentido, uma perspectiva de se pensar os objetos de


pesquisa com algumas regras que os ordenem.

4
A história como ciência é defendida por Jörn Rüsen4 em seu
livro Razão histórica, nesta obra o historiador alemão desenvolve seus
argumentos na defesa da ciência histórica. Ele é implacável ao dizer
que o conhecimento verdadeiro e com sentido é o científico.

O autor salienta que é preciso pensar na racionalidade que a


ciência da história possui. Assim, fica e vidente a sua preocupação
em demonstrar que o conhecimento científico é essencialmente racional, um sentido deter-
minado em busca, naturalme nte, e uma razão h istórica. Para Rüsen a tarefa de uma teoria
da história estaria na perspectiva da construção de uma análise buscando a racionalidade
da ciência da história.

Rüsen aponta para a perspect iva de se pensar que o conhecimento científico é


construído, no caso específico da história, a partir da aplicação de determinados métodos de
investigação a serem aplicados às fontes, pois se estas não ex istissem não seria possível
reconhecer um passado que faça sentido como história. Pois com as fontes inicia-se a apli-
cação dos métodos e regras de pesquisa, a partir deste momento começa a efetiva constru-
ção de um método científico.

O autor salienta que os métodos de pesquisa constituem o terceiro fator dos funda-
mentos da ciência da história. Sendo importante salientar que para a efetiva realização do
ofício do historiador, é preciso, após selecionar a sua fonte de pesquisa, buscar na teoria a
construção de métodos de investigação para os dados fornecidos, pois é ele que t ransforma
as fontes em documentos para a construção de um conhecimento racional e com sentido.

A teoria aparece como pano de fundo para a construção do conhecimento histórico-


científico, neste sentido Rüsen observa alguns significados da teoria da história para o estu-
do da história. O autor faz as seguintes ponderações:

4
Disponível em: <http://www.kupoge.de/kongress/2005/referenten/ruesen.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

29
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

1 – A teoria da história é necessária para solucionar o problema de uma introdução tecni-


camente correta no estudo da história.

2 – A teoria da história é necessária para solucionar o problema de uma combinação eficaz


de disciplinas diferentes.

3 – A teoria da história é necessária para solucionar o problema do subjetivismo diante da


exigência de objetividade de pensamento histórico-científico.

4 – A teoria da história é necessária para solucionar o problema da gestão da quantidade de


material de pesquisa, ela exerce aqui uma função organizadora da obtenção do saber
histórico.

5 – A teoria da história contribui para formar a capacidade de reflexão, sem a qual não se
pode solucionar o problema posto pela necessidade de conciliar, num trabalho científico
de fôlego, os requisitos científicos e a economicidade do trabalho. Ela exerce aqui uma
função de seleção e fundamentação.

6 – A teoria da história é necessária para a solucionar o problema de como os estudiosos


poderiam levar em conta, já durante o estudo, sua futura prática profissional 5 .

Nas observações do autor a teoria exerce um papel fundamental para a produção do


conhecimento histórico, pois a sua utilização vai confirmar a perspectiva de se fazer uma
história científica. O mesmo autor avança nesta perspectiva e vai dizer que o uso da teoria
também interfere na aplicação de um método para solucionar o problema do material de
pesquisa, isto significa que é a partir da utilização de um método que é possível avançar na
investigação, analisar as fontes de pesquisa e transformá-las em documentos, que são base
para qualquer trabalho hi stórico.

Aqui também é discutidos a questão da subjetividade do historiador que vai, a partir

do uso da teoria, construir certa objetividade necessária para qualquer trabalho científico. A
teoria é tão valorizada por este historiador a ponto dele afirmar que a mesma é necessária

para os estudiosos construir em sua futura prática profissional. Nesta perspectiva, podemos

5
Rüsen, Jörne. Razão histórica: Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: UnB, 2001. Op. cit. p. 38-41.

30
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

afirmar, segundo as obser vações do autor, que o conhecimento científico somente é formu-
lado a partir da utilização da teoria da história, e que ela constitui a base para o trabalho do
historiador, inclusive para a definição de sua própria profissão.

A possibi lidade de se pensar em uma história científica é uma perspectiva de mostrar


que o conhecimento científ ico difere-se do conhecimento não-científico ou vulgar como
alguns autores afirmam, pois se constata que a pretensão do conhecimento científico é mostrar
de alguma forma a verdade dos enunciados. Para Rüsen, a história como ciência é a forma
peculiar de garantir a validade que os acontecimentos em geral pretendem ter, neste sentido
o autor observa que a ciência seria mais uma garantia para consolidar um tipo de conheci-
mento tão subjetivo como o h istórico.

O mesmo autor continua suas observações, afirmando que as histórias com pretensões
científicas teriam validade e que, de alguma forma, estariam garantidas perante uma formu-
lação particularmente bem estruturada, ou seja, baseadas em uma teoria da história que
garantiri a uma certa regulamentação metódica. O método é elaborado sempre a partir da
aplicabilidade de uma determinada teoria, somente desta forma seria possível construir um
conhecimento histórico-científico com uma determinada pretensão de verdade.

A questão do método garante a legitimidade do conhecimento histórico, ele é possível


de ser formulado a partir da aplicabilidade de uma determinada teoria, este processo garan-
te que o conhecimento estará sendo produzido com critérios e métodos que dão credibilidade
aos argumentos apresentados.

A metodização significa a aplicabilidade de um determinado método, esta tarefa é a


garantia que o historiador teria de transformar suas idéias e hipóteses em um conhecimento
realmente racional, com certa garantia de sua validade. Isto significa que estaríamos diante
de um conhecimento sistematizado, construído com critérios objetivos e métodos de leitura
das fontes empregadas pelo historiador, pois as fontes nos fornecem a matéria-prima que
necessitamos para a construção do conhecimento histórico.

O que garante que o conhecimento produzido pelo historiador é realmente científico?


Para ter esta garantia é preciso certa fundamentação no momento de produzi-lo, na pers-
pectiva de construir certa validade. Podemos observar que o conhecimento histórico vale
para alguma coisa, ele tem uma importância para a cultura de uma determinada época,
servindo como base para o estabelecimento de uma crítica à sociedade em que vivemos.

31
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O conhecimento histórico não é um conhecimento vulgar, que deve ficar armazenado


nas prateleiras das bibliotecas, ele tem uma pretensão de verdade, é racional, servindo como
instrumento para a nossa formação cultural. Também podemos afirmar que o conhecimento
histórico é muito dinâmico, pois cada vez mais os historiadores constroem novos argumen-
tos e as pesquisas históricas sempre trazem novos resultados, sendo sempre fundamental a
tarefa de escrever novas histórias com os novos dados obtidos com as pesquisas.

As histórias tor nam-se realmente científicas a partir do momento em que fore m


embasadas na pesquisa histórica, ou seja, em algo que realmente aconteceu em um determi-
nado tempo e espaço, que existiu de forma concreta, que possa ser recuperado em algum
aspecto e transformado em conhecimento. As narrativas devem ser construídas obedecendo
às regras da pesquisa histórica, pois é necessária a sistematização dos dados a partir de
algumas normas que são dadas com a teoria aplicada.

As normas estabelecidas pela teoria são responsáveis pela construção de um conheci-


mento histórico, que é garantido pela experiência. Isto quer dizer que está diretamente refle-
tindo algo que realmente aconteceu. Rüsen segue as suas afirmações dizendo que a histó-
ria, como ciência, produz com a devida metodização, ou seja, com a utilização de métodos
específicos para a análise da pesquisa, garantido desta forma um progresso constante de
conhecimento histórico.

A construção do conhecimento histórico-científico é um processo, no qual é possível


perceber que o historiador, como sujeito produtor de conhecimento, vai se utilizar de algu-
mas regras e normas para tornar o seu ofício mais sistemático e direcionado. Nesta perspec-
tiva, podemos perceber que quando o historiador procura trazer a experiência do passado ao
presente, ele deve fazê-lo com certa ordenação, pois não podemos recriar a história de uma
forma ale atória, o que exi stiu no passado foi vivido com certa lógica.

O historiador deve procurar entender a lógica do passado, ou seja, a articulação de


seu objeto com a sociedade na qual aquilo foi realmente vivido, pois os objetos de pesquisa
são meros recortes e muitas vezes podem aparecer de modo isolado, dessa forma perdendo a
sua vinculação com o seu devido referente. No processo de construção do conhecimento, o
historiador deve permanecer atento as suas f ormulações teóricas e metodológicas, pois a
partir destes referenciais é que constrói toda a sua visão de pesquisa.

32
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A pesquisa deve obedecer ao conjunto de regras e normas, ou seja, a tão propagada


metodização, pois a partir da compreensão deste referencial escolhido é que o trabalho de
sistematização começa, para posteriormente construir a narrativa histórica e, enfim, o seu
processo de escrita.

A história como ciência é uma afirmativa feita por vários h istoriadores de diferentes
escolas, pois acreditam que para se construir o conhecimento histórico é preciso que o pes-
quisador conheça teorias e métodos e, desta forma, apresentam uma concepção de história
mais próxima de algumas normas e regras.

6
Ainda nesta perspectiva, podemos situar a posição de Marc
Bloch, que foi um dos fundadores da Escola dos Analles, em seu
livro Apologia da história ou o ofício do historiador,7 ele discute de
forma sistemática a sua concepção de ciência da história. Bloch
afirma que história é a ciência dos homens no tempo, esta afirma-
ção confirma a sua posição que reflete também a própria Escola
dos Annales, de que pensar o tempo e o conhecimento histórico
significa pensá-los sobre a ótica da ciência e sua temporalidade.

Marc Bloch, ao discutir o problema da observação histórica, retoma novame nte a sua
posição em relação à ciência da história, afirmando que uma ciência não se define apenas
pelo seu objeto de estudo, é preciso pensar nos limites estabelecidos pelo próprio historiador.
O autor também discute a natureza dos métodos, ou seja, que é sempre necessário o empre-
go destes para o desenvolvimento da pesquisa e da narrativa histórica, confirmando desta
forma o emprego da ciência para a construção do conhecimento.

O mesmo autor comenta que as próprias técnicas de investigação, ou seja, de pesqui-


sa, não são as mesmas conforme nos aproximamos ou nos afastamos do momento presente.
Esta afirmação é fundamental para entendermos que as técnicas de pesquisa não são as
mesmas para todos os objetos, pois somente a teoria nos dará suporte para criarmos as
nossas próprias técnicas segundo o que realmente queremos investigar. Em síntese, pode-

6 Disponível em: <http://www.cojeco.cz/attach/photos/3b44e7a50bd83.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.


7
Bloch, March. Apologia da história ou o ofício do historiad or. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

33
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

mos afirmar que Bloch foi um defensor da hist ória como ciência, pois o autor afirma em seu

livro “Apologia da História” que é preciso o emprego de métodos e técnicas de pesquisa para
a construção do conhecimento.

Os autores que defendem a história como ciência são vários. Aqui apresentamos ape-
nas dois casos para melhor i lustrar o nosso texto, mas têm autores, em todas as escolas, que
acreditam que para se construir o conhecimento histórico é preciso a utilização de uma
teoria e de métodos especí ficos no processo da pesquisa e na construção da narrativa.

Assim, a história como conhecimento pode passar pelo crivo da ciência e constituir-se
como um conhecimento racional em busca de uma razão, com direcionamentos precisos,
capazes de transmitir de forma ordenada e seqüencial os argumentos e proposições elabora-
dos pelos historiadores, ou seja, não é apenas um mero relato das coisas que ocorreram, mas
é sim uma narrativa histórica, problematizada, capaz de nos traduzir a experiência que os
homens e as sociedades viveram em um determinado tempo.

Seção 2.3

A História Como Não-Ciência

Por outro lado, temos os historiadores que não acreditam que a história possa configu-
rar-se como uma ciência, pois aclamam que esta não tem teorias e métodos precisos para a
sua constituição, portanto não pode apresentar-se como tal. Temos neste direcionamento
dois grupos bem específicos, aqueles historiadores que constroem conhecimento histórico
sem o uso das teorias e os que aproximam a história da arte e da literatura. São grupos bem
distintos!

Os historiadores que defendem a história científica protestam estas posições a-teóricas


e afirmam que este conhecimento produzido sem o uso de teorias e métodos poderia ser
classificado como história vulgar. Desta forma, podemos perceber que esta denominada his-
tória vulgar não teria o mesmo reconhecimento de uma história científica.

34
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O historiador Paul Veyne em sua clássica obra Como se escreve a história, afir ma que a
história não pode configurar-se como uma ciência, e define a história como uma narrativa de
eventos reais que tem o homem como ator. O autor observa que esta nar rativa difere-se da
literária porque busca a construção da verdade, o que difere a história das demais disciplinas.

Veyne discute que a construção do conhecimento histórico perpassa pela compreen-


são da importância dos documentos para a sua elaboração, e observa que os eventos não
são aprendidos de uma maneira dire ta, mas indiretamente por meio dos fatos pesquisados,
registros, que são todos parciais. Eles são os testemunhos de que algo realmente aconteceu,
e que ficou armazenado na memória, pois considera que a história é filha da memória.

Paul Veyne define que a ciência é muito pobre e restrita e que a história não caberia no
reducionismo desta e, portanto, é muito mais ampla do que se pode imaginar. Neste sentido,
o autor observa que:

Não somente nenhum acontecimento, mas, ainda, as leis que vêm interf erir no curso de um
acontecimento não explicarão, nunca, senão uma pequena parte dele. O sonho espinosista de um
determinismo completo da história não passa de um sonho; a ciência não será, jamais, capaz de
explicar o romance da humanidade tornando-o por capítulos inteiros ou, mesmo, por parágra-
fos; tudo o que ela pode fazer é explicar algumas palavras isoladas, sempre as mesmas, que
retornam em muitas páginas do texto, e suas explicações são, por vezes, úteis para a compreen-
são, outras vezes, não passam de glosas inúteis.

A razão desse divórcio entre a história e a ciência está em que a história tem por princípio tudo
o que é digno dela: não tem o direito de escolher, de se limitar ao que é suscetível de uma
explicação científica, do que resulta que, em comparação com a história, a ciência é muito pobre
e repete-se terrivelmente8.

A partir das idéi as explicitadas pelo autor, podemos observar que a ciência não daria
conta de toda a comple xidade que é o conhecime nto histórico, pois as teori as científicas

pode riam reduzir a h istória a algo totalmente simplificador, não oferecendo ex plicaçõe s
plausíveis para o ente ndim ento das sociedades. Nesta perspectiva, fica destacado que é

preciso a construção de um conhecimento que dê conta de toda uma complexidade que é


a história.

8
Paul, Veyne. Como se escreve a história; Focault revoluciona a história. Brasília: UnB, 1995. Op. cit. p. 128.

35
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Não se pode cair na tentação de construção de um conhecimento compartilhado em

fragmentos, pois a sua fragmentação perderia o sentido da própria narrativa. O autor desta-
ca a importância de se pensar em um certo divórcio entre a história e a ciência, pois a

primeira tem como principio trabalhar com um conhecimento mais abrangente, o qual não
caberia neste certo reducionismo da ciência, e finaliza destacando que a segunda ciência é

pobre e repete-se muito.

9
Outro autor a conside rar a história como não-ciê ncia é
Hayden White, ele defende a proposição de que a história estaria
mais próxima da literatura do que da ciência. O autor afirma que
os historiadores comentam que a história ocupa uma área interme-
diária entre a ciência e a arte e, podemos observar que não se cons-
titui como uma negação da ciência mas uma possibilidade de apro-
ximação da história com a arte.

A história próxima da arte conquistaria um novo estatuto, ou


seja, não estaria mais sujeita as regras e normas mais rígidas empregadas pelas ciências,
estaria conquistando um novo espaço, com uma escritura mais flexível e próxima da teoria
literária. Nesta perspectiva, o autor afirma que as histórias construídas pelos historiadores
não podem corresponder exatamente a maneira pela qual as coisas de fato ocorre ram, isto
significa que a história não é uma recuperação precisa daquilo que realmente aconteceu, a
história é tão somente uma interpretação dos acontecimentos.

Hayden Whi te discute em suas obras, principalmente na “Metahistória”, uma de suas


mais clássicas obras, que é preciso o historiador pensar nas diversas formas de utilização e
domínio da linguagem para a sua construção textual, pois est a quando bem utilizada vai
determinar o seu próprio e stilo. Na construção do texto a linguagem determina os seus
significados, pois é preciso prestar a atenção para a forma como são construídas, a ordena-
ção dos argumentos e as figuras de linguagem empregadas, tudo isto resulta em um traba-
lho didático e extremamente significativo para a construção do discurso histórico.

9
Disponível em: <http://www.staff.amu.edu.pl/~ewa/Hayden%20White%20American%20Academy%20in%20Berlin.jpg>. Acesso em:
3 set. 2008.

36
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O autor afirma que a discussão entre história ciência e não-ciência é uma problemáti-
ca aberta entre os historiadores, e destaca que é necessário defender suposições conscientes
e inconscientes. Desta forma, podemos observar que a discussão sobre o próprio estatuto da
história é um problema que o historiador deve enfrentar.

A história como ciência ou como não-ciência é uma longa discussão que perpassa
pela historiografia ainda no século 21, pois os historiadores estão divididos quanto as suas
posições, ainda perpassamos por novas concepções sobre o conhecimento a partir de alguns
modelos como, por exemplo, pela modernidade e pós-modernidade, modelos que discutem a
produção do conhecimento como um todo, não simplesmente o conhecimento histórico.

Mas o que nos interessa diretamente é a discussão sobre o conhecimento histórico,


visto que este é construído a partir de algumas balizas que os caracterizam como um tipo
especial que tem como propósito nos revelar a verdade, ou seja, não é qualquer conheci-
mento que se produz a partir do nada, ele deve estar baseado em alguma coisa que realmen-
te aconte ceu, ou seja, em um determinado referente. Esta é a concepção de um modelo de
conhecimento chamado de modernidade, ou também conhecido como paradigma moderno.

No modelo de conhecimento conhecido como pós-modernidade, as coisas não são mais


concebidas dessa maneira, o que nós chamamos de referente (aquilo que realmente aconte-
ceu), não existe mais para os pós-modernos, pois estes historiadores consideram que o pas-
sado somente existiu nos textos (nos discursos), ou seja, não se tem mais a idéia de um
passado real, neste sentido o referente não faz mais sentido de discutir.

Os historiadores pós-modernos não acredit am que seria possível a construção de uma


verdade histórica, ou seja, o conhecimento histórico é algo relativo, feito somente a partir
dos discursos e com os recursos da linguage m. O passado não é mais o referente para a
construção do conhecimento, mas apenas os discursos e os textos, ou seja, não é mais pos-
sível relacionar o conhecimento histórico a um determinado passado, ele é relaci onado aos
relatos sobre o passado, bem próximo da literatura.

A pós-modernidade vai criticar as teorias da história que consideram o conhecimento


histórico como uma ciência. Para estes autores a história não é uma ciência, pois estaria
mais próx ima da literatura e da ficção. Esta corrente denominada de pós-mode rnidade é
muito recente e começa a ganhar espaço no final dos anos de 1980, na Europa e nos Esta-
dos Unidos, onde este movimento tem maior expressão.

37
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

No Brasil este movimento é muito recente. Os historiadores fazem muitas críticas à


pós-modernidade, não acreditando no sucesso do movimento, mas devemos estar atentos
para os comentários que estes historiadores pós-modernos fazem em relação à história, pois
eles abominam o excesso de rigor científico e acabam com a noção de que é possível cons-

truir um conhecimento racional.

Existem várias vertentes na pós-modernidade, uma delas visa discutir o estatuto do


próprio t exto histórico caracterizando-o como um artefato lingüístico. Esta vertente tam-
bém conhecida como narrativista, discute a importância da linguagem e do discurso para a

construção do texto do historiador. A tese levantada por esta corrente é de que o texto do
historiador não é diferente do texto criado por autores de ficção, portanto a narrativa histó-
rica não teria diferença da narrativa ficcional.

Esta afirmação dos pós-modernos narrativistas acaba com a noção que funda a ciên-
cia da hi stória, que postula que para a construção do conhecime nto histórico é preciso que

o historiador o construa a partir de seus documentos, ou seja, de suas fontes de pesquisa.


Esta corrente narrativista contesta a própria objetividade do conhecimento histórico e tam-
bém os limites de sua verdade, pois o compara com o conhecimento ficcional, o qual pode
ser construído somente a partir da imaginação do escritor. Podemos concluir, afir mando que

a pós-modernidade contesta muitas coisas, mas não oferece outras para pôr no lugar, desta
for ma f ica e vide nte que e sta corre nte não contri bui muito para a história e par a a
historiografia.

A construção do conhecimento histórico é algo muito sofisticado, pois exige do histo-

riador uma verdadeira reflexão sobre as regras e normas precisas para a sua confecção,
sendo possíve l perceber que é necessário que o historiador seja um sujeito bem informado. É
importante salientar que o historiador deve conhecer as teorias da história para se posicionar

como um sujeito produtor de conhecimento, pois como acabamos de ver existem várias cor-
rentes que discutem o estatuto do texto histórico.

Esta discussão sobre a história como ciência ou como não-ciência é uma problemáti-
ca que perpassa as teor ias, isto quer dizer que não é uma discussão encerrada, ela continua
aberta para ser encarada pelos diferentes historiadores em suas escolas históricas. Os argu-

38
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

mentos que os historiadores utilizam para defender a ciência ou para negá-la, pertencem às
diversas correntes teóricas, e por isso é fundamental que esta discussão esteja presente no
ofício do historiador, pois o conhecimento é uma das atividades para o sujeito apresentar-se
como tal.

Podemos observar que ainda existem pessoas que se apresentam como historiadores

que estão na margem de qualquer discussão sobre o conhecime nto histórico, que não co-
nhecem nenhuma teoria da produção do conhe cimento, nem sequer os métodos e as regras
a serem utilizadas para a construção da história. Produzem um conhecimento a-teórico e se

apresentam como historiadores, mesmo não tendo nenhuma formação na área específica.

O conhecimento que eles produzem não podemos classificar como científico ou não-
científico, apenas podemos classificá-lo como conhecimento vulgar, aqui vulgar não tem
uma conotação pejorativa, mas significa um conhecimento sem a utilização de qualquer
discussão teórica. O que podemos afirmar de imediato é que todo o conhecimento tem o seu

valor, seja científico ou não-científico, mas o que podemos nos interrogar é sobre uma deter-
minada noção de verdade que este conheciment o pode representar, pois ainda acredita-se,
pelo menos os modernos, que o conhecimento histórico ainda tem um dever de trabalhar
com uma verdade.

As discussões sobre a ciência na modernidade e na pós-modernidade interferem na

concepção do próprio estatuto do conhecimento histórico, pois os historiadores que acredi-


tam que a história é uma ciência afirmam que este é o único conhecimento verdadeiro, que
ainda é possível construir algo racional e com sentido, pois se baseiam em certa metodização,

ou seja, em teorias, métodos, regras e normas, acreditando que a história deva ser construída
a partir de alguns princípios fundamentais que a regem. Mas, por outro lado, estes historia-
dores são muito rigorosos, pois criticam veementemente qualquer outro tipo de conheci-

mento que não perpassa por esta metodização.

Os historiadores que não acreditam que a história possa configurar-se como uma ciên-

cia fazem uma aproximação com a literatura e com a arte, alguns inclusive acreditam que a
história é muito ampla é que não cabe na estreiteza de uma determinada ciência. Mas há os
que acreditam que a história é realmente uma arte, portanto subjetiva demais para ser uma

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

ciência, e sua construção perpassaria pela confecção de um texto mais livre, sem as regras

mais rígidas exigidas pela ciência, portanto o seu estatuto estaria mais próximo da literatu-
ra ou também da ficção.

O importante é ficarmos atentos para as discussões que indicam que o conhecimento


histórico estaria ainda representando algo que realmente tem a ver com uma de terminada
realidade, ou seja, que ai nda tem alguma relação com o passado, o que de alguma forma
nos propiciaria entender o homem e a sociedade de uma determinada época.

SÍNTESE DA UNIDADE 2

Nesta unidade podemos percebe r que a historiografia é uma


discussão fundamental para pensarmos as diferentes formas de cons-
trução do conhecimento histórico. A historiografia tem a sua própria
história, isto quer dizer que o que os historiadores do século 19 pro-
duziam é bem diferente do que os historiadores do século 20 produzi-
ram e assim sucessivamente.

A cada período da história temos uma historiografia diferente,


pois os interesses dos historiadores mudam com o tempo, e também
as teorias que eles utili zam para a construção do conhecimento são
diversas, conforme o período em que eles vivem. Você também pôde
perceber que alguns historiadores acham que a história científica é
realmente a verdadeira, e que as outras formas de conhecimento, sem
o uso da teoria e da metodologia, não têm validade para a história.

É importante perceber que nem todos os historiadores concor-

dam que a verdadeira história é a científica, pois defendem a idéia de


que esta não é uma ciência, pois estaria mais próxima da literatura e
da ficção. Não existe uma idéia consensual sobre isto, mas é funda-
mental que você entenda que a historiografia é bem diversificada e os
historiadores pensam de forma diferente.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Unidade 3

A IMPORTÂNCIA DAS ESCOLAS HISTÓRICAS

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

Nesta unidade você vai começar a conhecer as escolas históricas, suas características

e suas influências na concepção da historiografia.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

– Seção 3.1 – As Escolas H istóricas

– Seção 3.2 – A Escola Metódica, Também C onhecida Como Positivista

– Seção 3.3 – O Positivismo de August Comte

As escolas históricas possuem características próprias, o que influenciou diretamente

na concepção de historiografia, pois esta m uda de acordo com cada uma. Cada uma destas

escolas entende a história de uma forma, ou seja, possui a sua própria concepção. Desta

forma, é fundamental que você conheça as escolas para saber o que cada uma delas propõe,

somente assim poderá emitir a sua própria opinião.

As escolas históricas representam as maneiras como os historiadores pensam, como

formulam seus trabalhos de pesquisa e como constroem o próprio conhecimento histórico.

Para iniciar, você vai conhecer a Escola Metódica, também conhecida como Positivista, mas

na medida em que for lendo vai descobrir que estas duas tendências são bem diferentes, pois

cada uma delas entende a história de uma maneira diferente. Leia o texto e descubra você

mesmo.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 3.1

As Escolas Históricas

Para melhor entendermos as concepções da história é necessário o conhecimento das


escolas históricas, pois elas representam as tendências da historiografia, ou seja, a obra dos
historiadores. Assim adentramos nos referenciais teóricos que os historiadores utilizam para
a construção do conhecime nto histórico, pois com o aprendizado das tendências que as
escolas representam, é possível entender que as concepções de história são variáveis de acordo
com cada uma.

As teorias históricas utilizadas para a construção do conhecimento estão alocadas nas


escolas históricas, pois elas representam a possibilidade de pensar o conhecimento de uma
for ma racional e ordenada, com certo sentido. Por outro lado, a teoria representa a possibi-
lidade de uma concepção científica da história. Vale ressaltar que os historiadores que não
acreditam que a história seja uma ciência também pertencem a alguma escola h istórica.

Cada uma das escolas históricas representa uma corrente historiográfica, que congre-
ga uma série de historiadores, que pensam a história de uma forma especifica, dando singu-
laridade e caracterização a cada uma das tendências. As escolas históricas estão alocadas
em certo período histórico, neste sentido representam o pensamento de uma de terminada
época, como por exemplo as escolas do século 19 possuem um conjunto de idéias e concep-
ções que dizem respeito a como a história era pensada e construída naquele período.

As escolas do século 20 são representativas da visão de m undo contemporâneas a sua


criação, mas devemos observar que algumas escolas evoluíram em suas concepções e acom-
panharam as evoluções do tempo presente, ou seja, de alguma forma permanecem sempre
contemporâneas, incorporando em suas concepções as idéias dos novos historiadores.

É importante observar que as escolas são compostas por historiadores e são eles que
incorporam as idéias sobre o fazer histórico. Cada uma das escolas é melhor representada
pelas obras de seus historiadores, são eles que seguem os pressupostos e idéias que cada
uma delas acredita ser importante na reflexão histórica. Como as obras dos historiadores
são reflexos das idéias das escolas, elas compõem um grande acervo que chamamos de
historiografia.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 3.2

A Escola Metódica Também Conhecida Como Positivista

As idéias e concepções sobre a história de Leopoldo Von Ranke parecem serem funda-
mentais para a configuração da perspectiva que denominamos de Escola Metódica, pelo
menos suas manifestações na Alemanha, que mais tarde se expandem para a França e de-
mais países europeus, bem como também influenciam na historiografia brasileira.

É preciso destacar as concepções sobre a h istória nas reflexões de Ranke, pois estas
são fundamentais para entendermos a expansão desta escola histórica que fez parte do
cenário historiográfico no século 19 e parte de século 20. Ranke foi um historiador singular
para a época que viveu, pois além de escrever uma obra muito vasta, também fez uma refle-
xão sobre a própria história.

Leopoldo Von Ranke nasceu em 1795 e morreu em 1886, ou seja, vivenciou o século
19 na Alemanha. Foi um historiador do mundo moderno e escreveu sobre a modernidade.
Concebia a história como aquilo que realmente aconteceu, e afirmava que a história atribui
a si mesma a função de julgar o passado e de instruir as narrativas em benefício das gera-
ções futuras. Nesta perspectiva o autor observa que a história tem esta função de compro-
metimento com o futuro, de informar sobre o passado, e sobre aquilo que realmente aconte-

ceu. Isto fica evidente em suas obras, pois Ranke sempre afirmou que a história deveria
preocupar-se com “o que de fato aconteceu”, uma certa visão objetiva da história.

Ranke designava que os historiadores devem sempre tentar oferecer uma representa-
ção factual do passado desprovida de seus pontos de vista e isso nos leva a acredi tar em um
posição que colocaria o historiador como um sujeito neutro, que não deveria intervir direta-
mente em seu objeto de pesquisa, mas sim deveria trabalhar com os fatos de uma maneira
em que manteria uma separação entre o historiador e seu objeto.

O trabalho deveria ser embasado a partir dos documentos, os quais deveriam ser ana-
lisados de uma forma crítica e metódica. Atri bui-se a Ranke a criação de um método crítico
que se tornou modelo de investigação histórica no século 19 na Alemanha e em diversos

43
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

países, posteriormente. Este método crítico de análise dos documentos desvincula a história
de qualquer filosofia e a coloca num patamar científico de análise detalhada de seu método
de investigação, sendo assim, a história para Ranke é essencialmente científica.

O historiador deveria estar treinado cientificamente para estudar o passado como de


fato foi, restringindo-se a uma apresentação estrita dos fatos, mantendo naturalmente a
sua neutralidade.

A obra de Ranke é o espelho de uma história científica, procurou os princípios que


norteariam uma ciência da história, principalmente pela aplicação de um método. As suas
bases documentais eram os documentos diplomáticos para se tentar construir uma história do
Estado. O autor estava interessado em mostrar as questões mais originais de um povo, dos
indivíduos e dos grandes homens políticos, por isto temos uma herança na história ainda no
século 20 de cultuar as imagens dos grandes heróis, como se eles fossem responsáveis pela
construção da nossa história. Ele pode ser classificado como um conservador, por suas posi-
ções nacionalistas, por sua defesa da nobreza alemã, era também um fervoroso protestante.

Ranke seguia alguns princípios que estabelecem o seu método, alguns deles podemos
observar a seguir:

1 – o historiador não é juiz do passado, não deve instruir os contemporâneos, mas apenas dar
conta do que realmente se passou;

2 – não há nenhuma interdependência entre o historiador, sujeito do conhecimento, e o seu


objeto, os eventos históricos passados. O histor iador seria capaz de escapar a todo condiciona-
mento social, cul tural, religioso, filosófico, etc. em sua relação com o objeto procurando a neu-
tralidade;

3 – a história – res getare – não existe em si, objetivamente, e se oferece através de documentos;

4 – a taref a do historiador consiste em reunir um número significativo de fatos, que são substân-
cias dadas através dos documentos purificados, restituídos à sua autenticidade externa e interna;

5 – os fatos, extraídos dos documentos rigorosamente criticados, devem ser or ganizados em uma
seqüência cronológica, na ordem de uma narrativa; toda a reflexão teórica é nociva, pois intro-
duz a especulação filosóf ica, elementos a priori subjetivos;

6 – a história-ciência pode atingir a objetividade e conhecer a verdade histórica objetiva, se o


historiador observar as recomendações anteriores. 1

1 Bourdé, G.; Martan, H. Les écoles historiques. Paris: Seuil, 1993. Apud Reis, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. Belo
Horizonte: Autêntica, 2004. Op. cit. p. 17.

44
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

As observações de Ranke de finem o seu próprio perfil como historiador que vai fazer
escola na Alemanha e tem muitos seguidores no próprio país e fora dele também. Suas
afirmações deixam muito claras a forma de pensar sobre o historiador, seu ofício de ser fiel
ao recuperar aquilo que realmente aconteceu, não emitindo opiniões a respeito do passado.

O autor evidencia a neutralidade do historiador e seu distanciamento com o objeto de


pesquisa, observando que os condicionamentos não devem inte rferir no momento de cons-
trução do conhecimento histórico. Evidencia com ênfase a questão dos documentos afir-
mando que a história somente existe nos documentos, neste sentido é importante observar
que foram criados métodos de leitura e crítica dos documentos, método este que fundamen-
ta a própria escola metódica.

A tarefa do historiador seria realmente trabalhar com os fatos, que deveriam ser reuni-
dos em forma cronológica, estes frutos do trabalho com os documentos, a partir da seleção
destes o historiador os organiza com a narrativa histórica. A perspectiva de trabalhar com os
pressupostos teóricos não existe para Ranke, e le inclusive salie nta que a reflexão teórica é
nociva ao trabalho do historiador, pois estar ia caminhando para uma total subjetividade da
história, e sua história científica seria construída apenas com a aplicação de um método. A
história enquanto ciência seria a verdadeira por ser considerada objetiva, vencendo a subje-
tividade, tão comum no trabalho do historiador.

Para a escola metódica alemã a história deveria ser a científica, ou seja, capaz de
comprovar com as normas e regras da ciência o conhecimento objetivo. O sujeito produtor
do conhecimento deveria sempre se manter neutro, desta forma o que realmente interessa é
o seu objeto de pesquisa, poi s suas opiniões não valeriam absolutamente nada.

O conhecimento produzido por este sujeito neutro não perpassaria por sua crítica,
portanto seria desvinculado de qualquer formulação de hipóteses, ele apenas re uniria os
fatos e os narraria de uma maneira cronológica. Neste sentido, a história não apresentaria
qualquer tipo de problematização, os fatos deve riam ser recuperados tais como acontece-
ram, desta forma, mantendo a pretensão de se atingir uma verdade objetiva.

Os fatos mais importantes para os historiadores seriam os que estavam ligados aos
acontecimentos políticos, administrativos, diplomáticos e religiosos, os demais aconteci-
mentos de uma sociedade não tinham importância para esta corrente histórica. Es ta escola

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

histórica na Alemanha pretendia alcançar a sua supremacia através de um método que se


esforçava para alcançar a objetividade do conhecimento histórico, seus seminários na Uni-
versidade de Berlim significavam o auge desta corrente que visava cada vez mais reunir um
número expressivo de historiadores, o que também resultou numa quantidade expressiva de
publicações.

A Escola Metódica alcança grande êxito na França, pois importantes historiadores


franceses haviam estudado na Alemanha como por exemplo, Monod, Lavise e Seignobos, os
quais levaram para a França as principais idéias que configuram a história científica. Com a
criação em 1876 da revista intitulada Révue Historique (Revista Histórica), os historiadores
franceses intensificam a discussão sobre mét odo científico para a construção do conheci-
mento hi stórico.

A Revista Histórica foi criada por G. Monod e G. Fagniez, estes historiadores busca-
vam constituir uma escola histórica com intenção de acolher os trabalhos considerados mais
sérios com certa diversidade ideológica. A referida revista tinh a a intenção de publicar os
trabalhos históricos originais sobre as diversas dimensões da história, tanto trabalhos do
exterior quanto os trabalhos franceses. Os membros efetivos da revista eram quase todos
professores universitários, e a maioria trabalhava no conceituado Colégio de França, uma
instituição universitária de grande prestígio acadêmico até a atualidade, tendo inclusive
arquivistas e bibliotecários.

A Revista Histórica apresentou-se como um meio de divulgação do conhecimento com


uma posição crítica em relação aos estudos históricos, pois naquela época existia na França
uma revista mais conservadora intitulada Revista das Questões Históricas. A Revista Histó-
rica publicava artigos de historiadores com diferentes posições ideológicas e religiosas, não
defendia nenhuma doutrina ou partido político, e primava por trabalhos inéditos, frutos de
pesquisas científicas. Os autores deveriam enviar as provas de suas fontes de pesquisa e
citações, neste sentido demonstrando o caráter científico de suas investigações, pois os edi-
tores da revista solicitavam trabalhos que enriqueceriam a ciência.

A revista tinha uma preocupação ética, e o editor G. Monod afirmava que deveria
haver uma solidariedade que ligasse os homens do presente aos homens do passado. Os
artigos publicados evidenciavam a história francesa, marcando desta forma as diferentes
posições dos colaboradores. A Revista Histórica que primava pela história com métodos ci-
entíficos vai marcar o início da escola metódica na França.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Os editores da Revista Histórica declaravam o caráter neutro da revista, ou seja, não


tomavam posicionamento quanto às questões ideológicas e polí ticas, consideravam-se im-
parciais, reforçando o caráter de neutralidade assumida pelos historiadores metódicos. Eram
contra as teorias políticas e filosóficas, e isto evidentemente afastava qualquer perspectiva

do conhecimento histórico, pois estes historiadores afirmavam que o importante seria a cons-
trução de um método e não de uma teoria para a sua elaboração.

É importante observar que as teorias não tinham importância para a escola metódica,
pois o que importava era a elaboração de uma seqüência cronológica de fatos, muitas vezes,

sem nenhuma articulação entre eles, pois não havia este fio condutor entre os acontecimen-
tos. A história adquire com eles um método, afastando-se da arte e da literatura e, portanto,
primando pela objetividade absoluta, contra qualquer subje tividade.

O propagado “Método” elaborado pelos historiadores metódicos tornou-se o eixo prin-


cipal par a a construção do conhecimento histórico, este método afastava a história das de-

mais áreas consideradas subjetivas, pois a objetividade era a meta a ser alcançada. Este
método, empregado para construir o conhecime nto histórico, vai propiciar que a história
torne-se uma atividade profissional, sendo uma atividade conhecida e respeitada pela soci-
edade francesa. Para tanto, foram criados vários cursos universitários, incentivando a cole-

ta e preservação de documentos, e também de arquivos públicos que preservariam a memó-


ria da sociedade, tudo isto com incentivo dos historiadores metódicos.

A Escola Metódica francesa vai atingir o seu ponto culminante com a publicação de
um manual que vai definitivamente estabelecer as bases científi cas da historiografia metó-

dica, reforçando a sua identidade. O manual Introdução aos Estudos Históricos, publicado
em 1898 pela editora Hache tte, de autoria de Charles-Vitor Langois e Charles Seignobos,
introduz as regras aplicáveis à disciplina de história, dando uma contribuição decisiva para

a constituição de uma história científica.

O manual prega o afastame nto definitivo de qualquer corrente teórica e filosófica, e

pode m os c ons ide r ar que e s te s h i stor iadore s re alizar am uma ve rd ad e ir a rup tura
epistemológica, isto é, a possibilidade de reflexão filosófica na construção do conhecimento.
A história para eles não passa da aplicação dos documentos, pois afirmam no manual de

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

que sem documentos não há história. Em francês podemos assim escrever: pas de document,
pas d’historie, afirmando a importância do tratamento dos documentos, que são a matéria-
prima para a construção do conhecimento h istórico.

Os autores afirmam no manual, o qual é destinado para historiadores já iniciados (que


já tenham alguma experiência no conhecimento histórico), que os documentos são os vestí-
gios passados que conseguiram se salvar da ação do tempo e das condições de conservação,
portanto as testemunhas de que algo realmente aconteceu. Os documentos válidos são os
escritos considerados como testemunhos voluntários, tais como: cartas, decretos, corres-
pondências e manuscritos diversos.

O ofício do historiador perpassa pela tarefa de elaborar o inventário dos materiais


disponíveis, procurando recolher os documentos e, isto consistia a primeira tarefa de seu
ofício. Para os adeptos da Escola Metódica, também cabia a função de guardar e conservar
os docume ntos, organizá-los em depósitos, bibliotecas e arquivos. Depois que os documen-
tos estavam salvos da sua perda, os historiadores deveriam realizar uma série de operações
analíticas.

A primeira tarefa a ser executada era a crítica externa (também conhecida como erudi-
ção), seria a primeira fase de sua análise, o h istoriador deveria localizar a fonte que produ-
ziu o docume nto, em seguida examinar se tratava-se de um documento original, de uma
cópia ou de uma falsificação. Depois, a análise do document o deveria ser feita em uma
ficha, onde ficariam registrados todos os dados, ficando mais fácil ao historiador manusear a
ficha do que o documento original, que não poderia sair do arquivo ou do museu ou mesmo
das bibliotecas.

A segunda tarefa seria a crítica interna, que consistia em resumir os dados contidos no
documento, sendo que todos estes dados deveriam estar na fich a. Segundo os autore s, esta
tarefa dividia-se em duas partes: 1ª – análise do que o autor quis dizer; 2ª a análise das
condições e m que o documento foi produzido.

As duas t arefas a serem realizadas para a analise dos documentos significa a constru-
ção de um método de investigação, em que a história realme nte parte dos documentos.
Estes deveriam ser analisados criteriosamente para a sua aplicação, e somente depois desta

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

análise seria feita a verdadeira construção da história. Para isto deveria o historiador reali-
zar um ce rto agrupamento dos fatos em uma ordem cronológica, para então f inalmente
realizar a escritura do tex to histórico propriamente dito, ou seja, é um método bem exato
para ser aplicado pelo historiador em seu ofício de construção do conhecimento histórico.

O manual Introdução aos Estudos Históricos, vai incentivar o ofício da pesquisa histó-

rica, estabelecendo as regras e normas que conduziriam a tare fa de pesquisa, enfatizando


certo espírito positivo, o que vai propiciar uma série de confusões na historiografia, pois este
é freqüentemente confundido com o positivismo de August Comte (pensador francês funda-

dor do positivismo), que pregava algumas leis universais para a história. O que temos que
ter bem claro é que o positivismo oferecia certa teoria para a construção do conhecimento
histórico, e a Escola Metódica não oferecia teoria nenhuma, sendo tão somente um método.

O espírito positivo dos metódicos é perfeitamente reconhecível no seu apego exagera-


do na crítica e leitura do documento, na tentativa constante de preocupar-se se o documen-

to é falso ou verdadeiro. Enfatizavam o descobrimento do fato histórico, que estava dado a


partir do documento, logo, esta questão do fato é muito importante para identificarmos os
historiadores metódicos, pois eles influenciaram significativamente o conhecimento históri-
co. Assim, é muito freqüente que os alunos ainda identificam a história como sendo uma

ciência que estuda os principais fatos ocorridos com a humanidade. Esta afirmativa atesta a
influência que a Escola Metódica obteve na h istoriografia, pois na França esta tendência
permeou a historiografia, até aproximadamente 1945 e, no Brasil, esta influência ocorreu

até aproximadamente o final dos anos de 1970.

A Escola Metódica a partir da publicação do manual “Introdução aos Estudos Histó-


ricos” passou a se configurar como uma tendência muito significativa entre os historiadores
franceses, inclusive influenciando a produção historiográfica de outros países, que começa-

ram a valorizar a tendência da história científica em detrimento da história literária e não-


científica.

Esses historiadores metódicos tinham como ponto inicial de reflexão para a produção
do conhecime nto de que a única forma de construção da história seria a científica,
estabelecida a partir de um rígido método para a análise documental, portanto estabelecen-

49
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

do um modelo que enfatizava exageradamente os dados históricos, os eventos e a observa-

ção. Enfim, o importante era ter muita erudição para a construção do conhecimento, pois

ele deveria ter bases muito sólidas para realmente tornar-se verdadeiro.

Os historiadores metódicos ficaram impregnados por certo “espírito positivo”, e isto

não significa que eram positivistas propriamente ditos, pois ao contrário do que propagava

August Comte (que a história tinha determinadas leis), para os metódicos estas leis não

existiam. Na França tivemos muitos historiadores, seguidores da Escola Metódica, desta-

cando-se, pela expressão de sua obra, até a atualidade.

O historiador Fustel de Coulanges, que afirmava que a história era realmente uma

ciência, foi considerado o primeiro historiador francês a realizar uma obra realmente cientí-

fica, com todos os critérios, normas e regras indispensáveis para ser considerada como tal.

Para o referido historiador, a história não necessitava de filosofias, era construída apenas a

partir de métodos bem definidos, sendo para e le importante a crítica das fontes históricas

para então produzir o conhecimento. Também pregava que através da história seria capaz

de atingir uma verdade objetiva. Um das obras mais conhecidas deste historiador é o livro La

cité antique (A cidade antiga), sendo obr a referência para os historiadores que pesquisam

sobre a cidade, pela sua e rudição.

Podemos observar que existiam algumas regras para os historiadores apresentarem-se

como metódicos. Em primeiro lugar eles defendiam este espírito positivo, pois acreditavam

que os eventos históricos e ram estudados em sua superfície e que não se ria possível alcan-

çar a sua profundidade, ou seja, que era quase impossível de se chegar a este estágio.

Para os metódicos o fato histórico deveria ser pensado como algo totalmente objetivo,

e acabavam com qualquer possibilidade de se pensar a subjetividade do historiador. Neste

contexto o historiador tinha um importante papel, que era de se manter como sujeito passi-

vo, que simplesmente tirava os fatos dos documentos, que seriam os grandes eventos políti-

cos e não os pequenos acontecimentos do cotidiano. Esta dimensão não aparecia nos estu-

dos históricos. A história se apresentava como uma ciência isolada, sem influência de qual-

quer discussão filosófica, e era dominada por um rígido método.

50
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

No começo do século 20, h avia uma verdadeira confusão entre os historiadores consi-

derados positivos e positivistas. Se os historiadores positivos eram os metódicos, (seguiam a


Escola Metódica, e os devidos ensinamentos desta), os historiadores classificados como

positivistas eram os seguidores de August Comte (seguiam uma teoria formulada por este
pensador).

Os historiadores positivos segue m as regras, métodos e critérios adotados pela Escola


Metódica que atribui ao trabalho deles uma determinada visão da história, estabelecendo o
caráter científico da produção do conhecimento, concebiam a história como constituída
pelos fatos históricos, eram totalmente objetivos, isto é, recusavam qualquer tipo de subjeti-
vidade. Para estes, a história pode ser considerada como tendo uma visão progressiva. Para
melhor caracterização do trabalho dos historiadores positivos vamos nos basear nas idéias
de Chartier e Revel, as quais foram e xpressas por José Carlos Reis, que são:

1 – o seu modelo de conhecimento ob jetivo, as ciências naturais. Querendo reduzir a distância


que a separa das ciências naturais, a história realiza apenas metade do caminho: nas ciências
naturais, o seu observador tem um conhecimento direto de seu objeto, enquanto o historiador só
tem os vestígios do seu. A operação de crítica histórica consistia em fazer passar do vestígio ao
fato em si; portanto, em criar as condições de uma relação direta entre o historiador e os eventos.
Assim, o historiador conseguiria, ou assim acreditava, resgatar, pelo método crítico, as condi-
ções iniciais do trabalho das ciências naturais – e parava aí, quando o conhecimento positivo nas
ciências naturais começava a partir daí, da relação direta entre o observador e ob jeto;

2 – o seu ideal de conhecimento verdadeiro: o da objetividade absoluta, conquistada pela impar-


cialidade, pela ausência das paixões ou quaisquer a priori e pela extração do fato em si, contido
no real, o historiador não constrói o seu fato, ele o encontra nos documentos;

3 – a sua herança: a crítica textual e a sua exigência de rigor, de dúvida, de certeza, de verdade.
Esses três elementos, para Chartier e Revel, teriam como resultado um conheci mento considera-
do positivo; uma imagem a mais próxima possível daquela que teria dado a observação direta do
fato do passado. 2

As observações de Chartier e Revel nos mostram que os historiadores metódicos ou


positivos primavam por um tipo de conhecimento histórico totalmente objetivo, havendo
uma separação radical entre o historiador e o seu objeto de pesquisa. A proposta separação

2
Revel, J.; Chartier, R. L. Febvre et les sciences sociales. In: Historiens et Géographes. n. 272. Paris: APHGEP, fév. 1979. Apud Reis,
José Carlos. A história ente a filosofia e ciência. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. Op. cit. p. 28.

51
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

garantiri a a sua objetividade e ao mesmo tempo a sua neutralidade, pois o produtor de

conhecimento não poderia opinar sobre absolutamente nada, e le, no caso o historiador,
teria como função coletar os fatos que estavam nos documentos.

O conhecimento produzido por estes historiadores devia sempre e neces sariamente


buscar a verdade, ou seja, aquilo que realmente aconteceu, chegando bem perto do passado
com os fatos por eles estudados, este conhecimento considerado acima de tudo verdadeiro
seria o conhecimento positivo da história.

Seção 3.3

O Positivismo de August Comte

Os historiadores que podemos chamar de positivist as foram realmente poucos e no

início de século 20, pois em sua grande maioria eram os metódicos propriamente ditos. Na-
turalment e existiam os positivistas, ou seja, os que eram seguidores de August C omte, que

seguiam uma determinada orientação teórica proposta por este pensador.

Os positivistas realmente seguiam alguns pressupostos teóricos para a produção do


conhecimento, não trabalhavam os fatos de maneira isolada como faziam os metódicos. Um
dos principais historiadores positivistas foi Louis Bordeau, um francês que lançou um livro
que instituiu a essência do pensamento positivista, publicado em 1888 e intitulado “A histó-
ria e os historiadores: ensaio crítico sobre a história considerada como ciência positiva”
(L’historie et les historiens, essai critique sur l’historie considerée comme science positive).
Louis Bordeau foi um dos se guidores de August Comte e seu livro apresenta as idé ias deste
pensador para a história.

Louis Boudeau definiu a autêntica história positivista, trazendo uma determinada fi-
losofia para a reflexão da produção do conhe cimento. Para este pensador a história seria
uma ciência do desenvolvimento da razão, ou seja, para os positivistas a história também é
definida como uma ciência (m esma posição dos metódicos).

52
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A história teria como objetivo estudar a universalidade dos fatos que a razão dirige ou
de que sofre a influência. Esta afirmação nos leva a pensar que o uso de uma de terminada
teoria, tr aria para a história a reflexão filosófica sobre a razão, isto significa que para a
produção do conhecimento é necessário existir alguma refle xão anterior aos fatos propria-
mente ditos.

Os objetos de estudo na história eram realmente bem diversificados. Segundo Guy


Bourdé e Hervé Martan (2003) os historiadores positivistas tinham uma certa influência da
sociologia, e estudavam os movimentos populacionais, as formas de organizaçõe s dos pa-
rentescos de famílias, as formas de habitação, os modos de alimentação, todas as atividades
humanas em todas as dimensões.

Podemos obser var que os objetos de pesquisa eram bem variados para a época e real-
mente com uma aproximação da sociologia, pois naquele período o interesse dos historia-
dores era trabalhar com os grandes fatos históricos, ligados à política e às relações diplo-
máticas. Enfatizando a questão do nacionalismo, os positivistas realmente foram bem ino-
vadores para o seu período.

Os historiadores positivistas propunham trabalhar com as multidões em detrimento do


culto dos grandes homens e heróis, pois destacavam que seria mais importante realmente
dar espaço para as massas na história, desta forma desprezando os acontecimentos singula-
res e os personagens ilustres. Podemos observar que os positivistas procuravam trabalhar
com uma certa noção de totalidade, sendo contrários aos metódicos que trabalhavam com
os fatos singulares e compartilhados, ou seja, totalmente fragmentados e sem um fio de
conexão entre eles.

Em seu livro, Louis Bourdeau realmente vai definir a história numa perspectiva cientí-
fica, sendo muito fiel ao pensamento de August Comte, para o qual a história teria a função
de investigar as leis que presidem o desenvolvimento da espécie humana. Assim a história
trabalharia com as leis e estas seriam responsáveis pelo desenvolvimento, podendo-se perce-
ber que estaria numa perspectiva de trabalhar com a noção de progresso.

Ainda nesta perspectiva segundo Bourdé e Martan (2003), estas leis da história seriam
as seguintes: 1. as leis da ordem, que mostram a semelhança das coisas; 2. as leis de relação
que fazem com que as mesmas originem os mesmos efeitos; 3. a lei suprema, que re gula o

53
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

curso da história. Na exposição das leis podemos perceber que a história deveria ser produ-

zida seguindo este percurso, isto significa que foi criada uma determinada filosofia que ori-

entaria o conhecimento histórico.

Nesta breve exposição sobre o positivismo podemos perceber que eles eram bem dife-

rentes dos historiadores da Escola Metódica, pois os positivistas tinham uma de terminada

filosofia que seguiam rigidamente e os metódicos tinham um método que também seguiam

rigidamente. Por isso, nós não podemos mais confundir os metódicos com os positivistas,

pois ambos eram diferentes em suas proposições, entendiam a história e o conhecimento de

uma forma diferenciada.

Os metódicos não tinham nada a priori, pois a história estava ali nos documentos,

bastava interrogá-los par a então produzir o conhecimento, os positivistas tinham a priori

uma teoria que eles se baseavam para a produção do conhecime nto e para orientá-los com

algumas leis expressas em uma deter minada filosofia. Também os objetos de pesquisas eram

bem diferentes, os metódicos eram mais tradicionais, geralmente trabalhavam com os fatos

isolados, enquanto os positivistas se interessavam pelos movimentos e ações das multidões

na história.

O que é importante observar é que nós te mos que ter bem claro que a Escola Metódica

não era composta pelos posit ivistas, esta escola trabalhava com o “espírito positivo”, ape-

nas, pois aqueles tinham a sua própria filosofia. Aqui no Brasil as pessoas confundem a

Escola Me tódica com os positivistas, na França já há muito tempo foi feito esta distinção

radical, pois é preciso entendê-los em sua singularidade, onde cada um deles pensa a histó-

ria de uma forma diferente.

54
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

SÍNTESE DA UNIDADE 3

Nesta unidade sobre a Escola Metódica e o Positivismo você


pôde perceber que a historiografia no século 19 e início do século 20
era essencialmente influenciada por estas tendências. A Escola Me-
tódica pregava a utilização de um método para a construção do co-
nhecimento histórico, o qual esclarecia como os documentos deveri-
am ser analisados, neste sentido podemos afirmar que este método
era um tanto quanto restrito, pois era mai s direcionado para o docu-
mento do que uma teoria realmente eficaz na construção do conheci-
mento.

Mas é fundamental salientar que a Escola Metódica influen-


ciou várias gerações de historiadores, inclusive aqui no Brasil, pois os
nossos historiadores utilizaram os pressupostos desta escola durante
boa parte do século 20, quando na Europa, no começo do sé culo 20,
ela já era contestada. Esta Escola Metódica é facilmente confundida
com o Positivismo, mas você viu nesta unidade que elas eram diferen-
tes, pois os historiadores positivistas eram aqueles influenciados pe-
las idéias de August Comte, e pensavam diferente dos historiadores
da Escola Metódica.

55
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Unidade 4

O MARXISMO COMO UMA ESCOLA HISTÓRICA REVOLUCIONÁRIA

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

Nesta unidade você vai conhecer uma Escola Histórica que iniciou no século 19, mas

foi realmente no século 20 que ela conseguiu uma grande repercussão, podendo ser consi-

derada como uma verdadeira teoria revolucionária, vindo a influenciar também os grandes

movimentos sociais, e sendo capaz de gerar grandes transformações no cenário político

internacional.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

– Seção 4.1 – O Marxismo e o Materialismo Histórico

– Seção 4.2 – O Marxismo Vulgar

Os historiadores se apropriaram do Marxismo como teoria da produção do conheci-

mento, trazendo para a história as próprias idéias de Karl Marx. O Marxismo pode ser con-

siderado como uma teoria social, pois vários movimentos sociais, partidos políticos e sindi-

catos vão se basear no Marxismo como uma bandeira de luta para conquistar os se us direi-

tos, buscando uma sociedade mais justa. Os historiadores vão seguir com maior ênfase o

materialismo histórico, que é uma noção mais e specífica para se pensar a história e a cons-

trução do conhecimento.

57
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 4.1

O Marxismo e o Materialismo Histórico

O Marxismo e o Materialismo histórico formam uma teoria surgida na Europa, no


século 19, e extremamente revolucionários para a sua época, pois descreviam as formas de
se pensar as contradições do próprio sistema capitalista. Karl Marx nasceu em 1818 e mor-
reu em 1880, foi um filósofo alemão e pensador que viveu no século 19, período em que
formulou toda a sua doutrina, mas foi apenas no século 20 que esta doutrina foi posta em
prática.

Os trabalhos de Karl Marx foram extremamente importantes para diversas áreas do


conhecimento, tais como a economia, política, sociologia e naturalmente para a história. O
marxismo foi responsável por uma nova concepção da história, pois este autor via neste
campo de conhecimento uma perspectiva revolucionária, segundo seu pensamento a histó-
ria seria essencialmente construída pelas lutas de classes e também pelas multidões, pelos
sujeitos sociais até então e xcluídos das demai s teorias.

A história nunca mais seria a mesma depois de Karl Marx, pois este autor a concebeu
como uma força matriz, geradora das mudanças nas sociedades, e seria basicamente uma
história-problema, pois os historiadores deveriam começar a analisar e escrevê-la a partir
dos problemas vividos por uma determinada sociedade. Marx foi um autor extremamente
atuante, era formado em filosofia e fez doutorado também nesta área, concluindo o curso
em 1841. No entanto, não conseguiu lugar nas universidades para lecionar por suas posi-
ções revolucionárias, passando a trabalhar de jornalista, escrevendo muito para jornais e
revistas e também seus livros.

Dedicou a sua vida a escrever e ter uma militância política. Por isso, a maioria de suas
obras reflete os problemas vividos na sociedade capitalista, ou seja, a sociedade era o pró-
prio laboratório em que Marx se inspirava para escrever e, acima de tudo, para lutar por
uma transformação. O espírito revolucionár io de Marx fez com que ele não conseguisse
melhorar a sua condição de vida, vivendo entregue as suas paixões de escritor, crítico social
e militante, portanto, com uma vida de privações, e, no entanto, foi uma pessoa integral-
mente dedicada aos seus ideais.

58
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Marx morou em vários lugares, nasceu na Alemanha onde fez os seus estudos, mas
não encont rava lá as possibilidades necessárias para divulgar as suas idéias. Para isso mu-
dou para Paris onde escrevia para jornais, e podia melhor ex plorar as suas idéias políticas,
econômicas e históricas. Em Paris conheceu Friedrich Engels, um pensador que também se
interessava pela filosofia de Hegel. Juntamente com Marx escreveu importantes obras.

Marx se mudou para Londre s onde viveu o resto de sua vida, e trabalhou para impor-
tantes jornais, escrevendo também sua obra chave para o entendimento de seu pensamento,
intitulada de “O Capital”, que foi publicada somente depois da sua morte. Esta obra reflete
toda a sua concepção sobre a formação e desenvolvimento do capitalismo. Marx e seu ami-
go Engels participaram em 1847 da criação da Liga dos Comunistas em Londres e, a partir
daí, escr eviam sobre o movimento comunista na Europa, resultando em uma importante
obra denominada de “O Manifesto Comunista”.

Marx foi um excelente filósofo e sua obra é lida inclusive nos dias atuais, mas suas
concepçõe s sobre a sociedade o colocam também como um historiador, diga-se de passa-
gem, muito perspicaz e capaz de desvendar a sociedade em sua totalidade.

Esta visão o coloca como um historiador que explica os mecanismos que envolvem
uma determinada sociedade. Nesta perspectiva, podemos dizer que Marx realizou um tra-
balho que pode ser també m considerado como uma teoria da história, pois tinha como pre-
tensão o entendimento da sociedade como um todo. Marx já esclarecia em suas obras que
não era possível o entendi mento da sociedade apenas pela aparência das coisas, mas sim
era preciso o entendimento de algumas estruturas que relacionavam com a reali dade con-
creta a intenção de conhecimento.

Karl Marx foi um pensador que formulou um pressuposto de categorias que iriam
servir como base para a construção do conhecimento histórico. Portanto, podemos afirmar
que ele propôs um enunciado de pressupostos capazes de produzir os objetos te óricos da
história. Em suas obras fica evidente a sua tendência em postular uma certa construção de
métodos capazes de configurar realmente o trabalho científico. Ele procurou aproximar o
movimento aparente da sociedade ao movimento da realidade, portanto, estabelecendo pres-
supostos t eóricos para a sua explicação o mais plausível possível. Logo, é possível afirmar
que Marx também se apresentou como um historiador.

59
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O Marxismo propõe um determinado modelo teórico fundando o que podemos chamar

de “histór ia científica”, ou seja, pertence às correntes teóricas que caracterizam a história


como uma ciência. Em síntese, o marxismo rompe com a filosofia da história idealista, rejei-

tando os pressupostos filosóficos que embasariam a construção do conhecimento.

O materialismo histórico é plausível de observação, análise e quantificação. Desta


forma, podemos observar que o materialismo histórico trabalha com aquilo que é possível
mensurar nas sociedades, por exemplo, as estruturas econômico-sociais, escapando das for-
mulações mais filosóficas.

Para Karl Marx o que podemos estudar na história é um conjunto de matérias que
pode estar estruturado e naturalme nte pode ser pensável. Cienti fi camente poderá ser
penetrável como uma determinada realidade, portanto o caráter científico da produção de
conhecimento fica sempre evidente no marxismo.

Nas obser vações de Pierre Vilar,1 um grande estudioso do marxismo, o autor afirma
que um dos objetivos do marxismo realmente seria a criação de uma ciência da história, na
qual seria possível encontrar um determinado esquema teórico para a produção do conheci-
mento, este referido esquema daria conta da totalidade da sociedade, portanto, uma teoria
capaz de dar conta de todo o movimento, a própria dinâmica das sociedades. Para o mesmo
autor, a história apresenta-se como uma ciência racionalmente estruturada e possível de ser
pensada e estudada em seus mais íntimos detalhes, ou seja, em sua totalidade.

Segundo as obser vações de Vilar, Karl Mar x criou uma teoria geral do movimento das
sociedades, pois fica evidente em todos os pressupostos teóricos que para o marxismo a
sociedade deverá ser compreendida em sua dinâmica e totalidade. Nesta referida teoria ge-
ral fica evidente que é possível observar que:

1 – a produtividade é a condição necessá ria da tra nsformação histórica, isto é, se as forças


produtivas não se modificam, a capacidade de criação da vida humana se imobi liza, se elas se
modificam tudo se move;

1
Vilar, P. Histoire marxiste, historie en construction. Paris: Seuil, 1982. Apud Reis, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência.
Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

60
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

2 – as classes sociais, cuja luta constitui a própria trama da história , não se def iniram pela
capacidade de consumo e pela renda, mas por sua situação no proces so produtivo;

3 – a correspondência entre as f orças produtivas e relações de produção constitui o objeto prin-


cipal da história-ciência, que aborda com os conceitos de modo de produção e f ormação social.2

Nestas afirmações podemos perceber que as definições de ciência histórica perpassam


pela compreensão de que é necessário refletir sobre os movimentos da própria sociedade
para ente ndê-la em sua dinâmica, pois se as forças produtivas mudarem a sociedade como
um todo se transforma.

Marx afirma que as classes sociais constituem o próprio motor da história, portanto, é
necessário estar atento as suas lutas e movimentos para então perceber a dinâmica da pró-
pria soci edade, pois as lutas de classes acontecem para comprovar as contradições sociais.
Se estas contradições forem resolvidas, então teremos algumas mudanças. As forças produ-
tivas e relações de produção são conceitos fundamentais dentro da teoria marxista, mas o
conceito chave da teoria é realmente o de modo de produção, pois este é a base teórica para
a construção do conhecimento histórico.

Os conceitos que dão base para o marxismo estão em várias obras de Marx, dentre
elas pode mos citar as mais importantes, que são: Ideologia Alemã (1845-46), no Prólogo a
contribuição à Crítica da Economia Po lítica (1859) e no 18 Brumário (1841-1852). Estas
obras condensam os principais conceitos do marxismo, dando base para que possamos en-
tender os princípios norte adores da teoria. Naturalmente em outras obras o próprio Marx
desenvolveu estes estudos de forma a dar explicações e aplicabilidade aos conceitos. As
obras de Karl Marx expressam de forma extremamente significativa toda a dinâmica do
capitalismo, demonstrando com clareza a importância deste modo de produção para a pró-
pria história. Existe, inclusive, correntes dentro da teoria marxista que declaram que o capi-
talismo foi uma ruptura fundamental dentro do processo histórico, outra linha afirma que o
capitalismo foi uma continuação dos demais modos de produção.

A síntese geral da teoria marxista está em afirmar que as sociedades devem ser pensa-
das em sua totalidade, pois consiste em pensar que existem e struturas que basicamente são
formadas por determinadas relações sociais. O marxismo trabalha com a noção de sujeitos

2
Idem, ibidem, p. 52-53.

61
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

sociais, ou seja, determina o papel específico que os homens ocupam em uma de terminada
sociedade, portanto, estabelece que os homens permaneçam em uma luta constante com a
natureza para poder subsistir. Nesta luta permanente são estabelecidas determinadas rela-
ções, o que se costumou chamar de relações de produção, pois são cotidianas e todos os
homens estão sujeitos a estabelecer, sendo as sociedades estruturadas a partir delas.

Estas relações de produção sempre correspondem a um estágio evolutivo da própria


sociedade, que podemos denominar de forças produtivas, o que corresponde às formas como
a produção material de uma determinada sociedade está organizada dentro de uma pers-
pectiva maior que é o modo de produção. É possível afirmar que a totalidade das relações de
produção, constituem a base econômica de sociedade, portanto, podemos constatar que o
marxismo tem uma preocupação em estudar este fenômeno e também as relações que são
estabelecidas a partir desta estrutura.

A sociedade para o marxismo é complexa, mas pode ser explicada e analisada cientifi-
camente, pois existem mecanismos que a estruturam, pois como já vimos, a base pode ser
dada a partir das relações de produção e das forcas produtivas. É importante observar que o
desenvolvimento das forças produtivas econômicas também se estende às relações extra-
econômicas que vão se tornando cada vez mais complexas a partir do domínio do homem
sobre a natureza.

A sociedade para Marx é dividida em classes, e estas classes geralmente vivem em


eter no conflito. Por isso, a importância de se estabelecer um sofisticado aparelho político-
jurídico, que é formado basicamente pelos governos, o próprio estado, uma legislação com-
pleta e outros meios destinados a manter um certa organização social. Dentre estes apare-
lhos podemos destacar a importância do estado, pois este é composto basicamente por um
conjunto de inst ituições, que são encarregadas de manter os interesses da classe social que
detém o poder nas mãos, denominada de classe dominante.

O marxismo faz uma análise bem detalhada do papel das classes sociais nas diferentes
sociedades, e isto é importante para o entendimento do papel de cada classe principalmente
no modo de produção capitalista. Neste sentido, é formulada um conjunto de idéias, que
tentam justificar o poder da classe dominante , como um poder legítimo na sociedade, desta
forma, os seus interesses parecem ser os mesmos dos das demais classes sociais.

62
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Para isto ocorrer é necessário uma ideologia, que formula um conjunto de justificati-

vas e idéias, capazes de tornar o poder legítimo e aceitável por todas as classes sociais que

compõem a sociedade, naturalmente tentando legitimar os interesses da classe dominante,

pois esta transmite a sua ideologia em todas as instâncias da sociedade, ou seja, na impren-

sa, nas escolas, nas igrejas e, inclusive, no próprio conhecimento histórico.

O principal conceito na teoria marxista é o modo de produção, que expressa uma

determinada forma de organização e funcionamento das sociedades. Podemos afirmar que

este conceito é a chave de toda a sua teoria.

O conceito de modo de produção expressa uma determinada unidade, na qual se arti-

culam as diversas instâncias de uma determinada sociedade, que podemos destacar: a eco-

nômico-social, a político-jurídica e também a ide ologia, ou o que podemos chamar de infra-

estrutura e superestrutura. Este conjunto sofisticado de conce itos está dentro do modo de

produção e, com isso, podemos afirmar que realmente constitui a chave de entendimento de

toda a teoria marxista.

O conceito de modo de produção abrange a infra-estrutura e a superestrutura, desta

forma ocupando uma posição destacada na teoria marxista. Esta posição está se ndo muito

discutida pelos neo-marxistas (novos marxistas), pois a explicação histórica de acordo com

um modo de produção dominante e a revolução como substituição de um modo de produ-

ção por outro, tornou-se uma explicação típica do marxista e conomicista (economicistas

são aqueles marxistas que somente trabalham com as causas econômicas).

A tendência economicista no marxismo procura estabelecer ligações diretas dos fenô-

menos com a infra-estrutura econômica. Também fazem uma leitura determinista do proces-

so de revolução repetindo o ditado “quando as forças produtivas superam as relações de

produção, a revolução não só é possível, mas inevitável”. Mas podemos observar que nem

sempre este ditado dá certo na prática, pois com o êxito da revolução na Rússia atrasada e

seu fracasso na Alemanha adiantado apontam para o papel da consciência no processo

revolucionário e sugerem algo de errado no determinismo.

63
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

3
Louis Althusser, marxista, estruturalista francês, procurou

fazer uma outra leitura do modo de produção, embora este conti-


nue sendo um conceito básico da teoria. Althusser rejeita a noção

de uma base que determina a superestrutura, o econômico, o polí-


tico e o ideológico, e estes são níveis que se constituem de práticas

específicas e que reunidos formam uma totalidade estruturada, uma


formação social.

A idéia de determinação é substituída pela idéia de causali-


dade estrutural. Podemos observar que Althusser, embora seja mar-
xista, tem uma visão que difere em alguns pontos desta teoria. A teoria marxista procura
explicar a dinâmica da sociedade, os conflitos existentes entre as classes sociais (por exem-
plo, os conflitos capital versus trabalho), que acontecem com muita freqüência na sociedade
capitalista. Marx analisou estes conflitos em seus ensaios sobre a dialética, ficando esta
conhecida como a lei dos contrários ou opostos, pois se apresenta com diferentes definições
nas leituras de Marx e de seus seguidores.

As análises de Marx a respeito da sociedade procuram considerar a produção material


desta, evidenciando as relações entre os homens e a natureza, bem como as relações que
estes homens estabelecem entre si no processo de trabalho. No materialismo histórico pode-
mos encontrar a explicação para a importância do trabalho no desenvolvimento da história
da humanidade, que evide ncia os seguintes aspectos da concepção:

1 – negação da autonomia;

2 – o com promisso metodológico com a pesquisa historiográfica concreta, em oposição à


reflexão filosófica abstrata;

3 – a concepção da centralidade da práxis humana na produção e reprodução da vida social;

4 – a ênfase na significação do trabalho enquanto transformação da natureza e mediação


das relações sociais na história humana.

3
Disponível em: <http://lh3.ggpht.com/_EZAx5pqksvc/RoB9uetFPUI/AAAAAAAAAkQ/TjCOmpSw0BI/Louis+Althusser.jpg>. Acesso
em: 3 set. 2008.

64
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

As considerações apontam para o entendimento de que o materialismo histórico nega


qualquer teoria filosófica utilizada para a construção do conhecimento histórico, portanto,
apresenta-se como uma alternativa teórica viável para o entendimento do funcionamento
das sociedades. O homem enquanto sujeito social aparece como agente central neste pro-
cesso de produção da vida social, no marxismo todos os homens aparecem na história, ou
seja, a história não é apenas dos grandes heróis, os trabalhadores que são denominados na
categoria de proletários aparecem como sujeitos sociais atuantes.

A prática humana é a centralidade na teoria, portanto, a história é constituída pelos


homens e suas ações. Para a const rução do conhecimento histórico é necessário combater o
empirismo completo, sendo importante frisar a importância da pesquisa histórica, pois os
historiadores marxistas partem sempre da idéia de que realmente existiu um real concreto,
ou seja, um passado capaz de ser recuperado pela pesquisa.

O materialismo histórico tem importância fundamental com contribuição teórica para


a produção do conhecimento e possui uma abrangência determinada por suas categorias e
conceitos, tanto os formulados por Karl Marx, quanto por seus seguidores, que aperfeiçoa-
ram os pressupostos teóricos adaptando-os às diferentes situações dadas pela pesquisa his-
tórica.

A crítica feita ao materialismo histórico refere-se às constantes generalizações que


muitos pesquisadores fazem, por exemplo, comparando o desenvolvimento das sociedades
européias com as sociedade s americanas, pois naturalmente o seu processo de de senvolvi-
mento foi muito diferente, cada uma com a sua complexidade.

4
O historiador inglês Eduard P. Thompson também defen-
de a idéia de totalidade presente no marxismo, e procurou explicar
o materialismo histórico como referencial dotado de capacidade de
responder i mportantes questões abertas na sociedade , não sendo
necessário criar várias disciplinas para isso e não descartando a
possibilidade de consultar as disciplinas próximas da história, como
por exemplo, a antropologia.

4
Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/history/trail/htd_history/historians/images/talk_epthompson.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

65
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O que deve ficar claro é que não existe nenhuma teoria capaz de responder todas as

interrogações, pois a realidade é muito mais rica e complexa do que qualquer teoria. A

teoria marxista, como as demais, possui alguns espaços de indefinição, ficando abertos muitos

pontos, por exemplo, as relações entre a infra-estrutura e superestrutura, a mudança de um

modo de produção para outro; bem como uma dificuldade de aplicação destes modos de

produção fora do contexto europeu.

As teorias da produção do conh ecimento estão suje itas aos movimentos da própria

sociedade e, como estes vão se transformando, as teorias também vão perdendo a sua capa-

cidade de explicação, pois neste processo percebemos os seus próprios limites. No marxismo

também encontramos os seus limites, pois os novos movimentos da história podem ficar fora

da abrangência da teoria, mas não podemos negar que este influenciou significativamente

a produção do conhecime nto histórico, pois foi também um instrumento poderoso nas prá-

ticas políticas.

A teoria marxista, dotada de seus conceitos e categorias que auxiliam os pe squisado-

res na construção de ensaios e demais formulações do conhecimento científico, passa atual-

mente por uma nova leitura, pois a história como um todo está passando por profundas

transformações atendendo às mudanças da sociedade contemporânea.

Atualmente assistimos a emergência de novos objetos, novas abordagens, novos pro-

blemas históricos, todos estes procurando novos referenciais teóricos para dar conta de seu

processo de análise. Estas novas temáticas podem nos aux iliar a melhor compreender a

totalidade, pois as tentativas das grandes sínteses (metanarrativas) estão dando lugar a

micro-história. Esta tendência parece dominar os estudos históricos contemporâneos.

Nas narrativas da micro-história, os segmentos que anteriormente eram ignorados pelos

historiadores agora aparecem com evidência, como por exemplo: história das mulheres, dos

negros, dos índios, dos grupos considerados como marginali zados. Ou mesmo temas que

não eram abordados pela historiografia mais tradicional, como a sexualidade, o misticismo,

a resistência à dominação e outras formas do micro-poder, agora são tratados como temas

fundamentais para o entendimento da historiografia.

66
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A teoria marxista ainda não conseguiu resolver suas áreas de indefinição, pois muitos

cientistas marxistas segue m tendências bem definidas dentro do próprio marxismo. Pode-

mos destacar duas tendências marcantes, que Alvin Goldner assim classifica:

1ª – os que seguem os ensaios do jovem Marx, seus Manuscritos Econômicos e Filosó-

ficos (est es pertencem à tendência do Marxismo Crítico).

2ª – o grupo que se orienta pelos ensaios do Marx mais maduro, por exemplo, os que

seguem mais os ensinamentos expressos em “O Capital” (estes podemos considerar que se-

guem a linha do Marxismo Científico).

As tendências dentro do marxismo marcam as diversidades de leitura e interpretação

da teoria, bem como as for mas como aplicam seus conceitos e categorias para a produção

do conhecimento. Dentro das áreas de indefinição do marxismo, podemos destacar as rela-

ções entre o sujeito e a estrutura, pois para Marx o homem faz parte da totalidade das

relações de produção desenvolvidas no processo de trabalho, isto é, o sujeito não é visto de

forma individual, mas sim inserido nas relações de produção.

Seção 4.2

O Marxismo Vulgar

O marxismo, como teoria, influenciou muito a produção historiográfica, representa

uma forma de analisar a sociedade e entendê-la como uma totalidade. Porém, é preciso

ficarmos atentos para as formas como foram utilizadas a teoria. Alguns pesquisadores tra-

balham com o marxismo de uma forma muito parcial chegando inclusive a enfatizar somen-

te o fator econômico de uma determinada sociedade. A leitura do econômico que podemos

chamar de economicista e determinista, segundo as observações de E. J. Hobsbawm, podem

definir esta tendência como “Marxismo Vulgar ”, pois pode ser caracterizado pelas seguintes

perspectivas de abordagem:

67
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

1 – A interpretação econômica da história – crendo que o fator econômico é o fundamental


e do qual os outros dependem, até os fenômenos antes considerados como se m ligação
com os assuntos econômicos, deles dependem também;

2 – Modelo de base e superestrutura – usado em sua maior parte para explicar a história das
idéias. Esse modelo foi geralmente interpretado como uma simples relação de dominância
e dependê ncia entre a base econômica e superestrutura;

3 – O interesse de classe e a luta de classe – a maior parte dos partidários do marxismo


vulgar não passaram das primeiras páginas do Manifesto Comunista;

4 – Leis históricas e inevitalidade histórica – acreditavam que Marx insistia em um desenvol-


vimento sistemático e necessário da sociedade humana na h istória. Interpretação de
regularidade rígida e obrigatória na sucessão das formações socioeconômicas;

5 – Temas específicos de investigação histórica derivados dos interesses do próprio Marx ,


como por exemplo, o desenvolvimento do capitalismo e industrialização;

6 – Temas específicos de investigação derivados não tanto de Marx, mas de interesse dos
movimentos associados a e ssa teoria, como por exemplo, movimentos das classes opri-
midas;

7 – Várias observações sobre a natureza e limites da historiografia – derivados especialmente


do modelo de bases e superestrutura, explicando os motivos e métodos dos historiadores
que afirmavam serem apenas pesquisadores imparciais da verdade 5 .

A aplicação do marxismo vulgar para a produção do conhecimento contribuiu decisi-


vamente para a crise do próprio marxismo, visto que esta prática considerada uma forma
muito parcial, reducionista ou economicista de abordagem histórica, fez com que a teoria se
vulgarizasse.

A tendência economicista do marxismo vulgar em considerar o fator econômico como


determinante, e tentar ligar quase todos os fenômenos a este fator, resultou numa grande
parcialidade de interpretação da sociedade. Neste sentido, é importante enfatizar que a

5
Hobsbawn, Eric. O que os historiadores devem a Karl Marx? In: Hobsbawn, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras,
1998. Op. cit. p. 159-160.

68
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

ligação e dependência dos fenômenos em relação à economia, não permitiu que os pesqui-

sadores procurassem analisar a profundidade dos fenômenos, fazendo uma série bem signi-

ficativa de abordagens supe rficiais sem suas inter-relações com o contexto histórico, por-

tanto, efetivando o que podemos caracterizar como marxismo vulgar.

O economicismo pode ser confundido com a própria teoria marxista, afirmando que

não é a predominância dos motivos econômicos na explicação da história que distingue de

modo decisivo o marxismo da ciência burgue sa mas sim o ponto de vista da totalidade.

Outro ponto fundamental que nos auxilia a entender a prática do marxismo vulgar

pode decorrer do fato de que muitos historiadores estavam ligados aos movimentos sociais,

a até mesmo ao Partido Comunista, e procuravam evidenciar e m seus ensaios as lutas de

classe e o papel do proletariado nas reivindicações de classe.

Essas análises podem pecar por vários moti vos, dentre eles, o perigo das ge neraliza-

ções das experiências européias aplicadas ao contexto da América Latina. Também pode-

mos destacar o fato de tentar reduzir estes movimentos às condições econômicas, deixando

de lado a questão cultural e a consciê ncia de classe, questões estas que deveríamos conside-

rar em qualquer tipo de análise para se ter uma visão mais aprofundada do objeto de pesqui-

sa estudado.

6
O historiador Perry Anderson, um marxista britânico, faz

colocações importantes que nos remetem aos limites do marxismo

como teoria e prática política, visto que, muitos historiadores per-

tenciam ao Partido Comunista, ou outros partidos de orientação

socialista. O autor afirma que as crises constantes do socialismo

refletiram na própria cri se do marxismo e nquanto teoria, ou seja,

contribuí ram para que a teoria perdesse credibilidade e aceitação

pela comunidade científica. Anderson afirma que:

6
Disponível em: <http://globetrotter.berkeley.edu/Elberg/Anderson/images/Anderson3big.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

69
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O materialismo histórico como um corpo racional de pensamento, dando f orma a uma prática
controlada de transformação, sofreu de várias maneiras com seu próprio predomínio no univer-
so intelectual do socialismo. Como teoria pode-se dizer que foi poderoso demais para seu pró-
pri o be m. 7

As afirmações de Perry Anderson nos indicam que o materialismo histórico tem os seus
próprios limites, assim como as demais teorias de produção do conhecimento, mas especial-
mente o marxismo, que foi utilizado como orientação para os partidos políticos e demais
organizações de classes e sindicatos. Neste sentido, podemos observar que a prática do
marxismo ocasionou vários e quívocos teóricos, ou seja, a teoria não foi utilizada de uma
forma racional e objetiva, mas sim dogmática.

O dogmatismo de marxistas ortodoxos que acreditavam que o marxismo é a única


teoria capaz de promover a mudança na sociedade, uma posição muito equivocada, que
infelizmente, muitos partidos políticos de ori entação marxista acreditavam nesta possibili-
dade.

8 O marxismo como referencial teórico para a prática política

passou por diversos estágios de desenvolvimento, para exemplificar


utilizamos o caso do Stalinismo (Stalin um ditador da URSS), que

causou um recuo na teoria marxista, visto que os procedimentos


totalitários de Stalin são considerados incompatíveis com a teoria,
pois o marxismo é adepto da razão libert adora e não pode ria com-
partilhar com o autoritarismo e com a alienação.

O Stalinismo pode ser considerado como responsável pelo atraso da influência do


mar xismo nos países latino-americanos e também pelo descrédito da teoria no continente
europeu. Não podemos esque cer a influência da Escola dos Annales que ocupa importante
espaço como corrente teórica e metodológica na produção historiográfica, porém muitos
autores desta escola utilizam-se de conceitos e categorias marxistas.

7 Anderson, Perry. A crise da crise do marxismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. Op. cit.101.
8
Disponível em: <http://www.great-victory1945.r u/stalin_victory.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

70
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O questionamento e a própria crise do marxismo faz parte de um contexto muito mais


amplo, que é a crise das ciências sociais, pois as teorias existentes não conseguem mais dar
respostas suficientes para as novas situações que surgem a cada dia. O marxismo, pela sua
forma restrita de aplicação, com uma leitura equivocada de alguns historiadores e por suas

múl tiplas te ndências, m ui tas ve zes caiu num tot al re ducioni smo, de te rmi ni smo e
economicismo, sendo alvo de constantes críticas dos cientistas conscientes da ne cessidade
de uma reformulação na teoria. Um dos pontos fundamentais que Hobsbawn analisa é a

quase impossibilidade de separação do marxismo vulgar da própria teoria marxista, pois se


tomamos esta premissa como válida para a atualidade, tenderá a intensificar a sua crise,
porque o primeiro, do mar xismo vulgar, está totalmente condenado.

O historiador Edward P. Thompson procurou fazer novas leituras da teoria marxista,

deixando de lado o economicismo, e procurando utilizar-se de conceitos e categorias mar-


xistas sem cair na tentação das lógicas deterministas, considerando elementos como a cul-
tura e sua importância no processo diretivo da história.

Os historiadores neomarxistas (novos marxistas), corrente seguida por Thompson,


abandonam a articulação rígida entre infra-estrutura e supere strutura, abrindo a análise
para as múltiplas mediações, considerando a experiência social dos grupos estudados, suas

vivências nas sociedades e também abrindo espaços para estudar o individual, o cotidiano,
aspectos estes considerados até a pouco tempo como não importantes. A revisão do marxis-
mo foi feita dentro desta própria teoria.

A crise do marxismo, enquanto teoria de produção do conhecimento, reflete em todas

as áreas das ciências sociais. Percebe-se na atualidade um verdadeiro recuo do marxismo e,


ao mesmo tempo, uma acentuada crítica aos seus autores. É im portante salientar que não
podemos negar o papel do marxismo na produção historiográfica por que, segundo alguns

cientistas, esta teoria revolucionou a forma de entender a sociedade como totalidade.

Mas a própria expansão do marx ismo esteve muito ligada à divulgação do marxismo

vulgar e que, segundo Hobsbawn, é muito difícil de separá-los, o que acentuou, ao mesmo
tempo, a divulgação de uma teoria acompanhada de seus própri os limites. Neste sentido,
podemos afirmar no caso do marxismo vulgar, que este acentuou a limitação da teoria,

71
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

tanto no nível teórico, quanto nas práticas sociais da teoria marxista. O marxismo apresen-

tou-se durante o final do século 19 e praticamente todo o século 20, como uma teoria da

ação social, ou seja, contribuiu na prática par a o incentivo das ações sociais e políticas de

diferentes grupos sociais.

O marxismo enquanto teoria da produção do conhecimento contribui decisivamente

para a historiografia, pois compreende uma nova visão da história onde a sociedade é perce-

bida em sua totalidade. É importante observar que o marxismo sempre se apresentou como

uma ciência e isto fica expresso em três hipóteses:

1 – enf ati za o papel das contradições, priorizando o estudo dos conf litos sociais. Hobsbawn
considera que essa hipótese é a mai s original de Marx, a contribuição específ ica de Marx à
historiograf ia, pois as teorias históricas anteriores priorizam a harmonia, a unidade, a continui-
dade, entre as diversas esferas sociais (Hobsbawn, 1998);

2 – o marxismo foi uma das primeiras teorias estruturais da sociedade. Ele é um estruturalismo
genérico, que afi rma a contradição presente na estrutura, que levará à transição a outra estrutu-
ra. Assim, abandonou a ênf ase no evento e abriu o caminho da história científica. O conhecimen-
to da sociedade deixou de ser o conhecimento das atividades individuais e coletivas em si, decla-
radas explicitamente, organizadas em discursos universalizantes, legitimadores, expressas em
eventos transitórios. A verdade de uma sociedade não está em seu aparecer, intencional e f actual,
mas na inserção do aparente, visível, explícito, em uma estrutura e conômico-social que não é
mais o espírito, mas uma correspondência entre forças produtivas e relações de produção. Essa
estrutura econômi co-social, invisível e abstrata, mas real, é o objeto da históri a da ciência, que
a apreende conceitualmente;

3 – mesmo sem o saber, mas podendo vir a sabê-lo, os homens f azem a história e não são suporte
de qualquer sujeito metafísico. Pela práxis, pela intervenção, livre e condicionada na e pela
estrutura econômico-social, os homens transfo rmam o mundo e a si mesmos. Sua ação se dá no
contexto de uma luta, sua intervenção é sempre um golpe numa luta, seja contra a classe adversária,
seja contra a natureza. Entretanto, parece haver, nesse contra o outro social e natural, certa
astúcia da lógica dessa luta, pois os ataques contra as posições particulares constroem a unidade
universal. A emancipação da humanidade seria o resultado dessas lutas particulares, de classes
contra classes, de homens contra a natureza. O motor do desenvolvimento histórico em direção
à emancipação da humanidade não é o espírito, mas a energia natural-humana investida e
despendida em um processo de luta interna. 9

9
Reis, Carlos José. A história entre a filosofia e a ciência. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. Op. cit. p. 55-57.

72
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Nas observações de José Carlos Reis, podemos observar que o marxismo é realmente

uma teoria complexa, pois é capaz de explicar o desenvolvimento da sociedade como uma

totalidade, rompendo com o imobilismo, pois propõe trabalhar essencialmente com as con-

tradições sociais, especificamente as lutas de classes como o motor da história. É possível

afirmar que o marxismo propõe uma história-problema, trabalhando com o conflito, as con-

tradições presentes nas diferentes sociedades, bem como os relacionamentos entre os diver-

sos grupos sociais.

Os historiadores marxistas seguem diferentes correntes dentro do próprio marxismo,

alguns se dedicam mais a estudos sobre as estruturas econômicas, outras se interessam

mais pelas lutas de classes, e os mais modernos denominados de neomarxistas, se dedicam

mais a estudos que levam em consideração o papel da cultura na sociedade. Sendo assim,

podemos afirmar que o marxismo é uma teoria geral sobre a sociedade, que foi interpretado

sobre diferentes pontos de vista, formando várias correntes dentro da própria teoria, o que a

tor na cada vez mais complexa e difícil de entender, pois muitas destas correntes são contra-

ditórias, mas todas buscam em Marx explicações para entender a história.

O marxismo e mais especificamente o materialismo histórico apresentam-se como mais

uma possibilidade para a construção do conhecimento histórico, pois constituem uma refe-

rência teórica capaz de balizar os métodos utilizados pelos historiadores para pensar a his-

tória, como um processo e também como uma disciplina.

Com o marxismo foi possível pensar a história com outros parâmetros, pois a teoria

propõe pensar a sociedade e conhecimento como sendo uma perspectiva dinâmica, estando

atento para todos os movimentos que indicam a mudança, a contradição vivida em uma

determinada sociedade, portanto, estuda e reflete sobre as articulações sociais. A partir do

marxismo a história nunca mais foi a mesma, pois as propostas dos historiadores, seguidores

desta teoria, apontam para a possibilidade de se pensar as totalidades, rompendo com a

história simplesmente factual.

73
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

SÍNTESE DA UNIDADE 4

Nesta unidade você pôde perceber com detalhes que o Mar-


xismo e o Materialismo histórico constituem uma opção teórica
bem complexa, pois discute uma série de questões que são fun-
damentais para pensar a históri a e o conhecimento h istórico. É
fundamental observar que foi também uma teoria de ação social
e os historiadores a utilizam para a construção da história, esta
dupla função da teoria foi a causadora de sua própria crise. Você
pôde acompanhar que é possível distinguir o marxismo do mar-
xismo vulgar, isto significa que alguns historiadores fizeram um
uso incorre to da própria teoria, o que também contribuiu para a
sua crise.

O marxismo e o materialismo h istórico influenciaram deci-


sivamente a historiografia no decorrer do século 20, inclusive aqui
no Brasil nós temos muitos hist oriadores seguidores desta cor-
rente teórica. Mas é inegável que atualmente o Marxismo en-
contra-se em uma crise, pois ele foi muito mal utilizado pelos his-
toriadores e também temos que considerar que é uma teoria for-
mulada no século 19, e nos dias atuais algumas de suas idéias já
perderam a validade.

74
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Unidade 5

UMA ESCOLA HISTÓRICA CONTEMPORÂNEA:


a Escola dos Annales

OBJETIVOS DESTA UNIDADE

Nesta unidade você vai conhecer com detalh es toda a história da Escola dos Annales,

esta escola francesa que influencia significativamente toda a produção do conhecimento


histórico.

É importante assimilar que esta escola surgiu a partir de 1929 e continua até a atua-
lidade como um grande centro sobre a reflexão da história e da produção do conhecimento
histórico, ou seja, da historiografia.

AS SEÇÕES DESTA UNIDADE

– Seção 5.1 – A Escola dos Annales

– Seção 5.2 – A Primeira Geração dos Annales

– Seção 5.3 – A Segunda Geração dos Annales

– Seção 5.4 – A Terceira Geração dos Annales

A Escola dos Annales é dividida em várias gerações, pois a cada um destes períodos se
acrescentam novas refle xões sobre a história, e também os historiadores que passaram pela
escola produziram uma variada gama de obras que confi gura toda uma concepção de
historiografia, o famoso jeito francês de produzir o conhecimento histórico. Nas diferentes
gerações você vai descobrir como os historiadores trabalham com os diversos temas, alguns
bem diferentes daqueles que nós estamos acostumados a ler.

75
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 5.1

A Escola dos Annales

A Escola dos Annales ocupa um lugar privilegiado na produção historiográfica con-


temporânea, desde o seu início no final dos anos de 1920 até a atualidade, vem influencian-
do várias gerações de historiadores que buscam compreender a história em suas múltiplas
dimensões de abordagem.

A concepção de história para os Annales rompe com as formas tradicionais, pois é


proposto pensar o conhecimento histórico a partir de uma visão que aproxima cada vez mais
a história conh ecimento da história experiência. Esta perspectiva nos faz compreender que
a história deve ser pensada como uma possibilidade de entendermos a sociedade em suas
múltiplas dimensões.

Depois da Escola dos Annales a história nunca mais foi a mesma, pois ela comporta
todas as dimensões de vivê ncia dos homens na sociedade, ela é essencialmente plural, ou
se ja, comporta um a variedade bem significativa de ex pe ri ências. A h istória t ornou-se
interdisciplinar aproximando-se das ciências sociais, buscando nas outras disciplinas res-
ponder as velhas questões que os historiadores tinham dúvidas, neste sentido, pode-se afir-
mar que a h istória procurou interagir com as demais ciências.

A Escola dos Annales ficou conhecida a partir de 1929, com o lançamento de uma
nova revista histórica na França, intitulada de Les Annales d’Historie Economique et Sociale
(Os Anais de História Econômica e Social), este periódico tinha o propósito inicial de apre-
sentar uma nova forma de construção do conhecimento histórico, e de contestar os antigos
dogmas difundidos pela Escola Metódica. Com o lançamento do primeiro número da revista
ficava claro que a sua proposta era:

1 – organizar um fórum que promovesse uma discussão entre os historiadores e cientistas


sociais;

2 – questionar a divisão da história em antiga, medieval e moderna e da sociedade em primi-


tiva e civilizada;

3 – criar uma comunidade das ciências sociais. A revista também prometia uma nova forma
de construção do conh ecimento histórico, ampliando a noção de f onte documental, per-
mitindo o uso dos documentos escritos e imagéticos ou não-verbais, como também um
diálogo promissor com as demais ciências sociais.

76
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

1
A revista dos Les Annales d’Histoire Economique et Sociale estava
sob a direção de dois historiadores franceses, Marc Bloch e Lucien Febvre,
os dois se conheceram quando trabalhavam na cidade de Estrasburgo, uma
cidade que també m pertenceu à Alemanha, mas com o fim da Primeira
Guerra Mundial ela retornou para o domínio da França. Bloch e Febvre
trabalhavam na Universidade de Estrasburgo, onde tinham e ncontros diários, o que favore-
ceu o movime nto dos Annales, a universidade era ponto de encontro de profe ssores de dife-
rentes áre as criando um ambiente interdisciplinar, pois diferentes profissionais, principal-
mente das ciências humanas, atuavam juntos e colaborando para o sucesso da revista.

Os professores de Estrasburgo influenciaram decisivamente os trabalhos de Bloch e


Febvre, pois tinham um diálogo constante com os colegas de trabalho, tais como: o psicólo-
go Charles Blondel, o sociólogo Maurice Halbwachs, Henri Bremond e os historiadores
Georges Lefebvre, Gabriel Le Bas e André Piganiol, toda esta equipe de professores tinha
contatos permanentes, o que os auxiliou na construção de uma visão interdisciplinar da
história.

Seção 5.2

A Primeira Geração dos Annales


2

O trabalho de Bloch e Febvre é fundamental para a consoli-


dação da Escola dos Annales. Estes dois h istoriadores são respon-

sáveis pela primeira geração da escola, que inicia em 1929 e vai


praticamente até o final da Segunda Guerra Mundial, onde então

assume a direção da e scola Fernand Braudel.

1 Disponível em: <http://www.klett-cotta.de/uploads/tx_autoren/autor_858-a.gif>. Acesso em: 3 set. 2008.


2
Disponível em: <http://i50.photobucket.com/albums/f343/dalegrett/Antropoblog/braudel.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

77
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Esta primeira geração é responsável pelos diálogos interdisciplinares, consolidando


desta forma uma nova perspectiva histórica, pois os historiadores desta geração procuraram
escrever trabalhos em que as fronteiras da história com as ciências sociais estavam pratica-
mente rompidas, ou seja, procuravam aproximar os estudos históricos das demais discipli-
nas na perspectiva de entender de forma mais clara a noção de totalidade.

Um dos objetivos de Marc Bloch e Lucien Febvre era a constituição de uma história
com uma visão global, recusando a história mais fragmentada, pois pretendiam e ntender o
homem em sua totalidade, e este objetivo era uma das características fundamentais da Es-
cola dos Annales, pelo menos na primeira e segunda geração.

5.2.1 – MARC BLOCH

Marc Bloch nasceu em 1886 e foi morto fuzilado na Segunda Guerra Mundial em
1944. Teve uma vida dedicada à história e participou das duas guerras mundiais dedicando-
se à libertação da França durante o Nazismo. Bloch era descendente de uma família de
judeus, est udou na Escola Normal Superior e depois na Sorbonne, também estudou um
tempo na Alemanha, nas universidades de Leipzig e de Berlim. Depois de formado retorna à
França para ensinar história nos liceus de Montpellier e de Amiens até o ano de 1914.
Combateu na Primeira Guerra Mundial como oficial. Depois do fim da guerra, Bloch é con-
vidado para trabalhar na Universidade de Estrasburgo onde permanece de 1919 a 1936,
neste período conhece Lucien Febvre e começam os debates para a criação da Escola dos
Annales.

Bloch escreveu muitos artigos científicos discutindo a história e sua aproximação com
a ciência, ao contrário do que pensavam os historiadores metódicos, o autor discute que a
utilização dos documentos para a construção do conhecimento histórico deve se r bem di-
versificado, pois os metódicos acreditavam somente nos documentos escritos.

Bloch acreditava que era preciso utilizar documentos bem diversificados tais como:
arqueológicos, artísticos, numismáticos, etc., salientava que era preciso investigar as crôni-
cas, as cartas, a arqueologia funerária e o estudo dos nomes próprios, bem como as imagens
pintadas e esculpidas, a disposição e o mobiliário dos túmulos, dentre outros. Nesta pers-

78
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

pectiva o autor sinaliza para a possibilidade de ampliação da noção de fonte histórica, pois
tradicionalmente na França os documentos utilizados para a construção do conhecimento
histórico eram os escritos, sendo assim desde o princípio da Escola dos Annales, já temos a
possibilidade de pensar nesta diversificação dos documentos.

Marc Bloch não se contentava apenas em explorar uma documentação diversificada,


procurando abrir novos domínios na história. Seus trabalhos de pesquisa seguem uma ori-
entação da análise das dimensões econômicas das sociedades. Seguindo est a perspectiva o
autor teve influências, inclusive de Karl Marx, para tentar explicar as relações entre econo-
mia e classes sociais. Foi também influenciado por F. Simiand e H. Hauser, autores que
também trabalhavam com história econômica.

Os trabalhos de história econômica de Bloch procuravam evidenciar as estruturas e


não apenas o estudo dos fatos isolados. Neste sentido, pode mos afirmar que Marc Bloch
inova na perspectiva de construir um conhecimento histórico, procurando evidenciar nas
estruturas certa noção de totalidade, uma abordagem que sintetiza o peso das estruturas
para o entendimento de uma determinada sociedade em suas várias dimensões, natural-
mente escapando da perspe ctiva de trabalhar com os fatos isolados.

Uma das obras mais importantes da carreira de Marc Bloch é intitulada Les rois
thaumatuges (Os reis taumaturgos), publicada em 1933. Esta obra foi totalmente inovadora
para a historiografia da década de 1920, pois o autor já mostrou a tendência de trabalhar de
uma forma interdisciplinar, mostrando na obra a compreensão de medicina, psicologia,
iconografia e antropologia.

A obra discutia qual a origem para que as pessoas, na Inglaterra e na França, acredi-
tassem que o toque do rei nos súditos poderia curar doenças, principalmente o milagre de
curar a escrófula, que era uma doença infecciosa nos gânglios linfáticos do pescoço. Na
obra “Os Reis Taumaturgos”, o autor se aproxima mais da psicologia, pois procurou enten-
der os sentimentos e a fé das pessoas que seriam curadas com o toque dos reis, pois consa-
gravam para os reis não somente o poder militar, político e jur ídico mas também o poder de
fazer milagres. Nesta obra o autor já trabalhou com os conceitos de consciência coletiva e
também de representações mentais, que serão seguidos por outras gerações da Escola dos
Annales.

79
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Outra obra fundamental da carreira de Marc Bloch é Les caracteres originaux de


l’historie rurale française (Os caracteres originais da história rural francesa), editada em
1931. Nesta obra o autor analisa a evolução das estruturas agrárias no Ocidente m edieval e
moderno do século 11 ao século 18. Neste livro é aplicado o método regressivo, que prevê a
leitura da história de trás para frente, pois o autor salientava que era preciso ir do conhecido
para o desconhecido. Nesta obra o autor utilizou uma série notavelmente grande de evidên-
cias, e fez uso de muitos mapas. Todo este conjunto documental foi usado para descrever a
relação entre o assentamento físico e instituições sociais do início da Idade Média à Revo-
lução Francesa, ou seja, um longo período a ser analisado na obra.

A obra La societé féodale (A sociedade feudal) é também uma das mais marcantes
obras de Marc Bloch, editada em 1939. Esta obra abrange um período muito amplo da
história do período feudal e compreende quatro séculos de história européia, pois vai de 900
a 1300.

A obra se propõe a estudar uma série de questões, o que a torna essencialmente


interdisciplinar, pois abrange a servidão e a liberdade, monarquia sagrada, a importância
do dinheiro e outros temas. Alguns autores afirmaram que esta obra sintetiza o trabalho de
toda a vida de Marc Bloch, pela diversidade de temas e detalhe s apresentados. No decorrer
da obra é possível perceber que o autor se preocupou em recuperar a sociedade feudal em
sua totalidade, o que pode ser considerado como um certo culto ao feudalismo.

É possível perceber que Bloch estava interessado em trabalhar também com a psicolo-
gia histórica, pois fica claro na obra as considerações sobre os modos de sentir e de pensar.
Nesta obra também se encontra um capítulo sobre a memória coletiva, marcando a influên-
cia de seu amigo Maurice Halbwachs, que escreveu um livro sobre este tema. O livro “A
Sociedade Feudal” é ainda hoje considerado como uma contribuição fundamental para o
entendimento daquela sociedade.

Depois de trabalhar em Estrasburgo, a partir de 1936, Bloch consegue uma indicação


para trabalhar na Universidade Sorbonne, e m Paris. A vaga e ra para suceder Hauser na
cadeira de história econômica, pois neste período o seu amigo Lucien Febvre já estava tra-
balhando no prestigiado Collège de France. Esta transferência de Febvre e Bloch para Paris
foi fundamental para a ampliação da Escola dos Annales, pois Paris era realmente uma
cidade muito importante para a vida intelectual francesa.

80
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Aos poucos, o grupo dos Annales foi reconhecido pela seriedade de seus trabalhos e
pela inovação do método hi stórico, pois estes historiadores se propunham a defender um
novo tipo de história, onde era praticado a interdisciplinaridade, objetivando uma história
problema, defendiam uma história das sensibilidades, das representaçõe s sociais. Aos pou-
cos os Annales foram conquistando mais adeptos, principalmente os historiadores mais jo-
vens que acreditavam nas proposições de Bloch e Febvre. Dentre eles, podemos destacar
Fernand Braudel, Pierre Goubert, Maurice Agulhon, George s Duby e outros.

Com a decretação da Segunda Guerra, o grupo dos Annales sofre um retrocesso, Marc
Bloch já estava com 53 anos, mas alistou-se no exército para defender a França da invasão
da Alemanha. Como Bloch era um judeu, ele sofreu várias perseguições, tendo que deixar
Paris. Mudou-se para a zona livre ou desocupada, foi novamente trabalhar na Universidade
de Estrasburgo e depois na Universidade de Monpellier, mas com o anti-semitismo declara-
do pelos ale mães, Bloch fugiu para Fourgéres.

Estas vár ias mudanças impediram Bloch de levar a sua biblioteca e os seus cadernos
de anotações, mas ele, mesm o assim, continuou escrevendo. Bloch foi executado pelos sol-
dados alemães em 16 de junho de 1944, sendo acusado de ter participado do Movimento
Unidos da Resistência (MUR).

Bloch deixou uma obra inacabada que se intitula Apologie pour l’historie ( Apologia
da história: ou o ofício do historiador), publicada somente em 1949, ou seja, cinco anos
após sua morte. É uma obra singular, na qual o autor explica o método histórico aplicado
por ele e seu entendimento sobre o trabalho do historiador.

Estabelece na obra a sua visão sobre a história adquirida em toda a sua vida de histo-
riador. No começo do livro, Bloch tenta responder uma pergunta de um de seus filhos, que o
indaga para que serve a história e na obra fica claro a importância do seu papel, que é de
difundir e esclarecer o conhecimento históri co, também cabendo-lhe o papel de libertar a
história da opressão, tor nando-a instrume nto da própria cidadania.

5.2.2 – LUCIEN FEBVRE

Lucien Febvre nasceu em 1878 e foi um historiador reconhecido na França por ser um
dos fundadores da Escola dos Annales. Embora tenha um grande reconhecimento na socie-
dade francesa, ele não é muito reconhecido no exterior. Foi, juntamente com Marc Bloch,

81
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

um historiador que renovou os métodos de fazer a história, trazendo para este campo todo
um conjunto de reflexões sobre as novas abordagens, novos objetos e novos problemas para
o campo da historiografia. Febvre iniciou a sua formação de historiador na cidade francesa
de Nancy, depois continuou em Paris na conceituada Escola Normal Superior e também na

Universidade de Sorbonne.

Na época em que Febvre começou seus estudos o que vigorava, no campo da história,
era a escola metódica, que propagava a preocupação com a erudição, privilegiando a histó-
ria política e os acontecime ntos históricos. Febvre foi um historiador autodidata, estudava

os grandes clássicos da historiografia, como: Jules Michelet, Jacob Burkhardt, Fustel de


Coulanges, Louis Courajod e Jean Jaurès, com a influência destas obras clássicas, saía do
estreitamento provocado pela história metódica.

Febvre acreditava em uma história mais ampla, descartando a história de influência


alemã que pregava o rigor científico e o estudo dos eventos políticos e militares. Procurou

seguir uma história mais interdisciplinar, neste sentido, aproximando-se das proposições
dos geógrafos, antropólogos, sociólogos, economistas e filólogos.

Esta visão o inspirou a fazer a sua tese de doutoramento, que foi um estudo sobre uma
região da França chamada de Franche-Comté, no período em que esta região era dominada
pelo rei da Espanha Felipe II, no século 17. Em sua tese de doutorado ele analisou a revolta

dos holandeses contra Felipe II e também sobre a Reforma. Em sua abordagem está relatado
as características sociogeográficas da região, e a luta econômica, política e emocional entre
a nobreza em decadência e a burguesia em ascensão. A sua obra realmente é o que se pode

denominar de estudo interdisciplinar.

No ano de 1919, Febvre começou a trabalhar na Universidade de Estrasbur go, convi-


dado para lecionar história moderna. Em sua aula inaugural discursou sobre a função da
história em um mundo em ruínas, pois era apenas um ano depois do final da Primeira Guer-
ra Mundial. Neste período conheceu Marc Bloch, iniciando uma amizade que duraria para

o resto de sua vida, ambos compartilhavam da visão de uma teor ia da história mais ampla e
mais humana, combatendo desta forma uma história fragmentada proposta pela escola me-
tódica.

82
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Em Estrasburgo, Febvre conhece importantes pesquisadores, formando um projeto de

renovar a história. Os historiadores começam a dialogar com o geógrafo H. Baulig, o psicó-

logo C. Blondel, o sociólogo G. le Brás e demais colegas abertos à troca entre as disciplinas.

Nos primeiros anos de trabalho em Estrasburgo Febvre publica a sua obra La terre et l’evolution

humaine (A terra e a evolução humana) em 1922, marcando a relação interdisciplinar entre

a história e a geografia.

Em 1929, chegando a uma certa maturidade de compreensão da história, fundam a

revista Les Annales d’Historie Économique et Sociale ( Os Anais de História Econômica e

Social), marcando definitivamente o início do grupo dos Annales.

Febvre dedicou atenção especial aos estudos das idéias francesas sobre a Renascença

e a Refor ma, e discutiu as suas posições em vários artigos e conferências, defendendo suas

posições mais pessoais, contestando idéias já consagradas. Desta forma procurou afirmar a

sua posição interdisciplinar nas suas proposições sobre a história.

O autor dedicou parte de suas pesquisas para discutir a Reforma religiosa, marcando

sua presença nos estudos sobre a história da religião. Em seus estudos destacou que a histó-

ria da religião não deveria estar baseada nas instituições religiosas mas deveria ser levado

em conta as idéias religiosas das pessoas, bem como suas emoções e tendências. Considera-

va que a Reforma ocorreu em virtude da burguesia emergente que pretendia ver uma igreja

transparente, humana e fraternal. Lebvre, em 1928, escreveu uma biografia de Martin Lutero,

o incentivador da Reforma Protestante e, nesta obra, afirmou que este não teve apoio de

toda a burguesia, mas sim de parte dela.

No ano de 1933, Febvre de ixa Estrasburgo e vai para Paris assumir um posto no

renomado Collège de France (Colégio da França), que embora tivesse o nome de colégio,

era uma renomada universidade onde trabalham os professores mais destacados da França.

Logo após assumir o seu cargo no Collège de France ele foi convidado para ser o presidente

da comissão organizadora da famosa Encyclopé die française (Enciclopédia francesa). Esta

enciclopé dia constituiu num importante projeto essencialmente interdisciplinar, indo ao

encontro de suas pesquisas, o que o tornou muito conhecido na França.

83
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Neste mesm o período, Febvre continuou o seu trabalho na Revista dos Annales. A
influência de Febvre pode ser destacada no volume da enciclopédia dedicada ao te ma da
“outillage mental” (aparato mental), na qual os autores escreveram sobre o aparato mental
ou conceitual dos indivíduos e das sociedades.

A partir da decretação da Segunda Guerra Mundial em 1939, Febvre assume sozinho


a direção da Revista dos Annales, pois o seu colega e amigo Marc Bloch deixa a coordena-
ção da revista por problemas de perseguição em vista de ser descendente de judeus. Febvre
passou grande parte deste tempo de guerra em sua casa de campo em Franche-Comté.

Neste período Febvre escreveu um de seus mais famosos livros intitulado Le problème
de L’incroyance au XVIe siècle: la Religion de Rabelais, publicado em 1942 (O problema da
descrença no século XVI: a religião de Rabelais). Esta obra foi extremamente significativa
para a sua carreira, pois foi o resultado de pesquisas que ele vinha desenvolvendo há muito
tempo.

O personagem principal da obra é François Rabelais, o qual já havia sido trabalhado


por outros historiadores, mas Febvre consegue dar uma outra versão para a sua atuação. Os
outros historiadores o consideravam um ateu, o autor procurou desmistificar as idéias sobre
Rabelais, buscando indícios nas idéias de editores, teólogos, controversistas e poetas menos
importantes, mostrando que algumas denúncias eram, na verdade, endereçadas a outras pes-
soas. Esta obra é considerada na França uma das mais importantes publicadas no século 20.

Depois do final da Segunda Guerra Mundial Febvre foi convidado para fazer a reorga-
nização de uma importante instituição francesa de ensino, a École Pratique de Hautes Études
(Escola Prática de Altos Estudos) fundada em 1884. Neste período Febvre foi eleito como
membro da escola e também foi convidado pela Unesco para exercer a atividade de delegado
francês, sendo organizador da coleção sobre a “História Cultural e Científica da Humanida-
de”. As múltiplas atividades de Febvre o impediram de continuar com suas pesquisas, desta
forma ele publicou algumas obras com outros historiadores.

Na reorganização da École, Fe bvre criou a VI Seção da École Pratique de Hautes


Études (VI Seção da escola prática de altos e studos) em 1947, e tornou-se presidente desta
VI Seção, que é dedicada às ciências sociais. É lá que ficou situada a Escola dos Annales,

84
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

pois neste período já contava com inúmeros colaboradores como Fernand Braudel, Charles

Morazé, Robert Mandrou e outros, os quais foram os responsáveis pela continuação da


Revista dos Annales. Em 1956 Febvre morreu e deixou Fernand Braudel responsável pela

Escola dos Annales. Com a morte de Febvre termina a primeira geração da Escola dos Annales,
e a segunda geração começou com o comando de Fernand Braudel.

Seção 5.3

A Segunda Geração dos Annales

A segunda geração da Escola dos Annales foi decisivamente marcada pela presença
de Fernand Braudel. Foi ele que prosseguiu com a direção da Revista dos Annales, mas não

estava sozinho nesta geração, embora sua presença tenha sido fundamental para a sua
organização e divulgação a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

A se gunda geração foi adiante com a idéia de produzir uma história total, ou seja,
avançou na perspectiva de se pensar o conhecimento histórico em uma perspectiva de tota-
lidade, considerando todas as dimensões importantes para entender as sociedades. É válido
destacar que também se trabalhou com a história quantitativa e com as noções de região e
regionalização, com a demografia histórica e com a história serial, todas estas perspectivas
podem ser constatadas nos historiadores desta geração. Mas o historiador com maior desta-
que foi realmente Fernand Braudel, que conseguiu criar uma identidade para esta fase dos
Annales.

5.3.1 – FERNAND BRAUDEL

O historiador Fernand Braudel foi um especialista nos estudos sobre a Europa Moder-
na, sua formação acadêmica foi influenciada pelas idéias de Marc Bloch e Lucien Febvre,
ou seja, um herdeiro nato da Escola dos Annales. O historiador nasceu em agosto de 1902
num povoado denominado Luméville-en-Ornois. Muito cedo se mudou para Paris, onde

85
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

continuou os seus estudos no Liceu Voltaire e mais tarde na Universidade de Sorbonne. Em


1923 conquistou o grau de agrégé (concurso público para dar aula), tendo o direito de
exercer o cargo de professor universitário.

Neste período começou a trabalh ar na Universidade de Algeries, de 1923 a 1932, na


Argélia, experiência que influenciou o historiador na sua ampliação dos horizontes profissi-
onais. Ne sta fase profissional Braudel escreveu um importante artigo sobre a presença dos
Espanhóis no Norte da África no século 16.

No início de sua vida profissional Braudel começou a pesquisar para a sua tese de
doutoramento que foi sobre o rei Felipe II e o Mediterrâneo, esta pesquisa foi feita muito
lentamente, pois ele trabalhava e fazia o doutoramento ao m esmo tempo. No começo dos
anos de 1930 ele retorna a Paris e trabalharia no Liceu Condorcet e no Liceu Henrique IV.

Ainda na década de 1930 ele aceitou o convite para trabalhar no Brasil, na Universi-
dade de São Paulo (USP), e permaneceu no Brasil de 1935 a 1937. O autor definiu este
período como um dos mais felizes de sua vida. Na sua volta para a França ele conheceu
pessoalmente Lucien Febvre, o que vai influenciar decisivamente na elaboração de sua tese
de doutoramento.

Com a decretação da Segunda Guerra Mundial, Braudel foi prisioneiro num campo
perto de Lübeck, neste período ele aproveitou para fazer a sua tese, pois tinha a pesquisa
anotada e m cadernos de rascunho, ele escrevia a tese e a enviava a Febvre para revisar. A
tese somente ficou pronta em 1947, ano em que foi defendida, em 1949 foi publicada, com o
título La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II (O Mediterrâneo
e o mundo mediterrâneo à época de Felipe II). Esta obra foi fruto do trabalho i ntenso de
Braudel desde 1929, ou seja, praticamente vinte anos de pesquisa e redação para completar
a obra. A primeira edição foi publicada em 1949 e mais tarde ele corrigiu alguns dados e foi
feita uma segunda versão para a publicação em 1966.

Este livro é uma obra monumental, realmente um grande livro, apresenta uma verda-
deira inovação metodológica, um livro muito extenso, de 1160 páginas na primeira edição,
e 1222 páginas na segunda edição. Este modelo de tese apresentada por Braudel foi seguido
de exemplo para a formulação de teses de vári as gerações de historiadores, principalmente
os seguidores da Escola dos Annales.

86
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

O Mediterrâneo de Braudel é uma obra que reflete o espírito da Escola dos Annales,
pois o autor segue os princípios de uma história total. Na obra o destaque não é para Felipe

II, mas sim para o mar Mediterrâneo, ou seja, não é um personagem humano, mas simples-
mente, para um espaço marítimo.

Braudel se inspirou em vários geógrafos para formular a sua obra, e teve a influência
das lições da geografia humana, citando as obras de P. Vidal de la Blanche, R. Blachard, J.

Sion e A. Demangeon, os quais estudaram a formação das paisagens. Considerando-as como


evoluções históricas, ou seja, um verdadeiro exercício interdisciplinar, teve como base tam-

bém as obras de geografia e história de Lucien Febvre. A obra de Braudel foi considerada
como um monumento majestoso da historiografia do século 20, dada a dimensão da obra

por ser um trabalho essencialmente interdisciplinar.

A obra é dividida em três partes, cada uma delas contém um prefácio explicativo. A

primeira parte trata da história quase sem tempo, ou seja, a longa duração da história,
estudando a relação do homem com o ambiente ; a segunda parte, a história da estrutura

econômica, social e política; a terceira parte trata da história dos aconte cimentos.

A primeira parte constitui-se como uma história quase imóvel, tratando do homem nas
relações com o meio que o rodeia, uma história lenta de passar e se transformar, é percebida

a partir de regressos insistentes, de ciclos que sempre recomeçam, nesta parte é apresentado

um verdadeiro ensaio de geo-história, ele analisa tanto a parte física como os habitantes
que povoam as regiões analisadas, ou seja, o espaço mediterrâneo.

A segunda parte apresenta uma história lentamente ritmada, ou seja, uma história

estrutural, bem como uma história social, a dos grupos e agrupamentos, sendo analisado o
nível de duração cíclica. Braudel estudou nesta parte a conjuntura do mediterrâneo em

suas diferentes dimensões: econômicas, sociais e políticas.

Na terceira parte, a história segue uma dimensão não do homem mas do indivíduo, ou

seja, os acontecimentos. Ele situa os indivíduos e os eventos num contexto histórico. Na


obra, o centro da análise é o Mediterrâneo, demonstrando as diferenças entre o ocidental

(que na época era dominado pelos espanhóis) e o oriental dominado pelos turcos. Esta

87
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

divisão t ornava um Mediterrâneo completamente diferente do outro. O Mediterrâneo de


Braudel pode ser considerado como uma verdadeira obra de história total, modelo este de-
fendido pela segunda geração da Escola dos Annales.

Braudel teve uma excepcional carreira universitária, trabalhava no College de France,


a partir de 1949 e na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, presidindo a VI Seção

dedicada às ciências sociais, onde fica hospedada a Escola dos Annales, ou onde trabalham
seus principais adeptos.

Em 1956 com a morte de Febvre, Braudel assume a direção da revista dos Annales,
dando-lhe uma nova ordenação. Em 1963 criou uma nova entidade dedicada à pesquisa

interdisciplinar denominada de Maison des Sciences de l’Homme (Casa das ciências do


homem), neste período todas as entidades, a Maison e a VI Seção mudaram para o Boulevard
Raspail, 54, num local onde puderam conviver com um grupo mais inte rdisciplinar, reali-
zando seminários e demais eventos. Os historiadores dos Annales puderam conviver com

Claude Lévi-Strauss e Pierre Boudier, realizando mais trocas interdisciplinares. Braudel foi
um homem de grande respeitabilidade e de personalidade dom inante, incentivou jovens
historiadores estrangeiros a conhecer o estilo francês de fazer história, oferecendo bolsas de
pesquisas para estes estrangeiros.

Braudel dedicou parte de seu tempo para escrever outra obra magnífica juntamente

com Lucien Febvre, mas este morre em 1956 não terminando de escrever a sua parte. Braudel
terminou a obra entre 1967 e 1979, sob o título de Civilization matérielle et capitalisme
(Civilização material e capitalismo), e que pode ser considerada como uma obra também

monumental, pois abrange um período muito longo da história. Na primeira parte aborda a
história econômica, ou seja, a civilização material.

Na segunda parte, aborda a introdução da vida cotidiana no domínio da história. A


obra pode ser considerada como uma verdade ira síntese entre o que podemos chamar de
uma peque na história do cotidiano e a história das grandes te ndências socieconômicas, ou

seja, realmente uma história da civilização mate rial em todos os seus detalhes. Em 1980, a
obra é novamente publicada em uma versão mais ampla, com o título: Civilização material,
economia e capitalismo do século XV ao século XVII.

88
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

A segunda geração da Escola dos Annales também teve influência de outros historia-

dores, os quais difundiram os métodos da história quantitativa, principalmente entre os

anos de 1950 a 1970. Podemos encontrar vários historiadores trabalhando com esta história

quantitati va, inclusive Braudel se utilizou de ste método, que foi mais aplicado nos estudos

de caso de história econômica, de uma tendência econômica foi para a história social e

também para a história populacional. Nesta tendência podemos encontrar os trabalhos de

Ernest Labrousse, que pesquisou temas relaci onados com a história econômica, trabalhan-

do com estatísticas e história dos preços, estes trabalhos já tinham espaço na França desde

o século 19, e retornam na década de 1930. Labrousse foi influenciado pela idéias de Marx

e Jaurès, mas também aceitou as idéias de Marc Bloch e Lucien Febvre. Trabalhou na

Sorbonne e VI seção da Escola de Altos Estudos, formando uma geração de historiadores

econômicos e ntre 1946 a 1966.

Labrousse em seus estudos utilizou o termo história da conjuntura e também o de geo-

história, estas definições estão misturadas em investigações em relação às trocas comerciais

e amplos espaços e de longa duração. As obras de Labrousse não se limitam a uma história

serial apenas em sua dimensão econômica, mas também a uma dimensão social.

Os e studos sobre a demografia histórica também estiveram presentes na segunda ge-

ração dos Annales, e já a partir da Segunda Guerra Mundial começaram a aparecer os

artigos que tratam esta temática. Em 1946, com a publicação do artigo de Jean Mouvret,

tratando as crises de subsistência e os acidentes demográficos do antigo regime , o autor

mostrou que a má colheita originava uma crise acentuada dos preços dos cereais, causando

fome na população, bem como a queda dos casame ntos e da natalidade. De st a forma foi

possível percebe r que as questões demográficas são oriundas de questões sociais e econô-

micas.

Podemos destacar a obra de P. Goubert intitulada Beauvaisis e o Beauvaisis de 1600 a

1739, na qual o autor elaborou um modelo para avaliar o movimento da população. A obra

de Goubert é dividida em duas partes, pois o autor usou os termos estrutura e conjuntura, e

no livro destacou a demografia histórica à história social de uma região.

89
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

3
Podemos ainda citar outros autores importantes desta ge-
ração, tal como Georges Duby que escreveu sobre a propriedade,
a estrutura social e a questão da família nos séculos 11 e 12, e foi
considerado como um dos grandes medievalistas, escrevendo tam-
bém para a clássica coleção História da Vida Privada.

4
Ainda nesta geração, podemos con-
tar com Emmanuel Le Roy Ladurie, con-
siderado um dos mais brilhantes discípu-
los de Braudel, autor de dicou-se a pesquisa sobre o meio físico,
escreveu um estudo comparativo da história do clima na longa
duração, seguindo os passos de seu mestre, e destacando-se por
produzir e studos regionais no círculo da Escola dos Annales.

Esta segunda geração dos Annales também influenciou historiadores em praticamen-


te todo o continente europeu e nos Estados Unidos, pois historiadores de outros países eram
bolsistas na França na tent ativa de conhecer os ensinamentos dos Annales, que nesta gera-
ção já contavam com uma s óli da inst it ui ção p ar a d es env olv er os se us tr abalh os
interdisciplinares.

Alguns historiadores da segunda geração dos Annales conseguiram romper com algu-
mas determinações implantadas por Fernand Braudel, que pretendia construir uma história
total. Como exemplo podemos destacar a obra de Emmanuel Le Roy Ladurie, que inova em
termos de método, abordagem e tratamento de seu objeto de pesquisa, conseguindo em suas
obras trabalhar com história quantitativa e e conômica, com história política, religiosa e
psicológica, em um trabalho verdadeiramente interdisciplinar. É importante observar que
estes autores conseguem romper com algumas perspectivas elaboradas por Braudel, modifi-
cando a forma de construção do conhecimento h istórico.

Todas estas alterações na forma de conceber e construir a história contribuem para a


criação de uma nova geração na Escola dos Annales, sendo assi m já foi possível pensar na
terceira geração dos Annales.

3
Disponível em: <http://www.boerverlag.de/Bilder/DUBY-P.JPG>. Acesso em: 3 set. 2008.
4
Disponível em: <http://p hoto.maapar1.agriculture. gouv.fr/galler y2/main.php?g2_view=core.DownloadItem&g2_itemId=8338&g2_
serialNumber=2>. Acesso em: 3 set. 2008.

90
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Seção 5.4

A Terceira Geração dos Annales

A terceira geração dos Annales iniciou após 1968. Este ano foi emblemático para os

europeus, pois ocorreram grandes protestos e m que os estudantes pediam reformas signifi-
cativas no sistema de ensino. Em Paris, maio de 1968 foi marcado por uma série de protes-

tos, onde os estudantes foram para as ruas protestar sobre todas as formas de conservadorismo
que havia no sistema educacional francês.

As mudanças ocorridas após 1968 repercutiram também na Escola dos Annales, que a
partir deste período começou a incorporar novos direcionamentos na sua forma de construir

a história. Nesta terceira geração não existia apenas um nome de consenso como existiu na
primeira e na segunda, esta geração é bem mais diversificada, contando com a pr esença de

vários historiadores importantes e também contando com a presença de mulheres. Os temas,


objetos e abordagens são bem diversificados, contemplando a própria multiplicidade das

idéias de diferentes historiadores.

5
Nesta terceira geração tivemos a presença importante de jo-

vens hist oriadores, alguns discípulos de Braudel e outros admira-


dores de Febvre e de Bloch. Podemos destacar a presença de André

Burguière e Jacques Ravel, que substituíram Braudel na direção


da Revista dos Annales. Jacques Le Goff também foi um historia-

dor destacado, pois tornou-se presidente da Escola de Altos Estu-


dos em Ciências Sociais, e depois foi sucedido por François Furet.

É import ante também destacar as mulhe res desta geração, tais como: Chris tiane
Klapisch, Arlette Farge, Mona Ozout e Michele Perrot, depois foram associando-se outras.

Esta geração teve uma influência decisiva de idéias vindas do ex terior, pois alguns dos his-
toriadore s dos Annales foram morar nos Estados Unidos e trouxeram idéias novas, princi-

5
Disponível em: <http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/cidMedieval_LeGoff.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

91
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

palmente nas tendências da psico-história, hi stória econômica, cultura popular e antropo-


logia simbólica. Estas novas tendências foram fundamentais para a diversidade dos temas e
abordagens desta geração.

Um dos mais comentados ditados para designar esta geração é “do porão ao sótão”,
pois realmente as mudanças foram bem significativas, acrescentando novas dimensões para
se pensar o conhecimento histórico. Algumas dimensões que não eram trabalhadas pelas
gerações anteriores dos Annales, foram evidenciadas nesta geração como, por exemplo, o
interesse pela história das mentalidades e pela história cultural, ambas ficaram na ordem do
dia para os historiadores que passaram do interesse pela base econômica para os inte resses
da superestrutura cultural, ou seja, como diz o single do porão ao sótão.

Neste aspecto podemos destacar as notáveis pesquisas de Philippe Áries, embora o


livro fosse publicado em 1960, somente nesta geração é que o interesse pelas mentalidades
tor nou-se freqüente. A obra de Áries inti tulada L’Enfante et la vie familiale sous l’Anciene
Regime, no Brasil editada com o título “A história social da criança e da família”, é uma obra
fenomenal das mentalidades, tratou o surgimento da idéia de infância. No livro podemos
perceber como as crianças eram tratadas pelos adultos, a pesquisa mostrou uma documen-
tação bem variada, inclusive com a presença de imagens.

A diversidade de objetos e abordagens ficou evidente nesta geração, pois o espírito


interdisciplinar dos Annales foi seguido pelos historiadores interessados nas aproximações
com as ciências sociais. A psicologia foi uma das disciplinas que teve uma grande aproxima-
ção, onde podemos destacar Robert Mandrou, que publicou uma obra que marca decisiva-
mente as relações entre psicologia e história, o livro Introducion à la france Moderne (Intro-
dução à França Moderna) é considerado como um verdadeiro ensaio em psicologia históri-
ca. O livro contempla questões relacionadas à saúde, emoções e mentalidades. Podemos
encontrar outros historiadores que també m trabalham com a Psicologi a, com o: Jean
Delumeau, Le Roy Ladurie e também Alain Besançon, todos nesta tendência marcante des-
ta geração, que escreveram sobre a psico-história.

As ideologias, o imaginário social e as mentalidades também podem ser destacados


como dime nsões importantes para esta geração. Podemos citar dois grandes historiadores
que trabalham com as mentalidades, que são: Jacques Le Goff e Georges Duby que estudam
com esta dimensão desde o início dos anos de 1960.

92
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

Le Goff já no começo dos anos de 1960 tem publicações sobre as mentalidades, e pode-

se destacar sua importante obra sobre histór ia das mentalidades e imaginário medieval, o

livro La naissance du purgatorie (O nascimento do purgatório), na qual faz uma análise

sobre o nascimento da idéia do purgatório no período medieval, discutindo o cristianismo

feudal e as relações entre as mudanças intelect uais e sociais daquela época.

Georges Duby trabalhou juntamente com Robert Mandrou na construção de uma his-

tória cultural da França. O autor trabalhou também com a história das ideologias, da repro-

dução cultural e do imaginário social. Duby de dicou parte de suas obras para discutir a

importância da ideologia para a construção do conhecimento histórico, buscando inspira-

ção em Althusser, que definiu ideologia como uma relação imaginária dos indivíduos com

as condições reais de sua existência. Neste sentido, podemos destacar que as mentalidades

foram um ponto forte de atenções por parte desta geração dos Annales.

A história serial também aparece como uma tendência significativa para esta geração.

As perspectivas de trabalhar com a abordagem quantitativa ou serial, aparecem com evidên-

cia na obra de Pierre Chaunu, mas é importante salientar que desde as obras de Lucien

Febvre já se utilizavam das estatísticas, como também nas pesquisas de Ernest Labrousse,

onde o quantitativo apareciam como um terceiro nível. Ne ste período também podemos

citar as pesquisas sobre a história da prática religiosa, estudos que se baseavam nos dados

estatísticos.

Nesta tendência pode-se situar a obra de Michel Vovelle, que trabalhou com o proble-

ma da descristinização, estudos que se utilizam de dados estatísticos, das atitudes em rela-

ção à morte. Podemos destacar também os estudos sobre a história cultural, nas pesquisas

que trabalharam com o problema da alfabetização, utilizando-se igualmente de dados es-

tatísticos.

Nesta terceira geração, as fontes de pesquisa são bem diversificas, pois trabalham com

as escritas, imagéticas e orais, introduzindo-se assim novas fontes como a fotografia, o cine-

ma, a pintura, a arqueologia, os jornais, os inqué ritos policiais e demais documentos, todos

considerados como importante s para a construção do conhecimento histórico.

93
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

6
A antropologia teve uma relação especial com os historiado-
res desta geração, principalmente os que trabalham com a história
cultural. Esta aproximação já começou com as gerações anterio-
res, mas é na terceira geração que tornou-se quase que como um
casamento da história com a antropologia e este encontro pode-
mos chamar de antropologia histórica ou de etno-história. Estas
tendências são encontradas nas obras de Roger Chartier 6 e outros
historiadores que trabalham com história cultural e representações
sociais, principalmente a aproximação com a antropologia simbólica. Também a aproxima-
ção com a sociologia foi evidente, pois alguns historiadores se interessavam em trabalhar
com as noções de capital simbólico, evidenciando em alguns trabalhos que estudam a histó-
ria do consumo, esta influência da Sociologia é dada principalmente pela obra do sociólogo
Pierre Bourdieu, que introduziu os conceitos de estratégia e de habitus. Outra tendência é
trabalhar com a relação entre a história e psicanálise, neste sentido podemos encontrar as
obras de Michel de Certeau, um especialista em história da religião. A obra deste escritor
também reflete as preocupações sobre a escrita da história.

Um dos historiadores mais destacados desta terceira geração dos Annales é Roger
Chartier, cuja obra é muito vasta e continua influenciando até h oje várias gerações de his-
toriadore s que se interessam por trabalhar com história cultural. Chartier dedica parte de
suas pesquisas para investigar a questão dos livros e da leitura, principalmente na socieda-
de moderna, é considerado como um especialista em história da alfabetização, sendo visto
pelos his toriadores como antropólogo histórico, por se utilizar amplamente da antropologia
para suas reflexões teóricas. Seus trabalhos seguem a direção da antropologia cultural.
Chartier é considerado um dos maiores expoentes da história cultural francesa, seus traba-
lhos discutem a questão das representações e das apropriações, refletindo igualmente as
práticas culturais dos diversos grupos sociais.

Pierre Nora7 também é dos historiadores da terceira gera-


ção. Sua obra mais importante trata dos lugares da memória, e
também o conceito de apropri ação. A coleção intitulada Les lieux
de la mémorie (Os lugares da memória), dirigida por Pierre Nora,
reflete a preocupação em analisar todos os lugares consagrados

6 Disponível em: <http://internetetopinion.files.wor dpress.com/2007/10/chartier.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.


7
Disponível em: <http://www.canalacademie.com/IMG/jpg/COU_AF_Nora_spip.jpg>. Acesso em: 3 set. 2008.

94
EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

para a me mória e parte simbólica dos lugares . Sua importância para a sociedade francesa
está no f ato de que esta obra tem influência das reflexões de Maurice Halbwachs, que foi
um precursor nos debates sobre a memória coletiva, também reflete a influência da antropo-
logia.

Os estudos sobre a política retornam nesta terceira geração, pois no geral a Escola dos
Annales não trabalhava com a história política. Mas a política aparecia de uma forma não
determinante inclusive nas obras de Marc Bloch e de Lucien Febvre, como também na obra
de Braude l, embora convém salientar que esta não era uma dimensão determinante das
relações sociais, portanto, não era uma preocupação central nestas obras da primeira e da
segunda geração dos Annales.

O retorno a política nesta terceira geração marcou de forma evidente as tentativas de


implementação de uma história predominantemente econômica, inclusive com a influência
do próprio Marx. A política aparece de uma forma mais elaborada criando inclusive um
novo vocabulário, a cultura política, um novo conceito mais próximo da história das idéias
e das mentalidades.

Os e studos históricos desta geração apontam para a possibilidade de se trabalhar um


certo retorno da narrativa, ou seja, um certo renascimento da narrativa que marcou decisi-
vamente os trabalhos da terceira geração. Esta aparece contra uma certa tendência de
determinismos históricos, e novas abordagens emergem como a preocupação com a liberda-
de humana, uma tendência de se trabalhar com a micro-história e a perspectiva de se traba-
lhar com as biografias históricas.

Podemos exemplificar as biografias históricas nos trabalhos de Georges Duby e tam-


bém de Jacques Le Goff que fez a biografia histórica de São Luis e de São Francisco de Assis.
A biografia histórica, não é apenas um mero relato da vida de alguém, mas um trabalho que
inclusive analisa a mentalidade da época e m que o personagem viveu.

Uma das características m arcantes da terceira geração dos Annales é a tentativa de


popularização da história, quando os historiadores escrevem livros com uma linguagem aces-
sível para ser lidos pelo grande público. Os historiadores saíram das universidade s e foram
para os lugares onde o povo se encontra, participam dos programas de rádio e de t elevisão,
na perspectiva de divulgar o conhecimento histórico.

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Alguns historiadores dos Annales também escrevem para os principais jornais france-
ses, como os famosos: Le Figaro, Le Monde, L’Express e Le Nouvel Obser vater. Esta partici-
pação nos jornais permitiu uma certa popularização da história, pois o povo que não tinha
acesso aos livros podia ler importantes artigos e entrevistas nos jornais e ouvir nas rádios e
na televisão. Nesta perspectiva de popularização da história, alguns livros foram publicados
pelas grandes editoras francesas, o que barateou ainda mais o seu preço, ou seja, tornando
ainda mai s acessível para que a população em geral tivesse acesso a esta nova história.

A Escola dos Annales iniciou com a publicação de uma revista em 1929 e continua
até hoje como uma escola i mportantíssima para a reflexão do conhecimento histórico. É
uma escola extremamente dinâmica, a cada geração que passa, agora já estamos na sua
quarta geração, tornando-se mais conhecida no m undo todo.

A Escola dos Annales recebe historiadores do mundo todo para a discussão de seus
projetos de pesquisas, pois existem muitos professores credenciados que orientam estes tra-
balhos e ensinam o jeito francês de construi r o conhecime nto histórico. A influência da
Escola dos Annales na historiografia é decisiva para se pensar nas novas perspectivas de
abordagens, objetos e dimensões que configuram o conhecimento histórico. Como afirma
Peter Burke, a Escola dos Annales é a verdadeira Revolução Francesa da historiografia.

SÍNTESE DA UNIDADE 5

Ne sta unidade você conhe ceu a hi stória da Escola d os


Annales. Esta escola francesa foi e é muito im portante para a
historiografia, pois a sua influência é mui to significativa para toda
a produção do conhecimento histórico. Você percebeu que cada uma
das gerações é marcada pela presença de vários histori adores, que
com suas obras fazem a própria história da escola. A partir do
surgimento da Escola dos Annales em 1929, a história mudou radi-
calmente, pois conhecemos uma nova proposta para a produção do
conhecimento histórico, e a partir de ent ão começamos a trabalhar
com novos objetos, novas abordagens, novas dimensões e novos
documentos, ou seja, tudo nesta escola é novo, o que acrescenta

uma nova forma de pensar e construir a história.

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EaD T EORI A E MÉTODOS DA HISTÓRIA I

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