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FREI LUÍS DE SOUSA – DRAMA OU TRAGÉDIA?

Atenta no quadro seguinte onde estão sintetizadas as características da tragédia clássica e do drama
romântico, presentes em Frei Luís de Sousa:

TRAGÉDIA CLÁSSICA DRAMA ROMÂNTICO

• Existência de um número reduzido de personagens. • Texto escrito em prosa.

• Personagens pertencentes a estratos sociais elevados. • Desrespeito pela lei das


três unidades da tragédia
• Condensação do tempo em a ação que decorre. clássica.

• Concentração do espaço da ação. • Exaltação dos valores


patrióticos e da identidade
• Reminiscência da presença do coro¹ da tragédia clássica (Telmo Pais e nacional (sobretudo Manuel
Frei Jorge). de Sousa Coutinho).

• Ação simples, convergindo para um rápido desenlace. • Crença no sebastianismo


(Maria e Telmo).
• Presença de elementos da tragédia clássica:
▪ ananké – o destino responsável pelo desaparecimento de D. João de • Presença de superstições
Portugal e pela mudança da família de Manuel de Sousa Coutinho para o e agouros populares que
seu antigo palácio; retratam a cultura
portuguesa (sobretudo
▪ hybris – o desafio presente através do casamento de D. Madalena de Madalena e Maria).
Vilhena com Manuel de Sousa Coutinho sem a total confirmação da morte
de D. João de Portugal e através do incêndio ateado pelas próprias mãos • Religião cristã como um
de Manuel de Sousa Coutinho ao seu palácio; consolo.

▪ agón – o conflito que se manifesta nos dilemas interiores, vividos por • Morte de Maria em cena.
D. Madalena de Vilhena e Telmo Pais;
• A crítica social aos
▪ anagnórisis – o reconhecimento do Romeiro como sendo D. João de preconceitos sociais que
Portugal; sacrificam inocentes
(Maria).
▪ peripéteia – a peripécia que consiste nas consequências diretas do
reaparecimento de D. João de Portugal: a ilegalidade do casamento de
Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena de Vilhena, a ilegitimidade de
Maria e a morte espiritual do casal;

▪ clímax – a tensão emocional que vai aumentando gradualmente,


atingindo o seu máximo no final do Ato II (reconhecimento do Romeiro);

▪ pathos – o sofrimento das diversas personagens;

▪ katastrophé – a catástrofe concretizada na morte de Maria e na morte


espiritual de Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena de Vilhena.

¹coro – na tragédia clássica havia a presença de um coro responsável por comentários sarcásticos,
agouros e profecias
ESTRUTURA DE FREI LUÍS DE SOUSA
“O teatro não é apenas literatura, mas literatura em ação, a que só
a representação confere a dimensão exata e verdadeira.” – Luís
Francisco Rebello

ESTRUTURA EXTERNA ESTRUTURA INTERNA


Divisão da peça em Divisão da peça em três partes: exposição (introdução), conflito
atos e cenas (desenvolvimento) e desenlace (conclusão)
• Antecedentes da ação:
- primeiro casamento de D. Madalena com D. João de
Portugal;
- desaparecimento de D. João de Portugal na batalha de
Alcácer Quibir;
- tentativas para o encontrar;
- segundo casamento de D. Madalena com Manuel de
Sousa Coutinho;
- nascimento de Maria;
Ato I, cenas I-V
EXPOSIÇÃO • Relações entre as personagens:
- grande fidelidade de Telmo a D. João de Portugal;
- respeito de D. Madalena por Telmo;
- cumplicidade entre Telmo e D. Madalena;
- admiração e ciúme de Telmo em relação a Manuel de
Sousa Coutinho;
- cumplicidade e carinho entre Telmo e Maria;
- amor entre mãe e filha;
- proteção e apoio de Frei Jorge à família;

- comunicação de que os governantes escolheram o


palácio de Manuel de Sousa Coutinho para se afastarem
da peste que grassava em Lisboa;
Ato I, cenas VI-XII - ordens de D. Manuel para se mudarem para o palácio
de D. João de Portugal;
- oposição de D. Madalena;
- chegada antecipada dos governadores;
- incêndio do palácio de D. Manuel, pelas suas próprias
mãos;
- mudança para o palácio de D. João de Portugal;

- partida de D. Manuel e de Maria para Lisboa;


CONFLITO - chegada do Romeiro;
Ato II, cenas I-XV - recado transmitido a D. Madalena pelo Romeiro: o seu
primeiro marido está vivo;

- identificação do Romeiro como D. João de Portugal


perante Frei Jorge;
- reação violenta de D. Manuel de Sousa;
Ato III, cenas I-IX
- viragem psicológica de Telmo;
- reconhecimento de D. João por Telmo;
- imposição da verdade por Frei Jorge;
- início da cerimónia da tomada de hábito por D. Manuel e
D. Madalena;
DESENLACE - revolta e indignação de Maria;
Ato III, cenas X-XII - morte de Maria;
- «morte» de D. Manuel e D. Madalena para o mundo
terreno.
AS PERSONAGENS
Quadro-síntese
• nobre: família e sangue dos Vilhenas (I, 8); o epíteto de “dona” só se dava no século
XVII às senhoras da aristocracia;
• sentimental: deixava-se arrastar pelos sentimentos muito mais do que pela razão;
• pecadora: o nome “Madalena” evoca a figura bíblica da pecadora com o mesmo nome;
• torturada pelo remorso do passado: não chega a viver o presente por
impossibilidade de abandonar o passado;
D. Madalena • redimida pela purificação no convento: saída romântica para a solução dos
de Vilhena conflitos;
• modelo de mulher romântica: para os românticos, a mulher ou é anjo ou é diabo;
• personagem modelada: profundidade psicológica evidente; capacidade para gerir
conflitos (I, 7);
• marcada pelo destino: amor fatal; ligada à lenda dos amores fatais de Inês de Castro
(I, 1).

• nobre: cavaleiro de Malta (só os nobres é que ingressavam nessa ordem religiosa), (I,
2 e 4);
• evoca o nome bíblico de Emanuel (Deus connosco): paz de consciência,
desprendimento dos bens materiais e da própria vida (I, 11);
• racional: deixa-se conduzir pela razão, contrastando com a sua mulher;
Manuel de
• bom marido e pai terno (II, 7; I, 4);
Sousa • corajoso, audaz e decidido (I, 7, 8, 9, 11, 12 e 19; III, 8);
Coutinho • marcado pelo destino (I, 11; II, 3 e 8);
• encarna o mito romântico do escritor: refúgio no convento, que lhe proporciona o
isolamento necessário à escrita.

• nobre: família dos Vimiosos (I, 2);


• cavaleiro: combate com o seu rei em Alcácer Quibir (II, 2);
• evoca o nome bíblico de João (grande apóstolo);
• ama a Pátria e o seu Rei;
D. João de
• representante da época de oiro portuguesa;
Portugal
• imagem da Pátria cativa;
• ligado à lenda de D. Sebastião (I, 2).

• nobre: sangue dos Vilhenas e dos Sousas; o epíteto de “dona bela” (I, 2);
• precocemente desenvolvida, física e psicologicamente: (I, 2, 3 e 6);
• doente: tuberculose, a doença dos românticos;
• culto de Camões: evoca constantemente o passado (II, 1);
D. Maria de • culto de D. Sebastião: martiriza a mãe involuntariamente (II, 1);
Noronha • poderosa intuição e dotada do dom da profecia: (I, 4; II, 3; III, 12);
• marcada pelo Destino: a fatalidade atinge-a e destrói-a (III, 12);
• encarnação da “Menina e Moça”, de Bernardim Ribeiro: (II, 2);
• modelo da mulher romântica: a mulher-anjo bom.

• não nobre: escudeiro;


• ligado sempre à nobreza;
• confidente de D. Madalena;
Telmo Pais • elo de ligação das famílias;
• chama viva do passado: alimenta os terrores de D. Madalena;
• desempenha três funções do coro das tragédias clássicas: diálogo, comentário
(apartes) e profecia (agouros);
• ligado à lenda romântica sobre Camões.