Você está na página 1de 17

A BANCADA EVANGÉLICA E A ELEIÇÃO DE JAIR BOLSONARO (2018)

Guilherme Esteves Galvão Lopes


Fundação Getúlio Vargas
guilhermegalvaolopes@gmail.com

RESUMO: O presente trabalho pretende analisar, de forma introdutória, algumas das


motivações que levaram ao apoio da bancada evangélica no Congresso Nacional à
candidatura presidencial de Jair Bolsonaro (PSL), vitoriosa nas eleições de 2018 sobre a
de Fernando Haddad (PT). Além dos aspectos diretamente relacionados à conjuntura
política nacional, como o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o
enfraquecimento do PSDB e da candidatura de Marina Silva (REDE), que conjugadas à
ascensão das novas direitas possibilitaram o rompimento da polarização PSDB x PT
vigente desde as eleições de 1994, investigaremos também a influência de correntes
teológicas e doutrinárias sobre os grupos evangélicos ligados à candidatura de Jair
Bolsonaro. Neste contexto específico, pesquisaremos a reprodução de aspectos da
Teologia da Prosperidade, da Teologia do Domínio e da linha escatológica
dispensacionalista por diferentes segmentos evangélicos durante a campanha eleitoral
de 2018.

Introdução
“Deus escolheu as coisas loucas para confundir as sábias. Deus escolheu as
coisas fracas para confundir as fortes. Agora a coisa vai ser mais profunda: Deus
escolheu as coisas vis, de pouco valor; as desprezíveis, que podem ser descartadas; as
que não são, que ninguém dá importância, para confundir as que são, para que nenhuma
carne se glorie diante d’Ele. É por isso que Deus te escolheu”. “Eu tenho uma missão de
Deus, vejo dessa maneira. Foi um milagre estar vivo e outro milagre ter ganho as
eleições. Deus também tem me ajudado muito na escolha dos meus ministros”.
O primeiro texto se refere à visita do presidente eleito Jair Bolsonaro à
Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, que proferiu tais
palavras em alusão à suposta escolha divina do candidato do PSL, em novembro de
20181. O segundo texto é o trecho de uma entrevista do próprio Bolsonaro ao jornal
argentino La Nación, em junho de 20192.
Ambas as declarações estão carregadas de profundo teor religioso,
demonstrando a crença de que Jair Bolsonaro foi imbuído de uma missão divina ao ser
eleito para a Presidência da República. Ex-vereador e deputado federal pelo Rio de
Janeiro desde 1990, Jair Bolsonaro ganhou notoriedade muito mais pelas polêmicas em
que se envolveu do que pela sua produtividade parlamentar.
Durante anos, foi considerado deputado do chamado “baixo clero”, tendo sido
filiado a 9 diferentes partidos e aprovado apenas 2 de seus 170 projetos de lei.
Diferentes membros da classe política foram alvos de seus ataques, desde o ex-
governador Leonel Brizola (PDT), passando pelo ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso (PSDB), e chegando aos deputados Maria do Rosário (PT-RS) e Jean Wyllys
(PSOL-RJ). Em relação a Cardoso, por exemplo, Bolsonaro defendeu seu fuzilamento
em virtude da privatização de estatais por seu governo.
Até a eleição de seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a Câmara dos
Deputados, em 2014, Jair foi o único parlamentar pós-redemocratização a defender
publicamente as práticas de tortura e assassinato da ditadura militar (1964-1985),
evocando diversas vezes a figura de Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-
CODI, órgão de repressão do Exército. Além disso, atacou a esquerda por supostos
planos de destruição da chamada família tradicional, como o PL 122/2006 e o “kit gay”,
brigando constantemente com jornalistas e militantes da causa LGBT.
Como, então, explicar a adesão dos evangélicos à candidatura de um político
como Bolsonaro? Com o objetivo de responder a este questionamento, neste artigo
buscamos compreender a dinâmica da bancada evangélica e do voto cristão, o contexto
político brasileiro, as motivações objetivas e subjetivas – como o antipetismo e
fundamentos teológicos – que influenciaram seu voto e a atuação das lideranças do
segmento na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018.

1
YOUTUBE. Pastor Silas Malafaia – Bolsonaro ao vivo na igreja que sou pastor. Disponível em
<https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=y2nZ1HDT450>. Acesso: 07 out. 2019.
2
O GLOBO. ‘Tenho uma missão de Deus. Vejo dessa maneira’, diz Bolsonaro. Disponível em
<https://oglobo.globo.com/brasil/tenho-uma-missao-de-deus-vejo-dessa-maneira-diz-bolsonaro-
23711516>. Acesso: 07 ago. 2019.
A bancada evangélica e o voto cristão
Embora os evangélicos estejam presentes na vida política brasileira desde a
década de 1930, quando o pastor metodista Guaracy Silveira foi eleito para a
Assembleia Nacional Constituinte de 1934, foi a partir de outra Constituinte, a de 1988,
que os evangélicos organizaram-se em bloco na defesa de suas pautas, a partir da sua
expressão numérica e força institucional.
Surgido na imprensa em 1986, na eleição que escolheu os membros da
Assembleia Nacional Constituinte, “o conceito de bancada evangélica é utilizado para
designar, de forma genérica, o conjunto dos representantes evangélicos no Congresso
Nacional, em especial na Câmara dos Deputados” (LOPES, 2017, p. 61).
Desde então, quando elegeu 32 deputados federais, a bancada evangélica viu seu
protagonismo crescer e se consolidar, chegando à marca de 91 eleitos, entre deputados
federais e senadores, nas eleições de 2018, favorecida pelo sistema eleitoral brasileiro,
sobretudo o voto proporcional (NICOLAU, 2004, p. 37-61). O crescimento da
representação evangélica nas instâncias políticas, sobretudo no Legislativo, ocorreu no
mesmo sentido de seu crescimento populacional:

[...] Em 2010, já havia ultrapassado a casa dos 42,3 milhões de


habitantes, conforme o Censo Brasileiro, do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Pesquisa do Instituto Datafolha, publicada no Natal de
2016, aponta que “três em cada dez (29%) brasileiros com 16 anos ou mais
atualmente são evangélicos, dividindo-se entre aqueles que podem ser
classificados como evangélicos pentecostais (22%), [...] e 7%, como
evangélicos não pentecostais” (LAGO, 2018, p. 33).

Para Aline Coutrot, os estudos das relações entre religião e política nos leva a
tratar de duas questões fundamentais: “em primeiro lugar, como a filiação a uma Igreja
modela as atitudes políticas dos cristãos? Em segundo, por quais vias as forças
religiosas intervêm no domínio do político a ponto de constituir uma dimensão deste?”
(COUTROT, 2003, p. 335-336).
Para a autora, não é novidade a ideia de que a afiliação religiosa tem sua relação
com o comportamento eleitoral, refletindo-se em sua atuação política. Em nosso
contexto, nas últimas décadas a atuação evangélica deslocou-se da defesa da liberdade
religiosa, enquanto minoria, para a imposição de suas pautas para a sociedade como um
todo:

A América Latina tem uma longa tradição de presença evangélica,


mas nas últimas décadas houve um salto significativo, especialmente em sua
versão pentecostal. Esse crescimento fortaleceu a sua capacidade de
influência na agenda pública através de partidos evangélicos ou, mais
frequentemente, por meio de associações “pró-vida” e “pró-família”.
Enquanto no início do século XX, a agenda evangélica lutava pela separação
entre Igreja e Estado, hoje suas posturas contra o avanço da “agenda gay” e
da “ideologia de gênero” aproximam esses grupos aos conservadores
católicos na luta contra as mudanças liberalizantes na família e na sociedade
(VILLAZÓN, 2015, p. 163).

Entendemos que, a partir das eleições de 1986, quando ocorreu a “irrupção


pentecostal” na política (FRESTON, 1993, p. 180-221), foram desenvolvidos diferentes
projetos de poder por parte das lideranças evangélicas brasileiras, que confluíram, nas
eleições de 2018, no apoio à candidatura de Jair Bolsonaro, cujas motivações, objetivas
e subjetivas, analisaremos a seguir.

O que levou os evangélicos a apoiar Bolsonaro?


Dentre as motivações que levaram ao apoio evangélico à candidatura de Jair
Bolsonaro, distinguimos as de cunho objetivo e as de cunho subjetivo. Dentre as razões
objetivas, elencamos o antipetismo, o declínio do PSDB, a inviabilidade política de
Marina Silva e a ascensão das novas direitas.
O primeiro deles, o antipetismo, foi a tônica das eleições gerais em 2018.
Alijado do poder em 2016, em virtude do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o
PT viu-se prejudicado pelos resultados da Operação Lava-Jato, que levou à prisão o ex-
presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril de 2018, natural candidato do partido à
Presidência da República.
Antes da prisão do ex-presidente Lula, importantes lideranças do PT envolvidas
na Lava-Jato haviam sido presas, como o ex-deputado federal e ex-ministro Antonio
Palocci (SP), que fez acordo de delação premiada onde responsabilizou o ex-presidente
por esquemas de corrupção na sigla. Os escândalos refletiram-se no mau desempenho
do PT nas eleições municipais de 2016, quando conquistou apenas 255 prefeituras ante
638 em 2012, um decréscimo de 60%.
Com a impossibilidade da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, seu
candidato a vice-presidente, Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo derrotado em
sua reeleição no ano de 2016 com apenas 16,70% ainda no 1º turno, foi alçado a cabeça-
de-chapa, com a pré-candidata do PC do B, a ex-deputada federal Manuela d’Ávila
(RS), participando da composição na função de vice, juntamente com o PROS.
Em paralelo, o PSDB, que ocupou a Presidência da República entre 1995 e
2002, também experimentou forte declínio eleitoral, apesar de ter se colocado como
principal beneficiário do antipetismo. Derrotado em 3 eleições presidenciais seguidas, o
partido aproximou-se da vitória em 2014 com a candidatura do ex-governador e então
senador Aécio Neves (MG), conforme apontavam diversas pesquisas de opinião.
No 2º turno, entretanto, a presidente Dilma Rousseff foi reeleita ao derrotá-lo
pela margem de apenas 3,28%. Diante do resultado, o PSDB solicitou ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) auditoria na votação, devido à “descrença quanto à
confiabilidade da apuração dos votos e à infalibilidade da urna eletrônica” 3.
Na convenção nacional do PSDB, em julho de 2015, na qual foi reconduzido à
presidência do partido, Aécio Neves declarou que perdeu as eleições para uma
“organização criminosa”, em referência ao PT, afirmando também que a presidente
Dilma Rousseff não concluiria seu mandato. Para Fernando Henrique Cardoso, presente
na Convenção, o partido estava “pronto para assumir” 4, em alusão à ação de cassação da
chapa PT-PMDB movida pelo PSDB no TSE5.
Apesar de acusar constantemente o envolvimento de membros do PT com
práticas corruptas, Aécio Neves foi citado em delações da Operação Lava-Jato,
incluindo a do ex-senador Delcídio do Amaral (PT-MS), que o acusou de receber

3
ESTADÃO. PSDB de Aécio Neves pede auditoria na votação. Disponível em
<https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,psdb-de-aecio-neves-pede-auditoria-na-votacao,1585755>.
Acesso: 06 out. 2019.
4
O GLOBO. Em convenção, Aécio diz que Dilma não concluirá mandato e faz apelo por unidade no
PSDB. Acesso em <https://oglobo.globo.com/brasil/em-convencao-aecio-diz-que-dilma-nao-concluira-
mandato-faz-apelo-por-unidade-no-psdb-16667961>. Acesso: 07 ago. 2019.
5
G1. PSDB pede a TSE cassação de Dilma e posse de Aécio como presidente. Acesso em
<http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/12/psdb-pede-tse-cassacao-de-dilma-e-posse-de-aecio-como-
presidente.html>. Acesso: 07 ago. 2019.
vantagens indevidas em Furnas. Em 2017, as delações dos empresários Wesley e
Joesley Batista o acusaram de pedir propinas no valor de R$ 2 milhões, que seriam
utilizados em sua defesa na Lava-Jato.
Nas eleições de 2018, o ex-governador Geraldo Alckmin – derrotado nas
eleições presidenciais de 2006 – foi novamente escolhido pelo PSDB para concorrer ao
cargo. Citado em investigações da Lava-Jato, seus inquéritos foram remetidos à Justiça
Eleitoral por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em abril de 2018, apenas 6
meses antes das eleições, quando foi derrotado ao obter 4,76% dos votos, pior resultado
da história do partido em eleições presidenciais.
Outro fator relevante foi a inviabilidade e desconfiança a respeito do projeto
político da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva (AC), fundadora da Rede
Sustentabilidade. Ex-petista, deixou o partido em 2009 após o presidente Lula impor
Dilma Rousseff, então Ministra-Chefe da Casa Civil, como sua sucessora. Filiou-se ao
PV, tornando-se candidata nas eleições de 2010, quando conquistou mais de 19 milhões
de votos.
Após divergências com o presidente da sigla, o deputado federal José Luiz
Penna (SP), Marina Silva iniciou a organização de seu partido político, a Rede
Sustentabilidade. Como não conseguiu obter o registro definitivo em tempo hábil para
as eleições de 2014, seu grupo político foi abrigado no PSB a convite do governador de
Pernambuco Eduardo Campos, pré-candidato a presidente. Posteriormente, sua
candidatura presidencial foi ratificada, tendo Marina, potencial candidata, como sua
vice.
Entretanto, Campos foi vitimado por um acidente aéreo na cidade de Santos (SP)
em 13 de agosto de 2014, e Marina Silva foi escolhida como candidata 6 dias depois.
Evangélica desde 2000, mostrava-se hesitante diante de pautas como o casamento
homoafetivo e a defesa do aborto, gerando desconfianças no eleitorado evangélico.
Neste contexto, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, teceu
duras críticas ao programa de governo da candidata do PSB, que respondeu suprimindo
as propostas relacionadas às pautas LGBT.
Marina terminou a disputa em 3° lugar, com 22 milhões de votos. No 2° turno,
apoiou a candidatura de Aécio Neves. No ano seguinte, seu partido político foi
legalizado, cacifando-a para a disputa em 2018. Entretanto, a Rede Sustentabilidade
mostrou sérios problemas de organização e articulação, obtendo um pífio desempenho
nas eleições de 2016, quando elegeu apenas 6 prefeitos, de um total de 5.570 municípios
do país.
A indefinição quanto ao espectro político da Rede, a saída traumática de
intelectuais como o sociólogo Luiz Eduardo Soares ainda em 2016, as contraditórias
posições de Marina Silva e a incapacidade de construção de alianças inviabilizaram seu
projeto político, afastando eleitores de direita e de esquerda: tendo o ex-presidenciável
Eduardo Jorge (PV) como seu vice, a ex-senadora alcançou apenas 1 milhão de votos
(1%), figurando na 8ª posição, atrás de desconhecidos como João Amoêdo (NOVO) e
Cabo Daciolo (Patriota). O partido elegeu apenas 1 deputada federal e 5 senadores.
No outro campo, dentre as motivações de caráter subjetivo elencamos o
messianismo evangélico e a Teologia do Domínio. A respeito do messianismo político
evangélico, Paul Freston descreve sua dinâmica:

Em torno dos candidatos evangélicos há lideres e membros da igreja


com uma expectativa “messiânica” de que aquele candidato evangélico
canalizará automaticamente as bênçãos de Deus sobre o Brasil, resolvendo
todos problemas que nos afligem. Esse messianismo é muito perigoso, para o
país e para a Igreja. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a última
parte do homem a se converter não é o bolso, é o fascínio pelo poder
(FRESTON, 2006, p. 10-11).

Neste sentido, compreendemos o messianismo político evangélico como a


espera de uma liderança política que, sob inspiração divina, irá resolver os problemas da
nação, combatendo o crime, perseguindo corruptos, impondo a ordem e o respeito à
hierarquia, livrando o povo de seus inimigos.
A inspiração divina não quer dizer, necessariamente, que a liderança escolhida
seja cristã ou evangélica, e alguns exemplos bíblicos justificam a ideia: Ciro II,
chamado o Grande, Rei da Pérsia, pôs fim ao cativeiro babilônico dos hebreus, mesmo
sendo um soberano adepto de crenças politeístas. Neste caso, Ciro foi uma ferramenta
divina usada para a libertação de seu povo.
Traçando um paralelo com nosso contexto político recente, os governos do PT
eram encarados como o cativeiro da sociedade brasileira, conforme exemplifica o
historiador Leandro Seawright na atuação de lideranças evangélicas no combate às
candidaturas de esquerda:

No ambiente das Eleições 2010, os evangélicos pentecostais


desenvolveram um discurso messiânico representado pelas narrativas do
pastor Malafaia em seu programa Vitória em Cristo. Paralelamente, contudo,
os evangélicos históricos foram representados pela prédica iluminada
(numinosa) do pastor Piragine Junior. Entrecruzados nas narrativas, os
conservadores evangélicos, com exceções oraram pela derrocada do Império
da Iniquidade estabelecido pelos políticos petistas no Brasil do ex-presidente
Lula. Naquele ano eleitoral, entre sagrado e profano, os evangélicos
fundamentalistas decidiram tentar mais uma vez suplantar as esquerdas
diabólicas por meio da piedade pessoal, da oração e do voto religioso como
instrumento fantástico da vontade divina, sempre de direita.
Entre Deus, Diabo e Dilma estava posto um messianismo evangélico
que, parte da “cultura política”, em geografias da espiritualidade política,
pôde ser motivado por lideranças iluminadas com discursos redentores da
pátria para um processo de estabelecimento do Reino de Deus ao invés do
Império da Iniquidade. Se José Serra tivesse derrotado Dilma nas urnas,
portanto, seria uma resposta positiva às narrativas messiânicas, mas
aparentemente os movimentos messiânicos evangélicos estão ganhando
forças para pleitos eleitorais vindouros. O Diabo já estava no período de
janeiro de 2003 a janeiro de 2011 – diziam os messiânicos de direita
(ALONSO, 2012, p. 139-140).

A constatação de Alonso confirmou-se no pleito de 2018 quando, após vencer o


PT no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a direita finalmente derrotou o projeto
petista com a legitimidade do voto popular. E o escolhido para tal missão foi Jair
Bolsonaro, que mesmo “louco”, “fraco” e “desprezível”, nas palavras de Silas Malafaia,
foi o instrumento divino para pôr fim ao “comunismo” do PT.
Sobre a Teologia do Domínio, é necessário compreendermos, em primeiro lugar,
o que é a escatologia cristã:

Tradicionalmente definida como a doutrina das “últimas coisas” (gr.


eschata), com relação aos indivíduos humanos (no tocante a morte,
ressurreição, julgamento e vida do porvir) ou ao mundo. Neste último
aspecto, a escatologia, às vezes, é restrita ao fim total do mundo, excluindo
muita coisa comumente abrangida pelo escopo do termo (ELWELL, 1990, p.
34-35).

Portanto, no cristianismo como um todo, a escatologia possui vínculo direto com


as profecias e acontecimentos narrados no livro bíblico do Apocalipse, escrito pelo
profeta João no século I. Entretanto, existem diferentes chaves interpretativas sobre o
tema, destacando-se o pré-milenismo, pós-milenismo e o amilenismo, que serão
rapidamente expostas a seguir, sob a ótica protestante.
Em linhas gerais, devido à complexidade do tema, o pré-milenismo divide-se em
duas interpretações: a primeira é a pós-tribulação, na qual a tribulação (sofrimento da
humanidade em função do Anticristo) ocorrerá antes do retorno de Cristo à terra, a
partir do qual haverá um reino de mil anos antes do Juízo Final.
A segunda é o pré-milenismo dispensacionalista, na qual haverá, primeiramente,
o arrebatamento dos salvos para os céus, seguido da grande tribulação. Logo após,
Cristo retornará com a igreja, e instituirá o milênio antes do Juízo Final. Devido à vasta
literatura recente sobre o tema, que deu origem inclusive ao filme Deixados para trás,
esta linha escatológica popularizou-se entre os evangélicos, sobretudo pentecostais.
Para o pós-milenismo, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final serão o mesmo
evento, precedidos pelo milênio. Por fim, há a visão amilenista: o milênio é um evento
simbólico, compartilhando a ideia pós-milenista de que o retorno de Cristo e o Juízo
Final acontecerão ao mesmo tempo. O amilenismo tem espaço, principalmente, nas
denominações de inspiração calvinista.
A linha pré-milenista dispensacionalista, em especial, caracteriza-se por
acontecimentos históricos (dispensações) que precisam ocorrer no contexto anterior à
segunda vinda de Cristo. Eventos como a reconstrução do Templo de Salomão, o
reconhecimento de Jerusalém como capital – defendido pela política externa do governo
Bolsonaro – e o fim dos conflitos envolvendo Israel e Palestina estão inseridos,
indiretamente, nas dispensações.
É o dispensacionalismo que influencia diretamente a Teologia do Domínio, cujo
principal divulgador é o teólogo norte-americano Peter Wagner, autor de livros como
Dominion!: How Kingdom Action Can Change the World e On Earth as it is in Heaven:
Answer God’s Call To Transform the World. Entretanto, no Brasil não há consenso
sobre sua conceituação:

Forjada nos Estados Unidos no final dos anos 80, a Dominion


Theology, como é conhecida lá, proliferou rapidamente entre segmentos
evangélicos brasileiros, em especial no neopentecostal. A Teologia do
Domínio envolve tudo o que se refere à luta dos cristãos contra o Diabo.
Nessa nova formulação teológica, porém, a guerra é feita contra demônios
específicos, os espíritos territoriais e hereditários, no Brasil identificados aos
santos católicos, em razão de muitos deles darem nomes a cidades, e às
entidades das religiões mediúnicas.
Prato cheio para os políticos evangélicos, a crença nos espíritos
territoriais tem-se prestado ao uso eleitoreiro. Justificam seus defensores,
candidatos e cabos eleitorais que a eleição de evangélicos para altos postos
políticos da nação trará bênçãos sem fim à sociedade. Além de desalojar
parlamentares infiéis, idolatras, macumbeiros e adeptos de práticas pagãs,
parcialmente culpados pelas terríveis maldições que recaem sobre o país, os
políticos evangélicos, eleitos, teriam a privilegiada oportunidade de poder
interceder, nos planos material e espiritual, diretamente no próprio local onde
se alojam poderosos demônios territoriais que tanto oprimem os brasileiros
(MARIANO, 2012, p. 137/144).

Nina Rosas avança no entendimento da Teologia do Domínio (chamada por ela


também de Teologia do Reino), criando uma distinção entre sua interpretação de caráter
teológico e sua aplicação no campo político, o “dominionismo”:

A Teologia do Domínio foi amplamente difundida a partir do final dos


anos 1980, sobretudo por Peter Wagner – famoso teólogo, escritor e
professor do Fuller Theological Seminary (localizado em Pasadena,
Califórnia), um dos principais centros de formação de liderança pentecostal e
propagação dessa teologia. A ideia defendida é que o domínio e a autoridade
sobre a terra foram dados por Deus aos homens desde Adão, mas foram
perdidos pelo pecado original. Recuperados por Jesus através do sacrifício
vicário, devem ser retomados pelos crentes. Isso se daria por meio de luta
espiritual contra o diabo, que estaria bloqueando a atmosfera da terra e
impedindo o fluxo do céu e a emanação de bênçãos advindas do alto. Como
corolário, pensa-se que os fiéis não estariam em seus locais de trabalho
apenas para sobreviver. Teriam a oportunidade de exercer liderança, dominar
e ditar regras de acordo com os valores do reino de Deus (Wagner, 2012).
Essa concepção foi e ainda é alvo de inúmeras controvérsias, entre as
quais se destaca a associação da perspectiva com o “dominionismo”, segundo
Wagner uma postura de conquista da sociedade defendida por cristãos de
extrema direita, com desdobramento político que teria como consequência
última a defesa de uma teocracia (ibid.) (ROSAS, 2015, p. 246).

Em outras palavras, de acordo com a Teologia do Domínio, o cristão deve ter o


poder restabelecido sobre todas as coisas, partindo de um pressuposto espiritual,
batalhando e vencendo espíritos e forças do mal, e chegando ao domínio no plano
terreno como sua consequência, retomando governos e o Estado como consequência.
Portanto, entendemos o messianismo político evangélico e a Teologia do
Domínio como conceitos diferentes. O primeiro, apesar de se aproximar de uma ideia
escatológica do surgimento de um “salvador”, é comum às mais variadas tendências do
protestantismo brasileiro: é necessário que existam autoridades comprometidas com os
mais elevados valores éticos e morais, preferencialmente, mas não essencialmente
evangélicas, no sentido de eliminar os problemas imediatos da sociedade brasileira. Esta
foi a justificativa pela qual muitos evangélicos apoiaram e votaram em Jair Bolsonaro.
Por outro lado, a Teologia do Domínio está intrinsecamente ligada à Teologia da
Prosperidade, rejeitada por evangélicos históricos (ou tradicionais) e por parte
considerável dos pentecostais brasileiros. Para Freston, resumidamente, “a teologia da
prosperidade (TP) é uma forma de modernismo teológico, uma adaptação às
sensibilidades da sociedade de consumo e às exigências do mercado religioso”
(FRESTON, 2006, p. 42).
Mariano aprofunda-se na questão, ao explicar suas origens, seu surgimento no
Brasil e suas características:

Chamamos de Teologia da Prosperidade o que nos EUA, local de


sua origem, além desse nome, é rotulado por seus críticos como Health and
Wealth Gospel, Faith Movement, Faith Prosperity Doctrines, Positive
Confession entre outros. Reunindo crenças sobre cura, prosperidade e poder
da fé, essa doutrina surgiu na década de 40. Mas só se constituiu como
movimento doutrinário no decorrer dos anos 70, quando encontrou guarida
nos grupos evangélicos carismáticos dos EUA, pelos quais adquiriu
visibilidade e se difundiu para outras correntes cristãs.
A Teologia da Prosperidade inicia sua trajetória no Brasil nos anos
70. Desde então penetrou em muitas igrejas e ministérios paraeclesiásticos,
em especial: Internacional da Graça, Universal, Renascer em Cristo,
Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, Nova Vida, Bíblica da Paz, Cristo
Salva, Cristo Vive, Verbo da Vida, Nacional do Senhor Jesus Cristo,
Adhonep, CCHN, Missão Shekinah.
Para os defensores da Teologia da Prosperidade, a expiação do
Cordeiro libertou os homens da escravidão ao Diabo e das maldições da
miséria, da enfermidade, nesta vida, e na segunda morte, no além. Os
homens, desde então, estão destinados à prosperidade, à saúde, à vitória, à
felicidade. Para alcançar tais bênçãos, garantir a salvação e afastar os
demônios de sua vida, basta o cristão ter fé incondicional e inabalável em
Deus, exigir seus direitos em alta voz e em nome de Jesus e ser obediente e
fiel a Ele no pagamento dos dízimos (MARIANO, 2012, p. 151/157/160).

Nesta perspectiva, o Estado está incluído nas bênçãos materiais reservadas por
Deus aos seus filhos fieis. É necessário, portanto, tomar posse de suas estruturas,
expulsando os inimigos e institucionalizando suas práticas e costumes, impondo-as à
toda a sociedade. É a Teologia do Domínio, que juntamente com a Teologia da
Prosperidade, dá origem e justifica projetos como o Estatuto do Nascituro, a “cura gay”,
a censura a conteúdos com temáticas LGBT – como o caso recente da apreensão de
livros na Bienal do Rio por iniciativa do prefeito Marcelo Crivella – e o combate às
proposições que se dispõem ao avanço dos direitos LGBT e dos movimentos feministas.
Neste sentido, o apoio a Jair Bolsonaro foi encarado, por fração majoritária das
lideranças evangélicas, como a chave para o acesso e o domínio do Estado brasileiro,
com a consequente aplicação de sua agenda religiosa, a partir da ocupação de posições
estratégicas em seu aparato, pondo em risco a laicidade e a liberdade religiosa.

Atuação da bancada evangélica nas eleições de 2018


No contexto da eleição presidencial de 2018, nos atentaremos à atuação das
principais lideranças evangélicas: de um lado, João Campos (PRB/GO), Magno Malta
(PR/ES) e Marco Feliciano (PODE/SP), parlamentares federais. Do outro, o pastor Silas
Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), e o bispo Edir
Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
O primeiro deles, João Campos, foi delegado de polícia civil em seu estado,
sendo eleito deputado federal em 2002 pelo PSDB. Notabilizou-se por projetos
polêmicos, como o PDC 234/2011, que estabelecia normas para atuação dos psicólogos
sobre a reorientação sexual, conhecido como “cura gay”. Foi presidente da Frente
Parlamentar Evangélica em duas oportunidades, sendo a última em 2015, e chegou a ser
cogitado como candidato preferencial do presidente eleito Jair Bolsonaro à presidência
da Câmara dos Deputados.
Senador pelo estado do Espírito Santo, Magno Malta é também pastor e cantor
evangélico, integrando o grupo de pagode Tempero do Mundo. Sua carreira política foi
iniciada nos anos 1990, quando foi vereador, deputado estadual e deputado federal.
Chegou ao Senado em 2002, ganhando visibilidade nacional ao presidir a CPI da
Pedofilia. Combateu o PL 122/2006, que visava criminalizar a homofobia, acusando-o
de supostamente permitir a atuação de necrófilos e pedófilos de forma impune.
Por sua vez, o pastor Marco Feliciano, da Catedral do Avivamento, foi eleito
deputado federal pela primeira vez em 2010, pelo PSC. Em 2013, foi eleito presidente
da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, causando
insatisfação em entidades do setor e em parlamentares de esquerda, em virtude de
declarações consideradas racistas sobre os povos africanos e suas manifestações
religiosas.
Assim como seus colegas João Campos e Magno Malta, combateu o PL
122/2006, apresentando também projeto para o ensino do criacionismo bíblico nas
escolas do ensino básico. Defendeu o ideólogo Olavo de Carvalho de críticas nas redes
sociais, criticou os avanços dos direitos femininos e pediu a prisão de manifestantes
LGBT durante um “beijaço” num culto religioso.
Os três destacaram-se na articulação pelo vitorioso impeachment de Dilma
Rousseff, durante o mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à frente da Câmara dos
Deputados, outra importante liderança evangélica no Congresso Nacional, fiando apoio
ao subsequente governo de Michel Temer (PMDB-SP) na Presidência da República.
As outras lideranças evangélicas se diferenciam dos primeiros por não
possuírem mandato eletivo, apesar de sua notória atuação política: Silas Malafaia e Edir
Macedo. O primeiro lidera uma denominação evangélica com 35 mil membros, presente
em 10 estados brasileiros e em Portugal. Seu programa de televisão, que leva o nome de
sua igreja, possui audiência cativa do público evangélico há varias décadas.
Pastor multimídia, Malafaia possui 1 milhão e 400 mil seguidores em seu perfil
do Twitter, além de 2 milhões e 350 mil no Facebook e mais 2 milhões e 100 no
Instagram. É dono da editora Central Gospel, que publica seus títulos e de outros
autores evangélicos. Coordena uma bancada de políticos vinculados à sua igreja,
destacando-se seu irmão Samuel Malafaia (DEM-RJ), deputado estadual, e Sóstenes
Cavalcanti (DEM-RJ), deputado federal.
Edir Macedo é líder da IURD, que segundo o Censo de 2010 do IBGE possuía 1
milhão e 800 mil membros. Sua igreja, presente em mais de 100 países, controla um
poderoso conglomerado de comunicação: a Record TV, o canal Record News, o portal
R7, a gravadora Line Records, a editora Universal Produções, o controle de 49% do
Banco Renner, além de dezenas de emissoras de rádio e televisão pelo país.
Fundada em 1977, a IURD deu seus primeiros passos na política em 1982, sem
êxito. Em 1986, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, conseguiu eleger
seu primeiro representante, o ex-bispo Roberto Augusto Lopes. Ao ampliar sua
presença nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, a IURD liderou a
criação do PRB (atual Republicanos), registrado em 2005, que chegou a abrigar José
Alencar, vice-presidente da República durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
Atualmente a sigla possui 31 deputados federais e 1 senador, além de comandar
a prefeitura do Rio de Janeiro através do mandato de Marcelo Crivella, ex-senador e
sobrinho de Edir Macedo. Apesar da neutralidade do PRB no 2° turno das eleições
presidenciais de 2018, as lideranças da Igreja Universal apoiaram maciçamente a
candidatura de Jair Bolsonaro.
Em comum, João Campos, Magno Malta, Marco Feliciano, Silas Malafaia e Edir
Macedo têm, além do perfil conservador, outras semelhanças em sua atuação política,
sendo adeptos do modelo institucional, conforme exemplifica Paul Freston:

A Igreja, como instituição, entra na política defendendo as suas


propostas, as quais podem ser boas ou não. Muitas vezes, trata-se de mera
defesa de seus interesses institucionais. Esse modelo apresenta graves
problemas. A Igreja, como instituição, não deve se envolver na política dessa
forma, pois, quando o faz, ela e os seus lideres se tornam vulneráveis a todas
as contingências do mundo político. Assim, sua fala sobre a Bíblia, a fé e a
salvação se contagiam dessa mesma contingência. Se eu não posso acreditar
naquilo que determinado pastor ou determinada igreja falam quando se trata
de política, por que vou acreditar quando falam de outros assuntos? Logo,
quem sai perdendo com esse modelo é a própria Igreja (FRESTON, 2006, p.
11).

Partindo da atuação institucional, desempenharam diferentes, porém importantes


funções na campanha de Jair Bolsonaro. João Campos agregou em sua candidatura à
reeleição pautas conservadoras como o apoio ao Estatuto do Nascituro e ao projeto
Escola Sem Partido. Ex-colega de Bolsonaro na Câmara, foi interlocutor entre a
bancada evangélica e o candidato do PSL, chegando a negociar a possibilidade de
indicação do futuro Ministro da Educação. Foi o 5° mais votado de seu estado, com 106
mil votos.
Ainda em fevereiro de 2018, paralelamente a Silas Malafaia, Marco Feliciano
declarou apoio à candidatura de Bolsonaro. Saiu do PSC e filiou-se ao Podemos, que
lançou o senador Álvaro Dias (PR) como presidenciável, que alcançou apenas o 9°
lugar no pleito, com 859 mil votos (0,80%). Reeleito com 239 mil votos, foi um dos três
indicados pela bancada evangélica para ocupar o Ministério da Cidadania, o que não
ocorreu.
Magno Malta, indicado para ser o vice-presidente na chapa de Bolsonaro,
recusou a posição, preferindo disputar a reeleição para o Senado. Foi derrotado por
Marcos do Val (PPS), ex-militar, e pelo delegado Fabiano Contarato (REDE), primeiro
candidato assumidamente homossexual eleito para o Senado Federal. Após a vitória de
Bolsonaro no 2° turno, Malta protagonizou um momento de oração em agradecimento
diante da mídia internacional.
Inicialmente cotado para assumir função ministerial, Magno Malta passou a ser
preterido pelo núcleo duro do governo Bolsonaro, sobretudo pelo General Hamilton
Mourão (PRTB), vice-presidente eleito, causando a revolta de Silas Malafaia nas redes
sociais. Após anunciar sua própria nomeação para o futuro Ministério da Família, o
senador viu sua antiga auxiliar, a advogada e pastora Damares Alves, ser nomeada para
a função.
Diante do não comparecimento de Jair Bolsonaro aos debates televisivos em
virtude do ataque sofrido por Adélio Bispo de Oliveira, em 6 de setembro de 2018, Edir
Macedo abriu espaço na Record TV para uma entrevista que durou 30 minutos,
transmitida simultaneamente ao último debate presidencial realizado pela Rede Globo.
Dias antes, Macedo já havia declarado apoio ao candidato do PSL.
Portanto, a instrumentalização, a partir da bancada evangélica e de suas
lideranças, de interpretações teológicas e doutrinárias, sobretudo as relacionadas ao
modelo tradicional de família e o combate à corrupção, foi fundamental para que o
público evangélico se identificasse com a candidatura de Jair Bolsonaro, tornando-se
sua principal base social e eleitoral, conferindo a ele quase 70% de intenções de voto.

Conclusão
Diante do exposto, podemos afirmar que o voto evangélico não é influenciado
apenas por questões políticas ou ideológicas, possuindo também forte caráter teológico
e confessional, que carecem ainda de estudos mais aprofundados no campo das ciências
humanas, reforçando a ideia de “que as escolhas políticas não são simples decalques das
relações socioeconômicas e que elas valorizam a consistência própria do político”
(COUTROT, 2003, p. 357).
Constatamos, preliminarmente, que a participação política dos evangélicos, que
consolidada no Legislativo desloca-se para o Executivo, visando o Judiciário
futuramente, faz parte de um projeto – ou projetos – de poder evangélico para o Brasil,
tendo por base, pelo menos em seu discurso, todo o aparato doutrinário relacionado às
teologias da Prosperidade e do Domínio.
A respeito especificamente da Teologia do Domínio, concluímos que ela carece
de melhor conceituação visando o contexto brasileiro, em virtude de ser constantemente
confundida com o messianismo político enquanto sinônimo. Além disso, é necessário
adequá-la ou distingui-la de outros conceitos, como “dominionismo”, “Teologia do
Reino”, “reconstrucionismo” e “triunfalismo”.

Referências bibliográficas
ALONSO, Leandro Seawright. Entre Deus, Diabo e Dilma: Messianismo evangélico
nas eleições 2010. São Paulo: Fonte Editorial, 2012.
COUTROT, Aline. Religião e política. In: RÉMOND, René. Por uma história política.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
ELWELL, Walter (editor). Enciclopédia histórico-teológica da Igreja Cristã. São
Paulo: Edições Vida Nova, 1990. v. 2.
FRESTON, Paul. Religião e política, sim; Igreja e Estado, não: os evangélicos e a
participação política. Viçosa: Ultimato, 2006.
_________. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment.
Orientador: Sergio Miceli Pessoa de Barros. 1993. 303 p. Tese (Doutorado em Ciências
Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, 1993.
LOPES, Guilherme Esteves Galvão. Evangélicos, mídia e poder: análise da atuação
parlamentar na Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988). Orientador: Oswaldo
Munteal Filho. 2017. 149 p. Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil.
São Paulo: Edições Loyola, 2012.
NICOLAU, Jairo. Sistemas eleitorais. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
ROSAS, Nina. “Dominação” evangélica no Brasil: o caso do grupo musical Diante do
Trono. Revista Semestral do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em
Sociologia da UFSCar 5.1 (2015): 235.
VILLAZÓN, Julio Córdova. Velhas e novas direitas religiosas na América Latina: os
evangélicos como fator político. In: CRUZ, Sebastião Velasco e; KAYSEL, André;
CODAS, Gustavo (org.). Direita, volver! O retorno da direita e o ciclo político
brasileiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2015.