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Direito Processual Civil I - Turma A

Regência: Professor Doutor Miguel Teixeira de Sousa


19 de Julho de 2013 Duração: 2 horas

No dia 1 de Janeiro de 2012, Amélia celebrou com Cândida um contrato de arrendamento de um


imóvel, sito em Faro e avaliado em 100 mil euros, para que esta aí instalasse uma gelataria. Foi
acordada uma renda mensal de 300€, e a cláusula 16.ª do contrato tinha o seguinte conteúdo:
“Todos os litígios emergentes deste contrato deverão ser dirimidos no Tribunal da Relação de
Lisboa”.

Durante o ano de 2012, Amélia casa com Bruno, ambos portugueses residentes em França, em
regime de comunhão geral de bens, e Cândida, portuguesa residente em Lisboa, casa com
Ernesto, português residente em Madrid, em regime de comunhão de adquiridos.

Tendo recebido reiteradas queixas do condomínio, de que a Gelataria Santinho violava de forma
reiterada e grave as regras do regulamento de condomínio, Amélia decide, no dia 1 de Janeiro
de 2013, propor uma acção de despejo.

Poderia Amélia propor esta acção nas condições abaixo referidas nos pontos 1 a 6? Em
caso de resposta negativa, explicite as consequências processuais, considerando para o
efeito que não foi apresentada contestação. (O aluno deve considerar a resposta de cada
uma das alíneas de forma autónoma)

1. Sem constituir mandatário judicial? (1,5 v.)


Tópicos de resposta: A constituição de mandatário é obrigatória e constituiu um pressuposto
processual: Arts. 32.º/1/b) + 678.º/3/a); Excepção dilatória de conhecimento oficioso – mesmo
sem o R. contestar o juiz pode conhecer.
Aplicação do Art. 33.º do CPC que determina a notificação do Autor pelo Tribunal para
constituir Mandatário dentro de determinado prazo, sob pena de absolvição do Réu.

2. Contra o estabelecimento comercial “Gelataria Santinho” (2 v.)


Tópicos de resposta: O estabelecimento comercial não tem personalidade judiciária (cfr. Art.
5.º, n.º 2, 6.º e 7.º do CPC). De acordo com o Prof. Miguel Teixeira de Sousa, o Art. 8.º do CPC
deve ser igualmente aplicado, além dos casos expressamente previstos na lei, sempre que tenha
sido indevidamente demandada uma associação, fundação ou sociedade sem personalidade
jurídica que tenha adquirido essa personalidade após a propositura da acção. Não era o caso,
pelo que se trata de uma falta de pressuposto processual, insanável, de conhecimento oficioso e
que determina a absolvição do Réu da instância [Art. 494.º, al. c) e 495.º do CPC].
3. Contra Cândida e Ernesto (2 v.)
Tópicos de resposta: C é parte legítima por ser parte no contrato, nos termos do art. 26.º/1 e 3.
Em relação a E, não é necessário colocar questão da comunicação da posição de arrendatário,
porque o contrato foi celebrado antes do casamento, que foi celebrado em regime de comunhão
de adquiridos. Não tem também aplicação o disposto no Art. 1682.º-A, n.º 1, al. b) e n.º 2 do
CPC, pois não está em causa o estabelecimento comercial em si. Ernesto não é titular da relação
material controvertida, pelo que deveria ser absolvido da instância por falta de legitimidade [cfr.
Art. 26.º, n.º 1 e 494.º, al. e) do CPC].

4. Se Bruno estivesse contra a propositura da acção (2,5 v.)


Tópicos de resposta: Não há litisconsórcio necessário: art. 28.º-A/1 + 1682.º-A CC a contrario.
A acção de despejo não implica a perda ou oneração do bem, ao contrário da acção de
reivindicação. Não é preciso o consentimento de Ernesto para propor a acção. Caso fosse
necessário o consentimento de Ernesto (e não era), deveria ser ponderada a aplicação e
articulação do Art. 28.º-A, n.º 2 e 325.º do CPC. Não se trata, naturalmente, de casa de morada
de família.

5. Se, em Setembro de 2012, na sequência de acção proposta por Bruno, tivesse sido
decretada judicialmente a inabilitação de Amélia por anomalia psíquica (2,5 v.)
Tópicos de resposta: Propor uma acção de despejo é um acto de administração. A capacidade
depende, por isso, da decisão do tribunal em relação à administração do património – 9.º/2 +
154.º CC. Não se pode dizer, logo à partida, que seja incapaz.
O suprimento da eventual incapacidade depende de o tribunal considerar necessária a assistência
do curador ou mesmo a representação – 10.º/1 + 153.º + 154.º.
O juiz deveria providenciar pelo suprimento da incapacidade.
A falta de contestação é irrelevante, é de conhecimento oficioso. Se o tribunal se apercebesse da
interdição, poderia conhecer.

6. No tribunal da Relação de Lisboa (4,5 v.)


Tópicos de resposta: O conflito é plurilocalizado. Verificar que cada um dos âmbitos de
aplicação do Regulamento 44/2001 está preenchido. Aplica-se o n.º 1 do art. 22.º, logo, A acção
tinha de ser proposta em Portugal, e em Faro (para quem entende que do Regulamento resulta
não só a competência internacional, mas também interna), não sendo válida a cláusula que
afaste (art. 23.º/5).
Quanto à matéria, hierarquia e valor, temos de aplicar o art. 100.º. É ineficaz a escolha do
Tribunal da Relação (ainda que não se aplicasse o Regulamento, também nunca seria admissível
a escolha de Lisboa, pelos arts. 73.º/1 + 110.º/1/a))
Não há incompetência em razão da nacionalidade. Mas há em razão do território e da hierarquia.
No entanto, não se aplica à incompetência em razão do território os arts. 108.º ss. CPC (para
quem retira do art. 22.º competência internacional e territorial) mas sim o art. 25.º do
Regulamento 44/2001. Quer pelo CPC quer pelo Regulamento, seria de conhecimento oficioso,
sendo irrelevante a falta de contestação. Quanto à hierarquia também é irrelevante a falta de
contestação.
Momento do conhecimento pelo juiz e consequência (cfr. Arts. 103.º, 105.º e 106.º).
Nota: a resposta varia se não se considerar que do art. 22.º se retira também a competência
territorial (o aluno deve abordar essa divergência).

II.
Comente a seguinte afirmação (3 v.):
“É, assim, o processo civil um instrumento ou talvez mesmo uma alavanca no sentido de
forçar a análise, discussão e decisão dos factos e não uma ciência que olvide esses factos para
se assumir apenas como uma teorética de linguagem hermética, inacessível e pouco
transparente para os seus destinatários” (Preâmbulo do Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de
Dezembro)
Tópicos de resposta: Instrumentalidade do processo civil enquanto mecanismo de tutela de
direitos subjectivos e interesses legalmente protegidos e, bem assim, de interesses difusos (cfr.
artigos 20.º, n.º 1 e 52.º, n.º 3 da Constituição da República Portuguesa). Esclarecer que da
instrumentalidade processual decorre uma ligação funcional entre o direito processual civil e o
direito material, mas não uma pré-definição pelo direito material dos meios a serem utilizados
pelo direito processual civil, razão pela qual a instrumentalidade entre o direito material e
processual civil é bidireccional (não se pode pensar o direito processual civil sem o direito
material, pois que não se pode pensar o instrumento sem o quid do qual ele é instrumental, mas
também não se pode conceber o direito material sem o direito processual civil, dado que ele não
pode ser amputado do meio que o pode tornar verdadeiramente actuante).
Referência às características do processo civil que promovem a análise da realidade (principio
do dispositivo, principio do inquisitório, princípio da cooperação, princípio da prevalência da
verdade material);
Referência aos meios alternativos de resolução dos litígios (negociação, mediação ou
arbitragem) como formas de composição não jurisdicional de conflitos.

Ponderação global: 2 v.