Você está na página 1de 5

O DEVER DE ACOLHIDA HUMANITÁRIA E O PRINCÍPIO DO NON-

REFOULEMENT EM FACE DA IMIGRAÇÃO VENEZUELANA EM RORAIMA1

Lucas Oliveira Vianna2


Florisbal de Souza Del’Olmo3

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os movimentos migratórios de urgência, compostos de indivíduos que fogem de


perseguição religiosa, conflitos bélicos, ou mesmo crises políticas e econômicas, configuram uma
das mais importantes crises humanitárias da atualidade, confrontando os países mais
desenvolvidos com a responsabilidade de garantir os direitos humanos dos imigrantes.
Fotografias de crianças envolvidas na crise tornaram-se símbolo da necessidade de uma
abordagem humanitária.
O Brasil, por sua vez, depara-se com o movimento imigratório de venezuelanos que
ingressam no Estado de Roraima, fugitivos da crise política e econômica instaurada nos governos
socialistas de Chávez e Maduro. Diante da dificuldade em atender ao fluxo migratório, medidas
orientadas à contenção ou restrição da entrada dos venezuelanos têm sido tomadas por
autoridades locais, tais como o fechamento da fronteira.
No entanto, cumpre questionar se tais medidas coadunam-se com o princípio da acolhida
humanitária sustentado pelos ordenamentos legislativo e internacional.

1. AÇÕES RESTRITIVAS

A primeira reação restritiva do estado foi o ajuizamento de uma Ação Civil Originária
(ACO) no Supremo Tribunal Federal (STF), pleiteando, em caráter liminar, o fechamento da
fronteira Roraima-Venezuela. O pedido foi lastreado no “incalculável impacto econômico”
decorrente da instalação de cerca de 50 mil refugiados na capital (BRASIL, 2018a).
Na pendência de apreciação da liminar, o governo do estado publicou, em 01/08/2018, um
decreto limitando a prestação de serviços públicos a imigrantes apenas àqueles que tivessem
passaporte válido (RORAIMA, 2018), com a nítida finalidade de desestimular a migração de
refugiados ao Brasil.
Cinco dias após, um juiz federal de Roraima prolatou decisão suspendendo, de forma
total, o ingresso de venezuelanos pela fronteira do estado, sustentando a necessidade de adotar
medidas que “assegurem a fruição dos direitos e garantias dos brasileiros” (BRASIL, 2018b).
Na ACO já mencionada, por outro lado, a Rel. Min. Rosa Weber indeferiu o fechamento
pugnado pelo estado, e, concomitantemente, concedeu liminar pleiteada pela União no sentido de
suspender, com base na dignidade da pessoa humana, o decreto estadual retrocitado (BRASIL,
2018). Já a decisão do juiz federal foi revogada pelo TRF-1 um dia após sua publicação.

1
GT 4 – Migração, Interações Regionais e Direitos Humanos.
2
Bacharelando do Curso de Direito da URI Santo Ângelo. E-mail: lucasoliveiravianna@gmail.com
3
Pós-Doutor em Direito (UFSC). Doutor (UFRGS) e Mestre em Direito (UFSC). Especialista em Direito e em
Educação. Professor do PPGD – Mestrado e Doutorado em Direito da URI, Santo Ângelo, RS. Líder do Grupo de
Pesquisa registrado no CNPq Tutela dos Direitos e sua Efetividade. Coordenador do Projeto de Pesquisa Direito
Internacional do Trabalho e o resgate da dignidade e da cidadania. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6894960744708682.
E-mail: florisbaldelolmo@gmail.com. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-8070-2912.
Visualiza-se, nas ações restritivas citadas, uma política antiga de tratar a crise migratória
unicamente como uma questão de defesa e de supremacia dos interesses da população nacional,
em prejuízo das prementes necessidades dos refugiados, o que não condiz com a política
migratória adotada atualmente pelo país.

2. A LEI DE MIGRAÇÃO

A Lei nº 13.445/17, denominada Lei de Migração, é o principal diploma legal responsável


por delinear a política migratória brasileira, e, ao compreender o imigrante sob a ótica dos
direitos humanos, constitui um progresso marcante em comparação com o revogado Estatuto do
Estrangeiro, que o tratava como uma ameaça à soberania nacional.
Essa diferença é visível logo nos princípios promulgados pelos respectivos textos legais.
O Estatuto tinha como preocupações precípuas “a segurança nacional”, “a organização
institucional”, os “interesses políticos, sócio-econômicos [sic] e culturais do Brasil” e “a defesa
do trabalhador nacional” (BRASIL, 1980). Já a atual Lei de Migração tem como valores
norteadores, dentre outras considerações humanitárias, a “universalidade, indivisibilidade e
interdependência dos direitos humanos”, o “repúdio e prevenção à xenofobia, ao racismo e a
quaisquer formas de discriminação”, e a “não criminalização da migração” (BRASIL, 2017a).
Há, portanto, uma alteração de enfoque, de uma ênfase unicamente na defesa nacional
para uma política de primazia dos direitos humanos do imigrante, com a qual providências
excludentes, como as adotadas pelo estado de Roraima, não se coadunam.
O fechamento da fronteira é incompatível com o princípio da acolhida humanitária (art.
3º, VI), o qual traz o dever de acolher imigrantes oriundos de locais em crise a fim de proteger
seus direitos fundamentais. A restrição da prestação de serviços públicos, por outro lado, viola o
princípio do “acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais,
bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário
e seguridade social” (art. 3º, XI), bem como a garantia de “acesso a serviços públicos de saúde e
de assistência social e à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da
nacionalidade e da condição migratória” (art. 4º, caput e VIII).
Exigir o passaporte para a prestação do serviço também contraria a prescrição de que “a
identificação civil de solicitante de refúgio, de asilo, de reconhecimento de apatridia e de
acolhimento humanitário poderá ser realizada com a apresentação dos documentos de que o
imigrante dispuser” (art. 20), bem assim a regulamentação feita pelo decreto 9.199/17, segundo o
qual é “vedada a exigência de prova documental impossível ou descabida que dificulte ou impeça
o exercício de seus direitos” (BRASIL, 2017b, art. 2º).
Tais prescrições não descuram da defesa nacional, mas primam pela garantia dos direitos
humanos de indivíduos acima de exigências formais.

3. A CONDIÇÃO DO IMIGRANTE NO DIREITO INTERNACIONAL

Políticas excludentes também são dissonantes dos princípios constantes dos


compromissos internacionais firmados pelo Brasil nos campos de direitos humanos e fenômenos
migratórios, principalmente o conhecido como “non-refoulement”.
Tal princípio encontra expressão, por exemplo, no art. 33 da Convenção das Nações
Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, de 1951, que preceitua que um Estado não pode
rechaçar ou expulsar “um refugiado para as fronteiras dos territórios em que a sua vida ou a sua
liberdade seja ameaçada em virtude da sua raça, da sua religião, da sua nacionalidade, do grupo
social a que pertence ou das suas opiniões políticas” (ONU, 1951).
A Assembleia Geral das Nações Unidas tem entendido por não restringir tal princípio às
ameaças citadas no artigo, mas “incluir pessoas que fogem de situações de violência mais
generalizada que ameaçam a vida e a liberdade e que, nem sempre, são geradas por perseguição,
como os conflitos armados” (PAULA, 2006, p. 54), com base no entendimento de que o non-
refoulement diz respeito não somente a relações internacionais, mas, principalmente, a direitos
humanos, encontrando previsão inclusive na Convenção Americana de Direitos Humanos, art.
22(8):

Em nenhum caso o estrangeiro pode ser expulso ou entregue a outro país, seja ou não de
origem, onde seu direito à vida ou à liberdade pessoal esteja em risco de violação por
causa da sua raça, nacionalidade, religião, condição social ou de suas opiniões políticas
(CADH, 1969, art.22).

Desse modo, foi elevado “não apenas a um principio básico de Direito Internacional dos
Refugiados, mas também a uma norma peremptória do Direito Internacional dos Direitos
Humanos” (PAULA, 2006, p. 55), o que traz implicações consideráveis em sua aplicação e
interpretação, dentre elas: recebe status materialmente constitucional, conforme doutrina
dominante (MELLO, 2008; PIOVESAN, 2016); deve ser interpretado sempre no sentido de
maximização dos direitos por ele tutelados (CANOTILHO, 1983); e adquire força cogente,
impondo-se como matéria de direitos fundamentais. Nesse norte, a Declaração de Cartágena de
1984 conclui por “reiterar a importância e a significação do princípio de non-refoulement
(incluindo a proibição da rejeição nas fronteiras), como pedra angular da proteção internacional
dos refugiados”, bem como seu caráter de “jus cogens” (ONU, 1984).
Ademais, a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969 assevera, em seu
art. 31, que “um tratado deve ser interpretado [...] em seu contexto e à luz de seu objetivo e
finalidade”, e, para isso, serão tidos em consideração “qualquer prática seguida posteriormente na
aplicação do tratado” e “quaisquer regras pertinentes de Direito Internacional aplicáveis às
relações entre as partes” (ONU, 1969), tais como, por exemplo, as manifestações do sistema
interamericano de direitos humanos.

4. OS DIREITOS DO IMIGRANTE NO SISTEMA INTERAMERICANO

A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH) tem reiteradamente atribuído ao


princípio em questão “status de direito internacional costumeiro e de jus cogens, e medidas
cautelares já foram utilizadas diversas vezes para evitar violações desse princípio” (PAULA, p.
2006, p. 55).
A Comissão Interamericana de Direitos (CIDH), através da Resolução nº 3/08, também
deixou claro que “os países têm tanto o direito quanto a obrigação de criar mecanismos para
controlar a entrada de estrangeiros em seu território [...]” mas “as ações nesse sentido devem ser
realizadas com o devido respeito aos direitos das pessoas afetadas”, destacando ainda que “a
observância de princípios fundamentais como a não discriminação e o direito a integridade
pessoal não pode subordinar-se à implementação dos objetivos das políticas públicas” (CIDH,
2008).
Ainda, quanto à restrição relacionada aos passaportes, a CorteIDH já estabeleceu que
“pode o Estado outorgar um tratamento distinto aos migrantes documentados em comparação aos
não-documentados”, mas desde que “este tratamento diferenciado seja razoável, objetivo,
proporcional e não lesione os direitos humanos” (CORTEIDH, 2003, p. 121).
Destarte, tais medidas são incompatíveis com o direito internacional de refugiados.

5. A ATUAÇÃO DA UNIÃO FEDERAL

É inegável, entretanto, como pontuado pelo juiz federal na decisão mencionada, que os
ônus da política migratória nacional “devem ser repartidos por todos e não suportados por apenas
um”, e isso não somente por uma questão de justiça entre os entes federativos, mas,
principalmente, a fim de possibilitar a adequada manutenção dos direitos fundamentais.
A União procedeu à criação de cinco abrigos no ano de 2018, em alguns dos quais, no
entanto, já se desenvolveram situações de superpopulação e criminalidade (GLOBO, 2018). Além
disso, trata-se de medida que, embora necessária, possui caráter provisório, não sendo uma
solução durável.
O governo federal também tem promovido a interiorização dos venezuelanos, deslocando-
os, voluntariamente, para outros estados brasileiros, com o fito de abrandar a sobrecarga local.
Essa política é sustentada pela ONU como adequada a longo prazo para conjunturas de migração
forçada (ANAJURE, 2018). Não obstante, o processo ainda é lento, e o número de imigrantes
deslocados é ínfimo face aos que ingressam mensalmente no estado.
Também é questionável que o Comitê Federal de Assistência Emergencial instituído para
atuar no local esteja subordinado ao Ministério da Defesa, demonstrando uma permanência do
antigo viés de defesa nacional em vez da atual compreensão de direitos humanos.
Desse modo, é imperioso, para a tutela dos direitos fundamentais de imigrantes e
nacionais, que o governo federal atue de forma mais efetiva no processo de interiorização.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As políticas excludentes adotadas por autoridades roraimenses, como o fechamento


fronteiriço, não estão de acordo com a atual política migratória brasileira, nem com o escopo de
direitos humanos de imigrantes estabelecido no âmbito internacional, que tem entendido que as
tratativas dos Estados nacionais com o fenômeno migratório não podem olvidar da dignidade da
pessoa humana, seja ela nacional ou imigrante.
Não se pode ignorar, por exemplo, que o fechamento de fronteira que, por possuir mais de
200km de extensão, é de impossível fiscalização, somente ensejará a atuação de coiotes e
traficantes de pessoas, como já indicam as experiências de outros países.
Deve-se abandonar concepções que evidenciam um raciocínio de “nós contra eles”, o qual
lida com as tensões inerentes à situação como um “jogo de soma zero”, no qual o Estado deve
optar pela proteção dos nacionais em prejuízo dos estrangeiros, mas assumir, por outro lado, uma
perspectiva de tutela dos direitos fundamentais da pessoa humana, independentemente de sua
nacionalidade.
Em suma, deve-se atender ao disposto no preâmbulo da CADH (1969): “os direitos
essenciais da pessoa humana não derivam do fato de ser ela nacional de determinado Estado, mas
sim do fato de ter como fundamento os atributos da pessoa humana.”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANAJURE; FPMRAH. Nota Pública sobre fechamento da fronteira com Venezuela.
Publicada em 07 jul. 2018. Disponível em: <https://www.anajure.org.br/fronteira-com-a-
venezuela-e-fechada-anajure-e-fpmrah-emitem-nota-publica/>. Acesso em: 11 ago. 2018.
BRASIL. 1ª Vara Federal da Seção Judiciária de Roraima. Ação Civil Pública nº 002879-
92.2018.4.01.4200. Suspende a admissão e o ingresso de imigrantes venezuelanos. Decisão
publicada em 05 ago. 2018b.
BRASIL. Decreto nº 9.199/17. Regulamenta a Lei de Migração. Publicado em 21 nov. 2017b.
BRASIL. Lei nº 13.445/17. Institui a Lei de Migração. Publicada no D.O.U. em 25 maio 2017a.
BRASIL. Lei nº 6.815/80. Define a situação jurídica do estrangeiro no Brasil. Revogada.
Publicada em 21 ago. 1980.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Cível Originária nº 3.121. Atuada em 13 abr. 2018a.
CADH. CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. 1969. Disponível em:
<https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm>. Acesso em: 20 ago.
2018.
CANOTILHO, José J. G. Direito Constitucional. 3. ed. Coimbra: Almedina, l983.
CIDH. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Resolução 3/08: Direitos Humanos dos
Migrantes, Normas Internacionais e Diretiva Europeia sobre Retorno. 25 de julho de 2008.
Disponível em: <https://cidh.oas.org/Resoluciones/Resoluci%C3%B3n%2003-
08%20PORT.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2018.
CORTEIDH. Opinión Consultiva OC-18/03. Condición jurídica y derechos de los imigrantes
indocumentados. 17 set. 2003. Disponível em:
<www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_18_esp.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2018.
GLOBO. Rua, abrigo ou aluguel: venezuelanos relatam a busca por um novo lar em RR.
Notícia publicada no sítio eletrônico em 25 jun. 2018. Disponível em:
<https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/rua-abrigo-ou-aluguel-venezuelanos-relatam-a-busca-
por-um-novo-lar-em-rr.ghtml>. Acesso em: 21 ago. 2018.
MELLO, C. A. Bandeira. Voto no MS nº 26.603/DF. Publicado em 19 dez. 2008.
ONU. Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Adotada em 22 mai. 1969.
ONU. Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados. Adotada em 28 de julho de 1951.
ONU. Declaração de Cartagena. Adotada em 22 nov. 1984.
ONU. Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados. Assinado em 31 de janeiro de
1967.
PAULA, Bruna Vieira de. O princípio do non-refoulement, sua natureza jus cogens e a
proteção internacional dos refugiados. Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2006, p. 54.
Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/tablas/r28151.pdf >. Acesso em: 20 ago. 2018.
PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 16. ed., rev.,
ampl., e atual. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 86.
RORAIMA. Decreto nº 25.681-E, de 1º de agosto de 2018. Decreta atuação especial das forças
de segurança pública e demais agentes públicos do Estado de Roraima em decorrência do fluxo
migratório de estrangeiros em território do Estado de Roraima e dá outras providências.
Publicado no D.O.E. em 1º ago. 2018.