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FILOSOFIA

A ESTRUTURA DO ATO DE CONHECER


O QUE SIGNIFICA CONHECER?
Conhecer é estabelecer uma relação entre nós e o resto do mundo.
Para que haja conhecimento é necessário que haja 2 elementos:
- o sujeito: aquele que conhece.
- o objeto: aquele que é conhecido.
Sem estes dois elementos o conhecimento seria impossível.
O sujeito só é sujeito em relação a um objeto, e este só é objeto em relação a um
sujeito – relação que constitui uma correlação.
TIPOS DE CONHECIMENTO
Existem três tipos de conhecimento: o conhecimento por contacto, o conhecimento
proposicional e o conhecimento prático.
CONHECIMENTO POR CONTACTO
Ter conhecimento por contacto é conhecer algo ou alguém.
Exemplo: O João conhece Veneza.
CONHECIMENTO PROPOSICIONAL
Ter conhecimento proposicional é saber alguma coisa.
Exemplo: A Ana sabe que Veneza tem 118 ilhas.
CONHECIMENTO PRÁTICO
Ter conhecimento prático é saber fazer algo.
Exemplo: O Rui sabe fazer arroz doce.
A DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO
CONHECIMENTO E CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA
Há pelo menos três condições que têm de ser satisfeitas para alguém conhecer algo:
1- Esse alguém acreditar nisso;
2- Isso em que se acredita ser verdadeiro;
3- Esse alguém ter boas razões (justificação) para acreditar nisso.
Isto quer dizer que a crença, a verdade e a justificação são ingredientes ou condições
necessárias do conhecimento.
ELEMENTOS QUE CONSTITUEM O CONHECIMENTO
CRENÇA
Todo o conhecimento envolve uma crença.
A crença é uma condição necessária do conhecimento porque sem crença não há
conhecimento.
Será que a crença é uma condição suficiente para o conhecimento?
Não, pois podemos acreditar em coisas que podemos não saber. Por exemplo,
podemos acreditar que o Pai Natal existe, mas não podemos saber que ele existe.
VERDADE
Nenhuma crença falsa pode significar conhecimento, pois o conhecimento é factivo
(não se pode conhecer falsidades), logo a verdade é uma condição necessária para o
conhecimento.
Dizer que não se pode conhecer falsidades é diferente de dizer que não se pode saber
que algo é falso. Por exemplo:
1- A Mariana sabe que é falso que o céu é verde.
2- A Mariana sabe que o céu é verde.
O que torna uma crença verdadeira?
O que torna uma crença verdadeira é a realidade.
Será a crença verdadeira suficiente para o conhecimento?
Crenças que por acaso se revelam verdadeiras não são conhecimento. O conhecimento
não pode ser obtido ao acaso, logo a crença verdadeira não é verdadeira para o
conhecimento.
JUSTIFICAÇÃO
Para haver conhecimento, não basta ter uma crença verdadeira. A nossa crença tem
de estar justificada, logo a justificação é uma condição necessária para o
conhecimento.
Quando é que uma crença está justificada?
Uma crença está justificada quando há boas razões a favor da sua verdade.
Podemos ter uma crença justificada, mesmo que não saibamos justificá-la
explicitamente.
Será que basta que uma crença esteja justificada para ser verdadeira?
Não. Ter justificação para acreditar em algo não quer dizer que seja verdade, logo a
justificação não é uma condição suficiente para o conhecimento.
Conclusão: a crença, a verdade e a justificação são condições necessárias para o
conhecimento, mas não são condições suficientes, como tentou mostrar Gettier com
os seus casos.
Encontrar casos de crenças verdadeiras justificadas que não sejam conhecimento é
apresentar contraexemplos à ideia de definição tradicional do conhecimento.
A natureza da justificação é, das três condições do conhecimento, a mais problemática
e mais discutida pelos filósofos.
FONTES DE CONHECIMENTO
Existem duas fontes de conhecimento: conhecimento a priori e conhecimento a
posteriori.
CONHECIMENTO A PRIORI
Algo é conhecido a priori quando é conhecido independentemente da experiência
através do pensamento apenas.
Exemplo: saber que um triângulo tem três lados.
CONHECIMENTO A POSTERIORI
Algo é conhecido a posteriori quando é conhecido através da experiência.
Exemplo: saber que o rio mondego nasce na serra da estrela (foi preciso vermos ou
alguém ver por nós que o rio mondego nasce mesmo na serra da estrela, porque senão
não tínhamos como saber).
Qual dos dois é mais importante?
Os racionalistas dão importância fundamental ao conhecimento obtido pela razão (a
priori), no passo que os empiristas dão uma maior importância ao conhecimento
obtido pela experiência (a posteriori).

O DESAFIO CÉTICO
Os céticos defendem que nenhuma das nossas crenças está bem justificada, e
que por isso, o conhecimento não é possível (não há conhecimento), Pirro de
Élis.
A atitude mais sensata é, na perspetiva dos céticos, duvidar de tudo e
suspender os nossos juízos.
ARGUMENTO CENTRAL DOS CÉTICOS (modus tollens)
Se há conhecimento, algumas das nossas crenças estão justificadas
Mas nenhumas das nossas crenças está justificada
Logo, não há conhecimento.
Os céticos tentam justificar a segunda premissa, na medida em que acabamos
sempre por encontrar boas razões para duvidar das nossas crenças.
RAZÕES PARA DUVIDAR
O argumento das divergências de opinião sublinha a ideia comum de que
se alguma opinião estivesse devidamente justificada não haveria razão para
outras pessoas razoáveis não a aceitarem. Ora isto está longe de acontecer, até
mesmo entre os especialistas da mesma área. Assim, haver duas opiniões
opostas sobre a mesma coisa não significa que ambas sejam falsas, mas mostra
que nenhuma está adequadamente justificada.
O argumento da ilusão, a ideia é que os nossos sentidos nos iludem
frequentemente, o que mostra que não são dignos de confiança. Por exemplo,
os nossos olhos dão-nos informações discordantes e contraditórias: o mesmo
objeto parece-nos grande visto de perto e pequeno visto de longe, mas na
realidade o objeto tem apenas um único tamanho.
O argumento da regressão infinita da justificação, dizem eles que
tentamos justificar uma crença com base noutra, mas para que esta segunda
crença possa justificar a primeira, temos de a justificar também e a única
maneira de o fazer é usar outra crença que teremos novamente de justificar e
como isto nunca mais tem fim acabamos por nunca conseguir justificar crença
alguma.
O MÉTODO CARTESIANO
O objetivo de Descartes é mostrar que os céticos estão enganados e que,
portanto, o conhecimento é possível. Para tal ele acha que a melhor forma é
colocar-se no papel dos céticos e duvidar de tudo, pois esta é a única maneira
de garantir que não nos deixamos enganar.
A DÚVIDA METÓDICA
A dúvida metódica proposta por Descarte, funciona então como uma espécie de
teste cético: todas as nossas crenças terão de ser submetidas à dúvida e só
serão aceites como justificadas se passarem no teste. Passar no teste é duvidar
delas e não o conseguimos. Uma crença da qual procuramos por todos os meios
duvidar sem o conseguirmos é uma crença indubitável.
A dúvida cartesiana é metódica pois é um meio para alcançar a certeza e, desse
modo, a justificação necessária para o conhecimento. A dúvida cartesiana
também por ser universal, na medida em que nada está imune á duvida,
aplicando-se esta sistematicamente a todo o tipo de crenças e até as nossas
próprias faculdades racionais. E também hiperbólica, pois nenhuma dúvida é
suficientemente disparatada, admitindo-se todo o tipo de razões para duvidar e
levando a dúvida até as suas últimas consequências, e também porque leva a
supor que é falso o que é apenas duvidoso.
APLICANDO O MÉTODO
1. Descartes começa por aceitar o argumento cético da ilusão, pois se os
sentidos já nos enganaram antes não podemos estar certos de que não
nos enganam agora. Basta que nos tenham engando uma vez ou outra
(algumas vezes) para termos boas razões para duvidar do seu
testemunho.
2. Argumento do sonho pretende mostrar que não conseguimos distinguir
as experiências que temos quando sonhamos daquelas que temos
quando estamos acordados, pelo que também não podemos saber que
não estamos a sonhar e que tudo não possa passar de uma ilusão.
3. A hipótese do génio maligno é uma experiência mental que consiste em
imaginar uma espécie de divindade enganadora (“génio maligno”) que
usa o seu enorme poder para se divertir à nossa custa, manipulando
sistematicamente os nossos racionais sem o sabermos.

O CÓGITO
Descartes pensou que era perfeitamente possível de duvidar que tinha braços,
mãos, pernas ou tronco. Então, tentando a pensar até que nem existia, tornou-
se completamente evidente ao duvidar que existia, ele era um ser que duvidava.
Ou seja, quanto mais pensava mais se tornava claro que era um ser pensante.
O próprio ato de duvidar era a prova que existia – penso, logo existo (cogito)
Esta verdade, como Descartes lhe chama, é conhecido como o cogito
cartesiano. Finalmente Descartes pode concluir que há pelo menos uma crença
que é indubitável, e que, portanto, os céticos estavam enganados. Esse princípio
indubitável era a “rocha sólida” que descartes precisava para alicerce de todo o
conhecimento.
CARACTERISTICAS DO COGITO CARTESIANO
O cogito cartesiano tem duas características importantes:
 Crença autojustificada;
 Verdade da razão e não dos sentidos.
O cogito é uma crença autojustificada porque é de tal forma evidente, que se
justifica a si própria.
Portanto o cógito é a prova de que, ao contrário do que os céticos afirmavam
nem todas as crenças são justificadas por outras crenças, pelo que não se dá a
regressão infinita da justificação.
O cogito é para descartes, o princípio e fundamento racional de todo o
conhecimento, pelo que descartes é um fundacionalista racionalista: há um
fundamento para o conhecimento, e esse fundamento é o pensamento ou a
razão.
DEUS
Só Deus, segundo descartes, pode garantir que o critério da clareza e distinção
não é enganador, pois Deus é um ser infinitamente poderoso e bondoso e não
permitiria que estivéssemos enganados à cerca de tudo. Portanto sem Deus,
nada mais se poderia saber além do cogito.
Descartes pensa que há provas de que Deus existe. Uma das provas, a mais
importante, é inteiramente a priori, pois baseia-se apenas no pensamento. O
essencial do argumento é que a própria ideia de perfeição implica a existência
de um ser perfeito (Deus).
Sendo esta ideia de perfeição ou de um ser perfeito uma ideia inata, e só pode
ter sido colocado na nossa mente por um ser perfeito ( o próprio Deus).
Existem três tipos de ideias:
1. Ideias inatas – são aquelas que já vêm connosco de nascença,
limitando-nos a descobri-las em nós. Exemplo: ideias de coisa,
verdade e pensamento.
2. Ideias inventadas – são por sua vez criações da sua própria mente,
como as ideias de lobisomem, de sereia e de cavalo alado.
3. Ideias adquiridas – têm origem nas impressões que as coisas causam
nos sentidos, como acontece com ideias de calor, de cavalo e de
planeta.
Uma vez que Deus garante que as ideias claras e distintas são verdadeiras, e que
descartes diz ter ideias claras e distintas acerca de várias coisas acerca do
mundo, então o mundo e essas coisas existem realmente.
IMPRESSÕES E IDEIAS
O filósofo escocês David Hume considera que Descartes não conseguiu
realmente contrariar os céticos e que, portanto, também não encontrou um
fundamento para o conhecimento.
Hume sublinha que descartes se propôs refutar os céticos colocando-se ele
próprio no papel dos céticos, isto é, duvidando de tudo, incluindo da sua própria
capacidade. Ma, se descartes fizesse mesmo isso nunca teria sido capaz de se
libertar da dúvida. Por exemplo, quando descartes diz que os seus sentidos o
podem estar a enganar porque se lembra de já o terem enganado antes, ele já
está a confiar na sua memória. Como poderia ele saber que os sentidos o
enganaram antes, se não confiasse na sua memória? Parece que, mal começa a
aplicar o método da dúvida, já sabe, afinal, alguma coisa: que foi engando pelos
sentidos no passado. Se duvidasse realmente na sua memória, nem sequer
poderia saber que el próprio existia ontem, há um ano ou no minuto anterior.
Hume sugere, pois, que descartes não cumpriu o que disse – isto é, não duvidou
mesmo de tudo –, caso contrário jamais teria sido capaz de chegar a certeza
alguma. Assim, conclui Hume, a dúvida metódica recomendada por descartes,
caso fosse levada à letra, seria incurável.
O pensamento (cogito cartesiano) não proporciona o princípio a partir da qual é
possível construir o conhecimento, caso que só pode ser encontrado na
experiência. Por isso Hume é empirista.
Hume defende que na nossa mente só encontramos perceções (impressões e
ideias):
 As nossas impressões são as nossas sensações, tanto externas como
internas. As sensações externas são fornecidas pelos sentidos (audição,
visão, olfato, paladar e tato) e as sensações internas são emoções como o
medo, e desejos como a fome.
 As ideias que são cópias das impressões, existem ideias simples (retidas
pela nossa memória) e ideias complexas (que resultam da ação da
imaginação das ideias simples).
As impressões são mais intensas, nítidas e vividas do que as ideias. Pois como
naturalmente é, as cópias (ideias), são menos intensas, nítidas e vividas do que
o original (impressão).
TESE CENTRAL DE HUME
A haver um fundamento para o conhecimento ele só pode encontra-se nas
nossas impressões, sendo os sentidos a fonte principal de justificação das
nossas crenças acerca do mundo.
«o mais vivido pensamento será sempre inferior à mais ténue das sensações»,
daí Hume ser considerado um fundacionalista (busca um fundamento para o
conhecimento) empirista (esse fundamento reside nos sentidos).