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31058 - História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa

e-Fólio B
Paulo Barreto nº800932

Mas, entanto que cegos e sedentos


Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão cristãos atrevimentos
Nesta pequena Casa Lusitana:
De África tem marítimos assentos;
É na Ásia mais que todas soberana;
Na quarta parte nova os campos ara;
E, se mais Mundo houvera, lá chegara.
Luís de Camões, Os Lusíadas

A expansão marítima portuguesa, na realidade, foi um assunto muito complexo, onde


intervieram variadas forças sociais, motivações e objectivos diversos. Politicamente
considerada, teve a vantagem de manter a Nobreza ocupada fora das fronteiras
portuguesas e ajudou a aliviar a pressão da crise económica, desviando as atenções da
situação interna do País, que estava longe de satisfatória.

As guerras com Castela deixaram o estado depauperado. A revolução de 1383-85 deu


um novo rumo político mas não resolveu a crise económico-social. Os protestos eram
generalizados contra o fraco poder aquisitivo da moeda devido à desvalorização, muitas
terras estavam abandonadas, incultas e por arrotear e os trabalhadores auferiam salários
demasiado baixos para prover às suas necessidades básicas. A nobreza viu reduzirem-se
drasticamente os seus rendimentos dependentes das rendas fundiárias ou de tenças e
outras benesses régias. O povo que para eles contribuía, nada mais tinha para dar, não
adiantando o tabelamento dos salários ou os aumentos dos impostos. Ao fundador da
Dinastia de Avis não restavam muitas opções para melhorar o estado da nação. Tinha
conquistado o reino e serenado os conflitos com Castela. No entanto, o panorama
interno era desolador. A paz com o reino vizinho não permitia ter veleidades de
expansão em território continental. Restava então, a conquista além-mar.

Aurélio de Oliveira, na sua obra História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa,


sintetiza a exploração do Atlântico em quatro etapas, partindo da conquista de Ceuta,
em 1415.

A primeira etapa tem os seus limites cronológicos entre 1415 e 1439/40. Ceuta era uma
cidade muito importante que controlava a entrada e saída marítima do Mediterrâneo e
era local de passagem de importantes rotas terrestres em solo marroquino (como a vinda
do oriente, com especiarias e ouro). A armada portuguesa era constituída por cerca de
duzentos navios, levando guerreiros e outros nobres, como o Condestável e o Infante D.
Henrique, procurando adquirir notoriedade pelo mérito das armas. Regressaram depois a
Portugal, bem carregados de despojos e deixando a cidade entregue a D. Pedro de
Meneses, nomeado governador e que contava com uma guarnição de 2500 homens para
a defender.. Mas depressa se deram conta de que Ceuta, por si só, de nada valia, e que,
ou conquistavam outras cidades e algum território em Marrocos, ou abandonavam a
praça capturada. Formaram-se dois partidos, o primeiro capitaneado pelo duque de
Viseu (Infante D. Henrique), o segundo pelo duque de Coimbra (Infante D. Pedro). Os
senhores feudais estavam igualmente divididos, embora a maioria se inclinasse para a
política expansionista, quer dirigida para Marrocos quer para Granada.

A viragem para África não é descurada e vai-se mapeando e explorando a costa. Os


primeiros esforços são penosos e o Cabo Bojador torna-se um cemitério de navios. Na
altura, dificuldades de orientação levavam que fosse feita uma navegação de cabotagem
(perto da costa). O alargar da rota permitiria ultrapassar o primeiro grande obstáculo na
descoberta do continente africano. Em 1434 Gil Eanes é bem sucedido e dobra o cabo
Bojador. Estava aberto o caminho para a exploração do sul do continente africano.

A segunda etapa, que o referido autor delimita entre 1440 e 1449, deve a sua
importância à continuação da exploração da costa atlântica africana e ao
estabelecimento das primeiras Feitorias comerciais (Golfo de Arguim). Até 1482, a
Feitoria do Golfo de Arguim, será o mais importante centro comercial ultramarino
português e europeu. A burguesia toma definitivamente o partido do Infante D.
Henrique e mobiliza-se para participar na Epopeia. Os particulares que quisessem
explorar a costa africana dependiam da licença do Infante e ficavam obrigados a pagar
um quinto dos lucros.

A terceira etapa, de 1449/50 a 1482, é definida como o materializar de um novo


complexo geográfico, “…no círculo fundamental e mais importante dos interesses
i
económicos e político-estratégicos dos portugueses no Atlântico”. Morre o Infante D.
Pedro (1449) e o Infante D. Henrique (1460). Ao trono sobe D. Afonso V, que mais
tarde, ganhará o cognome de O Africano. Porém, é com a ascensão ao trono de D. João
II (1481), que se dá um novo impulso aos descobrimentos marítimos. A construção do
Castelo e da Feitoria de S. Jorge da Mina (Golfo da Guiné - 1482), são o culminar desta
terceira etapa, assegurando os portugueses o controle e centralização de toda uma vasta
área comercial, bem como, a defesa militar dessa mesma área.
A quarta etapa, 1482/1488, destinou-se sobretudo à exploração da restante costa
africana, com o intuito de encontrar a passagem para o oriente e consequentemente o
caminho que levaria à Índia. As viagens exploratórias de Diogo Cão e a viagem de
Bartolomeu Dias (1487/88) levaram à dobragem do cabo das Tormentas (rebaptizado de
Boa Esperança). O restante caminho até à Índia só não é completado porque a tripulação
estava demasiada debilitada, cansada dos sacrifícios impostos, e Bartolomeu Dias
resolve regressar temendo um motim.

Para que a progressão no Atlântico fosse uma realidade, convém não esquecer que
tiveram de ser reunidas algumas condições como o conjunto de técnicas e
conhecimentos para a navegação.

A Portugal chegavam muitos cartógrafos, astrónomos, matemáticos, navegadores,


contribuindo para o acervo de conhecimentos indispensáveis à navegação, uns visitando
a corte e os portos portugueses e outros afluindo à mítica Escola de Sagres, visitando a
vila concedida ao Infante e certamente privando com ele, sendo bem acolhidos e
partilhando informações. A variedade de instrumentos náuticos e o desenvolvimento na
construção naval foram outros factores que possibilitaram a aventura oceânica.

A grande revolução que possibilita os descobrimentos transoceânicos é a invenção de


uma navegação que assenta o essencial da sua orientação nos astros e numa medição
apoiada essencialmente na determinação das latitudes e com uma determinação, dentro
da possibilidade (uma vez mais) da época, das longitudes.

Na cartografia há algumas inovações como a introdução da escala de latitudes e o


aparecimento de planos hidrográficos de costa. Na construção naval, os primeiros
navios a serem utilizados, foram a barca e o barinel, dos quais pouco se sabe. A
caravela, construída muito provavelmente sob influência das embarcações existentes no
Norte de África, é uma evolução extraordinária pela sua adaptabilidade, o uso da vela
triangular e o poder de navegação à bolina. Mais tarde, nas grandes rotas oceânicas,
substituem-se as caravelas pelas naus.

i
Oliveira, Aurélio - História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa, Lisboa, 1999
BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA, Aurélio Araújo, História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa,


Universidade Aberta, Lisboa, 1999

GODINHO, Vitorino Magalhães, Os Descobrimentos e a Economia Mundial – Vol. III,


Editorial Presença, Lisboa, 1971

MARQUES, A. H. de Oliveira, História de Portugal, Palas Editores, Lisboa, 1977