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DA DÉCADA DE 1920 À DE 1930: transição rumo à crise e à industrialização no Brasil 79

'$'e&$'$'(¬'(WUDQVLomRUXPRjFULVHHjLQGXVWULDOL]DomRQR%UDVLO

Wilson Cano
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

'$'e&$'$'(¬'(WUDQVLomRUXPRjFULVHHjLQGXVWULDOL]DomRQR%UDVLO
5HVXPR 2 WH[WR DSUHVHQWD R SURFHVVR GH WUDQVLomR HFRQ{PLFD H VRFLDO GHVHQYROYLGD QR %UDVLO QD GpFDGD GH 
destacado o denominado modelo primário exportador direcionado a um novo padrão de acumulação – o do crescimento
para dentro, iniciado a partir da Crise de 1929 e da Revolução de 1930. A abordagem é desenvolvida considerando a
dimensão econômica e superestrutural da realidade objeto de análise. A proposta desenvolvida no ensaio, a partir de uma
DPSODUHYLVmRELEOLRJUi¿FDLQFOXVLYHGHSURGXo}HVDQWHULRUHVGRDXWRUpSRUWDQWRDSUHVHQWDUHDQDOLVDUDWUDQVLomRGR
velho padrão primário exportador, marcado pelo predomínio do complexo cafeeiro paulista, rumo a um novo padrão, a da
LQGXVWULDOL]DomRTXHVHFRQVROLGDDSDUWLUGH
3DODYUDVFKDYH'HVHQYROYLPHQWRHFRQ{PLFRPRGHORSULPiULRH[SRUWDGRULQGXVWULDOL]DomR%UDVLO

)5207+(V727+(VWUDQVLWLRQWRZDUGVFULVHVDQGWRZDUGVLQGXVWULDOL]DWLRQLQ%UD]LO
$EVWUDFW7KLVWH[WSUHVHQWVWKHSURFHVVRIVRFLDODQGHFRQRPLFWUDQVLWLRQGHYHORSHGLQ%UD]LOLQWKHVLWSRLQWVRXWWKH
H[SRUWDWLRQSULPDU\PRGHOGLUHFWLQJWRDQHZDFFXPXODWLRQVWDQGDUG±WKHRQHZKLFKJURZVLQZDUGVWDUWHGIURPWKH&ULVHV
of 1929 and the Revolution of 1930. The approach is developed considering the economic and superstructural dimension of
WKHUHDOLW\VXEMHFWRIDQDO\VLV7KHSURSRVDOGHYHORSHGLQWKHWHVWIURPDQDPSOHELEOLRJUDSKLFDOUHYLHZLQFOXGLQJSUHYLRXV
SURGXFWLRQVE\WKHDXWKRULVWKHUHIRUHWRSUHVHQWDQGDQDO\VHWKHWUDQVLWLRQRIWKHROGSULPDU\H[SRUWLQJVWDQGDUGPDUNHG
E\SUHGRPLQDQFHRI3DXOLVWDFRIIHHFRPSOH[WRZDUGVDQHZVWDQGDUGWKHRQHFRQFHUQLQJLQGXVWULDOL]DWLRQZKLFKJDLQV
strength from 1933.
.H\ZRUGV(FRQRPLFGHYHORSPHQWH[SRUWDWLRQSULPDU\PRGHOLQGXVWULDOL]DWLRQ%UD]LO

Recebido em: 28.02.2012. Aprovado em: 09.04.2012.

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


80 Wilson Cano

1 INTRODUÇÃO superestrutura tem como fundamento a dicotomia


PDU[LVWD ³%DVH6XSHUHVWUXWXUD´ H QmR LJQRUR VHX
A construção do presente ensaio orienta-se caráter polêmico até hoje persistente.
SRUGRLVREMHWLYRVJHUDLV2SULPHLURpPRVWUDUTXH Marx, na “A Ideologia Alemã” (1845-46),
D GpFDGD GH  SDUD R %UDVLO UHSUHVHQWD XP D¿UPRX TXH D EDVH RX LQIUDHVWUXWXUD GD HFRQRPLD
processo de transição econômica e social, a partir condiciona e determina não só a forma e a ação do
do chamado modelo primário exportador, rumo a Estado, mas também o resto da superestrutura. No
novo padrão de acumulação - o do crescimento para ³%UXPiULR´  DGHWHUPLQDomRpPDLVH[SOLFLWD
GHQWURTXHVHULDGHVHQFDGHDGRDSDUWLUGD&ULVH o modo de produção e as formas de propriedade
de 1929 e da Revolução de 1930. Transitamos, condicionam as idéias, os sentimentos, as ilusões.
assim, do velho padrão primário exportador, onde o 1RV *UXQGLVVH   H[SOLFLWD D TXHVWmR GDV
complexo cafeeiro paulista predominava, rumo a um Artes, especialmente da arte antiga convivendo
QRYRRGDLQGXVWULDOL]DomRTXHVH¿UPDULDDSDUWLU com modos de produção mais modernos. (MARX;
de 1933. Para desenvolver esses objetivos, em (1*(/60$5;%2772025(
seu tópico 1, o texto procura examinar as relações 1993; HARNECKER, 1971). Posteriormente, na
de interdependência entre a base produtiva e a “Contribuição à crítica da Economia Política” (1859),
VXSHUHVWUXWXUDQDGpFDGDGHFRQFOXLQGRTXH DD¿UPDomRSDUHFHVHUDLQGDUDGLFDOQRVHQWLGRGH
as transformações econômicas – mas não somente TXH³RPRGRGHSURGXomRHDVUHODo}HVGHSURGXomR
elas – nela ocorridas, tiveram importante papel condicionam o processo social, político e intelectual
nas principais transformações de cunho social. No em geral”. (MARX, 1946, p. 31-32).
tópico 2, é lembrada, de forma muito resumida, Isto, contudo, foi melhor explicado e
como enfrentamos a “crise de 29”, usando coragem UHODWLYL]DGR HP REUDV SRVWHULRUHV FRPR QD ³7HRULD
e vontade política para instaurar, por Vargas, uma da Mais Valia” (1861-63), no “Capital” (1861-79) e
SROtWLFDGHGHIHVDGDUHQGDHGRHPSUHJRRTXHH[LJLX principalmente depois, na correspondência (1890-
a reconstrução do estado nacional e desencadeou  GH(QJHOVFRPWHUFHLURVTXDQGR¿FDH[SOtFLWRTXH
R LQtFLR GR SURFHVVR GH LQGXVWULDOL]DomR )D] SDUWH DEDVHHFRQ{PLFDQmRpD~QLFDGHWHUPLQDQWHTXH
WDPEpPGHVVHWySLFRUHD¿UPDUDMXVWH]DGDDQiOLVH HODRp³HP~OWLPDLQVWkQFLD´HTXHDVXSHUHVWUXWXUD
de Furtado, sobre esse episódio. H[HUFH WDPEpP XPD LQÀXrQFLD UHFtSURFD VREUH D
1mR WHULD VHQWLGR VLPSOHVPHQWH UHSURGX]LU base produtiva. Assim, a superestrutura não era por
DTXL DLQGD TXH GH IRUPD UHVXPLGD GRLV ORQJRV HOHV FRQVLGHUDGD DSHQDV FRPR VLPSOHV UHÀH[R GR
WH[WRV TXH HVFUHYL Ki DOJXQV DQRV WUDWDQGR movimento da economia, mas também geradora
H[DWDPHQWHGHVVDVTXHVW}HVRXVHMDGRSURFHVVR de pressões e efeitos “internos” (nela mesma) e
YHUL¿FDGR QD GpFDGD GH  &$12   H GR “externos” (sobre a base). (MARX, 1977; 1973;
ocorrido na de 1930 (CANO, 2006c). Também não ENGELS, 1977; HARNECKER, 1971).
WHULDVHQWLGRWHQWDUUHHVFUHYrORVGDGRTXHFRQWLQXR É preciso também lembrar as críticas de
concordando com seus termos gerais. Assim, e Gramsci, sobre o papel da ideologia, da política e da
para atender à solicitação deste texto, resumi-os, o cultura, nas atitudes das elites e nas reações ativas e
PDLVTXHSXGHUHYLVDQGRXPDRXRXWUDSDVVDJHP passivas da massa trabalhadora diante do exercício
e acrescentando outras para melhor esclarecer o GR SRGHU SHODV HOLWHV %2772025(   1mR
leitor1. se pode ainda, ignorar a interação “Marx-Freud”,
D SDUWLU GD ³7HRULD GR ,QFRQVFLHQWH 6RFLDO´ TXH
 $75$16,d­25802$2%5$6,/02'(512 VHP G~YLGD WRUQD D GLVFXVVmR GD TXHVWmR ³%DVH
1919-1929 Superestrutura” ainda mais complexa. (FROM,
1967a; 1967b). Contudo, isto extravasa os limites
Neste tópico serão destacados alguns fatos deste artigo e as limitações do autor.
e transformações sociais (institucionais, políticos, $VVLP VHQGR D YLVmR DTXL DGRWDGD QmR
FXOWXUDLV HWF  TXH VH PDQLIHVWDP GXUDQWH HVVH VHUi ³GRJPiWLFD´ PDV VLP XPD YLVmR GH TXH
SHUtRGRHTXHDPHXMXt]RWrPIRUWHVLQWHUUHODo}HV - no capitalismo, embora a base impulsione
com importantes transformações ocorridas no PRGL¿FDo}HV QD VXSHUHVWUXWXUD QmR Vy Ki HIHLWRV
movimento da economia e nas mudanças da estrutura UHFtSURFRV GHVWD HP UHODomR jTXHOD SUHVVLRQDQGR
produtiva. Não é nosso objetivo analisar esses fatos, por “mudanças materiais”, como também
DPDLRUSDUWHGRVTXDLVDOLiV FXOWXUDPRYLPHQWRV GHWHUPLQDo}HV ³KRUL]RQWDLV´ QR VHQWLGR GH TXH
trabalhistas, tenentismo, p.ex.), tem sido objeto de há intra-determinações tanto na infra como na
conhecidos trabalhos relevantes na Literatura e nas superestrutura.
&LrQFLDV 6RFLDLV QR %UDVLO 2 REMHWLYR DTXL p R GH /HPEUHPRV TXH QR FHQiULR LQWHUQDFLRQDO
WHQWDU RUJDQL]DU RV TXH MXOJXHL PDLV UHOHYDQWHV H entre 1870 e 1930, a 2a. Revolução Industrial
SHULRGL]iORVYLVjYLVRPRYLPHQWRGD(FRQRPLD se consolidava nos países mais avançados, e
$ EDVH WHyULFD DTXL XWLOL]DGD SDUD R H[DPH atingiria a fase do “Fordismo” nos EUA: automóvel,
dessas inter-relações entre base produtiva e eletricidade, rádio, cinema e telefone promoveriam

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LPSRUWDQWHVWUDQVIRUPDo}HVWDQWRQD%DVHFRPRQD SUHoRV H TXDQWLGDGHV R DOJRGmR DLQGD WHYH XPD
Superestrutura. É este também o grande momento expansão, graças à reconstrução do pós-guerra e
do crescimento da massa de trabalhadores, da pela proteção indireta dos preços mantidos pelos
expansão sindical e do início do Welfare State, EUA; mas as demais apresentaram estagnação ou
ampliando também os direitos civis. PHVPR TXHGD (P YDORU HP OLEUDV HVWHUOLQDV  DV
A notável expansão concentrada do mais afetadas negativamente foram as do açúcar
FDSLWDOLVPR  TXH ³UHFRORQL]D´ R PXQGR SHULIpULFR   HGDERUUDFKD  HQTXDQWRDVGRFDIp
promoveria também sua extroversão internacional FUHVFLDP0DVpSUHFLVRGL]HUTXH6mR3DXOR
MXQWR DRV SDtVHV SHULIpULFRV SDUD D FRQTXLVWD GH FRQFHQWUDYDFHUFDGHGHVVDVH[SRUWDo}HVTXH
mercados e posições econômicas. É o momento R 5LR GH -DQHLUR PDQWLQKDDV HVWDJQDGDV H TXH
da luta concorrencial dos grandes trustes e embora as de Minas Gerais e do Espírito Santo
FDUWpLV LQWHUQDFLRQDLV GD TXHGD GD KHJHPRQLD GR tivessem obtido forte expansão, suas estruturas
,PSHULDOLVPR ,QJOrV VXEVWLWXtGR D SDUWLU GR ¿QDO GD econômicas e sociais não permitiam a geração
1a. Grande Guerra, pelo norte americano. de elevados excedentes para uma acumulação
Essas transformações concorreram, nos GLYHUVL¿FDGDFRPRHP6mR3DXOR2.
países avançados, para o surgimento do modernismo, Assim, essa década, em relação à de 1910-
representado não só nas artes, na literatura, mas PRVWUDXPDLQÀH[mRRXTXHGDQDVHFRQRPLDV
WDPEpPQDXUEDQL]DomRTXHJDQKDQRYDVIRUPDV regionais não-cafeeiras e na do Rio de Janeiro, com
e nos costumes. Por serem inseridos no capitalismo sua produção cafeeira cadente e estagnada desde o
internacional no século XIX, também os países início do século.
subdesenvolvidos seriam afetados por várias Contudo, se comparada com a primeira
WUDQVIRUPDo}HV PRGHUQL]DGRUDV SULQFLSDOPHQWH década do século XX ou com a última do século
FRP R LQtFLR GD LQGXVWULDOL]DomR GHVHQFDGHDGD D XIX, as exportações – salvo as do café no Rio
partir da ruptura da “Crise de 1929”. de Janeiro e as do açúcar e da borracha, todas
$ %LEOLRJUD¿D GHVWH WySLFR VHUi DSRQWDGD GHSULPLGDV ± DSUHVHQWDUDP IRUWH H[SDQVmR 2 TXH
em notas de rodapé, salvo as obras a seguir VHGHYHVDOLHQWDUGHVWHVIDWRVpTXHRFUHVFLPHQWR
PHQFLRQDGDV D ¿P GH HYLWDUVH XP Q~PHUR do excedente e dos lucros apresenta uma trajetória
H[FHVVLYR GH QRWDV TXH HVVDV REUDV H[LJLULDP crescente e altamente positiva em São Paulo
SRLVVmRDVTXHSURSRUFLRQDUDPJUDQGHQ~PHURGH durante todo esse período, ampliando sobremodo
informações de cunho social para este artigo: i) o VXD FDSDFLGDGH GH FUHVFLPHQWR H GLYHUVL¿FDomR
excelente e extenso trabalho de W. Martins (1978), capitalista, ganhando colossal dianteira econômica
HVSHFL¿FDPHQWH RV YROXPHV 9 H 9, TXH WUDWDP GR sobre as demais regiões do país. (CANO, 2007b).
SHUtRGR  FRP R TXDO SXGH FDWDORJDU H 1mRVHGHGX]DGLVVRTXHWRGDDSHULIHULDHVWHYH
agendar os principais fatos no campo da cultura estagnada. O baixo crescimento das exportações
(literatura, artes plásticas, teatro, cinema, etc.); e na década de 1920, em relação à de 1910, ao
ii) o de E. Carone (1973) (A Primeira República), manter a produção em níveis altos – salvo açúcar
GH RQGH SXGH RUJDQL]DU R URO GRV SULQFLSDLV IDWRV e borracha – ali também gerou lucros suscetíveis
políticos, institucionais e sociais. Assim, estes textos, de estimular uma expansão da economia, da
ODUJDPHQWHXWLOL]DGRVQHVWHWUDEDOKRVRPHQWHVHUmR XUEDQL]DomRHGDLQG~VWULD,VVRH[SOLFDHPJUDQGH
UHODFLRQDGRV QR URO ELEOLRJUi¿FR ¿QDO VDOYR HP parte, o elevado nível do investimento industrial
DOJXPDVFLWDo}HVHVSHFt¿FDVQHFHVViULDV no período3 2 TXH RFRUUHX SRU RXWUR ODGR p TXH
a dinâmica de crescimento de São Paulo foi muito
2.1 Principais transformações da economia PDLVLQWHQVDHGLYHUVL¿FDGDGRTXHDGRUHVWDQWHGR
SDXOLVWDrumo à “Crise de 29” país, consolidando, a partir daí, uma concentração
LQGXVWULDO TXH Vy SHUGHULD VHX tPSHWR D SDUWLU GD
$ GpFDGD GH  TXDQGR FRPSDUDGD década de 1970.
com a anterior, constitui período complexo para a Essa expansão gerou maior complexidade
DQiOLVH HFRQ{PLFD GR %UDVLO SRU GLYHUVDV UD]}HV VRFLDO H HFRQ{PLFD DPSOLDQGR RV FRQÀLWRV GH
Em primeiro lugar, no plano externo, por contrair interesses e obrigou o Estado a se fortalecer
os preços da maioria das commodities, elevados institucionalmente. O conservadorismo das elites
durante a Primeira Guerra; pela crise internacional propiciou-lhe o aumento considerável também do
FHQWUDGD QRV (8$  GH  TXH FRQWUDLX R aparelho repressor. É justamente em decorrência
comércio exterior; e pelo aumento da instabilidade GHVVD GLYHUVL¿FDomR VRFLDO H HFRQ{PLFD H GD QmR
¿QDQFHLUD LQWHUQDFLRQDO 1R SODQR LQWHUQR SRU UHVROXomR GHPRFUiWLFD GHVVHV FRQÀLWRV TXH RV
políticas econômicas ortodoxas praticadas pelo movimentos reivindicatórios e o revolucionário
JRYHUQR IHGHUDO H SHORV UHÀH[RV LQWHUQRV GDV chegaram à ruptura de 1930.
circunstâncias internacionais apontadas. 'DGR TXH DV WUDQVIRUPDo}HV HFRQ{PLFDV
De nossas principais exportações, só o e sociais de maior monta ocorreram em São
café apresentou um desempenho auspicioso, em Paulo, o restante deste tópico irá se referir

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SUHSRQGHUDQWHPHQWH D HODV ID]HQGRVH TXDQGR nesse período, com a produção rural mais avançada
necessário, alguma referência regional ou ao país GRSDtVR&HQVRGHPRVWUDYDTXHRSHVRGD
como um todo. agricultura paulista no total nacional já era de 21% se
$SHVDU GH TXH DOJXQV DQRV GR SHUtRGR VH excluído (em ambas) o café, ou de 25% se incluída
apresentam como “maus” (21-22 com a crise dos HPDPEDV DFDIHLFXOWXUD2HVIRUoRGHSHVTXLVDGR
preços do café, 24 com a revolução, 29 com a JRYHUQRHVWDGXDOQRFXOWLYRVHOHomRHFODVVL¿FDomR
depressão), o período como um todo apresenta - particularmente no caso do algodão e da cana de
resultado médio espetacular: grande aumento físico açúcar - prepararia essa agricultura para um novo
e de valor nas exportações; notável expansão da VDOWRTXDOLWDWLYRQDGpFDGDVHJXLQWHDGHVSHLWRGD
área plantada dos demais produtos, além da área profundidade da “Crise de 29”.
cafeeira; “boom” de investimento industrial; maior O esforço acumulativo não se restringiu ao
inserção produtiva do capital forâneo; instalação campo. Pelo contrário, a extraordinária expansão
de novos setores industriais mais complexos; e GD HFRQRPLD XUEDQD VH IH] QRWDU WDQWR SHOD
DPSOLDomRHGLYHUVL¿FDomRXUEDQD expansão da infraestrutura - principalmente, com a
Por um lado, embora o período fosse consolidação de sua rede ferroviária -, da construção
“amortecedor de tensões” (com o grande aumento civil, da indústria e dos serviços.
do emprego e da massa de salários e de lucros), A complexidade econômica da década de
o ciclo expansivo trouxe inevitável aumento de 1920 exiJHTXHRDQDOLVWDQmRVHDWHQKDDSHQDVDR
FRQÀLWRV H[FHVVR GH FDSDFLGDGH SURGXWLYD FDIp H exame de uma ou duas variáveis ou apenas a um
DOJXQV VHWRUHV LQGXVWULDLV  PDLRU RUJDQL]DomR GD RX RXWUR DQR 6H WRPDUPRV RV GDGRV GR 3,% UHDO
FODVVH WUDEDOKDGRUD FRQÀLWRV GH LQWHUHVVHV HQWUH HQFRQWUDUHPRVGHIDWRXPDTXDVHHVWDJQDomRHQWUH
frações da burguesia; alta de preços; reivindicações 1924 e 1926, mas os três anos estão, em média,
por mais direitos sociais e expansão do movimento entre 3% a 6% acima de 1923.4
UHYROXFLRQiULR WHQHQWLVWD TXH FXOPLQDULD QDV 6HROKDUPRVSDUDRFkPELRFRQVWDWDPRVTXH
Revoluções de 1922, de 1924, da Coluna Prestes DWD[DGHHVWiYDORUL]DGDHPFHUFDGHHP
QHVVH PHVPR DQR H DR ¿QDO GR SHUtRGR QD UHODomRjGHPDVHVWHDQRDGHVYDORUL]DomR
Revolução de 1930. foi muito forte, de 33% em relação à de 1922. Ainda
2 VHJXQGR 3ODQR GH 9DORUL]DomR GR &DIp DVVLPDWD[DGHIRLPDLRUGRTXHDGH
(1917-18) teve seu sucesso ampliado graças à HPDLRUGRTXHDGH7RPDQGRVHD
IRUWHJHDGDGHTXHIH]RVSUHoRVGH média de 1927-1929, a taxa foi 9% menor (ou mais
dispararem, dando aos governos federal e estadual, YDORUL]DGD GRTXHDGHPDVIRLVXSHULRU PDLV
enormes lucros. A crise internacional de 1920-22 GHVYDORUL]DGD GRTXHDVGRSHUtRGR
derrubaria de novo os preços, mas o sucesso dos Se olharmos os indicadores monetários,
3ODQRVGHHGHIH]VXUJLURWHUFHLURGH chegaremos a conclusões semelhantes. O nível de
1921-23, igualmente bem sucedido. preços sempre esteve abaixo, em todos os anos,
(VVHV UHVXOWDGRV SRVLWLYRV LQGX]LUDP D da década, do câmbio e da evolução dos meios
cafeicultura paulista a uma atitude ainda mais GH SDJDPHQWR HP TXH SHVH TXH HVWHV WDQWR 0
ousada: entre 1924-26 formula o Plano de Defesa TXDQWR 0  WLYHVVHP VH FRQWUDtGR HP  HP
Permanente do Café. Comparada com 1918, sua relação a 1924-1925.
FDSDFLGDGHSURGXWLYDVHHOHYDUDDR¿QDOGDGpFDGD $VVLP SRU PDLV RUWRGR[RV TXH WLYHVVHP
HP$VVXSHUVDIUDVGHHGHTXH VLGRQRVVRVJRYHUQRVHHPTXHSHVHDFRQWUDomR
tiveram menos a ver com o aumento da capacidade da produção industrial em 1925 e em 1926, ela
e mais com as excepcionais condições naturais e do cresceu à média anual de 6,6% entre 1920 e 1928.
WUDWRSUDWLFDGRQDTXHOHVDQRV '(/),01(72  &RQ¿UPDP R H[FHOHQWH GHVHPSHQKR LQGXVWULDO DV
SUHFLSLWDUDPDFULVHTXHVHDQWHFLSDjPXQGLDOGH importações de bens de capital para a indústria: em
outubro de 1929. todos os anos de 1923 a 1928, para o conjunto do
Comparadas a primeira com a terceira %UDVLOHODVIRUDPEHPPDLRUHVGRTXHDVGDSULPHLUD
GpFDGD YrVH TXH D SURGXomR ItVLFD H[SRUWiYHO GR
década do século XX, e as de São Paulo, cresceram
FDIpDXPHQWRXHPHQTXDQWRHPYDORU GHOLEUDV
ainda mais.
esterlinas) suas exportações cresceram em 118%,
A indústria de transformação apresenta
graças às políticas implementadas. Não é difícil
QRYR ³ERRP´ GH LQYHVWLPHQWR TXH QmR DSHQDV
HQWHQGHUTXHDGpFDGDHPWHUPRVGHDFXPXODomR
causou forte expansão da capacidade produtiva, mas
capitalista, seria verdadeiramente “de ouro”!
WDPEpPOKHSURPRYHXH[WUDRUGLQiULDGLYHUVL¿FDomR
A agricultura dos demais produtos continuou
Tomados os anos de 1920 a 1928 a indústria paulista
a ter forte expansão de área e de produção,
crescera à elevada média anual de 6,6% (e o resto
GLYHUVL¿FDQGRDDLQGDPDLV4XHUDQtYHOSULYDGRRX
GR%UDVLOD $FRQFHQWUDomRLQGXVWULDOHP6mR
DRGR(VWDGRIRLJUDQGHDLQWURMHomRGHPiTXLQDV
Paulo aumentava, dos 31,5% do total nacional em
LQVXPRV PDLV PRGHUQRV H SHVTXLVD FLHQWt¿FD
1919, para 37,5% em 1929.
PRVWUDQGRRVGDGRVR¿FLDLVTXH6mR3DXORFRQWDYD

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eIDWRTXHRVHWRUWr[WLODOJRGRHLURIRLXPGRV Em suma, economia e sociedade em São
TXH PDLV LQYHVWLX D SRQWR GH JHUDU XPD FULVH GH Paulo haviam crescido e se tornado mais complexas.
sobrecapacidade produtiva ao ¿QDO GR SHUtRGR  $ FLGDGH Mi LQLFLDYD VXD YHUWLFDOL]DomR H R XVR GH
TXHVyVHULDUHVROYLGDFRPD3ROtWLFDGH³'HIHVDGR HOHYDGRUHV DR PHVPR WHPSR HP TXH R WUDQVSRUWH
Café” nos anos 30. É também verdadeiro, porém, XUEDQRDPSOLDYDVXDSHULIHUL]DomR
TXHRVGHPDLVVHJPHQWRVWr[WHLVVHFRQVROLGDPQR Dos 579.000 habitantes de 1919, a cidade
período. Por outro lado, a dimensão da indústria, FRQWDULDDR¿QDOGDGpFDGDFRPFHUFDGH
GDDFXPXODomR¿QDQFHLUDGRPHUFDGRLQWHUQRHGD e sua força trabalhadora industrial já atingia 160.000
SUySULD XUEDQL]DomR LPS{V DPSOD GLYHUVL¿FDomR j operários. Já era, de fato, “o maior centro industrial
estrutura industrial. da América Latina”, como viria a ser chamada vinte
*DQKRX PDLV GHVWDTXH D LPSODQWDomR GH anos depois.
novos e mais complexos segmentos como os da De uma sociedade onde a presença do
metalúrgica, mecânica, material elétrico, material imigrante estrangeiro havia sido predominante até o
GH WUDQVSRUWH H TXtPLFD FRP HOHYDGRV JUDXV GH ¿PGD3ULPHLUD*XHUUDDFLGDGHDJRUDYLDFUHVFHUD
concentração em São Paulo. Já não se tratava, pois, elevado ritmo, a presença do migrante nacional, de
de uma indústria de bens de consumo não durável: PLQHLURVHQRUGHVWLQRVSULQFLSDOPHQWHRTXHWUDULD
DJRUDMiVHSURGX]LDPXWHQVtOLRVGXUiYHLVLQVXPRV novas combinações sociais e culturais.
industriais e bens de capital (estes, de forma ainda
muito incipiente). 2.2 Algumas das principais transformações na
A consolidação da economia paulista, como superestrutura
principal locus da acumulação nacional atraiu a
ORFDOL]DomR QRWDGDPHQWH QD FLGDGH GH 6mR 3DXOR O Estado ampliaria sua capacidade de
e cercanias, de grandes empresas internacionais, intervenção na economia e na sociedade. Na
TXH SDUD Oi IRUDP SURGX]LU RX PRQWDU SURGXWRV GH primeira metade da década, suas intervenções
maior complexidade tecnológica: entre as principais, econômicas foram muitas, seja concedendo vários
citemos a Rhodia, Ford. GM, GE, International, RCA, incentivos industriais (ao cimento e ao aço, p.ex.),
3KLOOLSV3LUHOOL)LUHVWRQH8QLOHYHU1HVWOp.RGDNH seja apoiando a política cafeeira. Na segunda
outras. metade, contudo, sua intervenção predominou no
(VWH tPSHWR GH FUHVFLPHQWR H GLYHUVL¿FDomR campo político, com aumento da repressão, além
teria outras importantes implicações: aumento de uma orientação econômica conservadora ao
GD SURFXUD GH WUDEDOKDGRUHV PDLV TXDOL¿FDGRV ¿QDO GR SHUtRGR (P SDUWH LVWR WHP D YHU FRP D
ampliação de serviços de apoio, aumento dos nexos ideologia dominante, com o excelente desempenho
de interdependência estrutural (agricultura-extração- H[SRUWDGRUTXHJHURXJUDQGHVVDOGRVFRPHUFLDLVH
indústria-serviços), entre outros. com as graves perturbações políticas e militares do
Café, indústria e o próprio crescimento período. Contudo, viu-se compelido a ampliar sua
populacional urbano exigiram uma correspondente DomRQRFDPSRGDOHJLVODomRWUDEDOKLVWDDLQGDTXH
ampliação dos serviços. Os bancos nacionais, viesse a ser pouco praticada.
minoritários no início do século, tiveram grande +i PXGDQoDV TXDOLWDWLYDV VLJQL¿FDWLYDV QRV
H[SDQVmRSDVVDQGRDGRPLQDUQR¿QDOGRSHUtRGR movimentos trabalhistas do período. De um
WUrV TXDUWRV GR PRYLPHQWR EDQFiULR GH HQWmR maior sentido assistencialista, passava-se a um
Essa expansão do sistema bancário e a maior VLQGLFDOLVPRPDLVRUJDQL]DGRHPDLVjHVTXHUGD2V
disseminação de suas relações com o Estado, a DQDUTXLVWDVVRIUHUDPSHUGDGHHVSDoRSROtWLFRSDUD
economia e a sociedade impuseram também sua os comunistas, notadamente com a transformação
FUHVFHQWH LQVWLWXFLRQDOL]DomR H UHJXODUL]DomR Mi QR VRIULGDSHOR3DUWLGR&RPXQLVWD%UDVLOHLUR3&%HP
início da década. SRUH[DQDUTXLVWDV
$OpPGDFRQVROLGDomRGRSDUTXHIHUURYLiULRH As pautas reivindicativas dos vários eventos
GHVHXVVHJPHQWRVHVSHFL¿FDPHQWHXUEDQRVLQLFLD (moções, greves, manifestos, congressos, etc.) além
se o “rodoviarismo” e a expansão das redes dos GH PHOKRU RUJDQL]DGDV SHOD FODVVH WUDEDOKDGRUD 
bondes elétricos estendendo a malha urbana rumo reivindicação de direitos trabalhistas como férias,
jSHULIHULD$R¿QDOGDGpFDGDMiRV{QLEXVXUEDQRV jornada de trabalho, trabalho do menor, acidente do
SDVVDYDPDWHUSDSHOPDLVVLJQL¿FDWLYRTXHDQWHV WUDEDOKRHWFTXDVHVHPSUHHUDPDFRPSDQKDGDV
de reivindicações de direitos civis, como liberdade de
2 FRPpUFLR FUHVFH H VH GLYHUVL¿FD H R
sindicato e de sua imprensa, voto secreto, liberdade
sistema urbano, como um todo, passa a exigir
de reunião, etc.
maior expansão de serviços de saúde, educação,
A capacidade “postergatória” do Estado e
saneamento, alimentação, habitação e transportes.
das elites era muito grande. A jornada de 8 horas
A expansão urbana desordenada passava também
MiKDYLDVLGR³FRQTXLVWDGD´QDJUHYHGHPDV
D UHFODPDU XP ³SODQHMDPHQWR´ TXH FXOPLQDULD HP
só passaria a ser mais estendida a partir da greve
1930 no famoso “Plano de A Avenidas” de Prestes
de 1919. A legislação sobre acidentes de trabalho já
Maia.

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


84 Wilson Cano

havia sido sancionada em 1919, mas só em 1926 se nos Estados, impedindo recursos judiciários contra
efetivava. A lei de férias e o Código de Menores eram o Estado de Sítio e regulamentando a perda de
sancionados em 1926, mas também continuariam PDQGDWRV$OpPGLVVRLQWURGX]LXQD&RQVWLWXLomRD
como “letras mortas”. (VIANNA, 1978). permissão para a expulsão de estrangeiros e a de
O aparelho repressivo (jurídico, policial OHJLVODU VREUH R WUDEDOKR LQRYDo}HV HVWDV TXH QmR
e empresarial) e o Estado de Sítio no Governo deixavam margem a dúvida sobre suas intenções
$UWKXU%HUQDUGHVGHXPODGRHGHRXWURDJUDQGH controladoras e repressoras aos movimentos
expansão do emprego e uma certa “melhoria salarial” trabalhistas. (CAMPANHOLE; CAMPANHOLE,
após a greve de 1919, arrefeceram o movimento /,0$62%5,1+29,$11$ 
grevista do período. A despeito disso, foram muitas A formação de instituições patronais seria
as greves entre 1919 e 1923 e depois de 1927; o mais lenta. A criação do Centro da Indústria de Fiação
%UDVLO VH ¿OLDULD j 2UJDQL]DomR ,QWHUQDFLRQDO GR e Tecelagem do Algodão do Rio de Janeiro em 1919
7UDEDOKR2,7 HP  H HP  VH UHDOL]DYD R e o Centro das Indústrias de Fiação e Tecelagem
7HUFHLUR &RQJUHVVR 2SHUiULR %UDVLOHLUR QR 5LR GH GH 6mR 3DXOR HP  FRQ¿UPDP D FRQVROLGDomR
-DQHLUR/HPEUHPRVDLQGDRVHVIRUoRVGR3&%SDUD desse segmento fabril já no começo da década.
IRUPDU XPD IUHQWH GH HVTXHUGD HP  FRP D Contudo, o empresariado industrial da época
FRQVWLWXLomRGR%ORFR2SHUiULR tinha muito mais um caráter econômico mercantil do
O crescimento da classe trabalhadora, de sua TXH industrial propriamente dito. Com o passar dos
RUJDQL]DomRHGHVHXVPRYLPHQWRVGHXPODGREHP anos, a indústria leve amadureceu e a introdução
FRPR D FUHVFHQWH H[DFHUEDomR GH FRQÀLWRV HQWUH de ramos mais complexos implicava em aumento
RVYiULRVVHJPHQWRVVRFLDLV ROLJDUTXLDEXUJXHVLD H GLYHUVL¿FDomR GH LQWHUHVVHV HVSHFL¿FDPHQWH
proletariado, camadas médias, militares) e o LQGXVWULDLVTXHFDGDYH]PDLVFROLGLDPFRPRFDUiWHU
(VWDGRLQGX]HQWUHWDQWRXPFUHVFHQWHmovimento “liberal” do comércio em geral. Tarifas, impostos e
conservador, como mecanismo de defesa do política econômica intervencionista, colidiam com os
“sistema”. intuitos liberalistas.
Além de um aumento de explicitações Assim, as indústrias se resignam a permanecer
nacionalistas, assiste-se no período a várias como membros da Associação Comercial de São
manifestações antissemitas e antilusitanas, a um 3DXOR DWp  TXDQGR HQWmR IXQGDP R
UHDVFHQGLPHQWRGRSRVLWLYLVPRHGRFDWROLFLVPRTXH Centro das Indústrias do Estado de São Paulo. A
em parte, derivaram para o integralismo e para as defesa dos interesses industriais, convergentes com
campanhas contra a “democracia liberal”. o ideário do progresso material do país está explícita
O “sistema” já vinha se defendendo desde no discurso inaugural de dois de seus principais
 TXDQGR (SLWiFLR 3HVVRD GHFUHWDYD ' OLGHUHVGHHQWmR)UDQFLVFR0DWDUD]]R 3UHVLGHQWH 
de 6/1/21, “Lei dos Comunistas”) o direito de expulsar e Roberto Simonsen (Vice-Presidente). (DEAN,
HVWUDQJHLURV TXH ³SHUWXUEDVVHP D RUGHP S~EOLFD´ 1971; PINHEIRO; HALL, 1981).
¿]HVVHPSURSDJDQGDGHHVTXHUGDJUHYHVHWF(P (VVD LQVWLWXLomR HP  HUD PDLV GR TXH
$UWKXU%HUQDUGHVGHFUHWDYDD/HLGH,PSUHQVD RSRUWXQD1mRDSHQDVSHODVUD]}HVDFLPDH[SRVWDV
³/HL 0RUGDoD´  TXH SXQLD H PDQGDYD SUHQGHU RV PDVSULQFLSDOPHQWHSRUTXHGHXPODGRDLQG~VWULD
TXH HVFUHYHVVHP FUtWLFDV DR JRYHUQR H DLQGD R muito investira - notadamente a têxtil algodoeira,
Estado de Sítio,TXHYLJHULDHPGHVHXVDQRVGH TXH Mi HVWDYD HP FULVH GHVGH PHDGRV GH  
mandato. Como fruto da Revolução de 1924, foram e se defrontava com grande capacidade ociosa,
deportadas cerca de 900 pessoas e durante 1924- H GH RXWUR SRUTXH R FRQVHUYDGRU JRYHUQR GH
27 várias publicações foram fechadas ou pararam :DVKLQJWRQ/XL]WHLPDYDHPPDQWHUXPDSROtWLFDGH
GH FLUFXODU /,0$ 62%5,1+2  3,1+(,52 HVWDELOL]DomR FRP SOHQD FRQYHUVLELOLGDGH (QWHQGR
HALL, 1981; FOOT; LEONARDI, 1982). TXHDVSULQFLSDLVOLGHUDQoDVLQGXVWULDLVHPMi
Uma “preciosidade” do período foi a decisão DQWHYLDP D LQHTXtYRFD QHFHVVLGDGH GH XPD ¿UPH
do Centro das Indústrias de Fiação e Tecelagem de intervenção da política industrial pública.
6mR 3DXOR TXH HP  LQVWLWXLX D LGHQWL¿FDomR 8UEDQL]DomR PRGL¿FDo}HV DVFHQVLRQDLV QD
³FLHQWt¿FD´ GH VHXV WUDEDOKDGRUHV HP FRQOXLR FRP estrutura ocupacional, expansão e melhorias na
a polícia, no caso de roubo ou agitação política, RUJDQL]DomR VLQGLFDO H PDLRU DFHVVR j HGXFDomR
TXDQGRHQWmRRWUDEDOKDGRUHUDGHPLWLGRHSUHVRH  R %UDVLO SDVVD GH XP FRQWLQJHQWH GH  GH
VXD ¿FKD ³FLHQWt¿FD´ HQYLDGD D WRGDV DV HPSUHVDV DOIDEHWL]DGRV HP  SDUD  HP  
GR&,)763 3,1+(,52+$// (VVDV¿FKDV sem dúvida contribuíram para maior tomada de
continham subsídio básico para as “listas negras” FRQVFLrQFLDVRFLDOWDQWRGDFODVVHSUROHWiULDTXDQWR
para deportação. (PINHEIRO; HALL, 1981). da burguesia, engrossando outros movimentos
(P  %HUQDUGHV SURPRYHULD DLQGD sociais. Por outro lado, altas do custo de vida,
a Reforma da Constituição Federal de 1891. repressão policial e manutenção do viciado sistema
Resumidamente, a reforma fortaleceu o Poder HOHLWRUDO  DOpP GR PRYLPHQWR PLOLWDU TXH RFRUULD ±
Executivo federal, expandindo o poder de intervenção ampliavam o clima de reivindicação e contestação.

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


DA DÉCADA DE 1920 À DE 1930: transição rumo à crise e à industrialização no Brasil 85
5HFRUGHPRV TXH D YLWyULD GH :/XL] WURX[H HP XPD IHUR] FUtWLFD jV ROLJDUTXLDV UXUDLV DR YLFLDGR
VHJXLGDIRUWHGHVYDORUL]DomRFDPELDOHDUHYRJDomR sistema eleitoral, à péssima situação social e se
GD /HL GR ,QTXLOLQDWR H LVWR DSyV DV GHUURWDV batia ainda por uma reforma constitucional e por
militares dos revolucionários de 1922 e de 1924 e uma justiça federalista.
da conservadora reforma constitucional de 1926. Sua pregação, portanto, ia ao encontro das
)$252  /($/  /,0$ 62%5,1+2 UHLYLQGLFDo}HVHFRQWHVWDo}HVTXHHUDPIHLWDVSHODV
1975; SANTA ROSA, 1976). camadas médias urbanas. Assim, no engrossamento
Ocorreram manifestações e reivindicações, do movimento revolucionário, a partir de 1926, dele
as mais variadas, como por exemplo, a tentativa ID]HPSDUWHQmRVyRV³WHQHQWHV´PDVDGLVVLGrQFLD
GH UHDOL]DomR GR 3ULPHLUR &RQJUHVVR GD 0RFLGDGH política dos partidos conservadores, (notadamente
1HJUD GR %UDVLO HP  UHLYLQGLFDo}HV SHOR YRWR de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul), cuja
feminino, e outras. maior expressão era o Partido Democrático de São
Um dos pesos políticos maiores, contudo, Paulo.
SDUHFH WHU VLGR D TXHVWmR GR VLVWHPD HOHLWRUDO HP +i TXH WHU SUHVHQWH FRQWXGR TXH HVVDV
TXH D SURLELomR GR YRWR IHPLQLQR GR DQDOIDEHWR dissidências civis, em grande medida, eram
o limite mínimo de 21 anos para votar, a farsa do constituídas ou de dissidências conservadoras ou de
voto pelo controle coercitivo das mesas eleitorais e UHSUHVHQWDomRGDEXUJXHVLDTXHJUDoDVDRVLVWHPD
o maior peso do voto rural impediam não só uma político e jurídico dominante, não podiam se alçar ao
eleição “limpa”, mas tolhiam ainda a participação poder - daí, para elas, a panacéia do voto secreto.
PDLRU GD SRSXODomR GRV  TXH RV HOHLWRUHV Chegada a hora da campanha presidencial
de 1898 representavam em relação à população para as eleições de 01/03/1930, Getúlio Vargas
brasileira, passa a 3,4% em 1926 e ainda em 1930, LOXGH : /XL] H LQVWLWXL FRP 0LQDV *HUDLV H D
DWLQJLDPWmRVRPHQWH3DUWHGHVWDVTXHVW}HV Paraíba, a Aliança Liberal, cuja plataforma abraçava
somente seria resolvida em 1932, pelo novo Código as agendas reivindicatórias das classes médias
Eleitoral. (FAORO, 1976; LEAL, 1975; SANTA urbanas, dos “tenentes”, algumas do proletariado e
ROSA, 1976). a anistia aos revoltosos derrotados. Vargas perderia
A frustração crescente e o sentimento de a eleição, mas logo após a derrota já encabeçaria o
LPSRWrQFLD SDUD HQIUHQWDU DV ROLJDUTXLDV SURYRFDP PRYLPHQWRUHYROXFLRQiULRTXHIRUPDULDRFDXGDOGH
D FLVmR QR 3DUWLGR 5HSXEOLFDQR 3DXOLVWD ID]HQGR RXWXEURGH /,0$62%5,1+26$17$
surgir em março de 1926 o Partido Democrático de ROSA, 1976).
6mR 3DXOR TXH QR LQtFLR DSRLDULD R 7HQHQWLVPR  Os movimentos culturais da terceira década
constituído basicamente por elementos da burguesia UHYHODYDP QmR Vy DPSOR DXPHQWR TXDQWLWDWLYR 
e da classe média. Seu programa era tímido, e além notadamente o editorial, no Rio e em São Paulo -,
GRYRWRVHFUHWRTXHSDUDDFODVVHPpGLDFRQVWLWXtD FRPR WDPEpP JUDQGH GLYHUVL¿FDomR GH HYHQWRV
uma panacéia - e da educação geral, pouco de HQWUH RV TXDLV VH GHYH GHVWDFDU RV GH FXQKR
importante nele sobrava. modernista. (MORSE, 1970)5 -i QR ¿QDO GD
5XL %DUERVD HP VXD FDPSDQKD FLYLOLVWD década anterior, o parnasianismo, o simbolismo e
de 1910, e na campanha presidencial de 1919 - o regionalismo perdiam fôlego, e nesta, ganhavam
DJRUD GDQGR JUDQGH rQIDVH j TXHVWmR GDV EDL[DV PDLV WHUUHQR DV REUDV TXH SUHWHQGLDP WHU XPD
condições sociais e econômicas de vida da maior GLPHQVmR PDLV FRVPRSROLWD GR TXH SURYLQFLDQD
parte da população trabalhadora - tentara catalisar PDLVLQWHUQDFLRQDOGRTXHQDFLRQDO
esses anseios (morais, éticos, sociais e políticos), Mas essa transição não é completamente
IRUQHFHQGRERDSDUWHGRVLWHQVHPTXHVHFRQVWLWXLULD unilinear e transparente. Nem tudo são “águas
a agenda do movimento tenentista. O Rui de 1919 claras”; há muita controvérsia, mudanças de atitudes
se distanciara, agora, do Rui liberal, de antes. e de concepções políticas entre vários atores do
Ao longo da Primeira República, os período e incompreensões entre eles e entre o
movimentos militares vinham se alterando, de uma público e eles.
SRVLomR LQLFLDO HP TXH R¿FLDLV PDLRUHV FULWLFDQGR $VVLPpTXHSRUH[HPSOR0RQWHLUR/REDWR
RV FLYLV DOPHMDYDP EDVLFDPHQWH D FRQTXLVWD GR de fato um precursor do modernismo - se convertia
SRGHU SDUD RXWUD HP TXH HVVH PRYLPHQWR VRIUH HPFUtWLFR¿JDGDOGRVPRGHUQLVWDVDFXVDQGRRVGH
profunda transformação, a partir das várias revoltas, “imitadores compulsivos de coisas estrangeiras”.
GDV TXDLV DV SULQFLSDLV IRUDP DV GH   H ,VWRVHGHYLDHPSDUWHjVXDD¿UPDomRQDFLRQDOLVWD
DOpPGDIDPRVD&ROXQD3UHVWHVTXHYLYHXGH permanente e sua “veneração” pelo caboclo
1924 a 1927, resistindo às derrotas militares frente brasileiro. “Ressuscita” seu Jeca Tatu, agora livrado
jV WURSDV R¿FLDLV QR %UDVLO H GH  D  QR das doenças rurais, com o uso da “botina, da
exílio, aguardando uma anistia. latrina e da necatorina”, compreendendo melhor a
O movimento revolucionário, a despeito de FDSDFLGDGHHDQDWXUH]DGRFDERFOR,VWROKHLQGX]LX
ter uma agenda escassamente explícita em temas inclusive, a uma mudança radical em relação ao
de um provável projeto para o país, propugnava por SDtVDJRUDR%UDVLOSUHFLVDYDVHU³VDQHDGR´HQmR

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


86 Wilson Cano

passar por reformas constitucionais e políticas, as em plena crise interna e externa, exercendo uma
TXDLVQmRFRQVWLWXtDP³SUREOHPDVYLWDLV´ ortodoxa política econômica e tentando manter
O movimento artístico crescia, e já em 1921 a conversibilidade da moeda nacional. Isto,
HUD LQVWLWXtGD D 6RFLHGDGH 3DXOLVWD GH %HODV$UWHV evidentemente, aprofundou a crise, esgotou em
prenunciando a famosa Semana de Arte Moderna, DEVROXWR QRVVDV UHVHUYDV GH GLYLVDV H LQWHQVL¿FRX
HPIHYHUHLURGHGDTXDOSDUWLFLSDUDPQmRVy RV FRQÀLWRV SROtWLFRV Mi DTXHFLGRV SHODV VHTXHODV
artistas e literatos paulistas. Dentre suas maiores das eleições de março de 1930.
H[SUHVV}HVOHPEUHPRV$QLWD0DOIDWL%UHFKHUHW'L Com a vitória da Revolução em outubro de
&DYDOFDQWL0iULRGH$QGUDGH2VZDOGGH$QGUDGH 1930, e diante da profundidade da “Crise de 29”, os
M. del Picchia, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, ³WHQHQWHV´TXHHVWDYDPLPEXtGRVGHTXHGHYHULDP
Ronald de Carvalho. A Semana, nas palavras de ³TXHEUDUDHVSLQKD´GDROLJDUTXLDFDIHHLUDSDXOLVWD
3DXOR GH $OPHLGD VLJQL¿FDYD ³XP SURWHVWR >@ D VH GmR FRQWD QD ³PHVD GH QHJRFLDo}HV´ GH TXH
necessidade de mudar [...] o desejo de redescobrir na verdade não havia apenas um “café, monocultor
R %UDVLO´ $/0(,'$  S  6 Constituiu a e latifundiário”, mas sim uma economia capitalista
Semana, de uma série de exposições, conferências, com grau já avançado de inter-relações setoriais
recitais, concertos e bailados no Teatro Municipal de H TXH SRUWDQWR HVWDYDP WDPEpP GLDQWH GH XPD
São Paulo. GLYHUVL¿FDGD HVWUXWXUD GH SRGHU 4XHEUDU R FDIp 
Na segunda metade da década, o movimento SHUFHEHUDP RV ³WHQHQWHV´ ± VLJQL¿FDYD TXHEUDU R
modernista seria ampliado, surgindo vários outros nascente capitalismo brasileiro. Daí a original saída
autores e obras, como a poesia de C.A. Drumond; brasileira da política econômica da defesa “do café”,
DDUTXLWHWXUDGH*:DUFKDYFKLNDSLQWXUDGH7DUVLOD TXH VH HVWHQGH GH  DWp D 6HJXQGD *UDQGH
do Amaral, a música de Noel Rosa; as propostas Guerra.
para a Reforma Educacional, de Anísio Teixeira; e 9DUJDV PDLV GR TXH QLQJXpP VH GHX FRQWD
alguns dos grandes vultos culturais da década de GLVVR3HUFHEHXORJRTXHDVDOLDQoDVGHFODVVHPpGLD
MiDSDUHFLDPDLQGDTXHVHPDIDPDTXHYLULDP SUROHWDULDGRSRXFRRUJDQL]DGRHDVGLVVLGrQFLDVGR
DWHU&DLR3UDGR-U6pUJLR%GH+RODQGD*LOEHUWR PRP - travestidas no PD - não dariam aos “tenentes”
Freire, Plínio Salgado, José Lins do Rego, Jorge D VROGDJHP SROtWLFD TXH SXGHVVH JDUDQWLUOKHV D
$PDGR 5DTXHO GH 4XHLUy] )ODYLR GH &DUYDOKR H[HFXomRGDVSURIXQGDVWUDQVIRUPDo}HVVRFLDLVTXH
Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e outros. constavam da pauta revolucionária tenentista.
Nacionalistas, modernistas e seus militantes 3HUFHEHX WDPEpP TXH HPERUD D EXUJXHVLD
acabariam por se dividir, já a partir de 1926, em dois agora se constituísse de várias frações de classe,
JUXSRVRSULPHLURTXHVHVLPSDWL]DULDFRPDGLUHLWD a industrial não havia perdido ainda sua “alma
e com o integralismo, fundaria em 1928 o Grupo da PHUFDQWLO´ H TXH SRU LVVR GL¿FLOPHQWH FRQVHJXLULD
$QWD $TXL WLQKD JUDQGH OLGHUDQoD 3OtQLR 6DOJDGR LPSRUDLQGXVWULDOL]DomRDRSDtVVHPRIRUWDOHFLPHQWR
TXH GL]LD TXH ³R PRGHUQLVPR HUD VXEVHUYLHQWH DR do Estado.
H[WHULRU´RVHJXQGRVLPSDWL]DQWHGRVRFLDOLVPRFRP Via, num extremo, o ânimo revolucionário
OLGHUDQoDGH2VZDOGGH$QGUDGHIXQGDULDR*UXSR dos tenentes, tentando acelerar as transformações
3DX%UDVLOPDLVWDUGHPXGDGRSDUD$QWURSRIDJLD sociais; no outro, as elites, velhas e novas, rurais
e urbanas, mercantis e produtivas, em sua maior
3 CRISE, RECUPERAÇÃO E INDUSTRIALIZAÇÃO parte pedindo a “volta ao passado”, ao “sossego”
de uma classe trabalhadora reprimida, a um Estado
Neste tópico, como mencionei no início deste TXHSXGHVVHOKHVVHUYLUHQRFRQWUROHGRDFHVVRDR
WH[WR QmR SURFHGR GD PHVPD IRUPD TXH XVHL QR poder, pouco importando se via PRPs, PDs ou PLs.
anterior, limitando-me a relatar alguns fatos sociais (SANTA ROSA, 1976, p. 56-57).8
e políticos ocorridos, e centrando as atenções Da habilidade política e conciliatória de Vargas
sobre o movimento da economia. Dada a limitação e de sua visão de estadista, nasce então um novo
de tamanho deste texto, o tópico será tratado Estado, na verdade exigido pelas transformações
de forma bastante resumida, restringindo-me às TXH D %DVH VRIUHUD QR SHUtRGR DQWHULRU 6HULD
TXHVW}HVTXHMXOJRPDLVUHOHYDQWHVRXFXMDPHQomR HVWH (VWDGR DLQGD TXH GH IRUPD DXWRULWiULD TXH
é imprescindível para o melhor entendimento do implantaria grande parte das transformações
tema. Além de textos mencionados no início deste necessárias: o Estado promotor e produtor, a
trabalho, usei largamente texto anterior de minha SROtWLFD GH LQGXVWULDOL]DomR D OHJLVODomR VRFLDO H
autoria (CANO, 2006a)7 QR TXDO UHSURGX]R D WUDEDOKLVWD R QRYR &yGLJR (OHLWRUDO HWF %$(5
polêmica sobre a política anticíclica da década de KERSTENETZKV; VILELLA, 1974; DINIZ, 1978;
QDTXDO3HOiH]  WHQWRXQHJDUDMXVWH]D '5$,%(  9 Sua visão desenvolvimentista, na
da análise pioneira feita por Furtado (1961). Outros TXDOLQFOXVLYHH[SOLFLWDDQHFHVVLGDGHGHLQWHJUDomR
textos são citados no decorrer do trabalho. do mercado nacional, antecede esse período. 10
1mR p GHPDLV OHPEUDU TXH R ~OWLPR JRYHUQR e QHVVH MRJR TXH D KDELOLGDGH GH 9DUJDV
da Antiga República atravessou 1929 e 1930, FRQVHJXLX FRQVWUXLU R %UDVLO XUEDQR H LQGXVWULDO

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


DA DÉCADA DE 1920 À DE 1930: transição rumo à crise e à industrialização no Brasil 87
TXH HQWmR VH FRQVROLGDULD QR SyVJXHUUD QmR ociosa, instalada ainda nos anos vinte.
VHP JUDQGHV GL¿FXOGDGHV D PDLRU SDUWH GDV 1R VHJXQGR PRPHQWR H j PHGLGD TXH
TXDLV SHUPDQHQWHPHQWH LPSRVWD SHODV HOLWHV TXH essa capacidade fosse “enxugada” e a economia
continuariam a negar apoio às reformas estruturais, VXSHUDVVH D FULVH D LQGXVWULDOL]DomR HVWLPXODULD
SULQFLSDOPHQWHjTXHODVTXHLPSOLFDVVHPQDPHOKRULD o investimento autônomo – não apenas na
do padrão de distribuição social da renda. indústria, mas também o de caráter complementar,
Antes de entrarmos na discussão central principalmente, na infraestrutura - e para isso exigiria
GHVWHWySLFRFRQYpPHVFODUHFHURTXHHQWHQGHPRV novos rumos na concepção e prática da política
SRU LQGXVWULDOL]DomR $ LPSODQWDomR GH LQG~VWULDV econômica.
TXH RFRUUH HP YiULRV GH QRVVRV SDtVHV DQWHV GD $VVLP VHQGR H SDUD TXH D LQGXVWULDOL]DomR
“Crise de 1929” não constitui, de fato, um processo não abortasse diante das restrições de recursos, de
GH LQGXVWULDOL]DomR GDGR TXH HVVD LQG~VWULD HUD infraestrutura e de instrumentos de política econômica
subordinada pelo setor exportador - o principal DGHTXDGRV HUD LPSUHVFLQGtYHO D UHFRQVWUXomR
determinante da renda e do emprego -, seja pelo do Estado e da política econômica e seu manejo
uso de divisas por ele geradas, seja pelo mercado responsável. Portanto, penso não ser necessário
GHFRQVXPRTXHFULRXRXSHODGHSHQGrQFLDGRXVR discutir se houve ou não “intencionalidade” ou
GRH[FHGHQWHTXHFULDYD11 ³FRQVFLrQFLD´VREUHDLQGXVWULDOL]DomRRXVHKRXYH
Como demonstrou Furtado (1961), só a partir um precoce “projeto nacional de desenvolvimento”.
do “deslocamento do centro dinâmico”, ou seja, pela e SUHFLVR HQWHQGHU SRUWDQWR TXH D
PXGDQoDGRSDGUmRGHDFXPXODomRTXHDGYpPGR LQGXVWULDOL]DomRQmRUHVXOWDDSHQDVGDRFRUUrQFLDGH
³FUHVFLPHQWR SDUD GHQWUR´ p TXH R LQYHVWLPHQWR DOJXQV FKRTXHV H[WHUQRV HPERUD HVWHV SRVVDP
autônomo passava a ser o determinante maior da sob certas condições, proporcionar estímulos,
UHQGDHGRHPSUHJReWDPEpPDSDUWLUGDtTXHVH LQVX¿FLHQWHV FRQWXGR SDUD R SURVVHJXLPHQWR GD
DFHOHUDRSURFHVVRGHXUEDQL]DomRODWLQRDPHULFDQR LQGXVWULDOL]DomR 0XLWDV YH]HV p ERP OHPEUDU RV
(VVH SURFHVVR DQWHV WHRUL]DGR SHOD &HSDO FKRTXHVH[WHUQRVSRGHPREVWDFXOL]DUGUDVWLFDPHQWH
e denominado processo de substituição de HVVHSURFHVVRTXDQGRSRUH[HPSORVXUJLUUHVWULomR
importações12, foi submetido a uma revisão crítica, absoluta no balanço de pagamentos.
WHQGRXPDQRYDLQWHUSUHWDomRTXHSDVVRXDHQWHQGr 3URYDYHOPHQWH TXHP SULPHLUR GHQRPLQRX
ORFRPRRGHXPDLQGXVWULDOL]DomRUHVWULQJLGD13TXH HVVHVFKRTXHVGHFKRTXHVDGYHUVRVIRL$.DIND
QR FDVR GR %UDVLO VH HVWHQGH GH  D  H  QXPWH[WRHPTXHDQDOLVDDLQGXVWULDOL]DomR
TXH Vy D SDUWLU GDt LPSODQWD RV VHJPHQWRV PDLV latino-americana posterior à “Crise de 29". Tentando
FRPSOH[RV GH EHQV GH SURGXomR DLQGD TXH GH afastar-se da interpretação cepalina, explicou-a
forma incompleta. Permaneceria também, até hoje, como um crescimento "associado(s) com os
dependente das divisas do setor exportador. YLROHQWRVHRVDGYHUVRVFKRTXHVUHFHELGRVSHORVHX
e LUUHWRUTXtYHO D DQiOLVH IHLWD SRU )XUWDGR sistema econômico". (KAFKA, 1964, p. 21-22; 41-
(1961), sobre o crucial papel do Estado, na condução 42)14.
da política de defesa da renda e do emprego, com 1mR SRXFRV HFRQRPLVWDV VH HTXLYRFDUDP
DPSODXWLOL]DomRGRJDVWRHGRFUpGLWRS~EOLFRV&RP QD DQiOLVH GHVVH HSLVyGLR FRPR 3HOiH] TXH
HIHLWR DV VRPEULDV SUHYLV}HV TXH VH ID]LDP FRP WHQWRX DWULEXLU R VXFHVVR GH QRVVD LQGXVWULDOL]DomR
base na capacidade produtiva cafeeira existente em a outros fatores, inclusive à suposta “Teoria dos
 VH FRQ¿UPDULDP PDLV WDUGH GDV GH] VDIUDV FKRTXHVDGYHUVRV´WHQWDQGRDEDVWDUGDUDFOiVVLFD
da década, cinco seriam enormes, gerando grandes interpretação de Furtado.15
excedentes não exportáveis. Mesmo Rodrigues (1986) – um cepalino de
Tratando-se de lavoura permanente, Furtado ERD FHSD  WDPEpP FRPHWHX HTXtYRFRV HP VXD
(1961) interpretou como inviável sua destruição REUD HP TXH VLQWHWL]D R SHQVDPHQWR GD &(3$/
parcial. Assim, era preciso mantê-la e colher o café. &KDPRX D LQGXVWULDOL]DomR ODWLQR DPHULFDQD GH
E mesmo com a destruição de 78 milhões de sacas “espontânea” e acompanhou os “sociólogos da
invendáveis no mercado internacional, os preços WHRULDGDGHSHQGrQFLD´QDFUtWLFDTXH¿]HUDPVREUH
desabaram. A profundidade e a permanência da VXSRVWD DXVrQFLD GH FUXFLDLV TXHVW}HV VRFLDLV
crise internacional cortaram o crédito externo, não e políticas no pensamento da CEPAL. Prebisch,
KDYHQGR DVVLP DOWHUQDWLYD GR TXH D GH XWLOL]DU SUHIDFLDQGR R OLYUR GH 5RGULJXH] DGYHUWLXR VREUH
recursos públicos para enfrentar a crise. HVVHVGRLVHTXtYRFRV
Para a saída da crise e início da 1mRIRUDPIiFHLVRVFLQTXHQWDDQRVGHQRVVD
LQGXVWULDOL]DomRKiTXHVHHQWHQGHUDH[LVWrQFLDGH LQGXVWULDOL]DomR)RUDPPXLWRVVHXVFRQWUDWHPSRVH
GRLV PRPHQWRV FUXFLDLV 2 SULPHLUR LPHGLDWR TXH poucas as tentativas políticas conservadoras para
decorre da atitude do Estado, em instaurar uma obstá-la. De todos os países da América Latina,
SROtWLFDDQWLFtFOLFDTXHUHFXSHURXERDSDUWHGDUHQGD FHUWDPHQWHIRPRVRTXHPDLRUQtYHOHGLYHUVL¿FDomR
e do emprego, sustentada, pelo lado da oferta, em DWLQJLXDR¿QDOGDGpFDGDGH
grande parte pela capacidade produtiva industrial Contudo, o golpe mundial desferido pelos

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


88 Wilson Cano

(8$HP¿QVGHFRPVXDRSRUWXQLVWDHSHUYHUVD excesso, via concorrência.


SROtWLFD¿VFDOGHVHQFDGHDQGRDFKDPDGD³'pFDGD No café, a safra de 1927-28, mais por
perdida” e, em seguida, com a disseminação mundial excelentes condições climáticas e de bom trato do
das políticas de corte neoliberal, nos aprisionou, nos FDIH]DODWLQJLXRGREURGRYROXPHH[SRUWDGRPDVD
últimos 30 anos, em uma camisa de força, em termos política de defesa vigente ainda garantiu os elevados
de manejo de nossa política macroeconômica. preços. Mas a forte expansão do plantio, a partir de
A retomada recente de nossas exportações 1924, expandira muito a capacidade produtiva e
primárias, estimuladas pelo chamado “efeito China” em meados de 1929 a previsão da safra 1929-30
está nos FDXVDQGR XP HVTXHFLPHQWR GH TXDQWR p apontava, de novo, o dobro das possibilidades de
IXQGDPHQWDODFRQWLQXLGDGHGDLQGXVWULDOL]DomRSDUD H[SRUWDomR $V GL¿FXOGDGHV QDFLRQDLV H D UHFXVD
o nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo, parece de atendimento federal, as limitações dos recursos
estar injetando um estranho otimismo neoprimário
estaduais e a ameaça de novas safras gigantescas
exportador.
trouxeram a crise, antecipando-se a em relação à
6HUiTXHQRVVRVRQKRDFDERX"
LQWHUQDFLRQDOTXHHFORGLULDHPRXWXEURGH
4 CONCLUSÃO Assim, mesmo se não ocorresse a crise
LQWHUQDFLRQDOR%UDVLOWHULDGXDVFULVHVVHYHUDVDGR
3URFXUHL PRVWUDU TXH p HTXLYRFDGD D LGHLD FDIpHDLQGXVWULDORTXHWUDULDXPHOHYDGRULVFRGH
de uma “monocultura cafeeira latifundiária” e abortar as transformações em curso.
TXH QD YHUGDGH R ³FRPSOH[R FDIHHLUR SDXOLVWD´
FRQVWLWXLX XPD HFRQRPLD PXLWR GLYHUVL¿FDGD FRP
a apropriação de seus frutos melhor distribuída - REFERÊNCIAS
impostos ao Estado, lucros e rendas ao setor privado,
para vários segmentos da classe proprietária, e
VDOiULRVDRWUDEDOKDGRUGRTXHQDPDLRUSDUWHGR ALMEIDA, P. M. de. De Anita ao Museu. São Paulo:
país. (CANO, 2007b). Perspectiva, 1976.
$GLYHUVL¿FDomRQmRVHGHXVyQDHFRQRPLD
DWLQJLQGR WDPEpP D GHPRJUD¿D D RFXSDomR H %$(5 : .(567(1(7=.< , 9,/(//$ $9
D XUEDQL]DomR H[LJLQGR SRUWDQWR SURIXQGDV $V PRGL¿FDo}HV QR SDSHO GR HVWDGR QD HFRQRPLD
PRGL¿FDo}HV GD VXSHUHVWUXWXUD 7DLV SUHVV}HV brasileira. Pesquisa e Planejamento Econômico,
por mudanças, diante de um Estado e de elites 5LRGH-DQHLURYQGH]
FRQVHUYDGRUDV H[SOLFLWDP VHXV FRQÀLWRV DWUDYpV
de vários movimentos sociais: greves, revoluções,
%$6726 3 3 = 2UWRGR[LD H KHWHURGR[LD DQWHV
modernismo cultural, etc.
e durante a Era Vargas: contribuições para uma
Sob o ponto de vista do comando da
economia política da gestão macroeconômica nos
acumulação capitalista em São Paulo, obviamente
o café continuaria a exercê-lo até a “crise de anos 1930. Texto pra Discussão, Campinas, n.
29”. Contudo, na década de 1920, os principais 179, 2010.
componentes do “complexo cafeeiro” cresceram
e pressionavam por maior nível de “autonomia” no %2772025(7 (G Dicionário do pensamento
processo de acumulação e de reprodução. marxista. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1993.
$VVLPpTXHDQRWiYHOH[SDQVmRGLYHUVL¿FDGD
IH]FRPTXHDRORQJRGDGpFDGDGHR&HQVR CAMPANHOLE, A.; CAMPANHOLE, H. L.
de 1920 já mostrava parte disso -, a agricultura Constituições do Brasil. 9. ed. São Paulo: Atlas,
³QmRFDIp´ D LQG~VWULD RV %DQFRV H R &RPpUFLR 1986.
Mi SURGX]LVVHP RX PRYLPHQWDVVHP PDVVDV
econômicas muito próximas à da produção e &$12:LOVRQ5HÀH[}HVVREUHRSDSHOGRFDSLWDO
exportação cafeeira. PHUFDQWLO QD TXHVWmR UHJLRQDO H XUEDQD GR %UDVLO
,VWR WHP XP VLJQL¿FDGR HFRQ{PLFR H SROtWLFR Revista da Sociedade Brasileira de Economia
VLQJXODU RV ³¿OKRV´ GR FDIp KDYLDP FUHVFLGR Política6mR3DXORQGH]
WHQWDYDPJDUDQWLUVXDPDWXULGDGHHFRQTXLVWDUVXD
autonomia. Dito de outra forma, já não perdurava BBBBB:LOVRQ%DVHHVXSHUHVWUXWXUDHP6mR3DXOR
uma “hegemonia cafeeira”. 1886-1929. In: LORENZO, H. Carvalho de; COSTA,
No tocante à indústria, os elevados
W. Peres da. A década de 1920 e as origens do
LQYHVWLPHQWRV UHDOL]DGRV QD GpFDGD FULDUDP XPD
Brasil moderno. São Paulo: Unesp, 1997.
capacidade produtiva excessiva – notadamente no
setor têxtil algodoeiro -, desencadeando, ainda em
¿QV GH  XPD FULVH LQGXVWULDO SDUD D TXDO QmR _____. Wilson. Crise 1929: soberania na política
haveria solução à vista, além da clássica maneira do HFRQ{PLFD H LQGXVWULDOL]DomR ,Q BBBBBB Ensaios
capitalismo “corrigir” seus excessos: a destruição do sobre a formação econômica regional do Brasil.
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R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012


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90 Wilson Cano

_____. SUZIGAN, W. +LVWyULDPRQHWiULDGR%UDVLO  9HUWDPEpP%DVWRV  H)RQVHFD  


análise da política, comportamento e instituições
monetárias. Rio de Janeiro: IPEA, 1976.  )D] LPSRUWDQWH DQiOLVH VREUH LVVR PRVWUDQGR D
frustração dos “tenentes” e o conservadorismo
das elites. No caso do Nordeste (pg. 56-57) aponta
PINHEIRO, P. S.; HALL, M. M. A classe operária
FRUUHWDPHQWH D IUDFD RSRVLomR GDV ROLJDUTXLDV
QR %UDVLO 1889-1930. Campinas, SP: FUNCAMP- ORFDLV GRV ³WHQHQWHV´ IDFH D ³IUDTXtVVLPD HVWUXWXUD
%UDVLOLHQVHY HFRQ{PLFD´GDUHJLmR3RGHUtDPRVDFUHVFHQWDUTXH
DOpPGLVVRHVVDDGHVmRIRLDIRUPDSROtWLFDSDUDTXH
RODRIGEZ, O. La teoria del subdesarrollo de la HVVDVPHVPDVROLJDUTXLDVDWLQJLVVHPRSRGHUFHQWUDO
CEPAL. 5. ed. México: Siglo XXI, 1986. até então, em grande parte controlado por MG, RJ,
SP e RS, promovendo uma reviravolta no federalismo
SANTA ROSA, V. O sentido do tenentismo. 3. ed. vigente. Sobre a dominação regional do capital
São Paulo: Alfa-Omega, 1976. mercantil. Ver Cano (2010).

9. Para um breve resumo ver Cano (2007).


TAVARES, Maria da Conceição. Acumulação
de capital e industrialização no Brasil. 2. ed. 10. Sobre a trajetória e as idéias econômicas de Vargas
Campinas: UNICAMP, 1998. DQWHV GH  )216(&$   H TXH WDPEpP
mostra as idéias de Vargas sobre e a integração do
_____. Da substituição de importações ao mercado nacional. (CANO, 2007a).
FDSLWDOLVPR ¿QDQFHLUR. Rio de Janeiro: Zahar,
1972. 11. Nem Furtado (1969) nem Tavares (1972) incorreram
QHVVHHTXtYRFRDRVHUHIHULUHPjDGLomRGHIiEULFDV
DQWHULRUjUXSWXUDFDXVDGDSHODFULVHGHTXDQGR
VIANNA. L.W. Liberalismo e sindicato no Brasil. muda o padrão de acumulação.
HG5LRGH-DQHLUR3D]H7HUUD
12. Ver a clássica interpretação desse processo feita por
VILLELA, A.; SUZIGAN, W. Política do governo e Tavares (1972) e sua posterior revisão (1998).
FUHVFLPHQWR GD HFRQRPLD EUDVLOHLUD 1889-1945.
Rio de Janeiro: IPEA, 1973.  (VVDGHQRPLQDomRIRLLQWURGX]LGDQRFDVREUDVLOHLUR
por Cardoso de Mello (1998) e Tavares (1998), em
VHXV WUDEDOKRV VREUH D LQGXVWULDOL]DomR EUDVLOHLUD
NOTAS TXDQGR ID]HP D UHYLVmR FUtWLFD GR FRQFHLWR GH
LQGXVWULDOL]DomRSRUVXEVWLWXLomRGHLPSRUWDo}HV

1. A solicitação foi feita pelo Prof. Pedro C. D. Fonseca, 14. Seu texto decorre de conferência pronunciada e
Coordenador de mesa redonda sobre a Revolução de TXH VXVFLWRX YiULDV REVHUYDo}HV FUtWLFDV GH FDUiWHU
1930, no Encontro anual da ANPEC de 2010. ortodoxo.

2. As principais diferenças entre as estruturas dessas  $PDWpULDHVWiHPVHXHTXLYRFDGRHQVDLR 3(/È(=


TXDWUR UHJL}HV FDIHHLUDV HVWmR GLVFXWLGDV HP &DQR 1968).
(2006b).

3. Assim, os altos lucros proporcionados durante a Wilson Cano


Primeira Guerra à econômica exportadora certamente Economista
teriam constituído a base para a acelerada acumulação Doutorado em Ciências Econômicas pela Universidade
na década de 1920, até mesmo para parte da periferia Estadual de Campinas - UNICAMP
nacional. Prof. Titular do Instituto de Economia da Universidade
Estadual de Campinas - UNICAMP
4. As fontes para esse e os três parágrafos seguintes (PDLOZFDQR#HFRXQLFDPSEU
foram: i- produção industrial: Cano (2007b, p. 190;291-
293); ii) importação de bens de capital: Villlela e Universidade Estadual de Campinas
6X]LJDQ  S   LLL  3LE SUHoRV H PHLRV GH (QGHUHoR 5XD 3LWiJRUDV Q  %DUmR *HUDOGR 
SDJDPHQWR 3HOiH] H 6X]LJDQ   S   TXH Campinas, SP
FRQFOXtUDPTXHDVSROtWLFDVIRUDPFRQWUDFLRQLVWDV CEP: 13083-857

5. O autor nos dá um bom relato sobre esse movimento


HP6mR3DXORHDSUHVHQWDH[WHQVDELEOLRJUD¿D

6. Este livro dá um notável relato, desde a 2a. exposição


de A. Malfatti em 1917, a Semana em 1922, os
desdobramentos do movimento e os novos atores no
¿P GD GpFDGD GH  DV WUDQVIRUPDo}HV GRV YiULRV
grupos na década de 30, chegando até a instituição
do Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1948.

R. Pol. Públ., São Luís, v.16, n.1, p. 79-90, jan./jun. 2012