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A DEUSA NEGRA

Vivemos numa era de redescobertas e lembranças, onde o


Divino Feminino é recuperado como a Deusa em nossa consciência. Um
de seus maiores profetas foi o poeta Robert Graves, cujo livro “The
White Goddess” despertou um mundo adormecido. Apesar de muitos
tentarem readaptar seu material, poucos tiveram o mesmo sucesso em
provocar respostas no mesmo nível criativo. Graves escreveu de forma
lírica e poética sobre a inspiradora Deusa Branca e sua
representante sacerdotisa / musa, a Mulher. Ele escreveu como um
poeta do sexo masculino, totalmente apaixonado e a serviço de sua
exigente amante.
Também escreveu, com menos detalhamento, sobre a desafiadora
Deusa Negra aquela que "não é mais do que uma palavra de
esperança sussurrada pelos poucos que serviram como aprendizes da
Deusa Branca".
O Divino Feminino pode sem dúvida ser compreendido por homens que
se sintam atraídos pelas qualidades fascinantes da Deusa Branca no
nível do amor e da inspiração. Mas a Deusa da Sabedoria, a Deusa
Negra que está no âmago do processo criativo, não é tão facilmente
visualizada, como disse o próprio Graves: ela "pode até mesmo surgir
etérea ao invés de encarnada".

Por que é assim?


A Deusa Negra é a Sophia velada que, de muitas formas, é
a manifestação primal do Divino Feminino. Ela pode ser mais
prontamente identificada pelas mulheres porque seus processos e
poderes ocultos se assemelham a suas próprias qualidades
instintivas. Os homens raramente se aproximam dela, a não ser com
medo, pois ela não se manifesta como uma musa sensual e desejável
(se bem que por vezes ela assuma essa forma), mas como uma Mãe
Obscura, imanente e detentora de poderes desconhecidos e
inimagináveis, ou como Virago, uma poderosa virgem. O temor dos
homens pelo feminino tem origem aqui, e é por isso que temos tão
poucos textos falando das qualidades dela, pois poucos homens
permaneceram perto dela tempo o bastante para serem capazes de
registrar sua experiência orgânica da Deusa Negra, que é a poderosa
base para a compreensão do Divino Feminino, pois é somente quando a
homenageamos que podemos encontrar a Deusa da Sabedoria.
Sophia está em ação desde o início, pois é uma deusa criadora.
Ela aguarda ser redescoberta no interior da Deusa Negra, sua
imagem refletida, ciente de que, até que façamos esse
importante reconhecimento, ela terá que retornar vez após vez em
diferentes formas. Ela pacientemente aguarda pelo momento de
emergir, ciente de que terá de desempenhar diversos papéis no
cenário que surgirá.

O Ocidente lentamente começa a desenvolver uma apreciação da


Deusa Negra. Nos últimos dois mil anos em que a deusa foi
marginalizada, a maior parte das aparições do Divino Feminino foi
avaliada sob uma problemática ótica dualista. Nós não dispomos da
válvula de segurança da metáfora feminina em nossa compreensão
espiritual: conseqüentemente, o feminino (tanto humano quanto
divino) passou a ser visto monstruosamente distorcido, ameaçador e
incontrolável.

O fato de que nossas metáforas de deidades podem mudar ou


assumir facetas diferentes está além da compreensão ocidental. A
Deusa pode ser vista de diversas formas, um fato que levou muitos
filósofos e teólogos a chamar a Deusa de volátil e mutável, como uma
prostituta e seus muitos clientes.

O ocidente sempre se espantou com o fato de que o Hinduismo


aceitava uma forma tão repulsiva quanto Kali. Porém, se a Deusa
Negra é negada, como ocorre em nossa cultura, ela surgirá através de
forma que nos levem a respeitá-la no futuro - se houver um futuro.
Na sucessão das eras hindus vivemos hoje a era de Kali Yuga, a era
da destruição.
Nós costumamos dar tamanha ênfase ao benéfico e ao belo que
criamos um arquétipo falso para o Divino Feminino. A Deusa, para ser
aceita em nossa cultura, tem de surgir na forma de candura e luz -
uma mistura de Marilyn Monroe e Vênus de Milo - sexy e um tanto
obtusa.
Tais polarizações são perigosas e repercutem com força no Ocidente.

Essa imagem não só cria uma norma pela qual as mulheres são vistas,
mas também desequilibrou nossa relação com o resto da criação.
A cultura ocidental, como suas manifestações espirituais ortodoxas,
é dominadora, ditatorial e patriarcal. Não permite que as
liberdades fundamentais do ser humano se desenvolvam de forma
equilibrada, distorcendo até mesmo as qualidades da sabedoria, do
amor, do conhecimento e da compaixão.
O caminho de Sophia é o caminho da experiência pessoal. Ela nos
leva a áreas que podemos chamar de 'realidade elevada' - os
universos criativos a que os mortais comuns são levados por força de
suas habilidades vocacionais e criativas. Contudo, o poético, o
mágico e o criativo costumam ser negados por nossa cultura. Qualquer
pessoa que tenha mergulhado no mundo da visão - definido por muitos
como irreal - sabe que seu poder pode melhorar nossas vidas. É
Sophia que atua como guia e companheira desta demanda interior,
especialmente válida para as mulheres. Uma vez que a criatividade de
Sophia é por nós negada, nós a vemos encoberta pelo manto da Deusa
Negra, movendo-se silenciosa e misteriosamente para executar seus
trabalhos.