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A Ceia ou a Ceia do Senhor

João 21.20 e 1 Coríntios 11.20


Pretendo neste texto expor a ceia bíblica e seu significado em contraste com a
“santa ceia” praticada nas religiões dos homens. Em primeiro lugar é bom deixar claro
que a expressão “santa ceia” não se encontra na bíblia. Em muitos comentários de
cristãos sérios, encontrei afirmações de que embora o termo não se encontre na bíblia,
não veem nada de errado em usar o termo acrescentado pela religião medieval na ceia
do Senhor e assim chamam de “santa ceia”. Na bíblia só encontraremos a expressão
ceia e ceia do Senhor, aplicada ao memorial da morte e a esperança da vinda de Jesus
e nunca “santa ceia” (Lucas 22.20; João 13.2,4; 21.20; 1 Coríntios 11.20,2). A expressão
ceia é aplicada a refeições comuns ou banquetes nas festas (Marcos 6.21; Lucas
14.12,16,17,24; 17.8; João 12.2). Ainda vamos encontrar a expressão ceia das bodas
do Cordeiro aplicada a recompensas aos salvos (Apocalipse 19.9). E ceia do grande
Deus aplicada a juízo dos reis ímpios da terra e a todos os ímpios grandes e pequenos
(Apocalipse 19.17).
Qual o problema de chamar a ceia de santa ceia? Aparentemente nenhum, mas
vou mostrar que a expressão “santa ceia” tira dela o verdadeiro sentido e passa ser
elemento de exclusão. Tem também o elemento histórico da idolatria que Deus
abomina. Uma vez que a ceia é santa, passa ser digna de adoração e os homens que
não são santos aos moldes da “santa ceia” são dela excluídos nas religiões dos homens.
O quadro “a última ceia” de Leonardo da Vinci 1495-1497 d.C é inspirado na
“Santa Ceia” da transubstanciação da igreja medieval afirmada no Concílio de Latrão
em 1215 d.C., e a transubstanciação foi reafirmado no Concílio de Trento 1545 d.C. a
transubstanciação é a crença da igreja medieval que o pão e o vinho mudam de espécie
e se tornam a carne e o sangue de Cristo na consagração. Consagração é outra prática
da igreja medieval, não há nas Escrituras essa prática. O que encontramos nas
Escrituras é Cristo dando graças (agradecendo) pelo pão e pelo cálice e abençoando a
refeição (Mateus 26.26-29; 1 Coríntios 11.23-26).
Algumas coisas estão envolvidas neste ensinamento da igreja medieval, o maior
deles é o desejo de manter o poder e o domínio, um dos papas disse que Maria fez um
Cristo e nós os padres fazemos aos milhares. Em nome desta mudança de substancia
muitos que não aceitaram se prostrar diante do pão foram mortos na inquisição por ser
considerados hereges. A igreja reformada mudou algumas coisas em relação a isso, a
igreja luterana por exemplo ensina consubstanciação (presença de Cristo nas espécies
de pão e vinho enquanto a congregação está reunida). Para a igreja medieval a
transubstanciação é uma mudança radical de espécie, o pão passa ser carne e nervos
e o vinho passa ser sangue, hoje eles explicam que se pode comer só o pão que o
sangue já está lá, não precisa dar aos aptos da religião o vinho, só o pão já tem tudo.
Até 1969 no Concílio Vaticano II os adeptos não podiam pegar o pão na mão, era dado
direto na boca, pecadores não poderiam ter Cristo nas mãos.
O que assusta é que a igreja evangélica (reformada), então até certo ponto, uma
igreja com as mesmas práticas, mas com pintura nova e algumas mudanças nas
paredes, ensine quase que a mesma coisa. O pão e o suco de uva são consagrados e
transformados em Corpo e Sangue de Cristo. Crianças não podem participar da “santa
ceia”, pessoas não batizadas não podem participar da “santa ceia”, pessoas em pecado
não podem participar da “santa ceia”. Pessoas de outras igrejas não podem participar
da “santa ceia”. Pão e suco “consagrados” devem ser enterrados, jogados em água na
pia para irem aos esgotos. Quase a mesma coisa que as hóstias consagradas que
devem ser ingeridas de qualquer forma e nunca jogadas. Até as fagulhas de pão e as
marcas de vinho devem ser diluídas em águas e tomadas pelo sacerdote e ministros.
Se um enfermo não puder engolir ou se vomitar a hóstia, o ministro deve comer o fruto
dessa situação insalubre.
Agora pretendo expor a ceia bíblica. Jesus estava acostumado cear com seus
discípulos, por isso a ceia da Páscoa foi a última ceia (Mateus 26.17-30). Jesus não
excluiu ninguém da ceia (v. 20), Judas também participava da ceia pascal (vs. 20-25),
Jesus tomou o pão e o abençoou (não consagrou, pois, consagrar é separar para Deus
e não para ser comido) e entregou aos seus discípulos dizendo: “Tomai e comei, isto é
o meu corpo”. Os que ensinam a transubstanciação e a consubstanciação usam o termo
“isto é o meu corpo”. Bom, então podemos dizer que quando Jesus disse “eu sou a
porta” ele estava sugerindo que uma madeira com maçaneta é Ele! Outra coisa
importante, nós não somos canibais para comer carne e beber sangue humano. Ainda
outro fato interessante, Jesus comeu com seus discípulos e não poderia ter comido Ele
mesmo (v. 26).
Jesus não deu somente pão aos seus discípulos, Ele deu o cálice também. Outra
coisa importante salientar é que não houve consagração do cálice, houve ação de
graças (gratidão, agradecimento) (v. 27). “Isto é o meu sangue, o sangue da nova e
eterna aliança, que será derramado por muitos”, o novo testamento é a eterna aliança
e é derramado por muitos e não por todos (v. 28). Jesus morreu por suas ovelhas (João
10.11) e Deus amou o mundo todo, mas a vida eterna é somente para aquele que crê
(João 3.16). Jesus partiu pão com os discípulos de Emaús (Lucas 24.30-35), mas não
tem relato que ele tenha bebido com eles, pois, Ele diz que nunca mais beberá do fruto
da videira até aquele dia em que beberemos com Ele no Reino de Deus (v. 29).

Quando Jesus fala a respeito do pão da vida em João 6, se compararmos


o texto a ceia do Senhor, teremos necessidade de cear para ter comunhão com
Ele e a esperança da ressurreição. (João 6.48-58). Alguns destaques do texto:
“Eu sou o pão da vida (v.48) [...] Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém
comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne (v.
51) [...] Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não
comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis
vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a
vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne
verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem
come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. (vs.
53-56) [...] quem comer este pão viverá para sempre (v. 58).”

Fica evidente no contexto de João 6 que Jesus falava do pão, do símbolo


de sua carne e de seu sangue que seria entregue na cruz. “Que eu darei pela
vida do mundo” (v. 51). Vejamos o risco da “santa ceia” que exclui pessoas da
comunhão: “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se
não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não
tereis vida em vós mesmos” (v.53). E por outro lado, vejamos a bênção da ceia
para a vida das pessoas, não a “santa ceia” da exclusão, mas a ceia da
comunhão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna,
e eu o ressuscitarei [...]” (v.54).

Não dá para continuar ensinando uma “santa ceia” que dá tanto poder aos
homens de transformar pão em Cristo, corpo, alma e divindade total e excluir
pessoas da vida eterna, da comunhão, da vida de Cristo nessas pessoas.
Quando os crentes leem João 6.48-58 e colocam a luz de Mateus 26.17-30 e 1
Coríntios 11.23-34, entendem que a ceia não é para exclusão e sim para
comunhão. Não é da religião e sim de Jesus Cristo. Todos os preceitos que
doutrinam a entrega da ceia somente a adultos, somente aos membros de uma
igreja x ou y, somente aos batizados nas águas, encontram esses preceitos em
suposições e explicações que podem amparar na bíblia, mas nunca no
ensinamento a respeito da ceia e seu significado.

O pão continua sendo pão e o suco de uva continua sendo suco. O que é
importante é o símbolo, assim como a água do batismo não precisa ser
consagrada, o óleo não precisa ser consagrado. A bíblia fala que João batizava
com água, Jesus mandou batizar em Nome do Pai... a bíblia fala para ungir com
óleo e a oração da fé restaurará o doente e perdoará pecados e não orienta ungir
o óleo, mas os crentes ungem o óleo (consagram, fluidificam etc) e os católicos
benzem a água para o batismo. Vamos observar: “Eu sou a porta” (João 10.9);
“Eu sou a videira verdadeira” (João 15.1); “Eu sou a luz do mundo” (João 9.25);
“Eu sou o pão da vida” (João 6.48); “Eu sou a porta das ovelhas” (João 10.7);
“Eu sou o caminho” (João 14.6). Todas essas expressões são simbólicas e
nunca literais.
Cristo não se transformou fisicamente numa estrada a ser trilhada por
Seus ouvintes por ter dito que era o Caminho. Cristo não se transformou num
grande farol a emitir luz para o mundo inteiro ao dizer que era a luz do mundo.
Cristo não se transformou em uma árvore por ter dito que era uma videira
verdadeira. Cristo não se transformou em um pedaço de madeira com maçaneta
por ter dito que era a porta. Quando Ele diz: “isto é o meu corpo, isto é o meu
sangue, Eu sou o pão, minha carne é comida, meu sangue é bebida, quem
comer da minha carne e beber do meu sangue” Nunca, nunca, nunca foi literal.
É simbólico!
Bom, agora chegamos nas instruções Paulinas de 1 Coríntios, lugar onde
os crentes se confundem e infundem suas doutrinas dogmáticas. 1 Coríntios
11.23-34 Paulo dá as instruções da ceia, e não são instruções qualquer, ele
afirma que recebeu do Senhor (v.23). Na noite que Jesus foi traído Ele tomou o
pão (viver, comer e se reunir em comunhão normalmente no dia da traição é
para os fortes). Sem querer tirar do contexto, quero comentar que a noite chega
na nossa vida muitas vezes e com ela a traição. Quem trai não são inimigos,
deste já é esperado o pior, tudo o que o inimigo faz é parte de sua maldade, mas
quem trai é quem dorme junto, quem se assenta na mesa, quem caminha junto.
Deu graças e entregou aos seus discípulos (v.24), dar graças não é consagrar e
mandar mudar de espécie a substancia, mas agradecer pelo pão da refeição.
Dar graças em tempo de traição é uma virtude, muitos reclamam e murmuram.
Partiu e entregou aos seus discípulos. O partir faz parte da partilha mesmo, da
separação em partes para distribuição, hoje para facilitar já usamos o pão em
partes. Dizendo: “isto é o meu corpo que é partido por vós (entregue), fazei isso
em memória de mim” é o meu corpo é simbólico e em memória, significa uma
recordação, uma lembrança.
Os versículos 24,25 e 26 se perfazem dentro da visão de memória,
recordação ou lembrança. O 24, fala de memória ao comer o pão, o 25 fala de
memória ao beber o cálice e o 26 diz que todas as vezes que comermos deste
pão e bebermos este cálice, anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha.
Desta forma a religião privar alguém de cear é o mesmo que o privar de anunciar
que Cristo morreu por ele e que Cristo vai voltar. Não fala de periodicidade entre
uma ceia e outra ou de frequência. Diz todas as vezes. A pergunta é por que
tomamos a ceia? A resposta está no versículo 24,25 e 26: em memória de Jesus,
lembramos que Ele morreu por nós e irá voltar para nos buscar. Quem não toma
a ceia é porque não quer fazer essa lembrança e esse anúncio.
A discussão aumenta quando chegamos no indignamente e no
discernindo o corpo do Senhor. O indignamente não se refere a pecado não
confessado e está ligado ao discernimento do corpo, ao entender o que é o corpo
e qual a função de cada um no todo que é o corpo. A comunhão com uns com
os outros, a espera uns pelos outros, a vida em unidade e não na divisão. Como
alguém pode ser digno de participar da ceia da comunhão e unidade do corpo
se só se ajuntam para comer a ceia (v.20), comendo antes dos outros, se
empanturrando e deixando outros com fome (v.21), em tempo de comer em
casa, vem para a igreja só para comer e deixar envergonhado os que não tem
nada para comer (v.22). Quem procede desta forma para com a ceia do Senhor
comete um grave pecado e passa ser culpado e traz para si a condenação (vs.
27,29-34).
O versículo 28 orienta a fazer o autoexame e depois comer e beber. Não
diz que ao encontrar falhas devemos deixar de tomar a ceia, mas que devemos
examinar e tomar. O exame serve para arrependimento e perdão (vs. 31,32).
Quem fizer um autoexame e não encontrar pecado deve não participar da ceia
(1 João 1.8 diz que quem disser que não tem pecado, engana a si mesmo e a
verdade não habita nele). Quando entendemos que somos pecadores e nos
arrependemos na confissão, somos perdoados (1 João 1.9).
O discernir o corpo do Senhor (v.29) está no contexto do entendimento do
sentido da ceia “fazei isso em memória de mim” (vs. 24,25) “todas as vezes que
comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor até
que Ele venha”. A ceia é para lembrar do sacrifício de Jesus e da esperança de
sua vinda. Quem quer lembrar de Jesus participa da ceia (v.24-26). Quem não
entende seu lugar no corpo, não respeita os outros irmãos, não contribui como
membro do corpo para a manutenção do corpo “para que haja mantimento na
minha casa” (Malaquias 3.10), “Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo
auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o
aumento do corpo, para sua edificação em amor” (Efésios 4.16). Quem não faz
sua parte no corpo não discerne ou não entende o que é o corpo, esse não deve
cear. Se ele não entende o corpo como sendo parte deste corpo e tendo que
zelar pelos outros, então é indigno de participar da ceia e se o faz será culpado
e trará sobre si grave consequências como enfermidades e morte espiritual (vs.
29,30).
Pastores vamos estudar as Escrituras e ensinar corretamente as pessoas
sobre a ceia. Não vamos tornar a ceia “santa” a ponto de ser excludente de
pessoas de comunhão com Cristo. “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na
verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não
beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. ” (João 6.53).
Lembremos que a ceia é recordação de Jesus. Anuncio de sua morte e
volta (1 Coríntios 11.24-26). O pão é pão e o cálice é fruto da videira. O pão é
corpo de Cristo (igreja) que somos nós. “Porque nós, sendo muitos, somos um
só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios
10.17). A ceia com discernimento e dignidade nos leva a ser parte do corpo (pão)
e respeitar os outros como sendo parte de nós e nós deles neste pão
(comunhão).
Pastor Valdiney Marques de Oliveira – Primeira IEQ Umuarama – Paraná.