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INSTITUTO FEDERAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA /IFMT

ENSINO MÉDIO INTEGRADO EM EDIFICAÇÕES (2°ANO)


DEPARTAMENTO DE CONSTRUÇÃO CÍVIL

EDIEL FERNADO DE BRITO CORDEIRO


JOÃO FERNANDES DA SILVA
MATHEUS WILLIAM ROMÃO DA SILVA ALMEIDA
PEDRO PAULO SALES PETRONI
RAYSSA TRAJANO RIBEIRO

O CORTIÇO

Cuiabá,
2019.
EDIEL FERNADO DE BRITO CORDEIRO
JOÃO FERNANDES DA SILVA
MATHEUS WILLIAM ROMÃO DA SILVA ALMEIDA
PEDRO PAULO SALES PETRONI
RAYSSA TRAJANO RIBEIRO

O CORTIÇO

Trabalho apresentado ao curso do Ensino


Médio Integrado em Edificações do Instituto
Federal de Ciência e Tecnologia do Mato
Grosso como Requisito Parcial para o
fechamento de médias do 4° Bimestre/2019.

Orientador: Prof. Dr. José Alexandre Vieira da Silva

Cuiabá,
2019.
RESUMO
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1 RESUMO

A história em questão começa descrevendo os momentos iniciais da trajetória de João


Romão relacionada ao campo do trabalho, onde dois treze aos vinte e cinco anos foi empregado
de um fazendeiro português que enriqueceu no bairro Bota fogo; e resolveu voltar a Portugal,
deixando a João Romão como pagamento pelos trabalhos realizados, toda a venda, juntamente
com um conto e quinhentos em dinheiro. A partir de então entregou-se ainda mais ao trabalho
com o objetivo de enriquecer.
Bertoleza era uma escrava que cuidava de uma quitanda, vizinha de João. Para viver
“livre” ela pagava vinte mil-réis a seu dono todos os meses. Era “amigada” com um português
que fazia fretes na cidade. Este Português faleceu após um acidente causado pelo excesso de
carga em sua carroça – é interessante notar que, desde já, o autor aponta a ganância como causa
da destruição de um de seus personagens.
Com a morte de seu companheiro, Bertoleza abriu se para João Romão, a quem servia
comida todos os dias. Com o avanço da intimidade entre os vizinhos, João se tornou responsável
pela negra, seu “caixa, procurador e conselheiro”. E então, Bertoleza não só servia comida a
ele, mas também era comida por ele, e era contente por se unir a alguém de “raça superior”.
João Romão forjou uma falsa carta de alforria que desobrigava o pagamento dos vinte mil-réis
mensais ao dono de Bertoleza: mais uma “economia”. O velho que era dono dela logo morreu
e o falso documento nunca trouxe problemas para o casal. Unindo as economias, João começou
a comprar os terrenos próximos à venda e à quitanda. Bertoleza, que era sua “criada e amante”,
juntava-se a ele para furtar materiais de construção da vizinhança durante a noite que seriam
utilizados na construção de casinhas em seus terrenos, para serem alugadas. Para acumular
dinheiro João ainda “deixava de pagar sempre que podia sem nunca deixar de receber” e
enganava seus fregueses nos pesos e medidas. Conseguiu, com esse dinheiro, comprar também
uma pedreira que ficava atrás de seus terrenos. Seu sucesso material não parava de crescer,
assim como sua ambição.
Na mesma época mudou-se para um sobrado vizinho Miranda, um comerciante
português com alguns problemas conjugais. Mudou-se com a desculpa de que lá seria um lugar
melhor para o crescimento de sua filha, Zulmira, Mas na realidade procurava afastar sua esposa,
Dona Estela, de seus amantes. Miranda queria comprar alguns terrenos adjacentes ao sobrado
para fazer de jardim, mas João Romão, dono dos terrenos, por capricho se recusava. Nasceu
então uma intriga entre os dois.
Com o desenvolvimento da região, os ganhos da pedreira e se seus negócios, João
Romão ergueu seu sonho: uma estalagem que ocupada todos seus terrenos, 95 casinhas. O local
era privilegiado, com a proximidade da pedreira e água em abundância, o que fazia o mais
disputado do bairro entre trabalhadores e lavadeiras. A construção desse espaço irritou o vizinho
Miranda, que o enxergava como era na realidade; um cortiço. E a vida se multiplicava naquele
amontoado de casas “como larva do esterco”.
Por dois anos o cortiço avançou, cresceu e se lotou de gente. Miranda cada vez mais
invejava João Romão: Sem nunca botar um paletó e vivendo com uma negra conseguira mais
riqueza que ele, que se casara por interesse e precisava manter o triste relacionamento para não
perder seus bens. Vendo que jamais alcançaria João Romão no quesito financeiro, Miranda
resolveu buscar oura forma de sobrepuja-lo: comprar o título de Barão. Na mesma época
Henrique, com 15 anos, filho de um fazendeiro cliente de Miranda, veio instalar-se junto a ele.
Na casa já moravam, além de Miranda, dona Estela e Zulmira, então com 12 anos, três criados:
Isaura, uma jovem mulata, Leonor, uma negrinha virgem, e Valentim, um moleque filho de
escrava que Dona Estela havia alforriado e que muito estimava, causando até ciúmes em sua
filha. Havia ainda Botelho, que fora funcionário de Miranda, mas agora já não prestava para
nada nem tinha família: era um velho amargurado amante de militarismo.
Constantemente, entre as diversas brigas de Miranda e Dona Estela, Botelho servia de
amigo e conselheiro de ambos, separadamente, mas nunca contando segredos um ao outro:
precisava agradar aos que lhe davam o teto. Certo dia encontrou Dona Estela no jardim se
agarrando ao jovem Henrique. Alertou, então, para que tivessem mais cuidado e jurou que não
contaria nada ao dono da casa. No entanto, em seguida, ao falar a sós com Henrique, deu
entender que esse silêncio não seria gratuito: acariciava-o constantemente e elogiava sua
beleza... era um velho pederasta. O narrador descreve o avanço gradual dos movimentos no
cortiço, desde as primeiras janelas a serem abertas, os barulhos de bocejos e de bules de café,
os banhos na bica, os vendedores de pães e peixes, as fábricas ao redor, as lavadeiras, as
conversas... É interessante a descrição semelhante à de animais que ocorre em alguns
momentos, como “machos e fêmeas” ao invés de homens e mulheres. Neste ponto são
apresentados alguns personagens, a partir da fila de mulheres que estava a lavar roupas.
Leandra, conhecida como “Machona”, era uma lavadeira portuguesa com três filhos: Maria das
Dores, conhecida como “Das Dores”, mulher separada, Nenen, jovem ainda donzela, e
Agostinho, um menino levado. Augusta Carne-Mole, também lavadeira, era brasileira e casada
com Alexandre, um mulato soldado de polícia. Tinham filhos pequenos, um deles era Juju,
garota que vivia na cidade com sua madrinha, Léonie, uma cocote (prostituta de luxo) de origem
francesa. Leocádia, mas uma lavadeira portuguesa, com fama de leviana pela vizinhança, era
casada com Bruno, um ferreiro. Paula, uma cabocla velha, além de lavadeira, era respeitada por
rezadeira, benzedeira e feiticeira, e por isso chamavam-na de “Bruxa”.
Mariana era outra lavadeira, com mania de limpeza e uma filha virgem, Florinda. Dona
Isabel era a lavadeira mais respeitada, pois não passava de uma “pobre mulher comida de
desgostos” que viu seu marido suicidar-se ainda assim educou muito bem sua filha, Pombinha,
que era muito querida por todos do cortiço: ela escrevia e lia cartas e jornais, fazia contas...
Pombinha tinha um pretendente, João da Costa, que trabalhando no comércio garantiria um
bom futuro para a mãe e filha. A menarca da garota era, então, tema constante da curiosidade
de todos moradores do local. Havia ainda Albino, um sujeito afeminado, fraco e pobre que
sempre estava entre as mulheres e também lavava roupas. Só saía do cortiço no carnaval,
quando se enfeitava para desfilar pelas ruas e bailes. Ainda foi comentada Rita Baiana, lavadeira
que adorava uma festa, e que estava sumida do cortiço desde que se engraçou com um torneiro.
Após encerrar essa exaustiva descrição de tantas figuras do cortiço, o narrador se concentra na
venda à entrada da estalagem, em que Domingos e Manuel atendia inúmeros fregueses se
concentra na venda à entrada da estalagem, em que Domingos e Manuel entendia inúmeros
fregueses no balcão, enquanto João Romão, seu patrão, e Bertoleza atendiam no
estabelecimento ao lado servindo refeições. Ali achava um estranho que deseja falar com o
dono do lugar.
O estranho apresenta-se a João Romão como um indicado para trabalhar em sua
pedreira. O salário que deseja, setenta mil-réis, a princípio assusta o dono do lugar, que aceita
pagar-lhe somente cinquenta. João apresenta ao homem a pedreira e este tece diversos elogios
ao lugar, ao mesmo tempo em que critica o trabalho mal feito pelos contratados. Propõe, então,
que caso seja contratado saberá explorar muito melhor a pedreira e fará dar mais lucro. O
argumento é suficiente para convencer o seu novo patrão. Interessante ainda a “esperteza” de
João: antes de firmar o acordo ele procura saber se seu novo empregado – Jerônimo – irá morar
no cortiço e se fará compras e refeições em seu estabelecimento, pois assim garante que o salário
“a mais” que lhe pagará voltara ao seu bolso. No dia seguinte Jerônimo e Piedade de Jesus, sua
mulher, mudavam-se para o cortiço. Ocuparam a casa 35, que era vista pelos vizinhos como
tendo mau agouro desde que uma inquilina lá morrera. Os vizinhos, aliás, acompanharam
detalhadamente a mudança, observando a qualidade dos móveis para depois comentar entre si.
O veredicto da fofoca de que o casal era bem arranjado. Jerônimo realmente era um Homem
trabalhador, desde que chegara de Portugal aprendera ofícios para sobreviver no Brasil. E esta
sua qualidade refletiu prontamente nos resultados da pedreira: com novas orientações, a
dispensa de alguns funcionários e a contratação de outros, João Romão viu seus lucros se
multiplicarem, tanto que não tardou para aumentar o salário de seu novo empregado. Essa
postura de Jerônimo também agradou à vizinhança, que o via com muito respeito.
O narrador começa a descrever um dia atípico do cortiço: um domingo. Os moradores
descansavam tocavam instrumentos, liam, jogavam bebiam... as lavadeiras não lavavam. Nesse
momento chega a tal Rita Baiana, que logo se torna o assunto de interesse geral: justamente por
ser festeira comportando-se de forma diferente de todos, era admirada pela vizinhança. Então
cumprimentava um a um, comentava sobre suas diversões em Jacarepaguá, o Carnaval...
Prometeu ainda que naquela noite haveria um pagodinho de violão na estalagem, o que animou
a todos. As mulheres preparavam as casas para receber seus homens e Pombinha escrevia cartas
para os moradores. Assim que o amante de Rita, Firmo, chegou à casa junto com Porfiro, seu
amigo, o violão e o cavaquinho começavam a se aquecer. Nas casas vizinhas também chegavam
os homens das mulheres, grupos se juntavam para o jantar e estava armada a festa. Miranda
espiava da janela de seu sobrado a bagunça que cada vez mais avançava. Os festeiros já haviam
percebido sua presença e, quando ele decidiu reclamar, todos se voltaram contra, exclamando
vaias e risadas. Após diversas conversas, quase sempre sobre a vida alheia, um chorado baiano
começou a soar. Até Jerônimo, que fora convidado a patuscada, mas preferiu ficar me frente a
sua casa tocando cantigas portuguesas, foi atraído pela música alegre e logo juntou-se ao povo.
Mais um pouco e havia diversas pessoas dançando. Quando Rita Baiana dançou Jerônimo ficou
enfeitiçado pela beleza da brasileira. Tanto que não viu o tempo passar e quando se deu conta,
já era a hora de ir ao trabalho.
Na hora do almoço, Jerônimo se recolheu em casa e reclamou à sua mulher, Piedade,
que não estava bem e precisava dormir. Como todo acontecimento diferente no cortiço, o mal-
estar de Jerônimo logo era de conhecimento de todos. Diversas vizinhas foram visitá-lo e
receitavam remédios à Piedade para sua melhora, mas ele com isso só se irritava. Até que Rita
Baiana o visitou e o alegrou. Ela preparou-lhe um café com parati (pinga) e fez recomendações
a Piedade. Numa das visitas de Rita, Jerônimo não segurou seus desejos e tentou investir nela,
que se esgueirou e ameaçou contar tudo á sua mulher. Piedade não era boba e, ao entrar no
quarto, percebeu um clima estranho, mas era antes de tudo serva de seu marido e não questionou
nada. Jerônimo melhorava. Enquanto isso era uma confusão no cortiço ... Henrique, da casa de
Miranda, tinha interesse em Leocádia, que até então se recusava. Mas neste dia, aceitando
trocar um coelho branco, Leocádia se entregou ao jovem. No meio do ato, Bruno, seu marido,
descobriu e briga estava armada. Henrique conseguiu fugir sem ser reconhecido. Em seguida
Bruno, com seu orgulho ferido, expulsou a Leocádia de casa e jogou todas os seus pertences
para fora. Quando teve a oportunidade Leocádia se vingou, destruindo tudo o que restava na
residência. Os vizinhos tiveram variáveis, ora rindo, ora preocupadas, tentando acalmar os
ânimos ou fato é que não existiam vida privada naquele lugar, tudo era compartilhado. O caso
teve seu ápice quando Bruno tocou na mulher e todos, inclusive João Romão, o dono da
estalagem, se misturaram numa confusão. Ao final, a Leocádia juntou-se pouco ao seu
descanso e selecionou-se embora. Rita Baiana, vendo isso, pediu que esperasse sair junto com
ela para ajudá-lo. O que seria essa ajuda tornou-se objeto de curiosidade de todos no cortiço.
Jerônimo não estava mais de cama, mas seu comportamento mudara. Tomava todas as
manhas café e parati, receitados pela Ritinha "pra cortar a friagem". No trabalho não era mais
o mesmo: passou de exemplo a mau-exemplo. Abriu mão de todas as tradições portuguesas que
lhe davam o ar de saudoso emigrante para absorver os costumes brasileiros, as refeições, as
músicas, as danças... tudo tendo se iniciado com a paixão pela mulher brasileira Nesse jogo
Piedade, sua mulher, levou a pior: por mais que seguisse sempre os gostos de seu marido, não
se sentia à vontade na nova terra. Após algum tempo Jerônimo não lhe dava mais atenção, não
à procurava na cama e até a repelia.
A balbúrdia que já estava formada dirigiu-se, então, para a venda, onde João Romão
acabou fazendo papel de juiz, interrogando seu empregado e decretando a punição: Domingos
teria de casar-se ou era demitido. João prometeu ainda que, caso Domingos preferisse fugir, ele
arcaria com o dote de Florinda, o que acalmou os ânimos de Marciana. À noite Augusta e
Alexandre receberam a visita da comadre Léonie, a cocote que cuidava da filha do casal, Juju.
Esta visita também interessava a todos na estalagem já que Leónie vivia de forma diferente de
todos ali, na cidade, desfrutando de festas e roupas luxuosas. O de ter que vender seu corpo
para manter este status não gerava discriminação entre os demais, sendo que as mulheres do
cortiço até a invejavam, pois não estava presa a nenhum marido e ainda assim tinha boa vida.
Juju também se vestia de maneira diferenciada, sendo admirada por todos. Pombinha, garota
mais educada do lugar, também se interessava por essa vida e era amiga de Léonie, que lhe
chamou, ela e sua mãe, para jantar um dia em sua casa. No outro dia, Marciana foi procurar por
João Romão para acertar a promessa de dote que havia feito, já que Domingos havia sumido,
mas aquele fez-se desentendido e não garantiu nada à Florinda. Marciana chegou a sua casa e
descontou a desgraça em sua maior mania, a limpeza doméstica. Em meio esta situação Florinda
chorava, irritando ainda mais sua mãe, que tentou bater-lhe novamente. Porém a filha reagiu de
forma inesperada e fugiu de casa.
Quando chegou a noite, o domingo tornou-se animado na estalagem, pegando carona
na festança que já ocorria no vizinho Miranda. Porém, entre uma dança e outra, Jerônimo e Rita
Baiana se insinuavam cada vez mais um ao outro e Firmo não aguentou a situação, partindo
para cima de seu concorrente. A luta armou-se, entre o capoeira brasileiro e o forte português.
Todos tentaram impedi-los, mas ninguém conseguiu. Rita não disfarçava certo contentamento
em ver dois homens brigando por ela; Piedade estava apreensiva pela vida do marido, e com
razão. Após muitos golpes de ambos os lados, Firmo enfiou uma navalha em Jerônimo, que
caiu. A esta altura o cortiço já estava um caos, lotado de moradores e curiosos que
acompanhavam a briga entre gritos e lamentações. Vendo isso a polícia chegou ao local e outro
conflito se armou: ninguém queria que os soldados entrassem pois sabiam que quando isso
acontecia todas casas eram invadidas e destruídas. Dessa forma Jeronimo foi recolhido para sua
casa e todos demais dirigiram o foco para a proteção da estalagem, montando uma barricada de
tralhas junto ao portão. A residência se rompeu quando surgiu a notícia de que a casa 12, de
Marciana, estava em chamas. Em instantes o amontoado de casas também seria incendiado,
então todos se atropelavam tentando salvar sua parte. Os policiais invadiram o lugar, perdendo
uns, destruindo as casas de outros. Em seguida caiu uma tempestade.
Foi a bruxa quem tentou incendia o cortiço, influenciada pela loucura recente que vira
em Marciana, mas ninguém descobriu. João Romão logo começou a planejar a recuperação dos
prejuízos que a invasão policial causou: sua brilhante ideia foi de cobrar algo a mais dos seus
inquilinos para cobrir os custos. Antes disso precisou ir à cidade prestar depoimento na
secretaria de polícia, aonde foi acompanhado por vários moradores curiosos que responderam
junto a ele a todas as perguntas, em um desajustado coro. O fato é que ninguém acusaria
qualquer culpado para o início da confusão, afinal, o cortiço tinha suas próprias regras.
Enquanto isso Jerônimo era tratado por Rita e Piedade, numa situação um tanto desconcertante
para esta última, que, no entanto, não exteriorizava seu incômodo. Passada uma noite após a da
confusão, todos já voltava à rotina com mais ânimo. Exceto Pombinha, que no domingo havia
atendido ao convite de Leónie e a visitava junto de sua mãe, Dona Isabel. O motivo desse
desânimo em Pombinha é que durante um vinho que tomara. A situação constrangedora deixou
a garota confusa. Neste dia é narrado o momento poético em que Pombinha resolve isolar-se e
caminha pelos arredores do cortiço, até que, entre pensamentos e sonhos, “torna-se mulher”.
Pombinha foi direto para sua casa contar à sua mãe a tio esperada novidade. Dona
Isabel agradecia à primeira menstruação da garota como uma dádiva divina. Logo todos no
cortiço sabiam da novidade e parabenizavam mãe e filha. Na noite do mesmo dia João da Costa
compareceu à casa daquela que, agora sim, seria sua noiva. Jeronimo precisou ser encaminhado
para um hospital e a partir de então Rita sentiu-se mal: ela ficou sozinha, uma vez que tinha
pouco contato com Firmo, que fora proibido de entrar na estalagem. Outro que estava mal era
Bruno, já arrependido de ter expulsado Leocádia de casa. A Bruxa tirara-lhe cartas que diziam
que a mulher ainda o amava, o que o animou para tentar um contato. Procurou, então, por
Pombinha para ela lhe escrever uma carta. Mesmo ocupada com a costura de seu envolva, a
menina atendeu ao pedido de Bruno, que entre lágrimas confessou que aceitaria Leocádia de
volta e esqueceria sua traição. Pombinha já passara por situações como aquela diversas vezes,
mas agora com suas recentes experiencias e a proximidade de seu casamento, via com outros
olhos a interessante relação que se travava entre homens e mulheres. Enquanto um tentava
demonstrar sempre sua superioridade, a outra era a verdadeira dominadora.
A casa de Dona Isabel e Pombinha mal fora desocupada e já tinha novos inquilinos. O
mesmo acontecia com o restante do cortiço, que tinha suas casas divididas e subdivididas a todo
momento para acomodar mais gente que chegava, mais gente que nascia. Não só o cortiço, mas
o bairro crescia. Tanto que surgiu um cortiço concorrente, o "Cabeça de Gato", levantado por
outro português. João Romão, percebendo a concorrência, incentivou um sentimento de intriga
entre os moradores de sua estalagem e os daquela, ainda que sem motivos muito claros. Até os
moradores de cada cortiço tinham sua denominação: os carapicus eram do São Romão
(estabelecimento de João Romão) e os cabeças-de-gato do concorrente. Firmo, que havia sido
expulso do São Romão, era um dos mais respeitados dos cabeças de gato, considerado um líder
por suas habilidades. No entanto, após três meses, João Romão notou que o cortiço vizinho não
era uma grande ameaça e que, por fim, ajudava no movimento dos seus negócios, com o
crescimento do bairro. Então ele dirigiu suas atenções para outra intriga que mais lhe
interessava: Miranda. João mudou seus costumes, suas roupas, sua agenda... Usava casacos,
chapéus, fazia a barba, lia jornais, reformou seu quarto. Não trabalhava mais servindo pratos,
contratou quem o fizesse. Finalmente encontrou um meio para empenhar tanto dinheiro
acumulado. Era mudança deu resultado: Miranda o cumprimentava e às vezes até conversava
com João. O mesmo acontecia com o velho Botelho, desocupado que vivia à custa de Miranda.
Certo dia, numa das muitas conversas entre João Romão e Botelho, o velho lhe lançou uma
ideia: que conquistasse Zulmira, a filha de Miranda, que já estava moça- com isso levaria a
herança! Botelho tinha influência com o Barão e ajudaria João na conquista, contanto que ele o
retribuísse pecuniariamente. O comerciante tentou pechinchar no ajuste, mas acabou cedendo
no valor que Botelho desejava. Dias depois João Romão já era convidado de Miranda para
jantar. Apesar da falta de costume de participar de eventos como esse, o dono do cortiço
arranjou-se bem e ficou satisfeito: o primeiro passo havia sido dado. Ao chegar em casa
deparou-se com sua companheira, Bertoleza, já deitada, imunda, cada vez mais maltratada pelo
trabalho que se acumulava sobre ela. João percebeu que ela atrapalharia, sem dúvida, seus
planos para com Zulmira. Pensou "E se ela morresse?...
Rita e Firmo deram um jeito de manterem seus encontros: alugavam um quarto de uma
velha na Rua de Sio João Batista, já que um não poderia entrar no cortiço do outro, devido às
rivalidades entre carapicus e cabeças-de-gato. No entanto o homem percebeu que cada vez
menos a morena se interessava por ele, sempre se atrasando e saindo cedo, até o dia em que
nem apareceu. Firmo já desconfiava de alguma traição, que foi confirmada quando soube que
na mesma época Jeronimo havia saído do hospital. Prometeu um novo ataque E realmente Rita
estava entregue aos cuidados de Jeronimo, que continuava bem fraco depois de meses de cama.
Piedade, sua mulher, ainda remoída em silêncio suas tristezas. Antes que Firmo pudesse pôr em
prática uma nova ação, Jerônimo já armava contra ele. Com mais dois amigos, Zé Carlos e
Pataca, montou uma emboscada em que pegaria seu rival em desvantagem numérica e bêbado.
Na mesma noite chuvosa foram os três em direção ao Garnisé, bar frequentado por
Firmo. Lá entrou somente Pataca, que se fez de amigo do capoeira oferecendo-lhe mais bebidas,
o que o deixava ainda mais ébrio do que estava. Firmo confessou seu interesse em atacar
Jerônimo ainda naquela noite. Pataca aproveitou-se da situação para saber quais armas ele
levava e atraiu-o para a emboscada: alegando ter visto Rita na praia convenceu Firmo de segui-
lo. Na praia, após caminharem bastante, encontraram com Zé Carlos e Jerônimo, que atacaram
de surpresa. Com a vítima completamente bêbada não foi tarefa difícil desarmá-lo e enchê-lo
de pancadas até a morte. Jogaram o corpo ao mar.
Após pagar o que devia aos seus ajudantes, Jerônimo voltou ao cortiço. À porta de sua
casa percebeu a luz ainda acesa e lembrou-se de sua mulher. Não a desejava mais. Mudou de
rumo e foi ter com Rita que, ao vê-lo cheio de sangue pelo corpo e com a navalha que fora de
Firmo, entregou-se completamente a ele. Fizeram planos de saírem da estalagem e viverem
juntos. Piedade passara a noite em claro, entre pensamentos trágicos e alucinações em relação
ao seu marido. Ela amaldiçoava o dia em que decidiu vir ao Brasil e deixar sua terra, onde com
certeza Jerônimo ainda seria o mesmo, sem ser atraído pela luxúria da América. Quando
amanheceu foi à rua procurar notícias. Não demorou muito para que o sumiço de Jerônimo se
tornasse a notícia do dia na estalagem. Rita também saíra, pois preocupava-se com a
repercussão que a morte de Firmo causaria, o que era justificado pois o povo do Cabeça-de-
Gato já jurava vingança contra os carapicus pelo assassinato de seu líder. Quando voltou ao
cortiço, Piedade já sabia que seu marido estava bem, mas havia fugido de casa. Ao descobrir
que Firmo havia sido morto ela ainda tentou duvidar que tudo aconteceu por causa da baiana,
mas não havia outra conclusão possível. Em seguida chegou a Rita, feliz, após um encontro
com Jerônimo. Piedade não aguentou ver tal cena e partiu para cima da rival, primeiro com
ofensas, depois fisicamente. Como sempre, o cortiço todo parou para ver a briga: os portugueses
apoiavam Piedade e os brasileiros a Rita. O calor da briga não demorou para se espalhar entre
todos que logo começaram também a se enfrentar. João Romão, vendo que não controlaria a
bagunça, tratou de proteger sua venda. Miranda iniciou a apitar, chamando a polícia, que pouco
depois chegou e pediu reforços, tamanha era a confusão.
Ao mesmo tempo era possível ouvir o grito de guerra dos cabeças-de-gato que vinham
em bando, prontos para vingar Firmo. Ainda que a batalha entre portugueses e brasileiros do
cortiço São Romão estivesse em seu ápice, a chegada dos cabeças-de-gato reuniu rapidamente
os carapicus. Os invasores vinham à moda de seu líder assassinado, com navalhas preparadas.
A batalha teve início. Porém em alguns instantes via-se uma casa, a 88, a incendiar. E dessa vez
a bruxa fez o trabalho perfeito, pois o fogo não dava sinais de baixar. Surpreendentemente, os
cabeças-de-gato, diferente dos policias no último incêndio, não se aproveitaram da situação,
mas recuaram por considerar uma briga injusta. Foram capazes até mesmo de ajudar a salvar
os bens de seus inimigos. A confusão no cortiço crescia, com diversos móveis sendo atirados
para a rua, enquanto outros traziam água para apagar o fogo. Era possível ver a Bruxa à janela
de sua casa, sorrindo, e sendo consumida pelas chamas. O incidente acabou com a chegada dos
bombeiros que atuavam como heróis, para o delírio dos animados espectadores da desgraça e,
em especial, das senhoras assanhadas.
Durante o incêndio o velho Libório, morador do cortiço que vivia à custa de esmolas,
correu desesperado para dentro de sua casa em chamas. Vendo isso, João Romão o seguiu e
pegou de surpresa o velho arrastando um enorme embrulho. Libório se enfureceu, ficou
agressivo com a presença de João, que logo percebeu do que se tratava: havia no embrulho
diversas garrafas de dinheiro que eram guardadas dentro do colchão do pedinte. Em meio às
chamas os dois pareciam iniciar uma briga, mas uma parte do teto caiu sobre o velho, então o
dono da estalagem pegou o embrulho e garantiu sua fuga. No dia seguinte havia cadáveres
queimados no meio do pátio, entre eles o da Bruxa e de Libório. Vários outros se feriram, e a
filhinha de Augusta Carne-Mole morrera. Miranda consolava João pelo desastre, mas esse
relevava: após o primeiro incêndio havia feito um seguro e este segundo o deixava, portanto,
no lucro. O português já planejava reconstruir sua estalagem, com ainda mais casas,
aproveitando o pátio que era grande demais. Miranda admirava a atitude de seu vizinho. Mais
tarde, quando Bertoleza já dormia, João Romão pôs-se a contar quanto dinheiro havia nas
garrafas do velho Libório. A quantia era suficiente para começar a pôr em prática seus planos
de ampliação do cortiço, apesar de algumas notas mofadas e outras que não mais valiam. Para
estas últimas João tinha destino certo: embutiria aos poucos nos trocos da venda. Passados
alguns dias o cortiço já estava em obras. Havia grande movimento, mas a rotina pouco mudara.
Além de reconstruir casas, João Romão também decidiu reformar seu armazém, erguendo um
sobrado mais alto que o de Miranda. E para isso já não economizava, ele estava mudado,
valorizava o luxo. Tanto que pouco permanecia na estalagem: agora aplicava em ações da bolsa,
tinha amigos barões, frequentava cafés chiques. Miranda e o velho Botelho acompanhavam os
avanços do São Romão diariamente, admirados. E se perguntavam como podia um homem de
tanta atitude e status manter o relacionamento com uma preta como Bertoleza. Mas a verdade
era que o relacionamento nem existia. Bertoleza percebia dia a dia o distanciamento de seu
amigo. Ele mal a procurava, e quando o fazia era com repugnância. Ela percebia o perfume de
cocotes em suas roupas, a mudança do comportamento, mas ainda o admirava.
Bertoleza já não esperava amor, mas ao menos um apoio para viver sua velhice que
logo chegaria, afinal, desgastava-se muito, trabalhando todos os dias, o dia todo. Botelho
procurou João Romão para dar-lhe uma boa nova: poderia pedir a mão de Zulmira com certeza
de sucesso, Miranda já havia aprovado a união. Restava resolver-se com Bertoleza, que ouviu
a conversa e não pôde segurar suas lágrimas. Enquanto isso Jerônimo estava empregado em
outra pedreira e vivia com Rita Baiana em outra estalagem. Lá se entregara definitivamente à
cultura brasileira, aos costumes, aos modos: viciou-se nas bebidas, nas danças, já não sabia
mais economizar. Viviam felizes, de amor, o casal. Piedade, por outro lado, só piorara.
Enfraquecia-se física e mentalmente. Emagreceu muito e descobriu nas bebidas a fuga de sua
tristeza. Seu único contentamento era sua filha, que aos domingos saía da escola e ficava com
a mãe. Os vizinhos a elegeram a nova Pombinha, agora sobre o nome de Senhorinha, tal era a
admiração que tinham por ela. Um dia Senhorinha chegou para sua mãe com uma carta do
colégio informando que há seis meses não era feito o pagamento. Indignada, Piedade foi até a
casa de Jerônimo e lá se encontraram as duas figuras, desgastadas, e um sopro de esperança
passou pelo coração da portuguesa quando ele a olhou com certo remorso e tocou-lhe o corpo.
Mas Jerônimo sabia o que queria: apenas lamentou não poder mais pagar o colégio da filha e
voltou aos braços de Rita. O cortiço estava, enfim, mudado. As cem casinhas já somavam mais
de quatrocentas. O pátio virara uma rua. A estalagem era o maior sobrado da região. Na entrada
agora havia um jardim e uma placa “Avenida São Romão”. Até mesmo os moradores eram
diferentes: havia funcionários públicos, artistas, estudantes, não só lavadeiras e operários. O
Cabeça-de-Gato já não era mais comparável à obra de João Romão. O cortiço estava, enfim,
mudado. As cem casinhas já somavam mais de quatrocentas. O pátio virara uma rua. A
estalagem era o maior sobrado da região. Na entrada agora havia um jardim e uma placa
“Avenida São Romão”. Até mesmo os moradores eram diferentes: havia funcionários públicos,
artistas, estudantes, não só lavadeiras e operários. O Cabeça-de-Gato já não era mais
comparável à obra de João Romão. Após chegar em casa, Piedade pôs a filha para dormir e foi
à vizinhança procurar o que fazer. Juntou-se à uma roda na casa da das Dores. Lá se embebedou
e virou o sarro de todos: ela dançava, cantava, caía e levantava. Quando João Romão chegou à
estalagem e viu a bagunça mandou todos às suas casas. Ela até tentou enfrentá-lo, mas foi
impedida por Pataca, que já a assediava há algum tempo Foram Pataca e Piedade para a casa
dela. Conversaram, beberam mais, comeram… e ele a atacou. Senhorinha acordou com o
barulho e encontrou os dois juntos, no chão da cozinha. Piedade desfaleceu e vomitou sobre si.
Pataca a levou para o quarto e foi embora. Senhorinha chorou.
Ao mesmo tempo estava João Romão em seu quarto, todo reformado, com papel de
parede, móveis novos, pronto para um casal. Bertoleza dormia nos fundos do armazém, no chão.
Aí estava o grande impasse do português: Miranda já havia concedido a mão de sua filha
Zulmira e Dona Estela já procurava uma data para o casamento, mas Bertoleza permanecia em
sua casa. Seu pensamento “E se ela morresse?” logo passou para “E se eu a matasse?”. Mas
essa alternativa parecia muito arriscada, já que agora, prestes a se casar, todos desconfiariam
do feito. João se arrependeu de não ter dado um fim na negra antes. O dono da estalagem
caminhou até onde sua antiga amiga dormia e a olhou por um tempo pensando no que faria
dela, até que ela acordou, assustando o homem, que pensou “Será que ela desconfia de algo?”.
A noite passou sem que João dormisse. Assim que saiu para o cortiço soube de um desastre:
Agostinho, filho de Machona, acidentou-se quando brincava na pedreira e morreu
violentamente. Sabendo disso, o português estranhamente lamentou o ocorrido: porque morrer
assim uma criança que não faz mal a ninguém, e não Bertoleza, que tanto o atrapalha! Em
instantes chegou o velho Botelho ao sobrado de João e contou que se preocupava com a
influência da negra sobre sua imagem perante Miranda e Dona Estela. Discutiram então,
durante o almoço, o que se deveria fazer. Surpreendentemente Bertoleza entrou no recinto e
professou injúrias a João Romão, afirmando que não se deixaria ser descartada daquela forma,
que “quem lhe comeu a carne haveria de roer seus ossos”. Após essa discussão Botelho e João
saíram. Bastou algum tempo para que tivessem uma ideia: poderiam denunciar Bertoleza ao
seu dono, afinal, como foi dito no início dessa história, João falsificou a alforria da negra,
portanto, ela ainda era escrava! João providenciaria o endereço e o nome de quem fosse de
direito e Botelho faria o contato.
Daquele dia em diante Bertoleza ficou em alerta, despertava com qualquer barulho
durante a noite, sabia do risco que corria. Enquanto isso o São Romão prosperava: o armazém
se tornou um centro de distribuição de mercadorias para vários comércios menores, a estalagem
abrigava cada vez mais pessoas instruídas, quase não havia lavadeiras. Leónie ainda visitava o
lugar levando Juju para visitar Alexandre e sua mulher. Essas visitas continuavam causando
alvoroço e admiração entre os moradores, principalmente a partir de quando, junto a Leónie,
estava Pombinha! A moça, após dois anos de casamento, se cansou do noivo, se aventurou com
outros até perder o marido, então foi morar com Leónie, para viver a mesma vida de prostituta.
Sua mãe, Dona Isabel, de início rejeitou a mudança, tentou reatar o casamento, mas com o
tempo, conforme ia ficando dependente financeiramente da filha, aceitou a condição e foi morar
com ela, até a morte. Eram, então, Leónie e Pombinha as duas grandes damas da cidade, a
endinheirar-se sobre os desejos dos homens. Pombinha tinha no cortiço uma “aprendiz”, a filha
de Jerônimo e da pobre Piedade, e dava-lhe todos os mimos, da mesma forma que anos antes
Leónie fazia com ela. Piedade estava completamente entregue à bebida. Era abusada todos dias
por homens que se aproveitavam de sua embriaguez. Já não trabalhava – ninguém confiaria
suas roupas a ela. Mantinha-se no São Romão à custa de Leónie, mas com o tempo sua figura
não era mais bem vista por lá, já que o lugar era cada vez mais bem frequentado. Até que foram
expulsas, ela e sua filha. Partiram para o Cabeça-de-Gato, que de forma oposta ao São Romão,
tornava-se mais miserável, absorvendo toda podridão da qual a outra estalagem se desfazia.
João Romão convivia com Miranda rotineiramente, era quase membro da família, só
faltava oficializar.
Passados alguns dias, o velho Botelho avisa o português que o dono de Bertoleza já
estava a par de sua situação e que logo estaria no armazém para capturá-la. O tal homem chegou
acompanhado de policiais e João Romão fez como se não soubesse da procedência da negra.
Ao ser surpreendida pelo grupo na cozinha, a escrava percebe a emboscada e rasga seu próprio
corpo com a faca. Enquanto isso chegava à estalagem uma comissão de abolicionistas para
trazer um diploma de sócio benemérito a João Romão. Ele pede para encaminhá-los à sala de
visitas.
2 BIOGRAFIA DO AUTOR
1. CONTEXTO HISTÓRICO

O contexto histórico em que onde a obra se refere diz respeito à segunda metade do
século XIX, permeado por disputas coloniais entre os países mais desenvolvidos na Europa
naquele período. Momento este que é caracterizada pela consolidação do poder da burguesia, o
materialismo e o crescimento do proletariado. Por um lado havia o progresso, representado pelo
crescimento das cidades, por outro lado havia o crescimento dos bairros pobres onde residiam
os operários. A cidade sofre, então, a pressão do crescimento demográfico: falta de habitações
decentes, acessíveis e necessidade de residir perto do lugar de emprego, dada à insuficiência e
o alto custo dos transportes, provocam um verdadeiro confinamento do trabalhador nas
habitações coletivas. Casebres e cortiços multiplicam-se próximo aos estabelecimentos
industriais, em ruas sem calçamento, denunciando a precária situação sócio-econômica do
trabalhador.
Enquanto a burguesia lutava pelo dinheiro e pelo poder, o operário manifestava sua
insatisfação promovendo as primeiras greves. Sob esta conjuntura nasceram e se
desenvolveram as ciências sociais, preconizando o desenvolvimento científico que fez com que
o idealismo e o tradicionalismo fossem substituídos pelo materialismo e racionalismo. O
método científico passou a ser o meio de análise e compreensão da realidade. Algumas teorias
deram fundamentos ideológicos à literatura do Realismo-Naturalismo, quais sejam a Teoria
Determinista (Hippolyte Taini, 1825-1893), que diz que o comportamento humano é
determinado pela hereditariedade, pelo meio e pelo momento e o Evolucionismo (Charles
Darwin, 1809-1882), que defende a tese de que o homem descende dos animais.
Em “O Cortiço” temos uma gama de personagens trabalhadores, de diferentes
profissões (lavadeira, ferreiro, operário) reflexo das transformações que o País enfrentava:
determinação do fim do tráfico negreiro (1850) e da escravatura (1888), decadência da
economia açucareira, industrialização e crescimento das cidades. Azevedo tenta fotografar o
real e traz todos esses elementos e conflitos para o romance.

1.1 IMIGRAÇÃO LUSO-BRASILEIRA NO FIM DO SÉCULO XIX

Dentro desse contexto histórico, se faz necessário discutir qual foi o papel dos
portugueses do Brasil nessa “reconstrução” das relações luso-Brasileiras, quando a imigração
portuguesa no Brasil se torna, no século XIX, o principal alvo de discussão nesse sentido. Com
efeito, depois da Independência de 1822, se Portugal e Brasil mantêm globalmente Relações
cordiais, justificadas essencialmente por interesses econômicos e demográficos, as trajetórias
que ambos os países possuem no que tange a política são divergentes, pouco a pouco, no
decurso do século XIX. No plano político, particularizando a política externa, Portugal e o Brasl
possuem poucos interesses comuns, pois o Brasil investia naquela época principalmente em
Buenos Aires, Londres e Washington, onde estavam concentrados os sus interesses comerciais
e geopolíticos.
A política estrangeira de Portugal, é essencialmente baseadaem três pontos: a questão
colonial, a busca pela neutralidade no contexto europeu e o estabelecimento de relações
políticas cordiais com Espanha.
No entanto, no fim do século XIX, o governo português adota uma nova estratégia em
relação ao Brasil, tentando aproximar-se politicamente da sua antiga colônia. Esse projeto
inscreve-se numa política de esforços do governo português, em particular depois da
humilhação do ultimato inglês de 1890, para afirmar-se como potência colonial moderna frente
à cobiça das nações europeias sobre as colônias portuguesas da África. Evento este onde
Portugal teve que renunciar a um vasto território africano ligando Angola e Moçambique.
O projeto de aproximação com o Brasil se desenvolveu ainda mais depois da
Proclamação da República portuguesa, em 1910. Além da vontade de garantir a integridade do
patrimônio colonial português, os dirigentes republicanos se esforçaram também para
consolidar a legitimidade do novo regime, em nível nacional e internacional, desenvolvendo
um discurso nacionalista que confundiu a causa republicana e a causa nacional. Este discurso,
que afirmava "a vocação colonizadora do povo português" e o "gênio" da raça portuguesa,
pregava a união de todos os portugueses para apoiar a República, único regime capaz de
defender a pátria portuguesa e as suas colônias. Este discurso nacionalista se propôs também a
mostrar a existência de uma comunidade lusófona, ou seja, defendeu uma identidade cultural,
linguística e histórica comum entre Portugal e as suas antigas e atuais colônias. Assim, a
existência dessa esfera de influência portuguesa deveria provar a capacidade colonizadora de
Portugal. O Brasil é, nesse discurso, que podemos chamar de "pan-lusitanista", o melhor
exemplo dessa capacidade colonizadora e a prova mesma da existência dessa comunidade
lusófona.
A nação referida é a prova de que o povo que o fez também é capaz de levar a luz da
civilização à África, portanto, a colonização brasileira deve servir de exemplo à colonização
africana. Assim, a valorização das relações com a sua antiga colônia permite às autoridades
portuguesas provarem a existência dessa esfera de influência lusófona e afirmar a posição
portuguesa na cena internacional como metrópole cultural e colonizadora eficiente frente aos
seus concorrentes europeus. Os imigrantes portugueses no Brasil têm um papel essencial nessa
estratégia do governo português, primeiro como os principais agentes de difusão do discurso
"pan-lusitanista" e, depois, como principais promotores de uma aproximação luso-brasileira.
Mais precisamente, dentro da grande colônia de imigrantes portugueses no Brasil, uma fração,
muito bem integrada à sociedade brasileira, organizou-se para defender os seus interesses e se
constituir como um grupo de pressão. Essa elite de intelectuais e de comerciantes apresentou-
se como a representante dos interesses portugueses, posicionando-se como os interlocutores
legítimos nas relações oficiais entre Portugal e o Brasil.
Onde, como consequência dessa comunicação e de todo esse processo, desenvolveu-
se sucessivamente a integração da imigração portuguesa para dentro da sociedade brasileira e,
em particular, dessa elite. Assim como as representações elaboradas por essa elite sobre a
presença portuguesa no Brasil, onde os esforços desenvolvidos por essa elite promoveram uma
política cultural luso-brasileira.
Até os anos 1930, o Brasil foi a destinação preferida de uma importante emigração
portuguesa10. Mais de um milhão de portugueses partiram para o Brasil entre 1889 e 1930.
Longe de constituir um grupo homogêneo e unido, a colônia portuguesa se caracterizou por
numerosas divisões econômicas, sociais e políticas. Um dos fatores dessa heterogeneidade é o
perfil estrutural da emigração portuguesa que conheceu uma evolução importante no decurso
do século XIX. Depois da Independência brasileira, as primeiras gerações de emigrantes
portugueses que chegaram ao Brasil são majoritariamente bem acolhidas, muitas vezes por
membros da família ou por amigos já instalados em Recife, Salvador ou no Rio de Janeiro e
trabalharam sobretudo no setor comercial. No fim do século XIX, a emigração portuguesa
torna-se uma emigração mais maciça, muito mais pobre, sem rede de acolhimento no Brasil.
Assim, as condições de integração e de sucesso não são as mesmas para todos. Não existe uma
homogeneidade econômica e social dos portugueses no Brasil que, no fim do século XIX,
distribuem-se por uma larga escala social, do operário e do caixeiro na base, até o comerciante
rico ou o banqueiro na outra extremidade. Se a maioria da população portuguesa no Brasil era
constituída por pobres e operários, os poucos portugueses que conseguiram atingir um certo
nível econômico e social, os brasileiros, como eram chamados em Portugal, procuram manter
o sonho e o fluxo da emigração portuguesa. Esses brasileiros portugueses formaram uma elite,
que dominou a colônia portuguesa, desempenhando um papel importante na vida econômica e
social do Brasil.
O poder econômico dessa elite provinha sobretudo do comércio. Na segunda metade
do século XIX, o comércio de importação, em particular a importação têxtil, permitiu que esses
comerciantes portugueses acumulassem capitais, reinvestidos no setor imobiliário, nas finanças
ou na indústria. O desenvolvimento da indústria têxtil no Rio de Janeiro, no fim do século XIX,
foi particularmente realizado graças aos investimentos portugueses. Os portugueses foram
também pioneiros na indústria do tabaco no Brasil.
A elite dedicou-se com efeito a apagar as diversidades sociais, econômicas e políticas
da colônia portuguesa pela elaboração de um discurso de união e de comunhão em torno da
afirmação da identidade nacional portuguesa. Sob a influência de diversos fatores – o fato de
Portugal ser o país ex-colonizador, uma presença importante de portugueses no comércio, a
chegada maciça de uma imigração rural pobre, uma corrente nacionalista brasileira anti-lusitana
– a imagem dos portugueses no Brasil é bastante desvalorizada: a imagem do comerciante rico,
que enriquece em detrimento do brasileiro, se alternava com a imagem do pobre trabalhador
analfabeto, inculto e oriundo de uma comunidade portuguesa muito dividida politicamente. A
elite portuguesa esforçou-se para corrigir essa imagem. Ela opôs à imagem do imigrante inculto
e parasita a imagem de um trabalhador obediente e apolítico e dedicou-se a mostrar que o
imigrante português é “honesto, trabalhador, sóbrio, ordeiro, tolerante, arrojado e caritativo” e,
portanto, bem diferente dos numerosos excluídos sociais, que se encontravam nas ruas das
grandes cidades. Tal classe social no Brasil veicula em particular a ideia de que o português
não é um imigrante como os outros, que os portugueses não são estrangeiros no Brasil, pois
portugueses e brasileiros são ligados pela história, pela raça, pela língua e pela fé religiosa.
A contribuição da imigração portuguesa é valorizada como um elemento positivo para
o Brasil e para o povo brasileiro, que evitaria, assim, uma "desnacionalização" da sua cultura,
ameaçada pela imigração de povos de raça, de língua, de tradição ou de religião diferentes.

3 ANÁLISE D’O CORTIÇO

Uma obra como O cortiço, de Aluísio Azevedo, não pode prescindir de análises mais
acuradas, que procurem o cerne das questões trabalhadas pelo autor no século XIX. Está
exposta, portanto, a proposta deste trabalho acadêmico e diversos outros que o fizeram ao longo
dos anos desde a produção da obra.
Com o propósito de melhor exposição dos temas abordados por Aluísio trabalhar-se-á
com a análise de três núcleos narrativos distintos entre si, mas que convergem para um mesmo
ponto na obra. O primeiro deles é o protagonista da obra, João Romão, o português que
enriquece à custa de labor e ladroagem, e seu vizinho Miranda, o português que enriquece
casando-se na terra. Dando continuidade, o segundo núcleo é com efeito o terceiro português
da obra, Jerônimo, que diferente de seus conterrâneos é vencido pela Natureza brasileira e se
modifica. O último, ao qual todos os demais acabam por convergir, é o cortiço de São Romão,
foco principal do que é narrado, e onde a ação se desenrola de maneira significativa.
Como por se tratar de uma obra Naturalista e do século XIX, o autor d’O cortiço
trabalha e aborda os temas correntes no pensamento científico do período. O cientificismo
mudara significativamente o modo de pensar e de agir dos cidadãos do momento histórico em
que foi inserido. A política se modificou-se com a contaminação do Positivismo, a literatura
com a presença de diversas das teorias cientificistas, mas em sua maioria sobre o determinismo
e o racismo científico – expressão máxima do darwinismo social. Essa presença é latente no
livro que aborda todas essas questões inseridas num contexto nacional.
Outrossim a obra encerra em si o conteúdo de uma relação ainda colonial e demonstra
o primitivismo econômico do Brasil. É a primeira vez que, numa obra literária, é mostrado a
riqueza como advinda do labor e do esforço, e não como um elemento na narrativa que surge e
é o propósito de si, diferente do que ocorre no livro, em que a bonança é demonstrada como
sendo conquista e surge nela o projeto econômico do ganhador de dinheiro. É graças a essas, e
outras análises, que pode-se compreender no cortiço de Botafogo, um elemento alegórico de
representação de todo o Brasil.
Finalmente a inspeção d’O cortiço apresenta uma dialética entre o espontâneo e o
dirigido, exposta por Antonio Candido em sua brilhante análise denominada De Cortiço a
Cortiço, onde o autor demonstra de maneira minuciada todos os temas abordados na obra de
Aluísio Azevedo.

1.1 DETERMINISMO E PESSIMISMO RACIAL

É em pleno século XIX, já com a ascensão das teorias cientificistas e com um


pensamento crescente a respeito da importância da ciência e do método científico que surgem
diversas ideologias com bases e fundamentos científicos, ou que ao menos transpareciam o ser.
Nesse contexto de produção surge o Ensaio sobre a desigualdade da raças humanas, um escrito
do conde Arthur de Gobineau publicado em 1853. Ao longo do qual o autor descreve de maneira
sistêmica os prejuízos da miscigenação racial, o que levou ao desenvolvimento da crença na
raça ariana e ao racismo científico, muito difundido após a publicação do trabalho. Outra obra
mister para a compreensão deste preconceito é A origem das Espécies¸ de Charles Darwin
publicada em 1859, que não encerra em si os motivos para a difusão de segregações raciais,
mas que foi utilizado para o desenvolvimento do darwinismo social.
Não restam dúvidas sobre as influências de Gobineau e Darwin nos escritos do
Naturalista brasileiro Aluísio Azevedo, e esta presença fica latente em sua obra, seja na
caraterização disforme dos personagens de acordo com sua raça, seja de maneira direta, através
das palavras do narrador.
Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se
de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-
se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua.
(AZEVEDO, 1890)
Bertoleza é a escrava com quem João Romão passa a viver e a se relacionar após tê-la
roubado o dinheiro e forjado lhe uma alforria. A negra mulata é descrita no livro sem demasiada
densidade psicológica, até meados deste, quando se inicia nela uma mudança significativa.
Entretanto, essa é uma passagem do introito do livro, na qual João Romão vendo na mulher um
meio de enriquecer e uma companheira com quem passar seu tempo propõe que morassem
juntos. O interessante desta passagem é a motivação que o narrador deu à decisão de Bertoleza,
“procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua”. Sendo ela negra, mas tendo
conseguido ajuntar dinheiro, pôde juntar-se a um companheiro branco, atribuindo melhora à
sua prole. Duas coisas devem ser levadas em consideração a esse respeito, segundo Gobineau
a miscigenação é ruim, e a preservação de uma raça – mesmo que, segundo ele, inferior – é o
ideal. A segunda consideração é sobre o desenrolar da narrativa de Bertoleza e João Romão,
sendo esse de uma raça superior, logo que se viu com a oportunidade de ascender socialmente,
teve de dispensá-la, e mesmo antes disso já havia abortado filhos que teria com a escrava.
Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do
instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos, depois continuou a estar com
ele por hábito, por uma espécie de vício que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas
desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade
de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e
Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. (AZEVEDO, 1890).
Novamente Aluísio faz a descrição da escolha de raça inferior para raça superior. Rita
Baiana é a mulata descrita como linda e que fazia com que todos a sua volta lhe notassem, seja
de passagem ou mais intensamente quando dançava seu Samba. É nessa beleza Natural
brasileira pecaminosa que Azevedo insere o elemento de decadência de Jerônimo, que diferente
de seu conterrâneo João Romão não soube aproveitar das belezas da terra brasileira sem ser
vencido por elas e decaído ao posto de brasileiro, uma raça inferior à sua em diversos aspectos.
Todavia, a descrição desta passagem possui importância na caracterização instintiva de Rita,
que prefere o português sobre o capoeira, pois é nele que encerra o gene de aprimoramento
racial.
Da mesma forma que o racismo de Gobineau, está presente no livro o determinismo
de Comte, abordado de forma sistêmica em todos os personagens do romance Naturalista, de
forma a criar uma relação entre o Brasil e as terras daqui com a formação do caráter daqueles
que compõe o escopo narrativo da obra.
E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão
português: e Jerônimo abrasileirou-se. [..] O português abrasileirou-se para sempre;
fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento;
forrasse-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de
enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser possuído
só por ela, só ela, e mais ninguém. (AZEVEDO, 1890).
Jerônimo viera para o Brasil com sua mulher, Piedade de Jesus, e uma filha pequena.
E por muito tempo mantivera aqui os bons hábitos portugueses, era um ótimo trabalhador, o
primeiro a acordar e começar o labor do dia, poupava dinheiro e não saia de casa nas súcias
realizadas no cortiço de São Romão, mas logo que pôs seus olhos em Rita Baiana, uma mudança
se operara nele, mudou-se com relação ao trabalho, já não mais era o primeiro acordar e largara
todos os antigos hábitos portugueses de lado, passava a tomar café no lugar do chá, a parati no
lugar do vinho do porto e outros mais. Perceba-se que esta caracterização depreciativa da
personalidade é invertida em João Romão e em Miranda. Apesar de os três da mesma terra, ao
chegarem ao Brasil tiveram eles destinos diversos em muito. Enquanto Miranda, adapta-se ao
Brasil usufruindo de seus recursos, – uma rica mulher brasileira a quem odeia, mas precisa de
seu dinheiro – João Romão vence o meio no qual está inserido e se apresenta como o
colonizador que explora os nativos para a conquista de suas riquezas, e Jerônimo é o único que
por convivência de tanta proximidade é vencido pelo meio e abrasileira-se.
A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando
uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado
de uma infeliz mãe ébria. (AZEVEDO, 1890)
Finalmente, a última relação posta pelo autor e que revela a presença latente do
determinismo na obra é a presença das prostitutas Léonie e Pombinha, a segunda tendo sido
feita a partir da primeira. Pombinha é filha de Isabel e demora a ter sua primeira menstruação,
e só se torna mulher após o estupro homossexual de Léonie, que tendo por ela sua protegida a
transforma de uma inocente garota planejando seu casamento em uma prostituta fria que
reconhece no homem nada além de um animal para a continuação da espécie. No trecho
abordado, o narrador descreve como o cortiço formava mais uma prostituta graças ao meio e às
relações que se obtêm nele.
1.2 ANIMALIZAÇÃO DOS CARACTERES

A partir d’As origem das Espécies o ser humano baixou-se ao nível dos demais animais
e passou a ser compreendido como um mamífero regido pelas mesmas leis naturais que regem
todo o Reino Metazoa. É nessa perspectiva que os Naturalistas trabalharam em suas obras, e
essas relações do ser humano, que carece dos princípios da ética e da moral, que age da mesma
forma que agiria um macho ou fêmea de uma espécie, e não como um homem e mulher, pode
ser observada no romance de Aluísio. Essa faz parte de uma das críticas essenciais ao
Naturalismo e ao darwinismo social, o homem não é regido somente por seus instintos animais,
possui a razão mais complexa que pode pensar sobre aquilo que age, ou como escreveu
Machado de Assis, no Memórias Póstumas de Brás Cubas, “a diferença entre o homem e o cão,
é que o homem sabe que tem fome”.
A animalização do ser humano consiste na tentativa de compreender a ele uma
característica mais animalesca. “Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo,
mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho
exposto.” (AZEVEDO, 1890). Nessa descrição de como Piedade sente-se ameaçada pela
presença de Rita Baiana, observa-se muito de como Aluísio trata a mulher como uma fêmea,
que por instinto sente seu ninho ameaçado e busca protegê-lo dos perigos que lhe trarão a
presença de outrem, da terra e com a beleza descomunal presente no Brasil. “Ao redor desta a
curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam todos por saber quem a tinha emprenhado.
“Quem foi?! Quem foi?!” esta frase apertava-a num torniquete.” (AZEVEDO, 1890). Da
mesma forma o faz nessa passagem, a partir do uso da palavra “emprenhado”, linguagem forte
e caracteriza muito bem a diferença entre o Naturalismo e o Romantismo, a maneira como cada
um trata do tema gravidez é tão divergente quanto possível, o primeiro trata de forma
pragmática e cientifica, o segundo traria a significação do fato, uma nova vida que surge na
terra, e que há de trazer mudança ao planeta, ou algo assim.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou
a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que
parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas
no esterco. (AZEVEDO, 1890).
Esse breve texto com o qual Aluísio conclui o primeiro capítulo encerra em si duas
características de essencial importância no romance. Num primeiro momento de análise
compreender-se-á os habitantes do cortiço, os animais rastejantes que surgem no lodo e
esfervilham com o tempo, brotando dali mesmo, a decadência moral e física do que haveria de
se tornar um grande cortiço e então uma Avenida. Entretanto, há ai também uma segunda
análise de extrema importância, a descrição do cortiço como um ser vivente, que carrega as
características de um animal, pois que somente da vida pode surgir vida, e a vida surge no
cortiço, não como uma coisa bela e romântica, mas podre e real, pois era isso o que representava
um cortiço em Botafogo no final do século XIX.

1.3 A FORMAÇÃO DE RIQUEZAS

N’O cortiço uma das relações essenciais da obra é a formação de riquezas por João
Romão. O livro todo é marcado pela importância das riquezas para o português que priva-se de
bons hábitos com o intuito de obter sua fortuna. O Brasil do século XIX ainda era marcado pela
escravidão e, por isso, a relação do explorador e do explorado era ainda de muita proximidade,
isto está exposto de maneira concisa na obra, abordada através do explorador (João Romão) e
dos explorados (Bertoleza e os demais componentes do cortiço).
Costumava ser dito no século XVIII, a língua do pê para o escravo, ou o negro, que
consistia em três palavras simples com as quais se exprimia a relação de escravidão: “Para o
escravo são necessários três P.P.P., pão, pau e pano”. Já no século XIX esta relação para com
o negro e escravo substitui-se por uma pior, pois incluiu-se no conjunto o português. “Para
português, negro e burro, três pês: pão para comer, pano para vestir e pau para trabalhar”. Essa
aproximação revela o caráter animalesco que podia ser percebido durante o século XIX, que
aproximava o português ao animal, pois a ele dar-se-ia pão, e não comida, pano e não roupa, e
pau para punições.

1.4 O CORTIÇO E A ALEGORIA DO BRASIL

Ao longo desta produção de Aluísio Azevedo diversos são os temas trabalhados pelo
autor e fazer parte de toda a problemática social em um contexto nacional. O racismo científico
e a concepção de raças inferiores e superiores e o determinismo são características importantes
à sociedade brasileira do período. De uma forma antinaturalista o cortiço é uma representação
alegórica do Brasil.
Enquanto no Brasil percebe-se uma relação ampla de Meio – Raça – Brasil, na obra
literária de Aluísio Azevedo percebe-se isto de maneira micro Natureza do Rio de Janeiro –
Raças interagindo – Cortiço. Assim, o cortiço é o Brasil em suas formas, em sua interação racial
e representante, metonimicamente, de como o meio influencia o indivíduo. Não deve
surpreender ao leitor, portanto, os diversos vícios e a promiscuidade presente no cortiço. Este
sendo o palco de toda uma interação de mestiçagem e degradação racial, haveria de gerar seres
de uma baixa estirpe – seguindo os preceitos de uma teoria racial, hoje não mais presente na
ciência.
Destarte pode-se compreender a interação entre João Romão e os habitantes do cortiço,
como uma representação da exploração dos brasileiros pelo estrangeiro que apropria as terras e
ganha dinheiro a partir do explorado, com o aluguel dos imóveis e a venda de gêneros. Tendo
por sua companheira, uma escrava que prometera alforriar, mas roubara-lhe o dinheiro, e ao
invés de retirá-la da escravidão, apenas apropriou-se dela como dono interino, enquanto suas
necessidades o obrigassem àquela relação prazerosa, tanto o é que assim que foi preciso a
descartou.
Outrossim, aquilo que acomete Jerônimo, uma paixão incontrolável que lhe tira os
sentidos, é a representação do que ocorre à raça portuguesa que, posta em um meio pútrido
como o cortiço – ou nesse caso, o Brasil – e ali não dita as ordens, vivendo em pé de igualdade
com o restante dos habitantes, sucumbe ao meio e há de perder os hábitos de sua terra, e
abrasileirar-se.

1.5 O ESPONTÂNEO E O DIRGIDO

Aluísio Azevedo descreve em sua análise de Memórias de um Sargento de Milícias


que o romance apresenta uma dialética entre a ordem e a desordem e o faz novamente num
trabalho intitulado De Cortiço a Cortiço, no qual aborda os temas desenvolvidos por Azevedo
n’O cortiço, e revela a dialética deste livro como a do espontâneo e do dirigido.
O cortiço criado por João Romão começa descrito como um lugar de relações
promíscuas e de várias súcias, principalmente com a chegada de Rita Baiana. Um local que,
apesar da falta de regras rigorosas, não havia sido inspecionado pela polícia, e João orgulhava-
se disso, pois como foi demonstrado a entrada da polícia significava a destruição do imóvel.
Era, portanto, a vontade de uma lei quase que natural que regia-o, uma descrição que caracteriza
o cortiço como um personagem, essa característica marcante do primeiro momento da obra,
com espontaneidade de caráteres e relações se altera a partir do momento em que se alteram as
ambições de Romão, até ali a acumulação de capital como um fim em si mesmo fazia com que
pudesse não se preocupar com sua imagem ou com a maneira pela qual gerara sua fortuna, o
que permitia-o o espontâneo.
abriria as portas em arco, suspenderia o teto e levantaria um sobrado, mais alto que o
do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. [...] Depois da partida de Rita, já se
não faziam sambas ao relento com o choradinho da Bahia, e mesmo o cana-verde
pouco se dançava e cantava; agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com três
ou quatro músicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido
engomado. (AZEVEDO, 1890).

Entretanto, a partir do momento em que Miranda torna-se um barão, opera-se em João


Romão uma mudança, passa a ter sede de nomeada, cansara de adquirir riquezas e não utilizá-
las, vivendo de privações e desgostos. A partir desse momento, João percebe que teria que se
livrar dos antigos hábitos do cortiço e de Bertoleza, apesar de ter feito sua riqueza a partir de
ambos. Doravante não haveria de permitir súcias descontroladas no corredor, brigas que
terminam em navalhadas ou aquela pútrida relação racial que ocorria no cortiço. Como o que
está descrito, o momento de mudança do Samba de Rita Baiana, aos forrobodós dentro de casa.
Essa é a ilustração do espontâneo ao dirigido que permeia toda a obra, mas principalmente nas
relações que ocorrem no interior da habitação coletiva, no momento em que João busca
ascensão social.
Os preços dos cômodos subiam, e muitos dos antigos hóspedes, italianos
principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e sendo
substituídos por gente mais limpa. (AZEVEDO, 1890).
Enquanto o cortiço de São Romão transformava-se na Avenida São Romão, o Cabeça
de Gato mais se formava um verdadeiro cortiço, que recebia toda a baixa estirpe que não mais
tinha lugar no São Romão. Destarte esse é o momento da obra em que mais se percebe a relação
entre o espontâneo e o dirigido, enquanto o vendeiro modifica sua habitação a torná-la apta à
seus novos hábitos, estabelecendo a ordem e as regras, a segunda habitação, perto da sua e com
a qual havia tido rivalidade, torna-se cada vez mais espontânea, recebendo por isso o que não
se adapta à direção estabelecida por João, “mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-
se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço”.
4 ESTRUTURA DA NARRATIVA

4.1 AÇÃO

Quanto ao tipo: o núcleo narrativo de O Cortiço, composto de três elementos


constituintes, traduz-se como sendo do tipo fechado, onde há o desenlace dos conflitos e a
história das personagens – ao menos das mais importantes, como João Romão, Miranda e
Jerônimo, ou até mesmo o próprio cortiço, se analisado na perspectiva de personagem – é
totalmente conhecida; noutras palavras, a narrativa soluciona-se por completo. Assim, é
interessante destacar o modo como o narrador constrói as ações e, no fim, seguindo a estrutura
semântica proposta pelo cientificismo, com descrições francas e desvencilhadas de qualquer
tipo de idealização, as encerra de forma um tanto abrupta – com destaque, claro, a João Romão
e a sua ascensão política e econômica, florescendo de um simples vendeiro a fundador de uma
vila:
[...] Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com
mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais
duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira,
fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. (pág. 5)

onde a descrição do narrador sugere um homem voltado à conquista de valor na sociedade


através do dinheiro, cuja força psicológica, no personagem, era tamanha que foi capaz de impor
sobre ele as mais diversas privações, sem que ao menos reclamasse ou tentasse desistir; isto é,
João Romão era um visionário que tinha planos grandiosos a sua vida, não contentando-se com
a miséria de seus iguais – um ser que lutava, e lutou, evidentemente, contra o determinismo de
Taine, mostrando que o ser racional pode superar suas dificuldades naturais. E, com tanto
esforço, enfim conquistou o tão aclamado espaço na sociedade, quando enfim inaugurou seu
sobrado e sua própria vila:
[...] O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão
das casinhas da esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa
do vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar sobranceiro e
triunfante. João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo; o seu era
mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobília nova impunha
respeito. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de
cocheira [...] Fora-se a pitoresca lanterna de vidros vermelhos; foram-se as iscas de
fígado e as sardinhas preparadas ali mesmo à porta da venda sobre as brasas; e na
tabuleta nova, muito maior que a primeira, em vez de "Estalagem de São Romão" lia-
se em letras caprichosas: "AVENIDA SÃO ROMÃO".

O trecho acima sugere, como supracitado, uma gradação por parte do narrador no que
se refere aos eventos, seguindo uma linha cronológica que dá alguns indícios sobre o modo
como o tempo foi retratado – o qual será tema de discussão mais adiante. Assim, a utilização
de palavras como “foi”, “fora-se” e “foram-se”, todas no sentido de comparação temporal entre
duas circunstâncias distintas, é fundamental para que compreendamos a estrutura objetiva que
a narrativa assume, onde os fatos são sequenciados de forma clara e cartesiana. Assim, João
Romão principia como vendeiro, progride até a construção de seu sobrado, e por fim encerra
sua participação na história quando faz o descarte de Bertoleza, ponto no qual a narrativa se
finaliza por completo
[...] Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres.
Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes
que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre
de lado a lado. [...] Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas. (pág. 215-
216)

Embora sem finais explícitos, é através de inferência que podemos afirmar que muitos
dos conflitos foram solucionados; um exemplo que talvez auxilie a ilustrar é o que
mencionamos anteriormente, uma vez que o último conflito de João Romão derivou, em grande
parte, de Bertoleza, tendo em vista que ela se recusaria a aceitar um casamento de seu amigo
com Zulmira, filha de Miranda – quando o descarte é feito, e sem mais empecilhos defrontes
do casamento, pode-se inferir que o protagonista alcançou seu objetivo de consolidar-se como
uma figura política e econômica proeminente. Para os demais personagens, a conclusão é
semelhante e genérica: os eventos são sequenciados e apontam para um final único e exclusivo,
característica marcante da ação fechada.

Quanto a importância:
Ação principal: como foi referenciado no item anterior, o núcleo narrativo d’O Cortiço pode
ser dividido em três grandes blocos, sendo João Romão, Miranda e Jerônimo os protagonistas
de cada um deles, os quais receberam por parte do narrador um maior tempo de narração, assim
como uma descrição mais rica e concisa de seus detalhes – apesar da objetividade textual e do
pragmatismo científico, é através destes três personagens que o narrador expõe seus ideais
filosóficos, velados em função do próprio projeto literário do qual o livro faz parte; os demais
integrantes, como Leocádia ou Pombinha, embora importantes para o desenvolver da história,
servem apenas como agentes que veiculam a narrativa, encaminhando-a para estes três polos –
noutras palavras, servem como pontes que encaixam os núcleos, cujo expoente maior é o
próprio cortiço, mas que não formam, por si só, elementos criadores.
Assim dito, fica um tanto simples determinar a ação principal do livro, uma vez que
os três portugueses são motivados, ao menos num nível de profundidade psicológica
mensurável e que nos é exposta pelo narrador, pela busca da ascensão social e política através
da exploração das terras colonizadas – uma atividade comum ao século no qual a obra foi
produzida, onde houve um intenso processo de imigração da metrópole para a colônia, motivada
por questões econômicas; calcula-se que cerca de cinco milhões de portugueses vieram tentar
a vida no Brasil, formando uma parcela significativa da população colonial. Assim, a ação
principal pode ser entendida como a busca que João Romão teve para construir sua vila e seu
sobrado, a busca de Jerônimo por uma oportunidade de grandeza na colônia e, por fim, a busca
de Mirando por uma nomeação política e um título de nobreza – o primeiro e o último obtendo
sucesso em seus desejos, enquanto o segundo fracassou consideravelmente, se contaminando
com o meio no qual estava inserido. Em linhas gerais, o determinismo e a busca pela
superioridade, dois conceitos indissociáveis ao cientificismo, formam conjuntamente grande
parte da carga filosófica e semântica da obra.
O primeiro núcleo que vale ser destacado diz respeito àquele centrado em Jerônimo,
um português que:
[...] viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, tentar a vida no Brasil,
na qualidade de colono de um fazendeiro, em cuja fazenda mourejou durante dois
anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma
grande birra pela lavoura brasileira. (pág. 45)

que, evidentemente, é motivado pela busca de novas oportunidades, e que veio junto de sua
mulher tentar conquistar uma parte do tesouro brasileiro para si – uma ideia um tanto recorrente
à época, já que se acreditava que o Brasil era um local onde existia uma enorme facilidade para
a ascensão social. Portanto, a narração das peripécias de Jerônimo centrar-se-ão, sobretudo, no
que diz respeito a sua evolução no contexto da obra, destacando os impactos que o meio exerceu
sobre os seus instintos e seus atos. Aliás, a narração desta evolução será feita consoante os
ideais cientificistas da época, com destaque para o determinismo de Taine e para o
evolucionismo de Darwin, dois fatores que condicionam a construção da personagem.
É interessante ressaltar o caráter inquestionável de Jerônimo no princípio da narrativa,
sendo um rapaz que frequentava assiduamente o trabalho e que se dedicava exclusivamente à
família, vivendo em função deles e da busca por uma realidade socioeconômica mais próspera.
Era, definitivamente, uma figura de respeito e certamente destinada a um futuro grandioso.
Entretanto, ao se deparar com Rita Baiana, que deve ser entendida aqui como a síntese dos
prazeres oferecidos pela então colônia, como o narrador referencia em diversos momentos, sua
índole passa por uma súbita transformação, passando de um trabalhador dedicado a um bêbado
preguiçoso e relaxado, disposto a submeter sua moral a uma torpe condição somente para
satisfazer certos desejos:
[...] E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de
aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e
concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem,
para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente
para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho;
a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau com
batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram
vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos
pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a
couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e,
desde que o café encheu a casa com o seu aroma quente, Jerônimo principiou a achar
graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos.. (pág. 81)

O trecho acima revela a revolução que Rita Baiana incidiu sobre Jerônimo, que, como
já referenciado, se tornou uma figura completamente antagônica ao que era até então. A
diferença primordial entre estes dois Jerônimos, por conseguinte, se expressa no fato de que a
depravação moral consistiu na translocação e substituição dos valores portugueses pelos
brasileiros, com a vitória inegável deste último, e cuja concretude é construída através dos
diversos exemplos trazidos pelo narrador que corroboram com a conclusão esperada por este –
um aspecto também importante dos escritos realistas e naturalistas, que levam o leitor a terem
conclusões que tomam como próprias, embora sejam indiretamente direcionadas pelo próprio
foco narrativo. Portanto, a ação principal, pelo menos no que tange a este núcleo específico,
refere-se à substituição dos valores portugueses pelos brasileiros, através da atuação do
determinismo de Taine e do darwinismo, e da respectiva degradação moral de Jerônimo – e,
por este motivo, a história centrar-se-á em edificar narrativas menores que fundamentem esta
perspectiva.
O segundo núcleo, centrado agora na figura de Miranda, um fidalgo português que
conquistou sua riqueza e força política através de um casamento conturbado e inconsistente,
trata de forma mais profunda a busca pela evolução e ascensão social, ainda, claro, sendo
determinada pelo meio e momento histórico, mas desta vez direcionada pela força da opinião
pública. Ela determina os atos do personagem, uma vez que ele
[...] Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a idéia de ver-se
novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se
haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já
não tem pátria na Europa. (pág. 9)

O poder da posição social é tão intensa que é capaz de manter unido, mesmo que
forçosamente, até mesmo uma relação eivada de adultérios e diferenças morais, como se o ser
deixasse suas virtudes de lado para manter firme uma imagem criada de si, embora embaçada
e distante da realidade – a crítica à vida de aparências é um tema relativamente recorrente nesta
estética, uma vez que expõe as mazelas da vida burguesa falha e inapta para se adequar ao novo
padrão de pensamento racional influenciada pela corrente cientificista do século XIX. Neste
sentido, Miranda é determinado a agir consoante o que a sociedade espera dele, seguindo um
rígido falso código de ética e moral, que o vangloria externamente por atitudes que visam a
satisfação individual. A narrativa vai se construir buscando mostrar como a sociedade impõe
aos indivíduos certos padrões culturais, ressaltando a mediocridade de tais valores e tradições.
Doravante, Miranda, na obra, representará uma certa metonímia aos burgueses que,
em prol da opinião pública, se submetem às mais depravadas situações para manterem firmes
suas posições sociais. A narrativa vai utilizar desta metonímia justamente para dialogar com a
contemporaneidade, e talvez seja por isto que o personagem carrega sobre si diversos
estereótipos inerentes à classe burguesa da época, tais como a busca pelo título ou a necessidade
de superioridade àqueles que não integram seu círculo social, com destaque a este último:
[...] Mas então, ele Miranda, que se supunha a última expressão da ladinagem e da
esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento, respondendo para Portugal a um
ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada de
dinheiro, cujas rédeas um homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha na
conta de invencível matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno comparado
com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma
brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude! (pág. 17)

O trecho acima expressa com precisão o caráter de Miranda e a sua função na obra,
uma vez que este vai atuar secundariamente, sempre à sombra de João Romão, motivado pela
inveja e pela busca de ser superior ao seu vizinho a qualquer custo – cujo caminho mais fácil,
e justamente aquele tomado por Miranda, refere-se a conquista do título de Barão. Este
personagem, portanto, adquire uma certa passividade na obra, sendo motivado muito mais por
fatores externos do que algum essencialmente individual. A ação principal deste núcleo,
consoante o que foi considerado até então, refere-se a busca de Miranda pela superioridade em
relação ao seu vizinho, direcionada a conquista de um título de nobreza.
O terceiro núcleo, circundante à figura de João Romão, trata de um dos temas mais
importantes da obra propriamente dita, que é a dimensão egoísta do ser humano, capaz de
subjugar até mesmo seus semelhantes em prol de um ideal individualista e cujas consequências
se encontram, todas, no plano de abrangência do próprio atuante. Isto é, trata de como um ser
humano consegue se impor aos outros para que seus desejos sejam atendidos, mesmo que um
preço alto seja necessário para tal – como a escravidão, onde a liberdade de alguns é cassada
em prol da lucratividade do trabalho sem despesas, ou a exploração daqueles que não detém de
informações suficientes para contornarem a realidade, e são enganados por espertalhões. Nesse
sentido, João Romão é descrito como
[...] Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que havia de ser
a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e desembaraçado como no dia em
que chegou da terra sem um vintém de seu! esse, sim, que era moço e podia ainda
gozar muito, porque quando mesmo viesse a casar e a mulher lhe saísse uma outra
Estela era só mandá-la para o diabo com um pontapé! Podia fazê-lo! Para esse é que
era o Brasil! (pág. 18)

um português para o qual o Brasil foi extremamente frutífero, uma vez que conseguiu, em um
intervalo de tempo substancialmente pequeno, conquistar uma grande riqueza através de roubos
e explorações, numa abordagem que sugere que os fins justificam os meios, isto é, o final digno
abona os meios ilícitos utilizados. A obra irá trabalhar o personagem desde sua origem humilde
e precária até sua revolução, quando enfim se torna dono de uma vila, como referenciado nos
itens anteriores; ademais, a ação principal tratar-se-á de como ocorreu esta evolução, dando
ênfase a construção do cortiço e as diversas atrocidades cometidas pelo protagonista buscando
ascender socialmente.
Assim dito, em resumo, a ação principal será fundamentada em torno de três vertentes:
a primeira busca responder a como a sociedade deprava o ser, desconsiderando a essência deste
antes do convívio social; a segunda tem por objetivo mostrar como a sociedade impõe os
padrões culturais, e as respectivas reações a essa imposição; e, por fim, a terceira tem como
propósito mostrar como o ser humano se impõe aos mais fracos em busca da ascensão social
contínua e cada vez mais intensa, com destaque a criação do cortiço.

Ação secundária: numa dimensão inferior às ações descritas anteriormente, as ações


secundárias são utilizadas na obra como uma forma de unir as personagens, sendo um recurso
de preenchimento das lacunas presentes no texto. Isto é, o narrador recorre a elas justamente
para dar uma profundidade maior às ações principais, assim como para introduzir novos
personagens e novas relações sociais entre elas, não perdendo de vista o objeto central da
narrativa. É através destas ações menores que surgem personagens como Leocádia, Machona,
Pombinha, Leónie e Dona Isabel, responsáveis por dar conteúdo à narração enquanto os
protagonistas ficam em estado de repouso – em geral, surge o cortiço, um personagem-tipo que
expressa não o espaço físico propriamente dito, mas as pessoas que o compõe; logo, todo o
conflito que acontece no cortiço pode ser entendido como uma ação secundária, com o objetivo
delineado de construir os pilares que sustentarão as ações principais. Dentre tantos, vale-se
destacar a transformação de Pombinha numa prostituta.
A primeira, um tanto densa e extremamente fora do que os leitores do romantismo
estavam acostumados, propõe o determinismo numa perspectiva um pouco diferente, onde o
meio condiciona a tal ato quando os estímulos disponíveis não são suficientes para satisfazer
por completo a necessidade do prazer. É claro que a mudança não foi repentina, como se supõe,
mas gradual e construída no quotidiano desde um tempo consideravelmente grande, quando
Pombinha ainda não tinha se tornado mulher e entrava em contato com as aventuras amorosas
dos habitantes do cortiço, que recorriam a ela para escreverem cartas geralmente destinadas às
parceiras conjugais. Esse contato frequente com assuntos concernentes a amores, somada a
constante pressão exercida pela mãe para que ela se tornasse uma mulher e se casasse o quanto
antes, são fatores que contribuíram para embutir no espírito da moça dúvidas que não foram
respondidas de imediato, sendo sedimentadas com o transcorrer da narrativa.
O estopim para o início da transformação, no entanto, se inicia numa das cenas mais
sombrias do livro, onde é relatado um estupro homossexual, cuja vítima é justamente a
Pombinha:
[...] Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, com
vontade de afastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento, tentou reatar o
fio da conversa, que elas sustentavam um pouco antes, à mesa, em presença de Dona
Isabel. Léonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura,
as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o
corpinho do vestido. (pág. 118)

A reação da personagem, evidentemente, não poderia ser outra a não ser de nojo e
medo, aliada a um espanto inerente a uma atitude tão deplorável como esta, responsável por
romper de forma abrupta com a inocência de Pombinha, que até então tivera apenas ideias vagas
do que viria a ser uma relação sexual – embora escrevesse cartas românticas para seus vizinhos.
A menstruação surgiu alguns dias depois, e com ela uma espécie de desabrochar intelectual,
onde a personagem
[...] Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Léonie
lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira,
cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria
vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a
sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão,
que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir
ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma
ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia
tranqüilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando
martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e
as implacáveis mãos que os estrangulavam. (pág. 130)

No trecho em questão, o narrador revela que Pombinha se desiludiu com a ideia de


amor, justamente pelo jogo de poder que ocorre, indubitavelmente, entre homens e mulheres,
dando uma interpretação um tanto peculiar a esta realidade. Essa desilusão tão-só aproximou
Pombinha da prostituição como também de Léonie, a autora do estupro que havia recentemente
sido vítima, isto é, o filtro romântico foi totalmente desvencilhado da personagem, e inclusive
parte de sua própria humanidade, já que as virtudes morais foram substituídas pelo desejo do
prazer e da satisfação própria – quando o ser humano alcança a maior proximidade possível
com um animal, que vive sob seus impulsos e destituídos de qualquer influência da moral e
ética; ou melhor, quando o ser humano deixa de o ser.
É claro que a depravação de Pombinha não está presente na obra apenas como uma
marca do naturalismo, que desvirtua muito dos costumes burgueses da época e propõe uma
realidade objetiva e que mostre, na medida do possível, o que a sociedade de fato foi, é e será;
na verdade, este ato contribui para construir o universo das consequências presentes na
dualidade causa-efeito, onde o causador, evidentemente, trata-se de João Romão e sua busca
por riquezas através da exploração de um capitalismo primitivo, e o efeito, por outro lado, a
depravação do meio. O fato da personagem ter se tornando uma prostituta mostra o quão
degradante é o ambiente no qual João ergueu sua prosperidade, sugerindo que o avanço
econômico ocorreu sob um custo humano muito elevado. É nesta perspectiva que esta ação
secundária, em especial, corroborou para os três núcleos narrativos supracitados.
Articulação das sequências narrativas: a articulação das sequências narrativas
acontece, na obra, em vista da estrutura linear construída diante de três núcleos narrativos – de
importância quase idêntica, numa perspectiva semântica, onde ambos levam a conclusões
filosóficas e sociais imprescindíveis em vista do projeto literário do naturalismo –, de forma
encaixada, ocorrendo o desenvolvimento mutual entre histórias diversas que são introduzidas
pela narração dentro de uma história central. Isto é, o narrador descreve distintas narrativas ao
mesmo tempo, mas todas relacionadas entre si por um elo comum, o João Romão, e que se
encontram, por conseguinte, com a fundação da Vila São Romão.
A narrativa se inicia, logo no primeiro capítulo, com as origens de João Romão,
relatando que
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que
enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do
bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos,
que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados
vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos
em dinheiro. (pág. 5)
o personagem teve uma origem muito humilde e eivada de obrigações, sob condições humanas
precárias, num ambiente “sujo”, nos “refolhos” de botafogo, e degradante. Todavia, a narração
aponta para uma evolução do personagem, que recebeu de seu antigo patrão o pagamento de
ordenados, com os quais João Romão principiou a construir sua riqueza e a sua vida de burguês.
Esse avanço linear pressupõe encaixes de outras narrativas, uma vez que a escrita não permite
a simultaneidade de duas ou mais histórias centradas em núcleos distintos, e é justamente o que
ocorre com O Cortiço: o narrador transcorre entre diversos polos, situando o leitor em diferentes
ambientes e situações, cada qual responsável por contribuir na construção do naturalismo da
obra – tentando, positiva ou negativamente, descrever a humanidade sob suas diversas facetas.
O exemplo mais concreto pode ser distinguido quando o narrador, introduzindo o sobrado de
Miranda à obra, faz uma súbita conversão do foco narrativo para o polo do português que,
embora rico, esteja sujeito aos cânones do meio:
[...] Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita
da venda, separado desta apenas por aquelas vinte braças; de sorte que todo o flanco
esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do
vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante
português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado.
Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que
a mulher, Dona Estela, senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza, já não podia
suportar a residência no centro da cidade, como também sua menina, a Zulmirinha,
crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo. (pág. 8-9)

Onde o liame se estabelece de forma um tanto cartesiana, já que o narrador,


descrevendo a compra por parte de João Romão de algumas braças de terreno próximo a sua
venda, introduz à narração um novo personagem que também se envolveu com uma compra
semelhante, e, a partir daí, passando a descrevê-lo com mais atenção e detalhes. Isto é, a ligação
que ocorre entre as personagens é diretamente relacionada com uma causa e efeito, onde o
causador situa-se num plano, numa elucubração genérica, diferente do receptor dos efeitos.
É claro que esta mudança, num primeiro momento, pode sugerir uma narrativa
construída em alternância, onde histórias são intercaladas em iguais intervalos de tempo com
origens diversas; todavia, é necessário frisar que as narrativas não são dissociadas, mas sim
relacionadas entre si, como supracitado, por uma estreita relação de causa e efeito, onde o
causador maior trata-se de João Romão. Estas narrativas são postas em suspenso para que outras
venham a ser narradas, num ciclo que segue, em certa medida, um padrão lógico e científico
requisitado pelo contexto de produção da obra e pelo próprio projeto literário. A simultaneidade
dos acontecimentos também corrobora para validar a distinção de uma articulação feita em
encaixes, uma vez que as histórias acontecem ao mesmo tempo e se relacionam com um elo
comum. Afinal, Jerônimo e Miranda, protagonistas de dois dos grandes núcleos da narrativa,
são introduzidos à obra justamente por consequências dos atos de João Romão, a narrativa
central que sempre é interrompida para dar lugar a menores, assim como o cortiço, que,
obviamente, é fruto direto da ambição monetária do protagonista do romance.
4.2 ESPAÇO

Espaço social: o espaço, na obra de Aluísio de Azevedo, é um dos elementos mais


importantes para a construção da narrativa, pois não se refere simplesmente ao ambiente, mas
sim a integração entre o meio e o ser humano, funcionando como um ente único. Trata-se da
síntese dos estímulos externos, derivados, claro, da influência do ambiente e dos seus traços
constituintes, com as interpretações internas, que resultam na forma como os personagens
compreendem o meio e interpretam-no através de suas atitudes. O meio, ao menos no
naturalismo, que propõe tanto a zoomorfização dos seres humanos como o desvencilhar dos
atos e suas respectivas motivações morais, determina o que os seres que ali coabitam serão. O
Cortiço, por sua vez, impulsiona os moradores a serem semelhantes a animais, onde
[...] naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou
a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que
parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas
no esterco. (pág. 16)

é possível vislumbrar uma clara transformação do ambiente imóvel e estático num ser dotado
de vida e propenso a se multiplicar. O cortiço é a união de seus habitantes, e não apenas um
espaço puramente físico, sem cor e sem conteúdo, estipulado pelo narrador como o simples
local onde os eventos se condensam; é, na verdade, o próprio agente motivador de grande parte
da narrativa, como se o bem de produção capitalista, governado pelo empresário em ascensão
João Romão, tivesse vida própria e fosse, assim, evoluindo conforme suas próprias
necessidades materiais. A vida do espaço também pode ser visualizada no trecho:
[...] Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. (pág. 26)

no qual distingue-se uma clara prosopopeia – não se dirigindo aos humanos propriamente ditos,
pois o acordar é uma atividade universal aos seres macroscópicos – soerguida com o objetivo
de tornar vivo o inanimado, e, por outro lado, de transformar o concreto numa expressão do
abstrato – uma das novidades mais importantes da obra de Azevedo, que propõe um naturalismo
que não se limita a descrever a sociedade sob um filtro objetivado ao extremo.
Portanto, pode-se inferir que o ambiente se direciona a tecer as camadas sociais que o
formam, sobretudo no âmbito econômico e social, uma vez que os habitantes do cortiço são
representantes da camada mais próxima da base social – diferentemente dos escritos
românticos, onde o foco narrativo se direciona a retratar as elites burguesas e do realismo, que
propõe desvirtuar estas elites; o naturalismo, por sua vez, constrói um ambiente de extrema
pobreza e no qual vivem habitantes em condições precárias. Isto fica evidente quando o
narrador compara a prosperidade da Vila de São Romão com o degradante meio do Cabeça-de-
Gato, onde diz que este último
[...] mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais
abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava,
como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro tipo
da estalagem fluminense, a legitima, a ; aquela em que há um samba e um rolo por
noite; aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir os assassinos; viveiro
de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama;
paraíso de vermes, brejo de lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente,
como de uma podridão. (pág. 210)

Neste trecho, além da animalização acentuada dos seres humanos, comparados à larvas
que se multiplicam na lama e brotam no lodo podre, também se delineia com certa precisão a
camada social discutida, evidentemente identificada como aquela na qual a sociedade despeja
o que já não lhe é mais agradável, e que se satisfaz com o lixo rejeitado. O cortiço, portanto, é
um meio degradante, no qual vivem pessoas miseráveis e sem perspectivas de terem grandes
revoluções em suas vidas, e, sobretudo, é a condensação de tais pessoas num organismo vivo.
Exatamente por tais considerações deve-se compreender o espaço como social.
4.3 TEMPO

Quanto ao tipo: o tempo é um elemento importante na construção de uma narrativa,


uma vez que os eventos, indubitavelmente, acontecem em um espaço e num tempo específico.
N’O Cortiço o tempo está intimamente ligado com as características do naturalismo, uma vez
que a contemporaneidade é uma atitude buscada justamente para corroborar com a construção
de uma narrativa verossímil e pragmática, onde o cientificismo, tão relevante ao contexto de
produção da época, é o agente motivador por trás do apelo do autor em se restringir a um
determinado período histórico, como se estivesse narrando um evento que de fato aconteceu na
realidade objetiva do leitor. Isto é, a narrativa se limita, ao menos no que lhe é cabível, em
descrever a realidade pura e simplesmente – apesar de haver, na obra, um conteúdo psicológico
que foge do pragmatismo extremado, sendo inerente a qualquer representação artística.
Assim sendo, frisemos que n’O Cortiço existem diversas referências históricas que
corroboram na construção desta verossimilhança para com o leitor, que certamente identifica,
nas narrações feitas, semelhanças com a realidade sócio-política de sua época, todas
concernentes ao século XIX. Uma delas, inclusive a mais importante no livro, responsável por
motivar, como elencamos nas considerações feitas a respeito da ação principal, o desenvolver
dos conflitos e do clímax, trata-se da presença do português nas terras colonizadas, com o
objetivo de ascender socialmente numa região próspera e muito promissora. Miranda, João
Romão e Jerônimo, dessa forma, são expressões metonímicas que enquadram a obra no cenário
brasileiro do século XIX, uma terra na qual havia uma disputa entre os próprios portugueses
em busca do enriquecimento:
[...] A virtude, a beleza, o talento, a mocidade, a força, a saúde, e principalmente a
fortuna, eis o que ele não perdoava a ninguém, amaldiçoando todo aquele que
conseguia o que ele não obtivera; que gozava o que ele não desfrutara; que sabia o
que ele não aprendera. E, para individualizar o objeto do seu ódio, voltava-se contra
o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os
portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na penúria. (pág. 21)

Onde, no trecho transcrito, identifica-se a revolta de Botelho ao Brasil, justamente por


não ter conseguido, como os demais portugueses, enriquecer. O fato da narrativa se enfocar nas
vicissitudes sentidas por tais portugueses na busca pela riqueza faz um diálogo, de certa forma
explícito, com o contexto histórico da época, que se explica através da notícia de que ouro havia
sido encontrado na então colônia. Em pouco tempo, legiões de pessoas de diferentes partes da
colônia abandonaram suas terras e partiram para a região mineradora. Milhares de portugueses
atravessaram o oceano em busca de fortuna no Brasil – uma delas sendo, claro, o Botelho.
Embora a ausência de indícios explícitos no texto, como datas ou expressões que
sugiram o tempo no qual a narrativa se desenvolve, dificulte a identificação do tempo narrativo
como sendo cronológico, as considerações que fizemos a respeito da verossimilhança tornam o
diálogo entre a narrativa e o período histórico um forte argumento a favor de tal identificação.
Por outro lado, ainda se tratando de uma obra naturalista permeada pelos valores cientificistas,
O Cortiço possui um narrador objetivo, que apenas exerce a sua função de narrar a história,
com algumas exceções surgindo em momentos de reflexões filosóficas, mas numa frequência
tão pequena que podem ser desconsideradas em vista da preponderância do pragmatismo. Por
esta falta de elementos que sugiram uma intepretação da história feita pelo narrador, e que
certamente enquadraria o tempo como do discurso, segue-se que a única conclusão possível é
a de um tempo marcadamente cronológico, associado a um período específico da história.

Quanto à ordem temporal: como supracitado no primeiro item, concernente a ação


quanto ao tipo, estamos diante de uma narrativa estrutura e semanticamente naturalista, na qual
estão presentes muito das características – senão todas – derivadas do cientificismo próprio da
época de produção. E um destes traços, que assume uma relevância interessante para contribuir
no foco narrativo de construção do português que visa ascender socialmente, trata-se da
linearidade da história dado a cabo pelo narrador, que principia suas descrições numa época,
evidentemente, no qual o cortiço inexistia assim como os demais personagens. João Romão, o
protagonista que dará os primeiros passos para fazer a engrenagem extensa da obra se
movimentar, foi o primeiro elemento apresentado aos leitores:
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que
enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do
bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos,
que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados
vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos
em dinheiro. (pág. 5)

Trecho onde, ainda como referenciado anteriormente, somos apresentados às primeiras


circunstâncias responsáveis por dar início ao trajeto do protagonista em direção à riqueza
material. No entanto, mais importante que compreender tais circunstâncias, ou os motivos que
nortearam o personagem a construir sua caminhada, é entender o delicado processo de causa e
efeito, onde as ações se encaixam através de uma lógica muito simples: há, no princípio, uma
razão primária na qual se ergue as primeiras impressões do objeto, e uma estreita rede de efeitos
ligados indissociavelmente a esta causa; na obra, esta relação bivalente se torna evidente quando
analisamos o fator de importância de João Romão, uma vez que todos os personagens, e por
conseguinte todas as ações, estão unidas em um elo comum, cujo liame é justamente o
protagonista. Afinal, Miranda é apresentado à obra quando João Romão decide comprar umas
braças de terreno; Jerônimo é contratado quando João Romão perde um de seus funcionários;
o cortiço é criado pelo protagonista, e assim surgem todos os moradores que serão relatados
durante boa parte da narrativa. João Romão sempre se situa no centro dos eventos, como
causador.
É claro que esta relação de causa e efeito não representa, em termos literários,
simplesmente uma estratégia utilizada pelo autor para moldar sua narrativa de forma a se
adequar aos parâmetros cientificistas, no qual a descrição é permeada pelo racionalismo e este
vê como ponto chave a causalidade dos efeitos. A abrangência temática vai muito além dos
horizontes estruturalistas, encontrando abrigo no então desconhecido pela nossa literatura da
época – a relação entre os fatores de produção e o capital propriamente dito. Assim, a temática
principal do romance pode ser compreendida como o florescimento de uma economia absoluta,
governada por um único ente que serve de ponto entre os produtores e os consumidores. A
ausência de intermediários torna a figura de João Romão uma presença quase constante durante
toda a obra, que atua como juiz, presidente e senador, onde os três poderes encontram-se
concentrados em suas mãos
[...] Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da
crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia
e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios (pág. 5)

os quais utiliza para seu próprio bem, sempre motivado por um “delírio de enriquecer” (pág.
5). É ainda referente a estas considerações que a escolha do tempo linear é feita por parte do
autor, uma vez que a relação de causa e feito prescinde da passagem do tempo feita de forma
que os eventos mais antigos sejam narrados primeiro, e os eventos subsequentes logo em
seguida. É por isso que o primeiro elemento que nos é apresentado pelo narrador é o próprio
João Romão, uma vez que ele é a causa de todo o conflito da obra, e cujos atos estão em
consonância com o desenvolvimento capitalista. O autor, desta forma, opta por dar uma
sequência lógica e coerente ao tempo de sua narrativa, onde é possível identificar com exatidão
quais foram as causas e quais foram os efeitos – diferente de obras como Memórias Póstumas
de Brás Cubas, no qual primeiro nos é apresentado o efeito e, com o avançar da narrativa, a
causa. Nesse sentido, podemos visualizar nos trechos seguintes que
[...] Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam-
se logo [...] (pág. 15)
[...] Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-
se de gente. (pág. 17)
[...] O cortiço aristocratizava-se. (pág. 207)

a narrativa avançou consideravelmente, tendo como base a progressão do bem capitalista


metaforizado na figura do cortiço, que, no princípio, era apenas umas poucas casinhas
responsáveis por abrigar pessoas miseráveis, mas que acabou por se tornar uma prospera vila
na qual se encontravam pessoas que não eram “qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta
de fiança e uma recomendação especial.” (pág. 207).
Se o argumento direto não for suficiente para definir o tempo da narrativa como linear,
os argumentos reversos certamente o serão, uma vez que não há, no transcorrer da história,
exemplos significativos de anacronias – apesar de alguns dos personagens serem apresentados
através de pequenos flashbacks, no qual o narrador recorre ao passado para sedimentar de forma
mais profunda o conteúdo psicológico dos caracteres, ainda não são suficientemente fortes e
tampouco preponderantes na narrativa; logo, pela falta de anacronia, segue-se que o tempo é
impreterivelmente isocrônico.
4.4 PERSONAGENS

Personagem principal: sendo a ação principal a busca pela ascensão social do


português que veio ao Brasil com ideias visionárias, é claro que se tem como figura mais
proeminente o João Romão, personagem no qual a narrativa centrar-se-á para a construção do
conflito e da ação, o elemento responsável por retirar a diogese da inércia. Afinal, todas as
relações presentes na obra derivam da influência direta ou indireta que o protagonista exerce
sobre os demais personagens, sobretudo no aspecto econômico – que é uma das temáticas
fundamentais para a compreensão da obra como uma representação do Brasil pós-
independência – e cultural; João Romão é, por assim dizer, a ponte que estabelece o contato
entre as duas camadas sociais distintas na obra, a saber, a burguesia e a operária, uma vez que
o naturalismo busca avaliar e dar a devida dimensão a este contato.
Entendendo a obra na perspectiva econômica, onde o personagem central refere-se ao
capitalismo em sua evolução, principiando num primitivismo econômico que beira a
animalidade, os atos do protagonista se justificam na medida que o dinheiro prescinde da
exploração daqueles que estão num patamar inferior, e a hereditariedade, conjuntamente com o
principio darwiniano da teoria evolucionista, são explicações plausíveis que surgem para
validar o comportamento possessivo de João, que
[...] Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com
mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais
duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira,
fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha,
mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula
trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um
português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. (pág. 5)

chega a tal extremo de se tornar não uma vontade superior, mas sim um delírio resignado de
enriquecer, comparável ao que Marx chamava de ascetismo econômico – teoria na qual a atitude
de se conformar com uma realidade sociocultural em dissonância quase total com os mínimos
estabelecidos pela sociedade se explica pela busca de um tesouro eterno, traduzida na privação
individual da materialidade e pelo trabalho excessivo e interminável, muito semelhante a de um
animal; a diferença, todavia, reside nas motivações que levaram o ser humano a tomar para si
essa atitude ascética. Noutra perspectiva, este ascetismo também se torna saliente quando o
trabalho incessante é associado a indiferença moral para com os modos de se conseguir o
progresso econômico, uma vez que João Romão passou a se apropriar do alheio para benefício
próprio:
[...] Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo nunca
a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e
nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas
medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa
dos seus senhores (pág. 8)

A evolução de João Romão é intimamente próxima a evolução do capitalismo surgido


com a revolução industrial, uma vez que os operários mais humildes foram explorados pelas
novas empresas para o enriquecimento destas últimas – um capitalismo ainda muito distante do
conceito que conhecemos hoje, e certamente desvencilhado de qualquer apelo moral e ético;
era uma demonstração nítida da imposição irrevogável do mais forte sobre o mais fraco, talvez
fundamentada no cientificismo ideológico marcadamente do século XIX. O naturalismo,
doravante os escritores desta estética, estavam dispostos a mostrar ao mundo essa fratura, e
certamente foi um dos objetivos de Aluísio de Azevedo ao escrever uma obra centrada numa
figura como João Romão. É claro que as relações entre o protagonista e os habitantes do cortiço
não se davam de forma predatória como fica subentendido com as considerações anteriores,
mas sim de forma fluída e natural, como se o protagonista quase não tivesse interferência direta
sobre a vida deles – mas que estavam, por uma relação de causa e efeito, unidas mutualmente.
Nesse sentido, João Romão é quem faz o intermédio entre os personagens, unindo-os no cortiço
sob o objetivo único de o enriquecer, assim como o faz com Jerônimo:
[...] No fim de dois meses já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via, radiante,
quanto lucrara com a aquisição de Jerônimo; tanto assim que estava disposto a
aumentar-lhe o ordenado para conservá-lo em sua companhia. (pág. 47)

Trecho no qual, entre ironias e sarcasmos, é possível identificar a desumanização feita


por parte de João Romão, que distingue não pessoas, dotadas de sentimentos e capazes de
compartilhar certas experiências, mas pura e simplesmente o capital materializado e
potencialmente lucrativo – o que, segundo Marx, pode ser entendido pelo conceito de mais-
valia, no qual é concedido aos agentes produtores uma parcela menor da qual possuem direito,
justamente para maximizar o lucro das empresas; João Romão, ao distinguir nos brasileiros um
capital frutífero e com potencial, não os trata como seres humanos e sim como máquinas
produtoras. O exemplo mais concreto deste fato refere-se a Bertoleza, uma escrava a qual o
protagonista se apropria, explora e, no fim da diogese, abandona como um objeto que já não
tem mais valor e que não expressa, em termos econômicos, um bem ativo:
[...] Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo que havia de
mau na vida dele! Seria um crime conservá-la a seu lado! Ela era o torpe balcão da
primitiva bodega; era o aladroado vinténzinho de manteiga em papel pardo; era o
peixe trazido da praia e vendido à noite ao lado do fogareiro à porta da taberna; era o
frege imundo e a lista cantada das comezainas à portuguesa; era o sono roncado num
colchão fétido, cheio de bichos; ela era a sua cúmplice e era todo seu mal— devia,
pois, extinguir-se! (pág. 196)

Na verdade, seu plano de se amasiar com Bertoleza, fingindo que a estava libertando
da escravidão, é ilustrativo disso. Para Bertoleza, João Romão representa a promessa de
salvação, amor e liberdade; no entanto, o relacionamento para ele nada mais é do que uma forma
de importância monetária – uma distinção significativamente grande com o romantismo, pois
os personagens românticos são motivados por ideais nobres, dotados de significação num plano
superior à mediocridade humana, enquanto os heróis naturalistas são egoístas e pretensiosos,
que buscam simplesmente a satisfação própria através de meios ilícitos. João Romão, por assim
dizer, é um personagem para o qual a sociedade não significa absolutamente nada a não ser uma
fonte de prazer e de desejos, disposto a submeter aqueles que estão a sua volta nas mais
degradantes privações em prol da própria vontade.
Quanto à composição: João Romão é um personagem motivado por interesses
pecuniários. Mesmo quando ainda não era um participante ativo do processo de produção
capitalista, sendo um mero servente que trabalhava numa quitanda por alguns ordenados, tinha
planos de enriquecer e se tornar um membro da corte. O avançar da diogese acompanha a
evolução do capitalismo e as suas influências na construção da miscigenação racial e étnica
sentida nos cortiços de Botafogo. É interessante ressaltar que este progresso não se compreende
numa mudança de mentalidade inicial, isto é, o agente econômico não altera suas perspectivas
depois de alcançados seus objetivos, mas sim os mantém numa forma de capital estável e
seguro. João Romão, da mesma forma, não possui distinções em sua psicologia ao longo da
narrativa, uma vez que suas vontades permanecem sendo, todas, refletidas numa atitude que
beira a loucura de se tornar rico:
[...] Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos,
todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma
preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira
os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas
produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-
os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era
ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de
reduzir tudo a moeda. (pág. 13)
Por outro lado, embora o momento no qual o personagem vê-se diante da prosperidade
de Miranda sugira uma certa revolução em sua índole, na qual transfere sua motivação interna
da simples acumulação descontrolada do capital, sem direções definidas, para a busca da
superioridade em relação ao seu vizinho, a essência intrínseca da personagem não muda: o
capital continua sendo o principal agente que norteia as ações desenvolvidas no enredo. A
diferença está no fato de que houve a transformação do capital simplesmente monetário para o
capital cultural, sob um custo relativamente baixo se comparado aos benefícios derivados dessa
transferência, onde o título de nobreza e o reconhecimento nos salões da corte denotam uma
outra dinâmica do capitalismo, na qual a excitação do avarento se perde quando a acumulação
do dinheiro se torna um fim em si mesmo. O personagem que, durante todo o desenvolver da
ação estava resignado a manter-se submetido às árduas privações para o acúmulo máximo de
capital agora gastava com roupas, comidas e outros costumes da vida burguesa da época, como
lê-se:
[...] E em breve o seu tipo começou a ser visto com frequência na rua Direita, na praça
do comércio e nos bancos, o chapéu alto derreado para a nuca e o guarda-chuva
debaixo do braço. Principiava a meter-se em altas especulações, aceitava ações de
companhias de títulos ingleses e só emprestava dinheiro com garantias de boas
hipotecas. (pág. 114)

A permanência desta perspectiva eivada de interesses econômicos por parte do


protagonista é um dos argumentos que corrobora na interpretação da planificação deste, uma
vez que sua vontade de enriquecer – financeira e culturalmente – ainda encontra-se num mesmo
plano de significação simplista que desvirtua o ser de suas ações moralizantes; tudo é feito
direcionado a um fim, um lucro, assim como ninguém se submete a mudanças sem que estas
carreguem em si vantagens notáveis à situação inicial. João Romão não teve uma revolução na
sua psicologia, mas, na verdade, apenas uma acentuação no seu espírito materialista que se
direcionou a buscar dinheiro e distinção. Não houve revolução em sua índole, tampouco ao seu
modo de filtrar a realidade, o que configura, por sua vez, um personagem plano quanto à
composição.
Quanto ao processo de caracterização: o processo de caracterização utilizado para
descrever João Romão, tendo em vista que a obra é permeada pelo pragmatismo e pelo
objetivismo científico, que busca se distanciar da idealização e da construção de cenas
inverossímeis, retratando um quadro fidedigno da realidade observável, é o direto, onde as
características das personagens são proferidas diretamente no discurso. Isto é, não é necessário
que nenhuma inferência seja feita para que se conheça a personagem narrada, assim como para
descobrir as motivações que a levaram a realizar determinados atos. O trecho no qual o narrador
relata um dos traços fundamentais de João Romão, a avareza, é um ótimo exemplo para compor
argumentos a favor desta interpretação:
[...] Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos,
todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma
preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira
os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas
produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-
os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. (pág. 14)

Trecho este no qual conseguimos novamente identificar o ascetismo relatado nos itens
anteriores, onde o protagonista se submete a árduas privações para lucrar o máximo que
conseguir. Todavia, o traço mais saliente proposto pelo fragmento transcrito refere-se a
descrição feita em terceira pessoa, constatada através da presença de muitas palavras
conjugadas deste modo, como “dele”, “suas” e “ele”, todas fazendo referência direta a João
Romão. É interessante, também, ressaltar a imparcialidade com a qual o narrador faz a
tecelagem do personagem, não emitindo nenhum juízo de valor quanto ao objeto que narra
tampouco utilizando de uma linguagem imagética. A descrição é pragmática e segue uma
estrutura racionalmente construída, soerguida sob uma lógica cartesiana de causa e efeito, no
qual os traços são sequenciados segundo este critério.
O objetivismo científico é um dos marcos da literatura naturalista, e está presente n’O
Cortiço de forma um tanto explícita em vista das considerações feitas até então, onde o processo
de caracterização utilizado pode ser entendido como feito através da heterocaracterização. O
papel do narrador fica assim definido como de suma importância para a construção das
personagens, uma vez que é este que faz a descrição através de seus conhecimentos a respeito
da trama – imprimindo de forma impreterível sobre a diogese as suas experiências e a sua
subjetividade, embora num grau ínfimo.
Quanto às funções actanciais: João Romão

Objeto: progresso capitalista

Sendo João Romão a representação de um capitalista segundo Marx, que explora os


indivíduos para a evolução própria, é claro que o seu objetivo principal traduz-se numa vontade
de progredir numa perspectiva capitalista, se impondo a todos a sua volta de forma a extrair do
meio a substância necessária para a sua ascensão:
[...] Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos,
todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma
preocupação: aumentar os bens. (pág. 13)
[...] E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro, associava-se
logo com o sogro e iria pouco a pouco, como quem não quer a coisa, o empurrando
para o lado, até empolgar-lhe o lugar e fazer de si um verdadeiro chefe da colônia
portuguesa no Brasil; depois, quando o barco estivesse navegando ao largo a todo o
pano — tome lá alguns pares de contos de réis e passe-me para cá o título de visconde!
(pág. 165)

Onde no primeiro trecho delineia-se de forma explícita o objetivo de João Romão:


aumentar seus próprios bens através de uma longa e árdua privação. No segundo, ainda numa
perspectiva semelhante, sendo a única diferença o fato do capital buscado por João Romão ser
agora também o capital simbólico, vê-se nitidamente determinado o objeto do sujeito.

Destinador: João Romão

O narrador descreve a vontade de João Romão de enriquecer como uma “moléstia


nervosa”, que se encontra no plano do subconsciente e é a força motivadora que o move em
direção a este objetivo, assim como a inveja direcionada a Miranda como um agente propulsor
do progresso do capital simbólico:
[...] Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero
de acumular; de reduzir tudo a moeda. (pág. 13)
[...] Ah! ele, posto nunca o dissera a ninguém, sustentava de si para si nos últimos
anos o firme propósito de fazer-se um titular mais graduado que o Miranda. (pág. 165)
Destinatário: João Romão

Uma vez que o objetivo de João Romão é enriquecer através da exploração feita do
meio à qual circunda, é claro que o receptor de tal evolução se refere à sua própria figura:
[...] João Romão, com efeito, tão ligado vivera com a crioula e tanto se habituara a vê-
la ao seu lado, que, nos seus devaneios de ambição, pensou em tudo, menos nela.

Trecho no qual é possível identificar que o único objetivo do protagonista é o


desenvolvimento próprio, não pensando, até mesmo, na Bertoleza.

Adjuvante: sendo o objeto de João Romão o progresso capitalista, com ressalvas em


se alcançar uma classe social mais elevada, é intuitivo associar os integrantes do cortiço como
auxiliares neste processo de produção capitalista, uma vez que o lucro obtido pelo protagonista
é muito maior que as condições de vida sob a qual se mantém. Nesta perspectiva, enquanto
naquele ambiente em que se encontram uma
terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar,
a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar
espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.
(pág. 15-16)

João Romão prospera como um agente econômico, apropriando-se de tudo e de qualquer fator
ali produzido e sendo o único beneficiado com aquela explosão descontrolada de vida. João
Romão, numa das análises semânticas propostas por Antônio Cândido, trata-se daquele que
dirige o cortiço, isto é, que molda as leis naturais e aquilo que acontece com naturalidade e
fluidez para que melhor se adeque aos seus desejos. Pela própria falta de intermediários entre
os consumidores e os produtores – na obra entendido como os produtos advindos da capital –
nota-se a relevância primordial da personagem para a definição do contato econômico admito
na obra. No trecho:
Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum
precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho
parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões,
cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que
garantiam a dívida com penhores de ouro ou prata. (pág. 14)
fica subentendido a autoridade do personagem, o qual, por sua vez, fazia o controle de toda a
produção capitalista daquele ambiente, cobrando juros e fornecendo tudo que aqueles
indivíduos necessitavam para viver – pão, pau e pano. A ciclicidade deste capital, concentrado
nas mãos de João Romão, é um dos argumentos que valida a interpretação do cortiço como um
auxiliar na busca pela prosperidade econômica.
Por outro lado, ainda existe um outro tipo de capital presente na obra, diferente daquele
concernente ao bem material propriamente dito. Trata-se do capital simbólico, sintetizado na
distinção social oferecida pela acumulação de renda e pela possibilidade de se destacar através
de um título de nobreza – no caso de João Romão, o título de visconde, o qual compraria com
facilidade quando conseguisse enfim se casar com Zulmira, filha de Miranda. A importância
deste capital na obra é tão grande que foi capaz de uma substancial mudança no modo como o
dinheiro é trabalho no texto, alterando-se do polo do ascetismo justificado pelo labor intenso e
comparável a uma moléstia ao polo burguês, de costumes soerguidos através da aparência.
Nesta perspectiva, a família de Miranda é de suma importância para a consolidação do capital
simbólico de João Romão, como sugerido no trecho:
— Valha-me Deus, criatura! não faço guerra a ninguém! guerra está você a fazer-me,
que não me quer deixar comer uma migalha da bela fatia que lhe vou meter no papo!…
O Miranda hoje tem pra mais de mil contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa
não é assim também tão fácil, como lhe parece talvez… (pág. 116)

Trecho no qual o Botelho deixa explícito as vantagens que João Romão teria ao se
relacionar com Zulmira, filha de Miranda – vantagens estas todas contidas no plano material,
uma vez que a união matrimonial representava, no contexto da época, uma união também
monetária; Casar-se é antes uma transação comercial do que romântica propriamente dita, uma
crítica direcionada aos valores burgueses da época, que escondiam o papel econômico do
casamento através de uma idealização romanesca. Assim, quando o narrador releva a relação
puramente econômica e financeira através de um monólogo direto, tem-se uma clara relação de
ajuda mútua entre a família de Miranda e João Romão, caracterizando-os como adjuvantes
segundo as funções actanciais.
Oponentes: Tendo em vista que o objeto de João Romão é o progresso econômico,
soerguido sobre um custo humano muito elevado – num ambiente degradante, eivado de
problemas socioeconômicos de nível estrutural e semântico, donde encontra-se seres humanos
em miscigenação étnica e racional –, onde os habitantes do cortiço são a maior expressão, tem-
se que um dos oponentes é a Bruxa, personagem que se antepõe entre João e seus objetivos,
uma vez que esta acabou por tentar destruir o que mais era frutífero à João Romão. Nesta
perspectiva, quando o fator de produção se antepõe contra o agente produtor, surge a rivalidade
entre João Romão e a Bruxa, a qual, por um ímpeto de loucura, havia lançado fogo ao cortiço:
[...] A esse grito um pânico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um incêndio
lamberia aquelas cem casinhas enquanto o diabo esfrega um olho! (pág. 96)
A Bruxa, por influência sugestiva da loucura de Marciana, piorou do juízo e tentou
incendiar o cortiço. (pág. 97)

No trecho anterior, uma vez que o cortiço era uma das formas que João Romão
encontrou para enriquecer, segue-se que o fato da Bruxa o ter incendiado a torna um obstáculo
na aquisição do objeto por parte do sujeito, que é justamente o progresso capitalista do
protagonista.

Personagem secundário: Jerônimo e Miranda

Jeronimo e Miranda são secundários, pois, na perspectiva de João Romão como um


protagonista e da ação principal como sua evolução econômica ao longo do enredo, tem-se que
ambos os personagens circundam em torno do protagonista e das suas peripécias. Apesar de
personagens que são centros de seus núcleos próprios, ainda não atuam de forma ativa.

Quanto à composição: Modelado e plano

Jerônimo era um personagem notabilizado pela “força de touro que o tornava


respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente,
a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes.” A grandeza de caráter
do personagem, ao menos no princípio da obra, era inquestionável e talvez sugerisse um certo
herói romântico inspirador dos leitores. O ponto chave da obra, que coaduna inclusive com o
projeto literário do naturalismo que busca mostrar a importância no meio na construção do ser,
é o fato de Jerônimo ter moldado suas virtudes em prol do meio que o circunda, onde Rita
Baiana foi o estopim de tal revolução:

O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias


e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se-lhe de vez o espírito da economia e da
ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de
possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela, e mais ninguém. (pág. 153).

De um português que buscava enriquecer com a exploração do meio, como o Mirando


ou o João Romão, para um brasileiro preguiçoso que naturalmente se torna indiferente ao meio
– como uma parte integrante deste, assim como os habitantes do cortiço formam, em conjunto,
um organismo vivo que surge do lamaçal. O cortiço torna-se uma alegoria do Brasil, e Jerônimo
um personagem que está sujeito a esse Brasil pós-colonial.

Quanto ao processo de caracterização: heterocaracterização direta

Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se
novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se
haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já
não tem pátria na Europa. (pág. 9)
Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas
ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um
chapéu de feltro ordinário; pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos
todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.
(pág. 31).

Personagem figurante: O cortiço

Quanto à composição: plano

Quanto ao processo de caracterização: heterocaracterização direta

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. (pág. 23).
[...] Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro chamado Bruno,
portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre
as suas vizinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas
virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas
e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e
ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”. (pág. 26).

4.5 NARRADOR

Quanto à presença: quanto a presença do narrador nos eventos que ocorreram na


diogese, podemos classificá-lo como sendo heterodiegético, isto é, não participando da ação
como um personagem, sendo exterior à história e atuando apenas como o relator desta. Este
tipo de narrador, pela própria estrutura assumida pelo texto, no qual evidentemente estão fora
as elucubrações feitas através de longas digressões e uma ausência quase completa de qualquer
elemento subjetivo, discursa na terceira pessoa de forma objetiva, utilizando da segunda pessoa
do plural apenas em algumas passagens – aliás, a ausência da primeira pessoa talvez indique
uma certa propensão do narrador a falar da humanidade como um todo e não de impressões
individuais, como se as conclusões admitidas pela sua descrição fossem válidas para todo e
qualquer ser; trata-se de uma narrador que relata uma espécie de experimento físico ou químico,
usando para tal o pragmatismo. Há uma presença quase constante de palavras conjugadas na
terceira pessoa, como no trecho:
[...] Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-
se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal
de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa,
por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes,
minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo
e abalando tudo. (pág. 17)

onde é possível identificar a descrição da evolução do cortiço logo após ter sido construído por
João Romão, o qual sofreu um crescimento vertiginoso e tão intenso que foi capaz de causar
assombro até mesmo em Miranda, um fidalgo rico que havia comprado um sobrado próximo a
venda do protagonista e que, por motivos de recusa da venda do terreno, criaram uma rivalidade
só finalizada próximo ao fim do romance. A descrição do narrador centrar-se-á na reação de
Miranda, destacando seu medo de que o cortiço alcançasse proporções grandiosas. Assim, lê-
se muitas palavras utilizadas pelo narrador para fazer referência à Miranda, todas conjugadas
na terceira pessoa, como “assustava-se” ou “lhe”, além das palavras cuja finalidade foi de se
referir ao ambiente físico no qual João Romão e Miranda se encontravam, como “socando-se”,
“minavam”, “dela” e etc.
Quanto à ciência: o narrador é um dos constituintes mais importantes de uma diogese,
responsável por dar um corpo às suas narrações e, num sentido mais amplo, de conceder vida
ao texto. Sem o narrador, nenhuma ação é compartilhada, assim como nenhuma informação a
respeito dos personagens que fazem parte da narrativa são expostas – nem de forma indireta,
pois haveria a ausência de dados necessários para a construção da imagem dos personagens,
tampouco direta, uma vez que inexistiria um discurso sobre o qual se encontrariam narrados os
traços de tais caracteres. Em suma, a presença do narrador é de fundamental relevância para
qualquer história, e o conhecimento detido por ele determina de forma análoga o destino da
descrição e das respectivas conclusões tomadas pelos leitores. Tal fato é tão verdade que, em
textos onde o narrador pouco conhece a respeito da história, como Dom Casmurro, que é
narrado pelo protagonista da diogese, tem-se uma obscuridade temática muito maior. A
possibilidade de diversas interpretações a respeito da suposta traição de Capitu, assim, deriva
da presença de um narrador não omnisciente e de focalização interna.
Por outro lado, n’O Cortiço ocorre o processo inverso, uma vez que os acontecimentos
são narrados de forma a levar o leitor a tomar conclusões que acredita serem suas próprias, mas
que são frutos de um longo procedimento levado a cabo pelo narrador para a elaboração de suas
falas. Isto é, um importante traço do naturalismo e do realismo é a linguagem eivada de uma
linha de argumentação racional e direcionada a convencer o leitor através da retórica, onde o
ponto de vista do narrador é negligenciado em prol de uma imparcialidade que tenta convencer
os interlocutores. Noutros termos, o narrador não faz nenhum comentário nem juízo de valor
justamente para deixar o leitor pensar que é o agente ativo da construção de sentidos do texto,
sendo, na verdade, apenas um receptor passivo.
Quanto a ciência propriamente dita, é fácil verificar que em muitos momentos o
narrador sugere ler os pensamentos das personagens, assim como descreve as emoções sentidas
por eles em tantos outros. Essa capacidade de penetrar no interior da diogese, de fluir entre os
elementos que a constituem, é marca registrada da omnisciência, como quando o narrador
descreve
[...] Diabo! E não poder arredar logo da vida aquele ponto negro; apagá-lo
rapidamente, como quem tira da pele uma nódoa de lama! Que raiva ter de reunir aos
voos mais fulgurosos da sua ambição a idéia mesquinha e ridícula daquela
inconfessável concubinagem! E não podia deixar de pensar no demônio da negra,
porque a maldita ali estava perto, a rondá-lo ameaçadora e sombria; ali estava como
o documento vivo das suas misérias, já passadas, mas ainda palpitantes. (pág. 196)
os pensamentos de João Romão a respeito de Bertoleza, o único obstáculo que se antepunha
entre ele a concretização de suas ambições – tornar-se um nobre rico casando-se com Zulmira
e filiando-se assim com Miranda, um rival de longa data. Assim, no trecho “E não podia deixar
de pensar no demônio da negra” fica latente o conhecimento quase ilimitado que o narrador
possui a respeito da diogese, conhecendo o interior das personagens e suas motivações mais
intrínsecas. Outra passagem que também contribui para sugerir a omnisciência deste narrador
pode ser identificada no momento que os traços psicológicos de João Romão são tecidos, onde
lê-se que:
[...] Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos,
todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma
preocupação: aumentar os bens. (pág. 14)

Neste trecho, semelhante ao anterior, é possível identificar o conhecimento do narrador


quanto as vontades que norteiam o protagonista do romance, relatando que seus atos eram todos
movidos por um “interesse pecuniário”. É claro que este conhecimento não se limita às causas
das ações presentes no texto – estas, inclusive, podem ser obtidas através de inferências ou de
interpretações subjetivas –, mas compreende também o conteúdo psicológico, como
supracitado, dos personagens. O narrador caminha entre alguns polos temáticos e a cada um
mostra ter conhecimentos ilimitados, como quando discorre a respeito de Mirando e diz o
verdadeiro motivo deste ter se mudado da antiga casa que habitava com sua família – o que era
desconhecido pelos personagens – ou quando, para relatar a súbita transfusão dos valores
portugueses para os brasileiros, diz como Rita Baiana teve influência no modo de filtrar a
realidade de Jerônimo, um conhecimento certamente não disponível a outros tipos de narradores
senão os omniscientes.
Quanto à posição: O autor utiliza a descrição do cortiço, valesse de metáforas, para
representar uma atitude comum à classe social presente no cortiço, e que se multiplica em seu
interior. Entretanto, o faz de maneira pragmática e objetiva, seguindo os moldes do
cientificismo do século XIX.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou
a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que
parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas
no esterco. (pág. 15)
Quanto ao discurso utilizado: o discurso utilizado pelo narrador para dar
conhecimento ao leitor da obra trata-se da narração, no qual ocorre o avanço da história através
do relato dos acontecimentos. É claro que as demais formas de se narrar uma diogese também
se fazem presentes, como a descrição, o monólogo direto ou indireto, mas numa presença
substancialmente menos marcante e pouco importante para a obra como um todo. A
preponderância, claro, se dá justamente na narração, como no trecho que segue:
[…] As duas saíram para falar à vontade; mas, nessa ocasião, lá fora no pátio da
estalagem, acabava de armar-se um escândalo medonho. Era o caso que o Henriquinho
da casa do Miranda ficava às vezes à janela do sobrado, nas horas de preguiça, entre
o almoço e o jantar, entretido a ver a Leocádia lavar, seguindo-lhe os movimentos
uniformes do grosso quadril e o tremular das redondas tetas à larga dentro do cabeção
de chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe sinais brejeiros, piscava-lhe o olho,
batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda fechada. Ela respondia,
indicando com o polegar o interior do sobrado, como se dissesse que fosse procurar a
mulher do dono da casa. (pág. 63)

Onde é possível identificar a narração do início da relação romântica entre Henrique e


Leocádia o qual vai culminar, numa representação da ruptura com os ideais burgueses,
sobretudo o casamento, com a descrição de um adultério – uma vez que a personagem,
Leocádia, era casada com o Bruno. Frisemos que a forma de construir esta narração acontece
de modo linear, onde os acontecimentos se sucedem segundo uma ordem cronológica específica
– eventos mais remotos antecedem os mais recentes e assim sucessivamente, construídos sob a
óptica racionalista que permeia as relações semióticas do naturalismo. O narrador não se limita
a descrição pura e simplesmente dos eventos, onde existe uma nítida fragmentação do objeto
narrado, mas propõe uma fluidez contínua no texto – com início bem determinado, meio e fim.
Logo, o narrador não se prende a descrever apenas o início da relação entre Henrique e
Leocádia, desenvolvendo-a sob os temperos da racionalidade e do pragmatismo:
[…] A família do Miranda havia saído. Henrique, mesmo com a roupa de andar em
casa e sem chapéu, desceu à rua, ganhou um terreno que existia à esquerda do sobrado
e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se para o capinzal. Leocádia esperava
por ele debaixo das mangueiras. (pág. 63)

A relação de causa e efeito fica novamente determinada no texto, e as ações são


construídas sobre a estrutura típica com início, meio e fim. O trecho anterior surge justamente
para dar continuidade ao que foi iniciado anteriormente, mostrando quais foram os efeitos
derivados direta ou indiretamente das ações da personagem Leocádia – onde Henrique, apesar
de participante, possuí um papel mais passivo. O desenvolvimento da ação, portanto, ocorre de
modo onde o leitor é situado num ambiente completamente definido e as forças motivadores
fazem-se presentes no plano de conhecimento do leitor. Não há liberdade para que o interlocutor
construa suas próprias considerações a respeito da diogese, uma vez que o modo escolhido pelo
narrador não abre espaço para o desconhecido. É nesta perspectiva que também lê-se o final
destinado a relação entre as duas personagens:
[...] Avia-te! Anda! apressou ela, lançando-se de costas ao chão e arregaçando a fralda
até a cintura; as coxas abertas. [...] O estudante atirou-se, sôfrego, sentindo-lhe a
frescura da sua carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho. (pag. 64)

No trecho anterior, após descrever todos os elementos constituintes da cena, o narrador


encerra o relato de acontecimentos que havia iniciado anteriormente, cessando toda a
curiosidade que porventura pudessem ter se estabelecido no leitor durante o processo de
atribuição de significados. A narrativa caminha na perspectiva de encerrar os conflitos que são
estipulados pelo narrador – característica marca das diogeses fechadas – fazendo-o através da
linearidade. Logo, define-se o processo utilizado pelo narrador para a construção do enredo
como sendo a narração.
2. RESSIGNIFICAÇÃO

A obra O Cortiço de Aluísio de Azevedo retrata vários acontecimentos chocantes sobre


a raça humana, além de fazer críticas construtivas a sociedade tanto do passado (digo, referente
ao período em que foi escrita e publicada) como nos dias atuais, os novos significados que
podemos atribuir a esta importante obra da literatura brasileira, por meio de uma nova
percepção de mundo inerentes na atualidade são de caráter altamente pluralizado. Dentre estes
novos significados que podemos atribuir a obra, ratificamos a familiaridade do cortiço com as
favelas brasileiras, que segundo nossa percepção e bagagem literária (digo, referente a artigos
e outras leituras do gênero), mais se predominam na obra, e lhes conferem o seu caráter crítico
e sobretudo permeiam a contemporaneidade.
Sendo assim, dialogando com a obra com a situação social e conjuntamente estrutural
do cortiço, onde a falta de mobilidade e o aglomeramento de pessoas predomina
incessantemente e mesmo assim, aumentam de tamanho dia após dia; comparamos esta
característica da obra com a atual realidade dos morros cariocas do Brasil, onde a pobreza e a
criminalidade predominam. E em dicotomia surge, o sobrado do Miranda que atualizamos como
sendo os bairros nobres do Rio de Janeiro.

2.1 O CORTIÇO E AS FAVELAS CARIOCAS

Alguns denominam de sobrados, outros de comunidades e a maioria de favelas, enfim,


são um conjunto de emaranhados de casas, construídas umas sobre as outras, onde a união dos
moradores é completamente visível e ressaltante, em meio a tanta criminalidade presentes
nesses morros humanos. E a vida dos moradores é dura e árdua, pois trabalham durante todo o
dia e só voltam a noite para casa. Uns ajudam os outros, se alguém não tem casa, eles se juntam
para construir uma, mesmo não tendo espaço mais para construir. Essa pequena descrição,
retrata a atual situação das favelas dos morros da cidade do Rio de Janeiro.
Como podemos salientar, em um fragmento da série de entrevistas com
moradores dos morros do Rio de Janeiro denominado de “A vida dos que batalham e moram
em morros do Rio de Janeiro”, em que a jornalista Amélia Gonzales, capturou a seguinte
conversa, de um dos moradores:
– Como foi a construção desses barracos? As pessoas se davam bem, se ajudavam
umas às outras?
– Sim, no início tinha uma coisa de um ajudar o outro. Eu não construí, já aluguei
pronto. Mas dei uma mão para muitos que vinham chegando. Naquela época ainda
tinha lugar, e veio muita gente de outros estados. (Jornal da Globo “Nova ética social”,
2017)

Nessa entrevista um dos moradores revela como foi sua estalagem ao morro onde mora
até então com a família, ele não precisou construir sua casa, mas alugou e ajudou os novos
moradores que vinham se estalando naquela localidade, revelando que vinha muita gente até
mesmo de outros estados para se acomodarem ali. Esse tipo de colonização de território
aconteceu na obra, quando João Romão, depois de comprar o terreno ao lado de seu vendeiro,
inicia ali, o que se tornaria o apogeu de estalagens da cidade:
E durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se
de gente. (Cap. 2, parágrafo 1).

Após dois anos de existência, o cortiço aumentou de tamanho, passou a ter mais de 49 casinhas
e a quantidade de moradores cresceu dia após dia, assim como a colonização desapropriada dos
morros cariocas. A população por falta de condições financeiras favoráveis para compra de um
imóvel regularizado e seguro, resultou da consequência (e quase que única opção) em construir
habitações em terrenos nas províncias dos morros, que convergiram nas favelas que
conhecemos hoje.
Essas habitações não regularizadas, surgem em consequência da falta de apoios
socioeconômicos por todo o Brasil. Famílias se constituem e veem nesses terrenos, como opção
de localização para a construção de uma residência, depois disso ou em consonância, vem os
filhos, que nascem um em seguida do outro. Dando seguida assim, para a perpetuação de mais
moradias. É exacerbante a quantidade de pessoas que vai surgindo dia após dia nesses morros,
dando origem as favelas, essas por sua vez criam uma espécie de comunidade, que
majoritariamente são dominadas pela criminalidade, através do qual se opera um conjunto de
“leis” e regimentos em detrimento do bem estar físico, emocional e social, dos moradores. Essas
favelas são vistas como a parte obscura, suja e rejeitada da cidade em que se localiza, assim
como vimos no cortiço de João Romão. Esses aspectos que fazem com que a obra dialogue com
a realidade dos nossos morros cariocas, parecendo até uma descrição do mesmo, é uma
verdadeira alegoria do Brasil.
Vejamos agora uma imagem que retrata bem essa situação na atualidade:
Figura 1: Morro da Rocinha, Rio de Janeiro- Brasil.

Como diz o ditado popular: “Uma imagem fala mais o que mil palavras”. A fotografia,
retrata o Morro da Rocinha no Rio de Janeiro, nela observamos uma cavidade cercada por
paredões de casas e mais casas, de variadas cores, tamanhos e tipos, segundo o IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) esse morro é considerado a maior favela do país, com
cerca de 69.161 habitantes vivendo em 23.352 domicílios (IBGE, 2010), no entanto esse dado
é contestado pelos moradores, que dizem não ter recebido visita do mesmo, para o levantamento
de dados do censo demográfico de 2010. Novos levantamentos beiram os 100.000 no número
de pessoas. Independentemente de seu tamanho e quantidade de gente o IBGE, constatou que
essas populações vivem com os mesmos problemas do restante das favelas: falta de saneamento
básico, coleta de lixo e abastecimento de água. O IBGE afirma também que “11,4 milhões de
brasileiros vivem em favelas e ocupações”.
Essa cenário é claramente representado na obra em que analisamos, na descrição de uma
típica manhã no cortiço, o narrador fala das condições de saneamento básico e distribuição de
água em que a estalagem se encontrara:
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração
tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente,
debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-
se. [...]. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante,
um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando
as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se
ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
(Cap. 3, parágrafo.5).
Todos usavam da mesma bica para escovar os dentes, pela manhã, assim como os
banheiros que eram compartilhados pela maioria dos moradores, e as crianças praticavam suas
necessidades, ali mesmo a céu aberto.
Em dicotomia com esse cenário degradante de uma considerável parcela da sociedade
brasileira, surgem os bairros nobres da bela cidade. A Rocinha é um bairro que fica na Zona
Sul da cidade do Rio de Janeiro. A favela se localiza entre as áreas da Gávea e São Conrado.
Região nobre. Possui o 12º metro quadrado mais valorizado da cidade. Essa localidade se tornou
um dos bairros mais nobres e tradicionais da região carioca, estão dispostos nele diversos
condomínios de luxo, com prédios altos e cômodos grandes, valorizando a região. Esta
descrição dialoga bem com o sobrado do português Miranda, aquele Palacete, que surge em
contraposição ao cortiço.
[...]vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda, separado desta
apenas por aquelas vinte braças; e de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa
de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas
de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do
Hospício com uma loja de fazendas por atacado. (Cap. 1)

A casa do Miranda é considerada como um verdadeiro palácio diante do cortiço, que


começava a florescer, ela era um grande sobrado com ares aristocráticos, que o tornava mais
luxuoso possível. No trecho descrito é possível ver a dimensão desta mais nobre arquitetura,
que possuía 9 janelas verticalmente altas do peitoril pra cima. Os prédios localizados na região
da Gávea e São Conrado são altamente luxuosos, sendo avaliados em milhões de reais em
dinheiro. Feitas pesquisas em sites de vendas, vemos que os apartamentos presentes ali possuem
dimensões territoriais, que variam entre 100 a 500 m², sendo que nas favelas cerca de várias
casinhas caberiam nessa mesma metragem. A dicotomia é exacerbante, pois a quantidade de
pessoas também é claramente explicita, as famílias são bem menores e as condições de
saneamento básico, segurança, educação e sobretudo lazer são invejáveis defronte das favelas.
Vejamos agora uma imagem dessa região, que retrata bem essa dicotomia no Brasil:
Figura 2: vista de prédios na praia de São Conrado. Em plano de fundo a favela da rocinha no, Rio de Janeiro-
Brasil.

A imagem apresentada mostra a praia de São Conrado, seguida de prédios luxuosos e


por plano de fundo constituem a rocinha, dicotomizando de certa forma a riqueza e a pobreza,
o empilhamento ordenado de casas (em forma de apartamentos) e o aglomeração desordenado
de casinhas (representando ordem e a desordem).

Figura 3: Pesquisa do IBGE sobre as favelas no Brasil

Uma pesquisa divulgada em 2013 pelo IBGE aponta que as melhorias educacionais
ainda não refletiram no nivelamento dessas diferenças. Mesmo com o maior acesso ao ensino,
através de financiamentos e bolsas, apenas 1,6% dos moradores dessas áreas carentes possuem
nível superior, enquanto no restante das cidades, ascendeu para 14,7%. O que reforça que o
acesso ao ensino ainda não está disponível para todos.
Num processo de se contextualizar a obra de Aluísio de Azevedo, escrita no século
XIX, no século XXI, decidimos por ater-nos também à análise meticulosa de Antonio Candido,
e refletir sobre o livro como a “dialética do espontâneo e do dirigido”. Como descrito em seu
texto De Cortiço a Cortiço, a obra tem toda a sua estrutura permeada pelo diálogo entre a
espontaneidade e a direção, e nesse caso percebe-se a atualização do cortiço nas periferias,
favelas e afins e em sua relação com os políticos, que numa tentativa de prover os meios para
que essas sociedades se desenvolvam, aplicam a ordem ao espontâneo, tirando-lhes da relação
pútrida em que se encontravam antes.
Como pôde ter sido visto, a construção das favelas do Rio de Janeiro exprime uma
tentativa do governo de acabar com os cortiços que infestavam a vida pública carioca. Destarte
pode-se perceber a clara afinidade deste intento com os objetivos de João Romão. Os políticos
que formaram as favelas e deram um aspecto de urbanizado para a cidade do Rio de Janeiro,
começaram por não se importar com a maneira pela qual aqueles habitantes formariam suas
residências, e não proveram a ajuda do aparelho estatal para que pudessem ter tido êxito em
seus objetivos. Entretanto, a partir do momento em que aquela região afastada da cidade
começou a incomodar os intentos do Estado, formando maus cidadãos – ladrões, traficantes e
afins – vê-se com maior intensidade a presença deste nessas áreas, o policiamento aumentou e
o objetivo acabar com aquele modo de vida é explícito.
Com o supracitado pode-se perceber que a relação entre homens tende a gerar o
espontâneo, que estes quando carecem dos conhecimentos necessários, vivem sem a direção e
a ordem, se aproximado de um comportamento animal, como demonstrado pelos romances de
tese naturalistas, inclusive e de maior relevância nesta análise O cortiço.