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ISSN 2596-3090 Volume I • Nº 1 - Maio de 2019

R E V I S T A C I E N T Í F I C A
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Copyright by Inesp © 2019

INSTITUTO DE ESTUDOS E PESQUISAS SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA


SOBRE O DESENVOLVIMENTO DO ESTADO E DEFESA SOCIAL
DO CEARÁ – INESP
André Santos Costa
João Milton Cunha de Miranda Delegado de Polícia Federal
Presidente Secretário da Segurança Pública e
Defesa Social do Estado do Ceará
Andréa Melo
Assistente Editorial Paulo Sérgio Braga Ferreira
Coronel PMCE
Valdemice Costa (Valdo) Secretário Executivo da Secretaria da
Projeto Gráfico e Diagramação Segurança Pública e Defesa e Social

Lúcia Jacó Rocha Adriano de Assis Sales


Revisão Secretário Executivo de Planejamento e Gestão Interna
da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social
Elaboração da Capa
Design: Ágil Comunicação
Foto: Civil Jr.
CONSELHO DIRETOR 2018.2
Impressão
Gráfica do Inesp
PRESIDENTE
Coordenação da Gráfica do Inesp André Santos Costa
Ernandes do Carmo Delegado de Polícia Federal
Secretário da Segurança Pública e
Equipe de Impressão e Acabamento Defesa Social do Estado do Ceará
Cleomárcio Alves (Márcio), Especialista em Ciências Criminais pela
Francisco de Moura, Hadson França, João Alfredo Universidade Federal de Alagoas – UFAL

MEMBROS

Catalogado por Daniele Nascimento CRB-3/1023 Alexandre Ávila de Vasconcelos


Coronel PMCE
Secretário Adjunto da Secretaria da Segurança
Revista científica segurança em foco / Secretaria Pública e Defesa Social do Estado do Ceará
da Segurança Pública e Defesa Social. – Vol. 1, Especialista em Segurança Pública pela Escola
n. 1 (Maio 2019)- . – Fortaleza: Assembleia Superior do Parlamento Cearense – Unipace
Legislativa do Estado do Ceará, INESP, 2019-
v. ; 26 cm. Adriano de Assis Sales
Secretário Executivo da Secretaria da Segurança
Semestral. Pública e Defesa Social do Estado do Ceará
ISSN 2596-3090 Especialista em MBA em Contabilidade Aplicada ao Setor
Público pela Universidade Católica de Brasília-UCB
I. Ceará. Secretaria de Segurança Pública e
Defesa Social. II. Ceará. Assembleia Legislativa do Juarez Gomes Nunes Júnior
Estado. Instituto de Estudos e Pesquisas sobre Tenente Coronel PMCE
o Desenvolvimento. Diretor Geral da Academia Estadual de Segurança Pública
Mestre em Direito e Gestão de Conflitos pela
Universidade de Fortaleza – Unifor

EDIÇÕES INESP Régis Façanha Dantas


Av. Desembargador Moreira, 2807 Superintendente de Pesquisa e Estratégia de
Dionísio Torres, Fortaleza-CE Segurança Pública do Estado do Ceará
CEP 60.170-900 Doutor em Economia pela Universidade
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R E VISTA C IE NTÍF IC A SEG UR ANÇA EM FOCO

CONSELHO EDITORIAL 2018.2 CONSELHO CONSULTIVO 2018.2

PRESIDENTE Gleison Mendonça Diniz


Klenio Sávyo Nascimento de Sousa Pós-doutor em Administração e Controladoria
Tenente Coronel PMCE pela Universidade Federal do Ceará – UFC,
Coordenador de Gestão de Pessoas da SSPDS Doutor em Administração de Empresas
Especialista em Segurança Pública Pela pela Universidade de Fortaleza – Unifor
Universidade do Estado da Bahia – Uneb.
Antonio Germano Magalhães Júnior
MEMBROS Pós-doutor em Educação pela Universidade
Edney de Oliveira da Silva Federal do Rio Grande do Norte – UFRN
1º Sargento PMCE Doutor em Educação pela Universidade
Assistente Técnico da Assessoria de Federal do Ceará – UFC
Desenvolvimento Institucional da SSPDS
Graduado em Filosofia pela Universidade Régis Façanha Dantas
Estadual do Ceará – Uece Doutor em Economia pela Universidade
Federal do Ceará – UFC
Aline Freires da Costa
Coordenadora de Comunicação da José Lenho Silva Diógenes
Assessoria de Comunicação da SSPDS Doutor em Sociologia pela Universidade
Graduada em Comunicação Social com Bacharelado Federal do Ceará – UFC
em Jornalismo pela Faculdade Cearense – FAC
Laércio Noronha Xavier
Anderson Duarte Barboza Doutor em Direito pela Universidade
1º Tenente QOPM Federal de Pernambuco – UFPE
Diretor de Estratégia de Segurança Pública da Supesp
Doutor em Educação pela Universidade Renato Evando Moreira Filho
Federal do Ceará – UFC Doutor em Patologia e Medicina Legal pela
Universidade Federal do Ceará – UFC
Victor Hugo Medeiros Alencar
Perito Geral Adjunto Túlio Ítalo da Silva Oliveira
Pesquisador da Universidade Federal do Ceará – UFC Doutor em Química pela Universidade
Mestre em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará – UFC
Federal do Ceará – UFC
Vivian Romero Santiago
Doutora em Biotecnologia da Rede Nordeste
SECRETÁRIA pela Universidade Federal do Ceará – UFC
Bia Úrsula Uchoa de Medeiros
Aspirante BMCE Germania Kelly Furtado Ferreira
Orientadora da Célula de Desenvolvimento Doutora em Ciências da Educação pela
de Pessoas da SSPDS Universidade do Minho (Portugal) – Uminho
Curso de Formação de Oficiais pela Academia de
Bombeiros Militar Comandante Emilson Ribeiro Barbosa Marcelo Davi Santos
Mestre em Economia pela Universidade
Federal do Ceará – UFC

Paula Alves Tomaz


Mestre em Geografia pela Universidade
Federal do Ceará – UFC

Tatiany Soares Araújo


Mestre em Geografia pela Universidade
Estadual do Ceará – Uece

Welisson Tavares da Silva


Mestre em Engenharia e Ciência de Materiais
pela Universidade Federal do Ceará – UFC
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NOTA DO CONSELHO DIRETOR

P rezado leitor, é com imensa satisfação que apresentamos


a primeira edição da Revista Científica Segurança em Foco
da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social - SSPDS,
que aborda a temática da Segurança Pública através de artigos
científicos elaborados por integrantes do Sistema de Segurança
Pública e pesquisadores da área, abordando às seguintes linhas
de pesquisa: 1) Tecnologia e gestão em segurança pública; 2)
Aspectos legais e normativos das instituições de segurança pú-
blica; 3) Fatores indutores e/ou redutores da criminalidade e da
violência; 4) Responsabilidade social e/ou estatal na segurança
pública; 5) Valorização (saúde, formação, qualidade no traba-
lho, remuneração, etc.) do profissional de segurança pública; 6)
Programas, ações e projetos exitosos em segurança pública.
Intitula-se como o primeiro trabalho desta edição o tema:
Tecnologia e Segurança Pública: o modelo do Ceará, o qual foi
abordado pelo Delegado de Polícia Federal, André Santos Cos-
ta, atual Secretário da Segurança Pública e Defesa Social deste
Estado. O tema desperta para a importância de se investir em
tecnologia e ciência de dados na construção de novas políticas
de segurança pública e alerta para os erros em que incidem ges-
tores desta área na aquisição dessas tecnologias.
Na sequência, o Soldado da PMCE Felipe Florêncio dos
Santos, apresenta um artigo com o tema A Vertente Legítima da
Atividade Policial as responsabilidades do cidadão e do agente
policial frente à abordagem policial, cujo objetivo central é escla-
recer as responsabilidades do cidadão e do agente policial frente
à abordagem policial, trazendo suas implicações penais, civis e
administrativas. Aborda também a questão dos direitos humanos
aplicados à ação dos profissionais de segurança pública.
Em seguida, o Major QOPM-PMCE Cristiano Lins de Vasconce-
los, aborda o tema Formação Policial: uma reflexão acerca da etapa
formativa do concurso para admissão de novos policiais, que trata
da formação policial e seus aspectos contextuais para a constru-
ção da identidade do policial militar. O texto traz uma reflexão sobre
a construção da identidade desse servidor no Curso de Formação
Profissional para o Candidato ao Cargo de Soldado PM da Carreira
Praças Policiais Militares da PMCE – CFP, do ano de 2017.
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Dando continuidade, o Agente de Polícia Federal Paulo Ro-


berto de Lima Carvalho, apresenta o artigo Combate ao Ciber-
crime: desafios contemporâneos no mundo globalizado, des-
tacando que a internet sendo um elemento potencializador do
encurtamento das distancias físicas e redutoras do fator tem-
po, tende a modificar as dinâmicas dos processos humanos.
Destaca também, que nesse cenário de múltiplas atividades e
constante evolução tecnológica surgem novas modalidades de
delitos praticados. Assim, o autor apresenta com abordagem
metodológica bibliográfica os principais elementos que caracte-
rizam o crime cometido com uso de novas tecnologias.
A revista traz ainda outros importantes artigos que com cer-
teza irão contribuir, juntamente com os comentados acima, para
o aprimoramento dos conhecimentos que são desenvolvidos no
âmbito do sistema de segurança pública. Esses artigos abordam
sobre os seguintes temas: Humaitá: o blindado da PMCE; O Ge-
renciamento dos Saberes Integrados como Política Educacional e
de Valorização dos Profissionais de Segurança Pública do Estado
do Ceará; Sobre o Significado de “ser caveira” para Policiais Mili-
tares de Tropas Especiais no Brasil; O aumento da Influência das
Organizações Criminosas: a importância do estudo dos modelos
teóricos da criminalidade; Principais Causas de Reprovação dos
Projetos de Segurança contra Incêndio e Pânico (PSCIPS) Subme-
tidos à Coordenadoria de Atividades Técnicas do Ceará no ano de
2017; e; Comunicação Midiática como Estratégia de Visibilidade
Organizacional: relato de experiência na Polícia Militar do Ceará.
Por fim, agradecemos a confiança de todos os autores pelo
compartilhamento de conhecimentos e ideias essenciais à me-
lhoria da segurança pública, aos Conselhos Editorial e Consultivo
que se fizeram presentes em cada momento de construção desse
sonho, e, aos futuros leitores da revista, fica o nosso último e mais
sincero agradecimento. O conhecimento científico é o nosso foco.

Boa leitura!

Conselho Diretor 
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PREFÁCIO

Uma das principais preocupações dos brasileiros é a segu-


rança. Ampliar e fortalecer o estudo, a pesquisa e a difusão do
conhecimento na área de gestão de segurança pública são algu-
mas maneiras de combater os fenômenos da criminalidade e da
violência urbana.
As pesquisas estabelecem conexões entre fatos, teorias,
constatações e o mundo normativo e formam um ancoradouro
para decisões que devem garantir o estado de normalidade a
partir do planejamento de componentes preventivos, da defesa
dos direitos humanos e, posteriormente, na reparação de danos
que, por ventura, venham a ocorrer.
É com muita honra que a Assembleia Legislativa do Estado
do Ceará, vem, por meio do Instituto de Estudos e Pesquisas so-
bre o Desenvolvimento do Estado do Ceará – INESP, disponibili-
zar esta Revista Científica à sociedade.

João Milton Cunha de Miranda


Presidente do Instituto de Pesquisas sobre o
Desenvolvimento do Estado do Ceará - Inesp
R E VISTA C IE NTÍF IC A SEG UR ANÇA EM FOCO

APRESENTAÇÃO

A Revista Científica Segurança em Foco objetiva registrar


e comunicar o resultado de pesquisas científicas que suscitam
indispensáveis debates. É ainda um excelente veículo para cla-
rificar e depurar ideias atuais entre cientistas e demais profis-
sionais da área.
A Revista traz artigos diversos que abordam temas como
Tecnologia e Segurança Pública, A Vertente Legítima da Ativi-
dade Policial, Formação Policial, O Aumento da Influência das
Organizações Criminosas, dentre outros fundamentais para ar-
ticular o pensamento sobre segurança
A Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, por meio do Ins-
tituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado
do Ceará - Inesp, oferta, orgulhosamente, à sociedade cearense
esta obra que potencializa os seus compromissos com a cidadania
e com a paz.

José Sarto Nogueira


Presidente da Assembleia Legislativa
do Estado do Ceará
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

SUMÁRIO

Tecnologia e Segurança Pública: o modelo do Ceará ...........10


Technology And Public Security: the Ceará’s model

A Vertente Legítima da Atividade Policial:


as responsabilidades do cidadão e do agente policial
frente à abordagem policial...................................................18
The Legitimate Strait Of Police Activity: the responsibilities of the
citizen and the police officer in front of the police approach

Formação Policial: uma reflexão acerca da etapa


formativa do concurso para admissão de novos policiais..... 25
Police Formation: a reflection on the training stage of
the contest for the admission of new policies

Combate ao Cibercrime: desafios contemporâneos


no mundo globalizado........................................................... 34
Combating Cybercrime: contemporary
challenges in the globalized word

Humaitá: o blindado da PMCE.............................................. 43


Humaitá: the armored PMCE

O Gerenciamento dos Saberes Integrados como


Política Educacional e de Valorização dos Profissionais
de Segurança Pública do Estado do Ceará .......................... 52
The Management of Integrated Knowledges as an Educational Policy
And Valorization of Public Safety Professionals in The State of Ceará
R E VISTA C IE NTÍF IC A SEG UR ANÇA EM FOCO

Sobre o Significado de “ser Caveira” para Policiais


Militares de Tropas Especiais no Brasil..................................61
The Meaning “To Be Caveira” For Special Troops Military Police In Brazil

O Aumento da Influência das Organizações Criminosas:


a importância do estudo dos modelos teóricos da
criminalidade........................................................................ 70
The Increase of The Influence of Criminal Organizations: the
importance of the study of theoretical models of crime

Principais Causas de Reprovação dos Projetos


de Segurança Contra Incêndio e Pânico (Pscips)
Submetidos à Coordenadoria de Atividades Técnicas
do Ceará no Ano de 2017...................................................... 78
Main Reasons for Disapproval of safety Projects Against Fire and Panic
Submitted to the Coordination of Technical Activities of Ceará in 2017

Comunicação Midiática como Estratégia de Visibilidade


Organizacional: relato de experiência na Polícia Militar
do Ceará............................................................................... 88
Media Communication As A Organizational Visibility Strategy:
Experience Report In The Military Police Of Ceará
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

TECNOLOGIA E SEGURANÇA PÚBLICA:


O MODELO DO CEARÁ

TECHNOLOGY AND PUBLIC SECURITY:


THE CEARÁ’S MODEL

André Santos Costa1

E
RESUMO
sse artigo tem por objetivo despertar para a importância de se investir em tecno-
logia e ciência de dados na construção de novas políticas de segurança pública e
alerta para os erros em que incidem gestores desta área na aquisição dessas tecno-
logias, especialmente na ausência prévia de estratégias para buscar quais tecnolo-
gias podem apoiar ações resolução de problemas e investir no policial para que este
conheça e confie na ferramenta que está sendo empregada. No texto é exposta a ex-
periência adotada no Estado do Ceará, em especial na estratégia de combate à mo-
bilidade do crime, apresentando como ela se desenvolve, os resultados alcançados e
seus impactos, além da avaliação de novas oportunidades que surgiram e os desafios
a serem superados. Demonstra-se, portanto, uma metodologia eficiente de trabalho
apoiada pela tecnologia e apta a integrar os dados em todo o País.

Palavras-chave: Tecnologias disruptivas. Ciência de dados. Segurança pública. Ges-


tão e governança.

ABSTRACT
This article aims to raise the importance of investing in technology and data science in
the construction of new public security policies and alert to the errors that managers in
this area have when purchasing these technologies, especially in the inexistence of prior
strategies to search which technologies can support problem-solving actions and invest in
the officer so that he knows and relies on the tool being employed. In the text it is exposed
the strategy adopted in the State of Ceará, especially in the strategy to combat the mobi-
lity of crime, presenting how it develops, the results achieved and their impacts, besides
the evaluation of new opportunities that have arisen and the challenges to be overcome. It
demonstrates, therefore, an efficient work methodology supported by the technology and
apt to integrate security data throughout Brazil.

Keywords: Disruptive technologies. Data science. Public security. Management and go-
vernance.

1 Especialista em Ciências Criminais pela Universidade Federal de Alagoas. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do
Ceará. Delegado de Polícia Federal. Secretário da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará.

10 T E C N O LO G I A E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A: O M OD ELO DO C E AR Á


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

1 Introdução midade entre pessoas de diversas regi-


ões através da difusão de músicas com
Muito se tem discutido e escrito apologia a crimes, vídeos de execuções e
acerca do tema segurança pública. O pichações com siglas de facções crimino-
interesse acadêmico é fruto dos gran- sas. Tudo isso vem gerando subculturas
des desafios que o Brasil enfrenta nes- criminais e sentimento de pertencimento
sa área, destacando-se o fato de deter aos grupos criminosos, especialmente,
a marca do maior número de mortes vio- entre jovens, além de facilitar a formação
lentas do mundo. de uma identidade entre criminosos de
O debate tem sido rico em diag- todo o território nacional.
nosticar as causas desses problemas e A reação do poder público deve vir
apontar caminhos genéricos de solução. permeada pela tecnologia, em especial,
No entanto, carece de direcionamento pela ciência de dados. Não constitui pro-
em soluções pragmáticas. Em suma, sa- pósito deste artigo discorrer sobre como
be-se “o que” pode ser feito para conter a tecnologia pode auxiliar nas ações de
o avanço da violência, mas não há pro- prevenção, detendo-se nas ações de con-
postas em “como” se deve proceder para trole de eventos delituosos, de delinquen-
alcançar esse intento. tes contumazes e de grupos criminosos
Este artigo traz um novo foco ao de- organizados.
bate. Não serão discutidas as causas que
levaram o País a chegar nos atuais níveis 2 Emprego de tecnologia nas
de violência, mas serão apresentadas pro- ações de segurança pública.
postas de ações que podem acarretar me- Considerações iniciais
lhoras nos índices que medem a seguran-
ça pública do País. E não apenas isso, pois A necessidade da segurança pública
as ideias serão tratadas em nível tático e investir em tecnologias é um dos muitos
operacional, capazes de em curto, médio exemplos de “o que” deve ser realizado para
e longo prazo demonstrarem como sobre- vencer desafios. Antes de explicar “como”
pujar as maiores questões surgidas com o devem ser realizados esses investimentos
fenômeno da criminalidade minimamente é forçoso destacar algumas das razões da
organizada, a qual se representa como a pouca eficiência dos investimentos realiza-
maior causadora do crescimento expo- dos nessa área até o presente momento, os
nencial dos crimes violentos letais e inten- quais não têm sido suficientes para alcan-
cionais (CVLI) e da população carcerária. çar os resultados pretendidos.
Para que o crime pudesse se organi- O maior erro em que incidem os ges-
zar é indiscutível que esse processo fosse tores de segurança pública tem sido ad-
proporcionado pelo emprego de tecnolo- quirir e usar soluções tecnológicas sem
gia, em especial nas telecomunicações e estarem antes contextualizadas em uma
redes sociais. Novos modus operandi na estratégia de segurança pública. Primei-
realização de antigos tipos penais, proxi- ramente, deve-se pensar no problema e

T ECN OLOGIA E SE GUR ANÇ A PÚBL IC A: O MODE LO DO C E AR Á 11


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

em suas causas para, a partir desse pon- de atuação. Ciente dessa estratégia, bus-
to, buscar as ações e atividades que pre- ca-se quais investimentos deverão ser
cisam ser realizadas, sem perder de vista realizados para apoiá-la e quais ações
o estabelecimento das metas a serem devem ser realizadas pelos profissionais
atingidas. Após a execução das políticas, de segurança pública potencializados
passa-se a verificar se os resultados pla- pela tecnologia. Por fim, que resultados
nejados foram alcançados. E neste mo- devem ser alcançados para se fazer a de-
mento também se consegue identificar o vida avaliação de toda a estratégia.
que se deve pôr em prática para melhorar Uma dessas estratégias será tra-
os processos através de ações corretivas. tada neste artigo; a de combate à mo-
Outra prática comum é adquirir ino- bilidade do crime e foi implementada,
vações para as polícias que não foram em maio de 2017. Ela trouxe resultados
construídas para as funções de controle expressivos, e no momento passa tam-
e de proteção da população. São siste- bém por uma avaliação e pelo desenvol-
mas adaptados, oriundos de atividades vimento de ajustes.
como saúde, gestão de frota e até mes-
mo aviação aérea. O fluxo fica invertido: 3 Combate à mobilidade do crime
são ofertadas as soluções e os gestores
passarem a adquiri-las, sem antes tra- 3.1 O conceito de
çar a devida estratégia. mobilidade do crime
Tratam-se de ferramentas não cus-
tomizadas à realidade do profissional de O policial rodoviário federal Aloisio
segurança pública e por isso, muitas vezes, Lira, especialista em segurança pública,
não são funcionais ao dia-a-dia nas ruas. explica em suas palestras sobre o progra-
Policiais não participaram de seu desenvol- ma Segurança Pública Integrada, o qual
vimento e assim há uma maior dificuldade teve seu embrião durante nossa gestão
de que se empoderem das ferramentas no Ceará em 2017, que sua Teoria da Mo-
postas à disposição a um elevado custo. bilidade do Crime consiste na mudança
Por fim, considerando a ausência de de modus operandi da criminalidade em
funcionalidade do que foi contratado, aca- razão da popularização do veículo auto-
bam por não adquirirem a confiança dos motor e do crescimento acelerado e de-
policiais e esses abandonam o seu uso. O sordenado das grandes cidades. Por se
problema é potencializado pela não priori- tratar de matéria de inteligência, ele rela-
zação de treinamento do efetivo na utiliza- ta sucintamente que a ampliação de for-
ção das novas tecnologias. Investe-se, ape- ma exponencial das áreas a serem patru-
nas, na tecnologia e não no ser humano. lhadas, a falta de estratégia de migração
No estado do Ceará seguimos um do policiamento a pé para o motorizado
rigoroso planejamento. Desafios a serem e a grande mobilidade do infrator para
vencidos com suas respectivas causas a prática delitiva devido à facilitação do
são a base para a definição da estratégia acesso a veículos automotores fez as po-

12 T E C N O LO G I A E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A: O M OD ELO DO C E AR Á


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

lícias trabalharem em um reativismo di- desenvolvimento do Sistema Policial Indi-


fuso, com parco efeito preventivo e pou- cativo de Abordagem – SPIA, a expansão
ca ou nenhuma chance de sucesso em do sistema de videomonitoramento e o
ações delitivas recém impetradas. incremento de equipes ostensivas nas ci-
Um dos grandes desafios práticos dades, em especial da motopatrulha.
a ser superado na segurança pública é O SPIA é um sistema que aplica
que essa seja dotada de uma maior ca- técnicas de inteligência artificial com a
pacidade de realizar o controle da circu- capacidade de receber e processar, em
lação veicular, uma vez que um dos pon- tempo real, uma infinidade de placas de
tos em comum existentes na execução veículos reconhecidas por câmeras (li-
de crimes violentos é a utilização de veí- cense plate recognition – LPR). O SPIA
culos automotores. Em regra, o veículo seleciona aquelas placas em que há in-
conduzido para a prática de crimes não teresse imediato para atividades de con-
é o de “placa quente”, pois facilitaria a trole de trânsito ou de crimes, tomando
identificação dos criminosos. Empre- a decisão em tempo real para a ação de
gam-se veículos roubados ou furtados, abordagem veicular por parte da equipe
assim como os que circulam com combi- policial. O SPIA permite, ainda, acessar o
nação alfanumérica de placas igual a de histórico das leituras, registrando no tem-
um original (clone ou dublê). po e no espaço a presença de cada veícu-
A utilização de automóveis e motoci- lo que transitou em vias públicas.
cletas tem sido cara aos delinquentes nas Trata-se de um sistema idealizado
zonas urbanas, representando um dos por policiais da Superintendência Regio-
meios habituais em diversas etapas do nal da Polícia Rodoviária Federal no Cea-
plano de ação delitiva. Facilita a escolha rá e desenvolvido por esses, por policiais
da vítima, pois, ao transitar por grandes ex- da Secretaria da Segurança Pública e De-
tensões, consegue visualizar mais vítimas fesa Social do Ceará e por pesquisadores
em potencial; auxilia no acompanhamen- do Departamento de Computação da
to do alvo escolhido, quando necessário; Universidade Federal do Ceará. Portanto,
permite fazer o ensaio da ação criminosa, é construído por policiais e para policiais,
executando várias passagens em torno ao lado de pesquisadores universitários.
do local selecionado para a ação; e torna A integração da polícia com a Acade-
mais exequível o sucesso da prática deliti- mia tem permitido a aplicação da meto-
va, ao possibilitar o meio de escape. dologia científica nas estratégias táticas
e operacionais da polícia. Particularmen-
3.2 Estratégia empregada te, está sendo aplicada a Ciência de Da-
e seus resultados dos na criação de algoritmos inteligentes
para, por exemplo, predizer a localização
Para superar o desafio de vencer de crimes no futuro e recomendar um tipo
a mobilidade do crime, três ações com- de ação policial mais eficaz para comba-
puseram a estratégia tática: a criação e ter o futuro crime. A Ciência de Dados

T ECN OLOGIA E SE GUR ANÇ A PÚBL IC A: O MODE LO DO C E AR Á 13


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

integra diversas disciplinas, tais como Os resultados, como serão apresen-


estatística, inteligência artificial, banco tados abaixo, foram tão positivos que o
de dados, visualização analítica, entre Governo do Estado investiu em uma gran-
outras, além de incluir o conhecimento de ampliação do sistema de câmeras,
do domínio na aplicação, nesse caso o proporcionando mais locais para coleta
domínio da segurança pública. O uso da de dados a serem analisados. Até 2014, o
Ciência de Dados permitirá que os poli- estado do Ceará possuía 164 câmeras de
ciais apliquem suas estratégicas táticas videomonitoramento, todas em Fortaleza.
de forma mais precisa, sendo assistidos Até o final desse ano, serão 2.543 câme-
por sistemas equipados com inteligência ras na Capital, além de outras 1.246 em
artificial de última geração. 44 cidades, incluindo as próprias da segu-
Nas ações de pronto-emprego não rança pública e as que foram integradas
é necessário exercer o controle da circu- de órgãos de trânsito federal, estadual e
lação de todo e qualquer veículo. Assim, municipal, dentre outras.
filtros são previamente criados para que Uma diferença importante entre os
o SPIA notifique as passagens daqueles equipamentos antigos e os atuais é que
com interesse para a fiscalização de trân- agora as câmeras são acompanhadas
sito, ou para as ações ostensivas policiais. de analíticos, ou seja, de softwares com
Algumas pesquisas em bases de dados capacidade de análise. Antes havia uma
são simples, como verificar se um veículo limitação para se aferir seu impacto na
foi roubado, furtado ou se está com licen- redução de crimes, pois não se media
ciamento em atraso. Outras necessitam o acompanhamento de imagens pelos
integrar e correlacionar diversos bancos operadores. Agora o sistema aplica téc-
de dados de veículos e de pessoas, aler- nicas de inteligência artificial e realiza o
tando, por exemplo, se o proprietário do monitoramento com precisão de quase a
veículo está com a CNH vencida ou se totalidade dos veículos que circular em
possui mandado de prisão em aberto. pelos sensores.
Assim que o SPIA transmite a pas- Possuindo, então, os dados de geo-
sagem em tempo real de um veículo se- localização do veículo a ser abordado,
lecionado em um desses filtros, o ope- com ou sem imagens em tempo real do
rador da Coordenadoria Integrada de veículo, há a necessidade de se realizar
Operações de Segurança – CIOPS bus- o cerco policial e chegar com rapidez,
ca imagens do veículo nas câmeras de para não perder o princípio da oportuni-
videomonitoramento, ao mesmo tempo dade, inserido no princípio constitucio-
em que aciona as equipes mais próxi- nal da eficiência. Para isso, é crucial em
mas para realizarem o cerco policial, cidades com maiores fluxos de trânsito
com base na experiência adquirida pelo o emprego do motopatrulhamento, dada
conhecimento das áreas com maior inci- à facilidade de mobilidade, inclusive em
dência de crimes e também nas rotas de horários de pico. As equipes de motopa-
escape de criminosos. trulha existiam apenas na capital, até

14 T E C N O LO G I A E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A: O M OD ELO DO C E AR Á


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

2014, passando-se à sua ampliação para A dificuldade da mobilidade do


44 cidades do estado até o fim de 2018 e crime tem interferido, diretamente, na
para outras 21 cidades, acima de 30 mil redução do CVP. No Ceará, fazemos a
habitantes, nos próximos quatro anos. distinção entre CVP-1 e CVP-2, consti-
Para esse conjunto de ações proje- tuindo-se esse último dos roubos em que
tou-se como meta alcançar a menor taxa praticamente não há subnotificação.
de veículos roubados por 100 mil unida- São os roubos de veículos, de cargas,
des da frota, dos últimos cinco anos, e com restrição de liberdade da vítima, em
a redução dos crimes violentos contra o residências e comércios, além dos exe-
patrimônio (CVP) em 7%, mesma meta de cutados contra instituições financeiras.
redução do CVLI. Tendo por referências os meses de
A primeira avaliação foi bastante maio de 2017 e setembro de 2018, foram
positiva. No mês de maio de 2017, quan- 6.402 roubos registrados contra 4.025,
do teve início o uso do SPIA, apenas, em redução de 37,13%. No acumulado do
Fortaleza, foram 1.149 veículos roubados ano de 2018, a redução do CVP-1 é de
em todo o Estado. Nos meses subse- 15,6% e de 16% no CVP-2, mais que o
quentes, foram integrados os pontos de dobro da meta estabelecida, e ocorre
monitoramento do trânsito em rodovias em todas as regiões do estado, exceto o
federais e estaduais, além das ruas e CVP-2 na região norte com aumento de
avenidas da capital. Após o início de ju- 1,7%. O menor número de roubos oca-
nho de 2018, passou-se à instalação do sionou também a diminuição dos latro-
sistema de videomonitoramento para cínios, com redução de 58,1%, tendo por
as cidades acima de 50 mil habitantes, referência os nove primeiros meses do
acompanhada da criação de pelotões de ano e o mesmo período em 2017.
motopatrulhamento do RAIO – Batalhão Destaque também por proporcionar a
de Ronda e Ações Ostensivas e Intensi- otimização dos recursos humanos e logís-
vas nessas mesmas cidades, e também ticos, posto que as equipes passam a rea-
atuação de motopatrulha nas Unidades lizar abordagens com uma maior taxa de
Integradas de Segurança – UNISEGs, em acerto, e assim permite o emprego de po-
Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sobral. O liciais em outras atividades, como no poli-
resultado é que, no mês de setembro de ciamento fixo em determinados territórios.
2018, foram roubados em todo o estado Essa precisão do sistema em apon-
699 veículos, um número 39,16% inferior. tar os veículos que efetivamente preci-
Com base nos nove primeiros meses sam ser abordados conquistou a con-
do ano, a projeção é que seja alcançada fiança dos policiais, o que é fundamental
a taxa de 454 veículos roubados, a cada para o sucesso do emprego da ferramen-
100 mil da frota da capital. Esse número ta tecnológica. A aceitação ocorre não
é o menor índice desde 2012 e supera a apenas nos policiais de nível de planeja-
meta inicialmente estabelecida. mento, mas também os de competência
tático e operacional.

T ECN OLOGIA E SE GUR ANÇ A PÚBL IC A: O MODE LO DO C E AR Á 15


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

3.3 Construção da atuação integrada da abordagem. Quando a equipe ostensi-


e proativa das polícias va localiza o veículo, devolve-se a respon-
sabilidade à investigativa, que prossegui-
A avaliação do emprego da estratégia rá nos atos do inquérito policial, podendo
tem sido bastante positiva diante dos re- concluir ou encaminhar nova atividade
sultados apresentados. No entanto, novas ao patrulhamento ostensivo.
oportunidades vêm surgindo com esse mo- Na prática, as instituições policiais
delo de policiamento proativo, atuando nas do Ceará ultrapassam a barreira da ne-
fases iniciais do plano de ação criminosa, cessidade de conhecer (need to know) e
antes mesmo da execução de novos delitos. das regras de compartimentação e im-
A mais importante delas é a intensa plantam um novo modelo que tem como
integração das ações ostensivas com as re- pressupostos a necessidade de compar-
pressivas, ou seja, das atividades da Polícia tilhar (need to share) e, portanto, regras
Militar e da Polícia Civil, podendo ser am- de compartilhamento. Resta patente a
pliada para melhor integrar também a Po- complementaridade das ações policiais
lícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. ostensivas e investigativas.
Quando da prática de um crime A política de combate à mobilidade
como o roubo de um veículo, de uma do crime tem como alvo a prevenção aos
carga ou um homicídio, as equipes os- crimes contra o patrimônio, buscando a
tensivas de pronto-emprego realizam redução dos índices. Embora na fase ini-
diligências na tentativa de prender em cial houvesse um aumento exponencial
flagrante os criminosos. Caso não se al- na recuperação de veículos, chegando-
cance esse intento, transfere-se o caso -se à localização de 90% dos que foram
ao órgão, responsável pela ação para roubados e furtados, constatou-se a es-
realizar a investigação policial. Através tagnação desse patamar. Isso representa
das análises disponíveis pelo SPIA e pe- que se alcançou o ponto da curva que de-
las imagens do sistema de videomonito- manda ações além das ostensivas. Para
ramento, os investigadores identificarão melhorar esse índice é essencial o traba-
os veículos utilizados na prática delitiva. lho de inteligência policial.
No entanto, como normalmente se A estratégia está sendo revista e o
tratam de veículos roubados, furtados ou que se busca é o aprendizado lastreado
clonados, o registro de proprietário não pelas ações realizadas com o uso do SPIA,
levará à identificação dos delinquentes. tanto na montagem de algoritmos de pre-
Assim, o órgão investigador insere aquela dição, quanto na maior integração entre
placa no módulo eSPIAr, um filtro criado as atividades investigativa e de pronto-
para inserir placas definidas pela investi- -emprego, as quais obviamente possuem
gação criminal e pela inteligência policial, velocidades de atuação diferentes. Es-
e assim devolve a atividade ao operacio- sas são as novas oportunidades surgidas
nal, por ser muito mais pulverizado, au- após a primeira avaliação dessa política.
mentando a probabilidade de realização

16 T E C N O LO G I A E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A: O M OD ELO DO C E AR Á


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

4 Considerações finais Da mesma maneira, a análise criminal


permitirá a formatação de padrões, atra-
A segurança pública do País precisa vés do tratamento mais minucioso de mi-
se reinventar e realizar os investimentos crodados, tornando visível aquilo que não
corretos em tecnologia e em ciência de se conseguia descobrir através da limitada
dados. Nos últimos dois anos, a huma- capacidade de observação humana diante
nidade produziu mais dados do que em de uma infinidade de informações.
todo restante de sua história. E grande A construção de ferramentas tecnoló-
parte desses dados não são estrutura- gicas disruptivas e inovadoras, aliada aos
dos e por isso não são aproveitados para processos e à capacitação do profissional
construção de políticas públicas de pre- de segurança pública, em um ambiente li-
venção social e para a investigação e derado por pessoas com alta capacidade
controle da criminalidade. de gestão e de governança é o caminho
Algumas atividades não despertam o que se precisa buscar no Brasil e que vem
interesse dos policiais, além do que a atua- sendo trilhado no estado do Ceará.
ção humana não é confiável e gera dados
frágeis, como por exemplo o acompanha- 5 Referências
mento de leituras de placas, a coleta ma-
nual e o cruzamento de dados de pessoas BAYLEY, David H. Padrões de Policiamen-
físicas e jurídicas em planilhas ou docu- to: uma análise internacional comparati-
mentos. A evolução tecnológica precisa va. 2 ed. 1. Reimpr. – São Paulo: Editora
ocorrer para essa coleta, bem assim a es- da Universidade de São Paulo, 2006.
truturação, comparação e encontro de pa-
drões a serem realizados por robôs. ITO, Joichi. Disrupção e inovação: como
São os dados disponíveis e como sobreviver ao futuro incerto. Rio de Ja-
esses serão tratados pela segurança neiro: Alta Books, 2018.
pública que tem a capacidade de impul-
sionar fortemente as ações de proteção ROLIM, Marcos. A Síndrome da Rainha
e de controle, permitindo a implementa- Vermelha: policiamento e segurança pú-
ção dessas de forma customizada e em blica no Século XXI. Zahar: Rio de Janei-
massa, constituindo nisso o grande dife- ro, 2006. 52
rencial a ser perseguido para a transfor-
mação da forma como são conduzidos os SILVA, Élzio Vicente da. Operações es-
planos de segurança pública. peciais de polícia judiciária: e ruptura de
O alcance da capacidade de se ana- planos de ataque terrorista. Barueri, SP:
lisar dados estruturados em um ambiente Novo Século Editora, 2017.
de Big Data permitirá que as políticas de
prevenção social possam ser implemen-
tadas para cada comunidade, atendendo
às suas aspirações de forma específica.

T ECN OLOGIA E SE GUR ANÇ A PÚBL IC A: O MODE LO DO C E AR Á 17


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

A VERTENTE LEGÍTIMA DA ATIVIDADE POLICIAL:


AS RESPONSABILIDADES DO CIDADÃO E DO AGENTE
POLICIAL FRENTE À ABORDAGEM POLICIAL

THE LEGITIMATE STRAIT OF POLICE ACTIVITY:


THE RESPONSIBILITIES OF THE CITIZEN AND THE POLICE
OFFICER IN FRONT OF THE POLICE APPROACH

Felipe Florêncio dos Santos1

O
RESUMO
presente trabalho tem como objetivo central esclarecer as responsabilidades do ci-
dadão e do agente policial frente à abordagem policial, trazendo suas implicações
penais, civis e administrativas. Além disso, a questão dos direitos humanos aplicados à
ação dos profissionais de segurança pública, reconhecendo seus valores e consideran-
do os direitos e garantias fundamentais da pessoa humana. Mas ainda, tornar compre-
ensível a atividade policial e as funções do Estado Democrático de Direito e edificar o
ente público para que ele seja capaz de respeitar os direitos humanos em sua atuação
profissional. A justificativa para a escolha do tema paira sobre sua contemporaneidade,
bem como na expectativa de contribuir para o âmbito acadêmico. O método de pesqui-
sa aplicado é de natureza qualitativa, com pesquisa do tipo bibliográfica.

Palavras-chave: Atividade policial; abordagem policial; direitos humanos.

ABSTRACT
The present work of this article is to clarify the responsibilities of the citizen and the
police agent in relation to the police approach, bringing their criminal, civil and adminis-
trative implications. In addition, the issue of human rights applied to the action of public
security professionals, recognizing their values and
​​ considering the fundamental rights
and guarantees of the human person. But still, make comprehensible the police activity
and the functions of the Democratic State of Law and build the public entity so that it
is able to respect human rights in their professional performance. The justification for
choosing the theme hovers about its contemporaneity, as well as the expectation of con-
tributing to the academic scope. The applied research method is qualitative in nature,
with research of the bibliographic type.

Keywords: Police activity; police approach; human rights.

1 Graduado em Segurança Pública pela Universidade Estácio de Sá. Soldado da Polícia Militar do Estado do Ceará.

18 A VE RT E N T E LEGÍ T I M A DA AT I VI DAD E P OLI CI AL:


A S RE S P O N SAB I LI DAD ES D O CI DADÃO E D O AGENTE POL IC IAL F R E NTE À ABOR DAGE M POL IC IAL
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

Introdução dade. Nessa perspectiva, os órgãos de


segurança pública credenciam-se a cer-
Este trabalho tem o objetivo de es- car-se de eficientes instrumentos institu-
clarecer a atuação policial para a grande cionais e materiais para que o combate
parte da população que desconhece esse ao crime seja rigoroso e pacificador.
mister, bem como edificar o ente público Outro aspecto a ser considerado é
para o exercício de sua função, conside- que os paradigmas contemporâneos na
rando os direitos e garantias fundamen- área da educação obrigam a repensar
tais da pessoa humana. o agente educacional de forma mais
O desdobramento de uma abordagem includente. No passado, esse papel es-
pode trazer consequências penais para tava reservado, unicamente, aos pais,
o abordado e/ou o agente representante professores e especialistas em educa-
do Estado, acarretando em implicações ção. Hoje, é preciso incluir com prima-
penais em função do comportamento das zia no rol pedagógico, também, outras
pessoas submetidas a uma abordagem profissões irrecusavelmente formado-
policial (desobediência, desacato, resis- ras de opinião: médicos, advogados,
tência etc.), bem como as consequências jornalistas e policiais, por exemplo.
penais que podem recair sobre o agente
policial, em razão da eventual inobservân- Abordagem policial
cia das regras e limites jurídicos (constran-
gimento ilegal, violação de domicílio, abu- A abordagem policial é uma ativi-
so de autoridade, tortura etc.). dade constante para o agente policial
Além desse fator, é importante que no exercício de suas funções. É também
seja proposto o poder de polícia como uma das atividades mais delicadas e pe-
um dos poderes atribuídos ao Estado, a rigosas nas intervenções policiais. Pode
fim de que possa estabelecer, em benefí- ocorrer nos mais diferentes lugares: na
cio da própria ordem social e jurídica, as praia, na rua, numa mata, num estádio
medidas necessárias à manutenção da de futebol, no interior de uma balsa etc.
ordem, da moralidade, da saúde pública, Pode envolver pessoas diferentes: infra-
ou que venham garantir e assegurar a tores da lei, pessoas em situação vulne-
própria liberdade individual, a proprie- rável, pessoa portadora de enfermidade
dade pública e particular e o bem-estar contagiosa, estrangeiros etc. O policial,
coletivo (CUNHA 2011). geralmente, é acionado para atuar onde
É essencial demonstrar que o correto as pessoas estão defendendo direitos,
posicionamento do profissional de segu- ou estão em posições opostas: brigas,
rança pública dentro dos valores univer- manifestações, acidentes, locais de cri-
sais dos direitos humanos é a garantia mes os mais diversos. Logo, o policial vai
de uma segurança pública cada vez mais lidar com pessoas que estão com o con-
acreditada pelo cidadão e cada vez mais trole emocional abalado, exaltadas e até
prestigiada pelo poder político da socie- mesmo violentas.

A VE RTE NTE L E GÍTIMA DA ATIVIDADE POL IC IAL : 19


A S R ESP ONSABI LI DAD ES D O CI DADÃO E DO AGE NTE POL IC IAL F R E NTE À ABOR DAGE M POL IC IAL
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Segundo Parentoni (2012), a aborda- Resistência. Art. 329. Opor-se à


gem policial é o ato de uma guarnição po- execução de ato legal, mediante
violência ou ameaça a funcionário
licial militar aproximar-se e interpelar uma
competente para executá-lo ou a
pessoa que apresente conduta suspeita, quem lhe esteja prestando auxílio:
a fim de identificá-la e/ou proceder a bus- Pena - detenção, de dois meses a
ca, de cuja ação poderá resultar a prisão, a dois anos.
apreensão de pessoa, ou coisa ou uma sim- § 1º - Se o ato, em razão da resistên-
ples advertência, ou orientação. É uma das cia, não se executa:
principais atividades realizadas pelos poli- Pena - reclusão, de um a três anos.
ciais militares em seu trabalho diário, visan- § 2º - As penas deste artigo são apli-
do a prevenção de crimes e contravenções. cáveis sem prejuízo das correspon-
dentes à violência.
Além disso, para resgatar o equilí-
brio na sociedade (paz social), quando Corrupção ativa. Art. 333. Oferecer
uma pessoa, com seu comportamento, ou prometer vantagem indevida a fun-
cionário público, para determiná-lo a
ofende a um bem jurídico penalmente
praticar, omitir ou retardar ato de ofício:
tutelado, instaura-se o que se chama
de persecução penal (jus puniendi). Em Pena - reclusão, de 2 (dois) anos a 12
outras palavras, quando alguém pratica (doze) anos, e multa. (Redação dada
pela Lei nº 10.763, de 12.11.2003)
uma infração penal (crime/delito ou con-
travenção penal), seja em flagrante deli- Parágrafo único. A pena é aumenta-
to, seja após o indiciamento decorrente da de um terço, se, em razão da van-
tagem ou promessa, o funcionário
de inquérito policial comum ou militar, ou
retarda ou omite ato de ofício, ou o
em um termo circunstanciado, o Estado pratica infringindo dever funcional.
exercerá o direito de punir (jus puniendi),
após o devido processo legal. O agente de segurança pública não
E o cidadão, muitas vezes, por desco- exerce apenas uma profissão, mas sim, uma
nhecimento da lei e de suas sanções previs- missão, na qual ele tem que saber lidar com
tas, acaba confrontando-a, incorrendo em as adversidades, coações, perseguições e
crimes muito comuns durante a abordagem cobranças da mídia, população e governo.
policial, segundo o Código Penal, como: Em muitas ocorrências o supracitado tem
pouquíssimo tempo para pensar e tomar
Desobediência. Art. 330. Desobedecer uma decisão, ainda mais que convive, dia-
a ordem legal de funcionário público: riamente, com uma linha tênue entre o certo
Pena - detenção, de quinze dias a e o errado, o bem e o mal e a vida e a morte.
seis meses, e multa. Em função disso, o policial deverá
Desacato. Art. 331. Desacatar fun- estar preparado para atuar em situa-
cionário público no exercício da fun- ções, nas quais estará sujeito a fortes
ção ou em razão dela:
pressões psicológicas, devendo, ainda,
Pena - detenção, de seis meses a manter-se em condições de empregar
dois anos, e multa. técnicas que demandam refinadas ha-

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

bilidades psicomotoras, a fim de evitar Direitos Humanos x Atividade Policial


uma reação violenta, ou mesmo socorrer
uma pessoa em sérias dificuldades. O Brasil efetivou-se como um país de-
mocrático de direito, após a promulgação
O poder de polícia da Constituição Federal de 1988, chamada,
também, de Constituição Cidadã por contar
As características do poder de po- com garantias e direitos fundamentais que
lícia são: autoexecutoriedade, coercibi- reforçam a ideia de um país livre e pautado na
lidade e discricionariedade. A primeira valorização do ser humano, porquanto, desde
é a possibilidade que tem a Administra- 1948 havia-se erigido a Declaração Interna-
ção Pública de, com os próprios meios, cional dos Direitos Humanos, no mundo.
pôr em execução as suas decisões sem No país, os Direitos Humanos têm
precisar recorrer previamente ao Poder papel fundamental à luz da atividade
Judiciário. A segunda trata da imposição policial. Sua principal relação é o seu
coativa das medidas adotadas pela Ad- caráter protetivo do cidadão, limitando
ministração, para a garantia do cumpri- arbitrariedades do Estado, e mesmo dos
mento do ato de polícia. E a última retrata cidadãos, contra homens e mulheres de
que a Administração terá que decidir qual uma nação. Tendo assim a polícia, como
o melhor momento de agir, qual o meio de representante oficial da segurança públi-
ação mais adequado e qual a sanção ca- ca zelar pela integridade dos direitos hu-
bível diante das previstas na norma legal. manos, salvaguardar e compatibilizar as
É plausível afirmar que não restam funções da Instituição com os preceitos
dúvidas quanto ao dever de agir, a fim que estão contidos na Constituição Fede-
de cumprir o papel constitucional de dar ral pelas leis nacionais e internacionais.
segurança à população. Dentro desse A relação entre a atividade policial e os
contexto, ao avaliar os acontecimen- direitos humanos está no fato de que a força
tos que exijam uma intervenção policial policial representa uma das maiores garan-
com todo seu rigor técnico, o desen- tias à concretização e proteção dos direitos
volvimento das ações, mesmo que ali- humanos. Sendo que é a polícia, enquanto
mentado pela discricionariedade, deve órgão do Estado, que assegura a efetivida-
ser feita uma ponderação, isto é, res- de dos Direitos Humanos, tendo então as
ponder aos quesitos da necessidade, atividades policiais o dever de respeitar os
adequação e proporcionalidade. Agin- direitos que ela se propõe a defender.
do assim, a legitimidade das atividades
será alcançada, assegurando a todos Polícia e cidadania
os cidadãos um agir eficiente do apara-
to da segurança pública, mostrando-se Segundo Balestreri (1998), o po-
compatível com a dignidade da pessoa licial é antes de tudo um cidadão, e na
humana, com o devido respeito aos di- cidadania deve nutrir sua razão de ser.
reitos e garantias fundamentais. Irmana-se, assim, a todos os membros

A VE RTE NTE L E GÍTIMA DA ATIVIDADE POL IC IAL : 21


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R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

da comunidade em direitos e deveres. extremado e simbolicamente referencial


Sua condição de cidadania é, portanto, para o bem, ou para o mal-estar da so-
condição primeira, tornando-se bizarra ciedade (Balestreri 1998).
qualquer reflexão fundada sobre supos- O policial, assim, à luz desses para-
ta dualidade ou antagonismo entre uma digmas educacionais mais abrangentes,
“sociedade civil” e outra “sociedade poli- é um pleno e legítimo educador. Essa di-
cial”. Essa afirmação é plenamente váli- mensão é inabdicável e reveste de pro-
da mesmo quando se trata da Polícia Mi- funda nobreza a função policial, quando
litar, que é um serviço público realizado conscientemente explicitada através de
na perspectiva de uma sociedade única, comportamentos e atitudes. Espera-se
da qual todos os segmentos estatais são muito do agir policial, porquanto a mis-
derivados. Portanto não há, igualmente, são é nobre. Entretanto, a sociedade
uma “sociedade civil” e outra “sociedade muda o discurso toda hora. A polícia vê-
militar”. A “lógica” da Guerra Fria, aliada -se perdida nos anseios da população,
aos “anos de chumbo”, no Brasil, é que que em determinado momento deseja
se encarregou de solidificar esses equí- que o agente de segurança seja polido
vocos, tentando transformar a polícia de em suas ações, já em outras situações
um serviço à cidadania, em ferramenta pede que a polícia seja uma instituição
para enfrentamento do “inimigo inter- de vingança social, fazendo justiça com
no”. Mesmo após o encerramento desses as próprias mãos como acontecia nos
anos de paranoia, sequelas ideológicas primórdios da humanidade. As pessoas
persistem, indevidamente, obstaculizan- estão aterrorizadas pela violência que
do, em algumas áreas, a elucidação da assola o país. Vive-se o clima de guerra
real função policial. urbana que gera insegurança.
O agente de Segurança Pública é, O policial não se deve levar por an-
contudo, um cidadão qualificado: em- seios ilegítimos que possam despres-
blematiza o Estado, em seu contato mais tigiar seu trabalho. A sociedade que
imediato com a população. Sendo a au- deseja ações desmedidas por parte do
toridade mais comumente encontrada agente será a mesma que proporcionará
tem, portanto, a missão de ser uma es- a ele o repúdio, quando atender aos seus
pécie de “porta voz” popular do conjun- próprios anseios primitivos.
to de autoridades das diversas áreas do
poder. Além disso, porta a singular per- Considerações finais
missão para o uso da força e das armas,
no âmbito da lei, o que lhe confere natu- A abordagem policial é uma prática
ral e destacada autoridade para a cons- legítima, porém o policial não pode, indis-
trução social ou para sua devastação. criminadamente, a pretexto de exercer sua
O impacto sobre a vida de indivíduos e missão constitucional e do poder discricio-
comunidades, exercido por esse cidadão nário de polícia, privar o cidadão de direitos
qualificado é, pois, sempre um impacto ou submetê-lo ao que a lei não autoriza.

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Segundo BONI (2006, p. 644-645), Esses guerreiros são verdadeiros heróis,


“Tanto a abordagem policial, quanto a para os quais o reconhecimento é qua-
busca pessoal configuram o exercício do se inexistente, são anjos sem asas que
poder de polícia, porém é importante sa- arriscam suas vidas, todos os dias, para
ber que a ação policial deve ser dentro garantir a ordem e a segurança, homens
dos limites legais, para a efetiva cida- que atrás da farda têm família, sonhos e
dania, utilizando-se discricionariedade ideiais e que deixam tudo de lado para
e não arbitrariedade” (apud ARAÚJO, servir e proteger, são autoridades de
2008, p. 71). um ser superior, em que a recompensa
Espera-se dos agentes de seguran- desse magnífico trabalho perdurará por
ça o vigor necessário no desenvolvimen- toda a eternidade.
to de suas atividades, porém que haja
preocupação em agir no estrito cumpri- Referências
mento da lei. É necessária a admiração
da sociedade por essa classe de traba- ANJOS SEM ASAS. Polícia Militar. 2016.
lhadores. O policial não é inimigo da po- Disponível em: <https://www.youtube.
pulação, deve ser visto como um agente com/watch?v=gcY8ZaIZMkY>. Acesso
promotor de direitos humanos, sobretu- em: 4 abr. 2017.
do, de cidadania.
É plausível afirmar que para o for- ARAÚJO, Júlio César Rodrigues. Aborda-
talecimento da segurança pública, é ne- gem Policial: Conduta Ética e Legal. Belo
cessária uma gestão participativa e de- Horizonte: MINISTÉRIO DA JUSTIÇA,
mocrática entre o governo, os servidores 2008.
e a população. Outrossim, cabe ao Esta-
do ouvir as demandas sociais, o clamor ASPECTOS JURÍDICOS DA ATUAÇÃO
público, juntamente com os profissionais POLICIAL. Brasília: SENASP.
da área. Em função disso, ocorrerá o fa-
vorecimento e implantação da gestão in- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
tegrada e comunitária, o empoderamen- TÉCNICAS. NBR 6023: Informação e do-
to dos autores envolvidos, maior diálogo cumentação - Referências - Elaboração.
e o reconhecimento entre os segmentos. Rio de Janeiro. 2002.
Não há como negar que a polícia
não existe para manter a paz e sim para AZEVEDO, Dahir Inez. Fundamentos da
evitar que o caos se instale, ou seja, Gestão Integrada e Comunitária. Rio de
existe para manter a ordem. Não é possí- Janeiro: SESES, 2016.
vel imaginar uma sociedade sem polícia,
alguns (que não entendem que não per- BALESTRERI, Ricardo Brisola. Direitos
dura a democracia sem a polícia) falam Humanos: coisa de polícia. Passo Fundo.
que quando a polícia está perto inco- 1998. Disponível em: <http://www.poli-
moda, mas quando está longe faz falta. ciacivil.rs.gov.br/upload/1380658924_

A VE RTE NTE L E GÍTIMA DA ATIVIDADE POL IC IAL : 23


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R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREI-


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24 A VE RT E N T E LEGÍ T I M A DA AT I VI DAD E P OLI CI AL:


A S RE S P O N SAB I LI DAD ES D O CI DADÃO E D O AGENTE POL IC IAL F R E NTE À ABOR DAGE M POL IC IAL
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

FORMAÇÃO POLICIAL: UMA REFLEXÃO ACERCA


DA ETAPA FORMATIVA DO CONCURSO PARA
ADMISSÃO DE NOVOS POLICIAIS

POLICE FORMATION: A REFLECTION ON THE TRAINING STAGE


OF THE CONTEST FOR THE ADMISSION OF NEW POLICIES

Cristiano Lins de Vasconcelos1

O
RESUMO
presente texto trata da formação policial e seus aspectos contextuais para a
construção da identidade do policial militar. Nosso objetivo é refletir sobre a
construção da identidade desse profissional no Curso de Formação Profissional para
o Candidato ao Cargo de Soldado PM da Carreira Praças Policiais Militares da PMCE
– CFP, do ano de 2017. Dessa forma, guiamo-nos pela revisão bibliográfica e pelo ma-
terialismo histórico dialético como metodologia para balizar nossos estudos e produ-
ção de conhecimento deste estudo de caso, com os fundamentos teóricos de Buriolla
(2011), Cunha e Holanda (2007), Leontiev (2004), Rios (2008), Severino (2001), Silva
(2006), Vasconcelos e Lima (2006) e Yin (2005). Conclui-se que a formação poli-
cial está inserida em um contexto complexo, cujo currículo contempla carga-horária
elevada para um tempo reduzido com vistas à maturação dos conteúdos estudados,
além de ser um ambiente formativo híbrido ao qual o aluno é submetido, ou seja,
como candidato ao cargo de soldado é impedido de realizar atividades que promovam
a imbricação de ações fundamentais para a construção da identidade policial, por
estar nessa condição.

Palavras-chave: Formação. Formação Policial. Identidade.

1 Especialista em Formação de Formadores pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Ciências Jurídicas pela
Universidade Cruzeiro do Sul. Bacharel em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul. Bacharel em Segurança Pública pela
Academia de Polícia Militar General Edgard Facó. Major da Polícia Militar do Estado do Ceará.

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U M A RE F L E X ÃO ACERC A DA E TAPA FORM AT I VA DO CONC UR SO PAR A ADMISSÃO DE NOVOS POL IC IAIS
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

ABSTRACT
This article deals with police formation and its contextual aspects for the construction of the
identity of the military police. Our objective is to reflect on the construction of the identity of
this professional in the Vocational Training Course for the Candidate for the Position of Soldier
PM of the Career Military Police Squares of the PMCE - CFP, of the year 2017. Thus, we are
guided by the bibliographic review and by the (2004), Leontiev (2004), Rios (2008), Severino
(2001), and Cunha and the Netherlands (2007). Silva (2006), Vasconcelos and Lima (2006)
and Yin (2005). It is concluded that police training is embedded in a complex context, whose
curriculum includes high time load for a reduced time in order to maturity of the studied con-
tents, besides being a hybrid training environment to which the student is submitted, that is,
as a candidate for the post of soldier is prevented from carrying out activities that promote the
imbrication of actions fundamental to the construction of the police identity, for being in this
condition.

Keywords: Formation. Police Formation. Identity.

1 Introdução Nossa intenção é abordar o tema


em epígrafe com o olhar de dentro para
O presente artigo versa sobre a for- fora da instituição, visando provocar no-
mação dos profissionais de segurança vas reflexões sobre o assunto, abrindo a
pública para o preenchimento de vagas possibilidade de surgirem outras contri-
referentes ao cargo de soldado da Polícia buições que possam aprofundar os estu-
Militar do Ceará – PMCE. Nesse sentindo, dos nessa área de formação que merece
buscando entender algumas nuances do atenção da classe policial e da socieda-
contexto no qual os alunos estão inseridos, de acadêmica.
apresentamos algumas reflexões sobre Nossos fundamentos teóricos têm
o currículo do Curso de Formação Profis- base nos estudos de Buriolla (2011),
sional – CFP – para o candidato ao cargo Cunha e Holanda (2007), Leontiev
de soldado PM da carreira praças policiais (2004), Rios (2008), Severino (2001),
militares da PMCE, referente à quinta tur- Silva (2006), Vasconcelos e Lima (2006)
ma do concurso público, que foi realizada e Yin (2005). Esse último, considera-
no ano de 2015, e o ambiente formativo da mos como um marco, pois profissionais
Academia Estadual de Segurança Públi- da segurança pública e da educação se
ca do Estado do Ceará – AESP –, para a reuniram para estudar, refletir e produzir
construção da identidade profissional dos conhecimento sobre a formação policial,
candidatos àquelas vagas. Dessa forma, que resultou no livro: O ensino policial -
pode-se perceber que os alunos ainda es- trajetórias e perspectivas, editado pela
tão realizando uma das fases de concurso, Universidade Estadual do Ceará, no qual
que é a formação profissional. participamos como autor e organizador,

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

em 2006. Pautaram, também, nossas re- dar suporte sobre questões que per-
flexões, as vivências que tivemos como meiam o objeto pesquisado. Esse método
coordenador, ou instrutor do curso em qualitativo contribui para compreender-
foco, em suas várias versões, desde o mos processos organizacionais por meio
ano 2001 até os dias atuais. da coleta e análise de dados disponíveis.
Guiamo-nos pela revisão bibliográfi- Para Yin (2005), “[...] é um estudo empíri-
ca e pelo materialismo histórico dialético co que investiga um fenômeno atual den-
como metodologia para balizar nossos tro do seu contexto de realidade, quando
estudos e a produção de conhecimento as fronteiras entre o fenômeno e o contex-
no que tange a esse estudo de caso. O to não são claramente definidas e no qual
primeiro, pela necessidade de revisitar os são utilizadas várias fontes de evidência”,
textos já citados no parágrafo anterior, e o que nos ajudará a compreender com
o segundo, por contemplar uma visão de mais precisão essa questão.
totalidade permeada pela dialética. Nes- Assim, convidamos a todos para
se sentindo, consideramos a temporalida- uma leitura reflexiva sobre os caminhos
de e a sociabilidade como um exercício de da formação profissional dos candidatos
uma praxidade, caracterizada pelos ele- ao cargo de soldado da PMCE.
mentos: tempo histórico e espaço social.
2 O curso e seu contexto
Desse modo, a pesquisa acaba as-
sumindo uma tríplice dimensão. De O Curso de Formação Profissional
um lado, tem uma dimensão episte-
para a Carreira de Praças da PMCE –
mológica: a perspectiva do conheci-
mento. Só se conhece construindo CFP possui uma carga-horária de 1.020
o saber, ou seja, praticando a signi- horas-aulas e contempla 40 disciplinas2
ficação dos objetos. De outro lado, para serem ministradas no período de
assume ainda uma dimensão peda-
cinco meses, com aulas diárias e cinco
gógica: a perspectiva decorrente de
sua relação com a aprendizagem. dias por semana. Assim, em tese, tem-se
Ela é a mediação necessária para o uma média de 51 horas-aulas semanais,
processo de ensino/aprendizagem. além de atividades extracurriculares que
Só se aprende e só se ensina pela
fazem parte do contexto da AESP.
efetiva prática da pesquisa. Mas ela
tem ainda uma dimensão social: a O aluno chega à AESP por volta das
perspectiva da extensão. O conhe- 6h20min para a primeira aula, que tem iní-
cimento só se legitima se for media- cio às 7h, com intervalos de 20 minutos no
ção da intencionalidade da existên-
período matutino, com parada para o almo-
cia histórico-social dos homens. É a
única ferramenta de que o homem ço, das 11h30min às 13h, tendo 20 minutos
dispõe para melhorar sua existência. de intervalo no período vespertino, finali-
(SEVERIANO, 2001, p. 21) zando as atividades formais às 17h30min.

Aproveitamos o estudo de caso para 2 Grade com o rol das disciplinas podem ser encontrada
aprofundar o assunto, servindo-nos para no endereço eletrônico: http://sistemas.aesp.ce.gov.br/
placavirtual/index.php/home/curso/172.

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As atividades extracurriculares per- te do contexto do candidato a ansiedade


meiam todo o dia, ou seja, pela manhã, de ser submetido a um provão ao térmi-
os discentes entram em forma – dispo- no do curso, ou seja, mesmo tendo sido
sitivo próprio dos militares, em que fi- submetido a uma prova inicial no con-
cam dispostos numa posição marcial em curso público que o habilita ao ingres-
formato quadrangular – para as orien- so no CFP, o aluno passa o curso inteiro
tações pertinentes às atividades dadas preocupado em ser, ou não ser aprovado
pelos coordenadores e monitores de no fim do certame, visto que o curso é
cada turma – 30 minutos antes da pri- parte da seleção.
meira aula. No fim do dia, novamente, Outros aspectos negativos são: o
eles são colocados em forma e outras receio de não ser aprovado nos exames
orientações são repassadas, sendo libe- físicos e não passar no exame psicológi-
rados por volta das 18h. co, que também são fases do processo
Podemos perceber que as pessoas, seletivo do concurso e podem reprovar o
nesse processo formativo e seletivo, são candidato.
levadas a um dia exaustivo devido aos
vários conteúdos que são estudados e 3 A identidade entre o
debatidos em sala de aula e, no decorrer escrito e o vivido
do dia, outras atividades e orientações
que também ocupam tempo e impõem Nos caminhos da formação de sol-
esforços físicos e mentais aos discentes. dados, deparamo-nos com o desafio de
Os assuntos abordados apontam ensinar os alunos e treiná-los nas nuan-
para uma formação com foco na técnica, ces da profissão de Policial Militar – PM.
na ética e na legalidade, considerando Inseridos no paradigma de uma socie-
vários modelos didáticos utilizados para dade, cuja segurança pública é posta
se trabalhar os conteúdos. Dessa for- à prova em todo o momento, abre-se a
ma, os procedimentos sobre abordagem possibilidade de avançar no modo de
policial, tiro policial defensivo e defesa ser e estar na profissão, em busca da
pessoal fazem parte do treinamento dos excelência da qualidade do serviço a
futuros policiais militares, assim como os ser prestado.
estudos e os debates com enfoque nas Sobre o discurso do trabalho compe-
áreas relevantes do direito e, também, os tente e qualificado (RIOS, 2008), aponta
aspectos éticos e filosóficos da atividade para o aprimoramento das pessoas para
dos profissionais de segurança pública. um trabalho eficaz e eficiente. Nesse
Sem nos aprofundarmos no assun- sentindo, o fazer policial exige ações
to, podemos inferir que a relação carga- proativas que vão além da presença far-
-horária e período do curso é exaustiva dada nas ruas, refletido em práticas me-
e exige do aluno esforço para suportar canizadas. Ele busca uma atuação com
a fadiga física e mental ao fim de cinco competência sob os parâmetros da éti-
meses de formação. Além disso, faz par- ca, da técnica e da legalidade.

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O papel do PM de preservação da no modelo de formação do CFP, as práti-


ordem pública de modo ostensivo, ex- cas pedagógicas distanciam-se do neu-
presso na Constituição Federal de 1988, tro e do mecânico para uma perspectiva
em seu art. 144, §5º do inciso V, ou seja, proativa e reflexiva. Dessa forma, reite-
fardado para ser facilmente identificado, ramos que:
é ampliado para um compromisso social,
abrindo espaço para a reflexão sobre o A compreensão da atividade poli-
trabalho ético e comunitário, o que re- cial pode indicar a conscientização
do aluno, futuro policial militar, para
flete numa humanização desejada pela
a sua função social. As ações que
sociedade. envolvem esse processo, em discus-
A atividade do PM tornou-se mais são no espaço coletivo, objetivam
abrangente, regada de cobranças e a construção do profissional pelo
encontro do aluno com sua futura
posicionamentos cada vez mais com-
profissão, que permite auxiliar na
plexos, em que os cidadãos têm cla- construção da identidade do novo
mado por profissionais competentes, policial. (VASCONCELOS; LIMA,
execrando qualquer erro na atuação do 2006, p. 50)
servidor. Essa qualidade profissional
aponta para algo que se coloca à frente A identidade do futuro soldado é
(RIOS, 2008), que deverá estar em per- construída pelos conhecimentos teóri-
manente construção. cos e práticos adquiridos durante a for-
Reafirmamos que “a qualidade pro- mação profissional, aliados aos diálogos
fissional está intrínseca nas atividades que ele faz com sua história de vida, ou
realizadas na coletividade e assim a ati- seja, não se pode atribuir somente ao
vidade pode ser um campo de concre- curso a construção de uma identidade,
tização da prática profissional que, no mas ao contexto de vida de cada discen-
caso, estabelece as relações do homem te e ao próprio ambiente.
com o seu contexto” (VASCONCELOS; Por isso, podemos entender que as
LIMA, 2006, p. 45). condições a que os alunos estão subme-
Nesse sentido, há que se ter diálogo tidos influenciam diretamente na quali-
entre o escrito e o vivido, os conteúdos dade da construção de sua identidade
apreendidos e os treinamentos realiza- profissional. Um ambiente propício à
dos, tudo sob o viés dos valores éticos reflexão dos conteúdos apresentados,
de uma sociedade com acesso aos co- com tempo para maturar os conteúdos
nhecimentos e aos direitos. estudados nas disciplinas teóricas e os
Dessa forma, concordamos com treinamentos realizados nas atividades
Rios (2008, p. 95) ao dizer que “é impor- práticas, influencia positivamente a pre-
tante que se associe a ideia de techne às paração para o exercício da profissão.
de poiésis e práxis, para que se explore Uma formação com carga horária
de maneira mais ampla sua presença na extensa para um reduzido tempo de exe-
competência”. Por isso, percebemos que cução pode gerar um movimento arris-

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cado para a excelência da futura prática A Academia Estadual de Segurança


profissional. Somando-se a isso, as ten- Pública, por sediar a base dos ensina-
sões próprias de quem está submetido a mentos, torna-se o lócus primordial para
um processo exaustivo de concurso, pois se pensar a formação policial, gerenciar
o candidato só será empossado no cargo ações em prol de um ambiente auspicio-
de soldado, após um provão ao término so que envolve outras vertentes, além de
do curso e for considerado apto nas fa- um currículo vasto de disciplinas com um
ses dos exames físico e psicológico. provão ao fim de todo o período, com fa-
Segundo Leontiev (2004, p.183): ses de exames físicos e psicológico. Essas
etapas terminam dificultando uma articu-
Desde as primeiras etapas do de- lação entre teoria e prática que possibilita
senvolvimento do indivíduo que a o imbricamento saudável para apreensão
realidade concreta se lhe manifesta
dos conhecimentos pelos discentes.
através da relação que ele tem com
o meio; razão por que ele a percebe Mesmo durante o estágio do curso,
não apenas sob o ângulo das suas na qualidade de candidato, os alunos
propriedades materiais e do seu sen- não podem portar arma de fogo nem
tido biológico, mas igualmente como
realizar abordagens nas ruas e blitz de
um mundo de objetos que se desco-
brem progressivamente a ele na sua desarmamento, dentre outras ativida-
significação social, por intermédio da des. Eles somente visitam espaços para
atividade humana. visualizar a rotina dos policiais militares
no exercício de suas funções. Outras ve-
Por isso, consideramos que as vi- zes, simulam entre si ocorrências para
vências dos candidatos em formação treinar ações de conflito, mas sempre
são sedimentadas e ressignificadas sob com o sentimento de serem candidatos,
influência das relações coletivas com os ou seja, uma condição preocupante para
outros e com o próprio espaço físico no uma formação dessa natureza.
qual eles são inseridos. Daí a respon- Nesse assunto, ratificamos que:
sabilidade dos gestores para tornarem
o convívio acadêmico harmônico para A APS encerra o curso fomentando
possibilitar o desenvolvimento pleno dos o diálogo entre as atividades práti-
cas desenvolvidas no policiamento
futuros policiais militares.
de rua e as reflexões sobre essas
Corroborando com essa afirmativa, atividades como uma maneira de
Severino (2001, p. 117-118) explica que provocar a praxis crítica reflexiva da
“a compreensão reflexiva e crítica não é atuação desse policial no seu traba-
lho, ou seja, se dispõe a um papel de
fruto da lucidez de um ou outro indivíduo,
convidar a pensar sobre o que so-
mas do esforço coletivo daqueles que, mos, de onde viemos e o que quere-
em todos os lugares sociais e tempos mos. Dessa forma, a APS é um espa-
históricos, empenham sua racionalidade ço de contradição e por isso mesmo
de possibilidades. (VASCONCELOS;
no desenvolvimento do sentido real”.
LIMA, 2006, p. 52)

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A reflexão apresentada levanta uma Esses discentes, num dado momen-


preocupação pertinente, considerando o to, são submetidos aos códigos e aos
grau de relevância de uma formação que regulamentos militares, sem a obriga-
concederá o direito, ao futuro profissio- toriedade de direito para executá-los,
nal, de portar uma arma de fogo, repre- pois não são militares, e no dia da pos-
sentar o Estado em defesa da socieda- se, passam a ser militares com todas as
de. Entretanto, o formando não possui o exigências legais que a profissão requer,
status de policial militar. sem um condicionamento que viabilize
Cobra-se do aluno uma continência, uma memória intelectual e muscular que
que ele é orientado a executar, ao passar atendam a essa questão que é relevante
por um superior, quando ele nem mesmo para o dia a dia na Corporação.
pertence ao quadro hierárquico da Insti- Notamos como o currículo e a iden-
tuição a que supostamente pertencerá, tidade estão intimamente ligados na
gerando uma dúvida sobre sua identi- construção do ser e do estar do profis-
dade. Pergunta-se: o candidato deve sional nas futuras atividades que ele de-
prestar continência se ele nem mesmo senvolverá no trabalho após a formação.
pertence à PMCE na qualidade de aluno, O currículo do CFP, na sua primeira
muito menos de militar? Como fica essa construção, seguiu as diretrizes da matriz
dualidade, civil ou militar? curricular nacional, elaborada pela Se-
Silva (2006, p. 144) revela que: cretaria Nacional de Segurança Pública –
SENASP. Com o advento da formação em
É muito importante o lócus para a for- parceria com a Universidade Estadual do
mação do policial. A intencionalidade Ceará, esse currículo continua sendo atu-
das instalações, os objetivos da orga-
alizado, desde o ano 2000, com assuntos
nização, a estrutura física direcionada
para tal somam-se a uma história, que que enfocam a técnica policial, a ética e a
se revela no prédio e seu espaço so- legalidade, refletindo à complexidade um
cial e nas memórias que ele contém. mundo que está em constante mudança.
Nesse período, tivemos a oportuni-
O pensamento do autor discorre o dade de participar, ativamente, da ela-
espaço de formação e tudo o que nele boração do currículo, que ampliou as
está inserido como parte da constru- perspectivas de uma formação voltada
ção da identidade profissional. Assim, para o policial reflexivo, ou seja, o sol-
podemos compreender que as ques- dado que tem acesso ao conhecimento,
tões levantadas até aqui apontam para aplica-o na sua prática e pensa sobre
um prejuízo no tocante à construção da ela, redimensionando-a, mas o aluno já
identidade dos futuros policiais, pois a era praça especial, ou seja, era conside-
lógica do espaço de formação de poli- rado policial militar em formação e não
ciais militares desvirtua-se, tendo seus candidato, como é atualmente.
participantes como candidatos. Noutro enfoque, vimos o diálogo
como fonte de persuasão, substituindo

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a violência desnecessária, tendo a refle- Profissional para o Ingresso na Carrei-


xão como meio de corrigir ações e aper- ra de Praças da Polícia Militar do Ceará,
feiçoar as que resultaram bem-sucedi- passou por diversas alterações desde o
das. Por isso, consideramos relevantes ano 2000, com a abertura da Corpora-
o currículo do CFP e toda a filosofia do ção para formar policiais militares em
policial reflexivo e comunitário. conjunto com a Universidade Estadual
Cunha e Holanda (2007, p. 47) ensi- do Ceará.
nam-nos que: Inicialmente, tinha-se o viés do alu-
no policial em formação, que embora
Nosso pressuposto é que o currículo pudesse ser reprovado em alguma dis-
não se restringe a uma grade e pro- ciplina e assim desligado do curso, não
gramas de disciplinas, ele contempla
contemplava o viés de candidato. Isso
todas as atividades formais e infor-
mais do curso, permeadas de ideolo- quer dizer que, atualmente, nessa con-
gia que se exteriorizam no comporta- dição, o discente não se apropria ade-
mento e nas atitudes dos alunos que quadamente das nuances da profissão,
o vivenciam.
que é regida pelos pilares da hierarquia
e da disciplina.
O currículo faz parte da construção Torna-se difícil a construção da
da identidade do PM, tendo no seu bojo identidade do policial militar, quando o
a perspectiva formal, que são os conteú- discente está na condição de candidato,
dos trabalhados nas disciplinas e, peda- pois, embora estudando e praticando os
gogicamente, pensados para a constru- conteúdos e treinamentos próprios de
ção do ser e do estar na futura profissão. um curso dessa natureza, ele ainda está
Também existe a parte informal, que são em uma das fases do concurso.
os diálogos com colegas de turma e ins- Na qualidade de estudioso do en-
trutores sobre a profissão, as orienta- sino policial, inclusive, com especializa-
ções dos coordenadores e monitores de ção em Formação de Formadores, cujo
turma, a observação da postura e com- objeto de estudo foi a Ação Policial Su-
postura dos oficiais e praças que estão pervisionada – APS, que é o estágio do
presentes na local de formação. Tudo antigo Curso de Formação de Soldados
isso faz parte das atividades formativas de Fileira – CFSdF, afirmamos que o mo-
em discussão e estudo. delo atual de concurso – tanto para pra-
ças como para oficiais, pois a realida-
4 Considerações finais de da formação dos tenentes tanto da
PMCE quanto do Corpo de Bombeiros
A perspectiva de se ter uma forma- Militar, também, está aportada nesse
ção policial militar para o pleno exercício tipo de recrutamento, no qual o aluno é
da função, com todo o arcabouço técni- candidato e sobre as mesmas dificulda-
co, operacional e filosófico apreendido e des relatadas neste texto – é prejudicial
refletido durante o Curso de Formação

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para a construção da identidade seja de LEONTIEV, Aléxis. O desenvolvimento do


policiais ou de bombeiros militares. psiquismo. Trad. Rubens Eduardo Frias.
O estágio resume-se a visitas e si- 2. ed. São Paulo: Centauro, 2004.
mulações que imitam, de modo precário,
vivências que o candidato um dia poderá RIOS, Terezinha Azeredo. Compreender
exercer, caso se concretize sua nome- e ensinar: por uma docência da melhor
ação, pois há uma preocupação de que qualidade. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
algo possa acontecer que machuque o
aluno, ou, de alguma forma atente contra SEVERINO, Antônio Joaquim. A pesqui-
as regras próprias de um concurso. sa em educação: a abordagem crítico-
Há que se aprofundar os estudos e -dialética e suas implicações na forma-
as pesquisas sobre esse tema para que ção do educador. Revista de Educação
seja revisto o modo utilizado, atualmen- da Universidade do Vale do Itajaí. Itajaí:
te, para a inclusão de policias na corpo- Univali, ano I, n. 1, p. 11-22, jan/jun.2001.
ração, seja como praça ou oficial, pois
entendemos que a identidade dos profis- SILVA, Francisco José Pereira da. Centro
sionais de segurança pública se constrói de Formação e Aperfeiçoamento de Pra-
com a apropriação dos conteúdos e trei- ças: um lugar de formação? In: VASCON-
namentos os mais próximos da realidade CELOS, Cristiano Lins de; LIMA, Maria
possível, na qual os valores da deontolo- Socorro Lucena; GRANGEIRO, Manuela
gia militar sejam realmente absorvidos e Fonsêca. O ensino policial: trajetórias e
praticados durante a formação policial. perspectivas. Fortaleza: UECE, 2006.
Este é o nosso contributo.
VASCONCELOS, Cristiano Lins de; LIMA,
5 Referências Maria Socorro Lucena. Ação policial su-
pervisionada: bases conceituais. In: VAS-
BURIOLLA, Marta Alice Feiten. O estágio CONCELOS, Cristiano Lins de; LIMA, Ma-
supervisionado. 7. ed. São Paulo: Cortez, ria Socorro Lucena; GRANGEIRO, Manuela
2011. Fonsêca. O ensino policial: trajetórias e
perspectivas. Fortaleza: UECE, 2006.
CUNHA, Gregório Maranguape; HOLAN-
DA, Patrícia Helena Carvalho. Quem é YIN, Robert K. Estudo de caso: planeja-
o profissional do Curso de Graduação mento e métodos. 3. ed. Porto Alegre:
Tecnológica? In: CUNHA, Gregório Ma- Bookman, 2005.
ranguape; HOLANDA, Patrícia Helena
Carvalho; VASCONCELOS, Cristiano
Lins (Orgs.). Estágio supervisionado:
questões da prática profissional. Forta-
leza: Ed. UFC, 2007.

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COMBATE AO CIBERCRIME: DESAFIOS


CONTEMPORÂNEOS NO MUNDO GLOBALIZADO

COMBATING CYBERCRIME: CONTEMPORARY


CHALLENGES IN THE GLOBALIZED WORLD

Paulo Roberto de Lima Carvalho1

O
RESUMO
mundo globalizado é uma realidade na qual a internet, como elemento potencia-
lizador do encurtamento das distâncias físicas e redutor do fator tempo, tende
a modificar as dinâmicas dos processos humanos. Nesse cenário de múltiplas ativi-
dades e constante evolução tecnológica surgem novas modalidades de delitos pra-
ticados. Com abordagem metodológica bibliográfica são apresentados os principais
elementos que caracterizam o crime cometido com uso de novas tecnologias, tendo a
pesquisa como objetivo principal apresentar alguns dos problemas enfrentados pelos
órgãos de segurança pública responsável pelo combate à criminalidade contemporâ-
nea e à evolução do respectivo suporte jurídico para o enfrentamento. Concluindo pela
necessidade de mudanças legislativas que acompanhem a evolução das tecnologias.

Palavras-chave: Cybercrime. Internet. Tecnologia. Crime. Legislação.

ABSTRACT
The globalized world is a reality in which the internet, as an element that enhances
the shortening of physical distances and reduces the time factor, tends to modify the
dynamics of human processes. In this scenario of multiple activities and constant tech-
nological evolution, new forms of crimes are emerging. A bibliographical methodological
approach presents the main elements that characterize the crime committed with the
use of new technologies, the main objective of which is to present some of the problems
faced by public security agencies responsible for combating contemporary crime and
the evolution of their legal support for the confrontation. Concluding the need for legis-
lative changes that accompany the evolution of technologies.

Keywords: Cybercrime. Internet. Technology. Crime. Legislation.

1 Mestre em Planejamento e Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Execução de Políticas de
Segurança Pública pela Academia Nacional de Polícia. Especialista em Direito Processual Civil pela Universidade Gama Filho.
Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza. Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do
Maranhão. Agente de Polícia Federal.

34 CO M B AT E AO CI BERCRI M E: D ESAFI OS CONT EM P OR ÂNE OS NO MUNDO GLOBAL IZ ADO


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

1 Introdução derar sobre os problemas que surgem de


forma crescente, em decorrência do mau
Passadas mais de duas décadas, uso das tecnologias hoje disponíveis.
em sua obra: “A estrada para o Futuro”, A crescente expansão e diversifica-
Bill Gates (1995, p. 314) afirmou que “o ção das tecnologias assumem relevante
computador tem o potencial para ser a papel no cotidiano dos indivíduos, fazen-
ferramenta que vai impulsionar a inteli- do uma verdadeira integração do homem
gência humana num futuro próximo”, o com os recursos tecnológicos disponíveis,
mesmo estava certo. como o acesso às mídias informativas, o
Com assombrosa precisão e agin- desenvolvimento das redes sociais, a re-
do como um verdadeiro estadista na alização de transações comerciais, movi-
era da informação, a estrada do futuro mentações bancárias, aplicações finan-
por ele desenhada parece não ter mais ceiras em mercados e bolsa de valores,
fim. Com os avanços e facilidades sur- realização de cursos e a disseminação da
gidos no cotidiano pelo desenvolvimento informação de uma forma ampla e geral,
da tecnologia parece não ser possível o praticamente, sem limites.
retorno às estruturas do passado, pas- Devido à amplitude do tema, com a
sando do velho ao novo, sob uma nova humildade científica que nos é peculiar,
concepção de vida, com reflexos em to- o presente artigo busca apresentar ao
das as sociedades contemporâneas, ca- leitor uma visão panorâmica dos proble-
racterizando-se por ser uma verdadeira mas relacionados aos ilícitos praticados
revolução sob a forma digital. com a utilização dos meios tecnológicos
Ao lado dos profundos investimen- dentro do contexto normativo brasileiro,
tos realizados pelos setores público e apontando os conceitos básicos, sem
privado ao longo dos anos, no incenti- exaurir completamente o assunto, dei-
vo à geração de recursos humanos, em xando aberto o espaço para as críticas
torno da busca do estado da arte para a e reflexões.
produção de conhecimentos, no desen-
volvimento da tecnologia voltada para 2 Revisão da Literatura
o lazer, cultura, desenvolvimento social,
controle institucional, dentre tantas ou- Dois pontos chaves devem ser com-
tras áreas que se possa imaginar, nos preendidos: a noção do que seja a inter-
faz entender que surge uma nova forma net e o que representa o cyberespaço.
de explorar a riqueza. A “internet” na concepção atual,
Sob essa ótica, a sociedade e prin- está relacionada, especificamente, à
cipalmente as instituições devem acom- grande rede de computadores que se
panhar, de forma rápida e sistemática, as apresenta como um complexo de má-
transformações nas quais está inserida, quinas operando de forma integrada por
pois não apenas vantagens podem ser meio de canais de acesso com interliga-
observadas, mas também, deve-se pon- ção mundial, capaz de acessar a infor-

COM B AT E AO CI BERCRI M E: DE SAF IOS CONTE MPOR ÂNE OS NO MUNDO GLOBAL IZ ADO 35
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

mação desejada remotamente em um vocês, dois seres humanos, realmente se


ponto distante do usuário solicitante, ou encontram e se comunicam.”
mesmo distribuída em diversas outras Nesse ponto, o “cyberespaço” na
redes ou subredes computacionais. forma em que o concebemos na atua-
Para Kellen Cristina Bogo (2007, on- lidade não pode ser entendido, especi-
-line) a “Rede das redes” ou simplesmen- ficamente, como um espaço “real” na
te internet pode ser entendida como “um acepção física da palavra. Entretanto,
conjunto de redes de computadores inter- revela-se como um lugar genuíno onde
ligadas que têm em comum um conjunto coisas reais lá acontecem, em razão da
de protocolos e serviços, de forma que os prática de ações humanas reais, pró-
usuários conectados possam usufruir de prias e individuais, capazes de gerar re-
serviços de informação e comunicação de lações jurídicas em sentido amplo e que
alcance mundial”. podem ter consequências muito espe-
Segundo Carvalho (2009, p. 21) cíficas como os delitos informáticos ou
essa é uma das grandes vantagens da ainda, os delitos comuns praticados por
internet, o acesso da informação arma- meio do uso da tecnologia.
zenada e distribuída em diversos pontos,
possibilitando o compartilhamento de 3 RESULTADOS
“informações de forma rápida entre usuá-
rios situados geodesicamente em pontos Realizar um estudo sobre a teoria
distintos de forma a difundir o conheci- geral do crime e suas diversas correntes
mento e permitir o intercâmbio de infor- doutrinárias no campo informático, não
mações e serviços”. se revela adequado em razão de falta
Com relação ao cyberespaço, de consenso em matéria penal de tema
uma das primeiras noções doutrinárias novo, polêmico e que se apresenta sob
surgiu por volta de 1992, época que não várias formas e modalidades de forma
havia um desenvolvimento tecnológi- contínua e crescente.
co tão expressivo, onde a tecnologia Importa esclarecer que, via de regra,
de acesso remoto limitava-se a poucas as condutas delitivas praticadas median-
aplicações baseadas, principalmente, te a utilização dos meios tecnológicos,
no modelo de teleprocessamento, den- notadamente, com o uso do computador
tre elas a telefonia analógica. Mesmo na internet, uma vez praticadas, podem
assim, Sterlling apud KIM (2008, p.213) ter consequências incalculáveis e mos-
bem explicou que “ciberespaço é o ‘lugar’ tram-se praticamente impossíveis de ser
onde a conversação telefônica parece dimensionados, quanto ao seu alcance,
ocorrer. Não dentro do seu telefone real, pois uma simples mensagem eletrônica
o dispositivo de plástico sobre sua mesa. tem a possibilidade de ser acessada qua-
[…] [Mas] O espaço entre os telefones. O se que de forma instantânea por milhares
lugar indefinido fora daqui, onde dois de de pessoas em vários pontos do globo.

36 CO M B AT E AO CI BERCRI M E: D ESAFI OS CONT EM P OR ÂNE OS NO MUNDO GLOBAL IZ ADO


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

3.1 Aspecto material, do por qualquer meio ou recurso tecno-


formal e analítico lógico disponível ao infrator ocasional ou
contumaz, a exemplo de aparelho telefô-
A expressão “cybercrime” (lato sen- nico celular, tablet, um dispositivo móvel
so) remete-nos aos conceitos da doutri- de rastreamento de sinal, um modulador
na tradicional do fenômeno crime como de sinal digital, dentre outros.
um fato típico, antijurídico e culpável, Nesse sentido, surge a possibilida-
que pode ser analisado à luz do enten- de da conduta típica recair sobre o pró-
dimento de Fernando Capez (2008) sob prio equipamento, que ora pode ser ins-
os aspectos: material, como “todo fato trumento para a prática do ilícito, ora, o
humano que, propositada ou descuidada- ilícito pode recair sobre o equipamento
mente, lesa ou expõe a perigo bens jurí- - tanto na parte física (hardware) quanto
dicos considerados fundamentais para a na parte imaterial (software).
existência da coletividade da paz social”. No que tange especificamente aos
E, formal, onde o “crime resulta da mera “cybercrimes”, não há uma definição jurí-
subsunção da conduta ao tipo legal e, por- dica do que realmente seja o instituto para
tanto, considera-se infração penal tudo o ordenamento jurídico interno, e tampou-
aquilo que o legislador descrever como co, um consenso quanto a sua denomina-
tal, pouco importando o seu conteúdo”. ção ou espécies. A literatura internacional
Autores, como Mirabete (2007), apon- também é escassa sobre o tema e por ve-
tam o aspecto analítico do ilícito buscando zes conflituosa em suas acepções.
apenas estabelecer os elementos estrutu- Há autores que denominam referidas
rais do crime e suas características. condutas de “crime informático, e-crime,
cybercrime, crime eletrônico ou crime digi-
3.2 Conceituação tal” (Crime, 2013, online), ou na definição
de Ferreira (2013, online) “crimes de infor-
Para compreender o alcance do ter- mática, crimes com computador, crimes
mo “cybercrime”, devemos além do su- hitech”, ou ainda, nossa posição: crime
porte da doutrina tradicional, abstrair virtual ou crime cometido por meio de um
o conceito de crime para abarcar toda recurso tecnológico, e que entendemos
conduta humana típica, antijurídica e cul- ser a nomenclatura melhor adequada.
pável praticada por meio, ou contra um
recurso tecnológico. Ou seja, toda con- 3.3 Classificação doutrinária
duta humana ilícita, de acordo com o
ordenamento jurídico de um estado, Respeitável parcela dos estudiosos do
realizada por meio ou contra um re- tema, com o devido respeito acadêmico, li-
curso tecnológico. mitam-se a tratar do tema sob a ótica ex-
Assim, não nos limitamos apenas à clusiva dos ilícitos praticados, via de regra,
utilização do computador, mas incluímos com a utilização do computador ou come-
a possibilidade do fato típico ser pratica- tidos pela internet, deixando de considerar

COM B AT E AO CI BERCRI M E: DE SAF IOS CONTE MPOR ÂNE OS NO MUNDO GLOBAL IZ ADO 37
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

uma vasta área de aplicação dos conceitos No primeiro caso, o recurso tecnoló-
jurídicos aplicados às outras tecnologias. gico é o próprio alvo da ação delitiva, po-
Ocorre a ausência de um consen- dendo sofrer um acesso não autorizado,
so elaborado sobre topologia ou a clas- inclusão fraudulenta de dados, alteração
sificação doutrinária mais adequada, ou destruição dos dados armazenados,
sendo que para Mário Furlaneto e José obtenção de dados pessoais ou sigilosos
Guimarães (2003, p. 69) os crimes vir- dentre outros. Na segunda hipótese, o
tuais classificam-se em puro, quando a recurso tecnológico, a exemplo do com-
conduta ilícita recai sobre o recurso tec- putador, passa a ser a ferramenta, ou o
nológico em si (hardware ou software); meio para o cometimento do crime. Nes-
comum, quando a internet funciona ape- se caso, o crime, em regra, já é um tipo
nas como meio para a prática de um deli- penal fechado existente no ordenamento
to de natureza comum; e, misto, quando jurídico, devendo o operador do direito,
utiliza a internet associada ao computa- fazer a devida intelecção da subsunção
dor para o cometimento do ilícito. do fato típico à norma penal in abstrato.
Vianna (2003) classifica os delitos Cumpre esclarecer que o ordenamen-
informáticos em: impróprios, nos quais o to jurídico nacional ainda se mostra bastan-
computador é utilizado como instrumento te incipiente quanto ao tratamento dado ao
para a execução do crime, sem que haja tema, em especial, no que diz respeito aos
ofensa a inviolabilidade da informação delitos próprios, ou contra o recurso tecno-
automatizada como no caso dos crimes lógico, haja vista, ser escassa a legislação
contra a honra; próprios, nos quais a tu- que dá o tratamento jurídico à matéria.
tela jurídica protege as informações ou Como exemplo, temos os softwares
dados, a exemplo da interceptação tele- que realizam a instalação de código ma-
mática ilegal; e, mistos, em que além da licioso para monitoramento, ou envio de
proteção dos dados a norma protege do dados sem que o usuário tenha conhe-
bem jurídico diverso, a hipótese de furto cimento, ou os programas responsáveis
de informações armazenadas na máqui- pela abertura de janelas pop-up com in-
na para cometimento de outro delito. sistentes propagandas, ou ainda, a de-
nominada prática de spam, mesmo que
4 Discussão tenha somente a finalidade do envio de
conteúdo midiático-informativo.
Ao tratar da tipicidade penal de acor- Tais situações são condutas que ca-
do com a legislação brasileira, devemos recem de restrições normativas, em tese,
ter em mente que os delitos praticados e portanto, não podem ser penalizadas
mediante o uso de tecnologia podem ser ante a ausência de tipicidade, em razão do
analisados sob duas importantes catego- cumprimento objetivo do princípio consti-
rias: os praticados contra o recurso tecno- tucional da legalidade esculpido no art.
lógico em si e os praticados mediante a 5º, inciso XXXIX da Carta Republicana ao
utilização dos recursos tecnológicos. estabelecer que “não há crime sem lei an-

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

terior que o defina, nem pena sem prévia ções telefônicas e telemáticas; e) art.
cominação legal”, bem como, no princípio 72 da Lei n.º 9.504/97, que estabelece
da anterioridade da lei penal constante no as normas eleitorais; f) art. 12 da Lei n.º
art. 1º do Decreto-Lei n.º 2.848/40, textu- 9.609/98 que considera crime a conduta
alizado na expressão literal que “não há de “violar direitos de autor de programa
crime sem lei anterior que o defina. Não de computador”, resguardando, assim, a
há pena sem prévia cominação legal”. propriedade intelectual;

4.1 A evolução legislativa 4.2 Novos tipos penais

Apesar das casas legislativas do Outra inovação legislativa foi a Lei


Brasil não caminharem no passo dese- n.º 9.983 de 14 de julho de 2000 que trou-
jado pelo progresso e evolução da so- xe importantes modificações para o direito
ciedade, notadamente, no aspecto da material penal, especialmente, ao acrescer
criminalidade praticada com o uso da novos tipos penais fechados e alterar a re-
tecnologia, já existe no ordenamento ju- dação de outros dispositivos, fazendo com
rídico nacional algumas mudanças nos que a legislação penal pudesse abarcar um
textos legais que possibilitam a respon- maior número de condutas praticadas por
sabilização penal do sujeito ativo pela meio ou contra sistemas informáticos.
prática de determinados delitos. Nesse sentido, destacamos: a) art.
De forma exemplificativa e não 153, §1º-A do Decreto-Lei n.º 2.848/40, do
exaustiva, vejamos a seguinte cronolo- tipo penal de divulgação de segredo ins-
gia normativa: a) art. 20, §2º da Lei n.º titucional; b) art. 313-A do Decreto-Lei n.º
7.716/89, que considera como qualifica- 2.848/40, do tipo penal de inserção de da-
dora do delito de incitação ou indução à dos falsos em sistema de informações; e, c)
discriminação a prática por intermédio art. 313-B do Decreto-Lei n.º 2.848/40, do
dos meios de comunicação social, ou tipo penal de modificação ou alteração não
publicação de qualquer natureza, in- autorizada de sistema de informações.
cluindo as manifestações eletrônicas; b) Percebe-se, portanto, uma preocu-
art. 241-A, da Lei n.º 8.069/90, aumento pação do legislador fornecer ao Estado
da proteção da criança e do adolescente instrumentos jurídicos no combate à de-
reprimindo a pedofilia; c) art. 2º, inc. V terminadas condutas delitivas.
da Lei n.º 8.137/90, ao considerar crime
a conduta de “utilizar ou divulgar pro- 4.3 Crimes comuns praticados
grama de processamento de dados que com uso da tecnologia
permita ao sujeito passivo da obrigação
tributária possuir informação contábil São os crimes comuns, já tipificados
diversa daquela que é, por lei, forneci- no ordenamento jurídico penal mediante
da à Fazenda Pública”; d) art. 10 da Lei à utilização das tecnologias disponíveis,
n.º 9.296/96, que trata das intercepta- ou seja, o recurso tecnológico funciona

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como instrumento ou meio para a reali- estudos e questionamentos no sentido de


zação do crime-fim. esclarecer uma grande quantidade de si-
Dessa forma, entendemos que a tuações que ainda não encontram as cor-
parcela dos tipos penais elencados no respondentes respostas.
Código Penal e nas diversas legislações
esparsas podem ser praticados, a exem- 5 Considerações Finais
plo: dos crimes contra a honra (calúnia,
injúria e difamação), os crimes de im- O avanço da sociedade e a moder-
prensa propriamente ditos, as falsida- nização da forma das relações entre os
des e demais fraudes (incluindo as de indivíduos e as instituições fazem surgir
natureza fiscal), onde na atualidade são muitas condutas reprováveis no plano
corriqueiras as notícias de estelionato social e praticadas por meio do uso das
praticados pela modalidade virtual. tecnologias que, ainda, carecem de uma
Crimes relacionados às violações de definição jurídica quanto ao que real-
direitos autorais, vulgarmente denomina- mente representam.
da “pirataria”, notadamente, a realização Constatamos no presente estudo
de cópia, distribuição e venda não autori- que, em decorrência da revolução digital,
zada, de material escrito, digitalizado, em novos possíveis delitos surgiram, ou es-
áudio ou em vídeo, em mídias compostas, tão por vir, devendo o Estado suprir a re-
músicas, softwares, dentre outros, que gulamentação legal no plano normativo.
acarretam, por via obliqua, outros delitos De outro lado, muitos dos crimes já
a exemplo da sonegação de tributos, re- dispostos na legislação penal assumi-
velam-se como potenciais e que causam ram uma nova feição ou forma de serem
graves prejuízos à sociedade em geral. praticados, mediante às facilidades do
Delitos mais graves podem ser prati- uso da tecnologia associadas ao desco-
cados, como o homicídio, a rixa (notada- nhecimento dos mecanismos de prote-
mente quando grupos de torcedores de ção de grande parte dos usuários, o que
times adversários se propõem à prática faz o “cibercrime” ser um novo desafio a
de encontros para tal finalidade); a apolo- ser enfrentado, em conjunto, pela socie-
gia criminosa (quando por meio de redes dade civil e o Estado.
sociais ou blogs se noticiam verdadeiras Discorrer sobre o assunto da cri-
campanhas em defesa de certos tipos de minalidade praticada mediante a utili-
crimes); a pedofilia (geralmente realizada zação dos recursos tecnológicos é uma
por meio de grupos fechados em redes tarefa complexa, posto que a amplitu-
sociais); o descaminho e o contrabando de do tema, eventualmente, deixará la-
(realizado mediante a oferta encomenda cunas a serem preenchidas por outros
de produtos de origem duvidosa, ou proi- pesquisadores.
bida em sítios de comércio eletrônicos).
Percebe-se, portanto, que ante a
exaustão, o tema ainda comporta vários

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

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42 CO M B AT E AO CI BERCRI M E: D ESAFI OS CONT EM P OR ÂNE OS NO MUNDO GLOBAL IZ ADO


R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

HUMAITÁ: O BLINDADO DA PMCE

HUMAITÁ: THE ARMORED PMCE

Keydna Alves Lima Carneiro1


Francisco Everton de Farias Torres2

H
RESUMO
á quatro anos entrava em operação, no estado, o primeiro blindado da Polícia
Militar do Ceará-PMCE, o Humaitá, responsável pelo apoio às ações de policia-
mento especializado.Um caminhão antitumulto com proteção balística nível III (car-
roceria, vidros e pneus) munido de canhão d’água e monitoramento com sistema de
câmeras com aúdio e vídeo doado pela Secretaria Extraordinária de Segurança para
Grandes Eventos – SESGE após o mundial da Copa FIFA2014. Essa temática tem por
escopo esclarecer os impactos que esse veículo temproporcionado. O trabalho inicia
com uma historização sobre formações e blindados. Posteriormente, apresenta con-
textualizações e resultados de questionários aplicados junto a 129 policiais militares
do BPCHOQUE.Sugerem-se adequações na gestão de manutenção do blindado e de
novos cursos para operadores.

Palavras-chave: Controle de Distúrbios Civis. Veículo blindado. Manutenção. Treina-


mento.

ABSTRACT
Four years ago, the first armored unit of the Military Police of Ceará-PMCE, the Humaitá,
was in operation in the state, responsible for supporting specialized policing actions. An
anti-tank truck with ballistic protection level III (body, glass and tires) equipped with water
cannon and monitoring with cameras system with audio and video donated by the Extraor-
dinary Secretary of Security for Major Events – SESGE after the FIFA2014 World Cup. This
theme has the scope to clarify the impacts that this vehicle has provided. The work begins
with a historization about formations and armor. Subsequently, it presents contextuali-
zations and results of questionnaires applied to 129 BPCHOQUE military police officers.
Suggestions are made for the maintenance management of the armored vehicle and for
new courses for operators.

Keywords: Civil Disorder Control. Armored vehicle. Maintenance. Training.

1 Especialista em Segurança Estratégica e Defesa Social pelo Instituto de Ensino em Segurança do Pará. Bacharel em Direito
pela Universidade de Fortaleza. Bacharel em Segurança Pública pela Academia de Polícia Militar General Edgard Facó. Tenente
Coronel da Polícia Militar do Estado do Ceará.
2 Especialista em Ciências Jurídicas pela Universidade Cruzeiro do Sul. Bacharel em Segurança Pública pela Academia de Polícia
Militar General Edgard Facó. Major da Polícia Militar do Estado do Ceará.

HUMAITÁ: O BL INDADO DA PMC E 43


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Introdução em decorrência das festividades despor-


tivas seria tarefa complexa e hercúlea, a
Monitorando cenários nacionais em SESGE/MJ imbuída do seu mister, previu
2013, a Secretaria Extraordinária de Se- e cedeu variados equipamentos, estrutu-
gurança para Grandes Eventos – SESGE, ras e capacitações, entre essas pode-se
do Ministério da Justiça, unidade transi- citar a entrega de doze veículos blinda-
tória cuja missão objetivou coordenar e dos de grande porte, tipo caminhão com
cooperar nos níveis federal, estadual e carroceria dotada de proteção balística,
municipal, ações de planejamento, pes- equipado com canhão d’água, sistema
quisa, capacitação e investimentos, en- de monitoramento eletrônico com câ-
volvendo a defesa nacional e a seguran- meras, a fim de serem utilizados durante
ça pública em decorrência dos grandes operações de policiamento especiali-
espetáculos esportivos que se sediaram zado. Findadas as missões desportivas
em território brasileiro, sendo estes: a (como era a destinação do legado da
Copa das Confederações 2013, a Copa SESGE), as cessões de uso dos equipa-
do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de mentos passariam às cargas de bens e
2016, deparava-se naquele ano com di- de tombo dos estados-sedes.
versidades de manifestações públicas E assim inicia a história do Humai-
Brasil afora. tá, o primeiro veículo blindado antidis-
Em junho de 2013, o país era to- túrbio do patrimônio público cearense,
mado por variados ajuntamentos de destinado à Polícia Militar do Ceará, in-
pessoas que saíam às ruas em grandes corporado pelo tombo 10-SSPDS-112103
coros, unidos por causas variadas sem com publicações em extrato do termo nº.
bandeiras partidárias. Manifestações 973013/20153.
populares sempre estiveram presentes Compreendendo a importância de
no país, pode-se rapidamente elencar, deter um veículo dessa magnitude na
somente, na última metade do século carga pública a serviço das políticas de
passado: “passeata dos cem mil”, “di- paz social e defesa dos cidadãos que
retas já”, “caras pintadas”, “gritos dos esse trabalho foi desenvolvido, procu-
excluídos”, “movimentos pela reforma rando responder a seguinte questão pro-
agrária”, dentre outros, mas aquelas blema: quais os impactos psicológicos
junções de massas que se iniciaram no e o apoio efetivo que um equipamento
“movimento do passe livre”, mereciam dessa dimensão traz ao estado nas ope-
atenção especial, principalmente, por- rações policiais?
que se descortinavam dois campeona- O objetivo geral, portanto, foi ana-
tos de observação global, um desses ini- lisar a impressão e expectativa que o
ciar-se-ia em menos de 15 dias, a Copa Humaitá acarretou no apoio às ações de
das Confederações. policiamento de choque no Ceará.
Sendo ciente de que a garantia da
incolumidade de turistas e brasileiros 3 Diário Oficial do Estado Nº. 38, de 26 de fevereiro de 2016.

44 H U M A ITÁ: O B LI NDAD O DA P M CE
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Na persecução desse objetivo, di- va dos ingleses, a colaboração dos tan-


versos outros foram necessários como ques, veículos blindados de combate.
descrever aspectos históricos e formais Após o fim da Primeira Grande
das ações envolvendo o Controle de Guerra Mundial (1914-1918), na Europa,
Distúrbios Civis – CDC, referenciar van- vislumbraram-se estudos, produções e
tagens e desvantagens da inclusão do aquisições de blindados pelo mundo. O
veículo na frota do estado e sugerir uma Brasil foi o primeiro país na América La-
proposta de intervenção, envolvendo tina a adquirir veículos blindados e isso
questões de manutenção e aperfeiçoa- remonta ao ano de 1921 com a aquisição
mento do efetivo da Célula do Batalhão de dois veículos franceses tipo “Automi-
de Polícia de Choque-CBPCHOQUE. tratrailleuseWhite” que participaram da
Vale ressaltar que este tema é inau- Primeira Guerra Mundial e depois foram
gural e isto denota sua relevância ao incorporados à Polícia Militar do Estado
contextualizar a singularidade do veícu- do Rio de Janeiro.
lo na história da Policia Militar do Ceará. Dez anos mais tarde, juntavam-se
à polícia fluminense, as forças públicas
Revisão Bibliográfica de São Paulo, Minas Gerais e Rio Gran-
(História da utilização de blindados de do Sul, que produziram, localmente,
nas polícias brasileiras) blindados sobre rodas e lagartas. Com a
revolução de 1932, a utilização de blin-
A utilização de objetos “blindados” dados ficou restrita ao Exército Brasileiro
remonta à idade antiga quando em e às polícias especiais do Rio de Janeiro
guerras, povos dispunham tropas e re- e de São Paulo, entretanto, só podendo
cursos em estratégias de combate e de ser empregados para dispersão de
proteção, contudo, o uso desses meios, manifestações políticas. Posteriormen-
como conhecemos hoje em dia, deu-se, te, outro modelo de blindado holandês
efetivamente, durante a primeira guer- foi adquirido pela Polícia Militar do Esta-
ra mundial, quando os estrategistas de do de São Paulo, mas sua operacionali-
guerra na tentativa de resolver os impas- zação foi breve.
ses das tropas que se estacionavam nas Na década de 70, as polícias de São
trincheiras, cerceados pelo poder das Paulo e do Rio de Janeiro voltaram a ad-
metralhadoras inimigas, que impediam quirir blindados como recursos de Con-
os avanços terrestres das tropas e en- trole de Distúrbios Civis – CDC. Entre
contraram respostas para a diminuição as aquisições vislumbraram-se modelos
de baixas de soldados no conflito, com VDT da Grassi que ficaram conhecidos
a adoção de veículos robustos com blin- como “Brucutus”. Na década de 90, com
dagens, com força de motor para opera- a modernização desse tipo de veículo,
ções terrestres que passaram a transpor o Distrito Federal e o estado de Sergipe
essas demarcações, apesar dos dispa- adquiram uma versão mais compacta, o
ros dos inimigos. Surgiu, ali, por iniciati- Bernardini AM-IV.

HUMAITÁ: O BL INDADO DA PMC E 45


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Com o recrudescimento da delin- portar até 21 militares, equipado com um


quência no final do século e do aumento canhão d’água e uma lâmina frontal visan-
da vitimização policial no território brasi- do aos possíveis levantamentos de barri-
leiro, o emprego de blindados passou a cadas no campo de operação, bem como
ser vislumbrado em zonas de conflitos, carregar, ainda, um sofisticado sistema de
ampliando suas funções mais introitas da monitoramento, sendo necessário um ope-
utilização em CDC para especificidades rador dedicado aos sistemas de canhão
táticas no combate em ações especiais. d’água e monitoramento, o peso total che-
Em 2002, a Secretaria de Segurança ga a 20 toneladas. Cada unidade custou
Pública do Estado do Rio de Janeiro ad- R$ 1.639.180,00 (um milhão seiscentos e
quiriu dez modelos tipo “RhinusCombat”, trinta e nove mil e cento e oitenta reais).
com tração 4 x 2 e blindagem tipo III, com
adaptações e foram cedidos ao Batalhão Figura 02 – Parte interna do Humaitá
de Operações Policiais Especiais – BOPE
para as missões da unidade.
De lá para cá, os blindados policiais
foram aperfeiçoando-se e sendo incorpo-
rados às polícias do Brasil afora em mis-
sões especializadas. Em 2014, um dos
legados do mundial foi a aquisição e doa-
ção pela SESGE de 12 veículos antitumul-
tos aos estados-sedes da Copa FIFA. Fonte: acervo do II COESP/2017

Figura 01 – Simulado de CDC Os estados do Amazonas, Bahia, Ce-


ará, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas
Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande
do Norte, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro
foram agraciados com um blindado similar.
Interessante salientar que o estado de São
Paulo, naquela oportunidade, denegou a
necessidade, alegando que se encontrava
Fonte: acervo do II COESP4/2017 adquirindo modelos de blindados israelen-
ses, os quais receberam nomes, posterior-
mente, de “Guardião” passando, então, o
Naquela ocasião foram comprados seu blindado para a frota da Força Nacional.
veículos que tinham como características Naquele ano, também, por decorrên-
a blindagem parcial, capacidade de trans- cia da entrega dos blindados, fora previa-
mente desenvolvido um treinamento na
4 COESP – Curso de Operações Especiais. Eventos sede da empresa vencedora do certame,
simulados. Módulo de Controle de Distúrbios Civis - CDC.
Palmácia-CE, período de 10 a 15/09/2017.
a Steel Truck, em Itaquaquecetuba, em

46 H U M A ITÁ: O B LI NDAD O DA P M CE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

São Paulo, envolvendo operadores nas persar multidões em distúrbios, tudo an-
três principais funções dos veículos, sen- corado no estabelecimento de linhas de
do essas: motorista, operador de canhão e procedimentos que, fundamentalmente,
de TI, ocasião em que foram formados 33 se preocupam em evitar violência gratui-
policiais militares, sendo três por cada uma ta nos confrontos, pois suas frações de
das onze forças policiais recebedoras. forças especializadas possuem elevado
Antes da doação definitiva do blinda- grau de adestramentos técnicos e táti-
do, houve um rápido treinamento no ano cos nas medidas que sequênciam prio-
de 2015, o instrutor Cesar Takano da em- ridades nos empregos dos meios a se-
presa Steel Truck veio ao Ceará, onde tra- rem utilizados nas ações operacionais,
tou de operacionalizar o veículo, na sede alcançando determinados fins.
da 2ª. Companhia de Choque, unidade
CDC, onde 23 operadores foram treinados Figura 04 – Desobstrução da BR 1165
para as missões a serem desempenhadas
no Humaitá, sendo, até hoje, o único tento
educacional com esta finalidade.

Figura 03 – Raio X do Humaitá

Fonte: Acervo da Comissão de observação do MPCE6

A primeira utilização do Humaitá deu-


-se na operação de desobstrução da BR
116 sentido Centro-Parangaba. Nuances
Fonte: Steel Truck daquele acontecimento podem ser reite-
radas na entrevista com o Promotor Sávio
Por fim, foi publicada a Norma Geral Amorim, do Ministério Público cearense,
de Ação – NGA “Emprego Tático do Car- por ocasião da pesquisa de campo utiliza-
ro de Controle de Distúrbios Civis – HU- da para a confecção dessa historicidade.
MAITÁ”, sendo o instrumento de doutrina
operacional vigente, sem, contudo, serem Eu tenho uma ótima experiência do
formadas novas turmas de operacionali- equipamento. Conheci o Humaitá
de perto em 2014, quando o Procu-
zação do blindado.
rador Geral de Justiça constituiu

O emprego do Humaitá 5 Dia 17/06/2014 - Desobstrução daBR 116, em Fortaleza-


Ceará.

Hodiernamente um dos objetivos


6 Comissão de Observação do Ministério Público-MPCE
envolvendo os trabalhos das polícias por ocasião das
principais das tropas de choque é de dis- movimentações de manifestantes durante a COPA
FIFA2014.

HUMAITÁ: O BL INDADO DA PMC E 47


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

uma comissão de observação do protege a incolumidade de terceiros


Ministério Público no intuito de fa- e salvaguarda os policiais, além de
zer um acompanhamento dos tra- deter alta eficiência e resultados.
balhos da Polícia por ocasião das
movimentações públicas durante Assim como o relato, entende-se
a Copa e eu fui um dos Promotores
que, de lá para cá, não foram poucas as
nomeados para a finalidade. No dia
do jogo Brasil e México pude inclusi- vezes que, somente, o posicionamento
ve constatar a utilidade dele em sua do blindado Humaitá estacionado nas
primeira missão, quando a BR116 foi proximidades de eventos conduziu gran-
obstruída pelos manifestantes que
de impacto psicológico, quer seja pela
não puderam transpor um cordão
de isolamento policial e recuando sua imponência, quer seja pelos seus re-
resolveram seguir para a rodovia no cursos, como as câmeras e apetrechos
intuito de depredar veículos e inter- para o combate efetivo.
ditar os acessos às vias, foi quando
No Ceará, pode-se citar, a exemplos,
os Oficiais designaram movimenta-
ções de viaturas para aquele local a utilização desse veículo em operações
e, inclusive, o blindado e nós fomos de policiamentos em eventos, como nos
convidados pelo comandante da estádios de futebol, exposições envol-
Operação do Choque a acompanhar
vendo ações e equipamentos policiais,
de dentro do veículo os desdobra-
mentos. Embarcamos no Humaitá e além do desempenho essencial em ações
chegando à BR, vimos a via fechada de preservação da ordem pública, como
pelos manifestantes. Os policiais manifestações, reintegrações de posses,
desembarcaram e a comissão fi-
sempre com eficiência operacional.
cou no veículo acompanhando. Foi
quando o Humaitá começou com o
funcionamento do jato d’água. Na- Análises descritivas dos dados
quela ocasião, fomos recebidos com
pedradas, jogaram garrafas, etc, e
A coleta de dados configurou-se
eu que me encontrava dentro do veí-
culo, pude entender a sensação de como pesquisa bibliográfica, envolvendo
aflição que se sente por ocasião de questões históricas atinentes às ações
um enfrentamento de distúrbio civil. de emprego de CDC. Posteriormente, foi
Claro que por ser um blindado, as
realizada entrevista com membros do
pedradas não nos atingiam, mas a
sensação era horrível. Até hoje, eu Ministério Público do Ceará que foram
faço uma comparação com aqueles testemunhas das operações de CDC na
policiais do Rio de Janeiro, notoria- Copa FIFA2014 e finalmente foram distri-
mente, os ocupantes dos Caveirões
buídos questionários que contemplaram
de como seria a sensação psíquica
e fisiológica de quando se trata de 129 policiais militares do Batalhão de
ocorrências com tiros. Pedra já não Choque da PMCE com o fito de escla-
era uma agressão que não nos dei- recer vantagens e desvantagens sobre
xava tranquilo, imagine projeteis
a adoção do Humaitá, as quais se apre-
letais.(...) Pois bem, percebemos o
quanto o equipamento é importan- sentarão na seção mais adiante.
te neste campo de atuação. Acele- Trata-se, portanto, de pesquisa quali-
ra o controle do teatro operacional, tativa e quantitativa, com escopo nas en-

48 H U M A ITÁ: O B LI NDAD O DA P M CE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

trevistas junto aos Promotores de Justiça e As respostas compiladas do quar-


nos questionários distribuídos na amostra, to item tratam das desvantagens, sendo
tendo como público-alvo os policiais mili- massificado pelos entrevistados que a
tares do Batalhão de Choque da PMCE. outrora imponência hoje se traduz em di-
fícil acesso a alguns cenários e por conta
Resultados e discussões da complexidade do equipamento repu-
tam ser boa a relação custo/benefício,
A pesquisa realizada foi aplicada, mas com muitos limites como a cota de
via formulário digital, entre os dias 03 abastecimento e o consumo alto desse
e 05/10, contendo cinco perguntas, das tipo de equipamento. Consideram, ainda,
quais quatro subjetivas e uma objetiva, dificílima a operação do blindado, de for-
envolvendo 129 amostras. As assertivas ma que quase nunca o Humaitá é utiliza-
versaram, basicamente, sobre a percep- do por contingência de gastos.
ção da tropa diante da chegada do Hu- Por fim, perguntados quantos fo-
maitá na PMCE. ram capacitados para operar o blindado
Compilando as respostas por gru- da PMCE, apenas dezenove militares da
po coincidentes em sua essência, foi amostra de 129 informaram ter conheci-
verificado que quando perguntada so- mento e treinamento sobre a ativação e
bre o impacto do Humaitá para a PMCE uso do Humaitá, demonstrando que o ni-
por ocasião da sua chegada, a parcela velamento do conhecimento sobre o veí-
majoritária respondeu que a chegada culo é ineficiente e dessa forma reduz,
do blindado trouxe um novo conceito à ainda mais, sua capacidade operativa.
PMCE, de grande impacto junto à popula-
ção, principalmente, por seu porte avan- Conclusão
tajado, que causa impressão de força.
Em continuidade ao primeiro ques- O caminhão Humaitá é o primei-
tionamento, perguntou-se se hoje ain- ro veículo blindado da Polícia Militar
da haveria vantagens do Humaitá, sen- do Ceará. Foi adquirido pela Secreta-
do consignado pelos entrevistados em ria Extraordinária de Segurança para
sua maioria, que ainda veem o Humaitá Grandes Eventos – SESGE/MJ e doado
como uma plataforma excepcional no ao tombo do patrimônio cearense como
uso do controle dos distúrbios civis por um dos instrumentos do legado da Copa
suas características de resguardar a tro- FIFA2014.
pa no enfrentamento. Por suas dimensões e blindagem
O terceiro quesito tratou da impor- acarreta vantagem na proteção de tropas
tância do blindado para a corporação, em deslocamentos com segurança, além
sendo reunido pelos entrevistados que de funcionalidade para controle de dis-
retratam a preocupação da PMCE no in- túrbios civis, quando pode se utilizar de
vestimento em equipamentos de alta tec- seu jato d’água, ou de agentes químicos
nologia e grande apelo visual. para dispersão de multidões.

HUMAITÁ: O BL INDADO DA PMC E 49


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Seu sistema de monitoramento e à segurança dos policiais e de civis en-


plataforma elevada que utiliza câmeras volvendo questões de direitos humanos
SpeedDomes, detendo alcance de 500m e aplicação da lei, o Humaitá agrega
consegue gravar e enviar em sistema contexto histórico de relevância incon-
sem fio, em tempo real, informações testável à Polícia Militar e assim sendo,
de cenários operacionais contribuindo, ao patrimônio do povo cearense.
eficazmente, no conjunto probante nas
ações de polícia legal e defensora das Referências
questões, envolvendo incolumidade de
pessoas na defesa de vidas humanas e CEARÁ, Norma Geral de Ação, Empre-
patrimônios alheios. go Tático do Carro de Controle de Dis-
Apesar de o veículo ter sido anexa- túrbios Civis – Humaitá, CBPChoque,
do ao patrimônio do estado em 2016, até PMCE, 2017.
hoje, não existe contrato de manutenção
do veículo, apenas o cartão de abasteci- GARD, Yellow. A história dos veiculos
mento. Isso é deletério, pois se trata de blindados. Disponível em <http://manta-
um bem de vultoso valor e grandiosa fun- dearamida.com.br/artigos/historia-dos-
cionalidade e em decorrência disso, orien- -blindados> Acesso em: 03 out. 2018.
tam-se cumprimentos administrativos e
adequações orçamentárias para que se MINISTERIO DA JUSTIÇA, Secretaria Ex-
mantenha o bem em perfeita operaciona- traordinária de Segurança para Grandes
lidade, a fim de que cumpra seu mister. Eventos. Disponível em <http://www.jus-
Outro aspecto é a carência da for- tica.gov.br/institucional/institucional>
mação de multiplicadores, pois o rol de Acesso em: 03 out. 2018.
discentes, em treinamento, foi bastante
exíguo frente ao global efetivo no bata- PORTAL G1. Choque recebe blindados
lhão especializado e como “intracorpo- israelenses no valor de 30 milhões em
ris” poder-se-ia dimensionar novas ver- São Paulo. Disponível em <http://g1.
sões com a utilização dos operacionais globo.com/sao-paulo/noticia/2015/07/
habilitados na “prata da casa”, sugere- choque-recebe-blindados-israelenses-
-se essas medidas. -no-valor-de-r-30-milhoes-em-sp.html>
Por fim, verificou-se que o Humai- Acesso em: 07 out. 2018.
tá é compreendido pelas tropas que o
operam como um equipamento de boa PORTAL G1, MP pede que PMs sejam
tecnologia e com impacto nas opera- retirados de manifestações em caso de
ções, mas que corre o risco de ser obso- abuso. Disponível em <http://g1.globo.
leto em pouco tempo pela falta de trei- com/ceara/noticia/2014/06/mp-pede-
namento continuado e falta de regular -que-pms-sejam-retirados-de-manifes-
manutenção. Mais que o valor do bem tacoes-em-caso-de-abuso.html> Acesso
móvel, da sua importância operacional em 02 out. 2018.

50 H U M A ITÁ: O B LI NDAD O DA P M CE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

REVISTA SEGURANÇA, TECNOLOGIA <http://www.scielo.br/pdf/ccrh/v27n71/


E DEFESA. Revista temática. Disponí- a12v27n71.pdf> Acesso em: 02 out. 2018.
vel em: <https://issuu.com/parabelum/
docs/_tecnologia___defesa_-_segu-
ran_a_n__05_-_mar2011__> Acesso em
04 out. 2018.

SANTOS, Carlos Alexandre Geovani-


ni dos. Blindados 95 anos de história.
Universidade Federal de Juiz de Fora.
Disponível em <http://ecsbdefesa.com.
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SILVEIRA, Miguel Machado da. A evolu-


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unisul.br/bitstream/handle/12345/3041/
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WARREN, Ilsen Scherer. Manifestações


de Rua no Brasil 2013: encontro e de-
sencontros na política. Disponível em

HUMAITÁ: O BL INDADO DA PMC E 51


R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

O GERENCIAMENTO DOS SABERES INTEGRADOS


COMO POLÍTICA EDUCACIONAL E DE VALORIZAÇÃO
DOS PROFISSIONAIS DE SEGURANÇA
PÚBLICA DO ESTADO DO CEARÁ

THE MANAGEMENT OF INTEGRATED KNOWLEDGES AS


AN EDUCATIONAL POLICY AND VALORIZATION OF PUBLIC
SAFETY PROFESSIONALS IN THE STATE OF CEARÁ

Ricardo Rodrigues Catanho de Sena1


Roberta Barbosa Monteiro2

A
RESUMO
presente pesquisa aborda como são gerenciados os saberes integrados na esfera
da segurança pública no estado do Ceará, onde introdutoriamente aborda-se o
assunto segurança pública e suas demandas sociais de um modo geral, exploran-
do as conceituações pertinentes, pelo viés doutrinário e normativo, bem como numa
conjuntura nacional, para posteriormente afunilar a citada temática nas dimensões
do estado do Ceará, tudo por meio de uma metodologia de pesquisa com cunho
bibliográfico, assim como o uso de resultados obtidos, de ordem pura e com uma
natureza qualitativa e quantitativa, tendo fins descritivos, alicerçada em variada lite-
ratura concernente. Em sequência, é apresentada a realidade organizacional das ins-
tituições de segurança pública cearense, bem como são sistematicamente discutidos
os resultados dos manuseios dos saberes no campo da segurança pública hodierna
do estado do Ceará, perpassando-se pela principal vinculada responsável por esses
feitos, onde são vislumbrados dados os quais notabilizam a variedade, a quantidade,
a continuidade e a relevância dos cursos ministrados, os quais redundam no entendi-
mento finalístico de que os mencionados conhecimentos são importantes no aspecto
de valorização profissional individual, institucional e com mútuo ganho social como
um todo.

Palavras-chave: Saberes. Valorização. Profissionais de segurança pública.

1 Mestre em Planejamento e Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Políticas Públicas pela
Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. Especialista com MBA em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Christus.
Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza. Pedagogo com Licenciatura Plena em Língua Portuguesa, Primeiros Socorros
e Defesa Civil pela Universidade Estadual do Ceará. Bacharel em Segurança Pública pela Academia de Polícia Militar General
Edgard Facó. Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.
2 Especialista em Políticas Públicas pela Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. Bacharel em Engenharia de Incêndio e
Pânico pela Academia de Bombeiro Militar do Distrito Federal. Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.

52 O G E RE N C I AM ENTO D OS SAB ERES I NT EGR AD OS COMO POL ÍTIC A NAC IONAL E DE VALOR IZ AÇ ÃO
D O S P RO F IS S I ONAI S D E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A DO E STADO DO C E AR Á
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

ABSTRACT
The present research deals with the management of the integrated knowledge in the
sphere of public security in the State of Ceará, where the subject of public security and its
social demands is introduced in a general way, exploring the relevant concepts, doctrinal
and normative bias, and as in a national context, in order to later tap the mentioned theme
in the dimensions of the State of Ceará, all through a bibliographical research methodo-
logy, as well as the use of purely qualitative and quantitative results obtained descriptive
purposes, based on varied literature. In sequence, the organizational reality of Ceará´s
public security institutions is presented, as well as systematically discussed the results of
the handling of knowledge in the field of public security today in the state of Ceará, throu-
gh the main responsible for these feats, where they are glimpsed data which highlight the
variety, quantity, continuity and relevance of the courses taught, which result in the finalist
understanding that the aforementioned knowledge is important in the aspect of professio-
nal development, individual and institutional with mutual social gain as a whole.

Keywords: knowledges. Appreciation. Public safety professionals.

1 Introdução

As temáticas ligadas à segurança Por oportuno, faz-se didático, dis-


pública têm instigado a atenção da so- correr sobre os entendimentos a des-
ciedade contemporânea cada vez mais, peito de segurança, tão propalada, mas
de tal modo que essa tem sido pauta de nem sempre externada ou entendida da
diversos estudos, projetos e programas maneira mais adequada, assim, ora ex-
governamentais, além de abordagens terna-se comentário imanente de Sena
por parte de variados meios de comuni- (2015, p. 34):
cação de massa, com foco em telespec-
tadores, ouvintes e leitores. Este termo, oriundo do latim secure
Essa realidade pode ser percebida em ou securitas cujo significado aproxi-
mado está voltado para “sem medo”,
todo o Brasil, onde a demanda à seguran-
já predispõe a entendimentos intui-
ça pública se faz perene, direta e/ou indi- tivos, até antropológicos, uma vez
retamente, em maior ou menor escala, ao que se concatena com sentimentos
largo de todas as camadas da sociedade, o basilares e inerentes a qualquer ser
humano, dentre os quais o medo, o
que por sua vez se posta como um desafio
instinto de sobrevivência, de prote-
às autoridades governamentais, as quais, ção individual e de seus entes que-
num ciclo de política pública de seguran- ridos. (Grifo nosso).
ça, precisam empreender esforços para os
atendimentos a essas exigências e neces- Pelo posto, depreende-se que o ter-
sidades das coletividades. mo segurança, de modo generalizado,
por si só apresenta-se afeito às neces-

O G E RENCI AM ENTO D OS SAB ERES I NT EGR ADOS COMO POL ÍTIC A NAC IONAL E DE VALOR IZ AÇ ÃO 53
D OS P ROFI SSIONAIS DE SE GUR ANÇ A PÚBL IC A DO E STADO DO C E AR Á
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

sidades essenciais de sobrevivência, ou vê ipsis litteris: “Art. 5º. Todos são iguais
seja, imprescindível do ponto de vista in- perante a lei, sem distinção de qualquer
dividual ou coletivo. natureza, garantindo-se aos brasileiros
Em concatenada linha de pensa- e aos estrangeiros residentes no País a
mento, tem-se nesta oportunidade o inviolabilidade do direito à vida, à liber-
conceito de segurança pública pela dou- dade, à igualdade, à segurança e à pro-
trina do Professor Laécio Noronha Xa- priedade, [...]” Grifo nosso. Bem como
vier (2012, p. 34): junto ao artigo 6°, do já mencionado texto
constitucional, tem-se a segurança ele-
A Segurança Pública é a própria vada explicitamente ao patamar de direi-
política pela segurança humana, tos sociais, conforme visto a seguir:
uma vez que a expressão evoca as
dimensões dos direitos fundamen-
tais do homem, da governança pela Art. 6º. São direitos sociais a edu-
paz e democracia e da distribuição cação, a saúde, a alimentação, o
social do crescimento econômico re- trabalho, a moradia, o transporte,
presentada por diferentes políticas o lazer, a segurança, a previdência
públicas e pela participação perene social, a proteção à maternidade e
da sociedade civil. A Segurança Pú- à infância, a assistência aos desam-
blica é a garantia de que cada indi- parados, na forma desta Constitui-
víduo terá a liberdade de escolha de ção. (EC nº 26/2000, EC nº 64/2010
um conjunto de oportunidades para e EC nº 90/2015, grifo nosso).
alcançar sua potencialidade huma-
na, através de uma construção cole- Ainda sob a égide da Carta Mag-
tiva enquanto resultado da vontade, na (BRASIL, 1988, b), o tema atinente à
organização e mobilização da socie- segurança pública ganha um destaque
dade. (Grifo nosso).
maior, ao ser merecedor de um capítulo
próprio, mais precisamente o de número
Observando-se por um viés institucio- III, dentro do título de defesa do Estado
nal, tem-se neste momento a definição de e das instituições democráticas e, por
segurança pela ótica da Escola Superior intermédio do seu artigo 144, aborda so-
de Guerra – ESG (Manual Básico, volume bre a responsabilidade e a efetividade
I, Elementos Fundamentais, 2014, p.76, do discorrido direito constitucional, de
on-line): “Segurança é a sensação de modo a também esboçar o rol de entida-
garantia necessária e indispensável a des diretamente relacionadas ao cumpri-
uma sociedade e a cada um de seus in- mento desses ditames constitucionais,
tegrantes, contra ameaças de qualquer conforme ora posto:
natureza” (Grifo do autor).
Não por acaso, a própria Constitui- Art. 144. A segurança pública, dever
ção Federal de 1988 (BRASIL, 1988, a) co- do Estado, direito e responsabilidade
de todos, é exercida para a preserva-
locou a segurança pública na galeria dos
ção da ordem pública e da incolumi-
direitos e garantias fundamentais, por dade das pessoas e do patrimônio,
intermédio do seu artigo 5°, como ora se através dos seguintes órgãos:

54 O G E RE N C I AM ENTO D OS SAB ERES I NT EGR AD OS COMO POL ÍTIC A NAC IONAL E DE VALOR IZ AÇ ÃO
D O S P RO F IS S I ONAI S D E SEGU R ANÇ A P Ú BLI C A DO E STADO DO C E AR Á
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

I- Polícia Federal; das à Secretaria de Segurança Pública


II - Polícia Rodoviária Federal; e Defesa Social (SSPDS) e, nesse bojo,
III - Polícias Civis; há que se destacar, também, os inves-
IV – Polícias Militares e Corpos de timentos incididos no fator humano o
Bombeiros Militares. [...] qual conduz todos esses aparatos an-
teriormente mencionados e, por conse-
Depreende-se, por conseguinte, que guinte, os saberes os quais envolvem as
tanto no campo normativo constitucional díspares, porém, entrelaçadas áreas de
como no mundo doutrinário, a segurança atuação integradas da segurança pú-
pública apresenta-se como uma das ma- blica cearense, numa aplicabilidade de
trizes de requisições sociais, de maneira concordância ao texto de Strauhs et al.
a se coadunar com as agendas de políti- Com sua obra Gestão do conhecimento
cas públicas de todos os entes da Fede- nas organizações (2012, p. 20): “Como o
ração, dentre eles, o estado do Ceará, o conhecimento é gerado por pessoas, o
qual, por sua vez, nos últimos anos, tem ser humano passa a desempenhar pape-
investido maciçamente nessa área, seja l-chave, pois os insumos mais importan-
com equipamentos, viaturas, tecnolo- tes não são mais elementos tangíveis,
gias, dentre outros, conforme pode ser mas intangíveis e extremamente depen-
observado no quadro a seguir: dentes do ser humano.”

Quadro 1 – Recursos financeiros 2 Métodos


totais aplicados pela Secretaria de
Segurança Pública Defesa Social Ressalte-se que os aspectos meto-
entre os anos de 2014 a 2017. dológicos do presente trabalho, no que
tange ao tipo, faz-se de cunho bibliográ-
ANO VALORES TOTAIS fico, com uma utilização de resultados
2013 R$ 1.469.518.906,79 de ordem pura e, quanto à natureza,
2014 R$ 1.747.293.791,40 se apresenta qualitativa e quantitativa.
Quanto aos fins, a pesquisa em epígra-
2015 R$ 1.852.060.911,02
fe é tida como descritiva, embasando-se
2016 R$ 1.994.773.413,50 em variada literatura pertinente.
2017 R$ 2.162.765.372,39
Fonte: Elaborado pelos autores 3 Resultados e discussão
conforme dados extraídos do portal da
transparência do estado do Ceará.
Originalmente, a Lei Estadual nº
13.875 (on line), de 07 de fevereiro de
Pautando-se pelos dados acima, 2007, trouxe em seu corpo, além de ou-
percebe-se uma inequívoca ascendên- tros dispositivos, a vinculação operacio-
cia anual de aplicação de recursos fi- nal à Secretaria de Segurança Pública
nanceiros nas diferentes entidades liga- e Defesa Social, das entidades Polícia

O G E RENCI AM ENTO D OS SAB ERES I NT EGR ADOS COMO POL ÍTIC A NAC IONAL E DE VALOR IZ AÇ ÃO 55
D OS P ROFI SSIONAIS DE SE GUR ANÇ A PÚBL IC A DO E STADO DO C E AR Á
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Militar (PMCE), o Corpo de Bombeiros da segurança pública, cada um deles o faz


Militar (CBMCE) e a Polícia Civil (PC) e, dentro das suas características e ditames
posteriormente, visando a um uso mais normativos, o que, consequentemente,
técnico dos conhecimentos periciais da leva à necessidade de conhecimentos, de
área forense, foi criada a Perícia Forense saberes diversificados e exercidos de ma-
do Ceará (PEFOCE), no ano de 2008, ao neira integrada entre si.
passo que, por meio da Lei nº 14.629, de Nesse diapasão, há que se verifi-
26 de fevereiro de 2010 (CEARÁ, 2010, car, entre outros aspectos, os diferen-
on line) foi criada a Academia Estadu- tes prismas dos agentes de segurança
al de Segurança Pública (AESP), efeti- pública os quais exercem, dão vida às
vamente inaugurada em 18 de maio de ações oriundas das entidades institu-
2011 e, mais recentemente, por meio da cionais da segurança em comento, ou
Lei n° 16.562 (on line), de 22 de maio de seja, os pontos em comum e as peculia-
2018, foi incorporada ao rol de vincula- ridades dos profissionais de segurança
das, a Superintendência de Pesquisa e pública, componentes das vinculadas à
Estratégia de Segurança Pública do Es- SSPDS. Dessa forma, cabe majoritaria-
tado do Ceará (SUPESP). mente, à AESP a unificação e execução
Isto posto, através do seguinte or- das atividades de ensino no que tange
ganograma é visualizada a atual com- a todas as entidades componentes do
posição de vinculação dos órgãos de sistema de segurança pública do estado
segurança pública do Estado do Ceará do Ceará, promovendo assim trabalhos
junto à Secretaria de Segurança Pública de formação inicial, continuada, pós-
e Defesa Social: -graduação, pesquisa e extensão, seja
por meio de cursos específicos para as
necessidades de cada instituição vincu-
lada, formatados através de convênios
ou não, seja por meio de intercâmbios
envolvendo entidades nacionais e/ou in-
ternacionais, assessorando pertinente-
mente a SSPDS, ou mesmo elaborando
estudos e planejamentos afins, mas sem
descuidar do disposto no artigo 2°, IX
da sua Lei de criação (CEARÁ, 2010, on
line), quanto a “assegurar o pluralismo
de idéias através da plena liberdade de
Fonte: Elaborado pelos autores conforme aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o
informações normativas.
conhecimento produzido;” (Sic).
Muito embora todos os órgãos vincu- Nesse esteio, a casa de ensino em
lados à Secretaria de Segurança Pública comento, consoante informações forne-
e Defesa Social sejam voltados ao mister cidas pela própria entidade, possui atu-

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almente 2.448 professores e instrutores, exclusivamente, pela Academia Estadu-


sendo 466 portadores de ensino médio, al de Segurança Pública, quanto a estu-
1.094 graduados, 800 especialistas, 74 dos voltados à capacitação/habilitação,
mestres e quatorze doutores, cadastra- formação inicial e ascensão profissional,
dos e aptos ao exercício do magistério de diversos agentes de segurança pú-
em múltiplas linhas do conhecimento, de blica, das esferas civil e militar (oficiais
maneira a atender a todas as demandas e praças), sendo eles presenciais, se-
letivas apresentadas, com conteúdos te- mipresenciais e a distância, bem como
óricos e práticos, numa realidade que se cursos exercidos em parceria entre a
alinha com as palavras de Gatti (1996, academia em comentário e a Secretaria
p.85): “[...] No entrechoque dinâmico Nacional de Segurança Pública (SENAS-
dessas condições situa-se o trabalho co- P)3, incluindo-se aí, também, modalida-
tidiano dos professores em suas salas de des de ensino a distância (EAD):
aula, com a bagagem que a sua forma-
ção básica ou continuada lhe propiciou, Quadro 2 – Síntese anual de cursos
e com os saberes que com sua experiên- na AESP no ano de 2015.
cia construiu.”
Destaca-se, também, o aspecto de ANO DE 2015
que grande parte do corpo docente é
CURSOS NÚMERO DE
oriundo das próprias vinculadas, o que EXCLUSIVOS AESP CONCLUDENTES
por sua vez proporciona a tendência de
maior e melhor interatividade com o cor- FORMAÇÃO INICIAL 1.342
po discente, seja por meio dos conhe- CAPACITAÇÃO/
1.389
cimentos técnicos e empíricos, seja por HABILITAÇÃO
meio da respectiva empatia, haja vista a ASCENSÃO
7.391
agregação da formação acadêmica an- PROFISSIONAL
teriormente, exposta à experiência pro- TOTAL 10.122
fissional propriamente dita, de cada um
PARCERIA COM A
dos muitos colaboradores de todas as SENASP (TOTAL)
5.134
vinculadas, junto aos variados alunos,
numa interatividade didática transver-
Fonte: Elaborado pelos autores conforme
sal, com potencial de harmonização ao dados oriundos da AESP.
pensamento de Maurice Tardif, em sua
obra Saberes Docentes e Formação Pro-
fissional (2002).
Como parte dos frutos dessas ati-
vidades didáticas, ao longo dos anos de
2015, 2016 e 2017, é viabilizado observar
os dados abaixo com efeito de amostra-
gem, atinentes aos trabalhos efetivados, 3 Órgão vinculado ao Ministério Extraordinário da Segurança
Pública, consoante MP nº 821, Art. 40-B.

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Quadro 3 – Síntese anual de cursos Todos esses dados, por si só, já de-
na AESP no ano de 2016. monstram uma exitosa administração con-
tínua e organizada quanto aos saberes, no
ANO DE 2016 universo da segurança pública, uma vez
que conforme Magnani (2010, p.19,20):
CURSOS NÚMERO DE
EXCLUSIVOS AESP CONCLUDENTES
A gestão do conhecimento é, antes
FORMAÇÃO INICIAL 1.235 de tudo, o reconhecimento de que
a informação e o conhecimento são
CAPACITAÇÃO/ ativos corporativos valiosos, que
978
HABILITAÇÃO precisam ser devidamente compre-
ASCENSÃO endidos e gerenciados por meio de
3.516 ferramentas apropriadas. Assim
PROFISSIONAL
como a era industrial desenvolveu
TOTAL 5.729 ferramentas gerenciais adequadas
ao contexto da época, novas ferra-
PARCERIA COM A mentas precisam ser desenvolvidas
7.667
SENASP (TOTAL) para atender às peculiaridades dos
ativos da era do conhecimento.
Fonte: Elaborado pelos autores conforme
dados oriundos da AESP.
Neste sentido, o governo do estado
do Ceará, por intermédio da sua Secre-
Quadro 4 – Síntese anual de cursos taria de Segurança Pública, de maneira
na AESP no ano de 2017. inédita, também, propiciou, no decorrer
do ano de 2018, um evento de exposição
ANO DE 2017 literária envolvendo, conforme informa-
ções da SSPDS, dezenas de agentes de
CURSOS NÚMERO DE
segurança pública, inclusive de coirmãs,
EXCLUSIVOS AESP CONCLUDENTES
tais como da Polícia Federal e da Polícia
FORMAÇÃO INICIAL 2.669 Rodoviária Federal, os quais são autores
de publicações diversas, seja com temá-
CAPACITAÇÃO/
HABILITAÇÃO
1.976 ticas voltadas, diretamente, à segurança
pública, seja em áreas poéticas, crônicas
ASCENSÃO
2.638 e contos, dentre outros textos e gêneros,
PROFISSIONAL
num total de aproximadamente 70 obras
TOTAL 7.283
postas à luz do conhecimento da socie-
PARCERIA COM A dade em geral, haja vista a participação,
2.876
SENASP (TOTAL)
no referido evento, de segmentos da im-
prensa, de livrarias, editoras, familiares,
Fonte: Elaborado pelos autores conforme amigos e muitos outros interessados, de
dados oriundos da AESP.
modo a descobrir e prestigiar os talentos
latentes da escrita, ao largo de diferen-

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tes profissionais da área de segurança à defesa civil, que cumpre esclarecer, no


em pauta, mas também dotados de sa- caso do estado do Ceará, conforme Sena
beres outros, os quais têm potencial de (2012), desde o ano de 2007, teve a sua
enriquecimento transversal. coordenação estadual realocada ao car-
go do Corpo de Bombeiros Militar, conse-
4 Considerações finais quentemente, dentro da esfera da segu-
rança pública.
Depreende-se diante de todo o ex- O gerenciamento dos saberes em
posto que os órgãos responsáveis pela epígrafe, correlacionado a outros instru-
segurança pública no estado do Ceará, mentos de valorização dos profissionais
cônscios dos seus deveres junto à socie- de segurança pública no estado Ceará,
dade cearense, não abdicam de inovar contribui de sobremaneira para uma me-
e aprimorar os necessários, diferentes lhor prestação de serviços à sociedade
e integrados saberes atinentes às suas cearense, num virtuoso ciclo qualitativo,
instituições e aos seus membros, en- haja vista que o próprio agente de segu-
quanto agentes públicos da esfera da rança e seus entes queridos fazem parte
segurança, os quais partilham esses co- desta mesma sociedade, a qual é a maior
nhecimentos, inclusive entre si, de ma- beneficiada por este direito e responsabili-
neira a propiciar uma cognição mútua dade de todos: a segurança pública.
entre as vinculadas e a própria SSPDS.
O referido manejo de saberes, além 5 Referências
de propiciar uma melhor e maior quali-
dade técnica e profissional, também ar- BRASIL. Constituição (1988). Constitui-
regimenta um aprimoramento individual ção da república federativa do Brasil. Dis-
dos membros das respectivas corpora- ponível em: <http://www.planalto.gov.
ções afins, até por um viés de cidadania br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.
e um fortalecimento institucional, uma htm>. Acesso em: 05 out 2018.
vez que a imprescindível integração en-
tre os mesmos faz-se efetiva e consoli- CEARÁ. Constituição Estadual. Fortale-
dada, seja nas suas formações, seja nos za: INESP, 2009.
desenvolvimentos continuados, abran-
gendo assim todos os profissionais de CEARÁ. Lei Estadual nº 13.875, de 07 de
segurança pública do Ceará. fevereiro de 2007a. Ementa: Dispõe so-
Ressalte-se que os diferentes cursos bre o Modelo de Gestão do Poder Exe-
e suas variadas disciplinas, abrem mar- cutivo, altera a estrutura da Adminis-
gem à quebra de paradigmas, incluin- tração Estadual, promove a extinção e
do-se aí a ocorrência de temáticas que criação de cargos de direção e assesso-
podem não parecer, dentro de uma visão ramento superior, e dá outras providên-
leiga, concatenadas à segurança públi- cias. Disponível em: <http://www.ade-
ca, como por exemplo, assuntos ligados ce.ce.gov.br/leis-e-decretos-fdi/Lei%20

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13.875-%20de%2007%20de%20feve- tf8=%E2%9C%93&__=>. Acesso em: 05


reiro%20de%202007.pdf. > out 2018.

CEARÁ. Lei Estadual nº 14.629, de 26 de GATTI, Bernardete. Os professores e suas


fevereiro de 2010. Ementa: Dispõe sobre identidades: o desvelamento da hetero-
a Criação, no sistema de Segurança Pú- geneidade. Cadernos de Pesquisa Fun-
blica Estadual, da Academia Estadual de dação Carlos Chagas, São Paulo, n. 98,
Segurança Pública do Ceará, extingue 1996. p. 85 – 90.
unidades de ensino e instrução do refe-
rido sistema e dá outras providências. MAGNANI, M., HEBERLÊ, A.L. Introdução
Disponível em: < https://belt.al.ce.gov. à gestão do conhecimento: organizações
br/index.php/legislacao-do-ceara/orga- como sistemas sociais complexos. Pelo-
nizacao-tematica/trabalho-administra- tas. Embrapa clima temperado. 2010.
cao-e-servico-publico/item/1242-lei-n-
14-629-de-26-02-2010-d-o-11-03-10> SENA, Ricardo Rodrigues Catanho de.
A incorporação da Defesa Civil Estadual
CEARÁ. Lei Estadual nº 16.562, de 22 de pelo Corpo de Bombeiros Militar do Cea-
maio de 2018. Ementa: Dispõe sobre a rá. São Paulo: Nelpa, 2012.
criação da Superintendência de Pesqui-
sa e Estratégia de Segurança Pública SENA, Ricardo Rodrigues Catanho de.
do Estado do Ceará – SUPESP, no âm- 101 Perguntas e Respostas sobre o Corpo
bito da administração pública estadual. de Bombeiros Militar do Ceará – comece
Disponível em: <https://belt.al.ce.gov. a conhecê-lo e ame-o até depois do fim!
br/index.php/legislacao-do-ceara/orga- São Paulo: Nelpa, 2014.
nizacao-tematica/trabalho-administra-
cao-e-servico-publico/item/6212-lei-n- SENA, Ricardo Rodrigues Catanho de. A
16-562-de-22-05-18-d-o-23-05-18> competência constitucional e infraconsti-
tucional do Corpo de Bombeiros Militar do
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. Manu- Ceará no âmbito da segurança pública.
al Básico Volume I, Elementos Fundamen- São Paulo: Nelpa, 2015.
tais, 2014. Disponível em: http://www.esg.
br/images/manuais/ManualBasicoI2014. STRAUHS, Faimara do R. et al. Gestão do
pdf. Acesso em 05 out 2018. conhecimento nas organizações. Curiti-
ba: Aymará Educação, 2012.
CEARÁ. Portal da transparência. Dis-
ponível em: < https://cearatransparen- TARDIF, Maurice. Saberes docentes e for-
te.ce.gov.br/portal-da-transparencia/ mação profissional. São Paulo: Vozes, 2002.
despesas/despesas-do-poder-executi-
vo? search=&year=2013&locale=&pa- XAVIER, Laécio Noronha. Políticas Públi-
ge=&sort_direction=&sort_column=&u- cas de Segurança. Fortaleza: LCR, 2012.

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SOBRE O SIGNIFICADO DE “SER CAVEIRA” PARA


POLICIAIS MILITARES DE TROPAS ESPECIAIS NO BRASIL

THE MEANING “TO BE CAVEIRA” FOR SPECIAL


TROOPS MILITARY POLICE IN BRAZIL

Fábio Gomes de França1

O
RESUMO
bjetivamos neste artigo, por uma perspectiva qualitativa de cunho bibliográfico,
refletir sobre algumas considerações acerca do uso do símbolo da faca na ca-
veira pelos integrantes das tropas especiais das Polícias Militares no Brasil. Nossa
proposta é compreendermos a relação entre as crenças simbólicas e aspectos morais
que fazem os PMs das tropas especiais reconhecerem a si e aos outros integrantes
dos Batalhões de Operações Policiais Especiais (BOPE) como “caveiras”. Por fim, ado-
tamos a visão “durkheimiana” sobre totemismo e representações coletivas, a qual nos
levou a constatar a força das identidades coletivas presente por meio de crenças sim-
bólicas na conformação da existência cultural do BOPE, gerando como consequência
a distinção entre PMs comuns e os especiais (os caveiras) e a naturalização de um
ethos guerreiro que se traduz em violência pelos integrantes do BOPE.

Palavras-chave: Polícias Militares. BOPE. Representações Coletivas. Violência.

ABSTRACT
The aim of this article is to reflect through a qualitative approach (with bibliographical
research) on the use of the knife in the scull symbol by the Special troops military police
in Brazil. We would like to understand better the relation between collective beliefs and
moral aspects and how these elements make the BOPE cops see themselves and each
other like “caveiras”. Therefore, I argue by the “durkheimian” view about totemism and
collective representations. Such view guide us to demonstrate the force of the collective
identities through symbolic beliefs making to exist culturally the BOPE. As a result, we
have a distinction between caveiras and common police as well as the relationship be-
tween warrior ethos and violence experienced by the members of the BOPE.

Keywords: Military Police. BOPE. Collective Representations. Violence.

1 Pós-Doutor em Direitos Humanos pela Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal da
Paraíba. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba. Professor de Criminologia do Programa de Pós-Graduação
do Centro de Educação da Polícia Militar da Paraíba. Capitão da Polícia Militar da Paraíba.

S O B RE O S I GNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL 61
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Introdução Diante dessa discussão, como ex-


plicar sociologicamente a relação que
No ano de 2013, em um caso inédito existe entre o uso do símbolo da faca
no Brasil, o Comandante Geral da Polícia na caveira pelos integrantes das tropas
Militar do Estado da Paraíba (PMPB) cau- especiais policiais militares e a violên-
sou polêmica (OLIVEIRA, 22/03/2013), cia PM? Qual o significado dado pelos
no seio institucional, ao proibir o uso do policiais militares do BOPE ao símbolo
símbolo da faca na caveira pelos poli- da faca na caveira para caracterizá-los
ciais do BOPE. A proibição foi formaliza- como “especiais”? Consideram-se, se-
da no Boletim Geral2 da instituição parai- gundo o discurso nativo-institucional,
bana por meio da Resolução nº 003, de e para fins de compreensão neste ar-
21 de março de 2013, na qual se encon- tigo, tropas especiais ou especializa-
tra em seu artigo 1º: “Fica proibido o uso, das de Polícia Militar aquelas que são
em fardamentos, instalações e viaturas acionadas para ocorrências de alto ris-
da PMPB, de símbolos e expressões com co, e já não mais podem ser resolvidas
conteúdo intimidatório ou ameaçador, com o emprego de outros modelos de
tais como caveira e animais raivosos, policiamento (PINHEIRO NETO, 2013).
assim como o uso de frases e jargões em Metodologicamente falando, o arti-
músicas e jingles de treinamento que fa- go tem um viés qualitativo, por meio de
çam apologia ao crime e à violência”.3 uma pesquisa exploratória e bibliográfi-
Mesmo não sendo aceita pelos po- ca, de modo que a partir do levantamento
liciais militares do BOPE paraibano, se- sistemático de fontes secundárias pu-
gundo as palavras do Comandante Ge- déssemos ter um melhor conhecimen-
ral4, a decisão foi tomada como resposta to sobre o tema (MARCONI; LAKATOS,
a um pedido da Comissão Estadual de 2006). Portanto, mostraremos, ao longo
Direitos Humanos da Paraíba. Além dis- do artigo, algumas características do “clã
so, serviu para adequar a PM paraibana da caveira” (FRANCISCO, 2013), ou seja,
à Resolução nº 8, de 20 de dezembro de do BOPE, a partir de uma perspectiva
2012, da Secretaria Especial dos Direitos “durkheimiana” e seus estudos sobre to-
Humanos da Presidência da República temismo e representações coletivas.
(BRASIL, 2012), que também destaca em
seu art. 2º, inc. XVII, o mesmo texto com Durkheim e as
a proibição encontrada na Resolução da Representações Coletivas
PM paraibana.
2 Documento administrativo policial militar no qual são
Segundo Durkheim (1987), os fatos
publicizadas eletronicamente para o público interno todas sociais revelam, quando são tratados
como “coisa”, que existe uma força pre-
as decisões emanadas e ratificadas pelo Comandante
Geral da instituição (Chefe maior nas Polícias Militares)

sente na coletividade, ou melhor, na so-


acerca da gestão de tudo que envolve os policias militares.
3 Polícia Militar da Paraíba, Resolução nº 003, Boletim Geral,
de 21 de março de 2013. ciedade, pelo modo como essa se impõe
4 G1. Comandante da PM da Paraíba proíbe uso de caveira
como símbolo (22/03/2013). aos indivíduos e as suas particularida-

62 S O B RE O S IGNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

des. As leis que regem a sociedade de- liciais que se traduzem nas crenças, nos
monstram que os fatos sociais são, aci- símbolos, nos ritos, na marcação dos cor-
ma de tudo, coercitivos e exteriores aos pos, nas ações cotidianas.
indivíduos. Tal coercitividade exerce-se É para explicar esse caráter imposi-
por forças morais que reforçam a ideia tivo das representações coletivas sobre
de que a sociedade é transcendente aos os indivíduos que Durkheim (2008) se
indivíduos e os antecede. Sentimos es- debruçou sobre o pensamento religioso,
sas forças pela forma como as institui- particularmente, sobre a religião que ele
ções agem através do direito, dos prin- considerava a mais simples e mais pri-
cípios religiosos e suas doutrinas, pela mitiva até então conhecida, ou seja, o
educação escolar, pelas regras atinen- totemismo. O totem, enquanto um sím-
tes às profissões, bem como pela forma bolo, traduz a ideia de que a sociedade
como os costumes são vivenciados. se materializa no mundo social de forma
Torna-se explicável, pois, que a auto- simbólica, assim fazendo-se sentir pela
ridade moral imposta pela sociedade aos força moral que impinge aos indivíduos.
indivíduos deixa claro que ela é algo sui Foi em sua obra “As Formas Elementares
generis. Ela está fora dos indivíduos, fa- da Vida Religiosa” que Durkheim (2008)
zendo com que cada um, de algum modo, construiu seu empreendimento teórico
seja obrigado a garantir a existência do sobre o totemismo, ao analisar as tribos
meio social ao obedecer às regras sociais (ou clãs) australianas e norte-americanas
estabelecidas (já que todos nascemos por ele consideradas primitivas e a partir
em um mundo com regras pré-estabele- das quais ele passou dos estudos sobre a
cidas). Ao mesmo tempo, temos o desejo morfologia social para as representações
de pertencer à coletividade, inclusive mo- coletivas. Durkheim (2008), portanto,
bilizando-se para coibir comportamentos postula que as representações coletivas
que venham a ferir a moral coletiva. Logo, (ideias e crenças ou condições mentais
seria a sociedade que garantiria a partici- coletivamente compartilhadas) são com-
pação de cada um em seu seio, tornando- postas por símbolos que, expressos ma-
-se impossível uma afirmação contrária, terialmente como nos totens, ocultam a
ou melhor, só estamos no mundo por ser- força da coletividade, que deve ser deci-
mos seres sociais, visto que a sociedade frada em meio ao símbolo para poder ser
tem uma existência própria. explicada. Como afirma Montero (2014,
Acreditamos que revisitar a obra p. 133), “o totem associa pessoas disper-
durkheimiana serve-nos de suporte para sas em uma comunidade moral que se
nosso argumento, já que buscamos exa- reconhecem por serem portadoras de um
tamente compreender como o símbolo mesmo emblema, essa representação
da faca na caveira nas tropas especiali- inscrita nas coisas e no corpo do nativo
zadas de PM revela uma estrutura men- para expressar seu pertencimento”.
tal, ou melhor, representações coletivas As coisas sagradas, pela perspectiva
(SCOTT, 2010), compartilhadas pelos po- durkheimiana, consagram a autoridade

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capaz de se impor às vontades individuais PMs comuns. Na canção, os PMs comuns


“como efeito da operação psíquica de sín- são inferiorizados por não merecerem ser
tese das consciências individuais em que igualados aos especiais e por possuírem
se dá sua gênese. Os estados mentais a vontade de ter as características e usa-
gerados nesse processo encarnam-se em rem os aparatos dos PMs da RONDESP:
idéias coletivas que penetram as cons-
ciências individuais permitindo sua co- Ei comum, raça do caralho
municabilidade” (PINHEIRO FILHO, 2004, Queres ser Partamo
p. 3). No entanto, em meio à força da co- Queres o meu grifo
letividade para impor organização social Quer ser da Rondesp
emergem identidades que dependem da Queres meu fuzil
diferença para existir, o que faz dos sis- Oh comum, vai pra puta que pariu.5
temas simbólicos de representação e da
exclusão social possibilidades de demar- Ora, não é novidade que “nas ins-
cação de hierarquias sociais construídas tituições militares e policiais militares a
de forma binária (WOODWARD, 2013), ou diferença é necessária para a constru-
seja, sagrado e profano, limpo e sujo, nós ção da hierarquia e da disciplina, que
e eles. Vejamos como essa classificação são norteadoras da identidade coleti-
binária se revela no clã da caveira. va da instituição” (SCHACTAE, 2011, p.
31), mas, o que buscamos melhor com-
O BOPE ou o “Clã da Caveira” preender é como novas “socializações
secundárias” (BERGER; LUCKMANN,
Em todo o Brasil, no contato direto 1985) ocorrem especificamente com as
com policiais de tropas especiais, ou me- tropas especializadas. Como esclarece
lhor, do BOPE, é fácil verificarmos como Storani (2008, p. 134), seria a “conver-
eles se autodenominam de “caveiras” e são dos convertidos”. O que se destaca é
utilizam, também, tal referência para tra- como essas socializações secundárias,
tarem-se uns aos outros. É recorrente a enquanto novos processos de aprendi-
forma como os policiais caveiras repor- zagem organizacional, envolvendo os
tam-se, distintivamente, aos outros PMs integrantes do BOPE são norteadas por
denominando-os como PMs da tropa valores simbólicos e crenças morais. To-
comum ou de convencionais (CASTRO, davia, qualquer PM pode ingressar nas
2011, PACHECO, 2014)). Como exemplo, tropas especiais, contanto que passe
durante uma corrida realizada em grupo, por um processo de recrutamento inter-
como parte de um treinamento físico mi- no que geralmente demanda muitos es-
litar (TFM) da RONDESP (Rondas Espe- forços físicos e psicológicos (STORANI,
ciais), da Polícia Militar da Bahia, os PMs 2008), os quais geram como consequên-
especiais cantam uma charlie mike (can- cia exatamente o fato de que, “esses
ção militar) destacando, de forma pejo- cursos são formadores de um ethos de
rativa, a diferença deles em relação aos 5 Ei Comum, Raça do Caralho – Canções de TFM (2017).

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superioridade e distinção, fazendo com atuação dos membros do BOPE, encon-


que os caveiras se sintam superiores aos trando na violência a razão de ser, diga-
policiais que não fizeram um dos cursos mos assim, do batalhão, cujas condições
da unidade” (FRANCISCO, 2013, p. 83). simbólicas vinculadas à faca encravada
Esse ethos de superioridade e dis- na caveira e à reverência a ela prestada
tinção faz-nos perceber como modelos têm muito a nos dizer, quando analisa-
de classificação e hierarquia são opera- mos tal fenômeno a partir do totemismo.
dos pelos membros do BOPE para a ma- As palavras de um PM caveira ex-Co-
nutenção da estrutura do batalhão, para mandante do BOPE do Rio de Janeiro em
além dos já existentes no quadro hierár- entrevista concedida7 esclarecem:
quico policial militar dividido entre pos-
tos e graduações6. Ingressar no BOPE, Eu sempre entendi o Bope como
afinal, passando por um novo tipo de so- unidade de guerra. A minha visão
é essa. Porque nós precisamos ter
cialização dentro da própria instituição é
uma última ratio. Um último argu-
poder carregar consigo não só a denomi- mento. O Bope não é uma unidade
nação de policial caveira, como também, para ser utilizada em ações marca-
o próprio símbolo da faca na caveira em damente preventivas. O Bope é trei-
nado e capacitado para rugir. Ele
sua farda (PACHECO, 2014).
é um tigre, que tem que ser manti-
Percebemos, portanto, como per- do sob controle e solto em alguns
tencer ao clã da caveira (FRANCISCO, momentos. O Bope era e é para en-
2013) é desenvolver uma série de carac- trar onde há desorganização ou con-
flito, e trabalhar para resolver esse
terísticas compartilhadas em grupo que,
conflito. Se a resolução do conflito
ao mesmo tempo, geram orgulho e dis- estiver de tal ordem agreste, violen-
tinção em relação aos outros PMs consi- ta, que você precise usar a unidade
derados da tropa comum. Não por acaso, com a sua expressão mais violenta
no sentido de resolver o problema, o
para se sentirem distintos, os integran-
Bope tem que agir assim (FRANCIS-
tes do BOPE apresentam características CO, 2013, p. 84, grifo nosso).
particulares que são reafirmadas, cons-
tantemente, pela imagem e presença do Vê-se que a utilização de metáfo-
símbolo da faca na caveira. ras animais é algo naturalizado pelo po-
licial caveira, sendo que não é qualquer
A Faca na Caveira como animal. Nesse caso, o tigre que ruge tra-
Símbolo Totêmico
7 Entrevista concedida pelo Coronel Mário Sérgio Duarte,
ex‐comandante do Bope, ao site Uol notícias. O trecho da
A crença compartilhada pelos ca- entrevista destacado encontra-se na p. 84 da Dissertação
de Mestrado de Renata de Souza Francisco intitulada
veiras faz do ethos guerreiro a lógica de Tropa de elite no feminino: a participação feminina no
batalhão de operações policiais especiais do Rio de Janeiro
– BOPE, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação
6 Existem dois círculos hierárquicos das PMs no Brasil, cuja em Sociologia Política da Universidade Estadual do Norte
lógica foi herdada do Exército brasileiro. Entre os postos estão Fluminense Darcy Ribeiro, em 2013. A entrevista na íntegra
os oficiais, ou cargos de comando (Coronel, Tenente-Coronel, está disponível em: [http://noticias.uol.com.br/cotidiano/
Major, Capitão, 1º Tenente e 2º Tenente). Nas Graduações ultimas-noticias/2013/01/19/bope-completa-35-
temos as Praças, ou, em tese, os executores (Subtenente, 1º Anos-para-ex-comandantes-elite-da-pm-do-rio-superou-
Sargento, 2º Sargento, 3º Sargento, Cabo, Soldado). fenomeno-tropa-de-elite.htm].

S O B RE O S I GNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL 65
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

ta-se, óbvio, de um animal selvagem, ca- (DURKHEIM, 2008, p. 275). Em entrevista


çador e perigoso. Em acréscimo, se a pa- concedida8 a Paulo Storani, um Sargento
lavra caveira serve, também, para nomear caveira do BOPE do Rio de Janeiro afir-
tal policial mostrando a que grupo espe- mou o seguinte:
cífico ele pertence, fica estabelecido um
elo de ligação e indistinção entre o indi- Quando saímos [do BOPE] para a
víduo e seu totem, pois, “a identificação é missão e nos deparamos com a ca-
veira [brasão da unidade que fica na
tal que o homem assume os caracteres da
saída do batalhão] meu sentimento
coisa ou do animal de que é assim aproxi- é que ela representa nossa força [...]
mado. Por exemplo, em Mabuiag, as pes- nossa unidade está na relação de
soas do clã do crocodilo passam por ter o um para todos, somos uma equipe
[...]. Nosso sentimento é que juntos
temperamento do crocodilo: são ferozes,
somos capazes de cumprir qualquer
cruéis, sempre prontas para a batalha” missão no pior dos confrontos, [...]
(DURKHEIM; MAUSS, 2001, p. 401-402). quando todos [os convencionais]
Essa “identificação” com o totem, ao recuam somos nós que avançamos
[...] nós abrimos o caminho, [...] nós
ponto dos indivíduos desenvolverem ca-
lideramos [...] fomos preparados
racterísticas inerentes ao animal totêmi- para isso e a gente busca sempre
co, leva-nos à constatação de que, quan- fazer o melhor. (STORANI, 2008, p.
do um animal ou planta enquanto totem 138, grifos do autor).
nomeia um determinado clã ao mesmo
tempo em que lhe serve de emblema, Segundo Durkheim (2008), os to-
desperta a noção aos membros desse clã tens, como emblemas, eram usados
de que “os sentimentos despertados em como um verdadeiro brasão do clã, sen-
nós por uma coisa comunicam-se espon- do comparados aos símbolos heráldicos
taneamente ao símbolo que a representa” dos reinados feudais, os quais eram en-
(DURKHEIM, 2008, p. 275). Isso significa contrados em todos os lugares e objetos
dizer que a materialidade do totem, por como castelos e armas e cuja lógica se
ser mais simples de compreender do que estendeu às nações modernas, caracte-
a complexidade da força abstrata que ele rizando identidades familiares. Nos clãs
representa (ou seja, a coletividade, a so- totêmicos, os totens eram desenhados
ciedade) traduz melhor os sentimentos nos escudos de guerra e representados
despertados em nós, devido à crença que em capacetes, ou podiam ser colocados
desenvolvemos pelo contato e contágio sobre as tendas que serviam de moradia,
com ele. Passamos a explicar a nós mes- por exemplo. Outro ponto a ser conside-
mos, nesse caso, os sentimentos que nu- rado é que em festas religiosas dos clãs
trimos pelo símbolo, apenas porque ele
pode ser visto concretamente em forma 8 Sargento do BOPE, caveira. Entrevista concedida a Paulo

de totem, ou seja, “ele que é amado, te-


Storani. [A entrevista encontra-se transcrita na p. 138 da
Dissertação de Mestrado de Paulo Storani intitulada “Vitória

mido, respeitado; é a ele que se é grato;


sobre a morte: a glória prometida” o “rito de passagem”
na construção da identidade dos Operações Especiais do
é a ele que as pessoas se sacrificam” BOPE, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em
Antropologia da Universidade Federal Fluminense, em 2008.

66 S O B RE O S IGNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

australianos e norte-americanos, os to- jeto concreto a que eles podem se ape-


tens também eram encontrados sobre os gar” (DURKHEIM, 2008, p. 276). Essa per-
corpos dos membros do clã e não apenas cepção fica clara em estudo realizado no
nos objetos. Vestimentas cerimoniais e BOPE do Rio de Janeiro quando a pesqui-
máscaras representavam o animal to- sadora nos diz que “em todos os ambien-
têmico no todo ou em parte. Os cabelos tes da unidade, a cor preta e os desenhos
eram cortados de modo a imitar o totem de caveira predominam, não deixando o
e, a tatuagem, em algumas tribos, era indivíduo esquecer em momento algum
utilizada com frequência, assim como que ele faz parte da instituição” (FRAN-
a pintura corporal de desenhos durante CISCO, 2013, p. 52).
ritos festivos. No clã da caveira das tro- O que temos de considerar, a partir
pas especiais policiais, a situação não é dessa reflexão, é que o caráter simbólico
diferente e a marcação dos corpos com do totemismo, representado pela dualida-
tatuagens do símbolo da caveira torna-se de entre sagrado e profano, torna-se uma
algo comum, afinal, “a melhor maneira de “interpretação” plausível para pensarmos
se provar a si mesmo e de provar a ou- as formas de representação criadas pelos
trem que pertencemos ao mesmo grupo homens a partir de símbolos. Recobrando
é imprimir sobre o corpo a mesma marca a situação que ocorreu na Paraíba acerca
distintiva” (DURKHEIM, 2008, p. 289). da proibição do uso do símbolo da faca na
Na verdade, como já ficou claro, o caveira pelos integrantes do BOPE, as pa-
totem do clã é a representação material lavras do Comandante do grupo em entre-
da força impessoal e moral que constitui vista à época do fato descrevem bem como
o próprio clã, enquanto entidade coletiva. essa “força intangível” atua, ou melhor, “Eu
Essa força, que Durkheim (2008) encon- tenho minhas convicções, fiz um treinamen-
trou sob várias denominações entre as to específico de seis meses para conquistar
tribos por ele estudadas (entre as tribos o distintivo da caveira” (G1, 22/03/2013).
da Melanésia, por exemplo, era chamada O que importa, portanto, é a utilização do
de mana), encontra-se dispersa em todos distintivo, porque equivale a uma conquis-
os lugares físicos, nos objetos e nas cren- ta, pois sua proibição representa a perda
ças dos indivíduos sem que eles compre- do espírito da unidade e a destruição de
endam seu poder de contágio e influência sua moral. Os símbolos auxiliam na dese-
nas consciências individuais, mas a sin- jabilidade de pertencimento ao grupo, bem
tam todas as vezes que têm contato com como, na realização de práticas e crenças
o símbolo que a representa, de modo que coletivamente compartilhadas.
“de todos os lados, o que se oferece aos
seus sentidos, são as múltiplas imagens Conclusões
do totem. [...] Colocada no centro da
cena, ela (a imagem totêmica) se torna O texto tratou de algumas considera-
representativa. É sobre ela que se fixam ções sobre o fato dos integrantes das tro-
os sentimentos, porque ela é o único ob- pas especiais de Polícia Militar, notada-

S O B RE O S I GNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL 67
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

mente o Batalhão de Operações Policiais CASTRO, Priscila Aurora Landim de. Os


Especiais (BOPE) autodenominarem-se convencionais e os especiais: um estudo
e/ou reconhecerem-se uns aos outros sobre a construção da identidade dos in-
como “caveiras”. Nossa intenção foi con- tegrantes do batalhão de operações es-
tribuir para que o campo de pesquisa so- peciais da PMDF. 2011. 126 f. Dissertação
bre o tema possa ser melhor explorado. (Mestrado em Sociologia), Universidade
Nesse intento, a partir da perspectiva de Brasília, Brasília, 2011.
durkheimiana sobre totemismo e repre-
sentações coletivas, destacamos como DURKHEIM, Emile. As regras do método
o símbolo da faca na caveira diz respeito sociológico. São Paulo: Editora Nacional,
à materialização da força exercida pela 1987.
coletividade sobre os indivíduos, nesse
caso, contribuindo para a existência do ______. As formas elementares da vida
BOPE ou do “clã da caveira”. O que deve religiosa. Editora Paulus: São Paulo,
ser evidenciado é como os policiais ca- 2008.
veiras reverenciam o símbolo que repre-
senta o grupo sem compreenderem que, DURKHEIM, Emile; MAUSS, Marcel. Al-
a força moral que os condiciona a agir gumas formas primitivas de classifica-
desencadeia processos hierarquizadores ção. In: MAUSS, Marcel. Ensaios de so-
que os fazem acreditar que são melhores ciologia. São Paulo: Editora Perspectiva,
que os policiais da tropa por eles consi- 2001. p. 397-455.
derada comum ou convencional, ou que
devem ser violentos, já que o símbolo da EI COMUM, RAÇA DO CARALHO –
faca na caveira traduz esse sentimento. CANÇÕES DE TFM. 2017. Disponível
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S O B RE O S I GNI FI C AD O D E “ SER C AVEI R A” PAR A POL IC IAIS MIL ITAR E S DE TROPA S E SPE C IAIS NO BR A SIL 69
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

O AUMENTO DA INFLUÊNCIA
DAS ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS:
A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DOS MODELOS
TEÓRICOS DA CRIMINALIDADE

THE INCREASE OF THE INFLUENCE OF CRIMINAL


ORGANIZATIONS:
THE IMPORTANCE OF THE STUDY OF
THEORETICAL MODELS OF CRIME

Luis Humberto Nunes Quezado1

O
RESUMO
crime organizado é um mal a ser combatido com veemência em nossa sociedade,
pois tem conseguido atrair às suas fileiras pessoas cada vez mais jovens. Os
atrativos apresentados pelas organizações criminosas contêm as respostas para que
as forças de segurança possam fazer frente a esse grave problema social. Nesse sen-
tido, o estudo dos modelos teóricos da criminalidade pode nos fornecer indícios que
apontam para uma série de fatores criminógenos, bem como as formas através das
quais podemos combate-los.

Palavras-chave: Criminologia. Criminalidade. Sociedade. Crime Organizado.

ABSTRACT
Organized crime is an evil to be fought vehemently in our society, as it has managed to
attract its younger and younger people to its ranks. The attractions presented by cri-
minal organizations contain the answers so that the security forces can cope with this
serious social problem.In this sense, the study of theoretical models of crime can provi-
de us with indications that point to several criminogenic factors, as well as the ways in
which we can combat them.

Keywords: Criminology. Crime. Society. Organized crime.

1 Especialista em Direito Público pela Fanor Devry Brasil. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus. Auxiliar
de Perícia da Perícia Forense do Estado do Ceará.

70 O AU M E N TO DA I NFLU ÊNCI A DA S ORG ANI Z AÇÕES C R IMINOSA S:


A I M P O RTÂNCI A D O EST U D O D OS M OD ELOS T EÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

1 Introdução Sobre a vítima, deve-se mencionar


que há, inclusive, um capítulo da ciência
O profissional de segurança públi- criminológica que se atém ao estudo da
ca, desde a sua formação inicial, inde- figura das pessoas que sofrem as con-
pendente do cargo que tenha a assumir sequências do crime. Neste azo, BERIS-
nos quadros de sua própria corporação, TAIN (2000) mostra-nos, de maneira im-
sabe que, inexoravelmente, terá contato pecável, sua definição de vítima:
com a criminalidade. Nesse sentido, afi-
gura-se importantíssimo que esse profis- “À luz da atual doutrina vitimológica,
sional tenha conhecimento dos fatores por vítima deve-se entender um cír-
culo de pessoas naturais e jurídicas
que induzem o cidadão à criminalidade.
mais amplo que o sujeito passivo da
Acerca disso, a Criminologia, ciência infração, incluindo-o, mas também
pertinente ao tema, possui quatro prin- suplantando-o. Vítimas são todas
cipais objetos de estudo, a saber: 1) O as pessoas naturais e jurídicas que,
direta ou indiretamente, sofrem um
crime; 2) O criminoso; 3) A vítima; 4) O
dano notável – não basta qualquer
controle social. dano(...) Por exemplo, quando os
Acerca do crime, aspecto inarredável membros do grupo terrorista ETA as-
do presente estudo, a doutrina clássica de sassinam um funcionário – o médico
— do cárcere de El Puerto de Santa
direito penal ensina-nos que, ao menos
Maria, depois de haver-lhe ameaçado
sob o prisma jurídico, em sua concepção por carta, naturalmente sua esposa
analítica, crime é o fato típico, antijurídico e filhos são sujeitos passivos, vale
e culpável. GRECO (2018), referenciado o dizer, vítimas diretas, em sentido
restrito, do delito; mas também são
festejado mestre Eugênio Raul Zaffaroni,
vítimas indiretas e, em sentido am-
traz-nos esta definição de crime: plo (mas verdadeiras vítimas desse
delito), os outros médicos dos cár-
“Delito é uma conduta humana indi- ceres espanhóis que nesses dias
vidualizada mediante um dispositivo haviam recebido cartas similares
legal (tipo) que revela sua proibição do ETA ameaçando-lhes como ao
(típica), que por não estar permitida médico assassinado.” (Grifou-se)
por nenhum preceito jurídico (causa
de justificação) é contrária ao orde-
namento jurídico (antijurídica) e que, Por fim, mas não menos importan-
por ser exigível do autor que atuasse
te, o controle social, também, afigura-se
de outra maneira nessa circunstân-
cia, lhe é reprovável (culpável).” como objeto de estudo da Criminologia.
Controle social, em poucas palavras, é
Atentar para o sujeito ativo do crime, o conjunto de recursos materiais, sim-
também, afigura-se essencial para a Crimi- bólicos, institucionais e sociais que tem
nologia. Naturalmente, sendo o crime algo por objetivo garantir que os indivíduos
que surge no seio da sociedade, alguém o se comportem de acordo com as normas
deve praticar. E esse alguém é o criminoso. sociais vigentes.

O AU M E NTO DA INFLUÊ NC IA DA S ORG ANIZ AÇÕE S C R IMINOSA S: 71


A I M P ORTÂNCI A D O E STUDO DOS MODE LOS TE ÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Dessa forma, a Criminologia, en- Percebamos, pois, que a caracte-


quanto ciência, parte desses quatro im- rização de determinado grupo enquan-
portantes caracteres da sociedade para, to organização criminosa necessita do
agregando conhecimento de várias ciên- atendimento de alguns requisitos. A exis-
cias, explicar os mais diversos fenôme- tência de um número mínimo de quatro
nos criminosos. E ela o faz através dos pessoas, organizado em uma estrutura –
modelos teóricos da criminalidade, que ainda que informal, com divisão de tare-
buscam nos fornecer uma explicação fas, com o objetivo de obter vantagens de
para o comportamento desviante. qualquer natureza, através da prática de
Para o presente estudo, iremos fo- infrações penais, cujas penas máximas
car nas organizações criminosas, e as ultrapassem quatro anos, ou que sejam
formas através das quais esses grupos de caráter transnacional.
sociais conseguem atrair um número, Temos, nessa senda, elementos de
cada vez maior, de pessoas para sua es- ordem objetiva, quais sejam, o número
fera de poder. Para tanto, é necessário, mínimo de integrantes, o grupo estrutu-
antes de adentrarmos nos modelos te- ralmente organizado, a pena máxima dos
óricos trazidos em nosso estudo, enten- crimes perpetrados ser superior a quatro
dermos o que vem a ser, juridicamente, anos, ou seu caráter transnacional.
uma organização criminosa. Todavia, o elemento volitivo de ca-
ráter eminentemente subjetivo, também,
2 Organizações Criminosas guarda capital importância, na medida
em que a organização criminosa tem por
Nosso ordenamento jurídico trouxe- objetivo obter, de forma direta ou indi-
-nos, por intermédio da Lei nº 12.850, de 2 reta, vantagens de qualquer natureza,
de agosto de 2013, a definição legal de or- naturalmente, para retroalimentar toda
ganização criminosa, conforme se depre- a estrutura necessária para a perpetua-
ende através da leitura do § 1º do art. 1º do ção da atividade criminosa.
referido diploma legal, a seguir transcrito: Nesse sentido, resta cristalino en-
tender que boa parte dos grupos crimi-
“§ 1º. Considera-se organização cri- nosos que atuam em nosso estado estão
minosa a associação de 4 (quatro) perfeitamente amoldados ao conceito
ou mais pessoas estruturalmente or-
legal de organização criminosa, uma
denada e caracterizada pela divisão
de tarefas, ainda que informalmente, vez que, conforme é fartamente noticia-
com objetivo de obter, direta ou in- do, as facções criminosas têm inovado
diretamente, vantagem de qualquer em suas práticas, não se restringindo,
natureza, mediante a prática de infra-
apenas, à obtenção de vantagens eco-
ções penais cujas penas máximas se-
jam superiores a 4 (quatro) anos, ou nômicas com, por exemplo, o tráfico de
que sejam de caráter transnacional.” drogas e a prostituição, indo mais além,
praticar uma série de atos de violência,
como forma de demonstração de poder.

72 O AU M E N TO DA I NFLU ÊNCI A DA S ORG ANI Z AÇÕES C R IMINOSA S:


A I M P O RTÂNCI A D O EST U D O D OS M OD ELOS T EÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

A ideia disseminada de que há o Enquanto teóricos, os modelos par-


surgimento de uma organização para- tem de determinados pressupostos, bem
lela ao Estado Democrático de Direito, como de alguma ciência que sirva de
certamente, causa temor na população, supedâneo para as teorias formuladas.
ao passo que exige, por parte do poder Existem modelos que partem, por exem-
público, uma atuação incisiva, de forma plo, da Psiquiatria Forense, que buscam
a reprimir as intercorrências existentes, a explicação da conduta criminosa na
bem como, na medida do possível, evitar figura do criminoso que, detentor de al-
que os crimes futuros ocorram. guma disfunção psiquiátrica, cede ao
O enrijecimento das leis penais, a comportamento desviante.
exemplo do Projeto de Lei nº 6665/2016, No presente artigo, iremos focar a
que inclui a corrupção no rol dos crimes perspectiva nos modelos macrossocio-
hediondos é, certamente, parte da solu- lógicos, os quais partem do pressupos-
ção, diante da possibilidade de preven- to de que o crime decorre de processos
ção criminal geral imposta pela norma sociais associativos e dissociativos, bus-
penal incriminadora. cando nas interações sociais as explica-
Outra parte da solução do problema ções para o comportamento criminoso.
passa pela elaboração e cumprimento No contexto apresentado por esses
de políticas públicas voltadas à distribui- modelos, o crime seria, portanto, fruto
ção e redistribuição de renda, geração da dinâmica social.
de empregos, dentre outros aspectos
sociais e econômicos. A seu turno, o en- 3.1 A Escola de Chicago:
tendimento acerca das formas, através Sociologia Urbana
das quais essas organizações atraem os
jovens para as suas fileiras, tragando-os A Escola de Chicago recebeu esse
para o crime, também, é necessário. nome por ser originária de um grupo de
No intuito de responder essas pergun- professores e pesquisadores da Universi-
tas existem os modelos teóricos da crimina- dade de Chicago que chegou em conclu-
lidade, que buscam entender, sob as mais sões semelhantes acerca da criminalidade
variadas vertentes, o fenômeno criminoso. que assolava essa cidade na década de 20.
Essa escola é, desde sua criação, uma das
3 A Criminologia e os modelos correntes mais influentes e poderosas da
sociológicos da criminalidade moderna Sociologia Criminal.
Historicamente, foi a primeira tenta-
Conforme já se apontou no presen- tiva de compreender a criminalidade ur-
te estudo, a Criminologia é a ciência que bana, combinando conceitos teóricos e
estuda o crime, o criminoso, a vítima e pesquisas de campo, que eram feitas prin-
o controle social. Há, nessa importante cipalmente através de inquéritos sociais,
ciência, uma série de modelos que bus- os chamados “social surveys”, que consis-
cam explicar a criminalidade. tiam em questionários investigativos.

O AU M ENTO DA INFLUÊ NC IA DA S ORG ANIZ AÇÕE S C R IMINOSA S: 73


A I M P ORTÂNCI A D O E STUDO DOS MODE LOS TE ÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Os resultados obtidos através dos gues, como formas de controle social.


inquéritos sociais serviriam para amos- Com o crescimento desordenado dos
tragem estatística, e, ao lado desses centros urbanos, desencadeou o enfra-
resultados, eram analisados casos in- quecimento dos controles sociais infor-
dividuais (“individual cases”), análises mais (família e igreja, por exemplo). Os
biográficas de casos concretos que per- jovens ofereciam resistência a subme-
mitiriam aos pesquisadores traçar uma terem-se a essas formas de controle, ao
verdadeira carreira delitiva dos indiví- passo que se sentiam atraídos para as
duos na cidade de Chicago. gangues que se formavam nos guetos.
Parte, portanto, de uma abordagem Contudo, as espécies de controle
macrossociológica do ambiente urbano, social informal cederam espaço para o
na medida em que tem por objeto a cidade controle social formal, notadamente, a
como um todo, e as inter-relações existen- escola que buscava reproduzir a ordem
tes entre os indivíduos. A cidade de Chi- social vigente, e a polícia, que surgia
cago passou a ser o efetivo laboratório de como força de repressão contra os que
experiências sociais. Ela inicia um proces- desrespeitavam as leis.
so que aborda as relações antropológicas Assim, aliando-se à falta de controle
que se desenvolvem e se firmam entre os social e às insalubres condições de mora-
componentes do grupo social urbano. dias as quais as pessoas estavam sujeitas,
Os estudos mais importantes che- chegou-se, também, à conclusão de que o
garam à conclusão de que o crescimen- crime, também, é um produto urbano.
to acelerado das cidades contribuiu para MOLINA (2003) resume bem a teo-
dificultar a vida da população, notada- ria, da seguinte forma:
mente, com relação à moradia. A falta
de organização e planejamento de uso “En cuanto teoría de la criminalidad,
e ocupação do solo dão ensejo ao sur- resaltó la importancia etiológica del
factor ambiental y su estrecha cor-
gimento de moradias com condições in-
relación con los índices de la de-
salubres, tais como os cortiços, ou “te- lincuencia. Que las características
nementhouses”, como é chamada na físicas y sociales de determinados
literatura especializada. Tais moradias espacios urbanos de la moderna
ciudad industrial generan la crimina-
deram origem aos guetos, demonstrando
lidad y explican, además, la distribu-
que a desorganização social seria uma ción geográfica del delito por áreas
externalização do fenômeno criminal. o zonas es la tesis más relevante de
Os avanços gigantescos favoreciam la Escuela de Chicago”
à mobilidade social, fazendo com que se
dificulte que a vizinhança possua uma 3.2 A Aprendizagem Diferencial
identidade própria. As pessoas tornam-se,
então, anônimas e indiferentes entre si. O sociólogo Edwin Sutherland formu-
Outro fenômeno explicado pela teo- lou essa teoria que teve como objeto de es-
ria de Chicago foi o surgimento das gan- tudo os “whitecollar crimes”, crimes do cola-

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A I M P O RTÂNCI A D O EST U D O D OS M OD ELOS T EÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

rinho branco (ou cifra dourada de crimes), crime, não podendo explicar, por exem-
cujo conceito foi criado na década de 30. plo, as hipóteses de crimes praticados
De acordo com Sutherland, o crime é por pessoas emocionalmente instáveis,
algo aprendido, copiado do grupo social, ou fruto de um lar desestruturado. Nessa
não sendo herdado, criado, ou mesmo de- senda, buscar explicar todos os crimes,
senvolvido pelo sujeito. O centro de sua através da associação diferencial seria
teoria repousa na definição própria de um reducionismo perigoso, para fins de
cada grupo social acerca do que é favorá- entendimento do fenômeno.
vel ou desfavorável ao delito. Ou seja, as- Muito embora o início dos estudos
sociação diferencial nada mais é do que o acerca da associação diferencial tenha
processo de internalização de comporta- tido como objeto os crimes de colarinho
mentos desviantes, decorrente da apren- branco, o mesmo pode ser aplicado às
dizagem de outros membros do grupo. gangues urbanas, aos grupos empresa-
Confere, em consequência, um sentimen- riais e até mesmo aos partidos políticos
to de pertença do criminoso em potencial, envolvidos em escândalos de corrupção.
relativamente, ao grupo do qual aprendeu Yakuza, Irmandade Ariana, PCC,
o comportamento desviante. Texas Syndicate e até mesmo a brutal
Para MOLINA (2000) MS-13 salvadorenha são exemplos
práticos da associação diferencial. Os
“(...) no se ´nace´delincuente. El cri- seus membros, ao entrarem em suas
men no se ‘hereda’ ni se ‘imita’ ni se fileiras, estão dispostos a aprender (e
‘inventa’; ni es algo ‘fortuito’ o ‘irra-
reproduzir) os mais diversos e cruéis
cional’: el crimen se aprende.”
comportamentos criminosos.
Sutherland não buscou, em seus es-
tudos, verificar o motivo pelo qual os indi- 4 Considerações finais acerca
víduos associam-se, pois existem outras das teorias apresentados
teorias sociológicas que buscam explicar
esse fato, por exemplo, a subcultura de- Conforme se verificou, a Escola de
linquente. O importante, na associação Chicago aplica-se a determinados fenô-
diferencial é a forma através da qual o menos criminais. O crescimento desor-
comportamento desviante é aprendido e denado da cidade leva, também, a uma
repetido, servindo o criminoso como mul- desorganização dos elementos integra-
tiplicador desse ensino. dores da sociedade. Essa desorganiza-
Em resumo, parte do comportamen- ção leva ao surgimento de moradias in-
to para Sutherland, seja legal ou crimino- salubres, de maneira semelhante ao que
so, é aprendido em decorrência de asso- hoje em dia damos o nome de “favela”.
ciações que o indivíduo faz no decorrer de Por via de consequência, a presença
sua vida. O próprio autor lembra de con- fraca do estado, que permite o mau uso e
siderar que a teoria, de fato, não explica ocupação do solo, mitiga a coesão social
todas as expressões através das quais o que serve de pressuposto para o controle

O AU M E NTO DA INFLUÊ NC IA DA S ORG ANIZ AÇÕE S C R IMINOSA S: 75


A I M P ORTÂNCI A D O E STUDO DOS MODE LOS TE ÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

social formal. Assim, o enfraquecimento próprio estado possam desestimular tais


do controle social formal dá espaço para práticas e enfraquecer tais organismos.
outras formas de controle. Conhecer os meandros inerentes aos
Tomemos como exemplo as já co- processos sociais envolvidos na dinâmi-
nhecidas retaliações aos criminosos que ca social integrante dessas organizações
efetuam crimes em determinadas comu- sua estrutura interna, divisão de tarefas
nidades. O tribunal do crime sentencia e e atribuições entre seus membros, e as
executa quem pratica roubos nas comu- formas através das quais é feito o recru-
nidades. Ou seja, a desorganização so- tamento de novos integrantes às suas
cial surgida com o crescimento desorde- fileiras perfaz-se essencial para que a so-
nado das cidades confere espaço fértil ciedade, como um todo que possa fazer
para a proliferação de formas perigosas frente a esse triste fenômeno.
e cruéis de controle social informal. Dessa forma, tomando por base os
A aprendizagem diferencial trazida ensinamentos propostos por essas duas
em ponto anterior também nos conse- correntes metodológicas, o agente de
gue demonstrar uma vertente perigosís- segurança pública, bem como o Estado
sima da transmissão de processos so- em si, podem reprimir, com maior eficá-
ciais bastante típicos das organizações cia, o crime que ocorre neste momento,
criminosas. Premidas da necessidade de bem como trabalhar no sentido de que
retroalimentar suas fileiras com novos seja evitado o crime que ainda ocorrerá.
integrantes, as organizações criminosas
sempre prezam pela padronização de 5 Referências
seus rituais, reforçando o vínculo social
existente entre seus membros. BERISTAIN, Antonio. Nova Criminologia à
Afigura-se, pois, imprescindível, o luz do direito penal e da vitimologia. São
entendimento acerca de tais teorias, Paulo: Editora UnB, 2000;
além de várias outras que, porventura,
possam adaptar-se ao fenômeno das or- BRASIL. Lei nº 12.850, de 2 de agosto
ganizações criminosas, as quais, confor- de 2013. Brasília,DF, ago 2013. Disponi-
me se sabe, profissionalizaram o crime. vel em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
Naturalmente, o estudo isolado de vil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12850.
alguma teoria pode ser incipiente para htm>. Acesso em:
a explicação do fenômeno criminoso em
si, sendo necessária, para tal desiderato, PENTEADO FILHO, Nestor Sampaio. Ma-
a consideração paralela de uma série de nual Esquemático de Criminologia 2ª ed.
fatores, tais como pobreza, desemprego São Paulo: Saraiva, 2012.
e até meios de comunicação.
Todavia, entender a dinâmica so- DE MOLINA, Antonio Garcia Pablos. Tra-
cial que integra essas organizações é tado de Criminología 3ª Edición. Valen-
imprescindível para que a sociedade e o cia-Espanha: TirantLoBlanch: 2003.

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A I M P O RTÂNCI A D O EST U D O D OS M OD ELOS T EÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

YOUNG, Jock. El Fracaso de la criminolo-


gía: La necesidad de un realismo radical.
Crimonología y Control Social – 1 El poder
punitivo del estado. Editorial Juris – Ar-
gentina, 2000.

SUTHERLAND, Edwin Hardin. Criminol-


ogy. Library of Congress Cataloging in
Publication Data: EUA, 1978;

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal:


parte geral, volume I – 19. ed. – Niterói,
RJ: Impetus, 2017.

O AU M ENTO DA INFLUÊ NC IA DA S ORG ANIZ AÇÕE S C R IMINOSA S: 77


A I M P ORTÂNCI A D O E STUDO DOS MODE LOS TE ÓR ICOS DA C R IMINAL IDADE
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PRINCIPAIS CAUSAS DE REPROVAÇÃO DOS PROJETOS


DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E PÂNICO
(PSCIPs) SUBMETIDOS À COORDENADORIA DE
ATIVIDADES TÉCNICAS DO CEARÁ NO ANO DE 2017

MAIN REASONS FOR DISAPPROVAL OFSAFETY PROJECTS


AGAINST FIRE AND PANIC SUBMITTED TO THE COORDINATION
OF TECHNICAL ACTIVITIES OF CEARÁ IN 2017

Marcos Aurélio Silva Lima1


Roberto Hugo Martins2
Lys Filincowsky Ribeiro Lima3
Loren Teixeira Tavares4

A
RESUMO
Coordenadoria de Atividades Técnicas (CAT) é o órgão operacional do Corpo de
Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) responsável pela engenharia de incêndio. Ela
realiza pesquisa científica, emite pareceres técnicos, elabora normas técnicas, realiza
vistoria de estabelecimentos referentes à segurança contra incêndio, além de fazer a
análise de Projetos de Segurança Contra Incêndio e Pânico (PSCIP). Em relação aos
PSCIPs, observa-se um alto índice de reprovação. Essa realidade não somente onera a
força operacional dos oficiais analistas, que precisam analisar o mesmo projeto várias
vezes, mas também atrasa o processo de certificação dos estabelecimentos, perante os
diversos órgãos de regularização do estado e do município. Nesse sentido, o presente
artigo visa identificar e relatar os principais erros cometidos nos PSCIPs submetidos à
análise da CAT no ano de 2017. Para isso, todos os laudos de correção de projetos emi-
tidos, no ano de 2017, foram coletados e os erros foram classificados e contabilizados.
Essa análise mostrou que os principais erros são sobre os dados iniciais da edificação,
sistemas de hidrantes e canalização preventiva e saída de emergência.A divulgação
desses dados é relevante por publicizar informações anteriormente observadas na prá-
tica diária de análise,porém nunca estudadas e catalogadas. Essas informações têm o
potencial de auxiliar projetistas na elaboração de projetos com maior probabilidade de
aprovação imediata.

1 Especialista em Gestão de Desastres com MBA em Projeto, Execução e Controle em Engenharia Elétrica pela Universidade de
Fortaleza. Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Ceará. Graduado em Engenharia de Segurança do
Trabalho pela Universidade de Fortaleza. Capitão do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.
2 Mestre em Matemática pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Gestão de Desastres com MBA em Projeto, Execução
e Controle em Engenharia Elétrica pela Universidade de Fortaleza. Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal
do Ceará. Capitão do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.
3 Especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Gama Filho. Graduada em Fisioterapia pela Universidade Paulista.
Soldado do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.
4 Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Fortaleza.

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Palavras-chave: Projeto de Segurança contra Incêndio e Pânico. Laudo. Avaliação de


projetos. Incêndio. Coordenadoria de AtividadesTécnicas.

ABSTRACT
The Coordination of Technical Activities is the operational branch of the Military Firefigh-
ters of Ceará in charge of the fire engineering. It conducts research, issues technical re-
ports, formulates technical standards, inspects premises concerning their fire safety, and
analyzes the Projects against Fire and Panic. Concerning those projects, there is a current
high level of disapproval, which not only hinders the operational force of the analysts, who
need to analyze the same project several times, but also delays the certification process
of the premises in the other state and municipal regularization agencies. Therefore, this
paper aims to identify and report the most common mistakes made in the projects sub-
mitted to the Coordination of Technical Activities in 2017. To do so, all evaluation reports
with a disapproving result of projects submitted in 2017 were collected and the mistakes
were categorized and counted. Such analysis showed that the most common mistakes are
initial data of the building, hydrant and preventive piping systems, and emergency exits.
These data are relevant for they publicize information previously only observed by the
analysts, but never investigated and categorized before. The information herein published
has the potential to assist engineers and architects to design projects with a higher chance
of immediate approval.

Keywords:Project against Fire and Panic.Evaluation Report. Projects Evaluation. Fire


Prevention. CoordinationofTechnicalActivities.

1 Introdução

As ocorrências envolvendo fogo de 2012 (BRUSHLINSKY et al, 2012), em


sem controle não são raras e, frequen- análise estatística feita com 32 países,
temente, mostram-se devastadoras. encontrou 23.900 mortes por incêndio,
Segundo o relatório de Karter (2009), no ano de 2010, mesmo consideran-
em 2008, a cada 22 segundos algum do a dificuldade de obtenção de dados
quartel recebeu uma chamada de in- na América do Sul, Ásia e África. Essa
cêndio em algum país do mundo, sendo dificuldade permaneceu presente na
que a cada 61 segundos esse incêndio pesquisa realizada em 2012, em que
se tratava de fogo em edificação. Outro nenhum dado da América Latina é des-
dado relevante é que 515 mil incêndios crito no estudo por conta da inconsis-
em edificações foram relatados nos Es- tência de estatísticas locais nessa área
tados Unidos no ano de 2008. O relató- (BRUSHLINSKY et al, 2012).
rio mundial de estatística sobre o fogo

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R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Com a evolução da construção civil, Verifica-se, desse modo, que grandes


verifica-se, também, a evolução da com- catástrofes são resultado de múltiplos fa-
plexidade e dos riscos dos estabelecimen- tores, ocorrendo, simultaneamente, por
tos. Estima-se que incêndios em edifica- isso são necessárias muitas providências
ções comerciais, de prestação de serviços, (BUKOWSKI, 2006). A necessidade de ati-
industriais ou residenciais estejam em tor- vação de outras unidades de bombeiros
no de um terço de todas as ocorrências de nas ocorrências de incêndio no Brasil
incêndio registradas no mundo (CORRÊA esbarra na escassez de recursos. Essa
et al, 2015).As atuais modalidades de ocu- mobilização de bombeiros, associada à
pação e a crescente verticalização trazem verticalização, traz a necessidade da pre-
novos riscos de operação de combate às sença de sistemas preventivos de segu-
chamas, necessitando do uso quase ex- rança contra incêndio efetivos.
clusivo dos sistemas de prevenção de Ao debruçarmos-nos na temática
incêndio, sobretudo em incêndios de pro- referente ao avanço do número de edi-
gresso rápido (OLIVEIRA, 2005). Segundo ficações de alto risco percebe-se um
Ono (2007, p. 99),a velocidade com que o excepcional avanço tecnológico na en-
incêndio pode se propagar no interior do genharia de incêndio. Esse fato tem
seu compartimento ou pavimento de ori- contribuído para a expansão da visão
gem, e sua capacidade de expansão para preventiva no que concerne à prevenção
os pavimentos vizinhos, ou até para edifí- de incêndio. Os sistemas preventivos,
cios vizinhos é um dos pontos nevrálgicos quando projetados apropriadamente,
da segurança contra incêndio. conseguem debelar princípios de incên-
A carga de incêndio, amplamente, dio independente da altura da edifica-
abarcada pela Norma Técnica nº 008 ção, não ficando o patrimônio e as pes-
(CEARÁ, 2008c), é um dos fatores mais soas ali presentes dependentes somente
significativos quanto à intensidade, dura- da força reativa do Corpo de Bombeiros.
ção e propagação de um incêndio, tendo A área de segurança contra incên-
em vista que os mobiliários, as paredes, dio foi impulsionada no país, especifica-
divisórias, piso e teto são elementos com- mente no Estado de São Paulo, na pri-
bustíveis com propriedades térmicas que meira metade da década de 70. Nessa
alimentam as chamas. Sem esses ele- década, ocorreram incêndios de gran-
mentos, as cargas de incêndio são mí- des proporções que sensibilizaram au-
nimas e o risco de incêndio passa a ser toridades e acadêmicos, sendo eles os
baixo. A Norma Técnica nº 002 (CEARÁ, do Edifício Andraus e do Edifício Joelma
2008b, p.5) define carga de incêndio (ONO, 2007). Uma forma de lidar com os
como sendo a “soma das energias calo- riscos na construção civil é perceber que
ríficas possíveis de serem liberadas pela é impossível identificar todos os riscos
combustão completa de todos os mate- (SILVA, 2012).Todavia, uma legislação ri-
riais combustíveis contidos em um espa- gorosa no que tange à segurança contra
ço, inclusive o revestimento das paredes. incêndio, um aparelho de resposta rápi-

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da e eficaz para combater as chamas e ria de estabelecimentos no que se refere


uma mentalidade prevencionista disse- à segurança contra incêndio e pânico,
minada podem reduzir os números já ci- além da realização das análises de pro-
tados (CORRÊA et al, 2015). jetos de segurança contra incêndio e pâ-
Um edifício seguro contra incêndio nico (CEARÁ, 2004a).
pode ser definido como aquele em que Nesse sentido, a CAT realiza a ação
“há alta probabilidade de sobrevivência preventiva e atua fiscalizando os siste-
a um incêndio para todos os ocupantes mas preventivos de incêndio em edifica-
sem sofrer qualquer ferimento e no qual ções e áreas de risco do estado do Ceará.
danos à propriedade serão confinados A missão de prevenção encontra ampa-
às vizinhanças do local em que o fogo se ro legal não somente em leis federais,
iniciou” (HARMATHY, 1984, p. 19). como também nas estaduais, como se
vê na Constituição do Estado do Ceará
2 A Engenharia e a Prevenção (CEARÁ, 1989), no art. 190, inciso I, que
contra incêndio no Corpo diz que, entre outras atividades, incum-
de Bombeiros Militar be ao Corpo de Bombeiros, no âmbito
do Ceará (CBMCE) estadual, a coordenação da prevenção a
incêndio. Os objetivos da prevenção são
A Lei nº 13.438, de 7 de janeiro de a garantia da segurança à vida das pes-
2004, no seu art. 4º, define a estrutu- soas que se encontrarem no incêndio, a
ra organizacional básica do Corpo de prevenção da conflagração e propaga-
Bombeiros Militar do Estado do Ceará ção do incêndio, a proteção do conteúdo
(CBMCE), distribuída em diversas secre- e a estrutura do edifício e a minimização
tarias e órgãos de execução, nas quais dos danos materiais (SÃO PAULO, 2011).
são desenvolvidas atividades de cunho A função preventiva é realizada,
administrativo e operacional (CEARÁ, também, pela execução de vistorias e
2004a). Essa lei, na seção primeira do análises de projetos. A vistoria dá-se,
capítulo IV, cita, em seu art. 17o, a Coor- conforme preconiza a Norma Técnica 01
denadoria de Atividades Técnicas (CAT) (CEARÁ, 2008a),por meio da presença
como o órgão responsável pelo controle do bombeiro militar fiscal no estabeleci-
da observância dos requisitos técnicos mento. Já a análise do PSCIP dá-se por
contra incêndios e de projetos de edifi- meio da análise de um bombeiro militar
cações antes ou depois de sua liberação com formação em engenharia, arquite-
ao uso (CEARÁ, 2004a). tura ou capacitação adequada ao servi-
Desse modo, a função de fiscalizar ço por meio de curso específico.
os sistemas preventivos compete à CAT O resultado do trabalho do analista
do CBMCE que ainda tem como missão a de projetos de incêndio, profissional que
produção de pesquisa científica, a emis- pauta a análise em normas específicas,
são pareceres técnicos, a produção de é a emissão de documentos de certifica-
normas técnicas, a realização de visto- ção. Os documentos podem ser o Certifi-

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cado de Aprovação de Projeto ou o Lau- ter prescritivo das regulamentações, o


do de Correção de Projeto.O Certificado que acaba não permitindo soluções al-
de Aprovação de Projeto é o documento ternativas. Cabe, ainda, ressaltar que as
que indica que o projeto está de acordo medidas de segurança contra incêndio
com a legislação de incêndio, estando introduzem um custo adicional à edifi-
apto a ser executado e, posteriormen- cação em um momento de crise econô-
te, vistoriado. Já o laudo de correção de mico-financeira profunda, sendo o setor
projetos é o documento que indica que de construção um dos mais penalizados
constam irregularidades técnicas no (SILVA, 2012).
projeto, precisando então ser corrigido Nessa perspectiva, este artigo tem
e, posteriormente, reanalisado. como objetivo averiguar as principais ir-
A irregularidade nos sistemas de regularidades presentes nos laudos de
segurança e proteção contra incêndio correção de projetos nos PSCIPs sub-
e pânico é definida como qualquer fato metidos à CAT, no ano de 2017, a fim de
ou situação de inobservância às exigên- flagrar os pontos de maior fragilidade
cias do código de legislação pertinente dos projetos e, assim, dirimir dúvidas e
ao assunto que comprometem o perfei- promover iniciativas que diminuam a in-
to funcionamento ou operacionalização cidência desses erros.
daqueles sistemas, provocando risco à
integridade e à vida das pessoas, bem 3 Metodologia
como à segurança do patrimônio público
ou privado (CEARÁ, 2004b). O aumento da demanda por cer-
Os PSCIPs só podem ser elabora- tificação motivou a necessidade de
dos por profissionais com formação em análises mais aprofundadas dos dados
engenharia e/ou arquitetura; contudo, contidos no sistema CAT. Assim, para ve-
ainda assim, observa-se seu alto índice rificar as principais irregularidades, este
de reprovação. Desse modo, o processo estudo utilizou métodos quantitativos de
de análise frequentemente passa a ser pesquisa, analisando os dados de todos
visto somente como um item de atendi- os PSCIPs válidos, presentes no sistema
mento compulsório e burocrático à regu- web de processos utilizado para a in-
lamentação (ONO, 2007). Suspeita-se serção dos dados do estabelecimento e
que o alto índice de reprovação dê-se emissão de documentos da CAT, o SCAT.
por uma realidade elucidada por Ono No ano de 2017, foram submetidos à
(2007), como o fato da segurança con- análise 1.381 projetos, dos quais 649 fo-
tra incêndio ser pouco contemplada nas ram reprovados, mostrando o alto índice
disciplinas de engenharia e arquitetura, de reprovação de 47%.Conforme Norma
por nem sempre a exigência técnica se Técnica nº 001 (CEARÁ, 2008a), entre
traduzir em uma boa solução de projeto, os documentos necessários para dar-se
por falta de compreensão conceitual das entrada em um processo de certificação
exigências, ou ainda, por conta do cará- de PCSIP estão a planta de medidas de

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b. Saída de emergência;
segurança contra incêndio (doravante
prancha) e o memorial descritivo de se- c. Sistemas de hidrantes / Canaliza-
gurança contra incêndio e pânico (dora- ção preventiva;
vante memorial). A prancha é a repre- d. Sistema de Proteção Contra Des-
sentação gráfica da edificação contendo cargas Atmosféricas (SPDA);
a localização das medidas de segurança
contra incêndio. Já o memorial se refere e. Sistema de Detecção e Alarme de
à descrição dos cálculos de dimensiona- Incêndio (SDAI);
mento dos sistemas de segurança e de f. Central de Gás Liquefeito de Pe-
seus elementos constituintes. Esses dois tróleo (GLP);
documentos são a principal fonte de
g. Sinalização de emergência;
análise do analista e são, portanto, onde
se verificam os erros que podem fragili- h. Extintores;
zar a segurança contra incêndio. i. Iluminação de emergência;
Sendo assim, a metodologia empre-
j. Acesso de viatura;
gada consistiu em:
k. Sistema de Sprinklers.
a. Pesquisa bibliográfica, tomando
por base as normas técnicas para A seguir, os dados foram contabili-
análise dos dados; zados e suas porcentagens calculadas.

4 Resultados
b. Levantamento de dados de pran-
chas e memoriais, a partir das in-
A partir das categorias descritas aci-
formações contidas no SCAT, com
ma, os dados encontrados foram devida-
objetivo de qualificar os principais
mente classificados e tabulados. Primei-
motivos de reprovação.
ramente, foram analisados os erros mais
recorrentes encontrados em memoriais.
Após o levantamento de todos os Houve um total de 1.778 de erros encon-
processos com laudo de correção de pro- trados nos 649 projetos reprovados, e
jetos emitidos, dividiu-se as irregularida- esses foram divididos em 11 categorias.
des presentes nas pranchas e memoriais A tabela 1 apresenta os números para os
submetidos para análise em categorias erros encontrados em memoriais descri-
gerais para melhor tabulação dos dados, tivos, em ordem decrescente de ocorrên-
sendo estas: cia, juntamente, com o percentual.

a. Dados iniciais da edificação e


aspectos gerais / Carimbo e ob-
servações;

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Tabela 1 – erros mais comuns mas, mesmo assim, foram numerosas,


em memoriais descritivos somando-se a 670 ocorrência juntas.
A segunda análise foi a mesma da
Erro Quant. Percentual
anterior, porém realizada com os dados
Dados inicias
da edificação e 342 19,2% de pranchas. Houve um total maior de er-
aspectos gerais ros nas pranchas: 2.015. Os números por
Saída de categoria, bem como os percentuais es-
267 15,0%
emergência tão dispostos na tabela 2, a seguir.
Sistema de
hidrante / Tabela 2 – erros mais comuns em pranchas
261 14,7%
canalização
preventiva Erro Quant. Percentual
SPDA 238 13,4% Carimbos e
306 15,2%
SDAI 159 8,9% observações
Central de GLP 125 7,0% Saída de
292 14,5%
Sinalização de emergência
122 6,9% Sistema de
emergência
Extintores 103 5,8% hidrante /
274 13,6%
canalização
Iluminação de preventiva
96 5,4%
emergência
SPDA 246 12,2%
Acesso de viaturas 33 1,9%
Iluminação de
Sistema de 212 10,5%
32 1,8% emergência
sprinklers
Extintores 202 10,0%
TOTAL 1.778 100%
Central de GLP 176 8,7%
Sinalização de
173 8,6%
emergência
Como é possível verificar na tabela
SDAI 100 5,0%
acima, o erro mais comum, em 2017, nos
Sistema de
memoriais descritivos foi o de dados ini- 19 0,9%
sprinklers
ciais da edificação, que se referema ca- Acesso de
15 0,7%
racterização da edificação, com pouco viaturas
mais de 19% das ocorrências devido às TOTAL 2.015 100%
mais de 300 ocorrências. Em segundo
lugar, foram os problemas com saídas
de emergência (15%), seguidos de pro- Como pode ser visto, os quatro pri-
blemas com hidrantes e/ou canalização meiros erros mais frequentes em pran-
preventiva (14,7%) e com sistema de chas foram exatamente os mesmos en-
proteção contra descargas atmosfé- contrados nos memoriais descritivos,
ricas (13,4%). As demais ocorrências a saber: em primeiro lugar, problemas
tiveram menos de 10% de ocorrência, com carimbos e observações, com 306

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

ocorrências (15%). Esse tipo de erro, Tabela 3 – erros mais comuns em


normalmente, está relacionado à iden- pranchas e memoriais descritivos
tificação individual da prancha. Em se-
Erro Quant. Percentual
gundo lugar, problemas com saída de
Dados inicias,
emergência (14,5%), seguidos daqueles aspectos
com sistema de hidrante e canalização 648 17%
gerais, carimbo,
preventiva (13,6%) e sistema de pro- observações
teção contra descargas atmosféricas Saída de
559 15%
(12,2%). Com as pranchas, ainda, hou- emergência
ve mais dois erros com mais de 10% de Sistema de
hidrante /
ocorrência, aqueles com iluminação de canalização
535 14%
emergência (10,5%) e com extintores preventiva
(10%). Os demais casos tiveram menos SPDA 484 13%
de 10% de ocorrência, porém, novamen- SDAI 371 10%
te, são bastante numerosos, somando a Central de GLP 327 9%
um total de 438 erros. Sinalização de
O gráfico, a seguir, apresenta os da- 298 8%
emergência
dos dos erros mais comuns tanto em me- Extintores 276 7%
moriais descritivos quanto em pranchas. Iluminação de
196 5%
emergência
Acesso de
52 1%
Figura 1 – Comparativo dos erros viaturas
mais frequentes em memoriais Sistema de
47 1%
sprinklers
descritivos e em pranchas
TOTAL 3793 100%

Esses últimos dados mostram que,


apenas, quatro categorias, as quatro
mais frequentes das tabelas já apresenta-
das, são responsáveis por 59% dos erros,
mostrando-se como os principais tipos de
erro, aos quais os responsáveis por elabo-
ração de projetos devem ter mais cautela.

Ao todo, foram constatados, em 5 Conclusão


2017, um total de 3.793 erros, somando-
-se às ocorrências tanto em memoriais A atual transformação do merca-
como nas pranchas. A tabela 3 apresenta do de construção civil, a ocorrência de
os dados somados. grandes incêndios e o consequente au-

P RI N C IPAI S C AU SA S D E REP ROVAÇ ÃO D OS P ROJE TOS DE SE GUR ANÇ A CONTR A INC Ê NDIO E PÂNICO (P SC IPs) 85
SU B M E T I D OS À COORD ENAD ORI A DE ATIVIDADE S TÉ C NIC A S DO C E AR Á NO ANO DE 2 0 1 7
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

mento por certificação têm trazido à tona como investimento e não como gastos,
a importância de medidas de prevenção sendo, portanto, essenciais para a pro-
contra incêndio que amparem esse novo teção do patrimônio e, principalmente,
universo. Contudo, a legislação deve ser para a proteção à vida.
fielmente cumprida para que essas me-
didas de segurança possam se efetivar. 6 Referências
Além de legislação, é importante que
haja mais pesquisa e produção científi- BRASIL. Decreto n° 6.063, de 20 de março
ca na área. Assim, entende-se que este de 2007. Regulamenta no âmbito federal,
artigo fez emergir dados fundamentais dispositivos da Lei n° 11.284 de 2 de mar-
para o meio científico e para redução da ço de 2006, que dispõe sobre gestão de
vulnerabilidade e dos riscos em edifica- florestas públicas para a produção sus-
ções e áreas de risco. tentável, e dá outras providências. Diário
Esta pesquisa, por si só, não se mos- Oficial [da] República Federativa do Bra-
tra suficiente para aumentar a seguran- sil, Poder Executivo, Brasília, DF, 21 mar.
ça dos sistemas, mas entende-se que os 2007. Seção 1, p. 1.
dados aqui levantados podem ser veto-
res de diminuição de erros em PSCIPs, e, BRUSHLINSKY, N. N.; HALL, JR., J. R.;
consequentemente, de aumento da agi- SOKOLOV, S. V.; WAGNER, I. P. World
lidade na certificação quanto à seguran- Fire Statistics. Center of Fire Statistics
ça contra incêndio. Este estudo, além de of CTIF, 2012.
evocar a responsabilidade do ente pú-
blico em relação à segurança da popu- BUKOWSKI, R. W. An Overview of Fire
lação, é um início de preenchimento das Hazard and Fire Risk Assessment in Reg-
lacunas de informação que existem com ulation. ASHRAE transactions, v. 112, n.
relação à engenharia de incêndio.Assim, 1, 2006.
diante do alto índice de reprovação veri-
ficado na CAT, vale salientar a relevância CEARÁ. Constituição do Estado do
de uma maior atenção dos profissionais Ceará. Fortaleza, CE: INESP, 1989.
responsáveis pela elaboração dos PS-
CIPs às normas, principalmente, no que CEARÁ.Lei Nº 13.438, de 07 de janeiro
dizem respeito aos dados iniciais da edi- de 2004. Dispõe sobre a organização
ficação, saídas de emergência, hidran- básica do Corpo de Bombeiros Militar do
tes e/ou canalização preventiva, SPDA, Estado do Ceará (CBMCE), e dá outras
iluminação de emergência e extintores. providências.Diário Oficial do Estado
Por fim, entende-se que é primordial nº 005, 09 de janeiro de 2004a.
a criação de uma massa crítica de profis-
sionais que compreendam que medidas CEARÁ. Lei No13.556, de 22 de dezembro
de segurança contra incêndio e pânico, de 2004. Dispõe sobre a segurança con-
apesar de onerosas, devem ser vistas tra incêndio e dá outras providências.

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S U B M E T ID O S À COORD ENAD ORI A D E AT I VI DAD ES TÉ C NIC A S DO C E AR Á NO ANO DE 2 0 1 7
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

Diário Oficial do Estado nº 247, 30 de uploads/2014/09/Monografia_Marcos.


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P RI N C IPAI S C AU SA S D E REP ROVAÇ ÃO D OS P ROJE TOS DE SE GUR ANÇ A CONTR A INC Ê NDIO E PÂNICO (P SC IPs) 87
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R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA COMO ESTRATÉGIA


DE VISIBILIDADE ORGANIZACIONAL: RELATO DE
EXPERIÊNCIA NA POLÍCIA MILITAR DO CEARÁ

MEDIA COMMUNICATION AS A ORGANIZATIONAL


VISIBILITY STRATEGY: EXPERIENCE REPORT
IN THE MILITARY POLICE OF CEARÁ

Denisia Souza de Oliveira1

E
RESUMO
ste trabalho tem como objetivo a descrição e análise da comunicação midiática
empreendida pela Polícia Militar do Ceará (PMCE), enquanto estratégia de visibi-
lidade interna e externa ao sistema de segurança pública. Trata-se, especificamente,
de um relato de experiência desenvolvido a partir de ações estratégicas de comunica-
ção desenvolvidas pelo 2º Batalhão Policial Militar, através de sua Seção de Relações
Públicas. O corpus da pesquisa é composto por um Press Release, uma publicação
institucional e uma notícia veiculada por jornal de grande circulação, ambas deriva-
das daquele material informativo. Os resultados apontam que a construção de um
relacionamento com a mídia, pautado na ética profissional e na credibilidade de in-
formações, configura-se como uma possibilidade tangível.

Palavras-chave: Comunicação Midiática. Polícia Militar do Ceará. Relações Públicas.

ABSTRACT
The objective of this paper is describe and analyze the media communication carried out
by the Military Police of Ceará (PMCE) as a strategy for internal and external visibility
to the public security system. It is specifically an experience report developed from stra-
tegic communication actions developed by the 2nd Military Police Battalion through its
Public Relations Section. The corpus of the research is composed of a Press Release, an
institutional publication and a news article published by a newspaper of great circula-
tion, both derived from that information material. The results show that the construction
of a relationship with the media, based on professional ethics and the credibility of infor-
mation, configures itself as a tangible possibility.

Keywords: Media Communication. Military Police of Ceará. Public Relations.

1 Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Assessorias de Comunicação pelas Faculdades
Integradas de Patos. Bacharel em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas de Patos. Soldado da Polícia Militar do Estado
do Ceará.

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RE L ATO D E E XP ERI ÊNCI A NA P OLÍ CI A M I LI TAR DO C E AR Á
R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

Apontamentos iniciais podem se tornar vulneráveis à invisibili-


dade midiática, resultante da ausência
A comunicação constitui-se como de uma política de comunicação estra-
um dos processos fundamentais da ex- tégica ou, na pior das hipóteses, podem
periência humana porque perpassa o tornar-se reféns de uma visibilidade
desenvolvimento das relações entre os construída, exclusivamente, por agentes
sujeitos em todas as instâncias do co- externos, como foco na negatividade, fa-
tidiano. Essa premissa dialoga com os tor esse que pode estimular o descrédito
pressupostos que consideram a comu- das organizações perante seus públicos,
nicação como uma práxis humana de sejam elas públicas ou privadas.
transformação do mundo e engloba as Diante desse contexto, este traba-
múltiplas interações que se estabelecem lho tem como objetivo geral a descrição
no interior do tecido social. e análise da comunicação midiática em-
Reconhecer, como panorama ge- preendida pela Polícia Militar do Ceará
ral, o papel estratégico que a comuni- (PMCE), enquanto estratégia de visibi-
cação exerce tanto no âmbito pessoal lidade interna e externa ao sistema de
como profissional dos sujeitos tem sido segurança pública. Trata-se, especifica-
o grande desafio das organizações ins- mente, de um relato de experiência de-
titucionais na contemporaneidade, senvolvido a partir das ações estratégi-
principalmente, no que diz respeito ao cas de comunicação desenvolvidas pelo
desenvolvimento de práticas comunica- 2º Batalhão Policial Militar através de
tivas complexas que sejam capazes de sua Seção de Relações Públicas.
dialogar com a heterogeneidade de seus O corpus2 da pesquisa toma por
diferentes públicos. base um dos Press Release produzidos,
De modo particular, a comunicação em outubro de 2018, pela Seção de Re-
midiática tem atravessado o domínio da lações Públicas do 2º BPM e a reverbe-
experiência e do cotidiano dos indivíduos ração de seu conteúdo, tanto no âmbito
de forma mais intensa. Configurada pela institucional quanto jornalístico, veicula-
mediação tecnológica dos meios mas- do através do site da PMCE e de um jor-
sivos e, mais recentemente, das mídias nal de grande circulação no Ceará, em
sociais, essa nova ambiência vem alte- sua versão digital. Utilizam-se, metodo-
rando, profundamente, as dinâmicas in- logicamente, os fundamentos da análise
teracionais e as relações de sociabilida- de conteúdo para proceder a investiga-
de contemporâneas, sejam elas de cunho ção dos dados empíricos.
pessoal ou profissional. 2 O corpus apresentado é um exemplo prático do trabalho
As organizações institucionais que de relacionamento com a mídia e faz referência,
exclusivamente, a um tipo específico de ação comunicativa
não reconhecem essa mudança de para- empreendida pela autora no desenvolvimento de sua

digma como ponto-chave para o desen-


função como auxiliar da Seção de Relações Públicas do
2º BPM, na qual atua desde seu ingresso na PMCE no ano

volvimento de estratégias comunicacio-


de 2013. A pesquisa não abrange, portanto, outras ações
realizadas por este setor retroativa ao período mencionado.
nais adequadas a esses novos tempos A redução do corpus a uma unidade amostral se deve a
limitação estrutural do artigo.

COM U NI C AÇ ÃO M I D I ÁT I C A COMO E STR ATÉ GIA DE VISIBIL IDADE ORG ANIZ AC IONAL : 89
R E L ATO DE E X PE R IÊ NC IA NA POL ÍC IA MIL ITAR DO C E AR Á
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

Referencial teórico-metodológico senvolvimento organizacional na socie-


dade, destacando que a função apenas
A perspectiva de comunicação mi- técnica e instrumental já não é suficiente
diática que permeia este trabalho consi- para o alcance de bons resultados nessa
dera a mídia não apenas em sua dimen- área. Faz-se necessária, portanto, a ado-
são técnica, mas, sobretudo, em suas ção de ações comunicativas estratégicas,
dimensões sociais, culturais, políticas e capazes de articular uma comunicação
econômicas. Toma por base as matrizes organizacional dinâmica apta a agregar
interacionais propostas por Braga e Ca- valor às instituições.
lazans (2017), que percebem a força das É nesse sentido que as organizações
dinâmicas interativas produzidas a par- institucionais modernas buscam desen-
tir dos produtos midiáticos que circulam volver políticas estratégicas de comuni-
narrativas e representações do real. cação, com o objetivo de alcançar visi-
É fato que a comunicação midiática bilidade midiática e, consequentemente,
imbricou-se de tal forma na textura geral reconhecimento público. Sendo assim,
da experiência humana nas últimas déca- dois fatores são imprescindíveis para o
das que, praticamente, todos os campos alcance desse objetivo: as organizações
sociais pelos quais os sujeitos circulam precisam se tornar fontes de notícias e
estão impregnados pelas lógicas, mate- desenvolver meios de inserção na agen-
rialidades, convergências e dispositivos da temática dos veículos jornalísticos.
midiáticos. Sodré (2015) reflete sobre o No entanto, Marchiori (2011) orien-
fato de que os espaços tradicionais, in- ta que a divulgação de informações por
cluindo as instituições, têm sido atraves- parte das organizações não deve ser
sados pela midiatização que impõe uma realizada de forma aleatória, a escolha
quantidade e circulação de informações deve recair sobre assuntos que contem-
cada vez maior e mais rápida. plem as práticas sociais e, de alguma
Nesse sentido, Hjarvard (2014) ar- maneira, produzam sentido para seus
gumenta que a midiatização desenca- públicos. Diante desse contexto, faz-se
deia nas diferentes instituições sociais necessário compreender que os meios
a necessidade prática e reflexiva de de comunicação possuem regras, lin-
dispositivos e recursos midiáticos. Essa guagens e objetivos próprios e que por
perspectiva vislumbra que as instituições essa razão a busca por visibilidade midi-
precisam desenvolver ações comunicati- ática impõe-se, ao mesmo tempo, como
vas capazes de apresentar informações oportunidade e risco para a imagem das
com credibilidade, construir relações com organizações institucionais.
a mídia, pautada na ética profissional e Bueno (2014) argumenta que a pers-
operar de forma contínua essas práticas pectiva meramente operacional de inte-
nas redes comunicativas do cotidiano. ração entre organizações institucionais e
Kunsch (2016) aponta que a comu- a mídia está ultrapassada. A conjuntura
nicação é um fator estratégico para o de- societária que se estabelece a partir dos

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

processos de midiatização da sociedade RARETTO, 2001, p. 05). Segundo a defi-


requer das organizações novas formas de nição de Ribeiro (2014, p. 04) “são textos
pensar e exercer suas práticas comunica- relativamente curtos, semelhantes às
tivas. Para alcançar esse objetivo, faz-se notícias e contendo o que é considerado
necessário superar o amadorismo com pela entidade emissora como informa-
que as instituições têm atuado na área ção noticiosa. Procuram, como objetivo
de comunicação. central, serem publicados integralmente
Dispor de profissionais com forma- como notícias reais”.
ção acadêmica na área de comunicação Esse tipo de material informativo
pode ser um diferencial na busca pelo possui características próprias que con-
equilíbrio entre a conquista de visibilida- templam objetivos, estrutura, modelo e
de institucional, nos espaços noticiosos distribuição. Conhecer esses diferentes
e os efeitos indesejados que a exposição aspectos e respeitá-los durante a produ-
midiática pode acarretar. A construção de ção do Press Release é fundamental para
um relacionamento sólido com a mídia, que as informações institucionais sejam
pautado na ética e na credibilidade de in- encaminhadas aos veículos jornalísticos
formações, exige conhecimento técnico de forma padronizada, destacando que o
sobre a área, pautado no sistema de pro- fiel cumprimento desses requisitos depen-
dução jornalística, no funcionamento das de da competência técnica do profissional
redações dos veículos de comunicação e de comunicação.
na operacionalização de um amplo e com- Compreender, pois, as particularida-
plexo processo de gestão de informações. des do Press Release, enquanto produto
O campo da segurança pública, por específico da área de comunicação e sua
sua vez, não está alheio às transforma- importância nos processos de produção
ções sócioculturais da contemporanei- e publicação de notícias, é importante
dade vivenciando, de forma intensa, os para garantir visibilidade positiva das or-
processos de midiatização que se esta- ganizações, tanto no âmbito institucional
belecem na sociedade. A Polícia Militar quanto no âmbito jornalístico. Por essa
do Ceará, inserida dentro desse contexto, razão, esta pesquisa se ancora, metodo-
tem buscado aplicar estratégias de co- logicamente, nos fundamentos da análi-
municação capazes de dialogar de forma se de conteúdo para tentar demonstrar
mais dinâmica com seus públicos, através esse processo de forma prática.
de diferentes ferramentas comunicacio- Bardin (2000) define a análise de
nais. Uma dessas ferramentas é a produ- conteúdo como um conjunto de técnicas
ção do Press Release. de análise utilizado para descrever con-
Trata-se de uma peça-chave entre teúdos de mensagens e obter indicado-
as inúmeras técnicas da assessoria de res capazes de revelar as condições em
imprensa que se caracteriza, essencial- que essas mensagens foram produzidas,
mente, como sendo “uma notícia final recebidas e de que forma circularam na
com vista à publicação” (KOPPLIN & FER- sociedade. O corpus dessa pesquisa é

COM U NI C AÇ ÃO M I D I ÁT I C A COMO E STR ATÉ GIA DE VISIBIL IDADE ORG ANIZ AC IONAL : 91
R E L ATO DE E X PE R IÊ NC IA NA POL ÍC IA MIL ITAR DO C E AR Á
R E VI STA C I E N T ÍF IC A S EGUR AN Ç A EM FOCO

descrito e analisado na próxima seção, 2018, sobre a redução de homicídios na


a partir deste instrumental metodológico região do Cariri durante o mês de se-
que prevê, entre outros fatores a identifi- tembro. Observou-se na produção desse
cação de conteúdos que se repetem e se material, sobretudo, o interesse público
diferenciam por ocasião da transmissão que o assunto suscita no cenário da se-
de mensagens. gurança pública.

Comunicação midiática como Figura 1 – Press Release produzido


estratégia de visibilidade no mês de outubro de 2018

O 2º Batalhão Policial Militar é um Sugestão de Pauta

órgão de execução programática, pre-


visto na Lei Nº 15.217, de 05 de setembro
Região do Cariri registra redução de homicídios

de 2012, que dispõe sobre a organiza-


em setembro

ção básica da Polícia Militar do Ceará.


O índice de homicídios registrados na Região do Cariri em

O 2º BPM teve sua sede inaugurada, em


setembro apresentou redução de 34%. Em 2017 foram

16 de julho de 1974, na cidade de Jua-


contabilizados 29 crimes dessa natureza nesse período,
sendo que no mês passado o número de homicídios caiu

zeiro do Norte, distante 493 km da ca-


para 18. Em Juazeiro do Norte a redução foi de 75%, uma vez

pital cearense, Fortaleza. É comandado


que foram registrados 12 homicídios em setembro de 2017 e
apenas três no mês passado.
atualmente pelo Major Luciano Rodri-
gues de Oliveira.
De acordo com o comandante do 2º BPM, Major Luciano

A Seção de Relações Públicas do 2º


Rodrigues de Oliveira, a tropa policial militar vem atuando de
forma estratégica no combate à criminalidade na Região do

BPM acompanha, diariamente, fatos de


Cariri e, de forma mais intensa, em Juazeiro do Norte. “O

natureza operacional, administrativa e


trabalho da Polícia Militar está focado na segurança e
tranquilidade da sociedade caririense”, destaca o oficial.
social da Polícia Militar na região do Ca-
riri cearense, seleciona assuntos de inte-
IMPORTANTE: Em caso de solicitações de entrevista sobre esse e

resse público e produz material informa-


demais assuntos relacionados à Polícia Militar, encaminhar pedido à
Assessoria de Comunicação da PMCE, através do email

tivo, denominado de Press Release, com


comunicacao.pm.ce@gmail.com, ou, (85) 3101-3546.

as informações relativas aos fatos que


Att.

possam repercutir, positivamente, atra-


Seção de Relações Públicas do 2º BPM

vés da mídia, seguindo as diretrizes da


Endereço

Assessoria de Comunicação da Polícia


Avenida Castelo Branco, 34, Romeirão, Juazeiro do Norte
Contato

Militar do Ceará (2013)3.


Telefone: (88) 3571-2058

Como exemplo desse tipo de ação,


Email: p52bpm@yahoo.com

apresenta-se na figura 1 um Press Re- Fonte: arquivo da pesquisadora (2018)


lease produzido, no mês de outubro de
O Press Release apresentado acima
foi produzido, em outubro de 2018, e ver-
3 Diretriz Nº 001/2013-AsCom, publicada no boletim do
CMDº GERAL nº 040, de 28.02.2013 que versa sobre o

sa sobre a redução de Crimes Violentos


relacionamento institucional com mídia, visando atender,
entre outros aspectos, os preceitos da Constituição Federal
no que diz respeito ao direito de todos de receber, dos órgãos
públicos, informações de interesse particular, coletivo ou geral.
Letais Intencionais (CVLIs) na região do

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

Cariri durante o mês de setembro, quan- Figura 2 – Publicação veiculada


do comparado ao mesmo período do ano pelo site institucional da PMCE
anterior. Esse material foi produzido com
o objetivo de visibilizar a redução signifi-
cativa de crimes contra a vida, uma vez
que a segurança pública é um assunto
permanente na agenda midiática.
No primeiro parágrafo, dados oriun-
dos da Secretaria de Segurança Pública
e Defesa Social (SSPDS) do estado do
Ceará foram dispostos para fundamen-
tar o texto, ou seja, utiliza-se da fonte
oficial de divulgação estatística sobre
segurança pública para conferir cre-
dibilidade ao material informativo. No Fonte: arquivo da pesquisadora (2018)
segundo parágrafo, apresentaram os
dados relativos à redução dos CVLIs na Esse fato sugere que o material in-
maior cidade do interior, Juazeiro do formativo produzido atendeu, de manei-
Norte, hierarquizando as informações do ra satisfatória, as expectativas a respeito
panorama geral para o particular. da divulgação de conteúdo institucional
Além disso, buscou-se explicitar, ao de interesse público proveniente das
final do texto, as ações que vinham sen- diretrizes comunicacionais da ASCOM,
do desenvolvidas a partir das diretrizes setor responsável, entre outras funções,
do comando do 2º BPM para o alcan- pelo gerenciamento dos meios de comu-
ce dos respectivos resultados, eviden- nicação da PMCE.
ciando, assim, a dinâmica histórica de A figura 3 corresponde a uma ma-
planejamento e operacionalização em- téria jornalística publicada por um dos
preendida pela polícia militar na região veículos de comunicação de maior circu-
do Cariri. Essa parte do texto, também, lação no Ceará4, em sua versão digital,
tem finalidade sugestiva para a produ- sobre a redução de homicídios no Cariri
ção de entrevista com o comandante da durante o mês de setembro e apresen-
unidade em caso de publicação por veí- ta clara referência ao conteúdo do Press
culos jornalísticos. Release produzido pela Seção de Rela-
O conteúdo do Press Release pro- ções Públicas do 2º BPM.
duzido pela Seção de Relações Públicas
do 2º BPM foi encaminhado para a Asses- 4 O Diário do Nordeste é um jornal brasileiro editado na
soria de Comunicação da PMCE, sendo cidade de Fortaleza, Ceará. Pertence ao Sistema Verdes

reproduzido em sua íntegra no sítio ele-


Mares e é sediado na capital cearense, com sucursais nas
cidades do Crato, Iguatu, Juazeiro do Norte, Limoeiro do

trônico da Polícia Militar do Ceará, con-


Norte, Sobral, Brasília e Recife. A matéria em referência
está disponível em http://blogs.diariodonordeste.com.br/
forme apresentado na figura 2. cariri/cidades/juazeiro-do-norte/regiao-do-cariri-registra-
reducao-de-homicidios-em-setembro/

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Figura 3 – Matéria veiculada pelo site jornalístico Diário do Nordeste

Fonte: arquivo da pesquisadora (2018)

Na análise desse conteúdo é possí- A descrição e análise desse con-


vel identificar que o título da publicação teúdo demonstra que a Polícia Militar,
jornalística foi mantido conforme suges- enquanto instituição do sistema de se-
tão. O primeiro e segundo parágrafos da gurança pública, tem adotado específi-
matéria reproduzem os dados estatísticos cas ferramentas de comunicação com o
oficias da SSPDS disponíveis no Press Re- objetivo de visibilizar, positivamente, as
lease sobre o registro de CVLIs na região ações exitosas da corporação para seus
do Cariri e Juazeiro do Norte, respectiva- diferentes públicos através da mídia. Ini-
mente. A matéria reproduz, integralmen- ciativas dessas natureza traduzem esfor-
te, a sequência de frases propostas pelo ços de implementação da comunicação
material informativo e mantém a mesma midiática como estratégia de visibilidade
hierarquização das informações. O tercei- institucional, dentro e fora do sistema de
ro parágrafo da matéria reproduz ainda a segurança pública.
fala do comandante da unidade, Major
Luciano Rodrigues de Oliveira, cedida na Considerações finais
sugestão de pauta para a imprensa. Há
uma nota final sobre os investimentos em A comunicação midiática tem se
segurança pública no Cariri, realizados configurado ao longo das últimas duas
pelo governo estadual no mês de abril. décadas como ponto-chave para repen-

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R E VISTA C IE NTÍFIC A SEG UR ANÇA EM FOCO

sar as interações sociais que se desen- se contexto, porque está imersa constan-
volvem tanto no âmbito pessoal quanto temente nas agendas midiáticas enquan-
profissional dos sujeitos. Diante desse to assunto de interesse público devido à
cenário, tornou-se fundamental que as natureza ostensiva de sua função.
organizações institucionais apreendam Além disso, esse trabalho indica ou-
essas novas dinâmicas e busquem im- tros aspectos fundamentais para a ob-
plementar estratégias de comunicação tenção de resultados positivos pela cor-
capazes de visibilizar, positivamente, poração militar, em seu relacionamento
sua imagem, suas ações e seus serviços com a mídia que podem ser desenvolvi-
perante seus diferentes públicos. dos, de forma aprofundada, em pesqui-
Essa pesquisa buscou descrever e sas futuras: a importância da qualifica-
analisar como uma das ações de comuni- ção acadêmica dos servidores públicos
cação midiática implementadas pela Se- que atuam nos setores de Relações Pú-
ção de Relações Públicas do 2º BPM tem blicas e os benefícios que a descentra-
contribuído para visibilizar as ações exi- lização da comunicação midiática pode
tosas da Polícia Militar na região do Ca- oferecer aos órgãos de execução progra-
riri, através dos meios de comunicação mática da Polícia Militar do Ceará.
institucionais e jornalísticos. A principal
ferramenta utilizada nesse processo foi Referências
o Press Release, material de cunho infor-
mativo, cujo objetivo é servir como suges- BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa:
tão de pauta na produção de notícias. Edição 70, 2000.
A análise de conteúdo apontou que o
material informativo analisado na amos- BRAGA, J. L, CALAZANS, R. (Orgs).
tra foi reproduzido em sua íntegra, tanto Matrizes interacionais: a comunicação
institucional quanto jornalisticamente, constrói a sociedade. Campina Grande:
aspecto que favorece a construção de EDUEPB, 2017.
um relacionamento com a mídia pautado
na credibilidade de informações produzi- BUENO, W. C. Relacionamento com a mí-
das por órgãos públicos e na competên- dia: uma nova leitura a partir da teoria da
cia técnica dos profissionais que atuam complexidade. Revista Interamericana
da área de comunicação. de Comunicação Midiática. V.13. Nº 25.
Uma pesquisa dessa natureza faz p. 185-201. 2014.
avançar o conhecimento científico na
área de segurança pública, porque de- CEARÁ. LEI Nº 15.217, de 05 de setem-
monstra a importância do desenvolvi- bro de 2012. Dispõe sobre a organização
mento de uma política de comunicação básica da Polícia Militar do Ceará e dá
midiática como estratégia de visibilidade outras providências. Diário Oficial do Es-
positiva para esse campo social. A Polícia tado. Série 3, ano IV, nº 180. Fortaleza,
Militar destaca-se, particularmente, nes- 20 de setembro de 2012.

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apoio institucional

Mesa Diretora
2019-2020

Deputado José Sarto


Presidente

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1º Vice-Presidente

Deputado Danniel Oliveira


2º Vice-Presidente

Deputado Evandro Leitão


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2ª Secretária

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3ª Secretária

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4º Secretário

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