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Jacob Christopher Burckhardt

(1818-1897), com este livro, pu­


blicado pela primeira vez em
1860, produziu não só a obra que é
até hoje considerada como a que
mais influência exerceu dentre to­
das as obras sobre o Renasci­
mento, mas também estabeleceu
um paradigma de análise para a
história cultural. Como diz Otto
Maria Carpeaux, em sua História
da Literatura Ocidental, Burck­
hardt "criou uma nova espécie de
historiografia que, dando atenção
menor aos acontecimentos políti­
cos, considerava em primeira linha
os fenômenos culturais".
Coube a Stendhal redescobrir,
em suas Crônicas Italianas
(1855), o Renascimento, e a Jules
. Michelet, em sua Histoire de
France, do mesmo ano de 1855,
cunhar a palavra renaissance.
Mas foi Burckhardt quem, cinco
anos depois, deu ao conceito de
Renascimento o seu verdadeiro
conteúdo, neste livro que é agora
publicado, em primeira edição
brasileira, pela Editora Universi­
dade de Brasília.
A Itália e a Grécia foram as
' grandes paixões de Burckhardt.
Assim, a visão que ele nos dá do
Renascimento italiano é a de um
especialista que conhece todos os
meandros e detalhes daque�a épo­
ca. No entanto, esse domínio mí­
nucioso e profundo do tema não
impede que Burckhardt pinte este
grande painel, numa magnífica vi­
são de conjunto. Aqui, ele põe em
t'
.... .A CULTURA DO RENASCIME
NTO NA ITÁLIA:
UM ENSAIO
BE1 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Reitor: Antonio lbaiiez Ruiz


Vice-Reitor: Eduardo Flávio Oliveira Queiroz

EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Conselho Editorial

Antonio Agenor Briquet de Lemos (Presidente)


Cristovam Buarque
Elliot Watanabe Kitajima
Emanuel Araújo
Everardo de Almeida Maciel
José de Lima Acioli
Luiz Humberto Miranda Martins Pereira
Odilon Pereira da Silva
Roberto Boccacio Piscitelli
Ronaldes de Melo e Souza
Vanize de Oliveira Macêdo
A CULTURA
DO RENASCIMENTO
NA ITALIA
Jacob Burckhardt

UFCIBU!BCA 25/Fevl1999

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A cultura do Renascimento nd
Italia /

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© 1991 by Editora Universidade de Brasília, que se reserva
os direitos desta tradução

Título original:
D1e Kultur der Re11a1ssance in frnlien

Tradução feita sobre a versão inglesa editada em 1878, que corresponde ao texto
integral da segunda edição alemã, de 1869, e coteJada com as edições alemã e
espanhola, de 1928 e 1959, respectivamente.

Agradecemos à Casa do Estudante do Brasil pela autorização para reproduzir,


como prefacio desta obra, o ensaio de Otto Maria Carpeaux, cujos direitos autorais
são preservados.

Editora Universidade de Brasília


Caixa Postal 15-3001
70910 Brasília, DF
Tradução:
Vera Lúcia de Oliveira Sarmento e Fernando de Azevedo Corréa

Revisão da tradução:
Sérgio Fernando Guarischi Bath e Albeno de los Santos

Preparação de originais e revisão de provas:


Ana Tereza Perez Costa, F àtima Rejane de Meneses,
Mauro Caixeta de Deus e Regina Coeli Andrade Marques.

Supervisão grafica:
Antonio Batista Filho e Elmano Rodrigues Pinheiro

Capa:
Fernando Lopes

ISBN 85-230-0266-9

Dados de catalogação na publicação

Burckhardt, Jacob (1818-1897)


A cultura do Renascimento na Itália : um ensaio/ Jacob
Burckhardt; tradução de Vera Lucia de Oliveira Sarmento e
Fernando de Azevedo Corrêa. - Brasília : Editora Universi­
dade de Brasília, 1991.

347 p.
PARTE I

O ESTADO COMO OBRA DE ARTE

INTRODUÇÃO

Esta obra tem o título de ensaio, no sentido mais estrito da


palavra. Ninguém está mais consciente do que o autor quanto à
limitação dos meios e da energia que dedicou a uma tarefa tão árdua.
E, mesmo que pudesse ter mais confiança na sua própria pesquisa.
não se sentiria mais seguro da aprovação dos juízes competentes.
Para cada um, os contornos de uma dada época cultural podem
apresentar um quadro diferente; e, ao estudar uma civilização que é a
mãe da nossa, e cuja influência ainda está ativa entre nós, é inevitável
que o julgamento e o sentimento individual atuem a todo momento.
tanto no autor como no leitor. Nesse amplo oceano no qual nos
aventuramos, são muitos os meios e direções possíveis; e os mesmos
estudos que serviram para esta obra poderiam facilmente, noutras
mãos, não só receber tratamento e aplicação totalmente diferentes
como levar a conclusões essencialmente diversas. Tamanha é a
importãncia do assunto que ele ainda solicita novas investigações, e
pode ser proveitosamente estudado sob os pontos de vista mais
variados. Enquanto isso, estaremos felizes se nos for concedida uma
paciente atenção, e se este livro for tomado e julgado como um todo.
A dificuldade mais séria da história da cultura reside no fato de
que um grande processo intelectual precisa ser dividido em categorias
isoladas, muitas vezes de modo que parece arbitrário, a fim de que
possa ser de algum modo compreensível. Nossa intenção original era
preencher os claros deste livro com uma obra especial sobre a ·· Arte
do Renascimento" - intenção, porém, que só em parte pudemos
realizar.
A luta entre os papas e os Hohenstaufen deixou a Itália numa
situação política que diferia essencidlmente da de outros países do
destaque a especificidade de que
se revestiu, na Itália, o refloresci­
mento da Antiguidade clássica, no
contexto de uma sociedade mar­
cada pela tradição e a presença,
principalmente política, do catoli­
cismo. Não se deixando levar por
uma visão de progresso constante
da humanidade, Burckhardt sabe
valorizar a herança medieval, e lhe
cabe também identificar no Re­
nascimento o surgimento do· ho­
mem moderno.
Analisando as cidades-estados
italianas, que constituem no dizer
de Alfred Weber "a estrutura ori­
ginária do capitalismo ocidental",
Burckhardt, indo além do que hoje
se chama história factual (événe­
mentielle), estabelece as grandes
linhas que configuram o Renasci­
mento, tanto em seus aspectos
políticos, quanto em suas manifes­
tações artísticas e na vida coti­
diana.
Os títulos atribuídos aos capí­
tulos já revelam as intenções e a
orientação de Burckhardt o Es­
tado como obra de arte, o desen­
volvimento do indivíduo, o reflo­
rescimento da Antiguidade, a des­
coberta do mundo e do homem, as
festas e a vida social, a moralidade
e religião.
Marco miliar da historiografia
moderna, este livro deu origem
também ao Renascentismo que
dominou a segunda metade do sé­
culo XIX, transformando em
moda as realizações estéticas e os
próprios valores da Renascença.

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