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ADAPTAÇÕES DE MEDEIA:

análise dos versos 34-43 da tragédia de


Eurípides, a partir da comparação entre
três traduções brasileiras

David Lopes da Silva (UFAL – Arapiraca)


EURÍPIDES, Medeia: versos 34-43
Ela, pobre senhora, aprendeu, na triste experiência, o irreparável que é
abandonar a terra pátria. Agora odeia os filhos, já não sente alegria em
contemplá-los. Tenho medo de que cometa algum terrível desatino.
Seu gênio é terrível – não suportará essa ofensa por muito tempo. Eu a
conheço demais, e me apavoro com a ideia de que entre
silenciosamente em seu quarto conjugal e, afiando uma adaga,
atravesse o próprio coração. Ou que vá matar o rei e o próprio esposo,
transformando em tragédia a desgraça atual.

(EURÍPIDES. Medéia. Transubstanciação de Millôr Fernandes.


RJ: Civilização Brasileira, 2004, pp.10s.)
(1) Tradução de JAA Torrano (SP: Hucitec, 1991).

(2) Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira (SP: Odysseus, 2006).

(3) Tradução de Trajano Vieira (SP: Ed. 34, 2010).


(1)
Reconheceu a infeliz sob infortúnio
por que não abandonar pátrio chão.
Tem horror aos filhos, nem se alegra ao vê-los:
Temo que ela trame alguma novidade.
Grave é o espírito, nem suportará maus
Tratos, eu a conheço e temo que ela
No fígado finque afiada espada,
Calada em casa onde se estende o leito,
Ou ainda mate o tirano que se casou
E assim obtenha um maior infortúnio.
(2)
Aprende a desgraçada, no desastre,
que deixar não se deve o solo pátrio.
Odeia os filhos; não lhe apraz olhá-los.
Tremo que trame novidades, pois
o espírito tem grave e a dor não há
de suportar: eu a conheço e temo
que no fígado finque agudo gládio,
após entrar silente no aposento
ou que mate o tirano e o que se casa
e receba depois maior desdita.
(3)
[...por que sem a honra a tem agora.] Aprende
o quanto custa renegar o sítio
natal. Ao ver os filhos, tolda o cenho
com desdém. Tremo só de imaginar
que trame novidades. Sua psique
circunspecta suporta mal a dor.
Conheço-a de longa data e não
Descarto a hipótese de que apunhale
O fígado, depois que entrou sem voz,
Rumo ao leito... ou será que mata o rei
E o marido, agravando o quadro mais?
Reconheceu a infeliz sob infortúnio Aprende a desgraçada, no desastre, Aprende
por que não abandonar pátrio chão. que deixar não se deve o solo pátrio. o quanto custa renegar o sítio
Tem horror aos filhos, nem se alegra ao vê- Odeia os filhos; não lhe apraz olhá-los. natal. Ao ver os filhos, tolda o cenho
los:
Tremo que trame novidades, pois com desdém. Tremo só de imaginar
Temo que ela trame alguma novidade.
o espírito tem grave e a dor não há que trame novidades. Sua psique
Grave é o espírito, nem suportará maus
de suportar: eu a conheço e temo circunspecta suporta mal a dor.
Tratos, eu a conheço e temo que ela
que no fígado finque agudo gládio, Conheço-a de longa data e não
No fígado finque afiada espada,
após entrar silente no aposento Descarto a hipótese de que apunhale
Calada em casa onde se estende o leito,
ou que mate o tirano e o que se casa O fígado, depois que entrou sem voz,
Ou ainda mate o tirano que se casou
e receba depois maior desdita. Rumo ao leito... ou será que mata o rei
E assim obtenha um maior infortúnio.
E o marido, agravando o quadro mais?
(2)
Aprende a desgraçada, no desastre, ((2) 6 10)
que deixar não se deve o solo pátrio. ((3) 6 10)
Odeia os filhos; não lhe apraz olhá-los. (4 8 10)
Tremo que trame novidades, pois ((1) 4 8)
o espírito tem grave e a dor não há (2 6 8 10)
de suportar: eu a conheço e temo (4 8 10)
que no fígado finque agudo gládio, (3 6 10)
após entrar silente no aposento (4 6 10)
ou que mate o tirano e o que se casa (3 6 10)
e receba depois maior desdita. (3 6 10)
Aprende a desgraçada, no desastre,
que deixar não se deve o solo pátrio.
Odeia os filhos; não lhe apraz olhá-los.
Tremo que trame novidades, pois
o espírito tem grave e a dor não há
de suportar: eu a conheço e temo
que no fígado finque agudo gládio,
após entrar silente no aposento
ou que mate o tirano e o que se casa
e receba depois maior desdita.