Você está na página 1de 4

O amigo-da-onça

David Lopes da Silva

Graças a Deus parece que tem uma fogueira acesa ali naquele rancho. Já está
escurecendo, e não ia ser nada bom se tivesse de passar a noite inteira ao relento. Mas
também, maldita idéia essa de fazer pesquisa de campo para a tese, podia era entregar
tudo do jeito que estava mesmo, simular um encontro com uns índios, umas entrevistas
e tal, catar umas fotos na Internet, e não gastava a grana da viagem e nem passava por
essa situação. Mas não! Tinha de querer fazer melhor que todo mundo. Ora, vale é o
título, e só! E isso hoje a gente tira com qualquer merda que apresenta à banca, não
precisa nem de esforço nenhum. Se não, nem compensa. O aumento no salário – uns
10%!! – acaba não pagando nunca a porra dessa pesquisa. É tudo culpa desse
Governo, que sucateou a educação, cortou a verba das bolsas etc. etc. etc.
- É... foi essa fogueirinha sim que me salvou, que me fez avistar a casa... Eu já
tava achando que ia ter que passar a noite ao relento. O senhor é que é o Tonho Tigreiro,
que trabalha pro seu João Guedes? Foi o seu João que me falou, que o senhor morava
pra essas bandas... O senhor me dá um abrigo aí na sua casa pra passar esta noite? Ora,
mas se o senhor vive aí, é sua casa sim. Bom, o senhor é quem sabe. É, o cavalo é meu
sim... Vai ser bom pra ele também descansar, estamos andando já há várias horas sem
encontrar ninguém e sem parar...
Sujeito estranhíssimo! Bem que o seu João disse. Mas acho que pelo menos
encontrei meu objeto de pesquisa.
- Não, pode deixar o saco aí mesmo, não precisa guardar não, só tem uns livros e
uns caderninhos dentro dele, pra fazer umas anotações.
Não sei se seria bom pegar pelo menos o gravador pra já começar a entrevista
hoje mesmo, e poder ir embora amanhã cedinho... Mas o cara nunca deve ter visto um
gravador na vida, era capaz de querer tirar a fita do cassete e comer que nem
macarrão...
- Tem só essa cachacinha aqui, que a gente pode ir tomando antes de deitar. É, é
boa sim, eu trouxe lá da minha região. Tenho, tenho mais uma garrafa ali guardada.
Aqui deve ser difícil de arrumar bebida, não? O senhor mesmo é que tem de fazer a sua?

1
E esse sujeito que mora com o senhor, chega mais tarde? Não é perigoso ficar por aí a
essa hora? Ah... Pode se servir de mais cachaça, se quiser. Tem fumo também, o senhor
gosta?
- Onça? Tem muita onça por aqui ainda? É... Mas não devia matar não, é bicho
em extinção. O negócio era capturar e mandar pra um zoológico ou alguma instituição
que cuidasse dele.
O trabalho do sujeito é matar as onças do lugar. Vou embebedar o cara pra ver
se ele fala mais...
- Como é? O senhor é amigo de onça? Fala com elas? É o quê? Parente??
Mas isso tá ficando interessante demais! O homem vai bebendo e vai soltando a
língua com essas histórias bizarras. Como saber se são verdadeiras? Mas ele conta
com tantos detalhes... Vontade enorme de pegar o bloquinho e tomar umas notas, mas
aí ele podia parar com as histórias. Vai fazer um sucesso, cada história sem pé nem
cabeça que ele conta. E esse jeito de falar? Como vou reproduzi-lo depois? Tinha
mesmo que estar gravando isso. E em vídeo, porque olha o pé do cara! É uma pata
quase, tem casco e tudo. Deve usar uma ferradura em vez de sapato.
- É uma bússola, não é relógio não. Não posso dar pra você, porque senão
amanhã não consigo voltar. Olha, mas tem aqui um canivete, e um dinheiro...
Esse sim é dinheiro bem empregado. Imagine, quando eu contar que ganhei a
amizade do meu objeto de pesquisa com umas moedinhas... Bom, mas não é o que todo
mundo faz mesmo? Vai sair muito mais barato até que comprar a tese pronta, como é a
prática agora. Vou tentar trocar o canivete por um couro desse, de onça de verdade. E
como ele conhece onças...
- Que mais que o senhor pode me contar das onças? Tem mais gente que mora
por aqui, e que ajuda o senhor nessas caçadas? Como é que faz para pegar uma onça?
Sei... mas o senhor chega assim pertinho delas, não tem medo? E quem pôs o nome
nelas? O senhor mesmo?
Acho que encontrei o elo perdido. E o homem não descende mais do macaco.
Pelo menos esse aí, que veio da onça...
- O senhor até que tem um jeito de onça, já lhe falaram isso? Quer ver num
espelho? Claro, tenho um aqui, guardado. Não quero ir lá fora não, se puder, prefiro
ficar aqui na rede.
Aff, que catinga danada, mas é o jeito, estou cansado demais. Olha como ele se
diverte com o espelho... Parece que nunca viu um.

2
- De zagaia? E não usa revólver? Como foi que aprendeu isso? Nunca foi
atacado por uma onça?
Imagina esse cara dando uma entrevista na televisão... Que bizarro.. E fui eu
que o encontrei, eu que vou estudá-lo! E o cara já é meu amigão, por causa da
cachaça...
- Pelo que o senhor está dizendo, já chegou bem pertinho delas, não? E se eu
botasse uma na sua frente, o senhor ficava corajoso assim? Jura?
Ele já foi lambido por uma onça! Deve brincar com elas como minha filha
brinca com o gatinho dela. E essa insistência em dizer que é parente de onça.
- Não, por mim tudo bem, não estou com sono, não quero dormir agora. Prefiro
ficar aqui escutando o senhor contar essas histórias de onça. Olhe, quer mais um pouco
de cachaça? Vou pegar a outra garrafa, na mala.
Como assim? Transou com a tal da onça?? Uau! Por via das dúvidas, vou ficar
de revólver na mão, um sujeito desses não é confiável, vai que entra uma onça mesmo
aqui e tudo isso era só história. Pior é que eu também vou ficando bêbedo...
- E de onde o senhor veio, quem são seus pais? Qual é sua tribo, onde fica?
Vai entender as coisas que esse cara fala... Ainda mais bêbado assim. Na
próxima trago um fonoaudiólogo junto.
- Mas... mas... e as doenças? Ele não tinha morrido de doença?
Credo! Parece que essas pessoas todas ele mesmo que matou, pra dar de comer
pras onças... Matou o próprio cavalo! O tal do preto Bijibo!! Mas ele fala de um jeito
que não dá pra entender quase nada. Quem mandou matar aquelas aulas de tupi na
graduação... Droga de pesquisador que eu sou, que nem sabe a língua do objeto de
estudo... Devia pelo menos ter trazido um dicionário. Mas depois invento umas coisas,
umas palavras, misturo com português, e digo que ele fazia uns barulhos que pareciam
uns rugidos, que ninguém conseguiria entender mesmo. É isso. O que importa é me
livrar logo dessa situação, que esse maluco já tá delirando... Ele tá explicando que é
onça? Tsc... Coitado.
- Meu amigo...
Amigo da onça! Ha!
- É, sou seu amigo sim... Mas pode ficar aí sentado...
Bêbado, quando dá pra ser chato, não tem quem aguente...
- Sou seu amigo sim, mas sai pra lá! Já tá bom de abraçar, chega!
Ô catinga fedida danada!

3
- Não... Beijo não! Beijo não!! Passa! Passa!!
(BANG)
- Meu Deus! Matei o cara... Mas também, agora já tenho o material de que
precisava para terminar a tese...
Ah... o que a gente não faz para conseguir um título de Doutor...