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N AT I O N A L G E O G R A P H I C .

P T | DEZEMBRO 2019

PLANETA
OU
PLÁSTICO
2019

JERUSALÉM
SUBTERRÂNEA
NOVAS ESCAVAÇÕES REVELAM A CIDADE VELHA
E REAVIVAM TENSÕES MODERNAS N.º 225 MENSAL €4,95 (CONT.)
00225

603965 000006

C OMO SA LVA R O P RO B L E M A O SA N T UÁ R I O
O S PA RQ U E S DO PLÁSTICO D O A LTO DA
DE ÁFRICA E M N ÚM E RO S VIGIA EM SINTRA
5
N AT I O N A L G E O G R A P H I C DEZEMBRO 2019

S U M Á R I O

2 30
Na capa
As igrejas, mesquitas,
sinagogas e outros espaços
sagrados de Jerusalém
concentram-se na Cidade
Velha, tanto à superfície
Jerusalém subterrânea Salvar os parques de África como no subsolo urbano,
À superfície, a Cidade Santa é A organização conservacionis- que esconde inúmeros
um lugar sagrado para as três ta African Parks testa uma segredos.
grandes religiões monoteístas estratégia para proteger a ILUSTRAÇÃO DE BOSE COLLINS
do mundo, mas no subsolo fauna africana da caça furtiva
oculta-se um dos sítios e outras ameaças: tratar os
arqueológicos mais activos do parques degradados como
planeta. Cada escavação se fossem negócios em crise,
provoca entusiasmo e discórdia. carentes de uma nova gestão.
T E X T O D E A N D R E W L AW L E R T E X T O D E D AV I D Q U A M M E N
F OTO G RA F I A S F OTO G RA F I A S
DE SIMON NORFOLK D E B R E N T ST I RTO N

SIMON NORFOLK
R E P O R TA G E N S S E C Ç Õ E S

50
A S UA F OTO

VISÕES

EXPLORE
O enigmático Alto da Vigia A orquídea-homem-nu
Nas imediações da Praia das
Maçãs, em Sintra, um sítio
arqueológico intriga há muitos C A R TA D O
anos os eruditos – mais PRESIDENTE
precisamente há 500 anos, desde
que ali se produziu uma ÍNDICE 2019
descoberta acidental.
T E XTO D E G O N Ç A LO P E R E I RA RO SA
N A T E L E V I SÃO
F OTO G RA F I A S D E M Á R I O R I O
P RÓX I M O N ÚM E RO

66
A dependência do plástico
Os objectos de plástico, práticos
e descartáveis, dominam o
quotidiano, mas existem opções
para nos livrarmos desse hábito.
Teremos de modificar comportamen-
tos para não acrescentarmos mais
parcelas ao problema do plástico.
F OTO G RA F I A S
D E H A N N A H W H I TA K E R

78
Tundra: a ameaça no subsolo
O permafrost do Árctico está a
derreter mais depressa do que se
esperava. A ausência de gelo
durante o Inverno traduz-se na Envie-nos comentários
para nationalgeographic
emissão de gases com efeito de @ rbarevistas.pt
estufa que acelerarão ainda mais
as alterações climáticas. Siga-nos no Twitter em
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A fusão do Tecto do Mundo
A fusão acelerada dos
56 mil glaciares da Ásia está a
formar centenas de novos lagos
nos Himalaia e noutras grandes Assinaturas e
cordilheiras. Essas massas de água atendimento
poderão produzir inundações ao cliente
catastróficas nas aldeias dos vales Telefone 21 433 70 36
imediatamente abaixo. (de 2.ª a 6.ª feira)
T E XTO D E F R E D D I E W I L K I N S O N E-mail: assinaturas@vasp.pt

DE CIMA PARA BAIXO: MÁRIO RIO; HANNAH WHITAKER; KATIE ORLINKSY; FENG WEI PHOTOGRAPHY / GETTY IMAGES
A PEGADA
ECO-EFICIENTE
DO PAPEL
A produção de papel nasce de um ciclo virtuoso, que
começa na utilização de matéria-prima natural – a
floresta renovável, que é também a principal fonte
terrestre de captura e fixação de CO2 –, segue um
processo de fabrico que valoriza a sustentabilidade dos
recursos naturais e resulta em produtos ambientalmente
sustentáveis, uma vez que retêm o carbono ao longo da
sua vida útil. Sustentada no ciclo de vida da fibra de
madeira, a pegada eco-eficiente do papel faz a diferença
pela aposta da indústria na gestão de florestas plantadas
e sustentáveis. As árvores e o solo são importantes
reservatórios de carbono e o crescimento das florestas
plantadas desempenha uma ação fundamental na
sustentabilidade da pegada de carbono.
Esta estratégia de gestão florestal sustentável, capaz
de uma produção sustentada de madeira, fibras ou
energia, e orientada para a manutenção ou incremento
das reservas de carbono florestais, é defendida pelo
Painel Intergovernamental sobre as Alterações
Climáticas como um claro benefício para a mitigação
das alterações climáticas.
As árvores absorvem carbono à medida que crescem
e uma floresta saudável, como as que servem a
produção de papel, contém 30% do carbono capturado
na sua biomassa, enquanto os restantes 70% são
armazenados no solo. O equilíbrio a longo prazo destes
reservatórios de carbono é assegurado pela gestão
responsável da floresta, com reflexo na reflorestação
que permite a disponibilidade futura da floresta e a
manutenção do inventário de carbono sequestrado.

As florestas sustentáveis da The Navigator Company apoiam a


National Geographic Portugal a diminuir a sua pegada ecológica.
Fontes: IPCC Fourth Assessment Report: Climate Change 2007. Working Group III: Mitigation of Climate Change. | WBCSD (2015).
Low carbon technology partnerships initiative: Forests and forest products as carbon sinks. | CEPI Sustainability Report 2017 |
TwoSides.info Fact Sheets, Renewable Energy & Carbon Footprint | RNC 2050 – Roteiro para a Neutralidade Carbónica (2018)
publirreportagem
CICLO DE VIDA UM PAÍS NEUTRO SETOR LÍDER NA
PROLONGADO EM CARBONO BIOECONOMIA
As preocupações ambientais
PELA RECICLAGEM EM 2050 e a emergência climática
Aliadas no combate à pegada Portugal ambiciona
entraram no nosso quotidiano,
de carbono, as florestas de tornar-se um país neutro
e nos modelos de negócio das
produção retiram grandes em carbono em 2050
empresas, com os denominados
quantidades de carbono da e a floresta tem um papel
Roteiros para a Neutralidade
atmosfera, que também são a desempenhar neste
Carbónica que puseram em
armazenadas nos produtos objetivo. A floresta
marcha uma transformação
com origem na madeira, portuguesa sequestra
histórica da economia. Exemplo
nomeadamente o papel. anualmente cerca de 8
disso é a indústria europeia do
Embora seja comum os milhões de toneladas de
papel, que reduziu em 43% as
artigos de papel terem um CO2 da atmosfera, para uma
emissões de CO2 por tonelada
ciclo de vida relativamente meta que pretende atingir
produzida desde 1990.
curto (exceção feita aos 12 milhões de toneladas
Em simultâneo, o setor assumiu
livros ou documentos daqui a 30 anos. Mais
um papel de protagonismo
arquivados), as vantagens floresta, mas sobretudo
na bioeconomia, pela sua
da fibra de madeira são melhor floresta é, pois,
capacidade de produzir bens
potenciadas pela reciclagem, o desafio nacional para as
de consumo de maneira
que permite continuar próximas décadas, para o
sustentável, fruto do seu
a armazenar o carbono qual a indústria do papel já
know-how, da tecnologia
capturado. está particularmente ativa.
disponível e de soluções
inovadoras.
V I S Õ E S | A SUA FOTO

N U N O B AT I S TA “Desde pequeno que sou apaixonado por trovoadas”, diz o autor, que aproveitou o cenário imponente
da serra de Montemuro e respectivo parque eólico para enquadrar este momento efémero da descarga de raios.

H U G O E S T E V E S Na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo Antonio, o fotógrafo aproveitou as
primeiras luzes da manhã para captar um par de flamingos que se alimentava. Com a timidez, as aves esconderam o rosto!
J O S É C A R D O Z O Quantas vezes olhamos para o mesmo objecto até ao dia em que o vemos de forma distinta? Aconteceu com o
autor no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa. “Destacado no paredão à beira-rio, ganhou neste dia uma nova dimensão”, diz.
V I S Õ E S

Portugal
O eclipse lunar parcial de 16 de
Julho enquadra as ruínas da Anta
da Melriça, um dos gigantescos
monumentos megalíticos da
região de Portalegre. O castelo
e fortificações de Castelo de
Vide despontam à esquerda.
KEN WILLIAMS/SHADOWS AND STONE
Portugal
O núcleo central do Palácio
Fronteira destinava-se a ser uma
quinta de recreio, mas, depois do
terramoto de 1755 foi ampliado
e transformado em residência
principal da família Mascarenhas.
Classificado como Monumento
Nacional, destaca-se pelo espólio
azulejar e pelo Jardim Formal.
MIGUEL VALLE DE FIGUEIREDO
Espanha
Esta víbora-cornuda, a única
espécie endémica de víbora
da Península Ibérica, goza os
últimos raios solares do dia nas
ruínas das antigas salinas de
Poza de la Sal, a aldeia do
lendário naturalista espanhol
Félix Rodríguez de la Fuente.
JAVIER LOBÓN ROVIRA
E X P L O R E

O S M I S T É R I O S E M A R AV I L H A S Q U E N O S R O D E I A M

MITOS E MEDICINA
TRADICIONAL JUNTAM-SE
NAS ORQUÍDEAS
FOTOGRAFIA DE ANDRÉS M. DOMÍNGUEZ

PA L AV R A D O D I A : O R C H I S . É um género da orquídea. É também


a palavra grega para testículos (com os quais alguns bolbos de
orquídeas se parecem ostensivamente). E, na mitologia grega,
Orchis era um bruto cujo castigo por agredir uma sacerdotisa
foi ser rasgado em pedaços, dos quais brotou uma planta com
tubérculos semelhantes a testículos. Desde a Antiguidade que
as orquídeas têm sido “associadas à sexualidade”, diz o “Journal
of Cultural Heritage”. Em algumas sociedades, ainda se consome
a planta, esperando benefícios anatómicos. Em Israel, conso-
mem-se bolbos de orquídeas para combater a impotência; os
bolbos são consumidos como afrodisíacos na Turquia. Em Itália,
onde as espécies incluem a anatomicamente explícita Orchis ita-
lica (na imagem), ou seja, a orquídea-homem-nu, até
as flores foram em tempos consumidas.

NPL, MINDEN
C O N T E Ú D O P AT R O C I N A D O

Heróis da natureza
Num mundo em transformação, todos os esforços contam para minimizar os estragos.
A Timberland lançou uma campanha ecológica para encontrar os heróis da natureza. A face
mais visível em Portugal é a casa edificada numa árvore do Jardim da Estrela, em Lisboa.

D
esde o fim da década de 90 que a A marca reorganizou também o seu processo
Timberland procura conciliar a de produção, reduzindo o consumo energético
conservação e a consciencializa- nas fábricas e lojas e procurando atingir uma pe-
ção ambiental em linhas de produ- gada de carbono neutra. Em Portugal, a face mais
tos caracterizadas pela utilização visível deste compromisso reside no Jardim da
de materiais reciclados e ecológicos. Um exemplo Estrela, onde foi edificada uma casa numa árvore
emblemático é a linha de calçado com a tecnologia apenas com materiais reciclados. A casa da árvore
Green Rubber, cuja sola é concebida com borracha foi cedida, entretanto, à Câmara Municipal de Lis-
reciclável extraída de pneus descartados. Manter o boa para promoção de actividades pedagógicas e
planeta azul mais verde é a missão. visitas escolares. Saiba mais nas lojas Timberland.
A Timberland aposta em suscitar a curiosida-
de para que a generalidade dos potenciais consu-
midores interiorize o lema #NatureNeedsHeroes
A Timberland encontrou
sempre que visitarem as lojas da marca. Foram
designados heróis da natureza, figuras anónimas heróis da natureza,
que, com pequenos gestos, ajudam a tornar as ci- figuras anónimas que,
dades mais verdes. Por cada euro que os consu-
com pequenos gestos,
midores contribuam, será plantada uma árvore e
os primeiros resultados são animadores: já há 50 ajudam a tornar as
mil árvores plantadas ao abrigo desta campanha. cidades mais verdes.
Leia as histórias dos heróis da natureza
em nationalgeographic.pt
«Acreditamos no poder da ciência, da exploração
e da divulgação para mudar o mundo.»

A National Geographic Society é uma organização global sem fins lucrativos que procura novas fronteiras da
exploração, a expansão do conhecimento do planeta e soluções para um futuro mais saudável e sustentável.

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AUREA DIAZ ESCRIU, Directora-Geral
membro da
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D E Z E M B R O | C A RTA D O P R E S I D E N T E

REFLEXÃO
DE FIM DE ANO
Cumprir a nossa missão

ajuda a perce-
A N AT I O N A L G E O G R A P H I C
ber o mundo. Guiados por esta missão,
relatamos as nossas histórias em todas as
plataformas onde os leitores as procuram.
Prosseguiremos em 2020 o trabalho
desenvolvido pela National Geographic
Society há 131 anos, atribuindo bolsas ino-
vadoras a indivíduos incrivelmente talen-
tosos em todo o mundo. Aproveitaremos
todas as oportunidades para aumentar o
nosso impacte, graças à nova parceria com
a Walt Disney Company. Através do envol-
vimento em plataformas como o novo
serviço de streaming Disney+ e, aprovei-
tando as vantagens incomparáveis da
Disney (que atrai milhões de pessoas com
os seus parques temáticos, experiências,
livros e outros produtos), poderemos expan-
dir o nosso alcance a todo o globo. Estamos
entusiasmados com as possibilidades que
temos pela frente com esta nova parceria.
Este ano, levámos a nossa capacidade
de contar histórias a um novo nível graças
ao trabalho jornalístico que foi recompen-
sado com prémios de excelência. Desta-
cámos preocupações como o flagelo do
plástico nos oceanos, os perigos do turismo ameaçado da Terra, e “The Cave”, a histó-
de vida selvagem, o impacte global das ria de uma médica a trabalhar para salvar
vidas na Síria devastada pela guerra. Ricardo Serrão Santos
mudanças climáticas. Publicámos também O novo ministro do Mar e
uma colecção notável de fotografia para O público respondeu, ajudando-nos a nosso consultor em Ecologia
comemorar a forma como as mulheres bater recordes de bilheteira e a tornarmo- Comportamental e Marinha
desde a primeira edição
estão a mudar o mundo. O trabalho da -nos a primeira marca a ultrapassar 100 decidiu que, embora a posição
revista foi finalista do Prémio Pulitzer (pela milhões de seguidores no Instagram. Estes de membro do Conselho
indicadores sugerem que há grande procura Científico da revista seja
segunda vez em três anos) e o nosso jor- individual e não institucional
nalismo impresso e digital ganhou o mais de jornalismo com um propósito e que as e tenha sido sempre exercida
prestigiado prémio do National Magazine pessoas vêem a National Geographic como sem qualquer remuneração,
interromperá essas funções
Awards: o de Excelência Geral. uma resposta para essa procura. enquanto exercer o cargo no
Os espectadores televisivos entusias- Obrigado por assinar, ler, ver, seguir e XXII Governo Constitucional.
partilhar a nossa paixão pelo planeta e por Perdemos assim momentanea-
maram-se com o filme “Free Solo” premiado mente um dos mais conceitua-
com um Óscar, reviveram a crise do Ébola tudo o que existe nele. O seu apoio e com- dos consultores da revista
em “The Hot Zone” e “provaram” o mundo promisso com a National Geographic ins- e um amigo que nos ajudou
muito, sobretudo nos anos
com o chef Gordon Ramsay através da série pira-nos a continuar a inspirá-lo(a). de consolidação da publicação
“Uncharted”. O nosso sucesso nos docu- no meio científico. Estamos
muito gratos por tudo o que
mentários apoiou-se em projectos como Ricardo Serrão Santos fez pela
“Sea of Shadows”, um relato fascinante National Geographic e pelo
que fará no futuro quando
sobre o esforço desesperado para salvar Gary Knell, Director-geral da cessar este honroso serviço
da extinção o mamífero marinho mais National Geographic Partners que presta ao país.

MARK THIESSEN, NGM


ESCAVAÇÕES POLÉMICAS REALIZADAS SOB
A CIDADE SANTA ESTÃO A EXPOR MILÉNIOS
DE TESOUROS RELIGIOSOS E CULTURAIS
E A ESPICAÇAR TENSÕES MUITO ANTIGAS.
T E X T O D E A N D R E W L AW L E R
FOTOGRAFIAS DE SIMON NORFOLK
PÁ G I N A S A N T E R I O R E S

Por baixo da Igreja do


Santo Sepulcro, no Bairro
Cristão de Jerusalém, o
padre Samuel Aghoyan
contempla uma pedreira
contemporânea de Jesus
utilizada como cemitério
judaico. Um afloramento
rochoso nas proximidades
é venerado como sendo o
Calvário, o monte onde
Cristo foi crucificado.

À D I R E I TA

Para escavar uma rua que


funcionou como via
principal até ao Templo
Judaico há cerca de dois
mil anos, arqueólogos e
engenheiros israelitas
estão a construir um
túnel por baixo de um
bairro palestiniano.
Os moradores
queixam-se de que
a escavação danificou
as casas à superfície.

“BAIXEM-
Esforço-me por acompanhar o arqueólogo israeli-
ta, com a sua compleição esguia, enquanto ele se
esgueira pelo túnel serpenteante e estreito. Orien-
tados apenas pela lanterna dos nossos telemóveis,

-SE!” É O
baixo-me para evitar que o capacete amarelo ras-
pe na rocha acima da minha cabeça. De repente,
ele pára. “Vou mostrar-lhe algo muito curioso.”
A passagem apertada situa-se sob um pontão

REFRÃO
de terra rochoso que se projecta a sul da Cidade
Velha de Jerusalém. Esta crista estreita, lugar de
implantação da Jerusalém primitiva e hoje atra-
vancado com casas, ocupadas sobretudo por mo-

CONSTANTE
radores palestinianos, oculta um labirinto subter-
râneo de grutas naturais, sistemas de canalização
cananeus, túneis judaicos e pedreiras romanas.
Sigo Joe até um espaço recentemente escavado,

DE JOE
com a dimensão de uma confortável sala de estar
suburbana. A lanterna dele foca-se num cilindro
pálido atarracado. “É uma coluna bizantina”, ex-
plica, acocorando-se para remover um saco de

UZIEL.
areia volumoso, em baixo do qual se vê uma su-
perfície branca macia. “E veja este pedaço do chão
em mármore.”
5
6 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Soldados israelitas
escutam as palavras
de um guia turístico
no Cardo Maximus, a rua
principal da Jerusalém
romana, onde um mural
reproduz o aspecto que
a movimentada avenida
ladeada de arcadas
poderia ter na época
bizantina, no século VI…
se exceptuarmos
o rapaz de boné
(em baixo, à direita).

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 7
Encontramo-nos numa igreja do século V, cons-
truída para celebrar o local onde se diz que Jesus
curou um cego. O vetusto edifício foi-se juntando
aos vastos domínios subterrâneos da cidade.
Para Joel Uziel, a igreja é a mais recente compli-
cação num dos projectos arqueológicos mais ca-
ros e polémicos do mundo. A sua missão consiste
em escavar uma rua com dois mil anos e 600 me-
tros de comprimento, que outrora conduzia pere-
grinos, mercadores e outros visitantes a uma das
maravilhas da Palestina antiga: o Templo Judaico.
Atulhada de escombros durante a feroz destrui-
ção da cidade pelas forças romanas em 70  d.C.,
esta via monumental desapareceu da vista.
“Agora teremos de mudar de direcção por cau-
sa da igreja”, explica Uziel. “Nunca sabemos o que
vamos encontrar.” Ele já tropeçou em banhos ri-
tuais judaicos, num edifício tardo-romano e nos
alicerces de um palácio dos primeiros tempos da
era islâmica. Cada edifício teve de ser cartografa-
do e estudado, sendo preciso descobrir um des-
vio, ou construir um caminho.
Quando a equipa de escavação britânica abriu
caminho até entrar na igreja, era vulgar abrir tú-
neis. Hoje, porém, excepto em circunstâncias
especiais, a abertura de túneis é considerada pe-
rigosa e não científica. Neste ponto, porém, não é
prático escavar para baixo a partir da superfície,
uma vez que vivem pessoas poucos metros aci-
ma. Por isso, um exército de engenheiros e ope-
rários de construção civil está a abrir um poço novo túnel. Ao contrário do poço britânico, este
horizontal por baixo da crista. À medida que vão encontra-se forrado a aço reluzente. Antigos de-
avançando, Joe Uziel e a sua equipa recolhem ce- graus de calcário brilham à distância. “Algumas
râmica, moedas e outros artefactos. Se o método destas pedras encontram-se quase intactas”, co-
é cientificamente aceitável ou não, isso depende menta o arqueólogo, enquanto subimos a ampla
do arqueólogo israelita a quem se faz a pergunta. escadaria. “Esta era a rua principal da primitiva
Os operários do túnel lidam com solos instá- Jerusalém romana. Os peregrinos purificavam-se
veis que já deram origem a derrocadas, ao mesmo na piscina e, de seguida, subiam ao Templo.”
tempo que os moradores que residem por cima se O caminho teve vida curta. Moedas ali encon-
queixam dos danos causados às suas habitações. tradas sugerem que um famoso gentio presidiu à
O ambicioso projecto, em grande parte financia- construção da escadaria monumental, perto do ano
do por uma organização de colonos judaicos, lo- 30 d.C., o prefeito romano mais conhecido por ter
caliza-se num sítio particularmente sensível de ordenado a crucificação de Jesus: Pôncio Pilatos.
Jerusalém Oriental: a zona da cidade anexada por
Israel em 1967, considerada território ocupado reza o Livro dos
“A V E R DA D E B R OTA R Á DA T E R R A”,
por muitos países do mundo. Aliás, a maior parte Salmos. Mas qual verdade? É a pergunta que ator-
das escavações realizadas em tal território são ile- menta Jerusalém. Numa cidade fundamental para
gais ao abrigo do direito internacional. Chamada as três grandes religiões monoteístas, o gesto de
Wadi Hilweh pelos palestinianos, para os judeus enterrar uma pá no solo pode ter consequências
trata-se da Cidade de David, o local onde o rei Da- imediatas e de longo alcance. Em poucos lugares
vid fundou a primeira capital israelita. da Terra, uma escavação arqueológica desencadeia
Joe Uziel conduz-me de regresso à passagem uma rebelião, alimenta uma guerra regional ou
estreita e emergimos numa secção finalizada do coloca o mundo inteiro de sobreaviso.

8 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A família Freger,
oriunda do Canadá,
celebra o bat mitzvah
da sua filha Adyson
num salão subterrâneo
perto da Muralha
Ocidental de Jerusalém,
um dos lugares mais
sagrados do judaísmo.
A câmara, erigida por
muçulmanos do sé-
culo XIV como pousada
para as caravanas, foi
transformada em sala
de eventos judaicos e
está ligada ao labirinto
de túneis da Muralha
Ocidental.
FOTOGRAFIAS DE HADAS PARUSH

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 9
10 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Espectadores assistem a
um concerto na gruta de
Zedequias, uma pedreira
que, durante milénios,
forneceu matéria-prima
para a construção dos
edifícios situados por
cima. Segundo as lendas,
Zedequias, rei da Judeia,
fugiu pela gruta no
século VI a.C. e o rei
Salomão poderá tê-la
utilizado como pedreira
para construir o
Templo Judaico.

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 11
Em 1996, depois de o governo israelita abrir
uma saída para a passagem subterrânea ao longo
da secção da Muralha Ocidental, no Bairro Muçul-
mano da Cidade Velha, cerca de 120 pessoas mor-
reram no decurso de manifestações violentas.
Discussões posteriores sobre quem deveria con-
trolar o solo localizado sob a plataforma sagrada
a que os judeus chamam Har Ha-Bayit (Monte do
Templo) e os árabes Haram al Sharif (Nobre San-
tuário) contribuíram para inviabilizar os acordos
de paz de Oslo. Até a recente construção do Mu-
seu da Tolerância, em Jerusalém, foi alvo de pro-
testos, por ter destruído túmulos muçulmanos.
“Em Jerusalém, a arqueologia é tão sensível
que diz respeito não só à comunidade dos inves-
tigadores, mas também aos políticos e ao público
em geral”, reconhece Yuval Baruch, da Autori-
dade para as Antiguidades de Israel (IAA). Yuval
é responsável pelo atarefado escritório da IAA
em Jerusalém. Durante o seu mandato, a cidade
transformou-se num dos mais movimentados sí-
tios arqueológicos do mundo, com cerca de cem
escavações por ano.
O presidente da Autoridade Palestiniana, Mah-
moud Abbas, tem-se queixado de que as escava-
ções fazem parte de uma campanha para desvalo-
rizar, com achados judaicos, 1.400 anos de legado
muçulmano. “Aqui, a arqueologia não tem apenas
objectivos de conhecimento científico. É uma ciên-
cia política”, acrescenta Yusuf Natsheh, director de
arqueologia islâmica da Jerusalem Islamic Waqf, a um pedaço da cruz de madeira na qual Jesus fora salém. Os mapas do explorador, admi
fundação religiosa responsável pela supervisão crucificado. Pouco depois, a Igreja do Santo Sepul- mente rigorosos, ainda são considerados
dos lugares santos muçulmanos de Jerusalém. cro seria construída no local. maravilha. Outro dos seus legados, porém
Yuval Baruch desmente com veemência qual- Cerca de 1500 anos mais tarde, o erudito e po- vez seja a desconfiança duradoura com q
quer parcialidade nos resultados das escavações. lítico francês Louis-Félicien Joseph Caignart de habitantes muçulmanos da cidade enc
Insiste que todas as épocas merecem reconheci- Saulcy iniciou a primeira escavação arqueológica os arqueólogos.
mento científico, quer se trate dos cananeus quer na cidade e desencadeou novo frenesi. Em 1863, Um século mais tarde, quando Israel c
dos cruzados. Ninguém duvida de que os arqueó- escavou um complexo de túmulos cuidadosa- rou Jerusalém Oriental, incluindo a Cidad
logos israelitas são dos mais bem preparados a mente construídos, provocando a ira dos judeus lha, aos exércitos árabes, durante a Guerr
nível mundial. Mas também ninguém duvida de locais, que voltavam a enterrar de noite aquilo Seis Dias, em 1967, os arqueólogos judeu
que a arqueologia é empunhada como arma po- que os seus trabalhadores tinham exposto duran- ciaram importantes escavações científica
lítica no conflito israelo-árabe, dando vantagem te o dia. Sem esmorecer, De Saulcy transportou se transformaram numa peça fundament
aos israelitas, uma vez que estes controlam todas para o Louvre um antigo sarcófago que continha esforços desenvolvidos pela jovem nação
as concessões de licenças de escavação dentro de os restos mortais daquela que ele afirmou ser uma provar e comemorar as suas raízes ances
Jerusalém e em seu redor. primitiva rainha dos judeus. Encontraram palácios do século I, perte
Há muito que a política, a religião e a arqueo- Outros exploradores europeus foram chegan- tes à elite judaica, repletos de mosaicos el
logia se encontram profundamente imbricadas do em busca dos seus próprios tesouros bíblicos. tes e paredes pintadas. Mas também pus
nesta cidade. Por volta de 327 d.C., a imperatriz Em 1867, os britânicos encarregaram um jovem a descoberto partes da há muito perdida
romana Helena presidiu à demolição de um tem- galês de explorar o terreno subterrâneo de Jeru- de Nea, que fora construída 500 anos de
plo romano. “Ela abriu a terra, dispersou a poeira salém. Charles Warren contratou equipas locais só era superada em importância pela do
e descobriu três cruzes desmanteladas”, de acor- para escavar poços e túneis que ocultavam o seu Sepulcro. Encontraram igualmente as r
do com uma fonte quase contemporânea. A idosa trabalho dos olhares bisbilhoteiros dos funcio- de um enorme complexo construído pelo
mãe de Constantino declarou que uma delas era nários otomanos que então controlavam Jeru- meiros governantes muçulmanos.
SAGRADA PARA JUDEUS, CRISTÃOS E
MUÇULMANOS, JERUSALÉM TEM SIDO MOLDADA
POR QUASE TRÊS MIL ANOS DE DEVOÇÃO,
CONQUISTA, DEVASTAÇÃO E RECONSTRUÇÃO.
T E XTO S D E ALBERTO LUCAS LÓPEZ
E M AT T H E W W. C H WA ST Y K

PA
EURO
A
I
S
Fronteira reivindicada pela Síria

Á
Miúdos a chapinhar e LÍBANO
ÁREA DO

SÍRIA
gargalhadas alegram o MAPA
final do percurso do ÁFR
túnel de Ezequias, que ICA S
canaliza a água ao Mar da
Galileia
longo de 553 metros
desde a fonte de Gihon
(antiga fonte principal
de abastecimento de
água de Jerusalém) até Uma cidade, Territórios disputados
muitos nomes Durante a Guerra dos Seis

JORDÂNIA
esta piscina. Segundo a
Bíblia, Ezequias Este local de veneração e Dias, em 1967, Israel capturou
construiu o túnel para guerra já foi conhecido como a Cisjordânia e Jerusalém
proteger dos invasores Hierosolyma, Yerushalayim, Oriental, incluindo a Cidade
Cidade de David, Cidade do Jerusalém Velha, à Jordânia, a Faixa
o abastecimento de
água da cidade. Grande Rei, Aelia Capitolina, DESTAQUE Mar de Gaza ao Egipto, e os
Al Quds e Jerusalém. EM BAIXO Morto montes Golan à Síria.
HADAS PARUSH

I S R A E L
EGIP

iravel- Algumas escavações, contudo, tinham fins


TO

s uma claramente religiosos. Só um punhado de seg-


m, tal- mentos da Muralha Ocidental – vestígios da CISJORDÂNIA Limites
urbanos de
que os plataforma do Templo de Herodes, o lugar mais Jerusalém

caram sagrado do judaísmo onde os judeus podem re-


JERUSALÉM
zar – se localizam acima do nível do solo e, por ISRAEL
LESTE

captu- isso, após a Guerra dos Seis Dias, o ministro dos Capital polémica CIDADE VELHA
de Ve- Assuntos Religiosos iniciou um esforço des- Após a fundação de Israel JERUSALÉM OESTE
ra dos tinado a escavar a totalidade da Muralha Oci- em 1948, o Estado escolheu Linha Verde,
Jerusalém como capital. armistício de 1949
us ini- dental, abrindo túneis. Com um comprimento Os palestinianos reivindicaram
as que superior à altura do Empire State Building, a Jerusalém Oriental como
tal dos muralha encontrava-se coberta por edifícios futura capital. A Linha Verde (a
tracejado) representa a fronteira
o para contruídos posteriormente, ao longo de mais antes da Guerra dos Seis Dias.
strais. de metade da sua extensão. Durante quase duas
encen- décadas, houve escassa supervisão arqueológi-
legan- ca dos trabalhos do túnel: perderam-se dados

PATRIMÓNIO
seram impossíveis de calcular, segundo o arqueólogo
Igreja israelita Dan Bahat, que lutou com êxito pelo
epois e controlo arqueológico das escavações. Estes
Santo trabalhos também suscitaram as suspeitas dos
ruínas muçulmanos de que o objectivo dos israelitas

CONTESTADO
os pri- seria a penetração da muralha e o acesso à pla-
taforma sagrada. (Continua na pg. 22)
ÉPOCAS DE CONSTRUÇÃO EM JERUSALÉM

MOSAICO SAGRADO
A Cidade Velha de Jerusalém foi crescendo ao longo dos séculos até se transformar
num mosaico arquitectónico que reflecte os estilos, crenças e prioridades dos
antigos conquistadores. Os governantes que reconstruíram ou reconfiguraram
estas estruturas para outras funções há muito que desapareceram, mas as provas
das suas ambiçõesperduram por cima e por baixo da metrópole buliçosa.

Mansões das elites


do tempo de Herodes
Estes edifícios magnificamente
adornados com mosaicos revelam o
estilo de vida dos ricos antes de os
romanos arrasarem a cidade.

ESTRATÉGIAS
EM MUDANÇA
As fortificações de protecção
foram construídas e destruídas ao
longo de milénios. Os muçulmanos
aiúbidas destruíram as muralhas em
1219 para capturarem mais facilmente
a cidade, caso a perdessem de novo
para os cruzados. Os baluartes da
era otomana rodeiam agora cerca
de cem hectares da Cidade Velha.
PALÁCIO DO REI DAVID?
O bairro palestiniano de Siloé situa-se sobre uma
potencial localização do Palácio do Rei David, que
dataria do século X a.C. Os moradores partilham as
colinas acidentadas com as escavações arqueológicas
do Parque Nacional da Cidade de David. Uma rota
subterrânea recém-construída segue uma antiga
conduta de drenagem e a estrada em socalcos de
degraus que liga as piscinas de Siloé à Cidade Velha.

HARAM AL-SHARIF
(MONTE DO TEMPLO)

C I D A D E V E L H A
CÚPULA DO
ROCHEDO

O Grande
Mar

MURO DAS
LAMENTAÇÕES

MESQUITA
AL-AQSA

Escavações
de OPHEL
J E R U S A L É M

Escavação do parque Centro de visitantes


de estacionamento Givati Cidade de David
Sistema de
poços de Warren
Antigo
túnel de
Nascente
de Gihon
escoamento
CIDADE
DE
Rua DAVID Torre
escalonada (WADI HILWEH) cananeia
herodiana
Túnel
S de Siloé
I (canal II)
L
Túnel de W
Ezequias
A
N
Piscina
de Siloé

Piscina
inferior N
de Siloé
0m 100

BAIRROS DA CIDADE VELHA


Há muito que esta zona foi dividida em bairros, ALBERTO LUCAS LÓPEZ, MATTHEW W. CHWASTYK E KAYA BERNE;
PATRICIA HEALY; GURA BERGER. ARTE 3D: ARIEL ROLDÁN
com fronteiras e nomes variáveis. Por exemplo,
FONTES: RIWAQ ARCHIVE, TERRITÓRIOS PALESTINIANOS (PERÍODOS DE
o Bairro Cristão era antigamente denominado
CONSTRUÇÃO); JOE UZIEL, IAA; WENDY PULLAN, UNIVERSIDADE DE
Bairro do Patriarca. Os nomes actuais tornaram-se CAMBRIDGE; JODI MAGNESS, UNIVERSIDADE DA CAROLINA DO NORTE;
comuns no século XIX. Na Cidade Velha, vivem INSTITUTO DE JERUSALÉM PARA A INVESTIGAÇÃO DE POLÍTICAS
PÚBLICAS; ANUÁRIO ESTATÍSTICO DE JERUSALÉM; LABORATÓRIO DE SIG
34 mil moradores registados (podendo ali residir
DA UNIVERSIDADE HEBRAICA DE JERUSALÉM; ESTRADAS ©
outros milhares de residentes não contabilizados), CONTRIBUIÇÃO DO PROJECTO OPENSTREETMAP, ACEDIDO SOB LICENÇA
a maioria dos quais no Bairro Muçulmano. DE BASE DE DADOS ABERTA: OPENSTREETMAP.ORG/COPYRIGHT
HABITANTES DE JERUSALÉM E AS SUAS ESTRUTURAS
A largura da barra representa o pico da A cor laranja indica a cronologia da
estimativa demográfica para o período em consagração, ou abertura ao culto,
questão. A altura da barra indica a duração. dos edifícios decisivos desse período.

POPULAÇÃO
Jerusalém actual Actualidade
34.000 habitantes
na Cidade Velha 1967 Guerra dos Seis Dias
1948 Declaração do
Estado de Israel
Otomano 20.000 1917 Tropas sob comando
britânico tomam Jerusalém

1543 MURALHAS OTOMANAS


1500 d.C. 1537 O sultão
otomano Suleimão
Mameluco 10.000 reconstrói a cidade
1300 Os mamelucos do
Egipto recuperam o controlo
aos mongóis
Cruzados e aiubitas 7.000
1187 Saladino
conquista Jerusalém
1099 Os cruzados
1000 d.C. tomam a cidade

Islâmico precoce 10.000

715 MESQUITA AL-AQSA

691 CÚPULA DO ROCHEDO


638 Conquista muçulmana
543 IGREJA NEA
Bizantino 15.000 500 d.C.

335 IGREJA DO
SANTO SEPULCRO

Romano 4.000 135 Plano urbano


Aelia Capitolina 70 d.C. Os romanos
saqueiam a cidade
Herodiano 30.000
1 d.C.
Reino satélite de Roma
Asmoneu 8.000 10 a.C. TEMPLO DE HERODES

Helenístico precoce 3.000

516 a.C. SEGUNDO TEMPLO

Persa 1.000 538 a.C. Ciro, o Grande,


da Pérsia autoriza o regresso
500 a.C. dos judeus a Jerusalém
Babilónio 1.000
586 a.C. Conquista
babilónia da Judeia

ca. 930 a.C. O reino


israelita divide-se em
Idade do Ferro: período israelita 3.000 Israel e Judeia
960 a.C. TEMPLO DE SALOMÃO
1000 a.C.
ca. 1010-970 a.C. Reino
de David; Jerusalém
é conquistada e
transformada na capital
israelita
Idade do Bronze: período cananeu
700 habitantes
Um mural fotográfico
enquadra um antigo
parque de estacionamen-
to onde os arqueólogos
encontraram uma
impressão num selo de
argila associada ao rei
bíblico Josias. Para
alguns, foi a confirmação
das antigas raízes
judaicas de Jerusalém.
Alguns palestinianos
contrapõem que a
arqueologia está a ser
utilizada como arma
de ocupação.
HADAS PARUSH
Numa manhã do Verão de 1981, pouco depois Arafat Hamad senta-se
da estreia nas salas de cinema do filme “Os Sal- entre as ruínas da sua
cozinha exterior. Conta
teadores da Arca Perdida”, essas suspeitas foram que esta se desmoronou
confirmadas. Guardas da Waqf descobriram um quando os arqueólogos
destacado rabino derrubando um muro da época israelitas abriram um
túnel por baixo de sua
das Cruzadas que selava uma antiga porta subter- casa. Este homem e os
rânea, sob a plataforma sagrada. O rabino acredi- vizinhos palestinianos
tava que a arca perdida se encontrava escondida queixam-se de danos
dispendiosos, mas os
sob a Cúpula do Rochedo, um dos mais antigos construtores do túnel
e sagrados locais de culto do islão. Seguiu-se um afirmam que a sua
confronto físico subterrâneo e o primeiro-minis- engenharia é sólida.
tro israelita, Menachem Begin, ordenou que a
porta fosse selada, antes que o conflito escalasse e
desencadeasse uma crise internacional alargada.
Quinze anos mais tarde, foi a vez de os judeus
israelitas exprimirem a sua indignação. Em 1996, a
Waqf transformou uma enorme sala colunada lo-
calizada sob a extremidade sudeste da plataforma,
chamada Estábulos de Salomão. O antigo arma-
zém poeirento passou a ser a grande Mesquita Al-
-Marwani. Três anos depois, o gabinete do primei-
ro-ministro israelita aprovava o pedido apresentado
pela Waqf de abrir uma nova saída para garantir a
segurança da multidão, mas sem informar a IAA.
Maquinaria pesada escavou rapidamente um
vasto fosso, sem supervisão arqueológica formal.
“Quando as notícias nos chegaram aos ouvidos e
mandámos parar os trabalhos, já tinham sido cau-
sados enormes prejuízos”, recorda Jon Seligman,
da IAA, que então era responsável pela arqueo-
logia de Jerusalém. Nazmi Al-Jubeh, historiador
palestiniano e arqueólogo da Universidade de Bir-
zeit, discorda. “Nada foi destruído”, afirma. “Eu
estava lá, vigiando as escavações, para assegurar-
-me de que não punham a descoberto quaisquer NA OPINIÃO
DE MUITOS
camadas arqueológicas. Antes que o fizessem,
gritei Khalas! [“Basta!” em árabe]”.
Mais tarde, a polícia israelita mandou remover
as toneladas de terra resultantes da escavação.
Em 2004, um projecto financiado por privados PALESTINIANOS,
começou a peneirar esta terra e, até agora, já des-
cobriu mais de meio milhão de artefactos. Quan-
do visito o laboratório do projecto, o arqueólogo
AS ESCAVAÇÕES
Gabriel Barkay abre caixas de cartão contendo pe-
daços de mármore colorido que, segundo ele, são EM JERUSALÉM
provenientes dos pátios que rodeavam o Templo
Judaico. Jon Seligman e muitos dos seus colegas, E AS TENTATIVAS
PARA DESLOCÁ-
contudo, desvalorizam os achados, afirmando
que têm pouco valor, uma vez que foram desco-
bertos fora do contexto e poderiam ter sido depo-
sitados sobre a plataforma em períodos posterio-
res. “O paradoxo é que a maior parte dos materiais -LOS ESTÃO
INTIMAMENTE
destruídos pela Waqf seria islâmica”, afirma.

22 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
NUMA MANHÃ de chuva miudinha, dirijo-me à
entrada dos túneis da Muralha Ocidental, junto da
praça repleta de homens de chapéus e casacos
negros. No interior, encontro uma amálgama de
balcões de recepção subterrâneos, zonas de oração
e escavações arqueológicas. Descendo o salão, a
partir de uma sinagoga de vidro e aço escorada den-
tro de uma escola religiosa medieval islâmica,
encontram-se latrinas romanas e um pequeno tea-
tro recentemente desenterrado (o primeiro desco-
berto na antiga Jerusalém) construído como parte
do processo de renascimento da cidade no
século II, sob o nome de Aelia Capitolina.
Encontro-me com Shlomit Weksler-Bdolah.
A minha interlocutora fala tão depressa como
anda. “Venha. Tenho de regressar lá abaixo”, diz
a arqueóloga, enquanto desce a saltitar as escadas
que cheiram a madeira acabada de serrar. No inte-
rior da câmara húmida, situada mais abaixo, três
jovens árabes de T-shirt manobram com destreza
uma rocha de duas toneladas pendurada em cor-
rentes de ferro. Como explica Shlomit, está a ser
deslocada para abrir aos turistas o acesso àquilo
que, no seu entender, seriam as salas para banque-
tes de cerimónia durante o reinado de Herodes.
Shlomit Weksler-Bdolah pede licença e ausen-
ta-se quando um engenheiro de capacete branco a
chama, lá de cima. Travam uma discussão longa e
acesa acerca de um segmento de argamassa ama-
rela que ele quer remover para colocar uma es-
cada metálica para os turistas. “Trata-se de arga-
massa do tempo dos romanos e é muito invulgar”,
conta. Este é o tipo de discussões que acontecem existência. Os trabalhos arqueológicos também
regularmente debaixo das ruas de Jerusalém: o confirmam a afirmação da imperatriz Helena,
que deve permanecer e o que deve ser sacrificado? segundo a qual Jesus foi crucificado e enterrado
no sítio onde hoje se encontra a Igreja do Santo
nos subterrâneos
U M S É C U L O E M E I O D E AC H A D O S Sepulcro. E a arqueóloga Eilat Mazar vai ao ponto
de Jerusalém fez abalar velhas crenças e deitar por de defender ter encontrado o Palácio do Rei Da-
terra mitos há muito acarinhados. Muitos arqueó- vid, o primeiro governante israelita de Jerusalém.
logos desdenham actualmente a visão bíblica da Numa manhã sossegada de sábado, o Sabbat
capital refulgente do grande império do rei Salo- judaico, deparo com Eilat Mazar quando ela
mão. O famoso monarca nem sequer é mencionado deambula pelo parque da Cidade de David, onde
em qualquer achado arqueológico dessa época. não se vê vivalma. Na extremidade nordeste da
A Jerusalém primitiva era mais provavelmente uma crista, ela escavou um edifício com paredes es-
vila acastelada de importância secundária. A che- pessas junto de uma estrutura escalonada de
gada do islão no século VII também não fez desa- pedra que envolve a encosta abrupta. Fundamen-
parecer o cristianismo, ao contrário do que os tando-se na cerâmica que já descobriu, Eilat atri-
historiadores pensaram durante muito tempo. bui ao edifício a data aproximada de 1000 a.C., a
Muitas escavações mostram que pouco mudou no data tradicionalmente apontada para a conquista
quotidiano dos moradores cristãos. da Jerusalém Jebusita pelos israelitas.
No entanto, as escavações revelaram também “Gosto de vir aqui quando há sossego para
selos de argila impressos com os nomes de cor- pensar”, explica. Convida-me a descer os degraus
tesãos bíblicos, conferindo credibilidade à sua que conduzem ao passadiço metálico construído

24 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Nos subterrâneos
localizados sob a
mesquita Al-Marwani,
homens muçulmanos
aguardam o início das
orações de sexta-feira.
Em 1999, os operários
utilizaram bulldozzers
para abrir uma nova
entrada, mais ampla,
gerando o receio de que
as camadas históricas
existentes sobre a
plataforma sagrada
fossem danificadas.
FAIZ ABU RMELEH

sobre a sua famosa escavação. Debruça-se sobre o “Tenho a certeza de que se encontra ali”, afirma,
parapeito e aponta para os escombros, lá em bai- com súbito fervor. “Precisamos de escavar isto!”
xo. “Trata-se de um rei com uma visão, que cons- Prepara-se para apresentar uma licença para
truiu um monumento grandioso, de forma habi- escavar o sítio. Resta saber se a IAA aprovará mais
lidosa.” Para Eilat Mazar, só pode ser o rei David. escavações. “Actualmente, quando se escava,
“Tudo corresponde à história da Bíblia.” é preciso dispor de dados sólidos – não apenas
O achado, feito em 2005, foi divulgado em todo o moedas, ou cerâmica, mas resultados sustentados
mundo, mas muitos colegas não se mostram con- pela física e pela biologia”, diz Yuval Baruch, da
vencidos. A datação baseia-se fortemente na ce- IAA. “Eilat Mazar não joga segundo estas regras.”
râmica em vez de métodos mais modernos como
o radiocarbono, e a sua interpretação literal da Bí- em frente daquele que
D O O U T R O L A D O DA R U A ,
blia é considerada errada por muitos arqueólogos. Eilat Mazar pensa ser o Palácio de David, Yuval
O próprio sinal colocado no passadiço acrescenta Gadot simboliza estas novas regras. Este arqueólogo
um ponto de interrogação à identificação do sítio: da Universidade de Telavive lidera a maior e mais
“Vestígios do palácio do rei David?” recente escavação na cidade. Um antigo parque de
“Baseio-me em factos”, afirma, com uma cer- estacionamento é agora um enorme fosso a céu
ta irritação na voz quando levanto as objecções aberto, abrangendo grande parte dos 2.600 anos de
dos outros académicos. “Aquilo em que os outros idade da cidade, desde as oficinas islâmicas primi-
acreditam é outra história.” Eilat Mazar mostra-se tivas a uma villa romana, e os impressionantes edi-
ansiosa por escavar a norte, onde crê estar escon- fícios da Idade do Ferro que precedem a destruição
dido o famoso palácio do filho de David, Salomão. da cidade pelos babilónicos em 586 a.C.

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 25
26 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
É impossível não ver a
Cúpula do Rochedo,
santuário islâmico
construído no século VII,
quando se contempla a
praça da Muralha
Ocidental a partir deste
miradouro. Os capacetes
de realidade virtual fazem
desaparecer o santuário e
muitas outras camadas da
cidade para transportar os
turistas até à Jerusalém
judaica do século I.

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 27
Grande parte dos trabalhos decorre fora do sítio
arqueológico, onde os peritos analisam tudo –
desde antigos parasitas encontrados nas fossas
sépticas islâmicas a elaboradas jóias de ouro do
tempo da governação grega.
A escavação abrirá em breve ao público, por
baixo de um grande centro de visitantes desti-
nado a receber as crescentes hordas de turistas.
Yuval Gadot, Eilat Mazar e Joe Uziel ajudaram a
transformar esta sossegada aldeia árabe numa
das mais populares atracções de uma cidade de-
finida como um dos destinos turísticos do mundo
em mais rápido desenvolvimento. Durante a noi-
te, os seus sítios arqueológicos funcionam como
cenários teatrais para espectáculos de laser. “Aqui
começou e aqui continua”, troveja a voz do narra-
dor, no meio de luzes coloridas e música arrebata-
dora. “O regresso a Sião!”
A organização responsável por este esforço é a
Fundação Cidade de David. Criada pelo antigo co-
mandante militar israelita David Be’eri na década
de 1980, a fim de assegurar uma presença judaica
mais forte, a organização financiou a maior parte
dos recentes trabalhos arqueológicos realizados.
Juntamente com as carteiras recheadas de doa- UM ANTIGO
PARQUE DE
dores estrangeiros e israelitas, este grupo gaba-se
das suas excelentes relações políticas. Numa ce-
rimónia sumptuosa realizada no passado mês de
Junho, o embaixador dos Estados Unidos, David
Friedman, pegou num martelo para partir uma ESTACIONAMEN-
TO É AGORA
parede, inaugurando o primeiro troço do túnel de
Joel Uziel. “Esta é a verdade”, disse, referindo-se
à velha rua. O enviado da Casa Branca ao Médio
Oriente classificou as críticas feitas pelos palesti-
nianos ao evento como “absurdas”. UM FOSSO A CÉU
Quando me encontro com o vice-presidente da
fundação, Doron Spielman, ele mostra-se opti-
mista em relação ao futuro. “Se os próximos dez
ABERTO COM
anos forem parecidos com os últimos dez anos,
este será o principal sítio arqueológico do mun- 2.600 ANOS
do”, afirma este judeu nascido nos subúrbios de
Detroit. Doron Spielman prevê que o número de DE HISTÓRIA:
OFICINAS
turistas possa quase quadruplicar para dois mi-
lhões numa única década. “O público sente-se
fascinado por um povo que existe há milhares de
anos”, diz. “Isto não é como um sítio arqueológico
acadiano. As comunidades que aqui começaram ISLÂMICAS PRI-
MITIVAS, UMA
a viver ainda cá vivem.”
Na sua opinião, o desenvolvimento ajuda to-
dos. “As pessoas compram chupa-chupas e bebi-
das nas lojas árabes”, afirma. “E há muita segu-
rança que é benéfica quer para árabes, quer para VILLA ROMANA
E EDIFÍCIOS DA
judeus.” Mostra-se igualmente optimista quanto

28 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
às repercussões para os moradores judaicos, que mostra contente por me ver. “Estou farta de jorna-
representam agora 1 em cada 10 habitantes e re- listas”, declara. “Só quero que me deixem em paz.
sidem maioritariamente em condomínios fecha- Estamos perdidos. Não sabemos o que fazer!”
dos, patrulhados por guardas armados. “Isto será Passados poucos minutos, acalma-se e concor-
visto como um modelo de coexistência. As pes- da em mostrar-me os danos causados nas paredes
soas viverão juntas, dentro de um sítio arqueoló- de sua casa. “As rachas começaram há três anos,
gico activo onde há muitas oportunidades.” mas revelaram-se mais evidentes no último ano
e meio”, afirma. Quando me despeço de Miriam,
o proprietário cor-
N ÃO É A S S I M Q U E A B D Y U S U F, junto do seu portão, ela sorri pela primeira vez.
pulento de uma loja local, analisa a situação. “O “Gostava de contar-lhe a nossa história de manei-
negócio está péssimo!”, conta, sentado no meio das ra sincera e clara. Somos gente pacífica que vive
lembranças de Jerusalém que ali vende. “Antiga- aqui e continuaremos a sê-lo, apesar dos danos.”
mente, havia muitos turistas, mas agora não vem Quando falei com Doron Spielman, ele desva-
ninguém. Eles levam todos os turistas para as suas lorizou as preocupações dos moradores árabes.
lojas”, acrescenta, referindo-se às concessões da “Sim, andamos a fazer trabalhos debaixo das ca-
Cidade de David. Depois, aponta para as fendas na sas das pessoas, o que não é um problema se a en-
parede. “Vi-me obrigado a substituir a minha porta genharia for bem feita. E está a ser.”
três vezes, devido aos abalos de terra lá de baixo.” Três dias depois da minha visita aos palestinia-
Logo a seguir, subindo a rua, faço uma visita a nos, Doron Spielman enviou-me um e-mail gélido
Sahar Abbasi, uma professora de inglês que tam- a alertar-me para não criar uma plataforma para
bém trabalha como directora-adjunta no Centro “as reivindicações de grupos com interesses es-
de Informação Wadi Hilweh, uma organização peciais, motivações políticas e anti-israelitas”. Pe-
palestiniana sediada numa loja modesta. “As es- diu-me que lhe fornecesse por escrito os porme-
cavações levantam muitos desafios”, afirma. “As nores de quaisquer “reivindicações desonestas”
nossas casas estão a ser danificadas e destruídas.” antes da publicação. As minhas tentativas para
Segundo os seus cálculos, 40 casas foram afec- voltar a falar com ele ou com quaisquer outros
tadas, metade das quais com gravidade, e cinco funcionários da Cidade de David esbarraram num
famílias foram despejadas de habitações consi- muro de silêncio. Yusuf Natsheh, da Waqf, não se
deradas inseguras. “Como não conseguem con- mostrou tão reticente. Para si, as escavações e as
trolar-nos de cima para baixo, começam a contro- tentativas para deslocar os palestinianos estão
lar-nos de baixo para cima”, resume Sahar Abbasi. intimamente ligadas. “A arqueologia não deve ser
Certa manhã, perto de uma viela estreita por um instrumento para justificar a ocupação”, diz.
cima do túnel de Uziel, Arafat Hamad dá-me as Aquilo que jaz sob Jerusalém revela que a his-
boas-vindas ao seu pátio repleto de limoeiros. tória da cidade é demasiado rica e complexa para
Barbeiro reformado, ele usa cabelo grisalho curto caber numa única narrativa, seja ela judaica, cris-
e um sorriso fácil que rapidamente se desvanece. tã ou muçulmana. Helena não conseguiu apagar
“Construí esta casa em 1964, com espessos alicer- o seu passado pagão, tal como os romanos não
ces de betão, mas veja o que aconteceu no último foram capazes de aniquilar a rebelde capital da
par de anos”, diz, apontando para fendas largas Judeia, nem os muçulmanos eliminaram todos
que sobem até às janelas do primeiro andar. Le- os vestígios da odiada ocupação dos cruzados. In-
vando-me a dar a volta até à empena da casa, o dependentemente da identidade do governante
meu interlocutor aponta para pilhas de escom- mais contestado de todos os lugares, a evidência
bros. “Numa noite de Agosto, estávamos sentados do seu passado subirá inevitavelmente até à su-
no alpendre quando a casa começou a abanar”, perfície, desafiando qualquer história criada à
recorda. “Conseguíamos ouvi-los a trabalhar lá medida de uma agenda política ou religiosa.
em baixo, com maquinaria pesada. Quando pú- “Todos os que governaram Jerusalém fizeram o
nhamos a mão no chão, sentíamos as vibrações. mesmo: cada um construiu a sua torre e hasteou
Fugimos de casa, refugiando-nos em casa dos a sua bandeira”, diz Shlomit Weksler-Bdolah com
vizinhos e depois ouvimos um estrondo. Vimos uma gargalhada, avaliando este sítio venerável
uma nuvem de poeira erguer-se do local onde an- e violento numa perspectiva de longa duração.
tes ficava a nossa cozinha exterior.” “Mas eu creio que ela é mais forte do que todos
Do outro lado da rua, a vizinha de Arafat Ha- os que tentaram controlá-la. Ninguém consegue
mad, uma anciã chamada Miriam Bashir, não se apagar por completo aquilo que existiu antes.” j

JERUSALÉM SUBTERRÂNEA 29
o s ú LT I M O S
LU GA R E S
S E LVA G E N S

Reserva de Ennedi
CHADE
Nas profundezas do
Nordeste do Saara, as
austeras torres de arenito
do planalto de Ennedi
protegem os charcos, a
vegetação de oásis, os animais
selvagens sob cerco e os
petróglifos antigos das
paredes do desfiladeiro.
O grupo de conservação
African Parks (AP) assumiu a
Gestão da Reserva Natural e
Cultural de Ennedi em parceria
com o governo do Chade.
T e x t o d e D AV I D Q U A M M E N
Fotografias de BREN T STIRTON

COMO SALVAR
OS PARQUES
DE ÁFRICA PA R A SA LVA R O S I C Ó N I C O S A N I M A I S S E LVAG E N S D O
C O N T I N E N T E A F R I C A N O DA C AÇ A F U RT I VA E D E O U T R A S A M E AÇ A S ,
UM G RU P O D E C O N S E RVAÇ ÃO R E S O LV E U G E R I R O S PA RQ U E S
D E G R A DA D O S C OMO S E F O S S E M E M P R E SA S C OM D I F I C U L DA D E S ,
C A R E N T E S D E UM A N OVA G E R Ê N C I A . A S O LU Ç ÃO R E S U LTA .

31
U
´LT I M O S LU GA R E S S E LVAG E N S

A African Parks é um grupo de conservação


que participa na iniciativa “Os Últimos Lugares
Selvagens”, da National Geographic Society.

A sede do Parque Nacional de Zakouma, no Su-


deste do Chade, é uma estrutura que faz lembrar
de alguma maneira uma antiga fortaleza do de-
serto. Em frente da porta da sala de controlo cen-
tral, no segundo piso, está afixada uma fotografia
de uma Kalashnikov, debruada a vermelho, com
Parque Nacional uma faixa por cima: não são permitidas armas no
de Garamba interior, embora estas armas sejam omnipresen-
REPUBLICA
´
DEMOCRÁTICA tes em Zakouma. Todos os vigilantes da natureza
DO CONGO têm uma… e os intrusos que vêm matar animais
Numa região devastada selvagens também.
pela guerra, Garamba
atrai os rebeldes que Classificado como parque nacional desde 1963,
praticam a caça furtiva de Zakouma já foi uma zona de guerra para os elefan-
elefantes porque as suas tes. Há cinquenta anos, o Chade tinha cerca de tre-
presas podem servir para
comprar munições. Um zentos mil elefantes, mas, em meados da década
vigilante da natureza de 1980, esse número diminuiu catastroficamen-
(integrado numa força te devido à caça furtiva. Zakouma tornou-se um
treinada e equipada pela
AP) monta guarda a refúgio desconfortável para os quatro mil elefan-
presas recuperadas. tes que restavam.

C O M O S A L V A R O S P A R Q U E S D E Á́ F R I C A 33
Parque Nacional
de Zakouma
CHADE
Este parque, numa
região de capim e acácias
no Sudeste do Chade,
perdeu mais de 90% dos
seus elefantes na primeira
década do século,
principalmente devido
a bandidos montados
a cavalo oriundos do
Sudão. A AP assumiu
a gestão em 2010 e agora
os elefantes sentem-se
suficientemente seguros
para se dispersarem
mais e gerarem crias
em abundância.
Depois, durante a primeira década deste sécu- to, na nossa conversa telefónica, reforçou a neces-
lo, mais de 90% da população de elefantes de Za- sidade de seguranças bem armados nos parques
kouma foi abatida, na sua maioria por cavaleiros para proteger os animais selvagens e os membros
sudaneses vindos de leste em expedições parami- das comunidades vizinhas que possam estar su-
litares para recolha de marfim. (Ver “A Guerra do jeitas a actos de violação, pilhagem e saque pela
Marfim”, National Geographic, Março de 2007). próxima vaga de demónios a cavalo. “Elas reco-
Estes cavaleiros são conhecidos como janjaweed, nhecem que é o parque que lhes dá estabilidade e
uma palavra árabe que se pode traduzir livre- segurança”, resumiu Peter Fearnhead.
mente como “demónios a cavalo”, embora alguns Leon Lamprecht desenhou-me um diagrama
montem camelos. As suas origens remontam aos em forma de pirâmide com os níveis das tarefas,
grupos árabes nómadas, cavaleiros habilidosos, segundo a visão da AP. Na base da pirâmide, ve-
que, uma vez armados e apoiados pelo governo mos a aplicação da lei, as infra-estruturas e uma
do Sudão, se transformaram em implacáveis for- equipa de pessoal sólida – “integridade da área”.
ças ofensivas durante o conflito em Darfur e, mais Depois disso, subimos um nível: desenvolvimen-
tarde, bandidos mercenários desejosos de mar- to comunitário para os autóctones, turismo e in-
fim. Durante algum tempo, parecia que poderiam vestigação ecológica.
matar todos os elefantes do Chade.
Em 2010, a convite do governo do Chade, uma O CENTRO NEVRÁLGICO deste esforço é a sala de
organização privada chamada African Parks (AP) controlo central, onde informações recentes sobre
assumiu a gestão de Zakouma e a tendência parou a localização dos elefantes e qualquer actividade
de imediato. Fundada em 2000 por um pequeno humana perturbadora – como um acampamento
grupo de conservacionistas preocupados com as de pesca ilegal, um tiro, cem cavaleiros armados a
perdas hemorrágicas de animais selvagens no galopar na direcção do parque – é utilizada para
continente, esta organização sem fins lucrativos determinar o posicionamento de vigilantes. As fon-
trabalha com os governos para restaurar e gerir tes de informação incluem sobrevoos de reconhe-
parques nacionais com a condição de exercer ple- cimentos, patrulhas a pé, coleiras GPS nos elefantes
no controlo no terreno. A AP gere actualmente 15 e rádios portáteis entregues a informadores de con-
parques em nove países, trazendo financiamento fiança que vivem nas aldeias em redor do parque.
externo, práticas eficientes de negócio e uma apli- A reunião diária começa às 6h00. Vê-se uma
cação rigorosa da lei para algumas das zonas sel- mesa com dois monitores ao computador e, na
vagens mais conturbadas de África. parede, um mapa enorme decorado com pione-
Em Zakouma, as forças responsáveis pela apli- ses. Na manhã da minha visita, Tadio Hadj-Ba-
cação da lei mobilizam mais de cem vigilantes guila, o chadiano que chefia a força de aplicação
bem armados, sobretudo homens, mas também da lei do parque, presidia à reunião em francês.
algumas mulheres. Esses recursos são distribuí- Leon Lamprecht explicou que os pioneses pre-
dos de forma articulada e com uma estratégia so- tos do mapa representam elefantes. Os pioneses
fisticada. O sul-africano Leon Lamprecht, criado verdes são as equipas de patrulha regulares (co-
no Parque Nacional Kruger, onde o pai era vigilan- nhecidas como Equipas Mamba) de seis vigilantes
te da natureza, é o gestor nomeado pela AP para por equipa, vasculhando o parque cinco vezes por
o parque de Zakouma. “Não somos uma organi- dia. O seu percurso é ditado pelos elefantes, que
zação militar”, disse, enquanto me mostrava um as Equipas Mamba seguem como anjos da guarda.
baú cheio de armas e munições no arsenal, um E isto, disse Leon, enquanto apontava para um
barracão trancado no piso térreo da sede. “Somos pionés vermelho e branco espetado fora do mapa,
uma organização de conservação que treina os representa uma Equipa Phantom, com dois vigi-
seus vigilantes como paramilitares.” lantes em reconhecimento de longo alcance. Es-
Peter Fearnhead, director-geral da African Parks tas equipas operam num tal secretismo que nem
e um dos seus co-fundadores, rejeita a ideia de a sua o operador de rádio conhece as suas localizações
organização ser altamente militarizada. No entan- – apenas Leon Lamprecht e Tadio Hadj-Baguila.
Os dados são coligidos todas as manhãs e todas
as tardes. “Jogamos xadrez duas vezes por dia”,
Este artigo foi financiado pela Wyss Campaign disse Leon Lamprecht. Do outro lado do tabuleiro
for Nature, que está a trabalhar com a National
Geographic Society e outras organizações para ajudar estão os janjaweed e os outros caçadores furtivos
a proteger 30% do nosso planeta até 2030. que possam pôr à prova as fronteiras de Zakouma.

36 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
UMA NOVA ALIANÇA
O grupo de conservação African Parks (AP) apresenta uma nova
abordagem ao salvamento das zonas selvagens de África, no momento em Á F R I C A
que os conflitos armados, a caça furtiva e outras ameaças as vão cercando.
Compromete-se a fornecer todos os recursos para a reabilitação do
parque, reabilitação da sua vida selvagem e apoio das comunidades em
redor. Em troca, o governo, que continua a ser o proprietário da área
protegida, tem de ceder o controlo pleno da gestão.

Fundada em 2000,
a AP gere actualmente
15 parques em nove
RESERVA NATURAL E países, num total
CULTURAL DE ENNEDI superior a 105.000
quilómetros quadrados.

PARQUE NACIONAL SUDÃO


PENDJARI RESERVA DE FAUNA
SINIAKA MINIA D AR FU R Áreas protegidas geridas
pela ONG African Parks
P.N. Incidentes confirma-
NIGÉRIA ZAKOUMA
dos que envolveram
confrontos armados
CHINKO SUDÃO
DO SUL mi 300

km 300

PARQUE
NACIONAL
GARAMBA UGANDA
PARQUE NACIONAL
ODZALA-KOKOUA
P.N. AKAGERA

ZONAS HÚMIDAS
DE BANGWEULU
RESERVA DE VIDA
SELV. NKHOTAKOTA
PARQUE
NACIONAL RESERVA FLORESTAL
DA PLANÍCIE DE MANGOCHI
RESERVA
DE LIUWA VIDA SELV. P.N. LIWONDE
MAJETE

PARQUE
NACIONAL DO
ARQUIPÉLAGO
DE BAZARUTO

RYAN MORRIS
FONTES: AFRICAN PARKS; DADOS
DO PROJECTO E LOCALIZAÇÕES DE
EPISÓDIOS DE CONFLITO ARMADO (ACLED)
Parque Nacional
de Pendjari
BENIN
Numa zona-tampão de
utilização mista, este lago
de águas pouco profundas
permite a pesca por
autóctones uma ou duas
vezes por ano. Os aldeãos
também cultivam algodão,
recolhem lenha e fabricam
carvão na zona-tampão.
A gestão do parque
trabalha com associações
comunitárias, oferecendo
incentivos para o cultivo
de algodão biológico para
limitar o impacte.
Parque Nacional
de Pendjari
BENIN
Os últimos leões da África
Ocidental pertencem a
uma subpopulação em
perigo crítico e este jovem
macho é um de cerca de
cem que vivem em
Pendjari. Junto da fronteira
setentrional do Benin, o
parque apoia um sistema
de áreas protegidas
partilhadas por três países,
ao qual a UNESCO chamou
Complexo W-Arly-Pendjari.
É uma “ilha” de dimensão
considerável de esperança
para a vida selvagem da
África Ocidental.

Penduradas num ponto alto da parede, acima dos 24 elefantes e não houve captura de marfim.
dos mapas, encontram-se algumas placas que Os janjaweed foram repelidos, tendo, pelo menos
assinalam as perdas, em número pouco signifi- temporariamente, redireccionado os seus esfor-
cativo mas profundamente sentidas, desde que a ços para outros alvos, mais fáceis. Após décadas
AP assumiu a gestão. Incidente. 24 de Outubro de de caos e terror, os elefantes de Zakouma volta-
2010. PN Zakouma. 7 elefantes, relata uma. Outra: ram a reproduzir-se. A sua população inclui agora
19 de Dezembro de 2010. PN Zakouma. 4 elefantes. cerca de 150 crias, um sinal de saúde e esperança.
As placas soam como sinos a dobrar. Noutra fila,
encontra-se uma mensagem diferente, mas igual- violenta continuam a
A S A M E AÇ A S D E I N C U R S ÃO
mente sucinta: Incidente. 3 de Setembro de 2012. ser graves em Zakouma, mas são ainda piores no
Heban. 6 Guardas. A emboscada assassina, mon- Parque Nacional da Garamba, no canto nordeste da
tada por caçadores furtivos a meia dúzia de vigi- República Democrática do Congo (RDC). Garamba
lantes da natureza, numa colina chamada Heban, está sob ataque por todos os lados.
é uma memória sombria e um incentivo duradou- A AP gere Garamba desde 2005, ao abrigo de
ro para a vigilância na cultura de Zakouma. um contrato de parceria com o Instituto Congolês
Apesar dessas perdas, a AP estancou a hemor- para a Conservação da Natureza (ICCN), da RDC.
ragia dos elefantes. Desde 2010, só foram abati- A paisagem da Garamba é um mosaico de savana,

40 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Outras zonas conturbadas do Uganda e da Re-
pública Centro-Africana não se encontram longe.
A localização de Garamba, as suas zonas florestais
densas e o seu marfim transformaram-no numa
encruzilhada, numa tentação e, por vezes, num
campo de batalha para exércitos rebeldes e outros
intrusos perigosos durante mais de duas décadas.
No início de 2009, por exemplo, o Exército de
Resistência Lorde (LRA) – um grupo rebelde do
Norte do Uganda, conhecido por raptar crianças
para as usar como soldados ou escravas sexuais e
liderado pelo fanático Joseph Kony – emergiu do
seu refúgio no ecossistema de Garamba ocidental
e atacou uma aldeia perto da sede do parque, in-
cendiando vários edifícios e roubando uma gran-
de quantidade de marfim armazenado.
Os vigilantes da natureza resistiram, matando
alguns elementos do LRA e perdendo 15 dos seus
próprios membros. Poucos anos mais tarde, cerca
de mil rebeldes em retirada da guerra do Sudão do
Sul transpuseram a fronteira. Depois do último
grande ataque do LRA, o director-geral do ICCN,
Cosma Wilungula Balongelwa, sentiu-se muito
preocupado. “Eu quase perdera a esperança de
que fosse possível manter o equilíbrio”, disse-me
numa das suas visitas ao parque. Nessa altura,
Cosma perguntara a Peter Fearnhead se a AP po-
deria encerrar o projecto. “Peter recusou e garan-
tiu que a organização não abandonaria Garamba.”
Naftali Honig, antigo investigador de crimes re-
lacionados com vida selvagem (e bolseiro da Na-
tional Geographic), com sete anos de experiência
de perseguição a caçadores furtivos noutros locais
da África Central, é agora o director do Departa-
mento de Investigação e Desenvolvimento da
Garamba. O Parque já recebeu ajuda da National
mato seco e floresta, alojando a maior população Geographic e de outras organizações que desen-
de elefantes da RDC, bem como girafas de Cor- volvem novas ferramentas de vigilância, como
dofão (uma subespécie criticamente ameaçada), sensores acústicos que conseguem distinguir um
leões, hipopótamos, cobos do Uganda e outras es- tiro do som de um ramo a partir-se nas profunde-
pécies de vida selvagem. Constitui o núcleo cen- zas do parque. “A African Parks deu uma ligeira
tral de um ecossistema que inclui três reservas de vantagem experimental a Garamba”, disse Nafta-
caça adjacentes, nas quais é permitida alguma ex- li Honig, lembrando que uma área protegida tão
ploração por parte das comunidades locais. grande enfrenta ameaças externas graves.
A sua história está carregada de guerras e caça No entanto, as patrulhas no terreno continuam
furtiva militarizada. Os seus rinocerontes-bran- a ser a arma de defesa mais importante. Um as-
cos-do-norte (outra subespécie em perigo crítico) sessor britânico chamado Lee Elliott explicou-me
foram caçados quase até à extinção: apenas duas o programa de treino. Lee juntou-se à AP depois
fêmeas sobrevivem em cativeiro. Garamba parti- de uma carreira de 24 anos no exército: alistou-se
lha 261 quilómetros de fronteira com o Sudão do como soldado raso, foi subindo de patente e pres-
Sul, um país tumultuoso que lutou para se tornar tou serviço militar no Afeganistão. Quando che-
independente do Sudão nos primeiros anos deste gou a Garamba em 2016, havia pouca disciplina e
século e depois iniciou uma guerra civil. organização entre os vigilantes da natureza.

C O M O S A L V A R O S P A R Q U E S D E Á́ F R I C A 41
Parque Nacional
de Garamba
RDC
Vigilantes da natureza do
Instituto Congolês para a
Conservação da Natureza
(ICCN) são largados no
terreno por um helicóptero
da AP para combaterem os
caçadores furtivos que
ameaçam os elefantes. Não
era uma simulação: dois
caçadores furtivos
morreram no tiroteio
subsequente e um
vigilante ficou ferido.
Nenhum elefante morreu.
A AP colabora com o ICCN
para defender Garamba.
Parque Nacional
de Garamba
RDC
A floresta de Garamba e
as áreas de savana são tão
planas que uma elevação
subtil chamada monte
Bagunda serve de ponto
de observação para os
vigilantes da natureza.
Acampada sob a torre
de comunicações, uma
equipa pode ficar alerta
a incêndios, patrulhar o
terreno em busca de
caçadores furtivos e
transmitir informações
oportunas à base.

“Temos boas pessoas aqui, mas temos de as explicou Lee Elliott, era ver quem tinha determi-
tratar bem.” Lee destaca Pascal Adrio Anguezi, nação e disciplina, mesmo estando exausto.
um major congolês que trabalha como chefe das
forças da lei. Define-o como incorruptível. “Seria participei numa missão de moni-
C E RTA M A N H Ã ,
mais difícil se não tivéssemos o Pascal”, diz. torização com Achille Diodio, o jovem encarregado
No campo, encontramos oito vigilantes exaus- de monitorizar as 55 girafas de Cordofão do parque.
tos que acabam de terminar um exigente treino Pouco depois de chegarmos a uma área onde habi-
de 48 horas. Ontem, fizeram simulações durante tualmente as girafas se concentram (uma savana
o dia e exercício físico à noite, por isso dormiram aberta pontuada por acácias e outras árvores que
pouco. Hoje de manhã, correram e agora acaba- elas podem tasquinhar), Achille detectou uma
ram de atravessar o mato em equipas de quatro, cabeça espreitando no mato à nossa direita. Através
de armas em punho: eram simulações de desloca- do seu ficheiro com imagens de identificação, con-
ção e tiroteio, com dois homens sempre a disparar, firmou que era a GIR37F, uma fêmea adulta, avis-
garantindo a protecção, enquanto os outros dois tada pela primeira vez quatro anos antes. Estava
corriam à sua frente. No final de uma investida, a equipada com um transmissor, mas este parara de
equipa apontou para um alvo em forma de tronco funcionar há muito tempo e Achille ficou feliz por
numa árvore. O mais importante nesta simulação, vê-la viva e, aparentemente, de boa saúde.

44 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
cançarem posições de liderança. Vou apresentar
as coisas de maneira crua: a AP precisa de mais
rostos negros no topo. Peter Fearnhead reconhe-
ceu esta necessidade, dizendo que é um problema
geral de todo o sector da conservação em África,
durante muito tempo dominado pelo Estado.
Da mesma maneira, as ONG, incluindo a AP,
não fizeram o suficiente para formar os africanos
em biologia e gestão no âmbito da conservação.
“Temos de investir mais nesse sentido”, disse Pe-
ter. Jovens congoleses brilhantes com interesse
pela conservação, como Achille Diodio, não de-
veriam ser obrigados a percorrer meio mundo e a
estudar mandarim.

de vigilantes paramilitares
A Ê N FA S E N A S F O R Ç A S
coloca a AP perante outra questão delicada: a res-
ponsabilização dessa força armada. A WWF, outra
organização de conservação, foi alvo de críticas no
início deste ano devido a alegações segundo as
quais as forças contra a caça furtiva que financiara
na Ásia e em África violaram os direitos humanos
de alegados caçadores furtivos. A WWF pediu uma
análise independente destas alegações e o grupo
de revisão (liderado pelo juiz Navi Pillay, antigo
alto comissário das Nações Unidas para os Direitos
Humanos) ainda não divulgou o seu relatório.
Em que medida é a AP diferente? “O nosso
modelo torna-nos responsáveis pelos vigilantes.
Eles são dos nossos”, disse-me Markéta Antoní-
nová, uma mulher checa que estudou em Praga
e trabalha com a AP há mais de uma década.
Markéta foi gestora de projectos especiais da
AP no Parque Nacional de Pendjari, no Norte do
Benin, onde foi responsável pela investigação e
aplicação da lei. Ao contrário da WWF, disse, a
Achille Diodio é o tipo de talento em ascensão AP contrata directamente os seus vigilantes da
de que a AP precisa. É congolês, nascido numa natureza e assume a responsabilidade por tudo
vila dos arredores de Garamba e teve a sorte de a o que eles fizerem.
família ter conseguido mandá-lo estudar na escola Pendjari é o último refúgio importante de
secundária de uma cidade maior e depois frequen- elefantes e leões na África Ocidental. Faz par-
tar a Universidade de Kisangani. Ganhou uma bol- te de um complexo transfronteiriço que inclui
sa de estudos na China e dali seguiu para Harbin, parques adjacentes no Burkina Faso e no Níger,
onde passou o primeiro ano a aprender o idioma. e a zona protegida de Pendjari (como o ecossis-
Já falava lingala, suaíli, francês, inglês e um pouco tema de Garamba) abrange zonas-tampão junto
de kikongo, mas conseguiu dominar o mandarim. dos seus limites meridionais e orientais, onde
Quatro anos mais tarde, com um mestrado de uma as comunidades autóctones estão autorizadas
boa universidade e uma tese sobre elefantes congo- a caçar. Também é uma das mais recentes in-
leses, juntou-se à AP como voluntário. A organiza- corporações no portfólio de gestão da AP, desde
ção não tardou a oferecer-lhe emprego. 2017, com um contrato de dez anos e um acordo
Vários membros da direcção da AP referiram de colaboração no valor de 20,7 milhões de euros
aquilo que consideram um desafio urgente: for- com o governo do Benin, a Fundação Wyss e a
mar e impulsionar os jovens africanos para al- National Geographic Society.

C O M O S A L V A R O S P A R Q U E S D E Á́ F R I C A 45
Reserva de Vida
Selvagem de Majete
MALAWI
Estudantes fazem uma pausa
à beira-rio durante uma
visita a Majete, no âmbito
de uma iniciativa da AP que
incentiva os residentes a
usufruírem do seu parque.
A caça furtiva e a desordem
grassavam em Majete antes
de a AP assumir o controlo
em 2003. Rinocerontes-
-negros, elefantes, leões,
leopardos, impalas e outros
animais foram reintroduzidos
com sucesso. O turismo está
a aumentar e metade dos
visitantes são do Malawi.
Reserva de Vida
Selvagem de Majete
MALAWI
Dançarinos da aldeia
de Tsekera, junto de
Majete, fazem a Gule
Wamkulu (Granda Dança),
para invocar espíritos
ancestrais e trazer chuvas
ou aplacar conflitos.
Esta dança tradicional
é reproduzida no parque
como espectáculo turístico,
gerando receitas para as
comunidades. Majete,
outrora esvaziada de vida
selvagem e de vitalidade
económica, prospera
actualmente.

Markéta Antonínová e o seu companheiro, o marfim, observei. Nem exércitos a marchar vin-
canadiano James Terjanian, vieram para Pendjari dos da guerras, saqueando aldeias pelo caminho.
no início do contrato da AP: ele como director do “Não”, disse ela. “Ainda não.”
parque e ela como directora-adjunta, até se trans- Antes de 2017, “tudo em Pendjari se baseava em
formarem numa família e terem de encontrar desconfiança e conflito”, lembrou. A AP foi con-
residência. Como sempre, o reforço dos grupos tratada para assumir plena autoridade pela ges-
encarregados da aplicação da lei revelou-se um tão, tentando trabalhar cooperativamente com to-
desafio urgente. De 15 guardas mal treinados, a das as partes, beneficiando assim a vida selvagem,
força de Pendjari evoluiu e conta agora com cerca a paisagem e os autóctones. Na opinião da minha
de cem vigilantes da natureza bem preparados. interlocutora, “não existe outra maneira de fazer
Markéta Antonínová estava em Zakouma, em as coisas”. É o modelo da African Parks, diz ela. Ou
2012, quando os vigilantes da natureza morre- confiam em nós ou não confiam.
ram em Heban, e estava em Garamba quando o
LRA queimou a aldeia junto da sede, em 2009. no final da estação seca, o Par-
U M A V E Z P O R A N O,
O Parque Nacional de Pendjari enfrenta desafios que Nacional de Garamba comemora o Dia dos Vigi-
diferentes. Aqui não há cavaleiros armados que lantes da Natureza, um festival de exibições marciais
irrompam parque adentro a galope para roubar e outras manifestações de apreço pelos agentes que

48 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
quatro trompetes, uma tuba, címbalos e dois tam-
bores. Um general passou revista aos vigilantes da
natureza, com Pascal Anguezi a seu lado. Agora,
já estava calor suficiente para ficarmos gratos pe-
las ventoinhas eléctricas que sopravam na galeria.
Foi então que começaram os discursos.
John Barrett, o gestor de Garamba, disse algu-
mas palavras em francês, manifestando o apreço
pelas tropas. “Dezanove vigilantes morreram aqui
em acção. Hoje lamentamos a sua perda.”
John Scanlon, enviado especial da AP, uma
espécie de embaixador global da organização,
abordou o tema do desenvolvimento sustentá-
vel das comunidades vizinhas e também (com
as alegações da WWF frescas na memória de to-
dos) a necessidade de temperar o fervor contra
os caçadores furtivos com respeito escrupuloso
pelos direitos humanos. Cosma Balongelwa, di-
rector-geral da ICCN, que se deslocara da capi-
tal, Kinshasa, especialmente para este evento,
falou sobre a parceria entre a sua organização
e a AP e, ao fim de meia hora de discurso, um
vigilante da natureza que estava na formação
desmaiou devido ao calor e foi transportado
para fora do campo. Por fim, sob as ordens inci-
sivas do major Anguezi, o desfile chegou ao fim:
os vigilantes integrados na formação saíram,
seguidos por quatro mulheres vigilantes, cinco
veteranos, 200 crianças em idade escolar com
uniformes azuis e brancos e, em último lugar, a
banda, brava e incansável. O dia terminou com
jogos da corda divertidos, durante os quais os
vigilantes jogaram contra soldados do exército
da RDC ou vigilantes contra vigilantes, oito ho-
mens de cada lado, arrastando-se pelo campo
de terra batida, puxando uma corda grossa. Lee
usam as armas e assumem a responsabilidade de Elliott, o assessor britânico, supervisionava ale-
defender os animais selvagens e a ordem dentro do gremente a diversão.
parque. Este ano, o grande dia começou quente e Por esta altura começara a chuviscar. Os digni-
límpido. Reunimo-nos no campo de manobras ao tários partiram antes de o dia ficar mesmo molha-
final da manhã. Enquanto os dignitários e visitantes do. Os jogos da corda continuaram. Os chuviscos
se sentam sob uma tenda e cem vigilantes assumem transformaram-se numa chuvada torrencial.
as suas posições, à vontade, no meio do campo, Pas- A poeira deu lugar à lama escorregadia. Os vigilan-
cal Anguezi apresenta-se diante de nós. Com dois tes da natureza, escorregando, caindo e levantan-
metros de altura, parece imponente no seu uniforme do-se para jogar mais, deram o seu melhor a pu-
e boina verde, com um microfone sem fios na boche- xar a corda. Lee Elliott, encharcado e sujo, sorria,
cha esquerda e uma espada de cerimónia na mão cheio de orgulho, enquanto coordenava mais um
direita. Vai ser o mestre-de-cerimónias hoje. jogo. “Se não há chuva, não há treino”, disse Naf-
Às 11h25, o major deu ordem de sentido às tro- tali Honig. Depois, ele e os outros, incluindo eu,
pas. Um esquadrão de entretenimento constituí- subiram para os Land Cruisers e foram almoçar.
do por soldados do exército congolês, com a ban- Nós fomos embora, os vigilantes da natureza
deira da RDC, entrou no campo, seguido de uma ficaram lá, a dar o seu melhor em condições difí-
pequena banda que tocava o hino nacional com ceis. Afinal, é o que fazem sempre. j

C O M O S A LVA R O S P A R Q U E S D E Á F R I C A 49
O ENIGMÁTICO SÍTIO
DO ALTO DA VIGIA
NAS IMEDIAÇÕES DA PRAIA DAS MAÇÃS, EM SINTRA , UM SÍTIO
ARQUEOLÓGICO DESAFIA A IMAGINAÇÃO DOS HISTORIADORES
H Á M U I T O T E M P O – M A I S P R E C I S A M E N T E H Á Q U I N H E N T O S A N O S…
TEXTO DE GONÇALO PEREIRA ROSA

FOTOGRAFIAS DE MÁRIO RIO

ILUSTRAÇÕES DE ANYFORMS

Em Agosto de 1505,
Dom Manuel I foi informado
de um estranho
acontecimento produzido
num morro sobranceiro
à Praia das Maçãs. Ao abrigo do processo em curso de fortificação da
costa portuguesa, o rei mandara construir uma vi-
gia no local, mas as pás e os ferros dos operários,
ao revolverem o solo, abriram inadvertidamente
um portal para a Antiguidade. A seus pés, jaziam
agora três aras com estranhas frases gravadas.
O rei foi informado e visitou o local – sabemo-lo O vale do rio de Colares
através de duas cartas que Valentim Fernandes, terá atingido o máximo
membro da corte que fora um dos responsáveis de água há cinco mil
anos, altura em que a
pela introdução da imprensa em Portugal, escre- região também era
veu a amigos na Alemanha. Nelas, narra a visita do povoada por comunida-
rei ao local e dá conta de um episódio ainda mais des pré-históricas.
Existe aliás um monu-
curioso: Cataldo Sículo, um siciliano que viera para mento funerário
o país em 1485 e que deverá ter trazido com ele os neolítico junto da Praia
ventos do Renascimento, acompanhou o rei na vi- das Maçãs. O esteiro
navegável colocou
sita. Erudito, leu as frases em latim, interiorizou o problemas de segu-
conteúdo e improvisou de seguida um epigrama rança até ao século
neolatino, explicando ao rei embevecido que as XVIII, altura em que a
colmatação do vale
aras homenageavam o império português, descre- criou a popular praia.
vendo a profecia das sibilas, que previa o dia em A construção de uma
que as pedras se virariam sobre si próprias e surgi- vigia manuelina para
garantir a segurança da
riam à superfície na era maravilhosa em que as ri- costa desencadeou os
quezas dos rios Ganges e Indo entrassem pelo Tejo. achados de 1505.

52 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Tudo isto seria decretado pelo Sol Eterno e pela O primeiro visitante de que há notícia foi o fu-
Lua, mas só esta referência correspondia ao texto turo bispo de Viseu e futuro embaixador de Dom
das inscrições. “O resto foi um golpe de marketing Manuel I junto do papa, Dom Miguel da Silva.
político”, diz, com uma gargalhada, o historiador Recém-chegado de Itália em 1512, vinha imbuído
José Cardim Ribeiro, fundador e primeiro direc- do espírito do Renascimento e do culto das anti-
tor do novo Museu Arqueológico de São Miguel de guidades clássicas. A curiosidade levou-o ao Alto
Odrinhas (MASMO). “Tratou-se de uma interpreta- da Vigia e ali reproduziu, com rigor, duas das três
ção erudita, mas certamente política para bajular o inscrições. “A terceira já estaria ilegível”, comenta
rei. Foi tão bem-sucedida que a profecia falsa foi re- a arqueóloga Teresa Simões, actual directora do
petida em livros do século XVI e do início do século MASMO. As duas inscrições reproduzidas davam
XVII, incluindo no prefácio de Nostradamus. Já conta de consagrações ao Sol e à Lua e ao Sol Eter-
recolhi cerca de oitenta menções. Poderá parecer no e à Lua, referências então desconhecidas no
ridículo hoje, mas na época teve grande impacte.” estudo da mitologia romana.
Na verdade, os operários de Dom Manuel ti- Tal como hoje qualquer visitante ilustre de Sin-
nham exposto vestígios de um velho culto da An- tra sobe ao Palácio da Pena, os ilustres do século
tiguidade, praticado no Alto da Vigia e caído em XVI desfilaram perante as aras romanas. O infante
esquecimento à medida que o paganismo romano Dom Luís, o irmão erudito de Dom João III (sobre
dera origem ao monoteísmo do final do império. quem se dizia “Teve tudo, só lhe faltou ser rei”),
Outros autores eruditos do século XVI não toma- foi uma dessas figuras. Visitou igualmente o local
ram à letra a farsa de Sículo e, nos anos seguintes, cerca de 1540 e conduziu lá outra figura notável
deram-se ao trabalho de viajar até este ponto ermo da época, o jovem humanista Francisco de Holan-
do território para ver as inscrições. Na Antigui- da, regressado de Itália. Devemos a este talentoso
dade, note-se, o mundo conhecido terminava no escritor e desenhador uma peça fundamental do
cabo da Roca e no mar revolto que o rodeia. enigma da Praia das Maçãs.

V
No local, o ruído da rebentação constante em-
bala o caminhante à medida que este perscruta o exacto
E N H A , VO U M O S T R A R- L H E O S Í T I O
horizonte, abrangendo a reentrância do cabo da onde Francisco de Holanda se sentou para
Roca à esquerda e o oceano infinito em frente. desenhar o santuário”, brinca José Cardim
À direita, um vale e a praia separam o Alto da Vi- Ribeiro, enquanto nos conduz entre a vege-
gia das urbanizações da Praia das Maçãs. Giran- tação quase rasteira mas densa do Alto da
do para trás, avista-se a serra de Sintra, ou monte Vigia. O humanista não se contentou com
da Lua, como era conhecida no período romano. a observação do sítio arqueológico: dese-
A nossos pés, estende-se uma falésia quase ver- nhou-o, implantando na paisagem um círculo de 16
tical até ao mar. Gozando o momento, Cardim aras, com um disco central e talvez a sugestão da
Ribeiro dispara: “Não encontra melhor local para Lua na margem e o Sol no horizonte. Naturalmente,
implantar um santuário.” Cardim Ribeiro não encontrou o local exacto da
Era possível no século I d.C. navegar pelo estei- observação do humanista (embora não resista a
ro que então corria na actual praia e ter acesso ao brincar com a nossa equipa de ilustradores, lem-
local por via marítima ou terrestre. Em noites lím- brando-lhes a responsabilidade de serem os primei-
pidas, o Sol põe-se no oceano e a Lua por trás da ros, depois de Francisco de Holanda, a reproduzirem
serra, iluminando subitamente a região como se o santuário romano), mas aponta para o local que
todos os interruptores do Palácio da Pena se ligas- permitiu a redescoberta do sítio, já no século XX.
sem. Para um romano, deveria parecer o local ideal O recorte da costa na margem direita do dese-
para implantar um santuário de culto ao Oceano. nho corresponde ao recorte actual da paisagem.

A
Contrapondo a reprodução de Holanda à observa-
S ARAS PERMANECERAM NO LOCAL nos ção contemporânea, o arquitecto Jorge Segurado
anos seguintes à descoberta de 1505. “Em propôs, em 1970, que o Alto da Vigia corresponde-
certos aspectos, foi a primeira descoberta ria ao sítio onde apareceram as aras manuelinas.
arqueológica portuguesa”, diz Cardim Não se conseguiu então fundamentar a hipótese,
Ribeiro. “Embora acidental, foi documen- mas a conjectura pairou na mente de eruditos
tada e o rei deu ordem para deixar as como o então estudante José Cardim Ribeiro.
pedras inúteis, ou seja, para não as reutili- Tinham então passado quase cinco séculos des-
zarem noutros contextos.” de a descoberta acidental e os peritos dividiam-se.

54 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Sobranceiro a uma das praias mais populares, o morro do Alto da Vigia escondeu, durante um milénio, os
vestígios que as escavações agora revelam. Desde 2008 emergiram estruturas islâmicas correspondentes ao
segundo ribat conhecido em Portugal e outras de um local cerimonial romano, onde existiu um templo.
As crónicas vikings
contêm um pequeno
poema, descrevendo uma
incursão violenta do rei
Sigurd I em Sintra.
Conjectura-se que o
desembarque ocorreu
na Praia das Maçãs.
A confirmar-se, os vikings
teriam certamente
avistado o ribat islâmico
no Alto da Vigia.
FRAGMENTOS DE
CULTOS ESQUECIDOS
Os vestígios materiais encontrados até agora não Algumas aras (como esta em baixo, à esquerda)
abundam, mas as epígrafes em aras são particu- expressam a erudição dos dedicantes, ora regis-
larmente relevantes. O Alto da Vigia contém tando em grego a sua promessa, ora declinan-
metade de todas as inscrições conhecidas no do, com tiques de perfeccionismo, a mensagem
Império Romano em honra do deus Oceano, o para a posteridade. O currículo dos dedicantes
que sugere a singularidade deste culto e a é impressionante: só os governadores da Lusitâ-
importância do santuário da zona de Sintra. nia faziam oferendas no Alto da Vigia.

MOEDAS DE OUTROS TEMPOS


O espólio numismático até agora encontrado não é vasto, mas abrange uma enorme amplitude tempo-
ral. Da esquerda para a direita, moeda de Honório (395-423 d.C.), moeda de Constantino I, comemorativa
da cidade de Roma (c. 130 d.C.), moeda de Gordiano III (238-244 d.C.) e moeda de Arcádio (395-408 d.C.)
Para os epigrafistas, parecia evidente que as trans- imperador ter incluído um cortejo alegórico, onde,
crições do bispo e, mais tarde, de André de Resen- aí sim, a figura de um tritão tocaria búzio. A repre-
de teriam de corresponder a achados concretos; sentação teria agradado aos romanos e Plínio recor-
para os historiadores de arte, os desenhos de Fran- dá-la-ia com um sorriso nos lábios, numa ironia que
cisco de Holanda não eram necessariamente cor- nos escapou vinte séculos depois.”
respondentes a um sítio físico e palpável. Desde o Fosse como fosse, o episódio do tritão foi re-
século XIX que epigrafistas famosos como Emílio cuperado por outro humanista, Damião de Góis.
Hübner tinham vindo a Sintra com o propósito ex- Na sua “Descrição de Lisboa”, Góis recupera o
plícito de deslindar o mistério e identificar a fonte episódio, dando-lhe algum crédito e situando o
das aras. Regressaram a casa com as mãos vazias. acontecimento no Fojo, o grande algar que exis-
A memória colectiva é, aliás, um processo curio- te na praia da Adraga, a sul da Praia das Maçãs.
so – preserva alguns traços e esquece outros, sem “É um algar monstruoso que se abre aos nossos
um critério aparente. O sítio do Alto da Vigia con- pés e por onde o mar avança”, diz Cardim Ribei-
tinuou a ser visitado no século XVI, mas as aras ro. “A partir da obra de Damião de Góis, o Fojo
foram desaparecendo. “As pedras andam”, brinca passou a ser o sítio de romagem dos eruditos, a
Teresa Simões. “Não damos por isso, mas elas são ponto de, no primeiro mapa geral de Portugal (de
movimentadas pelas razões mais incríveis e avan- Álvaro Seco, em 1570), a região de Lisboa se limi-
çam de aldeia em aldeia.” Quando André de Re- tar aos topónimos de Lisboa, Cascais, Roca, Sin-
sende visitou o santuário, aproximadamente em tra, Colares e… ao minúsculo Fojo.” A memória
1540, já uma das aras fora deslocada para a ermida do Alto da Vigia desvaneceu-se até Jorge Segura-
de Nossa Senhora de Melides, em Colares. Sabe-se do publicar, em 1970, as gravuras de Francisco de
que a outra terá sido levada em data incerta para o Holanda, cujos originais permanecem no Palácio
antigo convento da Pena e hoje deverá estar inte- da Ajuda, propondo que o sítio seria real e corres-
grada algures nos alicerces do Palácio. ponderia ao Alto da Vigia.

O
A terceira, a que estava quase ilegível no século
XIX, foi encontrada por Teresa Simões na década na região de Sintra,
U S O D O S O LO MU D O U
de 1990 num jardim privado da Assafora a servir mas, no Alto da Vigia, o tempo parece
de pé de mesa. Foi recuperada para o MASMO e, correr a uma velocidade mais suave. Há
graças ao Modelo Residual Morfológico do in- fotografias do início do século XX com
vestigador Hugo Pires, tornou-se possível ler que ovelhas a pastar no local e, pouco depois,
também está consagrada ao Sol e ao Oceano. foram plantadas vinhas no terreno. Que

N
se saiba, porém, o solo nunca foi revol-
O FINAL DO SÉCULO XVI, caíra sobre o vido por actividades humanas no último milénio.
episódio de 1505 uma das típicas brumas Na derradeira metade do século XX, as tentativas
sintrenses. O último viajante ilustre a de mitigação da erosão levaram à plantação de
observar as epígrafes deverá ter sido vegetação rasteira. Quem adivinharia que ali se
Honorato Juan, o preceptor de Dom situaria um pedaço relevante da história imperial?
Sebastião. Depois, desaparecem as refe- Um dia, na década de 1980, Cardim Ribeiro
rências concretas na documentação. Car- conduziu uma sondagem informal no local. “Foi
dim Ribeiro tem uma explicação concreta para essa uma pequena patifaria”, diz, com mais uma so-
obscuridade: “Para compreender, tem de pensar na nora gargalhada. “Num ponto muito próximo da
‘História Natural’ de Plínio, o Velho”, diz. A obra vigia manuelina, fizemos uma sondagem de um
relata um episódio ocorrido em meados do século I, metro por um metro. Hoje, sabemos que passá-
durante o qual os cidadãos de Olisipo enviaram uma mos a centímetros de um recinto islâmico.” Mais
embaixada ao imperador Tibério, informando o tarde, com uma retroescavadora disponível para
soberano de que, numa grande gruta do litoral da uma obra municipal, conduziu-se nova sonda-
cidade, aparecera um tritão a tocar búzio. O caso foi gem informal noutro ponto, “que só deu areia”.
integrado nos chamados mirabilia, ou seja, as obser- As imagens posteriores de geofísica, realizadas
vações extravagantes de Plínio. “Mas e se não tiver em 2011, confirmam que uma vez mais a sonda-
sido uma extravagância?”, pergunta o historiador. gem estivera a curta distância de encontrar pro-
“Certamente não existem tritões nem Tibério rece- vas da existência do santuário, como um médico
beria uma embaixada de bacocos a falar de tritões. realizando biopsias que falham por milímetros o
Inclino-me para a hipótese de a embaixada ao tecido maligno.

A LT O D A V I G I A 59
Em Agosto de 1505, movido pela
curiosidade, Dom Manuel I deslo-
cou-se a Colares para ver as aras
recém-descobertas. O siciliano
Cataldo Sículo interpretou-as
criativamente, dando a entender
ao rei que as mensagens do subsolo
louvavam o império português.
O momento Eureka aconteceu nas instalações Em 1540, o humanista (à direita). As estampas
do Museu. Frustrada com a incapacidade para Francisco de Holanda (publicadas em Espanha)
visitou o local, descre- só foram conhecidas
provar a existência real do santuário romano, a veu-o e desenhou-o em Portugal em 1970.
equipa recapitulou todos os fragmentos da his-
tória de que dispunha: as cartas de Valentim Fer-

N
nandes, as transcrições dos eruditos, os desenhos
de Francisco de Holanda. “Lembro-me de per- as escavações
O S Ú LT I M O S O N Z E A N O S ,
guntar à Teresa o que andariam os trabalhadores avançaram no Alto da Vigia. Nos contex-
de Dom Manuel a fazer naquele local quando en- tos romanos, emergiu uma edícula, um
contraram as aras. Só poderiam estar a construir nicho oratório, bem com um fragmento
a vigia, embora se pensasse entre os historiadores de um extenso lintel e um bloco rusti-
que as vigias desta costa seriam filipinas. Colocá- cado de construção, que indiciam a con-
mos por isso a hipótese de as aras terem aparecido vivência, no morro, de pequenas
precisamente no local escolhido para a implanta- construções com um grande templo. Com perse-
ção da vigia. Esse, portanto, deveria ser o primeiro verança, a equipa de Alexandre Gonçalves encon-
local a escavar”, comenta Cardim Ribeiro. trou mais inscrições dedicadas ao Sol e ao Oceano,
Em 2008, no contexto de trabalhos arqueoló- consolidando a certeza de que, no extremo ociden-
gicos para viabilizar um passadiço previsto para tal do império, existiu um culto destas divindades.
o Alto da Vigia, a equipa do MASMO, dirigida Uma das provas da singularidade deste san-
por Alexandre Gonçalves, iniciou as escavações. tuário certamente sancionado pelo poder im-
Como nas matrioskas russas, encontrou uma perial são as quatro inscrições consagradas ao
surpresa dentro de outra surpresa. Desmontada deus Oceano já encontradas. “Correspondem
a vigia de Dom Manuel, começaram a aparecer a metade de todas as conhecidas no império”,
construções estranhas, de época islâmica. “Não explica Cardim Ribeiro. “Há cultos do Oceano
percebemos logo o que era”, lembra o arqueólogo. na Grã-Bretanha, no Reno e uma referência, na
“Quando identificámos uma mesquita, um segun- narrativa de Alexandre, o Grande, à consagração
do edifício anexo de função utilitária e uma necró- da divindade à chegada ao Indo. É portanto uma
pole associada com vários sepultamentos orienta- divindade rara dos limites do mundo conheci-
dos pelo rito islâmico, fez-se luz: era um ribat, um do.” A foz de Colares corresponderia ao limite
posto de defesa da costa e de recolhimento espi- ocidental do planisfério romano.
ritual.” Trata-se aliás do segundo ribat conhecido As oito aras conhecidas (que, com o lintel e
em Portugal e o terceiro na Península Ibérica. a placa com o carmen totalizam dez inscrições)
Os arqueólogos envolvidos em trabalhos ár- distribuem-se entre a época de Adriano (no
duos, muitas vezes presos por arneses quase no início do século II) e a de Aureliano ou Probo
limite da falésia, começaram a atrair curiosos. (em cerca de 275-280 d.C.). Sugerem que, du-
Certo dia, encontrou-se uma ara romana implan- rante cerca de um século e meio, praticou-se
tada na estrutura muçulmana. “Estava virada ao aqui um culto, sacrificando animais de carac-
contrário”, lembra Alexandre Gonçalves. “Virá- terísticas específicas ao Oceano, à Lua e ao Sol.
mo-la e ficámos encantados. Dizia ‘Sol e Oceano’ Às divindades masculinas, ofereciam-se machos
na primeira linha.” e às femininas fêmeas. Existia também uma
“Essa ara descodifica tudo”, prossegue Teresa hierarquia dos animais a dedicar, com destaque
Simões. “Contém uma inscrição claramente do para os cavalos (quando existiam) e para os bois.
santuário e está em contexto islâmico de reutiliza- Os animais dedicados a divindades celestes se-
ção.” A equipa acabara de comprovar que o Alto da riam brancos. Os deuses do submundo recebe-
Vigia fora de facto o local de implantação de um riam animais escuros. “Não sabemos em con-
santuário romano e, meio milénio depois, aco- creto o que sacrificariam em honra de Oceano,
lhera um ribat islâmico. “Uma vez mais, faz sen- pois não há paralelos no império”, diz Cardim
tido a escolha do local”, comenta Cardim Ribeiro. Ribeiro. “Ao Sol, seria seguramente um touro
“O oceano é, na época, um deserto, um espaço não branco, com os cornos pintalgados de dourado.”
franqueado, propício à reflexão e ao recolhimento A informação das dedicatórias tem sido particu-
espiritual. As estruturas que encontrámos estão larmente notável. Todas as epígrafes em honra de
no último local possível para edificações. Para a Oceano foram feitas por governadores da Lusitâ-
frente, só fica a falésia.” nia, representantes do poder imperial na província.

62 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
“Há a hipótese, pela semelhança do nome de um
dos ofertantes, de uma das aras ter sido dedicada
por um legado, filho do governador do Pretorium
(o corpo policial do imperador Cómodo) que, cinco
anos depois da dedicatória, foi morto por conspira-
ção contra o imperador. Como se vê, tivemos VIP
aqui em Sintra!”, brinca Cardim Ribeiro.
O progressivo monoteísmo do império trou-
xe, naturalmente, mudanças para o santuário.
A conversão ao cristianismo desautorizava cultos
pagãos oficiais, mas as dedicatórias tardias reve-
lam que, nas franjas do império, uma teimosia
nostálgica levava alguns nobres locais a mante-
rem fidelidade ao velho culto. Há indícios mais
tarde, talvez no século V d.C., de destruição pro-
positada, provavelmente durante a fase de maior
fanatismo religioso e de tensão entre monoteístas
e politeístas. Como lembra Alexandre Gonçalves,
“ainda só escavámos 4% da área total e teremos
muito para descobrir. Gostaria particularmente
de encontrar a cultura material que permitisse
enquadrar os ritos romanos e, meio milénio de-
pois, os islâmicos. Talvez um dia apareçam algu-
mas estátuas e edifícios não tocados pelo ribat”.
Cardim Ribeiro acredita que as próximas cam-
panhas revelarão mais inscrições e as provas do
templo circular cujos restos Francisco de Holanda
talvez tenha visto quando desenhou a sua estrutu-
ra circular. “E seria perfeito encontrar o depósito
de objectos votivos, onde poderão estar os restos
dos animais sacrificados e as lucernas ofertadas”,
sonha. Depois, claro, ainda há a pista viking.
Em 1107, o rei nórdico Sigurd I percorreu a cos-
ta portuguesa, parando em algumas zonas para

N
incursões devastadoras. As sagas nórdicas contêm
um poema sobre o episódio. Relatam incursões na ÃO É C OMUM E N C O N T RA R UM autarca que
costa inglesa e na Galiza. Prosseguindo para sul, os domine o latim, mas Basílio Horta, pre-
homens de Sigurd detiveram-se em Sintra, onde sidente da Câmara Municipal de Sintra,
encontraram em 1109 uma comunidade de “here- faz questão de ler e interpretar a inscrição
ges” – certamente os muçulmanos que controla- cristianizada na gravura de Francisco de
vam o território. O poema regista que Sigurd não Holanda antes de iniciar a entrevista.
deixou “nenhum herege” vivo. O edil tem na mão a chave para o futuro
Desde o século XIX que se especula que o ponto do sítio arqueológico do Alto da Vigia, pois a tota-
de entrada em Sintra tenha sido a Praia das Maçãs, lidade dos terrenos afectados pertence a privados.
então navegável pelo esteiro de Colares. “A ser as- “Num concelho de grande riqueza arqueo-
sim, Sigurd teria desembarcado aqui numa fase lógica, o Alto da Vigia é uma das nossas prio-
em que o ribat do Alto da Vigia estava activo, no ridades, talvez a mais importante”, explica.
século XII”, diz Cardim Ribeiro. É tentador pensar “Existem algumas dificuldades porque as esca-
que o explorador nórdico terá visto as construções vações só poderão prosseguir com uma licença
islâmicas, diz o historiador, olhando para o ponto de utilização ou com a expropriação, mas quero
onde alguns banhistas tardios desafiam o sol do sublinhar que temos dinheiro para isso e avan-
Outono e aproveitam o calor, indiferentes às sagas çaremos para cumprir o nosso dever. Não é ad-
dos homens do Norte. missível ter esta riqueza no subsolo, saber que

64 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A arqueóloga Teresa
Simões, directora do
Museu Arqueológico de
São Miguel de Odrinhas,
analisa um capitel nas
reservas da instituição.
Muitos dos materiais
romanos dispersos pela
serra de Sintra terão
vindo do santuário do
Alto da Vigia. Até à data,
conhecem-se dez
inscrições em honra
do Sol Invicto, da Lua
e do Deus Oceano.

ela lá está e não a podermos explorar. Chegou o Mundial. Durante o dia, os turistas sentiram cer-
tempo da arqueologia em Sintra.” tamente na pele os inconvenientes de uma expe-
Os proprietários das faixas de terreno onde os riência de visita congestionada. “Sintra é vítima do
monumentos estão implantados já foram informa- seu próprio sucesso”, diz um dos comerciantes da
dos da intenção da autarquia e está em curso uma vila. “Já não tem época baixa. Chegam a estar filas
avaliação independente para estimar um valor jus- de carros durante uma hora para entrar na Pena.”
to de expropriação. “Sabemos que as pessoas cria- Basílio Horta conhece bem esta realidade e sabe
ram expectativas com esses terrenos, mas o novo que a capacidade de carga em alguns dos princi-
PDM não autoriza construções ali e a classificação pais ícones da vila está prestes a ser atingida. Ape-
do sítio como Imóvel de Interesse Público dará ou- sar das medidas de mitigação desse impacte, com
tro enquadramento ao local. Garanto que não va- a construção de parques, implementação de slots
mos deixar cair este projecto, nem deixar a cultura de visita e tentativa de canalização dos turistas
do concelho amputada”, promete Basílio Horta. para outros monumentos da vila, o futuro pode-
Lá fora, apesar da noite cerrada, os últimos car- rá também passar pela arqueologia. “O Norte do
ros descem a serra depois de mais um dia de fruição concelho está por explorar do ponto de vista turís-
cultural nos monumentos da Paisagem Cultural de tico”, diz. “Creio que o que ainda está debaixo da
Sintra, que comemorará em 2020 o 25.º aniversá- terra será o que vai alimentar o futuro. A arqueo-
rio da classificação da UNESCO como Património logia é a grande reserva que Sintra ainda tem.” j

A LT O D A V I G I A 65
VICIADOS
EM
PLÁSTICO
C OMO O S O B J E C TO S D E P L Á ST I C O, C O N V E N I E N T E S E

D E S C A R TÁV E I S , S E A S S E N H O R E A R A M D A S N O S S A S V I D A S E C O M O

P O D E R E M O S Q U E B R A R O H Á B I T O P A R A S A LV A R O P L A N E T A .

F O T O G R A F I A S D E H A N N A H W H I TA K E R

66
MILHARES
DE MILHÕES
de utensílios de plástico são
deitados fora anualmente, em
todo o mundo. Como pudemos
passar sem eles e será que
conseguiremos voltar a fazê-lo?
e ser difícil reparar no que há em comum entre
jectos como escovas de dentes, pneus, cigarros
sapatos. Se olharmos com mais atenção, porém,
scobriremos que são muitas vezes fabricados,
maior ou menor percentagem, com uma ma-
ria milagrosa: o plástico.
Essa matéria é agora um problema planetário.
r vezes, dado que o plástico é misturado com
tros materiais – incluindo outros plásticos,
mo acontece no caso dos sapatos –, torna-se
fícil ou impossível de reciclar. Em muitas re-
ões, a reciclagem, a incineração ou a elimina-
o em aterro não são possíveis e muito do lixo

1MILHÃO
aba nos rios e no oceano. Por isso, com fre-
ência após uma vida útil curta, os objectos de
ástico iniciam aquilo que, provavelmente, será
ma multissecular pós-vida como lixo.
São atirados para os rios e encaminham-se
ra o mar. Decompõem-se em pedaços minús-
los. As criaturas marinhas engolem essas par- de bebidas
culas. Os fragmentos misturam-se com o sal engarrafadas de
marinho e acabamos por ingeri-las, com impac- plástico são compradas
a cada minuto em todo
tes incertos na nossa saúde. Inalamos partículas o mundo. Os níveis de
ainda mais pequenas, chamadas nanoplásticos: reciclagem continuam
os cientistas descobriram recentemente nano- a ser baixos.
plásticos em cumes montanhosos longínquos e
até no Árctico, para onde são transportados pelo
vento e misturados com a chuva e a neve.
Cada vez mais, o desafio consiste em usufruir
do milagre sem ter os pesadelos. “Reduzir, reuti-
lizar e reciclar” tem sido a resposta dos ambien-
talistas ao longo do último meio século, mas as
Planeta ou plástico?
empresas que comercializam produtos ou em-
balagens de plástico têm poucos incentivos para A National Geographic
está empenhada em
reduzir ou reutilizar. A reciclagem pode ser com- reduzir a poluição
plicada e dispendiosa. Na verdade, como a polui- causada pelo plástico.
ção provocada pelo plástico se transformou num Saiba mais sobre as
nossas actividades sem
problema mundial, os desafios cresceram, junta- fins lucrativos em
mente com a consciencialização pública. natgeo.org/plastics.
A mudança cultural parece iminente. Os re- A presente reportagem
faz parte da campanha
síduos de plástico começaram a preocupar-nos. “Planeta ou Plástico?”, o
Os empresários estão a criar alternativas para o nosso esforço plurianual
evitar. O objectivo não é demonizar objectos que para promover a
consciencialização face
foram inventados por boas razões e com boas à crise mundial dos
intenções: o objectivo é encontrar formas de ter- resíduos plásticos. Saiba
mos o nosso plástico… sem termos de comê-lo. o que pode fazer para
diminuir o consumo
Cada faceta das nossas vidas afectada pelo plás- individual de plástico e
tico apresenta um desafio diferente. Cada objecto assuma o compromisso.
tem a sua história. Eis algumas dessas histórias e
algumas soluções. — LORI CU THBERT Saiba mais sobre os
produtos de plástico
abordados nesta
A organização sem fins lucrativos National Geographic reportagem em
Society ajudou a financiar esta reportagem. natgeo.com/plastic.

68 N AT I O N A L G E O G R A P H I C COMPOSIÇÕES:
HEATHER GREENE
24.200
MILHÕES
de pares de sapatos foram
fabricados em todo o mundo em
2018. Os sapatos são difíceis de
reciclar, pois são constituídos
por diferentes tipos de plástico
e outros materiais colados e
moldados em conjunto.
1.000
MILHÕES
de escovas de dentes irão
para o lixo este ano nos EUA.
Existem alternativas
biodegradáveis, mas as
escovas de plástico
continuam a prevalecer.
GARRAFAS
Entre todos os produtos reciclado. As garrafas
de plástico, destaca-se a descartáveis decompõem-

TALHERES garrafa, que rapidamente


se generalizou e mudou os
hábitos de consumo. Na
-se em microplásticos e os
cientistas ainda estudam
as consequências globais

DESCARTÁVEIS década de 1960, compra-


vam-se bebidas em
garrafas de vidro ou latas
de alumínio. O tereftalato
causadas à humanidade
e à vida selvagem.
As indústrias do
plástico e das bebidas
O S TA L H E R E S D E P L Á S T I C O
de polietileno (PET) veio têm combatido a
mudar a situação: muito implementação de taras,
DE
encontram-se por todo o
PLÁSTICO leves, reduziram os custos pois tal significaria custos
DESDE A
D É C A DA D E
lado. Tal como as palhinhas, de transporte, as garrafas acrescidos. As fontes
milhares de milhões de gar- de PET tinham resistência públicas para abasteci-
1 94 0
fos, facas e colheres são usa- necessária para manter o mento de água estão a
dos e deitados fora todos os anos. Os gás das bebidas. A água ressurgir: só em Londres
talheres demoram séculos a decompor-se engarrafada, comum na estão previstas cem.
Europa, começou a Empresários e empresas
naturalmente, o que permite que objectos
conquistar o mercado dos descobrem maneiras
pontiagudos e de gume afiado tenham muito EUA no fim da década de de reutilizar o plástico,
tempo para chegar ao mar. Os utensílios 1970. A sua venda a nível incluindo cartuchos de
descartáveis, na sua maioria fabricados com mundial ultrapassou a dos tinta e roupas. E na
poliestireno, encontram-se entre os objectos refrigerantes em 2016. província canadiana da
mais mortíferos para tartarugas marinhas, Actual- Nova Escócia, foi
DE mente, um recentemente construída
aves e mamíferos marinhos. PLÁSTICO milhão de uma casa com três
Quando os talheres de plástico entra- DESDE
bebidas quartos, usando aproxi-
ram em cena, durante a Segunda Guerra 1 97 3 engarrafa- madamente seiscentas
Mundial, eram considerados tão reutilizá- das em mil garrafas. — LAURA PARKER
veis como o metal que vieram substituir. plástico são adquiridas a
Todavia, como o plástico é mais barato, cada minuto.
COMO MELHORAR
O PET é reciclável, mas
à medida que a mentalidade frugal do as taxas de reciclagem 1. Leve uma garrafa
tempo de guerra se foi desvanecendo, continuam a ser baixas. reutilizável.
também se dissipou a necessidade de reu- Em 2016, menos de
2 Escolha latas de
tilização. Os talheres são actualmente o metade das garrafas
compradas em todo o alumínio sempre
sétimo artigo mais vulgarmente recolhido que possível.
em limpezas de praia. (Os invólucros de mundo eram recolhidas.
Nos EUA, as garrafas 3. Recicle todas as
alimentos, as tampas de garrafas e os re- novas de PET contêm garrafas de plástico.
cipientes de bebidas dominam essa lista.) apenas 7% de material
Várias empresas estão a fabricar utensílios
a partir de materiais alternativos, como a
madeira de bétula, bambu ou excedentes
de madeira cortada. Um movimento revi-
valista de “traga os seus próprios talheres”
está igualmente a ganhar força. A França
SAPATOS
proibirá mesmo o uso de utensílios de plás- Mais de 24 mil milhões de das sapatilhas são parcial ou
tico em 2020. — TIK RO OT pares de sapatos foram totalmente fabricadas em
produzidos em todo o mundo plástico, desde a sola de
em 2018: só nos EUA foram espuma esponjosa ao
COMO MELHORAR vendidos 2.400 milhões de revestimento de poliéster.
1. Leve talheres reutilizáveis. pares. Com uma média de Podemos também agradecer
sete novos pares de sapatos ao plástico a proliferação dos
2. Se utilizar descartáveis, assegure-se de por pessoa por ano, os sapatos de salto alto.
que são biodegradáveis ou compostáveis. armários estão repletos. Os materiais são cosidos,
3. Faça as refeições em estabelecimentos O plástico foi introduzido nos colados e moldados em
que não utilizem utensílios de plástico. sapatos na década de 1950. conjunto de formas
Actualmente, a maior parte complexas e, por isso, os

72 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
ESCOVAS DE DENTES
da concep-
O P L Á ST I C O A P O D E RO U - S E pública sobre inovações, realizado pelo MIT em 2003,
DE
PLÁSTICO ção das escovas de dentes. É-nos quase a escova de dentes ocupava uma posição mais alta do
DESDE A
D É C A DA D E impossível lavar os dentes sem tocar que o automóvel, o computador pessoal e o telemó-
1 93 0 nele. Os cabos são normalmente de vel, como aquele elemento sem o qual os inquiridos
polietileno ou polipropileno e as cerdas não seriam capazes de viver.
de nylon. Como o plástico demora tanto tempo a degra- Se ao menos o preço a pagar por dentes saudáveis
dar-se, quase todas as escovas de dentes fabricadas desde não fosse um pedaço de resíduo imperecível... “Gos-
a década de 1930 ainda andam por aí, algures no planeta, to de perguntar às pessoas: qual o primeiro objecto
persistindo como pedaços de lixo. em que toca de manhã? Provavelmente na escova de
A limpeza dos dentes é um hábito antigo e uni- dentes”, diz Kahi Paacarro, fundador da Sustainable
versal. Os arqueólogos encontraram “palitos para Coastlines Hawaii, que já recolheu um número con-
dentes” nos túmulos dos faraós egípcios. Em toda a siderável de escovas de dentes nas praias havaianas.
“Agrada-lhe que o primeiro objecto em que toca todos
NUM INQUÉRITO REALIZADO os dias seja de plástico?” Alguns designers estão ago-
E M 2 0 0 3 , A E S C O VA D E D E N T E S ra a incorporar matérias naturais. Os cabos podem
ERA UMA INVENÇÃO MAIS ser fabricados em metal ou bambu, as cabeças com
cerdas podem ser substituídas e as cerdas podem ser
VA L O R I Z A D A D O Q U E O
mais compactadas. No futuro, as escovas de dentes
AUTOMÓVEL OU O TELEMÓVEL. poderão continuar a usar plástico, mas em menor
quantidade. — ALEJANDRA BORUNDA

Ásia e no Médio Oriente, mastigavam-se paus até as


pontas se transformarem em escovas fofas. Em finais
do século XV, um formato simples surgiu na China e
subsistiu, praticamente inalterado, ao longo de sécu-
los: um molho de cerdas curtas e densas, retiradas do
pescoço de um porco, e acopladas a um cabo de osso
ou madeira. Na Europa, só os ricos podiam comprar COMO MELHORAR

essas maravilhas até meados do século XIX. 1. Experimente escovas de bambu e descarte o cabo
Os militares regressados da Segunda Guerra Mun- em compostagem depois de lhe arrancar as cerdas.
dial trouxeram consigo as escovas de dentes forneci- 2. Escolha uma escova de dentes com cabeça substituível.
das pelas forças armadas e o plástico barato e moldá- 3. Se o seu dentista lhe oferecer escovas de dentes,
vel tornou possível a todos os norte-americanos uma peça-lhe alternativas sem plástico.
melhor higiene dentária. Num inquérito à opinião

sapatos são quase impossíveis Também possibilitou


de reciclar. Os nossos pés o crescimento explosivo COMO MELHORAR
nada mais são do que da corrida 1. Mandar arranjar
uma curta escala da DE recreativa. Não será os sapatos com
PLÁSTICO
longa vida dos DESDE A fácil restringir o seu frequência.
sapatos, maioritaria- D É C A DA D E uso. Algumas
2. Comprar menos
mente passada em 1 95 0 empresas estão a
aterros e cursos de fabricar sapatos com pares de sapatos.
água. plástico reciclado ou com 3. Doar os sapatos
O plástico tornou os sapatos matérias naturais como velhos, em vez de
mais leves, mais rápidos, mais o bambu e a madeira. os deitar fora.
baratos e mais confortáveis. — A L E JA N D R A B O RU N D A

ILUSTRAÇÕES DE PABLO AMARGO V I C I A D O S E M P L Á́ S T I C O 73


CIGARROS
PNEUS DE
PLÁSTICO
DESDE A
mente vendidos em todo o
sãoanual-
B I L I Õ E S D E C I GA R RO S

D É C A DA D Emundo. No entanto, apenas um


1 95 0 terço das pontas de cigarro vão
Todos os dias, a maioria Os pneus actuais são
para o lixo. As restantes são ati-
das pessoas usa pneus, compostos por cerca de
de uma maneira ou de 19% de borracha natural e radas para a rua e para os cursos de água, enca-
outra, mas não tem 24% de borracha sintética. minhando-se para o mar, onde libertam
consciência de que eles O resto são metais e nicotina e alcatrão no ambiente – juntamente
contribuem para a outros compostos. Há com plástico, uma vez que é disso que os filtros
poluição décadas que o pneu radial são feitos. “O gesto de deitar fora a beata do
de moderno não passa por
DE
cigarro é quase automático”, afirma Cindy Zipf,
PLÁSTICO plástico. uma reconfiguração
DESDE
Quando significativa, mas directora executiva da Clean Ocean Action.
1909 entram ultimamente registou-se Este plástico é o acetato de celulose, o mesmo
em fricção um impulso no sentido material utilizado na película fotográfica. Uma
com a estrada, soltam-se de se inventarem mais vez no oceano, decompõe-se em microplástico.
pedaços de borracha opções sustentáveis. Antes disso, porém, os animais marinhos con-
sintética. À semelhança Um projecto conduzido
fundem frequentemente as beatas com presas.
de outros plásticos, esta pela Universidade do
é um polímero derivado Minnesota, por exemplo, Na primeira metade do século XX, o número
do petróleo. A chuva lava descobriu recentemente de fumadores nos EUA aumentou bastante, bem
esses pedaços de plástico uma maneira de produzir como a incidência do cancro no pulmão e outros
da estrada e transporta- um ingrediente-chave problemas de
-os para os cursos de da borracha sintética saúde relacio-
água. Segundo uma a partir de fontes O S F I LT R O S N Ã O nados com o
estimativa, até 28% dos neutras em carbono,
resíduos de microplásti- como árvores, P A R E C E M R E D U Z I R O fumo. As em-
cos que chegam ao ervas e milho. NÚMERO DE MORTES presas desen-
oceano provém de pneus. No ano passado, a POR CANCRO E CAUSAM volveram fil-
Antigamente, a Goodyear apresen- tros na década
borracha vinha apenas tou um pneu concep- P OLUIÇÃO AMBIENTAL .
de 1950, alega-
das árvores. Quando a tual feito a partir de
damente com
condução se generalizou, borracha reciclada
o mundo necessitou de com musgo vivo nas o objectivo de redução dos carcinógenos conti-
mais borracha do que a paredes laterais dos dos no fumo. Por ironia, eles não parecem dimi-
natureza conseguia pneus. Em teoria, o mus- nuir o número de mortes por cancro: talvez não
disponibilizar. Em 1909, o go absorve o dióxido de retiremos qualquer benefício dos
químico Fritz Hofmann carbono. Nada disso filtros antes de estes serem negligen-
inventou a primeira impede os pneus de
temente deitados fora.
borracha sintética para libertarem microplásticos.
fins comerciais. Pouco Talvez as superfícies das Agora, as praias estão a ser atin-
depois, já era aplicada estradas pudessem gidas pela mais recente tecnologia
em pneus de automóveis. tornar-se menos abrasi- de fumo: os cigarros electrónicos.
Em 1931, a DuPont vas, sem ficarem mais Mais de dez milhões de fumadores
industrializou o fabrico escorregadias. Talvez o dos EUA consomem cigarros elec-
de borracha sintética. efluente carregado de
trónicos e muitos tratam-nos como
microplásticos pudesse
ser captado antes de cigarros convencionais, limitando-
COMO MELHORAR chegar ao oceano. -se a deitá-los para o chão. — TIK ROOT
1. Partilhe o automóvel se O problema dos pneus só
tiver mesmo de o usar. recentemente foi reconhe-
cido e, por isso, a busca
2. Quando substituir de soluções está apenas COMO MELHORAR
pneus, confirme que os no início. No entanto,
velhos são reciclados. 1. Elimine as pontas de cigarro.
ninguém duvida de que é
3. Use transportes necessário realizar mais 2. Enrole os seus cigarros, sem filtros.
públicos sempre que investigações e promover 3. Não consuma cigarros electrónicos,
possível. a consciencialização do excepto se os puder reciclar.
público. — TIK ROOT

74 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
TAMPÕES
os aspectos mais ínti-
O P L Á S T I C O I N VA D E poucas alterações até à revolução do plástico.
mos da vida moderna. A maior parte das “Na década de 1960, a ciência dos materiais
mulheres norte-americanas menstrua conheceu um crescimento acelerado”,
durante cerca de 40 anos, sangrando afirma a historiadora Sharra Vostral. “Os
entre 2 e 10 anos no total. Todo este fluxo químicos e os fabricantes tentavam,
menstrual tem de ir para algum sítio e activamente, descobrir novas aplicações
esse sítio acaba por ser ou um tampão para os superabsorventes já concebidos.”
ou um penso higiénico – cerca de dez Poucas mulheres que usam pensos
mil por mulher. A maior parte dos tampões higiénicos querem regressar à era pré-plás-
vende-se empacotada em plástico e envolta tico. Os tampões, porém, são outra história.
em aplicadores de plástico. Muitos até incluem Na Europa, os tampões podem vir embrulhados
uma película de plástico fina em torno do próprio tam- em plástico e ter fios de poliéster, mas as mulheres
pão. Os pensos higiénicos contêm ainda mais plástico, normalmente não usam aplicadores de plástico para
desde a base à prova de fugas aos produtos sintéticos os inserirem, enquanto nos EUA, os aplicadores de
que absorvem o fluxo e a embalagem. plástico são populares. Eis um bom exemplo de um
Nem sempre foi assim: existiram em tempos proto- princípio geral: muito do nosso consumo de plástico
tampões fabricados a partir de matérias naturais como é uma escolha determinada por razões culturais. Não
rolos de erva, papel, algodão ou lã. Os primeiros pensos é um imperativo tecnológico. — ALE JANDRA B ORUNDA
higiénicos comercialmente bem-sucedidos, vendidos
sob a marca Kotex, surgiram no mercado em 1921.
A empresa Kimberly-Clark fabricava-os com Celluco-
COMO MELHORAR
tton, um material absorvente feito a partir de polpa de
madeira, que fora desenvolvido para 1. Mude para copos menstruais ou pensos reutilizáveis.
DE
PLÁSTICO
ligaduras médicas na Primeira Grande 2. Opte por tampões sem aplicador ou com aplicador
DESDE A Guerra. Cerca de 15 anos mais tarde, os em cartão.
D É C A DA D E
tampões modernos tornaram-se dispo-
1 95 0 3 Experimente usar roupa interior menstrual reutilizável.
níveis e durante várias décadas sofreram

INVÓLUCROS DE ALIMENTOS
O plástico transparente e Consomem-se milhões de subprodutos tóxicos, razão
flexível que conhecemos rolos de película aderente pela qual muitas empresas
como película aderente todos os anos. É bara- passaram a fabricar
DE
começou por ser um fracasso ta, leve e mantém os PLÁSTICO
películas de
da química: um resíduo que alimentos frescos. Isto DESDE A polietileno.
D É C A DA D E
aderiu ao fundo de um ajuda a diminuir o A reciclagem de
recipiente num laboratório, desperdício de 1 93 0 película não é
na década de 1930. Na géneros alimentares, economicamente
década de 1940, o material um problema tão impor- viável. Quando vai parar COMO MELHORAR
era usado para fabricar forros tante como a poluição. aos rios e ao oceano, 1. Use película reutili-
para bancos de automóveis e A descoberta original decompõe-se em zável feita a partir de
de metropolitano. Hoje, chamava-se cloreto de microplástico, que agrega cera de abelha.
consumidores de todo o polivinilideno, ou PVDC, micróbios e componentes
mundo utilizam película patenteado sob o nome metálicos. De seguida, 2. Guarde os restos
de plástico, resistente à Saran. Outras películas eram esses fragmentos de alimentares em
água, para proteger os fabricadas a partir de cloreto plástico causam danos aos recipientes de vidro.
alimentos. O invólucro é de polivinilo, ou PVC. animais, que os confundem 3. Evite comida embru-
descartado como lixo após Quando incinerados, esses com alimentos. — S A R A H lhada em plástico.
uma única utilização. compostos geram GIBBENS

ILUSTRAÇÕES DE PABLO AMARGO V I C I A D O S E M P L Á́ S T I C O 75


10.000
tampões, ou pensos higiénicos,
serão consumidos por cada
mulher norte-americana
durante a sua vida.
Os aplicadores dos tampões
costumam ser de plástico.
MILHÕES
de rolos de película
aderente são consumidos
pelos agregados familiares
dos EUA todos os anos. Por
norma utilizada uma única
vez e depois deitada fora, a
película de plástico pode
ser difícil de reciclar.
UMA
O P E R M A F R O S T D O Á R C T I C O E S TÁ A D E R R E T E R
MAIS DEPRESSA DO QUE O ESPERADO,

L I B E RTA N D O G A S E S Q U E P O D E R ÃO AC E L E R A R
A S A LT E R AÇ Õ E S C L I M ÁT I C A S .

AMEAÇA NO
SUBSOLO

A cratera de Batagaika,
na zona oriental da
Sibéria, com quase um
quilómetro de largura
e em processo de
crescimento, é a maior
de muitas existentes no
Árctico. À medida que o
solo permanentemente
gelado e gelo enterrado
derretem, o solo abate,
formando crateras
ou lagos.
TEXTO DE

CRAIG WELCH

FOTOGRAFIAS
D E K AT I E

ORLINSKY

79
O metano, um potente
gás com efeito de estufa,
borbulha do solo que
derrete sob os lagos do
Árctico. No Inverno, o
gelo de superfície
sequestra o gás. Neste
lago junto de Fairbanks,
no Alasca, cientistas
perfuraram o gelo com
uma broca e incendiaram
uma fuga de metano.
O E C O L O G I S TA S E R G U E I Z I M O V AT I R O U
um osso de mamute-lanudo para a pilha.
Estava agachado na lama junto do rio
Kolyma, por baixo de um enorme penhasco
de terra prestes a colapsar. Era Verão na
zona oriental da Sibéria, muito acima do
Círculo Polar Árctico, naquela região da
Rússia que fica mais perto do Alasca do que
de Moscovo. Não havia qualquer ínfima
partícula de gelo ou de neve à vista. No
entanto, neste penhasco chamado Serguei Zimov, à direita,
Duvanny Yar, o Kolyma mastigara e expu- e o filho, Nikita, dirigem
um posto de investiga-
sera o que está por baixo: uma camada de ção no Árctico, na
solo permanentemente gelado, também localidade de Cherskiy,
junto do rio Kolyma.
conhecido como permafrost, com centenas O Zimov mais velho foi o
de metros de profundidade, que está a primeiro a perceber que
o permafrost armazena
aquecer depressa. ¶ Ramos de árvore, outra mais carbono do que os
cientistas em tempos
matéria vegetal e partes do corpo de ani- pensaram, algum do
mais da Idade do Gelo (mandíbulas de qual está agora a
escapar devido à subida
bisonte, fémures de cavalo, ossos de das temperaturas.
mamute) foram despejados numa praia que
sugava as botas de Serguei. “Adoro Duvanny
Yar”, disse, enquanto retirava fósseis do
lodo. “É como um livro. ¶ Cada página é
uma história sobre a história da natureza.”

82 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Em 23 milhões de quilómetros quadrados, as carbono promete acelerar as alterações climáti-
alterações climáticas estão a escrever um novo cas, enquanto os seres humanos se esforçam por
capítulo. O permafrost do Árctico não está a der- controlar as emissões de combustíveis fósseis.
reter gradualmente, contrariando as antigas pre- Poucas pessoas compreendem melhor esta
visões dos cientistas. Em termos geológicos, está ameaça do que Serguei Zimov. Num posto de
a derreter quase da noite para o dia. Tal como os investigação periclitante instalado na aldeia
solos semelhantes aos de Duvanny Yar, moles e garimpeira de Cherskiy, a cerca de três horas
em processo de dissolução, estão a revelar ves- de lancha motorizada de Duvanny Yar, Serguei
tígios de animais selvagens antigos e massas de passou décadas a escavar os mistérios de um
carbono que foram encerrados em terra conge- Árctico em aquecimento. Enquanto o fazia,
lada durante milénios. Entrando na atmosfera ajudou a revolucionar o conhecimento conven-
sob a forma de metano ou dióxido de carbono, o cional, sobretudo a ideia de que, na era glaciar
do Plistocénico, o extremo setentrional era um
A organização sem fins lucrativos National Geographic deserto ininterrupto de gelo e solos finos com
Society ajudou a financiar esta reportagem. vegetação rasteira.

CRISE NA TUNDRA 83
Na verdade, a abundância de fósseis de ma- e fundou a Estação de Ciência do Nordeste, inicial-
mutes e de outros herbívoros de grande porte mente sob os auspícios da Academia Russa das
encontrados em Duvanny Yar e noutros locais Ciências. Serguei é agora o seu proprietário e gere-a
sugerem que a Sibéria, o Alasca e a zona ociden- com o filho, Nikita. É uma operação improvisada,
tal do Canadá foram prados férteis, repletos de com um orçamento limitado e equipamento em
ervas e salgueiros. Estas plantas e animais fo- segunda mão. No entanto, a estação atrai cientistas
ram morrendo e o frio abrandou a sua decompo- interessados no Árctico, oriundos de todo o mundo.
sição. Ao longo do tempo, foram enterrados por Certo dia, no Verão de 2018, eu e a fotógrafa
sedimentos soprados pelo vento, encerrando-os Katie Orlinsky juntámo-nos a Serguei a bordo de
no solo permanentemente gelado. Como tal, o um velho barco que transporta mantimentos até
permafrost do Árctico é muito mais rico em car- um posto de monitorização de carbono na baía de
bono do que os cientistas pensaram em tempos. Ambarchik, junto da foz do rio Kolyma, no ocea-
Novos achados sugerem que o carbono será no Árctico. Atravessámos os prados esponjosos
libertado mais depressa à medida que o plane- caminhando sobre um passadiço construído com
ta aquecer. Devido à inesperada velocidade do antigos radiadores a óleo. Serguei sondava o terre-
aquecimento do Árctico e à forma preocupante no com um bastão metálico enquanto caminhava.
como as águas do degelo se deslocam através Tem feito muito isso, ultimamente, para verificar
das paisagens polares, os investigadores suspei- a profundidade do solo permanentemente gelado
tam que, por cada aumento de 1ºC da tempera- que ainda se encontra rijo.
tura média da Terra, o solo permanentemente O permafrost apresenta-se coberto por uma ca-
gelado possa libertar o equivalente a quatro a mada de terra e detritos vegetais que pode alcan-
seis anos de emissões de carvão, petróleo e gás çar quatro metros de espessura. Essa camada acti-
natural – entre o dobro e o triplo daquilo que os va do solo costuma perder o gelo no Verão e voltar
cientistas calculavam há poucos anos. Se não a congelar no Inverno, protegendo o permafrost
controlarmos o nosso uso de combustíveis fós- da subida da temperatura à superfície. Na Prima-
seis, daqui a poucas décadas o permafrost pode- vera de 2018, porém, uma equipa que trabalhava
rá ser uma fonte de gases com efeito de estufa com Nikita descobriu que a camada superficial de
tão grande como a China (o maior emissor do terra nos arredores de Cherskiy não congelara, de
mundo) o é actualmente. todo, durante a escura noite polar. Era um aconte-
Os modelos não têm ponderado este factor. cimento inédito: o mês de Janeiro na Sibéria é tão
O Painel Intergovernamental para as Alterações Cli- brutalmente frio que o bafo humano pode conge-
máticas das Nações Unidas (IPCC na sigla interna- lar numa fracção de segundo, algo a que os indí-
cional) só no passado recente começou a incluir o genas yakuts chamam “o sussurro das estrelas”.
solo permanentemente gelado nas suas projecções. O solo a 75 centímetros de profundidade deveria
O potencial de aquecimento do planeta pelo estar congelado. Em vez disso, parecia uma papa.
permafrost é minúsculo, quando comparado “Há três anos, a temperatura ao nível do solo,
com o nosso. No entanto, se temos esperança acima do permafrost, era de -3ºC”, disse Serguei
de limitar o aquecimento a 2ºC, como 195 paí- Zimov. “Depois passou a ser -2ºC. Depois, -1ºC.
ses concordaram fazer nos Acordos de Paris, em Este ano, a temperatura foi 2ºC.”
2015, novas investigações sugerem que podere- Por um lado, isso não surpreende. Os cinco
mos ter de reduzir as emissões oito anos mais anos mais quentes do planeta desde o fim do
cedo do que previsto pelos modelos do IPCC, só século XIX foram posteriores a 2014 e o Árctico
para compensar o degelo actualmente em curso. está a aquecer a uma velocidade duas vezes su-
Talvez este seja o motivo menos valorizado para perior ao resto do planeta, pois está a perder o
acelerar a transição para energias mais limpas: gelo marinho que o ajudava a arrefecer. Em 2017,
para alcançar o objectivo definido para comba- a tundra da Gronelândia sofreu o seu incêndio
ter o aquecimento, teremos de ser ainda mais florestal mais grave de que há memória. Dias an-
rápidos do que pensamos. tes de aterrarmos na Sibéria, os termómetros da
localidade norueguesa de Lakselv, 390 quilóme-
vez a
S E RG U E I Z I MOV C H E G O U P E L A P R I M E I R A tros acima do Círculo Polar Árctico, registaram
Cherskiy na década de 1970, como estudante uni- uns historicamente escaldantes 32ºC. As renas
versitário para colaborar no levantamento cartográ- do Árctico esconderam-se nos túneis das estra-
fico de uma expedição. Regressou anos mais tarde das em busca de alívio.

84 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
1500 1800 1500

OCEANO Mar de Bering Mar de


PA C Í F I C O Ohotsk
Newtok
Golfo do
Alasca
ALASCA
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Fairbanks PLISTOCÉNICO
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OCEANO ATLÂNTICO DINAMARCA
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gradual abrupto
Superior a 900
675 a 900
450 a 674
225 a 449
Inferior a 225

O DEGELO ACELERA
O desaparecimento inesperadamente rápido do
O abastecimento de energia
durante um ano a 108 lares
dos Estados Unidos emite
897 toneladas de carbono.

Depressa e devagar
permafrost rico em gelo do Árctico poderá libertar Vinte por cento do permafrost
milhares de milhões de toneladas adicionais de metano é rico em gelo e corre o risco
de degelo abrupto, que poderá
e dióxido de carbono na atmosfera todos os anos, uma duplicar a quantidade de gases
ameaça ainda não devidamente integrada nos modelos com efeito de estufa libertados.
climáticos. Os cientistas estão a descobrir paisagens
desestabilizadas onde o permafrost que antes descongelava
alguns centímetros por ano pode agora derreter
870 gigatoneladas
abruptamente até três metros em dias ou semanas, de carbono
transformando locais previamente congelados em zonas na atmosfera

pantanosas e acelerando as emissões de até 1.600


gigatoneladas de carbono ainda retido por baixo do solo. 1.600 gigatoneladas
no permafrost

JASON TREAT, MATTHEW W. CHWASTYK E RYAN WILLIAMS


FONTES: DAVID OLEFELDT E OUTROS, NATURE COMMUNICATIONS, 2016; MERRITT
TURETSKY E OUTROS, NATURE, 2019; RÓISÍN COMMANE, UNIVERSIDADE DE
COLUMBIA; TED SCHUUR, UNIVERSIDADE DO NORTE DO ARIZONA; EPA

CRISE NA TUNDRA 85
CENÁRIOS DO DEGELO
TUNDRA EM CHAMAS DESLIZAMENTOS
Os incêndios na tundra, outrora raros, são mais Quando o permafrost descongela junto de
comuns à medida que o aquecimento global uma encosta, um riacho ou um rio, poderá
torna o Árctico mais verde. Os incêndios desencadear um deslizamento de terras,
derretem a camada superior do solo e expondo rapidamente mais permafrost e
deterioram o solo permanentemente gelado acelerando o processo de degelo.
que se encontra por baixo.

REVOLUÇÃO
NA PAISAGEM
À medida que o gelo retido no solo congelado derrete,
Camada activa
A camada superior do
solo descongela e volta
a congelar anualmente.
a água do degelo desloca-se através do permafrost, Esta camada está a alargar
no Árctico, à medida que
descongelando-o ainda mais e levando ao abatimento o permafrost se transforma
do solo superior. Formam-se assim lagoas que são mais em solo não congelado.

tarde drenadas, acelerando o processo de desabamento


de outros solos congelados. O processo chama-se degelo
abrupto e está a acelerar a libertação de carbono retido
e a mudar visivelmente o Árctico.

Como se forma o solo permanentemente gelado poligonal e como derrete

Camada activa
Permafrost

A camada activa A água preenche As cunhas de As cunhas A camada


congela no Inverno, as fendas, gelo crescem e derretem, activa aumenta,
criando fendas que congelam e empurram o solo o solo sobre elas as cunhas encolhem
nas profundezas alargam, formando para cima, formando desaba e a água e a paisagem
do solo. cunhas de gelo. padrões poligonais. acumula-se. é drenada.

JASON TREAT, RYAN WILLIAMS E EVE CONANT


ARTE: TOMÁŠ MÜLLER. FONTES: KEN TAPE E ANNA LILJEDAHL, UNIVERSIDADE DO ALASCA
ALARGAMENTO DOS LAGOS REPRESAS DE CASTORES
Lagos que congelavam por completo no passado Cada vez mais quente, a tundra tem
ficam agora parcialmente líquidos no Inverno e mais e maiores arbustos. Estes atraem
aumentam de tamanho quando o permafrost castores, que represam os riachos, criando
descongela. O calor permite que os micróbios se lagoas e lagos, acelerando assim o
alimentem de matéria orgânica ao longo do ano, desaparecimento do permafrost
libertando gases com efeito de estufa. e alterando a paisagem.

Polígonos de solo Novos herbívoros


permanentemente gelado À medida que os arbustos se
O distintivo padrão disseminam e se tornam
de quebra-cabeças mais altos, vão atraindo
de algumas paisagens herbívoros de grande porte
do Árctico foi moldado como alces, que, por sua vez,
por cunhas de gelo ocultas afectam os padrões de
sob a superfície. crescimento da vegetação.

Cunhas de gelo Nova vida na água


Formadas ao longo As águas mais quentes
de milénios (pela congelação e os novos habitats
e rachas do solo no Inverno aquáticos podem permitir
seguidas de preenchimentos que peixes como
de água na Primavera), os salmões se instalem
estão agora a deteriorar-se no Árctico.
em poucos anos.
As temperaturas do solo permanentemente ge- xalmente, os culpados eram os nevões. A Sibéria
lado de todo o mundo estão a subir há meio século. é seca, mas em vários invernos anteriores a 2018
O degelo localizado do permafrost, sobretudo em foi sufocada por nevões. A neve funcionou como
aldeias onde o crescimento urbano perturba a su- um cobertor, encurralando o calor do Verão no
perfície, permitindo a penetração de calor, já pro- solo. Num posto de investigação a 18 quilómetros
vocou a erosão de orlas costeiras, afectou estradas de Cherskiy, Mathias Goeckede, do Instituto Max
e escolas, destruiu canalizações e fez desabar gru- Planck de Biogeoquímica, na Alemanha, con-
tas onde os caçadores do Árctico armazenam car- cluiu que a profundidade da neve duplicara em
ne de morsa e gordura de baleia. Os verões quentes cinco anos. Em Abril de 2018, as temperaturas da
já estão a mudar a vida dos habitantes do Árctico. camada activa tinham subido 6ºC.
No entanto, a situação documentada pela famí- O fenómeno não se limitava à Sibéria. Durante
lia Zimov em 2018 foi completamente diferente, muitos anos, Vladimir Romanovsky, especialista
com implicações que ultrapassam de longe o Árc- em permafrost, observou a camada activa com-
tico: o degelo ocorreu durante o Inverno. Parado- pletamente congelada em meados de Janeiro,

88 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
em cerca de 180 postos de investigação do Alasca.
Contudo, estes sítios também sofreram nevões re-
centemente e o congelamento deslizou para Feve-
reiro e depois Março. Em 2018, oito dos locais estu-
dados por Vladimir, nos arredores de Fairbanks, e
uma dezena deles na península de Seward, nunca
chegaram a congelar por completo.
A nível mundial, o solo permanentemente ge-
lado contém até 1.600 gigatoneladas de carbono
– quase o dobro do existente na atmosfera. Nin-
guém espera que tudo, ou sequer a maior parte
disso, derreta. Até há pouco tempo, os investiga-
dores presumiam que o permafrost perderia, no
máximo 10% do seu carbono. No entanto, pensa-
va-se que isso demoraria até 80 anos.
Quando a camada activa deixou de congelar no
Inverno, tudo acelerou. O calor acrescido permite
aos micróbios consumirem material orgânico do
solo, emitindo dióxido de carbono ou metano ao
longo de todo o ano, em vez de em apenas alguns
meses do Verão. E o calor do Inverno penetra até
ao próprio solo, descongelando-o mais depressa.
“Muitos dos nossos pressupostos estão a cair
por terra”, disse Róisín Commane, uma especia-
lista em química. Róisín e os colegas descobriram
que a quantidade de CO2 vinda da vertente norte
do Alasca durante o Inverno aumentou 73% desde
1975. “Estamos a tentar perceber o que se passa no
Árctico observando o Verão”, mas a história come-
ça depois de o Sol se pôr.”
Alguns invernos com muita neve não bastam
para chamar-lhe tendência. No Inverno passado,
houve menos neve em Cherskiy e o solo voltou a
arrefecer consideravelmente. Também caiu pou-
ca neve em Fairbanks. Contudo, em alguns locais
estudados por Vladimir Romanovsky, no Alasca,
a camada activa voltou a reter calor suficiente
Os solos antigos do para impedir o congelamento total.
permafrost árctico, aqui “É espantoso”, disse Max Holmes, director-ad-
visíveis na parede da junto do Centro de Investigação de Woods Hole,
cratera de Batagaika,
contêm os restos que estudou o ciclo do carbono no Alasca e em
orgânicos de folhas, Cherskiy. “Imaginava o degelo do permafrost como
erva e animais que um processo lento e gradual e que talvez isto fosse
morreram há milhares
de anos, durante a Era uma fase de cinco anos diferente. Mas e se não for?
Glaciar. Todo esse E se a situação mudar muito mais depressa?
carbono tem estado
retido, em segurança,
na terra congelada. a si
S E A M U D A N Ç A C O M E Ç A R A A L I M E N TA R - S E
própria, como já acontece, por exemplo, no caso do
gelo marinho árctico? O gelo marinho reflecte os
raios solares, mantendo as águas frias por baixo da
superfície. No entanto, à medida que o gelo derrete,
as águas escuras absorvem esse calor, que, por sua
vez, derrete mais gelo.
FOTOGRAFIA CAPTADA COM A ASSISTÊNCIA DE LUBOV KUPRIYANOVA
CRISE NA TUNDRA 89
À D I R E I TA

A família Zimov acredita


que os herbívoros de
grande porte ajudavam
a manter os prados do
Árctico na Era Glaciar, em
parte porque fertilizavam
a erva. Na esperança
de recuperar a estepe
seca e de abrandar o
degelo do permafrost,
estão a importar cavalos
selvagens e outros animais
de pasto para um local
junto de um afluente do
rio Kolyma. Chamam-lhe
Parque do Plistocénico.
EM BAIXO

Nikolai e Svetlana
Yaglovsky, um casal
autóctone, ainda
subsistem a caçar e a
pescar no Kolyma, junto
de Cherskiy. Alguns
vizinhos foram obrigados
a mudar-se para a cidade.
O degelo do permafrost
ameaça casas à beira-rio
e torna a paisagem
mais difícil de navegar.

90 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
e congelou ao atingir o permafrost. Outra parte
foi criada ao longo de milhares de anos, durante
os invernos árcticos, quando o solo se contraiu e
rachou em padrões poligonais. Na Primavera, a
água do degelo encheu essas fendas, que voltaram
a congelar mais tarde. Ao longo do tempo, o gelo
enterrado cresceu e transformou-se em gigantes-
cas cunhas envoltas em solo permanentemente
gelado. Duvanny Yar está repleto delas.
Uma estrutura destas pode desagregar-se rapi-
damente. Quando o permafrost se desintegra, o
mesmo acontece ao gelo enterrado. À medida que
a água escoa, transporta calor que dissemina o de-
gelo, deixando atrás de si um rasto de túneis e bol-
sas de ar. O solo afunda-se para preencher essas
cavidades, criando depressões à superfície preen-
chidas com água do degelo e da chuva. A água au-
menta a profundidade dos charcos e corrói as suas
margens de gelo: os charcos transformam-se em
lagoas e as lagoas transformam-se em lagos. Isto
leva a que uma área maior de solo aqueça e, con-
sequentemente, que mais gelo derreta.
O “degelo abrupto”, como os cientistas desig-
nam este processo, muda toda a paisagem. De-
sencadeia deslizamentos de terras. Na ilha de
Banks, no Canadá, os cientistas puderam docu-
mentar que as derrocadas de grande escala au-
mentaram 60 vezes entre 1984 e 2013. O degelo
abrupto derruba florestas. Há 15 anos que Merritt
Turetsky, ecologista da Universidade de Guelph,
Por norma, é difícil prever qual o ponto de vi- monitoriza o degelo abrupto numa floresta de
ragem que desencadeia a ocorrência destes acon- abetos negros nos arredores de Fairbanks. Ela
tecimentos circulares. “Sabemos que há limiares descobriu que, neste local, as cheias estão a de-
que não queremos transpor”, disse Chris Field, sestabilizar raízes e troncos de árvores. Merritt
director do Instituto Woods para o Ambiente da suspeita que todas as árvores da sua “floresta
Universidade de Stanford. “Mas não conseguimos bêbeda” cairão em breve e serão engolidas por
defini-los com precisão.” novas zonas pantanosas. “Ainda há pequenas
No caso do solo permanentemente gelado, há bolsas de terra, mas temos de atravessar alguns
mesmo muito que não conseguimos ver. Em vez sítios muito húmidos para lá chegar”, disse.
disso, os cientistas estudam amostras pequenas, Todo o degelo do permafrost gera emissões de
acompanham outras à distância e inferem o res- gases com efeito de estufa. No entanto, as águas
to – ao contrário do gelo marinho do Árctico, que estagnadas aceleram o processo. O gás borbu-
pode ser sempre medido por satélite. “Podemos lhante que provém da lama privada de oxigénio
aceder à Internet e ver exactamente o que acon- existente sob lagoas e lagos não é unicamente
teceu ao gelo marinho”, disse o especialista Ted composto por dióxido de carbono, mas também
Schuur, da Universidade do Norte do Arizona. por metano, um gás com efeito de estufa 25 vezes
“No caso do solo permanentemente gelado, temos mais potente do que o CO2. Há duas décadas que a
dificuldade em observá-lo. Temos escassas ferra- ecologista Katey Walter Anthony da Universidade
mentas necessárias para medir o que se passa.” do Alasca mede o metano emitido pelos lagos do
Um tipo de permafrost preocupa particular- Árctico. Segundo os seus cálculos mais recentes,
mente os investigadores: os cerca de 20% que con- publicados em 2018, os novos lagos criados pelo
têm enormes depósitos de gelo sólido. Parte desse degelo abrupto poderão quase triplicar as emis-
gelo formou-se quando a água penetrou nos solos sões de gases com efeito de estufa.

CRISE NA TUNDRA 91
A aldeia de Newtok, no
Alasca, com 380 habitantes,
está a encolher à medida
que o permafrost vai
derretendo. Em busca de
aves para caçar num dia de
Verão, quatro rapazes yupik
(a partir da esquerda,
Kenyon Kassaiuli, Jonah
Andy, Larry Charles e Reese
John) atravessam um
passadiço alagado.
Não sabemos, ao certo, se esta mensagem mere-
ceu atenção suficiente por parte dos responsáveis
pelas políticas públicas. Em Outubro passado, o
IPCC apresentou um novo relatório sobre a mais
ambiciosa de duas metas de temperatura acorda-
das na conferência de Paris de 2015. O planeta já
aqueceu cerca de 1ºC desde o século XIX. Segundo
o relatório, um cenário com um aumento máximo
do aquecimento global em 1,5ºC em vez de 2ºC,
exporia menos 420 milhões de pessoas a vagas de
calor extremo frequentes e reduziria para metade
o número de plantas e animais que enfrentam a
ameaça da perda de habitat. Também poderia sal-
var uma área de solo permanentemente gelado de
cerca de dois milhões de quilómetros quadrados.
No entanto, para atingir a meta de 1,5ºC, segundo
o IPCC, o mundo teria de reduzir as emissões de
gases com efeito de estufa em 45% até 2030, eli-
miná-las completamente até 2050 e desenvolver
tecnologias capazes de retirar de novo da atmos-
fera enormes quantidades desses gases.
O desafio talvez seja ainda maior. O relatório so-
bre a meta de 1,5ºC foi o primeiro em que o IPCC
levou em consideração as emissões do solo per-
manentemente gelado, mas não incluía as emis-
sões causadas pelo degelo abrupto. Os modelos
climáticos ainda não são suficientemente sofisti-
cados para captar esse tipo de alteração rápida da
paisagem. A pedido da National Geographic, Ka-
tey Walter Anthony e Charles Koven, modelador
do Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley,
fizeram cálculos que levam em consideração as
emissões causadas pelo degelo abrupto. Segundo
estimam, para travar o aumento da temperatura
em 1,5ºC, teríamos de eliminar por completo as
nossas próprias emissões de combustíveis fósseis
pelo menos 20% mais cedo – o mais tardar, em Fragmentos de solo
2044, seis anos antes do agendado pelo IPCC. Isto permanentemente
gelado desagregados
dá-nos apenas um quarto de século para transfor- no rio Ninglick, junto do
mar por completo o sistema da energia global. mar de Bering, situam-se
“Estamos a enfrentar um futuro incerto, com agora a dezenas de
metros de algumas
um conjunto incompleto de ferramentas” disse casas. A aldeia vai mudar-
Charles Koven. “A incerteza não é só nossa. Há -se para novo local,
muitas variáveis incertas.” Existe mais do que quase 15 quilómetros a
montante, tornando-se
uma forma de criar novos lagos, por exemplo. pioneira de um processo
ao qual muitas aldeias
de partir da Sibéria, eu
A LG UM A S S E M A N A S D E P O I S do Alasca poderão ter
de submeter-se.
e Katie Orlinsky demos um passeio de jangada nos
Portões do Alasca do Parque Nacional do Árctico com
o ecologista Ken Tape. Um hidroavião deixou-nos, e
ao nosso guia fluvial Michael Wald, no lago Gaedeke.
Daí em diante, avançámos para sul pelo rio Alatna.
Dois quilómetros depois, encontrámos ramos

94 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
mastigados junto da margem. Estávamos no rio há Árctico não é, de longe, suficiente para compen-
uma semana quando chegámos a um lago com 15 sar o degelo do solo permanentemente gelado.
hectares que não existia no passado. Ao centro, exis- A vegetação está a conduzir os animais para norte.
tia uma enorme estrutura construída por castores. “Assim que pensei em castores, percebi que pou-
Há anos que Ken Tape usa fotografias captadas cas espécies deixam marcas tão visíveis a ponto
por via aérea e satélite para monitorizar a forma de conseguirmos distingui-las do espaço”, disse.
como plantas e animais selvagens estão a mu- Em imagens recolhidas entre 1999 e 2014, abran-
dar no Alasca e como isso poderá afectar o per- gendo apenas três bacias hidrográficas, Ken avis-
mafrost. À medida que este derrete e as estações tou 56 novas estruturas construídas por castores
de crescimento se prolongam, o Árctico modifica- que não existiam na década de 1980. Os animais
-se. A título de exemplo, os arbustos das planícies estão a colonizar o Norte do Alasca, deslocando-se
ribeirinhas do Alasca quase duplicaram de tama- oito quilómetros por ano. Ken pensa que existem
nho. Embora o crescimento da vegetação absorva agora oitocentas estruturas de castores em lagoas
mais carbono, um inquérito realizado por peritos no Alasca árctico, incluindo o enorme complexo
em 2016 concluiu que o aumento do verde no do Alatna. Ken apelidou-o de Lodge Mahal.

CRISE NA TUNDRA 95
Era uma visão impressionante: um monte de
ramos e rebentos, com cerca de 2,5 metros de al-
tura e 10,5 metros de largura, revestido por lama
e musgo, erguendo-se no meio de um lago com
águas ao nível da cintura, rodeado por pântanos.
A água fora desviada do rio por uma série de re-
presas. “Todo aquele pântano em redor de Lodge
Mahal é novo”, disse Ken Tape. “Se recuássemos
50 anos, não haveria castores aqui.”
Ken Tape e Michael Wald queriam explorar
o Alatna em parte porque um guia já encontra-
ra madeira mastigada por castores ao longo do
rio Nigu. O Nigu nasce junto do lago Gaedeke, a
nascente do Alatna, mas do outro lado da Divisó-
ria Continental – razão pela qual flui para norte,
rumo ao rio Colville e ao oceano Árctico. Ao longo
do rio Alatna, acima de Lodge Mahal, encontram-
-se outras lagoas e represas abandonadas. Ken crê
que os castores estão a caminho da vertente norte
e que estão a usar o Alatna como rota através da
cordilheira Brooks. “Estamos a assistir a uma ex-
pansão em tempo real”, diz.
Ele não consegue provar que as alterações cli-
máticas provocam esta mudança: a população
de castores tem estado a recuperar desde que o
comércio de peles chegou ao fim, há um século
e meio. De qualquer forma, os “engenheiros” de
dentes fortes poderão reconstruir as paisagens do
solo permanentemente gelado. “Imagine que era
um construtor e pedia autorização para fazer três
represas em metade dos riachos da tundra árcti- maiores do que castores, com efeitos mais benevo-
ca”, diz Ken Tape. “Seria este o resultado.” lentes sobre o permafrost. Na opinião de Serguei
Ken já viu uma amostra desse resultado. A su- Zimov, as manadas de bisontes, mamutes, cavalos
deste de Shishmaref, na península de Seward, e renas que vagueavam sobre as estepes do Plisto-
fotografias de um afluente do rio Serpentine não cénico faziam mais do que comer a erva – cuidavam
mostram qualquer alteração entre 1950 e 1985. dela. Fertilizavam-na com os seus dejectos e com-
Em 2002, os castores chegaram e inundaram a pactavam-na, calcando musgos e arbustos e
paisagem. Em 2012, parte das terras tinha ce- expondo rebentos de árvores.
dido, transformando-se em zonas pantanosas. A partir da última era glaciar, esses prados se-
O permafrost estava a desaparecer. cos e ricos foram substituídos, na região oriental
Algumas centenas de castores não mudarão o da Sibéria, por tundra húmida, dominada por
Árctico, mas estes animais podem estar a dirigir- musgos a norte e florestas a sul. Entre os prin-
-se para norte, para o Canadá e para a Sibéria, e cipais actores dessa mudança, segundo Serguei
reproduzem-se depressa. A experiência da Argen- Zimov, encontram-se os caçadores humanos que
tina é educativa: em 1946, vinte castores foram dizimaram as manadas de grandes herbívoros,
propositadamente introduzidos no Sul para pro- há cerca de dez mil anos. Sem herbívoros que fer-
mover o comércio das peles. A população actual é tilizassem o solo, a erva murchou. Sem erva para
de cerca de cem mil animais. absorver a água, o solo tornou-se mais húmido.
Musgos e árvores invadiram a paisagem. No en-
sobre o passado e o
N A V I S ÃO DA FA M Í L I A Z I M OV tanto, se os seres humanos não tivessem explo-
futuro do solo permanentemente gelado no Árctico, rado o ecossistema para lá do ponto de viragem
os animais selvagens também representam um há milhares de anos, ainda haveria mamutes a
papel essencial, mas estamos a falar em animais pastar na Sibéria.

96 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
À ESQUERDA
Durante milhares de anos,
aldeãos inupiat da
vertente norte caçaram
baleias. Uma única baleia
pode alimentar uma
comunidade durante
grande parte de um ano
se a carne e a gordura
forem devidamente
armazenadas, o que
tradicionalmente é feito
em grutas escavadas no
permafrost. À medida que
este descongela, porém,
as grutas de gelo estão a
ficar inundadas.

EM BAIXO

Josiah Olemaun, um
baleeiro inupiat de
Utqiaġvik (Barrow), no
Alasca, faz uma pausa
enquanto armazena carne
de baleia numa gruta
escavada no permafrost.

CRISE NA TUNDRA 97
Há quase 25 anos, nas terras baixas junto de O parque é o derradeiro teste à hipótese de Ser-
Cherskiy, Serguei criou um projecto de demons- guei Zimov e, espera ele, uma protecção contra
tração com 144 quilómetros quadrados, chama- futuras alterações climáticas. Os prados, sobretu-
do Parque do Plistocénico. A sua ideia era trazer do quando cobertos de neve, reflectem mais luz
os grandes herbívoros de volta e verificar se eles solar do que a floresta escura. Os herbívoros pi-
trariam consigo as pradarias. Ele e, mais tarde, sam a neve espessa, permitindo que o solo liberte
Nikita, cercaram cavalos selvagens e mandaram calor. Ambas as acções arrefecem a terra. Se os
vir iaques e ovelhas do lago Baical, a bordo de car- animais selvagens conseguirem restaurar os pra-
rinhas. Na Primavera passada, Nikita trouxe 12 dos, poderão abrandar o degelo do permafrost e,
bisontes da Dinamarca. Em 2018, a família Zimov por conseguinte, as alterações climáticas. Contu-
juntou esforços com o geneticista George Church, do, para fazer mesmo a diferença, teríamos de li-
da Universidade de Harvard, que acredita que um bertar o equivalente a jardins zoológicos inteiros
dia conseguirá clonar um mamute. Talvez estes de animais em milhões de hectares do Árctico.
animais, actualmente extintos, venham a cami- Segundo a família Zimov, as provas dadas pelo
nhar um dia pelo Parque do Plistocénico. seu parque de 14.400 hectares são promissoras.

98 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Mesmo com cerca de cem animais, os prados do
parque mantêm-se substancialmente mais fres-
cos do que o solo em redor.
O fosso existente entre as ambições dos Zimov
e a realidade do parque é inquestionavelmente
grande. Numa visita durante a tarde, eu e Katie
caminhámos sobre pradarias molhadas até uma
secção pantanosa para ver os cavalos. À distân-
cia, um bisonte solitário escondeu-se. Nikita sen-
tou-nos num minitanque com oito rodas e levou-
-nos a passear, avançando sobre os salgueiros e
esmagando-os. Após uma subida íngreme, atra-
vessámos uma zona com alguns larícios finos.
É por isto que ele precisa de herbívoros gigantes,
disse Nikita: “De momento, não tenho animais
capazes de eliminar estas árvores.” O investiga-
dor passa muito tempo a angariar fundos para
manter o seu conceito a funcionar.
Alguns cientistas contestam as estimativas de
Serguei Zimov em relação ao número de animais
de grande porte que vagueava pela Sibéria no
Plistocénico ou insistem que a sua teoria de mu-
dança ecológica, passada e presente, é demasia-
do simplista. Acima de tudo, a maioria das críti-
cas parece nivelada pela audácia dos Zimov. Max
Holmes, de Woods Hole, que os conhece bem,
acha que existe uma centelha de genialidade no
seu trabalho. Os Zimov estão “no limite, mas é aí
que se costumam originar as grandes ideias e as
grandes mudanças”, disse.
Fora do Parque do Plistocénico, o mundo mo-
derno tem reagido com complacência ao aque-
cimento do Árctico. Há décadas que ignoramos
as provas das alterações climáticas e esperamos
que a situação não fique excessivamente má. Es-
tamos a contar com avanços tecnológicos que pa-
Um urso-polar recem sempre além do nosso alcance. E fazemos
inspecciona um tudo isto apesar de os climatólogos dizerem que
automóvel junto de
Kaktovik, no Alasca. todos os sinais apontam para a necessidade de
A fusão do gelo marinho medidas urgentes e audazes.
está a empurrar mais Os Zimov são diferentes. Passaram a vida in-
ursos para terra em busca
de alimento da mesma teira a combater uma paisagem inclemente que
forma que o degelo e a recompensa a obstinação. A tentativa de salvar
inundação das grutas de o permafrost restaurando a estepe árctica será
gelo está a obrigar os
habitantes do Alasca a assim tão mais louco, perguntam, do que espe-
guardarem o seu peixe e rar que os seres humanos reformulem completa-
carne no exterior. mente o sistema de energia mundial? Talvez pre-
cisemos mesmo de uma loucura.
“A luta contra as alterações climáticas tem de
ser travada de diferentes formas e em várias fren-
tes”, disse Nikita. Só com uma combinação de
respostas é que o futuro poderá não ser “comple-
tamente miserável”. j

CRISE NA TUNDRA 99
Quando o tecto
do mundo
derrete

A aldeia de Gokyo,
encaixada junto de
um lago parcialmente
alimentado pelo glaciar
Ngozumba, no Nepal,
não enfrenta perigos
imediatos derivados
de cheias, mas outras
comunidades dos Himalaia
estão ameaçadas pelos
lagos glaciares.
GETTY IMAGES/FENG WEI PHOTOGRAPHY

100
O GELO QUE HÁ MUITO DEFINE AS CORDILHEIRAS DO SUL DA ÁSIA

E S TÁ A D E R R E T E R E A F O R M A R L A G O S G I G A N T E S C O S .

A O S P O U C O S , S U R G E O E S P E C T R O D E C H E I A S C ATA S T R Ó F I C A S .

Texto de F R E D D I E W I L K I N S O N
Se sobrevoar o
Evereste de avião,
verá um mar de picos
brancos irregulares
estendendo-se
infinitamente
até ao horizonte.
É uma paisagem sem igual no planeta. São os gla- Myanmar. O estudo alerta que, dependendo da
ciares colossais dos Himalaia, que há milénios são velocidade do aquecimento global, um terço a
reabastecidos por monções que abafam as monta- dois terços dos cerca de 56 mil glaciares da região
nhas com neve nova no Verão. desaparecerão até 2100.
Se fizer essa mesma viagem de avião daqui a É uma previsão terrível para aproximadamente
80 anos, esses gigantes brancos reluzentes terão 1.900 milhões de habitantes do Sul da Ásia, que
desaparecido. dependem dos glaciares como fonte de água es-
No início deste ano, o Centro Internacional sencial não só para consumo e efeitos sanitários,
para o Desenvolvimento Integrado da Montanha mas também para a agricultura, energia hidroe-
publicou a análise mais abrangente até hoje rea- léctrica e turismo. O estudo também se debruçou
lizada de como as alterações climáticas afectarão sobre uma questão mais imediata. Com o degelo
os glaciares das montanhas dos Himalaia, do In- rápido dos glaciares, para onde irão esses 3.850
docuche, do Caracórum e de Pamir: juntas, elas quilómetros cúbicos de água?
formam um arco que atravessa o Afeganistão, Na verdade, os Himalaia, há muito definidos
o Paquistão, a China, a Índia, o Nepal, o Butão e pelos seus glaciares, estão a tornar-se uma cordi-
lheira definida por lagos. Outro estudo concluiu
Esta reportagem foi patrocinada pela Rolex, que se que entre 1990 e 2010 formaram-se mais de nove-
associou à National Geographic Society na iniciativa centos novos lagos alimentados por glaciares nas
Planeta Perpétuo, um projecto de expedições
científicas para explorar, estudar e documentar a cordilheiras altas da Ásia. “Está tudo a acontecer
mudança nas regiões mais singulares do planeta. muito mais depressa do que esperávamos há cin-

102 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Uma equipa de
cientistas recolhe uma
amostra do leito do lago
Taboche, no Nepal. As
camadas de sedimentos
contêm pistas sobre
quando e como o lago
se formou, permitindo
estudar as mudanças em
condições sazonais, ao
longo do tempo.
Fique a par das
novidades da expedição
National Geographic
and Rolex Perpetual
Planet Extreme
Expedition ao Evereste
em natgeo.com/
perpetualplanet.
TYLER DINLEY

co ou dez anos”, comenta Alton Byers, explorador nário possível, estas podem ceder. São as cheias
da National Geographic e geógrafo especializado repentinas dos lagos glaciários, conhecidas pela
em montanhas da Universidade do Colorado. sigla GLOF, em inglês, embora também exis-
ta uma palavra sherpa para designá-las: chhu-
se for-
PA R A C O M P R E E N D E R C O M O E S T E S L A G O S -gyumha, uma cheia catastrófica.
mam, pense num glaciar como um bulldozzer de Uma das mais espectaculares GLOF dos Hima-
gelo, escavando o flanco de uma montanha, ras- laia ocorreu na região de Khumbu, no Nepal, no
pando o solo e deixando um rasto de detritos à dia 4 de Agosto de 1985, quando uma avalancha
medida que avança. Estes rastos chamam-se moreias de gelo rugiu pelo glaciar Langmoche abaixo,
e, à medida que os glaciares derretem e recuam, a caindo sobre o lago Dig, uma massa de água com
água preenche o espaço vazio remanescente e as 1,6 quilómetros de extensão.
moreias funcionam como represas naturais. O lago teria, provavelmente, menos de 25 anos:
“Começam por ser lagoas com a água do dege- uma imagem captada em 1961 pelo cartógrafo
lo”, explica o especialista. “Evoluem depois para suíço Edwin Schneider mostra apenas gelo e de-
constituir uma única lagoa e depois um lago de tritos no sopé de Langmoche. Quando a avalan-
maiores dimensões. Vão ficando cada vez maio- cha desabou sobre o lago, criou uma onda com
res, ano após ano, até serem um lago com milhões quatro a seis metros de altura que abriu uma fen-
de metros cúbicos de água.” da na moreia, libertando mais de cinco milhões
À medida que enche, o lago pode transbordar de metros de cúbicos de água (aproximadamente
água sobre as moreias que o sustêm ou, no pior ce- duas mil piscinas olímpicas) a jusante.

Q UA N D O O T E C TO D O M U N D O D E R R E T E 103
Os sherpas que assistiram à cena descreve- Por vezes, estes reservatórios ocultos estão uni-
ram-na como uma massa negra de água descen- dos a lagos de superfície através de condutas
do lentamente sobre o vale, acompanhada por existentes no gelo. Quando uma via de fuga do re-
um estrondo semelhante ao de vários helicópte- servatório derrete subitamente, dezenas de lagos
ros e o cheiro de terra acabada de lavrar. A cheia interligados podem ser drenados em simultâneo,
destruiu 14 pontes, cerca de 30 casas e uma nova convergindo num enorme dilúvio. Embora mais
central hidroeléctrica. Segundo alguns relatos, pequeno e menos devastador do que os GLOF,
morreram várias pessoas. Numa reviravolta be- este tipo de evento – conhecido pelos cientistas
nevolente, a cheia ocorreu durante um festival como uma cheia de condutas englaciar – ocorre
de celebração das colheitas, cuja época se apro- com mais frequência. Pouco se sabe sobre eles.
ximava, motivo pelo qual poucos moradores “Não é fácil descobrir como a água corre no inte-
estavam junto do rio naquele dia, o que salvou rior dos glaciares”, afirma Paul Mayewski.
indubitavelmente vidas. Por enquanto, os GLOF continuam a ser a nos-
“Sempre houve GLOF”, diz Alton Byers. “Mas sa maior preocupação. Alton Byers aponta para a
nunca tivemos tantos lagos perigosos num perío- moreia do sopé do glaciar Khumbu, onde existe
do tão curto. Sabemos pouco sobre eles.” A cheia actualmente um aglomerado de lagoas. “É o pró-
do lago Dig chamou a atenção para os riscos nou- ximo grande lago”, diz, lembrando que a moreia

Os glaciares contêm cerca de 3.850 quilómetros cúbicos de água.


A questão imediata que se coloca na região é:
quando os glaciares derreterem, para onde irá toda a água?

tros lagos dos Himalaia. Os principais eram o lago se encontra acima da aldeia de Tugla, junto de
Rolpa, no vale Rolwaling (no Nepal) e o lago Imja, um trilho. “É apenas uma questão de tempo até
junto do sopé do Evereste, a montante de várias se transformar num risco potencial.”
aldeias ao longo do popular trilho de caminhada É difícil avaliar o perigo sem realizar opera-
até ao acampamento-base do Evereste. ções de campo, que exigem vários dias de cami-
No fim da década de 1980, equipas de cientistas nhada até aos lagos distantes, mas um estudo
começaram a estudar estes dois lagos. Imagens conduzido em 2011 identificou 42 lagos no Ne-
recolhidas por satélite revelaram que o lago Imja pal com risco de cheia elevado ou muito elevado.
se formara após o lago Dig na década de 1960 e Em toda a região dos Grandes Himalaia, o seu
estava a expandir-se a um ritmo alarmante. Um número pode ascender a mais de uma centena.
estudo estimou que, entre 2000 e 2007, a área da
sua superfície aumentara quase dez hectares. O U T RO PA Í S C OM UM LO N G O H I S TO R I A L de proble-
“Um dos problemas dos lagos glaciares é o mas face ao desaparecimento dos lagos glaciares
facto de os riscos estarem sempre a mudar”, diz é o Peru, um país montanhoso que perdeu cerca
Paul Mayewski, director do Instituto das Altera- de 50% do seu gelo glaciar nos últimos 30 a 40
ções Climáticas da Universidade do Maine e líder anos. Milhares de pessoas já morreram em GLOF.
da expedição organizada em 2019 pela National Uma cheia devastadora, com origem no lago Pal-
Geographic Society e pela Rolex para estudar os cacocha, arrasou um terço da cidade de Huaraz,
glaciares do Nepal. Muitas moreias que susten- matando cerca de cinco mil pessoas. Foi o
tam lagos glaciares estão naturalmente reforça- momento em que os peruanos começaram a con-
das por pedaços de gelo que ajudam a estabilizar ceber formas pioneiras de drenar parcialmente os
a estrutura. Se o gelo derreter, uma moreia outro- lagos glaciares. Actualmente, dezenas de lagos do
ra sólida pode soçobrar. Peru foram represados e o seu volume foi reduzido,
Há outras ameaças escondidas sob o gelo. Com criando centrais hidroeléctricas e canais de irriga-
o degelo, grandes grutas podem esvaziar-se den- ção. No entanto, a implementação de tais soluções
tro de um glaciar em recuo e encher-se de água. no Nepal enfrenta grandes obstáculos.

104 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Gyachung Kang
Cho Oyu 7.952m
8.188m Glaciar
Rongbuk

Mt. Evereste
8.850m
Lunag Ri
6.895m Glaciar
Sumna Acampamento-
-base do
Evereste
b a
um
u Lhotse

z
ciar Ngo

mb
G l ac
8.516m

Khu
i ar
L. Thonak Glaciar

G la
O nível de água do
N Lhotse

ciar
an lago Imja foi reduzido
gp
a Gokyo Ri Gokyo em 2016 para diminuir

Gla
5.357m o risco de cheias.
L. Chola Lago Imja
O lago Dig sofreu Lago Dudh
L. Taboche LAGO CHOKARMA
uma cheia em 1985, Tugla
destruindo pontes
em localidades tão a Represa controlada
sul como Phakding. Taboche do Imja
6.495m

Co
Ama Dablam

rd
Glaciar 6.812m

.K
Langmoche LAGO NARE
iar Drolambau

Bh

D
hu
3 Set., 1977

ud
LAGO DIG

mu
ote

ja
h
4 Ag., 1985

Im
ch

Ko
27 Abril, 2015 Glaciar
Ko

e
Nare

si
si

Va l e R o lwal
i ng
Áreas construídas
Glac

Lago Rolpa
Thame
Cord. Lumdin Namche Glaciar
g Bazaar Kyashar
Glaciar
Trakarding Kyashar
6.770m

h a r
Glaciar
Lumding

as
Glaciar LAGO
Likhu Lago Lumding TAMA

y
K
3 Set., 1998

ilheira
Numbur
6.958m
Cord

Phakding

Inkhu

Lukla
i
Dudh Kos

A escala varia nesta perspectiva.


A distância do pico de Cho Oyu a Lukla
é de 46 quilómetros. Á S I A

NEPAL CHINA
ÍNDIA
Lagos perigosos
H Segundo os cientistas, o degelo
C H I N A
u

acelerado dos 56 mil glaciares da


Likh

I
M Ásia está a criar centenas de novos
A lagos nas cordilheiras de grande
Inundação por L T I B E T E altitude. Se a represa natural que
transbordo A
documentado I Mt. Evereste contém o glaciar soçobrar, a cheia
A
do lago glaciar daí resultante poderá arrasar as
N E P A L comunidades situadas nos vales
Katmandu por baixo. Engenheiros nepaleses
estão a estudar formas de reduzir
SENTIDO DA
PERSPECTIVA o volume dos lagos mais perigosos
0 km 50 ÍNDIA para atenuar a ameaça que
N
eles representam.
SOREN WALLJASPER. FONTES: CENTRO INTERNACIONAL PARA O DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA MONTANHA
(ICIMOD); CONTRIBUIÇÃO DO PROJECTO OPENSTREETMAP, ACEDIDO SOB LICENÇA DE BASE DE DADOS ABERTA;
MEDIÇÕES GLOBAIS DA MASSA DE GELO A PARTIR DO ESPAÇO (GLIMS); ALTON BEYERS, UNIVERSIDADE DO COLORADO
A grande diferença entre o Peru e os Himalaia Em 2016, o exército nepalês participou num
é a logística, explica John Reynolds, especialista projecto de emergência que drenou o lago Imja
britânico em riscos geológicos que ajudou a di- num volume semelhante. Nenhuma destas me-
rigir os trabalhos de redução do Rolpa, conside- didas eliminou completamente os respectivos
rado por muitos o lago mais perigoso do Nepal. riscos de cheia, mas, a par da instalação de sis-
“No Peru, podemos deslocar-nos de automóvel temas de alerta, ambas assinalam um progresso.
até um local a cerca de um dia de caminhada Nem todos os lagos representam o mesmo tipo
do lago”, diz. No Nepal, “podem ser necessários de ameaça e, à medida que os cientistas vão de-
cinco ou seis dias de caminhada do lago à estra- senvolvendo novas formas de estudar os lagos,
da mais próxima.” aprendem como avaliar o verdadeiro risco que
O lago Rolpa é tão isolado que foi preciso des- cada um representa. Em alguns casos, desco-
montar a maquinaria pesada e transportá-la até briram que a percepção de risco era sobrevalori-
ao lago em peças separadas, a bordo de um heli- zada, incluindo o lago Imja. “Não existe relação
cóptero, voltando a montá-la mais tarde. Depois entre a causalidade de um GLOF e o tamanho de
de construírem uma pequena represa, os enge- um lago”, diz John Reynolds. “O mais importan-
nheiros começaram lentamente a libertar água te é a forma como o lago interage com a represa.”
e a reduzir o volume do lago. Por fim, o nível da Não são apenas os lagos grandes que repre-
água do lago Rolpa foi reduzido em 3,5 metros. sentam ameaças, explica o cientista nepalês
Trata-se do primeiro projecto de mitigação con- Dhananjay Regmi. “Estamos mais preocupados
cretizado nos Himalaia. com os lagos de grande dimensão, mas a maio-

106 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
ria dos desastres dos últimos anos foram pro- Jangadas transportam os de água doce situadas
vocados por lagos relativamente pequenos, dos cientistas no lago Tabo- a maior altitude do
che em Maio, altura em mundo. Alguns, porém,
quais nunca suspeitámos.” que parte da superfície representam ameaças
Quer os lagos sejam grandes ou pequenos, permanece congelada. para as comunidades
ninguém duvida de que as condições capazes Os lagos da região vizinhas, caso
nepalesa de Khumbu transbordem ou rompam
de desencadear cheias na região estão a agravar- são algumas das massas as suas represas naturais.
-se. John Reynolds salienta que, à medida que
o solo permanentemente gelado (o permafrost)
começar a derreter em grande escala, os desa- dução do Imja. As comunidades que vivem em
bamentos e os aluimentos em grande escala regiões isoladas de grande altitude estão silen-
tornar-se-ão mais comuns e, se atingirem lagos ciosamente a desenvolver a sua própria tecno-
vulneráveis, poderão desencadear cheias seme- logia para se adaptarem.”
lhantes ao episódio trágico do vale Khumbu, Os residentes de Khumbu começaram a cons-
em 1985. “Teremos de realizar estudos de risco truir gabiões (gaiolas de arame repletas de ro-
geológico integrado nesses vales”, comenta o chas) para ajudar a desviar as cheias das povoa-
engenheiro. “As GLOF representam apenas uma ções. O seu esforço foi recompensado em 2016,
fracção do problema.” quando ocorreu uma cheia de conduta engla-
Alton Byers está optimista quanto aos pro- ciar por cima da aldeia de Chukung. Os gabiões
gressos já alcançados. “Não são apenas os gran- contiveram a torrente, desviando a água em re-
des projectos de infra-estructuras, como a re- dor de várias habitações e a aldeia foi salva. j

BRITTANY MUMMA, FISHER CREATIVE, PANORAMA COMPOSTO POR QUATRO IMAGENS 107
Í N D I C E | 2019

JANEIRO JULHO
Orca do Picoto do Vasco A chegada à Lua 2
Medicina de precisão 2 O futuro da exploração espacial 34
Cirurgia 4.0? 26 Conímbriga 48
Mortalidade materna 42 O mar da Terra do Fogo 64
Medicina tradicional chinesa 64 Níger 78
A farmácia doméstica 90 Refugiados rohinghya 102
Padrões de voo 100 MAPA-SUPLEMENTO: O MAPA DA LUA

FEVEREIRO AGOSTO
Lítio, o ouro do século XXI 2 As origens da Europa 2
A face oculta de Silicon Valley 26 O mar dos Sargaços 20
Sacrifício ritual nos Andes 46 As grutas do Bornéu 36
Cangurus 68 Raias-diabo 54
Expedição nos Açores 86 Paul Salopek 68
Rituais de rebelião 100 Dalai Lama 92

MARÇO SETEMBRO
Ribat da Arrifana Automóveis sem condutor
Vida fora da Terra 2 A primeira circum-navegação 2
Membracídeos 36 A arte da camuflagem 24
El Salvador 46 Dossier Árctico 40
Alex Honnold 68 O lobo-árctico 70
Os heróis das Filipinas 78 Mundos espirituosos 88
Fábrica de nuvens 90

ABRIL OUTUBRO
Cidades do futuro 2 Ecovia do Rabaçal
Repensando as cidades 14 Os celtas 2
Cidade de refugiados no Uganda 42 A ameaça da extinção 30
A pé em Tóquio 64
Girafas 50
Letreiros de Lisboa 90
A primeira circum-navegação 74
Visão dupla 98
Fauna de água doce 90
MAPA-SUPLEMENTO: A ECOVIA
DO RABAÇAL EM VALPAÇOS

MAIO NOVEMBRO
Microrganismos das grutas do Algarve Mudando o futuro 2
Leonardo da Vinci 2 O bem-estar da mulher no mundo 26
Gorongosa 40 Mulheres fotografadas pela revista 34
Microplásticos 64 A reconstrução do Ruanda 46
Incêndios no Alasca 78 O direito à segurança 58
A hora das pequenas cientistas 66
Mulheres cientistas 76
As mulheres na ciência 98

JUNHO DEZEMBRO
Estudo das obras de Munch Debaixo de Jerusalém 2
O Pórtico da Glória 2 Parques africanos 30
O lado obscuro do turismo 28 Santuário do Alto da Vigia 50
Pangolins 56 O problema do plástico 66
Mulheres vigilantes da natureza 76 Crise na tundra 78
As praias do Dia D 92 Lagos de altitude 100
N AT I O N A L G E O G R A P H I C | NA TELEVISÃO

Segunda Guerra
Mundial: Sobreviver
no Limite
E S T R E I A : 6 D E D E Z E M B R O, À S 2 2 H 1 0

Hazen Audel é um explorador muito especial.


Viaja pelo mundo para recriar algumas das mais
Sea of Shadows incríveis histórias de sobrevivência da Segunda
Guerra Mundial. Durante o conflito, soldados,
1 2 D E D E Z E M B R O, À S 2 3 H marinheiros e aviadores ficaram perdidos em
território inóspito inimigo, onde iniciaram nova
Um desastre iminente num dos ambientes mais batalha pela sobrevivência. Com os mesmos man-
espectaculares da Terra desencadeia uma missão
timentos então disponíveis, Hazen percorre as
de resgate como nunca se viu. “Sea of Shadows”
é o novo documentário produzido por Leonardo mesmas rotas na selva, no gelo e em ilhas desér-
di Caprio, que já venceu o prémio votado pelo ticas numa celebração muito especial do esforço
público do Festival Sundance, e conta a história das quase sobre-humano que muitos fizeram para
“vaquitas porpoise”, um cetáceo em risco crítico. não se renderem.

Maratona Natal Nos dias de celebração festiva, o National


Geographic prepara programação especial.
e Ano Novo Na tarde de 25 de Dezembro, serão emitidos seis
episódios da série “Europa Vista de Cima”. No dia
2 5 D E D E Z E M B RO E 1 de Janeiro, será a vez de “O Incrível Dr. Pol”, a
1 D E JA N E I RO série sobre o veterinário mais famoso do mundo.

NATIONAL GEOGRAPHIC (EM CIMA,


AO CENTRO E EM BAIXO)
Wild Winter
TO D O S O S D OM I N G O S , À S 1 7 H

O Inverno chegou ao hemisfério norte e, com o


frio, a neve e o gelo, inicia-se uma fase diferente
da batalha pela sobrevivência. Todas as criaturas,
pequenas ou grandes, suportam com estoicismo
a estação mais dura e implacável do ano, sobretudo
nas latitudes mais próximas da região polar. Alguns
agarram-se à vida nesses meses amargos, procu-
Secrets of the Zoo 2 rando simplesmente não gastar muita energia e
3 0 D E D E Z E M B R O, À S 1 7 H proteger-se do impacte do frio. Outros, mais afoi-
tos, encontram oportunidades no gelo, caçando
A segunda temporada desta série regressa com presas desprevenidas ou fragilizadas. “Wild Win-
novos jardins zoológicos e acesso ainda mais ter” acompanha-o durante a estação fria com
livre aos bastidores onde o bem-estar dos
documentários notáveis sobre a vida selvagem na
animais é a preocupação essencial. No primeiro
episódio da temporada, o Jardim Zoológico e Escandinávia, no Alasca, no Árctico canadiano e
Aquário de Columbus abre as portas e revela nas ilhas do Atlântico Norte. Ao domingo, a partir
mais de dez animais ali conservados. do dia 1, ligue a lareira e acompanhe “Wild Winter”.

Monster Croc No Território do Norte, na Austrália, a população


de crocodilos de água salgada está protegida há
Wrangler 4 mais de quarenta anos. Matt Wright e os seus
companheiros capturam e deslocam os crocodilos
4 D E D E Z E M B RO, À S 1 7 H . mais atrevidos, de forma a evitar confrontos com
TO DA S A S Q UA RTA S seres humanos. Os pedidos de ajuda nunca cessam.

NATIONAL GEOGRAPHIC (NO TOPO E AO CENTRO);


WFD PRODUCTIONS (EM BAIXO)
P R Ó X I M O N Ú M E R O | JANEIRO 2020

A ciência As dietas da Ioga: para lá da Adeus à barreira


da dor longevidade calma interior de mangue
Os cientistas estão a Há regiões no mundo A prática do ioga Os Sundarbans, entre
dar passos importantes onde as comunidades é um antídoto eficaz a Índia e o Bangladesh,
para determinar como vivem mais e melhor. para combater o stress são uma barreira natural
sentimos a dor e o que Haverá alimentos do nosso tempo. A ciên- contra as cheias. O seu
podemos fazer para que induzam a cia estuda as vantagens desaparecimento amea-
atenuar essa sensação. longevidade? para a saúde. ça milhões de pessoas.

N AT I O N A L G E O G R A P H I C ROBERT CLARK