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O Movimento Estudantil Revolucionário

Ernest Mandel 21 de Setembro de 1968

Introdução

Em Setembro ​e ​Outubro de ​1968, E ​ rnest Mandel efectuou diversas


conferências ​em ​trinta ​e ​três colégios ​e ​universidades nos Estados Unidos
e ​no Canadá, de Harvard ​a ​Berkley ​e ​de Montréal ​a ​Vancouver.

A sua exposição na Assembleia Intenacional dos Movimentos


Revolucionários Estudantis, sob ​a ​égide dos Estudantes para uma
Sociedade Democrática (SDS), da Universidade de Columbia, foi
considerada como ​o ​acontecimento maior da Assembleia ​e ​um dos pontos
quentes da sua digressão. Esta reunião realizou-se na noite de sábado, ​21
de Setembro, no auditório da Faculdade de Educação da Universidade de
Nova lorque. Mais de 600 pessoas estiveram presentes ​e o ​debate
prolongou-se durante várias horas. Reproduzimos ​a ​seguir ​o ​discurso
principal dessa noite ​e os ​extractos essenciais das intervenções de Emest
Mandel a​ o ​longo da discussão.

1. Teoria e prática

Rudi Dutschke, o dirigente dos estudantes berlinenses, e muitas outras


personalidades estudantis representativas, avançaram como ideia central
da sua actividade o conceito da unidade da teoria e da prática, da teoria
revolucionária e da prática revolucionária. Não se trata de uma escolha
arbitrária. A unidade da teoria e da prática pode ser considerada como a
mais importante das lições da experiência histórica extraídas das
revoluções que tiveram lugar na Europa, na América ou noutros países do
Mundo. A tradição histórica que engloba esta ideia parte de ​Babeuf e,
através de ​Hegel​, chega a ​Marx​. Esta conquista ideológica implica que o
grande movimento de libertação da Humanidade deve ser guiado por um
esforço ​consciente ​para reconstruir a sociedade, para ultrapassar uma
situação na qual o homem está dominado pelas forças cegas da economia
de mercado e começa a tomar nas mãos o seu próprio destino. Este acto
consciente de emancipação não pode ser conduzido com eficácia, e muito
menos até ao fim, sem que o homem tome consciência do ambiente social
em que vive, das forças sociais com que deve enfrentar-se e das
condições económicas e sociais gerais desse movimento para a libertação.
Tal como a unidade da teoria e da prática é hoje um guia fundamental
para qualquer movimento de emancipação, o marxismo ensina também
que a revolução, a revolução consciente, não pode ser um êxito sem que o
homem compreenda a natureza da sociedade em que vive e sem que
compreenda as forças motoras que são subjacentes ao desenvolvimento
económico e social dessa sociedade. Noutras palavras: sem que
compreeenda as forças que comandam a evolução social, o homem não
poderá transformar essa evolução por uma revolução. Eis a concepção
principal que a teoria marxista introduz no actual movimento
revolucionário estudantil na Europa.

Tentaremos demonstrar que estas duas ideias — a unidade da teoria e


da prática e uma compreensão marxista das contradições objectivas da
sociedade — que existiam muito antes que o movimento estudantil na
Europa se tivesse revelado, foram reencontradas e reintegradas na luta
prática pelo movimento estudantil europeu como um resultado das suas
próprias experiências.

O movimento estudantil começa por todo o lado — e não é diferente


nos Estados Unidos — como uma revolta contra as condições imediatas de
que os estudantes fazem a experiência nas suas instituições académicas
específicas, nas faculdades e escolas secundárias. Este aspecto é evidente
no Ocidente, onde vivemos, embora a situação seja totalmente diversa
nos países subdesenvolvidos. Ali, muitas outras forças e circunstâncias
apelam a que a juventude estudantil ou não-estudantil se subleve. Mas,
no decorrer dos dois últimos decénios, o tipo de juventude que frequenta
a Universidade no Ocidente não tinha encontrado, na globalidade, nem no
seu local de estudo, nem nas condições familiares, nem na própria cidade,
razões iminentes de revolta social.

Existem, evidentemente, excepções. A comunidade negra dos Estados


Unidos é uma delas; os trabalhadores imigrados mal pagos da Europa
Ocidental são outra excepção. No entanto, na maioria dos países
ocidentais, os estudantes que vêm desse meio proletário mais pobre são
sempre uma ínfima minoria. A larga maioria dos estudantes vêm quer de
meios pequeno-burgueses ou da média burguesia, quer das camadas
trabalhadoras mais favorecidas. Quando chegam à Universidade, não
estão em regra preparados, devido à vida que levaram até então, para
compreender claramente ou plenamente as razões da revolta social.
Tomam pela primeira vez consciência disso no quadro da Universidade.
Não faço referência às excepcionais pequenas minorias de elementos
politicamente conscientes, mas à grande massa de estudantes que se
encontram confrontados com um certo número de condições que os
conduzem para o caminho da revolta.

Em poucas palavras, tais condições abrangem a organização, a


estrutura e o programa dos cursos inadequados da Universidade, bem
como toda uma série de factos materiais, sociais e políticos de uma
experiência no quadro da universidade burguesa, que se tornam
insuportáveis para uma fracção cada vez maior de estudantes. É
interessante observar que certos teóricos e pedagogos burgueses, que
desejem compreender as razões da revolta estudantil, tiveram que
reintroduzir na sua análise do meio estudantil certas noções que há muito
tempo tinham eliminado da sua análise geral da sociedade.

Há poucos dias, quando me encontrava em Toronto, um dos principais


pedagogos canadianos deu um curso sobre as causas da revolta
estudantil. As suas razões, afirmou ele,

«são essencialmente materiais. Não porque as suas


condições de vida sejam insuficientes; não por serem
maltratados como eram os operários do século XIX.
Mas, socialmente, criámos uma espécie de
proletariado das universidades, que não tem nenhum
direito de participar na elaboração dos seus
programas, nenhum direito para, pelo menos,
co-determinar a sua própria existência durante os
quatro, cinco ou seis anos que passa pela
Universidade».

Embora não possa aceitar esta definição não marxista do proletariado,


penso mesmo assim que este pedagogo burguês revelou parcialmente
uma das raízes da revolta estudantil generalizada. A estrutura das
universidades burguesas não é mais que um reflexo da estrutura
hierárquica geral da sociedade burguesa. Ambas se tornam insuportáveis
para os estudantes, mesmo com o seu actual nível elementar de
consciência social. Isso levar-nos-ia mais longe do que a sondagem das
raízes psicológicas e morais mais profundas dessa tomada de consciência.
Mas em certos países da Europa Ocidental, e certamente também nos
Estados Unidos, a sociedade burguesa, tal como funcionou durante a
última geração, provocou nos derradeiros anos uma decomposição muito
avançada da família burguesa clássica. Enquanto jovens, os estudantes
contestatários foram educados através da experiência prática a pôr em
questão toda a autoridade, começando pela autoridade dos próprios pais.
Isso é extremamente notório num país como a Alemanha de hoje.

Se conheceis um pouco da vida quotidiana alemã ou se estudais os


seus reflexos na literatura alemã, sabeis que, até à Segunda Guerra
Mundial, a autoridade paternal neste país era a que menos se punha em
questão em todo o Mundo. A obediência dos filhos aos seus pais estava
profundamente enraizada no tecido da sociedade. Mas a actual juventude
alemã atravessou uma série de experiências amargas, antes de tudo como
filhos de uma geração de pais alemães que, em elevado número,
aceitaram o nazismo, depois adoptaram a guerra fria e, finalmente,
viveram com todo o conforto na crença de que o pretenso «capitalismo
popular» (designado por «economia social de mercado»), não seria
abalado por nenhuma recessão, por nenhuma crise nem problemas
sociais. As falências ideológicas e morais sucessivas dessas duas ou três
gerações de pais deram origem hoje, no seio da juventude, a um profundo
sentimento de desprezo pela autoridade dos seus pais e prepararam-nos
para não aceitar, sem repto ou sem sérias reservas qualquer forma de
autoridade quando chegam à Universidade.

Encontram-se então confrontados em primeiro lugar, com a autoridade


dos professores e das instituições universitárias que, pelo menos no
domínio das ciências sociais, estão incontestavelmente longe de toda a
realidade. As lições que recebem não permitem nenhuma análise científica
objectiva do que se passa no mundo ou nos diferentes países ocidentais.
Este desafio lançado à autoridade académica enquanto instituição torna-se
rapidamente num desafio ao conteúdo do ensino.

Além disso, na Europa, muito mais sem dúvida do que nos Estados
Unidos, possuímos condições materiais muito pouco satisfatórias nas
universidades. Elas encontram-se superpovoadas. Milhares de estudantes
são obrigados a ouvir os seus professores através de sistemas de escuta.
Não podem falar com o professor ou ter com ele quaisquer contactos,
trocas normais de opiniões ou diálogos. As condições de alojamento e de
alimentação são também más. Factores suplementares alimentam a
energia da revolta estudantil. No entanto, devo insistir no facto de que tua
principal razão da revolta persistiria mesmo se tais condições materiais
fossem melhoradas. A estrutura autoritária da Universidade e o conteúdo
inadequado do ensino recebido, pelo menos no domínio das ciências
sociais, são muito mais causas do descontentamento do que o são as
condições materiais.

Eis porque as tentativas de reformas universitárias que foram feitas


pelas alas liberais dos diferentes ​establishments ​da sociedade
neo-capitalista​(1) ocidental muito provavelmente fracassarão. Tais
reformas não atingirão os seus objectivos porque não atacam as
verdadeiras origens da revolta estudantil. Não só não tentam suprimir as
causas da alienação dos estudantes, mas, se forem aplicadas, antes as
acentuarão.

Qual é o objectivo da reforma universitária tal como é proposta pelos


reformadores liberais do mundo ocidental? É uma tentativa para arrumar
a organização da Universidade a fim de que esta satisfaça as necessidades
da economia e da sociedade neo-capitalista. Esses senhores dizem:

«Claro, não é nada bom ter um proletariado


académico»; não é nada bom ter muita gente que
deixe a Universidade sem poder encontrar emprego.
Isto é para muitos a razão da tensão e da explosão
social. Mas como resolver o problema? Fá-lo-emos
reorganizando a Universidade e distribuindo o número
de lugares acessíveis segundo as necessidades da
economia neo-capitalista. Num país que tem
necessidade de 100 mil engenheiros, asseguraremos
100 mil engenheiros em vez de dispormos de 50 mil
sociólogos ou 20 mil filósofos, que não podem
encontrar emprego compatível. Isto
desembaraçar-nos-à das principais causas da revolta
estudantil».

Eis uma tentativa para subordinar a função da Universidade, muito


mais que no passado, às necessidades imediatas da economia e da
sociedade neo-capitalista. Ela produzirá um grau ainda mais elevado de
alienação estudantil. Se tais reformas são aplicadas, os estudantes nunca
encontrarão uma estrutura e um ensino universitário que correspondam
aos seus desejos. Não poderão escolher uma carreira, um domínio do
saber, as disciplinas que gostam e correspondem às suas aspirações, às
necessidades da sua própria realização em função das suas próprias
personalidades. Serão obrigados a aceitar os cursos, disciplinas e
domínios do saber que correspondem aos interesses dos poderes da
sociedade capitalista e não às suas necessidades enquanto seres
humanos. Assim, um nível mais elevado de alienação será imposto
através de uma reforma da Universidade.

Não digo que se deva ser indiferente ao problema de qualquer reforma


universitária. É necessário formular certas reivindicações transitórias para
os problemas universitários, tal como os marxistas tentaram formular
reivindicações transitórias para outros movimentos sociais em qualquer
sector. Por exemplo, não vejo porque é que a reivindicação do «poder
estudantil» não poderia ser avançada no ​quadro da Universidade. T ​ al
reivindicação não se pode aplicar a toda a sociedade, pois significaria que
uma pequena minoria se arrogaria o direito de reinar sobre a imensa
maioria da sociedade. Mas, na Universidade, a reivindicação do «poder
estudantil», ou não importa qual a outra reivindicação no sentido da
auto-gestão pela massa dos estudantes, tem um valor evidente.

Sobre esta questão, serei contudo prudente, porque existem muitos


problemas que tornam uma universidade diferente de uma fábrica ou de
uma comunidade produtiva. É falso dizer-se, como fazem certos teóricos
do SDS norte-americano, que os estudantes são já trabalhadores. A
maioria dos estudantes são futuros produtores ou produtores em tempo
parcial. Podem, quando muito, ser comparados com os aprendizes de uma
fábrica, dado que a sua função é idêntica do ponto de vista do trabalho
intelectual à dos aprendizes do ponto de vista do trabalho manual. Mas
eles têm um papel social e um lugar transitório específico na sociedade.
Devemos, pois, ser prudentes quanto à maneira como se formulam
reivindicações transitórias a seu respeito.

No entanto, não é necessário levar aqui esta argumentação mais


longe. Aceitemos de momento a ideia de «poder estudantil» como uma
palavra de ordem transitória aceitável no quadro da universidade
burguesa. Mas é perfeitamente claro que a concretização de uma tal
reivindicação, que em si mesma não é impossível por um certo espaço de
tempo, aquando das grandes explosões de contestação universitária, não
alteraria as raízes da alienação dos estudantes porque elas não crescem
da Universidade em si, mas da sociedade no seu conjunto. E não pudeis
mudar um pequeno sector da sociedade burguesa - no caso presente o
sector da Universidade burguesa —, e pensar que os problemas sociais
podem ser resolvidos neste pequeno segmento enquanto o problema da
mudança global da sociedade não tiver sido resolvido. Enquanto existir o
capitalismo, o trabalho será alienado, o trabalho manual sê-lo-à, e
também inevitavelmente o trabalho intelectual. Os estudantes
permanecerão, pois, alienados, quaisquer que sejam as mudanças que a
acção directa possa produzir no quadro da Universidade.

Também neste caso não é uma observação teórica que nos cai do céu.
É uma lição da experiência prática. O movimento estudantil europeu, pelo
menos a sua ala revolucionária, atravessou muitas experiências em
praticamente todos os países da Europa Ocidental. Esquematicamente, o
movimento estudantil começou por enfrentar problemas respeitantes à
Universidade e muito depressa ultrapassou os limites da Universidade.
Desenvolveu-se colocando uma série de questões sociais e políticas gerais
que não estavam directamente ligadas ao que se passava na
Universidade. O que se passou em Columbia, em que a questão da
opressão da comunidade negra foi posta pelos «estudantes rebeldes»,
assemelha-se ao que ocorreu no movimento estudantil europeu, pelo
menos entre os elementos mais avançados que se mostravam muito
sensíveis aos problemas dos sectores mais explorados do sistema
capitalista mundial.

Empreenderam acções de solidariedade com as lutas revolucionárias


de emancipação dos povos dos países subdesenvolvidos; com Cuba,
Vietname e outras partes oprimidas do ​Terceiro Mundo​. A identificação
das fracções mais conscientes do movimento estudantil francês com a
revolução argelina, com a luta de emancipação dos argelinos contra o
imperialismo francês, representou um enorme papel. Foi este, sem
dúvida, o primeiro quadro em que uma verdadeira diferenciação política
teve lugar sobre a esquerda do movimento estudantil. Os próprios
estudantes representaram mais tarde o papel de vanguarda na luta pela
defesa da revolução vietnamita contra a guerra de agressão do
imperialismo americano.

Na Alemanha, esta simpatia pelos povos coloniais teve um ponto de


partida bastante excepcional. A grande revolta estudantil surgiu aquando
de uma acção de solidariedade com os trabalhadores, camponeses e
estudantes de um outro país do pretenso ​Terceiro Mundo​, o Irão, durante
a visita do xá do Irão a Berlim. A vanguarda estudantil não se identifica
simplesmente com as lutas específicas da Argélia, de Cuba, do Vietname:
ela mostra simpatia pela emancipação revolucionária do chamado ​Terceiro
Mundo em geral. O desenvolvimento partiu daí mesmo. Em França, na
Alemanha, em Itália — e o mesmo processo desenvolve-se neste
momento na Grã-Bretanha - não era possível iniciar uma acção
revolucionária de solidariedade com os povos do ​Terceiro Mundo sem uma
análise teórica da natureza do imperialismo, do colonialismo, das forças
motoras responsáveis, por um lado da exploração do ​Terceiro Mundo pelo
imperialismo e, por outro lado, do movimento de libertação das massas
revolucionárias desses países contra o imperialismo.

Através de um desvio pela análise do colonialismo e do imperialismo,


as forças mais conscientes e organizadas do movimento estudantil
europeu foram levadas ao ponto de partida do marxismo, isto é, à análise
da sociedade capitalista e do sistema capitalista internacional em que
vivemos. Se não compreendermos estes sistema, não poderemos
compreender as razões das guerras coloniais ou dos movimentos de
libertação coloniais. Não poderemos igualmente compreender porque nos
devemos solidarizar com essas forças a uma escala mundial.

No caso da Alemanha esse processo levou menos de seis meses para


se desenrolar. O movimento estudantil começou por colocar em questão a
estrutura autoritária da Universidade, prosseguiu pondo em causa o
imperialismo e a miséria no ​Terceiro Mundo​, e em seguida, ao
solidarizar-se com os movimentos de libertação, foi posto perante a
necessidade de reanalizar o neo-capitalismo a uma escala mundial no
próprio país em que os estudantes se mostravam activos. Tiveram de
regressar ao ponto de partida da análise marxista da sociedade em que
vivemos para compreender as suas razões objectivas mais profundas da
miséria social e da revolta social.

2. A unidade da teoria e da prática

No processo de conquista e de reconstituição da unidade da teoria e da


prática, tão depressa a teoria está em avanço sobre a acção como a acção
precede a teoria. No entanto, a cada momento, as necessidades de uma
luta obrigam os seus autores a restabelecer a unidade a um nível
constantemente mais elevado.
Para compreender esse processo dinâmico, devemos reconhecer que
opor a acção imediata ao estudo a longo prazo constitui um método falso.
Fiquei admirado, durante a «Socialists schoolars conference» e durante
diversas outras conferências, nos Estados Unidos, ao longo das duas
últimas semanas, pela forma sistemática como essa divisão foi defendida
num sentido ou no outro. Era como um diálogo de surdos em que uma
parte da audiência dizia: «Apenas é necessário empreender a acção, a
acção imediata, o resto é inútil», enquanto a outra parte afirmava: «Não!
Antes de agir é preciso saber o que fazer, portanto não actuem ainda.
Assentem-se, estudem, escrevam livros!» ​(Palmas)​ .

A resposta evidente adquirida na experiência histórica, não apenas do


período marxista, mas mesmo do período pré-marxista do movimento
revolucionário, é que não se pode fazer umas coisa sem a outra ​(Palmas).
A prática sem a teoria não será eficaz, nem emancipadora em
profundidade, porque, como já antes afirmei, não se pode emancipar a
humanidade inconscientemente. Por outro lado, a teoria sem a prática não
será autenticamente científica, porque não existe outro meio de pôr a
teoria à prova a não ser pela prática.

Qualquer forma de teoria que não seja posta à prova através da


prática não se revela uma teoria adequada, mostra-se insuficiente do
ponto de vista da emancipação da Humanidade ​(Palmas). E ​ através de um
esforço constante para conseguir as duas ao mesmo tempo,
simultaneamente, e sem divisão do trabalho, que a unidade da teoria e da
prática pode ser restabelecida a um nível progressivamente mais elevado
a fim de que todo o movimento revolucionário, quaisquer que sejam as
suas origens e objectivos socialmente progressistas, possa
verdadeiramente alcançar os seus fins. Neste mesmo sentido de uma
divisão do trabalho, uma outra ideia foi expressa que me espantou por ser
extremamente estranha num corpo de socialistas. Essa divisão
prevalecente entre a teoria e a prática, que em si já é má, recebe uma
nova dimensão no movimento socialista quando se afirma: uma categoria
é a dos activistas, as pessoas simples que fazem o trabalho ingrato. Uma
outra categoria é a da elite que deve pensar. Se essa elite se mistura com
os piquetes de greve, não terá tempo para pensar ou escrever livros e,
nesse caso, um elemento precioso da luta pela emancipação será perdido.

Devo dizer que qualquer noção que procurasse reintroduzir no seio do


movimento revolucionário a divisão elementar do trabalho entre trabalho
intelectual e trabalho manual, entre a ralé que faz o trabalho ingrato e a
elite que pensa, é profundamente não-socialista. Ela vai contra um dos
objectivos principais do movimento socialista que é precisamente o de
alcançar o desaparecimento da divisão entre trabalho manual e intelectual
(Palmas), ​não apenas no seio das organizações mas, mais importante
ainda, à escala de toda a sociedade. Os socialistas revolucionários de há
cinquenta ou cem anos não poderiam compreender tão claramente isso
como nós, hoje, quando as possibilidades objectlvas de atingir tal fim
existem. Entrámos já num processo objectivo de tecnologia e de educação
que trabalha nesse sentido.

Uma das principais lições que deve ser tirada da degenerescência da


Revolução Russa é que, se essa divisão entre trabalho manual e
intelectual é mantida não importa em que sociedade de transição entre o
capitalismo e o socialismo, enquanto instituição permanente, ela só pode
desenvolver a burocracia, novas desigualdades e novas formas de
opressão humana, que são incompatíveis com uma comunidade socialista
(Palmas). ​Por conseguinte, devemos começar por eliminar, nos limites do
possível, qualquer ideia de uma tal divisão de trabalho no próprio
movimento revolucionário. Devemos sustentar, regra geral, que não
existem bons teóricos se não forem capazes de participar na actividade
prática, e que não existem bons activistas se se mostrarem incapazes de
assimilar e desenvolver a teoria ​(Palmas).

O movimento estudantil europeu tentou chegar a isso num certo grau


e com alguns sucessos na Alemanha Federal, em França e em Itália.
Apareceu um tipo de dirigente estudantil que é um agitador e que pode
mesmo, se isso for necessário, construir uma barricada e aí combater,
mas que ao mesmo tempo é capaz de escrever um artigo teórico, e até
um livro, e de discutir com os sociólogos, professores de ciências políticas
e economistas mais em voga e derrotá-los no seu próprio terreno
(Palmas). ​Isto tornou-nos confiantes não só no futuro do movimento
estudantil, mas também para o tempo em que esses estudantes deixarão
de o ser para desempenharem outras funções na sociedade.

3. A necessidade de uma organização revolucionária

Gostaria de discutir aqui um ou outro aspecto da unidade da teoria e


da prática que esteve em debate nos movimentos estudantis europeus e
norte-americanos. Estou pessoalmente convencido de que sem uma
verdadeira organização revolucionária — e por isso entendo não uma
formação conjuntural, mas uma organização séria e permanente — uma
tal unidade da teoria e da prática não poderá ser adquirida de forma
duradoura.

Apresentarei para isso duas razões. Uma reside no próprio estatuto do


estudante. O estatuto do estudante, contrariamente ao do trabalhador é,
pela sua própria natureza, de curta duração. Ele permanece na
Universidade por quatro, cinco ou seis anos e ninguém pode vaticinar o
que lhe acontecerá após a ter abandonado. Aqui, gostaria de responder de
seguida a um dos argumentos mais demagógicos que foram utilizados
pelos dirigentes dos partidos comunistas europeus contra os «estudantes
rebeldes». Disseram eles com desprezo:

«Quem são estes estudantes? Hoje, eles revoltam-se.


Amanhã, serão os nossos patrões que ar nos hão-de
explorar. Não tomemos então a sério o que eles
fazem».

Este é um argumento ridículo, porque não toma em consideração a


subversão do papel dos diplomados da Universidade na sociedade actual.
Se se tivessem referenciado às estatísticas, teriam aprendido que apenas
uma pequena minoria dos estudantes formados hoje em dia se tornam
patrões ou agentes directos dos patrões, como gestores das fileiras
superiores. Era talvez o que acontecia, sim, quando não havia mais de 10,
15 ou 20 mil diplomados por ano. Mas quando existe um milhão, ou
quatro ou cinco milhões de estudantes, é impossível à maioria dentre eles
tornarem-se capitalistas ou gestores de empresas, porque não existem
assim tantos lugares disponíveis desse tipo.

O grão de verdade existente nesse argumento demagógico é que,


abandonando o ambiente académico, o estudante diplomado pode ver
modificar-se o seu nível de consciência social e de actividade política.
Quando abandona a Universidade, esta atmosfera não o volta a envolver,
e ele está mais vulnerável às pressões da ideologia e dos interesses
burgueses ou pequeno-burgueses. Existe um grande perigo de ele se
integrar no seu novo meio social, qualquer que este seja. Resultará daí
um processo de retorno às posições de intelectual reformista ou liberal de
esquerda, que já não arrastam consigo actividades revolucionárias.

É instrutivo estudar deste ponto de vista a história do SDS alemão, de


momento o mais velho dos movimentos revolucionários estudantis na
Europa. Desde que foi expulsa da social-democracia alemã, há nove anos
atrás, toda uma geração de militantes SDS deixou a Universidade.
Decorridos vários anos, na ausência de uma organização revolucionária, a
esmagadora maioria desses militantes, qualquer que tenha sido o seu
desejo individual de serem socialistas convictos e devotados, deixaram de
ser politicamente activos de um ponto de vista revolucionário. Assim, para
preservar no tempo a continuidade da actividade revolucionária, é preciso
uma organização mais ampla que uma organização revolucionária
puramente estudantil, uma organização na qual estudantes e
não-estudantes possam trabalhar em conjunto.

Existem ainda uma razão mais importante pela qual uma tal
organização-partido é necessária. Porque sem ela, nenhuma unidade de
acção permanente com a classe operária industrial, no sentido mais amplo
do termo, pode ser adquirida. Enquanto marxista, continua convencido de
que, sem a acção da classe operária, e impossível derrubar a sociedade
burguesa e construir uma sociedade socialista ​(Palmas).

Ainda aqui, de uma forma notável, nós vemos como a experiência dos
movimentos estudantis, primeiro na Alemanha, e depois em França e em
Itália, chegaram na prática a esta conclusão teórica. Os mesmos tipos de
discussões que têm agora lugar nos Estados Unidos sobre a importância
ou não da classe operária industrial para a acção revolucionária foram
travadas há um ano, ou mesmo há seis meses, em países como a
Alemanha e a Itália.

O problema foi resolvido na prática, não apenas no decorrer dos


acontecimentos revolucionários de Maio-Junho de 1968 em França, mas
também pela acção comum dos estudantes de Turim com os
trabalhadores da FIAT na Itália. Foi também clarificado pelas tentativas
conscientes do SDS alemão para arrastar fracções da classe operária pela
sua agitação fora da Universidade contra a sociedade de edições Springer
e na sua campanha de prevenção contra a aplicação das leis de
emergência para reduzir as liberdades democráticas.

Tais experiências ensinaram ao movimento estudantil da Europa


Ocidental que é absolutamente indispensável que encontre um ponto de
ligação com a classe operária industrial. Esta questão tem diferentes
aspectos em diferentes níveis. Tem um aspecto programático que não
poderei agora abordar. Coloca-se a questão: como é que os estudantes
podem aproximar-se da classe operária industrial, não como querendo
dar-lhe lições, porque nesse caso os trabalhadores mandá-los-iam sempre
passear, mesmo que tenham uma zona de interesse de objectivos sociais
comuns.

É uma questão que acima de tudo respeita ao problema da


organização do partido. De contrário, toda uma série de experiências
autodestruidoras para chegar a uma tal colaboração a um elementar nível
de acção imediata entre um reduzido número de estudantes e um
reduzido número de trabalhadores desfiar-se-á ao fim de três a seis
meses, sem ter conduzido a nada. Mesmo se se recomeça a partir do
zero, logo que o balanço for feito ao fim na de um, dois ou três anos,
pouco restará dessa ligação.

A função de uma organização revolucionária permanente é a de


facilitar uma integração recíproca das lutas estudantis e das da classe
operária pelas suas vanguardas de uma forma contínua. Não existe
apenas continuidade no tempo, mas também, por assim dizer,
continuidade no espaço, interacção entre diferentes grupos sociais que
têm a mesma razão de ser socialistas revolucionários.
Devemos interrogar-nos se uma tal interacção é objectivamente
possível. É mais fácil responder que sim depois das experiências da
França, Itália e outros países da Europa Ocidental e de defender essa linha
para a Europa Ocidental do que para os Estados Unidos. Por razões
históricas que não posso agora abordar, existe uma situação particular
nos Estados Unidos em que a maioria da classe operária branca não está
ainda receptiva às ideias socialistas de acção revolucionária. É um facto
incontestável. Evidentemente, isto pode alterar-se rapidamente. Alguns
diziam que se passava a mesma coisa em relação a França algumas
semanas apenas antes do 1º de Maio de 1968. No entanto, mesmo nos
Estados Unidos, existe uma importante minoria da classe operária
industrial, os trabalhadores negros, a propósito dos quais ninguém pode
dizer, após a experiência destes últimos dois anos, que são inacessíveis às
ideias socialistas ou incapazes de empreender a acção revolucionária.
Aqui, pelo menos, existe uma possibilidade imediata de unidade entre a
teoria e a prática com uma parte da classe operária.

Além disso, é essencial analisar as tendências sociais e económicas


que, a longo prazo, sacudirão a apatia e o conservantismo políticos
predominantes da classe operária branca. O exemplo da Alemanha, em
circunstâncias similares, mostra que isso pode acontecer. Há alguns anos,
a classe operária alemã surgia tão mergulhada na mesma estabilidade, no
mesmo conservadorismo, tão inquebrantavelmente integrada na
sociedade capitalista como a classe operária norte-americana aparece
hoje para muitas pessoas. Mas isto já começou a mudar. Este caso ilustra
como uma ínfima mudança na relação de forças, uma pequena lr
deficiência da economia, um ataque dos patrões sobre a estrutura e os
direitos sindicais tradicionais, podem criar tensões sociais que podem
modificar muita coisa neste domínio.

De qualquer modo, não é minha tarefa informar dos problemas da


vossa própria luta de classes como não é vossa tarefa a de irem prégar
aos operários. Prefiro indicar um dos principais canais através do qual a
consciência socialista e a actividade revolucionária pode transmitir-se
entre estudantes e trabalhadores, como o demonstraram não só a Europa
Ocidental mas também o Japão. Esta correia de transmissão específica é a
juventude operária. Consequência das mudanças tecnológicas dos últimos
anos sobre a estrutura da classe operária, o sistema educativo burguês
revela-se inadequado para preparar os jovens trabalhadores, ou uma
parte dos jovens operários, para desempenhar o novo papel exigido por
essa mudança tecnológica, quando se trata de uma necessidade dos
próprios capitalistas. Os Estados Unidos constituem um exemplo
extremamente flagrante disso mesmo, com a falência total do ensino para
os jovens trabalhadores negros que têm uma taxa de desemprego tão
elevada to como a média da população norte-americana global durante a
grande depressão. Este facto explica em grande parte o que se passa no
seio da juventude negra neste país.

E isso é apenas uma das manifestações de uma tendência mais geral


que nos impõe uma atenção para tudo o que se passa no seio da
juventude. Não existe outro sinal mais evidente da decrepitude e da
decomposição de um sistema social do que o facto de ele ter de condenar
e rejeitar totalmente a sua juventude. O poder francês, durante os
acontecimentos de Maio, não se de recusou apenas a fazer distinções
entre jovens estudantes, jovens empregados e jovens operários, mas
considerou a juventude em si mesma como uma inimiga.

Um exemplo concreto é o incidente de Flins, durante a greve geral.


Depois de um jovem estudante liceal ter sido abatido pela polícia, houve
um tumulto tempestuoso. Então, sistematicamente, a polícia
dissimulou-se na multidão e apartou os manifestantes, consultando os
cartões de identidade. Todo aquele que tivesse menos de trinta anos era
preso, porque considerado potencialmente insurreccional, disposto a lutar
contra a polícia ​(palmas).

Se examinarem de perto a literatura contemporánea, a indústria


cinematográfica e outras formas de reflexos da realidade social na
superestrutura cultural no decurso dos últimos cinco ou dez anos,
verificareis que, sob a desonestíssima cobertura de denúncia da
delinquência juvenil, a burguesia traçou realmente um quadro desse tipo
de juventude que o seu sistema produz bem como o espírito rebelde
dessa juventude. Isto não se limita de modo nenhum aos estudantes ou
às minorias como a juventude negra dos Estados Unidos. Isso aplica-se
também aos jovens operários.

É imperioso estudar tudo o que se passa com os jovens trabalhadores


em luta. Ganhar esses jovens operários para a consciência socialista, para
as ideias da revolução socialista, será provavelmente decisivo para o
destino da maioria dos países ocidentais nos dez ou quinze próximos anos.
Se conseguirmos fazer dos melhores desse jovens, revolucionários sociais,
como creio que foi feito em larga medida na Europa Ocidental, podemos
ter confiança no futuro do nosso movimento. Se falharmos esse propósito,
e uma grande parte dessa juventude deslizar para a extrema direita,
teremos perdido uma luta decisiva e encontrar-nos-emos na mesma grave
situação a que o movimento socialista e revolucionário europeu teve de
fazer face nos anos trinta.

A unidade da teoria e da prática significa também que toda uma série


de ideias-chave do velho movimento socialista e da tradição revolucionária
estão em vias de ser hoje redescobertas. Eu sei que uma parte do
movimento estudantil nos Estados Unidos gostaria de criar qualquer coisa
inteiramente nova. Aprovo sinceramente qualquer proposta e intenção de
fazer as coisas melhor, porque o balanço do que as gerações anteriores
conseguiram fazer do ponto de vista da construção de uma sociedade
socialista não é muito convincente. Mas aqui, sim, é imperioso fazer uma
advertência. Em noventa e nove por cento das vezes, quando pensais que
estais a criar ou a descobrir qualquer coisa de novo, o que estais na
realidade a fazer é a voltar a um passado que está ainda mais distante do
que o passado do marxismo.

Quase todas as "novas ideias" que foram avançadas no movimento


estudantil na Europa no decorrer dos últimos dois ou três anos, e que
começam a ser correntes nos Estados Unidos, são muito, muito velhas. E
isto por uma razão muito simples, que está enraizada na história das
ideias. As diversas possibilidades de evolução social e as principais
tendências de crítica social que Ihes correspondem foram desenvolvidas
nas suas grandes linhas pelos grandes pensadores dos séculos XVIII e
XIX. Quer isto vos agrade ou não, a verdade é que continua a ser válido
tanto para as ciências sociais como para as ciências naturais, em que uma
série de leis elementares foram estabelecidas no passado. Se pretendeis
desenvolver tendências novas, deveis baseá-las nos alicerces que foram
fundados pelos melhores pensadores e lutadores das gerações
precedentes. Esta procura desesperada de qualquer coisa inteiramente
nova não é mais do que um aspecto episódico da fase inicial da
radicalização estudantil. Desde que o movimento se alarga e mobiliza
largas massas, então, paradoxalmente, dá-se o inverso, como os
sociólogos franceses sublinharam com grande espanto a propósito dos
acontecimentos de Maio. Nessa altura, as largas massas estudantis
revolucionárias fizeram tudo para redescobrir a sua tradição e as suas
raízes históricas. Os estudantes devem ter consciência de que são mais
fortes se puderem dizer: nós lutamos no prolongamento de um combate
pela liberdade que começou há cento e cinquenta anos, ou mesmo há dois
mil anos, quando os primeiros escravos se sublevaram. Isso é muito mais
convincente do que dizer: nós fazemos qualquer coisa inteiramente nova,
que está separada da história e isolada de todo o passado, como se esse
passado nada tivesse a ensinar-nos nem a dar-nos ​(palmas).

Esta procura conduzirá os «estudantes rebeldes» aos conceitos


históricos fundamentais do socialismo e do marxismo. Temos visto como
os movimentos estudantis francês, alemão, italiano e agora britânico
chegaram às ideias de revolução socialista e de democracia operária. Para
qualquer pessoa da minha escola de pensamento, foi uma enorme alegria
ver com que elevado rigor o movimento revolucionário francês protegia o
direito de cada tendência à liberdade de expressão, retomando as
melhores tradições do socialismo. A vossa própria assembleia retoma a
velha tradição socialista e marxista de internacionalismo quando dizeis
que a revolta estudantil é mundial e que o movimento estudantil é
internacional.

E é um internacionalismo do mesmo tipo, com as mesmas raízes e


com os mesmos objectivos que o internacionalismo do soc ​ ialismo, como o
da classe operária! Os problemas internacionais imperativos a que
estudantes fazem frente são problemas de solidariedade com os nossos
camaradas no México, na Argentina, no Brasil, que estão à cabeça de
lutas extraordinárias, conduzindo a revolução latino-americana para um
estádio novo e mais elevado, após as derrotas que lhe foram impostas por
uma má direccão, pela reaccão interna e pela repressão imperialista no
decurso dos últimos anos. Acima de tudo devemos saudar a coragem e a
audácia dos estudantes mexicanos ​(palmas). E ​ m poucos dias, mudaram
fundamentalmente a situação política do seu país e arrancaram a máscara
de falsa democracia que o governo mexicano tinha colocado para receber
alguns milhões de visitantes durante os Jogos Olímpicos. Agora, qualquer
pessoa que assista a esses jogos saberá que entra num país em que os
dirigentes sindicais dos caminhos de ferro foram mantidos na prisão
durante longos anos após terem cumprido a sua pena, onde inúmeros
presos políticos de esquerda foram encarcerados durante anos sem
processo, onde dirigentes estudantis e um milhar de militantes estudantes
se encontram na prisão sem qualquer fundamento jurídico. Os seus
protestos heróicos terão enormes consequências sobre o futuro da política
mexicana e da luta de classes no México ​(palmas).

É preciso dizer também algumas palavras acerca dos estudantes


perseguidos nos países semicoloniais, de que nunca ninguém fala, tais
como os dirigentes estudantis congolenses que estão na prisão desde há
um ano por terem organizado uma pequena manifestação contra a guerra
do Vietnam quando o vice-presidente Humphrey esteve entre eles. Não
devemos esquecer os dirigentes dos estudantes tunisinos que foram
condenados a doze anos de cadeia pelas mesmas razões. Apenas por
terem conduzido uma manifestação: doze anos de prisão! Devemos
alertar a opinião pública para que tais crimes de repressão não sejam
esquecidos.

Devemos também pensar nos nossos camaradas da Iugoslávia e da


Checoslováquia ​(palmas) ​que travaram este ano grandes lutas. Eles
mostraram que a sua luta para introduzir e consolidar a democracia
socialista nos países da Europa de Leste é uma luta paralela à nossa
contra o capitalismo e o imperialismo no Ocidente. Não consentiremos que
quer a reacção estalinista quer a reacção imperialista deformem a
natureza dessa luta como pró-imperialista ou pró-burguesa, o que ela não
é de forma nenhuma ​(palmas).
Finalmente, não devemos esquecer, como alguns poderiam fazê-lo,
porque isso não figura na «primeira página» dos jornais, a luta contra a
intervenção dos Estados Unidos no Vietnam, que continua a ser a luta
principal no mundo de hoje. Não é por estarem abertas as negociações em
Paris que deixámos de ter alguma coisa que fazer para ajudar a luta dos
nossos camaradas vietnamitas. Assim, pois, apelo-vos para que
participem na acção mundial que foi empreendida pelo movimento
estudantil japonês, o Zengakuren, pela Federação Britânica dos
Estudantes Revolucionários com a campanha de «Solidariedade pelo
Vietnam», nesses países, e o Comité de Mobilização Estudantil, aqui. É a
semana de solidariedade com a revolução vietnamita de 21 a 27 de
Outubro. Nessa semana, centenas de milhares de estudantes, jovens
trabalhadores e jovens revolucionários, descerão a rua ao mesmo tempo
numa acção mundial comum pelo objectivo concreto que os próprios
camaradas vietnamitas nos dizem ser o mais importante para eles!
Mostrar ao mundo inteiro que nos Estados Unidos centenas de milhares de
pessoas são a favor da retirada imediata das tropas americanas do
Vietnam. Eis o que será uma grande conquista! (Palmas).
Maio de 68 - Uma Página na História Mundial de Lutas

Daniel Bensaïd - 2 de Junho de 2008

Em 15 de março de 1968, Pierre Viansson-Ponté escrevia no L ​ e Monde


um artigo polêmico, intitulado « Quando a França se entedia… ». O mundo
virava de ponta-cabeça – no Vietnã, na Alemanha, nos guetos
norte-americanos, no México e em Praga – e aparentemente nada
acontecia na França. Esse marasmo político e intelectual, no entanto,
começou dali a uma semana a ser abalado. Em 22 de março começavam a
rolar as primeiras peças de uma grande partida entre os estudantes, os
operários e o poder. De maio a junho, a França, sob o afã inicial da
juventude, vai arder de imaginação e resistência política, nos palcos da
Sorbonne, das fábricas e das ruas do quartier Latin em Paris. Maio de 68
é, assim, na verdade, uma página de uma história mundial de contestação
à guerra, à sociedade de consumo e ao autoritarismo. Um velho mundo
ruía. Quem conta aos leitores de Em Pauta um pouco dessa história,
regada a preciosas fontes literárias e cinematográficas, foi também líder
estudantil e personagem da « noite das barricadas ». Nada mais nada
menos que o filósofo e professor de Paris 8, Daniel Bensaid, também um
dos porta-vozes da Liga Comunista Revolucionária (LCR).

EM Pauta : ​Maio 68 começou, de fato, no mês de março na


Universidade de Nanterre. Prof. Bensaid, você, junto com outros
estudantes, desafiaram ali as autoridades universitárias. Ao que vocês
disseram « não » ?

Daniel Bensaïd : Dissemos « não », na realidade a muitas coisas. A


cronologia, porém, da deflagração de um acontecimento como Maio de 68
constitui uma questão um tanto quanto enigmática. Pode-se falar no 22
de março, mas, de certa maneira, o processo começou antes, durante
todo o ano que precedeu o início do movimento, a explosão de 22 de
março, o 10 de maio, as ​barricadas​, o 17 de maio, a greve geral, etc.
Vê-se, ao longo de 1967, o surgimento de diferentes elementos que vão
se reunir em 68.

Primeiramente, dissemos « não » à ​guerra colonial e à guerra


imperialista​. O movimento de solidariedade e contra a guerra do Vietnã foi
desencadeado, na França, por exemplo, após a guerra da Argélia.
Trata-se, portanto, de uma geração que começou a se formar no
movimento contra a guerra da Argélia [​A guerra pela independência da
Argélia envolveu um período de lutas entre 1954 e 1962, levadas a cabo
pela FLN/Frente Nacional de Libertação, contra a colonização francesa do
país, desde 1830​]. Assim, durante todo o princípio dos anos 60, lutou-se
contra a guerra do Vietnã. No Campus de Nanterre, havia algumas
dezenas ou uma pequena centena de estudantes bastante ativos,
principalmente o pequeno grupo anarquista em torno de Cohn-Bendit e
nós, que estávamos na Juventude Comunista Revolucionária (JCR), depois
de termos sido expulsos do Partido Comunista em 1966.

No começo de fevereiro de 68, fomos todos à manifestação


internacional de Berlim a favor do Vietnã. Hoje tornaram-se quase banais
as manifestações européias. Há fóruns sociais, entre outros. Na época, foi
um evento ​duplamente simbólico : por ser uma manifestação européia –
visto que não havia muitas – sobre o Vietnã e em Berlim, que era a cidade
entre a Europa Oriental e Europa Ocidental. Berlim era a vitrine do
Ocidente em relação à Europa do Leste. Havia ali, então, toda uma
concentração de símbolos nesta manifestação em Berlim, de onde
voltamos bastante entusiasmados e dinâmicos. Isto certamente
preparou-nos moralmente e teve, sem nenhuma dúvida, um papel na
preparação subjetiva da explosão que se produziu em março.

Em segundo lugar, a razão mais imediata foi um protesto contra o que


se tornou a universidade, o que se passou um pouco por toda parte nos
anos sessenta, quer dizer, a passagem de uma universidade de elite, de
reprodução das elites dominantes, para uma universidade de massa, com
uma massificação notadamente dos estudos em Ciências Sociais :
Sociologia, Psicologia, etc. Há um romance muito famoso na França – não
sei se ele era conhecido, no Brasil, nessa época –, que se chama ​As
Coisas,​ de Georges Perec (1936-1982) [​Ainda sem tradução no Brasil, Les
Choses. Une histoire des années soixante, ​foi publicado originalmente
pelas edições Julliard.​ ]. O romance apareceu três anos antes, em 1965.
Os personagens são justamente estudantes de Sociologia que começam a
fazer marketing, pesquisa de opinião sobre o consumo. Eles mesmos
acham-se fascinados pelos objetos e mercadorias. Havia, então, uma
crítica muito forte e ativa durante todo o ano de 67 e também de 68
contra as reformas universitárias, e em particular nas universidades de
Filosofia e Ciências Humanas, havia a recusa de se tornarem «
engenheiros » ou cães de guarda da sociedade de consumo. ​Les Chiens de
garde era o título de um ensaio de Paul Nizan – colega de estudos de
Jean-Paul Sartre, mas muito mais engajado que Sartre na época –, o qual
havia feito nos anos 30 este livro que é um panfleto bastante duro contra
os « mandarins » da hierarquia universitária. Havia, portanto, em 68, toda
uma crítica da universidade. Dava-se, nesse sentido, ênfase também na
questão da sexualidade e na composição mista da universidade, como
parte da crítica de transformação da universidade.

Nanterre foi um dos primeiros campus fora da cidade, ali onde antes
era praticamente um terreno vazio. Levava-se muito tempo para chegar à
Nanterre. Havia aí um outro simbolismo também : a universidade foi
construída no meio de favelas de trabalhadores argelinos, de onde
partiram as manifestações contra a guerra da Argélia e em apoio à
independência do seu país, as quais tiveram cem mortos em Paris em
1961. Este tipo de campus hoje se generalizou, mas, naquela época, foi
um dos primeiros a ter estas características de um pólo universitário fora
da cidade, onde os estudantes não iam somente para estudar. Era um
lugar de vida. Passávamos ali o dia inteiro. Todas as reivindicações
relativas à questão universitária, aos problemas de formação, e ainda
sobre a vida cotidiana e a sexualidade encontravam-se lá.

E por fim, como último elemento que participou da explosão de 68,


houve uma multiplicação de greves operárias durante todo o ano de 67 –
e isto era novo na França, após um longo período em que o movimento
operário tinha estado bem pouco ativo –, notadamente nas indústrias
automobilísticas e não nos centros industriais habituais, mas em Caen,
numa pequena cidade que se chama Redon, em Besançon ou Le Mans,
cidades do interior. Havia lá novas implantações industriais, no ramo da
indústria automobilística em particular, com uma classe operária jovem
que vinha do campo ali próximo, a qual travou lutas bastante duras, com
quase insurreições e revoltas operárias no outono de 67. Assim, sempre
houve na universidade de Nanterre uma atividade de solidariedade, como
recolher dinheiro, por exemplo, para todas essas lutas operárias. Pode-se
dizer, então, que o acontecimento começa em março de 68, mas como
resultado de todo um ano de fermentação.

EM Pauta : ​As pedras atiradas pelos estudantes durante a « noite das


barricadas », em 10 de maio, na Sorbonne, visavam, além da polícia, um
velho mundo e uma velha política, representados à direita pelo presidente
De Gaulle e à esquerda pelos métodos stalinistas. Isto significava « ser
realista » e « exigir o impossível » ? Qual é a herança deste sonho ?

Daniel Bensaïd : Esta história de barricadas foi, antes de tudo, uma


manifestação defensiva. Parece bastante ofensivo, quando, na realidade, o
que estava posto era dar a volta ou não em torno da Sorbonne que tinha
sido fechada, ou seja, defender a liberdade universitária. Hoje tornou-se
infelizmente banal, quando há uma luta estudantil, que o presidente da
universidade [​Na França, não há “reitores”, há presidentes das
universidades]​ chame a polícia – vimos isto no último outono, na ocasião
das lutas da juventude sobre o Contrato Primeiro Emprego (CPE) em
2006. Naquela época, havia o que se chama « ​franchise » – um termo
francês da Idade Média, que significa independência e imunidade especial,
acordada publicamente. A autonomia universitária era considerada um
bem e território sagrado, ou seja, a polícia não podia entrar na
universidade. Desse modo, como a Sorbonne estava ocupada pela polícia
e a Universidade de Nanterre estava fechada, as barricadas foram, antes
de tudo, um grande protesto democrático contra a repressão e pela
reconquista do território universitário. Foi algo improvisado, espontâneo e
não produto de uma estratégia militar. Mas pode-se interpretar
simbolicamente. Parece estranho, mas ninguém poderia dizer quem teve a
idéia de arrancar o primeiro paralelepípedo e de construir a primeira
barricada. São ​barricadas simbólicas​. Eram, em geral, muito bonitas.
Certamente, no inconsciente coletivo, há toda uma história de Paris e das
barricadas : 1848, a Comuna, etc. Há, assim, seguramente uma memória
coletiva que promoveu o gesto das barricadas. Para dar uma idéia de até
que ponto as barricadas eram mais simbólicas que militares – mesmo se
combatemos, de fato –, vale dizer que uma das mais belas foi construída
diante de uma rua sem saída, o que chega a ser, no limite, quase irônico e
engraçado. Tudo isto evidentemente foi contra a direita. Havia, é verdade,
uma revolta contra o regime gaullista, o conservadorismo, a velha França
e o lado repressivo.

Contra a esquerda, depende de quem. Os anarquistas e nós, que, na


época, tínhamos saído do Partido Comunista, já havíamos nos apropriado
de uma crítica do stalinismo. Havia grandes discussões. Tínhamos lido o
livro de Pierre Broué [​1926-2005]​ sobre a história do Partido bolchevique
[​Le Parti Bolchevique – Histoire du PC de l’URSS, publicado pelas edições
Minuit, em 1963, onde ele denuncia os erros e crimes do stalinismo​], mas
essa posição era ainda bastante minoritária. Diria que havia uma crítica da
esquerda do governo, principalmente do Partido Comunista. É preciso
dizer, talvez, a um leitor brasileiro, que a ​esquerda hegemônica na França
era sobretudo o Partido Comunista. O Partido Socialista, em parte
responsável pelo governo da guerra da Argélia, tinha saído bastante
desacreditado e frágil da guerra da Argélia. O grande partido de esquerda
era o Partido Comunista que perfazia em torno de 25 % dos votos nas
eleições e controlava de longe totalmente o principal sindicato, a CGT
(Confederação Geral do Trabalho). A esquerda e o movimento operário
eram, então, principalmente o Partido Comunista.

A crítica do Partido Comunista, no início, existia entre os estudantes,


mas a crítica do stalinismo era minoritária : consistia apenas no pequeno
grupo anarquista e na JCR (Juventude Comunista Revolucionária).
Tínhamos sido expulsos do PC em 1965, de certa maneira, felizmente, por
duas razões : de um lado, criticávamos o PC ( havia aderido a ele, em
1962, por causa da guerra da Argélia), porque ele tinha sido muito pouco
atuante contra a guerra da Argélia, pouco solidário com os argelinos e
ainda menos atuante contra a guerra do Vietnã ; em segundo lugar,
havíamos criticado o PC, porque ele tinha apoiado a candidatura de
François Mitterrand para as eleições presidenciais de 1965, ao invés de
lançar um candidato próprio ; e em terceiro, talvez menos importante
diretamente, criticávamos o PC pelos seus traços conservadores, pois, se
havia um conservadorismo de direita, uma tradição paternalista e
patriarcal, que gerou o gaullismo, existia também isto à esquerda no PC.
As organizações de juventude do PC, por exemplo, não eram mistas.
Lutávamos por turmas mistas no campus e na cidade universitária em
Nanterre, enquanto nas Juventudes Comunistas (eu estudava num Liceu
misto em 1962, quando aderi à JC. Foi necessário, então, brigar, porque
havia um ​núcleo de moças da França e um outro para os rapazes)
prevalecia uma espécie de moral familiar conservadora.

Tínhamos esta crítica no começo do movimento, porém para a grande


maioria dos estudantes, que entraram na luta por indignação, contra a
repressão e a violência policial durante a noite das barricadas, dava-se
justamente o contrário. O sentimento dominante era a ​mitologia da classe
operária,​ circulando um certo tipo de rumor a noite inteira : todo mundo
dizia que caminhões da periferia, dos bairros operários, viriam em socorro
dos estudantes. Claro que isto jamais aconteceu. O PC, que teria meios
para isso, nunca pensou em fazê-lo. Pelo menos, aconteceu ali uma
espécie de aprendizado e de revelação para setores importantes do
movimento estudantil e pequenos setores do movimento operário, os
quais descobriram que o PC e os sindicatos frearam o movimento, para
que fosse apenas algo reivindicativo, tendo aceitado parar a greve e
participar das eleições, segundo a proposição de De Gaulle de 30 de maio.
Descobriram, então, que o PC não era um partido que queria realmente
mudar a sociedade, embora dispusesse dos meios. Deu-se, assim, o início
do declínio do PC na França. Não se pode esquecer, contudo, que um ano
mais tarde, em 1969, na eleição presidencial, o candidato do Partido
Comunista ainda teve 21 % dos votos. Enquanto em 1936 ou em 1945,
nas grandes lutas anteriores, o PC tinha conseguido recrutar os
segmentos mais combativos do movimento operário, em 1968 ele ganhou
novos membros, mas começou a perder sua hegemonia e seu monopólio
sobre o movimento operário e também sindical, porque novas correntes
de esquerda apareceram no segundo mais importante sindicato, a CFDT
(Confederação Francesa Democrática do Trabalho). Pouco a pouco, ele
perdeu sobretudo sua autoridade e legitimidade junto a uma parte
importante da juventude.

EM Pauta : ​Como os operários e os estudantes deram-se as mãos em


Maio de 68 ? Qual foi a importância do movimento estudantil nesse
processo ? Foi uma aliança inédita ? O que ela trouxe de novo para as
gerações seguintes nesses dois fronts ?

Daniel Bensaïd : De um lado, o que é novo é consequência da


transformação mesma de universidade. Em apenas alguns anos, de 1957
a 1968, ou seja, em dez anos, o número de estudantes foi multiplicado
por cinco. Isto significou evidentemente uma democratização, embora
ainda bastante limitada dos estudos de nível superior, na medida que uma
pequena parte de estudantes das camadas populares vinha pelo sistema
de bolsa. Era residual, mas mesmo assim um começo. Uma grande
quantidade de estudantes começava a compreender que ser estudante e
fazer estudos de nível superior na universidade não queria dizer que se ia
fazer parte da elite dirigente da Nação, mas, talvez, de um novo
proletariado intelectual. Este foi um dos grandes temas de discussões na
época por toda a Europa e alhures. Havia começado, em 1967,
movimentos de universidade crítica na Itália, na Universidade de Trente,
em Berlim, etc., que se inspiravam no trabalho de sociólogos como Henri
Lefebvre ou filósofos como Herbert Marcuse. Tais estudantes, que viam
que a sua formação universitária ia desembocar num trabalho intelectual
proletarizado ou relativamente proletarizado, se sentiam naturalmente
aliados da classe operária, o que não era forçosamente o caso do
movimento estudantil, onde havia um forte movimento de direita, mesmo
durante a guerra da Argélia.

Houve, assim, três fases do movimento de Maio : a primeira fase, de


22 março a 13 maio, em que está em cena sobretudo o movimento
estudantil ; a partir de 13 e 17 maio até junho, é a greve geral. O
movimento estudantil continuava a desempenhar um papel importante,
mais secundário frente à greve geral. Houve quatro dias, em que o centro
do processo passou a ser a greve geral, mas, pouco a pouco, ganhou
destaque também a crise política, entre 27 e 30 de maio, quando De
Gaulle desapareceu, momento em que a crise atingiu o pico máximo. A
greve vai durar ainda até 10 ou 20 de junho, conforme as empresas.

No começo do movimento, justamente na fase de 22 de março a 13 de


maio, o movimento estudantil cultivava massivamente uma ​mitologia da
classe operária. Se um operário chegava na universidade, pedia a palavra
num anfiteatro e dizia : « Sou operário », a aclamação era geral. O
encontro entre o movimento estudantil e o movimento operário foi,
porém, um tanto quanto decepcionante. Relato aqui uma experiência
vivida : a partir do momento que soubemos, em 17 de maio, que a greve
começara na Renault-Billencourt – então, a principal usina automobilística
da Renault, uma usina mítica, localizada em Billancourt e a 8 km da
Sorbonne, a qual foi palco das principais lutas operárias em 1936 e 1947
–, saímos em manifestação da Sorbonne até Renault-Billancourt, numa
caminhada bastante longa, com a idéia de nos confraternizarmos com os
operários, estudantes e operários juntos. Já imaginávamos o encontro, os
abraços. Ao chegarmos, deparamos, porém, com operários no alto dos
muros, desconfiados, e de portas fechadas. Não foi, contudo, algo
espontâneo. Havia ali um verdadeiro muro de desconfiança, por vezes de
hostilidade, instigado sobretudo pelo Partido Comunista e pela CGT, na
época a principal força política do movimento operário. O PC alimentou,
portanto, um discurso e um sentimento de desconfiança contra os
estudantes pequeno-burgueses, sob a alegação do risco de provocação
policial, de manipulação, munido, enfim, de toda uma visão policial do
complô. De um lado, a direita e a burguesia falavam de um complô
internacional, que envolvia os anarquistas, os esquerdistas e até mesmo a
União soviética, de acordo com uma espécie de ​mitologia do complô.​ O
PC, por sua vez, falava também de um complô esquerdista, manipulado
pelo poder. Logo, o encontro entre os estudantes e os operários em 68
existiu, de fato, mas na realidade foi bastante limitado e marginal.
Operários vieram nas universidades ocupadas, estudantes foram
sistematicamente diante das fábricas na tentativa de conversar, mas, na
maioria dos casos, o muro não caiu. Esta situação da França é bem
diferente da que vai se esboçar nos anos seguintes na Itália ou na
Espanha. Na Itália, o encontro do movimento estudantil com o movimento
operário na Fiat de Turim, etc., por exemplo, foi muito mais aberto que na
França. O Partido Comunista controlava menos e havia correntes católicas
importantes. Na Espanha, também, sob a ditadura, a solidariedade entre
os estudantes e os operários foi mais imediata. Já na França havia um
verdadeiro muro de desconfiança e uma incompreensão forte.

No que se refere ao aniversário de Maio de 68, um balanço pode ser


feito hoje : primeiramente, a transformação do movimento estudantil,
iniciado em 68, prosseguiu com a massificação da universidade. Os
companheiros italianos têm atualmente uma expressão ; eles não falam
mais de carreiras, mas de « precários em formação ».

A proletarização do futuro profissional da maioria dos estudantes era,


por exemplo, a grande questão e desafio da luta de 2006 contra o «
Contrato Primeiro Emprego ». Diferentemente daquela época, as relações
entre os estudantes e o movimento operário não se põem mais em termos
de solidariedade dos estudantes com os operários, mas muito mais de um
combate comum entre os estudantes, « precários em formação », e os
operários pelo direito ao trabalho, contra o desemprego, contra a
precarização das novas formas de contrato de trabalho, etc. Hoje não se
trata, portanto, de solidariedade, e, sim, de um combate comum.

O que começou a se criar em 1968 foi uma ​cultura democrática de


lutas​, o que não era nada evidente antes. Hoje, sim. Ninguém imagina
uma luta, nem estudantil nem operária, sem uma assembléia geral que
vota, decide e controla seus « porta-vozes ». Em 68, começou a ser o
caso entre os estudantes. Entre os operários, as lutas democraticamente
organizadas nas fábricas foram mais a exceção que a regra. Foi, contudo,
ali apenas o início, até porque não houve muitas greves, apenas algumas
em 68. A ocupação, sim, tornou-se uma prática corrente, a qual havia
começado em 1936. Ocupa-se as universidades, ocupa-se as fábricas.
Atualmente, quando há uma luta importante, ocorre ocupação, mas esta é
uma experiência que vem lá de trás. Em compensação, houve em 68
novas iniciativas de autogestão, de colocação em funcionamento das
fábricas pelos trabalhadores sem os patrões. Começaram, por exemplo,
em Brest, que é uma cidade da Bretanha, no Oeste da França. Havia uma
fábrica Thompson que produzia na época aparelhos leves de
comumicação, os Walkie-Talkies. Os operários fabricaram, então,
aparelhos para os grevistas, para se comunicarem durante a greve.
Citamos este caso, mas isto foi excepcional. A greve que se tornou
símbolo da autogestão na França – a greve da Lipp, uma fábrica de relógio
–, aconteceu quatro ou cinco anos depois, em 1973-1974. Trata-se,
portanto, de algo que amadurece, mas que leva tempo.

Deste ponto de vista, 68 foi realmente apenas o começo,


primeiramente, de uma ​cultura de luta e de resistência.​ Acredito que foi a
principal coisa que restou. Pode-se dizer que houve ainda conquistas
relativas à sexualidade, a outra pedagogia universitária ; conquistas
sociais no âmbito dos salários, da quarta semana de férias, dos direitos do
comitê de fábrica e dos direitos sindicais. Mas, na minha opinião, o que
restou de mais importante foi uma memória coletiva e uma cultura de
lutas e de resistência, uma cultura de organização democrática de lutas.
Isto explica que as reformas liberais na França, assim como em todos os
países da Europa, sejam aplicadas com dificuldades, sofrendo cada vez
mais resistência. A França está, portanto, relativamente atrasada no
processo de contra-reforma liberal, comparada à Alemanha, Inglaterra ou
Itália, etc. Este fato não se deve, porém, a uma mera exceção francesa,
mas possui vínculo com as grandes greves de 1995 em defesa do serviço
público e da segurança social, com a luta vitoriosa dos estudantes em
2006 e com a rejeição do Tratado Constitucional Liberal europeu em 2005.
Tudo isto, mesmo se parece longe no tempo – trinta, trinta-cinco, agora
quarenta anos – tem relação com a herança de 68.

EM Pauta : ​« Não me liberte, eu mesmo me encarrego ! ». Tratava-se


de uma convivência plural à esquerda, entre maoístas, trotskistas,
anarquistas e independentes ? Há lições a tirar desta experiência política
que alguns chamam de « comuna estudantil », talvez de uma reinvenção
da política ?

Daniel Bensaïd : A coexistência destas diferentes famílias políticas e


correntes de pensamento não foi tão pacifica assim. A relação das
organizações maoístas, e mesmo entre certas organizações trotskistas,
foi, por vezes, bastante violenta, não somente com o Partido Comunista,
mas com todas as pequenas organizações provenientes do PC. Talvez elas
reproduzissem elementos da cultura stalinista, que não aceita, na
realidade, o pluralismo. Há apenas um partido da classe operária. Os
outros são a traição. O stalinismo, deste ponto de vista, fez muitos
estragos, porque influenciou, inclusive, a cultura das pessoas que
rompiam com o Partido Comunista.

Ao mesmo tempo, é verdade que, em Nanterre, num movimento como


o de 22 de março, houve uma certa convivialidade entre estas diferentes
correntes. 68 foi apenas o começo de uma cultura pluralista da esquerda,
não somente na França, mas levou tempo aqui também para que as
pessoas se habituassem que se pode ter pontos de vista, projetos e
organizações diferentes, sem que seja a guerra civil, mas dialogando
dentro de um respeito mútuo. Na realidade, não chegava a haver muita
briga entre as organizações da esquerda radical ou revolucionária. Não
aconteceu na França, por exemplo, desastres como ocorreram no Japão,
onde as três principais organizações de extrema esquerda se mataram
entre si. Houve mais de duzentos mortos no Japão entre os shukaku e os
kakumaru, as principais organizações Zengakuren. Na Itália também
deram-se relações muito violentas. Na França, em parte graças à JCR
(Juventude Comunista Revolucionária) – que mais tarde se tornou a Liga
Comunista (LCR) – e aos anarquistas, houve relações bem mais
pacificadas. Mas daí à instalação de uma cultura do debate e do pluralismo
na esquerda radical, levou muito tempo. De fato, isto só se configurou
como uma realidade a partir do momento que o Partido Comunista
tornou-se suficientemente enfraquecido para não mais impor seu
despotismo à esquerda.

EM Pauta : ​Maio de 68, como você disse, começou em 1967 com as


manifestações mundiais contra a guerra do Vietnã qui se prolongaram no
ano seguinte. O líder Martin Luther King, na época travava também seu
combate nos Estados Unidos pelos direitos civis, em especial aqueles dos
negros. Sua arma era a não-violência. Qual foi o lugar do pacifismo nas
reivindicações de 68 ? Que crítica vinha atrás desta bandeira ? Que
modelos eram atingidos ?

Daniel Bensaïd : É sempre difícil interpretar o estado de espírito de


um movimento de dez milhões de operários, de dois milhões de
estudantes secundaristas. No setor militante e ativo do movimento, a
cultura não era nada pacifista. Pelo contrário. Havia um grande respeito
por Martin Luther King, mas a referência era muito mais Malcolm-X, os
Panteras Negras [​Partido Revolucionário Americano, Black Panther Party
(BPP), fundado em outubro de 1966 para a auto-defesa da população
negra contra a brutalidade policial nos guetos dos EUA. Era um dos grupos
que, nos anos 60, preconizavam o Black Power​], etc. No mais, tínhamos
saído da guerra da Argélia, tendo apoiado a luta armada dos Argelinos.
Havia um enorme prestígio simbólico da figura de Guevara. Se relermos
um dos textos que, na época, estavam entre os mais importantes para
nós, ​O discurso sobre a Africa Intercontinental [Ernesto Che Guevara :
Pasajes de la guerra revolucionaria : Congo​, Grijalbo Mondadori, México,
1999]​ , se olharmos os cartazes que fizemos para a manifestação de
Berlim, são cartazes cubanos. Há sobretudo uma mitologia da luta armada
e das armas na esquerda radical e militante, com a idéia de que a
violência é liberadora e inocente. A violência foi, inclusive entre os
intelectuais, fortemente legitimada por Sartre, notadamente no seu «
Prefácio » ao livro de Franz Fanon, ​Os Condenados da Terra​. Franz Fanon,
um autor, psiquiatra, negro e militante, das Antilhas francesas, que
também tinha ensinado no serviço da revolução argelina, era, na época,
um dos porta-vozes da revolta do Terceiro-Mundo de grande prestígio.
Seu livro é um apelo à revolta, inclusive, à revolta armada. O « ​Prefácio »
de Sartre no texto de Fanon é uma apologia da violência como violência
liberadora.

Hoje isto chocaria muitos pacifistas e militantes dos direitos humanos


por razões que compreendo. Hoje vivemos num mundo hiper-violento.
Demo-nos conta sobretudo com a crise entre o Camboja e o Vietnã em
1976-1977. A violência pode ter também uma lógica própria que escapa
às melhores intenções do mundo, com efeitos totalmente perversos e
incontroláveis ; em segundo lugar, há o sentimento de que a violência
hoje é tão enormemente assimétrica que não pode haver enfrentamento
em igualdade de condições. Os Vietnamitas podiam ainda lutar contra o
Império americano com um pedaço de madeira cheio de pregos, do estilo
arma artesanal contra o computador, mas quando se vê a guerra do
Iraque e as armas de destruição massiva, pergunta-se : ainda é possível ?
A violência coloca muitos problemas hoje, mesmo para a esquerda radical,
mas, na época, toda a parte militante do movimento aderia muito mais ao
modelo Guevara-Ho-Chi-Minh. Ademais, o que se gritava nas
manifestações era a liberação pelas armas muito mais que a
não-violência. Hoje, o debate é certamente muito mais complicado, face à
cultura dos Fóruns Sociais, etc. Eu mesmo tornei-me alguém não-violento,
mais preocupado com a lógica dos perigos que pode ter a violência,
mesmo uma violência à esquerda com as melhores intenções. Todavia, ao
mesmo tempo, vive-se numa sociedade ultra-violenta, e a violência dos
oprimidos é, antes de tudo, uma legítima defesa.

EM Pauta : ​Dizia um outro cartaz : « Não nos atrasemos para o


espetáculo da contestação mas passemos à contestação do espetáculo ».
Os estudantes na França se manifestavam contra a sociedade de
consumo, os costumes e denunciavam, desde o famoso ensaio de Guy
Debord, publicado em 1967, a « sociedade do espetáculo ». Os EUA eram
assim, novamente, um dos alvos da atitude cultural e política crítica dos
estudantes. Neste sentido, Maio de 68 tornou-se um símbolo mundial da
denúncia de um mal-estar da civilização ?

Daniel Bensaïd : Sim, seguramente, é um símbolo disto. O que se


passa de interessante na França este ano pelo quadragésimo aniversário e
que é novo, com relação ao trigésimo e ao vigésimo aniversário é a
importância acordada à ​dimensão internacional de 68​. Houve a greve
geral na França, mas insiste-se muito mais hoje, do que há dez ou vinte
anos atrás, sobre o Vietnã, a Tchecoslováquia, o México. Tornou-se,
portanto, um evento mundial e global. Talvez depois que o mundo se
globalizou, tomamos consciência de que haviam elementos que se
reproduziram em escala mundial. Adquiriu-se a coincidência que em 68
passa-se o assassinato de Martin Luther King, um ano antes o assassinato
de Guevara, a batalha no Vietnã, a Primavera de Praga. Enfim, alguma
coisa foi possível ou pareceu ser possível durante aquele momento que
era mundial.

Foi também efetivamente uma resposta a um profundo ​mal-estar na


civilização​, que é o resultado da crescimento e da revolução tecnológica
após a Segunda Guerra Mundial, que se traduz ainda pelo que já evoquei :
a transformação da universidade, a mudança da organização do trabalho,
a massificação do proletariado, a generalização do Estado de Bem-Estar –
o Estado Social Keynesiano –, logo do consumo, posto que um dos
princípios deste último é a distribução de salários, donde a mudança do
tipo de consumo, a aparição do eletrodoméstico nos lares, a generalização
do automóvel, o começo da televisão, etc. Tudo o que Kristin Ross – que é
americana – descreve muito bem, à propósito da França, no livro,
traduzido em francês, ​Lave mais rápido, Lave mais branco,​ um slogan
publicitário da época. Os personagens do romance de Perec, sobre o qual
falei ainda há pouco, estão em pleno início do marketing. Tudo isto pode
ser encontrado também nos filmes de Godard e, antes de Debord, no livro
de Marcuse de 1964, O ​Homem Unidimensional​. É uma tomada de
consciência geral.

É preciso dizer que se costuma interpretar muitas vezes a categoria


sociedade do espetáculo de Débord, de maneira frágil, como apenas uma
crítica da sociedade da imagem, mas Débord não se resume a isto. A
imagem faz parte, sem dúvida, do processo, mas trata-se sobretudo do
estado supremo do fetichismo da mercadoria. O próprio Débord disse que
fez uma escolha por uma técnica de escrita de citações escondidas,
embutidas, que não são evidentemente plágio ou montagem de textos,
mas sendo sua análise integrada por passagens inteiras de Marx. O
espetáculo​ é, efetivamente, constituído pelo mundo das mercadorias.

Ademais, a crítica da sociedade de consumo foi um dos elementos da


pauta do movimento estudantil em Nanterre. Foram distribuídos panfletos,
em 1967, que criticavam notadamente o papel dos sociólogos ou o papel
dos psicólogos no trabalho de marketing. Por trás da crítica da sociedade
de consumo, começou, portanto, a emergir o que se tornou uma crítica da
ecologia : a ​ecologia crítica (os malefícios do produtivismo, as
modificações da cidade, etc.). Tudo isso é muito importante. Marcuse e,
talvez, Débord sejam mais conhecidos hoje mundialmente. Débord foi
diretamente inspirado por Henri Lefebvre, que foi meu professor, aliás, em
Nanterre. Lefebvre publicou ​A ​Crítica da Vida Cotidiana em 1961. Foi, de
fato, toda uma tomada de consciência da alienação do trabalho, por isto
todos vão se reencontrar na greve. A greve de 68 possui todas as
reivindicações habituais de aumento de salários, mas é a primeira vez –
em comparação com grandes greves de 1936 ou 45, já citadas no caso da
França, e que até então eram a referência – que a crítica à alienação do
trabalho, às condições de trabalho, do trabalho ele mesmo, adquire
importância, como resposta ao Taylorismo, ao trabalho em cadeia, etc.
Estava-se numa nova etapa do capitalismo, logo atingia-se uma nova
consciência dos seus estragos e, portanto, do mal-estar da civilização, que
é uma das suas consequências.

EM Pauta : ​« Beije seu amor sem largar o fuzil ! ». Como a sua


geração via, naquele momento, o papel da América Latina com relação à «
realidade do desejo » da revolução ? As ditaduras ali prevaleciam.

Daniel Bensaïd : A América Latina era, para nós, uma referência


forte. Existia, na França, uma grande simpatia, primeiramente, pela
revolução cubana. Todas as iniciativas, na época, em torno da
Tricontinental, da OLAS [​Organização Latino-Americana de Solidariedade,
criada em janeiro de 1966, na Conferência Tricontinental, em Havana]​ , as
exposições de pinturas, entre outras, fizeram com que os intelectuais de
esquerda que tinham adquirido prestígio notadamente na denúncia da
guerra da Argélia – o mais significativo é Sartre, mas também André
Breton, da corrente surrealista, o qual morreu em 1965 ; no cinema,
Armand Gatis et Chris Marquer, cineastas militantes de 68 – tivessem
uma relação de simpatia e de apoio muito forte para com a Revolução
Cubana e a Liga de Libertação de Cuba. Em segundo lugar, Cuba aparecia,
principalmente, através dos textos de Guevara, « O Socialismo e o
Homem » e « O Discurso de Argel », como uma crítica do socialismo
burocrático do Leste e as ilusões sobre o exemplo. Tentávamos escapar ao
controle e sobretudo ao conflito sino-soviético, à rivalidade e à polêmica
entre a União Soviética e a China. O que, ademais, é dito na carta de Che,
a ​Tricontinental ​[​« Mensagem aos Povos do Mundo Através da
Tricontinental », 1967]​ , notadamente quanto ao Vietnã, onde se
desenrolava uma espécie de guerra fratricida, em que vietnamitas e o
povo da Indochina pagavam as consequências. Procurávamos, então, em
torno de Cuba uma terceira via. Os cubanos tomaram iniciativas de
encontro aos coreanos e vietnamitas, publicando, na época, textos no
Gramma – jornal que líamos regularmente. Parecia, assim, começar ali
uma ​terceira via,​ nem pró-chinesa nem pró-soviética até a Zafra de 67 e a
morte do Che, que marcará uma mudança. Tudo isto tinha criado uma
relação particular da França e mais amplamente da Europa com a América
Latina. Pela identificação com Cuba, o nacionalismo basco, de tradição
histórica, por exemplo, tornou-se socialista e se aliou ao movimento
operário na luta contra a ditadura na Espanha.

Era esse o estado de espírito em 67, antecipando cronologicamente o


que um ano mais tarde se consagrará como ​Maio de 68​. Projetávamos nos
« cineclubes » filmes como « Açúcar Amargo » ​[“Sucre Amer”, do cineasta
Yann Le Masson (France, 1963)]​ ou “Cuba si !”de Chris Marquer ; e de
Armand Gatti, um filme sobre Cuba que quase não se acha mais, « El Otro
Cristobal », de 1962. Era, enfim, uma referência muito forte na esquerda
radical e mais amplamente entre os intelectuais de esquerda na França.

A Conferência da OLAS, em 1967, foi um pouco o auge deste


movimento de simpatia. Nosso primeiro grande encontro público, depois
de termos sido expulsos do PC, contou justamente com a presença de
pessoas que vinham da Conferência da OLAS, que falavam de Cuba, do
que se passou, de solidariedade, dos povos do Terceiro-Mundo, etc. Na
França, houve o rapto de Ben Barka em 1965, no momento que ele estava
justamente preparando a Conferência da OLAS. Logo após, na França, a
partir de 68, começamos a nos vincular à corrente trotskista internacional.
Não foi, portanto, somente uma referência e solidariedade à América
Latina. Tivemos relações muito estreitas com os argentinos e bolivianos.
Com estes, a questão era como continuar ​o projeto do Che na Bolívia,
depois de sua morte. Havia um laço mais que forte, primeiro, com a
Argentina e o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores) – em
particular, com Moreno –, visto que nos encontrávamos na mesma
corrente internacional, e depois com camaradas latino-americanos que
estavam exilados em Paris. Havia notadamente um pequeno grupo de
exilados brasileiros – Emir Sader, Flavio Koutzi e Paulo Paranaguá –, os
quais, mais tarde, partiram para a Argentina. Não se tratava, portanto, de
algo exótico, mas de laços muito fortes com o MIR chileno [​Movimiento de
Izquierda Revolucionaria​], por exemplo, que possuía uma história um
pouco comparável à nossa, isto é, de referência guevarista, um pouco
trotskista, influenciado intelectualmente por Luis Vitale. Sentimo-nos,
portanto, imediatamente solidários.

Enviávamos, por vezes, militantes e garantíamos um apoio, pelo


menos logístico, nas lutas contra a ditadura na Argentina e na Bolívia. No
Brasil, a primeira experiência foi desastrosa : o primeiro militante que
havia sido formado aqui, na Liga, Luís Eduardo Merlino, foi preso e
assassinado no dia do seu retorno, quando a idéia era que os militantes
retornariam na clandestinidade. Os outros, ao invés de voltarem
diretamente para o Brasil, partiram para a Argentina, a fim de se formar
antes de retornar para lá. Mas depois a história foi um pouco diferente.
EM Pauta : ​No seu livro com Alain Krivine, 1968, fins e continuidades
[Nouvelles éditions Lignes, 2008], vocês disseram que, para alguns,
depois da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, Maio de
68 parece ter ficado do outro lado da cortina da História. No entanto,
trata-se muito mais do contrário : Maio de 68 ajudou a fundar uma práxis
política mais democrática, espontânea e autêntica, tal como a Primavera
de Praga. Onde pode-se dizer que resistem e subsistem, entre as cinzas
de Maio de 68, as brasas do sonho da « imaginação no poder » ?

Daniel Bensaïd : Há uma forte discontinuidade. Alguns falam, nas


discussões e reuniões, que Maio de 68 fracassou. Penso que isto não quer
dizer nada, contrariamente a Cohn-Bendit que diz : « É preciso esquecer
1968. 1968 acabou, porque culturalmente nós ganhamos ». Ele pode
acreditar que mudamos a vida, sem mudar o mundo, mas não mudamos
nem o mundo nem a vida. Alguns mudaram suas vidas, porém, para a
grande maioria da população, a vida é mais dura hoje aqui relativamente
do que era em 68. Não havia três milhões de desempregados, sete
milhões de trabalhadores pobres e um número de pessoas que comem no
Restaurante do Coração [ Restos du Coeur é uma associação humanitária
fundada em 1985, que se notabilizou pelo fornecimento de refeições grátis
a trabalhadores pauperizados, desempregados, sans papiers, entre
outros], cada vez maior a cada inverno. Se a situação é esta, 68 não foi
um fracasso, 68 foi vencido. Foi uma derrota. Talvez seja uma vitória
cultural. Há coisas, já falamos sobre elas, positivas, mas socialmente não
se trata apenas de uma derrota de 1968 na França, mas de uma derrota
das esperanças de emancipação do século XX. Quando digo uma derrota,
não é simplemente um problema simbólico, moral e cultural. Refiro-me à
situação hoje do mercado mundial do trabalho, à entrada de centenas de
milhões de trabalhadores chineses, indianos e russos no mercado de
trabalho, sem proteção social ou praticamente sem direitos do trabalho. É
evidemente um espaço de concorrência que puxa todos os direitos sociais
para baixo. Isto vai continuar ainda durante anos até que se reorganize
um movimento sindical na China. Isto acontecerá, estou convencido, no
entanto é preciso tempo. Para mim, é muito importante dizer : «
Sofremos uma derrota​, insisto, ​social ». A queda do Muro de Berlim é
apenas o último episódio. Na realidade, o que tinha sido a Revolução
Russa começou a apodrecer nos anos 30, estava completamente
putrefato. Assim, a queda do muro de Berlim foi apenas o epílogo de tudo
isto, mas o epílogo também tem um sentido. Foi toda uma época que se
encerrou por dentro desta derrota. Quando Sarkozy diz : « Finalmente,
tudo o que vai mal na sociedade deve-se a Maio de 68… » e mesmo Régis
Debray, num livro que ele reeditou, publicado originalmente em 1978,
cujo título é : ​68, Uma contra-revolução bem-sucedida.​ Régis Debray joga
sempre com o paradoxo, por isso a provocação do título. Todavia, para
além da provocação, há um verdadeiro desacordo. Ele considera que o
mercado hoje – o egoísmo, a concorrência, uma sociedade fraturada, cada
um por si – é a sequência lógica de 1968. Não concordo de jeito nenhum.
Penso que, em 68, havia a aspiração à liberdade individual, mas sem
oposição entre o individual e o coletivo, pois Os dois funcionam juntos. O
desenvolvimento do ​individualismo egoísta, liberal e concorrencial não é o
espírito de 68, é consequência da derrota de 68, do fato que não fomos
até o fim. Isto é verdade na França e sob uma outra forma, é verdade
mais amplamente.

À questão do que persiste ainda hoje do germe da imaginação no


poder, é possível responder que recomeçamos de baixo. Partimos de uma
derrota. A erva começa a renascer, mas renasce rente ao solo e, portanto,
leva tempo para crescer novamente. No início dos anos 90, pessoalmente,
temia que a derrota durasse mais tempo. Achava que ia ser muito longo o
caminho da reconstrução. Com a insurreição Zapatista de 1994, com as
greves de 1995 na França e com a aparição do movimento
altermundialista após as manifestações de Seattle, não digo que a
correlação de forças se restabeleceu, mas entrou-se num período que
chamo de « ​fermentação utópica », no seio do qual a imaginação
recomeça a trabalhar. Não se sabe ainda precisamente bem o quê. É
significativo, por exemplo, o lugar que ocupa o termo « outro » : ​outra
campanha para os Zapatistas, outro mundo, uma outra Europa, outra
coisa, enfim.

O que, por sua vez, evoluiu muito rápido foi o canto de vitória do
capitalismo liberal, já no “dia seguinte” em 1989. George Bush pai
prometeu, naquela ocasião de encerramento da Guerra Fria, um planeta
próspero e pacificado, mas se passou justamente o contrário. É a guerra
permanente. É a catástrofe ecológica e climática. Diante isto, o discurso
liberal e capitalista perdeu muito rapidamente sua legitimidade : “Isto não
funciona, isto não está melhor, mas sim pior”. Há, de um lado, uma perda
de legitimidade do sistema, porém, do outro, não há ainda uma
alternativa.

As tentativas de socialismo do século XX fracassaram. Terminaram em


burocracia, ineficiência, etc. Então, é preciso inventar algo novo, mas,
para tanto, não se pode perder a memória do que foi tentado, do que
funcionou ou não, do que deu certo ou não nas experiências socialistas do
século XX. A discussão está aberta sobre um socialismo ou um comunismo
do século XXI. Não se tem, por enquanto, a resposta, contudo pode-se,
pelo menos, começar a rediscutir. Penso, por exemplo, que é muito
importante apoiar o que se passa na Bolívia e na Venezuela, sem ter
ilusão sobre os indivíduos. O processo da Venezuela começou pelo alto,
com o Chávez, numa sociedade pouco organizada no plano social e
sindical. Já se sabe, porém, que isto favorece um processo de
burocratização e de corrupção muito rápido, mas, ao mesmo tempo,
existem ali tentativas de se reapropriar da soberania energética, via
sistema de armazenamento de hidrocarburetos, e de se libertar um pouco
da dominação do dólar, via Banco do Sul.

É preciso acompanhar as experiências. Ao que tudo indica, estamos no


início de um ​novo ciclo de experiências.​ Antes da Comuna de Paris,
ninguém sabia que haveria a Comuna de Paris, não havia sequer a idéia
de como se organiza uma democracia comunal. Antes dos sovietes,
ninguém fazia idéia do que seriam os sovietes. Agora, existe a Internet, a
crise ecológica e tem-se novas experiências. Em contrapartida, discordo
de discursos do tipo « nova utopia », à maneira de Holloway, ou seja,
daqueles que propõem « mudar o mundo sem tomar o poder ». Pode ser
esta uma formulação simpática, porque o poder é perigoso, mas
concretamente não diz nada sobre ​o que fazer na Bolívia para resistir à
tentativa ou não dos povos autônomos explodirem a experiência boliviana,
que é uma maneira de contra-insurreição de baixa intensidade na
realidade. Ou ainda : como responder às tentativas de golpes de Estado
na Venezuela ? Qual reforma agrária e como utilizar, inclusive, os serviços
do Estado para tal reforma ? Tudo isto são questões e desafios, por isso
acredito que é preciso entrar na esfera dos problemas concretos.

Quanto à imaginação, não se pode impedir os seres humanos de


sonhar. A imaginação trabalha, queiramos ou não. Ela começa agora a
produzir um debate político. Diria que, durante os anos 90, antes e depois
da queda do Muro, o único discurso que tinha se oposto à ofensiva e à a
contra-reforma liberal era o da ​resistência​. Basta ler. Eu mesmo publiquei,
pelo menos, três livros em que havia a palavra “resistência” no título. Não
se sabia se “outra coisa” seria possível, mas, por princípio, era necessário
resistir. Não havia, porém, mais discussões sobre qual socialismo, como
chegar lá, quais estratégias, etc. Este debate recomeça um pouco agora,
ao discutir o “balanço Lula”, o “balanço Chávez” e a Bolívia. Na América
Latina, já é certo, mas na Europa, começa-se também a discutir “​esta
Europa não funciona”​ , os porquês da catástrofe eleitoral na Itália, o que é
que se pode fazer de diferente, ou seja : de “outra maneira”.

EM Pauta : ​« Quanto mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a


revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer
amor ». Como é o mundo quarenta anos pós Maio de 68 ? Quais
exigências políticas e culturais “soixante-huitardes” foram incorporadas ?
Quais jamais foram levadas em conta ?

Daniel Bensaïd : Houve, na época, uma grande ilusão, ou melhor,


uma espécie de simpatia que ligava o amor à revolução. Era uma maneira
de defender e de recolocar na ordem do dia um ​humanismo revolucionário
(sobre o humanismo, pode-se querer dizer um monte de coisas diferentes,
recorremos a ele aqui então sem entrar em detalhes, mas guardando o
bom senso do termo) e de se opor à imagem de um socialismo triste,
autoritário, despótico : toda a imagem transmitida pelo stalinismo. Logo,
era compreensível e normal acentuar a realização e a libertação
individuais, e opor a subjetividade dos desejos individuais à gestão ou à
administração anônima das necessidades e à planificação soviética. Por
isso, o termo do desejo, ligado ao do amor, foi tão importante.

Após 68, vamos reencontrá-lo notadamente na França, com Lyotard,


Deleuze e Foucault. Isto aparecia como um discurso subversivo contra
todas as formas de autoridade e de limites. Ora este termo do desejo foi
perfeitamente recuperado pela publicidade do mercado. Toda a
comunicação sobre o automóvel e sobre o corpo hoje é uma reciclagem.
No entanto, este ​discurso sobre o desejo – se desconectado das
necessidades sociais, e se a realização individual é dissociada da
solidariedade e da organização coletiva – é perfeitamente utilizável dentro
do novo espírito do capitalismo liberal, mas traduzido diferentemente,
como : individualização dos salários, individualização do tempo de
trabalho e individualização dos seguros. Assim, de fato, a destruição de
todas as formas de solidariedade coletiva entrega a seguridade social de
bandeja para os seguros privados. Há, portanto, uma recuperação
espetacular desse discurso pelo sistema. A partir do momento que
sofremos uma derrota, é normal, pois não há nenhum tema que não seja
recuperável.

Desse modo, temas que podiam ser subversivos em 1968 ou após


Deleuze, tornaram-se hoje, uma vez submetidos a forças regressivas,
facilmente recuperáveis pelo discurso liberal. É onde estamos no
momento.

Na minha opinião, é preciso retomar uma reflexão sobre a relação


entre a realização individual e as necessidades coletivas, reativar esferas
de solidariedade, reconstruir o espaço público, enquanto formas de
apropriação social. Significa, por exemplo, reconstituir o que é um
problema maior hoje. Quando lemos o livro de Mike Davis sobre ​O pior
dos mundos possíveis (Planet of Slums), sobre um planeta onde não há
mais cidades, mas apenas zonas urbanas ou cidades sem política – como
diz também um outro livro de M. Davis sobre Dubaï –, não pode mais
haver cidadãos e democracia. Então reconstruir o espaço público
tornou-se um problema fundamental, inclusive para as cidades que não
sejam simples alojamentos, cidades-dormitórios. A ​imaginação é também
uma maneira de habitar o espaço.

EM Pauta : ​Quais são as semelhanças e diferenças entre a juventude


do século XXI e a da geração 68 ?
Daniel Bensaïd : Como semelhança, eles são jovens, agora as
diferenças são múltiplas. Contudo, a principal diferença é que hoje a
maioria deles pensa que viverá em piores condições e mais dificilmente
que a geração presente e a geração passada. Pertencemos a uma geração
feliz, apesar das guerras coloniais e da miséria do mundo. Estávamos
convencidos que as gerações futuras viveriam melhor. A diferença é,
portanto, muito concreta. Em 1968, a preocupação com o futuro não
estava no script. Todo mundo na universidade tinha certeza que
encontraria trabalho, mesmo sem prosseguir com os estudos.
Conseguia-se sempre dar um jeito. Hoje tem-se um cenário de três
milhões de desempregados e precários, o que constitui a diferença maior
entre o movimento de 68 e o de 2006, de luta contra o Contrato Primeiro
Emprego. Alguns dizem, então, que, naquela época, os jovens eram mais
líricos e poéticos, ao passo que hoje são menos líricos e mais prosaicos.
Sim, porque a situação agora é infinitamente mais difícil em termos de
futuro para esses jovens.

Ao mesmo tempo, uma coisa que se constata, quando se olha imagens


de 68, é que a sociedade francesa ali era branca e homogênea. Hoje a
população mudou muito e isto, sem dúvida, é importante. Para uma
sociedade que possui uma tradição bastante racista, por causa, em
particular, da herança colonial, as atuais lutas da juventude, em que
pessoas de origens diferentes lutam juntas, criam uma cultura
anti-racista. É apenas o começo. Estamos longe do que seria necessário,
mas já é algo de concreto.

Há todas essas diferenças. No mais, cabe a eles dizer.

EM Pauta : ​O que se pode saudar e lamentar entre os que fizeram


Maio de 68 ?

Daniel Bensaïd : Eu não tenho nada a lamentar. Não sei se haveria


algo a lamentar. Tentamos mudar o mundo. Não conseguimos. Isto não
quer dizer que não deveríamos ter tentado. É uma geração decapitada,
não somente na França.

Se olharmos quem eram as figuras, na época, que poderiam simbolizar


a esperança de libertação : Ben Barka, Franz Fanon, Abane Ramdane,
Larbi ben Mhidi na Argélia, Amílcar Cabral, Guevara, Miguel Enriquez, Yon
Sosa. Poderíamos estender ainda a lista : Martin Luther King, Malcolm-X.
Era outra coisa, política e moralmente falando, do que Oussama Ben
Laden e mollah Omar. É uma geração decapitada, porque foi simplemente
assassinada. Fanon morreu de doença, mas a maior parte de todas essas
pessoas foi assassinada. É uma geração vencida.

Há que se lamentar ter tentado, depois do fogo apagado ? Na ocasião


do aniversário do assassinato do Che, em outubro passado, a imprensa –
aqui o ​Le Monde, El País​, na Espanha – disse que “ele era um louco, um
suicida”. Há sempre um aspecto psicológico pessoal, assim como também
certamente erros políticos. Ele mesmo dizia : “Muitos morrerão vítima dos
seus erros”. Ele foi o primeiro, talvez. Mas por trás dos seus erros, havia
uma ​lógica política.​ Houve um momento em que algo era possível, no
entanto quando se deixa passar a ocasião desta possibilidade, o que foi o
caso, depois paga-se as consequências, mas lamentar, não. É evidente
que se nos fosse proposto fazer tudo novamente, há certos erros que
penso que, com a experiência, evitaríamos, mas não é porque os
cometemos que não faríamos tudo outra vez. Não nos enganamos de
inimigos, não nos enganamos de combate. Então, o que poderia haver a
lamentar ? De não ter feito uma carreira política ? Quando vejo o nível dos
políticos, não há nada realmente a lamentar. De não ter ganho mais
dinheiro ?

Pessoalmente, eu diria que houve períodos dolorosos. Para mim, a


experiência mais dolorosa foi a da Argentina. Estive lá em 1973. Metade
dos militantes que conheci foi assassinada nos dez anos seguintes. Isto
figura entre as minhas lembranças mais dolorosas. Na Europa, na França,
em particular, não é possível, depois de quarenta anos ou mais de
engajamento militante – e não falo somente por mim, mas também por
pessoas como Krivine ou outros com quem partilhei toda esta história –
reduzir toda essa experiência a uma espécie de sacrifício cristão. Fizemos
sacrifícios, na vida pessoal talvez, mas, no final das contas, largamente
compensados por grandes alegrias e encontros, com pessoas anônimas e
desconhecidas, inclusive, aqueles que Besancennot [​carteiro, militante da
esquerda radical e um dos porta-vozes da LCR, foi candidato, em 2007, a
Presidente da França]​ chama hoje de « heróis do cotidiano », que são dez
vezes mais interessantes do que muitos outros. Como experiência humana
foi e é muito enriquecedor. Acredito que, se fosse necessário voltar a fazer
o que fizemos, faríamos mais ou menos a mesma coisa, tentando evitar
alguns erros talvez, mas seria mais ou menos a mesma coisa. Então, não
há nenhum nenhum arrependimento a esse respeito. Quando vejo o que
se tornaram Cohen-Bendit, Henri Weber, etc., prefiro estar no meu lugar e
não no deles. Não é querer ser pretensioso. Apenas não me arrependo de
nada.

EM Pauta : ​O que mudou na sua visão do mundo, princípios e atitudes


frente à sociedade capitalista atual ? E possivel ainda sonhar com o
socialismo ?

Daniel Bensaïd : Penso que o capitalismo está ainda mais


catastrófico hoje do que ele era na época. Saíamos de um período de
crescimento, mas não tínhamos ainda as inquietudes pela ecologia : o
clima, a alimentação do planeta, a água potável, o que fazer dos dejetos
nucleares, etc. Os estragos do capitalismo, sociais e ecológicos, são muito
mais graves hoje. Então é ainda mais necessário que naquela época e
sobretudo mais urgente tentar mudar o mundo. Se não conseguirmos, não
conseguimos. Penso, porém, que será uma catástrofe para a humanidade,
mas, pelo menos, teremos a conscência de ter tentado. Aqueles que não
tiverem tentado, se eles ainda estiverem lá, terão vergonha por não terem
nem mesmo tentado.

O socialismo é algo a ser inventado. Não há um modelo. Não sei como


pode vir a ser na época da Internet, dos tele-satélites, das novas
tecnologias. Todavia, o que se sabe é que há duas lógicas : uma ​lógica da
concorrência de todos contra todos, apoiada sobre a propriedade privada e
sobre a privatização do mundo, cuja consequência é a ​guerra ​permanente
de todos contra todos. Não se trata de uma fórmula, mas do discurso de
George Bush em 20 de setembro de 2001, uma semana após os atentados
de 11 setembro ; ou então uma ​lógica dos serviços públicos,​ de
solidariedade, dos bens comuns da humanidade, a começar pelos bens
fundamentais : a terra, a água, o ar, o conhecimento, o saber, a vida,
todos hoje ameaçados de privatização. A terra : já é há muito tempo. O ar
: com o mercado dos ​direitos de poluição e​ stá em vias de sê-lo. A água
privatizou-se largamente. O saber e o conhecimento são objeto de
discussões na Organização Mundial do Comércio, com a multiplicação das
patentes sobre os softwares. A vida : é a privatização por patentes de
decifração do gene. Logo, trata-se simplesmente de um mundo infernal.
Face a isso, há uma lógica de solidariedade, uma verdadeira batalha. Ela
ainda está mal encaminhada, porque partimos de uma derrota, mas é
preciso, pelo menos, levá-la à frente para saber se teremos chance de
êxito. Todos os discursos da resignação e do “mal menor” conduzem ao
pior, porque assim não há uma verdadeira oposição. Quando a esquerda
esteve, por exemplo, no governo, na Itália, e fez a política da direita, foi a
direita que ganhou, igualmente na França com Sarkozy.

EM Pauta : ​É um bom sinal que o papa Bento XVI e o presidente


francês Sarkozy tentaram recentemente conjurar a memória e as
contribuições históricas, culturais e sociais de Maio de 68 ? O espectro
desta geração ainda apavora a direita no presente ?

Daniel Bensaïd : Sim, eu acredito. O último discurso de campanha


eleitoral de Sarkozy contribuiu para despertar a curiosidade sobre 68,
afinal por que quarenta anos depois, a uma semana da eleição, o
candidato que vai ganhar, subitamente, decide agitar o espantalho de 68,
conclamar a liquidá-lo ? Isto poderia ser interpretado como um discurso
de força de uma direita que se descomplexou, como se dizia na época. Na
realidade, estou de acordo com Alaini Badiou, é um discurso de medo. É
uma tentativa de mobilizar o ​partido do medo e o partido da ordem,
porque o movimento social pode recomeçar e recomeçar de forma muito
mais séria e mais grave. No fundo, o problema é que costumamos ter a
impressão que essas pessoas são muito fortes – Berlusconni, Sarkozy,
etc, porque muitas vezes examinamos apenas os resultados eleitorais em
que eles foram vitoriosos com 55 ou 60 % dos votos. Basta, no entanto,
alguns meses para ver que a burguesia e as classes dominantes também
não conseguiram resolver seus problemas de legitimidade e permanece
tudo muito frágil.

Há uma crise da esquerda, mas há também uma crise da direita. Estas


duas crises alimentam-se uma na outra. Trata-se de um círculo vicioso,
que pode resultar em catástrofes. Podem surgir correntes neofascistas. O
perigo é esperar que estas correntes assemelhem-se ao fascismo dos anos
30. Tem-se em mente, portanto, Mussolini, Hitler, etc., quando o perigo,
de fato, está em suas novas formas : um verdadeiro ​neofascismo.​ Se
pensamos unicamente com base na imagem do que foi o fascismo
europeu ou em certos países da América Latina nos anos 30, corremos o
risco de não ver a irrupção dessas formas novas. O racismo hoje na Itália,
por exemplo, vai muito além do discurso xenófobo de Le Pen, através da
Liga do Norte, de formas novas de nacionalismo, como o nacionalismo
regional, etc.

Em todo caso, pode-se afirmar seguramente que o discurso de


Sarkozy, que fez de 68 uma espécie de pecado original, é um discurso de
medo, inconsciente, mas, antes de tudo, um discurso de medo.

EM Pauta : ​Você teria algo a acrescentar que inspire ainda mais a


pensar sobre tudo o que falamos ?

Daniel Bensaïd : O sonho não se fabrica. É preciso vivê-lo. Então, é


necessário que ele surja. Se há alguma coisa que não se pode programar
são os sonhos. É preciso que uma época consiga sonhar para diante. Não
é simples. ​A utopia é o sonho rumo adiante.​ Não é refazer o passado ou
reviver o passado sem parar. Os revolucionários russos tentaram reviver a
revolução francesa, depois fomos nós que tentamos reviver a revolução
russa ou a comuna de Paris. Assim, cabe tentar não fazer o sonho do
passado, mas sonhar o futuro. Talvez a idéia do sonho não seja a boa
imagem, pois o importante é o que se inventa na luta coletiva. Este
heroísmo do cotidiano,​ na minha opinião, possui muito mais poesia que
grandes volteios líricos, ou seja, conhecer esta capacidade que tem o povo
de ser paciente na longa duração e de resistir no cotidiano. Cada vez que
vejo, por exemplo, o movimento de desempregados no Norte da França,
que faz uma coleta pelos trabalhadores “sans papiers” que são expulsos,
penso que aí inventa-se algo, que não é espetacular, mas certamente bem
mais importante em termos da idéia que se faz da humanidade do que
muitos espetáculos e grandes festas artificiais.
Lições de maio de 68
O artigo aponta importantes contribuições ao entendimento do fenômeno
da irrupção de 1968 demonstrando o papel nefasto cumprido pelo PCF.

O ascenso revolucionário de maio de 1968 constitui um enorme


reservatório de experiências sociais. O inventário destas experiências está
longe de ter sido finalizado: o que caracterizou tal ascenso foi
precisamente a irrupção na cena histórica da energia criadora das massas,
que multiplicou as formas de ação, as iniciativas e as audazes inovações
na luta pelo socialismo. Somente buscando este reservatório e partindo
desta conquista o movimento operário e revolucionário poderá armar-se
de modo eficaz para levar a bom termo a tarefa cuja possibilidade e, por
sua vez, cuja necessidade foram confirmadas por maio de 1968: a vitória
da revolução socialista nos países altamente industrializados da Europa
Ocidental.

Há anos tem-se desenvolvido um debate enormemente interessante em


torno da definição de uma nova estratégia socialista na Europa​1​. Os
acontecimentos de maio de 1968 resolveram vários dos problemas-chave
levantados neste debate. Inclusive, suscitaram outros. E também
obrigaram àqueles que se haviam subtraído do debate a dele participar,
mesmo que fosse para falsear os pressupostos do problema. É necessário,
pois, tratar mais uma vez dos temas principais desta discussão e
examiná-los à luz da experiência de maio de 1968.

1) Neocapitalismo e possibilidades objetivas de ações


revolucionárias do proletariado ocidental.

Contrariamente aos mitos da burguesia, adotados pela social-democracia


e inclusive por certos autores que se reclamam do marxismo, o ascenso
revolucionário de maio de 1968 demonstrou que o neocapitalismo é
incapaz de atenuar as contradições econômicas e sociais inerentes ao
sistema a ponto de tornar impossível à ação de massas um alcance
objetivamente revolucionário.

As lutas de maio de 1968 são resultado direto das contradições do


neocapitalismo.

Esta irrupção violenta das lutas de massas – uma greve geral de dez
milhões de trabalhadores com ocupações de fábricas; extensão do
movimento a múltiplas franjas periféricas do proletariado e das classes
médias (tanto “velhas” como “novas”) – seria incompreensível se não
existisse um descontentamento profundo e irreprimível entre os
trabalhadores, provado pela realidade cotidiana da existência proletária.
Aqueles que se deixavam cegar pela elevação do nível de vida durante os
últimos quinze anos não compreendiam que é precisamente no auge das
forças produtivas (de “expansão econômica” acelerada) que o proletariado
adquire novas necessidades, ampliando-se ainda mais a defasagem entre
as necessidades e o poder aquisitivo​2​. Tampouco compreendiam que, à
medida que sobe o nível de vida, de qualificação técnica e de cultura dos
trabalhadores, a ausência de igualdade e de liberdade sociais nos lugares
de trabalho, e a alienação acentuada no seio do processo de produção não
podem deixar de pesar de forma mais intensa e insuportável sobre o
proletariado.

A capacidade do neocapitalismo para atenuar um tanto a amplitude das


flutuações econômicas e a ausência de uma crise econômica catastrófica
como a de 1929 ocultavam, para muitos observadores, sua impotência
para evitar recessões. As contradições que minavam a grande fase de
expansão que o sistema conhecera no Ocidente desde o final da Segunda
Guerra Mundial (nos Estados Unidos, desde o começo desta guerra); a
oposição irredutível entre a necessidade de garantir a expansão ao preço
da inflação e a necessidade de manter um sistema monetário internacional
relativamente estável ao preço de uma deflação periódica; a evolução
cada vez mais clara em direção a uma recessão generalizada no mundo
ocidental: todas estas tendências, inerentes ao sistema, encontravam-se
entre as causas profundas da explosão de maio de 1968. Considerem-se
os efeitos do “plano de estabilização” na reaparição do desemprego
massivo (sobretudo o desemprego dos jovens); considerem-se também os
efeitos da crise estrutural sofrida por alguns setores (estaleiros de Nantes
e de Saint-Nazaire) sobre a radicalização dos trabalhadores de
determinadas regiões.

É significativo, além disso, que a crise de 1968 não tenha sido produzida
num país com estruturas “envelhecidas”, no qual dominasse um
“laissez-faire” arcaico, senão, pelo contrário, no país típico do
neocapitalismo, aquele cujo “plano” era mencionado como o exemplo mais
bem-sucedido do neocapitalismo, aquele que dispõe do setor
nacionalizado mais dinâmico, cuja “independência” relativa ao setor
privado sugeria a alguns, inclusive, a definição de “setor capitalista de
Estado”. A impotência que demonstrou o neocapitalismo para comprimir
largamente as contradições sociais adquire por isto uma importância ainda
mais universal.
O papel de detonador do movimento estudantil é produto direto da
incapacidade do neocapitalismo para satisfazer, em algum nível, as
necessidades da massa dos jovens que afluem à Universidade, tanto pela
elevação do nível de vida médio como pelas necessidades de reprodução
ampliada de uma mão-de-obra cada vez mais qualificada, como resultado
da Terceira Revolução Industrial. Esta incapacidade manifesta-se no nível
da infraestrutura material (edifícios, laboratórios, moradia, restaurante,
bolsas), no nível da estrutura autoritária da Universidade, no nível do
conteúdo do ensino universitário, no nível da orientação, das saídas para
os universitários e para aqueles aos quais o sistema obriga a interromper
antes de concluir seus estudos universitários. A crise da Universidade
burguesa, que foi a causa imediata da explosão do maio de 1968, deve
ser entendida como um aspecto da crise do neocapitalismo e da sociedade
burguesa em seu conjunto.

Por último, a crescente rigidez do sistema, que contribuiu amplamente


para exacerbar as contradições socioeconômicas – precisamente na
medida em que as comprimia por um período relativamente grande –,
está também diretamente vinculada à evolução da economia
neocapitalista​3​. Sublinhamos muitas vezes que as tendências à
programação econômica, à “globalização” dos problemas econômicos e
das reivindicações sociais, não apenas é resultado de desígnios específicos
de tal ou qual fração da burguesia, senão também das necessidades
inerentes da economia capitalista de nossa época. A aceleração da
inovação tecnológica e a redução do ciclo de reprodução do capital fixo
obrigam a grande burguesia a calcular de modo cada vez mais preciso,
com vários anos de antecedência, as amortizações e os investimentos a
efetuar por autofinanciamento. Quem diz programação das amortizações e
dos investimentos diz também programação dos custos e, portanto,
também “custo da mão-de-obra”. Eis aqui a origem última da “política de
ingressos”, da “economia concertada” e de outras sutilezas que,
simplesmente, tendem a suprimir a possibilidade de modificar, mediante a
ação reivindicativa “normal”, a divisão da renda nacional que deseja o
grande capital.

Mas a paralisia crescente do sindicalismo tradicional não suprime nem o


funcionamento das leis do mercado nem o crescente descontentamento
das massas. Em última análise, tende a tornar mais explosivas as lutas
operárias, pelos esforços do proletariado para recuperar em poucas
semanas o que intui haver perdido durante anos. As greves, inclusive e
sobretudo se são menos frequentes, tendem a tornar-se mais violentas e
começam mais e mais como greves selvagens​4​. A única possibilidade de
que dispõe o grande capital para evitar essa evolução, prenhe de
ameaças, é a de passar, decididamente, do Estado forte à ditadura aberta,
ao estilo grego ou espanhol. Mas inclusive neste caso – irrealizável sem
uma grave derrota e uma grave desmoralização prévias das massas
trabalhadoras –, uma maior compreensão das contradições
socioeconômicas não pode deixar de reproduzir, em última instância,
situações ainda mais explosivas e ameaçadoras para o capitalismo, tal
como o demonstra a evolução recente na Espanha.

2) Tipologia da revolução num país imperialista

Para elucidar se a revolução socialista é ou não possível na Europa


ocidental, em que pesem todas as “conquistas” do neocapitalismo e da
“sociedade de consumo de massas”, tanto os críticos de direita como os
de “esquerda” remetiam-se, geralmente, aos modelos de 1918 (revolução
alemã) ou de 1944-45 (revoluções iugoslava vitoriosa, revolução francesa
e italiana abortadas em condições análogas às de 1918 na Alemanha) ou,
inclusive, à guerrilha. Segundo alguns, com a suposta ausência definitiva
de uma catástrofe econômica ou militar, era perfeitamente utópico
esperar do proletariado outra coisa que reações reformistas; segundo
outros, a possibilidade de novas explosões revolucionárias por parte dos
trabalhadores estaria vinculada à reaparição de crises de tipo catastrófico.
Em suma, para alguns, a revolução tinha-se convertido em
definitivamente impossível; para outros, ficava relegada ao momento –
em boa medida mítico – de “um novo 1929”.

Desde o início dos anos 60, temos reagido contra estas teses
esquemáticas, referindo-nos a um tipo distinto de revolução possível e
provável na Europa Ocidental. Permitiremos recordar-nos o que
escrevíamos a este respeito no princípio de 1965:

“Demonstramos mais acima que o neocapitalismo não


suprime absolutamente os motivos de descontentamento nos
trabalhadores, e que o desencadeamento de lutas
importantes segue sendo possível, senão inevitável, em nossa
época. Mas estas lutas podem adotar uma forma
revolucionária no seio de uma “sociedade de bem-estar”? Não
estariam condenadas a ficar limitadas a objetivos reformistas
enquanto sigam desenvolvendo-se em um clima de
prosperidade mais ou menos geral?.

Para responder a esta objeção, deve-se circunscrever de


modo mais preciso o objeto. Se, com isto, quer-se dizer que,
no clima econômico atual da Europa, não veremos
repetirem-se revoluções como a revolução alemã de 1918 ou
como a revolução iugoslava de 1941-45, está-se emitindo,
evidentemente, um truísmo. Mas admitimos este truísmo de
entrada e o incluímos em nossa hipótese preliminar. Toda a
questão está aqui: não é possível operar a derrubada do
capitalismo além de formas desta espécie, limitadas
necessariamente a circunstâncias “catastróficas”? Não
pensamos que seja assim. Pensamos que existe um “modelo
histórico” diferente ao que podemos nos referir: o da greve
geral de junho de 1936 (e, a uma escala mais modesta, a
greve geral belga de 1960-61, que poderia criar uma situação
análoga à de junho de 1936).

É perfeitamente possível que no clima econômico geral do


“neocapitalismo próspero” ou da “sociedade do consumo de
massas”, os trabalhadores se radicalizem progressivamente
como consequência de uma sucessão de crises sociais
(tentativas de impor a política de ingressos ou o bloqueio dos
salários), políticas (tentativas de limitar a liberdade de ação
do movimento sindical e de impor um “Estado forte”),
econômicas (recessões ou bruscas crises monetárias, etc.) ou
inclusive militares (por exemplo, reações de grande
envergadura contra as agressões imperialistas, contra a
manutenção da aliança com o imperialismo internacional,
contra o emprego de armas nucleares táticas nas “guerras
locais”, etc.); que estes mesmos trabalhadores radicalizados
desencadeiem lutas cada vez mais amplas no curso das quais
comecem a vincular alguns dos objetivos do programa de
reformas estruturais anticapitalistas com as reivindicações
imediatas; que esta onda de luta desemboque numa greve
geral que derrube o governo e crie uma situação de dualidade
de poder”​5​.

Desculpamo-nos por esta citação tão grande. Em todo caso, demonstra


que o tipo de crise revolucionária que estourou em maio de 1968 poderia
ser prevista em grande medida; que não deveria ser considerada
absolutamente como improvável ou excepcional; e que as organizações
socialistas e comunistas poderiam perfeitamente ter-se preparado, há
anos, para este tipo de revolução se seus dirigentes quisessem e tivessem
compreendido as contradições fundamentais do neocapitalismo.

Este tipo de explosão era tão menos imprevisível que houve algumas
impressões antecipadas dele em duas ocasiões: em dezembro de 1960 –
janeiro de 1961 na Bélgica e em junho-julho de 1965 na Grécia. Depois
dos acontecimentos de maio de 1968, não cabe dúvida de que será sob
esta forma – uma greve de massas que transborda os objetivos
reivindicativos e os marcos institucionais “normais” da sociedade e do
Estado capitalistas – que se produzirão as crises revolucionárias possíveis
no Ocidente (a menos que sobrevenha outra modificação radical da
situação econômica ou uma guerra mundial).

Com relação ao debate que se desenvolveu no movimento socialista


internacional em torno das linhas-mestras de uma estratégia
anticapitalista na Europa, os acontecimentos de maio de 1968 aportam
também algumas precisões suplementares que completam o esboço da
tipologia da revolução socialista na Europa Ocidental que tínhamos
iniciado em 1965.

Primeiramente, quando as contradições do neocapitalismo, comprimidas


durante largo tempo, estouram em ações de massas de caráter explosivo,
a greve de massas, a greve geral, tem tendência a transbordar a forma de
“greve pacífica e tranquila que se desenvolve em meio a uma total
tranquilidade” e combina formas de ação diversas, entre as quais a
ocupação de fábricas, a aparição de piquetes cada vez mais massivos e
duros, respostas imediatas a toda repressão violenta, manifestações de
rua que se transformam em conflitos. Enfrentamentos constantes com as
forças de repressão, chegando inclusive à reaparição de barricadas,
merecem menção à parte.

Com o objetivo de dissimular as origens espontâneas e inevitáveis desta


radicalização das formas de ação e de dar crédito à odiosa tese dos
“provocadores esquerdistas” que conspiram para criar “incidentes
violentos” a serviço do gaullismo​6​, os reformistas e neorreformistas de
toda pelagem veem-se obrigados a ficar em silêncio diante do fato de que
já haviam sido produzidas manifestações similares durante a greve geral
belga de 1960-61 (barricadas nas ruas em Henao; ataque à estação dos
Guillemins em Liège); de que os operários jovens passaram à ação
massivamente neste sentido com ocasião das greves de Mans, de Caen,
de Mulhouse, de Besançon e de outros pontos na França em 1967; de que
a radicalização da juventude operária viu-se acompanhada da reaparição
de formas de ação análogas na Itália (Trieste, Turim) e inclusive na
Alemanha Ocidental.

Resumindo, a menos que se aceite a tese ridícula de Pompidou de uma


“conspiração internacional”, é preciso reconhecer que o giro da luta de
massas foi um giro espontâneo, determinado por fatores objetivos que há
que desvelar, em vez de incriminar seja o caráter pequeno-burguês dos
estudantes, a “falta de maturidade política” da juventude ou mesmo o
papel das lendas sobre os provocadores.

No entanto, não é difícil compreender as razões pelas quais toda


radicalização da lita de classes tinha que desembocar rapidamente numa
confrontação violenta com as forças repressivas. Assistimos na Europa, há
duas décadas, a um fortalecimento contínuo do aparato de repressão,
enquanto distintas disposições legais obstam a ação de greves e as
manifestações operárias. Ainda que nos períodos “normais” os
trabalhadores não têm a possibilidade de rebelar-se contra estas
disposições repressivas, não ocorre o mesmo quando se produz uma
greve de massas que, repentinamente, os torna conscientes do imenso
poder encerrado em sua ação coletiva. De pronto, e espontaneamente,
dão-se conta de que a “ordem” é uma ordem burguesa que tende a
asfixiar a luta emancipadora do proletariado. Adquirem consciência do fato
de que esta luta não pode superar um determinado nível sem chocar-se
cada vez mais diretamente com os “guardiães” desta ordem e que esta
luta emancipadora seguirá sendo eternamente inútil se os trabalhadores
seguem respeitando as regras do jogo imaginadas por seus inimigos para
afogar sua rebelião.

O fato de que tão somente uma minoria de jovens trabalhadores foram os


protagonistas destas formas novas de luta, enquanto foram embrionárias;
de que fora na juventude operária em que as barricadas dos estudantes
provocaram mais reflexos de identificação; de que em Flins e na
Peugeot-Sochaux foram, igualmente, os jovens que responderam de
forma mais clara às provocações das forças repressivas, nada disto
invalida a análise precedente. Em todo ascenso revolucionário, sempre é
uma minoria relativamente reduzida a que experimente novas formas de
ação radicalizadas. Os dirigentes do PCF, em vez de ironizar sobre a
“teoria anarquista das minorias ativas”, fariam melhor relendo Lênin a
este respeito​7​. Além disso, é precisamente para os jovens que termina
sendo menos pesado do que para os adultos o peso dos fracassos e as
decepções do passado, o peso da deformação ideológica derivada de uma
propaganda incessante das “vias pacíficas e parlamentares”.
Os acontecimentos de maio de 1968 também demonstram que a ideia de
um largo período de dualidade do poder, a ideia de uma conquista e de
uma institucionalização graduais do controle operário ou de qualquer
reforma estrutural anticapitalista repousam numa concepção ilusória da
luta de classes exacerbada do período pré-revolucionário e revolucionário.

Nunca será possível fazer tremer o poder da burguesia mediante uma


sucessão de pequenas conquistas. Se não ocorre uma mudança brusca e
brutal das relações de força, o capital encontra, e sempre encontrará, os
meios para integrar tais conquistas no funcionamento do sistema. E,
quando se produz uma mudança radical das relações de força, o
movimento de massas dirige-se espontaneamente rumo a uma comoção
fundamental do poder burguês. A dualidade do poder reflete uma situação
em que a conquista do poder já é objetivamente possível devido ao
debilitamento da burguesia, mas na qual somente a falta de preparação
política das massas, a preponderância de tendências reformistas e
semi-reformistas em seu seio detêm momentaneamente sua ação num
nível dado.

Maio de 68 confirma, a este respeito, a lei de todas as revoluções, isto é,


que quando forças sociais tão amplas entram em ação, quando o que está
em jogo é tão importante, quando o menor erro, a menor iniciativa audaz
por parte de um ou outro grupo pode modificar radicalmente o sentido dos
acontecimentos no intervalo de poucas horas, resulta totalmente ilusório
tratar de “congelar” este equilíbrio, sumamente instável, durante vários
anos. A burguesia vê-se obrigada a tratar de reconquistar de imediato o
que as massas lhe arrebatam no terreno do poder. As massas, se não
cedem diante do adversário, veem-se quase instantaneamente obrigadas
a ampliar suas conquistas. Assim ocorreu em todas as revoluções; assim
voltará a acontecer amanhã​8​.

3) O problema estratégico central

A enorme debilidade, a enorme impotência das organizações tradicionais


do movimento operário quando se veem confrontadas com os problemas
apresentados pelos ascensos revolucionários possíveis na Europa
Ocidental manifestou-se no modo como Waldeck-Rochet, o
secretário-geral do PCF, resume o dilema em que, segundo ele, estava
enredado o proletariado francês em maio de 1968:
“Na realidade, a opção a tomar em maio era a seguinte:

Ou bem atuar de modo que a greve permitisse satisfazer as


reivindicações essenciais dos trabalhadores e prosseguir, ao
mesmo tempo, no plano político, a ação orientada às
mudanças democráticas necessárias no marco da legalidade.
Esta era a posição do nosso partido.

Ou bem se lançar decididamente à prova de força, isto é, ir à


insurreição, recorrendo, inclusive, à luta armada com o
objetivo de derrubar o poder pela força. Esta era a posição
aventureira de alguns grupos ultraesquerdistas.

Mas, como as forças militares e repressivas estavam do lado


do poder estabelecido​9​, e como a imensa massa do povo era
absolutamente hostil a semelhante aventura, é evidente que
entrar nesta via significava, simplesmente, conduzir os
trabalhadores à matança e buscar o esmagamento da classe
operária e de sua vanguarda, o partido comunista.

Pois bem! Não, não caímos na cilada. Já que aí estava o


verdadeiro plano do poder gaullista.

Com efeito, o cálculo do poder era simples: diante de uma


crise que ele mesmo havia provocado com sua política
antissocial e antidemocrática, calculou utilizar esta crise para
golpear de forma decisiva e duradoura a classe operária,
nosso partido e todo movimento democrático”​10​.

Dito de outra forma: ou bem deveriam ser limitados os objetivos da greve


geral de dez milhões de trabalhadores​11 a reivindicações imediatas, isto é,
a tão somente uma fração do programa mínimo; ou bem haveria que
lançar-se imediatamente à insurreição armada para a conquista
revolucionária do poder. Ou um ou outro, o mínimo ou o máximo. Como
não se estava preparado para a insurreição imediata, havia que ir a novos
acordos Matignon. Igualmente, poderia concluir-se que, como jamais se
estará preparado para a insurreição armada no começo de uma greve
geral – sobretudo, se se segue educando as massas e o próprio partido no
“respeito à legalidade” –, jamais se travarão lutas que não estejam
centradas em reivindicações imediatas.

É concebível uma atitude mais distanciada do marxismo, para nem sequer


citar o leninismo?

Quando o poder da burguesia é estável e forte, seria absurdo lançar-se a


uma ação revolucionária que tivesse por objetivo a derrota imediata do
capital. Com isto, caminha-se a uma derrota segura. Mas, como se
passará deste poder forte e estável a um poder debilitado, alquebrado,
desagregado? Por um salto milagroso? Não se exige, para uma
modificação radical das relações de força, algumas estocadas decisivas?
Não abrem estas estocadas um processo de debilitamento progressivo da
burguesia? Não consiste no dever elementar de um partido que se
reivindique da classe operária – e inclusive da revolução socialista –
impulsionar ao máximo este processo? Pode-se fazer isto excluindo por
decreto toda luta que não seja por reivindicações imediatas… enquanto a
situação não esteja madura para a insurreição armada imediata, com
vitória garantida?

Não representa uma greve de dez milhões de trabalhadores, com


ocupação de fábricas, um debilitamento considerável do poder do capital?
Talvez não se devam concentrar todos os esforços para alargar a brecha,
tomar garantias, atuar de tal modo que o capital não possa já restabelecer
rapidamente a relação de forças em seu favor? Existe outro meio para
alcançá-lo que não seja arrebatar do capital seus poderes de fato, na
fábrica, nos bairros, nas ruas, isto é, passar da luta pelas reivindicações
imediatas à luta por reformas estruturais anticapitalistas, por
reivindicações transitórias? Ao abster-se deliberadamente de lutar por tais
objetivos e se limitar deliberadamente em reivindicações imediatas, não
se criam todas as condições propícias para um restabelecimento da
relação de forças a favor da burguesia, para uma nova e brutal inversão
das tendências?

Toda a história do capitalismo testemunha sua capacidade para ceder a


reivindicações imediatas quando seu poder está ameaçado. Sabe
perfeitamente que, se conserva o poder, poderá recuperar em parte o que
cedeu (mediante a alta dos preços, os impostos, desemprego, etc.) e, em
parte, digeri-lo com um aumento da produtividade. Além disso, toda a
burguesia irritada e assustada por uma greve de amplitude excepcional,
mas que conserve seu poder de Estado, tenderá a passar à contraofensiva
e à repressão conforme reflua o movimento de massas. A história do
movimento operário assim o demonstra: um partido preso ao dilema de
Waldeck-Rochet jamais fará a revolução e se dirigirá com toda certeza à
derrota​12​.

Ao negar-se a entrar no processo que leva da luta por reivindicações


imediatas à luta pelo poder, através da luta pelas reivindicações
transitórias e da criação de órgãos de dualidade do poder, os reformistas
e neorreformistas condenaram-se invariavelmente a considerar toda ação
revolucionária como uma “provocação” que debilita as massas e que
“fortalece a reação”. Esta foi a cantilena da social-democracia alemã em
1919, 1920, 1923, 1930-33. A culpa é dos “aventureiros esquerdistas,
anarquistas, putschistas, espartaquistas, bolcheviques” (então ainda não
se dizia “trotskistas”) se a burguesia obtém a maioria na Assembleia
Constituinte de Weimar, já que suas “ações violentas” “assustaram o
povo”, gemem os Scheidemann em 1919; A culpa de que o nazismo tenha
podido fortalecer-se é dos comunistas, já que foi a ameaça da revolução
que decantou as classes médias ao campo da contrarrevolução em
1930-33.

É significativo que mesmo o Kautsky de 1918 compreendia todavia que o


movimento operário, confrontado com poderosas greves de massas, não
podia limitar-se às formas de ação e de organização tradicionais
(sindicatos e eleições), senão que deveria passar a formas de organização
superiores, isto é, à constituição de comitês eleitos pelos trabalhadores,
de tipo soviético. Não por isto Lênin deixou de fustigar as vacilações, as
contradições e o ecletismo de Kautsky em 1918. Como não teria objetado
esta argumentação de Waldeck-Rochet: “Como não estamos preparados
para organizar de imediato a insurreição armada vitoriosa, será melhor
não assustar a burguesia e nos limitarmos a pedir aumentos de salários e
aceitar as eleições; e isto no momento em que a França conta com o
maior número de grevistas de toda sua história, em que os operários
ocupam as fábricas, em que o sindicato anuncia que deixará de exercer a
repressão, em que o Banco da França não pode imprimir notas de banco
por falta de operários dispostos a trabalhar, em que – e este é o sinal
mais seguro do desarranjo do poder burguês – camadas tão periféricas
como os arquitetos, os ciclistas profissionais, os ajudantes de hospitais e
os notários coloquem-se a ‘questionar’ o regime”!
A discussão sobre o “vazio de poder”, colocada de forma metafísica, não
tem, evidentemente, nenhuma saída. Mas Waldeck-Rochet, que recolhe
por sua conta a tese gaullista da “conspiração” (segundo sua versão, os
conspiradores são gaullistas!), substituindo, desse modo, a análise da luta
de classes pelo recurso à demonologia, deveria recordar que o poder, que,
segundo parece, queria a qualquer preço atrair a classe operária a uma
“armadilha” da “prova de forças”, perdeu o alento buscando os dirigentes
sindicais para negociar a contenção da greve em troca de concessões
materiais bastante substanciais.

Se a intenção do gaullismo fora realmente a de provocar uma prova de


forças, sua via de atuação estava bastante clara: negar-se ao diálogo com
os sindicatos enquanto as fábricas seguissem ocupadas. A prova de força
seria inevitável em prazo de poucas semanas. No entanto, cuidou-se
muito para não cometer semelhante loucura e com motivo! Sua estimação
da relação de forças e de sua deterioração constante do ponto de vista da
burguesia era mais exata que a que Waldeck-Rochet nos apresenta hoje.
Isto é, não buscava a prova de forças, mas o fim da greve o quanto antes
e ao preço que fosse. Isto quer dizer que toda a tese da “armadilha” não é
mais que um mito, cujo objetivo é desviar a atenção dos verdadeiros
problemas​13​. Se, além disso, pode-se falar de um “plano” de De Gaulle, o
de 30 de maio é brilhante: deter as greves o quanto antes e logo ir às
eleições. Qual foi a reação da direção do PCF? Não caiu de cabeça nesta
armadilha até o ponto de acusar os grevistas de “ajudar o regime a evitar
as eleições”? E qual foi o resultado?

Por isso é que toda a casuística desenvolvida para elucidar se realmente o


poder estava vacante em maio e se De Gaulle havia ou não “manifestado
sua intenção de retirar-se e deixar o posto” está relacionada com os
mesmos métodos de pensamento que substituem pela referência à
conspiração, à astúcia e aos “provocadores” a análise séria das forças
sociais em presença e da dinâmica de suas relações recíprocas.

Um “vazio de poder” não é nenhum presente que se receba da história.


Esperá-lo passivamente, ou com campanhas eleitorais, significa
resignar-se a não encontra-lo jamais. Um “vazio de poder” não é mais que
o ponto final de todo um processo de deterioração das relações de força
para a classe dominante. Nem sequer Kerensky manifestava a menor
“intenção de retirar-se e ceder o posto” horas antes da insurreição de
outubro. O essencial não é entrar em discussões escolásticas em torno da
definição de um verdadeiro “vazio de poder”. O essencial é intervir na luta
de massas de tal maneira que se acelere incessantemente esta
deterioração da relação de forças contra o capital. À parte da estratégia
orientada a arrebatar da burguesia os poderes de fato, a propaganda
incansável da revolução, ainda quando suas condições não estejam ainda
completamente “maduras” constitui para isto uma condição necessária​14​.

O problema estratégico central é, pois, realmente, o de romper o dilema:


“Ou greves puramente reivindicativas, seguidas de eleições (isto é,
business as usual), ou insurreição armada imediata, com a condição de
que a vitória está assegurada por antecipação”. Deve-se entender que
greves gerais como as de dezembro 1960 – janeiro de 1961 na Bélgica ou
a de maio de 1968 na França – sobretudo se relacionadas com elas
aparecem novas formas de luta radical das massas –, podem e devem
desembocar em algo mais que em aumentos salariais, ainda quando os
preparativos para uma insurreição armada não estejam demasiadamente
preparados. Podem e devem desembocar na conquista pelas massas de
novos poderes de fato, de poderes de controle e de veto que criem uma
dualidade de poder, elevem a luta de classes a seu nível mais alto e
exacerbado e façam amadurecer deste modo as condições para uma
tomada revolucionária do poder.

4) Espontaneidade das massas, dualidade de poder e organização


revolucionária

Admitamos que os estudantes tiveram realmente intenções


revolucionárias em maio de 1968, mas a imensa maioria dos
trabalhadores não se limitou a aceitar o caráter reivindicativo que os
dirigentes sindicais imprimiram à greve? É deste modo que M. Duverger,
Jean Dru e outros seguem em coro a análise do PCF.

É realmente difícil saber que pensava realmente a massa dos


trabalhadores durante as jornadas de maio. Com efeito, não lhe foi
concedida a palavra. Teria sido mais fácil, entretanto, averiguar suas
preocupações, se realmente se desejasse conhecê-las. Bastaria reunir-se
com os trabalhadores nas assembleias gerais das empresas,
conceder-lhes amplamente a palavra, decidir que as fábricas fossem
ocupadas por toda a massa operária, fazer com que nelas reinasse a mais
ampla democracia operária, reuni-los em todas as vicissitudes da greve.
Bastaria, em suma, criar, no marco desta greve geral, um tipo de comitês
de greve eleitos, com delegados revogáveis em todo momento, com este
tipo de contestação e de debate permanente sob os olhares críticos das
massas que é o dos sovietes, predicados para tais greves não apenas por
Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, como também inclusive pelo Kautsky
de 1918. Os dirigentes oficiais do movimento operário francês estão muito
atrás deste Kautsky​15​.
O fato de que os dirigentes sindicais tenham-se esforçado para evitar a
qualquer preço estas ocupações massivas e estas confrontações de ideias
e de que tenham tentado por todos os meios impedir o acesso às fábricas
aos porta-vozes dos estudantes indicam que não estavam muito seguros
das reações dos trabalhadores. O fato de que os trabalhadores
convocados para ratificar o “protocolo de Grenelle” tenham-no rechaçado
por maiorias esmagadoras constitui também um indício da vontade
instintiva das massas de superar a fase de um movimento puramente
reivindicativo.

Cabe, além disso, apresentar esta pergunta: se é certo que tudo o que
desejavam os trabalhadores era um aumento importante dos salários. Por
que entraram espontaneamente na via das ocupações de fábrica? Os
trabalhadores franceses desenvolveram distintos movimentos por
aumentos salariais durante os últimos vinte anos. Nunca estes
movimentos tiveram uma amplitude comparável à de maio de 68, nunca
suas formas de ação se aproximaram às de maio de 1968. Com a
ocupação de fábricas, lançando-se à rua às dezenas e às vezes às
centenas de milhares; erguendo bandeiras vermelhas nas empresas;
expandindo para todas as partes palavras-de-ordem como “Com dez anos,
já basta”, “Fábricas para os operários”, “Poder operário”, “Poder para os
trabalhadores”, a massa dos grevistas expressava aspirações que
transbordaram amplamente as reivindicações puramente salariais​16​.

Mas existe uma prova ainda muito mais convincente de que também os
trabalhadores queriam ir além de uma simples campanha rotineira “por
salários e boas eleições”. Trata-se de seu comportamento em todas as
partes em que tiveram oportunidade de expressar-se livremente, em que
a tela burocrática rachou e caiu, em que puderam desenvolver-se
iniciativas a partir da base. Estamos longe de ter um inventário completo
destas experiências, mas sua lista já é impressionante:

– Na fábrica CSF, de Brest, os trabalhadores decidiram continuar a


fabricação, as produziram o que eles consideravam importante, em
especial walkie-talkies que ajudaram os grevistas e os manifestantes a
defender-se contra a repressão;

– Em Nantes, o comitê de greve tratou de controlar a circulação em


direção à cidade e fora dela, distribuindo permissões de circulação e
bloqueando com barricadas os acessos à cidade. Parece, além disso, que
este mesmo comitê emitiu bônus de crédito que eram aceitos como
moeda por certos comerciantes e agricultores;
– Em Caen, o comitê de greve proibiu todo acesso à cidade durante 24
horas;

– Nas fábricas de Rhône-Poulenc, em Vitry, os grevistas decidiram


estabelecer relações diretas de intercâmbio com os agricultores, trataram
de estender a experiência a outras empresas e discutiram a passagem à
“greve ativa” (isto é, a retomada do trabalho por conta deles e com seus
próprios planos), ao mesmo tempo em que chegavam à conclusão de que
seria preferível remeter esta experiência quando várias outras empresas
seguiam-nos nesta via​17​.

– Na Cimentos de Mureaux, os operários votaram em assembleia geral a


revogação do diretor e se negaram a aceitar a proposta patronal de votar
novamente. O diretor em questão foi enviado então a uma sucursal da
empresa, na qual, por solidariedade com os de Mureaux, os trabalhadores
desencadearam imediatamente uma greve, a primeira na história desta
fábrica.

– Em Pilas Wonder, em Saint-Ouen, os grevistas elegeram um comitê de


greve na assembleia geral e, para manifestar sua reprovação da
orientação reformista da CGT, fecharam-se com barricadas em sua fábrica
e proibiram acesso aos responsáveis sindicais;

– Em Saclay, os trabalhadores do centro de energia nuclear confiscaram


material da fábrica para prosseguir a greve;

– Nos estaleiros de Rouen, os trabalhadores tomaram sob sua proteção os


jovens que vendiam literatura revolucionária e impediram o acesso à
fábrica dos CRS que os perseguiam para detê-los;

– Nos vários jornais de Paris, os trabalhadores ou impulsionaram a


modificação de titulares (Le Figaro) ou se negaram a imprimir um jornal
(La Nation), quando seu conteúdo era diretamente prejudicial à greve;

– Em Paris, o CLEOP (Comitê de Enlace


Estudantes-Operários-Camponeses) organizou comboios de abastecimento
que se aprovisionavam em cooperativas agrícolas e distribuíram os
produtos nas fábricas, vendendo-os a preço de custo (frangos a 24
centavos de franco, ovos a 11 centavos, por exemplo); Serge Mallet​18
indica ações do mesmo gênero no oeste da França;
– Na Peugeot, em Sochaux, os trabalhadores construíram barricadas
contra a intrusão dos CRS e os expulsaram violentamente da fábrica;

– Nas fábricas Citroën, em Paris, fez-se uma primeira tentavia, modesta e


embrionária, de requisitar caminhões para o aprovisionamento dos
grevistas;

– O caso talvez mais eloquente: nos Estaleiros do Atlântico, em


Saint-Nazaire, os trabalhadores ocuparam a empresa e se negaram,
durante dez dias, a apresentar um caderno de reivindicações imediatas,
em que pese a constante pressão do aparato sindical​19​.

Quando esta lista esteja completa, como poderá ser discutido o que
expressa a tendência espontânea da classe operária a tomar nas mãos
sua própria sorte e a reorganizar a sociedade segundo suas convicções e
seu ideal? São estas manifestações de uma greve puramente
reivindicativa, de uma greve “qualquer” ou de uma greve cuja amplitude e
cuja lógica empurravam as próprias massas a transbordar as
reivindicações imediatas​20​?

Contrapôs-se a esta análise o resultado das eleições legislativas e o auge


gaullista que esta reflete. Mas se trata de análise intensamente tingida de
cretinismo parlamentar, de ignorância fingida do que representam as
eleições na democracia burguesa.

No primeiro turno, a esquerda obteve 41% dos votos e os gaullistas 44%.


Mas se se leva em conta o elevado número de trabalhadores que, desta
vez, se absteve por asco da política das grandes organizações operárias,
sem deixar por isto de permanecer disponível para a ação; se se levam
em conta as centenas de milhares de jovens que estavam na vanguarda
do movimento de maio de 1968, mas que estão desprovidos do direito de
voto num sistema eleitoral antidemocrático – e também devido à negativa
de atualizar as listas eleitorais, negativa que privou do direito de voto os
que haviam alcançado recentemente a maioridade –, pode-se presumir,
sem exagero, que inclusive depois da imensa decepção do 30 de maio, as
forças de esquerda e o gaullismo estavam equilibradas no seio do povo
francês.

No entanto, este equilíbrio dava-se após uma manobra vitoriosa do


gaullismo e um fracasso tático lamentável da esquerda, que havia
aceitado as regras do jogo prescritas pelo inimigo de classe: deter a greve
sobre uma base puramente reivindicativa; aceitar de fato a repressão
contra a extrema esquerda; remeter-se às eleições para dirimir os
problemas vitais levantados pelo maio de 1968. Pode-se duvidar por um
só instante de que se a iniciativa tivesse permanecido ao lado da
esquerda, se esta pudesse fazer frutificar o enorme capital de
combatividade, de entusiasmo e de generosidade acumulado durante as
quatro semanas de maio e tivesse imposto o controle operário, comitês de
fábrica e de bairro eleitos democraticamente, federados em nível local e
regional e confederados em escala nacional, piquetes de greve armados,
imprensa à disposição do povo e tudo isto além da satisfação das
reivindicações imediatas, pode-se duvidar que então 45% da nação
francesa que a esquerda representava, apesar de tudo, na noite de 23 de
junho, teriam sido convertidos, num espaço de dias, em mais de 50%?

Toda história contemporânea testemunha: ainda que o “medo da guerra


civil” seja um móvel de opção política para as classes médias e para as
“camadas flutuantes do eleitorado”, por outro lado a inclinação a passar
ao campo do mais forte, a tentação de subir no carro que vai em direção à
vitória, o atrativo da iniciativa mais resoluta e enérgica pesam na balança
de um modo muito mais decisivo​21​. Nesse sentido, De Gaulle ganhara a
batalha já na noite de 30 de maio, não tanto reagrupando o “partido do
medo” como ganhando pela mão de seus adversários políticos, marcados
pelas dúvidas, pelo imobilismo e pelo espírito de capitulação.

Objetou-se com frequência a estratégia de reformas estruturais


anticapitalistas, a estratégia do Programa de Transição que nós
preconizamos, que somente é eficaz se é aplicada pelas grandes
organizações operárias, sindicais e políticas. Sem o dique que somente
estas organizações podem levantar contra a infiltração permanente da
ideologia burguesa e pequeno-burguesa no seio da classe trabalhadora,
esta estaria atualmente condenada a limitar-se a lutas reivindicativas. A
experiência de maio de 1968 desmentiu totalmente esta diagnóstico
pessimista.

Sem dúvida, a existência de sindicatos e de partidos de massas não


integrados ao regime capitalista, que educam incessantemente os
trabalhadores num espírito de desafio e de questionamento global frente a
este regime, seria um truque enorme para acelerar o amadurecimento da
consciência de classe revolucionária no seio dos trabalhadores – e isto
ainda que estes sindicatos e partidos não fossem instrumentos adequados
para a conquista do poder. Mas a experiência de maio de 1968
demonstrou que, inclusive estando ausente uma vanguarda revolucionária
de massas, esta tomada de consciência acaba, de toda maneira, por
irromper no seio do proletariado porque está alimentada por toda a
experiência prática das contradições neocapitalistas que os trabalhadores
acumulam dia após dia ao longo dos anos.

A espontaneidade é a forma embrionária da organização, dizia Lênin. A


experiência de maio de 1968 permite precisar de dois modos a atualidade
desta ideia. A espontaneidade operária não é jamais uma espontaneidade
pura. No seio das empresas atuam os fermentos dos grupos de vanguarda
– às vezes, um só militante revolucionário curtido – cuja tenacidade e
paciência veem-se recompensadas precisamente nestes momentos de
febre social que chega a seu paroxismo. A espontaneidade operária
desemboca na organização de uma vanguarda mais ampla porque no
prazo de umas poucas semanas milhares de trabalhadores
compreenderam a possibilidade da revolução socialista na França,
compreenderam que devem organizar-se com este fim e tecem mil laços
com os estudantes, com intelectuais, com grupos revolucionários de
vanguarda que, pouco a pouco, vão dando forma ao partido revolucionário
de massas do proletariado francês, do qual a JCR mostra-se desde já
como seu núcleo mais sólido e dinâmico.

Não somos admiradores tranquilos da pura e simples espontaneidade


operária. Ainda quando esta seja revalorizada, inevitavelmente, diante do
conservadorismo dos aparatos burocráticos​22​, choca-se, entretanto, com
limites evidentes diante de um aparato de Estado e de uma máquina
repressiva altamente especializados e centralizados. Em nenhuma parte a
classe trabalhadora conseguiu derrubar espontaneamente o regime
capitalista e o Estado burguês num território nacional e sem dúvida jamais
o conseguirá. Inclusive a extensão dos órgãos de dualidade do poder a
todo um país das dimensões da França é, senão impossível, ao menos
enormemente difícil na ausência de uma vanguarda já bastante
implantada nas empresas para poder generalizar rapidamente as
iniciativas dos trabalhadores de algumas fábricas piloto.

Por outro lado, não há nenhuma vantagem em exagerar a amplitude da


iniciativa espontânea das massas trabalhadoras em maio de 1968. Esta
estava presente em todas as partes potencialmente. Não se fez realidade
além de uma série de casos limitados, tanto no desencadeamento de
ocupações de fábricas como nas iniciativas de dualidade de poder
mencionadas anteriormente. Os estudantes em ação escaparam, em sua
grande maioria, das tentativas de canalização a vias reformistas. Os
trabalhadores, mais uma vez, deixaram-se canalizar em sua maioria. Não
se deve jogá-lo em sua cara: a responsabilidade é dos aparatos
burocráticos que se esforçaram por anos em afogar em seu seio todo
espírito crítico, toda manifestação de oposição com relação à orientação
reformista ou neorreformista, todo resto de democracia operária. A vitória
política gaullista de junho de 1968 é o preço que paga o movimento
operário por estas relações ainda não perturbadas entre a vanguarda e a
massa no seio do proletariado francês.

Mas, ainda que seja certo que maio de 1968 permitiu verificar mais uma
vez a ausência de uma direção revolucionária adequada e as
consequências inevitáveis que disto se depreendem para o êxito do
ascenso revolucionário, por outro lado a experiência permite também
vislumbrar – pela primeira vez no Ocidente em mais de 30 anos – as
dimensões reais do problema e suas vias de solução. O que faltou em
maio de 1968 para que se produzisse uma primeira incursão decisiva em
direção à dualidade do poder – para que a França conhecesse, guardadas
as proporções, seu Fevereiro de 1917 – foi uma organização
revolucionária não mais numerosa nas empresas do que era nas
universidades. Nesse momento preciso, e nestes lugares, alguns núcleos
reduzidos de operários, articulados, armados de um programa e de uma
análise política correta e capazes de fazerem-se ouvir, teriam bastado
para impedir a dispersão dos grevistas, para impor nas principais fábricas
do país a ocupação de massas e a eleição democrática dos comitês de
greve. Isto não teria sido, desde já, nem a insurreição nem a tomada do
poder. Mas teria sido virada uma página decisiva da história da França e
da Europa. Todos aqueles que acreditam ser possível e necessário o
socialismo devem atuar para que seja virada da próxima vez.

5) Participação, autogestão, controle operário

Para conquistar o poder, necessita-se uma vanguarda revolucionária que


já tenha convencido a maioria dos assalariados da impossibilidade de ir ao
socialismo pela via parlamentar, que já seja capaz de mobilizar a maioria
do proletariado sob sua bandeira. Se o PCF fosse um partido
revolucionário – isto é, se tivesse educado os trabalhadores nesse mesmo
espírito inclusive em períodos nos quais a revolução não estava na ordem
do dia, inclusive nas fases contrarrevolucionárias, tal como diz Lênin –,
então, em abstrato, a tomada do poder teria sido possível me maio de
1968. Só que, então, muitos dos pressupostos teriam sido muito
diferentes da realidade de maio de 1968.

Dado que o PCF não é um partido revolucionário, e dado que nenhum


grupo de vanguarda dispõe todavia de audiência suficiente na classe
operária, maio de 68 não podia terminar numa tomada do poder. Mas
uma greve geral com ocupação de fábricas pode e deve terminar com a
conquista de reformas estruturais anticapitalistas, com a realização de
reivindicações transitórias, isto é, com a criação de uma dualidade de
poder, de um poder de fato das massas oposto ao poder legal do capital.
Para a realização da dualidade do poder, não é indispensável um partido
revolucionário de massas. Basta um poderoso empurro espontâneo dos
trabalhadores, estimulado, enriquecido e parcialmente coordenado por
uma vanguarda revolucionária organizada, ainda demasiado débil para
disputar diretamente a direção do movimento operário com os aparatos
tradicionais, mas já bastante forte para transbordá-la na prática.

Esta vanguarda organizada não é ainda um partido. É um partido em


devir, o núcleo de um futuro partido. E, ainda que os problemas de
construção deste partido situem-se, em grande medida, num marco
análogo ao esboçado por Lênin em Que fazer?, sua solução deve ser
enriquecida por sessenta anos de experiência e pela incorporação de todas
as particularidades que caracterizam hoje o proletariado, os estudantes e
as demais camadas exploradas dos países imperialistas.

Deve-se levar em conta que, historicamente, esta tentativa será a terceira


– após terem fracassado as da SFIO e o PCF – e que os fracassos do
passado inculcam nos trabalhadores e estudantes uma acentuada – e
justificada – desconfiança de toda tentativa de manipulação, de todo
dogmatismo esquemático, de todo esforço por substituir os objetivos que
as massas atribuem a si mesmas por objetivos teleguiados. Pelo contrário,
a capacidade de apoiar e ampliar todo movimento parcial por objetivos
justos, de mostrar-se como o melhor organizador de todos estes
combates parciais e setoriais, é o que dá ao militante revolucionário (e a
sua organização) a autoridade necessária para integrá-los a uma ação
anticapitalista de conjunto.

Já se denunciou o caráter falsificador do movimento gaullista da


“participação” o bastante para que não seja necessário estender-se
demasiadamente a respeito. Enquanto subsista a propriedade privada dos
principais meios de produção, a irregularidade dos investimentos provoca
inevitavelmente flutuações cíclicas da atividade econômica, isto é, o
desemprego. Enquanto a produção seja, no essencial, uma produção para
o lucro, não estará orientada a satisfazer sobretudo as necessidades dos
homens, senão que se orientará em direção aos setores que deem
maiores lucros (mesmo que “manipulando” a demanda). Enquanto na
empresa o capitalista e seu diretor conservem o direito de mandar nos
homens e nas máquinas – e, desde De Gaulle até Couve de Murville, todos
os paladinos do regime deixaram claro que nem por um instante
pensaram em colocar em questão este poder –, o trabalhador seguirá
alienado no processo de produção.
Se somamos estas três características do regime capitalista, obteremos a
imagem de uma sociedade na qual subsistem as características
fundamentais da condição proletária. Subsiste a insegurança da
existência. Subsiste a alienação do produtor. A do consumidor inclusive
aumentará. A venda da força de trabalho desembocará, como antes, na
aparição da mais-valia e na acumulação de um capital que é propriedade
de uma classe distinta àquela que o produziu com seu trabalho​23​. Dentro
destes limites, “participação” equivale, em suma, a uma tentativa de
acentuar a alienação, de fazer perderem os trabalhadores a consciência de
estarem explorados, sem suprimir a própria alienação. Os proletários
terão o direito a ser consultados sobre quantos deles serão demitidos.
Felizes as galinhas que participam na seleção dos procedimentos
empregados para depená-las!

Desfazer o engano do falatório sobre a “participação”, no entanto, não


basta. Não é casual que esta demagogia tenha surgido na ocasião da crise
de maio. Expressa, por parte do regime, uma tomada de consciência da
agudeza das contradições sociais na França neocapitalista, um
pressentimento de seu caráter explosivo durante todo um período
histórico. Se não, como explicar que forças importantes do grande capital
vejam-se obrigadas a utilizar argumentos que puderam ser economizados
inclusive em 1936 e em 1944-45? É chocante o paralelismo entre a
social-democracia alemã lutando contra Spartakus, os conselhos de
operários e soldados, em janeiro de 1919, sob a palavra-de-ordem “a
socialização está em marcha”, e De Gaulle tentando canalizar a revolução
que ascende de baixo insinuando que está disposto a realizar uma
revolução de cima, em ordem e tranquilidade, naturalmente.

A explosão de maio colocou repentinamente, diante de toda a sociedade


francesa, a questão social de nossa época nos países imperialistas. Quem
mandará nas máquinas? Quem decidirá os investimentos, sua orientação,
sua localização? Quem determinará o ritmo de trabalho? Quem escolherá
a gama de produtos a fabricar? Quem estabelecerá as prioridades no
emprego dos recursos produtivos de que dispõe a sociedade? Em que
pese a tentativa de reduzir a greve geral a um problema de redistribuição
da força de trabalho, a realidade econômica e social obriga e seguirá
obrigando todo mundo discutir o problema fundamental, tal como Marx o
formulou: Não apenas aumento de salários, mas supressão da relação
salarial.

Os socialistas revolucionários não poderão deixar de alegrar-se. Esta giro


dos acontecimentos confirma o que temos proclamado há anos, isto é,
que a lógica da economia neocapitalista e das lutas de classes
amplificadas deslocará cada vez mais o centro de gravidade dos debates e
da ação dos problemas de divisão da renda nacional aos problemas de
manutenção ou derrota das estruturas capitalistas na empresa, na
economia e em toda a sociedade burguesa.

No curso da crise de maio, a palavra-de-ordem de “autogestão” foi


lançada de diversos lados. Como palavra-de-ordem de propaganda geral,
não há objeção, com a condição, isso sim, de que se substitua
“autogestão das empresas” por “autogestão dos trabalhadores” e que
fique claro que esta última implica o advento de uma planificação
democraticamente centralizada dos investimentos e algumas garantias
suplementares. Se não for assim, o “produtor desproletarizado” pode
voltar a ver-se sendo um Juan Lanas como antes e poderá converter-se
em desempregado da noite para o dia​24​.

Entretanto, como objetivo imediato de ação, e à margem das situações


pré-insurrecionais em que se coloca a derrubada imediata do regime
capitalista e, especialmente na forma como foi utilizada algumas vezes por
dirigentes da CFDT, esta palavra-de-ordem encerra uma perigosa
confusão. A autogestão dos trabalhadores pressupõe a derrota do poder
do capital nas empresas, na sociedade e do ponto de vista do poder
político. Enquanto este poder subsista, não apenas é uma utopia
pretender transferir o poder de decisão aos trabalhadores, fábrica a
fábrica (como se as decisões estratégicas da economia capitalista
contemporânea fossem tomadas neste nível e não pelos bancos, trusts,
monopólios e o Estado!). É, também, uma utopia reacionária, já que
tenderia, se por casualidade encontrasse um início de institucionalização,
a transformar os coletivos de operários em cooperativas de produção que
se veriam obrigadas a sustentar uma competição com as empresas
capitalistas e a submeter-se às leis da economia capitalista e aos
imperativos do lucro. Se tivesse chegado, dando uma volta, ao mesmo
resultado que aquele que aponta a “participação” gaullista: tirar dos
trabalhadores a consciência de ser explorados sem eliminar as causas
essenciais desta exploração.

A resposta imediata que tanto os acontecimentos de maio como a análise


socioeconômica do neocapitalismo sugerem diante do problema do
questionamento do marco capitalista da empresa e da economia não pode
ser, pois, nem o da participação (aberta colaboração de classe) nem o da
“autogestão” (integração indireta na economia capitalista), mas a do
controle operário. O controle operário é, para os trabalhadores, o
equivalente exato do que representa para os estudantes a contestação
total.
Controle operário significa, por parte dos trabalhadores, negar-se a
permitir que a patronal disponha livremente dos meios de produção e da
força de trabalho. A luta pelo controle operário é a luta por um direito de
veto de representantes livremente eleitos pelos trabalhadores e
revogáveis a qualquer momento​25 sobre a contratação e as demissões,
sobre os ritmos das linhas de produção, sobre a introdução de novos
produtos, sobre a manutenção ou supressão de toda a fabricação e,
evidentemente, sobre o fechamento das empresas. É a negativa a discutir
com a patronal ou com o governo de conjunto sobre a divisão da renda
nacional enquanto os trabalhadores não obtenham a possibilidade de
desmascarar a forma com que os capitalistas marcam o baralho quando
falam de preços e benefícios. É, em outras palavras, a abertura dos livros
de contabilidade patronais e o cálculo pelos trabalhadores dos autênticos
preços de custo e as verdadeiras margens de lucro.

O controle operário não deve ser concebido como um esquema feito de


uma vez que a vanguarda trata de inserir no desenvolvimento real da luta
de classes. A luta pelo controle operário – com a que se identifica em
ampla medida a estratégia das reformas estruturais anticapitalistas, a luta
pelo programa de transição – deve, pelo contrário, entrar em todas as
sinuosidades das preocupações imediatas das massas, surgir e ressurgir
uma e outra vez da realidade cotidiana vivida pelos trabalhadores, as
donas de casa, os estudantes e os intelectuais revolucionários.

Implica o aumento dos salários conquistado em maio de 1968


“necessariamente” uma elevação nos preços de custo? Até que ponto? A
elevação dos preços é realmente resultado desta elevação das
remunerações​26​?

A patronal não estará tratando de “recuperar as perdas causadas pelas


greves” por meio de uma aceleração dos ritmos, isto é, não restabelecerá
sua taxa de lucro mediante o aumento da mais-valia relativa? Quem é
responsável pela hemorragia de reservas de câmbio que a França sofreu
num prazo de poucos dias? Não serão, imaginemos, os trabalhadores,
nem sequer os “grupúsculos esquerdistas”, os que transferiram bilhões de
francos para a Suíça e outros lugares.

É com base nestas questões e questões análogas suscitadas pela realidade


cotidiana que se pode constantemente ampliar, atualizar e aperfeiçoar a
agitação pelo controle operário.

O objetivo não é criar novas instituições no marco do regime capitalista. O


objetivo é elevar o nível de consciência das massas, sua combatividade,
sua capacidade de responder golpe a golpe diante de cada medida
reacionária da patronal ou do governo, questionar não com palavras, mas
com atos, o funcionamento do regime capitalista. Será assim que se
garantirá a insolência revolucionária das massas, sua decisão de colocar
de lado a “ordem” e a “autoridade” capitalistas para criar uma ordem
superior, a ordem socialista de amanhã, dentro de um zeloso respeito pela
democracia dos trabalhadores. É na medida em que se generalize a luta
pelo controle operário, em que se amplie incessantemente a prova de
força com a patronal, com a conseguinte tomada de consciência
revolucionária das massas, em que surjam por todos os lados organismos
de dualidade do poder, é nesta medida que a passagem de uma
“ocupação passiva” à “ocupação ativa”, isto é, a retomada da economia
sob a gestão dos próprios trabalhadores, adquire um sentido não
simbólico, mas real, é nesta medida que desaparecerá o perigo de
“institucionalização” das fábricas autogestionadas no marco do regime
capitalista e que poderá em um congresso de comitês eleitos pelos
trabalhadores tomar em suas mãos a organização econômica do novo
poder, encarnando, ao mesmo tempo, ao novo poder no plano político.
Maio de 1968 teve o mérito histórico de demonstrar que a luta por este
controle operário, que o nascimento da dualidade de poder, a partir das
próprias entranhas das contradições neocapitalistas e da iniciativa criadora
das massas, são possíveis e necessários em toda a Europa capitalista​27​.
Uma etapa posterior contemplará seu florescimento, isto é, colocará na
ordem do dia a incursão ao socialismo, à desalienação do homem.
Estamos no começo; prossigamos o combate.

Este artigo é publicado em nosso portal como parte integrante do


especial 5​ 0 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta
prolongada​. Para ler os demais textos desta publicação impressa,
compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento a
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