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A Unidade do Intelecto contra os Averroístas*

Tomás de Aquino

CAPUT 1 CAPÍTULO 1
Sicut omnes homines naturaliter scire [1] Como todos os homens, por natureza, desejam saber a
desiderant veritatem, ita naturale desiderium verdade1, também neles é natural o desejo de fugir dos
inest hominibus fugiendi errores, et eos cum
facultas adfuerit confutandi. Inter alios erros e de os refutar quando têm essa faculdade. Ora, entre
autem errores indecentior videtur esse error todos os erros, o mais inconveniente parece ser aquele em
quo circa intellectum erratur, per quem nati que se erra sobre o intelecto que naturalmente nos habilita
sumus devitatis erroribus cognoscere
a conhecer a verdade evitando os erros. Há já algum tempo
veritatem. Inolevit siquidem iam dudum
circa intellectum error apud multos, ex dictis que se implantou entre muita gente um erro acerca do
Averrois sumens originem, qui asserere intelecto. Originado nos escritos de Averróis, consiste em
nititur intellectum quem Aristoteles defender que o intelecto a que Aristóteles chama
possibilem vocat, ipse autem inconvenienti
nomine materialem, esse quamdam
‘possível’, e que [Averróis] designa impropriamente pelo
substantiam secundum esse a corpore nome ‘material’, é uma substância separada do corpo
separatam, nec aliquo modo uniri ei ut segundo o ser, que de modo nenhum se une ao corpo como
formam; et ulterius quod iste intellectus forma. Mais ainda: [Averróis] defende que o intelecto
possibilis sit unus omnium hominum.
Contra quae iam pridem plura possível é único para todos os homens2.
conscripsimus; sed quia errantium Já escrevemos por várias vezes contra este erro3. Todavia,
impudentia non cessat veritati reniti, dado que a impudência dos que o defendem não cessa de
propositum nostrae intentionis est iterato resistir à verdade, é nossa intenção avançar novos
contra eumdem errorem conscribere aliqua,
quibus manifeste praedictus error argumentos contra esse erro a fim de o refutarmos com
confutetur. toda a evidência.

Nec id nunc agendum est ut positionem [2] Não mostraremos aqui que a posição acabada de referir
praedictam in hoc ostendamus esse é errônea por contrariar a verdade da fé cristã. Isso será
erroneam quia repugnat veritati fidei imediatamente evidente seja para quem for. Se, de fato, se
Christianae. Hoc enim satis in promptu
cuique apparere potest. Subtracta enim ab subtraísse aos homens a diversidade do intelecto, a única
hominibus diversitate intellectus, qui solus de todas as partes da alma que se vê bem ser incorruptível
inter animae partes incorruptibilis et e imortal, após a morte nada restaria das almas dos
immortalis apparet, sequitur post mortem
homens exceto a substância única do intelecto; e desta
nihil de animabus hominum remanere nisi
unicam intellectus substantiam; et sic tollitur feita se suprimiria a retribuição das recompensas e das
retributio praemiorum et paenarum et penas e a respectiva diversidade4. Mostraremos, outrossim,
diversitas eorumdem. Intendimus autem que a posição referida não contraria menos os princípios
ostendere positionem praedictam non minus
da filosofia do que os ensinamentos da fé. E dado que
contra philosophiae principia esse, quam
contra fidei documenta. Et quia quibusdam, nesta matéria alguns, como eles mesmo dizem, não
ut dicunt, in hac materia verba Latinorum querem saber das palavras dos Latinos e dizem-se
non sapiunt, sed Peripateticorum verba seguidores das dos peripatéticos, cujos livros sobre essa
sectari se dicunt, quorum libros numquam in
hac materia viderunt, nisi Aristotelis qui fuit
matéria nunca viram, à exceção dos de Aristóteles, o
sectae Peripateticae institutor; ostendemus fundador da seita peripatética, mostraremos em primeiro
primo positionem praedictam eius verbis et lugar que a referida posição vai contra as suas palavras e
sententiae repugnare omnino. os seus ensinamentos5.

Accipienda est igitur prima definitio animae [3] Tomemos, então, a primeira definição da alma dada
quam Aristoteles in secundo de anima ponit, por Aristóteles no livro II sobre A Alma, onde afirma que
dicens quod anima est actus primus ela é “o ato primeiro de um corpo natural organizado”6. E
corporis physici organici. Et ne forte aliquis

*Extraído de: SÃO TOMÁS DE AQUINO. A unidade do intelecto contra averroístas (edição bilíngüe). Tradução, apresentação, glossário,
quadro cronológico e índice onomástico por Mário Santiago de Carvalho. Lisboa: Edições 70, 1999.
diceret hanc definitionem non omni animae para que ninguém diga que esta definição não se aplica à
competere, propter hoc quod supra sub alma toda, porque Aristóteles havia dito, no condicional,
conditione dixerat: si oportet aliquid
commune in omni anima dicere, quod “se tivermos de afirmar qualquer coisa de comum à alma
intelligunt sic dictum quasi hoc esse non toda”, - que eles interpretam, justamente, como se não
possit, accipienda sunt verba eius sequentia. pudesse ser o caso7 -, consideremos as palavras que se
Dicit enim: universaliter quidem dictum est seguem no texto. Ei-las: “Dissemos, de fato, em sentido
quid sit anima; substantia enim est quae est
secundum rationem; hoc autem est quod universal, o que a alma era: uma substância segundo a
quid erat esse huius corporis, i. e. forma forma8, isto é, a quididade de cada corpo”, ou de outra
substantialis corporis physici organici. maneira: a forma substancial de um corpo natural
organizado9.

Et ne forte dicatur ab hac universalitate [4] E não se diga que se exclui a parte intelectiva dessa
partem intellectivam excludi, hoc removetur universalidade10, o que Aristóteles refuta no que diz a
per id quod postea dicit: quod quidem igitur
non sit anima separabilis a corpore, aut
seguir: “Que, portanto, a alma não é separável do corpo,
partes quaedam ipsius si partibilis apta nata ou, dado que ela é naturalmente divisível, ao menos
est, non immanifestum est; quarumdam algumas das suas partes, eis o que é evidente, pois o ato de
enim partium actus est ipsarum. At vero certas partes da alma é o ato de algumas partes do corpo.
secundum quasdam nihil prohibet, propter
id quod nullius corporis sunt actus. Quod Já relativamente a outras partes nada impede a separação,
non potest intelligi nisi de his quae ad porque não são ato de nenhum corpo.”11 Isto só pode ser
partem intellectivam pertinent, puta interpretado como dizendo respeito à parte intelectiva, a
intellectus et voluntas. Ex quo manifeste saber, intelecto e vontade. Daqui ressalta com evidência
ostenditur illius animae, quam supra
universaliter definiverat Aristoteles dicens que certas partes desta alma, que antes definira
eam esse corporis actum, quasdam partes universalmente designando-a como ato de um corpo, são
esse quae sunt quarumdam partium corporis ato de partes precisas do corpo, enquanto que outras não
actus, quasdam autem nullius corporis actus
são ato de nenhum corpo. Porque, como mais adiante se
esse. Aliud enim est animam esse actum
corporis, et aliud partem eius esse corporis verá12, não é a mesma coisa a alma ser ato de um corpo e
actum, ut infra manifestabitur. uma das suas partes ser ato de um corpo. Por conseguinte,
Unde et in hoc eodem capitulo manifestat neste mesmo capítulo, Aristóteles prova que a alma é o ato
animam esse actum corporis per hoc quod
de um corpo, porque algumas das suas partes são ato de
aliquae partes eius sunt corporis actus, cum
dicit: considerare oportet in partibus quod um corpo, quando diz: “É preciso estender”, ao todo,
dictum est, scil. in toto. entenda-se, “o que se disse acerca das partes”.13

Adhuc autem manifestius apparet ex [5] Mas, no que vem a seguir, ainda é mais evidente que
sequentibus quod sub hac generalitate ele inclui o intelecto também sob essa definição geral,
definitionis etiam intellectus includitur (per sobretudo havendo suficientemente provado que a alma é
ea quae sequuntur). Nam cum satis o ato de um corpo, portanto, que a alma separada não vive
probaverit animam esse actum corporis,
quia separata anima non est vivens in actu, em ato. Todavia, como se pode dizer que uma coisa vive
quia tamen aliquid potest dici actu tale ad em ato graças à presença de uma outra, não apenas se for a
praesentiam alicuius, non solum si sit forma sua forma, mas também o seu motor - tal como a
sed etiam si sit motor, sicut combustibile ad combustão em ato de um combustível na presença de um
praesentiam comburentis actu comburitur, et
quodlibet mobile ad praesentiam moventis comburente e o movimento em ato de qualquer móvel na
actu movetur; posset alicui venire in dubium presença de um motor -, alguém podia duvidar se, estando
utrum corpus sic vivat actu ad praesentiam a alma presente, um corpo vive em ato, como o móvel se
animae, sicut mobile movetur actu ad
move em ato na presença de um motor ou como uma
praesentiam motoris, an sicut materia est in
actu ad praesentiam formae; et praecipue matéria está em ato na presença de uma forma. E,
quia Plato posuit animam non uniri corpori principalmente, porque Platão defendeu que a alma não se
ut formam, sed magis ut motorem et une ao corpo como uma forma, mas mais como um motor
rectorem, ut patet per Plotinum et
Gregorium Nyssenum, (quos ideo induco
ou um piloto, como é evidente por Plotino e Gregório de
quia non fuerunt Latini sed Graeci). Hanc Nissa, que menciono porque não foram Latinos mas
igitur dubitationem insinuat philosophus Gregos14. O Filósofo insinua esta dúvida quando
cum post praemissa subiungit: amplius acrescenta, a seguir ao que disse: “Também não se vê se a
autem immanifestum si sit corporis actus alma é ato do corpo, como o timoneiro, do navio.15“ E
anima sicut nauta navis. Quia igitur post
praemissa adhuc hoc dubium remanebat, porque a dúvida persiste depois do que disse, conclui “que
concludit: figuraliter quidem igitur sic é figurativamente que se determina e se descreve assim a
determinetur et describatur de anima, quia alma”16, pois ainda não era líquido ter demonstrado a
scil. nondum ad liquidum demonstraverat verdade17.
veritatem.

Ad hanc igitur dubitationem tollendam, [6] A fim de tirar a dúvida, avança a seguir para a
consequenter procedit ad manifestandum id demonstração do que é mais certo em si e segundo o
quod est secundum se et secundum rationem conceito com base naquilo que é menos certo em si
certius, per ea quae sunt minus certa mesmo, mas é mais certo para nós18, ou seja, a partir dos
secundum se sed magis certa quoad nos, i. e. efeitos da alma, que são os seus próprios atos. Para tal,
per effectus animae, qui sunt actus ipsius.
distingue imediatamente as operações da alma, dizendo
Unde statim distinguit opera animae, dicens
que “o animado distingue-se do inanimado pela vida” e
quod animatum distinguitur ab inanimato in
vivendo, et quod multa sunt quae pertinent que são muitas as operações que dizem respeito à vida,
ad vitam, scil. intellectus, sensus, motus et como por exemplo, “a intelecção, a sensação, o
status secundum locum, et motus nutrimenti movimento local e o repouso” bem como o movimento
et augmenti, ita quod cuicumque inest nutritivo e de crescimento19, de maneira que diz-se que
aliquid horum, dicitur vivere. Et ostenso vive tudo aquilo que possui uma destas operações da alma.
quomodo ista se habeant ad invicem, i. e. Depois, mostradas as suas relações mútuas, ou seja, como
qualiter unum sine altero horum possit esse, é que uma pode existir sem a outra, conclui com isto que a
concludit in hoc quod anima sit omnium alma é o princípio de todas as operações e que “é
praedictorum principium, et quod anima
determinada por elas, como pelas suas partes, que são as
determinatur, sicut per suas partes,
faculdades vegetativa, sensitiva, intelectiva e o
vegetativo, sensitivo, intellectivo, motu, et
quod haec omnia contingit in uno et eodem movimento”20, mas que todas elas se encontram num só
inveniri, sicut in homine. indivíduo, o homem21.

Et Plato posuit diversas esse animas in [7] Platão defendeu também a existência de diversas almas
homine, secundum quas diversae no homem em conformidade com a diversidade das
operationes vitae ei conveniant.
Consequenter movet dubitationem: utrum operações da vida que o integram22. Por esta razão,
unumquodque horum sit anima per se, vel Aristóteles levanta a seguinte dúvida: “cada uma dessas
sit aliqua pars animae; et si sint partes faculdades é a alma” em si mesma ou uma parte da alma?
unius animae, utrum differant solum E no caso de serem partes de uma mesma alma, elas
secundum rationem, aut etiam differant
loco, i. e. organo. Et subiungit quod de diferem segundo o conceito ou também pelo lugar” 23, quer
quibusdam non difficile hoc videtur, sed dizer, pelo órgão? Acrescenta que “em relação a algumas
quaedam sunt quae dubitationem habent. não há dificuldade, mas em relação a outras há lugar para
Ostendit enim consequenter quod
dúvida”24. Prova de imediato que é de fato claro, quanto ao
manifestum est de his quae pertinent ad
animam vegetabilem, et de his quae que diz respeito à alma vegetativa e à alma sensitiva, dado
pertinent ad animam sensibilem, per hoc que certas plantas e animais, mesmo quando seccionados,
quod plantae et animalia quaedam decisa continuam a viver, pelo que todas as operações da alma
vivunt, et in qualibet parte omnes
operationes animae, quae sunt in toto,
que se dão no todo realizam-se numa qualquer das partes.
apparent. Sed de quibus dubitationem Mas relativamente às que dão lugar a dúvidas, mostra,
habeat, ostendit subdens quod de intellectu acrescentando, que “acerca do intelecto e da potência
et perspectiva potentia nihil adhuc teorética, nada é ainda evidente”25. Aristóteles não diz isto
manifestum est. Quod non dicit volens
ostendere quod intellectus non sit anima, ut querendo mostrar que o intelecto não é alma, conforme o
Commentator perverse exponit et sectatores Comentador e seus sequazes explicam de uma maneira
ipsius; manifeste enim hic respondet ad id equivocada, porque é evidente que ele aqui está a
quod supra dixerat: quaedam enim responder ao que havia dito antes, “que relativamente a
dubitationem habent. Unde intelligendum
est: nihil adhuc manifestum est, an algumas há lugar para dúvida”. Daí dever entender-se:
intellectus sit anima vel pars animae; et si nada disto é ainda evidente, se o intelecto é alma ou se é
pars animae, utrum separata loco, vel uma parte da alma, e se for uma parte da alma, se está
ratione tantum. separada localmente ou apenas conceitualmente26.

Et quamvis dicat hoc adhuc non esse [8] E mesmo dizendo que ‘nada é ainda evidente’, não
manifestum, tamen quid circa hoc prima deixa de manifestar a primeira hipótese que vem à cabeça,
fronte appareat manifestat subdens: sed acrescentando: “mas parece que é um outro gênero de
videtur genus alterum animae esse. Quod
non est intelligendum, sicut Commentator et alma”27. Esta afirmação não deve ser interpretada tal como
sectatores eius perverse exponunt, ideo o Comentador e os seus sequazes a explicam, de uma
dictum esse quia intellectus aequivoce maneira ruim28, que Aristóteles a fez porque é
dicatur anima, vel quod praedicta definitio
equivocamente que se chama alma ao intelecto ou porque
sibi aptari non possit; sed qualiter sit hoc
intelligendum apparet ex eo quod subditur: não se lhe pode aplicar a definição referida. A maneira
et hoc solum contingere separari sicut como devemos interpretá-la vem logo a seguir: “e só isto
perpetuum a corruptibili. In hoc ergo est pode ser separado, como o eterno do corruptível.”29 É
alterum genus, quia intellectus videtur esse
quoddam perpetuum, aliae autem partes
nisto, portanto, que consiste o ‘outro gênero’, em parecer
animae corruptibiles. Et quia corruptibile et que o intelecto é algo de eterno enquanto que as outras
perpetuum non videntur in unam partes da alma são corruptíveis. E uma vez que o
substantiam convenire posse, videtur quod corruptível e o eterno não parecem ser compatíveis numa
hoc solum de partibus animae, scil.
intellectus, contingat separari, non quidem a substância, parece que, entre todas as partes da alma, só o
corpore, ut Commentator perverse exponit, intelecto é que pode ser separado, não do corpo,
sed ab aliis partibus animae, ne in unam evidentemente, tal como de maneira ruim o Comentador
substantiam animae conveniant. explica, mas das outras partes da alma, de forma que não
se acham numa só substância da alma30.

Et quod sic sit intelligendum patet ex eo [9] Torna-se evidente que é assim que se deve entender, a
quod subditur: reliquae autem partes partir do que acrescenta: “Daí ser claro, em relação às
animae manifestum est ex his quod non outras partes da alma, que elas não são separáveis”31, quer
separabiles sunt, scil., substantia animae vel
dizer, segundo a substância da alma ou localmente.
loco. De hoc enim supra quaesitum est, et
Já atrás o tínhamos averiguado, e o que então dissemos
hoc ex supradictis probatum est. Et quod
non intelligatur de separabilitate a corpore, chega para provar. Que [Aristóteles] não está pensando na
sed de separabilitate potentiarum ab separabilidade em relação ao corpo, mas da mútua
invicem, patet per hoc quod subditur: separabilidade das potências, o que se torna evidente pelo
ratione autem quod alterae, scil. sunt ad que segue: “é claro que se distinguem conceitualmente”,
invicem manifestum. Sensitivo enim esse et ou seja, umas em relação às outras, “o ato de sentir é
opinativo alterum. Et sic manifeste quod hic diferente do de opinar”32. E, assim, é evidente que aquilo
determinatur, respondet quaestioni supra que aqui determina responde à pergunta feita acima33.
motae. Supra enim quaesitum est, utrum una Com efeito, tinha-se perguntado se uma parte da alma se
pars animae ab alia separata sit ratione
separa de outra apenas conceitualmente ou também
solum, aut etiam loco. Hic dimissa
segundo o lugar. Pondo de parte aqui esta questão relativa
quaestione illa quantum ad intellectum, de
quo nihil hic determinat, de aliis partibus ao intelecto, sobre o qual agora nada determina,
animae dicit manifestum esse quod non sunt relativamente às outras partes da alma [Aristóteles] diz
separabiles, scil. loco, sed sunt alterae com clareza que não são separáveis segundo o lugar, mas
ratione. que o são conceitualmente34.

Hoc ergo habito quod anima determinatur [10] Portanto, posto isto, a saber, que a alma é
vegetativo, sensitivo, intellectivo et motu, determinada pela atividade vegetativa, sensitiva,
vult ostendere consequenter quod quantum intelectiva e pelo movimento, pretende mostrar em
ad omnes istas partes anima unitur corpori seguida que em todas estas partes a alma não se une ao
non sicut nauta navi, sed sicut forma. Et sic corpo como o timoneiro ao navio, mas como uma forma.
certificatum erit quid sit anima in communi,
Deste modo certificar-se-á o que é a alma em geral, o que
quod supra figuraliter tantum dictum est.
antes havia sido dito apenas figurativamente. Prova-o com
Hoc autem probat per operationes animae as operações da alma, assim: é, na verdade, evidente que
sic. Manifestum est enim quod illud quo aquilo que opera alguma coisa é em sentido primordial a
primo aliquid operatur est forma operantis, forma do operador, como quando se diz que é pela alma
sicut dicimur scire anima, et scire scientia, que se conhece e que é pela ciência que se conhece, mas
per prius autem scientia quam anima, quia
pela ciência primeiro do que pela alma, porque pela alma
per animam non scimus nisi in quantum
só conhecemos o que esta possui por ciência; de igual
habet scientiam; et similiter sanari dicimur
et corpore et sanitate, sed prius sanitate. Et modo, dizemos que estamos saudáveis pelo corpo e pela
sic patet scientiam esse formam animae, et saúde, mas primeiro pela saúde35. Desta maneira se torna
sanitatem corporis. evidente que a ciência é a forma da alma e que a saúde é [a
forma] do corpo36.

Ex hoc procedit sic: anima est primum quo [11] A partir daqui acrescenta37: “a alma é em sentido
vivimus (quod dicit propter vegetativum), primordial aquilo pelo qual vivemos”, que é dito por causa
quo sentimus (propter sensitivum), et da faculdade vegetativa, “pelo qual sentimos”, por causa
movemur (propter motivum), et intelligimus da sensitiva, “pelo qual nos movemos”, por causa da
(propter intellectivum); et concludit: quare [faculdade] motora, “e pelo qual pensamos”, por causa da
ratio quaedam utique erit et species, sed [faculdade] intelectiva. E conclui: “Por esta razão ela será
non ut materia et ut subiectum. Manifeste noção e forma, mas não como uma matéria e um
ergo quod supra dixerat, animam esse actum sujeito.38“ Portanto, é evidente que o que disse antes39 - a
corporis physici, hic concludit non solum de alma é o ato de um corpo natural - se conclui aqui, não só
vegetativo, sensitivo et motivo, sed etiam de em relação à faculdade sensitiva, vegetativa e motora, mas
intellectivo. Fuit ergo sententia Aristotelis
também à intelectiva. A doutrina de Aristóteles foi,
portanto, que aquilo pelo qual pensamos é a forma de um
quod id quo intelligimus sit forma corporis
corpo natural40.
physici. Sed ne aliquis dicat, quod id quo
Mas para que ninguém diga que aqui [Aristóteles] não
intelligimus non dicit hic intellectum
afirma que aquilo pelo qual pensamos é o intelecto
possibilem, sed aliquid aliud, manifeste hoc
possível, mas outra coisa qualquer, excluímos
excluditur per id quod Aristoteles in tertio
manifestamente essa hipótese atendendo ao que diz no
de anima dicit, de intellectu possibili
livro III sobre A Alma, falando acerca do intelecto
loquens: dico autem intellectum, quo
possível: “Chamo, então, intelecto àquilo pelo qual a alma
opinatur et intelligit anima.
opina e pensa.”41

Sed antequam ad verba Aristotelis quae sunt [12] Mas antes de passarmos às afirmações de Aristóteles
in tertio de anima accedamus, adhuc no livro III sobre A Alma, detenhamo-nos ainda um pouco
amplius circa verba ipsius in secundo de naquilo que ele diz no livro II, a fim de que pela
anima immoremur, ut ex collatione
verborum eius ad invicem appareat quae
comparação das suas palavras se veja qual foi
fuerit eius sententia de anima. Cum enim efetivamente a sua doutrina acerca da alma. Para dar uma
animam in communi definivisset, incipit definição geral da alma, começou por distinguir as suas
distinguere potentias eius; et dicit quod potências e disse que “as potências da alma eram a
potentiae animae sunt vegetativum,
sensitivum, appetitivum, motivum secundum vegetativa, a sensitiva, a apetitiva, a do movimento local e
locum, intellectivum. Et quod intellectivum a intelectiva”42. Que a [faculdade] intelectiva é o intelecto
sit intellectus, patet per id quod postea é o que se evidencia por aquilo que diz a seguir,
subdit, divisionem explanans: alteris autem explicando a divisão: “Outros, como os homens, possuem
intellectivum et intellectus, ut hominibus.
Vult ergo quod intellectus sit potentia a faculdade intelectiva e o intelecto”43. Pretende, por isso,
animae, quae est actus corporis. que o intelecto é a potência da alma que é o ato de um
corpo44.

Et quod huius animae potentiam dixerit [13] E que deu o nome de intelecto à potência desta alma,
intellectum, et iterum quod supra posita e que além disso a definição da alma anteriormente dada é
definitio animae sit omnibus praedictis comum a todas as potências referidas, torna-se claro por
partibus communis, patet per id quod isto que conclui: “É evidente, pois, que só há uma noção
concludit: manifestum igitur est quoniam de alma, de maneira igual à de figura, porque tal como não
eodem modo una utique erit ratio animae et
figurae: neque enim ibi figura est praeter há figura fora do triângulo e das figuras consecutivas
triangulum et quae consequenter sunt; assim também, neste caso, não há alma além das
neque hic anima praeter praedictas est. Non referidas.”45 Não é preciso, portanto, procurar mais
est ergo quaerenda alia anima praeter nenhuma alma para além das já referidas as quais têm em
praedictas, quibus communis est animae
definitio supra posita. Neque plus de comum a definição supracitada de alma. Aristóteles não
intellectu mentionem facit Aristoteles in hoc menciona mais o intelecto neste livro II, exceto quando
secundo, nisi quod postmodum subdit, quod um pouco mais adiante acrescenta: “Em último lugar e em
ultimum et minimum (dicit esse)
menor número”, diz, “dá-se o raciocínio e o intelecto”, por
ratiocinationem et intellectum, quia scil. in
paucioribus est, ut per sequentia apparet. que existe em poucos46, conforme se vê pelo que vem a
seguir.

Sed quia magna differentia est, quantum ad


[14] Mas dado haver uma grande diferença no modo de
modum operandi, inter intellectum et funcionamento do intelecto e da imaginação, acrescenta
imaginationem, subdit quod de speculativo que “no que toca ao intelecto especulativo, a questão é
intellectu altera ratio est. Reservat enim hoc outra”47. Ele reserva, realmente, o exame dessa questão
inquirendum usque ad tertium. Et ne quis
dicat, sicut Averroes perverse exponit quod para o livro III. E para que ninguém diga, à semelhança da
ideo dicit Aristoteles, quod de intellectu explicação ruim de Averróis, que Aristóteles afirma que é
speculativo est alia ratio, quia intellectus uma outra questão quanto ao intelecto especulativo,
neque est anima, neque pars animae; statim porque o intelecto não é “nem uma alma nem uma parte da
hoc excludit in principio tertii, ubi resumit
de intellectu tractatum. Dicit enim: de parte alma”48, exclui isso imediatamente no princípio do livro
autem animae, qua cognoscit anima et sapit. III, onde resume o que havia tratado acerca do intelecto, e
Nec debet aliquis dicere, quod hoc dicatur se lê: “Ora, sobre a parte da alma pela qual esta conhece e
solum secundum quod intellectus possibilis
sabe”49. Não se deve dizer que afirma isto apenas na
dividitur contra agentem, sicut aliqui
somniant. Hoc enim dictum est antequam medida em que o intelecto possível se distingue do
Aristoteles probet esse intellectum [intelecto] agente, como alguns chegaram a sonhar50; na
possibilem et agentem; unde intellectum verdade, a frase surge antes de Aristóteles provar que há
dicit hic partem in communi, secundum
um intelecto possível e um [intelecto] agente. Daí que ele
quod continet et agentem et possibilem,
sicut supra in secundo manifeste distinxit chame intelecto à parte que integra em comum o intelecto
intellectum contra alias partes animae, ut agente e o possível, tal como acima, no [livro] II, tinha
iam dictum est. claramente distinguido o intelecto das outras partes da
alma, conforme dissemos.

Est autem consideranda mirabilis diligentia [15] Convém considerar a admirável diligência e a ordem
et ordo in processu Aristotelis. Ab his enim do procedimento de Aristóteles. Com efeito, começa, no
incipit in tertio tractare de intellectu quae in
secundo reliquerat indeterminata. Duo livro III, a tratar daquelas questões sobre o intelecto que
autem supra reliquerat indeterminata circa tinha deixado por resolver no livro II. Ora, relativamente
intellectum. Primo quidem, utrum ao intelecto, tinha deixado duas questões por resolver. A
intellectus ab aliis partibus animae separetur primeira, se o intelecto se separava das outras partes da
ratione solum, aut etiam loco: quod quidem
indeterminatum dimisit cum dixit: de alma apenas conceitualmente ou também localmente, que
intellectu autem et perspectiva potentia nihil deixou por resolver quando diz: “acerca do intelecto e da
adhuc manifestum est. Et hanc quaestionem potência teorética, nada é ainda evidente.”51 É esta questão
primo resumit, cum dicit: sive separabili
que retoma primeiro, quando diz: “Existindo separada”,
existente (scil. ab aliis animae partibus), sive
non separabili secundum magnitudinem, sed quer dizer, das outras partes da alma, “ou não existindo
secundum rationem. Pro eodem enim accipit separada segundo a grandeza, mas apenas
hic separabile secundum magnitudinem, pro conceitualmente”. De fato, toma aqui a separabilidade
quo supra dixerat separabile loco.
segundo a grandeza com o mesmo sentido em que antes
dissera “segundo o local”52.
Secundo, indeterminatum reliquerat de [16] Em segundo lugar tinha deixado por resolver a
differentia intellectus ad alias animae partes, questão da diferença entre o intelecto e as outras partes da
cum postmodum dixit: de speculativo autem
intellectu altera ratio est. Et hoc statim alma, ao afirmar, pouco depois: “no que diz respeito ao
quaerit, cum dicit: considerandum quam intelecto especulativo, a questão é outra”53. E
habet differentiam. Hanc autem differentiam imediatamente passa a esta questão, quando diz: “Temos
talem intendit assignare, quae possit stare de considerar, pois, que diferença existe”54. Ora, ele quer
cum utroque praemissorum, scil. sive sit
separabilis anima magnitudine seu loco ab repartir esta diferença de maneira a poder compatibilizá-la
aliis partibus, sive non: quod ipse modus com ambos os pressupostos, a saber, se a alma é separável
loquendi satis indicat. Considerandum enim das outras partes segundo a grandeza ou o local ou não o é,
dicit, quam habet intellectus differentiam ad
aspecto que o modo de falar indica bem. Diz, com efeito,
alias animae partes, sive sit separabilis ab
eis magnitudine seu loco, i. e. subiecto, sive que tem de considerar-se a diferença entre o intelecto e as
non, sed secundum rationem tantum. Unde outras partes da alma, se se separa delas segundo a
manifestum est quod non intendit hanc grandeza ou o local, isto é, segundo o sujeito, ou se não é
differentiam ostendere, quod sit substantia a
corpore separata secundum esse (hoc enim
assim, mas apenas conceitualmente. Portanto, é evidente
non posset salvari cum utroque que ele não pretende mostrar esta diferença nos termos de
praedictorum); sed intendit assignare uma substância existindo separada do corpo, pois isso não
differentiam quantum ad modum operandi; seria compatível com ambos os pressupostos. Outrossim,
unde subdit: et quomodo sit quidem ipsum
intelligere. quer admitir a diferença no modo de operar, pelo que
Sic igitur per ea quae ex verbis Aristotelis acrescenta: “E como acontece a própria intelecção”55.
accipere possumus usque huc, manifestum Assim, pois, por aquilo que até agora podemos interpretar
est quod ipse voluit intellectum esse partem das palavras de Aristóteles, é evidente que concebeu o
animae quae est actus corporis physici.
intelecto como uma parte da alma que é o ato de um corpo
natural.

Sed quia ex quibusdam verbis


[17] Porém, como os averroístas pretendem interpretar
consequentibus, Averroistae accipere volunt
intentionem Aristotelis fuisse, quod algumas passagens a seguir como se a tese de Aristóteles
intellectus non sit anima quae est actus fosse a de que o intelecto nem é uma alma que é ato de um
corporis, aut pars talis animae, ideo etiam corpo nem uma parte dessa alma, é preciso examinar com
diligentius eius verba sequentia
cuidado essas passagens seguintes. Imediatamente após
consideranda sunt. Statim igitur post
quaestionem motam de differentia levantar a questão sobre a diferença entre o intelecto e os
intellectus et sensus, inquirit secundum quid sentidos, pergunta em que é que o intelecto é semelhante
intellectus sit similis sensui, et secundum aos sentidos e em que é que difere. De fato, ele havia
quid ab eo differat. Duo enim supra de sensu
determinaverat, scil. quod sensus est in determinado duas coisas acerca dos sentidos, a saber, que
potentia ad sensibilia, et quod sensus patitur um sentido está em potência para os sensíveis e que
et corrumpitur ab excellentiis sensibilium. padece e se corrompe com um excesso de sensíveis56. É
Hoc ergo est quod quaerit Aristoteles isto precisamente que Aristóteles busca ao dizer: “Se
dicens: si igitur est intelligere sicut sentire,
aut pati aliquid utique erit ab intelligibili, ut portanto pensar é como sentir, ou consistirá em padecer
scil. sic corrumpatur intellectus ab excellenti algo sob a ação do inteligível”, corrompendo-se assim o
intelligibili, sicut sensus ab excellenti intelecto pelo excesso de inteligíveis, tal como os sentidos
sensibili, aut aliquid huiusmodi alterum; i. pelo excesso de sensíveis, “ ou num outro processo algo
e. aut intelligere est aliquid huiusmodi
simile, scil. ei quod est sentire, alterum parecido”57. Quer dizer: ou pensar é ‘algo parecido’,
tamen quantum ad hoc quod non sit semelhante à sensação, sendo porém um outro processo’,
passibile. pelo fato de não ser passível.

Huic igitur quaestioni statim respondet et [18] Responde imediatamente a esta questão e conclui, não
concludit, non ex praecedentibus, sed ex a partir do que disse antes mas do que vem a seguir, que
sequentibus, quae tamen ex praecedentibus aliás decorre claramente do que disse antes, que “convém
manifestantur, quod hanc partem animae
oportet esse impassibilem, ut non
que” esta parte da alma “seja impassível” para não se
corrumpatur sicut sensus; (est tamen corromper como os sentidos; é todavia uma paixão
quaedam alia passio eius, secundum quod diferente daquela em que de uma maneira geral se diz que
intelligere communi modo pati dicitur). In pensar consiste em padecer. Nisso é que é diferente dos
hoc ergo differt a sensu. Sed consequenter sentidos. Mas, de seguida, mostra como é parecida com os
ostendit in quo cum sensu conveniat, quia
scilicet oportet huiusmodi partem esse sentidos: é preciso que uma parte assim seja “susceptível
susceptivam speciei intelligibilis, et quod sit de receber a forma” inteligível e que esteja em potência
in potentia ad huiusmodi speciem, et quod para essa forma sem estar em ato segundo a sua natureza,
non sit hoc in actu secundum suam naturam; como se disse acima em relação aos sentidos, os quais
sicut et de sensu supra dictum est, quod est
in potentia ad sensibilia et non in actu. Et ex estão em potência para os sensíveis, e não em ato. E daí
hoc concludit, quod oportet sic se habere conclui ser preciso que “o intelecto esteja para os
sicut sensitivum ad sensibilia sic intellectum inteligíveis tal como a [faculdade] sensitiva está para os
ad intelligibilia.
sensíveis”58.

Hoc autem induxit ad excludendum [19] Aduz isto para excluir a opinião de Empédocles e de
opinionem Empedoclis et aliorum outros autores antigos que defenderam que aquilo que
antiquorum, qui posuerunt quod cognoscens
est de natura cogniti, utpote quod terram
conhece tem a mesma natureza do conhecido, pois
terra cognoscimus, aquam aqua. Aristoteles conhecemos a terra com a terra e a água com a água59.
autem supra ostendit hoc non esse verum in Mas Aristóteles mostrara antes que isso não era verdade
sensu, quia sensitivum non est actu, sed em relação ao sentido, pois a [faculdade] sensitiva não é
potentia, ea quae sentit; et idem hic dicit de
intellectu. em ato aquilo que sente, mas é-o em potência60, e aqui diz
a mesma coisa sobre o intelecto.

Est autem differentia inter sensum et [20] Há, porém, uma diferença entre os sentidos e o
intellectum, quia sensus non est intelecto, é que os sentidos não têm capacidade para
cognoscitivus omnium, sed visus colorum
conhecer tudo, mas a vista conhece apenas as cores, o
tantum, auditus sonorum, et sic de aliis;
intellectus autem est simpliciter omnium ouvido, os sons, e assim sucessivamente61. Já o intelecto é
cognoscitivus. Dicebant autem antiqui absolutamente capaz de conhecer tudo. Julgando que
philosophi, existimantes quod cognoscens aquilo que conhece deve ter a natureza do conhecido, os
debet habere naturam cogniti, quod animam,
ad hoc quod cognoscat omnia, necesse est antigos filósofos diziam que para que a alma conheça tudo
ex principiis omnium esse commixtam. é preciso que seja composta dos princípios de todas as
Quia vero Aristoteles iam probavit de coisas62. Mas dado que Aristóteles já tinha provado que o
intellectu, per similitudinem sensus, quod intelecto, à semelhança dos sentidos, não é em ato, mas é
non est actu id quod cognoscit sed in
potentia tantum, concludit e contrario, quod apenas em potência, aquilo que conhece, conclui ao
necesse est intellectum, quia cognoscit contrário: “é necessário que o intelecto, visto que conhece
omnia, quod sit immixtus, i. e. non tudo, seja sem mistura”63 isto é, não composto de todas as
compositus ex omnibus, sicut Empedocles coisas, contrariamente ao que Empédocles sustentava.
ponebat.

Et ad hoc inducit testimonium Anaxagorae, [21] E para o confirmar aduz o testemunho de


non tamen de hoc eodem intellectu Anaxágoras, ainda que este não se tenha pronunciado
loquentis, sed de intellectu qui movet
sobre o mesmo intelecto, mas sobre o intelecto que move
omnia. Sicut ergo Anaxagoras dixit illum
intellectum esse immixtum, ut imperet todas as coisas. Tal como Anaxágoras diz que esse
movendo et segregando, hoc nos possumus intelecto é sem mistura para poder mover e separar,
dicere de intellectu humano, quod oportet também podemos dizer do intelecto humano que ele deve
eum esse immixtum ad hoc ut cognoscat
omnia; et hoc probat consequenter, et
ser sem mistura para que possa conhecer todas as coisas.
habetur sic sequens littera in Graeco: intus Prova-o, em seguida, tendo assim em grego o texto
apparens enim prohibebit extraneum et seguinte: “o que aparece no interior impede e obstrui o que
obstruet. Quod potest intelligi ex simili in está fora”64, o que se pode compreender comparando com
visu: si enim esset aliquis color intrinsecus
pupillae, ille color interior prohiberet videri a vista: se, de fato, houvesse uma cor no interior da pupila
extraneum colorem, et quodammodo essa cor impediria que se visse uma cor exterior e, de uma
obstrueret oculum ne alia videret. Similiter, certa maneira, obstruiria a vista para que não visse as
si aliqua natura rerum, quas intellectus outras. De igual modo, se alguma natureza das coisas que
cognoscit, puta terra aut aqua, calidum aut
o intelecto conhece, como por exemplo a terra ou a água,
frigidum, aut aliquid huiusmodi, esset ou o quente ou o frio, ou outras do gênero, estivesse no
intrinseca intellectui, illa natura intrinseca interior do intelecto, essa natureza interna impedi-lo-ia de
impediret ipsum et quodammodo obstrueret,
ne alia cognosceret. conhecer as outras e de alguma forma obstrui-lo-ía65.

Quia ergo omnia cognoscit, concludit quod [22] Uma vez, portanto, que conhece tudo, Aristóteles
non contingit ipsum habere aliquam naturam conclui que o intelecto não pode ter nenhuma natureza
determinatam ex naturis sensibilibus quas determinada das naturezas sensíveis que conhece, “mas só
cognoscit; sed hanc solam naturam habet a natureza de ser possível66”, ou seja, que, pela sua
quod sit possibilis, i. e. in potentia ad ea natureza, está em potência para o que pensa. Ora, o
quae intelligit, quantum est ex sua natura;
intelecto atualiza-se no que pensa, no momento em que o
sed fit actu illa dum ea intelligit in actu,
pensa em ato, tal como o sentido se atualiza no sensível
sicut sensus in actu fit sensibile in actu, ut
supra in secundo dixerat. Concludit ergo em ato, conforme tinha dito atrás no livro II. Conclui,
quod intellectus antequam intelligat in actu então, que antes de pensar em ato, o intelecto “não é em
nihil est actu eorum quae sunt; quod est ato nenhuma das coisas que existem”67, o que vai contra o
contrarium his quae antiqui dicebant, scil. que os Antigos diziam, ou seja, que o intelecto é todas as
quod est actu omnia. coisas em ato.

Et quia fecerat mentionem de dicto [23] E dado que mencionou o dito de Anaxágoras relativo
Anaxagorae loquentis de intellectu qui ao intelecto que governa todas as coisas, a fim de que se
imperat omnibus, ne crederetur de illo não creia que a sua conclusão diz respeito a esse intelecto,
intellectu hoc conclusisse, utitur tali modo Aristóteles empregou a seguinte maneira de falar: “Por
loquendi: vocatus itaque animae intellectus
isso a parte da alma a que se dá o nome de intelecto, e
dico autem intellectum quo opinatur et
chamo intelecto àquilo pelo qual a alma opina e pensa, não
intelligit anima nihil est actu et cetera. Ex
quo duo apparent: primo quidem, quod non é nada em ato”, etc68. Daqui resultam duas coisas69: a
loquitur hic de intellectu qui sit aliqua primeira, que não está a falar de um intelecto que seria
substantia separata, sed de intellectu quem uma substância separada, mas do intelecto que já tinha
supra dixit potentiam et partem animae, quo dito antes estar em potência, e que era uma parte da alma,
anima intelligit; secundo, quod per supra pela qual pensa; a segunda, que, na sequência do que disse
dicta probavit, scil. quod intellectus non antes, provou que o intelecto não tem uma natureza em
habet naturam in actu. Nondum autem ato. Contudo, ainda não provou que não é uma faculdade
probavit quod non sit virtus in corpore, ut que exista no corpo, como Averróis diz70. Conclui-o
Averroes dicit; sed hoc statim concludit ex
porém logo a seguir, na sequência do que disse, posto que
praemissis; nam sequitur: unde neque
continua: “Assim sendo, não é razoável que o intelecto se
misceri est rationabile ipsum corpori.
misture com o corpo.”71

Et hoc secundum probat per primum quod [24] E prova este segundo ponto com o primeiro que tinha
supra probavit, scil. quod intellectus non anteriormente provado, ou seja, que o intelecto não tem
habet aliquam in actu de naturis rerum em ato nenhuma das naturezas das coisas sensíveis. Daqui
sensibilium. Ex quo patet quod non miscetur
tornar-se claro que não se mistura com o corpo, porque se
corpori: quia si misceretur corpori, haberet
se misturasse com o corpo teria alguma das naturezas
aliquam de naturis corporeis; et hoc est quod
corpóreas. E é o que acrescenta: “Tornar-se-ia assim uma
subdit: qualis enim utique aliquis fiet, aut
calidus aut frigidus, si organum aliquod erit determinada qualidade, ou quente ou frio, se tivesse algum
sicut sensitivo. Sensus enim proportionatur órgão, como a [faculdade] sensitiva.”72 Na verdade, um
suo organo et trahitur quodammodo ad suam sentido é proporcionado ao seu órgão e de uma certa
naturam; unde etiam secundum maneira é determinado pela sua natureza; daí que a
immutationem organi immutatur operatio operação dos sentidos varie em conformidade com a
sensus. Sic ergo intelligitur illud non misceri modificação dos órgãos. É assim, portanto, que se deve
corpori, quia non habet organum sicut interpretar a afirmação “não se mistura com o corpo”:
sensus. Et quod intellectus animae non habet
porque não possui órgão como os sentidos. E que o
organum, manifestat per dictum quorundam
intelecto da alma não tem órgão, mostra-o mediante a
qui dixerunt quod anima est locus afirmação daqueles que disseram que “a alma é o lugar das
specierum, large accipientes locum pro formas”73, tomando “lugar”, numa acepção lata, por todo o
omni receptivo, more Platonico; nisi quod tipo de receptor, à maneira platônica; salvo que ser o lugar
esse locum specierum non convenit toti das formas não convém à alma toda, mas tão-só à
animae, sed solum intellectivae. Sensitiva
intelectiva. De fato, a parte sensitiva, não recebe as formas
enim pars non recipit in se species, sed in
em si mesma, mas no órgão, e a parte intelectiva não as
organo; pars autem intellectiva non recipit
eas in organo, sed in se ipsa; item non sic est recebe num órgão, mas em si mesma. Mais: não é “lugar
locus specierum quod habeat eas in actu, sed das formas” porque as contenha em ato, mas apenas em
in potentia tantum. potência.74

Quia ergo iam ostendit quid conveniat [25] Posto que já explicou o que convém ao intelecto na
intellectui ex similitudine sensus, redit ad sua semelhança aos sentidos, regressa ao primeiro ponto
primum quod dixerat, quod oportet partem que dissera sobre o tema, a saber, “convém que a parte
intellectivam esse impassibilem, et sic intelectiva seja impassível”75. E assim, com uma
admirabili subtilitate ex ipsa similitudine
admirável subtileza, partindo da própria semelhança com
sensus, concludit dissimilitudinem. Ostendit
os sentidos chegou à conclusão da sua dessemelhança.
ergo consequenter quod non similiter sit
impassibilis sensus et intellectus, per hoc Mostra, de fato, a seguir, que “os sentidos e o intelecto não
quod sensus corrumpitur ab excellenti são impassíveis da mesma maneira”, porque os sentidos
sensibili, non autem intellectus ab excellenti corrompem-se com o excesso de sensíveis ao passo que o
intelligibili. Et huius causam assignat ex intelecto não se corrompe com o excesso de inteligíveis.
supra probatis, quia sensitivum non est sine Ele atribui a causa para isto com base no que tinha
corpore, sed intellectus est separatus. provado antes: “A [faculdade] sensitiva não existe sem o
corpo, mas o intelecto existe separado.”76

Hoc autem ultimum verbum maxime [26] Ora, eles tomam esta última afirmação,
assumunt ad sui erroris fulcimentum, principalmente, como fundamento do seu erro,
volentes per hoc habere quod intellectus pretendendo concluir com ela que o intelecto nem é uma
neque sit anima neque pars animae, sed alma nem uma parte da alma, mas uma certa substância
quaedam substantia separata. Sed cito
separada77. Mas depressa esquecem o que pouco antes
obliviscuntur eius quod paulo supra
Aristóteles dissera: de fato, aqui ele diz que “a faculdade
Aristoteles dixit. Sic enim hic dicitur quod
sensitivum non est sine corpore et sensitiva não existe sem o corpo e a faculdade está
intellectus est separatus, sicut supra dixit separada”78, porque antes tinha dito que o intelecto tornar-
quod intellectus fieret qualis, aut calidus aut se-ia “de determinada qualidade, ou quente ou frio, se
frigidus, si aliquod organum erit ei, sicut tivesse algum órgão como a [faculdade] sensitiva”79. Por
sensitivo. Ea igitur ratione hic dicitur quod esta razão, portanto, se diz agora que a [faculdade
sensitivum non est sine corpore, intellectus sensitiva] não existe sem um corpo, já que o intelecto é
autem est separatus, quia sensus habet separado, dado que os sentidos possuem um órgão, mas o
organum, non autem intellectus. intelecto não.
Manifestissime igitur apparet absque omni
Das palavras de Aristóteles resulta com toda a evidência e
dubitatione ex verbis Aristotelis hanc fuisse
sem qualquer dúvida que é esta a sua doutrina acerca do
eius sententiam de intellectu possibili, quod
intellectus sit aliquid animae quae est actus intelecto possível: é alguma coisa da alma que é ato de um
corporis; ita tamen quod intellectus animae corpo, isto, porém, sem que esse intelecto da alma possua
non habeat aliquod organum corporale, sicut qualquer órgão corporal tal como sucede com as restantes
habent ceterae potentiae animae. faculdades da alma.

Quomodo autem hoc esse possit, quod [27] Caso se considere o que se passa com outras coisas,
anima sit forma corporis et aliqua virtus não é difícil compreender como é que a alma pode ser
animae non sit corporis virtus, non difficile
forma do corpo e uma certa faculdade da alma não ser uma
est intelligere, si quis etiam in aliis rebus
consideret. Videmus enim in multis quod faculdade do corpo80. De fato, vemos, em muitas coisas,
aliqua forma est quidem actus corporis ex que uma forma é o ato de um corpo composto de
elementis commixti, et tamen habet aliquam elementos e no entanto possui uma certa faculdade que
virtutem quae non est virtus alicuius não é a faculdade de nenhum elemento, pois pertence à
elementi, sed competit tali formae ex altiori
principio, puta corpore caelesti; sicut quod forma em virtude de um princípio superior, como por
magnes habet virtutem attrahendi ferrum, et exemplo um corpo celeste; tal como o ímã, que tem a
iaspis restringendi sanguinem. Et paulatim capacidade para atrair o ferro, ou o jaspe, para coagular o
videmus, secundum quod formae sunt sangue. E à medida que as formas vão sendo cada vez
nobiliores, quod habent aliquas virtutes
magis ac magis supergredientes materiam. mais nobres vemos que possuem capacidades que
Unde ultima formarum, quae est anima progressivamente superam cada vez mais a matéria. Daí
humana, habet virtutem totaliter que a última forma, que é a alma humana, tenha a
supergredientem materiam corporalem, scil.
capacidade de superar totalmente a matéria corporal, que é
intellectum. Sic ergo intellectus separatus
est, quia non est virtus in corpore, sed est o intelecto. Desta feita, o intelecto é separado, visto não
virtus in anima; anima autem est actus ser uma faculdade existente no corpo, mas é uma
corporis. faculdade que existe na alma, enquanto que a alma é o ato
de um corpo.81

Nec dicimus quod anima, in qua est [28] Não dizemos que a alma, onde o intelecto se
intellectus, sic excedat materiam corporalem encontra, supere de tal maneira a matéria corporal que não
quod non habeat esse in corpore; sed quod exista no corpo, mas que o intelecto, a que Aristóteles dá o
intellectus, quem Aristoteles dicit potentiam
animae, non est actus corporis. Neque enim nome de “potência da alma”, não é o ato de um corpo.
anima est actus corporis mediantibus suis Com efeito, a alma não é o ato de um corpo mediante as
potentiis, sed anima per se ipsam est actus suas potências, mas é por si mesma o ato do corpo que dá
corporis dans corpori esse specificum. ao corpo o seu ser específico. Mas algumas das suas
Aliquae autem potentiae eius sunt actus
partium quarumdam corporis, perficientes potências são o ato de certas partes do corpo,
ipsas ad aliquas operationes; sic autem aperfeiçoando-as com vista a certas operações; é assim
potentia quae est intellectus, nullius corporis que a potência em que o intelecto consiste não é o ato de
actus est, quia eius operatio non fit per
nenhum corpo, pois a sua operação não se realiza através
organum corporale.
de um órgão corporal.

Et ne alicui videatur quod hoc ex nostro [29] E para que ninguém julgue que dizemos isto segundo
sensu dicamus praeter Aristotelis o nosso modo de ver, sem levar em conta a intenção de
intentionem, inducenda sunt verba Aristóteles, temos que aduzir os textos de Aristóteles que
Aristotelis expresse hoc dicentis. Quaerit
explicitamente sustentam uma tal tese. No livro II da
enim in secundo Physic., usque ad quantum
oporteat cognoscere speciem et quod quid
Física, pergunta: “até que ponto se deve conhecer a
est; non enim omnem formam considerare espécie e a quididade”82, uma vez que o filósofo natural
pertinet ad physicum. Et solvit subdens: aut não tem competência para considerar todas as formas, e
quemadmodum medicum nervum et fabrum responde: “ou como o médico considera o nervo e o
aes, usquequo? I. e. usque ad aliquem ferreiro o bronze e não mais”83, quer dizer, até atingir certo
terminum. Et usque ad quem terminum limite. E mostra qual é esse limite, acrescentando: “até à
ostendit subdens: cuius enim causa
causa de cada um”, como se dissesse: o médico considera
unumquodque; quasi dicat: in tantum
medicus considerat nervum, in quantum o nervo enquanto este tem a ver com a saúde, que é a
pertinet ad sanitatem, propter quam medicus causa pela qual o médico o considera, e o mesmo faz o
nervum considerat, et similiter faber aes ferreiro que considera o bronze por causa da obra a
propter artificium. Et quia physicus produzir. E uma vez que o filósofo natural considera a
considerat formam in quantum est in forma enquanto ela está na matéria - é assim, com efeito,
materia (sic enim est forma corporis que ela é a forma do corpo móvel - então, de igual modo,
mobilis), similiter accipiendum quod
se deve admitir que o filósofo natural considera a forma
naturalis in tantum considerat formam, in
quantum est in materia. Terminus ergo apenas enquanto ela está na matéria. Por conseguinte, o
considerationis physici de formis, est in limite da consideração das formas pelo físico está nas
formis quae sunt in materia quodammodo, et formas que de uma certa maneira estão na matéria e que de
alio modo non in materia. Istae enim formae uma outra maneira não estão na matéria; estas formas
sunt in confinio formarum separatarum et estão, pois, no limite entre as formas separadas e as formas
materialium. Unde subdit: et circa haec materiais84. Daí acrescentar: “É a elas” que se circunscreve
(scil. terminatur consideratio naturalis de a consideração natural das formas, “elas que são formas
formis) quae sunt separatae quidem species,
separadas, embora numa matéria”. Quais, porém, sejam
in materia autem. Quae autem sint istae
formae, ostendit subdens: homo enim estas formas, mostra-o, acrescentando: “De fato, é o
hominem generat ex materia, et sol. Forma homem que gera o homem a partir da matéria, mais o
ergo hominis est in materia, et separata: in Sol”85. Com efeito, a forma do homem está na matéria e
materia quidem, secundum esse quod dat está separada: está na matéria segundo o ser que dá ao
corpori (sic enim est terminus generationis); corpo, pois é assim que ela é termo da geração, mas está
separata autem secundum virtutem quae est
separada segundo a faculdade que é própria do homem,
propria homini, scil. secundum intellectum.
Non est ergo impossibile, quod aliqua forma
isto é, segundo o intelecto. Não é, portanto, impossível que
sit in materia, et virtus eius sit separata, uma forma esteja na matéria e a sua faculdade esteja
sicut expositum est de intellectu. separada, conforme expusemos acerca do intelecto.86

Adhuc autem alio modo procedunt ad [30] Mas eles têm também outro modo de provar que a
ostendendum quod Aristotelis sententia fuit
quod intellectus non sit anima nec pars doutrina de Aristóteles foi a de que o intelecto não é a
animae quae unitur corpori ut forma. Dicit alma ou uma parte da alma que se une ao corpo como
enim Aristoteles in pluribus locis, forma. Na verdade, Aristóteles diz em vários lugares que o
intellectum esse perpetuum et
incorruptibilem, sicut patet in secundo de intelecto é perpétuo e incorruptível; é o que é evidente no
anima, ubi dixit: hoc solum contingere livro II de A Alma, onde diz: “só ela se pode separar, como
separari, sicut perpetuum a corruptibili; et
in primo, ubi dixit quod intellectus videtur o eterno do corruptível”; no livro I, onde diz que o
esse substantia quaedam, et non corrumpi; intelecto parece ser uma certa substância “e não estar
et in tertio, ubi dixit: separatus autem est
solum hoc, quod vere est, et hoc solum
sujeito à corrupção”; e no livro III, onde diz: “Só é
immortale et perpetuum est (quamvis hoc separado o que verdadeiramente é e só ele é imortal e
ultimum quidam non exponant de intellectu perpétuo”, ainda que alguns não apliquem esta última frase
possibili, sed de intellectu agente). Ex
quibus omnibus verbis apparet, quod ao intelecto possível, mas ao intelecto agente87.
Aristoteles voluit intellectum esse aliquid A partir de todas estas afirmações torna-se evidente que
incorruptibile.
Aristóteles pensou o intelecto como algo incorruptível.

Videtur autem quod nihil incorruptibile [31] Também parece que nada incorruptível pode ser a
possit esse forma corporis corruptibilis. Non forma de um corpo corruptível. De fato, estar na matéria
enim est accidentale formae, sed per se ei não é acidental para uma forma, mas isso é algo que lhe é
convenit esse in materia; alioquin ex materia por si inerente; se assim não fosse, da matéria e da forma
et forma fieret unum per accidens. Nihil resultaria um uno por acidente. Mas nada pode existir sem
autem potest esse sine eo, quod inest ei per o que lhe é por si inerente; logo, a forma do corpo não
se. Ergo forma corporis non potest esse sine pode existir sem o corpo. Se, portanto, o corpo fosse
corpore. Si ergo corpus sit corruptibile,
corruptível seguir-se-ia que a forma do corpo seria
sequitur formam corporis corruptibilem
corruptível.
esse.
Praeterea, formae separatae a materia, et Além do mais, as formas separadas da matéria e as que se
formae quae sunt in materia, non sunt encontram numa matéria não são da mesma espécie,
eaedem specie, ut probatur in septimo conforme se prova no livro VII da Metafísica88. Muito
Metaph. Multo ergo minus una et eadem menos, portanto, uma só e mesma forma numericamente
forma numero potest nunc esse in corpore idêntica pode num momento estar no corpo e noutro
nunc autem sine corpore. Destructo ergo momento estar sem o corpo. Logo, uma vez destruído o
corpore, vel destruitur forma corporis, vel corpo, ou é destruída a forma do corpo ou ela passa para
transit ad aliud corpus. Si ergo intellectus um outro corpo. Se, portanto, o intelecto não é a forma do
est forma corporis, videtur ex necessitate
corpo, parece seguir-se necessariamente que o intelecto é
sequi quod intellectus sit corruptibilis.
corruptível.89
Est autem sciendum, quod ratio haec [32] É preciso saber que este argumento condicionou
Platonicos movit. Nam Gregorius Nyssenus, muitos autores. Por causa dele Gregório de Nissa atribui a
imponit Aristoteli, e contrario, quod quia
posuit animam esse formam, quod posuerit Aristóteles uma opinião contrária, ou seja, haver
eam esse corruptibilem. Quidam vero sustentado que a alma era corruptível porque defendera
posuerunt propter hoc, animam transire de que ela era uma forma. Outros, por seu lado, também por
corpore in corpus. Quidam etiam posuerunt, causa dele sustentaram que a alma passa de corpo em
quod anima haberet corpus quoddam
incorruptibile, a quo nunquam separaretur. corpo. Outros, ainda, defenderam que a alma teria um
Et ideo ostendendum est per verba certo corpo incorruptível do qual nunca haveria de se
Aristotelis, quod sic posuit intellectivam separar. Por tudo isto, deve mostrar-se com as palavras de
animam esse formam quod tamen posuit
Aristóteles que ele defendeu que a alma intelectiva é
eam incorruptibilem.
forma e que é também incorruptível.90

In undecimo enim Metaph., postquam [33] Na verdade, no livro IX da Metafísica, depois de


ostenderat quod formae non sunt ante mostrar que as formas não existem antes das matérias,
materias, quia quando sanatur homo tunc porque “quando o homem sara é por causa da saúde, e a
est sanitas, et figura aeneae sphaerae simul
figura da esfera de bronze existe juntamente com a esfera
est cum sphaera aenea; consequenter
de bronze”, pergunta, na seqüência, se uma forma se
inquirit utrum aliqua forma remaneat post
materiam, et dicit sic, secundum mantém depois da matéria91. E responde assim, de acordo
translationem Boetii: si vero aliquid com a tradução de Boécio: “Se verdadeiramente alguma
posterius remaneat (scil. post materiam) coisa se mantém a seguir”, isto é, depois da matéria, “é o
considerandum est. In quibusdam enim nihil que é preciso examinar: em algumas, de fato, nada o
prohibet, ut si anima huiusmodi est, non proíbe, como com a alma, não toda a alma, mas o
omnis sed intellectus; omnem enim
intelecto; mas em todas é talvez impossível”92. É claro,
impossibile est fortasse. Patet ergo quod
animam, quae est forma quantum ad portanto, que nada impede a alma, que é forma, no que
intellectivam partem, dicit nihil prohibere toca à sua parte intelectiva, de se manter depois do corpo,
remanere post corpus, et tamen ante corpus ainda que não exista antes do corpo. Porque tendo dito, em
non fuisse. Cum enim absolute dixisset, sentido absoluto, que as causas motoras existem antes,
quod causae moventes sunt ante, non autem mas as formais não, ele não perguntou se uma forma
causae formales, non quaesivit utrum aliqua qualquer existe antes da matéria, mas outrossim se alguma
forma esset ante materiam, sed utrum aliqua
forma se mantém depois da matéria. E responde que nada
forma remaneat post materiam; et dicit hoc
nihil prohibere de forma quae est anima, o impede tratando-se da forma que é a alma, no que toca à
quantum ad intellectivam partem. parte intelectiva.93

Cum igitur, secundum praemissa Aristotelis [34] Como, portanto, segundo estas palavras de
verba, haec forma quae est anima, post Aristóteles, a forma que a alma é permanece depois do
corpus remaneat, non tota, sed intellectus;
considerandum restat quare magis anima corpo, não toda ela, mas o intelecto, falta considerar
secundum partem intellectivam post corpus porque é que a alma permanece depois do corpo mais
remaneat, quam secundum alias partes, et segundo a sua parte intelectiva do que segundo as outras
quam aliae formae post suas materias. Cuius partes, e mais do que as outras formas, depois das suas
quidem rationem ex ipsis Aristotelis verbis
assumere oportet. Dicit enim: separatum matérias. Deve ir buscar-se a razão para tal nas próprias
autem est solum hoc quod vere est; et hoc palavras de Aristóteles. De fato, ele diz: “só é separado o
solum immortale et perpetuum est. Hanc que verdadeiramente é, só isso é imortal e perpétuo”94.
igitur rationem assignare videtur quare hoc
Esta é a razão, pois, pela qual parece conceder que ‘só
solum immortale et perpetuum esse videtur:
quia hoc solum est separatum. Sed de quo isso’ parece ser ‘imortal e perpétuo’ pelo fato de ‘ser
hic loquatur, dubium esse potest, quibusdam separado’. Mas pode duvidar-se quanto ao assunto de que
dicentibus, quod loquitur de intellectu está a tratar, pois alguns dizem que fala aqui do intelecto
possibili; quibusdam, quod de agente:
quorum utrumque apparet esse falsum, si
possível enquanto outros dizem que é do intelecto agente.
diligenter verba Aristotelis considerentur. Se considerarmos com discernimento as palavras de
Nam de utroque Aristoteles dixerat ipsum Aristóteles, enganam-se uns e outros, porque Aristóteles
esse separatum. Restat igitur quod tinha dito de ambos que era separado. Resta, pois,
intelligatur de tota intellectiva parte, quae entendê-lo de toda a parte intelectiva, a qual se diz
quidem separata dicitur, quia non est ei separada porque não possui nenhum órgão, tal como
aliquod organum, sicut ex verbis Aristotelis
patet. transparece das palavras de Aristóteles.95

Dixerat autem Aristoteles in principio libri [35] Mas no princípio da obra sobre A Alma Aristóteles
de anima, quod si est aliquid animae tinha dito que “se há alguma operação da alma ou paixão
operum aut passionum proprium, continget
utique ipsam separari; si vero nullum est
que lhe seja própria, então ela poderá ser separada; mas se
proprium ipsius, non utique erit separabilis. nenhuma lhe for própria, ela não poderá ser separada”96. A
Cuius quidem consequentiae ratio talis est: razão desta consequência está em que cada coisa age na
quia unumquodque operatur in quantum est medida em que é um ser; por conseguinte, a cada coisa
ens, eo igitur modo unicuique competit
operari quo sibi competit esse. Formae igitur cabe agir segundo o modo em que é ser. Portanto, as
quae nullam operationem habent sine formas que não têm nenhuma operação que não
communicatione suae materiae, ipsae non comunique com a matéria não agem, mas é o composto
operantur, sed compositum est quod que age por intermédio da forma. Daí que, em rigor, estas
operatur per formam. Unde huiusmodi
formae ipsae quidem proprie loquendo non formas não existam, mas que qualquer coisa existe por
sunt, sed eis aliquid est. Sicut enim calor elas. Com efeito, tal como não é o calor que aquece, mas o
non calefacit, sed calidum; ita etiam calor quente, assim também, em rigor, não é o calor que existe
non est proprie loquendo, sed calidum est
mas o quente que existe pelo calor. É por isso que
per calorem; propter quod Aristoteles dicit
in undecimo Metaph., quod de accidentibus Aristóteles diz no livro XI da Metafísica que não se pode
non vere dicitur, quod sunt entia, sed magis dizer verdadeiramente que os acidentes sejam ser, mas que
quod sunt entis. Et similis ratio est de formis são de um ser97. Existe um argumento semelhante para as
substantialibus, quae nullam operationem
formas substanciais que não têm nenhuma operação que
habent absque communicatione materiae,
hoc excepto quod huiusmodi formae sunt não comunique com a matéria, com a ressalva de que tais
principium essendi substantialiter. formas são o princípio da existência substancial.98
Forma igitur quae habet operationem Por conseguinte, é a forma que tem uma operação numa
secundum aliquam sui potentiam vel
virtutem absque communicatione suae
das suas potências ou virtudes sem comunicação com uma
materiae, ipsa est quae habet esse, nec est matéria que tem o ser, e não existe apenas em razão do
per esse compositi tantum, sicut aliae composto tal como as outras formas, antes pelo contrário,
formae, sed magis compositum est per esse o composto é que existe em virtude do seu ser. Assim
eius. Et ideo destructo composito destruitur
illa forma, quae est per esse compositi; non sendo, uma vez destruído o composto destrói-se a forma
autem oportet quod destruatur, ad que existe pelo ser do composto; mas não é preciso que
destructionem compositi, illa forma per com a destruição do composto se destrua a forma por cujo
cuius esse compositum est et non ipsa per ser esse composto existe, e não a forma pelo ser do
esse compositi.
composto.

Si quis autem contra hoc obiiciat, quod [36] Mas como alguém objeta contra isto que no livro I
Aristoteles dicit in primo de anima, quod sobre A Alma Aristóteles diz que “pensar e odiar não são
intelligere et amare et odire non sunt illius
as paixões disso, isto é, da alma, mas de quem a possui
passiones (i. e. animae), sed huius habentis
illud, secundum quod illud habet; quare et enquanto a possui, pelo que, tendo perecido, nem se
hoc corrupto neque memoratur neque amat: lembra nem ama, já que não eram dela, mas do composto,
non enim illius erant, sed communis, quod que precisamente pereceu”, a resposta é óbvia, com o que
quidem destructum est; patet responsio per
Temístio diz ao explicar esse passo: “Aqui Aristóteles
dictum Themistii hoc exponentis, qui
dicit:nunc dubitanti magis quam docenti parece exprimir-se mais em tom dubitativo do que como
assimilatur Aristoteles. Nondum enim se estivesse a ensinar”99. Na verdade, ele ainda não refutou
destruxerat opinionem dicentium non a opinião daqueles que dizem que não há distinção entre o
differre intellectum et sensum. Unde in toto
illo capitulo loquitur de intellectu sicut de
intelecto e os sentidos. Em todo aquele capítulo fala do
sensu. Quod patet praecipue ubi probat intelecto da mesma maneira que fala dos sentidos, o que é
intellectum incorruptibilem per exemplum particularmente evidente onde prova que o intelecto é
sensus, qui non corrumpitur ex senectute. incorruptível a partir do exemplo do sentido que não se
Unde et per totum sub conditione et sub
destróem com a velhice100. Daí que se exprima em todo o
dubio loquitur sicut inquirens, semper capítulo no condicional e de maneira dubitativa, como que
coniungens ea, quae sunt intellectus, his investigando, conjugando sempre aquilo que diz respeito
quae sunt sensus: quod praecipue apparet ex
eo quod in principio solutionis dicit: si enim ao intelecto com o que diz respeito aos sentidos. É o que
et quam maxime dolere et gaudere et se torna claro principalmente por aquilo que diz no início
intelligere et cetera. Si quis autem da solução: “Se, pois, mais do que o sofrer, o alegrar-se e
pertinaciter dicere vellet quod Aristoteles ibi o pensar” etc101. Se alguém, portanto, teimosamente,
loquitur determinando; adhuc restat
responsio, quia intelligere dicitur esse actus quiser dizer que Aristóteles faz uma verdadeira afirmação,
coniuncti non per se, sed per accidens, in resta ainda uma resposta: que não é por si, mas por
quantum scil. eius obiectum, quod est acidente, que se diz que pensar é o ato do composto, isto é,
phantasma, est in organo corporali, non
enquanto o seu objeto que é a imagem está num órgão
quod iste actus per organum corporale
exerceatur. corporal, e não enquanto este ato se exerce por um órgão
corporal.102

Si quis autem quaerat ulterius: si intellectus [37] Caso ainda alguém pergunte: se o intelecto não pode
sine phantasmate non intelligit, quomodo
pensar sem imagens, como é que então a alma terá uma
ergo anima habebit operationem
intellectualem, postquam fuerit a corpore operação intelectual depois de se ter separado do corpo?
separata? Scire debet qui hoc obiicit, quod Quem objeto assim deve saber que a solução desta questão
istam quaestionem solvere non pertinet ad não compete ao filósofo natural. Por este motivo,
naturalem. Unde Aristoteles in secundo
Physic. dicit, de anima loquens: quomodo
Aristóteles, falando da alma, diz no livro II da Física: “É
autem separabile hoc se habeat et quid sit, tarefa da filosofia primeira determinar como é que e em
philosophiae primae opus est determinare. que consiste esse estado de separação”103. Pode então
Aestimandum est enim quod alium modum julgar-se que no estado separado ela terá uma maneira
intelligendi habebit separata, quam habeat
coniuncta, similem scil. aliis substantiis diferente de pensar de quando está unida, uma maneira
separatis. Unde non sine causa Aristoteles semelhante à das outras substâncias separadas. Daí que
quaerit in tertio de anima, utrum intellectus não seja sem razão que Aristóteles pergunte no livro III de
non separatus a magnitudine intelligat A Alma “se o intelecto não separado da grandeza pode
aliquid separatum. Per quod dat intelligere
quod aliquid poterit intelligere separatus, pensar alguma coisa separada”104, dando assim a entender
quod non potest non separatus. que, separado, pode pensar alguma coisa que, não
separado, não pode pensar.

In quibus etiam verbis valde notandum est, [38] Neste passo há que reparar bem que, embora antes
quod cum superius utrumque intellectum tivesse dito que um e outro intelecto eram separados105,
(scil. possibilem et agentem), dixerit
isto é, o [intelecto] possível e o agente, aqui, porém, não
separatum, hic tamen dicit eum non
separatum. Est enim separatus, in quantum diz que está separado. E que é separado enquanto não é ato
non est actus organi; non separatus vero, in de um órgão, mas não é separado enquanto é uma parte ou
quantum est pars sive potentia animae quae uma potência da alma que é ato de um corpo.
est actus corporis, sicut supra dictum est.
Huiusmodi autem quaestiones certissime
A partir do que diz no início do livro XII da Metafísica106,
colligi potest, Aristotelem solvisse in his pode com toda a certeza deduzir-se que Aristóteles
quae patet eum scripsisse de substantiis resolveu questões deste gênero nos livros que decerto
separatis, ex his quae dicit in principio escreveu sobre as substâncias separadas - os quais eu vi
duodecimi Metaph., quos etiam libros vidi
numero X, licet nondum in lingua nostra em número de dez, embora ainda não traduzidos para a
translatos. nossa língua107.

Secundum hoc igitur patet quod rationes [39] Em conformidade com o que se acaba de dizer, é
inductae in contrarium necessitatem non evidente que os argumentos avançados em favor da tese
habent. Essentiale enim est animae quod contrária não têm caráter de necessidade. É essencial, de
corpori uniatur; sed hoc impeditur per fato, para a alma, unir-se ao corpo, mas isso pode ser
accidens, non ex parte sua sed ex parte impedido por acidente, não pela sua parte, mas pela do
corporis quod corrumpitur; sicut per se corpo, quando se corrompe, tal como ao que é leve cabe
competit levi sursum esse, et hoc est levi
por si estar em cima e “estar em cima é a propriedade do
esse ut sit sursum, ut Aristoteles dicit in que é leve”, conforme Aristóteles diz no livro VIII da
octavo Physic.; contingit tamen per aliquod Física, “mesmo quando algum obstáculo o impede de estar
impedimentum quod non sit sursum. em cima”108.

Ex hoc etiam patet solutio alterius rationis. [40] Também a partir daqui se torna clara a solução do
Sicut enim quod habet naturam ut sit outro argumento109. Com efeito, tal como aquilo cuja
sursum, et quod non habet naturam ut sit natureza é estar em cima e aquilo cuja natureza não é estar
sursum, specie differunt; et tamen idem et
specie et numero est quod habet naturam ut em cima são de espécies diferentes, mantendo-se aquilo
sit sursum, licet quandoque sit sursum et cuja natureza é estar em cima idêntico em espécie e em
quandoque non sit sursum propter aliquod número, mesmo se, por causa de algum impedimento,
impedimentum: ita differunt specie duae
umas vezes está em cima e outras não, assim também duas
formae, quarum una habet naturam ut
uniatur corpori, alia vero non habet; sed formas são de espécies diferentes se a natureza de uma for
tamen unum et idem specie et numero esse a de unir-se ao corpo e a de outra não, mantendo-se a que
potest, habens naturam ut uniatur corpori, tem por natureza unir-se ao corpo qualquer coisa
licet quandoque sit actu unitum, quandoque
específica e numericamente idêntica, mesmo quando está
non actu unitum propter aliquod
impedimentum. umas vezes unida em ato ao corpo e outras não, devido a
qualquer impedimento.

Adhuc autem ad sui erroris fulcimentum [41] Mas para fundamentar o seu erro alegam o que
assumunt quod Aristoteles dicit in libro de
generatione animalium, scil. intellectum
Aristóteles diz na obra A Geração dos Animais, a saber,
solum de foris advenire et divinum esse que “só o intelecto procede do exterior e só ele é
solum. Nulla autem forma quae est actus divino”110; ora, nenhuma forma que é ato de uma matéria
materiae, advenit de foris, sed educitur de procede do exterior, mas provém por edução da potência
potentia materiae. Intellectus igitur non est
forma corporis. da matéria, logo o intelecto não é a forma do corpo.

Obiiciunt etiam, quod omnis forma corporis [42] Também objetam que toda a forma de um corpo
mixti causatur ex elementis; unde si misto é causada pelos seus elementos; por isso, se o
intellectus esset forma corporis humani, non intelecto fosse forma do corpo humano não seria de
esset ab extrinseco, sed esset ex elementis origem extrínseca, mas seria causado pelos seus
causatus. elementos111.

Obiiciunt etiam ulterius circa hoc, quia [43] Objetam ainda mais, em relação a este ponto: que se
sequeretur quod etiam vegetativum et seguiria que também a [faculdades] vegetativa e a
sensitivum esset ab extrinseco; quod est sensitiva teriam uma origem extrínseca, o que vai contra
contra Aristotelem, praecipue si esset una Aristóteles; principalmente se a alma fosse a única
substantia animae, cuius potentiae essent substância cujas potências fossem [as faculdades]
vegetativum, sensitivum et intellectivum;
vegetativa, sensitiva e intelectiva, uma vez que, segundo
cum intellectus sit ab extrinseco, secundum
Aristóteles, o intelecto é de origem extrínseca.112
Aristotelem.

Horum autem solutio in promptu apparet [44] Mas, atendendo ao que deixamos dito, a solução
secundum praemissa. Cum enim dicitur destes argumentos é imediatamente evidente. Na verdade,
quod omnis forma educitur de potentia quando se diz que toda a forma “provém por edução da
materiae, considerandum videtur, quid sit
formam de potentia materiae educi. Si enim
potência da matéria”, parece ter de considerar-se o que
hoc nihil aliud sit quam materiam quer dizer “provir por edução da potência da matéria”113.
praeexistere in potentia ad formam, nihil Se, de fato, não se distingue da preexistência da matéria
prohibet sic dicere materiam corporalem em potência para a forma, nada impede que se diga que a
praeextitisse in potentia ad animam
intellectivam; unde Aristoteles dicit in libro matéria corporal preexiste em potência em relação à alma
de generatione animalium: primum quidem intelectiva. Daí que Aristóteles diga no livro A Geração
omnia visa sunt vivere talia (scil. separata dos Animais: “Parece que todas as coisas vivem assim, a
fetuum) plantae vita. Consequenter autem saber, da vida separada dos fetos e das plantas;
palam quia et de sensitiva dicendum anima consequentemente, deve dizer-se a mesma coisa da alma
et de activa et de intellectiva; omnes enim sensitiva e da ativa e da intelectiva, todas devem
necessarium potentia prius habere quam
actu. forçosamente estar em potência antes de estarem em
ato.”114

Sed quia potentia dicitur ad actum, necesse [45] Mas uma vez que a potência se diz em relação ao ato,
est ut unumquodque secundum eam é necessário que todas as coisas estejam em potência na
rationem sit in potentia, secundum quam
rationem convenit sibi esse actu. Iam autem relação correspondente a quando estão em ato. Já
ostensum est quod aliis formis, quae non mostramos no que concerne às outras formas, as que não
habent operationem absque communicatione têm operação sem comunicar com uma matéria, que elas
materiae, convenit sic esse actu, ut magis
devem ser em ato de uma maneira tal que, mais do que
ipsae sint quibus composita sunt, et
quodammodo compositis coexistentes, terem o seu próprio ser, são aquilo de que se compõem e
quam quod ipsae suum esse habeant; unde de certo modo coexistem com os seus compostos; daí que,
sicut totum esse earum est in concretione ad tal como todo o seu ser está na concreção com a matéria
materiam, ita totaliter educi dicuntur de
assim também se diz que provém completamente por
potentia materiae. Anima autem intellectiva,
cum habeat operationem sine corpore, non edução da potência da matéria115. Como porém a alma
est esse suum solum in concretione ad intelectiva pode operar sem o corpo, o seu ser não está
materiam; unde non potest dici quod apenas na concreção com a matéria; por isso não se pode
educatur de materia, sed magis quod est a
principio extrinseco. Et hoc ex verbis
dizer que provém da matéria por edução, mas antes que é
Aristotelis apparet: relinquitur autem por um princípio extrínseco. E o que se evidencia a partir
intellectum solum de foris advenire, et das palavras de Aristóteles: “Resta, portanto, que só o
divinum esse solum; et causam assignat intelecto provenha de fora e só ele seja divino”, e
subdens: nihil enim ipsius operationi
communicat corporalis operatio. apresenta a razão acrescentando: “Nada, de fato, na sua
operação comunica com a operação corpórea.”116

Miror autem unde secunda obiectio [46] Dado que nenhuma alma é causada pela mistura dos
processerit, quod si anima intellectiva esset elementos, admiro-me de onde poderia vir a segunda
forma corporis mixti, quod causaretur ex objeção, que diz que se a alma intelectiva fosse a forma de
commixtione elementorum, cum nulla
um corpo misto seria causada pela mistura dos
anima ex commixtione elementorum
elementos”117. De fato, Aristóteles diz, imediatamente
causetur. Dicit enim Aristoteles immediate
post verba praemissa: omnis quidem igitur
após as palavras citadas: “Parece, portanto, que toda a
animae virtus altero corpore visa est potência da alma participa de um outro corpo, mais divino
participare et diviniore vocatis elementis; ut do que os chamados elementos: assim como as almas se
autem differunt honorabilitate animae et distinguem entre si pela sua honorabilidade e vileza assim
vilitate invicem, sic et talis differt natura. também se distingue a sua natureza; em todo o sêmen
Omnium quidem enim in spermate existit existe aquilo que o torna capaz de gerar e a que se dá o
quod facit generativa esse spermata, nome de quente. Mas este quente não é nem o fogo nem
vocatum calidum; hoc autem non ignis uma potência semelhante, mas certo espírito contido no
neque talis virtus est, sed interceptus in
sêmen, na parte espumosa, e esse espírito tem uma
spermate et in spumoso spiritus aliquis, et in
natureza cuja existência é proporcionada à ordenação dos
spiritu natura proportionalis existens
astros.”118 Por conseguinte, nem o intelecto nem sequer a
astrorum ordinationi. Ergo, ex mixtione
elementorum necdum intellectus, sed nec alma vegetativa é produzida com base numa mistura de
anima vegetativa producitur. elementos.

Quod vero tertio obiicitur, quod sequeretur [47] O que nos objetam em terceiro lugar, a saber, que
vegetativum et sensitivum esse ab seguir-se-ía que a faculdade sensitiva e vegetativa teriam
extrinseco, non est ad propositum. Iam enim uma origem extrínseca, nada tem a ver para o caso. Já
patet ex verbis Aristotelis, quod ipse hoc
ficou patente, pelas palavras do próprio Aristóteles, que
indeterminatum relinquit, utrum intellectus
differat ab aliis partibus animae subiecto et
ele deixou por determinar se o intelecto difere das outras
partes da alma pelo sujeito e pelo local, como diz Platão,
loco, ut Plato dixit, vel ratione tantum. Si ou apenas pelo conceito119. Se nós concedermos que se
vero detur quod sint idem subiecto, sicut identificam pelo sujeito, o que é o mais verdadeiro, não se
verius est, nec adhuc inconveniens sequitur. segue nenhum inconveniente. Aristóteles diz, de fato, no
Dicit enim Aristoteles in secundo de anima,
livro II sobre A Alma, que “é semelhante o que se passa
quod similiter se habent ei quod de figuris,
et quae secundum animam sunt. Semper com as figuras e com a alma: quer nas figuras quer nos
enim in eo quod est consequenter, est seres animados, o anterior está sempre em potência para
potentia quod prius est, in figuris et in aquilo que lhe é consecutivo; por exemplo, no quadrilátero
animatis; ut in tetragono quidem trigonum está contido o triângulo e na [faculdade] sensitiva a
est, in sensitivo autem vegetativum. Si vegetativa”120. E se a [faculdade] intelectiva for idêntica
autem idem subiecto est etiam intellectivum
pelo sujeito, o que Aristóteles deixa em dúvida, há que
(quod ipse sub dubio relinquit), similiter
dicendum esset quod vegetativum et
dizer também que a [faculdade] vegetativa e a sensitiva
sensitivum sunt in intellectivo, ut trigonum estão na [faculdade] intelectiva como o triângulo e o
et tetragonum in pentagono. Est autem quadrilátero no pentágono. Além do mais, o quadrilátero é
tetragonum quidem a trigono simpliciter alia uma figura absolutamente distinta do triângulo pela
figura specie, non autem a trigono quod est espécie, mas não do triângulo que contém em potência;
potentia in ipso; sicut nec quaternarius a como o número quaternário também não se distingue do
ternario qui est pars ipsius, sed a ternario qui
ternário que faz parte dele, mas do ternário que existe
est seorsum existens. Et si contingeret
diversas figuras a diversis agentibus separado. E se acontecesse que diversas figuras fossem
produci, trigonum quidem seorsum a produzidas por diversos agentes, o triângulo que existe
tetragono existens haberet aliam causam separadamente do quadrilátero teria uma causa produtora
producentem quam tetragonum, sicut et diferente da do quadrilátero, como tem também uma outra
habet aliam speciem; sed trigonum quod est espécie; mas o triângulo que estivesse contido no
in tetragono, haberet eamdem causam quadrilátero teria a mesma causa produtora.
producentem.
Assim também, por conseguinte, a [faculdade] vegetativa
Sic igitur vegetativum quidem seorsum a
sensitivo existens, alia species animae est, et que tem uma existência à parte da sensitiva é uma outra
aliam causam productivam habet; eadem espécie de alma e tem uma outra causa produtora; contudo
tamen causa productiva est sensitivi, et é a mesma causa que produz a [faculdade] sensitiva e a
vegetativi quod inest sensitivo. Si ergo sic [faculdade] vegetativa que está contida na sensitiva. Se,
dicatur, quod vegetativum et sensitivum portanto, se disser que a [faculdade] vegetativa e a
quod inest intellectivo, est a causa
sensitiva, contidas na [faculdade] intelectiva, existem pela
extrinseca a qua est intellectivum, nullum
inconveniens sequitur. Non enim
mesma causa extrínseca que a da [faculdade] intelectiva,
inconveniens est, effectum superioris não se segue nenhum inconveniente, porque não há
agentis habere virtutem quam habet effectus inconveniente em que o efeito de um agente superior tenha
inferioris agentis, et adhuc amplius; unde et a virtude que o efeito de um agente inferior tem, ou
anima intellectiva, quamvis sit ab exteriori mesmo mais; de onde, ainda que a alma intelectiva seja
agente, habet tamen virtutes quas habent produzida por um agente exterior, tem todavia as virtudes
anima vegetativa et sensitiva, quae sunt ab
que as almas vegetativa e sensitiva têm, as quais são
inferioribus agentibus.
produzidas por agentes inferiores.

Sic igitur, diligenter consideratis fere [48] Portanto, assim, consideradas com atenção quase
omnibus verbis Aristotelis quae de intellectu todas as palavras de Aristóteles respeitantes ao intelecto
humano dixit, apparet eum huius fuisse
sententiae quod anima humana sit actus humano, torna-se evidente que a sua doutrina é a de que a
corporis, et quod eius pars sive potentia sit alma humana é o ato de um corpo e o intelecto possível
intellectus possibilis. uma das suas partes ou potências.121
CAPUT 2 CAPÍTULO II

Nunc autem considerare oportet quid alii [49] Agora temos que examinar o que outros peripatéticos
Peripatetici de hoc ipso senserunt. Et disseram sobre isto. Comecemos em primeiro lugar pelas
accipiamus primo verba Themistii in palavras de Temístio no seu Comentário ao livro sobre A
commento de anima, ubi sic dicit: intellectus Alma, onde diz: “Este intelecto que chamamos intelecto
iste quem dicimus in potentia (...) magis est
animae connaturalis (scil. quam agens); em potência é mais conatural à alma” do que o intelecto
dico autem non omni animae, sed solum agente; refiro-me não a toda alma, mas apenas à alma
humanae. Et sicut lumen potentia visui et humana. E tal como a luz ao chegar à vista em potência e
potentia coloribus adveniens, actu quidem
às cores em potência produz a vista e as cores em ato,
visum fecit et actu colores, ita et intellectus
iste qui actu (...) non solum ipsum actu assim também este intelecto, o [intelecto] em ato, não só
intellectum fecit, sed et potentia faz passar ao ato o intelecto [em potência] como institui os
intelligibilia actu intelligibilia ipse instituit. inteligíveis em potência inteligíveis em ato.” E logo a
Et post pauca concludit: quam igitur
rationem habet ars ad materiam, hanc et
seguir conclui: “Assim, portanto, a relação que a arte tem
intellectus factivus ad eum qui in potentia com a matéria é como a relação que o intelecto poiético
(...) propter quod et in nobis est intelligere tem com o intelecto que está em potência. Por isso é que
quando volumus. Non enim est ars materiae pensamos quando queremos. De fato, a arte não é exterior
exterioris (...) sed investitur toti potentia
intellectui qui factivus; ac si utique à matéria, mas o intelecto que é poiético investe toda a sua
aedificator lignis et aerarius aeri non ab potência à maneira de um construtor que não existisse
extrinseco existeret, per totum autem ipsum exteriormente à madeira e de um ferreiro ao bronze, mas
penetrare potens erit. Sic enim et qui tivesse o poder de penetrar nele por inteiro. E é assim,
secundum actum intellectus intellectui
potentia superveniens, unum fit cum ipso. pois, que o intelecto em ato sobrevém ao intelecto em
potência fazendo com ele um só”122.

Et post pauca concludit: non igitur sumus [50] E pouco depois conclui: “Logo, não somos senão o
aut qui potentia intellectus, aut qui actu. Si intelecto que está em potência ou o [intelecto] que está em
quidem igitur in compositis omnibus ex eo ato. E como em tudo aquilo que se compõe do que está em
quod potentia et ex eo quod actu, aliud est
potência e do que está em ato este difere do ser daquele
hoc et aliud est esse huic, aliud utique erit
ego et mihi esse. Et ego quidem est assim o eu será diferente do meu ser. Ora, o eu é um
compositus intellectus ex potentia et actu, intelecto composto de potência e de ato e o meu ser é
mihi autem esse ex eo quod actu est. Quare constituído por aquilo que está em ato. É por isso que o
et quae meditor et quae scribo, scribit que eu medito e o que eu escrevo é o intelecto composto
quidem intellectus compositus ex potentia et de potência e ato que o escreve, não o escreve contudo
actu, scribit autem non qua potentia sed qua enquanto está em potência, mas enquanto está em ato,
actu; operari enim inde sibi derivatur. Et
porque de fato é deste que deriva a sua operação.” E pouco
post pauca adhuc manifestius: sicut igitur
aliud est animal et aliud animali esse, depois, de maneira ainda mais clara: “Tal como o animal
animali autem esse est ab anima animalis, se distingue do ser do animal, posto que o ser do animal
sic et aliud quidem ego, aliud autem mihi provém da alma do animal, assim também o eu é distinto
esse. Esse igitur mihi ab anima, et hac non do meu ser. O meu ser provém da alma, mas não dela na
omni. Non enim a sensitiva, materia enim totalidade; não provém, de fato, da sensitiva, que é a
erat phantasiae. Neque rursum a
matéria da imaginação; também não provém da
phantastica, materia enim erat potentia
intellectus. Neque eius qui potentia
imaginativa, que é a matéria do intelecto em potência; nem
intellectus, materia enim est factivi. A solo sequer do intelecto em potência, que é a matéria do
igitur factivo est mihi esse. Et post pauca [intelecto] poiético. Logo, o meu ser provém só do
subdit: et usque ad hunc progressa natura [intelecto] poiético”. E logo a seguir acrescenta: “E ao
cessavit, tanquam nihil habens alterum chegar aí a natureza pára, como se não tivesse nada mais
honoratius, cui faceret ipsum subiectum. nobre para utilizar por sujeito. É por isso que nós somos o
Nos itaque sumus activus intellectus.
intelecto ativo.”123
Et postea reprobans quorundam opinionem [51] E depois, reprovando a opinião de alguns, diz124:
dicit: cum praedixisset (scil. Aristoteles) in “Quando ele”, ou seja, Aristóteles, “disse antes que em
omni natura hoc quidem materiam esse, hoc
autem quod materiam movet aut perficit, qualquer natureza uma coisa é a matéria e outra coisa o
necesse ait et in anima existere has que move e aperfeiçoa a matéria, está a afirmar que é
differentias, et esse aliquem hunc talem necessário que estas diferenças existam na alma e que há
intellectum in omnia fieri, hunc talem in um intelecto capaz de se tornar tudo e um intelecto capaz
omnia facere. In anima enim ait esse talem
intellectum et animae humanae velut de produzir tudo.” Afirma também que um tal intelecto
quamdam partem honoratissimam. Et post existe na alma e que é como que a parte mais honrada da
pauca dicit: ex eadem etiam littera hoc alma humana.” E pouco depois diz: “A partir desta
contingit confirmare, quod putat (scil.
passagem pode confirmar-se que ele”, ou seja, Aristóteles,
Aristoteles) aut nostri aliquid esse activum
intellectum, aut nos. “julga que o intelecto ativo ou é algo nosso ou que é nós
mesmo.”

Patet igitur ex praemissis verbis Themistii, [52] Nas palavras anteriores de Temístio patenteia-se, por
quod non solum intellectum possibilem, sed conseguinte, que ele julga que não só o intelecto possível,
etiam agentem partem animae humanae esse mas também o intelecto agente, são uma parte da alma
dicit, et Aristotelem ait hoc sensisse; et humana, e que declara que foi isso que Aristóteles disse.
iterum, quod homo est id quod est, non ex Além do mais, que considera que o homem é o que é não
anima sensitiva, ut quidam mentiuntur, sed
graças à alma sensitiva, como alguns o afirmam mentindo,
ex parte intellectiva et principaliori.
mas à parte intelectiva que é a principal.

Et Theophrasti quidem libros non vidi, sed [53] Não cheguei a ver os livros de Teofrasto, mas
eius verba introducit Themistius in Temístio informa-nos acerca das suas palavras, no
commento, quae sunt talia, sic dicens: Comentário, dizendo o seguinte125: “É melhor propor o
melius est autem et dicta Theophrasti
que Teofrasto diz acerca do intelecto em potência e acerca
proponere de intellectu potentia et de eo qui
actu. De eo igitur qui potentia haec ait:
do que está em ato. Quanto ao que está em potência, diz o
intellectus autem qualiter a foris existens et seguinte: “Mas como é que o intelecto que existe de fora e
tanquam superpositus, tamen connaturalis? como que sobreposto, poderia ser conatural? E qual a sua
Et quae natura ipsius? Hoc quidem enim natureza? De fato, não poderia ser nada segundo o ato,
nihil esse secundum actum, potentia autem mas em potência já pode ser tudo, tal como o sentido. Não
omnia bene, sicut et sensus. Non enim sic devemos aceitá-lo como nada, o que não faz sentido, mas
accipiendum est ut neque sit ipse, litigiosum
sim enquanto uma certa potência servindo de sujeito,
est enim, sed ut subiectam quamdam
potentiam, sicut et in materialibus. Sed hoc como nas coisas materiais. Quanto ao ‘de fora’, há que o
a foris igitur, non ut adiectum, sed ut in pôr não como algo que se acrescenta, mas como
prima generatione comprehendens integrando o homem a partir do primeiro momento da sua
ponendum. geração.”

Sic igitur Theophrastus, cum quaesivisset


[54] Temos, pois, que Teofrasto levanta duas questões.
duo: primo quidem, quomodo intellectus Primeira: como é que o intelecto possível tem uma origem
possibilis sit ab extrinseco, et tamen nobis extrínseca e no entanto é conatural ao homem? Segunda:
connaturalis; et secundo, quae sit natura qual é a natureza do intelecto possível? Em primeiro lugar
intellectus possibilis; respondet primo ad
secundum: quod est in potentia omnia, non responde à segunda questão: é em potência todas as coisas,
quidem sicut nihil existens, sed sicut sensus não decerto como um nada que exista, mas como o sentido
ad sensibilia. Et ex hoc concludit em relação aos sensíveis. A partir daqui conclui a resposta
responsionem primae quaestionis, quod non à primeira questão: não se deve entender a origem
intelligitur sic esse ab extrinseco, quasi
aliquid adiectum accidentaliter vel tempore extrínseca como algo que acontece acidentalmente ou no
praecedente, sed a prima generatione, sicut decorrer do tempo, mas desde o primeiro momento da
continens et comprehendens naturam geração, como algo que contém e que integra a natureza
humanam.
humana.
Quod autem Alexander intellectum [55] Que Alexandre tivesse defendido que o intelecto
possibilem posuerit esse formam corporis, possível era a forma do corpo é o que o próprio Averróis
etiam ipse Averroes confitetur, quamvis, ut confessa126, ainda que, conforme penso, tenha interpretado
arbitror, perverse verba Alexandri acceperit, equivocadamente as palavras de Alexandre, tal como
sicut et verba Themistii praeter eius
entendeu fora da sua significação as de Temístio. Na
intellectum assumit. Nam quod dicit,
verdade, ao afirmar que Alexandre tinha dito que o
Alexandrum dixisse intellectum possibilem
non esse aliud quam praeparationem, quae intelecto possível não era mais do que a preparação,
est in natura humana, ad intellectum presente na natureza humana, para o intelecto agente e os
agentem et ad intelligibilia: hanc inteligíveis, Alexandre teria entendido essa preparação
praeparationem nihil aliud intellexit, quam como se tratando apenas da potência intelectiva que está
potentiam intellectivam quae est in anima ad na alma com vista aos inteligíveis. E por isso, porque uma
intelligibilia. Et ideo dixit eam non esse potência assim não tem órgão corporal, é que Alexandre
virtutem in corpore, quia talis potentia non diz que não se trata de uma faculdade existente no corpo, e
habet organum corporale, et non ex ea não pela razão que Averróis ataca, em conformidade com
ratione, ut Averroes impugnat, secundum
a qual nenhuma preparação seria uma faculdade existente
quod nulla praeparatio est virtus in corpore.
num corpo.

Et ut a Graecis ad Arabes transeamus, primo [56] E para passarmos dos Gregos para os Árabes, é
manifestum est quod Avicenna posuit evidente, em primeiro lugar, ter Avicena sustentado que o
intellectum virtutem animae quae est forma
corporis. Dicit enim sic in suo libro de intelecto é uma faculdade da alma que é forma do corpo.
anima: intellectus activus (i. e. practicus) De fato ele diz o seguinte no livro sobre A Alma: “O
eget corpore et virtutibus corporalibus ad intelecto ativo”, isto é, o prático, “necessita do corpo e das
omnes actiones suas. Contemplativus autem faculdades corpóreas para todas as suas ações; o
intellectus eget corpore et virtutibus eius,
sed nec semper nec omnino. Sufficit enim [intelecto] contemplativo precisa do corpo e das suas
ipse sibi per seipsum. Nihil autem horum est faculdades, embora nem sempre nem em absoluto, pois
anima humana; sed anima est id quod habet basta-se a si mesmo por si mesmo. A alma humana não é
has virtutes et, sicut postea declarabimus, nenhuma destas faculdades, mas é aquilo que possui essas
est substantia solitaria, i. e. per se, quae
habet aptitudinem ad actiones, quarum faculdades e, tal como haveremos de declarar, é uma
quaedam sunt quae non perficiuntur nisi per substância solitária, ou seja, apta a agir por si. Algumas
instrumenta et per usum eorum ullo modo; das suas ações só se realizam mediante instrumentos, e de
quaedam vero sunt, quibus non sunt
certa maneira pelo seu uso, enquanto que para outras os
necessaria instrumenta aliquo modo.
instrumentos não são de modo nenhum necessários.”127

Item, in prima parte dicit quod anima [57] Além do mais, na primeira parte, diz que “a alma
humana est perfectio prima corporis
naturalis instrumentalis, secundum quod
humana é a perfeição primeira do corpo natural
attribuitur ei agere actiones electione instrumentado porquanto lhe cabe a realização de ações
deliberationis, et adinvenire meditando, et por escolha deliberativa e chegar a descobrir pela
secundum hoc quod apprehendit meditação, à medida que apreende os universais.”128 Mas
universalia. Sed verum est quod postea dicit
et probat quod anima humana, secundum id também é verdadeiro o que diz depois e prova: que “a
quod est sibi proprium, i. e. secundum vim alma humana”, naquilo que lhe é próprio, quer dizer,
intellectivam, non sic se habet ad corpus ut segundo a sua força intelectiva, “não está para o corpo
forma, nec eget ut sibi praeparetur como uma forma nem precisa de um órgão preparado para
organum.
ela.”129

Deinde subiungenda sunt verba Algazelis [58] Devem acrescentar-se ainda as palavras de al-Ghazali
sic dicentis: cum commixtio elementorum que dizem assim: “Quando a mistura dos elementos for da
fuerit pulchrioris et perfectioris
aequalitatis, qua nihil possit inveniri
mais bela e mais perfeita igualdade, ao ponto de nada mais
subtilius et pulchrius (...) tunc fiet apta ad delicado e de mais belo se poder encontrar, então ela está
recipiendum a datore formarum formam apta a receber do Doador das formas a forma mais bela de
pulchriorem formis aliis, quae est anima todas as formas, a alma humana. Mas esta alma possui
hominis. Huius vero animae humanae duae duas potências, uma que opera e outra que conhece.”130 A
sunt virtutes: una operans et altera sciens, esta última chama-lhe intelecto, como se patenteia pelo
quam vocat intellectum, ut ex
consequentibus patet. Et tamen postea que se segue. E logo prova com muitos argumentos que a
multis argumentis probat, quod operatio operação do intelecto não é feita através de um órgão
intellectus non fit per organum corporale. corporal.

Haec autem praemisimus, non quasi [59] Ao avançarmos com tudo isto, não foi nossa intenção
volentes ex philosophorum auctoritatibus reprovar o erro jà referido com os textos das autoridades
reprobare suprapositum errorem, sed ut dos filósofos, mas mostrar que não foram só os Latinos,
ostendamus, quod non soli Latini, quorum
mas também os Gregos e os Árabes, que pensaram que o
verba quibusdam non sapiunt, sed etiam
Graeci et Arabes hoc senserunt, quod intelecto é uma parte ou potência ou faculdade da alma
intellectus sit pars vel potentia seu virtus que é forma do corpo. Daí que me espante que alguns
animae quae est corporis forma. Unde miror peripatéticos se gloriem de ter adotado este erro, a não ser
ex quibus Peripateticis hunc errorem se
assumpsisse glorientur, nisi forte quia minus
que em vez de quererem saber a verdade juntamente com
volunt cum ceteris Peripateticis recte sapere, os outros peripatéticos, prefiram enganar-se com Averróis,
quam cum Averroe oberrare, qui non tam que não foi tão peripatético quanto o desencaminhador da
fuit Peripateticus, quam philosophiae filosofia peripatética.131
Peripateticae depravator.
CAPUT 3 CAPÍTULO III

Ostenso igitur ex verbis Aristotelis et [60] Uma vez demonstrado com base nas palavras de
aliorum sequentium ipsum, quod intellectus Aristóteles e dos que o seguiram que o intelecto é uma
est potentia animae quae est corporis forma, faculdade da alma que é a forma de um corpo, ainda que
licet ipsa potentia, quae est intellectus, non em si mesma a potência que o intelecto é não seja o ato de
sit alicuius organi actus, quia nihil ipsius qualquer órgão, “porque nada da sua operação comunica
operationi communicat corporalis operatio, com a operação corporal”, como Arístóteles diz132 temos
ut Aristoteles dicit; inquirendum est per de procurar argumentos com vista ao que se deve sustentar
rationes quid circa hoc sentire sit necesse. Et acerca desta questão. E uma vez que, segundo a doutrina
quia, secundum doctrinam Aristotelis,
de Aristóteles, convém examinar os princípios dos atos a
oportet ex actibus principia actuum
partir dos próprios atos, parece que temos de examinar em
considerare, ex ipso actu proprio intellectus
qui est intelligere, primo hoc considerandum primeiro lugar o intelecto a partir do seu próprio ato que é
videtur. pensar.
In quo nullam firmiorem rationem habere Relativamente a isto não podemos ter argumento mais
possumus ea quam Aristoteles ponit, et sic seguro do que o de Aristóteles, no qual argumenta da
argumentatur: anima est primum quo seguinte maneira: “A alma é, em sentido primordial,
vivimus et intelligimus; ergo est ratio aquilo pelo qual vivemos e pensamos, portanto é uma
quaedam et species corporis cuiusdam. Et certa noção e forma” de um dado corpo133. E insiste tanto
adeo huic rationi innititur, quod eam dicit neste argumento que considera tratar-se de uma
esse demonstrationem; nam in principio
demonstração, razão pela qual no princípio do capítulo diz
capituli sic dicit: non solum quod quid est
assim: “A fórmula que exprime a definição há-de não só
oportet definitivam rationem ostendere,
sicut plures terminorum dicunt, sed et mostrar aquilo que é, tal como a maior parte dos termos o
causam inesse et demonstrare; et ponit fazem, como também deve incluir a causa e demonstrá-
exemplum: sicut demonstratur quid est la”134; e dá um exemplo: tal como se demonstra o que é o
tetragonismus, i. e. quadratum per tetragonismo, isto é, a quadratura, mediante a descoberta
inventionem mediae lineae proportionalis. de uma linha média proporcional.135

Virtus autem huius demonstrationis et [61] Vê-se claramente a força desta demonstração e a sua
insolubilitas apparet, quia quicumque ab hac incontestabilidade pelo fato de que os que quiserem
via divertere voluerint, necesse habent afastar-se desta via necessariamente chegarão a proferir
inconveniens dicere. Manifestum est enim
quod hic homo singularis intelligit: algo inaceitável. E de fato evidente que este homem em
nunquam enim de intellectu quaeremus, nisi concreto pensa, pois nunca chegaríamos a procurar saber o
intelligeremus; nec cum quaerimus de que é o intelecto se não pensássemos; nem quando
intellectu, de alio principio quaerimus, quam
procuramos saber o que o intelecto é de nenhum princípio
de eo quo nos intelligimus. Unde et
Aristoteles dicit: dico autem intellectum quo mais procuramos saber senão daquele pelo qual pensamos.
intelligit anima. Concludit autem sic Daí que Aristóteles diga: “Chamo intelecto àquilo pelo
Aristoteles: quod si aliquid est primum qual a alma pensa”136. Portanto, Aristóteles conclui que se
principium quo intelligimus, oportet illud
há um princípio primeiro pelo qual pensamos ele deve ser
esse formam corporis; quia ipse prius
manifestavit, quod illud quo primo aliquid a forma do corpo, pois já tinha demonstrado antes que a
operatur, est forma. Et patet hoc per forma é aquilo pelo qual em primeiro lugar alguma coisa
rationem, quia unumquodque agit in age.137 E também se prova por um argumento: as coisas
quantum est actu; est autem unumquodque
actu per formam; unde oportet illud, quo
agem enquanto estão em ato; ora, é mediante uma forma
primo aliquid agit, esse formam. que as coisas estão em ato; logo, aquilo pelo qual em
primeiro lugar as coisas agem é a sua forma.

Si autem dicas quod principium huius actus, [62] Mas se dizes que o princípio deste ato que é o pensar,
qui est intelligere, quod nominamus e a que chamamos intelecto, não é forma [do corpo], então
intellectum, non sit forma, oportet te
invenire modum quo actio illius principii sit
deves encontrar a maneira pela qual a ação desse princípio
actio huius hominis. Quod diversimode seja a ação deste homem. Alguns autores trataram de a
quidam conati sunt dicere. Quorum unus, explicar de diversos modos. Um deles é Averróis, que
Averroes, ponens huiusmodi principium sustenta que esse princípio do pensamento a que damos o
intelligendi quod dicitur intellectus
possibilis, non esse animam nec partem nome de intelecto possível não é nem uma alma nem uma
animae, nisi aequivoce, sed potius quod sit parte da alma, a não ser equivocamente, mas que é, isso
substantia quaedam separata, dixit quod sim, uma dada substância separada. Diz que o pensar dessa
intelligere illius substantiae separatae est substância separada se torna no meu ou no teu pensar
intelligere mei vel illius, in quantum
intellectus ille possibilis copulatur mihi vel quando o intelecto possível comunica comigo ou contigo
tibi per phantasmata quae sunt in me et in te. mediante as imagens que se encontram em mim ou em
Quod sic fieri dicebat. Species enim ti.138 E de acordo com ele isso acontece da seguinte
intelligibilis, quae fit unum cum intellectu
maneira139: a espécie inteligível que faz um com o
possibili, cum sit forma et actus eius, habet
duo subiecta: unum ipsa phantasmata, aliud intelecto possível, porque é a sua forma e o seu ato, tem
intellectum possibilem. Sic ergo intellectus dois sujeitos, sendo um as próprias imagens e o outro, o
possibilis continuatur nobiscum per formam intelecto possível. Deste modo, o intelecto possível entra
suam mediantibus phantasmatibus; et sic,
dum intellectus possibilis intelligit, hic
em contacto conosco pela sua forma por intermédio das
homo intelligit. imagens; é desta maneira que, quando o intelecto possível
pensa, é este homem que pensa.

Quod autem hoc nihil sit, patet tripliciter. [63] Prova-se de três maneiras que esta tese é nula. Em
Primo quidem, quia sic continuatio primeiro lugar, porque assim o contacto do intelecto com o
intellectus ad hominem non esset secundum homem não se daria a partir do primeiro momento da
primam eius generationem, ut Theophrastus geração, como Teofrasto diz e Aristóteles dá a entender no
dicit et Aristoteles innuit in secundo Physic.,
ubi dicit quod terminus naturalis livro II da Física, onde afirma que o termo de uma
considerationis de formis est ad formam, consideração natural das formas é a forma segundo a qual
secundum quam homo generatur ab homine o homem é gerado pelo homem e pelo Sol140. Porém é
et a sole. Manifestum est autem quod
evidente que este termo da consideração natural é o
terminus considerationis naturalis est in
intellectu. Secundum autem dictum intelecto; mas a seguir-se o que Averróis diz o intelecto
Averrois, intellectus non continuaretur não entraria em contacto com o homem desde a sua
homini secundum suam generationem, sed geração, mas pela operação dos sentidos quando estão
secundum operationem sensus, in quantum
sentindo em ato; de fato, como diz o livro sobre A Alma, a
est sentiens in actu. Phantasia enim est
motus a sensu secundum actum, ut dicitur in imagem é “um movimento provocado pela sensação em
libro de anima. ato”.141

Secundo vero, quia ista coniunctio non esset [64] Em segundo lugar, porque esta conjugação não
secundum aliquid unum, sed secundum aconteceria por alguma coisa de uno mas por coisas
diversa. Manifestum est enim quod species distintas. Com efeito, é evidente que a espécie inteligível,
intelligibilis, secundum quod est in enquanto está nas imagens, está em potência para ser
phantasmatibus, est intellecta in potentia; in
intellectu autem possibili est secundum pensada; já no intelecto possível é pensada em ato,
quod est intellecta in actu, abstracta a abstraída das imagens. Portanto, se a espécie inteligível
phantasmatibus. Si ergo species intelligibilis não é forma do intelecto possível senão quando é abstraída
non est forma intellectus possibilis nisi das imagens, segue-se que não é pela espécie inteligível
secundum quod est abstracta a
phantasmatibus, sequitur quod per speciem que o intelecto possível vai entrar em contacto com as
intelligibilem non continuatur imagens, mas que, em vez disso, está separado delas.142 A
phantasmatibus, sed magis ab eis est não ser que alguém diga que o intelecto possível entra em
separatus. Nisi forte dicatur quod intellectus
contacto com as imagens como um espelho entra em
possibilis continuatur phantasmatibus, sicut
speculum continuatur homini cuius species contacto com o homem cuja espécie é refletida no espelho;
resultat in speculo. Talis autem continuatio é evidente que um contacto deste tipo não é suficiente para
manifestum est quod non sufficit ad a continuação do ato. Portanto, é óbvio que a ação do
continuationem actus; manifestum est enim
quod actio speculi, quae est repraesentare,
espelho, que consiste em representar, não pode ser por isso
non propter hoc potest attribui homini: unde atribuída ao homem; daí que nem a ação do intelecto
nec actio intellectus possibilis propter possível, em nome da aludida comunicação, possa ser
praedictam copulationem posset attribui atribuída a este homem que é Sócrates, de maneira a que
huic homini qui est Socrates, ut hic homo este homem pense.143
intelligeret.

Tertio, quia dato quod una et eadem species [65] Em terceiro lugar, porque, supondo que uma só
numero esset forma intellectus possibilis, et espécie numericamente idêntica fosse a forma do intelecto
esset simul in phantasmatibus: nec adhuc possível e ao mesmo tempo estivesse contida nas imagens,
talis copulatio sufficeret ad hoc, quod hic
homo intelligeret. Manifestum est enim, nem assim uma tal comunicação seria suficiente para que
quod per speciem intelligibilem aliquid este homem pensasse. É evidente, pois, que alguma coisa é
intelligitur, sed per potentiam intellectivam pensada mediante a espécie inteligível enquanto que
aliquid intelligit; sicut etiam per speciem
alguma coisa pensa pela potência intelectiva, tal como pela
sensibilem aliquid sentitur, per potentiam
autem sensitivam aliquid sentit. Unde espécie sensível se sente alguma coisa enquanto que é pela
paries, in quo est color, cuius species potência sensitiva que alguma coisa sente. De onde, a
sensibilis in actu est in visu, videtur, non parede, na qual se encontra a cor, cuja espécie sensível em
videt, animal autem habens potentiam
visivam, in qua est talis species, videt. Talis
ato está na vista, ser uma coisa que se vê não uma coisa
autem est praedicta copulatio intellectus que vê; o animal, por seu lado, que tem a faculdade de ver,
possibilis ad hominem, in quo sunt na qual a espécie sensível se encontra, vê. É tal e qual a
phantasmata quorum species sunt in referida comunicação do intelecto possível com o homem,
intellectu possibili, qualis est copulatio
parietis in quo est color, ad visum in quo est em quem se encontram as imagens cujas espécies estão no
species sui coloris. Sicut igitur paries non intelecto possível, como a comunicação da parede, na qual
videt, sed videtur eius color; ita sequeretur está a cor, com a vista, na qual está a espécie da sua cor.
quod homo non intelligeret, sed quod eius Tal como a parede não vê, mas se vê a sua cor, assim
phantasmata intelligerentur ab intellectu
possibili. Impossibile est ergo salvari quod também o homem não pensaria, mas as suas imagens
hic homo intelligat, secundum positionem seriam pensadas pelo intelecto possível144. É impossível,
Averrois. por conseguinte, caso se adopte a posição de Averróis,
salvar a tese de que este homem pensa.

Quidam vero videntes quod secundum viam [66] Outros, ainda, vendo que na perspectiva de Averróis
Averrois sustineri non potest quod hic homo não se poderia defender que este homem pensa, adotaram
intelligat, in aliam diverterunt viam, et uma posição diferente. Dizem que o intelecto se une ao
dicunt quod intellectus unitur corpori ut
corpo como um motor. Assim sendo, o intelecto é parte
motor; et sic, in quantum ex corpore et
intellectu fit unum, ut ex movente et moto,
deste homem na medida em que o intelecto e o corpo
intellectus est pars huius hominis; et ideo constituem uma unidade como a de um motor e um
operatio intellectus attribuitur huic homini, movido; em conformidade, atribui-se a operação do
sicut operatio oculi, quae est videre, intelecto a este homem, tal como também se atribui a este
attribuitur huic homini. Quaerendum est homem a operação do olho, que consiste em ver. A quem
autem ab eo qui hoc ponit, primo, quid sit defende esta tese tem porém de se perguntar, de imediato,
hoc singulare quod est Socrates: utrum
quem é este homem singular, que é Sócrates, e, assim, se
Socrates sit solus intellectus, qui est motor;
aut sit motum ab ipso, quod est corpus Sócrates é apenas o intelecto que é motor? Ou é antes
animatum anima vegetativa et sensitiva; aut aquilo que é movido pelo intelecto, isto é, um corpo
sit compositum ex utroque. Et quantum ex animado por uma alma vegetativa e sensitiva? Ou será um
sua positione videtur, hoc tertium accipiet: composto dos dois? Pelo que parece resultar da sua
quod Socrates sit aliquid compositum ex posição, esse defensor escolherá a terceira hipótese, a de
utroque. que Sócrates é um composto dos dois.145

Procedamus ergo contra eos per rationem [67] Avancemos então contra os defensores desta tese
Aristotelis in Metaph.: quid est igitur quod servindo-nos do argumento de Aristóteles no livro VIII da
facit unum hominem? Omnium enim quae Metafísica: “O que é que faz a unidade do homem?”146
plures partes habent et non sunt quasi “Em qualquer coisa constituída por várias partes e cuja
coacervatio totum, sed est aliquod totum
totalidade não é um mero amontoado, mas um todo além
praeter partes, est aliqua ratio unum essendi:
das suas partes, há uma causa para que constituam uma
sicut in quibusdam tactus, in quibusdam unidade, por exemplo: para alguns é o contacto, para
viscositas, aut aliquid aliud huiusmodi (...) outros, a viscosidade ou alguma coisa do gênero (...). Ora,
palam autem quia si sic transformant, ut é notório que, se há transformações assim, conforme as
consueverunt definire et dicere, non
costumam definir e expor, não se poderá resolver ou
contingit reddere et solvere dubitationem. Si
autem est ut dicimus: hic quidem materia, solucionar a dúvida. Mas se for como dizemos, que uma
illud vero forma, et hoc quidem potestate, coisa é a matéria e outra a forma e que uma coisa é o ser
illud vero actu, non adhuc dubitatio em potência e outra coisa o ser em ato, então não parece
videbitur esse. que a dúvida se mantenha.”147

Sed si tu dicas, quod Socrates non est unum [68] Mas se dizes que Sócrates não é algo de uno em
quid simpliciter, sed unum quid sentido absoluto, mas uno por agregação de um motor e
aggregatione motoris et moti, sequuntur
um movido, seguem-se muitos inconvenientes. Primeiro.
multa inconvenientia. Primo quidem, quia
cum unumquodque sit similiter unum et ens, Como tudo o que existe é igualmente uno e ser148, segue-se
sequitur quod Socrates non sit aliquod ens, que Sócrates não seria um ser nem pertenceria a um
et quod non sit in specie nec in genere; et gênero e a uma espécie e, além do mais, seria incapaz de
ulterius, quod non habeat aliquam actionem,
quia actio non est nisi entis. Unde non
qualquer ação visto que só um ser é capaz de ação. De
dicimus quod intelligere nautae sit onde não dizermos que o pensar de um timoneiro seja o
intelligere huius totius quod est nauta et pensar do todo formado pelo timoneiro e pelo navio, mas
navis, sed nautae tantum; et similiter tão-só do timoneiro; de igual modo, o pensar de Sócrates
intelligere non erit actus Socratis, sed
intellectus tantum utentis corpore Socratis. não seria o ato de Sócrates, mas apenas o ato do intelecto
In solo enim toto quod est aliquid unum et que usa o corpo de Sócrates: de fato, só apenas num todo
ens, actio partis est actio totius; et si quis que seja uno e ser é que a ação da parte será a ação do
aliter loquatur, improprie loquitur. todo. Se alguém disser outra coisa falará sem propriedade.
Et si tu dicas, quod hoc modo caelum
intelligit per motorem suum, est assumptio E se dizes que também o céu pensa desta maneira, pelo
difficilioris. Per intellectum enim humanum seu motor, admites o que é mais difícil, pois é pelo
oportet nos devenire ad cognoscendum intelecto humano que devemos chegar ao conhecimento
intellectus superiores, et non e converso.
dos intelectos superiores e não ao contrário.149

Si vero dicatur quod hoc individuum, quod [69] Mas se se disser que este indivíduo, Sócrates, é um
est Socrates, est corpus animatum anima corpo animado por uma alma vegetativa e sensitiva, como
vegetativa et sensitiva, ut videtur sequi
secundum eos qui ponunt quod hic homo
parece depreender-se dos que sustentam que este homem
non constituitur in specie per intellectum, não é especificamente constituído pelo intelecto, mas pela
sed per animam sensitivam nobilitatam ex alma sensitiva enobrecida por certa iluminação ou união
aliqua illustratione seu copulatione do intelecto possível, então o intelecto não estaria para
intellectus possibilis: tunc intellectus non se
habet ad Socratem, nisi sicut movens ad Sócrates senão como o motor está para o movido. Neste
motum. Sed secundum hoc actio intellectus caso, porém, a ação do intelecto que consiste em pensar
quae est intelligere, nullo modo poterit não poderia ser de maneira nenhuma atribuída a Sócrates.
attribui Socrati. Quod multipliciter apparet. Isto evidencia-se de muitas maneiras.150

Primo quidem per hoc quod dicit [70] Em primeiro lugar, a partir do que Aristóteles diz no
philosophus in nono Metaph., quod quorum livro IX da Metafísica, que “nas coisas em que aquilo que
diversum erit aliquid praeter usum quod fit, é produzido está para além da sua feitura, o ato está
horum actus in facto est, ut aedificatio in naquilo que é feito, como a ação de edificar está no
aedificato, et contextio in contexto; similiter
edifício e a ação de tecer no que é tecido; é o mesmo em
autem et in aliis, et totaliter motus in moto.
Quorum vero non est aliud aliquod opus tudo o mais, o movimento está completamente no movido.
praeter actionem, in eis existit actio, ut visio Já naquelas coisas em que a obra não se distingue da ação,
in vidente et speculatio in speculante. Sic a ação existe nelas, como a visão está em quem vê e a
ergo, etsi intellectus ponatur uniri Socrati ut especulação naquele que especula.”151 Assim, pois, mesmo
movens, nihil proficit ad hoc quod que se sustente que o intelecto se une a Sócrates como
intelligere sit in Socrate, nedum quod
motor, isso em nada serve ao fato de o pensamento estar
Socrates intelligat: quia intelligere est actio em Sócrates, e muito menos ao fato de Sócrates pensar,
quae est in intellectu tantum. Ex quo etiam porque pensar é uma ação que apenas se dá no intelecto.
patet falsum esse quod dicunt, quod Por aqui se mostra ser falso aquilo que eles dizem, a saber,
intellectus non est actus corporis, sed ipsum
que não é o intelecto que é o ato do corpo, mas o próprio
intelligere. Non enim potest esse alicuius
actus intelligere, cuius non sit actus pensamento; com efeito, o pensamento não pode ser o ato
intellectus: quia intelligere non est nisi in daquilo cujo ato não seja o pensamento, uma vez que o
intellectu, sicut nec visio nisi in visu; unde pensamento só existe no intelecto, assim como a visão só
nec visio potest esse alicuius, nisi illius existe na vista; daqui se segue que a visão só pode
cuius actus est visus. pertencer àquele que tem como ato a vista.

Secundo, quia actio moventis propria non [71] Em segundo lugar, porque a ação própria do motor
attribuitur instrumento aut moto, sed magis não é atribuída ao instrumento ou ao que é movido, mas
e converso, actio instrumenti attribuitur antes ao contrário, a ação do instrumento é que é atribuída
principali moventi: non enim potest dici ao motor principal, Na verdade, não se pode dizer que a
quod serra disponat de artificio; potest serra disponha do artesão, mas já se pode dizer que o
tamen dici quod artifex secat, quod est opus
artesão corta, que é a obra da serra. Assim, pensar é a
serrae. Propria autem operatio ipsius
intellectus est intelligere; unde, dato etiam operação própria do intelecto; daí que mesmo que o
quod intelligere esset actio transiens in pensamento fosse uma ação que se exerce numa outra
alterum sicut movere, non sequitur quod coisa, tal como o ato de mover, não se seguiria que o
intelligere conveniret Socrati, si intellectus pensar pertencesse a Sócrates caso o intelecto se lhe unisse
uniatur ei solum ut motor. apenas como motor.

Tertio, quia in his quorum actiones in [72] Em terceiro lugar, porque naqueles seres cujas ações
alterum transeunt, opposito modo se exercem sobre outros, a ação do motor e a ação do que
attribuuntur actiones moventibus et motis. é movido é-lhes atribuído de uma maneira oposta. Numa
Secundum aedificationem enim aedificator
construção, por exemplo, diz-se que o construtor constrói
dicitur aedificare, aedificium vero aedificari.
Si ergo intelligere esset actio in alterum e que o edifício é construído. Portanto, se pensar fosse
transiens sicut movere, adhuc non esset uma ação que se exerce em outra coisa, tal como o ato de
dicendum quod Socrates intelligeret, ad hoc mover, não se poderia dizer que Sócrates pensa por o
quod intellectus uniretur ei ut motor, sed
magis quod intellectus intelligeret, et intelecto se lhe unir como motor, mas antes que o intelecto
Socrates intelligeretur; aut forte quod pensa e que Sócrates é pensado152, ou, talvez, que o
intellectus intelligendo moveret Socratem, et intelecto, ao pensar, move Sócrates e que Sócrates é
Socrates moveretur. movido.

Contingit tamen quandoque, quod actio [73] Porém, por vezes acontece que a ação do motor se
moventis traducitur in rem motam, puta cum transfere para a coisa movida, por exemplo, quando o que
ipsum motum movet ex eo quod movetur, et é movido move pelo fato de ser movido, ou quando o que
calefactum calefacit. Posset ergo aliquis sic é aquecido aquece. Poderia dizer-se, portanto, que aquilo
dicere, quod motum ab intellectu, qui
que é movido pelo intelecto, que ao pensar move, pensa
intelligendo movet, ex hoc ipso quod
movetur, intelligit. Huic autem dicto por causa de ser movido. Mas Aristóteles contraria isto no
Aristoteles resistit in secundo de anima, livro II sobre A Alma, onde fomos buscar o princípio deste
unde principium huius rationis argumento. De fato, quando diz que aquilo pelo qual nós
assumpsimus. Cum enim dixisset quod id conhecemos e saramos é primeiramente a forma153, quer
quo primo scimus et sanamur est forma, scil. dizer, a ciência e a saúde, acrescenta: “Pois parece que é
scientia et sanitas, subiungit: videtur enim in
no paciente, que se dispõe, que reside o ato dos ativos.”154
patiente et disposito, activorum inesse actus.
O que Temístio explica da seguinte maneira: “Com efeito,
Quod exponens Themistius dicit: nam etsi
ab aliis aliquando scientia et sanitas est, ainda que por vezes a ciência e a saúde derivem de
puta a docente et medico; tamen in patiente outrem, a saber, do docente e do médico, mostramos antes,
et disposito facientium inexistere actus no que dissemos sobre A Natureza, que é no paciente, que
ostendimus prius, in his quae de natura. se dispõe, que reside o ato daquilo que os realiza.”155
Est ergo intentio Aristotelis, et evidenter est É isto, portanto, o que Aristóteles quer dizer, e é
verum, quod quando motum movet et habet evidentemente a verdade: quando o que é movido se move
actionem moventis, oportet quod insit ei e tem a ação do motor, é preciso que por causa do motor
actus aliquis a movente, quo huiusmodi
lhe seja inerente um certo ato em virtude do qual possui
actionem habeat; et hoc est primum quo
agit, et est actus et forma eius, sicut si essa ação, e isso é o princípio primeiro pelo qual age, e é o
aliquid est calefactum, calefacit per calorem seu ato e a sua forma, tal como quando algo é aquecido
qui inest ei a calefaciente. aquece por causa do calor que passou a deter a partir
Detur ergo quod intellectus moveat animam daquilo que o fez aquecer.
Socratis, vel illustrando vel quocumque Admitamos, então, que o intelecto move a alma de
modo: hoc quod est relictum ab impressione
Sócrates quer iluminando-a quer de alguma outra maneira,
intellectus in Socrate, est primum quo
Socrates intelligit. Id autem quo primo
o que fica da impressão do intelecto em Sócrates é o
Socrates intelligit, sicut sensu sentit, princípio primeiro pelo qual Sócrates pensa. Ora,
Aristoteles probavit esse in potentia omnia, Aristóteles provou que aquilo pelo qual primeiro Sócrates
et per hoc non habere naturam pensa, tal como pelos sentidos sente, era em potência todas
determinatam, nisi hanc quod sit possibilis; as coisas, razão pela qual não tem uma natureza
et per consequens, quod non misceatur determinada exceto a de ser possível; e,
corpori, sed sit separatus. Dato ergo, quod
consequentemente, provou que não se mistura com o
sit aliquis intellectus separatus movens
Socratem, tamen adhuc oportet quod iste corpo, mas que é separado.156 Admitindo-se portanto que
intellectus possibilis, de quo Aristoteles há algum intelecto separado que move Sócrates, é todavia
loquitur, sit in anima Socratis, sicut et preciso que este intelecto possível de que fala Aristóteles
sensus, qui est in potentia ad omnia esteja na alma de Sócrates, tal como os sentidos que estão
sensibilia, quo Socrates sentit. em potência para todos os sensíveis e com o qual Sócrates
sente.

Si autem dicatur quod hoc individuum, quod [74] Mas se dissermos que este indivíduo, que é Sócrates,
est Socrates, neque est aliquid compositum não é nem um ser composto pelo intelecto e por um corpo
ex intellectu et corpore animato, neque est animado nem apenas um corpo animado, mas é apenas
corpus animatum tantum, sed est solum
intelecto, estaríamos já na opinião de Platão, o qual,
intellectus; haec iam erit opinio Platonis,
conforme refere Gregório de Nissa, “perante esta
qui, ut Gregorius Nyssenus refert, propter
hanc difficultatem non vult hominem ex dificuldade, não admitiu que o homem fosse composto de
anima et corpore esse, sed animam corpore alma e corpo, mas antes uma alma usando um corpo e
utentem et velut indutam corpore. Sed et como que revestida por um corpo.”157 Também Plotino,
Plotinus, ut Macrobius refert, ipsam animam como refere Macróbio, confirma que o homem é mesmo
hominem esse testatur, sic dicens: ergo qui uma alma, dizendo o seguinte: “Pois o que vemos não é
videtur, non ipse verus homo est, sed ille a
propriamente o homem verdadeiro, o homem verdadeiro é
quo regitur quod videtur. Sic, cum morte
animalis discedit animatio, cadit corpus a
o que rege o corpo que vemos. Por isso, quando com a
regente viduatum; et hoc est quod videtur in morte do animal desaparece a sua animação, perece o
homine mortale. Anima vero, quae verus corpo despojado do que o regia e é isto que vemos
homo est, ab omni mortalitatis conditione acontecer ao homem mortal. Já a alma, por ser o homem
aliena est. Qui quidem Plotinus, unus de verdadeiro, escapa a toda a condição mortal.”158 Este
magnis commentatoribus, ponitur inter Plotino figura entre os grandes comentadores de
commentatores Aristotelis, ut Simplicius
Aristóteles, tal como Simplício refere no Comentário às
refert in commento praedicamentorum.
Haec autem sententia nec a verbis Categorias.159
Aristotelis multum aliena videtur. Dicit De fato, esta doutrina não parece ser muito estranha aos
enim in nono Ethic., quod boni hominis est textos de Aristóteles. Ele diz, realmente, no livro IX da
bonum elaborare et sui ipsius gratia: Ética que “é próprio do homem bom trabalhar para o bem
intellectivi enim gratia quod unusquisque e para si mesmo; porque cada homem parece estar
esse videtur. Quod quidem non dicit propter
ordenado para a parte intelectiva.”160 Ora, não diz isto por
hoc quod homo sit solus intellectus, sed quia
causa de o homem ser só intelecto, mas porque o intelecto
id quod est in homine principalius est
é o que há de principal no homem; daí que na sequência
intellectus; unde in consequentibus dicit, do texto diga que “tal como a cidade ou qualquer outra
quod quemadmodum civitas constituição parece ser o que há de principal no seu mais
principalissimum maxime esse videtur, et alto grau, assim também com o homem”161; acrescentando
omnis alia constitutio, sic et homo; unde
logo que “todo o homem é ou isso, quer dizer, o intelecto,
subiungit, quod unusquisque homo vel est
hoc, scil. intellectus, vel maxime. Et per ou sobretudo isso.”162 Julgo que é neste sentido que
hunc modum arbitror et Themistium in Temístio, nas palavras já citadas, e Plotino, nas que
verbis supra positis, et Plotinum in verbis acabamos de citar, disseram que o homem é alma ou
nunc inductis, dixisse quod homo est anima intelecto.163
vel intellectus.
[75] Prova-se de muitos modos que o homem não é, de
Quod enim homo non sit intellectus tantum,
vel anima tantum, multipliciter probatur. fato, apenas o intelecto ou apenas a alma. Em primeiro
Primo quidem, ab ipso Gregorio Nysseno, lugar, pelo próprio Gregório de Nissa que, depois de expor
qui inducta opinione Platonis subdit: habet a opinião de Platão, acrescenta: “Este texto tem qualquer
autem hic sermo difficile vel indissolubile coisa de difícil ou de insolúvel: como é que, realmente, a
quid. Qualiter enim unum esse potest cum alma pode formar um uno com aquilo que a reveste? A
indumento anima? Non enim unum est túnica e quem a veste não formam um uno.”164
tunica cum induto. Em segundo lugar, porque no livro VII da Metafísica,
Secundo, quia Aristoteles in septimo Aristóteles prova que “homem e cavalo ou outros
Metaph. probat quod homo et equus et
universais” não são apenas formas, “mas um todo
similia non sunt solum forma, sed totum
composto de matéria e forma tomada universalmente; um
quoddam ex materia et forma ut
universaliter; singulare vero ex ultima singular, por seu lado, consta da matéria última, tal como
materia ut Socrates iam est, et in aliis Sócrates que existe logo com ela, e a mesma coisa em
similiter. Et hoc probavit per hoc, quod relação aos outros singulares.”165 E a prova estava no fato
nulla pars corporis potest definiri sine parte de nenhuma parte do corpo poder ser definida sem uma
aliqua animae; et recedente anima, nec parte da alma e, ao desaparecer a alma, o olho e a carne só
oculus nec caro dicitur nisi aequivoce: quod poderem ser chamados assim de maneira equívoca, o que
non esset, si homo aut Socrates esset tantum não sucederia se o homem ou Sócrates fossem apenas
intellectus aut anima. intelecto ou alma.
Tertio, sequeretur quod, cum intellectus non
Em terceiro lugar, uma vez que o intelecto só é movido
moveat nisi per voluntatem, ut probatur in
pela vontade, como se prova com o livro III d’A Alma166
tertio de anima, hoc esset de rebus subiectis
voluntati, quod retineret homo corpus cum seguir-se-ía que ele estaria entre aquilo que se encontra
vellet, et abiiceret cum vellet: quod submetido à vontade, mantendo o homem junto de si o
manifeste patet esse falsum. corpo quando quisesse e separando-se dele também
quando quisesse, o que é obviamente falso.

Sic igitur patet quod intellectus non unitur [76] Assim se esclarece que o intelecto não se encontra
Socrati solum ut motor; et quod, etiam si apenas unido a Sócrates como um motor, e que, mesmo
hoc esset, nihil proficeret ad hoc quod
Socrates intelligeret. Qui ergo hanc que assim fosse, isso de nada adiantaria ao fato de que
positionem defendere volunt, aut Sócrates pensa. Por conseguinte, aqueles que querem
confiteantur se nihil intelligere, et indignos defender esta posição devem ou confessar que nada
esse cum quibus aliqui disputent, aut pensam e que não são dignos de que disputem com eles ou
confiteantur quod Aristoteles concludit:
quod id quo primo intelligimus est species et confessar que Aristóteles concluiu que aquilo pelo qual
forma. pensamos em sentido primordial é espécie e forma.167

Potest etiam hoc concludi ex hoc, quod hic [77] Também se pode chegar à mesma conclusão a partir
homo in aliqua specie collocatur. Speciem do fato de o homem individual se integrar numa espécie.168
autem sortitur unumquodque ex forma. Id A espécie que cabe a cada um depende da forma; por
igitur per quod hic homo speciem sortitur,
forma est. Unumquodque autem ab eo conseguinte, aquilo pelo qual a este homem cabe uma
speciem sortitur, quod est principium espécie é a forma. Mas a espécie que a cada um cabe
propriae operationis speciei. Propria autem resulta do princípio da operação própria da espécie; ora, a
operatio hominis, in quantum est homo, est operação própria do homem, enquanto é homem, consiste
intelligere; per hoc enim differt ab aliis em pensar, pois é nisto que difere dos outros animais, e
animalibus: et ideo in hac operatione
Aristoteles felicitatem ultimam constituit. por isso é que Aristóteles deposita a última felicidade
Principium autem quo intelligimus est nessa operação.169 O princípio pelo qual pensamos é o
intellectus, ut Aristoteles dicit. Oportet intelecto, tal como Aristóteles diz.170 Deve, portanto, unir-
igitur ipsum uniri corpori ut formam, non se ao corpo como uma forma, não de maneira a que a
quidem ita quod ipsa intellectiva potentia sit
alicuius organi actus, sed quia est virtus própria potência intelectiva seja o ato de algum órgão, mas
animae, quae est actus corporis physici por ser uma faculdade da alma que é o ato de um corpo
organici. natural organizado.

Adhuc, secundum istorum positionem, [78] Além disso, a seguir-se a posição deles, pelo fato de
destruuntur moralis philosophiae principia: nos ser retirado o que está em nós, ficam destruídos os
subtrahitur enim quod est in nobis. Non princípios da filosofia moral. Na verdade, nada está em
enim est aliquid in nobis nisi per nós a não ser pela vontade; e daí o chamar-se ‘voluntário’
voluntatem; unde et hoc ipsum voluntarium
dicitur, quod in nobis est. Voluntas autem in
precisamente àquilo que está em nós. Ora, a vontade está
intellectu est, ut patet per dictum Aristotelis no intelecto, como se patenteia pelo que Aristóteles diz no
in tertio de anima; et per hoc quod in livro III sobre A Alma171, e porque nas substâncias
substantiis separatis est intellectus et separadas há intelecto e há vontade; e também pelo fato de
voluntas; et per hoc etiam, quod contingit ser pela vontade que amamos ou odiamos alguma coisa em
per voluntatem aliquid in universali amare
vel odire, sicut odimus latronum genus, ut geral, por exemplo, quando odiamos o gênero dos ladrões,
Aristoteles dicit in sua rhetorica. Si igitur como diz Aristóteles na sua Retórica172. Deste modo, se o
intellectus non est aliquid huius hominis ut intelecto não fizer parte deste homem, ao ponto de formar
sit vere unum cum eo, sed unitur ei solum autenticamente um uno com ele, mas se lhe unir apenas
per phantasmata, vel sicut motor, non erit in
pelas imagens ou como um motor, a vontade não fará parte
hoc homine voluntas, sed in intellectu
separato. Et ita hic homo non erit dominus deste homem concreto, mas do intelecto separado. A ser
sui actus, nec aliquis eius actus erit assim, este homem não será senhor dos seus atos nem
laudabilis vel vituperabilis: quod est nenhum dos seus atos será digno de louvor ou de
divellere principia moralis philosophiae. condenação, o que equivale a despedaçar os princípios da
Quod cum sit absurdum, et vitae humanae
filosofia moral. Uma vez que isto é absurdo e é contrário à
contrarium (non enim esset necesse
consiliari, nec leges ferre), sequitur quod vida humana (nesse caso não seria preciso nem aconselhar
intellectus sic uniatur nobis ut vere ex eo et nem legislar), segue-se que o intelecto está unido a nós de
nobis fiat unum; quod vere non potest esse maneira a que a sua união conosco forme algo de
nisi eo modo quo dictum est, ut sit scil. verdadeiramente uno. Mas isto só pode realmente suceder
potentia animae quae unitur nobis ut forma.
tal como dissemos, a saber: sendo o intelecto uma potência
Relinquitur igitur hoc absque omni
dubitatione tenendum, non propter da alma que se une a nós como forma. Só nos resta, pois,
revelationem fidei, ut ipsi dicunt, sed quia fora de qualquer dúvida, sustentar esta tese, não por causa
hoc subtrahere est niti contra manifeste de uma revelação da fé como eles dizem, mas porque
apparentia. negá-la seria ir contra uma manifesta evidência.

Rationes vero quas in contrarium adducunt, [79] Os argumentos que em contrário eles aduzem não são
non difficile est solvere. Dicunt enim quod difíceis de resolver. Dizem, na verdade, que da nossa
ex hac positione sequitur quod intellectus sit posição se segue que o intelecto é uma forma material,
forma materialis, et non sit denudata ab
omnibus naturis rerum sensibilium; et quod
forma não desnudada de todas as naturezas das coisas
per consequens quidquid recipitur in sensíveis, e que, em consequência, tudo o que é recebido
intellectu, recipietur sicut in materia no intelecto é recebido como numa matéria,
individualiter et non universaliter. individualmente e não universalmente.
Et ulterius, quod si est forma materialis,
quod non est intellecta in actu; et ita Também dizem que, se é uma forma material, não é
intellectus non poterit se intelligere, quod pensada em ato e que, por isso, o intelecto não poderia
est manifeste falsum: nulla enim forma pensar-se, o que é manifestamente falso, Mas nenhuma
materialis est intellecta in actu sed in forma material é pensada em ato, só apenas em potência,
potentia tantum; fit autem intellecta in actu pela abstração é que é pensada em ato.
per abstractionem.

Horum autem solutio apparet ex his quae [80] A partir do que dissemos acima, fica clara a resposta
praemissa sunt. Non enim dicimus animam a estes argumentos. De fato, não dizemos que a alma
humanam esse formam corporis secundum humana é a forma do corpo segundo a potência intelectiva,
intellectivam potentiam, quae, secundum a qual, segundo a doutrina de Aristóteles, não é o ato de
doctrinam Aristotelis, nullius organi actus
est: unde remanet quod anima, quantum ad nenhum órgão.173 Daqui resulta que a alma, no que toca à
intellectivam potentiam, sit immaterialis, et potência intelectiva, é imaterial, que ela recebe
immaterialiter recipiens, et se ipsam imaterialmente e que se pensa a si mesma. Por esta razão,
intelligens. Unde et Aristoteles signanter
Aristóteles diz, ratificando, que a alma é o lugar das
dicit quod anima est locus specierum, non
tota, sed intellectus. espécies, “não ela toda, mas o intelecto.”174

Si autem contra hoc obiiciatur, quod [81] Se porém se objetar a isto que uma potência da alma
potentia animae non potest esse
immaterialior aut simplicior quam eius
não pode ser nem mais imaterial nem mais simples do que
essentia: optime quidem procederet ratio si a sua essência, digo que seria um ótimo argumento se a
essentia humanae animae sic esset forma essência da alma humana fosse forma de uma matéria, não
materiae, quod non per esse suum esset, sed em função do seu próprio ser, mas do ser do composto175,
per esse compositi, sicut est de aliis formis,
quae secundum se nec esse nec operationem tal como acontece com as outras formas, as quais por si só
habent praeter communicationem materiae, têm ser e operação por comunicarem com a matéria, razão
quae propter hoc materiae immersae pela qual se diz que elas imergem na matéria. Já quanto à
dicuntur. Anima autem humana, quia alma humana, uma vez que é por si e que, de uma certa
secundum suum esse est, cui aliqualiter
communicat materia non totaliter maneira, a matéria comunica com ela sem a abarcar por
comprehendens ipsam, eo quod maior est completo, pois a dignidade desta forma é maior do que a
dignitas huius formae quam capacitas capacidade da matéria, nada impede que a alma tenha uma
materiae; nihil prohibet quin habeat aliquam
certa operação ou faculdade que não atinge a matéria.
operationem vel virtutem ad quam materia
non attingit.
[82] Que quem defende esta posição considere, por fim,
Consideret autem qui hoc dicit, quod si hoc que se o princípio intelectivo pelo qual pensamos fosse
intellectivum principium, quo nos
separado segundo o seu próprio ser e distinto da alma que
intelligimus, esset secundum esse separatum
et distinctum ab anima quae est corporis é forma do nosso corpo, seria em si pensante e pensado, e
nostri forma, esset secundum se intelligens não poderia umas vezes pensar e noutras não pensar; nem
et intellectum; et non quandoque sequer precisaria de se conhecer por meio de inteligíveis e
intelligeret, quandoque non; neque etiam
indigeret ut se ipsum cognosceret per por um ato, mas pela sua essência, tal como as outras
intelligibilia et per actus, sed per essentiam substâncias separadas. De igual modo, para pensar, não lhe
suam, sicut aliae substantiae separatae. seria indispensável recorrer às nossas imagens sensíveis,
Neque etiam esset conveniens quod ad pois, na ordem das coisas, não é preciso que as substâncias
intelligendum indigeret phantasmatibus
nostris: non enim invenitur in rerum ordine superiores necessitem das substâncias inferiores para
quod superiores substantiae ad suas chegarem às suas perfeições principais; tal como nem os
principales perfectiones indigeant corpos celestes são formados e aperfeiçoados nas suas
inferioribus substantiis, sicut nec corpora operações por meio dos corpos inferiores.
caelestia formantur aut perficiuntur ad suas
operationes ex corporibus inferioribus. É portanto altamente improvável a tese que defende que o
Magnam igitur improbabilitatem continet intelecto é um certo princípio separado segundo a
sermo dicentis quod intellectus sit quoddam substância e que todavia se aperfeiçoe e comece a pensar
principium secundum substantiam
em ato por intermédio das espécies recebidas das imagens.
separatum, et tamen quod per species a
phantasmatibus acceptas perficiatur et fiat
actu intelligens.
CAPUT 4 CAPÍTULO IV

His igitur consideratis, quantum ad id quod [83] Conhecidas as razões da tese de que o intelecto não é
ponunt intellectum non esse animam quae a alma que é a forma do nosso corpo nem uma parte dessa
est nostri corporis forma, neque partem alma, mas algo separado segundo a substância, falta
ipsius, sed aliquid secundum substantiam
examinar as razões que os leva a dizer que o intelecto
separatum; considerandum restat de hoc
quod dicunt intellectum possibilem esse possível é único para todos os homens. Talvez afirmar isto
unum in omnibus. Forte enim de agente hoc em relação ao intelecto agente ainda fosse razoável, e
dicere, aliquam rationem haberet, et multi muitos filósofos assim pensaram; de fato, não parece
philosophi hoc posuerunt. Nihil enim seguir-se nenhum inconveniente se se admitir que várias
inconveniens videtur sequi, si ab uno agente coisas são aperfeiçoadas por um único agente, como que à
multa perficiantur, quemadmodum ab uno maneira de um único Sol que aperfeiçoa todas as potencias
sole perficiuntur omnes potentiae visivae
visuais dos animais para verem, ainda que isto não seja
animalium ad videndum; quamvis etiam hoc
non sit secundum intentionem Aristotelis, conforme à intenção de Aristóteles, o qual, ao compará-lo
qui posuit intellectum agentem esse aliquid a um lume, defendeu que o intelecto agente é qualquer
in anima, unde comparavit ipsum lumini. coisa na alma. Por seu lado, Platão, ao defender um único
Plato autem ponens intellectum unum intelecto separado, comparou-o ao Sol176, conforme
separatum, comparavit ipsum soli, ut Temístio diz porque há um único Sol mas muitas luzes
Themistius dicit. Est enim unus sol, sed
difundidas pelo Sol que nos permitem ver. Contudo, seja
plura lumina diffusa a sole ad videndum.
Sed quidquid sit de intellectu agente, dicere
qual for o estatuto do intelecto agente, dizer que o
intellectum possibilem esse unum omnium intelecto possível é único para todos os homens é absurdo
hominum, multipliciter impossibile apparet. por muitos motivos.

Primo quidem, quia si intellectus possibilis [84] Em primeiro lugar, porque se o intelecto possível é
est quo intelligimus, necesse est dicere quod
aquilo pelo qual pensamos, então é necessário dizer que
homo singularis intelligens vel sit ipse
um homem singular que pensa ou é o próprio intelecto ou
intellectus, vel intellectus formaliter ei
inhaereat, non quidem ita quod sit forma que o intelecto lhe é formalmente inerente, não (bem
corporis, sed quia est virtus animae quae est entendido), como forma do corpo, mas porque é a
forma corporis. faculdade de uma alma que é forma de um corpo.177
Si quis autem dicat quod homo singularis est Se alguém disser que um homem concreto é o próprio
ipse intellectus, consequens est quod hic intelecto, seguir-se-á que este homem singular não se
homo singularis non sit alius ab illo homine
distingue daquele homem singular e que todos os homens
singulari, et quod omnes homines sint unus
homo, non quidem participatione speciei, são um só homem, não, é claro, pela participação na
sed secundum unum individuum. espécie, mas segundo um único indivíduo.
Si vero intellectus inest nobis formaliter, Todavia, se o intelecto se encontrar em nós formalmente,
sicut iam dictum est, sequitur quod tal como já dissemos, segue-se que as almas são diversas
diversorum corporum sint diversae animae. conforme os diversos corpos. Tal como o homem consta
Sicuti enim homo est ex corpore et anima, de um corpo e de uma alma, assim também este homem,
ita hic homo, ut Callias aut Socrates, ex hoc
seja Cálias ou Sócrates, consta deste corpo e desta alma.
corpore et ex hac anima. Si autem animae
sunt diversae, et intellectus possibilis est Mas se as almas são diversas e se o intelecto possível é a
virtus animae qua anima intelligit, oportet faculdade da alma pela qual a alma pensa, então é preciso
quod differat numero; quia nec fingere que ele seja diferente em número, pois nem sequer é
possibile est quod diversarum rerum sit una possível imaginar que haja uma faculdade numericamente
numero virtus. única para coisas diversas.
Si quis autem dicat quod homo intelligit per
Mas se alguém disser que o homem pensa pelo intelecto
intellectum possibilem sicut per aliquid sui,
possível como por qualquer coisa de seu, sem ser parte
quod tamen est pars eius, non ut forma sed
sicut motor; iam ostensum est supra quod dele como uma forma mas como um motor, já acima
hac positione facta, nullo modo potest dici mostramos que, admitida tal hipótese, de maneira
quod Socrates intelligat. nenhuma se pode dizer que Sócrates pensa.178
Sed demus quod Socrates intelligat per hoc [85] Admitamos contudo que Sócrates pensa pelo fato de o
quod intellectus intelligit, licet intellectus sit intelecto pensar - ainda que o intelecto seja só motor - tal
solum motor, sicut homo videt per hoc quod como o homem vê pelo fato de o olho ver; e, para
oculus videt; et, ut similitudinem sequamur,
continuarmos a comparação, supúnhamos que só há um
ponatur quod omnium hominum sit unus
oculus numero: inquirendum restat, utrum olho em número para todos os homens, faltaria então
omnes homines sint unus videns vel multi investigar se todos os homens são um único a ver ou
videntes. Ad cuius veritatis inquisitionem vários a ver. A fim de investigarmos a verdade acerca
considerare oportet quod aliter se habet de deste ponto, deve considerar-se que aquilo que diz respeito
primo movente, et aliter de instrumento. Si ao primeiro motor é diferente daquilo que diz respeito a
enim multi homines utantur uno et eodem
um instrumento179. Com efeito, se vários homens usarem
instrumento numero, dicentur multi
operantes; puta, cum multi utuntur una
um e o mesmo instrumento em número, diz-se que são
machina ad lapidis proiectionem vel muitos os que operam; por exemplo: quando vários
elevationem. Si vero principale agens sit utilizam uma máquina para projetar ou para levantar uma
unum, quod utatur multis ut instrumentis, pedra. Mas se o agente principal for único e utilizar várias
nihilominus operans est unum, sed forte coisas como instrumentos, o operador não deixa de ser um
operationes diversae propter diversa só, mas as operações podem ser diversas em virtude dos
instrumenta; aliquando autem et operatio
diversos instrumentos. Às vezes, porém, a operação é
una, etsi ad eam multa instrumenta
requirantur. Sic igitur unitas operantis única, ainda que se necessite de muitos instrumentos.
attenditur non secundum instrumenta, sed Assim, portanto, não se atribui a unidade do operador aos
secundum principale quod utitur instrumentos, mas ao agente principal que utiliza os
instrumentis. instrumentos.

[86] Se agora voltássemos à hipótese anterior, mas se o


Praedicta ergo positione facta, si oculus
esset principale in homine, qui uteretur olho fosse o que há de principal no homem e utilizasse
omnibus potentiis animae et partibus todas as potências da alma e as partes do corpo como
corporis quasi instrumentis, multi habentes instrumentos, então a totalidade dos que partilham um
unum oculum essent unus videns. Si vero
oculus non sit principale hominis, sed mesmo olho constituiria um só vidente; se, ao invés, o
aliquid sit eo principalius quod utitur oculo, olho não fosse o principal do homem, mas se houvesse
quod diversificaretur in diversis, essent algo mais importante a usar o olho, diversificando-se pelos
quidem multi videntes sed uno oculo. vários homens, haveria muitos a ver mas um só olho.

Manifestum est autem quod intellectus est id [87] É claro, portanto, que o intelecto é aquilo que há de
quod est principale in homine, et quod utitur principal no homem e se serve de todas as potências da
omnibus potentiis animae et membris alma e dos membros do corpo à maneira de instrumentos;
corporis tanquam organis; et propter hoc
Aristoteles subtiliter dixit quod homo est é por causa disto que Aristóteles diz sutilmente que o
intellectus vel maxime. Si igitur sit unus homem é intelecto “ou é sobretudo isso”180. Portanto, se o
intellectus omnium, ex necessitate sequitur intelecto de todos é único, segue-se necessariamente que
quod sit unus intelligens, et per consequens
só há um a pensar e, consequentemente, um só a querer e
unus volens, et unus utens pro suae
voluntatis arbitrio omnibus illis secundum um só a utilizar, pelo arbítrio da sua vontade, todas
quae homines diversificantur ad invicem. Et aquelas coisas em que os homens se distinguem uns dos
ex hoc ulterius sequitur quod nulla outros. Além disso, daqui resultaria que, se o intelecto, no
differentia sit inter homines quantum ad
liberam voluntatis electionem, sed eadem sit
qual apenas reside o principado e o domínio na utilização
omnium, si intellectus, apud quem solum de tudo o mais, fosse único e indiviso em todos os
residet principalitas et dominium utendi homens, não haveria diferença entre eles no que toca à
omnibus aliis, est unus et indivisus in livre escolha da vontade, mas seria a mesma em todos.
omnibus: quod est manifeste falsum et
impossibile. Repugnat enim his quae Mas isto é evidentemente falso e impossível; com efeito, é
apparent, et destruit totam scientiam incompatível corri o que aparece aos nossos olhos e
moralem et omnia quae pertinent ad destrói toda a ciência moral e tudo aquilo que diz respeito
conversationem civilem, quae est hominibus à sociedade civil, natural aos homens, conforme diz
naturalis, ut Aristoteles dicit.
Aristóteles.181
Adhuc, si omnes homines intelligunt uno [88] Além de mais, se todos os homens pensam por um
intellectu, qualitercumque eis uniatur, sive único intelecto, qualquer que seja a maneira dele se lhes
ut forma sive ut motor, de necessitate unir, seja como forma seja como motor, segue-se,
sequitur quod omnium hominum sit unum
necessariamente, que em todos os homens será um só em
numero ipsum intelligere quod est simul et
respectu unius intelligibilis: puta, si ego número o pensamento que em conjunto for relativo a um
intelligo lapidem et tu similiter, oportebit único inteligível; por exemplo: se eu pensar numa pedra e
quod una et eadem sit intellectualis operatio se tu fizeres o mesmo, a minha operação intelectual e a tua
et mei et tui. Non enim potest esse eiusdem operação intelectual devem ser uma só e a mesma. Com
activi principii, sive sit forma sive motor, efeito, de um mesmo princípio ativo, seja uma forma seja
respectu eiusdem obiecti, nisi una numero
um motor, relativamente a um mesmo objeto, apenas pode
operatio eiusdem speciei in eodem tempore;
quod manifestum est ex his quae
vir uma operação numericamente idêntica da mesma
philosophus declarat in quinto Physic. Unde espécie e ao mesmo tempo; é o que se torna evidente pelo
si essent multi homines habentes unum que Aristóteles declara no livro V da Física182. De onde, se
oculum, omnium visio non esset nisi una houvesse muitos homens com um só olho, a sua visão só
respectu eiusdem obiecti in eodem tempore. seria uma relativamente a um mesmo objeto e ao mesmo
Similiter ergo, si intellectus sit unus tempo. Portanto, da mesma maneira, se fosse um só o
omnium, sequitur quod omnium hominum
intelecto de todos os homens, seguir-se-ia que seria apenas
idem intelligentium eodem tempore, sit una
actio intellectualis tantum; et praecipue cum uma a ação intelectual de todos os homens que pensassem
nihil eorum, secundum quae ponuntur a mesma coisa ao mesmo tempo; e, principalmente,
homines differre ab invicem, communicet in porque nada daquilo que distingue os homens uns dos
operatione intellectuali. Phantasmata enim outros teria a ver com a operação intelectual. Na verdade,
praeambula sunt actioni intellectus, sicut as imagens são preâmbulos para a ação do intelecto tal
colores actioni visus: unde per eorum como as cores o são para a ação da vista, pelo que não é
diversitatem non diversificaretur actio
pela sua diversidade que a ação do intelecto se diversifica,
intellectus, maxime respectu unius
intelligibilis, secundum quae tamen ponunt sobretudo em relação a um só inteligível; é por isto que
diversificari scientiam huius a scientia eles sustentam que a ciência deste homem se distingue da
alterius, in quantum hic intelligit ea quorum ciência daquele outro na medida em que este pensa as
phantasmata habet, et ille alia quorum coisas de que têm imagens e aquele as outras coisas de que
phantasmata habet. Sed in duobus qui idem tem imagens. Entretanto, nos dois, que sabem e pensam o
sciunt et intelligunt, ipsa operatio
mesmo, a própria operação intelectual não pode de
intellectualis per diversitatem phantasmatum
nullatenus diversificari potest.
maneira nenhuma diversificar-se pela diversidade das
imagens.

Adhuc autem ostendendum est quod haec [89] Resta-nos ainda mostrar que esta tese contraria
positio manifeste repugnat dictis Aristotelis. manifestamente as palavras de Aristóteles. De fato,
Cum enim dixisset de intellectu possibili,
quando diz que o intelecto possível é separado e que é em
quod est separatus et quod est in potentia
omnia, subiungit quod cum sic singula fiat potência todas as coisas, acrescenta também “que se torna
(scil. in actu), ut sciens dicitur qui secundum assim cada uma delas, isto é, em ato, tal como se diz que é
actum, i. e. hoc modo sicut scientia est sábio quem está em ato”, ou seja, tal como a ciência é ato
actus, et sicut sciens dicitur esse in actu in e tal como se diz que é sábio em ato enquanto tem esse
quantum habet habitum. Unde subdit: hoc hábito183; daí acrescentar: “é o que acontece logo que, por
autem confestim accidit cum possit operari
si mesmo, é capaz de atuar. E mesmo assim está ainda de
per seipsum. Est quidem igitur et tunc
uma certa maneira em potência, não, porém, do mesmo
potentia quodammodo, non tamen similiter
sicut ante addiscere aut invenire. Et postea, modo que antes de aprender ou de encontrar.”184 E, depois,
cum quaesivisset si intellectus simplex est et pergunta: “se o intelecto é simples, impassível, e tal como
impassibile et nulli nihil habet commune, Anaxágoras diz, não tem nada em comum com nada, como
sicut dixit Anaxagoras, quomodo intelliget, é que pensa, uma vez que pensar equivale a suportar uma
si intelligere pati aliquid est? Et ad hoc certa paixão?”185 E para resolver este problema responde,
solvendum respondet dicens quod potentia
afirmando que “o intelecto é em potência de uma certa
quodammodo est intelligibilia intellectus,
maneira os inteligíveis, mas não é em ato nenhum deles
sed actu nihil antequam intelligat. Oportet antes de pensar. Deve ser assim como uma tábua na qual
autem sic sicut in tabula nihil est actu nada está escrito em ato, e é decerto o que acontece com o
scriptum; quod quidem accidit in intellectu. intelecto”186. A doutrina de Aristóteles é, por conseguinte,
Est ergo sententia Aristotelis quod
a de que antes de aprender ou de encontrar o intelecto
intellectus possibilis ante addiscere aut
invenire est in potentia, sicut tabula in qua possível está em potência, à maneira de uma tábua na qual
nihil est actu scriptum; sed post addiscere et nada está escrito; todavia, depois de aprender ou de
invenire est actu secundum habitum encontrar passa a estar em ato segundo o hábito da ciência
scientiae, quo potest per seipsum operari, graças ao qual pode operar por si mesmo, ainda que esteja
quamvis et tunc sit in potentia ad nesse momento em potência para considerar [algo] em ato.
considerare in actu.

Ubi tria notanda sunt. Primum, quod habitus [90] Temos de observar aqui três pontos. O primeiro, é
scientiae est actus primus ipsius intellectus que o hábito da ciência é o ato primeiro do próprio
possibilis, qui secundum hunc fit actu et intelecto possível, o qual se atualiza em conformidade com
potest per seipsum operari. Non autem esse hábito e pode operar por si mesmo. De fato, a ciência
scientia est solum secundum phantasmata não resulta só de uma iluminação das imagens, como
illustrata, ut quidam dicunt, vel quaedam
alguns dizem187, ou é uma certa faculdade de entrar em
facultas quae nobis acquiritur ex frequenti
contacto com o intelecto possível por meio das nossas
meditatione et exercitio, ut continuemur
cum intellectu possibili per nostra imagens, faculdade que adquirimos por frequente
phantasmata. meditação e exercício.
Secundo, notandum est quod ante nostrum O segundo ponto a observar, é que antes de aprendermos
addiscere et invenire ipse intellectus ou de encontrarmos, o próprio intelecto possível está em
possibilis est in potentia, sicut tabula in qua potência como uma tábua na qual nada está escrito.
nihil est scriptum.
O terceiro, é que mediante a nossa aprendizagem ou as
Tertio, quod per nostrum addiscere seu
invenire, ipse intellectus possibilis fit actu. nossas descobertas o próprio intelecto possível passa a
Haec autem nullo modo possunt stare, si sit estar em ato. Ora, nada disto poderia dar-se caso o
unus intellectus possibilis omnium qui sunt intelecto possível de todos os homens que existem, os que
et erunt et fuerunt. existirão ou que existiram, fosse único.

[91] Por conseguinte, é evidente que as espécies se


Manifestum est enim quod species
conservantur in intellectu est enim locus conservam no intelecto que é o lugar das espécies, como
specierum, ut supra philosophus dixerat; et Aristóteles dissera antes188; além disso, a ciência é um
iterum scientia est habitus permanens. Si hábito permanente. Portanto, se graças a algum dos
ergo per aliquem praecedentium hominum homens que nos precederam, o intelecto se atualizou em
factus est in actu secundum aliquas species relação a certas espécies inteligíveis, e se aperfeiçoou
intelligibiles, et perfectus secundum
segundo um hábito da ciência, quer esse hábito quer essa
habitum scientiae, ille habitus et illae
species in eo remanent. Cum autem omne
espécie permanecem nele. Mas, como ‘qualquer recipiente
recipiens sit denudatum ab eo quod recipit, se encontra desprovido daquilo que recebe’189, é
impossibile est quod per meum addiscere impossível que pela minha aprendizagem ou com as
aut invenire, illae species acquirantur in minhas descobertas essas espécies sejam adquiridas pelo
intellectu possibili. Etsi enim aliquis dicat, intelecto possível. Ainda que alguém diga que é graças às
quod per meum invenire intellectus minhas descobertas que o intelecto possível se atualiza
possibilis secundum aliquid fiat in actu de
pela primeira vez - por exemplo, se encontro um
novo, puta si ego aliquid intelligibilium
invenio, quod a nullo praecedentium est inteligível que ninguém antes de mim tinha encontrado -
inventum: tamen in addiscendo hoc isso não pode acontecer pela aprendizagem, porque só
contingere non potest; non enim possum posso aprender aquilo que quem ensina já sabe. Foi em
addiscere nisi quod docens scivit. Frustra vão, pois, que Aristóteles disse que o intelecto está em
ergo dixit quod ante addiscere aut invenire potência antes de aprender ou de encontrar.
intellectus erat in potentia.

Sed et si quis addat, homines semper fuisse [92] Mas se alguém adunar que, de acordo com a opinião
secundum opinionem Aristotelis: sequitur de Aristóteles190, sempre existiram homens, então se segue
quod non fuerit primus homo intelligens; et que não houve um primeiro homem que pensasse. Neste
sic per phantasmata nullius species caso, as espécies inteligíveis não são recebidas no intelecto
intelligibiles sunt acquisitae in intellectu
possível graças às imagens de alguém, mas as espécies
possibili, sed sunt species intelligibiles
intellectus possibilis aeternae. Frustra ergo inteligíveis do intelecto possível são eternas. Foi por isso
Aristoteles posuit intellectum agentem, qui também em vão que Aristóteles propôs um intelecto
faceret intelligibilia in potentia intelligibilia agente que fizesse passar os inteligíveis de potência a ato;
actu. Frustra etiam posuit, quod phantasmata não menos em vão, sustentou que as imagens estão para o
se habent ad intellectum possibilem sicut
intelecto possível como as cores para a vista, se o intelecto
colores ad visum, si intellectus possibilis
nihil a phantasmatibus accipit. Quamvis et possível não receber nada das imagens. Parece sem razão
hoc ipsum irrationabile videatur, quod de ser o seguinte: que uma substância separada receba
substantia separata a phantasmatibus nostris qualquer coisa das nossas imagens, e que não possa
accipiat, et quod non possit se intelligere pensar-se senão depois de termos aprendido ou pensado; é
nisi post nostrum addiscere aut intelligere;
que, após as referidas palavras, Aristóteles acrescenta: “e
quia Aristoteles post verba praemissa
subiungit: et ipse seipsum tunc potest então ele pode pensar-se a si mesmo”191, a saber, depois de
intelligere, scil. post addiscere aut invenire. aprender ou encontrar. Com efeito, uma substância
Substantia enim separata secundum seipsam separada é inteligível em si e por si mesma:
est intelligibilis: unde per suam essentiam se consequentemente, é pela sua essência que o intelecto
intelligeret intellectus possibilis, si esset
substantia separata; nec indigeret ad hoc
possível se pensa, se for uma substância separada; neste
speciebus intelligibilibus ei caso, não precisaria de espécies inteligíveis que se lhe
supervenientibus per nostrum intelligere aut viessem juntar pelo nosso pensar ou pelas nossas
invenire. invenções.

Si autem haec inconvenientia velint evadere, [93] Mas se quiserem escapar a estes inconvenientes
dicendo quod omnia praedicta Aristoteles dizendo que todas estas palavras anteriores de Aristóteles
dicit de intellectu possibili secundum quod se referem ao intelecto possível enquanto ele está em
continuatur nobis, et non secundum quod in
contacto conosco e não no que é em si mesmo, deve dizer-
se est: primo quidem dicendum est quod
verba Aristotelis hoc non sapiunt; immo de se, em primeiro lugar, que não é isso que as palavras de
ipso intellectu possibili loquitur secundum Aristóteles dão a entender, antes, pelo contrário, que ele
id quod est proprium sibi, et secundum quod está a referir-se precisamente ao intelecto possível naquilo
distinguitur ab agente.
Deinde si non fiat vis de verbis Aristotelis,
que lhe é próprio e no que o distingue do intelecto agente.
ponamus, ut dicunt, quod intellectus A seguir, e sem olharmos à força das palavras de
possibilis ab aeterno habuerit species Aristóteles, supúnhamos, como eles dizem, que o intelecto
intelligibiles, per quas continuetur nobiscum possível detinha espécies inteligíveis desde a eternidade,
secundum phantasmata quae sunt in nobis.
Oportet enim quod species intelligibiles pelas quais entraria em contacto conosco em função das
quae sunt in intellectu possibili, et imagens que existem em nós, É preciso, de fato, que as
phantasmata quae sunt in nobis, aliquo espécies inteligíveis que estão no intelecto possível e as
horum trium modorum se habeant: quorum imagens que existem em nós entrem em relação num dos
unus est, quod species intelligibiles quae
sunt in intellectu possibili, sint acceptae a três modos seguintes: um, consiste em as espécies
phantasmatibus quae sunt in nobis, ut sonant inteligíveis que estão no intelecto possível serem recebidas
verba Aristotelis; quod non potest esse pelas imagens que se encontram em nós, conforme as
secundum praedictam positionem, ut palavras de Aristóteles; mas, como mostramos, isto não
ostensum est. Secundus autem modus est, ut
illae species non sint acceptae a pode dar-se segundo a perspectiva averroísta. O segundo
phantasmatibus, sed sint irradiantes supra modo, em as espécies não serem recebidas pelas imagens,
phantasmata nostra; puta, si species aliquae mas irradiarem sobre as nossas imagens; por exemplo:
essent in oculo irradiantes super colores qui
como as espécies no olho irradiando por sobre as cores
sunt in pariete. Tertius autem modus est, ut
neque species intelligibiles, quae sunt in que estão numa parede. O terceiro modo, em as espécies
intellectu possibili, sint receptae a inteligíveis que estão no intelecto possível não serem
phantasmatibus, neque imprimant aliquid recebidas pelas imagens nem imprimirem nada sobre as
supra phantasmata.
imagens.192
Si autem ponatur secundum, scil. quod [94] Ora, se nos inclinarmos para o segundo, ou seja, que
species intelligibiles illustrent phantasmata as espécies inteligíveis iluminam as imagens e que desta
et secundum hoc intelligantur: primo
quidem sequitur quod phantasmata fiunt maneira são pensadas, seguir-se-ia, em primeiro lugar, que
intelligibilia actu, non per intellectum as imagens tornar-se-iam inteligíveis em ato não por causa
agentem, sed per intellectum possibilem do intelecto agente, mas por causa do intelecto possível,
secundum suas species. Secundo, quod talis mercê das suas espécies. Em segundo lugar, que uma tal
irradiatio phantasmatum non poterit facere
quod phantasmata sint intelligibilia actu: iluminação das imagens não permitiria que elas se
non enim fiunt phantasmata intelligibilia tomassem inteligíveis em ato; é que só pela abstração é
actu nisi per abstractionem; hoc autem que as imagens se tornam inteligíveis em ato, e isso seria
magis erit receptio quam abstractio. Et
mais uma recepção do que uma abstração. Além do mais,
iterum, cum omnis receptio sit secundum
naturam recepti, irradiatio specierum uma vez que qualquer recepção depende da natureza do
intelligibilium quae sunt in intellectu receptor193, a iluminação das espécies inteligíveis que
possibili, non erit in phantasmatibus quae estão no intelecto possível não será, para as imagens que
sunt in nobis, intelligibiliter, sed sensibiliter
et materialiter; et sic nos non poterimus
se encontram em nós, uma iluminação inteligível, mas
intelligere universale per huiusmodi apenas sensível e material; assim, por uma iluminação
irradiationem. deste tipo, nós não poderíamos pensar universalmente.
Si autem species intelligibiles intellectus Mas se as espécies inteligíveis do intelecto possível não
possibilis neque accipiuntur a
phantasmatibus, neque irradiant super ea, são recebidas pelas imagens nem irradiam sobre elas,
erunt omnino disparatae et nihil serão totalmente díspares sem qualquer proporção, e as
proportionales habentes, nec phantasmata imagens em nada contribuirão para o pensamento, o que,
aliquid facient ad intelligendum; quod evidentemente, não pode ser.
manifeste repugnat.
Sic igitur omnibus modis impossibile est Por conseguinte, qualquer que seja o ponto de vista, é
quod intellectus possibilis sit unus tantum impossível que haja um único intelecto possível para todos
omnium hominum. os homens.
CAPUT 5 CAPÍTULO V

Restat autem nunc solvere ea quibus [95] Resta agora solucionar as razões em que eles se
pluralitatem intellectus possibilis nituntur
apóiam para excluir a pluralidade do intelecto possível. A
excludere. Quorum primum est, quia omne
quod multiplicatur secundum divisionem primeira é que tudo o que se multiplica segundo a divisão
materiae, est forma materialis: unde da matéria é forma material; de onde, as substâncias
substantiae separatae a materia non sunt separadas da matéria não serem várias numa só espécie.
plures in una specie. Si ergo plures
intellectus essent in pluribus hominibus, qui
Mas se houvesse vários intelectos nos vários homens
dividuntur ad invicem numero per numericamente distintos entre si pela divisão da matéria,
divisionem materiae, sequeretur ex seguir-se-ia necessariamente que o intelecto teria de ser
necessitate quod intellectus esset forma uma forma material194. Isto contraria as palavras de
materialis: quod est contra verba Aristotelis
et probationem ipsius qua probat quod Aristóteles e a prova em que demonstra que o intelecto é
intellectus est separatus. Si ergo est separado. Então, se é separado e não é uma forma
separatus et non est forma materialis, nullo material, de maneira nenhuma se multiplica consoante a
modo multiplicatur secundum multiplicação dos corpos.
multiplicationem corporum.

Huic autem rationi tantum innituntur, quod [96] Eles apóiam-se de tal maneira neste argumento que
dicunt quod Deus non posset facere plures chegam a dizer que Deus não poderia fazer vários
intellectus unius speciei in diversis
intelectos da mesma espécie em diversos homens. Dizem,
hominibus. Dicunt enim quod hoc
implicaret contradictionem: quia habere de fato, que isso implicaria uma contradição, porque uma
naturam ut numeraliter multiplicetur, est natureza numericamente multiplicável distingue-se da
aliud a natura formae separatae. Procedunt natureza de uma forma separada195. Avançam ainda mais
autem ulterius, ex hoc concludere volentes
ao pretenderem concluir daí que nenhuma forma separada
quod nulla forma separata est una numero
nec aliquid individuatum. Quod dicunt ex é una em número nem qualquer coisa de individual. Dizem
ipso vocabulo apparere: quia non est unum que isto é evidente pelas próprias palavras, porque só é
numero nisi quod est unum de numero; uno em número aquilo que é uno pelo número; ora, uma
forma autem liberata a materia non est unum
de numero, quia non habet in se causam forma liberta da matéria não é una pelo número porquanto
numeri, eo quod causa numeri est a materia. em si não tem a causa do número, dado que a causa do
número provém da matéria.196

Sed ut a posterioribus incipiamus, videntur [97] Mas, para começarmos pelo último ponto, parece que
vocem propriam ignorare in hoc quod eles ignoram o próprio sentido das palavras,
ultimo dictum est. Dicit enim Aristoteles in concretamente em relação a este último argumento. Com
quarto Metaph., quodcuiusque substantia efeito, Aristóteles diz no livro IV da Metafísica que “a
unum est non secundum accidens, et quod
substância de cada ser é una e não o é por acidente”, bem
nihil est aliud unum praeter ens. Substantia
como que “nada é uno exceto o ser”197. Assim sendo, se a
ergo separata si est ens, secundum suam
substantiam est una; praecipue cum
substância separada é um ser, é una na sua substância,
Aristoteles dicat in octavo Metaph., quod ea sobretudo porque Aristóteles diz no livro VIII da
quae non habent materiam, non habent Metafísica que as coisas que não possuem matéria não têm
causam ut sint unum et ens. causa para serem unas e ser.198
Unum autem, in quinto Metaph., dicitur Mas no livro V da Metafísica diz-se que o uno se diz de
quadrupliciter, scil. numero, specie, genere, quatro maneiras: em número, em espécie, no gênero ou na
proportione. Nec est dicendum quod aliqua proporção199. Não se deve dizer, pois, que uma substância
substantia separata sit unum tantum specie separada é una apenas pela espécie ou pelo gênero, porque
vel genere, quia hoc non est esse simpliciter
pura e simplesmente isso não seria um uno. Resta que
unum. Relinquitur ergo quod quaelibet
qualquer substância separada é una em número. Também
substantia separata sit unum numero. Nec
dicitur aliquid unum numero, quia sit unum não se diz que algo é uno numericamente por ser uno pelo
de numero: non enim numerus est causa número - é que não é o número que é a causa do uno, mas
unius, sed e converso, sed quia in o contrário -, diz-se, outrossim, que algo é numericamente
numerando non dividitur; unum enim est id uno por não ser divisível numa enumeração; é, de fato,
quod non dividitur. uno aquilo que não se divide.

Nec iterum hoc verum est, quod omnis


[98] Nem sequer é verdade que a matéria seja a causa de
numerus causetur ex materia: frustra enim
todo o número, pois assim teria sido em vão a pergunta de
Aristoteles quaesivisset numerum
substantiarum separatarum. Ponit etiam
Aristóteles pelo número das substâncias separadas. Na
Aristoteles in quinto Metaph. quod multum verdade, no livro V da Metafísica ele sustenta que o
dicitur non solum numero, sed specie et múltiplo se diz não apenas segundo o número, mas
genere. também em espécie e em gênero.200
Nec etiam hoc verum est, quod substantia Igualmente, nem sequer é verdade que uma substância
separata non sit singularis et individuum separada não seja singular e algo de individualizado; se
aliquid: alioquin non haberet aliquam fosse de outra maneira não teria nenhuma operação, pois,
operationem, cum actus sint solum como Aristóteles diz, os atos só são próprios dos seres
singularium, ut philosophus dicit; unde
singulares201. Daí ele ter argumentado contra Platão no
contra Platonem argumentatur in septimo
livro VII da Metafísica que se as ideias fossem separadas
Metaph., quod si ideae sunt separatae, non
praedicabitur de multis idea, nec poterit
uma ideia não seria predicada de muitas coisas nem
definiri, sicut nec alia individua quae sunt poderia ser definida, tal como sucede com os outros
unica in sua specie, ut sol et luna. Non enim indivíduos que são únicos na sua espécie, o Sol e a Lua
materia est principium individuationis in por exemplo. De fato, a matéria só é princípio de
rebus materialibus, nisi in quantum materia individuação nas coisas materiais enquanto não é
non est participabilis a pluribus, cum sit participável por muitos, por isso que ela é um sujeito
primum subiectum non existens in alio. primeiro que não existe em outro. Por este motivo,
Unde et de idea Aristoteles dicit quod, si Aristóteles diz, acerca das Ideias, que se elas fossem
idea esset separata, esset quaedam, i. e.
separadas “haveria uma, isto é, individual, impossível de
individua, quam impossibile esset praedicari
ser predicada de muitos”.202
de multis.

Individuae ergo sunt substantiae separatae et [99] Por conseguinte, as substâncias separadas e singulares
singulares; non autem individuantur ex são individuais; não são individuadas pela matéria, mas,
materia, sed ex hoc ipso quod non sunt natae justamente, por não serem feitas para surgir noutra coisa,
in alio esse, et per consequens nec
participari a multis. Ex quo sequitur quod si e, consequentemente, por não serem participadas por
aliqua forma nata est participari ab aliquo, muitos. Segue-se daqui que, se uma forma foi feita para
ita quod sit actus alicuius materiae, illa ser participada por alguma coisa, por isso que é o ato de
potest individuari et multiplicari per uma matéria, ela pode ser individuada e multiplicada por
comparationem ad materiam. Iam autem
supra ostensum est, quod intellectus est relação com a matéria. Já acima mostramos que o intelecto
virtus animae quae est actus corporis. In é a faculdade de uma alma que é o ato de um corpo; logo,
multis igitur corporibus sunt multae animae, onde há muitos corpos há muitas almas e onde há muitas
et in multis animabus sunt multae virtutes
almas há muitas potências intelectuais a que damos o
intellectuales quae vocantur intellectus; nec
propter hoc sequitur quod intellectus sit nome de intelecto; daqui também não se segue que o
virtus materialis, ut supra ostensum est. intelecto seja uma faculdade material, como anteriormente
se demonstrou.

Si quis autem obiiciat quod, si [100] Se alguém objetar que do fato de as almas se
multiplicantur secundum corpora, sequitur multiplicarem conforme os corpos se segue que da
quod destructis corporibus, non remaneant destruição dos corpos não subsistiriam muitas almas, a
multae animae, patet solutio per ea quae
supra dicta sunt. Unumquodque enim sic est solução é clara a partir do que dissemos acima. Como o
ens, sicut unum, ut dicitur in quarto Metaph. livro IV da Metafísica diz, cada coisa é ser na medida em
Sicut igitur esse animae est quidem in que é uno203. Portanto, assim como o ser da alma existe no
corpore in quantum est forma corporis, nec corpo na medida em que é a forma do corpo, e não existe
est ante corpus; tamen destructo corpore,
adhuc remanet in suo esse: ita unaquaeque antes do corpo, embora uma vez o corpo destruído ela
anima remanet in sua unitate, et per ainda permaneça no seu ser assim também, uma vez o
consequens multae animae in sua corpo destruído, cada alma permanece na sua unidade e,
multitudine. consequentemente, muitas almas na sua multiplicidade.

Valde autem ruditer argumentantur ad [101] Argumenta-se de uma maneira rude e vã ao


ostendendum, quod hoc Deus facere non demonstrar que Deus não pode fazer com que haja muitos
possit, quod sint multi intellectus, credentes
hoc includere contradictionem. Dato enim
intelectos crendo que isso implicaria uma contradição.
quod non esset de natura intellectus quod Supondo-se, com efeito, que não é da natureza do intelecto
multiplicaretur, non propter hoc oporteret multiplicar-se204, nem assim haveria contradição numa
quod intellectum multiplicari includeret multiplicação do intelecto. De fato, nada impede que uma
contradictionem. Nihil enim prohibet aliquid
non habere in sua natura causam alicuius, coisa que não tenha pela sua natureza determinada
quod tamen habet illud ex alia causa: sicut propriedade a tenha por uma outra causa, tal como algo
grave non habet ex sua natura quod sit pesado que pela sua natureza não pode estar em cima e no
sursum, tamen grave esse sursum, non entanto não há contradição no fato de estar em cima;
includit contradictionem; sed grave esse
sursum secundum suam naturam haveria contradição, sim, se ele estivesse em cima segundo
contradictionem includeret. Sic ergo si a sua própria natureza205. Desta maneira, se o intelecto de
intellectus naturaliter esset unus omnium, todos os homens fosse naturalmente um, por não ter na sua
quia non haberet naturalem causam
natureza a causa natural da multiplicação, poderia chegar a
multiplicationis, posset tamen sortiri
multiplicationem ex supernaturali causa, nec multiplicar-se devido a uma causa sobrenatural, o que não
esset implicatio contradictionis. Quod implicaria nenhuma contradição. Afirmamo-lo não porque
dicimus non propter propositum, sed magis venha a propósito, mas mais para que se não aplique esta
ne haec argumentandi forma ad alia
extendatur; sic enim possent concludere
forma de argumentar a outros casos; é que assim poderiam
quod Deus non potest facere quod mortui concluir que Deus não pode ressuscitar os mortos nem
resurgant, et quod caeci ad visum recuperar a vista aos cegos.206
reparentur.

Adhuc autem ad munimentum sui erroris [102] Eles, porém, para defenderem o seu erro, ainda
aliam rationem inducunt. Quaerunt enim avançam outro argumento207. Perguntam, de fato, se aquilo
utrum intellectum in me et in te sit unum que é pensado por mim e por ti é absolutamente o mesmo
penitus, aut duo in numero et unum in ou se se trata de dois pensamentos em número e um em
specie. Si unum intellectum, tunc erit unus espécie. Se for o mesmo pensamento, então o intelecto
intellectus. Si duo in numero et unum in será um único; se forem dois em número e um em espécie
specie, sequitur quod intellecta habebunt
segue-se que os dois pensamentos conterão uma terceira
rem intellectam: quaecumque enim sunt duo
in numero et unum in specie, sunt unum coisa pensada - de fato, o que for em número de dois mas
intellectum, quia est una quidditas per quam um em espécie é uma só coisa pensada visto ser uma
intelligitur; et sic procedetur in infinitum, quididade pela qual se pensa - e assim ir-se-ia até ao
quod est impossibile. Ergo impossibile est infinito, o que é impossível. Assim, é impossível que
quod sint duo intellecta in numero in me et sejam em mim e em ti duas em número as coisas que se
in te; est ergo unum tantum, et unus
pensam; logo, aquilo que se pensa será apenas uma coisa e
intellectus numero tantum in omnibus.
apenas um em número o intelecto de todos nós.

Quaerendum est autem ab his qui tam [103] Temos de perguntar a estes que julgam argumentar
subtiliter se argumentari putant, utrum quod
sint duo intellecta in numero et unum in de maneira tão subtil, se o fato de serem dois em número
specie, sit contra rationem intellecti in os pensamentos e um em espécie vai contra a natureza do
quantum est intellectum, aut in quantum est que se pensa enquanto é pensado ou enquanto é pensado
intellectum ab homine. Et manifestum est,
secundum rationem quam ponunt, quod hoc pelo homem. De acordo com o argumento que apresentam,
est contra rationem intellecti in quantum est é evidente que vai contra a natureza do que se pensa
intellectum. De ratione enim intellecti, in
quantum huiusmodi, est quod non indigeat enquanto pensado; na verdade, não pertence à natureza do
quod ab eo aliquid abstrahatur, ad hoc quod que se pensa, enquanto tal, ser abstraído para poder ser
sit intellectum. Ergo secundum eorum pensado. Portanto, segundo o argumento deles podemos
rationem simpliciter concludere possumus
quod sit unum intellectum tantum, et non simplesmente concluir que o objeto que se pensa é apenas
solum unum intellectum ab omnibus um único e que não é apenas um único por ser pensado por
hominibus. Et si est unum intellectum
todos os homens. E se o objeto pensado é apenas um,
tantum, secundum eorum rationem, sequitur segue-se, de acordo com a argumento deles, que há apenas
quod sit unus intellectus tantum in toto
mundo, et non solum in hominibus. Ergo um intelecto em todo o mundo, e não apenas nos homens.
intellectus noster non solum est substantia Então, o nosso intelecto não é uma substância separada,
separata, sed etiam est ipse Deus; et ele é também o próprio Deus, e, ao universo, é retirada a
universaliter tollitur pluralitas substantiarum
separatarum. pluralidade das substâncias separadas.

Si quis autem vellet respondere quod [104] Mas se alguém quiser responder que aquilo que é
intellectum ab una substantia separata et pensado por uma substância separada e aquilo que é
intellectum ab alia non est unum specie,
pensado por uma outra não é uno em espécie visto que os
quia intellectus differunt specie, seipsum
deciperet; quia id quod intelligitur intelectos diferem em espécie, essa pessoa enganar-se-á. É
comparatur ad intelligere et ad intellectum, que aquilo que se pensa relaciona-se com o pensar e com o
sicut obiectum ad actum et potentiam. intelecto tal como o objeto se relaciona com o ato e com a
Obiectum autem non recipit speciem ab actu
neque a potentia, sed magis e converso. Est
potência. Ora, o objeto não toma a espécie nem do ato nem
ergo simpliciter concedendum quod da potência, mas ao contrário; logo, importa simplesmente
intellectum unius rei, puta lapidis, est unum admitir que o pensado correspondente a uma coisa, por
tantum non solum in omnibus hominibus, exemplo, a uma pedra, é uno não apenas em todos os
sed etiam in omnibus intelligentibus.
homens mas também em todos os seres pensantes.

Sed inquirendum restat quid sit ipsum [105] Falta ainda inquirir o que é em si mesmo aquilo que
intellectum. Si enim dicant quod intellectum se pensa. Se dizem que o que é pensado é uma única
est una species immaterialis existens in
intellectu, latet ipsos quod quodammodo espécie imaterial existente no intelecto, não se dão conta
transeunt in dogma Platonis, qui posuit quod que, de uma certa maneira, passaram para a doutrina de
de rebus sensibilibus nulla scientia potest Platão, o qual sustentou que não pode haver ciência das
haberi, sed omnis scientia habetur de forma
coisas sensíveis, mas que toda a ciência versa sobre uma
una separata. Nihil enim refert ad
propositum, utrum aliquis dicat quod forma una separada. Com efeito, nada tem a ver para o
scientia quae habetur de lapide, habetur de caso que alguém diga que a ciência que temos da pedra
una forma lapidis separata, an de una forma versa sobre a forma única da pedra separada ou sobre a
lapidis quae est in intellectu: utrobique enim
sequitur quod scientiae non sunt de rebus
forma única da pedra que está no intelecto; de fato, em
quae sunt hic, sed de rebus separatis solum. ambos os casos seguir-se-ia que as ciências não versariam
Sed quia Plato posuit huiusmodi formas sobre as coisas que estão aqui, mas apenas sobre as coisas
immateriales per se subsistentes, poterat separadas. Mas como Platão defendeu que essas formas
etiam cum hoc ponere plures intellectus,
participantes ab una forma separata unius imateriais subsistem por si, podia também, juntamente
veritatis cognitionem. Isti autem quia com isto, defender que vários intelectos participam no
ponunt huiusmodi formas immateriales conhecimento pela forma separada de uma verdade única.
(quas dicunt esse intellecta) in intellectu, Os averroístas, por seu lado, porque defendem que essas
necesse habent ponere quod sit unus
intellectus tantum, non solum omnium formas imateriais - que consideram ser pensadas - estão no
hominum, sed etiam simpliciter. intelecto208, devem necessariamente admitir que só há um
intelecto, não só em todos os homens mas em absoluto.

Est ergo dicendum secundum sententiam [106] Deve dizer-se, portanto, em conformidade com o
Aristotelis quod intellectum, quod est unum, ensinamento de Aristóteles, que aquilo que é pensado, que
est ipsa natura vel quidditas rei. De rebus é uno, é a própria natureza ou quididade da coisa; na
enim est scientia naturalis et aliae scientiae,
verdade, a ciência natural e as outras ciências versam
non de speciebus intellectis. Si enim
intellectum esset non ipsa natura lapidis sobre as coisas, não sobre as espécies pensadas. De fato, se
quae est in rebus, sed species quae est in o que é pensado não fosse a própria natureza da pedra que
intellectu, sequeretur quod ego non está nas coisas, mas a espécie que está no intelecto, seguir-
intelligerem rem quae est lapis, sed solum
intentionem quae est abstracta a lapide. Sed se-ia que eu não pensaria a coisa que é a pedra, mas tão-só
verum est quod natura lapidis prout est in a intenção que é abstraída da pedra. Mas é verdade que a
singularibus, est intellecta in potentia; sed fit natureza da pedra, enquanto está nos singulares, é pensada
intellecta in actu per hoc quod species a em potência e passa a ser pensada em ato pelo fato de as
rebus sensibilibus, mediantibus sensibus, espécies das coisas sensíveis chegarem, mediante os
usque ad phantasiam perveniunt, et per sentidos, à imaginação e de as espécies inteligíveis que
virtutem intellectus agentis species
intelligibiles abstrahuntur, quae sunt in estão no intelecto possível serem abstraídas pela virtude
intellectu possibili. Hae autem species non do intelecto agente. Contudo, para o intelecto possível,
se habent ad intellectum possibilem ut estas espécies não são aquilo que ele pensa, mas as
intellecta, sed sicut species quibus espécies pelas quais o intelecto pensa, tal como as espécies
intellectus intelligit (sicut et species quae
sunt in visu non sunt ipsa visa, sed ea quibus que estão na vista não são aquilo que se vê, mas sim aquilo
visus videt), nisi in quantum intellectus pelo qual a vista vê; a não ser no caso em que o intelecto
reflectitur supra seipsum, quod in sensu reflete sobre si mesmo, o que não pode suceder no caso
accidere non potest.
dos sentidos.209

Si autem intelligere esset actio transiens in [107] Se pensar fosse uma ação transitiva que passa para
exteriorem materiam, sicut comburere et uma matéria exterior, como queimar ou mover, seguir-se-
movere, sequeretur quod intelligere esset
secundum modum quo natura rerum habet
ia que o modo de ser do pensar seria o mesmo que o da
esse in singularibus, sicut combustio ignis natureza das coisas singulares, tal como a combustão do
est secundum modum combustibilis. Sed fogo acontece segundo a maneira de ser do combustível210.
quia intelligere est actio in ipso intelligente Mas uma vez que o pensar é uma ação imanente a quem
manens, ut Aristoteles dicit in nono
Metaph., sequitur quod intelligere sit pensa, conforme Aristóteles diz no livro IX da
secundum modum intelligentis, i. e. Metafísica211 segue-se que o pensar tem o modo de ser
secundum exigentiam speciei qua intelligens daquele que pensa, a saber, a exigência da espécie pela
intelligit. Haec autem, cum sit abstracta a qual pensa aquele que pensa. Uma vez que é abstraída dos
principiis individualibus, non repraesentat
rem secundum conditiones individuales, sed princípios individuais, essa espécie não representa a coisas
secundum naturam universalem tantum. nas suas condições individuais mas apenas na sua natureza
Nihil enim prohibet, si aliqua duo universal. De fato, se duas coisas se juntarem na realidade,
coniunguntur in re, quin unum eorum
nada impede que uma possa ser representada nos sentidos
repraesentari possit etiam in sensu sine
altero: unde color mellis vel pomi videtur a sem a outra, o que explica que a cor do mel ou da maçã
visu sine eius sapore. Sic igitur intellectus seja vista pela visão independentemente do seu sabor.
intelligit naturam universalem per Assim, também, o intelecto pensa a natureza universal,
abstractionem ab individualibus principiis.
pela abstração dos princípios individuais.

Est ergo unum quod intelligitur et a me et a [108] É portanto único o que é pensado por mim e por ti,
te, sed alio intelligitur a me et alio a te, i. e. mas é pensado por mim de um modo diferente de ti, a
alia specie intelligibili; et aliud est
intelligere meum, et aliud tuum; et alius est saber, por meio de uma outra espécie inteligível; e o meu
intellectus meus, et alius tuus. Unde et pensar é diferente do teu pensar; e o meu intelecto é
Aristoteles in praedicamentis dicit aliquam distinto do teu intelecto. Por isso, Aristóteles diz, nas
scientiam esse singularem quantum ad Categorias, que uma dada ciência é singular no seu sujeito
subiectum, ut quaedam grammatica in
subiecto quidem est anima, de subiecto vero “como certa ciência gramatical que está num sujeito que é
nullo dicitur. Unde et intellectus meus, a alma, embora não seja dita de nenhum sujeito”212. De
quando intelligit se intelligere, intelligit onde, quando o meu intelecto se pensa a pensar, pensa um
quemdam singularem actum; quando autem certo ato singular; já quando pensa no pensar puro e
intelligit intelligere simpliciter, intelligit
aliquid universale. Non enim singularitas simples, pensa algo de universal213. Não é a singularidade
repugnat intelligibilitati, sed materialitas: mas sim a materialidade que é incompatível com a
unde, cum sint aliqua singularia inteligibilidade, pelo que, como há alguns singulares
immaterialia, sicut de substantiis separatis
imateriais, como é o caso das substâncias separadas,
supra dictum est, nihil prohibet huiusmodi
singularia intelligi. conforme dissemos atrás, nada impede que se pense tais
singulares.

Ex hoc autem apparet quomodo sit eadem [109] Por aqui se vê claramente como a ciência em um
scientia in discipulo et doctore. Est enim aluno pode ser a mesma da de quem ensina. É a mesma
eadem quantum ad rem scitam, non tamen naquilo que se sabe, mas não quanto às espécies
quantum ad species intelligibiles quibus inteligíveis pelas quais cada um deles pensa; é de fato aqui
uterque intelligit; quantum enim ad hoc, que a ciência se individualiza em mim e em ti. Não é
individuatur scientia in me et in illo. Nec preciso que a ciência que existe no aluno seja causada pela
oportet quod scientia quae est in discipulo
ciência que o mestre tem, tal como o calor da água pelo
causetur a scientia quae est in magistro,
sicut calor aquae a calore ignis; sed sicut calor do fogo, mas antes como a saúde que está na matéria
sanitas quae est in infirmo, a sanitate quae é causada pela saúde que reside na alma do médico. Assim
est in anima medici. Sicut enim in infirmo como no doente se encontra o princípio natural da saúde,
est principium naturale sanitatis, cui ao qual o médico administra os meios auxiliares com vista
medicus auxilia subministrat ad sanitatem ao aperfeiçoamento da saúde, assim também no aluno se
perficiendam, ita in discipulo est principium
encontra o princípio natural da ciência, ou seja, o intelecto
naturale scientiae, scil. intellectus agens et
prima principia per se nota; doctor autem
agente e os primeiros princípios conhecidos por si
subministrat quaedam adminicula, mesmos; aquele que ensina administra algumas pequenas
deducendo conclusiones ex principiis per se ajudas deduzindo conclusões dos princípios conhecidos
notis. Unde et medicus nititur eo modo por si mesmos. Por isso, o médico esforça-se por curar da
sanare quo natura sanaret, scil. calefaciendo maneira em que a natureza curaria, a saber, aquecendo ou
et infrigidando; et magister eodem modo arrefecendo214. Do mesmo modo, o mestre conduz até à
inducit ad scientiam, quo inveniens per
ciência de modo a que quem investiga adquira a ciência
seipsum scientiam acquireret, procedendo
scil. de notis ad ignota. Et sicut sanitas in por si mesmo, ou seja, começando pelo que se conhece até
infirmo fit non secundum potestatem se chegar ao que se desconhece215. E tal como no doente a
medici, sed secundum facultatem naturae; saúde não acontece por causa da potência do médico, mas
ita et scientia causatur in discipulo non da capacidade da natureza, assim também a ciência é
secundum virtutem magistri, sed secundum causada no aluno não por causa do mérito do mestre mas
facultatem addiscentis. da capacidade do aprendiz.

Quod autem ulterius obiiciunt, quod si [110] Em relação ao que objetam mais ainda - que uma
remanerent plures substantiae intellectuales, vez os corpos destruídos restariam várias substâncias
destructis corporibus, sequeretur quod intelectuais, (pelo que elas seriam supérfluas à maneira da
essent otiosae; sicut Aristoteles in undecimo
Metaph. argumentatur, quod si essent argumentação de Aristóteles no livro XI da Metafísica216
substantiae separatae non moventes corpus, segundo o qual se houvesse substâncias separadas a não
essent otiosae: si bene litteram Aristotelis mover o corpo elas estariam a mais) - se eles reparassem
considerassent, de facili possent dissolvere. bem na letra de Aristóteles facilmente poderiam resolver a
Nam Aristoteles, antequam hanc rationem
inducat, praemittit: quare et substantias et objeção. De fato, antes de avançar com esse argumento
principia immobilia tot rationabile Aristóteles havia já referido que “é razoável sustentar que
suscipere; necessarium enim dimittatur há tantas substâncias quantos princípios imóveis; mas
fortioribus dicere. Ex quo patet quod ipse
deixamos a outros mais capazes dizer se isto é coisa
probabilitatem quamdam sequitur, non
necessitatem inducit. necessária”217. Por aqui se vê que ele se contentou com
uma certa possibilidade sem lhe dar nenhuma necessidade.

Deinde, cum otiosum sit quod non pertingit [111] Ademais, uma vez que aquilo que não atinge o fim
ad finem ad quem est, non potest dici etiam para que foi feito é supérfluo, não se pode dizer, ainda que
probabiliter quod substantiae separatae à guisa de probabilidade, que as substâncias separadas
essent otiosae, si non moverent corpora; nisi
seriam supérfluas se não movessem os corpos; a não ser,
forte dicatur, quod motiones corporum sint
talvez, que os averroístas digam que os movimentos dos
fines substantiarum separatarum, quod est
omnino impossibile, cum finis sit potior his corpos são os fins das substâncias separadas - o que é
quae sunt ad finem. Unde nec Aristoteles completamente impossível, porque o fim é mais
hic inducit quod essent otiosae si non importante do que as coisas que o têm como fim. Foi por
moverent corpora, sed quod omnem isso que Aristóteles não defendeu que elas seriam
substantiam impassibilem secundum se supérfluas no caso de não moverem os corpos, mas sim
optimum sortitam finem esse oportet
que “qualquer substância impassível que atingiu por si um
existimare. Est enim perfectissimum
bem ótimo deve ser estimada como fim”218. De fato, a
uniuscuiusque rei ut non solum sit in se maior perfeição de cada coisa consiste não em ela ser boa
bonum, sed ut bonitatem in aliis causet. Non em si mesma, mas em causar a bondade nas outras coisas.
erat autem manifestum qualiter substantiae Não era claro o modo como as substâncias separadas
separatae causarent bonitatem in
haveriam de causar a bondade nos seres inferiores, a não
inferioribus, nisi per motum aliquorum
corporum. Unde ex hoc Aristoteles ser mediante o movimento de alguns corpos; daí que
quamdam probabilem rationem assumit, ad Aristóteles tivesse assumido um argumento provável para
ostendendum quod non sunt aliquae mostrar que não há outras substâncias separadas exceto as
substantiae separatae, nisi quae per motus que se nos manifestam pelo movimento dos corpos
caelestium corporum manifestantur, celestes, ainda que, caso que ele mesmo admite, isso não
quamvis hoc necessitatem non habeat, ut
seja necessário.
ipsemet dicit.

Concedimus autem quod anima humana a [112] Nós admitimos que, separada do corpo, a alma
corpore separata non habet ultimam humana não tem a última perfeição da sua natureza, dado
perfectionem suae naturae, cum sit pars ser uma parte da natureza humana219; na verdade, nenhuma
naturae humanae. Nulla enim pars habet
omnimodam perfectionem si a toto parte tem a perfeição completa se se separa do todo. Mas
separetur. Non autem propter hoc frustra est; não é por isto que é em vão220; de fato, o fim da alma
non enim est animae humanae finis movere humana não é mover o corpo, mas pensar, coisa em que
corpus, sed intelligere, in quo est sua consiste a sua felicidade, conforme Aristóteles prova no
felicitas, ut Aristoteles probat in decimo
Ethic. livro X da Ética.221

Obiiciunt etiam ad sui erroris assertionem, [113] Também objetam a favor do seu erro que se
quia si intellectus essent plures plurium houvesse vários intelectos consoante os vários homens,
hominum, cum intellectus sit incorruptibilis, uma vez que o intelecto era incorruptível seguir-se-ia que
sequeretur quod essent actu infiniti
deveria haver uma infinidade de intelectos em ato, de
intellectus secundum positionem Aristotelis,
acordo com a doutrina de Aristóteles que defendeu que o
qui posuit mundum aeternum et homines
semper fuisse. Ad hanc autem obiectionem mundo é eterno e que sempre houve homens222. Contra
sic respondet Algazel in sua metaphysica: esta objeção, al-Ghazali responde da seguinte maneira, na
dicit enim quod in quocumque fuerit unum sua Metafísica: diz que “cada vez que um destes se dá sem
istorum sine alio, quantitas vel multitudo o outro”, isto é, a quantidade ou o múltiplo sem a ordem,
sine ordine, infinitas non removebitur ab eo, “a infinidade não lhe é retirada, tal como ao movimento do
sicut a motu caeli. Et postea subdit: similiter céu”. E a seguir acrescenta: “Assim, também,
et animas humanas, quae sunt separabiles a relativamente às almas humanas que se separam dos
corporibus per mortem, concedimus esse corpos após a morte, admitimos que são infinitas em
infinitas numero, quamvis habeant esse
número, mesmo existindo em simultâneo, dado que não há
simul, quoniam non est inter eas ordinatio
entre elas uma ordenação de natureza que, uma vez
naturalis, qua remota desinant esse animae:
eo quod nullae earum sunt causae aliis, sed subtraída, faça com que as almas deixem de existir; é que
simul sunt, sine prius et posterius natura et nenhuma delas é a causa das outras mas, ao invés, elas
situ. Non enim intelligitur in eis prius et existem ao mesmo tempo sem relação de anterior e de
posterius secundum naturam nisi secundum posterior, de natureza e de lugar. Com efeito, não se
tempus creationis suae. In essentiis autem concebe que nelas o anterior e o posterior seja uma relação
earum, secundum quod sunt essentiae, non de natureza, mas que o seja apenas quanto ao tempo da sua
est ordinatio ullo modo, sed sunt aequales criação. Nas suas essências, enquanto essências, não há
in esse; e contrario spatiis et corporibus et qualquer relação de ordem, mas são iguais no ser, ao
causae et causato.
contrário dos espaços e dos corpos, da causa e do
causado.”223

Quomodo autem hoc Aristoteles solveret, a [114] Não conhecemos a maneira como Aristóteles
nobis sciri non potest, quia illam partem
poderia resolver isto porque não possuímos aquela parte
metaphysicae non habemus, quam fecit de
substantiis separatis. Dicit enim philosophus da Metafísica dedicada às substâncias separadas. Ele diz,
in secundo Physic., quod de formis quae porém, no livro II da Física que “é tarefa da filosofia
sunt separatae, in materia autem (in primeira” examinar “na matéria apenas” as formas “que
quantum sunt separabiles), considerare est são separadas”, na medida em que são separadas224. Diga-
opus philosophiae primae. Quidquid autem
circa hoc dicatur, manifestum est quod ex se porém o que se disser relativamente a este assunto, é
hoc nullam angustiam Catholici patiuntur, evidente que os católicos não se devem afligir com ele,
qui ponunt mundum incepisse. visto defenderem que o mundo teve um princípio.

Patet autem falsum esse quod dicunt hoc [115] Mas é manifestamente falso o que eles dizem, a
fuisse principium apud omnes saber, que entre todos os que filosofam, quer Árabes quer
philosophantes, et Arabes et Peripateticos, Peripatéticos, houve o princípio de que o intelecto não se
quod intellectus non multiplicetur
numeraliter, licet apud Latinos non. Algazel multiplica em número, ainda que entre os Latinos não seja
enim Latinus non fuit, sed Arabs. Avicenna assim. Algazel não foi, de fato, um latino, mas um árabe.
etiam, qui Arabs fuit, in suo libro de anima Também Avicena, que era árabe, diz o seguinte no seu
sic dicit:prudentia et stultitia et alia
livro sobre A Alma: “A prudência, a estultícia, a opinião, e
huiusmodi similia, non sunt nisi in essentia
animae (...) ergo anima non est una sed est outras similares, pertencem só à essência da alma. Logo, a
multae numero, et eius species una est. alma não é numericamente una, mas múltipla, e a sua
espécie é que é una.”225

Et ut Graecos non omittamus, ponenda sunt [116] E a fim de não omitirmos os Gregos, temos de
circa hoc verba Themistii in commento. mencionar as seguintes palavras de Temístio no seu
Cum enim quaesivisset de intellectu agente, Comentário. Ao perguntar, acerca do intelecto agente, se é
utrum sit unus aut plures, subiungit solvens: um ou muitos, responde adiantando: “Ou o primeiro que
aut primus quidem illustrans est unus,
ilumina é único e os iluminados e os que iluminam são
illustrati autem et illustrantes sunt plures.
vários. Na realidade, o Sol é único, mas tu dizes que a luz
Sol quidem enim est unus, lumen autem
dices modo aliquo partiri ad visus. Propter chega de algum modo repartida à vista. Por isso é que ele,
hoc enim non solem in comparatione posuit quer dizer, Aristóteles, não propôs uma comparação com o
(scil. Aristoteles), sed lumen; Plato autem Sol, mas com a luz, e só Platão é que comparou com o
solem. Ergo patet per verba Themistii quod Sol.”226 É evidente, por conseguinte, a partir das palavras
nec intellectus agens, de quo Aristoteles de Temístio, que nem o intelecto agente de que Aristóteles
loquitur, est unus qui est illustrans, nec
fala é único ao iluminar, nem o intelecto possível, que por
etiam possibilis qui est illustratus. Sed
verum est quod principium illustrationis est sua vez é iluminado; no entanto, é verdade que o princípio
unum, scil. aliqua substantia separata, vel da iluminação é único, a saber, uma certa substância
Deus secundum Catholicos, vel intelligentia separada: ou Deus, segundo os católicos, ou a última
ultima secundum Avicennam. Unitatem Inteligência, segundo Avicena. Temístio prova a unidade
autem huius separati principii probat deste princípio separado pelo fato de quem ensina e quem
Themistius per hoc, quod docens et aprende pensarem a mesma coisa, o que só sucederia se o
addiscens idem intelligit, quod non esset nisi
princípio iluminador fosse o mesmo. Mas é verdade o que
esset idem principium illustrans. Sed verum
est quod postea dicit quosdam dubitasse de diz logo a seguir, que alguns duvidaram se o intelecto
intellectu possibili, utrum sit unus. Nec circa possível era único. Todavia não diz mais nada acerca
hoc plus loquitur, quia non erat intentio eius disso, porque não tinha a intenção de abordar as diversas
tangere diversas opiniones philosophorum, opiniões dos filósofos, mas de expor as doutrinas de
sed exponere sententias Aristotelis, Platonis Aristóteles, de Platão e de Teofrasto. Por esta razão
et Theophrasti; unde in fine concludit: sed
conclui, no fim: “Ora, o que eu disse, pronunciando-me
quod quidem dixi pronunciare quidem de eo
em relação ao parecer dos filósofos, requer particular
quod videtur philosophis, singularis est
studii et sollicitudinis. Quod autem maxime estudo e atenção. Mas tomar das palavras que coligimos
aliquis utique ex verbis quae collegimus, uma perspectiva da doutrina de Aristóteles e de Teofrasto,
accipiat de his sententiam Aristotelis et e mais ainda do próprio Platão, é o que prontamente se
Theophrasti, magis autem et ipsius Platonis, pode fazer.”227
hoc promptum est propalare.
[117] É portanto evidente que nem Aristóteles, nem
Ergo patet quod Aristoteles et Theophrastus
Teofrasto, nem Temístio, nem o próprio Platão, tiveram
et Themistius et ipse Plato non habuerunt por princípio que o intelecto possível é único para todos os
pro principio, quod intellectus possibilis sit homens. E também evidente que Averróis refere
unus in omnibus. Patet etiam quod Averroes perversamente a doutrina de Temístio e de Teofrasto
perverse refert sententiam Themistii et
acerca do intelecto possível e do intelecto agente; foi
Theophrasti de intellectu possibili et agente.
Unde merito supradiximus eum merecidamente, portanto, que lhe chamamos acima o
philosophiae Peripateticae perversorem. corruptor da filosofia peripatética228. É espantoso, por isso,
Unde mirum est quomodo aliqui, solum como alguns, que viram tão-somente o comentário de
commentum Averrois videntes, pronuntiare Averróis, presumem poder pronunciar-se no sentido de
praesumunt, quod ipse dicit, hoc sensisse que aquilo que ele diz todos os filósofos Gregos e Árabes,
omnes philosophos Graecos et Arabes,
com exceção dos Latinos, defenderam.
praeter Latinos.

Est etiam maiori admiratione vel etiam [118] Causa ainda maior admiração ou é mesmo motivo de
indignatione dignum, quod aliquis indignação, o fato de alguém que se diz cristão falar de
Christianum se profitens tam irreverenter de forma tão irreverente acerca da fé cristã, dizendo, por
Christiana fide loqui praesumpserit; sicut
cum dicit quod Latini pro principio hoc non exemplo, que “os Latinos não têm isso como princípio”, a
recipiunt, scil. quod sit unus intellectus saber, que há apenas um intelecto “talvez porque contraria
tantum, quia forte lex eorum est in a sua religião”. Há nisto dois males: o primeiro, porque
contrarium. Ubi duo sunt mala: primo, quia esse alguém duvida se é matéria que vai contra a fé; o
dubitat an hoc sit contra fidem; secundo,
quia se alienum innuit esse ab hac lege. Et segundo, porque apresenta-se como sendo alheio a esta
quod postmodum dicit: haec est ratio per religião. Quer o que diz a seguir - “é este o argumento com
quam Catholici videntur habere suam o qual os católicos parecem fundar a sua posição” - onde
positionem, ubi sententiam fidei positionem
chama, ‘posição’ à doutrina da fé -, quer o que pouco
nominat. Nec minoris praesumptionis est
quod postmodum asserere audet: Deum non depois ousa afirmar - Deus não pode fazer com que
posse facere quod sint multi intellectus, quia existam muitos intelectos porque uma tal coisa implicaria
implicat contradictionem. contradição não é menor presunção.229

Adhuc autem gravius est quod postmodum [119] Mas ainda mais grave é o que ele diz logo a seguir:
dicit: per rationem concludo de necessitate, “Pela razão, concluo necessariamente que o intelecto é um
quod intellectus est unus numero; firmiter em número, todavia, pela fé, sustento convictamente o
tamen teneo oppositum per fidem. Ergo
sentit quod fides sit de aliquibus, quorum contrário”. Deste modo pensa que a fé diz respeito às
contraria de necessitate concludi possunt. afirmações acerca das quais se pode concluir o contrário
Cum autem de necessitate concludi non necessariamente; uma vez que só se pode concluir o
possit nisi verum necessarium, cuius verdadeiro necessário cujo oposto é o falso impossível,
oppositum est falsum impossibile, sequitur
secundum eius dictum quod fides sit de segue-se, de acordo com a afirmação dele, que a fé é
falso impossibili, quod etiam Deus facere relativa ao falso impossível, que também Deus não pode
non potest: quod fidelium aures ferre non fazer - o que os ouvidos dos fiéis não podem permitir.230
possunt. Não é também sem grande temeridade que ele presume
Non caret etiam magna temeritate, quod de
his quae ad philosophiam non pertinent, sed disputar sobre aquilo que não diz respeito à filosofia, mas
sunt purae fidei, disputare praesumit, sicut é da esfera da pura fé, por exemplo, que a alma padece
quod anima patiatur ab igne Inferni, et pelo fogo do inferno, ou dizer que são passíveis de
dicere sententias doctorum de hoc esse
condenação as afirmações dos doutores relativas a este
reprobandas. Pari enim ratione posset
disputare de Trinitate, de incarnatione, et de ponto231; de fato, com um argumento igual poderia
aliis huiusmodi, de quibus nonnisi disputar sobre a Trindade, a Incarnação e temas afins em
caecutiens loqueretur. relação aos quais só falaríamos obscuramente.

Haec igitur sunt quae in destructionem [120] Eis, em suma, o que redigimos para destruir os erros
praedicti erroris conscripsimus, non per referidos, não servindo-nos dos dogmas da fé, mas dos
documenta fidei, sed per ipsorum argumentos e das afirmações dos próprios filósofos. Se,
philosophorum rationes et dicta. Si quis alguém, gloriando-se do falso nome da ciência, quiser
autem gloriabundus de falsi nominis dizer alguma coisa contra o que acabamos de escrever, que
scientia, velit contra haec quae scripsimus não fale pelos cantos nem à frente dos rapazes que não
aliquid dicere, non loquatur in angulis nec sabem julgar assuntos tão árduos, mas em vez disso
coram pueris qui nesciunt de tam arduis escreva, respondendo a esta obra, se tiver coragem232. Não
iudicare; sed contra hoc scriptum rescribat, me encontrará apenas a mim, que sou o menor de todos,
si audet; et inveniet non solum me, qui
mas a muitos mais zeladores da verdade, com os quais se
aliorum sum minimus, sed multos alios
resiste ao seu erro ou se tomam medidas em relação à sua
veritatis zelatores, per quos eius errori
resistetur, vel ignorantiae consuletur. ignorância.