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Freud e 0 Método Cientifico

Maiolino Miranda
Departamento de Psicologia Cli-
nica/CFCH/UFPA

Resumo: O autor analisa complexidade


a conceituag&o da Psicandlise e a dificuldade
de de
submeté-la a uma usando
metodologia cientifica, procedimentos convencionais, em virtude
de sua natureza multifacetada, isto é, simultaneamente uma Teoria de Estruturag&o da Per-
sonalidade, uma técnica de Investigagéo de fendmenos inconscientes, uma Terapia de
Conflitos Inconscientes e uma Weltanschaunung. Discute, ainda, a necessidade de adequar o
método cientifico ao objeto de estudo; no caso da Psicandlise, sugere que sua contribuigao
compreensiva é mais enriquecedora.
Palavras-chave: psicandlise, cultura, método cientifico, ciéncias exatas e ciéncias humanas.

Freud and Scientific Method


Abstract: complexity involved in conceptualizing psychoanalysis, and the difficulty of
The
subjecting the theory to scientific methodology is analysed. Due to its multifaceted nature,
psychoanalysis is at the same time a theory of personality structure, a technique for

investigating unconscious phenomena, a therapy for unconscious conflicts, and a


Weltanschaunung. The necessity of adjusting the scientific method to the object under study
is also discussed along with the suggestion that as a comprehensive theory, psychanalysis
provides an enriched contribution.
Key Words: psychoanalysis, culture, scientific method, exact sciences, humanities.

A cultura ocidental comemora neste ano de 1995 0 centésimo


aniversdrio do advento da Psicandlise. O que Sigmund Freud represen-
ta hoje, na Histéria do Pensamento Universal?
Freud, Vida e Obra se completam (Jones, 1970). Autor de
Em
uma obra complexa, controvertida mas original, tem sido objeto de
estudo critico, mais ou menos apaixonado, n4o esgotandoas possibili-
dades interpretativas, dai seu valor heuristico. Neste artigo, néo
pretendemosrealizar uma analise da psicandlise. Outros especialistas
da prépria drea ou de areas afins j4 o tentaram, com maior ou menor
éxito. Nosso objetivo é assinalar alguns aspectos controversos que
marcaram a génese e evolucdo da Psicandlise, contribuindo assim para

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
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uma melhor compreensao do significado atual desta ciéncia, suas po-


tencialidades, desvios e limitagdes (Marcuse, sd.; Nelson, 1959.
A primeira dificuldade metodologica a enfrentar é a sedugdo
de tentar explicar a obra (a Psicandlise) a partir da biografia do homem
(Sigmund Freud), situado em um determinado contexto sociocultural-
histérico, a Viena do final do século XIX e seu espirito de época (Gay,
1990). Outra abordagem tenta explicar a Psicandlise enquanto criagao
original e complexa de uma personalidade dilacerada por duvidas
existenciais e metodolégicas, reduzindo-a a um mero casgq clinico, a

chamada Neurose de Freud (Silva, 1994). Nesse sentido, varios


estudos tentaram realizar a génese do método, confundindo-se com os

conflitos da personalidade de seu criador. Assim, a Psicandlise


extrapolaria a concepgao de Teoria do Inconsciente e se colocaria na

regido dos Mitos, uma criagao fantdstica, talvez até delirante, uma
ficgdo cientifica elaborada a partir de conflitos existenciais de um
jovem médico judeu agndéstico, inserido em um complexo histdrico-
cultural da Viena dos Habsburgos, com o seu moralismo puritano
(Gay, 1989).
Outra 6tica aborda a Psicandlise
primeira tentativa de
como

explicar e compreender a quest&o da sexualidade (que em Freud ga-


nhou uma conotagio mais abrangente do que o mero impulso
biolégico) (Nelson, 1959). Essa questo da sexualidade foi encarada
diversamente nas varias épocas histéricas, desde o liberalismo dos gre-
gos a Idade Média repressora (caga e condenacdo das bruxas pela
inquisigao), até a época vitoriana, onde se situa 0 inicio da Psicanilise;
quest&io considerada tabu apenas tangencialmente abordado pela co-
munidade cientifica da época de Freud (estudos de Havellock Ellis e
Kraft Ebing lhe serviram de base), embora esta questdo sexual fosse
veladamente comentada em publico e o sexo praticado em surdina.
Criava-se, assim, uma visdo distarcida da realidade familiar, com seus

conflitos conjugais mal


resolvides, resultando em frustragdes dessa
ideologia daclasse social e seus valores burgueses hipocritas, que pre-
feria n&o enfrentar seus problemas internos e de personalidades
divididas entre imagem publica e a privada,fruto, portanto, da ideo-
a

logia de uma classe social burguesa e sua moral puritana (Gay, 1990).
A grandeza e a originalidade da obra freudiana nado podem ser
reduzidas a tentativas de vulgarizagao dapsicanalise, releituras ou vi-
sdes distorcidas de seus detratores: socidlogos, antropdlogos,

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cientistas politicos, historiadores, filésofos, metoddlogos da ciéncia,


tentaram desvendar o enigma freudiano (Foucault, Lacan etc.). Entre-
tanto, a grande dificuldade para entender e conceituar a psicandlise

consiste em definir claramente suas caracteristicas e seus limites. A


psicandlise é, ao teoria de estruturago
mesmo tempo, uma da perso-
nalidade, uma técnica de investigac¢éo dos fenémenos inconscientes,
uma terapia de conflitos inconscientes (principalmente os neurdticos) e
uma visio do mundo (0 que os alemes chamam de Weltanschaunung).
Muitos do equivocos destes criticos da psicandlise e até de muitos psi-
canalistas resultam da dificuldade de definir e delimitar operacio-
nalmente estes varios aspectos desta Ciéncia (e aqui usamos Ciéncia no

sentido amplo do termo) (Dalbiez, 1947).


Freud representou, talvez, um caso singular na histéria das
ciéncias, ao criar solitariamente uma ciéncia -
a ciéncia do inconsciente
dinaémico (Trilling, 1969). Evidentemente que Freud teve precursores
na Filosofia e na ficgdo literdria e poética de varias épocas (0 mito ou
alegoria da caverna em Platéo, 0 conceito Nietscheano de impulsos
e a nogdo de inconsciente
cegos determinando nosso comportamento
de Schopenhauer, em “O Mundo como vontade e Representagfio -

Metafisica do Amor”. Freud amava os classicos e freqilentava aulas do


fildsofo Brentano (Assoun, 1978; Backes, 1969, pp. 281-295).
Entretanto, coube a Freud a primazia na sistematizagéo de uma teoria
organizada e coerente para explicar a génese, a estrutura e 0

funcionamento deste fendmeno inconsciente, criando assim a Ciéncia


do Inconsciente Dindmico (Trilling, uma 1969). Para ciéncia se

constituir, é necessario preencher dois requisitos basicos: possuir um

objeto de estudo prdprio, especifico, nfo apropriado de outras


ciéncias, (no caso da Psicandlise o inconsciente dinémico) e um método
proprio para aborda-lo, o método psicanalitico. Os filésofos criaram
grandes sistemas explicativos de Ser e do Mundo, dai falarmos de uma
filosofia platénica, tomista, marxista, fenomenoldgica, existencialista
etc. Teria Freud criado mais um sistema filosdfico inacabado? Suas
ultimas obras de
psicandlise aplicadas 4 cultura e 4 compreens&éo do
mal-estar da civilizagao permitem pensar ser este o objetivo final de sua

obra (Dalbiez, 1947; Freud, 1948).


Noque se método psicanalitico, usou
refere ao a introspec-
¢4o, instrumentalmente mais refinada do que a de Wundt as técnicas
da andlise e interpretagdo de sonhos (que ele definia como a via régia

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para atingir o inconsciente), aandlise da transferéncia e da resisténcia e

a anilise dos atos falhos (Marx & Hillix, 1979, Wolberg, 1967).
Até queponto a Psicandlise resiste a uma critica metodoldégica
e epistemoldégicarigorosa (usando o método
experimental e verificacdo
de hipéteses), que avalie seu “status” de cientificidade? Seria a Psica-
nalise uma pseudociéncia? (Bunge, 1969; Nagel, 1974). Situar-se-ia no

mesmo nivel de outros pseudosaberes como a Quiromancia, a Astro-

logia, a Parapsicologia? Teria Freud, sob o pretexto de analisar todos


os mitos, desmascarando as ilusdes de todas as ideologias religiosas,
politicas, cientificas, incorrido no mesmo erro, isto é, criado um novo
mito, substituto, o mito da Psicandlise? (Ehrenwald, 1969).
Como método de investigacéo de fenémenos inconscientes a

Psicandlise foi alvo de muitas criticas: epistemoldgicas, éticas, religio-


sas etc (Bleger, 1963; Bunge, 1969; Marx & Hillix, 1979). Podemos

esquematizar essas criticas em duas vertentes: uma critica extrinseca e

outra intrinseca.
Como critica extrinseca, a metodolégico-experimental recusa
© status de ciéncia a Psicandlise (situando-a no mesmo nivel das pseu-
dociéncias acima referidas) porque nfo preencheria os requisitos de
uma verdadeira ciéncia que usa o método experimental, (Bunge, 1969;
Wolberg, 1966), o qual se caracteriza pela formulacdo e verificac&ode
hipdteses, a replicagaio do experimento em condigdes controlaveis
(ceteris paribus), enquanto a Psicandlise tem dificuldade em operacio-
nalizar seus conceitos bdsicos sobre o comportamento, onde se

confundem observacdes superficiais e nao sistematizadas com intuigdes


e inferéncias com alto grau de generalizacdo. A esta critica, a Psicanali-
se responde que metoddlogos positivistas restringem 0 conceito de
Ciéncia as chamadas Ciéncias Exatas e privilegiam 0 método experi-
mental como o unico confidvel. O filésofo Dilthey ja classificara dois
tipos de ciéncia: as Ciéncias da Natureza (Naturwissenschaften) que
usam © método experimental e as Ciéncias do Espirito
(Geistwissenschaften), que usam o método idiografico, que visa a
compreensao do objeto de estudo (Jaspers, 1963). A Psicandlise seria
uma Ciéncia do Espirito, como a Histéria, a Sociologia, a Antropolo-

gia Cultural, isto é, um misto de Ciéncia, Arte e Literatura.


Por outro lado, o préprio conceito de Ciéncia como o unico

tipo de saber confidvel, segundo o modelo positivista, esta sendo ques-


tionado por metodélogos. Cientistas como Polanyi preconizam que a

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Ciéncia deveria rever nio somente seus métodos positivistas, como

seus préprios fundamentos. As proprias Ciéncias ditas Exatas nfo séo


téo exatas pretenderiam, como
quanto demonstraram, na Fisica, a Lei
da Indeterminagao de Heisenberg e 0 Teorema de Gédel e a nova Te-
oria do Caos e dosfractais. A Ciéncia nfo detém omonopolio da
verdade, pois 0 conhecimento é interfecundante e problematizavel. A
Ciéncia 6, ou deveria ser, o mais humilde dos ramos do saber (e tem a

ver com ética, aliviar humano), no sentido de que seus


o sofrimento
métodos e modelos sao passiveis de reformulagdes permanentes, atra-
vés de ciclos de revolugdes cientificas (Kuhn, 1975). Uma teoria, por
mais sofisticada que seja, trabalha por aproximagdes sucessivas da rea-

lidade. O modelo cientifico é um recorte da realidade, nfo se confunde


com Sempre que novos
esta. fendmenos desafiam cientifi-
a explicag&o

ca convencional, a Ciéncia deve ser questionada na sua Metodologia e


nos préprios fundamentos.
Comrelacdo a segundavertente, a critica interna 4 Psicandlise
é praticada por epistemdlogos, que tentam realizar a andlise da
Psicandlise, usando seu proprio método para analisar sua validade e
suas limitagdes enquanto conhecimento cientifico. A Histéria do
Movimento psicanalitico, a partir dos conceitos basicos de seu
fundador, os conflitos internos e cisdes, tem sido objeto de estudo de
analise ‘histérica e cultural. Jung criticou o pansexualismo da Teoria
Psicanalitica talvez sem perceber que a teoria da sexualidade, segundo
Freud, incluia mas ndo se reduzia a uma mera teoria biolégica do sexo.
Os psicanalistas culturalistas, como Karen Horney, H. S. Sullivan e

Erich Fromm, introduziram a varidvel cultural na estruturag&o da


personalidade e seus conflitos. Wilhelm Reich e Fromm tentaram

conciliar 0 marxismo com a Psicandlise (Guardo, 1969; Marx & Hillix,


1979).
A Psicandlise, como método de investigagaéo de fendmenos
inconscientes, recebeu criticas metodolégicas e epistemoldgicas. O
proprio conceito de inconsciente é refutado ou conceituado diversa-
mente pelo existencialismo de Sartre ou pelo Marxismo, que no pode
aceitar um inconsciente ahistérico e atemporal. As principais criticas
positivistas se referem a dificuldade de replicagéo do experimento
psicanalitico que, ao usar o método introspectivo, cria um relato
singular, unico, que no permite o controle das variaveis, pois cada
sessdo nao repete jamais 0 mesmo “clima” da anterior, dai a dificuldade

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do controle experimental das varidveis.


avaliacgo de A dificuldade na

muitos postulados analiticosconsiste na operacionalizagéo de cons-


tructos tedéricos abstratos, com elevado nivel de generalizagéio e a
dificuldade de identificar e controlar a multiplicidade de varidveis sutis
(Marx & Hillix, 1979).
A psicandlise usa 0 raciocinio posfacto, ergo ipso facto, isto é,
se um fato ocorre apés outro, havera necessariamente uma relac&o de
continuidade, de causa e efeito entre os dois fatos, a que nem sempre é
valido como explica¢4o causal; usa o pensamento tautoldgico, ou seja,
explica o inconsciente pelo inconsciente. Quando algum cientista recu-
sa aceitar 0 conceito psicanalitico de Resisténcia, o psicanalista atribui
essa quest&o conceitual a resisténcia intelectual inconsciente do cientis-
ta. Psicandlise
A também ndo atenderia a uma das exigéncias do
conhecimento cientifico: ser organizado, sistematizado plural. Ora, o
conhecimento psicanalitico é singular, ndo replicavel. Haverda possibili-
dade de uma ciéncia do fendmeno singular, inico? A Psicandlise

responde que sim e que trabalha com padroesrepetitivos, isto é, a con-


duta neurdética tende a produzir (repetir) os mesmos padrdes de
respostas estereotipadas (Marx & Hillix, 1979).
Quanto 4 técnica terapéutica psicanalftica como terapia de -

conflitos inconscientes: a Psicandlise revolucionou o proprio conceito

clinico (médico) de cura, que é um conceito biolégico da psiquiatria


classica. Freud acreditava que todos nés somos neurdticos, ndo sim-
plesmente por apresentarmos manifestacdes simbdélicas de conflitos
inconscientes, mas no sentido de que todo ser humano precisa aprender
a lidar com seus conflitos existenciais, que sdo inerentes ao proprio ato
de viver, ou como diria mais tarde Guimarfes Rosa em Grandes Ser-
tées Veredas “Viver é extremamente
- perigoso” (Rosa, 1956).
A eficadcia da técnica psicanalitica tem sido testada e compa-
rada com outras técnicas (behaviorista, fenomenoldgica, gestaltica),
revelando-se igualmente eficaz no alfivio sintomatico e na reestrutura-

g&o da personalidade, para aprender a tolerar o sofrimento humano,


embora exija maior investimento motivacional, emocional, intelectual e

financeiro que outras técnicas.


requisitos necessdrios para iniciar e
Os
manter 0 processo psicanalitico (andlise termindvel ou interminavel)
(Freud, 1948) sao tantos que reduzem em muito sua aplicagdo pratica
na sua forma ortodoxa, dai o advento de formas abreviadas ou adapta-
das de psicoterapia de base analitica. Paradoxalmente, a psicandlise

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Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
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parece oferecer melhores resultados nos casos bem selecionados de


pessoas que, previamente a andlise, solucdes adequadas e
encontraram
criativas para lidar com conflitos intra e interpessoais, além de possuir
ego forte, motivagao adequada, capacidade de insight, isto é, pessoas
que tiveram o minimo de coragem para aceitar 0 jogo para descobrir
sua “verdade” pessoal. O objetivo basico da Psicandlise ¢ ampliar o
campo da consciéncia, aprendera identificar ¢ lidar com seus impulsos
e desejos irracionais, permitindo assim tomar decisdes mais maduras e

racignais, fundando uma nova ética nas relagdes humanas ou, como
diria Freud, permitir-se gozar os fugazes momentos de felicidade e

tornar mais toleravel a infelicidade da condig¢éohumana. Evidentemen-


te que os objetivos a alcangar, em cada caso, ser&o operacionalizados e
avaliados durante 0 processo analitico. Nesse sentido, Freud fala como
um filésofo cuja visio do mundo realista, para ndo dizer pessimista e,
ao contrario do Romantismo de J. J. Rousseau, aproxima-se mais da
concepgio de Hobbes (o homem é o lobo do prdéprio homem)
(Miranda, 1972).
Em sintese, a primeira dificuldade metodoldgica para
compreender e avaliar a contribuig&éode Freud como pensador da
cultura é revelada quando se tenta separar os varios aspectos da
Psicanalise, enquanto teoria da personalidade, um método de inves-
tigac4o cientifica dos fendmenos inconscientes, uma terapia de conflitos
psiquicos e uma visio do mundo (uma Weltanschaunung)(Dalbiez, 1947).
Conforme referido anteriormente, Freud representou, talvez,
um caso singular de um pensador que criou uma nova Ciéncia desde
seus fundamentos, passo a passo, e formulou uma teoria integrada e
coerente do inconsciente dindmico. Apesar das criticas dos metodélo-
gos positivistas que valorizam somente o método experimental, a
Psicandlise preenche os requisitos de uma verdadeira Ciéncia, pois uma
Ciéncia se constitui quando tem um objeto de estudo préprio (isto é,
ndo apropriado de outras ciéncias): 0 inconsciente dinamico e um se-

gundo requisito, ter um método original para estudar este objeto, no


caso da Psicandlise, 0 método introspectivo, sofisticado, das associa-
¢6eslivres e as técnicas de andlise da resisténcia, da transferéncia, dos
sonhos e dos atos falhos (Wolberg, 1966). Com esta descoberta, Freud
realizou 0 que mais tarde Gaston Bachelard chamaria um corte episte-
mologico na historia das ciéncias, uma ruptura de um paradigma
cientifico, ou seja, uma nova visdio do mundo (Bachelard, 1948).

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
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A descoberta cientifica do inconsciente foi terceiro


golpe na
o

ferida narcisica do homem (Freud, 1948). O primeiro foi a formulagao


da teoria heliocéntrica, substituindo a concep¢4o geocéntrica ptolomai-

ca (endossada pela Igreja Catdlica durante a Idade Média). Somos


apenas poeira deestrelas, o sistema solar mais um entre bilhdes de ga-
laxias, com probabilidade de vida inteligente em outros planetas. O
segundo ataque ao narcisismo do homem, constitui-se na teoria evolu-
cionista de Charles Darwin. A espécie humana é produto da sele¢do
natural e da evolucdo milenar de outras espécies com diferentes orga-
nizag6es biolégicas, mas com as quais mantém muitas analogias. Freud
afirma que a espécie humana, em certos aspectos, permanece um tro-

glodita (o paleocérebro humano, possui fungdes semelhantes as dos


animais inferiores), apenas mascarado com uma levepelicula de civili-
zacéo. Toda a superestrutura ideolégica formada pela Religiao, Moral,
Filosofia, Arte e Organizacao Social e Juridica, sé se tornou possivel
pelo controle, repress&o e sublimac&o sempre precarios dos impulsos
instintivos, agressivose libidinais que nos aproximam dos outros ani-
mais. Freud aplicou o golpe de misericérdia no narcisismo humano

quando diz que o homem nfoseria mais aquele ser racional do Ilumi-
nismo. Somos movidos mais por forgas irracionais inconscientes do

que conscientes. Conforme a lei do Determinismo Psiquico, todo com-


portamento humano tem sua explicagéo e esta deve ser buscada
principalmente nos fatores inconscientes (Freud, 1948). Cabe ao ho-
mem, através da Psicandlise, ampliar 0 campo das decisdes conscientes
e racionais, para nao incorrer nas criticas que o Marxismo faz a Psica-
nalise (ideologia pequeno-burguesa), negando a capacidade do homem
ser sujeito da Histéria, e também do Existencialismo sartreano (0 ho-
mem é condenado a ser livre) (Sartre, 1970).
Apesar dasvicissitudes do movimento psicanalitico, suas ci-
sdes, reformulacdes e desvios, a Psicandlise se aproxima do século
XXI evoluindo com novas concepgdes sobre a condi¢éo humana e

interfecundando outros ramos do saber psicossocial, a Literatura e as

Artes.

COMENTARIOS FINAIS

A Psicandlise reine umatriplice condigaéo: procedimento tera-


péutico, método de investigagfio e teoria da personalidade.

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 método cientifico 25

Acrescentamos uma desafio 4 metodologia das


quarta: constitui um

Ciéncias da Natureza. Freqiientemente é uma atitude que tem recipro-


cidade: uma predominante indiferenga dos psicanalistas pela
metodologia € compensada por uma indiferenga doscientistas e meto-

délogos pela Psicandlise. Alguns psicanalistas aspiram pelo ideal de


chegar a transformar a Psicandlise em uma Ciéncia Exata, com verifi-
cacées, controle de varidveis e objetivacdes, como os usados pelas
Ciéncias da Natureza. Outros psicanalistas assumem uma atitude de
soberba e isolamento frente as “Ciéncias da Natureza”. Sentem-se
auto-suficientes e rechagam as exigéncias ou a necessidade de uma

epistemologia. Bastam-lhes intuigdes de sua Cién-


as “evidéncias” e as

cia e técnica t&o particulares e especificas que, supdem, ninguém esta


em condicées de entendé-las. Outros psicanalistas percebem que é um
problema muito mais complexo e ndo podeser tratado linear nem uni-
lateralmente.
A Psicandlise coloca um novo objeto de estudo ou coloca o

objeto de estudo da Psicologia de outro modo, com método ou proce-

dimento também novo. Este novo procedimento ou método da


Psicanalise tem um dos pilares na compreensao e outro na inter-
pretac4o como instrumento para veicular ou usar de forma adequada
referida compreensfo. O método das Ciéncias Exatas ou das Ciéncias
da Natureza pode submeter tudo a verificac&o e
objetivagao, com a 4
unica excegdo de um elo; o tnico submeter a controle,
que nfo pode
verificaco e objetivagao é o momento do processo de compreensao
dos dados e dos resultados da investigagao.
Esta coincidéncia ndo é mera coincidéncia. Se os procedimen-
tos de verificagéo e controle das Ciéncias da Natureza ndo podem ser
usados na Psicanilise, isto ndo ocorre por uma deficiéncia da Psicanali-
se ou dos psicanalistas, e sim por uma insuficiéncia do proprio método
cientifico das Ciéncias da Natureza. Estas conseguiram sua exatidao,
verificago e objetivac&o, restringindo seu campo ao limite das suas
necessidades e as exigéncias de seu método ou vice-versa: 0 método

restringiu os objetos aos quais se aplica, isto é, constréi seus objetos de


acordo com o método. Naose trata ent&o da dificuldade das Ciéncias
Humanas adaptarem ao método cientifico.
nfo se Trata-se de que estas
Ultimas nfo se enquadram no método cientifico por uma razfo basica:
sua validade foi obtida amputando ou eliminando o ser humano nos

dois extremos: a intervenc¢do humana nos objetos que se estuda e na

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994,
26 M. Miranda

intervengao do observador investigador, escotomizando


ou a condi¢ao
humana deste ultimo, assim como a do préprio conhecimento.
As Ciéncias da Natureza abstraem, isto é, isolam objetos do
contexto humano real e também excluem deste ultimo a figura do in-
vestigador. Objetividade e racionalidade significam, assim, supressao
dos seres humanos e supressdo do sentido e do contexto social e psi-
coldgico de todo dado e de toda investigacao.
A Psicandlise comegou investigando 0 que ocorre no paciente
(“dentro” dele), mas a introduc&o da transferéncia levou-a insensivel-
mente a uma mudanga fundamental; a investigagaéo do que ocorre
durante a sesso analitica, enquanto relacdo interpessoal. A isto se
acrescentou o estudo do que ocorre no psicanalista (contra-
transferéncia, contra-identificagaéo). A Psicanalise se centra na rela-
go interpessoal e também no paciente e no analista. Isto nado sd é
uma inovagéo metodolégica, como exige uma inovacao epistemo-
légica também nas Ciéncias da Natureza. Nao se trata de estudar
“coisas” que, por abstracdo (no sentido de abstrair ou extrair do con-
texto), resultem em seres desumanizados, mas sempre a relacéo do

homem com as coisas. O proprio conhecimento ja nado pode ser objeti-


vo e:sim incorporado ao ser humano (na investigagéo e na vida
corrente).
De forma resumida, queremos estabelecer trés premissas: a) a
Psicanalise tem um sério déficit quanto a precisao de seus “dados” e

quanto a fundamentagado, verificacdo, objetivagao e controle de suas


interpretagées, hipdteses, teorias e resultados terapéuticos; b) a meto-
dologia das Ciéncias da Natureza tem uma séria defasagem, gragas 4
qual obteve exatidao, verificagao, controle e objetivagao; c) o entre-
cruzamento ocorre no fato de que a Psicanalise utiliza precisamente
0 que as Ciéncias da Natureza nao resolveram e enfrenta justa-
mente aquilo que as Ciéncias da Natureza mutilaram como

condigdo imprescindivel para se desenvolver. Nao ha na metodolo-


gia das Ciéncias Exatas nada que nos ofereca caminhos para
compreender, pensar e criar, numa palavra, para criar, investigar, des-
cobrir. Isto continua ocorrendo ao acaso. Uma grande quantidade de
investigadores nao investiga: s6 aprenderam e aplicaram os procedi-
mentos de coleta de dados, classificagdo de observacées e verificacao.
E importante na Psicandlise investigar os problemas
relacionados com a investigacdo, por exemplo, o que Bachelard

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 método cientifico 27

chamou de “obstaculos epistemoldgicos”, a sublimag&o ou reparacao,


as resisténcias e dificuldades para pensar e planejar uma investigagao.
Emsintese, na Psicandlise o “instrumento” basico da investi-
gac4o é propria personalidade do investigador. Assim, estruturou-se
a

um conhecimento psicanalitico da investigagéo que é proveitoso para


compreender tanto a investigagéo quanto o investigador de qualquer
campo cientifico. O resultado disto nao é um mero acréscimo 4 investi-
gacao, pois constitui o fermento de uma inovagao epistemoldgica. A
metodologia das Ciéncias da Natureza s6 tem éxito na verificacéo, mas
nada revela sobre o descobrimento. Isto nfo é casual, pois ela (a meto-

dologia) deixa de lado e mesmo nega o que a Psicandlise recolhe como


fundamental. Nao seria exagerado dizer ent&o que, nas Ciéncias da
natureza, a descoberta
atinge quando o investigador se afasta das
se

exigéncias de sua metodologia.


Até aqui, apresentamos algumas questdes basicas que, geral-
mente, nfo séo levadas em conta na investigagao convencional,
tratando de extrair as colocagées e discussdes metodoldgicas das sim-
plificagdes que se postulam.
Nas relagdes entre metodologia e Psicandlise ha questdes nao
resolvidas. Preconizamos uma reflexo fértil, mostrando que estas in-
suficiéncias reciprocas contém uma profundarelagao que é responsavel
pela estrutura e sentido dos métodospsicandlise e das Ciéncias da
da
Natureza. Asinsuficiéncias metodoldgicas da Psicandlise quanto a ve-
rificagéo, controle e objetivacao, nao o invalidam enquanto método
cientifico de descoberta, pois seu fundamento é a compreensio
(Jaspers, 1963; Sempé & Backes, 1969). Aslimitagdes do método das
Ciéncias da Natureza também nao 0 invalidam, em face do que alcan-
gou até o presente momento, mas pode inibi-lo se bloquearmos seu
caminho na investigagdo. A metodologia ndo é um sistema acabado
que esté em condigées de se prescrever ou descartar. Em certa medida
tem um desenvolvimento auténomo, mas também depende das contri-
buigdes dos diferentes campos cientificos e dos seus
procedimentos. A
metodologia é uma sistematizagao dos procedimentosda investigagao.
Rigorosamente nunca se investiga ou descobre-se com suas formula-
goes. Estas podem introduzir coeréncia e discriminagao nos passos que
0 investigador
segue. A metodologia e a epistemologia estudam 0 que

os investigadores fazem e dizem em seu trabalho de investigacao,


como o fazem e por que. Mas, tais objetivos param justamente no

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
_o

28 M. Miranda

ponto nodal quea Psicanalise recolhe. Este “‘calar-se” sobre este aspec-
to por parte da metodologia das Ciéncias da Natureza é um dos
fundamentos sobre o qual se constituiu. Ao silenciar sobre esteaspec-
to, tem proceder
que a uma renovacao de suas construgdes. O método
psicanalitico, ao nao silenciar sobre este ponto, encontra-se com pro-
blemas totalmente novos.

Voltamosafirmagao anterior, da necessidade de recolocar


a
problemas tais como subjetividade versus objetividade, racionalidade
versus irracionalidade. A objetividade alcanca-se amputando sujeito,
resultando, assim, numa ilus&o de objetividade. Mas, incluir os seres
humanos na objetividade nao é equivalente a conhecimento subjetivo.
Do mesmo modo, na analise da racionalidade versus irracionalidade
confundem-se coisas distintas com uma amputacio da racionalidade, o

que naosignifica que o método ou o conhecimento sejam irracionais


(Arlow, 1959).

CONCLUSAO

A Psicanalise é, simultaneamente, uma teoria de estruturagdéo


da personalidade, uma técnica
investigagéo dos fendmenos de
inconscientes e uma visio do mundo (uma Weltanschaunung). Essa
natureza polivalente da Psicandlise dificulta sua conceituag¢éo e a
limitag&o operacional de seus varios aspectos, freqiientemente,
intimamente imbricados. Outra dificuldade metodolégica consiste em
separar constructos e enunciados tedricos de alto grau de gene-
ralizagdo, impossiveis de se submeter a uma rigorosa metodologia de
controle de varidveis e comprovagao experimental de hipdteses (nem
sempre claras) de outros principios baseados em observagées
sistematizadas de
criangas sobre a importancia das primeiras etapas do
desenvolvimento psicossexual na estruturagdo da personalidade adulta.
Outros conceitos e constructos tedricos (como, por exemplo,
a hipotese de impulsos instintivos de vida e de morte) no permitem
verificag¢déoexperimental. Asvaridveis sutis e o “clima” Unico e singular
no qual se desenvolve a sessio psicanalitica nio permitem uma replica-
¢ao do experimento.
Em razao da natureza complexa e singular do objeto de estu-
do e das varidveis sutis que interferem no fendmeno observado -

inconsciente dinamico, a validagao dos enunciados psicanaliticos deve

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 método cientifico 29

ser buscada utilizando outras técnicas ndo convencionais, exemplo


a do
que ocorre com as Ciéncias Humanas. O método compreensivoestaria
mais adequado para investigar e validar a natureza do fendmeno obser-
vado. A classificagéo de Ciéncias de Dilthey em Ciéncias da Natureza
(onde alguns aspectos da psicandlise podem ser enquadrados e testados
experimentalmente) e Ciéncias do Espirito ou Idiopaticas com objeto
de estudo unicoe singular, usando o método compreensivo nos ajuda
a abordar os complexos e sutis aspectos desta Ciéncia encruzilhada.
Dado que na Psicandlise, o instrumento basico da investigagao é a pré-
pria personalidade do investigador, estruturou-se um conhecimento
psicanalitico da investigag&o e do investigador de qualquer campo ci-
entifico, constituindo-se, assim, o fendmeno, uma inovacao episte-
molégica, pois recoloca os problemas da racionalidade versus ir-
racionalidade; subjetividade versus objetividade. Freud desen-
volveu a compreensdo dos fenédmenos psicolégicos normais e patolégi-
cos. Neste sentido, a Psicandlise se inscreve como uma Hermenéutica,
um estudo dos significados. Mas, paralelamente, desenvolveu uma

Metapsicologia que segue os delineamentos das construgdes “obje-


tivas” das Ciéncias da Natureza, recorrendo a entes e esquemas causais
e explicativos. Isto é conseqiléncia do desejo e necessidade de Freud
em desenvolver Psicologia como uma Ciéncia da Natureza. Esta nao
a

é sua contribuig&o fundamental, e sim o desenvolvimento de uma Psi-


cologia compreensiva e um método adequado para abordar estes
fendmenos (Jaspers, 1963, p. 495).Esta 6, a nosso ver, a contribuigao
fundamental e revolucionaria de Freud.

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Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 Método Cientifico

Maiolino Miranda
Departamento de Psicologia Cli-
nica/CFCH/UFPA

Resumo: O autor analisa complexidade


a conceituag&o da Psicandlise e a dificuldade
de de
submeté-la a uma usando
metodologia cientifica, procedimentos convencionais, em virtude
de sua natureza multifacetada, isto é, simultaneamente uma Teoria de Estruturag&o da Per-
sonalidade, uma técnica de Investigagéo de fendmenos inconscientes, uma Terapia de
Conflitos Inconscientes e uma Weltanschaunung. Discute, ainda, a necessidade de adequar o
método cientifico ao objeto de estudo; no caso da Psicandlise, sugere que sua contribuigao
compreensiva é mais enriquecedora.
Palavras-chave: psicandlise, cultura, método cientifico, ciéncias exatas e ciéncias humanas.

Freud and Scientific Method


Abstract: complexity involved in conceptualizing psychoanalysis, and the difficulty of
The
subjecting the theory to scientific methodology is analysed. Due to its multifaceted nature,
psychoanalysis is at the same time a theory of personality structure, a technique for

investigating unconscious phenomena, a therapy for unconscious conflicts, and a


Weltanschaunung. The necessity of adjusting the scientific method to the object under study
is also discussed along with the suggestion that as a comprehensive theory, psychanalysis
provides an enriched contribution.
Key Words: psychoanalysis, culture, scientific method, exact sciences, humanities.

A cultura ocidental comemora neste ano de 1995 0 centésimo


aniversdrio do advento da Psicandlise. O que Sigmund Freud represen-
ta hoje, na Histéria do Pensamento Universal?
Freud, Vida e Obra se completam (Jones, 1970). Autor de
Em
uma obra complexa, controvertida mas original, tem sido objeto de
estudo critico, mais ou menos apaixonado, n4o esgotandoas possibili-
dades interpretativas, dai seu valor heuristico. Neste artigo, néo
pretendemosrealizar uma analise da psicandlise. Outros especialistas
da prépria drea ou de areas afins j4 o tentaram, com maior ou menor
éxito. Nosso objetivo é assinalar alguns aspectos controversos que
marcaram a génese e evolucdo da Psicandlise, contribuindo assim para

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
18 M. Miranda

uma melhor compreensao do significado atual desta ciéncia, suas po-


tencialidades, desvios e limitagdes (Marcuse, sd.; Nelson, 1959.
A primeira dificuldade metodologica a enfrentar é a sedugdo
de tentar explicar a obra (a Psicandlise) a partir da biografia do homem
(Sigmund Freud), situado em um determinado contexto sociocultural-
histérico, a Viena do final do século XIX e seu espirito de época (Gay,
1990). Outra abordagem tenta explicar a Psicandlise enquanto criagao
original e complexa de uma personalidade dilacerada por duvidas
existenciais e metodolégicas, reduzindo-a a um mero casgq clinico, a

chamada Neurose de Freud (Silva, 1994). Nesse sentido, varios


estudos tentaram realizar a génese do método, confundindo-se com os

conflitos da personalidade de seu criador. Assim, a Psicandlise


extrapolaria a concepgao de Teoria do Inconsciente e se colocaria na

regido dos Mitos, uma criagao fantdstica, talvez até delirante, uma
ficgdo cientifica elaborada a partir de conflitos existenciais de um
jovem médico judeu agndéstico, inserido em um complexo histdrico-
cultural da Viena dos Habsburgos, com o seu moralismo puritano
(Gay, 1989).
Outra 6tica aborda a Psicandlise
primeira tentativa de
como

explicar e compreender a quest&o da sexualidade (que em Freud ga-


nhou uma conotagio mais abrangente do que o mero impulso
biolégico) (Nelson, 1959). Essa questo da sexualidade foi encarada
diversamente nas varias épocas histéricas, desde o liberalismo dos gre-
gos a Idade Média repressora (caga e condenacdo das bruxas pela
inquisigao), até a época vitoriana, onde se situa 0 inicio da Psicanilise;
quest&io considerada tabu apenas tangencialmente abordado pela co-
munidade cientifica da época de Freud (estudos de Havellock Ellis e
Kraft Ebing lhe serviram de base), embora esta questdo sexual fosse
veladamente comentada em publico e o sexo praticado em surdina.
Criava-se, assim, uma visdo distarcida da realidade familiar, com seus

conflitos conjugais mal


resolvides, resultando em frustragdes dessa
ideologia daclasse social e seus valores burgueses hipocritas, que pre-
feria n&o enfrentar seus problemas internos e de personalidades
divididas entre imagem publica e a privada,fruto, portanto, da ideo-
a

logia de uma classe social burguesa e sua moral puritana (Gay, 1990).
A grandeza e a originalidade da obra freudiana nado podem ser
reduzidas a tentativas de vulgarizagao dapsicanalise, releituras ou vi-
sdes distorcidas de seus detratores: socidlogos, antropdlogos,

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
e

Freud e o método cientifico 19

cientistas politicos, historiadores, filésofos, metoddlogos da ciéncia,


tentaram desvendar o enigma freudiano (Foucault, Lacan etc.). Entre-
tanto, a grande dificuldade para entender e conceituar a psicandlise

consiste em definir claramente suas caracteristicas e seus limites. A


psicandlise é, ao teoria de estruturago
mesmo tempo, uma da perso-
nalidade, uma técnica de investigac¢éo dos fenémenos inconscientes,
uma terapia de conflitos inconscientes (principalmente os neurdticos) e
uma visio do mundo (0 que os alemes chamam de Weltanschaunung).
Muitos do equivocos destes criticos da psicandlise e até de muitos psi-
canalistas resultam da dificuldade de definir e delimitar operacio-
nalmente estes varios aspectos desta Ciéncia (e aqui usamos Ciéncia no

sentido amplo do termo) (Dalbiez, 1947).


Freud representou, talvez, um caso singular na histéria das
ciéncias, ao criar solitariamente uma ciéncia -
a ciéncia do inconsciente
dinaémico (Trilling, 1969). Evidentemente que Freud teve precursores
na Filosofia e na ficgdo literdria e poética de varias épocas (0 mito ou
alegoria da caverna em Platéo, 0 conceito Nietscheano de impulsos
e a nogdo de inconsciente
cegos determinando nosso comportamento
de Schopenhauer, em “O Mundo como vontade e Representagfio -

Metafisica do Amor”. Freud amava os classicos e freqilentava aulas do


fildsofo Brentano (Assoun, 1978; Backes, 1969, pp. 281-295).
Entretanto, coube a Freud a primazia na sistematizagéo de uma teoria
organizada e coerente para explicar a génese, a estrutura e 0

funcionamento deste fendmeno inconsciente, criando assim a Ciéncia


do Inconsciente Dindmico (Trilling, uma 1969). Para ciéncia se

constituir, é necessario preencher dois requisitos basicos: possuir um

objeto de estudo prdprio, especifico, nfo apropriado de outras


ciéncias, (no caso da Psicandlise o inconsciente dinémico) e um método
proprio para aborda-lo, o método psicanalitico. Os filésofos criaram
grandes sistemas explicativos de Ser e do Mundo, dai falarmos de uma
filosofia platénica, tomista, marxista, fenomenoldgica, existencialista
etc. Teria Freud criado mais um sistema filosdfico inacabado? Suas
ultimas obras de
psicandlise aplicadas 4 cultura e 4 compreens&éo do
mal-estar da civilizagao permitem pensar ser este o objetivo final de sua

obra (Dalbiez, 1947; Freud, 1948).


Noque se método psicanalitico, usou
refere ao a introspec-
¢4o, instrumentalmente mais refinada do que a de Wundt as técnicas
da andlise e interpretagdo de sonhos (que ele definia como a via régia

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan/dez. 1994.
20 M. Miranda

para atingir o inconsciente), aandlise da transferéncia e da resisténcia e

a anilise dos atos falhos (Marx & Hillix, 1979, Wolberg, 1967).
Até queponto a Psicandlise resiste a uma critica metodoldégica
e epistemoldégicarigorosa (usando o método
experimental e verificacdo
de hipéteses), que avalie seu “status” de cientificidade? Seria a Psica-
nalise uma pseudociéncia? (Bunge, 1969; Nagel, 1974). Situar-se-ia no

mesmo nivel de outros pseudosaberes como a Quiromancia, a Astro-

logia, a Parapsicologia? Teria Freud, sob o pretexto de analisar todos


os mitos, desmascarando as ilusdes de todas as ideologias religiosas,
politicas, cientificas, incorrido no mesmo erro, isto é, criado um novo
mito, substituto, o mito da Psicandlise? (Ehrenwald, 1969).
Como método de investigacéo de fenémenos inconscientes a

Psicandlise foi alvo de muitas criticas: epistemoldgicas, éticas, religio-


sas etc (Bleger, 1963; Bunge, 1969; Marx & Hillix, 1979). Podemos

esquematizar essas criticas em duas vertentes: uma critica extrinseca e

outra intrinseca.
Como critica extrinseca, a metodolégico-experimental recusa
© status de ciéncia a Psicandlise (situando-a no mesmo nivel das pseu-
dociéncias acima referidas) porque nfo preencheria os requisitos de
uma verdadeira ciéncia que usa o método experimental, (Bunge, 1969;
Wolberg, 1966), o qual se caracteriza pela formulacdo e verificac&ode
hipdteses, a replicagaio do experimento em condigdes controlaveis
(ceteris paribus), enquanto a Psicandlise tem dificuldade em operacio-
nalizar seus conceitos bdsicos sobre o comportamento, onde se

confundem observacdes superficiais e nao sistematizadas com intuigdes


e inferéncias com alto grau de generalizacdo. A esta critica, a Psicanali-
se responde que metoddlogos positivistas restringem 0 conceito de
Ciéncia as chamadas Ciéncias Exatas e privilegiam 0 método experi-
mental como o unico confidvel. O filésofo Dilthey ja classificara dois
tipos de ciéncia: as Ciéncias da Natureza (Naturwissenschaften) que
usam © método experimental e as Ciéncias do Espirito
(Geistwissenschaften), que usam o método idiografico, que visa a
compreensao do objeto de estudo (Jaspers, 1963). A Psicandlise seria
uma Ciéncia do Espirito, como a Histéria, a Sociologia, a Antropolo-

gia Cultural, isto é, um misto de Ciéncia, Arte e Literatura.


Por outro lado, o préprio conceito de Ciéncia como o unico

tipo de saber confidvel, segundo o modelo positivista, esta sendo ques-


tionado por metodélogos. Cientistas como Polanyi preconizam que a

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 método cientifico 21

Ciéncia deveria rever nio somente seus métodos positivistas, como

seus préprios fundamentos. As proprias Ciéncias ditas Exatas nfo séo


téo exatas pretenderiam, como
quanto demonstraram, na Fisica, a Lei
da Indeterminagao de Heisenberg e 0 Teorema de Gédel e a nova Te-
oria do Caos e dosfractais. A Ciéncia nfo detém omonopolio da
verdade, pois 0 conhecimento é interfecundante e problematizavel. A
Ciéncia 6, ou deveria ser, o mais humilde dos ramos do saber (e tem a

ver com ética, aliviar humano), no sentido de que seus


o sofrimento
métodos e modelos sao passiveis de reformulagdes permanentes, atra-
vés de ciclos de revolugdes cientificas (Kuhn, 1975). Uma teoria, por
mais sofisticada que seja, trabalha por aproximagdes sucessivas da rea-

lidade. O modelo cientifico é um recorte da realidade, nfo se confunde


com Sempre que novos
esta. fendmenos desafiam cientifi-
a explicag&o

ca convencional, a Ciéncia deve ser questionada na sua Metodologia e


nos préprios fundamentos.
Comrelacdo a segundavertente, a critica interna 4 Psicandlise
é praticada por epistemdlogos, que tentam realizar a andlise da
Psicandlise, usando seu proprio método para analisar sua validade e
suas limitagdes enquanto conhecimento cientifico. A Histéria do
Movimento psicanalitico, a partir dos conceitos basicos de seu
fundador, os conflitos internos e cisdes, tem sido objeto de estudo de
analise ‘histérica e cultural. Jung criticou o pansexualismo da Teoria
Psicanalitica talvez sem perceber que a teoria da sexualidade, segundo
Freud, incluia mas ndo se reduzia a uma mera teoria biolégica do sexo.
Os psicanalistas culturalistas, como Karen Horney, H. S. Sullivan e

Erich Fromm, introduziram a varidvel cultural na estruturag&o da


personalidade e seus conflitos. Wilhelm Reich e Fromm tentaram

conciliar 0 marxismo com a Psicandlise (Guardo, 1969; Marx & Hillix,


1979).
A Psicandlise, como método de investigagaéo de fendmenos
inconscientes, recebeu criticas metodolégicas e epistemoldgicas. O
proprio conceito de inconsciente é refutado ou conceituado diversa-
mente pelo existencialismo de Sartre ou pelo Marxismo, que no pode
aceitar um inconsciente ahistérico e atemporal. As principais criticas
positivistas se referem a dificuldade de replicagéo do experimento
psicanalitico que, ao usar o método introspectivo, cria um relato
singular, unico, que no permite o controle das variaveis, pois cada
sessdo nao repete jamais 0 mesmo “clima” da anterior, dai a dificuldade

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
e

22 M. Miranda

do controle experimental das varidveis.


avaliacgo de A dificuldade na

muitos postulados analiticosconsiste na operacionalizagéo de cons-


tructos tedéricos abstratos, com elevado nivel de generalizagéio e a
dificuldade de identificar e controlar a multiplicidade de varidveis sutis
(Marx & Hillix, 1979).
A psicandlise usa 0 raciocinio posfacto, ergo ipso facto, isto é,
se um fato ocorre apés outro, havera necessariamente uma relac&o de
continuidade, de causa e efeito entre os dois fatos, a que nem sempre é
valido como explica¢4o causal; usa o pensamento tautoldgico, ou seja,
explica o inconsciente pelo inconsciente. Quando algum cientista recu-
sa aceitar 0 conceito psicanalitico de Resisténcia, o psicanalista atribui
essa quest&o conceitual a resisténcia intelectual inconsciente do cientis-
ta. Psicandlise
A também ndo atenderia a uma das exigéncias do
conhecimento cientifico: ser organizado, sistematizado plural. Ora, o
conhecimento psicanalitico é singular, ndo replicavel. Haverda possibili-
dade de uma ciéncia do fendmeno singular, inico? A Psicandlise

responde que sim e que trabalha com padroesrepetitivos, isto é, a con-


duta neurdética tende a produzir (repetir) os mesmos padrdes de
respostas estereotipadas (Marx & Hillix, 1979).
Quanto 4 técnica terapéutica psicanalftica como terapia de -

conflitos inconscientes: a Psicandlise revolucionou o proprio conceito

clinico (médico) de cura, que é um conceito biolégico da psiquiatria


classica. Freud acreditava que todos nés somos neurdticos, ndo sim-
plesmente por apresentarmos manifestacdes simbdélicas de conflitos
inconscientes, mas no sentido de que todo ser humano precisa aprender
a lidar com seus conflitos existenciais, que sdo inerentes ao proprio ato
de viver, ou como diria mais tarde Guimarfes Rosa em Grandes Ser-
tées Veredas “Viver é extremamente
- perigoso” (Rosa, 1956).
A eficadcia da técnica psicanalitica tem sido testada e compa-
rada com outras técnicas (behaviorista, fenomenoldgica, gestaltica),
revelando-se igualmente eficaz no alfivio sintomatico e na reestrutura-

g&o da personalidade, para aprender a tolerar o sofrimento humano,


embora exija maior investimento motivacional, emocional, intelectual e

financeiro que outras técnicas.


requisitos necessdrios para iniciar e
Os
manter 0 processo psicanalitico (andlise termindvel ou interminavel)
(Freud, 1948) sao tantos que reduzem em muito sua aplicagdo pratica
na sua forma ortodoxa, dai o advento de formas abreviadas ou adapta-
das de psicoterapia de base analitica. Paradoxalmente, a psicandlise

Cad.
Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
¢

Freud e 0 método cientifico 23

parece oferecer melhores resultados nos casos bem selecionados de


pessoas que, previamente a andlise, solucdes adequadas e
encontraram
criativas para lidar com conflitos intra e interpessoais, além de possuir
ego forte, motivagao adequada, capacidade de insight, isto é, pessoas
que tiveram o minimo de coragem para aceitar 0 jogo para descobrir
sua “verdade” pessoal. O objetivo basico da Psicandlise ¢ ampliar o
campo da consciéncia, aprendera identificar ¢ lidar com seus impulsos
e desejos irracionais, permitindo assim tomar decisdes mais maduras e

racignais, fundando uma nova ética nas relagdes humanas ou, como
diria Freud, permitir-se gozar os fugazes momentos de felicidade e

tornar mais toleravel a infelicidade da condig¢éohumana. Evidentemen-


te que os objetivos a alcangar, em cada caso, ser&o operacionalizados e
avaliados durante 0 processo analitico. Nesse sentido, Freud fala como
um filésofo cuja visio do mundo realista, para ndo dizer pessimista e,
ao contrario do Romantismo de J. J. Rousseau, aproxima-se mais da
concepgio de Hobbes (o homem é o lobo do prdéprio homem)
(Miranda, 1972).
Em sintese, a primeira dificuldade metodoldgica para
compreender e avaliar a contribuig&éode Freud como pensador da
cultura é revelada quando se tenta separar os varios aspectos da
Psicanalise, enquanto teoria da personalidade, um método de inves-
tigac4o cientifica dos fendmenos inconscientes, uma terapia de conflitos
psiquicos e uma visio do mundo (uma Weltanschaunung)(Dalbiez, 1947).
Conforme referido anteriormente, Freud representou, talvez,
um caso singular de um pensador que criou uma nova Ciéncia desde
seus fundamentos, passo a passo, e formulou uma teoria integrada e
coerente do inconsciente dindmico. Apesar das criticas dos metodélo-
gos positivistas que valorizam somente o método experimental, a
Psicandlise preenche os requisitos de uma verdadeira Ciéncia, pois uma
Ciéncia se constitui quando tem um objeto de estudo préprio (isto é,
ndo apropriado de outras ciéncias): 0 inconsciente dinamico e um se-

gundo requisito, ter um método original para estudar este objeto, no


caso da Psicandlise, 0 método introspectivo, sofisticado, das associa-
¢6eslivres e as técnicas de andlise da resisténcia, da transferéncia, dos
sonhos e dos atos falhos (Wolberg, 1966). Com esta descoberta, Freud
realizou 0 que mais tarde Gaston Bachelard chamaria um corte episte-
mologico na historia das ciéncias, uma ruptura de um paradigma
cientifico, ou seja, uma nova visdio do mundo (Bachelard, 1948).

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
24 M. Miranda

A descoberta cientifica do inconsciente foi terceiro


golpe na
0

ferida narcisica do homem (Freud, 1948). O primeiro foi a formulagao


da teoria heliocéntrica, substituindo a concep¢4o geocéntrica ptolomai-

ca (endossada pela Igreja Catdélica durante a Idade Média). Somos


apenas poeira deestrelas, o sistema solar mais um entre bilhdes de ga-
laxias, com probabilidade de vida inteligente em outros planetas. O
segundo ataque ao narcisismo do homem, constitui-se na teoria evolu-
cionista de Charles Darwin. A espécie humana é produto da sele¢do
natural e da evolucdo milenar de outras espécies com diferentes orga-
nizag6es biolégicas, mas com as quais mantém muitas analogias. Freud
afirma que a espécie humana, em certos aspectos, permanece um tro-

glodita (o paleocérebro humano, possui funcgdes semelhantes as dos


animais inferiores), apenas mascarado com uma levepelicula de civili-
zacéo. Toda a superestrutura ideolégica formada pela Religiao, Moral,
Filosofia, Arte e Organizacao Social e Juridica, sé se tornou possivel
pelo controle, repress&o e sublimac&o sempre precarios dos impulsos
instintivos, agressivose libidinais que nos aproximam dos outros ani-
mais. Freud aplicou o golpe de misericérdia no narcisismo humano

quando diz que o homem nfoseria mais aquele ser racional do Ilumi-
nismo. Somos movidos mais por forgas irracionais inconscientes do

que conscientes. Conforme a lei do Determinismo Psiquico, todo com-


portamento humano tem sua explicagfo e esta deve ser buscada
principalmente nos fatores inconscientes (Freud, 1948). Cabe ao ho-
mem, através da Psicandlise, ampliar 0 campo das decisées conscientes
e racionais, para nao incorrer nas criticas que o Marxismo faz a Psica-
nalise (ideologia pequeno-burguesa), negando a capacidade do homem
ser sujeito da Histéria, e também do Existencialismo sartreano (0 ho-
mem é condenado a ser livre) (Sartre, 1970).
Apesar dasvicissitudes do movimento psicanalitico, suas ci-
sdes, reformulacdes e desvios, a Psicandlise se aproxima do século
XXI evoluindo com novas concepgdes sobre a condi¢éo humana e

interfecundando outros ramos do saber psicossocial, a Literatura e as

Artes.

COMENTARIOS FINAIS

A Psicanélise reine umatriplice condigaéo: procedimento tera-


péutico, método de investigagfio e teoria da personalidade.

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994.
Freud e 0 método cientifico 25

Acrescentamos uma desafio 4 metodologia das


quarta: constitui um

Ciéncias da Natureza. Freqiientemente é uma atitude que tem recipro-


cidade: uma predominante indiferenga dos psicanalistas pela
metodologia € compensada por uma indiferenga doscientistas e meto-

délogos pela Psicandlise. Alguns psicanalistas aspiram pelo ideal de


chegar a transformar a Psicandlise em uma Ciéncia Exata, com verifi-
cacées, controle de varidveis e objetivacdes, como os usados pelas
Ciéncias da Natureza. Outros psicanalistas assumem uma atitude de
soberba e isolamento frente as “Ciéncias da Natureza”. Sentem-se
auto-suficientes e rechagam as exigéncias ou a necessidade de uma

epistemologia. Bastam-lhes intuigdes de sua Cién-


as “evidéncias” e as

cia e técnica t&o particulares e especificas que, supdem, ninguém esta


em condicées de entendé-las. Outros psicanalistas percebem que é um
problema muito mais complexo e ndo podeser tratado linear nem uni-
lateralmente.
A Psicandlise coloca um novo objeto de estudo ou coloca o

objeto de estudo da Psicologia de outro modo, com método ou proce-

dimento também novo. Este novo procedimento ou método da


Psicanalise tem um dos pilares na compreensao e outro na inter-
pretac4o como instrumento para veicular ou usar de forma adequada
referida compreensfo. O método das Ciéncias Exatas ou das Ciéncias
da Natureza pode submeter tudo a verificac&o e
objetivagao, com a 4
unica excegdo de um elo; o tnico submeter a controle,
que nfo pode
verificaco e objetivagao é o momento do processo de compreensao
dos dados e dos resultados da investigagao.
Esta coincidéncia ndo é mera coincidéncia. Se os procedimen-
tos de verificagéo e controle das Ciéncias da Natureza ndo podem ser
usados na Psicanilise, isto ndo ocorre por uma deficiéncia da Psicanali-
se ou dos psicanalistas, e sim por uma insuficiéncia do proprio método
cientifico das Ciéncias da Natureza. Estas conseguiram sua exatidao,
verificago e objetivac&o, restringindo seu campo ao limite das suas
necessidades e as exigéncias de seu método ou vice-versa: 0 método

restringiu os objetos aos quais se aplica, isto é, constréi seus objetos de


acordo com o método. Naose trata ent&o da dificuldade das Ciéncias
Humanas adaptarem ao método cientifico.
nfo se Trata-se de que estas
Ultimas nfo se enquadram no método cientifico por uma razfo basica:
sua validade foi obtida amputando ou eliminando o ser humano nos

dois extremos: a intervenc¢do humana nos objetos que se estuda e na

Cad. Cent. Fil. Ci. Hum., Belém, v. 13, n. 1/2, p. 17-32, jan./dez. 1994,
26 M. Miranda

intervengao do observador investigador, escotomizando


ou a condi¢ao
humana deste ultimo, assim como a do préprio conhecimento.
As Ciéncias da Natureza abstraem, isto é, isolam objetos do
contexto humano real e também excluem deste ultimo a figura do in-
vestigador. Objetividade e racionalidade significam, assim, supressao
dos seres humanos e supressdo do sentido e do contexto social e psi-
coldgico de todo dado e de toda investigacao.
A Psicandlise comegou investigando 0 que ocorre no paciente
(“dentro” dele), mas a introduc&o da transferéncia levou-a insensivel-
mente a uma mudanga fundamental; a investigagaéo do que ocorre
durante a sesso analitica, enquanto relacdo interpessoal. A isto se
acrescentou o estudo do que ocorre no psicanalista (contra-
transferéncia, contra-identificagaéo). A Psicanalise se centra na rela-
go interpessoal e também no paciente e no analista. Isto nado sd é
uma inovagéo metodolégica, como exige uma inovacao epistemo-
légica também nas Ciéncias da Natureza. Nao se trata de estudar
“coisas” que, por abstracdo (no sentido de abstrair ou extrair do con-
texto), resultem em seres desumanizados, mas sempre a relacéo do

homem com as coisas. O proprio conhecimento ja nado pode ser objeti-


vo e:sim incorporado ao ser humano (na investigagéo e na vida
corrente).
De forma resumida, queremos estabelecer trés premissas: a) a
Psicanalise tem um sério déficit quanto a precisao de seus “dados” e

quanto a fundamentagado, verificacdo, objetivagao e controle de suas


interpretagées, hipdteses, teorias e resultados terapéuticos; b) a meto-
dologia das Ciéncias da Natureza tem uma séria defasagem, gragas 4
qual obteve exatidao, verificagao, controle e objetivagao; c) o entre-
cruzamento ocorre no fato de que a Psicanalise utiliza precisamente
0 que as Ciéncias da Natureza nao resolveram e enfrenta justa-
mente aquilo que as Ciéncias da Natureza mutilaram como

condigdo imprescindivel para se desenvolver. Nao ha na metodolo-


gia das Ciéncias Exatas nada que nos ofereca caminhos para
compreender, pensar e criar, numa palavra, para criar, investigar, des-
cobrir. Isto continua ocorrendo ao acaso. Uma grande quantidade de
investigadores nao investiga: s6 aprenderam e aplicaram os procedi-
mentos de coleta de dados, classificagdo de observacées e verificacao.
E importante na Psicandlise investigar os problemas
relacionados com a investigacdo, por exemplo, o que Bachelard

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a

Freud e 0 método cientifico 27

chamou de “obstaculos epistemoldgicos”, a sublimag&o ou reparacao,


as resisténcias e dificuldades para pensar e planejar uma investigagao.
Emsintese, na Psicandlise o “instrumento” basico da investi-
gac4o é propria personalidade do investigador. Assim, estruturou-se
a

um conhecimento psicanalitico da investigagéo que é proveitoso para


compreender tanto a investigagéo quanto o investigador de qualquer
campo cientifico. O resultado disto nao é um mero acréscimo 4 investi-
gac4o, pois constitui o fermento de uma inovagao epistemoldgica. A
metodologia das Ciéncias da Natureza sé tem éxito na verificaco, mas
nadarevela sobre o descobrimento. Isto no é casual, pois ela (a meto-
dologia) deixa de lado e mesmo nega o que Psicandlise recolhe como

fundamental. Nao seria exagerado dizer ent&o que, nas Ciéncias da


natureza, a descoberta se atinge quando o investigador se afasta das
exigéncias de sua metodologia.
Até algumas questdes basicas que, geral-
aqui, apresentamos
mente, nfo séo levadas em conta na investigagaéo convencional,
tratando de extrair as colocagées e discussdes metodoldgicas das sim-
plificagdes que se postulam.
Nas relagées entre metodologia e Psicandlise ha questdes nao
resolvidas. Preconizamos uma reflexdo fértil, mostrando que estas in-
suficiéncias reciprocas contém uma profundarelagao que é responsavel
pela estrutura e sentido dos métodos
psicandlise e das Ciéncias da da
Natureza. As insuficiéncias metodoldgicas da Psicandlise quanto a ve-
rificagéo, controle e objetivacao, nao o invalidam enquanto método
cientifico de descoberta, pois seu fundamento é a compreensio
(Jaspers, 1963; Sempé & Backes, 1969). Aslimitagdes do método das
Ciéncias da Natureza também naoo invalidam, em face do que alcan-
gou até o presente momento, mas podeinibi-lo se bloquearmos seu
caminho na investigagdo. A metodologia ndo é um sistema acabado
que esta em condigées de se prescrever ou descartar. Em certa medida
tem um desenvolvimento auténomo, mas também depende das contri-
buigdes dos diferentes campos cientificos e dos seus
procedimentos. A
metodologia é uma sistematizagao dos procedimentos da investigacao.
Rigorosamente nunca se investiga ou descobre-se com suas formula-
gdes. Estas podem introduzir coeréncia e discriminagao nos passos que
O investigador
segue. A metodologia e a epistemologia estudam 0 que

os investigadores fazem e dizem em seu trabalho de investigacao,


como o fazem e por que. Mas, tais objetivos param justamente no

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ponto nodal que a Psicanalise recolhe. Este “‘calar-se” sobre este aspec-
to por parte da metodologia das Ciéncias da Natureza é um dos
fundamentos sobre o qual se constituiu. Ao silenciar sobre esteaspec-
to, tem proceder a uma
que renovacao de suas construgdes. O método
psicanalitico, ao naosilenciar sobre este ponto, encontra-se com pro-
blemas totalmente novos.

Voltamosafirmagao anterior, da necessidade de recolocar


a
problemas tais como subjetividade versus objetividade, racionalidade
versus irracionalidade. A objetividade alcanga-se amputando o sujeito,
resultando, assim, numa ilus&o de objetividade. Mas, incluir os seres
humanos na objetividade nao é equivalente a conhecimento subjetivo.
Do mesmo modo, na analise da racionalidade versus irracionalidade
confundem-se coisas distintas com uma amputacao da racionalidade, o

que naosignifica que 0 método ou o conhecimento sejam irracionais


(Arlow, 1959).

CONCLUSAO

A Psicanalise é, simultaneamente, uma teoria de estruturagao


da personalidade, uma técnica
investigagéo dos fendmenos de
inconscientes e uma visio do mundo (uma Weltanschaunung). Essa
natureza polivalente da Psicandlise dificulta sua conceituagéo e a
limitag&o operacional de seus varios aspectos, freqiientemente,
intimamente imbricados. Outra dificuldade metodolégica consiste em
separar constructos e enunciados tedricos de alto grau de gene-
ralizagdo, impossiveis de se submeter a uma rigorosa metodologia de
controle de varidveis e comprovagao experimental de hipdteses (nem
sempre claras) de outros principios baseados em_ observagées
sistematizadas de
criangas sobre a importancia das primeiras etapas do
desenvolvimento psicossexual na estruturagdo da personalidade adulta.
Outros conceitos e constructos tedricos (como, por exemplo,
a hipotese de impulsos instintivos de vida e de morte) no permitem
verificag¢déoexperimental. Asvaridveis sutis e o “clima” Unico e singular
no qual se desenvolve a sesso psicanalitica nio permitem uma replica-
¢ao do experimento.
Em raz&o da natureza complexa e singular do objeto de estu-
do e das varidveis sutis que interferem no fendmeno observado -

inconsciente dinamico, a validag&o dos enunciados psicanaliticos deve

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Freud e 0 método cientifico 29

ser buscada utilizando outras técnicas néo convencionais, exemplo


a do
que ocorre com as Ciéncias Humanas. O método compreensivoestaria
mais adequado para investigar e validar a natureza do fendmeno obser-
vado. A classificagéo de Ciéncias de Dilthey em Ciéncias da Natureza
(onde alguns aspectos da psicandlise podem ser enquadrados e testados
experimentalmente) e Ciéncias do Espirito ou Idiopaticas com objeto
de estudo unico e singular, usando o método compreensivo nos ajuda
a abordar os complexos e sutis aspectos desta Ciéncia encruzilhada.
Dado que na Psicandlise, o instrumento basico da investigagao é a pré-
pria personalidade do investigador, estruturou-se um conhecimento
psicanalitico da investigag&o e do investigador de qualquer campo ci-
entifico, constituindo-se, assim, o fendmeno, uma inovacdo episte-
molégica, pois recoloca os problemas da racionalidade versus ir-
racionalidade; subjetividade versus objetividade. Freud desen-
volveu a compreensdo dos fenédmenos psicolégicos normais e patolégi-
cos. Neste sentido, a Psicandlise se inscreve como uma Hermenéutica,
um estudo dos significados. Mas, paralelamente, desenvolveu uma

Metapsicologia que segue os delineamentos das construgdes “obje-


tivas” das Ciéncias da Natureza, recorrendo a entes e esquemas causais
e explicativos. Isto é conseqiléncia do desejo e necessidade de Freud
em desenvolver Psicologia como uma Ciéncia da Natureza. Esta nao
a

é sua contribuig&o fundamental, e sim o desenvolvimento de uma Psi-


cologia compreensiva e um método adequado para abordar estes
fendmenos (Jaspers, 1963, p. 495).Esta 6, a nosso ver, a contribuigao
fundamental e revolucionaria de Freud.

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