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Filosofia

Prof: Roberta Melo

O pensamento político de Aristóteles

“Visto que todas as cidades são associações e que toda a associação se forma com vista a algum bem (porque
os homens quando agem visam sempre alcançar o que lhes parece ser um bem), daqui se conclui que, se as
associações visam um bem, aquela que é mais importante e que engloba todas as demais é a que visa o bem
mais importante; ela designa-se como 'cidade' (Pólis), ou comunidade política.” Aristóteles, Política, 1253ª.

Aristóteles (384-322 a.C.) critica o autoritarismo de Platão, considerando sua utopia impraticável
e inumana. Recusa a sofocracia platônica que atribui poder ilimitado a apenas uma parte do corpo
social, os mais sábios, o que torna a sociedade muito hierarquizada. Sua noção de que o homem é um
animal político será embasada na idéia de que a Pólis e o Estado são coisas necessárias à natureza
humana, pois o homem, enquanto indivíduo, só se realiza plenamente em sociedade e a sua existência
seria impensável sem ser em sociedade. A própria racionalidade que diferencia o homem dos outros
animais só se pode afirmar em diálogo, em confronto, em partilha...
A reflexão aristotélica sobre a política não se separa da ética, pois a vida individual está
imbricada na vida comunitária. Se Aristóteles conclui que a finalidade da ação moral é a felicidade do
indivíduo, também a política tem por fim organizar a cidade feliz.
Não aceita a proposta de dissolução da família nem considera que a justiça, virtude por
excelência do cidadão, possa vir separada da amizade. Por isso, diante da noção fria de justiça
proposta por Platão, Aristóteles considera que a justiça não pode vir separada da philia. Embora possa
ser traduzida por "amizade", philia é um conceito mais amplo quando se refere à cidade. Significa a
concordância entre as pessoas que têm idéias semelhantes e interesses comuns, donde resulta a
camaradagem, o companheirismo. Daí a importância da educação na formação ética dos indivíduos,
preparando-os para a vida em comunidade.
A amizade não se separa da justiça. Essas duas virtudes se relacionam e se complementam,
fundamentando a unidade que deve existir na cidade. Se a cidade é a associação de homens iguais, a
justiça é o que garante o princípio da igualdade. Justo é o que se apodera da parte que lhe cabe, é o que
distribui o que é devido a cada um.
Mas Aristóteles não se refere à igualdade simples ou aritmética, mas à justiça distributiva,
segundo a qual a distribuição justa é a que leva em conta o mérito das pessoas. Isso significa que não
se pode dar o igual para desiguais, já que as pessoas são diferentes. A justiça está intimamente ligada
ao império da lei, pela qual se faz prevalecer a razão sobre as paixões cegas. Retomando a tradição
grega, a lei é para Aristóteles o princípio que rege a ação dos cidadãos, é a expressão política da ordem
natural.

Quem é cidadão?
O fato de se morar na mesma cidade não torna seus habitantes igualmente cidadãos. São
excluídos os escravos, os estrangeiros, as mulheres. O que também não significa que todo homem
livre, nascido na pólis, possa participar da administração, da justiça ou ser membro da assembléia
governante. Para Aristóteles, é necessário ter qualidades que variam conforme as exigências da
constituição aceita pela cidade.
De forma geral, concorda que o bom governante deve ter a virtude da prudência prática
(plironesis), pela qual será capaz de agir visando o bem comum. Trata-se de virtude difícil, que não se
acha disponível a muitos. Por isso exclui da cidadania a classe dos artesãos, comerciantes e
trabalhadores braçais em geral, em primeiro lugar porque a ocupação não lhes permite o tempo de ócio
necessário para participar do governo e em segundo lugar porque, reforçando o desprezo que os
antigos tinham pelo trabalho manual. Aristóteles pondera que esse tipo de atividade embrutece a alma
e torna o indivíduo incapaz da prática de uma virtude esclarecida.
Vale lembrar ainda a polêmica justificativa de Aristóteles à escravidão. Para ele, os homens livres
e concidadãos aprisionados em guerras não deveriam ser escravizados, mas o mesmo não acontece
com os "bárbaros", por serem estes considerados inferiores e, portanto, possuírem uma disposição
natural para a escravidão. Por isso seria legítimo o controle que o senhor exerce sobre o escravo, e
Aristóteles recomenda apenas que o tratamento não seja cruel, devendo mesmo ser estabelecidos laços
afetivos, como nas antigas famílias dos tempos homéricos, quando os escravos pertenciam ao lar. É
bem verdade que no estádio de desenvolvimento urbano do século IV a.C. a escravidão não se
restringia apenas às atividades domésticas, mas se estendia ao comércio e à manufatura, em condições
bastante adversas de trabalho.

As formas de governo
O Estado surge, pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social e político. Ele
proverá, inicialmente, a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e positivas, defesa e
segurança, conservação e engrandecimento, de outro modo irrealizáveis. Mas o seu fim essencial é
espiritual, isto é, deve promover a virtude e, consequentemente, a felicidade dos súditos mediante a
ciência.
Compreende-se, então, como tarefa essencial do Estado, a educação, que deve desenvolver
harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais, intelectuais e,
subordinadamente, as materiais e físicas. O fim da educação é formar homens mediante as artes
liberais, a poesia e a música, e não máquinas, mediante um treinamento profissional. Eis porque
Aristóteles, como Platão, condena o Estado que, ao invés de se preocupar com uma pacífica educação
científica e moral, visa a conquista e a guerra. E critica, dessa forma, a educação militar de Esparta,
que faz da guerra a tarefa precípua do Estado, e põe a conquista acima da virtude, enquanto a guerra,
como o trabalho, são apenas meios para a paz e o lazer sapiente.
Não obstante a sua concepção ética do Estado, Aristóteles, diversamente de Platão, salva o
direito privado, a propriedade particular e a família. O comunismo como resolução total dos
indivíduos e dos valores no Estado é fantástico e irrealizável. O Estado não é uma unidade substancial,
e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. Se se quiser a unidade absoluta, será
necessário reduzir o Estado à família e a família ao indivíduo; só este último possui aquela unidade
substancial que falta aos dois precedentes. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas, e,
precisamente, duas classes reconhece: a dos homens livres, possuidores, isto é, a dos cidadãos e a dos
escravos, dos trabalhadores, sem direitos políticos.
Aristóteles estabelece uma tipologia das formas de governo que se tornou clássica. Usa o
critério do número, da quantidade, para distinguir a monarquia (ou governo de um só), a aristocracia
(ou governo de um pequeno grupo) e apolitéia (ou governo da maioria). Em seguida, usando o critério
axiológico (de valor), considera que as três formas podem ser consideradas boas, quando visam o
interesse comum, e mas, corrompidas, degeneradas, quando têm como objetivo o interesse particular.
Portanto, a cada uma das três formas “boas” descritas correspondem respectivamente três formas
degeneradas: a tirania se refere ao governo de um só quando visa o interesse próprio; a oligarquia
prevalece quando vence o interesse dos mais ricos ou nobres; e a democracia quando a maioria pobre
governa em detrimento da minoria rica.
Embora considere a monarquia, a aristocracia ou a politéia formas corretas e adequadas ao
exercício do poder, Aristóteles prefere a última. Talvez isso se deva à constatação feita de que a tensão
política sempre deriva da luta entre ricos e pobres; se um regime conseguir conciliar esses
antagonismos, torna-se mais propício para assegurar a paz social.
Aqui Aristóteles retoma o critério já usado na ética, o de que a virtude sempre está no meio-
termo. Aplicando-se o critério da mediania ás classes que compõem a sociedade, descobre na classe
média - constituída pelos indivíduos que não são nem muito ricos nem muito pobres - as condições de
virtude para criar uma política estável:
"Onde a classe média é numerosa raramente ocorrem conspirações e revoltas entre os cidadãos".
A ligação entre ética e política é evidente, na medida em que a questão do bom governo, do
regime justo, da cidade boa, depende da virtude do bom governante.
Essa tendência persiste na Idade Média, até ser criticada no século XVI, a partir de Maquiavel.