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FERIADÃO

Querida mamãe,

Neste feriado nos divertimos muito em Cabo Frio. Pena que a senhora não pode ir conosco,
da próxima vez espero que consiga resolver todos seus compromissos e nos acompanhar.
Garanto que ficará satisfeita com o passeio.

Aconteceu uma pequena confusão na hora de arrumar as coisas: o Robertinho cismou de


levar sua prancha. Aquele monstrengo não coube no carro de jeito nenhum (refiro-me à
prancha, o Robertinho não está tão monstruoso assim), tivemos de amarra-la no teto. O
caso é que o Robertinho não larga a prancha pra nada, foi a maior dificuldade convence-lo
a ir dentro do carro, em vez de agarrado ao brinquedo. Mas a culpa não é dele, é dessa
tecnologia atrasada que ainda não inventou uma prancha dobrável. Depois de tudo
arrumado, pusemos o Bob no carro – Bob, a senhora lembra, né? É o nosso cachorrinho
pastor alemão. O Alfredo já estava dando a partida no carro...e foi aí que a Mariazinha
cismou que tinha de levar o Michel, seu gato. Sua lógica era irrefutável: se o Bob podia ir,
por que o Michel não podia? Não houve argumento que a demovesse. Assim fomos, nós
com os animais.

A viagem foi uma beleza! Um sol lindo, a paisagem maravilhosa...Dentro do carro é que
não estava um clima dos mais tranqüilos: o Bob resolveu encrencar com o Michel. O
Michel continua o mesmo: não leva desaforo pra casa. Ficaram brigando feito cão e gato.
Falei com a Mariazinha que segurasse o bichano, no entanto, animada como estava
apreciando o panorama, escusou-se da tarefa. O gato resolveu se esconder nos pés do
Alfredo e ele ficou sem saber se pisava no pedal ou no animal. Sobrou pra mim a tarefa de
carregar o bicho durante o trajeto. De repente, começou o engarrafamento. Foi uma
agonia, tomamos uns oito refrigerantes pra poder aguentar o calor!

Ainda bem que o Alfredo é esperto: ele saiu para o acostamento e se mandou, parecia um
piloto de corridas! Porém a gente não estava com sorte, o carro ferveu e ficamos parados
umas três horas. Finalmente um mecânico consertou o defeito, mediante termos que pagar
um preço exorbitante. Mas, pelo divertimento que nos esperava, valia o sacrifício.

Alfredo saiu em disparada, pretendendo chegar a Cabo Frio antes da noite descer. Parecia
que a sorte não estava do nosso lado: a prancha do Robertinho desgrudou do teto do carro,
caindo na estrada. Antes que se pudesse fazer qualquer coisa para salva-la, um caminhão a
atropelou reduzindo-a a mil pedacinhos. Robertinho chorou como se tivesse perdido a
mãe, que sou eu. Aliás, foi isso que lhe falei: “Robertinho não fique triste meu filho, a
prancha não é tudo na vida, imagine se fosse eu quem caísse do carro, não seria pior?” Ele
nada respondeu, mas teve um acesso de choro tão forte que pensei fosse engasgar. Até
agora não sei se chorava pela possibilidade de vir a perder a mãe , ou por achar que a
perda da prancha foi mais dolorosa que tudo.

Somente após sepultarmos o cadáver da prancha e mediante a promessa do pai se lhe


comprar outra logo que chegássemos em Cabo Frio, foi que Robertinho concordou em

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seguir viagem. Mais tarde o Alfredo se arrependeria de ter assumido esse compromisso,
mas isso é outra história...

Finalmente chegamos. A comida que eu havia preparada para comermos de noite azedou
todinha. Tivemos que comer fora. Mãe, a senhora lembra de como é Cabo Frio em época
de feriado? Pois é, ficamos presos num congestionamento dentro da cidade, que não andava
nem pra trás nem pra frente. Felizmente um vendedor de cachorro-quente nos salvou. Era
quase meia-noite quando chegamos de volta para dormir. Cansados do jeito que
estávamos, dormimos até o meio-dia do dia seguinte. Levantei e enquanto o Alfredo foi na
padaria comprar pão, preparei um café rapidinho. Uma hora e meia depois volta ele com
duas bisnagas e um pote de margarina, que conseguiu salvar em meio ao tumulto de gente
que foi obrigado a enfrentar.

Eram quase três horas da tarde, chegamos à praia. Aí é que começou a diversão de verdade!
Teve uns probleminhas, é claro, mas nada que pudesse prejudicar nossa alegria. O
Robertinho encontrou um sujeito que vendia pranchas e não deu sossego enquanto o pai
não lhe comprou uma. Só tinha prancha grandona, devia medir uns dois metros de
comprimento. Ele quis assim mesmo, chorou tanto que não houve jeito de fazê-lo calar-se a
não ser comprando o brinquedinho. E Robertinho ficou o resto da tarde arrastando aquele
pranchão, que não tinha forças para carregar direito, esbarrando nas pessoas. Mãe, a
senhora precisava ver o que tem de gente sem paciência nas praias! Duas vezes o
Robertinho insistiu em levar a prancha pra dentro d'água e quase morreu afogado.

A Mariazinha não deu muito trabalho, apenas chupou doze picolés e ficou com dor-de-
barriga. A fila no banheiro estava enorme e ela fez nela mesma. Ainda bem que estávamos
na praia e pudemos lavá-la numa boa. Na segunda onda de piriri mandei-a fazer dentro
d'água e deu certo!

Ás Seis horas decidimos ir embora. Enfrentamos novo engarrafamento. Ao chegarmos à


casa, nove horas da noite, lembrei-me que havia esquecido de fazer compras. Lá fomos nós
atrás dos vendedores de cachorro-quente, que só encontramos pra lá das dez. Conseguimos
uns sanduichinhos muito mixurucas que mal deram pra enganar nossa fome. O jeito foi
passar na padaria e comprar pão doce e Coca-Cola.

No outro dia, levantei mais cedo e fui ao mercado, pois não queria ser surpreendida como
antes. Comprei bastante batata-frita, carne de hambúrguer, mortadela, pão, refrigerantes e
cerveja para o Alfredo. Fritei carne em quantidade e quando a turma acordou puderam
finalmente comer comida de verdade! Nós iríamos embora naquela noite, portanto não
podíamos perder tempo se quiséssemos aproveitar a praia. Onze horas já estávamos lá,
pegando aquele sol que faz tão bem!

Logo que chegamos, a Mariazinha a primeira coisa que fez foi vomitar. Essa menina não
perde a mania de engulir a comida feito uma desesperada, come que parece ser a última
refeição da vida! Vomitou em cima de um casal. Foi o maior bafafá. Ainda bem que não
fez dentro do carro...

No dia anterior havíamos deixado os bichos em casa e quando chegamos o gato tinha
fugido. Deu um trabalhão para encontrá-lo. Dessa vez, o trouxemos com a gente. Em casa

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ficou só o cachorro. Mas como o gato não podia ir para a praia, deixamos ele no carro
esperando.

O Robertinho arrumou briga com um garotos que pegaram a bola dele (pelo menos não
quis trazer a prancha!). Mas não foi nada sério, logo ele se enturmou com a gurizada e
passaram a jogar bola como bons meninos. É claro que sempre tem um pessoalzinho que
pensa ser dono do pedaço, que fica reclamando da pelada dos meninos. Nessas horas, a
melhor coisa a fazer é fingir que o assunto não é conosco. Só não admito que encostem a
mão no meu filho, aí eu viro bicho. Agora, reclamar, podem reclamar o quanto quiserem.

Dessa vez, mãe, eu é que fiz uma travessura...Passou um vendedor de empadas...Sou louca
por empadas, ainda mais de camarão, comi bem umas dez! Meia hora mais tarde começou
um revertério na minha barriga que não teve jeito. Acontece que o banheiro estava igual ou
pior do que antes. Aí, lembrei do conselho que dei pra Mariazinha no dia anterior e resolvi
aplicá-lo para mim mesma. Fui pra dentro d’água. Fez um monte de borbulha e teve uns
palhaços que ficaram dizendo piadas, mas eu não tô nem aí. Tenho culpa de ter desarranjo?

Ficamos na praia até quase sete horas da noite. A vontade era ficar lá a semana toda. Só
que o Alfredo no dia seguinte iria trabalhar e precisávamos ir embora. Quando chegamos
no carro, uma surpresa: o gato havia torrado! Não passou pela nossa cabeça que, com tantas
vidas, o bicho não suportasse algumas horas de sol. Acho que era um gato defeituoso. A
Mariazinha, coitada, chorou muito. Só ficou quieta depois que o pai lhe comprou uma
casquinha.

Quanto ao resto, mãe, não houve novidades. Estou louca para que venha o próximo feriado
para voltarmos lá. Dessa vez, quero que a senhora vá conosco. Espero que o Robertinho e a
Mariazinha melhorem rápido das perebas que apareceram na pele deles. O médico disse
que estão comendo mal. Eu não posso acreditar numa coisa dessas, só dou pra eles comida
boa, carne, batata, macarrão e maionese. Legumes e verduras eles não gostam, não adianta
nem oferecer. Frutas eles também não comem, mas bebem bastante refrigerante, que diz na
embalagem: contém suco de frutas. Portanto, deve ser bom pra saúde. Acho que vou é
mudar de médico!

Benção mãe.

MOIZÉS MONTALVÃO

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