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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

DIRLAN MACHADO JUNIOR

RESENHA: O HORROR ECONÔMICO

VITÓRIA
2019
DIRLAN MACHADO JUNIOR

RESENHA: O HORROR ECONÔMICO

Trabalho apresentado à disciplina de


Antropologia Filosófica do curso de
Enfermagem, como requisito parcial de
avaliação.
Docente: Gilmar Francisco Bonamigo.

VITÓRIA
2019
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Introdução

O livro de Viviane Forrester, “O Horror Econômico”, foi considerado um dos


mais vendidos da França, se tornando um best-seller traduzido para mais de 30
idiomas. O livro traz uma denúncia ao ultraliberalismo vigente à época,
principalmente na Europa Ocidental e nos países Anglo Saxônicos,
convergindo para uma política social de extrema pobreza e marginalização do
trabalho.

Viviane Forrester, nascida em 29 de setembro de 1925 em Paris, faleceu no


ano de 2013, aos 87 anos. Algumas de suas contribuições literárias e
ensaísticas centraram-se na análise das obras de Van Gogh e Virginia Woolf.
Recebeu o prêmio feminino de ensaio por "Van Gogh ou l'enterrement dans les
blés" e o prêmio Goncourt de biografia em 2009 por "Virginia Woolf". Viviane
também trabalhou no renomado jornal “Le Monde”, onde escreveu criticas
literárias.

O “O Horror Econômico” se tornou um símbolo nas manifestações dos


movimentos sindicais e operários na França no final da década de 1990. A obra
de Viviane ganhou o Prêmio Médicis de Ensaio em 1996.

Resenha – O Horror Econômico de Viviane Forrester

O trabalho é definido por Karl Marx como a atividade sobre a qual o ser
humano emprega sua força para produzir os meios para o seu sustento1

No sentido etimológico trabalho está associado à labuta, tortura. Na


antiguidade não era visto como atividade digna e sim, atividade para escravos.
Na Roma escravagista o trabalho era desvalorizado. É intuitivo nesse contexto
o fato da palavra negotium indicar a negação do ócio: ao enfatizar o trabalho
como “ausência de lazer”, ou seja, diferencia-se o ócio como prerrogativa dos
homens livres. O capitalismo sob a ótica marxista é regido pela necessidade de

1. Marx, Karl. O capital: crítica de economia política. Livro I. 1867


4

consumo de bens produzidos, o trabalho escravo já não é mais compatível com


o sistema vigente. Surge o trabalho assalariado, desenvolvido pela burguesia e
atribuído ao proletário.

A incorporação do individuo as práticas laborais está, segundo a autora


Viviane Forrester, atrelada à grande lógica do mercado em um contexto dos
riscos da não empregabilidade. O mundo ambivalente do trabalho trazem
questões incessantes de lados distintos de escolarização e não escolarização
das atividades humanas, mas que se converge para uma única posição; a da
imposição. O dever de trabalhar, segundo a autora passa pelo direito à vida 2,
mesmo quando se é proibido pelas circunstâncias a esse acesso laboral.

O sujeito e a sua existência são colocadas à prova no momento que sua


realidade psicossocial está associada a uma ruptura de seu envolvimento nas
atividades econômicas. O filósofo e economista britânico Adam Smith diz que
todo homem, assim, vive pela troca, ou se torna, até certa medida, mercador, e
a sociedade cresce até ser uma sociedade comercial propriamente dita.3
Sendo assim, o ser social na condição de empregador abre mão da parte da
força física do seu trabalho contratando o outro no seu lugar. Este último aceita
sua condição com resignação apesar de ver seus direitos muitas vezes
suplantados. Karl Polanyi, um dos críticos mais veementes do capitalismo diz
que a economia humana se submerge nas relações sociais.

O homem não age para salvaguardar seu interesse individual na


posse de bens materiais: age para salvaguardar sua posição
social, suas prerrogativas sociais, seus ativos sociais. Só valoriza
os bens materiais à medida que eles servem a esse fim. (Polanyi,
1944)

2. Na constituição de 1988 garante a inviolabilidade do direito à vida, que nada mais é


o direito do individuo existir dignamente, não condicionada a qualquer atividade
laboral.

3. Smith, Adam. A riqueza das nações. 1776 (cap. A origem e o uso do dinheiro)
5

Por este motivo, o discurso da economia no seu estado natural é evidenciado a


cada dia; os que não participam dela são ignorados e relegados à
marginalização familiar, cultural e social. Entra aí, para contrabalancear essa
condição, a eloquência do bom candidato à governança e suas promessas
remotas. “A economia está em baixa, por isso não há geração de emprego;
devemos esperar um maior ritmo este ano”. É um discurso muito comum com o
propósito de suprimir e relativizar todo o receio daqueles que dependem das
atividades laborais para a sua sobrevivência, disfarçado de um programa de
retomada econômico muito compartilhado pelos neoliberais e também pela
social democracia.

Forrester compara a condição subserviente do trabalhador ao protagonista


mais famoso de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha. Na alegoria
expressa na obra homônima, o personagem luta contra o “moinho de vento”
que na sua loucura é transformado em gigantes a atacá-lo. Os verdadeiros
inimigos da vida real passam aos seus olhos despercebidos. Assim é a busca
incessante pelo trabalho precário e alienado, onde o agente social da
mudança, o proletário, não tem consciência de sua práxis 4.

Dessa forma, a organização social entra em um conflito incessante. Isso se


deve ao fato de que a sociedade está organizada de tal forma que, para a
maioria dos indivíduos, o trabalho não é um projeto seu e nem fruto dos seus
próprios esforços.

Primeiro argumento, sob a forma de refrão: a promessa


redundante e sempre mágica de “criação de emprego”. Fórmula
sabidamente vazia, definitivamente desgastada, mas que não
deixa de ser inevitável [...] (Forrester, p.52, 1997).

4. Na concepção marxista a práxis remete para os instrumentos em ação que


determinam a transformação das estruturas sociais.
6

Recentemente, o presidente da República, Jair Bolsonaro, propôs junto ao


ministério da economia um novo plano de empregabilidade que alcançaria
principalmente a faixa etária mais jovem da população de até 29 anos de idade.
Seu discurso estampado no jornal é claro: "O trabalhador vai ter que decidir:
menos direito e emprego ou todos os direitos e desemprego".5 No geral, a
proposta seria uma espécie de “enxugamento” dos direitos da nova mão de
obra brasileira, atrelado ao provável aumento de contratações.

Muito se discute na esfera ultraliberal que os direitos atrapalhariam a parcela


hipossuficiente da massa trabalhadora, mas pouco se questiona o que a falta
deles acarretaria. A nova legislação trabalhista que entrou em vigor no ano de
2017 expõe os empregados a jornadas extenuantes de 12 horas diárias,
redução do tempo de intervalo e de almoço, férias anuais parceladas em 3
vezes. Com a supressão de direitos e a discussão da Reforma Previdenciária
no congresso Nacional, indubitavelmente o empregado estaria muito mais à
mercê da chamada exploração da força de trabalho.

Seguindo essa linha, a fala de Bolsonaro inflama a construção da


desesperança citado em “Horror” pelos mais jovens diante dos novos cenários
e condições oferecidas pelo livre mercado, onde a busca por novas vagas de
emprego e carteira assinada se tornam uma epopeia desgastante, combinado
a isso se evidencia os mais variados tipos de frustrações e falta de
oportunidades. Mesmo sendo levados a esse vazio social, espera-se um bom
comportamento de bons cidadãos deles. (p. 63).

O senso comum pressupõe que o trabalho em tempos de crise seria o produto


indispensável para a reestruturação econômica. A retórica capitalista seduz os
seus agentes a partir da esfera do mercado e do consumo. Todos os excluídos,
ou seja, aqueles que não contribuem, levariam a responsabilidade em seus
ombros.

.
5. Folha de São Paulo - 1 de out de 2019
7

A resignação e a culpa não são impelidas aos mandos e desmandos da


iniciativa privada e tampouco são assimiladas pelo Estado. Forrester diz que o
desemprego sistêmico e a sua manutenção estão atreladas a indiferença geral,
muito mais significativo do que qualquer manifestação parcial, o que permite as
adesões maciças a certos regimes (p. 41).

As Multinacionais e as Transnacionais estão concorrentemente encontrando


terreno fértil nesse estado de desatenção habitual. A liberdade que elas
projetam nos lugares mais distantes e subdesenvolvidos, reiterando a mão
invisível do mercado de Adam Smith6, induz a falta da adesão estatal, da
participação social e da solidariedade.

A seleção escassa do mercado relega os menores as condições de escassez e


miséria, mesmo subtraindo dos mesmos seus últimos recursos, através do
consumo. Porque a ideologia vigente reifica o ser social, promovendo a
ausência da subjetividade, extraviando a sua consciência do que realmente é
válido: as relações humanas acima da mercadoria.

A dispensa coletiva, conhecida como demissão em massa, está muito


evidenciada nessa “mundialização” e já é “carta marcada” nas empresas de
médio e grande porte. Pois Viviane Forrester atesta que a servidão leva o
individuo a um estado de necessidade gritante cuja rejeição cedo ou tarde seria
algo iminente, como propõe a autora:

[...] Jamais se poderia igualmente supor que um mundo capaz de


funcionar sem o suor de tantos rostos seria imediatamente
(mesmo antes) sequestrado, e que teria por prioridade oprimir,
depois acuar, para melhor rejeitá-los, os trabalhadores agora
supérfluos. (Forrester, p. 115, 1997).

6. Segundo “A riqueza das nações”, o mercado livre se autorregularia, sem a


necessidade da intervenção do Estado.
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Concernente ao projeto de desemprego e de “demissão em massa”, o ensaio


de Viviane afirma que os excluídos criam uma espécie de “estado providência”,
onde a ilusão reinante é a busca das chamadas atividades anexas. Dentre elas
estão pedir esmola, comércio de rua informal, tráfico de drogas, prostituição
etc.

É como se fosse uma roda contínua cujo propósito não tem fim. A busca
permanente na porta das empresas, vendo o fim do trabalho que conhecemos
substituídos pela robótica e automação, relega o individuo a uma condição
incapacitante.

A tecnologia dessa forma se torna uma “inimiga”, ao invés de uma aliada. O


que se contrapõe a essa questão da concepção capitalista é que a inovação
tecnológica substitui o trabalho árduo e rotineiro pelas mãos das máquinas,
oferecendo um tempo maior de dedicação dos homens as chamadas
atividades espirituais e culturais. Mas o desemprego estrutural e as
consequências sociais não são vistos como um prospecto. Como a própria
autora conduz a suas ideias nesse aspecto concluindo que ao invés de reduzir
a quantidade de trabalho para disponibilizar as pessoas para que tenha mais
tempo, a adoção desenfreada da tecnologia está levando a supressão do
trabalho (p. 111).

.
9

Conclusão

O cenário de complexidade do trabalho não é algo fácil de ser compreendido. A


imposição e o desejo latente de construir um capital social a partir das
atividades labutares sempre foi algo essencialmente intrínseco ao
comportamento humano, mesmo que as condições empregadas estejam
sempre condicionadas as dinâmicas do mercado, ao consumo sem
precedentes, ao acumulo de capital daqueles que se aproveitam da força física
alheia e as incertezas provocadas pela ausência da própria atividade
trabalhista.

O propósito do livro de Viviane Forrester é a partir de uma dialética enxergar o


que o neoliberalismo nos “vende” em forma de promessas vazias de
crescimento econômico e poder de compra, marginalizando aqueles e aquelas
que não participam efetivamente da roda contínua do sistema econômico
vigente.

Dessa forma, o futuro não deve ser sugestionado pelos que comandam a
cadeia produtiva, pois acreditar nessa possibilidade é pensar que há um
destino que não pode ser desfeito.

Uma critica direcionada ao livro de Viviane Forrester é o fato de não ousar


denominar alguns personagens de segmentos sociais que habitualmente são
excluídos dentro da esfera do trabalho, apesar de não ser esse o foco principal
de sua tese. Porque a questão da minoria dentro do corporativismo e em
postos estratégicos ainda é uma preocupação fundada nas bases do
capitalismo.

Falar da falta de oportunidades de mulheres e negros, por exemplo, é


problematizar ainda mais o que é nos oferecido pelo atual modelo econômico,
rechaçada pelas arbitrariedades do Estado que não lança mão do agrado aos
grandes empresários apoiados pela livre iniciativa. Porque o investimento em
programas sociais contribui para uma libertação, mesmo que parcial, das
mazelas da exclusão.
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Referencias Bibliográficas

1. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa


do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.
2. MARX, Karl. O Capital. Vol. 2. 3ª edição, São Paulo, Nova Cultural,
1988.
3. POLANYI, K. A Grande Transformação, Ed. Campus, Rio de Janeiro,
2000 (1944).
4. SMITH, Adam. (1776). A Riqueza das Nações: Investigação sobre
sua Natureza e suas Causas. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Coleção
Os Economistas).

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