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MUKUNDA-MALA-STOTRA
AS ORAÇÕES DO REI KULASEKHARA

por Sua Divina Graça


A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
e Seus Discípulos

versão brasileira
Indumukhi Devi Dasi
Curitiba, outubro 2000
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Introdução

Dentre as muitas centenas de stotras poéticos sânscritos – canções de glorificação


oferecidas ao Senhor Supremo, Seus devotos, e os locais sagrados de Seus passatempos – o
Mukunda-mala-stotra do Rei Kulasekhara é um dos mais perenemente famosos. Alguns
dizem que seu autor o concebia como uma guirlanda (mala) de versos oferecida para o
prazer de Krishna. Há muito que tem sido querido entre os Vaisnavas de todas escolas, e
nosso próprio mestre espiritual, Srila A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada,
frequentemente adorava citar certos versos favoritos do mesmo.

O Rei Kulasekhara fazia parte da Shri-sampradaya, a escola Vaisnava fundada pela divina
consorte do Senhor Vishnu, Shri. O mais proeminente representante desta escola,
Ramanuja Acharya (século XI), construiu sobre a obra de seus antecessores Natha Muni e
Yamuna Acharya, estabelecendo a filosofia sistemática do Shri Vaisnavismo. Mas estes
acharyas vieram dentro de uma tradição já antiga, aquela dos extáticos poetas místicos
chamados Alvars. Os doze Alvars apareceram em diversas épocas no sul da Índia, na área
aproximadamente correspondente ao atual Tamil-Nadu. Segundo a tradição dos Shri
Vaisnavas, os primeiros Alvars viveram há mais de cinco mil anos atrás, no início da era
atual, Kali-yuga, enquanto que os mais recentes viveram no primeiro milênio após Cristo.

A poesia Tamil dos Alvars foi reunida no Tiruvaymoli, reverenciado pelos Shri Vaisnavas
como seu Veda vernacular. Com base na força da autoridade devocional do Tiruvaymoli,
os Shri Vaisnavas asseveram seguir Ubhaya-vedanta, a filosofia dual Vedanta fundada
sobre escrituras sânscritas e Tamil. Alguns Alvars eram renunciantes atípicos: o terceiro,
Andal, era uma mulher, e três estavam envolvidos em governar. Entre estes estava o
décimo Alvar, Kulasekhara Perumal, que era um rei governante na dinastia Cera do
Malainadu, na atual Kerala. Estudiosos modernos dizem que ele pode ter vivido durante o
século IX D.C..

Uma história tradicional do Rei Kulasekhara conta que uma vez, enquanto dormia nos
aposentos de seu palácio, ele teve uma visão brilhante e distinta do Senhor Krishna. Ao
acordar ele caiu num transe devocional e deixou de notar a madrugada alvorecendo. Os
músicos e ministros reais vieram como sempre diante de sua porta para acordá-lo, mas
após esperarem algum tempo sem ouví-lo responder, relutantemente tomaram a liberdade
de entrar em seu quarto. O rei saiu de seu transe e descreveu sua visão para eles, e a partir
daquele dia em diante não tinha mais muito interesse em governar. Delegava a maioria de
suas responsabilidades a seus ministros e se dedicava a prestar serviço devocional ao
Senhor. Após alguns anos ele abdicou do trono e foi para Sri Rangam, onde permaneceu
na associação da Deidade de Krishna, Ranganatha, e Seus muitos devotos exaltados. Em
Sri Rangam, dizem que Kulasekhara compôs suas duas maiores obras: o Mukunda-mala-
stotram, em sânscrito; e 105 hinos em Tamil, que mais tarde foram incorporados no
Tiruvaymoli sob o título de Perumal-tirumoli.

Assim como os outros Alvars em suas expressões místicas, no seu Perumal-tirumoli, o Rei
Kulasekhara emula os papéis de alguns dos devotos íntimos do Senhor Ramachandra e
Senhor Krishna: o Rei Dasaratha; duas das mães do Senhor, Kausalya e Devaki; e algumas
das jovens pastorinhas de vacas de Vrindavana. Porém Maharaja Kulasekhara não
expressa nenhum orgulho em realizar tais humores devocionais confidenciais. Pelo
contrário, com profunda humildade ele repetidamente implora para simplesmente ter
permissão de tomar seus próximos nascimentos como uma ave, peixe, ou flor no lugar
onde o Senhor Krishna encena Seus passatempos, e desta maneira desfrutar da associação
com Seus devotos.
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O Mukunda-mala-stotra, embora composto em elegante sânscrito, é uma expressão


simples da devoção do Rei Kulasekhara ao Senhor Krishna e sua ânsia por compartilhar
sua boa fortuna com todos mais. Sendo uma obra muito pública, não se aprofunda em
revelações íntimas pessoais ou questões filosóficas abstrusas. Como a maioria das outras
obras do gênero stotra, visa menos apresentar um enredo do que expressar vívida e
honestamente os verdadeiros sentimentos de um amante de Deus. Com isso tudo nós os
leitores podemos nos dar por completamente satisfeitos, porque trata-se de uma rara
oportunidade para nós quando um devoto da estatura do Rei Kulasekhara abre seu coração
tão abertamente – de um modo justamente apropriado para nós, com todas nossas
imperfeições, apreciarmos.

Sobre a Presente Edição

Usando uma edição sânscrita publicada por Srila Bhaktivinoda Thakura em 1895, Srila
Prabhupada começou a traduzir o Mukunda-mala-stotra no final dos anos ’50. Mas após
completar seis versos com comentário, ele suspendeu-o para trabalhar no Srimad-
Bhagavatam. Ele nunca o retomou. No entanto claramente tensionava que o Mukunda-
mala-stotra fosse publicado, já que o incluía na lista de seus outros livros em inglês, no
início de cada um dos três volumes do Primeiro Canto do Bhagavatam.

Em 1989, o GBC da ISKCON solicitou que Satsvarupa dasa Goswami completasse o


Mukunda-mala-stotra. Um dos discípulos mais antigos de Srila Prabhupada, Satsvarupa
Goswami havia se distinguido ao longo dos anos como um de seus seguidores mais
eruditos e literários. Tinha servido como editor da revista De Volta Ao Supremo – o jornal
bimensal da Sociedade – durante a maioria dos 23 anos que fôra publicado no ocidente, e
já havia escrito muitos livros, mais notadamente uma biografia em seis volumes de Srila
Prabhupada.

Satsvarupa Goswami aceitou a tarefa e requisitou a ajuda de Gopiparanadhana dasa, o


editor de sânscrito da BBT, para traduzir os 47 versos restantes. Então ele preparou
cuidadosamente os significados, frequentemente citando do Bhagavad-gita, Srimad-
Bhagavatam e outras obras de Srila Prabhupada. O resultado é um livro que confiamos
será igualmente informativo e vivificante para os devotos, estudiosos e leigos.

Os Editores

Nota do editor: Citações do Krishna Book edição de 1966. Citações do Néctar da


Devoção da edição de 1982.
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Texto 1*

* Traduções e significados dos textos marcados com um asterisco são


por Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada.

shri-vallabheti vara-deti daya-pareti


bhakta-priyeti bhava-lunthana-kovideti
natheti naga-shayaneti jagan-nivasety
alapinam prati-dinam kuru mam mukunda

shri-vallabha – Ó amado de Lakshmi (a consorte do Senhor Supremo); iti – assim; vara-


da - Ó ser que concede bençãos; iti – assim; daya-para – Ó ser misericordioso sem causa;
iti – assim; bhakta-priya – Ó ser que és muito querido pelos Teus devotos; iti – assim;
bhava- a repetição de nascimento e morte; lunthana – em saquear; kovida – Ó Tu que és
perito; iti – assim; natha – Ó Senhor; iti – assim; naga-shayana – Ó Tu que dormes sobre a
cama de serpente (Ananta Shesha); iti – assim; jagat-nivasa – Ó refúgio do cosmos; iti –
assim; alapinam – recitador; prati-dinam – todo dia; kuru – por favor faça; mam – me;
mukunda – Ó Mukunda.

TRADUÇÃO

Ó Mukunda, meu Senhor! Por favor permita-me ser um constante recitador de Teus
nomes, tratando-O por Sri-vallabha (“Aquele que é muito querido por Lakshmi”),
Varada (“Aquele que concede bençãos”), Dayapara (“Aquele que é misericordioso
sem causa”), Bhakta-priya (“Aquele que é muito querido por Seus devotos”), Bhava-
lunthana-kovida (“Aquele que é perito em pilhar o status quo de repetidos
nascimentos e mortes”), Natha (“O Senhor Supremo”), Jagan-nivasa (“O refúgio do
cosmos”), e Naga-shayana (“O Senhor que se deita no leito de serpente”).

SIGNIFICADO

Um devoto de Deus é aquele que glorifica a Personalidade de Deus sob o ditame do êxtase
transcendental. Este êxtase é um sub-produto do profundo amor pelo Supremo, que em si
mesmo é obtido pelo processo da glorificação. Nesta era da discórdia e luta, o processo de
cantar e glorificar aqui recomendado pelo Rei Kulasekhara é o único caminho para
alcançar a perfeição.

Pessoas que estão infectadas com a doença do apego material e que sofrem pelas dores de
repetidos nascimentos e morte não conseguem saborear tal recitar das glórias do Senhor,
tal como uma pessoa sofrendo de icterícia não consegue saborear o gosto do açúcar cande.
Por natureza, o açúcar cande é o mais doce, mas para um paciente sofrendo de icterícia seu
sabor é bem amargo. Ainda assim, açúcar cande é o melhor remédio para a icterícia.
Através do tratamento regular com doses de açúcar cande, se pode gradualmente obter
alívio da infecção da icterícia, e quando o paciente está perfeitamente curado, o mesmo
açúcar cande que lhe sabia amargo recupera sua natural doçura.

Da mesma maneira, glorificação do transcendental nome, fama, atributos, passatempos, e


séquito da Personalidade de Deus parece amargo para aqueles que sofrem da infecção da
consciência material, mas é muito doce para aqueles que se recuperaram desta infecção.

Todos filósofos, religiosos, e pessoas mundanas em geral, que estão constantemente


sofrendo pelas tríplices misérias da existência material, podem conseguir liberação de tais
problemas simplesmente por cantarem e glorificarem o santo nome, fama, e passatempos
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do Senhor Supremo. O Senhor Supremo, a Verdade Absoluta, é todo espírito, e portanto


Seu nome, fama, e passatempos não são diferentes Dele. Todos eles são idênticos. Em
outras palavras, o santo nome do Senhor é o próprio Senhor, e isso pode ser compreendido
pela realização. Por cantar os santos nomes do Senhor, que são inumeráveis, a pessoa pode
verdadeiramente associar-se com o Senhor pessoalmente, e através de tal constante contato
pessoal com o Senhor todo-espiritual, a pessoa irá se tornar espiritualmente auto-realizada.
Este processo de auto-realização é muito adequado para as almas caídas desta era, em que
a vida é curta e em que as pessoas são lentas em compreender a importância da realização
espiritual, propensas a serem iludidas pela falsa associação e falsos mestres espirituais,
desafortunadas em todos aspectos, e continuamente perturbadas por inumeráveis
problemas materiais.

O Rei Kulasekhara, um devoto puro ideal do Senhor, nos mostra através de sua própria
realização, como oferecer orações ao Senhor. Como ele é um maha-jana, uma autoridade
na linhagem do serviço devocional, é nosso dever primordial seguir os seus passos a fim de
alcançar a mais elevada plataforma devocional.

Ele primeiro se dirige ao Senhor como Shri-vallabha, “Aquele que é muito querido por
Lakshmi.” O Senhor é a Suprema Personalidade de Deus, e Sua consorte, Lakshmi, é uma
manifestação de Sua potência interna. Ao expandir Sua potência interna, o Senhor desfruta
de Sua parafernália espiritual. Na mais elevada realização espiritual, portanto, o Senhor
não é impessoal ou vazio, conforme filósofos empiristas O concebem. Embora Ele não
seja do mundo material, Ele é muito mais que simplesmente uma negação da variedade
material. Ele é positivamente o supremo desfrutador da variedade espiritual, da qual
Lakshmi, a potência interna, é a fonte.

O Rei Kulasekhara em seguida dirige-se ao Senhor como Varada, “Aquele que concede
bençãos,” porque é somente Ele que pode dar-nos a substância real – bem-aventurança
espiritual. Quando nos desapegamos da associação Dele, estamos sempre em meio à
necessidade e escassez, mas assim que entramos em contato com Ele, começamos a
gradualmente ser dotados de toda bem-aventurança. A primeira parcela deste êxtase é a
libertação da camada de poeira que se acumulou em nossos corações devido a milhões de
anos de associação material. Assim que a poeira do materialismo é varrida embora, o claro
espelho do coração reflete a presença do Senhor. E assim que O vemos, somos
automaticamente libertados de todos tipos de aspirações e frustrações. Nesse estado
liberado, tudo é bem-aventurado em relação com o Senhor, e a pessoa não tem desejos a
realizar e nada para lamentar. Assim, em seguida à benção, o pleno êxtase espiritual nos
sobrevem, conduzindo ao pleno conhecimento, vida plena, e satisfação completa com toda
nossa existência.

O Rei Kulasekhara a seguir dirige-se ao Senhor como Dayapara, “Aquele que é


misericordioso sem causa,” porque não há ninguém além do Senhor que possa ser um
amigo misericordioso sem motivo para nós. Ele portanto é chamado de Dina-bandhu, “o
amigo dos necessitados.” Infelizmente, nas horas da necessidade nós buscamos nossos
amigos no mundo mundano, sem saber que um homem necessitado não pode ajudar outro.
Nenhum homem mundano é completo em todos respeitos; mesmo um homem possuindo
grandes riquezas ele mesmo é necessitado se estiver destituído de um relacionamento com
o Senhor. Tudo é zero sem o Senhor, que é o dígito que transforma zero em dez, dois zeros
em cem, três zeros em mil, e assim por diante. Assim um “homem zero” não consegue ser
feliz sem a associação do Senhor, o Supremo “1.”

O Supremo “1” sempre quer fazer nossos esforços zeros, valiosos através de Sua
associação, assim como um pai amoroso sempre deseja que um filho infeliz fique numa
posição próspera. Um filho rebelde, entretanto, recusa teimosamente a cooperação do pai
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amoroso e assim sofre toda sorte de misérias. O Senhor, portanto, envia Seus
representantes fidedignos a todas partes da criação material, e às vezes Ele até mesmo vêm
pessoalmente para recuperar Seus filhos caídos. Com esse propósito Ele também exibe a
vida real no mundo transcendental, que se caracteriza pelos relacionamentos com Ele na
servidão, amizade, paternidade, e na qualidade de consorte. Todos relacionamentos no
mundo material não passam de reflexos pervertidos destes relacionamentos originais. No
mundo mundano nós apenas experimentamos uma sombra da realidade, que existe no
mundo espiritual.

O Senhor todo misericordioso está sempre atento a nossas dificuldades no mundo


mundano, e Ele está mais ansioso por conseguir que retornemos ao lar, de volta para Deus,
do que nós estamos para ir. Ele é por natureza misericordioso para conosco, apesar de
nossa atitude rebelde. Mesmo em nossa condição rebelde nós recebemos todas nossas
necessidades Dele, tais como alimento, ar, luz, água, calor, e frescor. Contudo porque nos
desapegamos Dele, simplesmente administramos mal esta propriedade paterna. Os líderes
da sociedade, apesar de todos seus planos materialistas, são enganadores, pois eles não tem
nenhum plano para restaurar nosso relacionamento perdido com o Senhor. Os devotos
fidedignos Dele, no entanto, tentam o máximo divulgar a mensagem de nosso
relacionamento transcendental com Ele. Desta maneira os devotos trabalham para lembrar
às almas caídas sobre sua posição real e para trazê-las de volta ao lar, de volta para Deus.
Tais devotos imaculados do Senhor são muito queridos por Ele. Eles recebem o favor
especial do Senhor pelo seu trabalho misericordioso, podendo até mesmo voltar para Deus
durante esta vida e não serem forçados a tomar outro nascimento.

O Senhor portanto em seguida é chamado de Bhakta-priya, significando “Aquele que é


muito querido por Seus devotos” ou “Aquele que é muito afetuoso para com Seus
devotos.” No Bhagavad-gita (9.29) o Senhor descreve muito bem Sua sublime e
transcendental afeição por Seus devotos. Ali o Senhor declara que embora Ele seja
indubitavelmente igualmente caridoso para com todas entidades vivas – porque todas elas
são parte e parcela Dele e são Seus filhos espirituais – aquelas que são especialmente
apegadas a Ele através do amor e afeição, que não consideram nada mais amado que Ele,
lhe são particularmente queridas.

Um exemplo de um devoto puro assim é o Senhor Jesus Cristo, que concordou em ser
cruelmente crucificado em vez de abandonar a pregação em nome de Deus. Ele nunca
estava preparado para ceder quando o assunto era acreditar em Deus. Um tal filho de Deus
só poderia ser querido pelo Senhor. Similarmente, quando Thakura Haridasa recebeu
ordem de abandonar o cantar do santo nome de Deus, recusou-se a fazê-lo, e como
resultado foi açoitado em vinte e duas praças de mercado. E Prahlada Maharaja persistiu
em discordar de seu pai, o grande ateísta Hiranyakashipu, e assim voluntariamente aceitou
as crueldades que seu pai lhe infligiu. Estes são alguns exemplos de devotos renomados
do Senhor, e nós devemos simplesmente tentar compreender quão queridos tais devotos
são para Ele.

O Senhor declarou enfaticamente que ninguém pode vencer Seu devoto sob quaisquer
circunstâncias. Um bom exemplo é Ambarisha Maharaja. Quando o grande yogi místico
Durvasa deliberadamente tentou tirar a vida de Ambarisha, o Senhor puniu Durvasa
adequadamente, mesmo apesar de ser um poderoso yogi que podia se aproximar de todos
semideuses e até do próprio Senhor.

Às vezes, mesmo com o risco de ter de passar por muitos tropeços, um devoto abre mão de
todas conecções familiares e confortos domésticos em prol do serviço do Senhor. Pode o
Senhor esquecer todos esses sacrifícios de Seu devoto fidedigno? Não, nem mesmo por
um momento, pois o relacionamento entre o Senhor e Seu devoto é recíproco, conforme
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Ele claramente fala no Bhagavad-gita (9.29): “Quem quer que Me preste serviço em
devoção é um amigo – está em Mim- e Eu também sou um amigo para ele.”

Um devoto nunca está tão ansioso por ver o Senhor, quanto está para prestar serviço a Ele.
No entanto o Senhor de fato aparece diante de Seu devoto, pois Ele é exatamente como um
pai afetuoso, que está mais ansioso por ver seu filho do que o filho por vê-lo. Não há
nenhuma contradição em tal diferença quantitativa na afeição. Tal disparidade existe na
realidade original – entre o Senhor e Seus devotos – e aqui se reflete não só nas relações
entre pais e filhos na sociedade humana mas até no reino animal. Afeição paterna é
exibida até entre animais inferiores porque originalmente tal afeição em sua plenitude
existe em Deus, o pai original de todas espécies de seres vivos. Quando um homem mata
um animal, Deus, o pai afetuoso, fica perturbado e de coração aflito. Assim o massacrador
do animal é devidamente punido pela energia material, assim como um assassino é punido
pelo governo através da ação policial.

Pela misercórdia do Senhor, um devoto desenvolve todas boas qualidades de Deus, pois
um devoto nunca consegue permanecer na escuridão da ignorância. Um pai está sempre
ansioso por transmitir conhecimento e experiência para seu filho, mas o filho pode
escolher se aceita tais instruções. Um devoto submisso se torna automaticamente
iluminado em todas complicações do conhecimento, porque o Senhor, a partir de dentro,
dissipa sua ignorância com a luminária auto-iluminada da sabedoria. Se o próprio Senhor
instrui o devoto, como pode ele permanecer tolo como os indivíduos briguentos
mundanos?

Um pai é naturalmente inclinado a agir pelo bem de seu filho, e quando o pai censura seu
filho, essa censura também vem misturada com afeição. Similarmente, todas entidades
vivas que perderam seu lugar no paraíso devido à desobediência ao Pai Supremo são
postas nas mãos da energia material para passarem por uma vida na prisão das tríplices
misérias. Entretanto o Pai Supremo não esquece de Seus filhos rebeldes. Ele cria
escrituras para eles tais como os Vedas e Puranas a fim de fazer reviver o relacionamento
perdido deles com Ele e despertar a divina consciência deles. Pessoas inteligentes tiram
proveito da mais alta perfeição da vida.

Para Seus devotos, o Senhor descende pessoalmente a este mundo a fim de dar-lhes alívio
e salvá-los dos atos insanos dos canalhas descrentes. É tolice tentar impor os limites de um
ser vivo comum à ilimitada potência de Deus e manter obstinadamente que o Senhor
Supremo não pode descender. Para mitigar os sofrimentos materiais de Seus devotos, Ele
descende tal como Ele é, contudo Ele não é infectado pelas qualidades materiais.

Assim que uma pessoa concorda em se render ao Senhor, o Senhor Se encarrega


completamente dela. Satisfeito com as atividades de tal devoto, Ele lhe proporciona
instrução a partir de dentro, e assim o devoto se torna puro e avança na senda de volta para
Deus. O Senhor é perito em guiar tal devoto puro, que não está nem um pouco ansioso
pela superioridade material. Um devoto puro não deseja possuir fortuna material, nem
quer ter um grande séquito, nem deseja uma bela esposa, pois pela misericórdia do Senhor
ele sabe da insignificância da felicidade material. O que ele deseja sinceramente e de
coração é continuar no serviço amoroso ao Senhor, mesmo sob risco de tomar nascimento
novamente.

Quando um devoto neófito se desvia da senda da devoção pura e quer simultaneamente


desfrutar da gratificação sensorial e executar serviço devocional, o Senhor todo-
misericordioso com muito tato corrige o devoto confuso, exibindo diante dele a real
natureza deste mundo material. No mundo material todos relacionamentos são na verdade
mercenários, porém encobertos por uma cortina ilusória de assim-chamado amor e afeição.
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As assim-chamadas esposas e maridos, pais e filhos, e patrões e servos, estão todos


interessados no benefício material recíproco. Assim que a cobertura ou mortalha da ilusão
é removida, o corpo morto do assim-chamado amor e afeição imediatamente fica manifesto
a olho nu.

O Senhor remove peritamente a mortalha da ilusão para o devoto neófito, privando-o de


seus bens materiais, e assim o devoto se encontra sozinho em meio a seus assim-chamados
parentes. Nesta condição desvalida ele experimenta a grosseria de seus assim-chamados
relacionamentos com sua assim-chamada esposa e filhos. Quando um homem está
financeiramente arruinado, ninguém o ama, nem mesmo sua esposa e filhos. Tal devoto
atingido pela pobreza fixa mais perfeitamente sua fé no Senhor, e o Senhor então o livra da
sina da frustração.

A criação cósmica inteira é o arranjo perito do Senhor para a ilusão dos seres vivos que
tentam ser falsos desfrutadores. A posição constitucional do ser vivo é ser um servo do
Senhor, mas no relacionamento transcendental o servo e o Senhor num certo sentido são
idênticos, pois o Senhor também serve o servo. O exemplo típico é Sri Krishna ter Se
tornado o quadrigário de Seu servo eterno Arjuna. Mundanos iludidos não conseguem
compreender o relacionamento transcendental e recíproco entre o Senhor e Seus devotos, e
portanto eles querem ser senhores da natureza material ou cinicamente fundir-se com o
Absoluto. Assim o ser vivo esquece sua posição constitucional e quer se tornar ou um
senhor ou um mendigo, mas tais ilusões são arranjos de Maya, a potência ilusória do
Senhor. Uma vida falsa, seja como senhor ou mendigo, acaba em frustração até que o ser
vivo recupere os sentidos e se renda ao Senhor como Seu servo eterno. Então o Senhor o
libera e salva de repetidos nascimentos e mortes. Assim o Senhor aqui também é chamado
de Bhava-lunthana-kovida, “Aquele que é perito em roubar o status-quo de repetidos
nascimento e mortes.” Um homem sensato compreende sua posição como servo eterno do
Senhor e molda sua vida de acordo.

O Senhor também é chamado de Natha, o Senhor real. Pode-se obter a perfeição da vida
somente por servir o real Senhor. A atmosfera material inteira está sobrecarregada da falsa
senhoria dos seres vivos. Os seres iludidos estão todos lutando pelo falso domínio, e assim
ninguém quer servir. Todo mundo deseja ser o senhor, mesmo embora tal posição de
senhor seja condicional e temporária. Um homem que trabalha duro pensa que é senhor de
sua família e propriedade, mas na realidade ele é um servo do desejo e o empregado da ira.
Tal serviço dos sentidos não recebe nem pensão, e nem termina, pois o desejo e a ira são
senhores que nunca ficam satisfeitos. Quanto mais se serve eles, mais serviço exigirão, e
como tal o falso domínio continua até o dia da aniquilação. Como resultado, o ser vivo
tolo é empurrado para uma vida degradada e falha em reconhecer o Senhor como
beneficiário de todas atividades, o governante do universo, e o amigo de todas entidades.
Quem conhece o Senhor real é chamado de brahmana, mas quem falha em conhecê-Lo se
chama krpana, ou avaro número-um.

O Senhor da energia criativa se chama Ananta-shayana. A energia material está


impregnada do olhar deste aspecto do Senhor e então é capaz de fazer nascer toda matéria
orgânica e inorgânica. Ananta-shayana dorme sobre o leito de Shesha Naga, que tem uma
forma como uma serpente mas é idêntica com o Senhor. Porque Ele dorme num leito de
serpente, o Senhor também é conhecido como Naga-shayana. Através de Sua energia
espiritual, Shesha Naga sustenta todos globos planetários sobre Seus capelos invisíveis.
Shesha Naga é conhecida popularmente como Shakarshana, ou “Aquilo que mantém o
equilíbrio através da lei do magnetismo.” No mundo científico este aspecto do Senhor é
referido como a lei da gravitação, porém de fato esta lei, que mantém todos planetas
flutuando no espaço, é uma das energias do Senhor. Todos os universos nascem com a
exalação do Senhor enquanto Ele Se deita sobre Shesha Naga, e todos eles são aniquilados
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com Sua inalação. Devido a estas funções de criação, manutenção, e aniquilação, o Senhor
é celebrado pelo nome Jagan-nivasa, indicando que Ele é o refúgio supremo de todos os
universos.

Há centenas de milhares de outros nomes do Senhor Vishnu, e cada um deles é tão


poderoso quanto o próprio Senhor. Pode-se instantaneamente cantar qualquer nome do
Senhor e através disso constantemente estar associado com Ele. Não existem regras duras
e rígidas para cantar Seus nomes. A qualquer hora e qualquer estágio de vida se pode
livremente cantá-los, mas somos tão desafortunados que estamos iludidos demais para até
mesmo adotar este simples processo. Isso são os modos de Maya, a energia ilusória do
Senhor. Contudo, a pessoa pode evitar seus modos simplesmente através de sempre
lembrar dos pés de lótus do Senhor. O Rei Kulasekhara ora a Mukunda, a Suprema
Personalidade de Deus, por esta facilidade.

Texto 2*

jayatu jayatu devo devaki-nandano ‘yam


jayatu jayatu krshno vrshni-vamsa-pradipah
jayatu jayatu megha-shyamalah komalango
jayatu jayatu prthvi-bhara-nasho mukundah

jayatu jayatu – todas as glórias, todas as glórias; devah – à Personalidade de Deus;


devaki-nandanah – filho de Devaki; ayam – este; jayatu jayatu – todas as glórias, todas as
glórias; krshnah – ao Senhor Krishna; vrshni - de Vrshni (antepassado de Krishna); vamsa
- da dinastia; pradipah – o farol iluminador; jayatu jayatu – todas as glórias, todas as
glórias; megha – como uma nuvem; shyamalah – que é de cor enegrecida; komala – muito
macio; angah – cujo corpo; jayatu jayatu – todas as glórias; todas as glórias; prthvi – da
terra; bhara – do fardo; nashah – ao destruidor; mukundah – Senhor Sri Krishna.

TRADUÇÃO

Todas as glórias a esta Personalidade de Deus conhecida como o filho de Srimati


Devakidevi! Todas as glórias ao Senhor Sri Krishna, a brilhante luz da dinastia
Vrishni! Todas as glórias à Personalidade de Deus, cujo matiz do corpo macio se
assemelha ao tom enegrecido de uma nuvem nova! Todas as glórias ao Senhor
Mukunda, que remove as cargas da terra!

SIGNIFICADO

O tema deste verso é que a Verdade Suprema é a Pessoa Suprema. O fato que a textura e
cor do corpo do Senhor são descritas indica que Ele é uma pessoa, pois o Brahman
impessoal não pode ter um corpo que seja macio como nada mais ou cuja cor seja
visualizada. A Personalidade de Deus apareceu como o filho de Vasudeva e Devaki porque
durante longo tempo eles realizaram severas austeridades para ter o Senhor Supremo como
filho deles. Satisfeito com a penitência e determinação deles, o Senhor concordou em se
tornar filho deles.

Pela descrição do nascimento do Senhor no Srimad-Bhagavatam, deprendemos que o


Senhor apareceu diante de Vasudeva e Devaki como Narayana, com quatro mãos. Porém
quando eles oraram a Ele para ocultar Sua divindade, o Senhor Se tornou um pequeno bebê
com duas mãos. No Bhagavad-gita (4.9) o Senhor promete que quem simplesmente
compreende os mistérios de Seu nascimento e feitos transcendentais será liberado das
garras de Maya e retornará para Deus. Portanto há um abismo de diferença entre o
nascimento de Krishna e o de uma criança comum.
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Pode-se perguntar, já que o Senhor Supremo é o pai original de todas entidades vivas,
como pode uma senhora conhecida como Devaki dar nascimento a Ele como seu filho? A
resposta é que tampouco Devaki deu nascimento a Ele quanto o horizonte oriental dá
nascimento ao sol. O sol se levanta no horizonte oriental e se põe abaixo do horizonte
ocidental, mas na verdade o sol nunca se levanta ou se põe. O sol está sempre em sua
posição fixa no céu, porém a terra está se revolvendo, e devido às diferentes posições da
terra girando, o sol parece estar surgindo ou se pondo. Da mesma maneira, o Senhor
sempre existe, mas para Seus passatempos como um ser humano Ele parece tomar
nascimento como uma criança comum.

Em Seu aspecto impessoal (Brahman) o Senhor Supremo está em todos lugares, dentro e
fora: como a Superalma (Paramatma) Ele está dentro de tudo, desde a gigantesca forma
universal até os átomos e elétrons; e como a Suprema Personalidade de Deus (Bhagavan)
Ele sustenta tudo com Suas energias (Já descrevemos este aspecto do Senhor no
significado do verso anterior, com relação ao nome Jagan-nivasa). Portanto em cada um
dos Seus três aspectos – Brahman, Paramatma, e Bhagavan – o Senhor está presente em
todos lugares no mundo material. Contudo Ele permanece reservado, à distância, ocupado
com Seus passatempos transcendentais na Sua morada suprema.

Pessoas com um fundo pobre de conhecimento não conseguem aceitar a idéia de que o
Senhor aparece em pessoa sobre a face da terra. Porque elas não estão familiarizadas com
as complicações da posição transcendental do Senhor, sempre que tais pessoas ouvem
sobre o aparecimeno do Senhor, O tomam por um ser suprahumano que nasce num corpo
material ou então uma personalidade histórica adorada como Deus sob a influência do
antropomorfismo ou zoomorfismo. Porém o Senhor não é o joguete de tais tolos. Ele é o
que é e não concorda em ser um assunto das especulações deles, as quais sempre os levam
a concluir que Sua forma impessoal é suprema. O aspecto supremo da Verdade Absoluta é
pessoal – a Suprema Personalidade de Deus. O Brahman impessoal é Sua refulgência,
assim como a luz difundida por um poderoso fogo. O fogo arde num só local mas difunde
seu calor e luz em torno, assim exibindo suas diferentes energias. Similarmente, através de
Suas variadas energias o Senhor Supremo Se expande em muitas maneiras.

Pessoas com um fundo pobre de conhecimento são cativadas por uma parte de Sua energia
e portanto falham em penetrar na fonte original da energia. Quaisquer energias espantosas
que vemos manifestas neste mundo, inclusive energias atômicas e nucleares, são todas
parte e parcela de Sua energia material, ou externa. Superior a esta energia material,
contudo, é a energia marginal do Senhor, exibida como a entidade viva. Além dessas
energias, o Senhor Supremo tem outra energia, que é conhecida como a energia interna. A
energia marginal pode tomar refúgio ou na energia interna ou na energia externa, porém na
realidade de fato ela pertence à energia interna do Senhor. As entidades vivas são,
portanto, amostras infinitesimais do Senhor Supremo. Qualitativamente a entidade viva e
o Senhor Supremo são iguais, porém quantitativamente são diferentes, por o Senhor é
ilimitadamente potente ao passo que as entidades vivas, sendo infinitesimais por natureza,
tem potência limitada.

Embora o Senhor seja pleno de todas energias e portanto auto-suficiente, Ele desfruta de
prazer transcendental por subordinar-Se a Seus devotos puros. Alguns grandes devotos do
Senhor não conseguem ultrapassar a fronteira do temor e veneração. Mas outros devotos
estão num pacto tão intenso de amor pelo Senhor que eles esquecem da posição exaltada
Dele e se consideram como Seus iguais ou mesmo Seus superiores. Estes associados
eternos do Senhor se relacionam com Ele nas posições mais elevadas de amizade,
paternidade, e amor conjugal. Devotos num relacionamento paternal transcendental com o
Senhor pensam Nele como seu filho dependente. Eles esquecem da posição exaltada Dele
11

e pensam que a não ser que O alimentem devidamente, Ele irá cair vítima da subnutrição e
Sua saúde se deteriorará. Devotos num relacionamento conjugal com o Senhor censuram-
No para corrigir Seu comportamento, e o Senhor desfruta destas reprimandas mais do que
das orações dos Vedas. Devotos comuns atados pelas formalidades dos ritos védicos não
conseguem entrar profundamente em tal serviço amoroso confidencial ao Senhor, e assim
sua realização permanece imperfeita. Às vezes eles até caem vítimas das calamidade do
impersonalismo.

Vasudeva e Devaki são devotos confidenciais do Senhor no humor do amor paterno. Ainda
maiores que eles, são Nanda e Yashoda, os pais adotivos Dele em Vrindavana. O Senhor
tem grande prazer em ser chamado de Devaki-nandana (“o filho de Devaki”), Nanda-
nandana (“o filho de Nanda”), Yashoda-nandana (“ö filho de Yashoda”), Dasarathi (“o
filho do Rei Dasaratha”), Janaki-natha (“o marido de Janaki”), e assim por diante. O
prazer que se dá ao Senhor por chamá-Lo de tais nomes é muitas, muitas vezes maior que
o prazer que Ele desfruta quando é chamado de Pai Supremo, o Maior dos Maiores,
Parameshvara, ou qualquer coisa dessa natureza, que indicam volumes de temor e
veneração. Portanto os nomes que o Rei Kulasekhara usa para glorificar o Senhor neste
verso indicam seu íntimo relacionamento transcendental com o Senhor.

Conforme explicado acima, todos os nomes do Senhor são tão poderosos quanto o próprio
Senhor, mas se pode experimentar diferentes doçuras transcendentais por cantar Seus
diferentes nomes transcendentais. Por exemplo, o shastra (escritura) declara que há mil
nomes principais do Senhor Vishnu, a Personalidade de Deus. Mas se uma pessoa
pronuncia o nome Rama apenas uma vez, recebe o resultado de cantar mil nomes de
Vishnu. E se alguém canta o nome Krishna, alcança o resultado obtido por cantar o nome
Rama três vezes. Em outras palavras, pronunciar o nome Krishna uma vez é igual a
pronunciar três mil outros nomes de Vishnu.

Portanto o Rei Kulasekhara, sabendo quão satisfeito o Senhor fica por ser chamado de
algum nome indicando Seus relacionamentos transcendentais com Seus devotos íntimos, e
sabendo também da potência do nome Krishna, escolheu glorificar o Senhor chamando-O
de Devaki-nandana e Krishna. O rei também O chama de Vrshni-vamsa-pradipa (“o
brilhante luzeiro da dinastia Vrshni”) porque milhões de gerações da dinastia Vrshni
tornaram-se santificadas através do aparecimento do Senhor dentro da mesma. Os
shastras declaram que uma família na qual nasce um devoto puro é santificada por cem
gerações de antepassados e descendentes. E os shastras também declaram que todos locais
dentro de um raio de cem milhas desde onde nasceu um devoto se tornam santificados. Se
um devoto pode santificar o local e família de seu nascimento tão extraordinariamente,
então que dizer de como o Senhor pode santificar completamente o local e família na qual
Ele escolhe tomar Seu nascimento.

O nascimento do Senhor sobre a face da terra é certamente muito misterioso, e portanto é


muito difícil para homens comuns acreditar no nascimento Dele. Como pode o todo-
poderoso Senhor tomar nascimento, aparentemente como um homem comum? O assunto é
explicado no Bhagavad-gita (4.6), onde o Senhor diz:

ajo’pi sann avyayatma bhutanam ishvaro’pi san


prakrtim svam adhishthaya sambhavamy atma-mayaya

“Embora Eu seja não-nascido e Meu corpo transcendental nunca se deteriore, e embora Eu


seja o Senhor de todas entidades vivas, através de Minha potência transcendental Eu ainda
apareço a cada milênio em Minha forma original.” Pelo shastra aprendemos que o Senhor
toma nascimento não só na família dos seres humanos mas também nas famílias de
semideuses, aquáticos, animais, e assim por diante. Se poderia argumentar que um ser
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vivo comum é eterno e não-nascido tal qual o Senhor e também toma nascimento em
diferentes espécies de vida, e portanto não há diferença entre o Senhor e um ser vivo
comum. A diferença é, no entanto, que enquanto um ser vivo comum muda seu corpo
quando transmigra de uma espécie de vida para outra, o Senhor nunca troca Seu corpo: Ele
aparece em Seu corpo original, sem qualquer mudança. Também, enquanto existe vasta
diferença entre a entidade viva comum e seu corpo, não há diferença alguma entre o
Senhor e Seu corpo porque Ele é puro espírito. Em outras palavras, não há distinção entre
Seu corpo e Sua alma.

A palavra avyayatma no verso acima do Bhagavad-gita indica claramente que o corpo do


Senhor não é feito de elementos materiais. Ele é todo espírito. Nascimento e morte se
aplicam apenas ao corpo material. O corpo do ser vivo comum é feito de elementos
materiais e portanto está sujeito a nascimento e morte. Porém o corpo do Senhor, sendo
todo espiritual e portanto eterno, nem toma nascimento e nem morre. Tampouco o Senhor
pode ser forçado a tomar nascimento em determinada família devido aos Seus atos
passados, tal como acontece com um ser vivo comum.

O Senhor é o controlador supremo dos elementos materiais, e sendo sem fim e sem
começo, Ele existe em todos tempos – passado, presente, e futuro. E porque Ele é
absoluto, Ele não tem nada a ver com vício e virtude. Em outras palavras, para Ele
“vícios” e “virtudes” são o mesmo; senão o Senhor não seria a Verdade Absoluta.

Já que o Senhor aparece através de Sua potência interna, Suas encarnações em diferentes
espécies de vida não são a criação da potência externa, Maya. Portanto aqueles que
pensam que o Senhor Supremo aparece em diferentes formas aceitando um corpo feito de
elementos materiais estão errados; a visão deles é imperfeita porque eles não compreendem
como a potência interna do Senhor opera. Os Vedas indagam aonde o Senhor Supremo
fica. E a resposta é dada imediatamente: Ele fica na Sua potência interna. Portanto a
conclusão é que embora o Senhor possa parecer que assume um corpo material quando
Ele toma nascimento, tal como um ser comum, de fato Ele não o faz, pois não há diferença
entre Ele e Seu corpo. Assim Ele permanece a Verdade Absoluta em todos Seus
aparecimentos em diferentes espécies de vida.

Em outras palavras, o ser vivo e o Senhor Supremo aparecem neste mundo material sob
diferentes circunstâncias. Pode-se entender facilmente estas diferentes circunstâncias se
compreendermos como as diferentes potências do Senhor operam. Conforme dantes
explicado, o Senhor tem três tipos de potência, ou seja, interna, marginal, e externa. Nós
temos extensa experiência da externa, ou potência material, mas em geral deixamos de
indagar sobre as ações e reações das outras duas potências. Um simples exemplo nos
ajudará a compreender como as potências do Senhor trabalham. Considere três
identidades: Deus, um homem, e um boneco. O boneco consiste de energia material, o
homem é uma combinação de energia espiritual e material, e Deus consiste completamente
de energia espiritual. O boneco é todo matéria, interna e externamente. O homem é
matéria externamente e espírito internamente. E Deus é todo espírito, tanto interna quanto
externamente. Assim como o boneco é todo matéria, Deus é todo espírito. Mas o homem
é meio espírito e meio matéria.

Portanto o corpo de Deus e o corpo de um ser vivo são de constituição diferente. Porque o
corpo do Senhor é puro espírito, ele nunca deteriora, e portanto Ele se chama avyayatma.
Seu corpo é absoluto, sem início, não nascido, e eterno, enquanto o corpo material do ser
vivo é relativo e portanto temporário – passa por nascimento e morte. O ser vivo em si, é
claro, é eterno, e se assim desejar ele pode realizar sua eternidade por meio de fundir-se no
corpo da Verdade Absoluta ou ser reintegrado em sua posição constitucional como servo
13

eterno do Senhor. Se não fizer isso, então sua eternidade ainda assim é mantida, mas ele
permanece ignorante quanto a isso.

A conclusão é que a Personalidade de Deus aparece em Seu corpo original, sem qualquer
mudança, e isso se torna possível através de Sua potência inconcebível. Nós devemos
sempre lembrar que nada é impossível para o Senhor onipotente. Se Ele assim desejar, Ele
pode transformar energia material em energia espiritual. De fato, se Ele assim desejar,
pode trazer a natureza espiritual inteira para dentro da natureza material, sem que a
natureza espiritual seja afetada pelos modos materiais de qualquer maneira.

As diferentes potências do Senhor permanecem sob controle firme Dele. De fato, o Senhor
na realidade só tem uma potência – ou seja, a potência interna – a qual Ele emprega para
diferentes propósitos. A situação é similar à maneira como se usa eletricidade. A mesma
eletricidade pode ser usada tanto para calefação como para resfriamento. Tais resultados
contraditórios são devido ao perito manuseio de um técnico. Da mesma maneira, através
de Sua suprema vontade o Senhor emprega Sua única potência interna para realizar muitos
propósitos diferentes. Essa é a informação que recebemos dos shrutis (Svetasvatara
Upanishad 6.8): parasya shaktir vividhaiva shruyate.

O presente verso do Mukunda-mala-stotra declara que a cor do corpo do Senhor é


enegrecida, tal como a de uma nuvem nova. Também, o corpo Dele é muito macio.
Maciez do corpo é um sinal de uma grande personalidade. Os shastras declaram que as
seguintes características corpóreas indicam uma grande personalidade: um brilho
avermelhado em sete lugares – os olhos, as palmas, as solas, o palato, os lábios, a língua, e
as unhas; largura em três lugares – a cintura, a testa, e o peito; três partes curtas – o
pescoço, as coxas, e os genitais; profundidade em três pontos – a voz, a inteligência, e o
umbigo; altura em cinco lugares – o nariz, os braços, as orelhas, a testa, e as coxas; e fineza
em cinco lugares – a pele, o cabelo na cabeça, os pelos corpóreos, os dentes, e as pontas
dos dedos. Todos esses aspectos estão presentes no corpo do Senhor.

O Brahma-samhita confirma que a cor do corpo do Senhor é enegrecido, como o de uma


nuvem nova. Mas essa cor enegrecida é tão bela que sobrepuja a beleza de milhões de
Cupidos. Assim essa cor enegrecida não corresponde a qualquer cor negra do mundo
material.

Tais descrições do corpo do Senhor não são imaginárias; mas sim, são as declarações
daqueles que viram o Senhor com sua visão sobrenatural. Esta visão sobrenatural é
concedida a devotos como Brahma e para àqueles que seguem os passos dos devotos puros
como ele. Mas os arrogantes e descrentes não conseguem ter qualquer acesso a esta visão
transcendental, pois eles carecem da necessária submissão à vontade do Senhor.

Texto 3*

mukunda murdhna pranipatya yace


bhavantam ekantam iyantam artham
avismrtis tvac-charanaravinde
bhave bhave me’stu bhavat-prasadat

mukunda – Ó Senhor Mukunda; murdhna – com minha cabeça; pranipatya – curvando-


me; yace – suplico respeitosamente; bhavantam – a Ti; ekantam – exclusivamente;
iyantam – este tanto; artham – desejo a ser realizado; avismrtih – libertação do
esquecimento; tvat – Teu; charana-aravinde – aos pés de lótus; bhave bhave – em cada
nascimento repetido; me – meu; astu – que haja; bhavat – Teu; prasadat – pela
misericórdia.
14

TRADUÇÃO

Ó Senhor Mukunda! Curvo minha cabeça ante Tua soberania respeitosamente e Te


peço que realizes este meu único desejo: que em cada um de meus futuros
nascimentos eu possa, pela Tua misericórdia, sempre lembrar e nunca esquecer de
Teus pés de lótus.

SIGNIFICADO

O mundo em que vivemos é um local miserável. Ele é, por assim dizer, uma prisão para a
alma espiritual. Assim como um prisioneiro não pode movimentar-se ou desfrutar da vida
plenamente, também as entidades vivas que foram condicionadas pelas leis da natureza
material não podem experimentar sua verdadeira natureza sempre jubilosa. Elas não
podem ter qualquer liberdade, porque elas tem que sofrer quatro principais misérias –
nascimento, velhice, doença, e morte. As leis da natureza material impõe esta punição às
entidades vivas que esqueceram o Senhor e que estão ocupadas fazendo planos para a
felicidade duradoura neste deserto de sofrimento.

Pela misericórdia do Senhor, o devoto puro sabe muito bem tudo isso. Na verdade, toda
sua filosofia de vida está baseada neste entendimento. Avanço em conhecimento significa
compreender a verdade nua deste mundo e não ser iludido pela beleza temporária desta
fantasmagoria.

A natureza material não é de fato bela, pois é um “pavão de imitação.” O verdadeiro pavão
é algo diferente, e deve-se ter a sensatez de compreender isso. Aqueles que estão loucos
por capturar e desfrutar do pavão de imitação, bem como aqueles que tem uma visão
pessimista do pavão de imitação mas carecem de qualquer informação positiva sobre o
verdadeiro pavão – ambos estão iludidos pelos modos da natureza material. Aqueles que
estão atrás do pavão de imitação são os trabalhadores fruitivos, e aqueles que simplesmente
condenam o pavão de imitação mas são ignorantes quanto ao pavão real são os filósofos
empíricos. Desgostosos com a miragem da felicidade no deserto material, eles procuram
fundir-se na vacuidade.

Mas um devoto puro não pertence a nenhuma destas duas classes confundidas. Sem
aspirar a desfrutar do pavão de imitação e sem condená-lo por desgosto, ele busca o
verdadeiro pavão. Assim ele é diferente do trabalhador fruitivo iludido ou do empirista
perplexo. Ele está acima dos servos da natureza material porque prefere servir o Senhor, o
soberano da natureza material. Ele busca a substância e não deseja abrir mão dela. A
substância é os pés de lótus de Mukunda, e o Rei Kulasekhara, sendo um devoto muito
inteligente, ora para obter esta substância e não a sombra.

Um devoto puro do Senhor Narayana, ou Mukunda, de todo não tem medo de qualquer
circunstância que possa lhe acontecer. Apesar de todas dificuldades, portanto, tal devoto
puro não pede nada do Senhor para si. Ele não tem nenhum temor se por acaso tem que
visitar mundos infernais, nem está ansioso para entrar no reino do céu. Para ele ambos
estes reinos são como castelos no ar. Ele não está interessado em nenhum deles, e isso é
muito bem expresso pelo Rei Kulasekhara no Texto 6.

Um devoto puro do Senhor como o Rei Kulasekhara não ora a Deus por riqueza material,
seguidores, uma bela esposa, ou qualquer destes pavões de imitação, pois ele sabe o valor
real de tais coisas. E se por circunstâncias ele é colocado numa situação onde possua tais
coisas, ele não tenta sair artificialmente dela através da condenação.
15

Srila Raghunatha dasa Goswami, um grande associado do Senhor Chaitanya, era filho de
um grande ricaço que tinha uma bela esposa e todas outras opulências. Quando primeiro
se encontrou com o Senhor Chaitanya em Panihati, um vilarejo a aproximadamente
quarenta milhas de Calcutá, Raghunatha dasa pediu permissão ao Senhor para deixar suas
conecções materiais e acompanhá-Lo. O Senhor recusou-Se a aceitar esta proposta e
instruiu Raghunatha dasa que é inútil deixar conecções materiais por sentimentalismo ou
renúncia artificial. É preciso que a coisa verdadeira seja de coração. Se nos encontramos
enredados em conecções mundanas, devemos nos comportar externamente como homens
mundanos mas permanecer internamente fiéis à realização espiritual. Isso irá nos ajudar na
marcha progressiva da vida. Ninguém pode atravessar o grande oceano num salto súbito.
O que foi possível para Hanuman pela graça do Senhor Rama não é possível para um
homem comum. Assim para atravessar o oceano da ilusão se deve cultivar pacientemente
devoção ao Senhor, e desta maneira se poderá gradualmente alcançar o outro lado.

Embora um devoto puro não se preocupe pelo que irá acontecer a seguir em sua situação
material, ele está sempre alerta para não esquecer sua meta final. O Rei Kulasekhara
portanto ora para que ele possa não esquecer dos pés de lótus do Senhor em tempo algum.

Esquecer nosso relacionamento com o Senhor e assim permanecer subjugado por anseios
materiais é o modo de vida mais condenado. É exatamente esta a natureza da vida animal.
Quando a entidade viva nasce numa espécie de animais inferiores, esquece completamente
seu relacionamento com o Senhor e portanto permanece sempre ocupada com os assuntos
de comer, dormir, temer, e acasalar-se. A civilização moderna promove tal vida de
esquecimento, com uma condição econômica melhorada na alimentação e assim por
diante. Vários agentes da energia externa fazem propaganda explícita para tentar erradicar
a própria semente da consciência divina. Mas isso é impossível de fazer, porque embora as
circunstâncias possam sufocar a consciência divina de um ser vivo por enquanto, esta não
pode ser morta. Em sua identidade original a entidade viva é indestrutível, assim como
também suas qualidades espirituais originais. Não se pode matar nem a alma espiritual e
nem suas qualidades espirituais. Lembrar do Senhor e desejar serví-Lo são as qualidades
espirituais da alma espiritual. Pode-se restringir estas qualidades espirituais por meios
artificiais, porém elas serão refletidas de maneira pervertida no espelho da existência
material. A qualidade espiritual de servir o Senhor por afinidade transcendental irá se
refletir pervertidamente como amor pelo vinho, mulheres, e riqueza em diferentes formas.
O assim-chamado amor pelas coisas materiais – simplesmente é um reflexo pervertido do
amor por Deus adormecido em cada alma. A posição do Rei Kulasekhara portanto é a
posição de uma alma liberada, porque ele não quer permitir que seu genuíno amor por
Deus se torne degradado no assim-chamado amor pelas coisas materiais.

As palavras bhave bhave aqui são muito significativas. Elas significam “nascimento após
nascimento.” Diferente dos jñanis, que aspiram fundir-se com o Absoluto impessoal e
através disso parar o processo de tomar nascimento repeditamente, um devoto puro nunca
tem medo deste processo. No Bhagavad-gita (4.9) o Senhor Krishna diz que Seu
nascimento e feitos são todos divyam, transcendentais. No mesmo capítulo (4.5) o Senhor
diz que ambos, Ele e Arjuna, tiveram muitos, muitos nascimentos, mas enquanto que o
Senhor lembra de todos eles, Arjuna não o consegue. Para o Senhor não há diferença entre
passado, presente, e futuro, mas para o ser vivo que esqueceu do Senhor tem uma
diferença, devido a estar esquecido do passado e ignorar o futuro. Mas uma entidade viva
que sempre lembra do Senhor e assim é Sua constante companheira, está situada
transcendentalmente assim como o próprio Senhor. Para tal devoto o nascimento e a morte
são uma e mesma coisa, porque ele sabe que tais ocorrências são instantes efêmeros que
não afetam sua existência espiritual.
16

Podemos usar um exemplo grosseiro para ilustrar a diferença entre a morte de um devoto e
a morte de um homem comum. Na boca da gata ela captura tanto a sua prole quanto sua
presa, o rato. Tais capturas poderão parecer idênticas, mas existe uma vasta diferença entre
elas. Enquanto o rato está sendo carregado na boca da gata, a sensação que ele tem está
bem longe da que a prole da gata sente. Para o rato a captura é um golpe mortal doloroso,
enquanto que para a prole é uma carícia prazerosa.

Similarmente, a morte de um homem comum é vastamente diferente de quando um devoto


faz a passagem, deixando a cena ativa da existência material. A morte de um homem
comum ocorre contra um pano de fundo dos seus atos passados bons e maus, os quais
determinam seu próximo nascimento. Mas para um devoto o caso é diferente. Mesmo se
o devoto tiver falhado em aperfeiçoar seu serviço devocional, ele tem garantido que
nascerá numa boa família – uma família de brahmanas sábios e devotados ou uma família
de ricos vaishyas (comerciantes). Uma pessoa que toma nascimento em tal família tem
boa chance de praticar serviço devocional e melhorar sua condição espiritual.

Infelizmente, nesta era do ferro os membros das famílias bem de vida em geral usam mal
sua riqueza. Em vez de melhorarem sua condição espiritual, são desorientados pela
associação imprópria e caem vítimas da sensualidade. Para ser salvo desta associação
imprópria, o Rei Kulasekhara ora fervorosamente ao Senhor para que jamais possa se
esquecer de Seus pés de lótus em qualquer futuro nascimento. Um devoto que aperfeiçoa
seu serviço devocional certamente retorna a Deus sem nenhuma dúvida, portanto para ele
não há questão de nascimento ou morte. E, conforme mencionado acima, um devoto que
não obtém perfeição completa tem garantido o nascimento numa família sábia e bem de
vida. Mas mesmo se um devoto não conseguir a vantagem de bons pais, ele pode obter a
benção de sempre lembrar dos pés de lótus do Senhor, isso é maior que qualquer
quantidade de bens materiais. Lembrança constante do nome do Senhor, fama, qualidades
e assim por diante, automaticamente anula as reações de todos vícios e invoca as bençãos
do Senhor. Esta constante lembrança dos pés de lótus do Senhor é possível somente
quando nos ocupamos no Seu serviço ativo.

Um devoto puro portanto nunca pede ao Senhor riqueza, seguidores, ou mesmo uma bela
esposa. Ele simplesmente ora por ocupar-se ininterruptamente no serviço do Senhor. Esse
deve ser o lema de vida para todos futuros estudantes do serviço devocional.

Texto 4

naham vande tava charanayor dvandvam advandva-hetoh


kumbhipakam gurum api hare narakam napanetum
ramya-rama-mdru-tanu-lata nandane napi rantum
bhave bhave hrdaya-bhavane bhavayeyam bhavantam

na – não; aham – eu; vande – oro; tava – Teus; charanayoh – dos pés de lótus; dvandvam
– ao par; advandva – da liberação da dualidade; hetoh – pela razão; kumbhipakam – o
planeta do óleo fervente; gurum – mais severo; api – tampouco; hare - ó Hari; narakam –
inferno; na – não; apanetum – para evitar; ramya – muito bela; rama – do belo sexo; mdru
– macio; tanu-lata – de corpos como trepadeiras; nandane – nos jardins das delícias do
céu; na api – tampouco; rantum – para desfrutar; bhave bhave – em vários renascimentos;
hrdaya – do meu coração; bhavane – dentro da casa; bhavayeyam – possa eu me
concentrar; bhavantam – em Ti.
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TRADUÇÃO

Ó Senhor Hari, não é para ser salvo das dualidades da existência material ou das
terríveis tribulações do inferno Kumbhipaka que oro a Teus pés de lótus. Nem é meu
propósito desfrutar das lindas mulheres de pele macia que residem nos jardins do
céu. Oro a Teus pés de lótus somente para que possa lembrar de Ti apenas no âmago
de meu coração, nascimento após nascimento.

SIGNIFICADO

Existem duas classes de homens: os ateístas e os teístas. Os ateístas não tem fé na


Suprema Personalidade de Deus, enquanto os teístas tem vários graus de fé Nele.

Os ateístas são destituídos de fé devido aos muitas más ações em suas vidas presentes e
passadas. Eles caem em quatro categorias: (1) os materialistas grosseiros; (2) os
pecadores imorais; (3) os tolos número-um; e (4) aqueles que estão confundidos por maya
apesar de sua erudição mundana. Ninguém destas quatro classes de ateístas jamais acredita
na Suprema Personalidade de Deus, sem falar em oferecer orações aos pés de lótus Dele.

Os teístas, por outro lado, tem fé no Senhor e oram a Ele com vários motivos. Obtém-se
tal vida teísta não por acaso mas como resultado de realizar muitos atos piedosos tanto na
vida atual e na vida passada. Tais homens piedosos também pertencem a quatro categorias:
(1) os necessitados; (2) aqueles que caíram em dificuldades; (3) aqueles que são
inquisitivos quanto à ciência transcendental; e (4) os filósofos genuínos. Os filósofos e
aqueles que são indagadores são melhores que os das categorias (1) e (2). Mas um devoto
puro está bem acima destas quatro classes de homens piedosos, pois ele está na posição
transcendental.

O homem piedoso necessitado ora a Deus por um melhor padrão de vida, e o homem
piedoso que caiu em dificuldades materiais ora a fim de livrar-se de seus problemas. Mas
o homem inquisitivo e o filósofo não oram a Deus pela melhora dos problemas mundanos.
Eles oram pela capacidade de conhecê-Lo como Ele é, e eles tentam alcançá-Lo através da
ciência e da lógica. Tais homens piedosos em geral são conhecidos como teosofistas.

Homens piedosos necessitados oram a Deus para melhorar sua condição econômica porque
tudo que conhecem é a gratificação sensorial, ao passo que aqueles em dificuldades pedem
a Ele para livrá-los da vida infernal de tribulações. Tais pessoas ignorantes não conhecem
o valor da vida humana. Esta vida destina-se a preparar a pessoa para retornar ao mundo
absoluto, o reino de Deus.

Um devoto puro não é nem um homem necessitado, um homem que caiu em dificuldades,
nem um filósofo empírico que tenta se aproximar da Divindade por força de seu próprio
conhecimento imperfeito. Um devoto puro recebe conhecimento da Divindade a partir da
fonte certa – a sucessão discipular de almas realizadas que seguiram estritamente o método
disciplinar do serviço devocional sob a guia dos mestres espirituais fidedignos. Não é
possível conhecer a natureza transcendental da Divindade por meio da nossa percepção
sensorial imperfeita, porém a Divindade Se revela a um devoto puro na proporção do
serviço transcendental prestado a Ele.

O Rei Kulasekhara é um devoto puro, e como tal ele não está ansioso por melhorar a si
mesmo pelos padrões dos filósofos empíricos, homens aflitos, ou trabalhadores fruitivos
deste mundo. Atos piedosos poderão levar uma criatura mundana rumo à senda da
realização espiritual, mas atividade prática no domínio do serviço devocional ao Senhor
não precisa esperar pelas reações aos atos piedosos. Um devoto puro não pensa em termos
18

de seu ganho ou perda pessoal porque ele está plenamente rendido ao Senhor. Ele está
interessado somente no serviço do Senhor e sempre se ocupa nesse serviço, e por esta
razão seu coração é a casa do Senhor. O Senhor sendo absoluto, não existe diferença entre
Ele e Seu serviço. O coração de um devoto puro está sempre repleto de idéias sobre
executar o serviço do Senhor, que é concedido ao devoto puro através da transparente
mediação do mestre espiritual.

O mestre espiritual na linhagem autorizada da sucessão discipular é o “filho de Deus,” ou


em outras palavras o representante fidedigno do Senhor. A prova de que ele é fidedigno é
sua fé invencível no Senhor, que lhe protege da calamidade do impersonalismo. Um
impersonalista não pode ser um mestre espiritual fidedigno, pois a única meta de vida de
tal mestre espiritual deve ser prestar serviço ao Senhor. Ele prega a mensagem de Deus
como o agente nomeado pelo Senhor e não tem nada a ver com gratificação sensorial ou as
discussões mundanas dos impersonalistas. Ninguém consegue prestar serviço devocional a
uma entidade impessoal porque tal serviço implica num relacionamento pessoal recíproco
entre o servo e o senhor. Na escola impessoal o assim-chamado devoto supostamente se
funde com o Senhor e perde sua existência separada.

Devotos puros como o Rei Kulasekhara são particularmente cuidadosos para evitar um
processo que irá acabar com eles se tornando unos com a existência do Senhor, um estado
conhecido como advandva, não-dualidade. Isto é simplesmente suicídio espiritual. Dentre
os cinco tipos de salvação, advandva é a mais abominável para um devoto. Um devoto
puro denuncia tal unidade com o Senhor como sendo pior que ir para o inferno.

Como Suas expansões separadas, as entidades vivas são partes e parcelas do Senhor. O
Senhor Se expande em partes plenárias e partes separadas para desfrutar de passatempos
transcendentais, e se um ser vivo se recusa a ocupar-se nestes bem-aventurados
passatempos transcendentais, está livre para fundir-se no Absoluto. Isto é algo como um
filho cometer suicídio em vez de viver com seu pai conforme as regras que o pai
determina. Ao cometer suicídio, o filho assim sacrifica a felicidade que poderia ter gozado
ao ocupar-se num relacionamento filial com seu pai e desfrutar do legado de seu pai. Um
devoto puro evita persistentemente tal política criminosa, e o Rei Kulasekhara está nos
guiando para evitar esta armadilha.

O rei também diz que a razão pela qual está orando ao Senhor não é para ser salvo do
inferno Kumbhipaka. Operários em gigantescas usinas metalúrgicas sofrem tribulações
similares àquelas no inferno Kumbhipaka. Kumbhi significa “pote,” e paka significa
“fervente.” Assim se uma pessoa fosse posta num pote de óleo e tal pote fosse colocado
para ferver, ela teria alguma idéia do sofrimento no inferno Kumbhipaka.

Há inúmeras ocupações infernais na moderna assim-chamada civilização, e pela graça da


energia ilusória do Senhor, as pessoas pensam que estas ocupações infernais são uma
grande fortuna. Fábricas industriais modernas plenamente equipadas com máquinas
atualizadas são uns tantos infernos Kumbhipaka, e os organizadores de tais
empreendimentos os consideram indispensáveis para o avanço do bem-estar econômico. A
massa de operários explorados pelos organizadores experimentam diretamente as
condições de “bem-estar” nestas fábricas, mas o que os organizadores desconhecem é que
pela lei do karma, eles no devido tempo haverão de se tornar operários em infernos
Kumbhipaka similares.

Pessoas inteligentes certamente querem ser salvas de tais infernos Kumbhipaka, e elas
oram a Deus por esta benção. Mas um devoto puro não ora desta maneira. Um devoto
puro de Narayana olha com equanimidade para a felicidade gozada no céu, a bem-
aventurança de tornar-se uno com o Senhor, e as tribulações experimentadas no inferno
19

Kumbhipaka. Ele não está interessado em nenhum deles porque está sempre ocupado no
transcendental serviço amoroso do Senhor. Pela graça do Senhor, mesmo no inferno
Kumbhipaka um devoto puro consegue ajustar a situação e transformá-la em Vaikuntha.

O Bhagavad-gita e todas outras escrituras reveladas dizem que o Senhor acompanha cada
ser vivo em Seu aspecto localizado de Paramatma, a Superalma. Portanto mesmo um ser
vivo destinado a residir no inferno Kumbhipaka está acompanhado de seu companheiro
eterno, o Senhor. Mas por seu inconcebível poder o Senhor permanece acima destas
circunstâncias infernais, assim como o céu permanece separado do ar embora
aparentemente misturado com o mesmo.

Similarmente, o devoto puro do Senhor não vive nalgum lugar deste mundo material,
embora Ele pareça viver entre criaturas mundanas. Na realidade, o devoto vive em
Vaikuntha. Desta maneira o Senhor Supremo concede a Seu devoto puro o inconcebível
poder que lhe permite permanecer acima de todas circunstâncias mundanas e residir
eternamente no mundo espiritual. O devoto não quer este poder consciente ou
inconscientemente, porém o Senhor tem cuidado com Seu devoto, assim como uma mãe
sempre cuida de sua pequena criança, que é completamente dependente dos cuidados dela.

Um devoto puro como o Rei Kulasekhara recusa-se a associar-se com lindas mulheres de
pele macia. Há diferentes classes de mulheres em diferentes planetas no universo. Mesmo
na terra há diferentes tipos de mulheres que estão sendo desfrutadas por diferentes tipos de
homens. Mas nos planetas superiores há mulheres muitos e muitos milhões de vezes mais
belas que as mulheres neste planeta, e também há muitas moradas prazerosas onde elas
podem ser desfrutadas. A melhor dentre estas é a dos Jardins Nandana em Svargaloka.
Nos Jardins Nandana – um “Jardim do Éden” – aqueles que são qualificados podem
desfrutar de variedades de belas mulheres chamadas Apsaras. Os semideuses em geral
desfrutam da companhia das Apsaras da mesma maneira que os grandes reis Moguls e
nawabs desfrutavam de seus haréns. Mas estes reis e nababos são como palha perante os
semideuses de Svargaloka, que fica no terceiro estrato do universo.

A tendência interna de desfrutar está no âmago do coração de cada ser vivo. Mas no estado
doentio da existência material o ser vivo usa mal esta tendência. Quanto mais ele aumenta
este estado doentio, condicionado, mais ele estende seu período de existência material. Os
shastras aconselham, portanto, que uma entidade viva deve aceitar somente aqueles
objetos para os sentidos desfrutarem, necessários à manutenção do corpo material e rejeitar
aqueles que são apenas para gratificação sensorial. Desta maneira será reduzida a
tendência ao desfrute sensorial. Esta restrição não pode ser imposta à força; tem que ser
voluntária.

Tal restrição se desenvolve automaticamente no processo de se executar serviço


devocional. Assim quem já está ocupado em serviço devocional não precisa restringir seus
sentidos artificialmente. Um devoto puro como o Rei Kulasekhara, portanto, nem deseja o
desfrute sensorial nem se esforça para restringir seus sentidos; ou melhor, ele apenas tenta
ocupar-se no transcendental serviço amoroso do Senhor, sem qualquer interrupção.

Texto 5

nastha dharme na vasu-nicaye naiva kamopabhoge


yad bhavyam tad bhavatu bhagavan purva-karmanurupam
etat prarthyam mama bahu matam janma-janmantare’pi
tvat-padamboruha-yuga-gata nishcala bhaktir astu
20

na – não; astha – consideração especial; dharme – pela religiosidade; na – nem; vasu – da


riqueza; nicaye - pela acumulação; na eva – nem mesmo; kama-upabhoge - para desfrute
dos sentidos; yat – qualquer; bhavyam – inevitável; tat – aquele; bhavatu – que aconteça;
bhagavan – ó Senhor; purva – prévio; karma – meus atos; anurupam – segundo; etat –
este; prarthyam – ser solicitado; mama – por mim; bahu matam – muito desejável; janma-
janma – nascimento após nascimento; antare – durante; api – mesmo; tvat – Teu; pada-
amboruha – dos pés de lótus; yuga – no par; gata – descansando; nishcala – indemovível;
bhaktih – devoção; astu – que possa haver.

TRADUÇÃO

Ó meu Senhor! Não tenho nenhum apego pela religiosidade, ou pelo acúmulo de
bens, nem por desfrutar da gratificação dos sentidos. Que estas venham conforme
inevitavelmente tiverem que vir, de acordo com meus atos passados. Mas oro sim,
por esta mais almejada benção: permita que nascimento após nascimento, eu possa
prestar serviço devocional resoluto a Teus dois pés de lótus.

SIGNIFICADO

Seres humanos avançam rumo à consciência de Deus quando eles ultrapassam o modo de
vida materialista grosseira de comer, dormir, temer, e acasalar-se e começam a desenvolver
princípios morais e éticos. Estes princípios se desenvolvem ainda mais transformando-se
na consciência religiosa, levando a uma concepção imaginária de Deus sem qualquer
realização prática da verdade. Estes estágios da consciência de Deus são chamados de
religiosidade, que promete prosperidade material de vários graus.

Pessoas que desenvolvem esta concepção da religiosidade realizam sacrifícios, dão


caridade, e submetem-se a diferentes tipos de austeridade e penitência, tudo com vistas a
serem recompensadas com prosperidade material. A meta final das assim-chamadas
pessoas religiosas é a gratificação sensorial de vários tipos. Para a gratificação dos
sentidos, é necessária a prosperidade material, e portanto elas realizam rituais religiosos
visando o nome, fama e ganho materiais resultantes.

Mas a religião genuína é diferente. Em sânscrito tal religião genuína é chamada dharma,
que significa “a qualidade essencial do ser vivo.” Os shastras dizem que essa qualidade
essencial é de prestar serviço eterno, e o objeto apropriado deste serviço é a Suprema
Verdade, o Senhor Krishna, a Absoluta Personalidade de Deus. Este serviço eterno,
transcendental do Senhor é mal direcionado sob as condições materiais e toma a forma de
(1) religiosidade mencionada anteriormente; (2) desenvolvimento econômico; (3)
gratificação dos sentidos; e (4 ) salvação, ou a tentativa de negar toda variedade material
por frustração.

Religião genuína, entretanto, não culmina nem no desenvolvimento econômico,


gratificação dos sentidos, ou salvação. A perfeição da religião é de alcançar a completa
satisfação da alma espiritual, e isto é conseguido através de se prestar serviço devocional
ao Senhor, que está além da percepção dos sentidos materiais. Quando o ser vivo direciona
sua atitude de serviço eterno para o Ser Supremo, tal serviço nunca pode ser atrapalhado
por qualquer tipo de impedimento material. Tal serviço transcendental está acima até
mesmo da salvação, e portanto certamente não visa qualquer tipo de recompensa material
na forma de nome, fama ou ganho.

Quem se ocupa no transcendental serviço amoroso do Ser Supremo automaticamente


obtém desapego do nome, fama, e ganho material, almejados somente por aqueles que não
comprendem que esse nome, fama e ganho são meramente sombras da coisa verdadeira.
21

Nome, fama e ganho material são apenas reflexos pervertidos da substância – o nome,
fama, e opulências do Senhor. Portanto o devoto puro do Senhor Vasudeva, esclarecido
pela transcendental atitude de serviço, não tem atração por tais coisas falsas como
religiosidade, desenvolvimento econômico, gratificação dos sentidos, ou salvação, a última
armadilha de Maya.

O propósito de realizar a verdadeira religião é obter o apego por ouvir e cantar as


mensagens do reino de Deus. Pessoas materialistas são apegadas a jornais comuns devido
a sua falta de consciência espiritual. Verdadeira religião desenvolve essa consciência
espiritual e também apego pelas mensagens de Deus, sem o que todo esforço na realização
de ritos religiosos é apenas um desperdício de energia.

Portanto não se deve praticar religião visando melhorar o próprio bem-estar econômico,
nem se deve usar a própria riqueza para gratificação dos sentidos, e a frustração de nossos
planos de gratificação sensorial tampouco deve levar-nos a aspirar pela salvação, ou
liberação das condições materiais. Em vez de com o fruto de nosso trabalho entregarmo-
nos à gratificação dos sentidos em diferentes graus, devemos trabalhar apenas para manter
o corpo e a alma juntos, visando indagar sobre as metas e objetivos finais da vida. Em
outras palavras, deve-se indagar sobre a Verdade Absoluta.

A Verdade Absoluta é realizada em três fases, ou seja, o Brahman impessoal, o Paramatma


localizado, e a Suprema Personalidade de Deus. Uma pessoa que alcança o mais elevado
estágio de realização espiritual – realização da Suprema Personalidade de Deus –
automaticamente ora como o Rei Kulasekhara o faz aqui.

Somente quem presta serviço devocional ao Senhor pode obter este estágio de indiferença
ãs posses falsas e temporárias da natureza material. Tal serviço devocional não é uma
invenção mental de pessoas depravadas mas um verdadeiro processo de realização de Deus
caracterizado pelo pleno conhecimento e desapego, e baseado na literatura védica. As
assim-chamadas práticas devocionais que não dizem respeito às regras e regulações
determinadas em tais livros de literatura védica como o shruti, o smrti, os Puranas, e os
Pañcaratras não são fidedignas. As almas auto-realizadas nos aconselham a rejeitar tais
práticas pseudo-devocionais, que simplesmente criam distúrbio na senda da realização
espiritual. Somente por ocuparmo-nos sinceramente no serviço do Senhor conforme as
injunções da escritura é que podemos gradualmente nos tornar devotos qualificados do
Senhor, e não importa se levará muitas repetições de nascimento e morte, vida após vida.

Texto 6

divi va bhuvi va mamastu vaso


narake va narakantaka prakamam
avadhirita-sharadaravindau
charanau te marane ‘pi cintayami

divi – na morada dos semideuses; va – ou; bhuvi – na terra, o lar dos seres humanos; va –
ou; mama – meu; astu – pode ser; vasah – residência; narake – no inferno; va – ou;
naraka-antaka – ó matador do demônio Naraka; prakamam – conforme desejares;
avadhirita – que desafiaram; sharada – da estação do outono; aravindau – as flores de
lótus; charanau – os dois pés; te – Teus; marane – na hora da morte; api – mesmo;
cintayami – possa eu lembrar.
22

TRADUÇÃO

Ó Senhor, matador do demônio Naraka! Que eu resida seja no reino dos semideuses,
no mundo dos seres humanos, ou no inferno, conforme Te aprouver. Só oro para que
na hora da morte eu possa lembrar de Teus dois pés de lótus, cuja beleza desafia
aquela do lótus que cresce na estação Sarat.

SIGNIFICADO

Conforme declarado anteriormente, um devoto puro do Senhor não tem nada que ver com
a religiosidade mundana, desenvolvimento econômico, gratificação sensorial, ou salvação,
tampouco ele se interessa pelo fato de seu padrão de existência material ser o mais alto ou
o mais baixo. Para ele, o céu e o inferno são de igual valor. Ele não tem medo de ir para o
inferno pelo serviço do Senhor, nem fica contente em viver no céu sem o serviço do
Senhor. Em qualquer circunstância sua consciência está fixa nos pés de lótus do Senhor,
cuja beleza desafia a mais bela flor de lótus do mundo mundano.

O desafio é devido à posição transcendental da forma, nome, qualidades, passatempos, e


assim por diante do Senhor. Os shruti mantras declaram que embora o Senhor não tenha
mãos Ele pode aceitar qualquer coisa que oferecermos a Ele com devoção; embora Ele não
tenha pés Ele pode viajar a qualquer lugar, e embora Ele não tenha olhos mundanos Ele
pode enxergar todo e qualquer lugar sem impedimentos. O Brahma-samhita descreve cada
um de Seus sentidos como onipotente. O olho mundano pode ver mas não ouvir, mas Seus
olhos podem ver, ouvir, comer, gerar prole, e assim por diante. Os shruti mantras dizem
que Ele impregna a natureza material com as sementes de seres vivos simplesmente por
lançar Seu olhar sobre ela. Ele não precisa de qualquer outro inter-relacionamento com a
mãe natureza para conceber os seres vivos no ventre dela e Se tornar pai deles.

Portanto qualquer relacionamento que o Senhor tem com Seus muitos devotos – seja de
paternidade, filial, ou qualquer outro – não é nada material. O Senhor é puro espírito, e
somente quando o ser vivo está em seu estado espiritual puro é que podemos ter toda sorte
de relacionamentos com Ele. Filósofos com exíguo fundo de conhecimento não
conseguem conceber estes relacionamentos espirituais positivos entre o Senhor e os seres
vivos completamente espirituais, e assim eles simplesmente pensam em termos de negar
relacionamentos materiais. Desta maneira tais filósofos naturalmente adotam o conceito
do impersonalismo.

Por contraste, um devoto puro como o Rei Kulasekhara tem completo conhecimento tanto
da matéria quanto do espírito. Ele não fala que tudo material é falso, contudo ele não tem
nada a ver com qualquer coisa material, desde o céu até o inferno. Ele compreende
plenamente a declaração no Bhagavad-gita de que a partir dos planetas mais baixos até
Brahmaloka, o mais elevado planeta no universo, não há bem-aventurança espiritual, pela
qual anseiam os seres vivos. Portanto o devoto puro, estando em pleno conhecimento da
vida espiritual, simultaneamente rejeita relacionamentos materiais e cultiva seu
relacionamento espiritual com o Senhor. Em outras palavras, o conhecimento espiritual
que um devoto possui não só lhe permite rejeitar a existência material, mas também lhe
proporciona uma compreensão da realidade da existência espiritual, positiva, eterna. Esta é
a compreensão que o Rei Kulasekhara expressa nesta oração.

Texto 7
chintayami harim eva santatam
manda-hasa-muditananambujam
nanda-gopa-tanayam parat param
naradadi-muni-vrnda-vanditam
23

chintayami – eu penso; harim – no Senhor Hari; eva – de fato; santatam – sempre; manda
– suave, meigo; hasa – com um sorriso; mudita – alegre; anana-ambujam – cujo rosto de
lótus; nanda-gopa – do pastor de vacas Nanda; tanayam – o filho; parat param – a
Suprema Verdade Absoluta; narada-adi – começando com Narada; muni-vrnda – por todos
os sábios; vanditam – adorada.

TRADUÇÃO

Sempre penso no Senhor Hari, cujo alegre rosto de lótus porta um suave sorriso.
Embora Ele seja o filho do pastor de vacas Nanda, Ele também é a Suprema Verdade
Absoluta adorada pelos grandes sábios como Narada.

SIGNIFICADO

Conforme o Rei Kulasekhara pensa no Senhor e lembra de Sua felicidade, o rei também se
torna feliz. O Senhor Krishna está eternamente feliz, mas a alma condicionada geralmente
está infeliz. Quando vivemos no esquecimento de nossa natureza espiritual, mesmo nossa
assim-chamada bem-aventurança é ilusão – ela é insatisfatória, prazer vacilante (chapala-
sukha). O poeta Govinda dasa expressa isto em sua canção Bhajhum re mana: “Que
garantia há em todos nossos bens, juventude, filhos e membros familiares? Esta vida está
se inclinando para baixo tal como uma gota d’água numa pétala de lótus. Portanto deves
sempre servir os divinos pés do Senhor Hari.”

Outro poeta Vaisnava, Narottama dasa Thakura, expressou a felicidade do Supremo numa
canção dirigida ao Senhor Chaitanya e Senhor Nityananda: ha ha prabhu nityananda
premananda-sukhi krpa-balo-kana koro ami bado duhkhi: “Meu querido Senhor
Nityananda, estás sempre jubilante em êxtase espiritual. Como sempre aparentas estar mui
feliz, vim a Ti porque estou muito infeliz. Se bondosamente lançardes Teu olhar sobre
mim, poderei também tornar-me feliz.”

Nesta oração o Rei Kulasekhara revela-se como estando no estágio de amor espontâneo
por Deus, no qual o devoto vai além das meras cerimônias formais e recitações rituais e
pensa sempre no Senhor Hari. Este é o verdadeiro padrão de felicidade no serviço
devocional. Tal constante lembrança do Senhor é possível através do constante cantar do
nome Dele. Conforme o Senhor Chaitanya recomenda em Seu Shikshastaka (3),
kirtaniyah sada harih: “Deve-se sempre cantar o santo nome do Senhor.” Dessa maneira
sempre se estará feliz na alegria do Senhor Krishna. A felicidade do Senhor está sempre
aumentando, tal como um oceano sempre se expandindo (anandambudhi-vardhanam), e a
entidade viva destina-se a viver nesse oceano porque sua natureza original é de ser sempre
bem-aventurada em contato com o Senhor.

O Rei Kulasekhara alude ainda à ilimitada felicidade da consciência de Krishna quando ele
descreve o Senhor Krishna como o filho de Nanda Gopa. Krishna é o Senhor de Vaikuntha,
e Ele Se expande como o chatur-vyuha, como os purusha-avataras, e como muitas outras
formas. Mas Sua forma original é de um pastorzinho de vacas em Goloka Vrindavana. Ele
veio para Vrindavana-dhama dentro desse mundo para reciprocar trocas amorosas com
Seus devotos puros aqui, que desejavam ser Seus amigos, pais e amantes. Eles cultivavam
o desejo de servir o Senhor de maneiras íntimas, e finalmente o realizaram depois que,
como diz Srila Prabhupada em seu Krishna book, “acumularam montes de atividades
piedosas.” Em outras palavras, depois que haviam aperfeiçoado sua devoção amorosa pelo
Senhor através de muitas vidas de serviço, Ele apareceu em pessoa para reciprocar com
eles no humor específico deles.
24

Krishna desfrutava de fazer papel de filho de Nanda. Por exemplo, Krishna às vezes
deleitava Seus pais carregando os tamancos de madeira do pai Dele na Sua cabeça,
igualzinho a uma criança comum. E Krishna também desfrutava de Seus magníficos
passatempos em Dvaraka, onde Ele vivia em opulência inigualável em 16.108 palácios
com número igual de rainhas. Narada uma vez visitou o Senhor em Dvaraka e viu-O
ocupando-Se em vários passatempos em Seus muitos palácios. Na ocasião Narada ficou
atarantado e descreveu-O como a fonte de todas opulências.

Não há nenhuma contradição entre os passatempos encantadoramente doces no simples


vilarejo de Vrindavana e Seus passatempos magnificamente opulentos em Dvaraka. Todos
os passatempos do Senhor são oceanos de felicidade. E o devoto que consegue sempre
pensar no Senhor realizando qualquer de Seus múltiplos passatempos, mergulha nesse
oceano. Mesmo dentro deste mundo, quem sempre pensa no Senhor irá esquecer todas
misérias materiais e entrar na morada espiritual.

Texto 8

kara-charana-saroje kantiman-netra-mine
shrama-musi bhuja-vici-vyakule ‘gadha-marge
hari-sarasi vigahyapiya tejo-jalaugham
bhava-maru-parikhinnah klesham adya tyajami

kara – mãos; charana – e pés; saroje – cujos lótus; kanti-mat – brilhando; netra – olhos;
mine - cujos peixes; shrama – exaustão; musi – roubando; bhuja – de braços; vici – por
ondas; vyakule – agitado; agadha – incomensurável; marge – cujo movimento; hari – do
Senhor Hari; sarasi – no lago; vigahya – por mergulhar; apiya - bebendo plenamente;
tejah – do esplendor Dele; jala – da água; ogham – a inundação; bhava – da existência
material; maru – no deserto; parikhinnah – esgotado; klesham – sofrimento; adya – hoje;
tyajami – irei abandonar.

TRADUÇÃO

O deserto da existência material me esgotou. Mas hoje irei deixar de lado todos
problemas, mergulhando no lago do Senhor Hari e bebendo livremente das
abundantes águas de Seu esplendor. Os lótus naquele lago são as mãos e pés Dele, e
os peixes são Seus brilhantes olhos resplandescentes. A água daquele lago alivia toda
fadiga e é agitada pelas ondas que os braços Dele criam. Sua corrente corre
profunda, além da medida.

SIGNIFICADO

Nessa oração o Rei Kulasekhara emprega uma metáfora elaborada, comparando a forma
completamente atrativa do Senhor a um lago rejuvenescedor. Se um devoto mergulha para
dentro desse lago e bebe de suas águas, toda sua exaustão devido à vida material irá
embora. Simplesmente temos que mergulhar nesse serviço devocional ouvindo sobre
Krishna, cantando as glórias Dele, e lembrando Dele. Porque todos nós não o fazemos? É
a ilusão que nos faz pensar que não existe alívio aqui, ou que o lago é uma miragem. Ou,
por tolo apego às atividades materiais, poderemos pensar que é irresponsável mergulhar
nesse oceano de prazer que é consciência de Krishna. “Onde está esse lago?” pensamos.
“De bom grado eu pularia nele se o pudesse encontrar. Mas soa como a lendária fonte da
juventude.”

Quando mostramos aos não-devotos a forma do Senhor e os convidamos a serví-Lo, eles se


recusam. Pensam que Ele é apenas um homem comum ou uma figura física. Mas existe
25

um “lago do Senhor Hari,” e tem aquáticos brincando nele – os devotos puros do Senhor,
que não tem preocupações ou ira ou luxúria. Eles mergulharam dentro desse lago e estão
livres de toda exaustão material. No corpo, mente e espírito nós ficamos cansados, mas as
águas deste lago aliviam toda nossa fadiga.

Em outras partes da literatura védica ouvimos sobre lagos tais como o Bindu-sarovara,
onde Devahuti foi revivificada e se tornou novamente bela após suas longas austeridades.
Mas o efeito de imergir-se no lago do Senhor Hari não é recobrar a juventude, que dentro
em breve novamente se esgotaria. É o alívio eterno do samsara, a repetição do nascimento
e morte.

Poderemos obter atração pela forma do Senhor adorando a Deidade no templo e ouvindo
descrições de Sua forma no shastra. Também, cantar e ouvir Seus nomes evoca atração
por Sua forma, que o Senhor eventualmente manifesta ao cantador puro. Conforme nos
tornamos atraídos pela forma do Senhor, iremos deixar de tentar desfrutar de outras
formas, um esforço que simplesmente leva à exaustão. Então saberemos que somente
Krishna pode nos satisfazer.

Texto 9

sarajisa-nayane sa-shankha-chakre
mura-bhidi ma viramasva chitta rantum
sukha-taram aparam na jatu jane
hari-charana-smaranamrtena tulyam

sarajisa – como a flor de lótus nascida num lago; nayane – cujos olhos; sa – junto com;
shankha – Sua concha; chakre – e arma do disco; mura-bhidi – no aniquilador do demônio
Mura; ma viramasva – por favor nunca cesse; chitta – ó mente; rantum – de desfrutar;
sukha-taram – extremamente prazerosa; aparam – qualquer outra coisa; na – não; jatu – de
todo; jane – eu sei; hari-charana – dos pés do Senhor Hari; smarana – da lembrança;
amrtena – o néctar imortal; tulyam – igual a

TRADUÇÃO

Ó mente, por favor nunca pare de ter prazer em pensar no destruidor do demônio
Mura, que tem olhos de lótus e porta a concha e arma do disco. Na realidade, não
conheço nada mais que dê tanto prazer extremo quanto meditar nos divinos pés do
Senhor Hari.

SIGNIFICADO

Por sua própria experiência, o Rei Kulasekhara está falando como é prazeroso pensar em
Krishna. Esse pensar é o maior prazer da vida dele. Como rei ele tinha acesso a muitos
prazeres mundanos, mas todos eles contavam como se nada fossem, comparados à
meditação nos pés de lótus do Senhor. Esta meditação em Krishna está disponível para
todos, e o Senhor Supremo e Seus representantes querem que todos aproveitem dela.
Assim o Senhor Krishna fala no Bhagavad-gita, “Sempre pensa em Mim.” Esta meditação
não é só para filósofos e poetas. Embora Arjuna fosse um militar, o Senhor Krishna
instruiu-o: “Lembra-te de Mim e luta.”

A literatura védica, preparada por Srila Vyasadeva e cheia de narrativas sobre o Senhor e
Seus devotos, destina-se a nos ajudar a lembrar do Senhor sempre. Estes livros nos
ensinam a desviar nossa mente dos pensamentos comuns, que estão cheios de comércio,
entretenimento, especulação, e semelhantes, e fixá-la no Senhor Supremo no Seu aspecto
26

pessoal. Senão, numerosos pensamentos mundanos irão nos absorver: notícias sobre
política, por exemplo, estão sempre nos bombardeando via a TV, rádio, e a mídia impressa.
Também nossos assuntos pessoais financeiros são em si mesmos completamente
absorventes. E para aguentar nossas ansiedades, poderemos tomar parte em diversões
como vídeos, música, intoxicação, e estimulação sexual. Desperdiçar tempo com
pensamentos mundanos não é nada de novo, mas hoje em dia o ritmo, variedade e
intensidade das diversões que tomam à força nossa atenção, parece ter aumentado.

Portanto, embora a meditação em Deus seja mais essencial do que nunca, pode-se concluir
que ela é impossível hoje em dia. Entretanto, pela graça de Srila Prabhupada e do
movimento para consciência de Krishna que ele fundou, nós podemos absorver a mente em
pensamentos acerca do Senhor mesmo nesta era. Caso se more numa cidade com um
templo da ISKCON, se pode visitar diretamente a Deidade do Senhor Vishnu, como o Rei
Kulasekhara fazia. Mesmo a caminho do trabalho se pode encontrar tempo para parar e
rapidamente ver o Senhor no templo. Caso se more longe de um templo, ainda assim se
pode ler os livros de Srila Prabhupada, trocar correspondência com devotos, ouvir
gravações devocionais, assinar publicações regulares conscientes de Krishna, e é claro,
cantar o Hare Krishna mantra sozinho ou com amigos. Assim destas e de muitas outras
maneiras, a meditação em Krishna está disponível para aqueles que a querem.

Aqui o Rei Kulasekhara menciona especificamente meditação sobre os pés do Senhor. Tal
meditação implica em humildade e indica que o meditante deseja abrigo sob a proteção do
Senhor. Na verdade, os pés de lótus do Senhor simbolizam esse refúgio. Alhures na
literatura védica se descreve os pés de lótus do Senhor como sombrinhas protegendo os
devotos da vida material. Assim um devoto fica satisfeito meditando nos pés do Senhor,
embora ele às vezes medite em outras partes do corpo do Senhor. Devemos lembrar, no
entanto, que embora os pés de lótus do Senhor simbolizem a proteção total que Ele estende
aos Seus devotos, não há nada “simbólico” neles: devemos sempre pensar neles num
sentido pessoal, literal.

Uma vez uns estudantes de hatha-yoga perguntaram a Srila Prabhupada se havia alguma
referência shastrica declarando especificamente que transcendentalistas que consideram a
Suprema Verdade como impessoal, iriam cair. Prabhupada citou o seguinte verso do
Srimad-Bhagavatam (10.2.32):

ye ‘nye ‘ravindaksha vimukta-maninas


tvayy asta-bhavad avisuddha-buddhayah
aruhya krcchrena param padam tatah
patanty adho ‘nadrta yusmad-anghrayah

“Ó Senhor dos olhos de lótus, não-devotos que aceitam severas austeridades e penitências
para obter a mais elevada posição poderão pensar que estão liberados; a inteligência deles é
impura. Eles caem de sua posição de superioridade imaginada porque não possuem
consideração pelos Teus pés de lótus.” Após citar este verso, Prabhupada disse: “Pés”
significa “pessoa.”

Texto 10

mabhir manda-mano vicintya bahudha yamish chiram yatana


naivami prabhavanti papa-ripavah svami nanu shridharah
alasyam vyapaniya bhakti-sulabham dhyayasva narayanam
lokasya vyasanapanodana-karo dasasya kim na kshamah
27

ma bhih – não tenha medo; manda – tola; manah – ó mente; vicintya – pensando; bahudha
– repetidamente; yamih – causado por Yamaraja, o senhor da morte; chiram – de longa
duração; yatanah – sobre os tormentos; na – não; eva – de fato; ami – estes; prabhavanti –
são efetivos; papa – reações pecaminosas; ripavah – os inimigos; svami – senhor; nanu –
Ele não é; shri-dharah – o mantenedor da deusa da fortuna; alasyam – indolência;
vyapaniya – espantando; bhakti – pelo serviço devocional; su-labham – que é facilmente
obtido; dhyayasva – apenas medite; narayanam – no Supremo Senhor Narayana; lokasya
– do mundo; vyasana – os problemas; apanodana-karah – que dissipa; dasasya – para Seu
servo; kim – o que; na – não; kshamah – capaz.

TRADUÇÃO

Ó mente tola, pare tua temerosa aflição pelos extensos tormentos impostos por
Yamaraja. Como podem tuas inimigas, as reações pecaminosas que acumulaste, até
mesmo tocar-te? Afinal, o teu senhor não é o Senhor Supremo, o marido da Deusa
Shri? Deixa de lado toda hesitação e concentra teus pensamentos no Senhor
Narayana, que se pode facilmente alcançar através do serviço devocional. Que é que
Aquele que dissipa os problemas do mundo inteiro não pode fazer por Seu próprio
servo?

SIGNIFICADO

Num humor muito positivo, o Rei Kulasekhara nos lembra que enquanto estivermos sob a
proteção do Senhor supremo, todo-poderoso, nenhum mal pode nos suceder, mesmo aquele
que nossas próprias reações pecaminosas normalmente nos trariam. O Senhor Krishna
também ordena a Arjuna no Bhagavad-gita (9.31): “Declare audaciosamente: Meu devoto
nunca será vencido.”

Vida pecaminosa e suas reações certamente são assuntos sérios, que não são facilmente
lançados no esquecimento. Yamaraja distribui tormentos infernais a todos seres vivos
pecaminosos. Mas o processo de bhakti é tão potente que leva embora todas reações
pecaminosas como se fossem meramente inimigos que se vissem num sonho mau. No
Texto 15 o Rei Kulasekhara irá recomendar o cantar do santo nome de Krishna como a
melhor maneira de alcançar a liberdade das misérias do nascimento e morte. Namacharya
Haridasa Thakura concorda, declarando que mesmo a sombra do cantar puro dos santos
nomes, conhecida como namabhasa destrói o estoque inteiro de pecados que se tenha
acumulado por muitas vidas e assim concede liberação.

A reinvidicação de vitória sobre nascimento e morte do devoto não é jactância inútil sem
base, porém requer plena rendição ao Senhor Hari. O Senhor oferece esta benção ao servo
puro do Seu servo, e não a outros. Enquanto a pessoa tenta proteger-se com bens e poder
mundano, irá ser uma vítima fácil para a poderosa Maya. A jiva que é séria quanto a
libertar-se do samsara não tem a pretensão de agir por sua própria perícia mas sempre
segue as direções autorizadas do Senhor Supremo e Seus representantes. Somente tal
servo dependente do Senhor, sob a plena proteção Dele, pode estar confiante de vencer o
nascimento e morte.

Nesta oração o Rei Kulasekhara menciona Yamaraja, o senhor da morte, como a causa de
tormentos de longa duração. Mas tal sofrimento não é para os devotos do Senhor. O
próprio Yamaraja uma vez instruiu seus servos, os Yamadutas, que aqueles que cantam os
santos nomes do Senhor não estavam sob a jurisdição de Yama. Yamaraja disse: “Em
geral (os devotos) nunca cometem atividades pecaminosas, mas mesmo se por engano ou
devido à confusão ou ilusão às vezes cometem atos pecaminosos, eles são protegidos de
reações pecaminosas porque sempre cantam o Hare Krishna mantra.” (Bhag. 6.3.26).
28

Yamaraja disse para seus seguidores que nunca deveriam chegar perto dos devotos. Os
Vaisnavas são sempre protegidos pela maça do Senhor Vishnu, e assim nem o Senhor
Brahma e nem mesmo o fator tempo conseguem castigá-los.

Srila Prabhupada disse que quando um devoto recebe iniciação do seu mestre espiritual,
ele é libertado de suas reações karmicas. Dores e prazeres que poderão aparecer como
reações karmicas continuando, são meramente efeitos residuais de atividades não-
devocionais, tal como as últimas revoluções de um ventilador elétrico depois que é
desligado. Mas tudo depende da execução sincera do serviço devocional. Quem
novamente transgride regularmente as leis de Deus, mesmo após tomar os votos da
iniciação, está uma vez mais sujeito aos procedimentos da natureza material.

Texto 11

bhava-jaladhi-gatanam dvandva-vatahatanam
suta-duhitr-kalatra-trana-bhararditanam
vishama-vishaya-toye majjatam aplavanam
bhavati sharanam eko vishnu-poto naranam

bhava – da natureza material; jaladhi – no oceano; gatanam – que estão presentes;


dvandva – das dualidades materiais; vata – pelo vento; ahatanam – batidos; suta – filhos;
duhitr – filhas; kalatra – e esposas; trana – de proteger; bhara – pelo fardo; arditanam –
aflito; vishama – perigoso; vishaya – da gratificação sensorial; toye – na água; majjatam –
se afogando; aplavanam – não tendo nenhuma embarcação para levá-las embora; bhavati –
é; sharanam – o refúgio; ekah – somente; vishnu-potah - o barco que é o Senhor Vishnu;
naranam – para as pessoas em geral.

TRADUÇÃO

As pessoas neste vasto oceano de nascimento e morte estão sendo impelidas por aí,
pelos ventos das dualidades materiais. Enquanto se debatem nas perigosas águas da
indulgência sensorial, sem nenhum barco para ajudá-las, elas estão dolorosamente
agoniadas pela necessidade de proteger seus filhos, filhas, e esposas. Só o barco que é
o Senhor Vishnu é que pode salvá-las.

SIGNIFICADO

Materialistas às vezes filosofam que dualidades tais como calor e frio proporcionam uma
variedade interessante ou tempero para a vida. Na verdade, entretanto, embora possamos
dar um caráter romântico à vida neste mundo temporário da dualidade, sua principal
qualidade é miséria. Prahlada Maharaja descreveu este mundo como um lugar onde
encontramos coisas que não queremos e somos separados do que amamos. Ou ansiamos
pelo que nos falta, ou lamentamos por perder algo valioso. Sempre que parecemos nos
deparar com ventos favoráveis no mar dos assuntos humanos, nós sabemos, quer
conscientemente ou no fundo de nossas mentes, que estamos sendo perseguidos pelo
Tempo, o destruidor final.

Tentando expandir nossa felicidade, selecionamos um companheiro para o matrimônio e


construímos uma família. Às vezes podemos ver nossos membros familiares como
protetores contra as destruições do destino, porém eles acabam provando ser, nas palavras
imortais de Srila Prabhupada, “soldados falíveis.” Nossa busca por segurança e felicidade
através da vida familiar meramente aumenta nosso perigo e dor. Como disse Narada Muni
quando o infante do Rei Citrakety morreu: “Meu querido rei, agora estás de fato
experimentando a miséria de uma pessoa que tem filhos e filhas. Ó rei... a esposa, casa,
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opulência e reino de uma pessoa, e suas várias outras opulências e objetos de percepção
sensorial são todas idênticas em que são temporárias. Nosso reino, poder militar, tesouro,
servos, ministros, amigos, e parentes são todos causa de temor, ilusão, lamentação, e
sofrimento. Eles são como gandharva-nagara, um palácio inexistente que se imagina
existir na floresta. Porque são impermanentes, não são melhores que ilusões, sonhos, e
criações mentais.” (Bhag. 6.15.23)

Quando o sofrimento ataca, é natural buscar refúgio, e nessas horas uma alma piedosa se
volta para o Senhor Supremo, nosso único protetor. Quando Gajendra, o rei dos elefantes,
foi atacado na água por um crocodilo, ele logo percebeu que nenhuma de suas esposas ou
compaheiros elefantes poderia salvá-lo. “Eles não podem fazer nada,” disse Gajendra. “É
pela vontade da providência que fui atacado por esse crocodilo, e portanto vou buscar o
refúgio da Suprema Personalidade de Deus, que sempre é o refúgio de todos, mesmo das
grandes personalidades.” (Bhag. 8.2.32)

Nenhum de nós quer calamidades, contudo quando elas vem podem servir como um
incentivo para render-nos ao Senhor Krishna. Assim a Rainha Kunti orou:

vipadah santu tah sasvat tatra tatra jagad-guro


bhavato darshanam yat syad apunar bhava-darshanam

“Desejo que todas aquelas calamidades aconteçam de novo e novamente, para que eu
pudesse ver-Te de novo e novamente, pois ver-Te significa que não mais veremos repetidos
nascimentos e mortes.” (Bhag. 1.8.25)

Texto 12

bhava-jaladhim agadham dustaram nistareyam


katham aham iti ceto ma sma gah kataratvam
sarasija-drshi deve taraki bhaktir eka
naraka-bhidi nishanna tarayishyaty avashyam

bhava – da existência material; jaladhim – o oceano; agadham – incomensurável;


dustaram – impossível de atravessar; nistareyam – irá atravessar além de; katham – como;
aham – eu; iti – assim; cetah – minha querida mente; ma sma gah – por favor não venha;
kataratvam – completar a agonia; sarasi-ja – como um lótus; drshi – cujos olhos; deve –
ao Senhor; taraki – entregar; bhaktih – a personalidade da Devoção; eka – somente;
naraka – do demônio Naraka; bhidi – no destruidor; nishanna – repousada; tarayishyaty –
irá atravessar-te; avashyam – inevitavelmente.

TRADUÇÃO

Querida mente, não te confundas ao pensar ansiosamente, “Como poderei atravessar


este oceano incomensurável e impassável da existência material?” Existe algo
que pode salvar-te – Devoção. Se a ofereceres ao Senhor dos olhos de lótus, o
matador de Narakasura, ela irá carregar-te através deste oceano sem falhar.

SIGNIFICADO

O devoto não tem medo das misérias da existência material. Ele está confiante que Krishna
irá salvá-lo. Embora as forças da destruição sejam mais poderosas que qualquer mortal, o
devoto é como uma pequenina ave, protegida por seus pais. O Senhor Supremo lhe
assegura: “Declare corajosamente, ó Arjuna, que Meu devoto jamais perece.” (Bg. 9.31)
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Contudo, caso se busque a proteção do Senhor através de algum outro meio sem ser a
devoção, falhar-se-á. Por exemplo, no Bhagavad-gita (9.26) Ele encoraja o devoto a
oferecer-Lhe alimento a fim de aumentar o relacionamento amoroso do devoto com Ele:
“Se Me oferecerdes com amor e devoção uma folha, flor, fruta ou água, Eu aceitarei.” O
Senhor Supremo não quer qualquer alimento ou frutas em si e por si mesmas, mas quando
Seu devoto as oferece com bhakti, Ele fica muito atraído e inclinado a reciprocar o amor de
Seu devoto.

A não ser que o Senhor Supremo esteja satisfeito com nosso serviço, Ele não irá revelar a
Si mesmo (naham prakashah sarvasya yogamaya-samavrtah). E sem a intervenção
pessoal Dele, uma alma irá permanecer encalhada no ciclo de nascimento e morte, apesar
de todas qualificações materiais. Em suas orações ao Senhor Nrshimha, Prahlada
Maharaja confirma que somente bhakti pode satisfazer o Senhor: “Pode-se possuir
riqueza, uma família aristocrática, beleza, austeridade, educação, perícia sensorial, brilho,
influência, força física, diligência, inteligência, e poder místico yoguico, mas penso que
mesmo através de todas estas qualificações não se consegue satisfazer a Suprema
Personalidade de Deus. Entretanto, pode-se satisfazer o Senhor simplesmente através do
serviço devocional. Gajendra fez isto, e assim o Senhor ficou satisfeito com ele.” (Bhag.
7.9.9)

Mesmo embora se esteja servindo um mestre espiritual, poder-se-á duvidar da eficácia de


bhakti. Mas o Rei Kulasekhara assegura à sua mente que não há necessidade de ansiedade.
Se contemplarmos a profundidade abismal e distância impassável do oceano material, ou
se nos assustarmos por pensar nos tormentos do inferno, então ficaremos paralisados e
incapazes de executar nossas atividades normais. Não há necessidade de tal temor se
estivermos situados sinceramente no serviço devocional. Como disse o brahmana de
Avantidesha:

etam sa asthaya paratma-nishtham


adhyasitam purvatamair maharshibhih
aham tarishyami duranta-param
tamo mukundanghri-nishevayaiva

“Hei de atravessar o insuperável oceano da nesciedade através de ficar firmemente fixo no


serviço dos pés de lótus de Krishna. Isto foi aprovado pelos acharyas anteriores, que
estavam fixos em firme devoção ao Senhor, Paramatma, a Suprema Personalidade de
Deus.” (Bhag. 11.23.57)

Texto 13

trshna-toye madana-pavanoddhuta-mohormi-male
daravarte tanaya-sahaja-graha-sanghakule cha
samsarakhye mahati jaladhau majjatam nas tri-dhaman
padambhoje vara-da bhavato bhakti-navam prayaccha

trshna – sede: toye – cuja água; madana – de Cupido; pavana – pelos ventos; uddhuta –
revolvida; moha – ilusão; urmi – de ondas; male – fileiras; dara – esposa; avarte – cujo
redemoinho; tanaya – filhos; sahaja – e irmãos; graha – de tubarões; sangha – com
hordas; akule – lotado; cha – e; samsara-akhye – chamado samsara; mahati – vasto;
jaladhau- no oceano; majjatam – que estão se afogando; nah – para nós; tri-dhaman – ó
Senhor dos três mundos; pada – aos pés; ambhoje – semelhantes a lótus; vara-da – ó
doador de bençãos; bhavatah – do Teu bom ser; bhakti – da devoção; navam – o barco;
prayaccha – por favor conceda.
31

TRADUÇÃO

Ó Senhor dos três mundos, estamos nos afogando no vasto oceano de samsara, que
está cheio das águas do anseio material, com muitas ondas da ilusão açoitadas pelos
ventos da luxúria, com redemoinhos de esposas, e com vastos cardumes de tubarões e
outros monstros marinhos que são nossos filhos e irmãos. Ó doador de todas bençãos,
por favor conceda-me um lugar no barco da devoção que são Teus pés de lótus.

SIGNIFICADO

Nesta visão de pesadelo, todas as coisas queridas e familiares na vida se tornam medonhas.
E no entanto esta é uma avaliação precisa da realidade material. As metáforas oceânicas
do Rei Kulasekhara não são fantasiosas, mas nos mostram vividamente o que de fato é.

Existe um dito popular que uma pessoa que está se afogando repentinamente vê toda sua
vida passando diante de si. Porém nunca escutamos o que acontece com a pessoa após a
morte. O ateu presume que quando morremos tudo se acaba e que descansamos em paz.
Mas de acordo com o conhecimento védico, existe vida após a morte. “Aquele que tomou
nascimento é certo que irá morrer, e depois da morte é certo que irá tomar nascimento
novamente.” (Bg. 2.27). Se a alma condicionada vê sua vida passar diante de si na hora da
morte, usualmente é com pesar. Seu apego por companheiros e membros familiares da
vida inteira se torna um pesado fardo que a arrasta para repetidos nascimentos e morte.

Portanto é melhor para uma pessoa ver o terror inerente à vida material antes que seja tarde
demais para retificar sua consciência. Quando ela começa a realizar que há grande perigo
na maneira como está levando sua vida, desfrutando de uma falsa sensação de segurança
dentro da sua órbita de amigos e parentes, então ela tem que por todos meios tentar
modificar a situação, aceitando o serviço devocional ao Senhor. Se ela for afortunada
poderá convencer seus amigos e parentes a também mudarem e levarem uma vida dedicada
à consciência de Deus. Mas se não conseguir mudá-los, então deve ao menos salvar a si
própria. Como Prahlada Maharaja disse ao seu pai demoníaco, Hiranyakashipu:

tat sadhu manye ‘sura-varya dehinam


sada samudvigna-dhiyam asad-grahat
hitvatma-patam grham andha-kupam
vanam gato yad dharim ashrayeta

“Ó melhor dos asuras, rei dos demônios, até onde pude aprender de meu mestre espiritual,
qualquer pessoa que aceitou um corpo temporário e vida doméstica temporária, certamente
é embaraçada pela ansiedade devido a ter caído no obscuro poço onde não há água mas
apenas sofrimento. Deve-se abandonar esta posição e ir até a floresta. Mais claramente,
deve-se ir para Vrindavana, onde somente prevalece consciência de Krishna, e assim tomar
refúgio na Suprema Personalidade de Deus.” (Bhag. 7.5.5).

Não é coisa fácil acordar da complacência da vida comum. Todo mundo sabe que a vida
está cheia de dificuldades, mas tendemos a pensar que nossos membros familiares e
amigos são nosso conforto. Mas como Kulasekhara e outros sábios védicos apontam, na
vida materialista nossos membros familiares são como animais cruéis nos atacando. Para
transmitir esta verdade desagradável, Jada Bharata relatou ao Rei Rahugana uma alegoria
sobre a floresta do desfrute material. Nesse contexto ele disse: “Meu querido rei,
membros familiares neste mundo material vem com nomes de esposas e filhos, mas na
verdade eles se comportam como tigres e chacais.”
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Diversas vezes no Mukunda-mala-stotra, o poeta compara o mundo material ao mar, e o


Senhor (ou Seus pés de lótus) a um barco que pode nos salvar. A metáfora é excelente,
pois não importa quão perito nadador a pessoa possa ser, ela não consegue sobreviver por
si só nas vastas e difíceis extensões do oceano. Assim nossa tentativa de nadar no oceano
da vida material por nossas próprias forças, encorajados por nossa família e amigos, é tão
fútil quanto a tentativa do nadador solitário no mar. Devemos nos voltar para nosso
salvador, o Senhor, e com sinceridade máxima agradecer a Ele por ter vindo nos salvar.

Texto 14

prthvi renur anuh payamsi kanikah phalguh sphulingo laghus


tejo nihsvasanam marut tanu-taram randhram su-sukshmam nabhah
kshudra rudra-pitamaha-prabhrtayah kitah samastah sura
drshte yatra sa tarako vijayate shri-pada-dhuli-kanah

prthvi – a terra; renuh – um pedaço de poeira; anuh – atômica; payamsi – as águas (dos
oceanos); kanikah – gotas; phalguh – pequenas; sphulingah – uma fagulha; laghuh -
insignificante; tejah – a totalidade do fogo elemental; nihsvasanam – um suspiro; marut -
o vento; tanu-taram – muito fraco; randhram – um buraco; su – muito; sukshmam –
pequeno; nabhah – o céu etéreo; kshudrah – insignificante; rudra – Senhor Shiva;
pitamaha – Senhor Brahma; prabhrtayah – e semelhantes; kitah – insetos; samastah –
todos; surah – os semideuses; drshte – tendo sido vistos; yatra – onde; sah – Ele; tarakah
– o salvador; vijayate – é vitorioso; shri – divino; pada – dos pés; dhuli – da poeira; kanah
– uma partícula.

TRADUÇÃO

Uma vez que nosso salvador tenha sido visto, a terra inteira passa a não ser maior que
um grão de pó, todas águas do oceano se tornam meras gotículas, a totalidade do fogo
se torna uma diminuta fagulha, os ventos viram um leve suspiro, e a imensidão do
espaço passa a ser um pequeno buraco. Grandes senhores como Rudra e o Avô
Brahma se tornam insignificantes, e todos os semideuses passam a ser como pequenos
insetos. De fato, até uma partícula de poeira dos pés do nosso Senhor conquista tudo.

SIGNIFICADO

O Senhor Krishna é ilimitado: ninguém é maior ou igual a Ele. Portanto é impossível


compará-Lo com mais ninguém, mesmo se desejarmos fazer uma comparação favorável.
Ele é único. Tudo depende Dele, e Ele é o único provedor (eko bahunam yo vidadhati
kaman). Portanto dizer que Deus é maior que todos outros é louvor insuficiente.

Mas para enfocar mais vividamente nas nossas mentes limitadas a realidade de Deus
(mentes estas que estão sempre propensas a fazerem comparações), o Rei Kulasekhara aqui
nos dá metáforas que enfatizam a suprema grandeza do Senhor. Ele compara o Senhor
Supremo a pessoas e coisas que poderíamos pensar serem as maiores. Aqueles que
rejeitam a concepção pessoal de Deus, tais como os panteístas, pensam que a própria terra
é Deus. Alguns impersonalistas pensam que o céu é a maior manifestação, e assim eles
consideram que seja Deus. Adoradores de semi-deuses consideram Rudra ou Brahma a
pessoa suprema, ou pensam que todos deuses são iguais. Assim as metáforas de
Kulasekhara servem para desmantelar todos esses conceitos equivocados.

Este verso expressa o humor de temor e reverência do Rei Kulasekhara enquanto ele
contempla o magnífico poder e opulência do Senhor Supremo. Muitos bhaktas puros vão
além dessa apreciação do Senhor em Sua majestade opulenta e chegam a desfrutar de
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trocas amorosas íntimas com Ele. Mas independente do nosso relacionamento final com o
Senhor, quando começamos nossa carreira devocional, devemos ser treinados a apreciar a
grandeza do Senhor Supremo. Portanto no Bhagavad-gita (9.8) Krishna ensina Seu amigo
Arjuna: “A ordem cósmica inteira está sob Mim. Por Minha vontade ela se manifesta
automaticamente repetidamente, e por Minha vontade ela é aniquilada no final.”

Porque as potências do Senhor Supremo são ilimitadas, elas também são inconcebíveis.
Por exemplo, Krishna cria todas espécies de vida e no entanto Ele não tem nenhuma
conecção com elas. As almas jivas não tem nenhuma consciência de como o processo
cósmico está acontecendo, entretanto pela vontade do Senhor elas às vezes recebem
corpos, lhes é permitido manterem-se durante um tempo, e depois, sem o conhecimento ou
controle delas, são novamente aniquiladas. Mas Aquele Cuja vontade dirige todas essas
mudanças não está envolvido com isso.

Glorificar o Senhor como o Rei Kulasekhara faz nesta oração desperta em nós o humor
adequado de apreciação pela grandeza do Senhor e também nos ajuda a compreender nossa
posição como Seus insignificantes servos.

Texto 15

he lokah srnuta prasuti-marana-vyadhesh chikitsam imam


yoga-jñah samudaharanti munayo yam yajñavalkyadayah
antar-jyotir ameyam ekam amrtam krshnakhyam apiyatam
tat pitam paramaushadham vitanute nirvanam atyantikam

he lokah – ó pessoas do mundo; srnuta – apenas ouçam; prasuti – do nascimento; marana


- e morte; vyadheh – para a doença; chikitsam – sobre o tratamento; imam – este; yoga-
jñah – peritos no conhecimento do yoga místico; samudaharanti – recomendado; munayah
– sagaz; yam – o qual; yajñavalkya-adayah – tal como Yajñavalkya; antah – interno; jyotih
– luz; ameyam – incomensurável; ekam – somente; amrtam – imortal; krshna-akhyam – o
nome de Krishna; apiyatam – apenas bebam; tat – no; pitam – sendo bebido; parama –
supremo; aushadham – remédio; vitanute – concede; nirvanam – liberação; atyantikam –
absoluta.

TRADUÇÃO

Ó gente, por favor ouçam sobre esse tratamento para a doença do nascimento e
morte! É o nome de Krishna. Recomendado por Yajñavalkya e outros peritos yogis
impregnados de sabedoria, esta ilimitada, eterna luz interior é o melhor remédio, pois
quando bebido concede a liberação final, apenas bebam-no!

SIGNIFICADO

Devotos estão sempre contentes por ouvirem versos fidedignos proclamando as glórias
dos santos nomes do Senhor. Gostamos de ser lembrados e encorajados a sempre cantar e
ouvir os santos nomes com grande atenção e devoção.

Como um devoto puro do Senhor Krishna, o Rei Kulasekhara naturalmente adora os santos
nomes do Senhor. Aqui ele os compara a um remédio para curar a doença do samsara. De
todas moléstias temidas, samsara é a pior, porque inclui todas outras doenças. Enquanto
formos obrigados a tomar nascimento no mundo material, teremos que inevitavelmente nos
expor a cânceres, ataques cardíacos, AIDS, e assim por diante. Todas curas dentro desse
mundo são temporárias porque mesmo se formos curados de uma doença, iremos
eventualmente contrair outra, seja na vida atual ou numa futura. Assim como nossas
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tentativas pela felicidade, nossos esforços pela saúde devem falhar mais cedo ou mais
tarde.

Nas eras anteriores na Índia, um criminoso às vezes era atado à uma cadeira e imerso em
água até quase o ponto de afogamento. Ao ser trazido de volta à tona, ele sentia grande
alívio – apenas para ser mergulhado novamente por seus torturadores. Similarmente, as
vezes em que estamos livres da dor e felizes são como alguns segundos de alívio que o
prisioneiro sente quando é trazido à tona. O princípio básico da vida material é sofrimento.

Portanto devemos ser ávidos de receber o remédio que irá curar todas nossas doenças. A
palavra nirvana neste verso se refere ao cessar permanente do samsara e suas misérias
concomitantes. Nirvana ficou famoso pelos ensinamentos do budismo, mas a liberação
que cultua o vazio, ensinada pelos budistas, é antinatural para a entidade viva, e portanto
ela é temporária. Podemos encontrar a libertação permanente, factual da dor somente no
tipo de liberação a que o Rei Kulasekhara se refere aqui: a liberação de um devoto
ocupado no serviço eterno à Suprema Personalidade de Deus. Quando através do processo
do serviço devocional nos tornarmos livres de todos desejos materiais e obtivermos amor
puro por Deus, seremos transferidos para o reino de Vaikuntha, onde não existem
ansiedades ou sofrimento.

No início do Décimo Canto do Srimad-Bhagavatam (10.1.4), o Rei Parikshit também usa


a palavra aushadhi (“remédio”) para se referir ao cantar e ouvir de krishna-katha, ou
palavras sobre Krishna: “Descrições do Senhor são o melhor remédio para a alma
condicionada que está passando por repetidos nascimentos e morte.” Tais descrições, é
claro, incluem o cantar e ouvir do santo nome do Senhor.

Tal como no caso do remédio fidedigno, se deve tomar a poção nectárea do santo nome sob
a orientação de peritos, neste caso sábios e o mestre espiritual. Os nomes do Senhor
Supremo variam com Seus diferentes passatempos e relacionamentos com Seus devotos
puros. Ele apareceu como o filho de Mãe Yashoda e também como filho de Mãe Devaki, e
portanto Ele é chamado Devaki-nandana e Yashoda-nandana. Deve-se receber os nomes
autorizados do Senhor a partir do mestre espiritual na sucessão discipular.

Os shastras recomendam quais nomes devemos cantar. Por exemplo, o Kali-shantarana


Upanishad recomenda o Hare Krishna maha-mantra: Hare Krishna Hare Krishna Krishna
Krishna Hare Hare / Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Não precisamos
procurar por algum nome ou fabricar um. De preferência, devemos seguir as pessoas
santas e os shastras ao cantar os santos nomes do Senhor, conforme Srila Prabhupada
recomenda em seu Srimad-Bhagavatam (8.1.13, significado).

Texto 16

he martyah paramam hitam srnutah vo vakshyami sankshepatah


samsararnavam apad-urmi-bahulam samyak pravishya sthitah
nana-jñanam apasya cetasi namo narayanayeti amum
mantram sa-pranavam pranama-sahitam pravartayadhvam muhuh

he martyah – ó mortais; paramam – supremo; hitam – benefício; srnutah – só ouçam


sobre; vah – a vocês; vakshyami – irei contar; sankshepatah – em resumo; samsara – do
ciclo da existência material; arnavam – o oceano; apat – de infortúnios; urmi – com as
ondas; bahulam – lotado; samyak – totalmente; pravishya – tendo entrado; sthitah –
situado dentro; nana – vários; jñanam – conhecimento; apasya – rejeitando; cetasi –
dentro de vossos corações; namah – reverências; narayanaya – ao Senhor Narayana; iti –
assim; amum - este; mantram – cantem; sa-pranavam – junto com a sílaba om; pranama
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– curvando-se; sahitam – também com; pravartayadhvam – por favor pratique; muhuh –


continuamente.

TRADUÇÃO

Ó seres mortais, vos submergistes completamente no oceano da existência material,


que está cheio das ondas do infortúnio. Por favor ouvi enquanto brevemente vos falo
como obter vosso benefício supremo. Apenas deixai de lado vossas várias tentativas de
obter conhecimento e em vez disso começai a constantemente cantar o mantra om
namo narayanaya e a prestar reverências ao Senhor.

SIGNIFICADO

Não importa quão exímio nadador alguém seja, não poderá sobreviver por muito tempo
num vasto mar como o Oceano Pacífico. Similarmente, não importa quão perito um
materialista possa ser, quer seja um karmi, jñani, ou yogi, não conseguirá sobreviver para
sempre em meio às ondas agitadas do samsara. Na verdade, todas entidades vivas estão
sendo jogadas repetidamente de uma vida para a próxima, de uma espécie para outra.
Muitos filósofos buscaram alívio do samsara cultivando conhecimento, mas nenhuma
quantidade de especulação mental ou estudo do Vedanta irá levar a pessoa para a outra
margem do oceano de samsara. Na melhor hipótese, um jñani poderá vir a saber que a
vida material é sofrimento, e que através da purificação continuada ele pode compreender a
unidade espiritual de todos seres. Mas mesmo essa compreensão não traz o alívio final.
Liberação do oceano de nascimento e morte vem com a rendição direta ao Senhor
Supremo, que pessoalmente liberta o devoto do sofrimento. Como declara o Senhor
Krishna: “Para os devotos eu sou o salvador imediato do oceano de nascimento e morte.”
(Bg. 12.7)

O Rei Kulasekhara recomenda o constante cantar dos nomes do Senhor como a maneira de
sair do samsara. É claro, só quem tem amor espontâneo por Deus pode cantar
continuamente Seus santos nomes. O cantar mecânico não pode continuar por muito
tempo. Mas mesmo neófitos são aconselhados a cantar Hare Krishna tanto quanto possível
para desenvolver seu gosto pelos santos nomes. Um sintoma de um devoto avançado é que
ele tem nama-gane sada rucih, atração incansável pelo murmurar ou cantar dos nomes do
Senhor.

Os seis Goswamis de Vrindavana obtiveram o estado perfeito de atração pelos santos


nomes, cantando e ouvindo quase vinte e quatro horas por dia. Prabhupada escreve: “É
claro, não devemos imitá-lo (Rupa Goswami), mas os devotos do movimento pela
consciência de Krishna devem pelo menos ter o cuidado de completarem as dezesseis
voltas, sua quota prescrita mínima de cantar. Nama-gane sada rucih: temos que aumentar
nosso gosto por cantar e murmurar Hare Krishna.” (Ensinamentos da Rainha Kunti, p.
149-50).

O cantar contínuo do santo nome com grande contentamento (ruci) é o privilégio do


devoto avançado, porém quem canta com ofensas também é recomendado que cante
constantemente. Como declara o Padma Purana, embora no início se possa cantar o Hare
Krishna mantra com ofensas, podemos nos libertar destas ofensas por cantar de novo e de
novo. Papa-kshayas ca bhavati smaratam tam aharnisham: “A pessoa fica livre de todas
reações pecaminosas se ela lembra do Senhor dia e noite.”

O que se pensar na hora da morte determina a próxima vida da pessoa. Esta é uma outra
razão para cantar os santos nomes constantemente. Se pudermos cantar na difícil hora da
morte, iremos garantir nossa volta ao lar, de volta para Deus, sem nenhuma dúvida.
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Texto 17

nathe nah purushottame tri-jagatam ekadhipe cetasa


sevye svasya padasya datari pare narayane tishthati
yam kañcit purushadhamam katipaya-gramesham alpartha-dam
sevayai mrgayamahe naram aho mudha varaka vayam

nathe – senhor; nah – nosso; purusha-uttame – a Personalidade de Deus; tri – três;


jagatam – dos mundos; eka – o único; dhipe – Senhor; cetasa – através da mente; sevye –
passível de ser servido; svasya – de Sua própria; padasya – posição; datari – o
outorgador; pare – o Supremo; narayane – Senhor Narayana; tishthati – quando Ele está
presente; yam kañcit – algum; purusha – pessoa; adhamam – inferior; katipaya – de
alguns poucos; grama – vilarejos; isham – controlador; alpa – parco; artha – benefício;
dam – que pode dar; sevayai – para serviço; mrgayamahe – nós buscamos; naram – este
homem; aho – ah; mudhah – desnorteado; varakah - tolos degradados; vayam – nós.

TRADUÇÃO

Nosso senhor, a Personalidade de Deus Narayana, que sozinho governa os três


mundos, que se pode servir em meditação, e que alegremente compartilha Seu
domínio pessoal, está manifestado diante de nós. Contudo ainda assim suplicamos
pelo serviço de algum soberano menor de alguns vilarejos, algum homem inferior que
só pode nos recompensar parcamente. Ai de nós, que desgraçados tolos que somos!

SIGNIFICADO

O dharma eterno do ser vivo é de prestar serviço. Ninguém pode escapar disso.
Originalmente fomos destinados a servir o Senhor Supremo por amor, mas em nosso
estado condicionado esquecemos o objeto real de serviço e por motivos egoístas
procuramos servir senhores indignos. Servimos tais pessoas não por amor mas na
esperança de ganhar remuneração deles. Mesmo quando realizamos assim-chamados atos
altruístas, tal serviço ao país ou humanidade em geral, geralmente é maculado por um
desejo de ser reconhecido como generoso ou misericordioso. No final, todo serviço
materialmente motivado é frustrado de muitas maneiras e acaba não satisfazendo nem a
nós e nem a nossos senhores.

Por contraste, Kulasekhara aponta a grande vantagem de se tornar o servo do Senhor


Supremo. O Senhor Narayana é o governante de todos mundos (sarva-loka-
maheshvaram). Parte de Sua glória, contudo, é que embora Ele seja ilimitadamente
majestoso e poderoso, Ele Se torna acessível para que possamos facilmente serví-Lo em
qualquer lugar e a qualquer hora por cantar Seus santos nomes ou meditar na forma,
qualidades, passatempos e instruções Dele. Tal serviço devocional deve ser realizado sem
qualquer desejo por recompensa pessoal. Mas mesmo se uma alma condicionada tiver
desejos pessoais, ela deve prestar serviço ativo ao Supremo. Como Sukadeva Goswami
disse para o Rei Parikshit no Srimad-Bhagavatam (2.3.10):

akamah sarva-kamo va moksha-kama udara-dhih


tivrena bhakti-yogena yajeta purusham param

“Uma pessoa que tem inteligência mais ampla, quer esteja cheia de todo desejo material,
sem qualquer desejo material, ou deseje liberação, deve de qualquer jeito adorar o supremo
todo, a Personalidade de Deus.”
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Serviço ao Senhor Narayana culmina em nós nos reunirmos novamente com Ele nos
eternos planetas Vaikuntha. Ali os servos do Senhor compartilham quase que igualmente
as opulências Dele. Como Srila Prabhupada costumava dizer: “Tornem-se grandes por
servirem aos grandes.” Mas apesar das impressionantes vantagens de servir o Senhor
Narayana, ainda assim direcionamos mal nosso serviço da maneira lamentável que o Rei
Kulasekhara descreve aqui.

Às vezes uma pessoa adota a concepção impessoal da Verdade Absoluta e pensa que por
praticar austeridades e cultivar conhecimento ela irá eventualmente se tornar igual ao
Supremo em todos respeitos: “Vou deixar de servir e tornar-me o Eu,” pensa ela. Esta
resistência à bhakti resulta da ignorância do prazer transcendental que o servo do Senhor
desfruta. Se de fato soubessemos quão felizes nos tornaríamos por agir em nossa posição
constitucional como servos do Senhor, aceitaríamos o serviço devocional de imediato.

Com relação a isso, Srila Prabhupada conta a história de um homem cujo desejo ardente
era de servir a pessoa mais grandiosa. O homem nasceu num pequeno vilarejo, onde se
tornou atraído por servir o chefe do vilarejo. Ele estava muito feliz nesta posição e tentava
agradar o chefe de muitas maneiras. Mas um dia um governador distrital visitou o vilarejo,
e o servo chegou a entender que seu chefe local também era um servo – do governador.
Então ele pediu para ser transferido para o serviço do patrão que era maior. O governador
aceitou-o no seu serviço, e o homem ficou novamente satisfeito tentando agradar a seu
novo senhor. Mas então ele viu que o governador pagava impostos e prestava reverências
ao rei. O homem que queria servir ao maior conseguiu se transferir para o serviço direto
do rei. Agora estava completamente satisfeito, e o rei tratava-o como um servo favorito.
Mas um dia o homem viu que o rei saía sozinho para a floresta a fim de adorar e servir um
asceta. O servo do rei mais tarde se aproximou daquele guru e dirigiu-se a ele: “Deves ser
a maior de todas pessoas, porque até mesmo o rei te serve. Por favor permita-me ser teu
servo.” O asceta respondeu que ele próprio era o humilde servo da Suprema Personalidade
de Deus, Krishna. O perpétuo servo então perguntou onde poderia encontrar Krishna e o
guru encaminhou-o para o templo mais próximo de Krishna. Com um ardente desejo o
servo foi até o templo e recebeu uma indicação direta da Deidade de que de fato ele fôra
aceito como Seu servo. Finalmente, o servo aspirante daquele que é o maior alcançou sua
menta, uma posição como o servo da Suprema Personalidade de Deus.

Existem cinco rasas principais, ou relacionamentos, com o Senhor Supremo, porém a base
deles todos é serviço. As glórias do serviço amoroso ganharam o louvor do grande yogi
Durvasa Muni, que viu quão satisfeito o Senhor Supremo ficou com Seu devoto puro
Ambarisha. Durvasa disse: “Que resta para ser alcançado para aqueles que se tornaram os
servos do Senhor?” E no Stotra-ratna (43), Sri Yamunacharya declara:

bhavantam evanucharan nirantarah


prashanta-nihshesha-mano-rathantarah
kadaham aikantika-nitya-kinkarah
praharshayishyami sanatha-jivitam

“Por servir-Te constantemente, a pessoa se liberta de todos desejos materiais e é


completamente pacificada. Quando hei de me ocupar como Teu servo eterno permanente e
sempre sentir alegria por ter um senhor tão perfeito?” (Cc. Madhya 1.206).

Outra razão para uma jiva tola evitar de servir o Senhor é por causa de pressão social. Se
servimos o Senhor Krishna, muitas pessoas riem de nós, ao passo que se servirmos os
deuses mundos de dinheiro, prestígio, e poder, seremos amplamente aceitos. Algumas
pessoas preferem buscar anonimidade, e tem medo de tornarem-se um devoto do Senhor, o
que poderia fazê-las serem notadas demais. Um devoto real, entretanto, deriva tão grande
38

satisfação de seu serviço ao mestre espiritual e Krishna, que não se importa com o que os
outros pensam. Como declara o Srimad-Bhagavatam (11.2.40):

evam-vratah sva-priya-nama-kirtya
jatanurago druta-citta ucchaih
hasaty atho roditi rauti gayaty
unmada-van nrtyati loka-bahyah

“Por cantar o santo nome do Senhor, a pessoa chega ao estágio de amor por Deus. Então o
devoto está fixo em seu voto como servo eterno do Senhor, e ele gradualmente se torna
muito apegado a determinado nome e forma do Senhor. Conforme seu coração derrete
com o amor extático, ele ri muito alto ou chora e grita. Às vezes ele canta e dança como
um louco, pois ele é indiferente à opinião pública.”

Devotos no movimento da consciência de Krishna poderão ser tímidos de início, mas


dentro em breve eles aprendem a esquecer suas inibições enquanto cantam publicamente os
santos nomes e dançam. Eles fazem isso como um serviço ao Senhor, para o bem-estar de
todas pessoas, e também acham isso extático. Em seu Padyavali (73 ), Srila Rupa
Goswami cita um verso escrito por Sarvabhauma Bhattacharya descrevendo quão extático
o serviço devocional pode ser, e quão indiferente à opinião pública um devoto extático é:
“Que o povão falador diga o que quiserem. Não haveremos de prestar atenção neles.
Perfeitamente enlouquecidos pelo êxtase da bebida intoxicante do amor por Krishna,
vamos desfrutar da vida, correndo por aí e rolando no solo e dançando em êxtase.”

Texto 18

baddhenañjalina natena shirasa gatraih sa-romodgamaih


kanthena svara-gadgadena nayanenodgirna-baspambuna
nityam tvac-charanaravinda-yugala-dhyanamrtasvadinam
asmakam sarasiruhaksha satatam sampadyatam jivitam

baddhena – fechadas juntas; añjalina – de palmas unidas; natena – curvados; shirasa –


com nossas cabeças; gatraih – com os membros corpóreos; sa – tendo; roma – dos seus
pelos; udgamaih – erupções; kanthena – com a voz; svara – sons; gadgadena –
embargada; nayanena – com olhos; udgirna – emitindo; baspa – de lágrimas; ambuna –
com a água; nityam – constante; tvat – Teu; charana – dos pés; aravinda – lótus; yugala –
no par; dhyana – pela meditação; amrta – néctar imortal; asvadinam - que estão provando;
asmakam – nosso; sarasi-ruha – como um lótus crescendo num lago; aksha – ó Tu Cujos
olhos; satatam – sempre; sampadyatam – por favor assegure; jivitam – nosso sustento.

TRADUÇÃO

Ó Senhor dos olhos de lótus, por favor mantenha nossas vidas enquanto
constantemente saboreamos o néctar de meditar em Teus pés de lótus, com nossas
palmas unidas em oração, nossas cabeças curvadas, nossos pelos corpóreos
arrepiados de júbilo, nossas vozes embargadas pela emoção, e nossos olhos fluindo
lágrimas.

SIGNIFICADO

Um devoto encontra plena satisfação em reverentemente adorar seu Senhor, apreciando


Suas características pessoais. E enquanto embevecido adora o Senhor, um Vaisnava não se
preocupa muito acerca de seu próprio sustento. Nas cidades modernas, por contraste,
ganhar a própria vida tem se tornado um empreendimento exagerado que toma nossa
39

energia toda, dia e noite, não deixando que reste tempo para Deus, exceto no domingo, o
dia do descanso.

A filosofia védica ensina que a prioridade máxima na vida deve ser redespertar nosso
relacionamento com o Senhor. Portanto um homem sensato nunca deve se permitir de ficar
tão enrolado em seus deveres materiais que estes suguem toda sua energia e matem seu
desejo por servir a Krishna. Srila Bhaktivinoda Thakura, que era tanto um grande
Vaisnava quanto um magistrado responsável no governo indiano, disse que devemos
equilibrar nossas necessidades materiais e espirituais, mas que devemos favorecer estas
últimas. Em outras palavras, devemos ganhar nosso sustento dentro do espírito da vida
simples e pensamento elevado.

No Srimad-Bhagavatam (7.14.6), Narada Muni recomenda uma vida bem assim a


Maharaja Yudhishthira: “Um homem inteligente na sociedade humana deve fazer seu
programa de atividades muito simples. Se houver sugestões de seus amigos, filhos, pais,
irmãos, ou qualquer outra pessoa, ele deve concordar externamente, dizendo: “Sim, isso
está bem,” mas internamente ele deve determinar-se a não criar uma vida incomodativa na
qual o propósito da vida não será realizado.”

Um serviço ideal para o chefe-de-família é adoração à Deidade, quer seja em casa ou no


templo. Enquanto se limpa o altar, cozinha, ou veste a Deidade, se deve saborear o néctar
de meditar nos pés de lótus do Senhor, conforme o Rei Kulasekhara fala nesta oração.
Para ser eficaz, a adoração nunca deve ser feita num humor de estágio temporário.
Algumas vezes Mayavadis parecem adorar Deidades tal como fazem os Vaisnavas. Mas há
um mundo de diferença, porque Mayavadis não pensam que o Senhor Supremo é um
perpétuo objeto de devoção. De preferência, pensam que a adoração à Deidade poderá
ajudar a pessoa a desenvolver um humor meditativo, que eventualmente levará ela a
realizar que o próprio Senhor é ilusão. Então o adorador se funde com o Brahman
impessoal. Nem o Senhor Supremo nem Seu devoto puro jamais aceitam este tipo de
bhakti como um estágio temporário a cumprir.

O Srimad-Bhagavatam e todos os mestres espirituais na sucessão discipular nos alertam


para nunca considerarmos adoração à Deidade como adoração de ídolos. A archa-vigraha
não é uma criação simbólica mas é o próprio Krishna aparecendo na forma de metal, pedra,
madeira, etc., a fim de facilitar trocas devocionais com Seus devotos.

Uma das grandes bençãos da adoração à Deidade é que ela nos proporciona uma imagem
concreta em que meditarmos. Assim adoração à Deidade, em conjunção com descrições
do Senhor encontradas em shastras autorizados como o Srimad-Bhagavatam, permitem ao
devoto facilmente absorver sua mente na forma do Senhor. Aqui vão apenas duas das
muitas descrições da forma do Senhor encontradas no Bhagavatam:

“Os pés de lótus Dele estão colocados sobre os verticilos dos corações semelhantes a lótus
dos grandes místicos. Sobre o peito Dele está a jóia Kaustubha, gravada com um lindo
bezerro, e há outras jóias em Seus ombros. Seu tórax inteiro está enguirlandado com flores
frescas.” (Bhag. 2.2.10).

“O rosto de Krishna está decorado com ornamentos, tais como brincos parecendo tubarões.
Suas orelhas são lindas, Suas faces brilhantes, e Seu rosto sorridente é atraente para todos.
Quem quer que veja o Senhor Krishna vê um festival. Seu rosto e corpo são plenamente
satisfatórios para todos verem, mas os devotos ficam zangados com o criador pelo
distúrbio causado pelo piscar momentâneo dos olhos deles.” (Bhag. 9.24.65).
40

Texto 19

yat krshna-pranipata-dhuli-dhavalam tad varshma tad vai shiras


te netre tamasojjhite su-rucire yabhyam harir drshyate
sa buddhir vimalendu-shankha-dhavala ya madhava-dhyayini
sa jihvamrta-varshini prati-padam ya stauti narayanam

yat – que; krshna – ao Senhor Krishna; pranipata – por curvar-se; dhuli – com a poeira;
dhavalam – branqueado; tat – aquele; varshma – mais elevado; tat – aquele; vai – de fato;
shirah – cabeça; te – aqueles dois; netre – olhos; tamasa – pela escuridão; ujjhite –
abandonado; su – muito; rucire – atrativo; yabhyam – pelo qual; harih – o Senhor Hari;
drshyate – é visto; sa – aquela; buddhih – inteligência; vimala – imaculada; indu – como a
lua; shankha – ou uma concha; dhavala – branco brilhante; ya – que; madhava-dhyayani –
meditando no Senhor Madhava; sa – aquela; jihva – língua; amrta – néctar; varshini –
derramando chuva; prati-padam – a cada passo; ya – que; stauti – louva; narayanam – o
Senhor Narayana.

TRADUÇÃO

Aquela cabeça que é branca devido à poeira por curvar-se ao Senhor Krishna é a
mais sublime. Aqueles olhos que a escuridão abandonou depois que viram o Senhor
Hari, são os mais belos. Aquela inteligência é imaculada – como o brilho branco da
lua ou de uma concha – que se concentra no Senhor Madhava. E aquela língua que
constantemente glorifica o Senhor Narayana, derrama chuvas de néctar.

SIGNIFICADO

Serviço devocional ao Senhor Krishna gradualmente espiritualiza e embeleza nossos


sentidos. Pessoas comuns podem não ver como um Vaisnava está sendo transformado,
pois só um devoto consegue apreciar a real beleza de outros devotos. Portanto Srila Rupa
Goswami nos acautela em seu Upadesamrta (5) contra julgar um devoto superficialmente:
“Deve-se fazer vista grossa a um devoto ter nascido numa família baixa, ter um corpo com
a pele do rosto em mau estado, um corpo deformado, ou um corpo doente e enfermo. De
acordo com a visão comum, tais imperfeições poderão parecer proeminentes no corpo de
um devoto puro, mas apesar de tais aparentes defeitos o corpo de um devoto puro não pode
ser poluído. Ele é exatamente como as águas do Ganges, que durante a estação chuvosa às
vezes estão cheias de bolhas, espuma, e lama (mas que permanecem puras e portanto
capazes de purificar quem se banha nelas).”

Frequentemente, contudo, o poder transformador do serviço devocional é dramático. Srila


Prabhupada às vezes lembrava como quando ele primeiro encontrava com seus futuros
discípulos, eles eram hippies sujos, morosos. Mas conforme aceitavam consciência de
Krishna, dizia Prabhupada, eles ficavam como anjos de Vaikuntha com rostos luminosos.

No decorrer dos passatempos do Senhor, o Senhor pessoalmente às vezes irá causar


dramáticas mudanças nos corpos de Seus devotos. Enquanto o Senhor Krishna entrava em
Mathura Ele encontrou uma jovem corcunda que O ungiu com polpa de sândalo que havia
sido destinada ao Rei Kamsa, e em troca pelo serviço dela o Senhor endireitou seu corpo e
mudou-a numa bela moça. Similarmente, o Senhor Chaitanya curou instantaneamente o
leproso Vasudeva. A transformação corpórea máxima tem lugar quando um devoto recebe
seu svarupa, seu corpo espiritual, e entra no mundo espiritual para adorar o Senhor em
Vaikuntha.
41

Um devoto se torna belo por humilhar-se na poeira enquanto oferece reverências ao


Senhor. Por contraste, uma pessoa orgulhosa que está tentando impressionar o sexo oposto
com sua assim-chamada beleza irá evitar curvar-se na poeira. Mas o Rei Kulasekhara
recomenda isso como um tipo de tratamento de beleza. Verdadeira beleza significa aquilo
que é agradável ao Senhor Krishna.

Os olhos do devoto se tornam belos por ver a mais bela forma de Krishna. Um reflexo da
luminosidade de Krishna brilha nos olhos dos místicos devocionais. Aqueles que viram
Sua Divina Graça Srila Prabhupada viram essa luminosidade nos olhos dele.

A inteligência imaculada aqui referida é uma que foi esvaziada de todas dúvidas e enchida
com a fé pura no Senhor. Quem atingiu tal buddhi claro, inteligência espiritual, é pacífico
e capaz de resolver todos problemas, tanto seus como de outros. Portanto a inteligência
dos devotos é comparada à lua, cuja beleza refrescante, tranquilizante pode ser vista e
apreciada por todos no mundo. Similarmente, a língua de quem glorifica o Senhor é dito
derramar uma chuva de néctar, que, tal como o luar, está disponível para todos sem
distinção.

Texto 20

jihve kirtaya keshavam mura-ripum cheto bhaja shridharam


pani-dvandvam samarchayachyuta-kathah srotra-dvaya tvam srnu
krshnam lokaya lochana-dvaya harer gacchanghri-yugmalayam
jighra ghrana mukunda-pada-tulasim murdhan namadhoksajam

jihve – ó lingua; kirtaya – cante o louvor; keshavam – do Senhor Keshava; mura-ripum - o


inimigo de Mura; chetah – ó mente; bhaja – adore; shri-dharam – o Senhor de Sri, a deusa
da fortuna; pani-dvandva – ó duas mãos; samarchaya – sirvam; achyuta-kathah – tópicos
do Senhor Achyuta; srotra-dvaya – ó dois ouvidos; tvam – vós; ’srnu – apenas ouvi;
krshnam – para Krishna; lokaya – olhai; lochana-dvaya – ó dois olhos; hareh – do Senhor
Hari; gaccha – ide para; anghri-yugma – ó dois pés; alayam – para a residência; jighra –
cheira; ghrana – ó nariz; mukunda – do Senhor Mukunda; pada - aos pés; tulasim – as
flores de tulasi; murdhan – ó cabeça; nama – curva-te; adhoksajam – ao Senhor
Adhoksaja.

TRADUÇÃO

Ó lingua, louva as glórias do Senhor Keshava. Ó mente, adora o inimigo de Mura. Ó


mãos, sirvam o Senhor de Shri. Ó ouvidos, ouvi os tópicos do Senhor Achyuta. Ó
olhos, contemplai Sri Krishna. Ó pés, ide para o templo do Senhor Hari. Ó nariz,
cheira os brotos de tulasi nos pés do Senhor Mukunda. Ó cabeça, curva-te ao Senhor
Adhoksaja.

SIGNIFICADO

Aqui o poeta ordena a cada um de seus sentidos que coopere em servir o Senhor. A alma
espiritual é superior aos sentidos, e assim é certo que ele lhes ordene:

indriyani parany ahur indriyebyah param manah


manasas tu para buddhir yo buddheh paratas tu sah

“Os sentidos funcionais são superiores à matéria grosseira; a mente é mais elevada que os
sentidos; a inteligência é ainda mais elevada que a mente; e ela (a alma) é ainda mais
elevada que a inteligência.” (Bg. 3.42).
42

Os textos 19 e 20 do Mukunda-mala-stotra trazem à mente uma série de versos por


Shaunaka Rishi no Srimad-Bhagavatam (2.3.20-24): “Quem não ouviu as mensagens
sobre a grande perícia e feitos maravilhosos da Personalidade de Deus e não murmurou ou
cantou em voz alta as dignas canções sobre o Senhor, deve ser considerado como
possuindo orifícios auriculares como as tocas em que vivem serpentes, e uma língua como
a de um sapo. A porção superior do corpo, embora coroada com um turbante de cetim, é
apenas um pesado fardo se não se curva diante da Personalidade de Deus, que pode
conceder mukti (liberdade do nascimento e morte). E as mãos, embora decoradas com
reluzentes pulseiras, são como as de um homem morto se não se ocuparem no serviço da
Personalidade de Deus, Hari. Os olhos que não olham as representações simbólicas
(formas da Deidade) da Personalidade de Deus, Vishnu, são como aqueles impressos nas
plumas dos pavões, e as pernas que não se movimentam para os locais sagrados (onde o
Senhor é relembrado) são consideradas como sendo semelhantes a troncos de árvores. A
pessoa que em nenhuma ocasião recebeu a poeira dos pés do devoto puro do Senhor em
sua cabeça, certamente é um corpo morto. E a pessoa que nunca experimentou o aroma
das flores de tulasi que decoram os pés de lótus do Senhor também é um corpo morto,
embora respire. Certamente aquele coração tem armação de aço se, apesar de cantar o
santo nome do Senhor com concentração, não muda e sente êxtase, hora em que lágrimas
enchem os olhos e os pelos se arrepiam.”

Cada um de nossos sentidos poderá auxiliar ou atrapalhar-nos no serviço devocional. Se


concedermos rédea livre mesmo a um só sentido, este poderá distrair seriamente nossa
mente, assim como um golpe de vento consegue empurrar para o oceano um veleiro não
ancorado. A Suprema Personalidade de Deus tem sentidos, e nós também, e nossa
perfeição está em servir Hrshikesha (o Senhor dos sentidos) com todos nossos sentidos.
Poderemos ocupar nossos sentidos no serviço a Krishna ou no serviço a Maya, ilusão. A
escolha é mostrada vividamente nos versos por Kulasekhara e Shaunaka Rishi.

Por exemplo, nosso cantar sincero (kirtana) poderá agradar ao Senhor Supremo e evocar a
misericórdia Dele, ou nossas canções materialistas irão parecer o coachar do sapo, que
atrai a serpente predadora – a morte. Similarmente, poderemos ser embelezados por curvar
nossas cabeças diante do Senhor, ou essa mesma cabeça, sobrecarregada por ornamentos e
orgulho, irá nos arrastar para baixo do oceano do nascimento e morte. Uma pessoa numa
posição social elevada frequentemente é orgulhosa demais para se humilhar diante da
Deidade no templo. Nesse caso será arrastada para baixo por seu próprio orgulho, assim
como um homem que cai ao mar num navio e é arrastado para baixo por suas pesadas
roupas e toucado. Na época do Senhor Chaitanya, o Rei Prataparudra deu o exemplo
perfeito para um líder mundano, ao realizar o serviço subalterno de varrer a estrada diante
do carro do Senhor Jagannatha. Desta maneira ele mostrou sua subordinação ao Todo-
poderoso.

Pode-se melhor servir aos sentidos do Senhor, servindo aos Seus devotos. Srila
Prabhupada declara: “Krishna é a propriedade de Seus devotos puros, incondicionados, e
como tal somente devotos podem dar Krishna a outro devoto; Krishna nunca é obtido
diretamente.” (Bhag. 2.3.23, significado). Um discípulo portanto deve usar seus sentidos
para realizar todo tipo de serviço para a satisfação de seu guru.

Devemos ocupar não só os nossos sentidos mas também nossa mente no serviço do Senhor.
A mente, afinal, proporciona o ímpeto para a ação de todos membros corpóreos. Portanto
pensar em Krishna é a base de todo serviço devocional. Como o Senhor instrui no
Bhagavad-gita (9.34): man-mana bhaba mad-bhaktah: “Pense em mim e torne-se Meu
devoto.” A mente fixa em cantar e orar a Krishna irá mudar o coração, o que irá
transformar a alma condicionada num devoto puro. Um devoto puro, portanto, é alguém
43

cujo corpo, mente, e palavras estão todos absorvidos no serviço devocional a Krishna, sem
nenhum espaço para a ilusão.

Texto 21

amnayabhyasanany aranya-ruditam veda-vratany anv-aham


medash-cheda-phalani purta-vidhayah sarvam hutam bhasmani
tirthanam avagahanani cha gaja-snanam vina yat-pada-
dvandvambhoruha-samsmrtim vijayate devah sa narayanah

amnaya – das escrituras reveladas; abhyasanani - estudos; aranya – na floresta; ruditam –


chorando; veda – védico; vratani – votos de austeridade; anu-aham – diariamente; medah
- da gordura; cheda – remoção; phalani – cujo resultado; purta-vidhayah – obras
piedosas prescritas; sarvam – todas; hutam – oblações oferecidas; bhasmani – para as
cinzas; tirthanam – nos locais sagrados; avagahanani – atos de se banhar; cha – e; gaja –
de um elefante; snanam – o banho; vina – sem; yat – cujo; pada – dos pés; dvandva – o
par; ambhoruha – lótus; samsmrtim – lembrança; vijayate – possa Ele ser vitorioso; devah
– o Senhor; sah – Ele; narayanah – Narayana.

TRADUÇÃO

Todas as glórias ao Senhor Narayana! Sem a lembrança de Seus pés de lótus, recitar
escrituras é meramente gritar na selva, observar regularmente severos votos
recomendados nos Vedas não passa de uma maneira de perder peso, executar os
deveres piedosos prescritos é como derramar oblações sobre cinzas, e tomar banho
em vários locais sagrados não é melhor que um banho de elefante.

SIGNIFICADO

A lembrança da Suprema Personalidade de Deus é a meta de todas práticas espirituais. Um


momento de lembrança do Senhor Krishna é a maior fortuna, e um momento de
esquecimento Dele é a maior perda. Portanto mesmo os importantes deveres religiosos
mencionados neste verso se tornam nulos e vazios se não levarem à 1embrança de Krishna.
Estudar as escrituras, visitar templos, observar votos – nenhum desses não é importante ou
é dispensável para devotos. O Rei Kulasekhara, portanto, condena-os somente quando são
impropriamente realizados em nome da religião. Por exemplo, os estudos e meditações
dos impersonalistas, que ridicularizam a forma pessoal, espiritual da Verdade Absoluta, são
inúteis. Outros atos inúteis incluiríam austeridades realizadas com fins políticos ou
adoração a semideuses visando receber bençãos materiais. O renunciante poderá ficar
muito magrinho, porém não irá agradar ao Senhor, e portanto ele mesmo não ficará de
coração satisfeito. Portanto qual a utilidade de suas austeridades? Conforme declara o
Narada-pañcaratra:

aradhito yadi haris tapasa tatah kim


naradhito yadi haris tapasa tatah kim
antar bahir yadi haris tapasa tatah kim
nantar bahir yadi haris tapasa tatah kim

“Caso se esteja adorando o Senhor Hari, qual é a utilidade de severas penitências? E caso
não se esteja adorando o Senhor Hari, qual é a utilidade de severas penitências? Se a
pessoa puder compreender que o Senhor Hari é onipenetrante, qual é a utilidade de severas
penitências? E caso não se entenda que o Senhor Hari é onipenetrante, qual é a utilidade
de severas penitências?”
44

O devoto bem-sucedido aprendeu a pensar no Senhor em qualquer circunstância


concebível. Pensar em Krishna não é algo a ser praticado somente quando estamos
distanciados de nossa ocupação diária, como uma meditação solitária. Ou melhor, o
Senhor Krishna instruiu Arjuna a “lembrar de Mim e lutar.” Em outras palavras,
destinamo-nos a executar nossos deveres diários e ao mesmo tempo pensar em Krishna. A
injunção do Senhor Chaitanya de sempre cantar os nomes de Krishna é a mesma instrução,
dada de tal maneira que possamos alegre e facilmente seguí-la. No estágio avançado, um
devoto sem fazer esforço se lembra de Krishna por amor espontâneo. Nos estágios inicial
e intermediário, também se pode pensar em Krishna dia e noite, através de cantar o santo
nome e moldar nossas atividades no serviço Dele, sob a orientação de um devoto puro do
Senhor.

Texto 22

madana parihara sthitim madiye


manasi mukunda-padaravinda-dhamni
hara-nayana-krshanuna krsho ‘si
smarasi na chakra-parakramam murareh

madana – ó Cupido; parihara – abandona; sthitim – tua residência; madiye – minha;


manasi – na mente; mukunda – do Senhor Mukunda; pada-aravinda - dos pés de lótus;
dhamni – que é a morada; hara – do Senhor Shiva; nayana – do olho; krshanuna – pelo
fogo; krshah – dizimado; asi – te tornaste; smarasi na – não te lembras; chakra – da arma
do disco; parakramam – a poderosa capacidade; mura-areh – do inimigo de Mura.

TRADUÇÃO

Ó Cupido, abandona tua residência na minha mente, que agora é a morada dos pés
de lótus do Senhor Mukunda. Já foste incinerado pelo fogoso olhar do Senhor Shiva,
portanto porque esqueceste o poder do disco do Senhor Murari?

SIGNIFICADO

Este é um corajoso desafio a Cupido, que geralmente consegue subjugar todo mundo,
inclusive transcendentalistas aspirantes. Como o Senhor Kapila disse para Sua mãe:
“Apenas tenta entender a poderosa força de Minha maya na forma de uma mulher, que
pelo mero movimento de suas sobrancelhas pode manter até os grandes conquistadores do
mundo sob seu domínio.” (Bhag. 3.31.38)

Um devoto pode desafiar Kamadeva (Cupido) de maneira tão agressiva porque devotos
constantemente meditam no Senhor Krishna, que destrói a influência de Cupido. Aqui o
Rei Kulasekhara está dando um aviso justo para Kamadeva deixar a mente do rei ou
arriscar-se à destruição pela segunda vez. A referência aqui é a um incidente no qual
Kamadeva tentou acertar suas flechas no Senhor Shiva para despertar luxúria nele. O
Senhor Shiva retaliou queimando Kamadeva com seu olhar até este virar cinzas.
Kamadeva deveria ter aprendido sua lição por este incidente. Em caso negativo, o Rei
Kulasekhara adverte que o Senhor Krishna não irá ter problemas para destruir Kamadeva
com Seu disco e livrar a mente de Seu devoto da luxúria.

Kamadeva também é chamado de Madana, um nome que significa “aquele que atrai.”
Porém o Senhor Krishna é conhecido como Madana-mohana, “aquele que desnorteia
Cupido.” Em outras palavras, Krishna é tão transcendentalmente atrativo que qualquer um
que absorve sua mente Nele não será perturbado pelo desejo sexual. Além do mais, a
45

consorte do Senhor Krishna, Srimati Radharani, é chamada Madana-mohana-mohini


porque somente Ela consegue cativar até mesmo Krishna.

Em todas religiões do mundo, ascetas tem praticado renúncia, e Kamadeva sempre os testa
e lhes dá trabalho. Frequentemente, apesar das melhores tentativas de purificação, pensa-
se no sexo oposto na hora da morte. Então se tem de voltar no ciclo de nascimento e
morte, para ser novamente traído e de novo sofrer as misérias da vida material. Mesmo o
poderoso místico Visvamitra se tornou uma vítima da beleza de Menaka, uniu-se a ela, e
concebeu Shakuntala.

Mas os bhaktas descobriram um infalível refúgio contra Cupido – absorção na beleza de


Krishna. Quem é cativado pela beleza de Krishna não é vitimado pela luxúria. Como Sri
Yamunacharya canta:

yad-avadhi mama cetah krishna-padaravinde


nava-nava-rasa-dhamany udyatam rantum asit
tad-avadhi bata nari-sangame smaryamane
bhavati mukha-vikarah sushthu nishthivanam cha

“Como minha mente tem sido ocupada no serviço dos pés de lótus do Senhor Krishna e
estive desfrutando do sempre renovado prazer transcendental nesse serviço, sempre que
penso em sexo com uma mulher meu rosto de imediato vira-se para o outro lado, e eu
cuspo nesse pensamento.”

Texto 23

nathe dhatari bhogi-bhoga-shayane narayane madhave


deve devaki-nandane sura-vare chakrayudhe sarngini
lilashesha-jagat-prapañca-jathare vishveshvare shridhare
govinde kuru chitta-vrttim achalam anyais tu kim vartanaih

nathe – no teu senhor; dhatari – e sustentador; bhogi - da serpente (Ananta Shesha);


bhoga – no corpo; shayane – que se deita; narayane madhave – conhecido como Narayana
e Madhava; deve – o Senhor Supremo; devaki-nandane – o querido filho de Devaki; sura-
vare – o herói dos semideuses; chakra-ayudhe – aquele que segura o disco; sarngini – o
possuidor do disco Sarnga; lila - como um passatempo; ashesha – sem fim; jagat –
universos; prapañca – manifestação; jathare – no estômago; vishva – dos universos;
ishvare – o controlador; shridhare – o Senhor de Sri; govinde – no Senhor Govinda; kuru –
lugar; chitta – da tua mente; vrttim – as atividades, obras, funcionamento; achalam – sem
desvio; anyaih – outro; tu – oposto; kim – qual é a utilidade; vartanaih – com ocupações.

TRADUÇÃO

Apenas pensa em teu senhor e mantenedor, o Senhor Supremo, que é conhecido como
Narayana e Madhava e que se deita sobre o corpo da serpente Ananta. Ele é o
querido filho de Devaki, o herói dos semideuses, e o Senhor das vacas, e Ele segura
uma concha e o arco Sarnga. Ele é o marido da deusa da fortuna e o controlador de
todos os universos, os quais Ele manifesta de Seu abdômen como um passatempo.
Que irás ganhar por pensar em qualquer outra coisa?

SIGNIFICADO

Nos versos anteriores o Rei Kulasekhara instruiu sua própria mente a ficar fixa nos pés de
lótus de Krishna, e agora ele instrui seus leitores a também fixarem suas mentes Nele. Ele
46

dá alguns dos inúmeros nomes do Senhor, que descrevem Suas qualidades e passatempos.
Devotos são atraídos a servirem um aspecto específico do Senhor Supremo segundo a rasa
específica deles, ou relacionamento amoroso com Ele. Poder-se-á meditar em e servir
qualquer forma fidedigna do Senhor e derivar o mesmo benefício de voltar para Deus.
Enquanto deixava o mundo, o Avô Bhisma, que tinha um relacionamento guerreiro com
Krishna, cantou orações relembrando esse aspecto do Senhor. Orando para que sua mente
se voltasse para Krishna, ele reviu os passatempos guerreiros do Senhor em sua mente:
“Possa Ele, o Senhor Sri Krishna, a Personalidade de Deus, que sempre concede salvação,
ser meu destino final. No campo de batalha Ele arremeteu contra mim, como se estivesse
irado devido aos ferimentos provocados por minhas aguçadas flechas. Seu escudo estava
jogado, e Seu corpo lambuzado de sangue devido aos ferimentos.” (Bhag. 1.9.38).

Neste verso o Rei Kulasekhara nos instrui a alcançar samadhi, ou concentração extática no
Supremo. Yogis tentam alcançar samadhi aperfeiçoando o processo óctuplo de yoga, mas
isso é muito difícil. Quando Krishna recomendou essa prática a Arjuna, este retrucou: “Ó
Madhusudana, o sistema do yoga que resumiste parece imprático e insuportável para mim,
pois a mente é inquieta e inconstante... (Controlar a mente) é mais difícil que controlar o
vento.” (Bg. 6.33-34).

Por contraste, bhakti-yoga é tão fácil que qualquer pessoa pode praticá-la com sucesso.
Uma alma sincera que canta e ouve os santos nomes de Krishna, e também ouve Seus
passatempos e qualidades narrados por devotos auto-realizados, pode progredir aos mais
elevados estágios de concentração com uma facilidade desconhecida pelos seguidores de
outros processos de yoga.

Porque o Rei Kulasekhara acha sem valor todas atividades exceto fixar a mente em
Krishna? Porque todos outros atos e pensamentos são temporários e portanto levam a
infindável enredamento na miséria material. Como Srila Prabhupada escreve em seu
comentário ao Bhagavad-gita: “Não estando em consciência de Krishna, não pode haver
uma meta final para a mente.” Pelos truques do destino e as inexoráveis maquinações do
karma, o que parece auspicioso e feliz num dado momento poderá virar tragédia no
momento seguinte. Tal como o Senhor Supremo, a alma é sac-cid-ananda-vigraha (eterna
e plena de êxtase e conhecimento), e como tal só pode ficar plenamente satisfeita quando
se une em bhakti com o Senhor. Devemos nos juntar a Bhismadeva em orar: “Possam os
pés de lótus Dele sempre permanecer os objetos de minha atração.”

Texto 24

ma draksham kshina-punyam kshanam api bhavato bhakti-hinan padabje


ma shrausam sravya-bandham tava charitam apasyanyad akhyana-jatam
ma smarsham madhava tvam api bhuvana-pate cetasapahnuvanan
ma bhuvam tvat-saparya-vyatikara-rahito janma-janmantare ‘pi

ma draksham – que eu possa não olhar para; kshina – esgotadas; punyam – cujo crédito de
piedade; kshanam – um momento; api – mesmo; bhavatah – Tua; bhakti – devoção; hinan
– destituído de; pada-abje – pelos pés de lótus; ma shrausam – que eu possa não ouvir;
sravya – dignas de serem ouvidas; bandham – composições sobre; tava – Teus; charitam –
passatempos; apasya – colocando de lado; anyat – outros; akhyana – de narrações; jatam –
tópicos; ma smarsham – possa eu não lembrar; madhava – ó Madhava; tvam – Teu; api –
de fato; bhuvana – do mundo; pate – ó senhor; cetasa – mentalmente; apahnuvanan –
aqueles que evitam; ma bhuvam – que eu possa não virar; tvat – Teu; saparya – para o
serviço pessoal; vyatikara – a oportunidade; rahitah – destituído de; janma-janma-antare –
em repetidos nascimentos; api – mesmo.
47

TRADUÇÃO

Ó Madhava, por favor nem sequer me deixe dar uma rápida olhada naqueles cujos
créditos piedosos estão tão esgotados que eles não tem devoção por Teus pés de lótus.
Por favor não me deixe ser distraído de ouvir as dignas narrativas de Teus
passatempos e tornar-me interessado em outros tópicos. Por favor, ó Senhor do
universo, não me deixe prestar atenção naqueles que evitam pensar em Ti. E que eu
nunca seja incapaz de servir-Te de alguma maneira servil, nascimento após
nascimento.

SIGNIFICADO

Como outras orações de Vaisnavas, as do Rei Kulasekhara se caracterizam pela intensidade


unidirecionada. Um crítico poderia dizer que a atitude dele não personifica o “meio
termo” louvado na sabedoria grega. O crítico poderia perguntar: “Que há de errado em às
vezes servir Krishna e às vezes desfrutar da gratificação dos sentidos? Porque ser tão
fanático de evitar até mesmo um rápido olhar em pessoas impiedosas? E porque focalizar-
se exclusivamente na Deidade do Senhor Vishnu?” Estas questões não são para serem
respondidas somente pela razão. A intensidade exclusiva do devoto é ditada pelo amor. É
irrazoável pedir a alguém que ama para se interessar por alguma outra coisa sem ser o ente
amado.

Mas krishna-bhakti não é a loucura de um amante comum. Sri Krishna é a Verdade


Absoluta, a fonte da sabedoria suprema, e como tal, no Bhagavad-gita Ele ensina devoção
unidirecionada a Ele mesmo:

bhaktya tv ananyaya sakya aham evam-vidho ‘rjuna


jñatum drashtum ca tattvena praveshtum cha parantapa

“Meu querido Arjuna, somente pelo serviço devocional indiviso é que posso ser
compreendido como sou, de pé diante de ti, e portanto posso ser visto diretamente.
Somente desta maneira conseguirás entrar nos mistérios de Minha compreensão.” (Bg.
11.54). Além do mais, diferente do “amor” comum, materialista, a devoção unidirecionada
a Krishna não produz indiferença a todas outras pessoas além do ente amado. Enquanto
nesse verso o Rei Kulasekhara expressa seu desejo válido de evitar a associação de não-
devotos, por compaixão um devoto puro irá “dar um olhar rápido” e “prestar atenção em”
não-devotos por causa da pregação.

Quando um devoto de fato se torna plenamente absorvido em Krishna, ele vê o mundo


inteiro como a criação do Senhor e tudo como parte e parcela de Suas energias. Através de
sua devoção exclusiva ao Senhor o devoto se torna um mahatma, uma pessoa de alma
elevada que trabalha para o benefício de todos seres vivos lembrando-os da conecção com
Krishna.

O estágio de consciência de Krishna que o Rei Kulasekhara deseja não é artificial mas é o
estado original do ser vivo. Portanto ele está clamando ao Senhor para invocar Sua
misericórdia para que possa retornar ao estado original, não-distraído, bem-aventurado do
samadhi. No estado condicionado, as almas estão confusas por inúmeras distrações em
nome de necessidades, sofrimentos, e desfrutes, e assim um devoto ora pela remoção
dessas distrações. A linguagem da devoção poderá parecer extrema ao materialista
distraído, porém na realidade é uma oração pelo retorno à sanidade e equilíbrio, um retorno
à eterna servidão do servo eterno do senhor supremo.
48

Texto 25

maj-janmanah phalam idam madhu-kaitabhare


mat-prarthaniya-mad-anugraha esha eva
tvad-bhrtya-bhrtya-paricharaka-bhrtya-bhrtya-
bhrtyasya bhrtya iti mam smara loka-natha

mat – meu; janmanah – do nascimento; phalam – o fruto; idam – este; madhu-kaitabha-


are – ó inimigo de Madhu e Kaitabha; mat – por mim; prarthaniya – orado para; mat – a
mim; anugraha – misericórdia; eshah – este; eva – certamente; tvat – Teu; bhrtya-bhrtya –
do servo do servo; paricharaka – do servo; bhrtya-bhrtya-bhrtyasya – do servo do servo
do servo; bhrtyah – o servo; iti – assim; mam – me; smara – pensa em; loka – do mundo;
natha – ó senhor.

TRADUÇÃO

Ó inimigo de Madhu e Kaistabha, ó Senhor do universo, a perfeição de minha vida e


a mais almejada misericórdia que poderias mostrar-me seria a de me considerares o
servo do servo do servo do servo do servo do servo de Teu servo.

SIGNIFICADO

Este verso é surpreendente pela repetição da palavra “servo” sete vezes. Pode-se quase
imaginar todos servos do Senhor que Kulasekhara deseja servir. Servos diretos do Senhor
Krishna são Srimati Radharani ou o Senhor Balarama e outras gopis e meninos pastores de
vacas. Algumas das gopis e meninos pastores são assistentes dos servos diretos. Entre
estes assistentes estão as mañjaris, que ajudam Radharani a servir Krishna e que, conforme
Ela, experimentam felicidade muito maior que a Dela. Os mestres espirituais Vaisnavas,
especialmente aqueles na madhurya-rasa, servem as gopis, e cada mestre espiritual está
sendo servido por seus discípulos. Na era moderna o Senhor Krishna apareceu como
Senhor Chaitanya, que era servido diretamente pelos seis Goswamis de Vrindavana, e esses
Goswamis também aceitaram discípulos, tais como Krishnadasa Kaviraja, que por sua vez
aceitaram discípulos – e Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada está na
décima primeira geração espiritual dessa Chaitanya-sampradaya. Assim a frase tvad-
bhrtya-bhrtya-paricharaka-bhrtya-bhrtya-brhyasya bhrtyah não só é poesia agradável,
mas é uma descrição acurada do parampara: cada devoto está servindo um servo anterior
do Senhor.

Considerar-se um servo de todos Vaisnavas e colocar a poeira dos pés deles sobre nossa
cabeça não é rebaixar-se; é a melhor maneira de agradar a Suprema Personalidade de Deus,
Senhor Krishna. Prahlada Maharaja disse para seu pai que a não ser que se sirva
humildemente os Vaisnavas e se “tome banho” na poeira dos pés de lótus deles, nunca se
pode obter o serviço devocional a Krishna.

O Rei Kulasekhara diz que se o Senhor conceder esta oração será a demonstração de Sua
mais amada misericórdia. Mas porque ele pede para ficar tantas vezes mais distanciado do
serviço direto? Porque não pedir simplesmente para ser o servo do Senhor? Uma razão é
que o Senhor Supremo não aceita serviço direto sem serviço a Seus servos. Como Krishna
declara no Adi Purana:

ye me bhakta-janah partha na me bhaktas cha te janah


mad bhaktanam cha ye bhaktas te me bhaktatamah matah
49

“Meu querido Partha, aqueles que dizem que são Meus devotos não são Meus devotos,
mas aqueles que afirmam ser devotos de Meus devotos são de fato Meus devotos.”

A principal meta do devoto puro é de agradar seu Senhor adorável, e um Vaisnava sábio
sabe o que irá agradá-Lo mais – tornar-se o servo, muitas vezes distanciado, dos servos
fidedignos do Senhor. É porque os servos de Deus são tão queridos para o Senhor que se
pode agradá-Lo mais agradando a eles. Srila Prabhupada comparou o processo à tentativa
de uma pessoa comum de agradar um homem muito grande. Normalmente um homem
comum não consegue nem se aproximar do grande homem, mas se pela boa fortuna ele é
capaz de agradar o cachorro de estimação do grande homem, então ele consegue
rapidamente obter o favor da pessoa célebre.

Outra razão porque um devoto deseja servir através de outros devotos é que ele é
naturalmente humilde. Ele quer tomar um lugar abaixo, em vez de empurrar se para a
dianteira. Ele quer servir todos devotos, ou mesmo adorar o local onde eles caminharam.
O devoto genuíno não presume imprudentemente que é membro do círculo interno dos
mais queridos do Senhor. O Senhor Chaitanya aconselhou-nos que se realmente desejamos
cantar o santo nome constantemente, devemos considerar-nos “inferiores à palha na rua,
destituídos de todo senso de falso prestígio, e prontos para oferecer todos respeitos a
outros.” Devemos servir não só devotos reconhecidos mas todas entidades vivas, através
de dar-lhes consciência de Krishna.

Texto 26

tattvam bruvanani param parastan


madhu ksharantiva mudavahani
pravartaya prañjalir asmi jihve
namani narayana-gocharani

tattvam – a verdade; bruvanani – que falam; param – supremo; parastat – além de tudo
que é superior; madhu – mel; ksharanti – pingando; iva – como se; muda – alegria;
avahani – trazendo; pravartaya – por favor recite; prañjalih – com palmas juntas; asmi –
eu sou; jihve – ó língua; namani – os nomes; narayana-gocharani – que se referem ao
Senhor Narayana.

TRADUÇÃO

Minha querida língua, estou de pé diante de ti com as palmas unidas e imploro para
que recites os nomes do Senhor Narayana. Estes nomes descrevendo a Suprema
Verdade Absoluta trazem grande prazer, como se exsudassem mel.

SIGNIFICADO

De início nossas línguas poderão ter má vontade de cantar os nomes do Senhor.


Descrevendo o cantor neófito, Srila Bhaktivinoda Thakura declara: “Alguns apenas
suportam a carga; outros apreciam o verdadeiro valor das coisas.” Srila Rupa Goswami
também reconhece a condição do iniciante e o encoraja a seguir com seu cantar mesmo
embora pareça seco e desagradável: “O santo nome, caráter, passatempos, e atividades de
Krishna são todos transcendentalmente doces como açúcar cande. Embora a língua de
alguém afligido pela icterícia de avidya, ignorância, não consiga saborear qualquer coisa
doce, é maravilhoso que se aquela pessoa simplesmente canta esses doces nomes
cuidadosamente todo dia, um prazer natural desperta em sua língua, e sua doença
gradualmente é destruída na raiz.” (Néctar da Instrução 7).
50

Também poderemos nos encorajar com o exemplo de Namacharya Haridasa Thakura.


Embora nascido numa família muçulmana, ele recebeu a misericórdia do santo nome e
começou a cantar Hare Krishna constantemente. Desta maneira ele alcançou a mais alta
perfeição do amor por Deus. Na verdade, ele era um devoto tão exaltado que o próprio
Senhor Chaitanya louvou-o “como se falasse através de cinco bocas.” Não conseguimos
imitar Haridasa Thakura, mas é encorajador sabermos que embora se possa ter um
nascimento inferior, pode-se vencer todos obstáculos pela misericórdia do santo nome.
Além do mais, Haridasa Thakura sempre permanecia muito humilde e queria permanecer
consciente de suas desqualificações materiais. Ele portanto não queria se associar por
demais intimamente com o Senhor Chaitanya, e não tentava entrar no templo de
Jagannatha Puri. Cultivar humildade no humor de Haridasa Thakura é um requisito
absoluto para quem deseja provar o néctar do santo nome e cantar constantemente.

O mel dentro do santo nome é a lembrança de Krishna. É por isso que cantar o nome traz
êxtase. Como Srila Prabhupada escreve: “Quanto mais se canta os nomes de Krishna,
mais se fica apegado. Assim serviço através de shravana e kirtana, ouvir e cantar sobre
Krishna, é o início. O processo seguinte é smarana – sempre lembrar de Krishna. Quando
se fica perfeito em ouvir e cantar, sempre se lembra de Krishna. Neste terceiro estágio
vira-se o maior yogi.” (Um Presente Inigualável, p.89). Quer estejamos ainda no estágio
do início de bhakti, afligidos por avidya, ou quer estejamos começando a apreciar “o
verdadeiro valor das coisas,” vamos todos continuar cantando os santos nomes do Senhor.
E vamos saborear versos dos devotos autorizados que nos falam do mel no santo nome,
tais como este de Srila Sanatana Goswami:

jayati jayati namananda-rupam murarer


viramita-nija-dharma-dhyana-pujadi-yatnam
katham api sakrd attam mukti-dam praninam yat
paramam amrtam ekam jivanam bhushanam me

“Todas as glórias ao totalmente bem-aventurado santo nome de Sri Krishna, que causa que
o devoto abandone todos deveres religiosos convencionais, meditação e adoração. Quando
de alguma maneira ou outra é pronunciado mesmo uma só vez por uma entidade viva, o
santo nome lhe concede liberação. O santo nome de Krishna é o mais elevado néctar. Ele
é minha própria vida e meu único tesouro.” (Brhad-bhagavatamrta 1.9).

Texto 27

namami narayana-pada-pañkajam
karomi narayana-pujanam sada
vadami narayana-nama nirmalam
smarami narayana-tattvam avyayam

namami – ofereço reverências; narayana – do Senhor Narayana; pada-pañkajam – aos pés


de lótus; karomi – eu faço; narayana – do Senhor Narayana; pujanam – adoração; sada –
sempre; vadami – eu falo; narayana – do Senhor Narayana; nama – o nome; nirmalam –
livre da contaminação; smarami – eu lembro; narayana – de Narayana; tattvam – verdade;
avyayam – infalível.

TRADUÇÃO

A cada momento, curvo-me diante dos pés de lótus de Narayana, realizo adoração a
Narayana, recito o puro nome de Narayana, e reflito na verdade infalível de
Narayana.
51

SIGNIFICADO

Poderíamos nos perguntar: Será que isso é um exagero ou talvez uma expressão do
pensamento desejado? A resposta é não, este verso descreve uma experiência prática do
Rei Kulasekhara, um devoto puro. Além do mais, tal absorção em vários serviços ao
Senhor é possível não só para o Rei Kulasekhara, mas para todos devotos sinceros. Tal
ocupação vinte e quatro horas por dia no serviço do Senhor raramente é possível de
imediato, porém podemos nos encorajar com as palavras do Senhor Krishna no Bhagavad-
gita (12.9): “Se não podes fixar tua mente em Mim sem desvios, então siga os princípios
regulativos de bhakti-yoga. Desta maneira desenvolva o desejo de alcançar-Me.”

O Rei Kulasekhara primeiro declara, namami: “Ofereço reverências.” Isto se refere a


curvar-se perante o Senhor fisicamente e mentalmente, assim orando a Ele com todo nosso
ser para sermos colocados, como disse o Senhor Chaitanya, como “um átomo aos pés de
lótus (Dele).” Oferecemos reverências porque reconhecemos a inconcebível grandeza do
Senhor Supremo, e imploramos pela consciência de nossa pequenez e dependência Dele.
Fora seguir os princípios regulativos do serviço devocional, devemos tomar tempo
regularmente para ir além da atividade mecânica dos deveres religiosos, além de todos
papéis que possamos desempenhar em nossa família e em nossa instituição religiosa, e
tentar relembrar que na realidade somos servos eternos do Senhor Supremo e de todas
entidades vivas.

O pregador da consciência de Krishna deve oferecer reverências mentais aos recebedores


de sua mensagem. O Senhor Chaitanya aconselhou Seus seguidores, yare dekha tare kaha
krishna-upadesha: “Transmitam os ensinamentos de Krishna a quem quer que
encontrem.” (Cc. Madhya 7.128). Ao executar esta ordem estamos oferecendo humildes
reverências ao Senhor dentro de todas entidades vivas.

O Rei Kulasekhara diz que ele recita o nome de Narayana a cada momento. Srila
Prabhupada aconselhou seus seguidores a fazerem o mesmo. “No nosso movimento de
consciência de Krishna estamos ensinando nossos seguidores a cantarem o mantra Hare
Krishna continuamente em contas. Mesmo aqueles que não estão acostumados a esta
prática são aconselhados a cantarem pelo menos dezesseis voltas nas contas a fim de que
possam ser treinados... Sada significa “sempre.” Haridasa Thakura diz nirantara nama
lao: “Cante o Hare Krishna mantra sem parar.” (Cc. Antya 3.139, significado).

Para cantar o tempo todo a pessoa tem que seguir o conselho do Senhor Chaitanya – pensar
em si mesma como sendo mais baixa que a palha na rua e oferecer todos respeitos aos
outros. Desta maneira combinamos o recitar dos nomes do Senhor e oferecer reverências.
Uma pessoa que não oferece respeitos a Deus e a todas criaturas de Deus, que tem orgulho
de suas aquisições materiais, não consegue clamar por Deus sinceramente. Mesmo se de
fato ocasionalmente canta o nome do Senhor, não faz com complacência. Um devoto que
percebe sua situação atual de dependência de Krishna, clama o nome do Senhor da maneira
que uma criança clama por sua mãe. E conforme declarado nos versos anteriores, tal
cantador saboreia néctar sem precedentes no santo nome.

O Rei Kulasekhara também reflete sobre a infalível verdade de Narayana. A conclusão


(siddhanta) referente a ciência da Suprema Personalidade de Deus é recebida das
escrituras, do guru, e dos sadhus autorizados. Deve-se regularmente ler e ouvir o Srimad-
Bhagavatam, o Bhagavad-gita, o Chaitanya-charitamrta, e obras Vaisnavas similares, e
deve-se também ouvir devotos realizados explicá-los. Quem assim fizer eventualmente
será capaz de ver todos eventos de uma maneira consciente de Krishna. Isto é chamado de
shastra-chaksur, ver o mundo com a visão obtida através do conhecimento escritural.
52

E assim o Rei Kulasekhara ofereceu quatro atividades que devem consumir todo nosso
tempo sem distração: oferecer reverências ao Senhor, adorá-Lo, cantar os santos nomes
Dele, e pensar nas verdades conclusivas referentes a Ele. Estas práticas estão incluídas no
processo nonuplo do serviço devocional que Prahlada Maharaja descreve no Sétimo Canto
do Srimad-Bhagavatam (7.5.23). Assim, quer se execute as atividades que o Rei
Kulasekhara aqui recomenda ou se adicione aquelas que Prahlada Maharaja recomenda –
orar, adorar a Deidade, tornar-se amigo do Senhor, e assim por diante – a pessoa pode se
movimentar de uma atividade para outra, de um pensamento a ouro, e no entanto
permanecer dentro da energia interna, espiritual do Senhor Narayana. Tal devoto
plenamente consciente de Krishna no momento da morte irá se transferir para o mundo
espiritual, onde irá prestar maiores serviços na companhia bem-aventurada do Senhor e
Seus associados íntimos.

Textos 28-29

shri-natha narayana vasudeva


shri-krishna bhakta-priya chakra-pane
shri-padmanabhachyuta kaitabhare
shri-rama padmaksha hare murare

ananta vaikuntha mukunda krishna


govinda damodara madhaveti
vaktum samartho ‘pi na vakti kashchid
aho jananam vyasanabhimukhyam

shri-natha – ó Senhor da deusa da fortuna; narayana – ó refúgio de todas entidades vivas;


vasudeva – ó supremo proprietário; shri-krishna – ó Krishna, filho de Devaki; bhakta –
para com Teus devotos; priya – ó Tu que estás favoravelmente disposto; chakra – a arma
do disco; pane – ó Tu que seguras em Tua mão; shri – divino; padma-nabha – ó Tu de
Cujo umbigo cresce um lótus; achyuta – infalível; kaitabha-are – ó inimigo de Kaitabha;
shri-rama – ó abençoado Rama; padma-aksha – ó ser de olhos de lótus; hare – ó
removedor do infortúnio; mura-are – ó inimigo de Mura; ananta – ó ser ilimitado;
vaikuntha – ó Senhor do reino espiritual; mukunda – ó ser que concede liberação; krishna
– ó Krishna; govinda – ó senhor das vacas; damodara – ó Tu que fostes amarrado como
punição por Tua mãe; madhava – ó Senhor da deusa suprema; iti – assim; vaktum – falar;
samarthah – capaz; api – embora; na vakti – não se diga; kashchit - qualquer coisa; aho –
ah; jananam –das pessoas; vyasana – rumo ao perigo; abhimukhyam – a inclinação.

TRADUÇÃO

Ó Srinatha, Narayana, Vasudeva, divino Krishna, ó bondoso amigo de Teus devotos!


Ó Chakrapani, Padmanabha, Achyuta, Kaitabhari, Rama, Padmaksha, Hari,
Murari! Ó Ananta, Vaikuntha, Mukunda, Krishna, Govinda, Damodara, Madhava!
Embora todas pessoas possam chamar-Te, ainda assim elas permanecem silenciosas.
Vejam só como estão ávidas por seu próprio risco!

SIGNIFICADO

A Suprema Personalidade de Deus manifesta inúmeras qualidades inconcebíveis, e para


lembrar e glorificar estas qualidades Seus devotos dirigem-se a Ele por incontáveis nomes.
Esses nomes por si mesmos estão plenamente investidos com o poder do Senhor. Como
declara o Senhor Chaitanya em seu Shikshastaka (2), namnam akari bahudha nija-sarva-
shaktis tatrarpita nityamitah smarane na kalah: “Ó meu Senhor, ó Suprema Personalidade
de Deus, em Teu santo nome existe toda boa fortuna para a entidade viva, e portanto tens
53

muitos nomes, tais como Krishna e Govinda, através dos quais Te expandes. Investiste
todas Tuas potências nesses nomes, e não há regras rígidas e duras para cantá-los.”

Sri Yamunacharya, que apareceu na mesma sampradaya que o Rei Kulasekhara, compôs
um verso lamentando que embora o Senhor seja plenamente acessível através de Seus
muitos nomes e qualidades, os não devotos não se aproximam Dele, e assim eles provocam
sua própria destruição. No Bhagavad-gita (7.15), o Senhor Krishna resume os tipos de
pessoas que não se rendem a Ele:

na mam duskrtino mudhah prapadyante naradhamah


mayayapahrta-jñana asuram bhavam ashritah

“Aqueles descrentes que são grosseiramente tolos, que são os mais baixos dentre a
humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão, e que participam da natureza ateísta
dos demônios, não se rendem a Mim.”

Como Sua Divina Graça Srila Prabhupada viajava mundialmente divulgando o movimento
para consciência de Krishna, ele notou que a maioria das pessoas não conseguia entender
os mais simples rudimentos do conhecimento transcendental. A primeira lição do
conhecimento espiritual é que o eu não é o corpo mas sim a alma, e que portanto a alma é a
coisa verdadeiramente importante. Porém nos países ocidentais, mesmo entre a elite
erudita, as pessoas não comprendem a natureza da alma, e portanto elas falham em
compreender a real missão da vida humana – compreender Deus. Quem não consegue
compreender a alma não pode compreender Deus, pois a alma é uma partícula diminuta de
Deus, e ao falhar em comprender a partícula, falha-se em comprender o todo. Em vez de
até tentar entender a alma espiritual, a maioria das pessoas ignoram ela, ou pior, negam sua
existência inteiramente. E cientistas ateus encorajam as pessoas na ignorância delas,
propalando a teoria de que a vida surge da matéria. Srila Prabhupada condenou esta teoria
ateísta e expôs o fato de que não podia ser provada. Assim ele disse que países civilizados,
especialmente no ocidente, estavam vivendo num paraíso de tolos.

O Rei Kulasekhara aponta que ao ignorarmos Deus e Seus muitos nomes e atividades
corremos risco. Este perigo não é só individual mas coletivo. Materialistas tentam viver
num paraíso tecnológico, mas o paraíso se perde quando irrompe a guerra ou ocorrem
outras calamidades. Embora Srila Prabhupada apontasse que tolos se tornam zangados
quando chamados de tolos, nunca ele hesitou em corajosamente criticar os tolos
materialistas em seus livros e palestras. Mas ele não apenas criticava: oferecia os
ensinamentos e o exemplo que pode trazer alívio ao mundo inteiro. Ele ensinava os
membros de sua Sociedade Internacional para Consciência de Krishna a viverem de uma
maneira que deixa amplo tempo para o avanço espiritual. A Sociedade destina-se a ser um
exemplo para o muno inteiro, uma comunidade cujos membros reduziram seus problemas
e estão simplesmente interessados em viver uma vida centralizada em Deus.

Embora os quatro tipos de pessoas não-rendidas que Krishna menciona no Bhagavad-gita


não estejam interessadas em render-se a Ele, os devotos continuam seus esforços,
satisfeitos por dar o exemplo que o mestre espiritual deles pediu e ajudar almas
condicionadas onde for possível.

Texto 30

bhaktapaya-bhujanga-garuda-manis trailokya-raksha-manir
gopi-lochana-chatakambuda-manih saundarya-mudra-manih
yah kanta-mani-rukmini-ghana-kucha-dvandvaika-bhusha-manih
shreyo deva-sikkha-manir dishatu no gopala-chuda-manih
54

bhakta – os devotos Dele; apaya – que leva embora; bhuja-anga – Cujos braços; garuda –
cavalgando na grande ave Garuda; manih – a jóia; trai-lokya – dos três mundos; raksha –
para proteção; manih – a jóia; gopi – das moças pastoras de vacas; lochana – dos olhos;
chataka – para os pássaros chataka; ambuda – das nuvens; manih – a jóia; saundarya –
exibindo beleza; mudra – dos gestos; manih – a jóia; yah – que; kanta – das consortes;
mani – que é a jóia; rukmini – de Rukmini; ghana – cheios; kucha-dvandva – dos dois
seios; eka – a única; bhusha – decorativa; manih – jóia; shreyah – benefício máximo; deva
– dos semideuses; sikkha-manih – a jóia da coroa; dishatu – possa Ele conceder; nah – a
nós; gopala – dos pastores de vacas; chuda-manih – a jóia da crista.

TRADUÇÃO

Ele é a jóia cavalgando o dorso de Garuda, que carrega embora os devotos do Senhor
em suas asas. Ele é a mágica jóia que protege os três mundos, a nuvem semelhante a
uma jóia que atrai os olhos de pássaro chataka das gopis, e a jóia dentre todos que
gesticulam graciosamente. Ele é o único ornamento de jóias sobre os amplos seios da
Rainha Rukmini, que ela mesma é a jóia das amadas consortes. Possa essa jóia real
de todos deuses, o melhor dos pastores de vacas, nos conceder a suprema benção.

SIGNIFICADO

Neste verso o Rei Kulasekhara nos dá vislumbres do Senhor Krishna em algumas de Suas
várias lilas. Em cada exemplo, o Senhor é descrito como mani, uma jóia. Como uma jóia,
Ele é auto-refulgente, muito belo, e altamente valioso.

Sem uma jóia, um engaste de anel parece vazio, e assim é com Garuda, que sem Krishna
não teria nenhuma importância extraordinária, embora seja uma ave grande e poderosa.
Sem Krishna, os olhos das gopis não teriam lugar para descansar e nada para ver, assim
como um pássaro chataka permanece inquieto até que vê uma nuvem portadora de chuva e
vida. Como o Senhor Chaitanya diz dentro do humor de uma gopi: “O mudo inteiro parece
vazio sem Ti.” Na ausência de Krishna, os deuses estariam sem sua jóia que encima todas,
e o próprio valor deles cairia. Assim o Senhor Krishna é a figura absolutamente essencial
em Sua própria lila no mundo espiritual, bem como em todas operações dos mundos
materiais. Como Ele declara no Bhagavad-gita (7.7) “Tudo repousa em Mim, como
pérolas ensartadas num cordão.”

Quando uma alma emprega mal seu livre arbítrio, tenta se tornar o centro da existência e
pensa que pode continuar sem Krishna. Este erro é ilustrado pela história de Satrajit, que
uma vez possuiu uma jóia maravilhosa chamada Shyamantaka, a qual ele usava num
medalhão ao redor do pescoço. Quando Satrajit entrou em Dvaraka, Krishna pediu a ele
para entregar a jóia ao rei, Ugrasena. Mas em vez disso Satrajit instalou a jóia num
templo, adorou-a, e auferia 170 libras de ouro diariamente. Devido a sua afirmação de que
a jóia não pertencia a Krishna, o Rei Satrajit e sua família sofreram de muitas maneiras. O
rei encontrou a paz somente quando percebeu que a Shyamantaka devia ser dada para a
jóia suprema, o Senhor Krishna. E assim ele deu ambas, a jóia e sua filha, Satyabhama,
para o Senhor.

Texto 31

shatru cchedaika-mantram sakalam upanishad-vakya-sampujya-mantram


samsaroccheda-mantram samucita-tamasah sangha-niryana-mantram
sarvaishvaryaika-mantram vyasana-bhujaga-sandashta-santrana-mantram
jihve-sri-krishna-mantram japa japa satatam janma-saphalya-mantram
55

shatru - inimigos; ccheda – para destruir; eka – o único; mantram – canto místico;
sakalam – inteiro; upanishat – dos Upanishads; vakya – as palavras; sampujya – adorado;
mantram – o canto místico; samsara – o ciclo de nascimento e morte; uccheda – que
desenraiza; mantram – o canto místico; samucita – acumulado; tamasah – da escuridão;
sangha – a massa; niryana – para afastar; mantram – o canto místico; sarva – todos;
aishvarya – para opulência; eka – o único; mantram – canto místico; vyasana – dos desejos
materiais; bhujaga – pela serpente; sandashta – aqueles que foram mordidos; santrana –
salvando; mantram – o canto místico; jihve – ó minha língua; sri-krishna – de Sri Krishna;
mantram- o canto místico; japa japa – por favor cante repetidamente; satatam – sempre;
janma – do nascimento da pessoa; saphalya – para o sucesso; mantram – o canto místico.

TRADUÇÃO

Ó língua, por favor constantemente canta o mantra composto dos nomes de Krishna.
Este é o único mantra para destruir todos inimigos, o mantra adorado por cada
palavra dos Upanishads, o mantra que desenraiza samsara, o mantra que afasta toda
escuridão da ignorância, o mantra para se alcançar infinita opulência, o mantra para
curar aqueles que foram mordidos pela serpente venenosa do sofrimento mundano, e
o mantra para tornar nosso nascimento neste mundo bem sucedido.

SIGNIFICADO

Um mantra é uma vibração sonora que libera a mente da ilusão. Quando uma pessoa canta
um mantra consistindo dos nomes do Senhor, sua mente é liberada da aflição e ela chega
ao estado de paz transcendental em consciência de Deus. Dentre todos estes mantras,
entretanto, aquele que o Rei Kulasekhara recomenda é o krishna-mantra – em outras
palavras, composto dos nomes de Krishna. Um destes é o Hare Krishna maha-mantra, que
o Senhor Chaitanya cantava e que os Upanishads proclamam como melhor mantra para
Kali-yuga:

hare krishna hare krishna krishna krishna hare hare


hare rama hare rama rama rama hare hare

iti sodashakam namnam kali-kalmasha-nashanam


natah parataropayah sarva-vedeshu drshyate

“Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama,
Rama Rama, Hare Hare. Estes dezesseis nomes compostos de trinta e duas sílabas são o
único meio de contra-agir os maus efeitos da Kali-yuga. Após procurar por toda literatura
védica, não se consegue encontrar um método de religião para esta era tão sublime como o
cantar do Hare Krishna mantra.” (Kali-santarana Upanishad).

O Rei Kulasekhara declara que o krishna-mantra destrói os inimigos da pessoa.


Encontramos uma confirmação disso na história de Ajamila, que cantou o nome Narayana
e foi protegido dos agentes da morte. Noutra parte, o Srimad-Bhagavatam declara:

apannah samsrtim ghoram yan-nama vivasho grnan


tatah sadyo vimuchyeta yad bibheti svayam bhayam

“Entidades vivas que estão enredadas nas complicadas tramas de nascimento e morte
podem ser liberadas imediatamente até mesmo por inconscientemente cantarem o santo
nome de Krishna, que é temido pelo medo personificado.” (Bhag. 1.1.14). Também, cantar
56

o santo nome de Krishna destrói os seis inimigos mentais: luxúria, ira, cobiça, ilusão,
loucura, e inveja.

Em seguida o Rei Kulasekhara diz que o krishna-mantra é adorado através de todos


Upanishads. Na sua maior parte, os Upanishads descrevem a forma pessoal do Senhor
indiretamente, no entanto eles sempre apontam para Krishna. Srila Rupa Goswami revela
este significado interno dos Upanishads em seu Namastaka (1):

nikhila-shruti-mauli-ratna-mala-
dyuti-nirajita-pada-pankajanta
ayi nukta-kulair upasyamanam
paritas tvam hari-nama samshrayami

“Ó Hari-nama! As pontas dos dedos de Teus pés de lótus estão constantemente sendo
adoradas pela refulgente irradiação emanando do cordão de gemas conhecido como os
Upanishads, as jóias reais de todos os Vedas. És eternamente adorado pelas almas
liberadas como Narada e Sukadeva. Ó Hari-nama! Tomo completo refúgio em Ti.”

O krishna-mantra também desenraiza samsara. O Senhor Chaitanya confirma isso em Seu


Shikshastaka (1), onde Ele declara: bhava-maha-davagni-nirvapanam, “O cantar
congregacional do Hare Krishna mantra extingue o ardente fogo dos repetidos nascimentos
e mortes.” O krishna-mantra também é mui eficaz para afugentar a escuridão da
ignorância. Como diz o Senhor Chaitanya no mesmo verso, vidya-vadhu-jivanam:
“Cantar Hare Krishna é a vida e a alma do conhecimento transcendental.” Também, o
segundo verso do Chaitanya-charitamrta compara o Senhor Chaitanya e o Senhor
Nityananda, os principais propagadores do cantar dos nomes de Krishna, ao sol e a lua:
“Eles surgiram simultaneamente no horizonte de Gauda (Bengala) para dissipar a
escuridão da ignorância e assim maravilhosamente conceder a benção a todos.”
Elaborando esse ponto, Srila Krishnadasa Kaviraja nos informa que o sol e a lua material
são capazes de dissipar a escuridão do mundo externo, “mas estes dois irmãos (Senhor
Chaitanya e Senhor Nityananda) dissipam a escuridão do âmago mais íntimo do coração e
assim nos auxiliam a encontrar com dois tipos de bhagavatas (pessoas ou coisas
relacionadas com a Suprema Personalidade de Deus)” (Cc. Adi 1. 98)

O Rei Kulasekhara glorifica o krishna-mantra como aquele que concede a infinita


opulência. A coisa mais valiosa, até mais valiosa que a pedra chintamani deste mundo, é o
amor por Deus. “Simplesmente cantar o Hare Krishna maha-mantra sem ofensas subjuga
toda atividade pecaminosa. Assim o serviço devocional puro, que é a causa do amor por
Deus, se torna manifesto.” (Cc. Adi 8.26)

O Rei Kulasekhara também louva o krishna-mantra como um tipo de remédio que alivia o
sofrimento daqueles que foram mordidos pela serpente da aflição material. Na canção
Arunodaya-kirtana de Srila Bhaktivinoda Thakura, o Senhor Chaitanya fala para as
pessoas do mundo: “Eu trouxe o remédio para destruir a ilusão de Maya. Agora orem por
este hari-nama maha-mantra e tomem-no.”

Texto 32

vyamoha-prashamaushadham muni-mano-vrtti-pravrtty-aushadham
daityendrarti-karaushadham tri-bhuvane sañjivanaikaushadham
bhaktatyanta-hitaushadam bhava-bhaya-pradhvamsanaikaushadham
shreyah-prapti-karaushadham piba manah shri-krishna-divyaushadham
57

vyamoha – total confusão; prashama – para subjugar; aushadham – o remédio de ervas;


muni – dos sábios; manah – das mentes; vrtti – o funcionamento; pravrtti – que inicia;
aushadham – o remédio; daitya – dos descendentes demoníacos de Diti; indra – para os
líderes; arti – sofrimento; kara – que causa; aushadham – o remédio; tri-bhuvane – dentro
dos três mundos; sañjivana – para trazer os mortos de volta à vida; eka – o único;
aushadham – remédio; bhakta – dos devotos do Senhor; atyanta – absoluto; hita – para
benefício; aushadam – o remédio; bhava – da existência material; bhaya – temor;
pradhvamsana – para destruir; eka – o único; aushadham – remédio; shreyah – do
supremo bem; prapti – obtenção; kara – que efetua; aushadham – o remédio; piba –
apenas beba; manah – ó mente; shri-krishna – do Senhor Krishna; divya – transcendental;
aushadham – a erva medicinal.

TRADUÇÃO

Ó mente, por favor beba o remédio transcendental das glórias de Sri Krishna. É o
remédio perfeito para curar a doença do desnorteamento, para inspirar sábios a
ocuparem suas mentes na meditação, e para atormentar os poderosos demônios
Daityas. Somente ele é que é o remédio para retrazer a vida aos três mundos e para
conceder ilimitadas bençãos aos devotos do Senhor Supremo. De fato, é o único
remédio que pode destruir nosso medo da existência material e nos levar a alcançar o
supremo bem.

SIGNIFICADO

Meu colega Gopiparanadhana Prabhu aponta: “Mani, mantra, e aushadha (jóias, mantras,
e remédio) frequentemente são agrupados juntos pelos filósofos védicos como exemplos de
coisas neste mundo que possuem achintya-shakti (energia inconcebível).” Como a
Suprema Personalidade de Deus e Suas energias são inconcebíveis, é compreensível
porque os poetas e filósofos O comparam a jóias e remédio e louvam os maravilhosos
poderes dos mantras compostos dos nomes Dele.

Além de jóias, mantras, e remédios, todo ser vivo na criação possui achintya-shakti até
certo grau. Embora seres humanos frequentemente considerem-se as mais poderosas de
todas criaturas de Deus, muitas criaturas inferiores possuem capacidades bem além
daquelas dos humanos. Por exemplo, a grama em crescimento suporta ser pisoteada e
permanece ao relento de noite mesmo no tempo congelante sem um protesto. Um ser
humano não é tão tolerante. Sapos possuem uma inconcebível capacidade de manter suas
vidas mesmo quando enterrados sob a terra. Beija-flores e insetos são máquinas voadoras
tão sofisticadas que conseguem sobrepujar de muitas maneiras os aviões em termos de
manobras aéreas. Embora cientistas tendam a pensar no seu próprio trabalho como
desmistificar os segredos do universo, admitem que a natureza em seu nível mais básico
permanece inconcebível.

A presença de achintya-shakti tanto nos menores como nos maiores aspectos do universo
devia levar-nos a perguntar: Quem é a fonte da energia inconcebível? Essa fonte é
descrita no Brahma-samhita como a achintya-rupa, ou forma inconcebível, do Senhor
Govinda, a Suprema Personalidade de Deus.

O processo de bhakti-yoga também é inconcebível. Toda pessoa suficientemente


afortunada para assumir o processo da consciência de Krishna pode atestar a potência
inconcebível do remédio do serviço devocional. Embora possamos ter tentado abandonar
os vícios antes de encontrar a consciência de Krishna, não conseguíamos fazê-lo por muito
tempo. Mas assim que começamos a servir Krishna e o devoto puro e cantar os santos
58

nomes do Senhor, o “impossível” era facilmente conseguido. A energia inconcebível que


provoca essas mudanças se chama krishna-shakti.

Pela graça do Senhor Supremo, um devoto puro possui esta krishna-shakti, e quando ele
canta o santo nome ou fala sobre Krishna, o potente som entra na consciência do ouvinte
receptivo e o purifica. Por contraste, quando um não-devoto fala de Krishna ou canta o
nome Dele, o efeito no ouvinte não é purificante mas venenoso. Só quem está diretamente
empoderado pelo Senhor Supremo consegue espalhar consciência de Krishna através de
krishna-shakti. Assim, somente a partir dos devotos puros é que conseguimos receber a
jóia, mantra, ou remédio do serviço devocional, pelo qual poderemos derivar os
inconcebíveis benefícios do amor por Deus.

Texto 33

krishna tvadiya-pada-pankaja-pañjarantam
adyaiva me vishatu manasa-raja-hamsah
prana-prayana-samaye kapha-vata-pittaih
kanthavarodhana-vidhau smaranam kutas te

krishna – ó Senhor Krishna; tvadiya – Teus; pada – pés; pankaja – flor de lótus; pañjara –
a rede; antam – a beirada; adya – agora, neste momento; eva – certamente; me – meu;
vishatu – possa entrar; manasa – mente; raja – real; hamsa – cisne; prana-prayana –da
morte; samaye – na hora; kapha – muco; vata – ar; pittaih – e com bílis; kantha – garganta;
avarodhana-vidhau – quando estiver sufocada; smaranam - lembrança; kutah - como é
possível; te – de Ti.

TRADUÇÃO

Ó Senhor Krishna, neste momento que o cisne real da minha mente possa entrar nos
caules emaranhados de Teus pés de lótus. Como será possível para mim lembrar de
Ti na hora da morte, quando minha garganta estará sufocada de muco, bílis e ar?

SIGNIFICADO

De todos versos do Mukunda-mala-stotra, este é o mais amado por Srila Prabhupada. Ele
o citava frequentemente e o cantava como bhajana. Num dos primeiros álbuns gravados
por Sua Divina a ser produzido, ele cantava este sloka como uma canção completa.
Devotos que serviam Srila Prabhupada frequentemente ouviam-no cantá-lo enquanto
tratava de suas atividades diárias, ou às vezes sozinho em seu quarto. Também o citava
muitas vezes em seus significados. Aqui ele o explica no significado ao segundo verso do
Capítulo Oito de seu Bhagavad-gita Como Ele É, com referência à palavra prayana-kala,
que tem o mesmo significado que prana-prayana samaye no verso de Kulasekhara:

Agora, a palavra prayana-kale neste verso (do Bhagavad-gita) é muito significante


porque a despeito do que quer que façamos nesta vida, seremos testados na hora da morte.
Arjuna está muito ansioso para saber sobre aqueles que estão constantemente ocupados na
consciência de Krishna. Qual deverá ser a posição deles naquele momento final? Na hora
da morte todas funções corpóreas estão atrapalhadas, e a mente não está numa condição
adequada. Assim perturbada pela situação corpórea, a pessoa pode não ser capaz de
lembrar do Senhor Supremo. Maharaja Kulasekhara, um grande devoto, ora: “Meu
querido Senhor, ainda agora estou bastante saudável, e é melhor que eu morra
imediatamente para que o cisne de minha mente possa procurar a entrada junto ao caule de
Teus pés de lótus.” A metáfora é usada porque o cisne, uma ave da água, sente prazer em
ficar cavando nas flores de lótus; sua tendência brincalhona é de entrar na flor de lótus.
59

Maharaja Kulasekhara diz para o Senhor: “Agora minha mente não está perturbada, e
estou bastante saudável. Se eu morrer imediatamente, pensando em Teus pés de lótus,
então tenho certeza de que minha execução do Teu serviço devocional irá tornar-se
perfeita. Mas se eu tiver que esperar pela minha morte natural, então não sei o que irá
acontecer, porque nessa hora as funções corpóreas irão estar atrapalhadas, minha garganta
estará sufocada, e não sei se irei ser capaz de cantar Teu nome. Melhor deixar-me morrer
imediatamente.”

Mais tarde no Oitavo Capítulo o Senhor Krishna diz que o momento exato da morte é
crucial: “Qualquer estado de ser que se lembre ao deixar seu corpo... esse estado irá ser
obtido sem falha.” (Bg. 8.6). E nos seus significados Srila Prabhupada repetidamente
recomenda cantar o Hare Krishna mantra como o melhor processo para lembrar de Krishna
na hora da morte e transferir-se com sucesso para o mundo espiritual.

A dificuldade prática, levantada no verso de Kulasekhara, é que embora seja crucial


lembrar de Krishna na hora da morte, esse momento também produz a maior atrapalhação
das funções físicas e mentais da pessoa. Srila Prabhupada explicou que a morte ocorre
quando o corpo se torna tão doloroso que a alma acha insuportável viver no corpo por mais
tempo. Portanto o paradoxo: Na hora em que devíamos ficar mais meditativos, fixando
nossa mente em Krishna e preparando-nos para transferir-nos para o mundo espiritual,
também enfrentamos a maior distração possível na forma de dor agonizante. Assim aqui o
Rei Kulasekhara ora para morrer agora, com boa saúde, para que ele seja capaz de absorver
sua mente em pensamentos dos pés de lótus de Krishna.

Os acharyas nos asseguraram que a essência da consciência de Krishna são nossas


atividades e sentimentos devocionais da vida inteira. Krishna não irá desqualificar ou
descontar nossas atividades devocionais acumuladas devido a um acesso epiléptico de
último momento ou súbita falha cardíaca. Não obstante, devemos sempre praticar cantar
Hare Krishna a fim de que sejamos capazes de “passar no teste” ao final.

No Ishopanishad (17), um devoto pede ao Senhor: “(No momento de minha morte,) por
favor lembre de tudo que fiz para Ti.” Em seu significado Srila Prabhupada nos informa
que Krishna não tem que ser lembrado; Ele é a testemunha dentro de nosso coração, e Ele
também deseja – mais do que nós – que retornemos para Ele, de volta para Deus.
Considerando o trauma da morte e as perigosas artimanhas do destino, entretanto,
Maharaja Kulasekhara ora para que ele possa morrer imediatamente em vez de ter de
esperar pela velhice, quando ele poderá esquecer de Krishna na agonia das dores de sua
morte.

Texto 34

cetash chintaya kirtayasva rasane namri-bhava tvam shiro


hastav añjali-samputam rachayatam vandasva dirgham vapuh
atman samshraya pundarika-nayanam nagachalendra-sthitam
dhanyam punya-tamam tad eva paramam daivam hi sat-siddhaye

cetah – ó mente; chintaya – por favor pense; kirtayasva – por favor glorifique; rasane – ó
língua; namri – encurvada; bhava – tornar-se; tvam – tu; shirah - ó cabeça; hastau – ó
mãos; añjali-samputam – palmas justapostas em súplica; rachayatam – por favor faça;
vandasva – por favor ofereça reverências; dirgham – esticadas; vapuh – ó corpo; atman – ó
coração; samshraya – tome pleno refúgio; pundarika – tal como os lótus; nayanam –
Daquele Cujos olhos; naga – em cima da serpente; achala – das montanhas; indra – como
o rei; sthitam – sentado; dhanyam – todo auspicioso; punya-tamam – supremamente
60

purificante; tat – Ele; eva – somente; paramam – o mais elevado, maior; daivam –
Deidade; hi – deveras; sat – da perfeição permanente; siddhaye – para a obtenção.

TRADUÇÃO

Ó mente, pensa no Senhor de olhos de lótus, que reclina sobre a serpente Ananta,
parecida com uma montanha. Ó língua, glorifica-O. Ó cabeça, curva-te a Ele. Ó
mãos, juntai vossas palmas em súplica a Ele. Ó corpo, oferece reverências prostradas
a Ele. Ó coração, toma pleno refúgio Nele. Aquele Senhor Supremo é a Deidade mais
elevada. É só Ele que é todo-auspicioso e supremamente purificante. Somente Ele
concede a eterna perfeição.

SIGNIFICADO

Este verso é similar ao Verso 20, no qual o poeta instrui sua mente, sua língua, sua cabeça,
e outras partes de seu corpo a servir ao Senhor com plena, reverente devoção. Aqui o Rei
Kulasekhara também nos oferece algumas razões sucintas porque o Senhor é adorável. Ele
não é nenhum ser mortal, mas sim o inconcebível Maha-Vishnu, que Se deita sobre o leito
da serpente Ananta Shesha. O próprio Senhor Shesha é o local de descanso de todos os
universos, e Maha-Vishnu é a fonte onipotente de toda criação.

A Verdade Suprema Absoluta é completa junto com Suas energias pessoais, que servem e
adoram-No. Assim como um rei só é completo quando interage com seus súditos
amorosos, assim o Parabrahman é completo junto com Seus adoradores. E os devotos só
estão plenamente satisfeitos quando prestam serviço devocional ao Senhor. Através de
suas orações, o Rei Kulasekhara advoga o relacionamento do servo eterno com seu Senhor
eterno. Ele nunca sugere que as entidades vivas podem se tornar unas em todos respeitos
com o Supremo, ou que tanto os servos e o Senhor irão afinal perder sua identidade no
Brahman impessoal. A teoria impessoal do Absoluto é uma do tipo interpretativa, e não
vem diretamente das escrituras védicas. Os Vedas personificados fazem esta declaração no
Srimad-Bhagavatam (10.87.30):

aparamita dhruvas tanu-bhrto yadi sarva-gatas


tarhi na sasyateti niyamo dhruva netaratha
ajani cha yan-mayam tad avimucya niyantr bhavet
samam anujanatam yad amatam mata-dushtataya

“Ó supremo eterno! Se as entidades vivas encarnadas fossem eternas e onipenetrantes


como Tu, então elas não estariam sob Teu controle. Mas se as entidades vivas forem
aceitas como diminutas energias de Vossa Senhoria, então estão imediatamente sujeitas ao
Teu supremo controle. Portanto a real liberação requer rendição por parte das entidades
vivas ao Teu controle, e essa rendição irá torná-las felizes. Nessa posição constitucional
apenas é que elas podem ser controladoras. Portanto, homens com conhecimento limitado
que advogam a teoria monista que Deus e as entidades vivas são iguais em todos respeitos
estão de fato enganando a si mesmos e outrem.”

Adoração do Senhor Supremo é auspicioso e purificante. Clareia toda sujeira de nosso


coração,. inclusive a ilusão de que somos a principal força motriz no nosso mundo e o
centro do desfrute. Adorar alguém ou algo maior que nós mesmos é natural, mas
frequentemente confundimos uma grande pessoa ou semideus com o objeto de adoração
apropriado. No Bhagavad-gita o Senhor Krishna torna claro que somente Ele é o único
objeto adequado de adoração. E neste verso o Rei Kulasekhara reitera este ponto ao
declarar que o Senhor Supremo dos olhos de lótus é a Deidade máxima. Para a
administração universal o Senhor Krishna Se expande em muitas incontáveis deidades, ou
61

ishvaras (controladores), mas a Suprema Personalidade de Deus é o controlador mais


elevado de todos.

A oração do Rei Kulasekhara traz à mente orações similares do Srimad-Bhagavatam e


outros shastras védicos, pronunciados por devotos que alcançaram a visão direta
(darshana) da Suprema Personalidade de Deus. Os devotos puros sempre recebem o
darshana do Senhor num humor de êxtase cheio de adoração. Eles nunca consideram-No
como um ser humano comum deste universo; nem tampouco buscam perder suas
identidades e fundir-se na refulgência impessoal Dele. Os sentimentos devocionais que
tais Vaisnavas exaltados expressam, revelam o despertar natural da alma conforme esta
chega à presença do Senhor. A alma se torna humilhada e purificada e adora seu amado
Senhor com eloquentes orações e louvores. Em reciprocação, o Senhor concede Sua
misericórdia a Seus devotos.

Nesta oração, o Rei Kulasekhara fala do sat-siddhi, ou realização permanente, concedida


pelo Senhor Supremo. Isto se refere à liberação pessoal de retornar a Deus. As jivas são
qualitativamente unas com Krishna, e quando elas se encontram junto com Ele, ocorre uma
atração natural. O devoto então quer usar todas suas faculdades para adorar o Senhor
Supremo, que é auspicioso para adorar e inconcebivelmente grande. Grande como Ele é,
entretanto, Ele não força reciprocação. Krishna torna isso claro no Bhagavad-gita (4.11):
“Conforme se aproximam de Mim, Eu lhes reciproco.” Assim cabe ao devoto escolher
servir o Senhor por sua própria livre vontade.

Este verso portanto é um chamado para o nosso livre arbítrio. É uma oração ao nosso
próprio ser para não empregar mal nossas faculdades dadas por Deus, mas ocupá-las no
serviço e adoração do Senhor. Porque Krishna é supremamente independente e nós somos
parte e parcela Dele, temos diminuto livre-arbítrio, e assim a decisão de máxima
importância está em nossas próprias mãos. Como costumava dizer Prabhupada: “O
Homem é o arquiteto de seu próprio destino.” Ouvir as orações do Rei Kulasekhara nos
inspira a usar nosso livre-arbítrio adequadamente.

Texto 35

shrvan janardana-katha-guna-kirtanani
dehe na yasya pulakodgama-roma-rajih
notpadyate nayanayor vimalambu-mala
dhik tasya jivitam aho purushadhamasya

shrvan – ouvindo; janardana – do Senhor Janardana; katha – histórias; guna – das


qualidades Dele; kirtanani – e glorificação; dehe – no corpo; na- não; yasya – de quem;
pulaka-udgama – arrepiando; roma-rajih – do cabelo nos membros; na utpadyate – não
surge; nayanayoh – nos olhos; vimala – puro; ambu – de água; mala – um fluxo contínuo;
dhik – condenação; tasya – daquele; jivitam – sobre a vida; aho – ah; purusha – de tal
pessoa; adhamasya – muito degradada.

TRADUÇÃO

Quem ouve descrições dos passatempos e das gloriosas qualidades do Senhor


Janardana mas cujos pelos corpóreos deixam de se arrepiar em êxtase e cujos olhos
falham em inundar-se com lágrimas de puro amor – tal pessoa é de fato o mais
desgraçado patife. Que vida condenada leva!

SIGNIFICADO
62

Ouvir descrições autorizadas a partir da literatura védica sobre o Senhor Supremo deve
produzir êxtase. Isto é o sintoma da genuína consciência de Krishna. Consciência de
Krishna não é um assunto a ser estudado como mitologia ou como religião comparada, e
certamente não como um meio de alcançar meditação impessoal. Meramente ser neutro no
que tange a Deus ou reconhecer teóricamente “Sim, acredito que Deus existe,” não é
suficiente. Ouvir sobre o Senhor Krishna deve inicialmente produzir um arrependimento
dentro da alma condicionada de que ficou tempo demais separada de seu senhor, protetor, e
melhor amigo. Afinal, com lágrimas de amor, esta deve sentir afeição pura com o
reflorescimento de seu relacionamento natural e totalmente realizante com o Senhor.

O processo de bhakti tem três estágios: sambandha, abhidheya, e prayojana. No primeiro


estágio se ouve das fontes autorizadas e se desperta para a compreensão da Suprema
Personalidade de Deus, para si mesmo, a criação, e o relacionamento entre todos estes.
Depois se percebe o supremo valor da bhakti-yoga, serviço devocional ao Senhor
completamente atrativo. No segundo estágio, chamado abhidheya, a pessoa se ocupa nas
atividades práticas do serviço devocional. Isto culmina no estágio final, prayojana, no
qual se obtém amor puro por Deus, a meta da vida.

Num verso do Srimad-Bhagavatam similar a este do Rei Kulasekhara, Sukadeva Goswami


descreve a posição desafortunada de quem não desperta para a mensagem de Deus:

tad ashma-saram hrdayam batedam


yad grhyamanair hari-nama-dheyaih
na vikriyetatha yada vikaro
netre jalam gatra-ruheshu harshah

“Certamente aquele coração tem armadura de aço se, apesar de cantar o santo nome do
Senhor com concentração, não se transforma e sente êxtase, hora em que lágrimas enchem
os olhos e os pelos se arrepiam.” (Bhag. 2.3.24).

Os acharyas nos alertam que impostores imitam estes sintomas, completo com lágrimas e
pelo arrepiado. Portanto os sintomas mais confiáveis de avanço são desapego dos prazeres
materiais e serviço constante, sincero ao Senhor sob a guia do mestre espiritual.

Isso não nega, entretanto, a importância do êxtase. Em Seu Shikshastaka (2) o Senhor
Chaitanya, assumindo o papel de uma alma condicionada, lamenta que embora Ele cante o
santo nome, falha em alcançar o êxtase porque Ele é tão desafortunado que não consegue
parar de cometer ofensas. Assim se queremos progredir rumo ao amor por Deus, temos
que estudar e cuidadosamente evitar as dez ofensas ao santo nome. (Vide Néctar da
Devoção p.72).

Quem é suficientemente afortunado de obter a associação de um devoto puro do Senhor


pode retificar este maus hábitos. Senão, permanecer-se-á com coração de aço e
desqualificado para avançar no serviço devocional. Srila Prabhupada escreve: “Uma
marcha progressiva completa no caminho que retorna ao lar, de volta para Deus, irá
depender da instrução das escrituras reveladas dirigida pelos devotos realizados.” Por
servir o devoto puro a pessoa irá automaticamente experimentar os estágios progressivos e
extáticos de bhakti, sem desapontamento ou imitação.

Texto 36
andhasya me hrta-viveka-maha-dhanasya
chauraih prabho balibhir indriya-namadheyaih
mohandha-kupa-kuhare vinipatitasya
devesha dehi krpanasya karavalambam
63

andhasya – que é cego; me – de mim; hrta – roubado; viveka – discriminação; maha –


grande; dhanasya – cuja riqueza; chauraih – por ladrões; prabho – ó senhor; balibhih –
poderoso; indriya – como os sentidos; namadheyaih – que são chamados; moha – da
ilusão; andha-kupa – do poço escuro como breu; kuhare – para dentro da cavidade;
vinipatitasya – lançado para baixo; deva – dos semideuses; isha – ó supremo controlador;
dehi – dê; krpanasya – a esta pessoa desafortunada; kara – da mão; valambam – o auxílio.

TRADUÇÃO

Ó Senhor, os poderosos ladrões dos meus sentidos cegaram-me roubando minha mais
preciosa posse, minha discriminação, e eles me lançaram profundamente no poço
escuro como breu da ilusão. Por favor, ó Senhor dos senhores, estenda Tua mão e
salve este miserável.

SIGNIFICADO

Nos textos 20, 26, 31, e 34, o Rei Kulasekhara instrui seus sentidos a servir ao Senhor.
Porém agora estes mesmos sentidos aparentemente arrastaram-no para baixo, para dentro
do poço da ilusão. É claro, o rei é um devoto puro, liberado do Senhor, e ele está
simplesmente assumindo o papel de uma alma condicionada decaída a fim de nos instruir.
Mas ainda assim, poder-se-ia questionar porque Kulasekhara primeiro nos encorajou com
descrições da devida ocupação dos sentidos no serviço do Senhor – e depois nos
desencoraja com este sombrio retrato de sentidos descontrolados lançando a azarada alma
no poço da ilusão.

A resposta é que o Rei Kulasekhara está simplesmente nos proporcionando um retrato


realista das alternativas encaradas pela entidade viva nas garras da energia material.
Precisamos de uma visão sóbria dos poderes de Maya se temos esperança de nos
desvencilhar dela. Como declara o Ishopanishad:

vidyam chavidyam cha yas tad vedobhayam saha


avidyaya mrtyum tirtva vidyayamrtam ashnute

“Somente quem pode aprender o processo da nesciedade e o do conhecimento


transcendental lado a lado, é que consegue transcender a influência de repetidos
nascimentos e morte, e desfrutar das plenas bençãos da imortalidade.” A escolha certa para
seres humanos é vidya, ou conhecimento transcendental, com desfrute sensorial restrito.
Aprendemos sobre avidya a fim de que venhamos a estar plenamente cônscios de suas
conseqüências daninhas. Então poderemos rejeitá-la fortemente e ocupar nossa mente e
sentidos completamente entregues no serviço devocional a Krishna. Como o Senhor
Krishna declara no Bhagavad-gita (6.5): “Um homem deve elevar-se por sua própria
mente, não degradar-se. A mente é a amiga da alma condicionada, bem como também sua
inimiga.”

Como empregar todas nossas faculdades no serviço de Krishna foi exemplificado por
Maharaja Ambarisha, que ocupou sua mente em meditar nos pés de lótus do Senhor, suas
palavras em glorificar as qualidades transcendentais do Senhor, suas mãos em limpar o
templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir os passatempos do Senhor, seus olhos em ver as
formas transcendentais do Senhor, seu corpo em tocar os corpos dos devotos do Senhor,
seu sentido de olfato em cheirar as flores oferecidas à Deidade, sua língua em saborear as
folhas de tulasi oferecidas ao Senhor, suas pernas em ir aos locais santos onde estão
situados os templos do Senhor, sua cabeça em oferecer humildes reverências ao Senhor, e
seus desejos em realizar os desejos do Senhor.
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Se apesar destes avisos, seguirmos os ditames voluntariosos de nossos sentidos, estes


sentidos irão nos levar para o buraco da profunda ilusão, assim como um cavalo sem
rédeas poderia arrastar uma quadriga para dentro de uma vala. Se isto acontecer – se
caírmos fundo na vida pecaminosa – então nosso único recurso é de clamar sinceramente
pelo Senhor Supremo para nos soltar. A metáfora do Rei Kulasekhara não é imaginária,
pois na Índia uma pessoa acidentalmente irá às vezes cair num poço seco, coberto pela
vegetação, chamado andha-kupa, ou “poço cego.” Uma vez no fundo do poço – se
sobrevive à queda – talvez não consiga sair por si só.

Similarmente, não conseguimos nos soltar do profundo poço da vida material a não ser que
agarremos a corda da misericórdia abaixada por Krishna ou seu representante. Como Srila
Rupa Goswami ora em seu Stava-mala:
manasija-phani-jushte labdha-pato ‘smi dushte
timira-gahana-rupe hanta samsara-kupe
ajita nikhila-raksha-hetum uddhara-daksham
upanaya mama haste bhakti-rajjum namas te

“Infelizmente, cái no profundo poço escuro, imundo do samsara, no qual a víbora do


desejo sexual habita. Ó invencível Senhor, a corda do serviço devocional é a causa da
proteção universal e é perita em salvar as almas caídas. Por favor coloca essa corda na
minha mão. Ofereço minhas respeitosas reverências a Ti.”

Num humor similar, Srila Raghunatha dasa Goswami diz o seguinte no quinto verso de seu
Manah-shiksha (“Instruções à Mente”):

asac-ceshta-kashta-prada-vikata-pasalibhir iha
prakamam kamadi-prakata-pathapati-vyaktikaraih
gale baddhva hanye ‘ham iti baka-bhid vartmapa-gane
kuru tvam phut-karan avati sa yatha tvam mana itah

“Os assaltantes da luxúria e seus cúmplices – cobiça, etc. – me armaram uma cilada e
amarraram meu pescoço com as horríveis cordas das atividades pecaminosas. Ó mente,
por favor grite por socorro, clamando “Ó Krishna! ó matador de Baka, estou à beira da
morte!” Se fizer isto, então Krishna irá certamente salvar-me.”

Estar consciente do perigo em si já é uma benção. Se vermos o desastre da morte e


renascimento se aproximando, iremos naturalmente clamar a Krishna por ajuda. Mas se
permanecermos na ignorância iremos tolamente continuar tentando desfrutar dos prazeres
sensoriais, sem reconhecer que gratificação sensorial nos implica em repetidos
nascimentos e mortes. Contudo, uma vez que comecemos a sinceramente chamar por
Krishna, em plena consciência de que estamos em perigo mortal e que Ele é nosso único
protetor, então já estamos salvos.

Texto 37

idam sariram parinama-peshalam


pataty avashyam shata-sandhi-jarjaram
kim aushadham prcchasi mudha durmate
niramayam krishna-rasayanam piba

idam – este; sariram – corpo; parinama – sujeito a transformação; peshalam – atraente;


patati – cai; avashyam – inevitavelmente; shata – centenas; sandhi – juntas; jarjaram –
tendo se tornado decrépito; kim – porque; aushadham – por remédio; prcchasi – estás
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pedindo; mudha – iludido; durmate – ó tolo; niramayam – profilático; krishna – de


Krishna; rasa-ayanam – o elixir; piba – apenas beba.

TRADUÇÃO

A beleza deste corpo é fugaz, e no final o corpo tem que sucumbir diante da morte
depois que suas centenas de juntas tiverem endurecido com a velhice. Assim porquê,
tolo desnorteado, estás pedindo medicação? Apenas toma o elixir Krishna, a única
cura que nunca falha.

SIGNIFICADO

A juventude muitas vezes é cega e surda aos avisos da velhice e da morte se aproximando.
Uma pessoa jovem cheia de paixão poderá pensar que tais admoestações são para
veteranos que não sabem como desfrutar. Muitos assim-chamados filósofos encorajam
esta atitude hedonista, que é precisamente a atitude que o Rei Kulasekhara está
condenando neste verso. Os hedonistas aconselham: “Desfrute o quanto puder enquanto
for jovem, porque só se vive uma vez.” Esse conselho não só é moralmente insalubre, mas
também sua premissa é inverídica: segundo a sabedoria védica, nossa atual vida é somente
uma dentre uma série de inúmeras vidas que experimentamos e iremos experienciar em
incontáveis corpos. Assim hedonismo é uma prescrição para o desastre, pois as reações
karmicas de uma juventude mal gasta irão causar nosso sofrimento nesta vida e na
próxima. Em seu poema Sharanagati, Srila Bhaktivinoda Thakura esquematiza a história
de uma alma condicionada que desperdiça uma breve vida:

Eu bebi o veneno mortífero da mundanidade, fingindo que era néctar, e agora o sol
está se pondo no horizonte de minha vida. Tão rápida chegou a velhice e toda felicidade
partiu! Arruinado pela doença, perturbado e fraco, meus sentidos agora acham-se todos
enfraquecidos, meu corpo destruído e exausto e meu estado de espírito abatido na ausência
dos prazeres juvenis.
Como careço até mesmo de uma partícula de devoção e sou destituído de toda
iluminação, que auxílio existe para mim agora? Somente Tu, ó Senhor, ó amigo dos
caídos, podes me ajudar. Certamente sou caído, o mais baixo dos homens. Portanto eleva-
me e coloca-me aos Teus pés de lótus.

O Rei Kulasekhara repreende a pessoa velha tola cuja única resposta diante de sua saúde
enfraquecida é de buscar algum remédio. Nenhum remédio no mundo material pode
prevenir a velhice e doença, embora a medicina alopática moderna possa temporariamente
encobrir os sintomas. O único remédio que de fato pode trazer alívio é o elixir Krishna –
consciência de Krishna. É pura estupidez voltar-se somente para médicos na velhice, em
vez de para Krishna.

Pode-se ver iluminação entre os idosos em locais de peregrinação na Índia, especialmente


Vrindavana. Ali se pode ver muitas pessoas velhas visitando templos com intensa devoção
cedo de manhã. Centenas de pessoas velhas andam pelos caminhos de circumambulaçãp
(parikrama) apesar de suas debilidades físicas. Algumas quase que dobradas, de tão
encurvadas! Alguém poderia criticar que estas pessoas não estão tendo o tratamento
médico ocidental que poderia adicionar alguns anos às suas vidas ou aliviar a dor delas.
Mas os sinceros babajis e viúvas de Vrindavana que de alguma maneira trilham seu
caminho toda manhã para ver Krishna nos templos e que clamam “Jaya Radhe!” são de
fato afortunados e muito inteligentes. Eles estão tomando o krishna-rasayana, o elixir que
irá conceder-lhes vida eterna na morada espiritual de Krishna. Os shastras védicos
recomendam que se beba este elixir desde o início da vida, mas mesmo caso se deixe de
66

fazer isso mais cedo, deve-se de qualquer jeito bebê-lo durante os derradeiros dias da vida
e assim curar a doença de repetidos nascimentos e mortes.

Texto 38

ashcharyam etad dhi manusya-loke


sudham parityajya visham pibanti
namani narayana-gocharani
tyaktvanya-vachah kuhakah pathanti

ashcharyam – maravilha; etat – este; dhi – deveras; manusya – dos seres humanos; loke –
no mundo; sudham – néctar que dá vida; parityajya – rejeitando; visham – veneno; pibanti
– as pessoas bebem; namani – os nomes; narayana-gocharani – que se referem ao Senhor
Narayana; tyaktva – evitando; anya – outras; vachah – palavras; kuhakah – patifes;
pathanti – elas recitam.

TRADUÇÃO

O que é mais espantoso na sociedade humana é isto: as pessoas são tão incorrigíveis
que elas rejeitam o néctar doador da vida dos nomes do Senhor Narayana e em vez
disso bebem veneno ao falarem sobre tudo o mais.

SIGNIFICADO

Este verso nos lembra de um no Mahabharata (Vana-parva 313.116) no qual Maharaja


Yudhisthira responde a esta pergunta de seu pai, Yamaraja: “Qual a coisa mais espantosa
no mundo?” Yudhisthira responde:

ahany ahani bhutani


gacchantiha yamalayam
sheshah sthavaram icchanti
kim ascharyam atah param

“Dia após dia incontáveis entidades vivas neste mundo vão para o reino da morte. Ainda
assim, aqueles que permanecem aspiram a uma situação permanente aqui. Que poderia ser
mais espantoso que isso?”

Ambos o Rei Kulasekhara e Maharaja Yudhisthira empregam a palavra ascharyam,


“espantoso”, no sentido de espantosamente estúpido. Yudhisthira está espantado que as
pessoas podem ser tão estúpidas e auto-destrutivas que elas se recusam a reconhecer sua
morte iminente e assim utilizam mal suas breves vidas humanas, deixando de se preparar
para a próxima vida. Kulasekhara está espantado que as pessoas não cantam os santos
nomes de Deus, embora através deste simples ato poderiam ganhar vida eterna. É
espantoso que em vez de beberem extáticamente o néctar dos santos nomes, as pessoas
bebem o veneno da conversa mundana. Conforme apontamos antes, Srila Prabhupada
comparou tal “cantar” mundano ao coaxar de um sapo, que atrai a serpente – morte.

Se poderia argumentar que cantar os santos nomes não é tudo. Não podemos também
meditar no Brahman e discutir muitos tópicos filosóficos dignos? Porque o Rei
Kulasekhara nos condena só porque não cantamos os nomes de Deus? A razão é que
cantar o santo nome foi dado diretamente para toda humanidade como o yuga-dharma, a
religião da era. Métodos espirituais tais como meditação do yoga eram recomendados para
os milênios passados, quando as condições eram mais favoráveis. Para esta era, todas
67

escrituras védicas e autoridades espirituais declararam que cantar os santos nomes é o


método mais fácil e também máximo. Recusá-lo é teimosia e tolice.

Em 1970, quando devotos do movimento de consciência de Krishna estavam cantando


hari-nama publicamente diariamente em Berkeley, California, Dr. J.F. Staal, professor de
filosofia e idiomas da Ásia do Sul junto à Universidade de California, objetou numa
entrevista em um jornal que o movimento de consciência de Krishna não era fidedigno
porque “(os devotos) passam tempo demais cantando para desenvolver uma filosofia.” Na
troca de correspondência que se seguiu entre Srila Prabhupada e Dr. Staal, Prabhupada
citou muitas escrituras para provar que o cantar deve ser enfatizado acima de todas outras
práticas para o avanço espiritual. Dr. Staal havia dito que o Bhagavad-gita não recomenda
o cantar constante, porém Prabhupada lembrou-lhe o verso 9.14, em que Krishna fala sobre
os mahatmas, ou grandes almas: satatam kirtayanto mam. “(Elas) estão sempre cantando
Minhas glórias.”

Srila Prabhupada citou outros versos do Bhagavad-gita, bem como do Svetasvatara


Upanishad e do Narada Pañcharatra, confirmando a importância de cantar o Hare Krishna
mantra. Quando o professor respondeu que também poderia produzir citações para
contradizer a conclusão védica, Prabhupada concordou que as citações poderiam continuar
sendo rebatidas para sempre sem produzir uma conclusão. Portanto, Prabhupada sugeriu,
em vez de argumentar infrutiferamente, deviam aceitar o julgamento de uma autoridade
impecável, tal como o Senhor Chaitanya. Srila Prabhupada também apontou que se
poderia julgar a eficácia do cantar dos nomes observando como jovens ocidentais estavam
se tornando devotos santificados do Senhor simplesmente por seguir esse processo.

Se a discussão especulativa sobre assuntos transcendentais é menos valiosa que cantar os


santos nomes, então conversas mundanas são absolutamente inúteis. Infelizmente, a
maioria das pessoas não está ciente de que a meta da vida humana é liberação da vida e
morte. Assim não acham nada errado ficarem tagarelando desde de manhã até de noite
sobre tópicos totalmente irrelevantes para sua liberação. Os acharyas lhes dão inúmeros
avisos sobre a besteira de desperdiçar a vida desta maneira, e a natureza material lhes dá
muitas lições duras para ensiná-las que encontrar a felicidade permanente aqui é um sonho
perdido. Mas a “coisa maravilhosa” é que as pessoas ignoram sua própria mortalidade e
recusam o néctar vivificante dos santos nomes em favor do veneno mortífero das conversas
mundanas.

Texto 39

tyajantu bandhavah sarve


nindantu guravo janah
tathapi paramanando
govindo mama jivanam

tyajantu – que possam rejeitar-me; bandhavah – parentes; sarve – todos; nindantu – que
possam condenar-me; guravah – superior; janah – pessoas; tatha api – não obstante;
parama – suprema; anandah – a personificação do êxtase; govindah – Senhor Govinda;
mama – minha; jivanam – própria vida.

TRADUÇÃO

Que meus parentes todos me abandonem e meus superiores me condenem. Ainda


assim, o supremamente bem-aventurado Govinda permanece minha vida e alma.

SIGNIFICADO
68

Pessoas comuns condenam os devotos do Senhor como tolos ignorantes, mas os


verdadeiramente sábios nunca fazem isso. Como declara Prahlada Maharaja: “Quem
dedicou sua vida para Krishna através dos nove métodos de bhakti deve-se entender que é
a mais sábia das pessoas, pois adquiriu o conhecimento completo.” (Bhag. 7.5.24). Porém
na Kali-yuga, por ignorância as pessoas zombam dos devotos santos e louvam líderes
demoníacos do governo, entretenimento, e esportes. Tomando coragem dos exemplos
como do Rei Kulasekhara e outros, os devotos não devem ter vergonha quando pessoas
comuns os desrespeitam. Eles devem preocupar-se entretanto, que os Vaisnavas e o Senhor
Supremo estejam satisfeitos com seu comportamento.

Mesmo o sábio Narada foi condenado por suas atividades devocionais. Daksha
amaldiçôou-o porque ele ensinou renúncia aos filhos de Daksha. Narada permaneceu
tolerante, contudo, e continuou a viajar e pregar. A meta de Narada e dos devotos que
seguem seu exemplo não é de atrapalhar a vida das pessoas, mas caso o trabalho deles for
mal compreendido, eles não devem abandonar seu dever mas devem continuar sua missão
de apoio ao Senhor. Srila Prabhupada escreve: “Porque Narada Muni e os membros de
sua sucessão discipular rompem amizades e a vida familiar, às vezes eles são acusados de
ser sauhrda-ghna, criadores de inimizade entre parentes. Na verdade tais devotos são
amigos de cada entidade viva (suhrdam sarva-bhutanam), porém são mal compreendidos
como sendo inimigos. Pregar pode ser uma tarefa difícil, ingrata, mas um pregador tem
que seguir as ordens do Senhor Supremo e não ter medo de pessoas materialistas.” (Bhag.
6.5.39, significado). Conclusão: um devoto deve permanecer feliz executando seu dever e
não desenvolver um “complexo de perseguição.”

O sentimento que o Rei Kulasekhara aqui expressa é ecoado por Madhavendra Puri num
de seus versos: “que o moralista mordaz me acuse de estar iludido; não me importo.
Peritos nas atividades védicas poderão difamar-me como estando iludido, amigos e
parentes poderão chamar-me de frustrado, meus irmãos poderão chamar-me de tolo, os
mamonitas abastados poderão apontar-me como louco, e os filósofos eruditos poderão
asseverar que sou orgulhoso demais. Ainda assim minha mente não se afasta uma
polegada da determinação de servir os pés de lótus de Govinda, embora eu seja incapaz de
assim fazer.”

Texto 40

satyam bravimi manujah svayam urdhva-bahur


yo yo mukunda narasimha janardaneti
jivo japaty anu-dinam marane rane va
pashana-kashtha-sadrshaya dadaty abhishtam

satyam – a verdade; bravimi – estou falando; manujah – ó seres humanos; svayam – eu


próprio; urdhva – levantados; bahur – braços; yah yah – quem quer que; mukunda
narasimha janardana – ó Mukunda, Narashimha, Janardana; iti – assim; jivah – um ser
vivo; japati – canta; anu-dinam – todo dia; marane - na hora da morte; rane – durante a
batalha; va – ou; pashana – pedra; kashtha – de madeira; sadrshaya – a um estado de
similaridade; dadaty – ele presta; abhishtam – seus almejados desejos.

TRADUÇÃO

Ó humanidade, de braços levantados para o alto declaro a verdade! Qualquer mortal


que cantar os nomes Mukunda, Nrsimha, e Janardana dia após dia, mesmo na
batalha ou ao encarar a morte, irá passar a considerar suas mais almejadas ambições
como não tendo mais valor que uma pedra ou um bloco de madeira.
69

SIGNIFICADO

Mesmo aqueles que se esforçam sinceramente pelo auto-aprimoramento sabem que é


muito difícil acabar com as ambições almejadas. Às vezes estas ambições são tão
grandiosas que as mantemos secretas, no entanto as almejamos internamente. Um homem
obscuro, sem talento, pensa que algum dia irá se tornar o ditador do mundo. Um poeta
não-publicado sonha que irá se tornar o próximo Shakespeare. E assim por diante. Os
materialistas estão sempre sendo encorajados a insuflarem os fogos de sua ambição;
mesmo crianças são encorajadas por seus pais a “vencerem.”

Mas devotos puros do Senhor estão bem cientes de que todas ambições mundanas são
inúteis. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, para nos instruir, critica sua própria
mente e pergunta: “Porque estás atrás da fama? Não sabes que esta é desprezível como o
excremento de um javali?” Srila Raghunatha dasa Goswami usa uma metáfora igualmente
gráfica para criticar a mente dele em seu Manah-shiksha, comparando o desejo pela fama a
um imundo comedor de cachorros dançando no seu coração. Devotos, então, devem
sempre estar vigilantes para que o sutil desejo por nome, fama, e posição elevada ,
tecnicamente chamado pratishthasa, não surja dentro do coração, já que este impede que
ali entre o amor puro por Krishna.

Contrastando com um devoto, um impersonalista acha impossível limpar seu coração


completamente da ambição materialista. Mesmo depois que ele domina algumas das
ambições mais grosseiras, ainda assim ele mantém o impossível desejo de “se tornar
Deus.” Srila Prabhupada chamou este desejo de se tornar uno com a Verdade Absoluta em
todos respeitos, “a última armadilha de Maya.” E os semideuses, em suas orações a
Krishna enquanto Ele estava no ventre de Devaki, deram a última palavra sobre a assim-
chamada liberação dos impersonalistas, de se fundir na Verdade Absoluta:

ye ‘nye ‘ravindaksha vimukta-maninas


tvayy asta-bhavad avisuddha-buddhayah
aruhya krcchrena param padam tatah
patanty adho ‘nadrta-yushmad-angrhrayah

“Ó Senhor dos olhos de lótus, embora não-devotos que aceitam austeridades severas e
penitências para conseguirem a posição mais elevada possam pensar que estão liberados, a
inteligência deles está impura. Eles caem de sua posição de superioridade imaginada
porque não possuem consideração por Teus pés de lótus.” (Bhag. 10.2.32).

O Rei Kulasekhara nos aconselha sobre como livrarmo-nos de todas ambições materiais:
devemos cantar os santos nomes de Deus – Mukunda, Nrshimha, e Janardana. Estes são
todos nomes de Krishna, e como tal estão contidos dentro do maha-mantra: Hare Krishna
Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare / Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare.
Cantar os nomes de Krishna desperta o amor puro da pessoa por Ele, e então todas
ambições materiais desta desaparecem. Srila Prabhupada costumava dizer que assim como
quando uma pessoa ganha um milhão de dólares todos seus problemas de dez e cem
dólares são automaticamente resolvidos, também quando obtemos amor puro por Krishna,
todas nossas insignificantes necessidades materiais e desejos esmaecem até a
insignificância. Cantar o nome do Senhor em puro amor extático coloca o devoto em
contato direto com as maravilhosas formas, qualidades, e passatempos do Senhor; nesse
estado o devoto está plenamente satisfeito e perde todos vestígios de ambição egoísta. Ele
fica feliz simplesmente por adorar, servir, e estar com a Suprema Personalidade de Deus.
70

A história de Dhruva Maharaja ilustra o poder purificante da consciência de Krishna.


Dhruva procurou o Senhor Supremo como um meio de obter um reino material. Mas
depois que havia realizado severas austeridades e conseguira ficar face a face com o
Senhor Vishnu, declarou: svamin krtartho ‘smi varam na yace: “Meu querido Senhor,
estou plenamente satisfeito. Não Te peço nenhuma benção de gratificação material dos
sentidos.” (Hari-bhakti-sudhodaya).

Amor por Deus está dormente dentro de todo mundo, e perceber este amor é realizar a
ambição mais pura. Os acharyas Vaisnavas nunca nos aconselham a tentar matar nosso
espírito ambicioso; mas sim, nos instruem a desejar apenas despertar nosso gosto pelo
serviço devocional puro.

Texto 41

narayanaya nama ity amum eva mantram


samsara-ghora-visha-nirharanaya nityam
shrnvantu bhavya-matayo yatayo ‘nuragad
uchaistaram upadisamy aham urdhva-bahuh

narayanaya nama iti – “reverências a Narayana”; amum – este; eva – deveras; mantram –
invocação; samsara – do ciclo da existência material; ghora – terrível; visha – do veneno;
nirharanaya – para salvação; nityam – sempre; shrnvantu - eles devem ouvir; bhavya –
bem; matayah – da inteligência; yatayah – membros da ordem renunciada; anuragat – por
amor; uchaih-taram – bem alto; upadisami – estou aconselhando; aham – eu; urdhva-
bahuh – de braços levantados.

TRADUÇÃO

Levantando meus braços, expresso este misericordioso conselho tão alto quanto
posso: se aqueles na ordem renunciada quiserem ser salvos da terrível, venenosa
condição da vida material, eles devem ter o bom senso de constantemente ouvir o
mantra om namo narayanaya.

SIGNIFICADO

O Rei Kulasekhara dirige este verso para aqueles que são renunciados e também
inteligentes – duas qualidades essenciais para se tornar plenamente consciente de Krishna.

Quanto à renúncia, ela é a base para o avanço na senda do yoga. No Bhagavad-gita (6.2) o
Senhor Krishna declara: “O que é chamado de renúncia é o mesmo que yoga, ou ligar-se
com o Supremo, pois ninguém pode se tornar um yogi a não ser que renuncie ao desejo
pela gratificação sensorial.” No verso de Kulasekhara, a palavra yatayah, traduzida como
“membros da ordem renunciada,” se refere não só àqueles que aceitaram formalmente a
ordem sannyasa, ou de mendicante, mas a todos aqueles que abraçaram o verdadeiro
espírito da renúncia. Krishna define sannyasa como segue: “quem não está apegado aos
frutos de seu trabalho e que trabalha conforme é obrigado, está na ordem renunciada de
vida, e é o verdadeiro místico, não aquele que não acende nenhum fogo, nem realiza
nenhum trabalho.” (Bg. 6.1). Em outras palavras, qualquer pessoa que trabalhe somente
para o prazer de Krishna, sem nenhuma mácula de auto-interesse, alcançou a verdadeira
renúncia.
71

Também é necessário inteligência para realizar serviço devocional, especialmente para


empreender o cantar dos santos nomes. Como Karabhajana Muni fala para o Rei Nimi no
Srimad-Bhagavatam (11.5.32):

krishna-varnam tvishakrishnam sangopangastra-parsadam


yajñair sankirtana-prayair yajanta hi su-medhasah

“Na Era de Kali, pessoas inteligentes realizam o cantar congregacional dos santos nomes
de Deus para adorar a encarnação de Deus que constantemente canta os nomes de Krishna.
Embora Sua tez não seja enegrecida, Ele é o próprio Krishna. Ele está acompanhado por
Seus associados, servos, armas, e companheiros confidenciais.”

A inteligência não é medida por exames de Q.I. mas pela capacidade de distinguir o
permanente do temporário, o verdadeiro do falso, o bom do mau – e agir com essa
compreensão. Pode-se adquirir tal inteligência genuína somente por ouvir um mestre
espiritual fidedigno e as escrituras Vaisnavas autorizadas. Então se terá o bom senso de
sacrificar prazeres sensoriais imediatos, temporários (preyas) no interesse de obter o bem
permanente (shreyas): puro amor por Deus e liberação do nascimento e morte.

Nos dois versos anteriores, o Rei Kulasekhara se expressou enfaticamente, levantando seus
braços e cantando tão alto quanto podia. Ele aprendeu o mais precioso segredo da
existência e não deseja escondê-lo. Aquilo que é de tão inestimável valor – o mantra
composto dos nomes do Senhor – não deve ser mantido secreto. Não se deve negar às
pessoas o acesso a ele, mesmo se parecem desqualificadas. Uma vez o acharya Ramanuja
recebera um mantra secreto dado por seu guru, que lhe disse que revelá-lo seria deletério
ao seu avanço espiritual. Mas Ramanuja cantou alto o potente mantra e ensinou-o ao povo
em geral. Quando seu guru perguntou porque havia feito isso, Ramanuja disse que se o
mantra era benéfico, então ele desejava dá-lo a todo mundo, mesmo correndo risco de ir
para o inferno. Este humor reflete-se no Senhor Chaitanya e Seu movimento sankirtana:
“Não considerando quem o pedira ou não, e quem estava apto ou quem era desqualificado
para recebê-lo, Chaitanya Mahaprabhu distribuiu o fruto do serviço devocional.” (Cc. Adi
9.29.36).

Especialmente na era atual, a maioria das pessoas não possuem suficiente bom karma para
obter renúncia ou inteligência mais elevada. E no entanto toda entidade viva, sendo uma
alma espiritual pura, originalmente tem todas boas qualidades. Os acharyas e pregadores
ajudam almas condicionadas a salientarem suas qualidades dormentes ao induzirem-nas a
cantarem os santos nomes. Repetidas vezes o Rei Kulasekhara recomenda hari-nama, na
forma tanto do canto congregacional (sankirtana) como do canto meditativo (japa). Não
há regras rígidas e duras para cantar os santos nomes do Senhor, mas o que de fato é uma
regra dura e rígida especialmente nesta era, é que todos devem tomar parte em chamar pelo
Senhor via Seus inúmeros nomes.

Texto 42

chittam naiva nivartate kshanam api shri-krishna-padambujam


nindantu priya-bandhava guru-jana grhnantu muñchantu va
durvadam parighoshayantu manuja vamshe kalanko ‘stu va
tadrk-prema-dharanuraga-madhuna mattaya manam tu me

chittam – a mente; na eva – nunca; nivartate – se afasta; kshanam api – mesmo por um
momento; shri-krishna-padambujat – dos pés de lótus de Sri Krishna; nindantu – deixe
que critiquem; priya – entes queridos; bandhavah – e outros parentes; guru-janah -
superior; grhnantu – que eles possam aceitar; muñchantu – rejeitar; va – ou; durvadam –
72

calúnias; parighoshayantu – que eles proclamem; manujah – pessoas; vamshe – na família;


kalankah - uma mácula; astu – que haja; va – ou; tadrk - tal como essa; prema – do amor
por Deus; dhara – a abundância; anuraga – de sentimentos de atrações; madhuna – com o
doce mel; mattaya – enlouquecido; manam – respeito; tu – entretanto; me – por mim.

TRADUÇÃO

Minha mente não consegue afastar-se dos pés de lótus de Sri Krishna, nem por um
momento sequer. Portanto que meus entes queridos e outros parentes me critiquem,
meus superiores me aceitem ou rejeitem conforme lhes aprouver, que as pessoas
comuns espalhem intrigas sobre mim, e que a reputação de minha família seja
manchada. Para um louco como eu, é suficiente honra sentir essa inundação de amor
por Deus, que traz tantas emoções doces de atração por meu Senhor.

SIGNIFICADO

O Rei Kulasekhara novamente expressa sua falta de preocupação quanto a sofrer má


reputação devido a sua intensa devoção pelo Senhor Krishna. Se serviço devocional
resultou em tais críticas há centenas de anos na Índia, então a quanto mais calúnias os
devotos irão ter que se submeter nos países modernos que não tem nenhuma tradição de
adorar os pés de lótus de Sri Krishna! Portanto o Rei Kulasekhara nos dá um aviso realista
– e confiança para não termos medo de críticas.

Quando o Senhor Krishna desfrutou de Seus passatempos em Vrindavana há cinco mil


anos atrás, as gopis, Suas devotas mais queridas, também arriscaram suas reputações para
serví-Lo. No meio da noite de lua-cheia da estação outonal, Ele chamou as gopis tocando
Sua flauta transcendental, e todas elas correram para encontrar com Ele. Desconsiderando
as ordens de seus maridos, irmãos, e outros parentes, ignorando tais deveres como
amamentar seus filhos e cozinhar, elas romperam com todas obrigações de decência védica
e foram se encontrar com seu amante, Krishna. O Senhor apreciou muito mesmo este
sacrifício ousado feito pelas gopis. Conforme declara o Chaitanya-charitamrta: “As gopis
abandonaram tudo, inclusive seus próprios parentes e sua punição e reprimanda, em prol
de servir o Senhor Krishna. Elas prestam serviço devocional a Ele com o propósito do
prazer Dele.” (Cc. Adi 4.169).

Um devoto sabe que está agradando ao Senhor Krishna quando ele satisfaz o representante
de Krishna, e também quando ele sente satisfação espiritual (yenatma su-prasidati). Nesse
momento ele não se importa com nenhum volume de críticas mundanas. Quando um
devoto rendido enfrenta insultos e ostracismo, estes simplesmente ajudam a esmagar
qualquer desejo remanescente por desfrutar da companhia da família e amigos. Desta
maneira Krishna corta os liames mundanos de Seu devoto e o traz inteiramente para o Seu
controle e dentro de Seu abrigo.

O Rei Kulasekhara nos conta porque ele consegue aguentar críticas sem muito sofrimento:
Ele está sentindo uma abundância de amor por Deus, acompanhada por variedades de
emoções extáticas, e ele considera isso como sendo tão maravilhoso e glorioso, que ele
pode facilmente tolerar os insultos insignificantes dos não-devotos. Este tipo de
indiferença é o efeito do avanço em cantar os santos nomes, conforme explicado no
seguinte verso do Srimad-Bhagavatam (11.2.40), que o Senhor Chaitanya diz que expressa
a essência dos ensinamentos do Bhagavatam:

evam-vratah sva-priya-nama-kirtya
jatanurago druta-citta uccaih
hasaty atho roditi rauti gayaty
73

unmada-van nrtyati loka-bahyah

“Por cantar o santo nome do Senhor Supremo, se chega ao estágio de amor por Deus.
Então o devoto está fixo em seu voto como servo eterno do Senhor, e ele gradualmente se
torna muito apegado a um determinado nome e forma da Suprema Personalidade de Deus.
Enquanto seu coração derrete de amor extático, ele ri muito alto ou chora ou grita. Às
vezes ele canta e dança como um louco, pois é indiferente à opinião pública.”

Texto 43

krishno rakshatu no jagat-traya-guruh krishnam namadhvam sada


krishnenakhila-shatravo vinihatah krishnaya tasmai namah
krishnad eva samutthitam jagad idam krishnasya daso ‘smy aham
krishne tishthati visvam etad akhilam he krishna rashasva mam

krishno – Krishna; rakshatu – possa Ele proteger; nah – nós; jagat – dos mundos; traya –
três; guruh – o mestre espiritual; krishnam – a Krishna; namadhvam – todos vós curvai-
vos; sada – constantemente; krishne – por Krishna; akhila – todos; shatravah – inimigos;
vinihatah - mortos; krishnaya – a Krishna; tasmai – Ele; namah – reverências; krishnat –
de Krishna; eva – somente; samutthitam – surgido; jagat – mundo; idam – este; krishnasya
- de Krishna; dasah - o servo; asmi – sou; aham – eu; krishne – em Krishna; tishthati –
fica; visvam – universo; etat – este; akhilam – inteiro; he krishna – ó Krishna; rashasva
mam – me proteja.

TRADUÇÃO

Possa Krishna, o senhor espiritual dos três mundos, proteger-nos. Continuamente


curvai-vos perante Krishna. Krishna matou todos nossos inimigos. Reverências a
Krishna. De Krishna somente este mundo passou a existir. Sou o servo de Krishna.
Este universo inteiro descansa dentro de Krishna. Ó Krishna, por favor proteja-me!

SIGNIFICADO

Gopiparanadhana Prabhu aponta: “Este verso emprega cada um dos oito casos gramáticos
da palavra Krishna, um após o outro.” Através desta composição sânscrita Krishna-izada,
o poeta revela várias maneiras de se aproximar do nome e passatempos do Senhor Krishna.

Este verso recorda como o Senhor Chaitanya (então conhecido como Nimai Pandita)
ensinava gramática sânscrita quando era um professor de escola aos dezesseis anos de
idade. Ele abriu Seu próprio chatus-pathi (escola da aldeia) na área de Navadvipa, e
inicialmente Ele ensinava gramática da maneira tradicional. Mas após retornar de Gaya,
onde recebera iniciação de Srila Isvhara Puri, Ele simplesmente explicava Krishna em
todas leituras de gramática. Srila Prabhupada escreve: “A fim de agradar ao Senhor
Chaitanya, Srila Jiva Goswami mais tarde compôs uma gramática em sânscrito na qual
todas regras da gramática são exemplificadas com os santos nomes do Senhor. Esta
gramática ainda é corrente e é conhecida como o Hari-namamrta-vyakarana e prescrita
pelo plano de estudos das escolas de sânscrito na Bengala até hoje em dia.” (Srimad-
Bhagavatam, Introdução).

Aqui o Rei Kulasekhara chama o Senhor Krishna de mestre espiritual dos três mundos,
matador dos inimigos, e criador e mantenedor dos universos. Embora o Senhor Supremo
designe intermediários para representá-Lo como guru, protetor, criador e mantenedor, o
Senhor Krishna é a pessoa máxima por trás de todos aqueles que atuam em nome Dele. Os
74

gurus iniciadores e instrutores fidedignos levam fielmente a mensagem do guru original, a


Suprema Personalidade de Deus. Também, o Senhor é um guru num sentido mais direto,
já que Ele pessoalmente Se torna um mestre espiritual para qualquer devoto aspirante,
mesmo hoje em dia, através de Seus ensinamentos no Bhagavad-gita. E como o chaita-
guru, o mestre espiritual dentro do coração, Ele também é o guia interno pessoal para cada
entidade viva. De maneira similar, o Senhor Krishna protege todas jivas como Maha-
Vishnu quando elas se fundem Nele no momento da aniquilação universal, e Ele mata
demônios para o benefício de todos seres humanos quando Ele aparece em Seus vários
avataras.

Embora não se deva esperar que o Senhor venha correndo nos proteger ou ensinar, como se
Ele fosse nosso servo, um devoto sincero deve esperar a orientação e proteção de Krishna
– e também aceitá-las em qualquer forma em que venham. O método padrão para receber
as instruções e proteção de Krishna é através do parampara, ou sucessão discipular, que
inclui a potência combinada de guru, shastra e sadhu (o mestre espiritual, as escrituras, e
os devotos santos). Portanto poderemos clamar diretamente ao Senhor: “Ó Krishna, por
favor proteja-me!” e receber a misericórdia Dele pelo parampara.

Texto 44

he gopalaka he krpa-jala-nidhe he sindhu-kanya-pate


he kamsantaka he gajendra-karuna-parina he madhava
he ramanuja he jagat-traya-guro he pundarikaksha mam
he gopijana-natha palaya param janami na tvam vina

he gopalaka – ó menino pastor de vacas; he – ó; krpa – da misericórdia; jala-nidhe –


oceano; he – ó; sindhu – do oceano; kanya – da filha (deusa Lakshmi, que tomou
nascimento a partir do Oceano de Leite); pate – marido; he kamsa-antaka – ó matador de
Kamsa; he – ó; gaja-indra – ao rei dos elefantes; karuna – com misericórdia; parina –
plena; he madhava – ó Senhor Madhava; he rama-anuja – ó irmão mais novo do Senhor
Balarama; he – ó; jagat-traya – dos três mundos; guro – mestre espiritual; he – ó;
pundarika-aksha – aquele que tem olhos de lótus; mam – mim; he – ó; gopijana – das
pastoras de vacas de Vraja; natha – senhor; palaya – por favor proteja; param – supremo;
janami na – não sei; tvam vina – sem ser Tu.

TRADUÇÃO

Ó jovem pastor de vacas! Ó oceano de misericórdia! Ó marido de Lakshmi, a filha


do oceano! Ó matador de Kamsa! Ó misericordioso benfeitor de Gajendra! Ó
Madhava! Ó irmão mais novo de Rama! Ó senhor espiritual dos três mundos! Ó
Senhor de olhos de lótus das gopis! Não conheço ninguém maior que Tu. Por favor
proteja-me.

SIGNIFICADO

As orações do Rei Kulasekhara são todas dirigidas à Suprema Personalidade de Deus em


Suas várias expansões e encarnações. Às vezes ele chama pelo Senhor Narayana ou
Senhor Rama, porém frequentemente ele especifica Senhor Krishna como seu objeto de
atração especial. Segundo o Srimad-Bhagavam (1.3.28), o Senhor Krishna é de fato a
fonte de todas encarnações e expansões:

ete chamsa-kalah pumsah krishnas tu bhagavan svayam


indrari-vyakulam lokam mrdayanti yuge yuge
75

“Todas (estas) encarnações são ou porções plenárias ou porções de porções plenárias do


Senhor, mas o Senhor Sri Krishna é a Personalidade do próprio Deus. Em cada era Ele
protege o mundo através de Seus diferentes aspectos quando o mundo é perturbado pelos
inimigos de Indra.” (Bhag. 1.3.28).

Em suas famosas “Orações Govinda” no Brahma-samhita, o Senhor Brahma ensina esta


mesma verdade conclusiva, ou siddhanta – ou seja, que todas encarnações de Deus e todos
semideuses, bem como todos mundos materiais e espirituais e seus elementos constituintes,
se originam do Senhor Krishna, ou Govinda: govindam adi-purusham tam aham bhajami.

No Texto 43 o Rei Kulasekhara usou diretamente o nome Krishna nove vezes, enquanto no
atual verso ele chama por Krishna através de nomes que se referem aos Seus passatempos.
Os nomes neste verso são todos tão bons quanto o nome Krishna, já que todos surgem de
krishna-lila, em que o Senhor é conhecido variadamente como Gopala (um menino pastor
de vacas), como Kamsantaka (o matador de Kamsa), como Ramanuja (o irmão mais novo
de Balarama), ou como Gopijananatha (o Senhor das gopis). Afinal, todos nomes do
Senhor se referem a Krishna. Para um devoto de Krishna, quer Deus seja chamado pelo
nome de Krishna ou outros nomes – mesmo nomes de Deus de outras regiões – o devoto,
seguindo a conclusão do Srimad-Bhagavatam e do Brahma-samhita, sempre compreende
que estes nomes afinal de contas designam a Suprema Personalidade de Deus, Krishna.

Neste verso também vemos uma combinação de devoção pessoal e apreciação objetiva do
Senhor. Frequentemente encontramos isto na poesia Vaisnava dos Alvars do Sul da Índia,
dos quais Kulasekhara era um. Em algumas linhas o bhakta louvará o Senhor por algumas
de Suas atividades inconcebíveis, que inspiram reverência – e depois exclamará como esse
mesmo grande Senhor é seu Senhor pessoal dentro do coração.

O Rei Kulasekhara se dirige ao Senhor Krishna como mestre espiritual dos três mundos, e
chama o Senhor para protegê-lo. Poder-se-ia questionar: “Como o Senhor Vishnu já está
protegendo todas entidades vivas, porque um devoto deve pedir proteção pessoal?” Mas o
bhakta não está buscando proteção física; ele quer que seu relacionamento pessoal
amoroso com o Senhor seja alimentado e mantido. Em outras palavras, ele quer que o
Senhor o proteja da maior calamidade – esquecer Dele.

Srila Prabhupada explica: “O Senhor, a Suprema Personalidade de Deus, já é encarregado


da manutenção desta criação por meio de Sua expansão plenária Kshirodakashayi Vishnu,
mas esta manutenção não é direta. Entretanto, quando o Senhor diz que Ele Se encarrega
de Seu devoto puro, Ele de fato toma conta diretamente.” (Chaitanya-charitamrta,
Prefácio). O devoto puro é aquele que se rende ao Senhor assim como uma criança se
rende aos seus pais ou um animal ao seu dono. Quando um devoto se submete desta
maneira, Krishna lhe dá atenção e proteção especial. O Rei Kulasekhara louva o Senhor
segundo o shastra e segundo Sua lila, e no entanto ele também o chama para proteção
pessoal, confiante de que o Senhor irá realizar Sua promessa de reciprocar com todos Seus
devotos conforme eles se aproximam Dele.

Texto 45

dara var-akara-vara-suta te tanujo-viriñchih


stota vedas tava sura-gana bhrtya-vargah prasadah
muktir maya jagad avikalam tavaki devaki te
mata mitram bala-ripu-sutas tat tvad anyam na jane

dara – esposa; vah-akara – do oceano; vara – excelente; suta – a filha(Lakshmi); te – Teu;


tanujah – filho; viriñchih – Senhor Brahma; stota – louvador; vedah – os Vedas; tava –
76

Teu; sura-ganah – os semideuses; bhrtya – de servos; vargah – companhia; prasadah –


graça; muktih – liberação; maya – poder mágico; jagat – universo; avikalam – inteiro;
tavaki – Teu; devaki – Devaki; te – Tua; mata – mãe; mitram – amigo; bala-ripu – (Indra)
o inimigo do demônio Bala; sutah – o filho (Arjuna); tat – assim; tvat – que Tu; anyam –
qualquer outro; na jane – não conheço.

TRADUÇÃO

Tua esposa é a bela filha do oceano, e Teu filho é o Senhor Brahma. Os Vedas são
Teus panegiristas, os semideuses integram Tua companhia de servos, e a liberação é
Tua benção, enquanto que este universo inteiro é a demonstração de Teu poder
mágico. Srimati Devaki é Tua mãe, e Arjuna, o filho e Indra, é Teu amigo. Por estas
razões não tenho interesse em qualquer pessoa além de Ti.

SIGNIFICADO

Mesmo um homem comum poderá ter uma filha ou um filho; um homem famoso irá ter
tantas pessoas louvando-o (ou ele poderá contratar agentes de imprensa para fazê-lo); e um
líder político poderoso irá ter figuras políticas menos poderosas como seus servos oficiais.
A Suprema Personalidade de Deus também é uma pessoa, e portanto Ele também tem
membros familiares bem como servos, amigos, e elogiadores. Como a Verdade Absoluta é
a fonte de tudo (janmady asya yatah), não devemos pensar que Lhe falte qualquer coisa
que vemos neste mundo material. Mas quando o Senhor Supremo, Krishna, manifesta
relacionamentos pessoais, estes não são comuns: Sua esposa, amigos, servos, e adoradores
são todos almas liberadas, energias pessoais Dele, ou expansões Dele mesmo.

As pessoas duvidam que Deus possa ter um pai, mãe, esposa, ou amigo específico. Alguns
dizem que estes relacionamentos comprometem a imparcialidade e imutabilidade do
Supremo. Mas os relacionamentos transcendentais do Senhor com Seus associados eternos
não O comprometem de maneira alguma. Em vez disso, eles aumentam Sua glória sempre
crescente. O Senhor Krishna na verdade não precisa de qualquer dos Seus amigos, esposas
e assim por diante, mas lhes permite associarem-se intimamente Consigo porque Ele fica
sempre contente por reciprocar com devotos amorosos.

Que os associados do Senhor não são comuns é provado pelo fato que eles frequentemente
se submetem a extremas austeridades ou grandes sacrifícios para se tornarem Seus amigos
ou pais. Por exemplo, Vasudeva e Devaki que assumiram o papel de pai e mãe de Krishna,
executaram muitas vidas de austeridade e preparação. Logo após o nascimento Dele,
Krishna descreveu para eles o que haviam passado numa vida anterior a fim de receber a
benção de tê-Lo com filho deles:

Ambos de vós praticaram severas austeridades durante doze mil anos pelo cálculo
dos semideuses. Durante esse tempo, vossa mente estava sempre absorta em Mim.
Quando estaveis executando serviço devocional e sempre pensaveis em Mim dentro de
vosso coração, Eu estava muito satisfeito convosco. Ó mãe sem pecado, teu coração
portanto sempre está puro. Nessa ocasião também apareci diante de vós nesta forma,
apenas para realizar vosso desejo, e pedi que pedisseis o que desejaveis. Nesse momento
vós pedistes para que Eu nascesse como vosso filho. (Krishna, a Suprema Personalidade
de Deus, p. 53).

Em Seu reino espiritual o Senhor Supremo desfruta eternamente de relacionamentos


amorosos com Seus associados pessoais, porém Ele também está presente em todos cantos
e esconderijos dos universos materiais e no coração de todos. Dessa maneira a influência
Dele se espalha por toda existência, quer seja espiritual quer material. Portanto o Rei
77

Kulasekhara diz: “Este universo inteiro é uma demonstração de Teu poder mágico.” O
Senhor Krishna não é um mágico de importância menor. Ele é Yogeshavara, o controlador
de todas potências místicas. No Bhagavad-gita (5.29), o Senhor Krishna declara, sarva-
loka-maheshvaram: “Eu sou o controlador supremo de todos universos.” Além do mais,
Krishna controla todos universos facilmente, sem esforço. Como diz Srila Prabhupada,
não devemos pensar que Ele é como Atlas, que vemos lutando para sustentar a terra com
seus braços. Krishna sempre dispõe de tempo livre para desfrutar com Seus associados
amorosos.

“Por todas estas razões” declara o Rei Kulasekhara, “Não tenho interesse em mais ninguém
além de Ti.”

Texto 46

prananam ishasya shirah-phalam vidus


tad-archanam prana-phalam divaukasah
manah-phalam tad-guna-tattva-chintanam
vachah-phalam tad-guna-kirtanam budhah

prananam – prestando reverências; ishasya – ao Senhor Supremo; shirah – da cabeça;


phalam – a perfeição; viduh – eles conhecem; tat – Sua; archanam – adoração; prana – da
respiração da pessoa; phalam – a perfeição; diva-okasah – os residentes do céu; manah –
da mente; phalam – a perfeição; tat – Dele; guna – das qualidades; tattva – sobre os
detalhes; chintanam – meditação; vachah – da fala; phalam – a perfeição; tat – Dele; guna
– sobre as qualidades; kirtanam – cantar; budhah – inteligente.

TRADUÇÃO

Os sábios habitantes das regiões celestiais sabem que a perfeição da cabeça é oferecer
reverências prostradas ao Senhor Supremo, a perfeição do ar-vital é adorar o Senhor,
a perfeição da mente é ponderar os detalhes de Suas qualidades transcendentais, e a
perfeição da fala é cantar as glórias de Suas qualidades.

SIGNIFICADO

A palavra divaukasah refere-se aos devas, ou semideuses. Estes são devotos do Senhor
Supremo que habitam os planetas celestiais e desfrutam de um raro padrão de gratificação
sensorial, que os coloca justamente dentro do mundo material como almas condicionadas.
Mas porque são seguidores leais do Senhor Vishnu, Ele sempre os protege. Sendo
seguidores de Vishnu, eles geralmente são vitoriosos em suas batalhas com os demônios,
que frequentemente ameaçam se apoderar do reino celestial.

O Rei Kulasekhara menciona os devas não devido a sua opulência material mas por sua
boa qualidade de prestar serviço devocional ao Senhor Hari. Os residentes dos planetas
celestiais não são como as pessoas da terra, onde, na Kali-yuga, a filosofia do “Deus está
morto” predomina e as idéias de ateístas como Darwin, Marx, e Freud são grandemente
influentes em todos assuntos. Embora os devas tenham acesso a formas muito avançadas
de tecnologia e possuam poderes místicos, a fé deles no Senhor Vishnu permanece pura.

Pela graça do Senhor Chaitanya, mesmo as pessoas do planeta terra, embora de muitas
maneiras desqualificadas, também podem se aproximar do Senhor Krishna em serviço
devocional. Na verdade, o Senhor Chaitanya é tão magnânimo que Ele deu aos residentes
da terra uma grande vantagem sobre os semideuses. Essa vantagem é sankirtana, o canto
congregacional dos santos nomes de Deus. Devido a esta grande vantagem, a terra é o
78

melhor lugar para alcançar a meta máxima da vida, retornar ao mundo espiritual eterno.
Conforme declarado no Srimad-Bhagavatam (5.19.21):

Já que a forma humana de vida é a posição sublime para realização espiritual, todos
semideuses no céu falam desta maneira: “Que maravilhoso é esses sseres humanos terem
nascido na terra de Bharata-varsha (a terra)! Eles devem ter executado atos piedosos de
austeridade no passado, ou a própria Suprema Personalidade de Deus deve ter Se agradado
deles. Senão, como poderiam se ocupar em serviço devocional de tantas maneiras? Nós
semideuses só podemos aspirar a obter nascimentos humanos em Bharata-varsha para
executar serviço devocional, porém estes seres humanos já estão ocupados ali.”

Em certa época, o mundo inteiro era conhecido como Bharata-varsha, mas agora somente a
Índia é conhecida por esse nome. A Índia é citada como o melhor lugar para obter auto-
realização porque foi na Índia que muitos acharyas e encarnações de Krishna apareceram,
e é na Índia que a tradição do serviço devocional ao Senhor permanece forte. Srila
Prabhupada escreve: “De todos pontos de vista, Bharata-varsha é a terra especial onde se
pode mui facilmente compreender o processo de serviço devocional e adotá-lo para tornar
a vida um sucesso.” O Senhor Chaitanya encorajou os residentes de Bharata-varsha ainda,
a tornarem se bem sucedidos no serviço devocional e depois pregarem pelo mundo inteiro.
Esse é o trabalho do movimento para consciência de Krishna, uma missão que foi
desenvolvida tão profundamente e com sucesso, por Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupada.

O Rei Kulasekhara nos lembra das devidas funções das várias partes do corpo. A cabeça,
por exemplo, é o centro de todos sentidos, assim tentamos dar-lhe prazer de muitas
maneiras, porém geralmente não através do humilde ato aqui recomendado – prestar
reverência diante do Senhor Supremo. É claro, prestar reverência não é um mero ato
mecânico: a cabeça deve se curvar acompanhada por sinceros sentimentos de devoção no
coração. Prostrar o corpo era uma parte importante do sadhana (disciplina) diário das
almas liberadas como os seis Goswamis de Vrindavana. Em suas orações aos seis
Goswamis, Srinivasa Acharya declarou que eles estavam “ocupados em cantar os santos
nomes do Senhor e prestar reverências numa medida marcada.” Raghunatha dasa
Goswami, um dos seis Goswamis, oferecia mil reverências aos devotos do Senhor
diariamente.

A palavra prana, usada neste verso do Mukunda-mala-stotra, refere-se ao alento vital, que
deve ser usado em adorar o Senhor. Yogis praticam pranayama, o regular da respiração,
para obter controle da mente e dos sentidos, e muitas vezes isso é recomendado como um
método de rejuvenescimento. Embora se possa certamente receber tais benefícios por
controlar a respiração, a senda de bhakti pede que o devoto simplesmente use seu alento-
vital no serviço amoroso ao Senhor. Similarmente, devemos usar a mente, fala, e todas
nossas faculdades dadas por Deus no serviço amoroso do Senhor. Esta perfeição está
disponível para todos, quer sejam semideuses ou seres humanos.

Texto 47

shriman-nama prochya narayanakhyam


ke na prapur vañchitam papino ‘pi
há nah purvam vak pravrtta na tasmims
tena praptam garbha-vasadi-duhkham

shrimat – abençoado; nama – o nome; prochya – tendo falado em voz alta; narayana-
akhyam – chamado “Narayana”; ke – que; na prapuh – não obtiveram; vañchitam – o que
desejaram; papinah – pessoas pecaminosas; api – mesmo; ha – infelizmente; nah - nosso;
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purvam – previamente; vak – fala; pravrtta – ocupadas; na – não; tasmin – nisso; tena –
portanto; praptam – alcançaram; garbha – num ventre; vasa – residência; adi –
começando por; duhkham – miséria.

TRADUÇÃO

Que pessoa, mesmo sendo muito pecaminosa, alguma vez falou alto o abençoado
nome de Narayana e falhou em realizar seus desejos? Mas ai de nós, nunca usamos
nosso poder da fala desta maneira, e assim temos que sofrer tais misérias como viver
dentro de um útero.

SIGNIFICADO

Este verso traz à mente a história de Ajamila do Srimad-Bhagavatam. Ajamila era


pecaminoso, mas por cantar o nome Narayana quando estava à beira da morte, ele realizou
seus desejos finais. Na seguinte citação do Bhagavatam (6.2.13), os servos do Senhor
Vishnu explicam aos servos de Yamaraja, o senhor da morte, porque Ajamila não é um
candidato qualificado para punição:

“Na hora da morte dele este Ajamila cantou desvalido e bem alto, o santo nome do
Senhor Narayana. Esse cantar por si só já o libertou das reações de toda vida pecaminosa.
Portanto, ó servos de Yamaraja, não tentem levá-lo ao seu senhor para punição nas
condições infernais.”

Ajamila havia cantado indiretamente, clamando o nome de seu filho, mas porque ele
pronunciou o sagrado nome Narayana, foi salvo do inferno. Então ele continuou a
aperfeiçoar sua consciência de Krishna e a retornar de volta ao lar, de volta para Deus. Seu
cantar “acidental” do santo nome, portanto, despertou seu desejo original de servir ao
Senhor. Se mesmo uma pessoa extremamente pecaminosa como Ajamila pode ser salva
pelo cantar indiretamente o nome Narayana, então mais ninguém deixará de alcançar seus
maiores desejos por cantar o abençoado nome Narayana.

O Rei Kulasekhara fala em prol de todos que se esquecem de cantar os santos nomes.
Estes versos destinam-se a todos nós que estamos perdendo a oportunidade de obter
perfeição através do cantar. Se não clamarmos pelo Senhor, então teremos de enfrentar
todos tipos de misérias. Kulasekhara menciona a dor de viver no útero. O Senhor Kapila
fornece detalhes gráficos desse tormento em Seus ensinamentos para Sua mãe, Devahuti:

Sendo mordida repetidas vezes pelos vermos famintos no próprio abdômen, a


criança sofre terrível agonia. Devido a sua delicadeza, ela assim fica inconsciente
momento após momento, por causa dessa condição terrível.
Então devido à mãe comer alimentos amargos, pungentes, ou comida que é salgada
ou azeda demais, o corpo da criança sofre incessantemente dores que são muito
intoleráveis. (Bhag. 3.31.7-8).

As pessoas recusam-se a reconhecer estes fatos, e essa é uma das razões porque não se
refugiam no santo nome. Mesmo se são lembradas das dores que sofreram no passado,
elas asseveram que não faz mal porque agora estão livres da dor. Mas uma pessoa que
desconsidera a lei natural e escritural garante que irá sofrer os mesmos tormentos que
assevera ter esquecido. Srila Prabhupada escreve: “Quem não presta atenção nestas
indicações de sofrimento na existência humana é dito estar indubitavelmente cometendo
suicídio.” (Bhag. 7.31.9, significado).
80

A poesia Vaisnava está cheia de verdades védicas e pode trazer o benefício máximo, bem
como prazer para o ouvido e coração. Neste único sloka o Rei Kulasekhara nos deu uma
descrição penetrante de nossa infeliz situação desagradável, com um toque de esperança
para a salvação final. Se pudermos compreender a mensagem só mesmo deste único verso
– e também sentí-lo e agir segundo ele – então poderemos poupar-nos de ilimitado
sofrimento.

Texto 48

dhyayanti ye vishnum anantam avyayam


hrt-padma-madhye satatam vyavasthitam
samahitanam satatabhaya-pradam
te yanti siddhim paramam tu vaishnavim

dhyayanti – meditam; ye – que; vishnum – no Senhor Vishnu; anantam – o ilimitado;


avyayam – o infalível; hrt – do coração; padma – o lótus; madhye – dentro; satatam –
sempre; vyavasthitam – situado; samahitanam – para aqueles que estão fixos na
consciência Dele; satata – perpétuo; abhaya – destemor; pradam – concedendo; te – eles;
yanti – obtém; siddhim – perfeição; paramam – suprema; tu – de fato; vaishnavim - dos
Vaisnavas, e em relação a Vishnu.

TRADUÇÃO

O ilimitado e infalível Vishnu, que está sempre presente dentro do lótus do coração,
concede destemor para aqueles que fixam sua inteligência Nele. Os devotos que
meditam Nele irão alcançar a suprema perfeição dos Vaisnavas.

SIGNIFICADO

O Rei Kulasekhara antes falou sobre as perfeições que podemos obter por usar nossa
mente e sentidos no serviço do Senhor Supremo. Agora ele especifica que a perfeição
máxima é siddhim vaisnavim, a suprema perfeição dos Vaisnavas.

Todos Vaisnavas estão situados corretamente, mas mesmo entre devotos existem estados
progressivos. No Néctar da Devoção, Srila Prabhupada resume as características das três
classes de devotos. Parafraseamos seu resumo conforme a seguir: O devoto de terceira
classe é aquele cuja fé não é firme e que, ao mesmo tempo, não reconhece a decisão das
escrituras reveladas. O devoto de segunda classe poderá não ser perito em argumentar com
base na escritura, mas ele tem fé firme no objetivo. E o devoto de primeira classe é aquele
que é muito perito no estudo e explicação das escrituras e ao mesmo tempo tem fé sólida.

Na sua maior parte, o devoto de terceira classe (conhecido como kanistha-adhikari) tem fé
na Deidade no templo e adora o Senhor ali. Mas o kanistha-adhikari geralmente é incapaz
de apreciar outros devotos ou a presença do Senhor no coração de todos. Não obstante,
mesmo o Vaisnava de terceira classe é considerado altamente elevado. Srila Prabhupada
escreve: “Mesmo o devoto de terceira classe – que não é avançado no conhecimento da
Verdade Absoluta mas simplesmente oferece reverências com grande devoção, pensa no
Senhor, vê o Senhor no templo, e traz flores e frutas para oferecer para a Deidade – se
torna imperceptivelmente liberado.” (Bhag. 3.25.36, significado). Por força de sua atração
pelas Deidades de Sri Sri Radha-Krishna ou Lakshmi-Narayana, o kanistha-adhikari está
numa posição transcendental, acima daqueles que estão se esforçando pela liberação
através da especulação ou outros métodos.
81

Avançamos pelos estágios da perfeição, aplicando-nos sob a orientação do guru – e tudo


depende de nossa fé. No Chaitanya-charitamrta (Madhya 22.64), o Senhor Chaitanya
confirma isso, explicando para Sanatana Goswami que a pessoa se torna qualificada como
um devoto na plataforma elementar, na plataforma intermediária e na plataforma mais
elevada do serviço devocional conforme o desenvolvimento de sua shraddha (fé).

Não se avança no serviço devocional como se faz no mundo material, escalando uma
escada social ou trabalhando duro pelo desenvolvimento econômico ou pela força militar.
Em vez disso, é preciso deixar todas “forças” materiais e designações e tornar-se humilde
como uma folha de grama. A base do serviço devocional é o cantar do santo nome, e
segundo o Senhor Chaitanya não se consegue cantar constantemente a não ser que se
ofereça todos respeitos aos outros sem esperar respeito para si próprio. Em vez de tentar se
impelir adiante apesar de manter as contaminações da luxúria, ira, e cobiça no coração, a
pessoa deve tornar-se pura e perceber-se como serva de Deus, Seus devotos e todos seres
vivos.

O estágio perfeito da devoção é descrito no Texto 25 do Mukunda-mala-stotra: “Ó


inimigo de Madhu e Kaistabha, ó Senhor do universo, a perfeição de minha vida e a mais
almejada misericórdia que poderias mostrar-me seria a de me considerares o servo do
servo do servo do servo do servo do servo de Teu servo.” O Senhor Chaitanya também
expressou este importante sentimento quando declarou que não era um brahmana e nem
sannyasi, mas um servo do servo do servo dos pés de lótus de Krishna, o Senhor das gopis
de Vrindavana. Assim devotos que querem alcançar perfeições devocionais irão orar pela
boa fortuna de servir Vaisnavas reconhecidos.

O Rei Kulasekhara também nós dá a visão da meditação constante no Senhor Vishnu. Isso
pode ser obtido por ocupar-se vinte e quatro horas por dia em vários serviços dentro do
sistema das nove práticas de bhakti (vide Srimad-Bhagavatam 7.5.24). Um verdadeiro
Vaisnava nunca pensa que alcançou o estágio máximo de perfeição, mas sim continua a
servir o Senhor e os devotos enquanto sempre permanece consciente do Senhor Supremo
em seu coração.

Texto 49

tat tvam prasida bhagavan kuru mayy anathe


vishno krpam parama-karunikah khalu tvam
samsara-sagara-nimagnam ananta dinam
uddhartum arhasi hare purushottamo ‘si

tat – portanto; tvam – Tu; prasida – por favor mostra Teu favor; bhagavan – ó Senhor
Supremo; kuru – por favor dê; mayi – para Mim; anathe – que estou sem um senhor;
vishno – ó Vishnu; krpam – misericórdia; parama – o mais; karunikah – misericordioso;
khalu – afinal; tvam – Tu; samsara – da existência material; sagara – no oceano;
nimagnam – submerso; ananta – ó ser ilimitado; dinam – miserável; uddhartum – levantar;
arhasi – deves por favor; hare – ó Hari; purusha-uttamah – a Suprema Personalidade de
Deus; asi – Tu és.

TRADUÇÃO

Ó Senhor Supremo, ó Vishnu, Tu és o mais misericordioso. Portanto por favor me


mostra Teu favor e conceda Tua misericórdia a esta alma desvalida. Ó ilimitado
Senhor, bondosamente eleva este miserável que está se afogando no oceano da
existência material. Ó Senhor Hari, és a Suprema Personalidade de Deus.
82

SIGNIFICADO

Um religioso complacente poderá pensar que um devoto não precisa clamar por atenção
pessoal: “O Senhor Krishna já sabe tudo, portanto não há necessidade de súplicas
individuais.” Mas segundo os acharyas, quando uma alma que se sente sem saída e
desafortunada clama pelo Senhor, ela toca o coração do Senhor. Srila Prabhupada uma vez
deu um exemplo disso enquanto estava caminhando com seus devotos num parque. Um
grupo de patos dentro de um laguinho nadavam em direção aos devotos, e o pato que
grasnou mais alto recebeu algum alimento. Prabhupada comentou que de maneira
semelhante temos que gritar por Krishna, assim como uma criança chora por sua mãe. É
claro que isso não deve ser feito de maneira egoísta ou artificial, mas o Senhor irá
responder aos clamores sinceros e desamparados de seu devoto.

Um devoto não deseja incomodar o Senhor com quaisquer exigências ou pedidos,


entretanto clamar por misericórdia não contradiz o humor abnegado de serviço. Um bom
exemplo é Gajendra, que pediu ao Senhor para libertá-lo das mandíbulas de um crocodilo.
Srila Prabhupada escreve:

Devotos puros não tem nada a pedir para a Suprema Personalidade de Deus, porém
Gajendra, o rei dos elefantes, estava circunstancialmente pedindo uma benção imediata
porque não tinha outra maneira de ser salvo. Às vezes, quando não há nenhuma
alternativa, um devoto puro, sendo plenamente dependente da misericórdia do Senhor
Supremo, ora por alguma benção. Mas em tal oração também há pesar.(Bhag. 8.3.21,
significado).

A Rainha Kunti fez um pedido semelhante nas suas orações:

atha vishvesha vishvatman vishva-murte svakeshu me


sneha-pasham imam chindhi drdham pandushu vrshnishu

“Ó Senhor do universo, alma do universo, ó personalidade da forma do universo, por favor,


portanto, corta meu laço da afeição pelos meus parentes, os Pandavas e os Vrshnis.”
(Bhag. 1.8.41). Nestas instâncias os devotos puros não pedem bençãos materiais mas que
o Senhor intervenha e arranje as coisas a fim de que eles possam se render mais
plenamente a Ele. Sobre o pedido da Rainha Kunti, Srila Prabhupada escreve:

Um devoto puro do Senhor tem vergonha de pedir ao Senhor qualquer coisa por
interesse próprio. Mas os chefes-de-família às vezes são obrigados a pedir favores do
Senhor, estando atados pelo laço da afeição familial. Srimati Kuntidevi estava consciente
deste fato, e portanto ela orou ao Senhor para cortar seus laços afetivos com seus próprios
parentes, os Pandavas e os Vrshnis. (Bhag. 1.8.41).

Também, há muitas canções emocionantes dos Vaisnavas de época recente na qual eles
clamam ao Senhor por auxílio individual na senda do serviço devocional. Por exemplo,
Srila Bhaktivinoda Thakura canta em Gopinatha:

Ó Gopinatha, este pecador, que está chorando e chorando, implora por um lugar
eterno aos Teus divinos pés. Por favor dê-lhe Tua misericórdia.
Ó Gopinatha, és capaz de fazer qualquer coisa, e portanto tens o poder de salvar
todos pecadores. Quem é que é mais pecador do que eu mesmo?

Considerando profundamente suas desqualificações e pedindo ajuda especial, o devoto


pede para seu salvador ser misericordioso. O devoto reconhecer sua completa dependência
83

do Senhor Supremo é um pré-requisito para sua purificação. Ele sabe que se o Senhor Hari
não responde, não terá ninguém mais a quem se voltar.

O Rei Kulasekhara nos ensina como nos volver ao Senhor Krishna em todas ocasiões, quer
seja em meditação enquanto absortos em Seu nome, forma, e passatempos totalmente
atrativos, ou no desespero enquanto se afunda no oceano da vida material.

Texto 50

kshira-sagara-taranga-sikara-
sara-tarakita-charu-murtaye
bhogi-bhoga-shayaniya-shayine
madhavaya madhu-vidvishe namah

kshira – de leite; sagara – no oceano; taranga – das ondas; sikara – das gotículas
salpicadas; asara – pela chuva; tarakita – salpicada; charu – encantadora; murtaye – cuja
forma; bhogi – da serpente (Senhor Ananta Shesha); bhoga – do corpo; shayaniya – do
divã; shayine – que se deita; madhavaya – ao Senhor Madhava; madhu-vidvishe – o
antagonista do demônio Madhu; namah – reverências.

TRADUÇÃO

Reverências ao Senhor Madhava, inimigo do demônio Madhu. Sua bela forma,


deitado no leito da serpente Ananta, é salpicada pelas gotículas borrifadas pelas
ondas do oceano de leite.

SIGNIFICADO

Esta é uma visão pitoresca do Kshirodakashayi Vishnu, a expansão do Senhor Krishna que
habita o planeta espiritual Svetadvipa. No Srimad-Bhagavatam (3.8.23) Srila Vyasadeva
também descreve a beleza do Senhor Vishnu enquanto está deitado em yoga-nidra:

O brilho do corpo transcendental do Senhor zombava da beleza da montanha de


coral. A montanha de coral é mui belamente vestida pelo céu vesperal, mas a veste
amarela do Senhor zombava de sua beleza. Existe ouro no cume da montanha, porém o
elmo do Senhor, enfeitado de jóias, zombava dele. As cachoeiras, ervas, etc. da montanha,
com um panorama de flores, parecem como guirlandas, porém o corpo gigantesco do
Senhor, e Suas mãos e pernas, decoradas com jóias, pérolas, folhas de tulasi, e guirlandas
de flores, zombavam do cenário na montanha.

O Rei Kulasekhara descreve o Senhor Vishnu como o matador de Madhu. Embora na


forma de Kshirodakashayi Vishnu o Senhor não matou Madhu, não existe contradição em
chamar o Senhor Supremo por qualquer de Seus nomes dos passatempos. Como Srila
Krishnadasa Kaviraja aponta em seu Chaitanya-charitamrta (Adi 5.128-130, 132):

Não existe diferença entre a encarnação e a fonte de todas encarnações.


Anteriormente o Senhor Krishna era considerado à luz de diferentes princípios por
diferentes povos. Alguns diziam que Krishna era diretamente o Senhor Nara-Narayana, e
alguns o chamavam de Senhor Vamanadeva encarnado. Alguns chamavam o Senhor
Krishna de uma encarnação do Senhor Kshirodakashayi. Todos esses nomes são
verdadeiros... Em qualquer forma que se conheça o Senhor, se fala Dele daquela maneira.
Nisso não existe falsidade, já que tudo é possível em Krishna.
84

A forma Kshirodakashayi do Senhor Vishnu é mui raramente vista, mesmo por devotos
avançados. Às vezes quando há uma crise na administração universal, o Senhor Brahma
vai até Svetadvipa para consultar-se com Kshirodakashayi Vishnu. Brahma senta-se à
margem do oceano de leite e canta as orações Purusha-sukta. Em meditação, ele então
ouve instruções do Senhor.

As gotículas salpicadas pelo oceano de leite sobre a forma do Senhor, zombam da


concepção impessoal da Verdade Absoluta. A fonte de todas encarnações não é uma
refulgência impessoal mas o próprio Senhor transcendental, a Pessoa Suprema. O Rei
Kulasekhara não fabrica imagens mas segue estritamente as descrições védicas do Senhor
de Svetadvipa.

Texto 51

alam alam alam eka praninam patakanam


nirasana-vishaye ya krishna krishneti vani
yadi bhavati mukunde bhaktir ananda-sandra
karatala-kalita sa moksha-samrajya-lakshmih

alam alam alam – suficientes, suficientes, suficientes; eka – em si; praninam – dos seres
vivos; patakanam – dos pecados; nirasana – espantando; vishaye – quanto ao assunto; ya –
que; krishna krishna – “Krishna Krishna”; iti – assim; vani – palavras; yadi – se; bhavati –
houver; mukunde – pelo Senhor Mukunda; bhaktih – devoção; ananda – com êxtase;
sandra – denso; kara-tala – nas palmas das mãos da pessoa; kalitah – disponível; sa – ela
(devoção); moksha – liberação; samrajya – influência; lakshmih – e opulência.

TRADUÇÃO

Por si mesmas as palavras “Krishna, Krishna” são suficientes para mandar embora
os pecados de todos seres vivos. Qualquer pessoa que possua devoção pelo Senhor
Mukunda que seja densamente imbuída de êxtase, segura nas palmas de suas mãos as
dádivas da liberação, influência mundana, e fortuna.

SIGNIFICADO

A declaração do Rei Kulasekhara que o santo nome afasta os pecados nos traz à mente uma
declaração similar falada pelo Namacharya Haridasa Thakura. Primeiro ele citou um verso
que emprega a analogia do sol nascente:

amhah samharad akhilam


sakrd udayad eva sakala-lokasya
taranir iva timira-jaladhim
jayati jagan-mangalam harer nama

“Assim como o sol nascente imediatamente dissipa toda escuridão do mundo que é
profunda como um oceano, também o santo nome do Senhor Hari, se cantado uma vez sem
ofensas, dissipa todas reações da vida pecaminosa de um ser vivo. Todas as glórias a esse
santo nome do Senhor, que é auspicioso para o mundo inteiro.” (Cc. Antya 3.181)

Em seguida Haridasa Thakura explicou o verso conforme a seguir: Assim como o primeiro
vislumbre da luz do sol dissipa nossos medos de ladrões e fantasmas, também com o
primeiro indício do cantar sem ofensas dos santos nomes do Senhor, reações de uma vida
pecaminosa imediatamente desaparecem. Se um devoto pode continuar a cantar sem
ofensas, ele continua até despertar o amor extático por Krishna.
85

Então Haridasa Thakura declarou: “Liberação é o resultado insignificante derivado de um


vislumbre do despertar do cantar sem ofensas do santo nome.” Quando Haridasa fez esta
declaração, um brahmana ritualístico desafiou-o, dizendo que ele havia exagerado os
poderes do santo nome. Porém Haridasa Thakura respondeu com provas shastricas. Ele
deu o exemplo de Ajamila, que cantou o santo nome do Senhor com a intenção de chamar
seu filho Narayana, e no entanto foi imediatamente liberto de suas reações pecaminosas
através disto, e que afinal alcançou o mundo espiritual. Haridasa também citou um verso
do Srimad-Bhagavatam provando que devotos puros preferem servir o Senhor a serem
liberados sem tal serviço.

Srila Bhaktivinoda Thakura descreve elaboradamente os estágios de cantar o santo nome


em seu Harinama-chintamani: o cantar que está cheio de ignorância e ofensas é
conhecido como nama-aparadha. O estágio seguinte, que ainda contém imperfeições, é
conhecido como nama-abhasa, ou a sombra do santo nome. Este é o estágio em que
podemos nos livrar dos pecados e mesmo obter a liberação. Mas só se consegue obter
krishna-prema puro através do cantar sem ofensas, um estágio conhecido como suddha-
nama, ou o cantar puro do santo nome.

O Rei Kulasekhara diz que quem obteve amor por Krishna tem todas outras bençãos
facilmente a seu alcance, inclusive mukti e as dádivas de Lakshmi, a deusa da fortuna. A
indiferença do bhakta para com a liberação é ainda expressada por Bilvamangala Thakura
em seu Krishna-karnamrita (107):

bhaktis tvayi sthiratara bhagavan yadi syad


daivena nah phalati divya-kisora-murthih
muktih svayam mukulitañjali sevate ’sman
dharmartha-kama-gatayah samaya-pratikshah

“Meu querido Senhor, se eu estiver ocupado em firme serviço devocional a Ti, então mui
facilmente conseguirei perceber Tua transcendental forma juvenil. E quanto à liberação,
esta estará diante de minha porta de mãos postas pronta para me servir, e todas
conveniências materiais de religiosidade, desenvolvimento econômico, e gratificação
sensorial estão de pé junto dela.”

Um devoto puro obtém facilmente a fortuna e liberação, mas ele não está interessado nelas.
Como Srila Prabhodananda Sarasvati escreve em seu Sri-Chaitanya-chandramrta (5):
“(Para um devoto puro) a liberação impessoal é tão agradável quanto ir para o inferno, e as
cidades celestiais dos semideuses são tão reais quanto as flores que se imagina flutuando
no céu.” O devoto é atmarama, auto-satisfeito, porque ele sabe que o serviço devocional a
Krishna traz tudo.

Texto 52

yasya priyay shruti-dharau kavi-loka-virau


mitrau dvi-janma-vara-padma-sharav abhutam
tenambujaksha-charanambuja-sat-padena
rajña krta krtir iyam kulasekharena

yasya – cujo; priyay – amado; shruti-dharau – perito no conhecimento dos Vedas; kavi –
de poetas; loka – na sociedade; virau – líderes eminentes; mitrau – dois amigos; dvi-janma
– dos brahmanas; vara – superior; padma – do lótus; sharau – caules; abhutam – se
tornaram; tena – através dele; ambuja-aksha – do Senhor de olhos de lótus; charana-
86

ambuja – aos pés de lótus; sat-padena – pela abelha; rajña – pelo rei; krta – feita; krtih –
redação; iyam – esta; kulasekharena – por Kulasekhara.

TRADUÇÃO

Este trabalho foi composto pelo Rei Kulasekhara, uma abelha aos pés de lótus do
Senhor de olhos de lótus. Os dois amados amigos do rei são dois caules gêmeos do
raro lótus da comunidade brahmana, peritos eruditos védicos de renome como líderes
da comunidade de poetas.

SIGNIFICADO

Tal como uma abelha aos pés de lótus do Senhor Krishna, o Rei Kulasekhara fez mel na
forma de sua excelente poesia, que transborda de nectáreas descrições do Senhor Supremo.
Ele também clamou ao Senhor por salvação do oceano de sofrimento material. Ao
empregar um vasto repertório de metáforas, e ao falar das profundidade dos sinceros
sentimentos Vaisnavas, ele tornou seus leitores gratos a ele. Agora eles também poderão se
tornar abelhas e beber do mel do Mukunda-mala-stotra.

Entre as vinte e seis qualidades de um devoto, uma é que ele é um kavi ou poeta. O
assunto do cantar e ouvir de um devoto engloba o superexcelente nome, forma, qualidades
e passatempos de Krishna. O kavi qualificado recebe consciência de Krishna fielmente no
parampara e passa esta para excelentes poemas e discursos. Portanto se diz que o Srimad-
Bhagavatam “emanou dos lábios de Sri Sukadeva Goswami. Logo este fruto (da árvore
dos desejos da literatura védica) tornou-se ainda mais saborosa, embora seu sumo nectáreo
já fosse prazeroso para todos, inclusive almas liberadas.” (Bhag. 1.1.3). Descrevendo a
contribuição de Sukadeva Goswami ao Bhagavatam, Prabhupada escreve: “O fruto védico
que é maduro e perfeito em conhecimento é falado através dos lábios de Sri Sukadeva
Goswami, que é comparado ao papagaio não por sua habilidade em recitar o Bhagavatam
exatamente conforme ouvido de seu sábio pai, mas por sua capacidade de apresentar a obra
de uma maneira que atrairia todas classes de homens.” Como Sukadeva, o Rei Kulasekhara
absorveu as conclusões védicas e adicionou às mesmas seu próprio sabor de doçuras
devocionais.

Em seu Govinda-lilamrta, Sri Krishnadasa Kaviraja termina cada capítulo de sua obra
com uma declaração semelhante a esta aqui do Rei Kulasekhara. Ele escreve, sri-
chaitanya-padaravinda-madhupa-sri-rupa-seva-phale: “Este livro é o fruto amadurecido
do meu serviço a Srila Rupa Goswami, que é um abelhão saboreando mel aos pés de lótus
de Sri Chaitanya Mahaprabhu.”

A rasa doce como mel da consciência de Krishna também é expressada por Bilvamangala
Thakura em seu Sri Krishna-karnamrta (92):

madhuram madhuram vapur asya vibhor-


madhuram madhuram vadanam madhuram,
madhu-gandhi mrdu-smitam etad aho
madhuram madhuram madhuram madhuram

“Este transcendental corpo de Krishna é muito doce, e Seu rosto é ainda mais doce. Porém
Seu suave sorriso, que tem a fragrância do mel, é mais doce ainda.”

Texto 53

mukunda-malam pathatam naranam


87

ashesha-saukhyam labhate na kah svit


samasta-papa-kshayam etya dehi
prayati vishnoh paramam padam tat

mukunda-malam - esta guirlanda de flores para o Senhor Mukunda; pathatam – que recita;
naranam – entre pessoas; ashesha – completa; saukhyam – felicidade; labhate na – não
obtém; kah svit – que sequer; samasta – de todos; papa – pecados; kshayam – a
erradicação; etya – obtendo; dehi – um ser encarnado; prayati – prosegue; vishnoh – do
Senhor Vishnu; paramam – suprema; padam – para a morada; tat – aquela.

TRADUÇÃO

Quem dentre aqueles que recitam este Mukunda-mala não irá alcançar completa
felicidade? Um ser encarnado que canta estas orações irá ter todas suas reações
pecaminosas erradicadas e prosseguirá direto para a suprema morada do Senhor
Vishnu.

SIGNIFICADO

Seguindo a tradição shastrica, o Rei Kulasekhara termina seus poemas com uma auspiciosa
benção para seus leitores. Encontramos muitas de tais bençãos no Srimad-Bhagavatam.
Por exemplo, o Sétimo Canto contém esta declaração: “Quem ouvir com grande atenção
esta narrativa sobre as atividades de Prahlada Maharaja, a morte de Hiranyakashipu, e as
atividades da Suprema Personalidade de Deus, Nrshimhadeva, certamente alcançará o
mundo espiritual, onde não há ansiedade.” (Bhag. 7.10.47)

A benção do poeta Vaisnava para o leitor não é meramente uma forma literária. O Srimad-
Bhagavatam ou o Mukunda-mala-stotra podem conceder plenas bençãos a qualquer leitor
receptivo e mandá-lo de volta para o lar, de volta para Deus. Necessitamos apenas
considerar os tópicos elevados que o Rei Kulasekhara cobriu em seu poema. Por exemplo,
ele frequentemente mencionou que os santos nomes do Senhor podem nos salvar do
samsara. E ele nos exortou a clamar ao Senhor Krishna pela proteção. De fato, o
Mukunda-mala-stotra está repleto de conselhos amigáveis para cantar os nomes de
Krishna, curvar-se diante Dele, e serví-Lo com todos nossos sentidos e mente. O Rei
Kulasekhara nos aconselhou a nos tornarmos servos do servo do servo do servo do servo
do servo do servo do Senhor. Todas estas declarações na verdade são injunções provindo
diretamente da Suprema Personalidade de Deus e dos shastras. O Rei Kulasekhara as
repetiu em sua própria voz e com suas próprias convicções, mas suas orações tem a
autoridade do Senhor Supremo por trás delas.

Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada escolheu estes versos potentes
para traduzir como As Orações do Rei Kulasekhara. Ele começou a traduzí-los para o
inglês a fim de serem distribuídos em larga escala através de sua revista De Volta Para o
Supremo. Será nossa boa fortuna continuar a ouvir estes versos com sinceridade, cantá-los
repetidamente, e estudar e lembrar deles. Como seguidores de Srila Prabhupada, estaremos
particularmente inclinados a lembrar do Texto 33:

krishna tvadiya-pada-pankaja-pañjarantam
adyaiva me vishatu manasa-raja-hamsah
prana-prayana-samaye kapha-vata-pittaih
kanthavarodhana-vidhau smaranam kutas te
88

“Ó Senhor Krishna, neste momento que o cisne real da minha mente possa entrar nos
caules emaranhados de Teus pés de lótus. Como será possível para mim lembrar de Ti na
hora da morte, quando minha garganta estará sufocada de muco, bílis e ar?”

* * *
89

REFERÊNCIAS

Os significados do Mukunda-mala-stotra são todos confirmados pelas autoridades védicas


aceitáveis. As seguintes escrituras autênticas são citadas neste volume.

Adi Purana Narada-pañcharatra


Bhagavad-gita Néctar da Devoção
Brahma-samhita Néctar da Instrução
Brhad-bhagavatamrta Padma Purana
Chaitanya-charitamrta Padyavali
Hari-bhakti-sudhodaya Sharanagati
Ishopanishad Shikshastaka
Kali-santarana Upanishad Srimad-Bhagavatam
Krishna,a Suprema Personalidade de Deus Stotra-Ratna
Krishna-karnamrta Svetasvatara Upanishad
Mahabharata Ensinamentos da Rainha Kunti
Um Presente Inigualável Upadesamrta
Mukunda-mala-stotra
90

Sua Divina Graça


A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada apareceu neste mundo em 1896
em Calcutá, Índia. Ele primeiramente encontrou seu mestre espiritual, Srila
Bhaktisiddhanta Sarasvati Goswami, em Calcutá em 1922. Bhaktisiddhanta Sarasvati, um
eminente estudioso religioso e fundador de sessenta e quatro Gaudiya Mathas (institutos
védicos) na Índia, gostou desse jovem moço e convenceu-o a dedicar sua vida a ensinar o
conhecimento védico. Srila Prabhupada tornou-se seu estudante e, em 1933, seu discípulo
formalmente iniciado.

No primeiro encontro deles, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati pediu a Srila Prabhupada para
divulgar o conhecimento védico em inglês. Nos anos que se seguiram, Srila Prabhupada
escreveu um comentário sobre o Bhagavad-gita, auxiliou a Gaudiya Matha em seu
trabalho, e, em 1944, iniciou a Back to Godhead (De Volta Para o Supremo), revista
bimensal em inglês. Sozinho, Srila Prabhupada editava-a, datilografava os manuscritos,
checava as minutas, e até mesmo distribuía as cópias individuais. A revista agora está
sendo continuada por seus discípulos no ocidente.

Em 1950 Srila Prabhupada se retirou da vida casada, adotando a ordem vanaprastha


(retirada) para devotar mais tempo a seus estudos e escritos. Viajou para a cidade sagrada
de Vrindavana, onde vivia em circunstâncias humildes no templo histórico de Radha-
Damodara. Ali ele se ocupou por diversos anos em profundo estudo e escritos. Aceitou a
ordem renunciada de vida (sannyasa) em 1959. No Radha-Damodara, Srila Prabhupada
começou a trabalhar na obra-prima de sua vida: uma tradução de múltiplos volumes,
comentada, dos dezoito mil versos do Srimad-Bhagavatam (Bhagavata Purana). Também
escreveu Fácil Viagem a Outros Planetas.

Após publicar três volumes do Bhagavatam, Srila Prabhupada veio para os Estados
Unidos, em Setembro de 1965, para realizar a missão de seu mestre espiritual.
Subsequentemente, Sua Divina Graça escreveu mais de cinquenta volumes de traduções
autorizadas e comentadas, e estudos resumidos de clássicos religiosos e filosóficos da
Índia.

Quando primeiramente chegou pelo navio de carga na cidade de Nova Iorque, Srila
Prabhupada estava praticamente sem dinheiro. Somente após quase um ano de grande
dificuldade é que estabeleceu a International Society for Krishna Consciousness-
ISKCON, em julho de l966. Antes de fazer a passagem a 14 de Novembro de 1977, havia
guiado a Sociedade e visto seu crescimento até tornar-se uma confederação mundial de
mais de cem ashramas, escolas, templos, e comunidades agrárias.

Em1972, Sua Divina Graça introduziu o sistema védico de educação primária e secundária
no ocidente, fundando a escola gurukula em Dallas, Texas. Desde então seus discípulos
estabeleceram escolas similares pelos Estados Unidos afora e no resto do mundo.

Srila Prabhupada também inspirou a construção de diversos centros culturais


internacionais de grande porte na Índia. O centro em Sridhama Mayapur é o local de uma
cidade espiritual planejada, projeto ambicioso cuja construção irá se estender por muitos
anos vindouros. Em Vrindavana temos o magnífico Templo Krishna-Balarama e a
Hospedaria Internacional, escola gurukula, e Memorial de Srila Prabhupada e Museu.
Também há um grande centro cultural e educacional em Bombay. Centros maiores estão
planejados para Delhi e uma dúzia de outras localidades importantes no subcontinente
indiano.
91

A contribuição mais significante de Srila Prabhupada, contudo, são seus livros. Altamente
respeitados por estudiosos pela sua autoridade, profundidade, e clareza, são usados como
livros-texto em numerosos cursos unviersitários. Seus escritos foram traduzidos em mais
de cinquenta idiomas. A Bhaktivedanta Book Trust-BBT, estabelecida em 1972 para
publicar as obras de Sua Divina Graça, portanto tornou-se a maior editora de livros no
campo da religião e filosofia indiana.

Em apenas doze anos, apesar de sua idade avançada, Srila Prabhupada circundou o globo
quatorze vezes em excursões dando palestras que o levaram a seis continentes. Contudo
este vigoroso roteiro não atrasou sua prolífica produção literária. Seus escritos constituem
uma verdadeira biblioteca de filosofia, religião, literatura e cultura védicas.

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