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REFLEXÕES

FILOSOFIA E ARTE
a partir da música Trem-bala
de Ana Vilela

PROF.DR.THIAGO RODRIGUES PEREIRA


THIAGO RODRIGUES PEREIRA

R E F L E X Õ E S :
F I L O S O F I A E
A R T E A P A R T I R
D A M Ú S I C A
T R E M - B A L A D E
A N A V I L E L A

1 ª E D I Ç Ã O

P O R T O
2 0 1 9
Apresentação
Uma breve explicação das opções metodológicas

Mais um ano se inicia e com ele as conhecidas reflexões


sobre o ano que está se encerrando e o ano vindouro. É até
natural um certo grau de melancolia, aquela ponta de
arrependimento e até remorso por erros cometidos ou mesmo
por chances desperdiçadas por medos e receios.

E o que essa certa melancolia ou “depressão de final ano” tem


a ver com a filosofia?

E com a música, e mais especificadamente com a música


Trem-bala, de Ana Vilela?

Tentarei apresentar nesse breve ensaio uma reflexão


filosófica sobre a chamada “depressão de final de ano”
utilizando a letra da música Trem-bala como ponto de partida
(e por que não de chegada também).

É importante mencionar que essa escolha se deve ao fato de


que o norte reflexivo se dará a partir do pensamento de
filósofos que não se enquadram na chamada filosofia
tradicional, que tem em Sócrates, Platão, Aristóteles,
Descartes e Kant o seu natural desenvolvimento.

Os autores que serão mais utilizados nessa breve reflexão


serão Spinoza e Nietzsche. 
Esses autores ousaram em suas épocas divergir do
pensamento dominante e construir uma forma de pensar
bastante inovadora, tendo como grande ponto em comum a
defesa de que os instintos não são algo ruim em si, e que por
isso precisam ser controlados, dominados e rebaixados pela
razão.

Na verdade, a proposta é justamente mostrar que a existência


de tais instintos são inerentes a todos os animais, aos quais
nós, seres humanos estamos inseridos, e que o erro da
filosofia tradicional foi não perceber, ou preferir ignorar tal
fato, apostando em uma vida eminentemente racional,
tentando de todas as formas manietar qualquer pensamento,
ideia, valor e ação que não encontrasse na racionalidade o seu
nascedouro.
  
Além disso, a proposta nietzschiana é mostrar que, apesar da
importância da ciência, não pode ser ela, ou pelo menos não
apenas ela, a valorar a vida. Sua proposta será então de que
deveria ser a arte o elemento a valorar a vida humana.

Portanto, a opção de realizar tal reflexão a partir da música


popular mencionada se deu exatamente em razão da escolha
de um marco teórico que privilegia a arte, incluindo por óbvio
a música, como o grande elemento de engrandecimento da
vida humana.
Sumário

05
A p r e c i a r a v i d a s e m r e c a l q u e s ,
s e m m e l i n d r e s , m a s d i z e n d o
s e m p r e S i m p a r a e l a .

09
S o m o s i n f i n i t o s p o i s D e u s s i v e
n a t u r a

13
A n e c e s s á r i a m u d a n ç a d o
p a r a d i g m a d a m o d e r n i d a d e

17
N ã o h á n e n h u m a f i n a l i d a d e n o
c o n s u m i s m o

20
A v e l o c i d a d e d a v i d a

25
A P u r a f i l o s o f i a n i e t z s c h i a n a

31
C o n s i d e r a ç õ e s F i n a i s

35
B i b l i o g r a f i a

37
I n f o r m a ç õ e s
01

C A P Í T U L O

01
Capítulo 1: Apreciar a vida sem recalques, sem melindres,
mas dizendo sempre Sim para ela.

Não é sobre ter todas pessoas do mundo pra si


É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós

06
A vida é sempre um acontecimento inédito, pois mesmo que
as coisas se repitam periodicamente, como Nietzsche já
afirmara em sua ideia do eterno retorno, não há uma repetição
igual.

Isso ocorre pois, desde a antiguidade, Heráclito estava certo


quando pronunciou sua célebre frase: panta rei. Isso quer
dizer, que tudo está em perene fluxo contínuo, e exatamente
por isso, uma pessoa não poderá se banhar no mesmo rio duas
veze, pois, o rio do segundo banho será diferente do rio do
primeiro banho.

Além disso, a vida não é simples, não é fácil de ser vivida. A


vida sempre será cheia de contratempos, de problemas, de
tragédias. Contudo, a vida também será algo magnífico de ser
vivido, nesse seu eterno ineditismo.

Por isso, devemos “dançar na chuva de vida que cai sobre


nós”, pois dizer sim para a vida e encontrar, mesmo nas
tragédias dela, motivos e forças para buscar os bons
encontros, elevar a nossa vontade de potência. A claro, dançar
é o ápice da alegria, como já dizia Nietzsche em seu
Zaratustra.

O profeta já anunciava que, apenas poderia crer em um Deus


que soubesse dançar, pois o Deus do temos, o Deus da
opressão, esse Deus, símbolo do medievo, já está morto.

07
O amor fati também está presente já na primeira estrofe da
música, pois ensina que não devemos querer todas as pessoas
para nós, mas simplesmente saber que alguma pessoa zela
por nós, ou seja, nos ama. Mas esse verdadeiro amor não pode
ser um amor idealizado, mas sim o amor pelo que somos,
assim como nós devemos amar as demais pessoas.

É o amor do destino. De aceitar o que o destino tem para dar,


sem recalques, sem mágoas, sem reclamações, mas vivendo e
aceitando o destino de peito aberto, buscando sempre
aumentar nossa vontade de poder.

Mesmo quando essa vontade de poder é extremamente


reduzida, quase extinta, não deixamos de ter o amor fati, pois
aprendemos a lidar com as tragédias da vida.

08
O amor fati também está presente já na primeira estrofe da
música, pois ensina que não devemos querer todas as pessoas
para nós, mas simplesmente saber que alguma pessoa zela
por nós, ou seja, nos ama. Mas esse verdadeiro amor não pode
ser um amor idealizado, mas sim o amor pelo que somos,
assim como nós devemos amar as demais pessoas.

É o amor do destino. De aceitar o que o destino tem para dar,


sem recalques, sem mágoas, sem reclamações, mas vivendo e
aceitando o destino de peito aberto, buscando sempre
aumentar nossa vontade de poder.

Mesmo quando essa vontade de poder é extremamente


reduzida, quase extinta, não deixamos de ter o amor fati, pois
aprendemos a lidar com as tragédias da vida.

08
02

C A P Í T U L O

02
Capítulo 2: Somos infinitos pois Deus sive natura

É saber se sentir infinito


Num universo tão vasto e bonito é saber sonhar
Então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

10
A filosofia do século XX foi fortemente marcada por um
existencialismo materialista, um ateísmo muito forte.

Contudo, existiram filósofos que tinham enorme crença na


existência de Deus. Não apenas filósofos com vínculos com a
Igreja, como Santo Agostinho, Santo Anselmo, São Tomas de
Aquino, dentre outros, mas também filósofos sem qualquer
ligação com a Igreja, mas com uma importância enorme como
de René Descartes e Baruch de Spinoza.

Sobre Spinoza, apesar de existir correntes que chegam a


interpretá-lo como panteísta e até mesmo como um ateísta,
parece que a visão de Erasmo de Roterdã é a mais correta,
quando percebe que nunca existiu outro filósofo tão
impregnado de Deus como Spinoza.

A partir do pensamento spinozista, entendemos que podemos


ser religiosos sem a necessidade de possuirmos uma religião.

Como diz a letra da música em comento, “saber se sentir


infinito”, e somos realmente infinitos aos olhos de Spinoza.

Se Deus é a única substância existente, e, portanto, estamos


dentro de Deus (apesar dele ser muito mais do que a soma de
todas as coisas que estão contidas Nele), somos infinitos, e a
finitude seria apenas do corpo físico.

Sendo assim, entendendo que não estamos nunca sozinhos e 

11
que nem mesmo a morte deve ser temida, pois sempre
estaremos em Deus e com Ele em perene comunhão, a vida
deveria ganhar novo sentido. Inclusive a forma de ver o
mundo, o universo, pois o universo é sem dúvida “vasto e
bonito”.

Além disso, sonhar, idealizar, imaginar, não pode ser pecado,


não pode ser errado. Esse Deus do pecado, não é o Deus nem
de Nietzsche e muito menos de Spinoza.

Portanto, entendendo que Deus está em tudo, e que podemos


estar em comunhão com ele não apenas em igrejas, templos, e
afins, mas também em uma praia, em uma montanha, no
sorriso de uma criança ou no choro de um bebê, os medos se
dissipam.

 Acreditar é então uma oportunidade de se libertar dos


grilhões das moralidades dominantes que teimam em nos
aprisionar.

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03

C A P Í T U L O

03
Capítulo 3: A necessária mudança do paradigma da
modernidade

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu


É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações

10
A modernidade trouxe consigo alguns valores que ainda
permanecem fortes, mas que já demonstram o seu
esgotamento.

Quando Maquiavel, de forma inovadora no Renascimento


rompia com a moralidade da Igreja, e cunhava a expressão
virtú, que se contrapunha a ideia de virtude cristã da Igreja,
acabou por lançar a humanidade em um outro paradigma,
igualmente equivocado, como o antigo religioso.

Em sua obra O Príncipe, Maquiavel afirmou que os fins


justificavam os meios, ou seja, dependendo da finalidade, a
forma pela qual se buscava concretizar aquela finalidade
almejada seria de menor importância.

Com isso, passou-se a acreditar que o mais importante é


chegar no topo da montanha, quando na verdade, a escolha do
caminho que te fez chegar na montanha é infinitamente mais
importante.

A sociedade contemporânea mostra bem essa ainda opção


equivocada. O número de pessoas com depressão, síndromes
do pânico, angústias e outras doenças de cunho psiquiátrico-
psicológico, já se transformaram na grande epidemia desse
início de século XXI.

O mais curioso é que tais doenças afetam, tanto pessoas de


baixa renda, quanto pessoas de renda elevadíssima. .

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O motivo disso é muito fácil de perceber. O total desprezo pelo
caminho e o total foco na chegada, acabou por tornar essa
geração uma geração vazia, com uma vida sem sentido, sem
qualquer significado mais profundo.

Com isso, ocorrem verdadeiras crises existenciais, que


infelizmente podem, e cada vez mais vem desaguando, em
suicídios.

O caminho é, portanto, mais importante do que alcançar


aquele objetivo inicial, pois nessa jornada, podemos perceber
que tal meta não era assim tão importante.

Mas isso, apenas perceberemos quando realmente nos damos


conta que é o caminho que vai ser o que há de mais relevante
na vida e não o cumprimento de um objetivo em si

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04

C A P Í T U L O

04
Capítulo 4: Não há nenhuma finalidade no consumismo

A gente não pode ter tudo


Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim
O final do ano, especialmente nas semanas que antecedem
aos festejos de Natal, se tornaram uma corrida desenfreada
aos shoppings centers, as compras, ao consumismo
exacerbado.

Nem mesmo a pessoa mais rica do mundo, pode ter tudo, até
porque, nem tudo está a venda. Mesmo assim, a sociedade
contemporânea tende a tentar escamotear todas as suas
mazelas e idiossincrasias adquirindo mais e mais bens de
consumo, na maioria das vezes, sem nem mesmo precisar.

Contudo, quando compramos bens para cicatrizar uma ferida


psicológica, estamos na verdade apenas colocando um band-
aind na ferida, e quando cair esse curativo, a ferida continuará
ali, aberta, doendo, ferindo.

Portanto, a graça do mundo nunca foi nem será em adquirir


bens, sejam eles quais forem.

Sorrisos, ou seja, momentos felizes, bons encontros, como


diria Nietzsche, esses sim fazem a vida valer a pena ser
vivida. Por isso, por mais importante que seja a ciência, nunca
deveria superar a arte como elemento que eleva o ser humano
e que por isso, deveria ela valorar a vida.

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05

C A P Í T U L O

05
Capítulo 5: A velocidade da vida

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar


E sim sobre cada momento sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera a vida já ficou pra trás
Conforme já mencionado, o montante em dinheiro amealhado
não é suficiente para se te ruma boa vida, uma vida feliz.

A busca por uma boa vida já era preocupação em Sócrates e


Platão, encontrando em Aristóteles e em sua Ética a
Nicomaco, uma obra inteira dedicada em ensinar como viver
bem e ter a chamada eudaimonia, ou seja, boa vida.

Nada há de mais precioso nos tempos atuais do que o nosso


tempo. Cada dia que passa, o sentimento parece uníssono
entre todos de que a vida está rápida demais. São informações
em tempos reais, exigência enorme por titulações
acadêmicas, exigência pelo know-how das novas tecnologias,
aliado a isso uma forte recessão, desemprego em altíssimos
índices, violência urbana, crise na mobilidade urbana, dentre
outros problemas.

Isso tudo reunido acaba por minar o que há de importante na


vida, que é o nosso ócio!

Não o ócio de não fazer nada, mas de não precisar fazer algo
para ganhar o sustento da vida ou manutenção da casa e da
família. Com isso, ficamos sem tempo para o que nos difere
dos demais seres, que não é simplesmente raciocinar, mas
sim filosofar, refletir sobre os dilemas existenciais.

Com isso, vamos vivendo uma vida antômata, sem reflexão,


como se fôssemos robôs, mas como não é essa a nossa 

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essência, sofremos com isso, vamos paulatinamente
perdendo a nossa saúde e vivendo uma vida miserável e sem
qualquer sentido, como já alertou Hannah Arendt.

Independente da crença metafísica que tenhamos, a busca


pelo maior número possível de momentos felizes deve ser a
nossa meta, mas uma real felicidade, reais momentos alegres,
e não ilusões trazidas pelo dinheiro.

Precisamos nos preocupar não apenas com o futuro, mas


também com o presente. O que existe é o dasein
heideggeriano, ou seja, o ser inserido no mundo.

Portanto, só existimos enquanto seres inseridos nessa


mundanidade. Com isso, a busca pelos momentos alegres
deve ser perene, e a sua busca, não deve ser vista como algo
errado, algo pecaminoso.

Isso não quer dizer apenas viver com base nos instintos, pois
Spinoza e depois Nietzsche já alertavam que o correto sempre
será um equilíbrio entre instintos e a razão, sempre
objetivando os momentos alegres ou menos tristes, sabendo
lidar também com as tragédias da vida.

Portanto, dinheiro e bens materiais nunca devem ser uma


finalidade, mas pura e simplesmente um meio, pois caso
contrário, rapidamente aquela alegria extremamente efêmera
que os bens materiais causam, passam, e fica a depressão, a
dor da alma.
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Assim, como a vida não tem o botão de pausar dos controles-
remotos, devemos nos preocupar em não desperdiça-la om
coisas menores, buscando auferir o máximo de bons
momentos que vida pode nos legar.

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06

C A P Í T U L O

06
Capítulo 6: A Pura filosofia nietzschiana

Segura teu filho no colo


Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir
Essa última estrofe da música Trem Bala é quase um resumo
da filosofia nietzschiana. Dar mais valor a estar com seus
filhos, seus pais, sua família, em detrimento de todas as
demais coisas e prazeres passageiros, efêmeros.

Perceber aonde se encontra o real equilíbrio entre sua razão e


seu instinto.

Além disso, a ideia de estar com sua família é próximo da


ideia do amor fati, ou seja, amar o destino e não praguejar
contra o mesmo, é amar as pessoas como elas são e não como
gostaria que fossem.

A vida ser um trem-bala como diz a estrofe, mostra que a vida


é composta do seu ineditismo e que sempre está em fluxo, que
uma oportunidade perdida não voltará a acontecer.

Portanto, ou ficamos atentos e preocupados em viver a vida e


termos o máximo de bons encontros, ou viveremos uma vida
de ilusão, uma vida triste, uma vida que será de recalques, e
que acabará por nos contaminar com doenças de cunho
psicológico-psiquiátrico, cuja boa parte de sua origem se
encontra nas vidas não autênticas que as pessoas vivem.
  
Buscar nossos próprios valores, aqueles valores que
realmente são nossos e não aqueles que querem nos obrigar a
ter, é também uma missão para aqueles que buscam se tornar
o übermensch, o além do homem (ou super-homem)
nietzschiano.
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O übermensh é aquele que encontrou seus próprios valores
éticos, que conseguiu equilibrar razão e instinto, que
conseguiu viver então uma vida autêntica, visando sempre os
bons encontros, mas sem se esquecer de que também precisa
lidar com as tragédias da vida, e assim, ter o amor fati.

Essa busca nos mostrará então que estamos inseridos no


mundo, e que só existimos dentro dessa mundanidade, mas
que a mesma razão que mostra a certeza da finitude, é capaz
de buscar consolos metafísicos, como afirmava
Schopenhauer.

Somos passageiros no trem-bala da vida e não condutores


,pois não temos como brecar ou evitar a morte, mas
simplesmente aceita-la, como um passageiro aceita o final de
uma viagem.

E seguindo nas lições schopenhaueriana, o medo da morte


seria ilógico, pois iremos exatamente para aonde acreditamos
que estávamos antes de encarnar.

Contudo, a lição que a música Trem-Bala procura passar, é


uma lição da vida agora, do dasein, da vida vivida, é uma
mensagem principalmente de alerta.

É um aviso para despertarmos do nosso sono de uma vida


ficta, sem graça e envolta em coisas materiais menores, em
detrimento do que realmente vale a pena viver.

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A vida é digníssima, vale a pena ser vivida, desde que seja
vivida na busca pelos momentos alegres, que são os
momentos que, se pudéssemos, gostaríamos de eterniza-los,
ou ao menos fazer com que durássemos o máximo possível.

A família, as pessoas, os amigos, são, normalmente, muito


mais importantes que as demais coisas menores da vida, as
coisas materiais efêmeras.

Portanto, a lição final da música é valoriza o que realmente


vale a pena em sua vida. Não deixe para depois, pois o depois
já poderá ser tarde, pois a vida é um trem-bala, onde somos
apenas passageiros, sem quase nenhum controle, muito
menos controle de quando será a nossa última viagem.

Então, vamos encontrar o que nos traz alegria, o que aumenta


nossa vontade de potência, e assim, vivermos uma vida
menos reativa e muito mais original, buscando os nossos
valores éticos e nos preocupando menos com uma moralidade
dominante.

Existindo realmente uma existência metafísica, onde o ser irá


se perpetuar e quem sabe eternizar, será um plus, um bônus,
que de forma alguma será motivo para uma vida em
sofrimento, uma vida reduzindo nossa potência de agir.

29
Tanto a música Trem-bala, quanto a filosofia nietzschiana e
spinozista quanto as breves linhas desse ensaio, são uma ode
a felicidade, a busca pelos momentos alegres, a busca por um
vida, onde cada um possa escrever, de forma heterogênea o
que acredita, o que quer viver, tendo a razão, mas também os
instintos, como elementos inseparáveis do nosso ser e que
devem andar sempre em pé de igualdade.

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Considerações
Finais
As breves linhas aqui escritas são fruto de uma reflexão do
autor a partir da letra da música Trem-Bala, de Ana Vilela.

Uma música com algumas mensagens que trazem


interessantes discussões filosóficas, especialmente para os
tempos atuais.

O momento por que passa a humanidade é grave. A alienação,


aliada com a ignorância e a intolerância, vem formando um
perigoso tripé que vem tornando países cada vez mais
inóspitos para as chamadas minorias, sejam essas étnicas,
religiosas, por opção sexual, fruto de processos migratórios,
etc.

Com uma sociedade mais preocupada em adquirir bens


materiais, postar tais bens e toda sua vida pessoal nas redes
sociais, vivemos um período de pouca reflexão, e muita
ostentação.

O resultado é um vazio existencial, uma falta de razão para


seguir vivendo, crises de depressão, síndrome do pânico,
ataques de ansiedade, dentre outras doenças ligadas ao
psiquê humano.

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O nosso ser não se satisfaz apenas com uma vida acéfala,
onde a única preocupação é com o aspecto material. Uma
parcela considerável da população sente falta de uma vida
mais reflexiva, mais contemplativa.

Isso não quer dizer uma vida apenas com base na


racionalidade, pois esse projeto da modernidade, centrada
apenas na razão, já se mostrou não apenas equivocado, como
nos levou ao descalabro social atual.

Nietzsche já pedia no início do século passado para voltarmos


ao pensamento pré-socrático, onde os instintos ainda não
tinham sido demonizados, e faziam parte importante, junto
com a razão, da vida cotidiana. Não devemos no envergonhar
dos instintos, justamente pelo fato dos mesmos simplesmente
existirem, de serem parte da historicidade humana e da nossa
própria.

A proposta nietzschiana, acompanhada de ideais spinozistas,


parecem ser um caminho a se tentar para sairmos do
momento atual, de uma sociedade hedonista, niilista, que
apenas gosta de ostentar, sem realmente pensar e viver
daquela forma.

A busca pelo übermensch, que é o além do homem, aquele ser


que conseguiu se despir dos valores morais que o
aprisionavam e conseguiu encontrar, a duras penas, seus
próprios valores. 

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Além disso, reconhece e aceite seus instintos. Os valoriza!

Sabe que eles, assim como a razão, compõem o seu ser. Aceita
o amor fati, ou seja, o destino como ele se apresenta, sem mal
dizer os infortúnios da vida, pois sabe que tais tragédias
compõem também o nosso estar no mundo.

Busca os momentos alegres, procurando evitar os maus


encontros, aqueles que baixam demasiadamente sua vontade
de potência, mas sabe que evita-los por completo é
impossível, e assim, entende e supera as tragédias da vida.

Além disso, percebe que não está só, pois está


permanentemente em companhia daquele ser absoluto,
daquele ser que é a única substância da vastidão
incomensurável do universo, e que por isso, todos os demais
seres a Ele estão ligados.

Assim, esse novo ser humano não precisa mais ser rebanho,
não precisa mais seguir, pois ele pode encontrar Deus, a força
motora inicial (como dizia Aristóteles) ou qualquer
nomenclatura que se queira dar a Ele, a qualquer momento,
justamente por estar contido Nele.

Assim, Ele está em toda parte, em todos os momentos. Nem de


religião seria preciso, pois nunca estivemos desligados Dele,
justamente por ser impossível qualquer desligamento.

33
Esse “novo Deus”, é diferente, é um Deus da alegria, da
natureza, da música, da dança, um Deus que desabrochou,
depois de anos sendo mal compreendido, mal interpretado.

Diante disso tudo, entendendo a velocidade da vida, de que


tudo está em fluxo, o objetivo principal destas linhas é
provocar uma reflexão, um pensamento crítico, um momento
do mais puro ócio grego, torcendo para que a sua leitura possa
ser também um momento alegrador, que aumente a vontade
de potência de todos que tirarem uma parcela do precioso
tempo para ler.  

34
Bibliografia

HERÁCLITO. Fragmentos – Mobilismo in MARCONDES,


Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Filosofia na Época Trágica


dos Gregos. Coleção os
Pensadores. - 5.ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1999.
__________________________. Crepúsculo dos Ídolos – ou
como filosofar com o martelo.
Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Rio de janeiro: Relume
Dumará, 2000.
__________________________. O Nascimento da Tragédia e o
Espírito da Música in coleção Os
Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
__________________________. O Nascimento da Tragédia, ou
Helenismo e Pessimismo.
Tradução, notas e posfácio J. Guinsburg. - São Paulo:
Companhia das Letras, 1992
__________________________. Para Além do Bem e do Mal –
prelúdio de uma filosofia do futuro.
São Paulo: Martin Claret, 2006.
__________________________. Para a Genealogia da Moral.
São Paulo: Scipione, 2001.

35
Bibliografia

__________________________. Sobre Verdade e Mentira no


Sentido Extra-Moral. in coleção Os Pensadores. São Paulo:
Nova Cultural, 1999.

SPINOZA, Baruch. Ética demonstrada a maneira dos


geômetras. São Paulo: Autêntica, 2010, proposição XI.

VILELA Ana. Trem-bala. Som Livre, 2017. Disponível em:


https://slap.lnk.to/trembala. Acesso em 04 jan. 2019.

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Informações

Reflexões: Filosofia e Arte a partir da Música Trem-bala de


Ana Vilela” foi elaborado por Thiago Rodrigues Pereira, é
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