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A TAXA DE JUROS LEGAL EM ANGOLA

2009-04-30, Novo Jornal


Nos negócios jurídicos correntes, que envolvem obrigações pecuniárias, tem-se levantado a questão
de saber qual a taxa de juro devida quer pela imobilização do capital quer pela mora no pagamento de
certa quantia em dívida. O legislador, em matéria de fixação de taxas de juros, sempre experimentou
dificuldades, muito por causa da vulnerabilidade de um sistema económico com grande depreciação
da moeda e alto valor da inflação, como o que o país viveu há uns anos a esta parte.
Assim, por exemplo, em Julho de 1998, o Banco Nacional de Angola publicou o Aviso 3/98, no qual
estipula que as instituições bancárias, nas suas operações activas podiam praticar os seguintes limites
máximos de taxa de juros: até 180 dias - 50% ao ano; de 181 dias a 1 ano - 55% ao ano; mais de 1 ano
- 57,5% ao ano. Entretanto, esse aviso veio a ser revogado pelo Aviso 7/99, o qual veio prever que as
instituições bancárias passavam a poder adoptar, nas operações activas e passivas, taxas de juros
livremente negociadas, que é o mesmo que dizer taxa de juros sem qualquer limite. Ora, a razão desta
desmesurada liberdade na fixação de taxa de juros devia-se à circunstância de, sendo o Kwanza, à data,
uma moeda de fácil e acelerada depreciação, se necessário garantir que, no final do prazo do contrato,
o mutuante (pessoa que empresta o dinheiro) não saísse prejudicado pela desvalorização que
entretanto a moeda emprestada sofreu.
Com o início da estabilização da economia, foi publicada a Lei 13/03, de 14 de Feveiro, a qual alterou o
Código Civil em matéria de juros. Neste contexto, o artigo 559.º do Código Civil passou a presrever
que "Os juros legais e os estipulados sem determinação de taxa ou quantitativo, são os fixados em
despacho conjunto dos Ministros do Planeamento, das Finanças e da Justiça". Desta forma parece claro
que o legislador quis que, a partir de 14 de Fevereiro de 2003, a questão dos juros legais ficasse
definitivamente resolvida. A 25 de Abril de 2003 foi publicado o Despacho conjunto 36/03, segundo o
qual a taxa dos juros legais referidos no artigo 559.º do Código Civil é fixada trimestralmente, de acordo
com uma fórmula específica, que toma em consideração o índice de preços ao consumidor em Luanda,
acumulado e divulgado nos seis meses mais recentes (referentes àquela data), e a meta de inflação
para os seis meses seguintes, extraída da programação monetária. E, com base nessa formula é
decretado que "Fica estabelecida para os juros legais do trimestre Abril-Junho de 2003 a taxa de 75%
ao ano". Daí até à presente data não conhecemos qualquer alteração a esse despacho, que fixasse a
taxa de juros legal, tal como se acha previsto no artigo 559.º do Código Civil. Assim, a questão é: qual a
taxa de juros actualmente em vigor?
Alguns profissionais de direito têm sugerido a aplicação da taxa de juros de 75% ao ano, como resulta
do Despacho conjunto 36/03, um pouco baseando-se na ideia de que não tendo o legislador actuado
em sentido contrário, deverá manter-se aquela taxa já fixada. Entendemos porém que não poderá ser
esta a taxa de juros em vigor no país, por duas ordens de razão: a primeira, que se prende com a
razoabilidade das coisas, é manifestamente usurário, aplicar-se, nos dias que correm, uma taxa de juros
de 75% ao ano. Na verdade, como se disse supra, para a fixação da taxa de juros de 75% ao ano, nos
termos do Despacho conjunto 36/03, foram tomados em consideração alguns critérios específicos, que
visavam acautelar a constante depreciação do Kwanza. Tanto assim é que nesse mesmo Despacho
conjunto é publicado um quadro de onde se pode ver o factor de actualização monetária. Por outro
lado, uma análise das taxas de câmbio de referência, praticadas pelo BNA (www.bna.ao) nos últimos
anos, leva-nos à seguinte conclusão: em 2002, a moeda nacional sofreu uma depreciação na ordem
dos 75%; em 2003 (data da publicação do referido Despacho conjunto), a moeda nacional sofreu uma
depreciação de cerca de 52%; em 2004, a depreciação da moeda nacional já foi de cerca de 7,5%; em
2008 nota-se que a moeda nacional se manteve sempre constante. Assim sendo, parece claro que a
taxa de juros fixada pelo Despacho conjunto 36/03 incluía um valor de correcção monetária, o indicado
valor de 75%, que não representava apenas o valor dos juros, mas considerava um mecanismo que
visava corrigir a depreciação da moeda nacional. Portanto, face ao contexto actual, de estabilidade da
moeda nacional, não faz sentido falar-se em taxas de juros na ordem dos 75%. A segunda razão para
afastar a aplicação dessa taxa de juro tem a ver com a simples interpretação desse diploma legal. Na
verdade, o mesmo diz expressamente que "Fica estabelecido para os juros legais do trimestre Abril-
Junho de 2003 a taxa de 75% ao ano". Ou seja, inequivocamente, aquela taxa de juros foi fixada apenas
e só para aquele trimestre, pelo que a partir de 1 de Julho de 2003 essa taxa passou a ser ilegal. Por
tudo isso, parece dever concluir-se que existe um vazio legal no que respeita à taxa de juros legal em
Angola.
Este vazio legal tem sido colmatado circunstancialmente pela prudente aplicação das taxas de juros
normalmente praticadas pelos bancos comerciais, o que por si só não resolve o problema. Assim, urge
que os Ministros referidos no artigo 559.º do Código Civil, por Despacho conjunto, fixem a taxa de juros
legal, pois disso depende o funcionamento de outras normas legais relevantes para o caso, como os
artigos 282º, 806º e 1146.º do mesmo Código Civil em vigor, que estabelecem regras sobre obrigações
pecuniárias e negócios usurários.
Fonte: VICTOR CEITA. https://www.fbladvogados.com/comunicacao/artigos-na-imprensa/A-TAXA-DE-
JUROS-LEGAL-EM-ANGOLA/93/