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UNIP- UNIVERSIDADE PAULISTA

Instituto de Ciências Humanas


Curso de Psicologia

FATORES ANTECEDENTES PERANTE AS VULNERABILIDADES SOCIAIS NA


TENTATIVA DE SUICÍDIO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Pietra Borges Rodrigues RA: N14656-7

São José do Rio Preto


2019
UNIP- UNIVERSIDADE PAULISTA
Instituto de Ciências Humanas
Curso de Psicologia

FATORES ANTECEDENTES PERANTE AS VULNERABILIDADES SOCIAIS NA


TENTATIVA DE SUICÍDIO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Pietra Borges Rodrigues RA: N14656-7

Projeto de Investigação Científica


apresentado à Universidade Paulista – UNIP,
de São José do Rio Preto, como pré-requisito
para a Iniciação Científica do Curso de
Psicologia.

Orientação: Prof. Ma. Cristiane Camargo de


Oliveira Brito.

São José do Rio Preto


2019
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO...............................................................................................3
1.1 Psicologia Social e as Representações Sociais........................................3
1.2 Vulnerabilidades Sociais.............................................................................7
1.3 Suicídio: Fatores e Índices..........................................................................9
1.4 Situações de Crise: O Surto Sociorreligioso do Catulé e fatores de
risco.............................................................................................................10
2. OBJETIVOS.................................................................................................13
2.1 Objetivo Geral.............................................................................................13
2.2 Objetivos Específicos................................................................................13
3. HIPÓTESE....................................................................................................14
4. JUSTIFICATIVA...........................................................................................14
5. MÉTODOS....................................................................................................14
5.1 Sujeitos.......................................................................................................15
5.2 Instrumentos..............................................................................................15
5.3 Procedimentos para coleta de dados.......................................................16
5.4 Procedimentos para análise de dados......................................................16
6. CRONOGRAMA...........................................................................................17
7. REFERÊNCIASBIBLIOGRÁFICAS.............................................................18
1. INTRODUÇÃO
1.1 Psicologia Social e as Representações Sociais
A origem da Psicologia Social sedeu há, aproximadamente, um século, sendo
inicialmente uma ramificação de uma ciência denominada sociologia e alguns traços da
filosofia e antropologia. Recebeu influências de alguns estudiosos e um deles seria o
Herbert Spencer, que deu origem ao termo “darwinismo social” – que seguia a ideia de
Charles Darwin de que o mais adaptado ao ambiente (neste caso o social) sobreviveria.
(SOARES, ATHAYDE, ARAÚJO, CAVALCANTI, NASCIMENTO, 2017).
A psicologia foi considerada ciência com o trabalho der Wundt na Alemanha com a
psicologia experimental, que consistia no trabalho de pesquisa dos processos
comportamentais a partir da introspecção – que logo após foi vista como insuficiente para
Wundt, acrescentando a Volkerpsychologie (antecedente da Psicologia Social) em seu
trabalho de observação, consistindo no embasamento histórico e social do indivíduo em
questão (SOARES et Al, 2017).
Posteriormente a esse movimento, Ross descreve a Psicologia Social com uma
parte da Sociologia que estudaria os processos e interações mentais, centrando suas
explicações comportamentais nas causas sociais, ou seja, no conjunto de indivíduos e
suas associações (SOARES e. Al,2017).
A Psicologia Social estuda os princípios básicos comportamentais do ser humano
na sociedade, contribuindo com um papel de intervenção nos sistemas e esquemas
sociais, na busca de melhores circunstâncias para os contextos em que as comunidades
de inserem (LANE,1994).
No geral, essa abordagem busca a compreensão dos comportamentos em uma
instância individual, o que leva a concluir que a Psicologia Social busca a compreensão
dos comportamentos de uma sociedade, instituição ou grupo. Proporcionando, aos
psicólogos, a extrapolação do meio clássico (clínico) de atuação – este que atendia
apenas as maiorias psicológicas – e os coloca no fronte das questões político-sociais,
voltadas a um grupo de convívio (LANE,1994).
O trabalho do psicólogo social, a partir desses pressupostos, integra o trabalho de
despertar a consciência social, a partir da promoção da reflexão, aumentando o aspecto
crítico dos indivíduos, criando uma autonomia valiosa para a atuação deste no sistema
sócio-histórico no qual está inserido (LANE,1994).
Compreende-se, então, que o trabalho do psicólogo social consiste no
entendimento do indivíduo e sua interrelação com a sociedade, compreendendo a
história da cultura, dos costumes, do sistema e, por fim, dos comportamentos de um
grupo (ou variados grupos), além de como o homem pode não só fazer parte desta
histo´ria – sempre em movimento, mas também agir sobre ela em uma “relação circular”
de interdependência. Demonstrando, por fim, as interferências – micro ou macro
repercutidas – que um indivíduo pode realizar no contexto de uma sociedade – que o
influencia mas pode ser influenciada por ele também (LANE, 1994).
O desenvolvimento humano e seus papeis sociais, a partir dessa perspectiva, se
dão no contexto cultural no qual o sujeito está inserido, pois o ambiente influencia
diretamente na formação do repertório comportamental dos grupos sociais, no sentido
de que a complexidade da estrutura humana provém da relação dialética entre a história
individual e social (LANE, 1994).
Pode-se notar que o ser humano possui influências de uma cultura, da estrutura
social e tradições grupais desde as relações primordiais – por exemplo, a forma em que
o sistema influencia a vida da mãe que gera esse indivíduo, o influencia tanto em
questões biológicas quanto psicológicas (LANE, 1994).
A concepção de mundo e realidade consistem em nossas expectativas, estas que
provém da linguagem – que tem a capacidade de ditar valores, como ideologias e
representações socias, demonstrando, mais uma vez, em como o sistema em que nos
inserimos nos guia em relação aos nossos aspectos emocionais, cognitivos e
comportamentais (MOSCOVICI, 1978; LANE, 1994).
Compreendendo que o problema específico da Psicologia Social é o problema das
ideias – a forma com que o ser humano se apropria de uma nova informação e a
compreende – em prática, pode-se observar que as representações sociais são
formadas a partir da influência da comunicação de um grupo da sociedade, servindo
como associação de um conceito ou senso comum. Ou seja, necessariamente, as
representações são resultado da interrelação de um conjunto de pessoas em um
determinado contexto, agindo de formas específicas (MOSCOVICI, 1978).
A relação entre a comunicação e as representações sociais é direta, no sentido de
que “essa organização e estrutura é tanto conformada pelas influências comunicativas
em ação na sociedade, como, ao mesmo tempo serve para tornar a comunicação
possível” (MOSCOVICI, 1978. p.22). Com a modernidade, novas formas de comunicação
emergiram, gerando, também novas formas de comunicação em massa e circulação de
ideias – estas que refletem no processo ontogenético do indivíduo, portanto, depende-
se da manutenção dos padrões de comunicação, mantenedores das representações
(MOSCOVICI, 1978).
Nenhum indivíduo é isento de influências sociais, por sermos seres que – devido
aos comportamentos mais complexos do ser humano – dependem da linguagem, cultura
e, consequentemente, das representações (MOSCOVICI, 1978).
Serge Moscovici, ao tratar sobre as representações como sociais, tem o objetivo de
ressaltar o seu caráter dinâmico, pois influencia o indivíduo e a coletividade na mudança
entre uma estrutura e outra, bem como a unicidade entre o social e o coletivo, dentro
deste conceito, voltando-se ao interesse de identificar os processos de influência sobre
os grupos minoritários observando as variações das ideias coletivas (MOSCOVICI,
1978).
Ao observar que todas as culturas e grupos na sociedade possuem pontos de
tensão e lacunas, desenvolve sua teoria afirmando que é a partir dos desequilíbrios que
as representações sociais surgem. Ou seja, quando existe um conceito não conhecido
por determinado grupo, gera-se uma necessidade de familiarizá-lo, a fim de tornar o
ambiente social equilibrado e seguro novamente, ou seja, legitimar hegemonicamente
uma questão em pauta (MOSCOVICI, 1978).
Seguindo o pensamento descrito acima, Moscovici também comenta que toda
representação é social, visto que esta se deve a uma produção coletiva que contribui
“para o processo de produção de condutas e orientação das comunicações sociais”
(JESUÍNO, 2011; OLIVEIRA, NASCIMENTO, SANTOS, FIGUEIREDO, 2017, p.63). Ou
seja, no sentido mais amplo, são “teorias sobre saberes populares e do senso comum,
elaboradas e partilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e interpretar o real”
(OLIVEIRA, WERBA, 1998; OLIVEIRA, et. Al, 2017, p.63).
É de grande importância ressaltar que a representação tem o papel de tecer uma
realidade para um grupo de pessoas, balizando e orientando – muitas vezes – o campo
de visão deste, no sentido de que “nós vemos apenas o que as convenções subjacentes
nos permitem ver e nós permanecemos inconscientes dessas convenções”
(MOSCOVICI, 1978, p.35), não sendo de plena ciência de que se está inserido em uma
estrutura, pois ela modula e lapida os pensamentos, não podendo ser possível, então, a
consciência de que seu pensamento possa estar errado (EVANS-PRITCHARD, 1937, p.
194), porque possuem a capacidade de penetrar a mente – e não sofrer pensamentos
sobre elas mesmas (MOSCOVICI, 1978; EVANS-PRITCHARD, 1937).
A realidade, dada pelas representações sociais é prescritiva, ordena os
comportamentos dos indivíduos (sendo obrigatórias), pois é resultado de uma sequência
de elaborações e tradições, transmitidas por gerações, na memória coletiva
(MOSCOVICI, 1978).

“Através de sua autonomia e das pressões que eças exercem (mesmo que nós
estejamos perfeitamente conscientes que elas não são nada mais que ideias),
elas são, contudo, como se fossem realidades inquestionáveis que nós temos
que controntá-las. O peso de sua história, costumes e conteúdo cumulativo nos
confronta com toda a resistência de um objeto material. Talvez seja uma
resistência ainda maior, pois o que é invisível é inevitavelmente mais difícil de
superar do que o que é visível.” (MOSCOVICI, 1978, p.40).

Portanto, do prima das representações sociais, as deturpações de conhecimento


existentes (por causa da variação entre grupos), são vistas como forma de conhecimento
que refletem justamente o contexto dos indivíduos vigentes de cada grupo social, pois
controlam a realidade do tempo presente e do que se sucederá, pela sua grande
influência comportamental, que muitas vezes foge do campo lógico, privada ou coletiva.
Se tornando idealmente engendrada e com um caráter perdurável e, quase, inalterável –
principalmente em um núcleo de ignorância abundante, pois “quanto menos conscientes
somos delas, maior se torna sua influência” (MOSCOVICI, 1978, p.42).

1.2 Vulnerabilidades Sociais


A vulnerabilidade social, como o próprio termo explicita, diz respeito à
marginalização, em suma, por fatores socioeconômicos, dizendo respeito e englobando
toda uma fragilidade dos meios de sobrevivência e subsistência oferecidos, ou seja, uma
predisposição de riscos e consequências negativas para um grupo de indivíduos
(SCALON, 2001).
Dito isso, é evidente que a maior proporção de vulnerabilidade social está presente
nos grupos mais pobres – devido ao modelo capitalista de sociedade que implica
desigualdade em sua dinâmica de funcionamento -, sendo que, a pobreza aqui abordada,
não diz respeito apenas à economia e sim um conjunto de déficits de necessidades
básicas e recursos perante a um grupo social, abrangendo um conceito de desigualdade
e desequilíbrio no sistema social presente em nossa sociedade – privação de recursos
básicos, carência de poder, exposição ao medo e à violência, ou seja, exclusão de direitos
básicos e de saúde (SCALON, 2001).
A exclusão desses grupos diz respeito a uma organização intergrupal – sendo esta
material ou simbólica – e, sendo assim, engloba os conceitos de segregação (distância
topológica), marginalização (manutenção do indivíduo a parte de um corpo) e
discriminação (fechamento de bens ou recursos), portanto, abrange uma
“incompatibilidade entre interesses coletivos próprios às comunidades em contato e o
temor de uma “privação fraterna” afetando as posições e privilégios daquela à qual
pertencemos” (SAWAIA, 2001. p.58).
O conceito de categorização social também se encaixa nesse tópico, pois esta tem
uma função (dentre outras) de dividir socialmente as pessoas, relacionando com o
estereótipo. Bader Sawaia comenta que “basta ser afetado por uma categoria, para que
se veja atribuir-se a si mesmo uma característica típica dela”, interpretando, então, os
indivíduos de acordo com a categoria importa a eles (SAWAIA, 2001, p.60).
“[...] sentimentos de insegurança e de inferioridade imputáveis a um status
marginalizado, privado de prestígio de poder e à inferiorização das imagens
negativas veiculadas na sociedade, tanto quanto de uma patologia social ligada
à imbricação de múltiplos fatores: exclusão, limitando as chances sociais,
provocaria desorganização familiar e comunitária, socialização defeituosa, perda
dos sinais identificatórios, desmoralização, etc” (SAWAIA, 2001. P.63).
É significativo notar que certas organizações sociais afetam as tendências
comportamentais de um grupo (com a assimilação e o contraste intragrupo, que significa
o enaltecimento das características semelhantes entre um indivíduo e seus iguais e a
segregação dos diferentes), demonstrando que o modo de relacionar-se perante ao seu
grupo pertencente diz respeito ao status quo que o mesmo possui. Sendo que, em grupos
dominantes existe uma notória acentuação de particularidades, enquanto em grupos
minoritários há uma tendência a harmonizar a sua definição de identidade social, tendo
como fundamento as características atribuídas ao seu grupo (SAWAIA, 2001).
Sendo a desigualdade uma construção social, pode-se dizer que a cidadania não é
distribuída homogeneamente, portanto é, também um problema político, pelo modelo
capitalista de sociedade, onde existe a meritocracia e o conceito de “deserving poors”,
onde acredita-se que a justiça é feita a partir do esforço que se dá em torno de um
objetivo, “isso porque a estrutura de desigualdade é reproduzida e transformada em
interação com o código cultural da sociedade” (MUNCH apud REIS, 2004).
Portanto, com o que foi dito acima, é possível compreender que o próprio modelo
socioeconômico do Brasil contribui para que a desigualdade perdure, bem como alimenta
os conceitos de marginalização, demonstrando a vulnerabilidade de cada grupo
minoritário perante à uma estrutura social opressora (SCALON, 2001).
1.3 Suicídio: fatores e índices
O mundo atual é bastante influente nos casos de suicídio e os fatores são múltiplos,
o que explicita a relação das questões sociais com o ato de se autodestruir, ou seja, a
forma que os problemas sociais podem prejudicar a saúde mental de cada indivíduo –
contribuinte para transtornos que estimulam a auto destruição (ABREU, et. Al, 2010).
A palavra suicídio tem origem do latim e significa, destruir (ação de matar) a si
mesmo. Portanto, é a ausência do instinto de sobrevivência conjuntamente com a ação
atentatória à própria vida, sendo autoagressões, gestos suicidas ou o suicídio
propriamente dito (ABREU, et. Al, 2010).
De acordo com o CVV – Centro de Valorização à Vida, o indivíduo com tendências
suicidas e/ou autodestrutivas, possui a necessidade de alcançar paz ou um fim imediato
ao seu sofrimento, resultando na ambivalência – o sentimento de buscar atenção por se
sentir esquecido e tem a sensação de uma solidão insuportável (CENTRO DE
VALORIZAÇÃO À VIDA, 2017).
Dito isso, o suicídio provém de problemáticas ontogenéticas, filogenéticas e sociais
– como o modelo sócio-econômico – e pode ocorrer por um conjunto de situações
punitivas, resultando na fuga do sujeito em relação à essas punições, ou seja, o suicídio
serve como rota de fuga, uma escapatória viável para alívio e resolução (CENTRO DE
VALORIZAÇÃO À VIDA, 2017).
Um estudo da Unicamp, comenta que 17% dos brasileiros podem pensar em
cometer suicídio e, 4,8% realmente elaboram um plano para tal, colaborando para que
alcance um índice de morte, no Brasil, de 32 pessoas a cada 24 horas, ou seja, em média,
um suicídio a cada quarenta segundos – sendo, em grande maioria, jovens enre 15 e 25
anos (CENTRO DE VALORIZAÇÃO À VIDA, 2017).
Dentro desses cálculos, nota-se que o sexo masculino comete mais suicídio embora
o sexo feminino cometa mais tentativas – o que está ligado à letalidade das opções
escolhidas para o ato suicida-, além do fato de que indivíduos pertencentes à comunidade
LGBTQIA+ tem maiores índices de suicídio (devido a causas sociais e a cultura da
sociedade que ampliam as vulnerabilidades destes indivíduos) (CENTRO DE
VALORIZAÇÃO À VIDA, 2017).
Uma pesquisa realizada pela Folha de São Paulo, em setembro, relata que o Brasil
registrou, no ano de 2018, mais de 11 mil casos de suicídio – totalizando uma média de
31 casos por dia que, em relação ao ano de 2017, teve um aumento percentual de 2,3%
(CANCIAN, 2018)
Portanto, é de suma relevância utilizar a perspectiva da Psicologia Social no
contexto da Psicologia da Saúde, pois pode contribuir em ações comunitárias e temas
como a “formação e mudança de atitudes; compreensão de dinâmica de grupo;
estereótipos; preconceito; tendenciosidades cognitivas [...]” (GUSMÃO et al, 2017,
p.174/175), contribuindo para a melhoria da saúde mental de um indivíduo e se sua
sociedade (GUSMÃO et al, 2017).
1.4 Situações de Crise: O Surto Sociorreligioso do Catulé e fatores de
risco
A partir do que foi explicitado acima, pode-se citar o objeto de ampliação reflexiva
dessa pesquisa, o acontecimento de um surto sociorreligioso que envolveu crianças
animais e adultos, resultando em falecimento, suicídio e espancamento de outros, em
uma comunidade localizada na cidade de Malacacheta, na clareira do Catulé, na “semana
santa” em abril de 1955 (QUEIROZ, 2009; ANDRADE, 1963).
Nos primórdios da década de 50, fazendas receberam famílias camponesas
nômades que procuravam se reestabelecer e trabalhar em troca de estadia, pois foram
expulsos do lugar em que viviam anteriormente: a zona do Rio Urupuca e do Rio Bahia
(ANDRADE, 1963; QUEIROZ, 2009).
Na clareira do Catulé, especificamente, moravam cerca de dez dessas famílias,
onde se submetiam à condição de trabalhadores/parceiros, como Renato Queiroz
menciona, em uma reportagem na revista da USP de 2009. Como resultado disso, a
condição de vida dessas famílias se tornaram cada vez mais precárias, porque os meios
de sobrevivência se tornavam cada vez mais restritivos (ANDRADE, 1963; QUEIROZ,
2009).
Instaladas em terras alheias, os indivíduos dessa comunidade tiveram o ímpeto de
tentar se integrar a partir das formas de sociabilidade dos seus senhores, porém, não
obtiveram êxito visto que o isolamento em que viviam contribuiu para um desequilíbrio
entre os costumes locais e as práticas do pequeno grupo constituído de famílias não-
letradas (ANDRADE, 1963; QUEIROZ, 2009).
Ainda segundo tais autores, os trabalhadores em questão viviam em sobrecarga de
serviço, visto que metade de seus componentes não possuíam idade para trabalhar (se
tratando de idosos ou crianças), além das condições mínimas de vida que lhes eram
proporcionadas.
Provindo do período da emersão religiosa-milenarista que envolveu os EUA, surgiu
o movimento religioso denominado Adventismo da Promessa nesta localidade, que
pregava a segunda vinda de Cristo. O núcleo de trabalhadores que trabalhavam ali
praticavam atividades religiosas intensas, com padrões extremamente rígidos, devido a
sua visão apocalíptica acerca do mundo, que aceitava o ideal puritano e a certeza enfática
na crença da possibilidade de revelações diretas de Deus, representado como “ o
selamento” (ANDRADE, 1963; QUEIROZ, 2009).
Praticava-se o batismo por imersão significando a morte de suas antigas crenças e
do modelo de vida anterior, resultando num sepultamento ideológico e, posteriormente, a
ressureição de um novo ser – representada como uma nova identidade (ANDRADE,
1963; QUEIROZ 2009).
Com a vinda de Cristo, pressupunha-se que os indivíduos que seguissem as
doutrinas corretamente, iriam (de forma imortal), para um reino eterno onde não haveria
fadiga ou cansaço. O juízo final seria o confronto entre as criações humanas e as criações
de Deus, livrando-se de Satanás (que não possuirá mais ninguém para enganar),
purificando e salvando a Terra (ANDRADE, 1963; QUEIROZ, 2009).
Além dos domínios citados anteriormente, existiam alterações em outros conceitos
da vida desse grupo social, como por exemplo, a elaboração do que era a família. Todos
os crentes possuem a mesma obrigação perante uns aos outros, não existindo mais a
necessidade de um núcleo familiar. Referindo, então, o conjunto de moradores do Catulé
como uma completa irmandade – porém, não necessariamente harmoniosa, pois os
padrões entravam em conflito e geravam desequilíbrios, hostilidades, disputas entre as
lideranças do agrupamento e seus líderes religiosos. Assim, a mesma fé que unia os
sujeitos daquele grupo, os separavam no sentido de disputas, contribuindo para o
isolamento de parceria, e na instabilidade e tensão social devido aos conceitos inflexíveis
do Adventismo da Promessa.
Houve, também, a construção de uma representação social daquele grupo, levando-
os a crer que Satanás estaria cercando aquele espaço. A partir desta notícia, iniciam-se
agressões, acusações, homicídios e suicídios, como outros comportamentos
considerados profanos, instalando o medo nos indivíduos que ali viviam (ANDRADE,
1963; QUEIROZ, 2009).
O acontecimento sociorreligioso do Catulé, em sua totalidade, foi colocado como
um ritual de passagem, relacionando com a teoria de Victor Turner em 2015, (que
descrevia o ritual como mudança do mundo terreno para o mundo divino, inserindo assim
o conceito de liminaridade), que é processo de transição, morte social ou uma
antiestrutura – colocado também no conceito de communitas (um conjunto de sujeitos
vivendo em uma liminaridade) (TURNER, 2015).
Os sujeitos em uma liminaridade podem ser identificados através da submissão,
além da perda de identidade (suspensão do direito à propriedade, parentesco e até
nome), isolamento e silêncio; ficam como um receptor em branco em relação à nova
estrutura social que está sendo proporcionada, após o rito de passagem. No caso do
Surto Sociorreligioso do Catulé, é colocado como a passagem para a cidade divina de
Canaã e a vida eterna (TURNER, 2015).
O grupo em questão possuía uma liminaridade desde seus primórdios, devido Às
condições sociais (precárias e unificadoras) do processo de agrupamento dos indivíduos
– “excluídos da condição de posseiros por sucessivas expropriações, permaneciam
aqueles dez núcleos familiares provisoriamente na condição de agregados pauperizados,
à espera do desfecho certo e final dessa trajetória, ou seja, a proletarização absoluta”
(QUEIROZ, 2015, p 120).
Encontravam-se em forças contraditórias: centripetamente pelos problemas
internos (devido a alguns integrantes que não acataram a religião ou as brigas por posses
e liderança, que impediam a purificação) e centrifugamente pela catequização além dos
limites próprios, emocionais, geográficos e organizacionais, buscando uma integração.
Este fato gerou consequências, em um desfecho com homicídios e suicídios (inter e intra
grupais), pois tanto o próprio grupo violentou seus integrantes em busca de purificação e
afastamento do demônio, como os policiais, que feriram os integrantes deste grupo em
busca de apaziguamento do conflito (QUEIROZ, 2015).
Nota-se, portanto, a relação entre o conceito de Turner em 2015 e moscovici em
1978, que voltam a atenção para os grupos minoritários, concatenando as liminaridades
e as communitas como o “poder dos fracos”, pois os sujeitos nessas condições possuem
uma união social, que colabora com a existência de uma antiestrutura que também pode
ser descrita como uma representação social de um modelo diferente específico ao
apresentado no seu meio social geral (TURNER, 2015; MOSCOVICI, 1978).
Portanto, o Adventismo da Promessa (e suas representaçõs), que possuía o intuito
de integrar e harmonizar uma comunidade, tornou-se o primórdio de uma tragédia, devido
à fracturação, subdivisão e desequilíbrio daquele determinado grupo, por ter estabelecido
metas utópicas, colocando os moradores e crentes em angústia e estresse,
demonstrando o poder das representações sociais acerca do comportamento humano
esperado, integrado a um conjunto de vulnerabilidades sociais (QUEIROZ, 2015).
As Representações Sociais, no geral, estão relacionadas à simbologia e a
linguagem dos grupos, comunidades e sociedade em que surge. Denide Jodelet (1989)
ainda afirma que para ver o mundo precisa-se ajustar e localizar-se, assim criamos as
representações, construções que serão focalizadas neste estudo.

2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Identificar as representações sociais de adultos jovens, perante quais seriam as
vulnerabilidades sociais que colaboram para a existência de ideação suicida ou tentativa
de suicídio.
2.2 Objetivos Específicos
a) Realizar um levantamento bibliográfico sobre o Surto Sociorreligioso do Catulé,
elencando possíveis vulnerabilidades sociais vividas por essa população.
b) Verificar se há relações entre os fatores elencados perante as representações
sociais descritas no objetivo geral para com as encontradas no levantamento bibliográfico
observado no episódio do Surto Sociorreligioso do Catulé.

3 HIPÓTESES E RESULTADOS ESPERADOS


Objetiva-se atestar a relevância do contexto social na formação do sujeito, buscando
a macrovisão de um acontecimento social, com o intuito de impossibilitar, ou ao menos
amenizar, os impactos da marginalização que leva à segregação social e outras violações
de direito que colaboram para o sofrimento da população.
A respeito dos indivíduos, pretende-se investigar os comportamentos e demonstrar
uma teoria que busca analisar o repertório comportamental de um grupo social que de
maneira representativa busca evitar variáveis sociais que podem prejudicar o próprio
grupo em questão, porém por serem pertencentes ao contexto macrossocial é frequente
a sua influência, porém sem a clarificação de tais itens como pertencentes à sua saúde
mental.
Ao buscar a representação social que abarque uma análise de conjuntura, espera-
se identificar situações e contextos que ampliam a vivência de riscos individuais e sociais
como a precarização das políticas públicas, a dificuldade de acesso e desconhecimento
às políticas já existentes por este grupo de jovens adultos, mesmo sendo um ciclo de vida
em que se pressupõe um protagonismo maior na sociedade e mercado.
4 JUSTIFICATIVA
Esta pesquisa possui o intuito de prosperar a minha experiência acadêmica
enquanto aluna, no âmbito da Psicologia Social, do mesmo modo que planeja-se que os
profissionais da área – e interessados no assunto – ampliem seu conhecimento e visão,
contribuindo prática e teoricamente com as intervenções possíveis de inclusão,
democracia e equidade, com foco nas populações vulneráveis e, muitas vezes, invisíveis.
É de suma relevância o tema abordado, pois é notório a essencialidade de
compreensão de como o contexto social, político e histórico agem sobre o indivíduo e sua
saúde mental. Portanto, contribui-se com os constructos teóricos já existentes sobre os
comportamentos sociais, dando mais visibilidade e enfoque aos estudos na área de um
tema tão urgente como a ideação suicida e o suicídio em si.
5 MÉTODOS
O presente projeto propõe-se a desenvolver uma pesquisa qualitativa. O
planejamento de pesquisa será feito com base no livro de LUNA (2013): “Planejamento
de pesquisa: uma introdução”.
A referida pesquisa tomará por base sites acadêmicos, como SCIELO, PEPSICO e
outros sites científicos. Os termos para busca focarão em “Vulnerabilidades Sociais”,
“Jovens Adultos”, “Representações Sociais” e “ Suicídio” para sua bibliografia, que será
atualizada constantemente. Serão utilizados artigos entre 2010 e 2019 e para a coleta de
dados, busca-se 30 participantes, como descrito abaixo.
5.1 Sujeitos
Trinta (30) jovens adultos entre 18 e 25 anos, escolhidos randomicamente, sendo
identificado com qualquer gênero, raça, etnia, classe social, econômica e escolaridade.
Exceto os indivíduos que não puderem, por algum motivo, responderem
devidamente a entrevista, não podendo agregar à coleta de dados desta pesquisa.
Os critérios de inclusão para a seleção dos participantes serão: terem a idade
indicada acima, serem capazes de responder por si mesmos, assinarem o termo de
consentimento livre e esclarecido, no qual o critério de exclusão seriam apenas se tais
itens não forem cumpridos.
5.2 Instrumentos
5.2.1 Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Este termo possui a função de preservar os direitos do voluntário, bem como
explicitar os interesses da pesquisa e seus objetivos.
5.2.2 Questionário Semi Estruturado
O questionário (ou entrevista) semi-estrurado, consistem em um roteiro que possui
a função de orientar o entrevistador, dando a liberdade do mesmo explorá-lo conforme a
necessidade apresentada na conversação. Dando a liberdade de ratar o assunto de uma
forma que possa abranger o propósito central, permitindo uma estruturação flexível de
fala. (NUNES, 2005).
O objetivo desta entrevista será captar as falas dos participantes perante o tema, e
assim descrever a representação social dos adultos jovens perante as vulnerabilidades
socias e o suicídio ou sua ideação. Terá como base oito (08) perguntas, a serem
respondidas individualmente, bem como uma breve caracterização dos sujeitos.
5.2.3 Diário de Campo
A funcionalidade deste instrumento traduz-se em um registro dos dados recolhidos
diante de uma atividade, dando a possibilidade de sistematizar as informações coletadas,
com observações a partir do que se foi observado, colaborando com a análise dos
resultados obtidos (FRIZZO, 2010).
5.2.4 Aparatos de Pesquisa
Utilizar-se-á ainda como material, gravadores, computadores, impressora, folhas e
canetas.
5.3 Procedimentos para a Coleta de Dados
O local em que aconteceram as entrevistas serão combinadas previamente junto
aos sujeitos, escolhidos aleatoriamente, em diversos ambientes, os locais serão de
preferência quietos, para que os indivíduos possam responder livremente e com calma.
As entrevistas serão iniciadas após a autorização do Comitê de Ética em Pesquisa
– Plataforma Brasil. Aos participantes (adultos jovens) serão entregues o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, que tem por objetivo informar a respeito da pesquisa,
em que constam informações sobre o trabalho, os procedimentos, os riscos e benefícios
através de uma linguagem clara e de fácil compreensão.
O termo, também, assegura sigilo sobre a identidade e esclarece que a participação
é voluntária e, se o participante desejar, ela poderá ser interrompida a qualquer momento
sem causar prejuízos.
As anotações no Diário de Campo visam coletar dados e anotar informações
durante a pesquisa de campo, estas que serão realizadas ao final das entrevistas para
captar maiores percepções e dados complementares, algo essencial em uma pesquisa
de caráter qualitativo.
5.4 Plano de Análise de Dados
Após a coleta de dados ter se finalizado, a pesquisa realizará uma leitura flutuante
de todos os dados e será feito uma junção de respostas por questão para então uma
comparação direta quanto as direta quanto as similaridades e diferenciações das falas.
Tomará como base, para embasar todo desenvolvimento do projeto do teórico Moscovici
(1978), que foca na questão social do ser humano e também dos grupos. Paralelamente
manter-se-á o levantamento bibliográfico sobre o Surto Sociorreligioso do Catulé,
elencando possíveis vulnerabilidades sociais vividas por essa população.
Após as delimitações de categorias das representações sociais perante as
entrevistas e a exposição das possíveis vulnerabilidades sociais vividas nos relatos do
Surto Sociorreligioso do Catulé, será realizada uma comparação direta, no qual se
ressaltará as possíveis diferenças e similaridades entre eles.
Um segundo avaliador, ingênuo quanto aos objetivos do estudo, será utilizado para
confiabilidade dos dados.

6 CRONOGRAMA

Identificação da Etapa Início Término

Definição do sujeito e local 01/11/2019 30/11/2019

Levantamento bibliográfico 01/11/2019 30/05/2020

Análise da bibliografia 01/11/2019 06/06/2020

Entrevistas - Aplicação 03/11/2019 30/12/2019

Transcrição das entrevistas 11/11/2019 04/01/2020

Análise das entrevistas 06/01/2020 03/02/2020

Interpretação dos resultados 01/04/2020 31/03/2020

Divulgação dos resultados 08/06/2020 31/05/2020

Montagem do trabalho final 01/02/2020 31/06/2020

.
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