Você está na página 1de 2

Educar para quê? Estamos diante de profissões atuais e de futuro.

Sabemos quais serão extintas, mas ainda não per-


cebemos quais serão as do futuro. Agora, o mais
importante passa a ser o aprendizado de competências
POR HELOISA MENEZES ao longo da vida, como habilidade de trabalhar em
PGA 2017 grupo, atitudes empreendedoras, dinamismo e curio-
sidade, coisas que nem sempre se ensina na escola.
E aprender a linguagem de programação e lógica.
O objetivo do ensino e da escola é preparar os O futuro do trabalho e o futuro da educação
alunos para conseguir emprego? Para empreender? estão interligados. A educação empreendedora deve
Ambos? Um novo papel é requerido das escolas e um preparar as pessoas para lidar com o futuro incerto,
conceito inovador da relação escola-aluno vem sendo volátil, complexo e ambíguo.
desenhado, diante da evolução das tecnologias da A educação precisa desenvolver e aplicar méto-
informação e comunicação. A emergente economia dos, de modo a dar confiança aos estudantes para a
digital, a economia colaborativa e a conectividade ação. Afinal, pouco do que ensinamos é apreendido
avançam rapidamente, com fácil adesão pelos e aprendido. Métodos que promovam a praticagem
jovens, o que nos leva a refletir sobre o propósito do jogar, de criar empatia, da experimentação, da
da educação no Brasil. criação e da criatividade, gerando engajamento. O
No 2º Seminário Internacional Conhecer de que é ensinado por meio da prática tem mais chan-
Educação Empreendedora – ConheCER –, em agosto ces de ser aprendido. No meio de tudo, métodos
de 2018, tivemos a oportunidade de debater tam- para praticar a reflexão.
bém o modus operandi e o potencial da educação O educador deve mudar seu papel de teacher
empreendedora no Brasil, frente às transformações para coach learning e ensinar a fazer as perguntas
decorrentes da maior velocidade das novas tecnolo- corretas. Nas palavras de Fernando Dolabella, a edu-
gias aplicadas ao cotidiano dos cidadãos. Registro, a cação precisa ser empreendedora. Se não o for, não
seguir, algumas das provocadoras reflexões de espe- é educação. Educar para desenvolver competências
cialistas do Centro Sebrae de Referência em Educação múltiplas e contribuir para as adaptações sucessivas
Empreendedora – CER (www.cer.sebrae.com.br). do aluno às mudanças do ambiente.
O importante é entender que todos nós precisa- Os resultados esperados da Educação
mos praticar o aprendizado ao longo da nossa vida. Empreendedora devem ser habilidades, comporta-
Os conteúdos ensinados – disponíveis a todos via mentos e mindset, além do estímulo à inteligência
web – perderão cada vez mais importância, o que empreendedora, que é agir frente ao desconhecido
requer a permanência da busca do conhecimento com foco na necessidade e no propósito, procurar e
pelos mais diversos métodos. desenhar as oportunidades, fazer conexões.

66 DOM 36 | opinião do executivo


opinião do executivo

A educação informal e a escola livre têm sido • As tecnologias aplicadas à educação são insu-
importantes campos de experimentação de práti- ficientes para resolver o problema cognitivo.
cas inovadoras de desinstitucionalização do ensino Ampliam o acesso e mudam a experiência do
e visões sobre a escola do futuro no presente, aprendizado, mas o mais importante é entender
contrapondo-se à aprendizagem tradicional. É a con- antes quem são as pessoas, como elas conseguem
traposição entre passividade e aprendizagem. O que aprender e apreender.
não fazemos pode até ser lembrado, mas não será • Escolas e empresas ainda seguem modelos peda-
aprendido. É a visão de que só aprendemos vivendo gógicos e planos de carreira como se fossem linhas
e fazendo. Assim, a escola estará mais próxima do de produção, onde é possível prever os resultados,
mundo e da realidade de cada aluno. conforme os inputs dados. Em paralelo, estamos
Mas, é possível escalar as práticas de educação num mundo conectado, multidisciplinar, imprevi-
desinstitucionalizada? A tecnologia é exponencial e sível, exponencial e interativo, que requer pessoas
4.0, as pessoas são lineares (pelo menos até terem preparadas para lidar com o inesperado e mutável.
seus cérebros fundidos com a inteligência artificial), • Aprender com métodos e processos que não
mas ansiosas e angustiadas, e as instituições são prendam nem nos tratem como peças da linha
1.0 ou 2.0. Como institucionalizar as novas práti- de montagem pré-programada. Escola é lugar
cas educacionais que buscam reduzir as angústias de testar. Sua mentalidade deve ser como a das
referentes aos métodos cognitivos? É necessário startups: testar, errar, aprender com os erros, pivo-
institucionalizar essas práticas para construirmos tar, desaprender, reaprender.
políticas públicas adequadas aos ciclos de mudança? • Transitar entre a educação on (ferramentas tec-
É mais fácil hackear a educação, que está aí, do que nológicas) e a educação off (presencial) levará a
mudar o sistema. ganhos de eficiência, acesso e cognição. Mas uma
A importância da praticagem para o processo não substitui a outra.
cognitivo é crescente neste mundo de informa- • Historicamente, as tecnologias para a educação
ções em excesso. Não só para os mais velhos, falharam ao não conseguir mudar o paradigma
em sua busca pelo lifelong learning, quando têm educacional. Falharam a TV educativa e os Moocs,
reduzida a capacidade cerebral de absorção do enquanto as plataformas educacionais crescem
conhecimento. e cumprem papel importante, porém, as pessoas
Em síntese, o aprendizado é ativo e requer expe- ainda preferem estar conectadas umas às outras.
rimentos. Vale o pensamento oportuno e verdadeiro
do filósofo chinês Confúcio, adequado aos tempos Novamente, a realidade virtual dará sua contri-
atuais: “Me diga e eu esqueço, me ensine e posso buição, mas não conseguirá ser a solução. Por isso,
me lembrar, me envolva e eu aprendo”. Podemos é necessário mudar o jeito como aprendemos. A
considerar que esse é o futuro da educação! tecnologia não ajuda quando tenta dar as respostas
aos alunos, não deixando que aprendam a fazer as
DESAFIOS DA ECONOMIA DIGITAL O mundo em perguntas corretas e a pensar.
mudanças velozes, modernos métodos cognitivos, O que precisamos aprender? Aprender a errar e
tecnologias transformando as formas de acesso a a tirar lições dos erros cometidos. Aprender como
conteúdo e processos inovadores de aprendizagem fazer as coisas e tentar fazê-las. Aprender a construir
impõem novos desafios à educação. A economia narrativas e criar links emocionais com elas.
digital, do compartilhamento, a construção coletiva A educação bem-sucedida não se limita a
e colaborativa pelos ecossistemas, a aceleração das projetos pedagógicos, também envolve projetos
desigualdades e o mundo experiencial estão nos emocionais que possam, juntos, habilitar o desenvol-
dizendo que é hora de mudar o modo como ensina- vimento integral do aluno e, assim, prepará-lo para os
mos e aprendemos. desafios do mundo do trabalho na economia digital.
Algumas mensagens do 2º ConheCER nos colo-
Heloisa Menezes é Diretora Técnica do Sebrae – Serviço Brasileiro de
cam em alerta para refletir sobre os desafios de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
um novo mundo da educação. Alguns inputs são
inquietantes:

opinião do executivo | DOM 36 67