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Antropologia filosófica 4

Como podemos definir o homem, o ser humano?


1. Ponto de partida: as ciências naturais e sociais contemporâneas, na medida em que
isolam um aspecto específico do homem e o ligar a algum princípio empírico em
particular (a mente, a biologia, a física, a fisiologia etc.) perdem de vista o sentido
simbólico-cultural dele, bem como não conseguem oferecer uma visão de conjunto –
que é normativa – sobre esse mesmo homem.
2. Portanto, definir o sentido do homem implica em uma visão holística que supera o
particularismo e o materialismo das ciências. Essa, de todo modo, é uma característica
fundamental da filosofia contemporânea, na medida em que procura reconstruir visões
abrangentes do homem sem comprometimento com uma noção essencialista e
naturalizada ele, bem como enquanto forma de contraponto às ciências empíricas
particulares.
3. A definição antropológica do homem não pode consistir em ou ser reduzida a uma
visão puramente biológica, ao estilo do darwinismo. O homem, se por um lado possui
estrutura biológica, fisiológica, orgânica, por outro não possui uma constituição
puramente caracterizada pela aclimatação ao meio natural em que vive. O homem
possui constituição simbólico-cultural, e isso define toda a sua constituição e sentido
(p. 43).
4. Diferentemente do animal, que vive preso, enredado e delimitado pelo universo físico-
natural, o homem, ao viver em um mundo simbólico-cultural (constituído pela
linguagem, pelo mito, pela arte, pela religião e pela ciência, por exemplo), somente
acede ao mundo, somente acessa às coisas de modo mediado, por causa de constituir-
se como ser simbólico-cultural. Portanto, ao contrário dos animais, que acessam o
mundo de maneira direta e imediata, o homem enquanto ser simbólico-cultural apenas
acessa ao mundo de modo indireto e mediato, via simbolismo, via valores (p. 50).
5. Enquanto ser simbólico-cultural, o homem diferencia-se dos animais no fato de que
utiliza linguagem conceitual, no sentido de que seus conceitos referem-se a objetos,
conjuntos de objetos e relações entre eles. É nesse sentido que o homem apenas
alcança a natureza de maneira mediata e indireta, posto que sua vida é sempre uma
permanente interação com e desde os símbolos e conceitos e valores nos quais ele
emerge e se desenvolve ao longo do tempo. Ernst Cassirer afirma, em relação a isso,
que a diferença fundamental entre homens e animais está no fato de que o homem
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possui linguagem proposicional (e linguagem emocional), ao passo que o animal
apenas possui linguagem emocional. A vida humana é uma vida fundamentalmente
conceitual (p. 56-57-58).
6. “Se existirem alguns traços de uma distinctio rationis no mundo animal estarão, por
assim dizer, envoltos em um casulo. Não podem se desenvolver por não terem o
auxílio inestimável e, na verdade, indispensável da linguagem humana, de um sistema
de símbolos” (p. 71).
7. “Sem o simbolismo, a vida do homem seria semelhante à dos prisioneiros da famosa
caverna de Platão. Ficaria encerrada dentro dos limites de suas necessidades
biológicas e de seus interesses práticos; não encontraria acesso ao ‘mundo ideal’, que
lhe descortina de todos os lados a religião, a arte, a filosofia e a ciência” (p. 74).
8. O homem enquanto ser simbólico vive em um espaço simbólico, outra característica
fundamental da constituição humana. O espaço simbólico é abstrato, isto é, um espaço
puramente proposicional-conceitual, de modo que o pensamento abstrato adquire
importância fundamental para o desenvolvimento humano. É por isso que, conforme
disse acima, o homem vive em um mundo de símbolos que já não mais se associam
diretamente e nem podem ser subsumidos a um objeto ou fato natural (p. 77-78-86).
9. O homem enquanto ser simbólico-cultural, conceitual, é ser de memória simbólica. A
memória não é uma simples recordação de fatos particularizados, mas um processo
criativo de reconstrução da experiência vivida, de síntese do que se é a partir do se
viveu ou experienciou. Nossa identidade depende de nossa capacidade de síntese do
nosso passado por meio da memória (p. 88-89-90).
10. O homem enquanto ser simbólico também é um ser de abertura ao futuro simbólico. O
homem projeta o futuro, constrói caminhos e conceitos acerca dele; ao fazer isso, se
constitui como ser que está direcionado, que age em vista de um estado e tempo
futuros. O ideal do futuro delimita nossa constituição atual e o modo como nos
posicionamos em relação a nós mesmo, aos demais, à sociedade etc. (p. 92-93-94-95).
11. O homem enquanto ser simbólico caracteriza-se também pelo conhecimento
simbólico. Como disse acima, o homem não acede diretamente à essência das coisas,
senão que o conhecimento humano é basicamente uma interpretação criativa e
construtiva do mundo e de si mesmo. A realidade, para o homem, é simbólica e uma
criação simbólica (p. 97-98-105).

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12. O homem não possui natureza humana, não possui essência substancial. A natureza
humana é relacional, isto é, dependente de todo o horizonte simbólico-cultural de que
ele faz parte. Aqui, em um mundo de símbolos e de conceitos, em que o homem
trabalha a partir deles e com eles, é que se define o sentido e a natureza do homem ao
longo do tempo. Por isso, é importante perceber-se como o homem se representou por
meio da linguagem, do mito, da religião, da arte, da história e da ciência (p. 116-120).
13. Mito e religião (p. 122-123, 135-136-137; 140-141, 155, 162-163).
14. Linguagem (p. 177-178-179).
15. Arte (p. 223-224, p. 231, 265).
16. A história. O homem não tem natureza, o que ele tem é história (p. 271-272, 300-301).
A história permite a reconstrução do processo evolutivo humano, sem a qual ele ficaria
fracionado, particularizado, sem identidade genérica (p. 322).
17. A ciência (p. 325-326-327). Busca por uma ordem geral da natureza.
18. “Na linguagem, na religião, na arte e na ciência, o homem não pode fazer mais que
construir seu próprio universo – um universo simbólico, que lhe permite compreender
e interpretar, articular e organizar, sintetizar e universalizar sua experiência humana (p.
345).
19. “Mas, no caso do homem, encontramos não apenas, como entre os animais, uma
sociedade de ação, mas também uma sociedade de pensamento e de sentimento. A
linguagem, o mito, a arte, a religião, a ciência são os elementos e condições
constitutivas desta forma superior de sociedade. São os meios pelos quais as formas de
vida social, que encontramos na natureza orgânica, evolvem para um novo estado, o
da consciência social, que depende de um duplo ato, de identificação e de
discriminação (p. 349).
20. “Tomada em conjunto, a cultura humana pode ser descrita como o processo da
autolibertação progressiva do homem. A linguagem, a arte, a religião, a ciência são
várias fases desse processo. Em todas elas, o homem descobre e prova um novo poder
– o de edificar um mundo próprio, um mundo ‘ideal’. A filosofia não pode renunciar à
sua busca de uma unidade fundamental neste mundo ideal” (p. 357).