Você está na página 1de 7

Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.

A história disciplinada e seus outros: reflexões


sobre as (in)utilidades de uma categoria
Maria da Glória de Oliveira

Como é possível fundamentar uma teoria ou política


em uma situação de fala ou posição de sujeito que seja
‘universal’ quando a própria categoria de universal apenas
começou a ser exposta por seu viés altamente etnocêntrico?
Quantas ‘universalidades’ existem e a que ponto o conflito
cultural é compreensível como a colisão de um conjunto
de ‘universalidades’ presumidas e intransigentes, um
conflito que não pode ser negociado através do recurso
a uma noção culturalmente imperialista de ‘universal’ ou,
melhor, somente será resolvida com esse tipo de recurso
às custas da violência?1

Na apresentação do fórum de debates, promovido


pela American Historical Review para lembrar os vinte anos de
publicação de Gênero: uma categoria útil de análise histórica,
Joan Scott revelou que o título original daquele que se tornou o
seu mais célebre artigo fora proposto originalmente como uma
interrogação.2 Para a versão final do texto publicado na própria
AHR, em 1986, a historiadora optou por acatar as diretrizes dos
editores da revista. Lisonjeada com a homenagem, a própria Scott
reconheceria, com certa dose de fastio que, após duas décadas, a
profusão e variedade de estudos na área da História confirmavam
tanto a utilidade da categoria quanto sugeriam certo esgotamento
do tema.

1 BUTLER, Judith. Contingent foundations: feminism and the question of


“postmodernism”. In.: SEIDMAN, S. (ed.). The Postmodern Turn: new perspectives
on Social Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, p. 157.
2  Cf. SCOTT, Joan W. Unanswered questions. American Historical Review, v.
113, Issue 5, december 2008.

53
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

Scott retomará o assunto, desta vez por conta de uma descolonização do conhecimento, da colonialidade de gênero e
controvérsia em torno da noção de gênero, no ano de 2011. O dos feminismos decoloniais.
imbróglio surgira na França em torno de um manual preparatório O argumento em torno do silêncio dos sujeitos
para estudantes pretendentes do curso de ciências biológicas, subalternos não é uma novidade. Entre esses sujeitos, “a mulher
elaborado pelo Ministério da Educação. Políticos conservadores subalterna continuará tão muda como sempre esteve”, proclamou
e entidades católicas francesas consideraram que o material, Gayatri Spivak em 1985, no texto seminal em que, de forma
especialmente o conteúdo relativo à sexualidade humana, igualmente categórica, concluiu: “a mulher intelectual tem uma
configurava-se como um produto do lobby gay, fruto da importação tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio”.4 Com
das ideias da filosofa norte-americana Judith Butler, apelidada de estas palavras finais de Pode o subalterno falar?, a teórica indiana
“papisa da teoria de gênero” em artigo de um jornal francês. Para parece acenar com uma espécie de antídoto (a “tarefa circunscrita”
Scott, interessava menos os argumentos dos grupos conservadores da mulher intelectual) frente à impossibilidade radical de fala dos
e mais os múltiplos e conflituosos significados que, no contexto sujeitos historicamente emudecidos. A frase torna-se ainda mais
daquele debate, emergiram em torno da palavra gênero. Eram instigante, considerando que uma das contribuições fundamentais
evidentes as imprecisões e variações nos usos ordinários do termo, de Spivak está precisamente em demonstrar que é no campo do
o que o tornava um “lugar de contestação e conceito disputado na trabalho intelectual que se produz a “inquestionável mudez” dos
arena política”.3 A proliferação do campo semântico da palavra sujeitos coloniais como Outro.5
(ora denotando “questões relativas a mulheres”; “diferença
sexual”; “desigualdade entre os sexos” ou a combinação de tudo Na área do conhecimento histórico, em suas diferentes
isso), desestabilizada constantemente por disputas e políticas de abordagens, a história intelectual não fala sobre gênero ou, pelo
sentido, demonstrava, em suma, que a utilidade da categoria de menos, não reconhece a relevância ou a utilidade desta categoria
gênero estava justamente em seus usos como grade analítica de como vetor de análise para operar com suas agendas de pesquisa
leitura e modo de interrogar a História. específicas. Esse silêncio talvez contribua, de modo persistente, para
reforçar a tradicional invisibilidade das mulheres como intelectuais
Inspirando-me na lembrança do texto seminal de Scott, e a marginalidade das obras de autoria feminina (ou de autorias
esboçarei uma reflexão em três movimentos: inicialmente, retomo “outras”) como objetos potenciais desses estudos. Não é difícil
uma constatação acerca da invisibilidade das produções de autoria constatar a invisibilidade da produção intelectual feminina que se
feminina na história intelectual, para, em seguida, assinalar um evidencia na ausência de um volume mais consistente de trabalhos
paradoxo mais amplo em torno da condição “coadjuvante” da de pesquisa que abordem essa produção na área específica de
história das mulheres e estudos de gênero e, ao final, formulo o estudos de teoria da história e de história da historiografia no Brasil.
problema/desafio que, em minha percepção, manifesta-se em
4 SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora
algumas interpelações recentes à disciplina histórica na forma de UFMG, 2014, p. 165.
seus “outros” silenciados, notadamente pelos debates em torno da 5  “O mais claro exemplo disponível de tal violência epistêmica é o projeto
remotamente orquestrado, vasto e heterogêneo de se constituir o sujeito colonial
3  SCOTT, Joan W. Os usos e abusos do gênero. Projeto História, São Paulo, n. como Outro. Esse projeto é também a obliteração assimétrica do rastro desse Outro
45, p. 331. dez. 2012. em sua precária Subje-tividade”. Ibidem, p. 60.

54 55
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

Um olhar panorâmico na História da Historiografia, Os dados sugerem que essa desproporcionalidade não
observatório privilegiado das pesquisas recentes da área, aponta acompanha a distribuição equilibrada entre homens e mulheres
para um desequilíbrio de gênero quanto às autorias de trabalhos. com titulação de mestrado e doutorado na grande área da História
De acordo com os dados levantados por Flávia Varella nas edições no Brasil, conforme apontam levantamentos mais recentes.9
da primeira década da revista (2008-2018), o perfil predominante O relativo equilíbrio no acesso à formação acadêmica não deve
de autores de artigos é masculino (68%), professores do ensino mascarar, contudo, as desigualdades de gênero estruturais que
superior, vinculados a instituições de ensino da região sudeste.6 estão na base do que Pierre Bourdieu chamou de “coeficiente
Quando consideramos os títulos e temas abordados, chama a simbólico negativo” das mulheres que, “tal como a cor da pele para
atenção que, no total de publicações nesse período, apenas 5 artigos os negros, ou qualquer outro sinal de pertença a um grupo social
contemplam estudos sobre a obra e a trajetória de autoras e/ou estigmatizado, afeta negativamente tudo o que elas são e fazem”.10
historiadoras, sendo predominantes (95%) os estudos em torno de Tais assimetrias escapam, em geral, a uma apreensão quantitativa,
nomes masculinos canônicos da historiografia geral, como Lucien na medida em que podem se manifestar na distribuição tácita
Febvre, F. Braudel e Michel de Certeau e da historiografia brasileira, de “tarefas” dentro de uma mesma área disciplinar, segundo
como Varnhagen, Capistrano de Abreu e José Honório Rodrigues.7 princípios historicamente discriminatórios, e ainda vigentes,
Uma hipótese mais imediata para esse quadro poderia que costumam conceder “aos homens o mais nobre, o mais
ser a de que as discrepâncias de gênero, tanto no indicador de sintético, o mais teórico e às mulheres o mais analítico, o mais
autoria, quanto na escolha de temas e objetos de estudo, talvez prático, o menos prestigioso”.11 A força e o peso dessas injunções
correspondessem a um número desigual de pesquisadores acrescentam variáveis nada desprezíveis ao problema da pouca
homens e mulheres na área de teoria e história intelectual. De visibilidade da produção intelectual feminina.
fato, considerando os dados referentes ao total de cadastrados Esta invisibilidade persiste não obstante a consolidação
como pesquisadores na Sociedade Brasileira de Teoria e História de uma sub-área vasta de estudos que, há algumas décadas, alçou
da Historiografia (SBTHH), observa-se que dos 614 associados as mulheres à condição de sujeitos e agentes históricos, tornando
efetivos até maio de 2018, 39% são mulheres frente a 61% de mais complexa a compreensão dos processos sociais e das relações
homens, o que, a princípio, demonstra discreto desequilíbrio de de poder. Refiro-me à história das mulheres que começou a ser
gênero na composição da área de pesquisa em teoria e história da produzida mais sistematicamente dentro da academia nos anos
historiografia.8 portanto, ainda insuficientes para uma radiografia fidedigna, o que demandaria
6  Cf. VARELLA, Flávia. Limites, desafios e perspectivas: a primeira década da levantamentos semelhantes em outros periódicos e a busca ampliada pela produção
revista História da historiografia (2008-2018). História da Historiografia, v. 11, n. na área em bancos de teses e sites de programas de pós-graduação.
28, set.-dez 2018. 9  Cf. ALMEIDA, Rodolfo; ZANLORENSSI, Gabriel. Qual o gênero e a idade de
7  Varella destaca ainda a baixa participação feminina na composição do mestres e doutores no Brasil. Nexo. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.
Conselho Executivo da revista, formada por uma maioria de pesquisadores da com.br/grafico/2018/05/23/Qual-o-gênero-e-a-idade-de-mestres-e-doutores-no-
área de teoria da História, do sexo masculino (86%), brancos (72%) e lotados em Brasil>. Acesso em outubro de 2018.
instituições do ensino superior da região sudeste (75%). 10  BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bestbolso,
8  Dados obtidos a partir da lista de sócios cadastrados, fornecidos pela secretaria 2017, p. 130.
da SBTHH, em maio de 2018. Evidentemente, tratam-se de indicadores iniciais e, 11  Ibidem, p. 127.

56 57
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

1970 e os seus desdobramentos recentes nas variadas vertentes de PNLD/MEC 2015, constatando que o tema aparece nessas obras,
estudos de gênero e das sexualidades. de modo geral, relegado a um domínio separado da narrativa e de
E é precisamente nesse horizonte que se configura um seus conteúdos principais.14
paradoxo: a crescente inclusão das mulheres como objetos de Afora a pouca centralidade no sistema educacional, cabe
estudo nas ciências humanas é acompanhada de uma resistência destacar a avaliação de Küchemann, Bandeira e Almeida de que
que, embora difícil de ser identificada de modo inequívoco, posto boa parte das políticas públicas não considera a condição
que não é uniforme ou homogênea, se manifesta como falta de gênero como estruturadora do campo das relações
do uso mais radical da categoria de gênero para se repensar a sociais e dos comportamentos humanos, mas como um
acessório opcional das ações dos indivíduos, portanto
validade pretensamente universal dos pressupostos epistêmicos um aspecto particular, um adesivo que pode ou não ser
das disciplinas. Trata-se do que Eleni Varikas definiu como o incorporado à análise geral.15
esvaziamento da natureza política de conceitos como sexo e gênero,
Em suma, a história das mulheres e os estudos de gênero se mantêm,
evidenciado em “um processo de marginalização/normalização”,
em grande parte, como conteúdos suplementares, submetidos à
em que essas noções são “domesticadas” e mobilizadas de modo
ordem narrativa do que Varikas chamou de “território acolhedor
predominantemente descritivo.12 Por conta disso, a categoria de
e profundamente androcêntrico” da história social. Neste campo,
gênero, longe de revelar a sua utilidade para a análise histórica,
a conhecida definição de gênero de Scott como “um elemento
como projetava Scott, permanece inofensiva e esvaziada de sua
constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças
potência crítica mais radical.
percebidas entre os sexos e como uma maneira primária de
Como uma das evidências mais imediatas de certa significar relações de poder” parece não ter sido suficientemente
“guetização”, observa-se que, cada vez mais, os(as) docentes operatória para reverter esse paradoxo.16
da história introduzem em seus cursos o tema das relações de
Assim, há a “História” e os “estudos de gênero” e a
gênero, o que acompanha a expansão e consolidação desse área
“história das mulheres” que permanecem localizados naquela
de pesquisa (profusão quantitativa e qualitativa da produção
região nomeada por Simone de Beauvoir de “Outro”, carregada
historiográfica, de periódicos especializados, grupos de pesquisa,
pela marca da diferença e da particularidade, o que explicaria a
eventos, etc.), mas isso não implicou em tornar o gênero um
“guetização” dos estudos feministas. Tal estigma foi devidamente
conteúdo plenamente integrado aos currículos nem tampouco
assinalado pela filósofa norte-americana Susan Bordo que
serviu de garantia para que esses estudos adquirissem centralidade
no plano institucional.13 Como um dos sintomas desse paradoxo,
14  Cf. MONTEIRO, Paolla Ungaretti. (In)visibilidade das mulheres brasileiras
uma pesquisa recente apontou para a invisibilidade das mulheres nos livros didáticos de História do Ensino Médio (PNLD, 2015). Porto Alegre:
nos livros didáticos de História para o ensino médio, avaliados pelo PUC-RS – Programa de Pós-Graduação em Educação, 2016.
15 KÜCHEMANN, Berlindes; BANDEIRA, Lourdes M.; ALMEIDA, Tânia
12 Cf. VARIKAS, Eleni. Pensar o sexo e o gênero. Campinas: Editora da Mara C. A categoria de gênero nas Ciências Sociais e sua interdisciplinaridade.
Unicamp, 2016. Revista do Ceam, v. 3, n. 1, p. 78. jan-jun 2015.
13 Cf. Idem. Gênero, experiência e subjetividade: a propósito do desacordo 16 SCOTT, Joan W. Gender: a useful category of historical analysis. The
Tilly-Scott. Cadernos Pagu, n. 3, 1994. American Historical Review, v. 91, n. 5, p. 1067. december 1986.

58 59
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

observou o quanto as contribuições das teorias críticas e das à verdade, da abnegação e da imparcialidade, assinaladas nos
epistemologias feministas são desqualificadas e marginalizadas nas elogios biográficos, designam virtudes inatas em certos homens
discussões sobre pós-modernismo e a crise das noções de sujeito e de letras, que funcionavam como índices reguladores no processo
de razão: “continuamos sendo o Outro na autodefinição de nossa de disciplinarização da pesquisa e da escrita da história no
disciplina, na história intelectual em geral e até nas narrativas Oitocentos. O louvor dessas virtudes servia para circunscrever
sobre as mudanças que nós mesmas temos provocado”.17 Frente a parâmetros e padrões ideais de conduta baseados em qualidades
esse quadro, seria necessária uma resistência vigilante à guetização e traços de caráter dos sujeitos letrados. Assim, na constituição
da perspectiva feminista, de modo a afirmar o seu uso como da historiografia dita “científica”, as garantias de credibilidade das
crítica da cultura. Trata-se, para Bordo, de um embate político que obras historiográficas estariam, portanto, na adequação desses
não se esgota em uma demanda por inclusão – na chave de um sujeitos aos ideais de uma performance virtuosa do historiador.
“empoderamento” de viés liberal das mulheres como sujeitos – , A ambicionada imparcialidade, para citar um exemplo de virtude
mas da defesa e afirmação do potencial mais radical dessa crítica. epistêmica central para a história disciplinada, corresponderia
No caso específico da área de conhecimento da História, mais a um conjunto de traços relacionados a competências
a profissionalização de seus procedimentos de pesquisa e de escrita intelectuais e atributos morais inatos a certos homens de letras do
no século XIX foi acompanhada pela interdição às historiadoras que aos efeitos da prática de um procedimento de investigação
nos círculos letrados e pela demarcação das incursões femininas específico.20
na prática historiográfica com o rótulo de amadorismo.18 A par Em suma, ser historiador no século XIX era mais uma
disso, até meados do século XX, a construção notoriamente questão de índole cívica e disposição moral do que de aplicação de
androcêntrica da disciplina reforçou a invisibilidade da dimensão um método “disciplinado”. Naquele contexto, para usarmos a lógica
de gênero dos fenômenos históricos.19 Como já demonstrei explicativa historicista, ser historiadora implicaria uma flexão de
em estudos sobre as biografias de homens de letras no Brasil gênero impossível, pois, excluídas do exercício da cidadania e
oitocentista, publicadas na Revista do IHGB, as tarefas do do corpo político da nação, as mulheres estariam destituídas do
historiador no Brasil imperial eram delimitadas a partir de um próprio ethos que definia o historiador oitocentista,21 ou seja, dos
repertório de virtudes epistêmicas. Os usos das tópicas do amor atributos virtuosos mínimos para a escrita da história. Acrescente-
se a isso o fato de que a produção letrada de autoria feminina era
17  BORDO, Susan. A feminista como o outro. Estudos Feministas, ano. 8, n. previamente demarcada por um tipo de recepção que a situava
1, sem. 2000, p. 24. Neste sentido, é com razão que Bordo questiona por que a vasta
e densa obra teórica da filósofa Sandra Harding que, desde os anos 1970 propõe às margens dos cânones literário e historiográfico. Estariam
reflexões críticas sobre epistemologia e filosofia da ciência, permanece rotulada lançadas aí, portanto, as bases de um apagamento duradouro que
pejorativamente e mantida no escaninho à parte do “pensamento feminista”. Ibidem, contribuiu para a naturalização da ideia de que as mulheres não
18 et. seq. Um estigma semelhante remonta à obra filosófica de Simone de Beauvoir e
persiste na recepção crítica de outras filósofas contemporâneas como Judith Butler. 20  OLIVEIRA, M. da Glória de. Fazer história, escrever a história: sobre as
18  Cf. SMITH, Bonnie C. Gênero e história: homens, mulheres e a prática figurações do historiador no Brasil oitocentista. Revista Brasileira de História, v.
histórica. Bauru: EDUSC, 2003. 30, n. 59. 2010.
19  Cf. CHARPENEL, Marion. Les enjeux de la mémoire chez les historiennes 21  Cf. TURIN, Rodrigo. Uma nobre, difícil e útil empresa: o ethos do historiador
des femmes, 1970-2001. Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 223, 2018. oitocentista. História da Historiografia, n. 2, março 2009.

60 61
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

produziam historiografia “profissional” ou qualquer outro gênero “equiparidade” de condições e de oportunidades entre os sexos nas
similar que pudesse ser reconhecido como relevante.22 práticas de produção do conhecimento, na verdade mascarariam
Como argumentei em um texto anterior,23 a tradição de hierarquias, reproduzindo, nas situações cotidianas mais banais,
silêncio dos sujeitos subalternos se estende para o campo específico privilégios androcêntricos e patriarcais de dominação.25 E, neste
de pesquisas da história intelectual, promovendo apagamentos caso, caberia acrescentar que se trata de hierarquias de gênero
e o ocultamento da produção letrada de autoria feminina, bem em que estão jogo masculinidades e feminilidades múltiplas que
como a naturalização dos pressupostos e das determinações de incluem escalas diversas e complexas de desigualdades entre
valor, implicadas na construção dos diferentes cânones literários homens e entre mulheres, se considerarmos a intersecção dos
e historiográficos. As teorias feministas tiveram um impacto marcadores de raça, classe social e sexualidade.
significativo para reverter esse quadro, especialmente no campo Nunca será excessivo assinalar que a pesquisa histórica,
dos chamados estudos culturais e literários, ainda que o trabalho como as demais áreas nas ciências humanas, é espaço constituído por
crítico tenha se concentrado na denúncia da ideologia patriarcal hierarquias de poder, de prestígio e de influência que conformam
e às leituras revisionistas dos cânones letrados. Assim, sob muitos disputas nem sempre explícitas entre modelos teóricos e agendas
aspectos, sempre persistiu uma lógica de complementação de investigação que, de modo predominante, são oriundos
subjacente a esses estudos na medida em que continuaram dos centros metropolitanos do Norte global e difundidos por
tributários dos mesmos pressupostos da tradição androcêntrica autores europeus e estadunidenses o que, nos espaços periféricos,
que pretendem denunciar.24 configura a chamada “dependência acadêmica”.26 Ora, como bem
O silêncio em relação às determinações de gênero observou Ana Carolina Pereira, o desafio maior que se apresenta,
nos estudos de história intelectual até o momento, pode ser especialmente para a teoria da História e, caberia acrescentar, para
explicado, obviamente, pelas notórias assimetrias advindas das a história intelectual, praticadas no Sul global, estaria em uma
diferenças de sexo, raça e classe social que estruturam a divisão tarefa anterior à própria possibilidade de superação, demandando
do trabalho acadêmico e, por conseguinte, o campo da produção o próprio reconhecimento e o exame crítico dessa tendência à
do conhecimento científico. Recentemente, Michael Armato no extroversão acadêmica como um problema.27
artigo sugestivamente intitulado “Lobos com pele de cordeiro”, No horizonte mais imediato, os debates em torno da
demonstra como as relações dentro da academia estão apoiadas opção decolonial e das noções de colonialidade de gênero e de
em um “sexismo esclarecido” que se manifesta de formas sutis feminismo decolonial despontam como interpelações dirigidas
através de posturas e atitudes que, sob a aparência da suposta aos silêncios e apagamentos na História, para as quais todas as

22  SMITH, Bonnie C. Gênero e história... Op. cit., p. 23 et. seq. 25  Cf. ARMATO, Michael. Wolfes in sheep’s clothing: men’s enlightened sexismo
23  Cf. OLIVEIRA, M. da Glória de. Os sons do silêncio: interpelações feministas & hegemonic masculinity in Academia. Women’s Sudies: an interdisciplinary
decoloniais à história da historiografia. História da Historiografia, v. 11, n. 28, 2018. journal, v. 5, n. 42, 2013.
24 SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. In.: 26  CONNEL, Raewyn. Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016, p. 18.
HOLLANDA, Heloisa B. (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica 27  PEREIRA, Ana Carolina Barbosa. Precisamos falar sobre lugar epistêmico na
da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Teoria da História. Tempo e Argumento, v. 10, n. 24, abr-jun 2018, p. 109.

62 63
A história (in)diciplinada Arthur Lima de Avila, Fernando Nicolazzi e Rodrigo Turin (org.)

tentativas de resposta ainda parecem provisórias e imprevisíveis.28 dimensões do ser, do saber e do poder, envolvendo a introdução
Neste caso, é importante considerar que tais desafios se da lógica colonial nas visões de mundo e na experiência de tempo
evidenciam em uma série de trabalhos que conectam a ideia de e espaço.32
gênero à manutenção e à reconfiguração das relações de poder, Na leitura crítica dirigida aos argumentos de Walter
verdadeiros repositórios da lógica e dos legados do colonialismo Mignolo, considerado o mais importante autor do pensamento
que podem continuar existindo mesmo após a conquista formal decolonial latino-americano, a filosofa panamenha Linda Alcoff
da emancipação política.29 assinala que, tomados como um léxico para as metodologias nas
Assim, sob essa perspectiva e em diálogo direto com a ciências sociais e humanidades, os conceitos de colonialidade
noção de colonialidade do poder,30 para a pensadora argentina Maria de poder, diferença colonial e semiose colonial podem ser
Lugones, o sistema de colonialidade, construído historicamente a pensados como ferramentas conceituais para descolonizar tanto
partir da colonização europeia, não se refere apenas ao domínio a metafísica quanto a epistemologia. Neste sentido, a proposta de
sobre uma suposta classificação racial, mas permeia todo o um pensamento fronteiriço ou de gnosis de fronteira que Mignolo
controle imposto sobre o sexo, as subjetividades, a autoridade e o desenvolve como contraponto crítico tanto à epistemologia
conhecimento.31 Deste modo, o conceito de colonialidade permite quanto à hermenêutica não se destinaria tanto às preocupações
compreender como os colonizados foram submetidos não apenas epistêmicas normativas tradicionais quanto à justificação e à
a uma exploração voraz de seus recursos materiais, mas também formação de crenças, mas sim à forma como o conhecimento é
a uma hegemonia de sistemas de conhecimento e esquemas de normativamente definido em referência a seu(s) “outro(s)”.33
percepção eurocêntricos. A colonialidade abarcaria, portanto, as É importante destacar que a própria ideia de
“decolonização do conhecimento” não se confunde com a simples
28  Cf. MIGNOLO, Walter; WALSH, Catherine E. On decoloniality: concepts,
analytics, praxis. Durham and London: Duke University, 2018; LUGONES, “abertura” crítica das ciências humanas no sentido de uma
Maria. Colonialidad y gênero. Tabula Rasa, n. 9, jul.-dic. 2008. Idem. Rumo a um superação das perspectivas anglo e eurocêntricas. O problema com a
feminismo descolonial. Estudos Feministas, v. 22, n. 3, set.-dez. 2014. Sob o impacto ambicionada “pluralização de perspectivas”, como sugere Mignolo,
dos estudos pós-coloniais, merece destaque a abordagem recente da história da
historiografia em perspectiva global/transnacional, com ênfase na problematização é que “abrir não é o mesmo que descolonizar”.34 Ou seja, o projeto
dos condicionamentos eurocêntricos e etnocêntricos das representações do passado de uma “abertura inclusiva” sem descolonização, corre o risco de
e nas dinâmicas das relações de centro e periferia na produção do conhecimento
histórico. Para uma discussão importante, ver: SANTOS, Pedro A. C. dos; favorecer simplesmente a subalternidade colonial se a metodologia
NICODEMO, Thiago L.; PEREIRA, Mateus H. de Faria. Historiografias periféricas permanecer dependente da epistemologia da modernidade, das
em perspectiva global ou transnacional: eurocentrismo em questão. Estudos normas disciplinares e agendas de pesquisa do Atlântico Norte, ou
Históricos, v. 30, n. 60, jan.-abr. 2017.
29 Cf. MALDONADO-TORRES, Nelson. Analítica da colonialidade e da seja, “do imaginário conceitual das epistemologias coloniais”.
decolonialidade: algumas dimensões básicas. In.: BERNARDINO-COSTA, Joaze;
MALDONADO-TORRES, Nelson; GRASFOGUEL, Ramón (org.) Decolonialidade 32 MALDONADO-TORRES, Nelson. Analítica da colonialidade e da
e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018. decolonialidade... Op. cit., p. 43 et. seq.
30  QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of 33 ALCOFF, Linda. A epistemologia da colonialidade de Mignolo.
world-systems research, v. 11, n. 2, 2000. Epistemologias do Sul, Foz de Iguaçu, v. 1, n. 1, p. 50, 2017.
31  Cf. LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo descolonial... Op. cit. 34 MIGNOLO apud. Ibidem, p. 49.

64 65