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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

DIRLAN MACHADO JUNIOR

RESENHA: A MORTE DE IVAN ILITCH

VITÓRIA
2019
DIRLAN MACHADO JUNIOR

RESENHA: A MORTE DE IVAN ILITCH

Trabalho apresentado à disciplina de


Antropologia Filosófica do curso de
Enfermagem, como requisito parcial de
avaliação.
Docente: Gilmar Francisco Bonamigo.

VITÓRIA
2019
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Introdução

Liev Tolstoi foi um dos escritores realistas mais conclamados do seu tempo.
Autor de clássicos como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, Leon ou Leão – em
português - como era conhecido, escreveu ao longo de sua vida, pequenas
narrativas que entraram para a história da literatura como a novela “A Morte de
Ivan Ilitch”, publicada pela primeira vez em 1886. O livro critica em seus
pequenos doze capítulos a falta de diligência à vida humana em meio às
futilidades, ambição e estranhamento em torno da doença do personagem
principal; Ivan Ilitch, um magistrado catedrático.

A obra perpassa pela vida de Ivan como uma exposição de crescimento


profissional, vida, enfermidade até o seu derradeiro fim. Tolstoi se preocupa em
levar ao leitor a reflexão em torno de um tema sempre tabu, presente e
inevitável: a morte.

Resenha: A Morte de Ivan Ilitch

A morte de Ivan Ilitch é uma novela centrada em um juiz burocrata da suprema


corte russa que aos 45 anos de idade, morre vitima de uma doença não
diagnosticada. O romance é narrado de maneira onisciente em terceira pessoa,
apesar de não deixar claro para o leitor qual a doença que o acometeu. A
despeito do cargo e da colocação social privilegiada, o juiz é retratado como
um homem comum e vulnerável; “a vida de Ivan Ilitch era uma das mais
simples, das mais vulgares e, no entanto, das mais terríveis” (p.19).

Deve-se atentar que a história possui uma cronologia tática, com a


possibilidade de o leitor verificar logo no inicio, as intenções e características
de cada personagem. No primeiro capitulo é o momento em que a novela é
contada a partir do velório de Ivan, o leitor percebe que o falecido – até então
desconhecido – era cercado por amigos e colegas de profissão hipócritas e
interesseiros. Eles tentam em cena exteriorizar o luto, a tristeza pela morte,
mas por dentro o pensamento se volta o tempo todo sobre os benefícios que
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eles teriam com essa situação; em especial o personagem Pedro Ivanovitch,


que supostamente assumiria o cargo de Ivan no tribunal de São Petersburgo.

No capitulo seguinte é contada de fato a história de Ivan Ilitch, da infância até a


sua entrada na faculdade de direito, seu primeiro emprego como secretário e
emissário do governador e posteriormente a sua ascensão na carreira da
magistratura. Já nestas primeiras impressões, fica clara a personalidade de
Ivan: Um homem inteligente que desde jovem procurou agir com equidade e
isonomia independente de sua posição hierárquica. Em uma das festas da alta
sociedade frequentada por ele, conhece a que viria ser sua esposa, Prascóvia
Fedorovna. Um casamento para cumprir encargos dados pelas convenções e
por um genuíno prazer pessoal, como exposto no trecho abaixo:

[...] Foi impelido por ambas essas razões: o casamento lhe deu
prazer pessoal e ao mesmo tempo foi considerado a melhor
solução pelos seus amigos mais altamente colocados. (Tolstoi,
1992, p. 25).

Com uma vida até então invejável; um casamento “perfeito” perante a


sociedade e a promoção para o cargo de promotor público, não foi impreterível
que Ilitch começasse a sentir os primeiros sinais de desgaste em suas relações
pessoais. Prascóvia se tornara uma mulher ciumenta e requisitava a sua
atenção absoluta, principalmente durante a sua primeira gestação. Ivan como
uma fuga a vida particular em crise, se comprometia por inteiro ao trabalho. A
sensação de uma existência notável se dissociava completamente da vida
prática e se tornava cada vez mais uma ilusão.

Ao longo do tempo a rotina atinge também o comportamento e a personalidade


de Ivan; uma insatisfação generalizada ao perceber que as coisas nem sempre
pareciam tão maravilhosas assim ou de certo modo não estavam de acordo
com o que ele desejara. Isso piora principalmente no aparecimento dos
primeiros sintomas de sua enfermidade até a sua morte. Nesses momentos
finais, com um olhar mais atento e apurado, o personagem central começa a
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entender que toda a sua existência se voltou para cumprir rigorosamente os


padrões sociais estabelecidos e que os outros – família, amigos, médicos,
colegas de profissão - diante da sua condição agonizante, agiam com certa
falsidade e egoísmo.

O tema da morte é rodeado de mitos e preocupações. O receio da finalidade da


vida é cercado por bases epistemológicas, como mostrado em um trecho do
livro “Medo Liquido” de Zygmunt Bauman1·.

[...] somente nós, seres humanos, temos consciência da


inevitabilidade da morte e assim também enfrentamos a
apavorante tarefa de sobreviver à aquisição desse conhecimento,
tarefa essa de viver com o pavor da inevitabilidade da morte e
apesar [do conhecimento a respeito] (Bauman, 2008, p.45)

O comportamento das pessoas diante da morte é verificado por Bauman como


algo nefasto a ser evitado. E esse mal eleva o patamar da vida a exemplo de
algo superestimado, como se a imortalidade fosse uma realidade próxima. O
medo da violência, das epidemias e dos desastres naturais determinam novas
demandas de acesso a novos medicamentos e tecnologias que nos preservam
de certa forma de um decisivo destino final.

No romance de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo”, o individuo se


encontra inserto em uma sociedade estruturada, onde a nova forma de
conhecimento técnico e científico o condiciona a um modo de vida, superando
também as questões da imprescindibilidade da própria morte, verificado no
trecho a seguir “[...] vacinava as crianças contra o medo da morte oferecendo-
lhes seus doces favoritos enquanto elas eram reunidas em torno do leito de
agonia de seus parentes mais velhos” 2.

1
Bauman, Zygmunt, Medo Liquido, 2001

2
Bauman Z. Op. cit. p. 44
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Apesar da obra de Tolstoi ter sido lançada muito antes do romance distópico de
Huxley, é percebido que o tema acerca da brevidade da vida sempre esteve
presente na literatura e na cultura popular. O interesse sobre o assunto “morte”
é atemporal e o associamos sempre a sentimentos ruins como tristeza e
angustia e quase nunca a relacionamos com conformismo e aceitação. O
personagem central da novela de Tolstoi encontra uma barreira maior em sua
resignação durante a doença: a dor e o sentimento de abandono.

A discussão sobre a ausência de uma comiseração em torno da vida de Ivan é


um fator inquestionável na novela. Uma visão misantropa de Liev Tolstói é
confirmada a cada página e capítulo do livro. Porque é expresso para o leitor
que o personagem central, um juiz burocrata, sempre procurou agir segundo
aquilo que é apropriado e conveniente aos olhos da lei e dos outros. E apesar
de seguir esses padrões, ele não pôde usufruir das suas conquistas e
tampouco esperar daqueles que ele conviveu e ajudou, como sua família e
amigos, uma reciprocidade diante de seu sofrimento.

“A morte de Ivan Ilitch” confronta a questão do existencialismo humano, pois ao


longo do seu percurso é questionável se o personagem experimentou um
sentimento livre determinado por sua vontade3 ou se pôs como um mero
expectador disposto a seguir todas as convenções sociais necessárias. Ao fim
da vida, Ivan se pergunta através de flashbacks se sua existência foi
satisfatória ou não.

A negação da morte é cercada por uma relativização moral na obra. Todos


aqueles que cercam Ivan se apropriam de um mascaramento da iminência da
finitude da vida. Mas o próprio personagem se vê em meio a um contexto de
enganação e hipocrisia, até mesmo vindo do seu próprio médico. Essa vida
curta e limitada a prazeres superficiais, onde o outro se põe ora como um
fardo, ora como um apoio apenas para realização de objetivos particulares dá a
Ivan a percepção de que cada um vive como se estivesse só.

Nos meandros da doença de Ivan Ilitch, um personagem media todo o


sentimento de falsa compaixão. É o caso de Guerasim, um homem do campo

3
Existencialismo segundo Jean-Paul Sartre
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que trabalha na casa como copeiro e o trata com zelo. Ele não esconde que a
morte está perto do enfermo e a trata de maneira natural.

[...] Só Guerassim não mentia. Tudo demonstrava que só ele


compreendia os fatos e não considerava necessário disfarça-los,
sentindo apenas piedade por esse amo abatido e fraco [...]
(Tolstoi, 1992, p.66).

"Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes"4, em alemão “a religião é ópio do
povo, frase de analogia atribuída a Karl Marx em meados do século XIX.
Depreende-se dessa proposição o que Ilitch sentia nos momentos de angustia
da sua doença, onde nem a morfina estava trazendo mais alivio para a sua dor.
Nestes instantes a presença confortadora do padre e suas preces em seus
últimos instantes de vida deu a Ivan uma espécie de esperança e
abrandamento de sua condição.

Veio o padre e ouviu a confissão. Ivan Ilitch relaxou-se, sentiu


como que um atenuamento das suas duvidas e,
consequentemente, dos seus sofrimentos. Baixou sobre ele um
pequenino raio de esperança e entrou a pensar no ceco e nos
meios de curá-lo. Comungou com os olhos cheios de lágrimas.
(Tolstoi, 1992, p. ?).

Seja na religião ou na vida secular, é explicito que toda a concepção em torno


da vida diante da iminente morte é altamente valorizada, pois a convicção de
que a vida é detentora de reverencia continua, sobretudo sendo à base de toda
a ação moral do homem.

4
Cit. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
8

Mas há casos particulares em que a vida para muitos é apenas um


prolongamento da dor, exemplo disso são as discussões sobre a eutanásia e o
suicídio assistido de pacientes em coma profundo ou com prognóstico de
poucos meses de vida respectivamente. Os métodos de abreviação do tempo
de existência, sendo uma questão de escolha pessoal ainda são polêmicos no
Brasil e em várias partes do mundo, apesar de ser possível em alguns países.

Ainda é difícil contrapor o que é a vida versus a morte. E isso sempre existirá
como algo meramente estranho e fora do controle das nossas mãos, por isso
Willian Shakespeare em um de seus dramas históricos disse que diante do
findar da vida: “[...] que ninguém fale em consolo. Falemos de sepulcros,
vermes e epitáfios [...]” 5.

5
Cit. Shakespeare, Ricardo II (1957)
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Conclusão

A doença é o fio condutor da obra de Tolstói. É percebido que apesar da morte


aparecer presente como elemento decisivo e uma aparente solução ao
sofrimento sentido pelo personagem, o escritor critica como o exclusivismo das
pessoas ao lhe dar com o sofrimento alheio é gritante. A fenomenologia na
figura do personagem central é sem duvidas um dos motes para se
compreender que a patologia em si não seja o principal a se preocupar, mas as
interações, família, médico, amigos, paciente. E como todas essas interações
tornam-se um agravante ao perceber o seu contexto inserido.
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Referencias Bibliográficas

1. TOLSTOI, L. A morte de Ivan Ilitch. 2ª ed. São Paulo: Editora 34; 1992.
2. BAUMAN, Zygmunt, Medo Liquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001
3. HUXLEY, Aldous – Admirável Mundo Novo. – São Paulo: Abril Cultural,
1982.

4. PORFíRIO, Francisco. "Existencialismo em Sartre"; Brasil Escola.


Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/existencialismo-
sartre.htm. Acesso em 17 de novembro de 2019.
5. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel.
6. SHAKESPEARE, Willian. Ricardo III Trad./, 1957, cit. Felipe Fernandez
Lopes, Ideias que Mudaram o Mundo.