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A CENSURA E A HOMOSSEXUALIDADE

A censura é um fenômeno antigo no mundo ocidental. Das proibições de se dizer o


nome de Deus no Velho Testamento às formas institucionalizadas e modernas de
controle sobre os meios de comunicação, muito tempo já se perdeu discutindo-se o que
pode e o que não pode ser dito, mostrado, debatido ou, simplesmente, mencionado.

Segundo o historiador Alexandre Ayub Stephanou, autor do livro Censura no Regime


Militar e militarização das artes, a censura é "a ação de proibir, no todo ou em parte,
uma publicação ou encenação. Essa supressão deliberada altera o fluxo normal da
informação, destituindo de significado um determinado acontecimento". Dessa forma,
"ao retirar elementos, a censura anula o conjunto".

De maneira geral, a censura tem como objetivo a manutenção do "status quo". Ou seja,
qualquer elemento que posso colocar em risco o poder estabelecido é passível de
censura – ainda que esse risco seja, muitas vezes, apenas imaginação ou delírio daqueles
que exercem o poder em determinada época. Dessa forma, a socióloga Cristina Costa,
autora do livro A censura em cena, mostra como a censura adquiriu formas diferentes
conforme determinada configuração histórica. Nos países católicos, foi exercida pelos
agentes da Inquisição. Durante o Absolutismo europeu, visava a manutenção do
monarca no poder. Em tempos republicanos, tinha como objetivo preservar a língua e
salvaguardar a moral burguesa e o decoro. Em tempo de ditadura militar, primou pelo
combate ao comunismo. Os países socialistas, por sua vez, censuravam qualquer crítica
que questionasse as decisões tomadas em nome do "povo".

Mas o que os gays têm a ver com isso?

Sexualidade e liberdade de expressão

A homossexualidade é uma força revolucionária contra o heterossexismo e seus


derivados: o machismo e a homofobia. Assumir-se homossexual é uma forma de
expressar-se contra a dominação heterossexual, em especial a dos homens héteros sobre
qualquer forma que não esteja em conformidade à figura do macho-provedor. Ora,
manifestar-se contrário a esse padrão coloca em risco o poder exercido há séculos por
esse tipo de homem. É daí que surge o combate à homossexualidade ou a qualquer outro
"desvio", incluindo a travestilidade, a bissexualidade e as formas alternativas de sexo
como o grupal e o bizarro.

Assim, combater a censura é defender a liberdade de expressão, o que inclui a


possibilidade de se exercer – ou, ao menos, de se falar sobre – a homossexualidade ou
qualquer outra modalidade de orientação sexual ou identidade de gênero. Mas, é claro,
uma vez que a censura está intimamente ligada ao exercício de certas formas de poder,
não foi e não é fácil combatê-la. Aqui no Brasil, cuja Constituição de 1988 assegura a
liberdade de expressão em seu artigo 5º, a censura ainda persiste, ainda que de maneira
velada ou, pior, assimilada ao dia-a-dia de empresas e cidadãos. A censura exercida por
certos dirigentes de uma emissora de televisão que não aceita dois homens se beijando
em uma telenovela é um exemplo entre tantos outros que relegam a expressão da
sexualidade LGBT ao terreno do "proibido", "indecente" ou, no mínimo, "inadequado",
que pode "afastar anunciantes" e "chocar a opinião pública".
Em outras palavras, combater a censura é uma forma de colocar em telas os
preconceitos que motivaram o veto a determinadas expressões. Dessa forma, tornar
claros os contextos que geraram a proibição da homossexualidade em qualquer veículo
de comunicação, seja ele informativo, artístico ou de entretenimento, gera reflexões
sobre a diversidade sexual, a tolerância, o respeito e a democracia.

A censura, o corpo e o poder da palavra

Não há dúvidas de que as palavras têm poder. Com elas é possível alterar a realidade,
como quando assinaturas em uma certidão transformam duas pessoas em um casal. É
justamente o poder da palavra que é evocado pelos censores, ainda que de maneira
exacerbada. Ou seja, na lógica da censura, banir a palavra é uma maneira de se tentar
apagar a realidade, ou modificá-la, ou deixá-la mais aceitável para a manutenção do
status quo.

No caso do veto às expressões de homossexualidade, busca-se uma normatização


também do corpo. A modernidade, segundo Michel Foucault em Vigiar e punir, forma
"corpos dóceis", disciplinados e mantenedores da ordem vigente. Com isso, o que for
considerado supérfluo, desviante ou improdutivo é banido. Mas como negar o desejo
que ousou se expressar, que não se escondeu dentro do armário do preconceito?
Censurando-o.

Assim, a censura moral que por muito tempo afastou a homossexualidade das
expressões artísticas visava sobretudo manter a dominação masculina heterossexista.
Dos gays perseguidos pela Inquisição à proibição das peças de Plínio Marcos, tentou-se
manter compulsoriamente o corpo atado à ideologia heterocêntrica, às normas do
machismo. Se os primeiros gays da televisão brasileira não-censurados foram os mais
afeminados e cheios de trejeitos, afirmava-se por negação os padrões de dominação
masculina, já que a bicha louca era o outro, o "inferior", aquele que não soube "ser
homem" – e, portanto, sua imagem era liberada para servir de exemplo à educação dos
garotos.

Censura e laicidade do Estado

Tão antiga quanto o Deuteronômio, a censura foi parte da cultura ocidental que só
começou a ser questionada com o liberalismo. Foi com o surgimento da imprensa liberal
e com a Constituição dos Estados Unidos da América, no século XVIII, que idéias
contrárias ao cerceamento da liberdade de expressão começaram a ser discutidas. Dessa
forma, a Primeira Emenda da constituição americana diz que "O Congresso não
legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos
cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, ou o direito do povo de se
reunir pacificamente, e de dirigir ao Governo petições para a reparação de seus
agravos".

É interessante notar que a mesma emenda preconiza e defende o Estado laico (não
baseado em princípios religiosos), a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.
Ou seja, ao se promulgar a lei que balizaria as ações do país cujo cartão postal é,
justamente, a Estátua da Liberdade, defendia-se a laicidade e a censura conjuntamente.
Não quero com isso fazer apologia ao império norte-americano e nem defender suas
ações colonialistas. Destaco somente que os princípios fundadores do Estado americano
erigiram-se como modelo de liberdade de expressão em várias partes do mundo e que,
neste modelo, a censura é combatida juntamente com a dominação religiosa.

Essa associação não é casual. Em grande parte dos casos, a censura no Ocidente prende-
se a valores morais oriundos de concepções religiosas. Ainda hoje, os países que punem
a homossexualidade com pena de morte são movidos por convicções religiosas. Vê-se,
portanto, que a liberdade de expressão acompanha pari passu a laicidade do Estado.

Porém, a afinidade eletiva entre laicidade e liberdade de expressão não é regra geral.
Nos países do bloco socialista, apesar de laico, o Estado totalitário foi um dos mais
repressores em termos de censura. Vale lembrar os ainda recentes casos de perseguição
a autores homossexuais em Cuba, ilha onde até hoje os livros de Pedro Juan Gutiérrez e
Reinaldo Arenas são proibidos e onde, vítima da homofobia, morreu o poeta
homossexual Virgílio Piñera sem ver seus últimos trabalhos publicados.

Censura no Brasil

A censura atua no Brasil desde os tempos coloniais. No entanto, a repressão policialesca


dos espetáculos em nome da Monarquia, da religião, da metrópole, da língua, da família
e dos bons costumes havia adquirido no Império um tom mais intelectual, à medida que
se organizava o campo artístico e que se criavam instituições artísticas e culturais, a
partir do desenvolvimento de uma política cultural por parte do Estado. Instaurava-se
aí a nomeação de censores com certo verniz cultural. Foi assim que nomes como
Machado de Assis, Olavo Bilac e Di Cavalcanti tornaram-se censores.

Com a República e o desenvolvimento dos meios de comunicação, a censura se torna


mais rotineira, impessoal e burocratizada. Surge o conflito entre a Federação e os
Estados e entre órgãos estatais - educação, cultura, polícia e juizado de menores -
requerendo seus direitos ao controle das artes e das comunicações. E, embora se
sucedam leis e decretos, de uma maneira geral permaneceu inalterado o ritual da
censura referente ao teatro - apresentação de textos para censura prévia, presença da
censura nos ensaios gerais, censura de material impressos e de divulgação. O resultado
de tudo isso podia ser a liberação integral, a liberação para uma faixa etária do público,
cortes de diálogos que podiam ir de palavras a páginas, modificações em personagens e
situações ou proibição da obra.

Depois do veredicto, ainda era passível alguma negociação — os autores procuravam os


censores ou seus superiores para convencê-los da necessidade de manter a integridade
do texto. Nessa negociação mantinham-se alguns cortes e, se o autor ou diretor tivesse
sorte, prestígio, ou fosse bom argumentador, conseguia-se certa liberação para o texto e
certa autonomia para o autor. Esse ritual permaneceu desde a década de quarenta até
1964, quando teve início a ditadura militar. Os trâmites dos processos eram claramente
definidos. A partir de 1942, a censura implicava em um processo que era aberto junto ao
Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, por meio da Divisão de Diversões
Públicas, DDP, que por sua vez era diretamente subordinado ao Departamento de
Imprensa e Propaganda, do governo federal. Nessa época, começaram a ser
encadernados os documentos dos processos de censura prévia armazenados desde
1926. Após a Era Vargas, as DDPs passam a ser subordinados às Secretarias Estaduais
de Segurança Pública. O trabalho de arquivamento dos documentos é realizado até
1968, quando a censura foi federalizada, passando a ser responsabilidade da Polícia
Federal.

No período iniciado com o golpe militar de 1964, inicia-se uma nova fase na censura no
Brasil. Dada as novas demandas dos militares, que exigiam rigor na perseguição a
ideologias contrárias ao regime, a atuação inicial da censura é confusa e multifacetada,
atingindo principalmente a imprensa escrita e o rádio. Em 21 de novembro de 1968,
porém, é publicada a Lei nº 5.536, que, segundo Stephanou, "dispõe sobre a censura de
obras teatrais, cinematográficas, novelas televisivas e radiofônicas,representa o início de
uma maior racionalidade, organização e qualificação na atuação censória, estabelece
prazos, regulariza as categorias de classificação por faixa etária, exige curso superior
para a função de censor, explicita – pela primeira vez, em lei – que o censor é censor
(estabelece as denominações técnico em censura e censor federal) [...] e cria o Conselho
Superior de Censura". Esta lei vigora até a Constituição de 1988.

Examinado o caso de censura à homossexualidade, João Silvério Trevisan, no clássico


Devassos no Paraíso, afirma que esta já era condenada no Código Penal Republicano,
de 1890, que permitia a censura alegando que as relações entre pessoas do mesmo sexo
era "crime contra a segurança da honra e honestidade das famílias" e "ultraje público ao
pudor". Essa visão prevalece até o fim da censura de Estado, na década de 1980.
Durante o último período militar, usou-se a Lei de Imprensa, de 1967, para podar
veiculações consideradas obscenas. "Em seus artigos 12 e 17, essa lei impunha pena de
três meses a um ano de detenção e multa de uma a vinte salários mínimos para quem
divulgar na mídia fatos considerados atentatórios à moral pública e aos bons costumes.
Através dela é que o governo ditatorial passou a reprimir as primeiras veiculações
relacionadas com a luta dos direitos homossexuais no Brasil".

Com o fim da censura de Estado, impôs-se outra forma de coibir a liberdade de


expressão: a censura de mercado. É por meio dela que baseiam os executivos das
emissoras de televisão que decidem não colocar no ar um beijo gay. Ou que pedem a um
jornalista bastante conhecido que substitua em um programa de rádio carioca palavra
"gay" por "galera transada". O programa não chegou a ir ao ar porque o jornalista
preferiu ser leal aos seus princípios ao invés de camuflar seu vocabulário.

Controle social

Há quem defenda uma nova forma de censura, mas com boas intenções. São aqueles
que querem coibir a liberdade de expressão em nome do respeito à diferença, em
especial a favor de segmentos historicamente estigmatizados – incluindo os
homossexuais. Para isso, trocam a palavra censura pela expressão mais politicamente
correta "controle social".

De acordo com Cristina Costa, os riscos de se instalar mecanismos politicamente


legítimos de controle sobre as formas de expressão são grandes. "Ainda que haja boa
intenção, as pesquisas empíricas nos arquivos da censura revelam que há sempre um
alto grau de arbitrariedade nas decisões dos censores, o que compromete o processo".
Ainda segundo ela, a defesa da censura ou do controle social subestima a capacidade do
receptor de formar sua própria opinião e, caso se sinta incomodado, recusar-se a ter
contato com determinados conteúdos.

Neste filosofando, faltou falar sobre a auto-censura que muitos homossexuais impõem a
si mesmos por medo do preconceito que possam vir a sofrer. Mas este tema fica para
uma discussão futura.

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