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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA

NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
FILOSOFIA ANTIGA
PROVA AVALIATIVA
Acadêmic@:

1. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Prossigamos, pois, e vejamos, de início, qual é a acusação, de onde nasce a calúnia contra
mim, baseada na qual Meleto me moveu este processo. Ora bem, que diziam os caluniadores:
‘Sócrates come crime e perde a sua obra, investigando as coisas terrenas e as celestes, e
tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando isso aos outros’. Tal é, mais ou menos, a
acusação (...)”.
Conforme discutimos em aula, a obra Apologia de Sócrates apresenta uma série de pontos e
de intuições que justificam diretamente a consolidação da filosofia/teologia/ciência
institucionalizada enquanto a base a partir do qual a sociedade seria enquadrada, criticada e
reformulada, exatamente pelo fato de que a ciência institucionalizada permitiria a
fundamentação objetiva de valores epistemológico-morais, desvelando nossa natureza
humana mais fundamental. 1.1 Partindo dessa chave de leitura, qual a relação que pode ser
estabelecida entre três verbos-ações presentes na passagem acima, a saber, investigar, criticar
e ensinar?
1.2 Em que medida e como essa tríade define a construção, o sentido e a vocação da ciência?

2. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Na realidade, nada disso é verdadeiro, e, se tendes ouvido de alguém que instruo e ganho
dinheiro com isso, não é verdade. Embora, em realidade, isso me pareça bela coisa: que
alguém seja capaz de instruir os homens, como Górgias de Leontino, Pródico de Coo e Hípias
de Élide. Porquanto cada um desses, ó cidadãos, passando de cidade em cidade, é capaz de
persuadir os jovens, os quais poderiam conversar gratuitamente com todos os cidadãos que
quisessem; é capaz de persuadir a estar com eles, deixando as outras conversações,
compensando-os com dinheiro e proporcionando-lhes prazer.
Mas há aqui outro erudito de Paros, o qual eu soube que veio para junto de nós, porque
encontrei por acaso um que despendeu com os sofistas mais dinheiro que todos os outros
juntos, Cálias de Hipônico. Ele tem dois filhos e eu o interroguei: ‘Cálias, se os teus filhinhos
fossem poldrinhos ou bezerros, deveríamos escolher e pagar para eles um guardião, o qual os
deveria aperfeiçoar nas suas qualidades inerentes: seria uma pessoa que entendesse de cavalos
e de agricultura. Mas, como são homens, qual é o mestre que deves tomar para eles/ qual é o
que sabe ensinar tais virtudes, a humana e a civil? Creio bem que tens pensado nisso, uma vez
que tens dois filhos. Haverá alguém ou não?’. ‘Certamente’ – responde. E eu pergunto: ‘Quem
é, de onde e por quanto ensina?’. ‘Eveno’, respondeu, ‘de Paros, por cinco minas’. E eu
acreditaria Eveno muito feliz, se verdadeiramente possui essa arte e a ensina com tal garbo.
Mas o que é certo é que também eu me sentiria altivo e orgulhoso, se soubesse tais coisas;
entretanto, o fato é, cidadãos atenienses, que não sei”.

Ensinar a virtude humana e a virtude civil, para Sócrates, é coisa muito bela, certamente, no
caso dele, de Platão e de Aristóteles, a tarefa mais nobre de todas. Sobre isso, responda às
seguintes perguntas:
2.1 Por que o ensino da virtude humana e da virtude civil é o mais nobre, o mais importante
de todos?
2.2 Por que há uma ligação intrínseca entre virtude humana e virtude civil?
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2.3 Qualquer um e de qualquer modo pode ensiná-las? Se não, por quê?
2.4 Qual a função e a tarefa da ciência institucionalizada no ensino da virtude humana e da
virtude civil?

3. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates:


“Considerai bem a razão por que digo isso: estou para demonstrar-vos de onde nasceu a
calúnia. Em verdade, ouvindo isso, pensei: que queria dizer o deus e qual é o sentido de suas
palavras obscuras? Sem bem que não sou sábio, nem muito e nem pouco: o que quer dizer,
pois, afirmando que sou o mais sábio? Certamente não mente, não é possível. E fiquei por
muito tempo em dúvida sobre o que pudesse dizer; depois de grande fadiga, resolvi buscar a
significação do seguinte modo: fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de
refutar, por meio dele, sem dúvida, o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha reposta:
‘Este é mais sábio que eu, enquanto tu dizias que eu sou o mais sábio’. Examinando esse tal –
não importa o nome, mas era, cidadãos atenienses, um dos políticos, este de quem eu
experimentava essa impressão – e falando com ele, afigurou-se-me que esse homem parecia
sábio a muitos outros e principalmente a si mesmo, mas não era sábio. Procurei
imediatamente demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí me veio o ódio dele e de
muitos dos presentes. Então, pus-me a considerar de mim para mim que eu sou mais sábio do
que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas
aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada,
também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele nisso – ainda
que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que não sei. Depois desse, fui a outro daqueles
que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí
veio o ódio também deste e de muitos outros.
Depois prossegui sem mais me deter, embora vendo, amargurado e temeroso, que estava
incorrendo em ódio; mas também me parecia dever fazer mais caso da resposta do deus. Para
procurar, pois, o que queria dizer o oráculo, eu devia ir a todos aqueles que diziam saber
qualquer coisa. E então, cidadãos atenienses, já que é preciso dizer a verdade, pareceu-me que
os mais estimados eram quase privados do melhor e que, ao contrário, os outros, reputados
ineptos, eram homens mais capazes quanto à sabedoria”.
Conforme temos estudado em nossas aulas de filosofia antiga, a institucionalização da
filosofia/teologia/ciência, o que significa também a institucionalização da produção do
conhecimento e da fundamentação da ação, implicam, entre outras coisas, na desconstrução
da autoridade própria à tradição e ao costume (no sentido de que estes possuem uma falsa
sabedoria), bem como na recusa do status quo justificado pela tradição, pelo costume e pelo
sangue. Nesse sentido, responda às seguintes perguntas:
3.1 O confronto entre ciência institucionalizada e tradição-costume leva a qual resultado, em
termos científicos?
3.2 Em que sentido o costume e a tradição não são fonte de saber e nem de legitimação do
poder, desde a perspectiva científica?
3.3 Como conseqüência, qual é a postura da ciência institucionalizada em relação ao costume
e à tradição?
3.4 O status quo e a legitimação do poder, uma vez que a ciência institucionalizada nega o
costume e a tradição como bases normativas deles, precisam ser fundados em quê?
3.5 A sabedoria é um dom natural ou que é conferido diretamente pelo lugar de nascimento,
com o sangue, com a posição social e cultural? Se não, como ela é possível de ser
conquistada?
3.6 Por fim, qual é a conseqüência da destruição, por parte da ciência institucionalizada, do
poder e do status quo baseados na autoridade e no costume?

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3.7 É possível refundá-los, reconstruí-los de outro modo? A ciência institucionalizada pode
fazer isso?

4. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Em realidade, cidadãos atenienses, para demonstrar que não sou réu, segundo a acusação de
Meleto, não me parece ser necessária longa defesa, mas isso basta. Aquilo, pois, que eu dizia
no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade. E
isso é o que me vai perder, se eu me perder... e não Meleto, ou Anito, mas a calúnia e a insídia
do povo: pela mesma razão se perderam muitos outros homens virtuosos, e outros ainda,
creio, serão perdidos; não há perigo que a série se feche comigo. Mas talvez pudesse alguém
dizer: ‘Não te envergonhas, Sócrates, de te aplicardes a tais ocupações, pelas quais agora estás
arriscado a morrer? A isso porei justo raciocínio, e é o seguinte: não estas falando bem, meu
caso, se acreditas que um homem, de qualquer utilidade, por menor que seja, deve fazer caso
dos riscos de viver ou morrer e, ao contrário, só deve considerar uma coisa: quando fizer o
que quer que se já, deve considerar se faz coisa justa ou injusta, se está agindo como homem
virtuoso ou desonesto.
(...)
Mas fazer injustiça, desobedecer a quem é melhor e sabe mais do que nós, seja deus, seja
homem, isso é que é mal e vergonha.
(...)
Mas, se me absolvêsseis, não cedendo a Anito, se me disésseis: ‘Sócrates, agora não damos
crédito a Anito, mas te absolvemos, contanto que não te ocupes mais dessas tais pesquisas e
de filosofar, porque, se fores apanhado ainda a fazer isso, morrerás’; se, pois, me absolvêsseis
sob tal condição, eu vos diria: ‘Cidadãos atenienses, eu vos respeito e vos amo, mas
obedecerei aos deuses, em vez de obedecer a vós, e, enquanto eu respirar e estiver na posse de
minhas faculdades, não deixarei de filosofar e de vos exortar ou de instruir cada um, quem
quer que seja que vier à minha presença, dizendo-lhe, como é meu costume: ótimo homem, tu
que és cidadão de Atenas, da cidade maior e mais famosa pelo saber e pelo poder, não te
envergonhas de fazer caso das riquezas para guardares quanto mais puderes, e da glória e das
honrarias, e depois não fazer caso e nada te importares da sabedoria, da verdade e da alma,
para tê-las cada vez melhor?’”.
(...)
Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem
exclusivamente e nem tão ardentemente com o corpo e com as riquezas, como devem
preocupar-se com a alma, para que ela seja quanto possível melhor; e vou dizendo que a
virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vêm, aos homens, as riquezas e todos os outros
bens, tanto público quanto privados”.

O que caracteriza e torna premente a institucionalização da ciência, o que lhe dinamiza todo o
trabalho, o que lhe dá legitimidade em seu trabalho epistemológico e mesmo poder político-
educacional, é a determinação de uma noção de natureza humana, bem como a reconstrução
de seu processo formativo. A partir disso, responda às seguintes perguntas:
4.1 Por que a ênfase excessiva ao corpo e às riquezas impedem o desenvolvimento da virtude?
4.2 Por que, como conseqüência, o amor excessivo ao corpo e às riquezas desvia nossa
atenção do cuidado com a alma?
4.3 Por que a alma é, para Sócrates (e depois para Platão e Aristóteles) o modelo de natureza
humana a partir do qual a ciência institucionalizada adquire sentido e dinâmica?
4.4 Como a alma permite a objetividade epistemológico-moral e, a partir daqui, a orientação
das instituições políticas e educacionais?

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4.5 Em que sentido o cuidado com a alma permite a construção e a consecução de todos os
bens públicos e privados?
4.6 Em que sentido, portanto, a riqueza não traz nenhuma virtude e não legitima qualquer
forma de poder?
4.7 Se não é a riqueza que os legitima e os gera, o que, então, no lugar dela fundamenta a
virtude e a legitima?

5. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates:


“É possível que vós, irritados como aqueles que são despertados no melhor do sono,
repelindo-me para condescender com Anito, levianamente me condeneis à morte para
dormirdes o resto da vida, se, entretanto, o deus, pensando em vós, não vos mandar algum
outro”.

A partir dessa passagem, responda às seguintes perguntas:


5.1 O que significa dormir o resto da vida?
5.2 Em que medida a ciência permite acordar aqueles que dormem durante toda a vida?
5.3 Por que e como a ciência institucionalizada tem condições de fazer isso?

6. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Ora, é isso que me impede de me ocupar dos negócios do Estado. E até me parece que muito
a propósito mo impede, porquanto, sabei-o bem, cidadãos atenienses, se eu, há muito tempo,
tivesse empreendido ocupar-me dos negócios do Estado, há muito tempo já estaria morto, e
não teria sido útil em nada, nem a vós, nem a mim mesmo.
E não vos encolerizeis comigo, porque digo a verdade; não há nenhum homem que se salve,
se quer opor-se com franqueza, a vós ou a qualquer outro povo, e impedir que muitos atos
contrários á justiça e às leis se pratiquem na cidade. E não há outro caminho: quem combate
verdadeiramente pelo que é justo, se quer ser salvo por algum tempo, deve viver a vida
privada, nunca meter-se nos negócios públicos”.

6.1 Uma das características fundamentais da auto-compreensão normativa da ciência


institucionalizada, tal como nos foi legada por Sócrates e por Platão, é a contraposição entre a
ciência e o senso comum, entre o cientista e o homem comum.
6.2 Nessa auto-compreensão, como o senso comum e o homem comum são concebidos?
6.3 O senso comum é fonte de saber?
6.4 O homem comum é fonte de justiça?
6.5 Somente a ciência permite a produção de conhecimento objetivo, ou o senso comum
também tem papel fundamental? Por quê?
6.6 Da mesma forma, somente o cientista possui esclarecimento epistemológico e, assim,
capacidade de ação política reflexiva? Por quê?
6.7 Finalmente, por que o senso comum é avesso à ciência, e por que o homem comum é
inimigo do cientista?

7. Considere a seguinte passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Se, ao contrário, digo que o maior bem para um homem é justamente este, falar todos os dias
sobre a virtude e os outros argumentos sobre os quais me ouvistes racionar, examinando a
mim mesmo e aos outros, e que uma vida sem esse exame não é uma vida digna de ser vivida,
ainda menos me acreditaríeis, ouvindo-me dizer tais coisas. Entretanto, é assim como digo, ó
cidadãos atenienses, mas não é fácil torná-lo persuasivo”.

A partir disso, responda às seguintes questões:


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7.1 O que significa uma vida reflexiva?
7.2 Por que uma vida sem reflexividade não é digna de ser vivida?
7.3 Como a ciência pode ajudar no desenvolvimento de uma postura reflexiva, individual e
socialmente?
7.4 O senso comum permite essa reflexividade?

8. Por fim, considere mais esta passagem da Apologia de Sócrates, de Platão:


“Mas, ó cidadãos, talvez o difícil não seja isso: fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da
maldade, que corre mais veloz que a morte”.

8.1 Por que é difícil ser virtuoso?


8.2 Como se alcança a virtude?
8.3 Como a ciência pode ajudar-nos a alcançá-la?

9. Considere a seguinte passagem do Livro VII, d’A República, de Platão:


“- Depois disso – prossegui eu – imagina a nossa natureza humana, relativamente à educação
ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa
habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se
estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de
pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em
frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um
fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os
prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no
gênero dos tapumes que os homens dos ‘robertos’ colocam diante do público, para mostrarem
as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver – disse ele.
- Visiona também, ao longo deste muro, homens que transportam toda espécie de objetos, que
o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de
lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
- Semelhantes a nós – continuei. – Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles
tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na
parede oposta da caverna?
- Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
- E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
- Sem dúvida.
- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles
julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes
falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que
passava?
- Por Zeus que sim!
- De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse
senão a sombra dos objetos.
- É absolutamente forçoso – disse ele” (514a-515c, p. 315-316).

Esta passagem do Livro VII d’A República de Platão contem o Mito da Caverna, famoso
entre outras coisas, conforme estamos estudando em nossa disciplina de filosofia antiga, pelo
fato de estilizar a auto-compreensão da ciência ocidental, no duplo ponto que estudamos em
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nossa disciplina, a saber: a institucionalização da construção-fundamentação do
conhecimento, da objetividade epistemológico-moral; e a correlação entre ciência
institucionalizada, instituições políticas e instituições educacionais, desde a legitimação e a
reconstrução de um modelo de natureza humana enquanto a atividade fundamental da ciência
institucionalizada. Sobre isso, responda às seguintes questões:
9.1 O que significa a afirmação platônica que a nossa natureza humana somente pode ser
pensada a partir da presença ou da falta da educação em nossa vida individual e social?
9.2 O que a educação tem e possibilita de tão importante no que tange à formação de nossa
natureza humana?
9.3 Significa a posição platônica que nós não nascemos prontos, que nossa formação não nos
é dada pelo nosso nascimento, pela nossa, por assim dizer, condição natural?
9.4 A caverna e os prisioneiros dessa caverna são metáforas que indicam, que se referem a
quem?
9.5 A institucionalização da ciência pressupõe um duplo movimento. Qual? Explique-o.
9.6 Como se dá a relação entre ciência, política e educação desde a perspectiva instituída no
mito da caverna?
9.7 Platão faz uso de uma noção de natureza humana? Como ela é constituída? Como ela se
forma efetivamente?

10. Considere a seguinte passagem do Livro VII, d’A República, de Platão:


“- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar,
olharia mais facilmente para as sombras, depois disso para as imagens dos homens e dos
outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então,
seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz
das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
- Pois não!
- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem
na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
- Necessariamente.
- Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo
dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
- É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos
seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e
deploraria os outros?
- Com certeza.
- E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para o que distinguisse
com mais agudeza os objetos que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam
passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre
eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou
inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos
sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo ‘servir junto de um homem pobre,
como servo da gleba’, e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele
modo?
- suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela
maneira” (516a-d, p. 317-318).

Sobre essa passagem, responda às seguintes perguntas:


10.1 Como se dá o processo do conhecimento? O conhecimento é ascensão e depuração do
quê?
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10.2 Uma vez tendo desenvolvido uma visão científica de mundo, uma vez que tenha
alcançado o mundo inteligível, o filósofo já não consegue mais se acostumar com dinâmica de
vida do senso comum e das pessoas comuns. Por quê?
10.3 Ainda assim, ele deve voltar à caverna? Para quê? Por quê?

11. Considere a seguinte passagem do Livro VII, d’A República, de Platão:


“E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado
sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o
tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por
ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a
quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o
matariam?
- Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
- Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto
dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e
a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do
que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a
minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois,
segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma
vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no
mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a
senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida
particular e pública.
- Concordo também até onde sou capaz de seguir a tua imagem” (517a-c, p. 319).

A partir disso, responda às seguintes perguntas:


11.1 O conflito entre ciência e senso comum, entre filósofo e homem comum instaura uma
tensão no desenvolvimento da ciência ocidental que marca de maneira indelével a
autocompreensão da ciência e sua relação com o senso comum. Como, no caso do mito da
Caverna de Platão, essa tensão é resolvida?
11.2 A institucionalização da ciência favorece à comunidade dos cientistas ou ao senso
comum? A objetividade epistemológico-moral favorece às crenças e aos valores do senso
comum?
11.3 A ideia do bem, por outras palavras, a objetividade epistemológico-moral, é a condição
para a justiça na sociedade e no indivíduo. Por quê? Explique?

12. Considere a seguinte passagem do Livro VII, d’A República, de Platão:


“- Ora pois! Entendes que será caso para admirar, se quem descer destas coisas divinas às
humanas fizer gestos disparatados e parecer muito ridículo, porque está ofuscado e ainda não
se habituou suficientemente às trevas ambientes, e foi forçado a contender, em tribunais ou
noutros lugares, acerca das sombras do justo ou das imagens das sombras, e a disputar sobre o
assunto, sobre o que supõe ser a própria justiça quem jamais a viu?
- Não é nada de admirar.
- Mas quem fosse inteligente – redargui – lembrar-se-ia de que as perturbações visuais são
duplas, e por dupla causa, da passagem da luz à sombra, e da sombra à luz. Se compreendesse
que o mesmo se passa com a alma, quando visse alguma perturbada e incapaz de ver, não riria
sem razão, mas reparava se ela não estaria antes ofuscada por falta de hábito, por vir de uma
vida mais luminosa, ou se, por vir de uma maior ignorância a uma luz mais brilhante, não
estaria deslumbrada por reflexos demasiadamente refulgentes; à primeira, deveria felicitar

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pelas suas condições e pelo seu gênero de vida; da segunda, ter compaixão e, se quisesse
troçar dela, seria menos risível essa zombaria do que se se aplicasse àquele que descia do
mundo luminoso.
- Falas com exatidão.
- Temos então – continuei eu – de pensar o seguinte sobre esta matéria, se é verdade o que
dissemos; a educação não é o que alguns apregoam que ela é. Dizem eles que introduzem a
ciência numa alma em que ela não existe, como se introduzissem a vista em olhos cegos.
- Dizem, realmente.
- A presente discussão indica a existência dessa faculdade na alma e de um órgão pelo qual
aprende; como um olho que não fosse possível voltar das trevas para a luz, senão juntamente
com todo o corpo, do mesmo modo esse órgão deve ser desviado, juntamente com a alma
toda, das coisas que se alteram, até ser capaz de suportar a contemplação do Ser e da parte
mais brilhante do Ser. A isso chamamos o bem. Ou não?
- Chamamos.
- A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de
fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele
não está na posição correta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso.
- Acho que sim.
- Por conseguinte, as outras qualidades chamadas da alma podem muito bem aproximar-se das
do corpo; com efeito, se não existiram previamente, podem criar-se depois pelo hábito e pela
prática. Mas a faculdade de pensar é, ao que parece, de um caráter mais divino, do que tudo o
mais; nunca perde a força e, conforme a volta que lhe derem, pode tornar-se vantajosa e útil,
ou inútil e prejudicial. Ou ainda não te apercebeste como a deplorável alma dos chamados
perversos, mas que na verdade são espertos, tem um olhar penetrante e distingue claramente
os objetos para os quais se volta, uma vez que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar
ao serviço do mal, de maneira que, quanto mais aguda for a sua visão, maior é o mal que
pratica?
- Absolutamente.
- Contudo, se desde a infância se operasse logo uma alma com tal natureza, cortando essa
espécie de pesos de chumbo, que são da família do mutável e que, pela sua inclinação para a
comida e prazer similares e gulodices, voltam a vista da alma para baixo; se, liberta desses
pesos, se voltasse para a verdade, também ela a veria nesses mesmos homens, com a maior
clareza, tal como agora vê aquilo para que está voltada.
- É natural” (517d-519b, p. 320-322).

A partir dessa passagem, responda às seguintes perguntas:


12.1 De qual faculdade da alma está falando Platão?
12.2 O que significa a educação enquanto reorientação do olhar? O que necessitamos ver?
O que o senso comum nos formata para ver?
12.3 Para Platão, o tipo de educação que temos define o tipo de caráter que teremos.
Como? Por quê?
12.4 Isso significa, mais uma vez, que nossa natureza humana não nos é dada de antemão,
senão que é resultado de um longo processo de formação? Qual o papel da ciência,
na formação humana, na construção de nossa natureza humana?
12.5 Por que é importante a oferta, por parte das instituições públicas, de educação
integral (corpo e alma) e universal (para todos, homens e mulheres)?
12.6 É a partir da educação que, segundo Platão, a estratificação social e o acesso ao poder
político seria viabilizado, legitimado? Por quê?
12.7 O que significa a educação do corpo e da alma, de acordo com o mito da caverna de
Platão?
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13. Considere a seguinte passagem do Livro VII, d’A República, de Platão:
“- É nossa função, portanto, forçar os habitantes mais bem dotados a voltar-se para a ciência
que anteriormente dissemos ser a maior, a ver o bem e a empreender aquela ascensão e, uma
vez que a tenham realizado e contemplado suficientemente o bem, não lhes autorizar o que
agora é autorizado.
- O quê?
- Permanecer lá e não querer descer novamente para junto daqueles prisioneiros nem partilhar
dos trabalhos e honrarias que entre eles existem, quem sejam modestos, quer elevados.
- Quê? Vamos cometer contra eles a injustiça de os fazer levar uma vida inferior, quando lhes
era possível ter uma melhor?
- Esqueceste-te novamente, meu amigo, que à lei não importa que uma classe qualquer da
cidade passe excepcionalmente bem, mas procura que isso aconteça à totalidade dos cidadãos,
harmonizando-os pela persuasão ou pela coação, e fazendo com que partilhem uns com os
outros do auxílio que cada um deles possa prestar à comunidade; ao criar homens destes na
cidade, a lei não o faz para deixar que cada um se volte para a atividade que lhe aprouver, mas
para tirar partido dele para a união da cidade.
- É verdade, tinha-me esquecido, realmente.
- Repara ainda, ó Gláucon, que não causaremos prejuízo aos filósofos que tiverem aparecido
entre nós, mas teremos boas razões para lhes apresentar, por os forçamos a cuidar dos outros e
a guardá-los. Diremos, pois, que às pessoas da mesma espécie nascidas noutras cidades é
natural que não tomem parte nas suas dificuldades; efetivamente, fizeram-se por si mesmas, a
despeito da respectiva constituição política; e tem razão, quem se formou por si e não deve a
alimentação a ninguém, em não ter empenho em pagar o sustento a quem quer que seja. Mas a
vós, nós formamos-vos, para o vosso bem e do resto da cidade, para serdes como os chefes e
os reis dos enxames de abelhas, depois de vos termos dado uma educação melhor e mais
completa do que a deles, e de vos tornarmos mais capazes de tomar parte em ambas as
atividades. Deve, portanto, cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e
habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores
do que os que lá estão e reconhecereis cada imagem, o que ela é e o que representa, devido a
terdes contemplado a verdade relativa ao belo, ao justo e ao bom. E assim teremos uma cidade
para nós e para vós, que é uma realidade, e não um sonho, como atualmente sucede na
maioria delas, onde combatem por sombras uns com os outros e disputam o poder, como se
ele fosse um grande bem. Mas a verdade é esta: na cidade em que os que têm de governar são
os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso que seja a melhor e mais
pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o poder fazem o inverso,
sucederá o contrário” (519d-520d, p. 322-324)

A partir dessa passagem, responda às seguintes perguntas:


13.1 Por que o estadista deve ser educado, formado cientificamente para exercer sua
função?
13.2 Por que as instituições políticas devem buscar a formação de estadistas?
13.3 De que modo a política permite a harmonia entre os diferentes indivíduos e grupos
sociais? E ela faria isso por meio da educação? Como?
13.4 Por que os filósofos não têm interesse em governar?
13.5 Em que sentido isso lhes torna os melhores governantes dentre todos?
13.6 E os cientistas governam com base em que?

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