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GOLPE DE ESTADO 545

vias aquáticas controla a política mundial. O papel que II. A MUDANÇA DOS ATORES. — A expressão coup
teve em outros tempos a Grã-Bretanha pode hoje ser d'État ganhou, sem dúvida alguma, direito de
desempenhado também pelos Estados Unidos, que cidadania na literatura francesa, tanto que Gabriel
gozam de uma posição semelhante. J. Spykman retoma Naudé escrevia, já em 1639, as suas Considérations
também a teoria de Mackinder e declara que os politiques sur le coup d'État. Para Naudé, o Golpe de
Estados Unidos podem intervir no "ciclo" que o Estado tem as mais variadas acepções e chega até a
geógrafo inglês indicou, subvertendo-o. Os confundir-se com a "razão de Estado". Dessa forma,
governantes americanos certamente compreendem que Golpe de Estado foi a decisão de Catarina del Medici
a segurança do seu país está em impedir que as "ilhas de eliminar os huguenotes na noite de São Bartolomeu,
circunstantes" e as rimlands caiam sob o controle das e também a proibição do imperador Tibério à sua
Grandes Potências da heartland, já que, de outra forma, cunhada viúva de contrair novas núpcias, para evitar o
a América ficará completamente sitiada, como perigo de que os eventuais filhos dela pudessem
sustentou Mackinder. disputar a sucessão imperial com seus próprios filhos.
A Geopolítica como estudo do determinismo do Entretanto, os múltiplos exemplos citados por Naudé
ambiente físico sobre a política dos Estados está hoje sob o nome de Golpe de Estado têm em comum o
completamente desaparecida. Após vários anos de serem um ato levado a cabo pelo soberano para
recusa de foros de cidadania entre as ciências sociais, reforçar o próprio poder. Esta decisão é geralmente
por fim, o estudo dos fatores geográficos voltou a ser tomada de surpresa, para evitar reações por parte
visto em sua relação com os fenômenos políticos. A daqueles que deverão sofrer as conseqüências (e neste
análise das relações internacionais do último decênio sentido a condenação à viuvez perpétua da pobre
dirigiu novamente a sua atenção para variáveis como cunhada do imperador era menos um Golpe de Estado
ambiente físico, distância, recursos, etc, que hoje, pordo que a sanguinolenta determinação de Catarina del
toda parte, são chamadas de variáveis ecológicas ou de Mediei).
ambiente não-humano. H. e M. Sprouts, em Towards O termo foi-se precisando paulatinamente, sobretudo
a politics of the planet Earth (Van Nostrand, Reynold, com o advento do constitucionalismo: durante a
New York, 1972), são os líderes desta aproximação vigência deste, faz-se referência às mudanças no
global com o estudo da política internacional que tem Governo feitas na base da violação da Constituição
estreitas relações com a análise sistêmica. É sobretudo legal do Estado, normalmente de forma violenta, por
mediante os conceitos e as proposições analíticas do parte dos próprios detentores do poder político. O
paradigma sistêmico que, na verdade, os fatores Dicionário Larousse consagra a tradição francesa do
geográficos podem ser inseridos num exame global da termo definindo o Golpe de Estado como uma
sociedade do "planeta Terra". violation déliberée des formes constitutionelles par un
government, une assemblée ou un groupe de personnes
(FULVIO ATTINÀ] qui détiennent l'autorité. Neste sentido, o Golpe de
Estado por antonomásia foi o que Luís Bonaparte
realizou em 1851, quando deu um golpe de graça na
11 República de que era presidente, conseguindo
Golpe de Estado. proclamar-se o novo Imperador da França.
Tomando como objeto de pesquisa os anos recentes,
I. A EVOLUÇÃO DO SIGNIFICADO. — O significado da achamo-nos frente a uma verdadeira proliferação de
expressão Golpe de Estado mudou no tempo. O golpes, embora com características bem diferentes. Na
fenômeno em nossos dias manifesta notáveis verdade, no início dos anos 70, mais de metade dos
diferenças em relação ao que, com a mesma palavra, países do mundo tinha Governos saídos de Golpes de
se fazia referência três séculos atrás. As diferenças Estado e o Golpe de Estado, por conseguinte, tornou-
vão, desde a mudança substancial dos atores (quem o se mais habitual como método de sucessão
faz), até a própria forma do ato (como se faz). Apenas governamental do que as eleições e a sucessão
um elemento se manteve invariável, apresentando-se monárquica. Mas os atores do Golpe de Estado
como o traço de união (trait d'union) entre estas mudaram. Na maioria dos casos, quem toma o poder
diversas configurações: o Golpe de Estado é um ato político através de Golpe de Estado são os titulares de
realizado por órgãos do próprio Estado. Uma breve um dos setores-chaves da burocracia estatal: os chefes
síntese histórica esclarecerá melhor as citadas militares. O golpe militar ou pronunciamento,
diferenças quanto à permanência deste último segundo palavra cunhada pela tradição espanhola,
elemento. tornou-se, assim, a forma mais freqüente do Golpe de
Estado.
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Através deste itinerário, de Naudé aos nossos dias, guerra revolucionária), ou que se consiga a
o elemento decisivo para caracterizar o fenômeno participação de um setor-chave dessas forças no Golpe
acha-se na resposta à pergunta: quem o faz? No de Estado que se imponha aos restantes setores. A
primeiro caso, o soberano; no segundo, o titular ou os terceira possibilidade seria uma eventual neutralização
titulares do poder político legal; no terceiro, um setor das forças armadas por ocasião do evento e que na
de funcionários públicos, ou seja, os militares (cuja realidade implicaria num apoio passivo ao Golpe de
fatia de poder, de fato, vai, desde a importante Estado.
influência que exercem em certos países, até o papel Nesta ordem de idéias, para Edward Luttwak, autor
de verdadeira tutela ou ocupação interna, em outros). de um dos mais modernos tratados sobre o assunto, o
Golpe de Estado consistiria na "infiltração dentro de
III. MODALIDADES DO GOLPE DE ESTADO. — Como um setor limitado, mas crítico, do aparelho estatal e na
se faz um Golpe de Estado? Diferentemente da utilização dela para privar o Governo do controle dos
guerrilha e da guerra revolucionária, cuja primeira demais setores". Esta caracterização, todavia, é
finalidade é desgastar até ao aniquilamento ou derrota abstrata e entre outras coisas não é rigorosamente
as forças armadas ou policiais a serviço do Estado, o verdadeira. Apesar do próprio Luttwak sublinhar que
Golpe de Estado é executado não apenas através de hoje o Golpe de Estado se faz basicamente utilizando
funcionários do Estado, como vimos no parágrafo setores-chaves do sistema — empregados estatais de
precedente, mas mobiliza até elementos que fazem carreira, forças armadas e polícia —, sua tese de que
parte do aparelho estatal. Esta característica diferencia bastaria a infiltração num destes setores críticos,
o Golpe de Estado, igualmente, da sublevação mesmo que seja da parte de um pequeno grupo não
entendida como insurreição não organizada, que tem militar, não é confirmada pelos exemplos mais
escassas ou nenhuma probabilidade de triunfar na modernos. Antes de tudo, não existem Golpes de
tentativa de derrubar a autoridade política do Estado Estado baseados apenas na burocracia ou na polícia, se
moderno. Curzio Malaparte já colocara em destaque em excetuarmos pequenos Estados, onde a polícia é a
1931, em seu livro Tecnica del copo di Stato, que única força armada. Além disso, a existência de
atacar as sedes do Parlamento ou dos ministérios nos aperfeiçoadíssimos serviços de informação em cada um
dias de hoje é uma ingenuidade. Embora isso possa ser dos setores das forças armadas, o rígido controle que
considerado um objetivo final, mais do que simbólico, elas exercem sobre oficiais, tanto da própria como das
o primeiro objetivo, para coroar de êxito o Golpe de demais armas, implica que a mera infiltração de um
Estado, é ocupar e controlar os centros de poder grupo não militar não é suficiente para influenciar um
tecnológico do Estado, tais como as redes de grupo de oficiais. Hoje não existe Golpe de Estado sem
telecomunicações, o rádio, a TV, as centrais elétricas, a participação ativa de pelo menos um grupo militar ou
os entroncamentos ferroviários e rodoviários. Isso da neutralidade-cumplicidade de todas as forças
permitirá o controle dos órgãos do poder político. É armadas.
esta característica indiscutível do Golpe de Estado que
Na grande maioria dos casos, o Golpe de Estado
nos coloca diante da pergunta: quais podem ser
moderno consiste em apoderar-se, por parte de um
possíveis protagonistas do fenômeno hoje em dia?
grupo de militares ou das forças armadas em seu
conjunto, dos órgãos e das atribuições do poder
IV. GOLPE DE ESTADO E GOLPE MILITAR. — A político, mediante uma ação repentina, que tenha uma
complexidade do aparelho tecnológico do Estado certa margem de surpresa e reduza, de maneira geral,
moderno é fonte, tanto da sua força, como da sua a violência intrínseca do ato com o mínimo emprego
eventual fragilidade. Para além dos técnicos possível de violência física.
encarregados em assegurar o funcionamento e a
vigilância desses entroncamentos estratégicos, o Estado V. DISTINÇÃO ENTRE GOLPE DE ESTADO E REVOLUÇÃO.
prevê a manutenção da prestação destes serviços, INDICADORES EMPÍRICOS DO FENÔMENO. — Até agora
mesmo perante a chamada insurreição ou guerra caracterizamos o Golpe de Estado sem fazermos
interna. Esta tarefa é geralmente atribuída às forças distinção entre Golpe de Estado e revolução. A
armadas e às forças policiais. Dado que o primeiro propósito deste problema, porém, gira a maior parte
objetivo da estratégia do Golpe de Estado é a conquista dos estudos feitos sobre o assunto. Parte-se da
dos centros tecnológicos do aparelho estatal, para caracterização da revolução como processo que
alcançar o intento é necessário, ou que aquelas forças instaura um novo ordenamento político e jurídico, e
sejam neutralizadas (o que implicaria num prévio contrapõe-se a mesma ao Golpe de Estado que só
desgaste das mesmas através de uma luta de guerrilha realiza mudanças de menor porte. É por isso que o
ou de golpe de Estado é
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entendido por certos autores como uma "revolução Nesta base, podemos identificar indicadores como
menor". Este tipo de conceituação foi herdado da estes:
teoria jurídica, mas neste foro o problema não tem
1) Na tradição histórica, o Golpe de Estado é um
solução. Kelsen já demonstrou na Teoria geral do
ato efetuado por órgãos do Estado. Em suas
direito e do Estado como o próprio Golpe de Estado
manifestações atuais, o Golpe de Estado, na maioria
instaura sempre um novo ordenamento jurídico, dado
dos casos, é levado a cabo por um grupo militar ou
que a violação da legalidade do ordenamento
pelas forças armadas como um todo. Num caso
precedente implica também na mudança da sua norma
contrário, a atitude das forças armadas é de
fundamental e, por conseguinte, na invalidação de
neutralidade-cumplicidade.
todas as leis e disposições emanadas em nome dela.
Por outras palavras, o Golpe de Estado implica na 2) As conseqüências mais habituais do Golpe de
instauração de um novo poder de fato, que imporá por Estado consistem na simples mudança da liderança
sua vez a legalidade. Este poder de fato poderá política.
também, se assim quiser, convalidar todas as leis e 3) O Golpe de Estado pode ser acompanhado e/ou
providências resultantes do ordenamento anterior, mas seguido de mobilização política e/ou social, embora
o ordenamento jurídico deverá considerar-se novo por isso não seja um elemento normal ou necessário do
ter mudado o motivo de validade. E é por estas razões próprio golpe.
que, segundo o direito internacional, o Governo criado
por um Golpe de Estado tem de pedir um novo 4) Habitualmente, o Golpe de Estado é seguido do
reconhecimento dos outros Estados. reforço da máquina burocrática e policial do Estado.
Com isto não se pretende dizer que o Golpe de 5) Uma das conseqüências mais típicas do
Estado produz modificações substanciais nas relações fenômeno acontece nas formas de agregação da
políticas, econômicas e sociais (a experiência histórica instância política, já que é característica normal a
mostra até o contrário), mas tão-somente que em seu eliminação ou a dissolução dos partidos políticos.
aspecto jurídico não há diferença entre Golpe de
Estado e revolução. Partindo deste dado, certos
estudiosos caracterizaram o Golpe de Estado como BIBLIOGRAFIA. - C. BARBÉ, Colpo di Stato, in
uma "revolução no campo do direito e não no campo Política e società, vol. I, La Nuova Italia, Firenze
da política", uma definição que não oferece princípios 1979; E. N. LUTTWAK, Tecnica del colpo di Stato
operacionais para ulteriores aprofundamentos. (1968), Longanesi, Milano 1969; C. NAUDÉ,
Para evitar o beco sem saída a que conduzem as Considerazioni politiche sui colpi di Stato (1639),
exposições de tipo jurídico e a polêmica sobre se o Boringhieri, Torino 1958; D. C. RAPOPORT, Coup (1'État
Golpe de Estado — que é tradicionalmente um the view of the men firing pistols. in Revolution. ao
método da direita para conquista do poder político — cuidado de C. J. FRIEDRICH, Alberton Press. New York
pode também provocar um processo em sentido 1967.
contrário, uma parte dos doutrinadores prefere definir
o Golpe de Estado como politicamente neutro e (CARLOS BARBÉ)
sustentar que, se o Golpe de Estado for pelo menos o
primeiro passo de um processo revolucionário (quanto
aos fins últimos, sociais e econômicos), isso dirá Governabilidade.
respeito às ações futuras daqueles que conquistam o
poder. Em si mesmo, o Golpe de Estado constituiria I. DEFINIÇÃO. — O termo mais usado atualmente
pura e simplesmente um método para conquistar o seria o oposto, ou seja, não-Governabilidade. A
poder, sem conotações políticas ou sócio-econômicas. palavra, carregada de implicações pessimistas (crise
Esta definição está ligada ao estudo da configuração de Governabilidade) e, freqüentemente,
do Golpe de Estado sem indagar as conseqüências conservadoras, presta-se a múltiplas interpretações.
dele sobre o sistema político ou sobre outros sistemas Em particular, a distinção mais clara é daqueles que
sociais. atribuem a crise de Governabilidade à incapacidade
Por outro lado, o Golpe de Estado poderá ser dos governantes (alguns são levados a ver nisso o
melhor definido e melhor conhecido se nos apoiarmos emergir insanável das contradições dos sistemas
em indicadores empíricos do fenômeno, segundo a sua capitalistas), e daqueles ainda que atribuem a não-
manifestação histórica concreta. Governabilidade às exigências excessivas dos
cidadãos. Esta segunda versão define a não-
Governabilidade como um termo carregado de
problemas. Em linhas gerais, as duas