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AULA 2

Primeiros contatos com os gêneros literários


As crianças adoram ouvir e ler histórias. É muito comum também representa-
rem personagens em peças teatrais, decorando o texto. E quem não empres-
tou de um poeta, ou escreveu de próprio punho, alguns versos para tentar
expressar seus sentimentos? Pois é assim que se estabelecem os primeiros
contatos com os gêneros literários.

Gênero Literário: o que é isso?

A palavra gênero é usada para indicar as possíveis divisões em grupos, categorias ou con-
juntos. No caso da literatura, gênero literário refere-se aos agrupamentos de textos literários que
apresentam características semelhantes. Já na Grécia Antiga (384 - 322 a.C.), os filósofos gregos
propuseram uma divisão clássica em três gêneros literários: lírico, dramático e épico. São pala-
vras que datam de época antiga, portanto, merecem algumas atualizações.
Lírico. Na Antiguidade, referia-se ao poema que seria cantado ao som da lira e, por extensão,
aplica-se às óperas etc. Na literatura, refere-se à poesia que expressa sentimentos e pensamentos
do “eu lírico”.
Dramático. Na Grécia Antiga, a palavra “drama” significa “ação” e remete ao teatro. Hoje, es-
tende-se aos textos literários em verso ou prosa, que são escritos para serem encenados, próprios
para a arte dramática ou cênica.
Épico. Relata ação heroica. Antigamente, os textos do gênero épico eram escritos em poesia,
mesmo se o seu conteúdo relatasse uma história. Atualmente, a variação mais conhecida desta
categoria é o gênero narrativo.

Literatura 1 - Aula 2 15 Instituto Universal Brasileiro


Gêneros, Espécies e Escolas Literárias
A literatura começou a existir no Brasil
através da colonização europeia pelos portu-
gueses. Até então, a literatura portuguesa, for-
mada e influenciada pela literatura greco-roma-
na, seguia a tradição da divisão padronizada
dos gêneros literários, a qual se fundamentou
por meio dos filósofos Aristóteles e Platão. A
sociedade evolui, e ocorrem mudanças tam-
bém em relação à escrita e ao estilo literário.
Cada época apresenta suas características
próprias e tem sua escola ou movimento lite-
rário. Atualmente, a divisão clássica de gêneros O lirismo é o estado da alma do autor
literários apresenta subgrupos ou variações de- que passa aos leitores, é a expressão do que
nominados formas ou espécies literárias. ele está sentindo. A presença do lirismo des-
Na visão clássica, a divisão dos gêneros é perta emoções como sentimentos tristes, feli-
bem definida; na visão contemporânea, as concep- zes, entusiasmados etc.
ções são mais flexíveis e pode haver associações O gênero lírico manifesta-se quase sem-
entre os gêneros. Por exemplo, um texto narrati- pre em versos, numa linguagem muito ela-
vo pode ser adaptado para uma peça teatral, para borada, cujos elementos fundamentais são o
uma novela na TV ou para o roteiro de um filme. ritmo e as imagens poéticas. Ele só está pre-
sente em textos literários, por isso sua lingua-
Gêneros Literários gem se encontra dentro do padrão literário.

Características comuns a diversas obras Espécies ou formas do gênero lírico


permitem que sejam agrupadas por semelhan- Soneto. Poema de forma fixa, composto
ça estrutural. A esse conjunto de caracterís-
de 14 versos divididos em dois quartetos (es-
ticas comuns a um determinado número de
trofes de quatro versos) e dois tercetos (estro-
obras damos o nome de gênero literário.
fes de três versos).
De acordo com a teoria clássica, quanto Ode. Poema de exaltação.
ao conteúdo e à estrutura, podemos enqua- Hino. Poema destinado a glorificar a pá-
drar as obras literárias, em prosa ou verso, tria ou louvar divindades.
em diferentes gêneros literários. Atualmen- Elegia. Poema que tem como tema a
te, costuma-se subdividir esses três gêneros morte e outros acontecimentos tristes.
em espécies ou formas. Idílio e écloga. Poemas bucólicos, ou
seja, que têm como tema a natureza, a vida
O Gênero Lírico e suas no campo, a vida dos pastores. A diferença
entre a écloga e o idílio é que a écloga sempre
Formas ou Espécies
apresenta um diálogo.
A origem do gênero lírico vem da
expressão dos sentimentos humanos
O gênero lírico caracteriza-se por
ser uma manifestação do “eu” do artista,
do seu mundo interior, seus sentimentos Sátira. Espécie do gênero lírico, so-
e anseios. Os temas líricos mais frequentes bretudo nas escolas literárias mais antigas,
são o amor, a saudade, a solidão e a morte.
Literatura 1 - Aula 2 16 Instituto Universal Brasileiro
que se diferencia de outros textos líricos por
seu tom. Tem como tema a crítica e a ridi-
cularização de situações, propondo-se a
corrigir os defeitos humanos. Sua caracte-
rística mais importante é a irreverência. Viagem e Vaga música
de Cecília Meireles
Poema do gênero lírico Com os livros Viagem (1939) e Vaga mú-
sica (1942), Cecília Meireles (1901-1964) en-
Idílio é um poema lírico, e tem como contra seu estilo definitivo. O verso melódico
tema a vida no campo e uma verdadeira sustenta os motivos fundadores de sua poética
valorização da natureza. Fala sobre árvo- – sonho, solidão, mar, canção, melancolia,
res, sombra, rios, pássaros, lua, nuvens... nuvens, céu, morte.
Foi escrito pela escritora brasileira Cecília A obra Viagem & Vaga música reúne po-
Meireles. emas que inscrevem a autora Cecília Meireles
no panorama do Modernismo brasileiro e assi-
nalam sua singularidade primordial. São poemas
Idílio marcados pelo engrandecimento dos elementos
Como eu preciso de campo, mais simples da existência (elementos da natu-
de folhas, brisas, vertentes,
reza), os quais adquirem significação simbólica.
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.

Encosto-me a ti, que és margem


O Gênero Dramático e suas
de uma areia de silêncios Formas ou Espécies
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes:
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.

Nasce a lua nos meus olhos,


passa pela minha vida ...
- e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.

Olham pássaros, das nuvens,


entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes. De origem grega, o gênero dramático
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto é cultuado desde a Antiguidade
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados, Você já assistiu a alguma peça teatral? As
idos, perdidos, ausentes... peças teatrais pertencem ao gênero dramáti-
(Leve máscara de pérolas co. Existe sempre um enredo. Os acontecimen-
na minha face não sentes?) tos são vividos no palco, pelos atores.
Caracteriza-se pela presença de atores
MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga música.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. que apresentam um acontecimento por meio
de palavras ou gestos. É pela ação destes que
Vocabulário. tomamos conhecimento dos fatos represen-
tados. Não apresentando narrador, o enredo é
Vertentes. Encostas; declive de monta- retratado pelos próprios personagens do espe-
nha, por onde derivam as águas pluviais. táculo, mantendo uma perfeita sintonia entre a
Resvala. Passa de leve, corre.
palavra verbalizada e o público expectador.
Dentre as características que perfazem tal
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modalidade estão os atores, que em consonância A escrita no gênero dramático
com outros elementos, como figurino, maquia-
gem, cenário, gestos, reproduzem a história em A escrita no gênero dramático envolve vá-
forma de diálogos, divididos em atos e cenas. rias modalidades de linguagem como a verbal,
Sua denominação vem de drama, palavra a corporal, a gestual e a sonora. Há indicações
grega que significa ação. Os textos, que podem da ambientação, criada pelos cenários. Os diá-
ser em verso ou em prosa, são escritos para logos apresentam as indicações das falas e
ser representados. No surgimento do teatro na dos comportamentos da personagem. A escrita
Grécia, uma das características marcantes era apresenta as marcas típicas de texto que é es-
a utilização de máscaras para representar tanto crito para ser encenado.
a tragédia como a comédia. É importante definir a história e saber iden-
tificar as questões que envolvem a escrita da arte
Espécies ou formas do gênero dramático dramática: O quê? Quem? Onde? Quando? A
Tragédia. Apresenta ações que provo- história é revelada aos poucos, mantendo sem-
cam compaixão e terror, o herói em conflito pre algum mistério. A escrita essencial é feita em
com seu destino. forma de diálogo, e o texto descritivo é usado
Comédia. Apresenta ações baseadas para dar as informações contextuais. Quando há
em fatos reais e tem por objetivo criticar a so- apenas uma personagem, a fala é identificada
ciedade; provoca o riso expondo o homem e como monólogo, um tipo de discurso em que a
seus costumes ao ridículo. personagem fala consigo mesma.
Tragicomédia. Mistura elementos da
tragédia e da comédia. Trecho de diálogo entre personagens
Farsa. É uma peça teatral breve que tem Apresentamos um trecho do texto teatral Pe-
como objetivo provocar o riso através de si- dreira das Almas (1958) de Jorge Andrade, que re-
tuações engraçadas e ridículas do cotidiano, produz um diálogo entre as personagens Mariana e
Gabriel, que se amam e querem se casar, apesar da
utilizando-se do exagero.
oposição dos pais.
Auto. É uma peça teatral breve em que
os atores representam entidades ou elemen-
GABRIEL: Mariana! Agora, a decisão depende apenas
tos morais (o pecado, a bondade etc.). de nós.
MARIANA: Eu sei.
GABRIEL: Queres me acompanhar assim mesmo? Ca-
saremos na primeira capela do vale.
MARIANA: Não te faria feliz, Gabriel.
GABRIEL: Por que não?
MARIANA: Levaria para tuas terras, para ti, todo este
Filme brasileiro é feito a partir ódio.
de texto do gênero dramático GABRIEL: Este ódio não está em ti.
MARIANA: Sem o consentimento de minha mãe, esta-
O auto da compadecida foi uma adaptação ríamos sempre ameaçados. Não ouviste sua ameaça?
feita para uma minissérie de TV e um filme (2000). GABRIEL: Tua mãe é injusta.
Mas o texto original é o de uma peça teatral em MARIANA: É injusta, mas é minha mãe. Também não
forma de auto, escrita em 1955 pelo autor brasilei- partiste por causa de teu pai?
ro Ariano Suassuna (1927). O diretor Guel Arraes GABRIEL: Terei que ficar Mariana? E esperar nova-
falou com Suassuna sobre acrescentar cenas de mente?
outras peças do autor como Torturas de um co- MARIANA: (Aflita) Não! Seria arriscar tua vida.
ração (1951) e O santo e a porca (1955) nestas GABRIEL: Então, parte comigo.
produções. A minissérie obteve altos índices de MARIANA: Penso em ti, Gabriel; não em mim.
GABRIEL: Ninguém irá me procurar. Não sabem onde
audiência, o que levou a compactar as cenas num
ficam nossas terras.
filme. Elementos da cultura popular e da literatura
MARIANA: (Perdida) Um sonho que...
nacional ganham espaço, representados por ex-
celentes atores brasileiros, divertindo o público e ANDRADE, Jorge. Pedreira das Almas. In: Marta, a árvore e
fazendo o maior sucesso. Vale a pena conferir! o relógio. São Paulo: Perspectiva, 1986

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Caracteriza-se pela presença de um
narrador que conta, em versos, um episódio
grandioso e heroico da história de um povo,
ocorrido no passado. O narrador não expõe
seus sentimentos, como ocorre no gênero lí-
Jorge Andrade (1922-1984), dra-
rico, mas narra os fatos de forma distanciada,
maturgo brasileiro, desenvolveu este texto
como se contasse o que está observando.
teatral, cujo título, Pedreira das Almas, re-
Na Antiguidade, o poema épico era es-
mete a um lugarejo fictício, com inspiração
sencialmente oral, narrado em praça pública;
nas pedras da cidade mineira de São Tho-
o ritmo e a rima garantiam sua memorização
mé das Letras. A história é ambientada em
e as situações perigosas vividas pelo herói
1842, época da Revolução Liberal no Bra-
prendiam a atenção do público.
sil. Mariana e Gabriel são os personagens
centrais da trama: Gabriel quer partir, mas
Partes da epopeia
Mariana não tem o consentimento de sua
mãe. Nas entrelinhas do diálogo é possí-
Proposição ou exórdio. Apresenta-
vel intuir os sinais de tragédia que podem
ção do tema do herói.
destruir os sonhos do casal.
Invocação. O poeta pede auxílio às
musas inspiradoras.
Dedicatória ou ofertório. O poeta de-
Gênero Épico e suas
dica a obra a um protetor.
Formas ou Espécies Narração: Relato da ação, narração dos
fatos históricos, das aventuras do herói.
Epílogo: Encerramento do poema:
desfecho e observações finais.

As narrativas épicas estão entre as


mais antigas manifestações literárias
Você sabe o que é uma epopeia? São
composições que se encaixam dentro do gêne-
ro épico e em forma de verso. Retratam e, aci-
ma de tudo, ressaltam e engrandecem os feitos
de um único herói ou de toda uma nação.
A epopeia é a mais antiga das formas Troia: a história, a lenda e o filme
narrativas, tendo surgido na Grécia com Ho-
mero, autor da Ilíada e da Odisseia. Mas os A megaprodução cinematográfica
romanos também tiveram sua epopeia: Enei- norte-americana de 250 milhões de dó-
da, de Virgílio. lares (extraoficial), Troia, ficou em cartaz
Todos os povos têm as suas narrativas. nos cinemas em todo o país e trouxe de
Dos poemas orais ao romance contemporâ- volta a lendária história de amor, traição,
neo, a literatura registra a trajetória das nar- honra, sangue, guerra, heróis e ruína.
rativas, e seu estudo é um grande aliado para Troia, uma civilização rica e próspe-
a compreensão das transformações formais e ra o suficiente para se defender de seus
da temática por que passaram.
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inimigos, sucumbiu graças ao rapto da mais Os Lusíadas
bela mulher do mundo, Helena, a obsessão
de Agamenon por poder e a persistência (Proposição)
do astuto herói grego, Ulisses, que pacien-
temente arquitetou o plano do Cavalo de As armas e os barões assinalados,
Troia, o gigantesco animal de madeira que Que, da ocidental praia lusitana,
é oferecido como presente aos troianos. Por mares nunca dantes navegados,
Essa conhecida narrativa sobre a Passaram ainda além da Trapobana,
Guerra de Troia é considerada a mais len- Em perigos e guerras esforçados.
dária de todos os tempos, e a referida guer- Mais do que prometia a força humana,
ra, a primeira da história do ocidente. Entre gente remota edificaram
Graças a Homero, considerado o pai Novo reino, que tanto sublimaram;
da literatura ocidental, autor das primei-
ras obras literárias da Grécia Antiga, a Ilía- II
da e a Odisseia, temos a oportunidade de E também as memórias gloriosas
conhecer esta fabulosa lenda que apresen- Daqueles reis...
ta relatos que podem ser verdadeiros.
Na “Invocação”, ele pede ajuda
às Tágides, que são as ninfas no rio
Camões Épico Tejo, para que o inspirem.

(Invocação)
IV
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Lusíada. O mesmo que lusitano e Por que de vossas águas Febo ordene
português, e aos descendentes dos antigos Que não tenham inveja às de Hipocrene.
lusos e aos fastos heroicos dos lusos. Os
CAMÕES, Luís Vaz de. Os lusíadas.
lusíadas: poema épico de Luís de Camões São Paulo: Scipione, 2008.
(1524-1580).

O poema épico Os lusíadas do escritor Vocabulário


português Luís Vaz de Camões (1524-1580) Armas. Feitos militares.
é um texto formado por 10 partes chama- Lusitana. Adjetivo atribuído a tudo que tem origem
das cantos. Apresentamos alguns trechos da portuguesa.
Barões. Varões, homens.
“Proposição” e “Invocação”, que são partes do Assinalados. Famosos, célebres; marcados com o
Canto Primeiro. sinal divino.
Taprobana. Ilha localizada no Oceano Índico, a su-
deste da Índia, mais tarde denominada Ceilão.
Na “Proposição”, o poeta se propõe Edificaram. Construíram.
a cantar os feitos de Portugal. O tema Febo. O deus do sol na mitologia greco-romana.
do poema é, então, a viagem de Vasco Engenho. Pensamento.
Sublimado. Exaltado, grandioso.
da Gama às Índias e as glórias do povo Grandíloco. Que tem linguagem elevada, nobre.
português que, governados por seus reis, Hipocrene. Fonte do monte Hélicon, na Grécia,
divulgaram a fé cristã pelo mundo. consagrada às musas.

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E o Gênero Narrativo?
O gênero narrativo é considerado uma
variação do gênero épico, diferenciando-se por
ser uma narrativa em prosa. O gênero narrati-
Lembre-se de que, geralmente,
vo é ficcional. Suas formas, ou estilos mais co-
chamamos de poético o texto repre-
muns são: romance, conto, novela, crônica.
sentado por versos, isto é, cada linha,
Caracteriza-se pela presença de um
que representa um verso, cria um deter-
narrador, de um enredo (situação) e de per-
minado ritmo.
sonagens que vivenciam esse enredo. Aqui,
Os versos são estruturados em blo-
é representada a vida comum, e não grandes
cos ou estrofes, contendo palavras que
feitos como no gênero épico.
podem ou não rimar entre si. Normalmen-
Leia este parágrafo retirado de um texto
te, o texto poético é do gênero lírico: bo-
de José Lins do Rego (1901-1957), perten-
nito, tocante, carregado de emoções, de
cente ao gênero narrativo.
beleza e poesia. Não se esqueça de que
chamamos de prosa a expressão natural
A casa inteira recebeu a carta com mui-
da linguagem.
ta alegria. Ricardo vinha do Recife passar uns
O texto em prosa divide-se em blo-
dias com eles. Há anos que se fora. Ainda
cos chamados parágrafos, mas podem
quase menino, sumira-se do engenho sem
conter elementos poéticos como lingua-
ninguém saber para onde. Ricardo fugiu.
gem subjetiva, ritmo e sonoridade, o que
REGO, José Lins do. O moleque Ricardo, 1993. caracteriza a prosa poética.

O que é Prosa Poética?

Tem jeito de prosa; a disposição das palavras na folha de papel é feita em parágrafos, mas não
é difícil perceber numa leitura em voz alta que há um ritmo marcado, um ritmo poético. Aos textos
em prosa carregados de significação poética, em que predominam certo ritmo nas frases, a sono-
ridade das palavras, o sentimento do belo, a inspiração (poesia), chamamos de prosa poética.
Compare os dois textos narrativos a seguir. O primeiro é um exemplo de prosa comum(1), com
linguagem mais objetiva, com base em dados reais. O segundo, um exemplo de prosa poética(2),
com linguagem mais subjetiva, com base nas impressões do narrador.

(1) Ouvíamos o apito do trem e logo de-


pois o barulho cadenciado de suas
rodas nos trilhos, bem ao lado de
nossa casa. Morávamos no interior e
a linha do trem cortava a cidade ao
meio. Os sons funcionavam como
um relógio e os movimentos cau-
savam um leve tremor no chão sob
nossos pés.

(2) “Não há nada mais triste do que o


grito de um trem no silêncio noturno.
É a queixa de um estranho animal
perdido, único sobrevivente de al-
guma espécie extinta, e que corre,
corre, desesperado, noite em fora,
como para escapar à sua orfandade
e solidão de monstro.”
Mário Quintana. Nova Antologia Poética, 1966.

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Escola Literária ou Estilo de época
Gênero lírico
Manuel Bandeira (1886-1968) definiu Caracteriza-se por ser uma manifesta-
escola literária como “um conjunto de escri- ção do eu do artista, do seu mundo interior,
tores que obedecem à determinada concep- seus sentimentos e anseios. O gênero lírico
ção estética ou técnica”. Em outras palavras, manifesta-se quase sempre em versos, e
seus elementos fundamentais são o ritmo e
os autores que apresentam características
as imagens poéticas. Principais espécies ou
comuns quanto ao modo de trabalhar a lín-
formas: soneto, ode, hino, elegia, idílio ou
gua, além de certa semelhança de encarar o écloga e sátira.
mundo podem ser agrupados em uma mesma
escola literária. Gênero dramático
A criação artística não escapa à moda, As peças teatrais pertencem ao gêne-
isto é, ao conjunto de tendências que, em de- ro dramático. Existe sempre um enredo. Os
terminada época, estão em voga, em alta. São acontecimentos são vividos no palco, pelos
o panorama social, os problemas que surgem atores. Sua escrita envolve várias modalida-
em certo estágio da civilização que provocam des de linguagem como a verbal, a corporal,
reações psicológicas semelhantes, refletin- a gestual e sonora. Há indicações da am-
bientação criada pelos cenários, e os diálo-
do-se nas obras de seus escritores. A escola
gos são essenciais. Suas espécies ou for-
será caracterizada, então, pelo conjunto de
mas mais comuns são: tragédia, comédia,
tendências, anseios técnicos e estéticos e tragicomédia, farsa, auto.
ideias.
Em nossos dias, a expressão escola li- Gênero épico
terária vai sendo substituída por movimento, Narrativa que se caracteriza pela nar-
ou tendência literária. Atualmente, o nome ração de um episódio grandioso e heroico
mais usado é estilo de época. A influência da da história de um povo. A representação
época é muito forte na literatura. A partir da clássica deste gênero em versos é a epo-
próxima aula, você vai estudar as escolas e peia, composições que retratam e engran-
quais os movimentos literários que compõem decem os feitos de um herói ou de toda uma
nação.
a literatura brasileira.
Gênero narrativo. É considerado uma
variação do gênero épico, diferenciando-se
por ser uma narrativa em prosa. O gênero
narrativo é ficcional. Suas formas ou estilos
mais comuns são: romance, conto, nove-
Gêneros, Espécies e Escolas Literária la, crônica.

A literatura clássica segue a tradição da Prosa poética. Apresenta linguagem


divisão padronizada dos gêneros literários, a mais subjetiva, com base nas impressões do
qual se fundamentou por meio dos filósofos narrador, diferente da prosa comum que tem
Aristóteles e Platão. Cada época apresenta linguagem objetiva, com base nos dados reais.
suas características próprias e tem sua esco-
la ou movimento literário. Atualmente, a divi- Escola literária
são clássica de gêneros literários apresenta Definida como “um conjunto de escrito-
variações com subgrupos denominadas for- res que obedecem à determinada concepção
mas ou espécies. estética ou técnica”. A escola é caracterizada
pelo conjunto de tendências, ideias, anseios
Gênero literário. Ao conjunto de ca- técnicos e estéticos. Em nossos dias, a ex-
racterísticas comuns a diversas obras que se pressão “escola literária” vai sendo substituída
permitem agrupá-las por semelhança damos o por movimento, ou tendência literária. Atual-
nome de gênero literário. mente, o nome mais usado é “estilo de época”.

Literatura 1 - Aula 2 22 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) 1, 3, 2
b) ( ) 2, 1, 3
c) ( ) 3, 1, 2.
d) ( ) 2, 3, 1

1. Leia as afirmativas abaixo e assinale a 4. Identifique, pelas características estru-


alternativa correta. turais, a que gênero pertence o seguinte texto.
“Oh! que saudades que tenho
I – A palavra gênero é usada para indicar Da aurora da minha vida,
as possíveis divisões em grupos, categorias Da minha infância querida
ou conjuntos. Que os anos não trazem mais!
II – Os gêneros literários referem-se aos (Casemiro de Abreu)
agrupamentos de qualquer tipo de texto com
características semelhantes. a) ( ) Gênero narrativo.
b) ( ) Gênero lírico.
a) ( ) Somente a afirmativa I está correta. c) ( ) Gênero dramático.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. d) ( ) Gênero épico.
c) ( ) As afirmativas I e II estão corretas.
d) ( ) As afirmativas I e II estão incorretas. 5. Leia o texto a seguir e assinale a al-
ternativa correta quanto à sua classificação.
2. Assinale a alternativa que traz a se-
Levando um velho avarento
quência correta das expressões que comple-
Uma pedrada no olho
tam os espaços no trecho abaixo.
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.
Cada época reúne autores que apre-
sentam características próprias, agrupados Certo doutor, não das dúzias,
em __________________. Atualmente, a di- Mas sim médico perfeito,
visão clássica de _________________ apre- Dez moedas lhe pedia
senta subgrupos ou variações denominadas Para o livrar do defeito.
_______________________. “Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
a) ( ) formas ou espécies literárias – es- Dez moedas por um olho!
colas literárias – gêneros literários O outro dou eu por isso.”
b) ( ) gêneros literários – formas ou es- Bocage. Epigramas, 2007.
pécies literárias – escolas literárias
c) ( ) escolas literárias – gêneros literá- a) ( ) Conto.
rios – formas ou espécies literárias b) ( ) Epopeia.
d) ( ) gêneros literários – escolas literá- c) ( ) Comédia.
rias – formas ou espécies literárias d) ( ) Sátira.

3. Associe as colunas e assinale a alter- 6. A respeito do gênero narrativo, assi-


nativa com a numeração correta. nale a alternativa incorreta.
a) ( ) Não apresenta nenhum vínculo
(1) Gênero lírico com a divisão clássica de gêneros.
(2) Gênero dramático b) ( ) É considerado uma variação do
(3) Gênero épico gênero épico.
c) ( ) Suas formas mais comuns são: ro-
( ) Texto próprio para a arte cênica. mance, conto, crônica, fábula.
( ) Relata ação heroica. d) ( ) Seus elementos característicos são:
( ) Poema que expressa sentimentos. narrador, enredo e personagens.
Literatura 1 - Aula 2 23 Instituto Universal Brasileiro
pessoa: “tenho”; “minha” etc. O poeta brasi-
leiro Casemiro de Abreu (1839-1860) integra
a escola literária do Romantismo, geração
que produz muitas obras do gênero lírico.
O gênero dramático refere-se ao texto es-
1. a) ( x ) Somente a afirmativa I está crito para ser encenado. É importante saber
correta. que o texto cênico pode ser adaptado a par-
Comentário. A palavra gênero, realmen- tir das mais variadas fontes de texto. O gê-
te, é utilizada para indicar as possíveis divisões nero épico relata fatos históricos com foco
em grupos, categorias ou conjuntos, portanto a nas ações de um herói. O gênero narrativo
afirmativa I está correta. Mas, no caso da litera- surgiu como uma variante do gênero épico,
tura, o gênero literário refere-se, especificamen- com formas ou espécies literárias como o
te, aos textos literários ou às obras literárias que romance, o conto, a crônica, a fábula.
apresentam um conjunto de características co-
muns que permitem que sejam agrupadas por 5. d) ( x ) Sátira.
semelhanças. A afirmativa II está incorreta, pois Comentário. Lembre-se de que a sá-
o gênero literário não se refere a qualquer tipo tira, embora seja uma espécie do gênero
de texto, apenas ao texto literário. lírico, diferencia-se de outros textos líricos
por seu tom. Tem como tema a crítica e a
2. c) ( x ) escolas literárias – gêneros ridicularização de situações, propondo-se
literários – formas ou espécies literárias a corrigir os defeitos humanos. O poeta por-
Comentário. Os autores que apresen- tuguês Manuel Maria Barbosa Du Bocage
tam características comuns quanto ao modo (1765-1805), da escola romântica, revela
de trabalhar a língua, além de certa seme- sua tendência satírica neste poema. A epo-
lhança de encarar o mundo, refletir ou explo- peia é uma representação clássica em ver-
rar temas, podem ser agrupados em escolas sos do gênero épico, tipo de composição
literárias. A divisão clássica de gêneros lite- que retrata e engrandece os feitos de um
rários é que, atualmente, apresenta subgru- herói ou de uma nação. Lembre-se de que
pos ou variações denominadas formas ou o conto é uma espécie literária que surgiu
espécies literárias. com o gênero narrativo, variante do gêne-
ro épico. Já a comédia faz parte do gêne-
3. d) ( x ) 2, 3, 1 ro dramático. Atualmente, a característica
Comentário. O texto literário próprio mais importante da sátira que é a irreverên-
para a arte cênica pertence ao gênero dra- cia aparece também no romance e outras
mático (2). Lembre-se de que na Grécia obras com o objetivo de denunciar por meio
Antiga, a palavra “drama” significa “ação” e do riso satírico.
remete ao teatro. O texto que relata ação
heroica faz parte do gênero épico (3). Na 6. a) ( x ) Não apresenta nenhum vín-
literatura, o gênero lírico (1) agrupa os poe- culo com a divisão clássica de gêneros.
mas que expressam sentimentos ou pensa- Comentário. A alternativa a é a única
mentos do “eu” lírico. incorreta. Pelo contrário, o gênero narrativo
surge como uma variação do gênero épico,
4. b) ( x ) Gênero lírico um dos três gêneros da divisão clássica como
Comentário. O gênero lírico caracte- afirma a alternativa b. O gênero narrativo é
riza-se por ser uma manifestação do “eu” ficcional e apresenta-se em prosa. As alterna-
do artista, do seu mundo interior, seus sen- tivas c e d estão corretas ao afirmar que as
timentos e anseios Os temas líricos mais formas mais comuns do gênero narrativo são
frequentes são o amor, a saudade, a soli- o romance, o conto, a crônica, a fábula; e que
dão e a morte. Normalmente, vem com os seus elementos característicos são o narra-
verbos e pronomes relacionados à primeira dor, o enredo e as personagens.
Literatura 1 - Aula 2 24 Instituto Universal Brasileiro

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