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ARTE POÉTICA: UM ESTUDO BIOGRÁFICO ENTRE EMINENTES POETAS

BRASILEIROS DO ROMANTISMO AO MODERNISMO UNINDO REFLEXÕES


SOBRE A LINGUAGEM – HAKUSAN KOGEN
Copyright © 2013 do autor
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Pesquisa apresentada à Faculdade de Itapecerica da Serra em


Dezembro/2013, como requisito parcial ao título de Licenciatura Plena
em Letras, Língua Portuguesa/Língua Inglesa e respectivas literaturas,
sob a orientação da Drª Margarida Cecília Corrêa Nogueira Rocha.

469 Kogen, Hakusan – pseud.


G124a Arte poética: um estudo biográfico entre eminentes
poetas brasileiros do romantismo ao modernismo unindo reflexões
sobre a linguagem (2013) / Alexandre M.S.G. (Hakusan Kogen). – 1ª
ed. – São Paulo: Alphagraphics, 2017.
100 p.: 14 x 21 cm.

Monografia de conclusão do curso de Letras (UNIESP-FIT)


Orientadora: Profª Margarida Cecília Nogueira Rocha

1. Arte 2. Poesia 3. Linguagem. I. Título.


II. Rocha, Margarida Cecília Corrêa Nogueira (Orient.)

CDD 469

Bibliotecária responsável: Fernanda Scachetti CRB8 – 8/8754

Publicação atinente à Lei nº


9.610 / 1998.

Edição Especial E-book


DE DIC ATÓR IA

. . . a todos os poetas & poetisas

despertos ou por despertar . . .

AGR ADEC IM ENTOS

Auspiciosa gratidão à Margarida Cecília Corrêa Rocha,


pela orientação prestada nas finalizações,
e que tanto sustentou uma relação de respeito e estima.

Incomensuravelmente grato a Márcia Regina Fogaça,


pelas diretrizes fornecidas ao pré-projeto.

Sinceros agradecimentos ao Antonio Carlos Silva de Carvalho,


pela criteriosa revisão literária e apurado olhar linguístico.

Finalmente, gratidão dirigida ao corpo docente da UNIESP-FIT,


modelo reconhecedor do que a linguagem é capaz.
RESUMO

O conteúdo desta pesquisa consiste – pressupondo à poesia a


expressão culminante na arte da palavra – numa investigação
dos pontos semelhantes que estão contidos nos poetas
brasileiros de prestígio, cujas literaturas tornaram-se
valorizadas e preservadas ao longo da história. Sinaliza uma
análise teórica sobre a relação que há entre a perspectiva
psicolinguística propiciada pela linguagem e o meio ambiente
sociointerativo no qual se encontra o indivíduo. Por tal motivo,
o sujeito, a linguagem e a literatura poética formam o objeto
conjunto de estudo em questão. O desenvolvimento do
trabalho apresenta diversos pontos de vista de autores
renomados vinculados à psicologia, filosofia e poesia que
contribuem sobremaneira para o endereçamento do estudo,
dentre os mais significativos: Ezra Pound, Lev Vygotsky, Freud,
Rousseau, Schopenhauer, Amit Gotswami e Rudolf Steiner,
sendo tomados como instrumentos norteadores da pesquisa
os pensamentos de Guy Claxton, Gary Snyder, e Carl Gustav
Jung. Em nosso embasamento teórico, destacamos a
importância da poesia como matéria sumária de conhecimento
altamente competente: a reflexão sobre o poder que a
linguagem pode exercer no interrelacionamento do sujeito
com seus mundos. Tendo em vista os procedimentos teórico-
metodológicos adotados pela sondagem biográfica e a análise
estatística resultante da coleta de dados, não hesitamos em
afirmar que os potenciais desta monografia são ígneos
projéteis à construção de insólitos saberes, bem como ao
aprimoramento das sensibilidades humanas.

Palavras-chave: arte; poesia; linguagem.


ABSTRACT

The content of this research consists – presupposing to the


poetry the culminating expression in the word’s art – in an
investigation of the similar points that are contained in the
Brazilian prestige poets, whose literatures were valued and
preserved along the history. It signals a theoretical analysis
about the relationship that there is among the perspective
psycholinguistic propitiated by the language and the
environment partner-interactive in which is living the individual
being. For such a reason, the subject, the language and the
poetic literature form the studying object here. The work’s
development presents several point of view of renowned
authors linked to the psychology, poetry and philosophy that
contribute significantly to the address of the study, among the
most significant: Ezra Pound, Lev Vygotsky, Freud, Rousseau,
Schopenhauer, Amit Gotswami and Rudolf Steiner, and as
orienting instruments of the research were taken Guy Claxton's
thoughts, as well as Gary Snyder, and Carl Gustav Jung ones. In
our theoretical base, we detached the importance of the
poetry as summary matter of highly qualified knowledge: the
reflection about the power that the language can exercise in
the interrelationship of the subject with their worlds. Due the
theoretical-methodological procedures adopted by the
biographical survey and the statistical analysis resulting from
the collection of data, we didn't hesitate in affirming that the
potentials of this monograph are igneous projectiles to the
construction of unusual knowledge, as well as to the
improvement of the human sensibilities.

Keywords: art; poetry; language.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 09
1. ARTE & POESIA NA HISTÓRIA ............................................ 11
1.1 Sociedade e indivíduo: dois cursos paralelos ............. 15
1.2 O curso do pensar poético ................................................. 25
2. O EIXO: INDIVÍDUO, LINGUAGEM, MUNDO ............... 30
2.1 O entorno inerentemente humano ................................. 32
2.1.1 Portadora de signos ..................................................... 34
2.1.2 A complexidade do agregado linguístico ............ 37
2.1.3 Organizadora de processos cognitivos ................ 38
2.2 O paradoxo da linguagem ................................................. 39
2.2.1 Da linguagem não vernácula aos impulsos do corpo 43
3. A RETÓRICA POÉTICA .............................................................. 47
3.1 Harmonia sígnica e musicalidade .................................... 48
3.2 A transcendência ideológica ............................................. 48
3.3 Ensina-se poética? ................................................................. 49
3.4 Anonimato como recurso ................................................... 52
4. O PERCURSO DA PESQUISA ................................................. 54
4.1 A discussão da problemática ............................................. 54
4.2 Objetivo ..................................................................................... 57
4.3 Escolha das variáveis ............................................................. 57
4.4 Hipóteses .................................................................................. 58
4.5 Análise estatística dos dados ............................................ 59
5. SUBSTRATOS FINAIS ............................................................... 65
BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
APÊNDICES
Notas .................................................................................................. 70
Análise biológica de Ricardo Reis ............................................. 71
ANEXO Mostras poéticas do Autor ............................................. 74
A sabedoria búdica nunca foi uma árvore
O espelho da mente não está em parte alguma
Se, desde o princípio, nada existe
Onde irá se acumular o pó ?

Huineng
Supercosmo AMS-123
INTRODUÇÃO

O momento mais significativo no curso do desenvolvimento


intelectual, que dá à luz as formas puramente humanas de
inteligência prática e abstrata, ocorre quando a fala e a
atividade prática, duas linhas de desenvolvimento que antes
eram completamente independentes, convergem.
L.S. VYGOTSKY 1

A gênese deste estudo advém da reflexão e observação na


vasta constelação da literatura. Inicialmente, refleti a respeito dos
escritores de renome no âmbito nacional, pois alguns se inclinavam à
poética desde tenra infância, enquanto outros ignoravam-na por
toda a vida ou só a afloravam em idade avançada. Paralelamente,
imerso numa espontânea auto-observação, indaguei sobre o real
papel da linguagem para a compreensão dos mundos. O candente
interesse se intensificou ao me deparar com a abrangência da
tessitura poética na perspectiva global, e, então, contemplei as
possíveis associações entre o meio-ambiente do artista e o potencial
da linguagem.
Havia despertado a arte poética há 7 anos. Ainda assim,
perguntava quais similitudes poderiam vigorar entre poetas de
destaque. Para tanto, avaliei o modus vivendi de seletas
personalidades literárias sob a metodologia bibliográfica.
Sentindo ampla fé na envergadura do assunto, fez-se
inevitável atravessar a esfera da Literatura pelos ramos da Psicologia,
Antropologia e Sociolinguística. No percurso, cri que me infiltrava
num território inerentemente ontológico, pois estas vertentes
disciplinares foram luziluzindo, tingindo vestimentas que plasmavam
ricas reflexões na plataforma da linguagem.
Soube que a informação não poderia substituir o verídico
conhecimento, porque O Artista não é quem detém os dados, mas
aquele que se orienta na diacronia do tempo. A arte de poetar, gema
consistente em qualidade estética, veicula olhares e saberes
imprevistos; por isso sustento: este tecido pode enobrecer a
educação das sensibilidades na formação da alma humana.
Como precaução, descartam-se análises de valores (medição
da ordem de engenharia) quanto à poiesis: se ela é boa ou má para o
sujeito ou, ainda, o que pode ser feito para despertar tal Arte. Na
prática, tais módulos são imperscrutáveis porque a pluralidade de
fatores sócio-econômicos que estruturam o criador do texto
apresenta variáveis interminavelmente infinitas. Incentiva-se tal

1
Citado por CLAXTON, 1995, p.81.
9
terreno como palco de possibilidades fecundas para cultivo de novas
noções, averiguando o poder de transformação que a linguagem
pode abranger na formação humana.
Tentando elucidar até onde se pode chegar com o reino das
palavras, enveredei-me por coordenadas insólitas, e descobri: muito
do que se pensa sobre o quê a linguagem pode propiciar, não é bem
assim. Esse achado me colocou na posição de súpera cautela. O que
torcia ser totalmente favorável a essa autonomia me atirou num
ponto de interseção com novas reflexões sobre a dialética conceitual
— os conceitos estão inextricavelmente tão próximos à nossa
constituição biológica quanto imaginamos.
O fundamento teórico alterna-se em três interlocutores pilares:
[-I-] Claxton baliza uma tese de investigação psicolinguística e
antropológica da linguagem, tecendo mente-cérebro & mundo; [-II-]
Pound e Snyder propiciam argumentos seguros em relação à
poética; e [-III-] Jung, sob sua sensibilidade psicológica, abarca uma
ampla perspectiva das etnias na Terra. Outras vozes, tais como
Vygotsky, Rousseau, Freud, e Schopenhauer mantêm o alinhamento
das costuras — e é excêntrico, estranho ou belo, em dadas paisagens
encontradas, notar que, na tentativa de transcender o inexorável,
uma tese que discursa da linguagem do cérebro vai buscar consolo
em expeditos Mestres Zen da Antiguidade.
Nesta Introdução, após justificar as veredas que me
conduziram às ações exploratórias, informo que os dados estatísticos
são publicados no Último Capítulo. Assim, destaco os tópicos que
amarram o restante da tecelagem.
O 1o Capítulo dedica-se à arte & poesia na História; reflete
sobre o papel da poética na civilização, aborda o pensamento das
artes sob algumas fórmulas, firmando bases à prática didática. O
objetivo fulcral deste trecho é delinear a amplitude poética, no
sentido sincrônico ou diacrônico que se pode conceber
historicamente.
O Capítulo 2 associa três substantivos: indivíduo / linguagem /
mundo. Menciona os aspectos fundamentais da linguagem,
objetivando orientações para elucidar sua autonomia latente. Com
isso, atento às luzes ou sombras produzidas pela simbologia
linguística, bem como o que pode ocorrer quando se sabe, ou não se
sabe, um idioma não vernáculo.
No 3o Capítulo destacam-se orientações analíticas que
porventura possam favorecer a ótica sobre uma boa/má literatura
poética. O objetivo é apresentar referências seguras para a
(des)construção de melhores sensibilidades artísticas.
Ao fim da jornada, ponderamos os resultados, para que, na
busca como mestres engajados na literatura, possamos seguir com
as mais sábias escolhas.

10
_____ { I } _____

ARTE & POESIA NA HISTÓRIA

Algumas pessoas fazem história


e outras constroem uma casinha no subúrbio.
CARL JUNG

Nos primórdios do que conhecemos historicamente por


“civilização”, a simbologia da língua vem representando uma
ferramenta fundamental aos integrantes das comunidades
conglomeradas — arte & linguagem sempre estiveram aliadas
à existência humana como veículos que comunicam uma
realidade e expressam uma cultura.
Nesse panorama, é impraticável falarmos sobre o curso
da arte poética sem que se faça uma breve análise
antropológica das sociedades. Se quisermos mencionar algo
sobre ‘evolução hominídea’, temos de voltar à casa dos quatro
milhões de anos, e, nessa escala, as evidências culturais se
perdem no tempo.
A citar uma perda recente, Moisés (1982, p.22) mostra
que as cantigas portuguesas, arte de poetar exacerbada na
complexidade de imagens líricas, foram memorizadas pelos
trovadores para fins de declamação e raramente eram
transcritas em registros. Decerto houve, antes das cantigas,
considerável criatividade lírica, infelizmente extinta.
Assim sendo, de que forma a cultura poética, tal como a
conhecemos hoje, deve ser pensada? Há quarenta mil anos,
toda a capacidade cognitiva humana já se encontrava
desenvolvida. Provavelmente éramos mais inteligentes, já que
as dimensões do cérebro diminuíram um pouco, daquele
ponto do Cro-Magnon. Ninguém sabe o azo do atrofiamento
cerebral; talvez o processo de civilização tenha sido a causa,
argumenta o poeta Snyder:
11
A maior parte do seu interessante curso de vida, o ser humano
passou em culturas “primárias”, como caçador e coletor. Há
aproximadamente 12 mil anos, a agricultura começou a
desempenhar um pequeno papel em alguns cantos do
mundo; mas só nos últimos três mil anos é que a agricultura
foi, de fato, difundida mais amplamente. A civilização
representa uma parte muito pequena da existência humana –
e a alfabetização representa uma parte ainda menor, uma vez
que foi só nos dois últimos séculos que alguma proporção
considerável de qualquer região civilizada a experimentou.
Portanto, a literatura oral – a balada, a lenda popular, o mito,
as canções (temas da etnopoética) – foi a maior experiência
literária da humanidade. Quando compreendemos isso, torna-
se ainda mais pungente o fato de que essa riqueza está sendo
dissipada (SNYDER, 2005, p.221).

Deste modo, é necessária exímia cautela no


questionamento da linguagem em pauta na poética humana.
A literatura etnopoética da história, que gira entre oralidade,
semiótica e textualidade, sofreu novas marcas, em especial,
com o surgimento do sistema pedagógico. No Brasil, embora
os Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC/SEF, 1997) tenham
estabelecido diretrizes teóricas, os resultados educacionais
ainda não foram, de fato, atingidos, mesmo após 20 anos de
sua implantação — na rede pública a população vislumbra um
exército de discentes obtendo péssimo aproveitamento como
Educação Básica, onde se aplicam recursos deploráveis que
pararam no tempo, na base do ‘giz e apagador’. 2
Sob tal perspectiva, para trazer o mote da linguagem em
termos qualitativos requer que se avalie a interdisciplinaridade
no processo pedagógico, requer que se revejam os efeitos (a
curto e longo prazo) edificados pelos veículos de comunicação
de uma sociedade, assim como a análise do entrelaçamento

2
Esse cenário agravou-se sob a sanção da Lei da Progressão Continuada (1996),
desencadeando o descaso à seriedade das avaliações e a crescente massa de
analfabetos funcionais. A solução a este imbróglio é, sumariamente, de ordem Política
Governamental, cuja celeuma dispensa comentários, aqui.
12
das línguas, abarcando a relação interdependente das culturas:
termos que ultrapassam fronteiras geopolíticas.
É impossível conceber qualquer sistema isolado, isento
de código de comunicação. Toda unidade estrutural só opera
e se mantém valendo-se de mútua interrelação. Cada sistema
possui suas próprias linguagens, suas próprias matemáticas,
são sistemas bem distintos em suas especificidades, contudo,
absolutamente complementares. Talvez a verdade
fundamental da interdependência sintetize uma resposta
satisfatória – metafísica ou ontológica – para a complexidade
do mundo como um Todo. Trazendo a voz do médico Sir
Charles Sherrington:
A vida, como sistema de energia, está tão embutida no tecido
da superfície da Terra que supor, mesmo brevemente, uma
vida isolada do resto do mundo terrestre, produz uma imagem
distorcida demais para se parecer com a vida. Tudo se ajusta
simultaneamente (1963, p.79, apud CLAXTON, p.38).

Snyder (2005, p.253), idem, identifica essa visão


multifacetada do ecossistema comparando-o a uma mandala.
Cada figura representa um papel hierárquico, mas todas são
idênticas em relação ao conjunto, como Dôgen ensina (ibid.,
p.275) “Impor sua própria experiência sobre o mundo dos
fenômenos é ilusão. Quando o mundo dos fenômenos aparece
e experimenta a si mesmo, é Iluminação”. A linguagem
modula, por si mesma, esse entrelaçamento dos mundos.
Essa condição reforça que privação de
(inter)comunicação enfraquece, de imediato, as bases à
sobrevivência estrutural e psíquica3 de qualquer ser vivente.
Em tese, a vida só é possível devido a essa arte, e esta, no meio

3
Se entendermos como psique, em sua ampla acepção linguística, como a qualidade
de estar vivo, amebas e protozoários possuem tanta psique quanto seres humanos.
Sendo natural que a sobrevivência de qualquer ser vivo dependa de algum código
mediador para o ligamento dos sistemas, interno & externo.
13
humano, só se possibilita pela sociointeração. Tal como o
sistema nervoso de um animal, a linguagem transmite
estímulos e respostas, podendo atrofiar, caso a literatura de
uma nação entre em declínio (POUND, 1973, p.36).
Igualmente, na ótica de Claxton (1995, p.57), assim como
está registrado em nossos nervos que somos sistemas
biológicos inextricavelmente entrelaçados, a linguagem binária
de nossos corações nos leva a participar. Nesse caso, a
matéria-prima do cérebro se estende à sociabilidade humana.
A compreensão adequada do funcionamento do comitê
mente-cérebro4 e da linguagem nos seres humanos será
diretamente proporcional à abrangência da percepção
multifatorial; a considerar sistemas no conjunto de sistemas.
Por conseguinte, a habilidade linguística em sua
expressão artística (principalmente no território etnopoético)
está intimamente associada a fatores culturais. Ora,
considerando que o sistema educacional só se popularizou às
massas a partir do século XIX, o emprego da linguagem parece
ter ingressado numa nova moldagem estrutural. Nesses fins, a
história lança uma indagação: Quais relações existem entre
letramento e qualidade da linguagem, ou casta social e nível de
linguagem?
A possibilidade de a qualidade poética ser diretamente
vinculada às camadas privilegiadas não foge à realidade. A
Arte segue inacessível às famílias desprovidas de bases
educacionais, pois se encontram empenhadas ao trabalho
extremo (FREUD, 2003, p.6). A arte poética, como nenhuma
outra, propicia satisfações substitutivas sentidas no rol das
abstinências culturais; experiências emocionais de alto valor no
eixo de sua identificação.

4
No subcapítulo O cérebro sem o eu, o autor diz: “Na colônia de polvos [referente às
redes neurais - ressalva nossa], não existe grupo privilegiado com status especial ou
poderes especiais.” O sistema como um todo – cérebro, corpo, mundo – deriva da
conexão do conjunto de prioridades envolvidas em cada situação.
14
Conforme otimiza Lévi-Strauss (in: TERWILLIGER, 1974,
p.103), as origens da escrita partem do ‘desejo de manter
poderio social’. O acesso às escrituras expressa um modo
diferenciado de status, e o artista (seja qual for sua casta)
ocupa um espaço privilegiado de domínio dos processos pela
leitura da linguagem.
Pound (1973, p.45) advoga que a sabedoria poética está
vinculada a uma noção de espaço multicultural, e nem todos
se lançam para além de sua terra natal. O poeta orienta que
“Quando se trata de poesia, há uma porção de gente que nem
mesmo sabe que o seu país não ocupa TODA a superfície útil
do planeta. A simples ideia disso parece um insulto a tais
pessoas”. Afirmando isso, a necedade parece fatídica àqueles
que nascem e morrem sem viver em terras estrangeiras.

1.1 Sociedade e indivíduo: dois cursos paralelos


Segundo modula a interatividade sócio-construtivista
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC/SEF, 1998), toda
abordagem artística principia pela avaliação do docente em
dada situação, sumariamente específica. Na Arte Poética, a
modulação da prática didática implica em ponderações
ininterruptas quanto ao nível do ensino-aprendizado e aos
recursos pedagógicos disponíveis.
No complexo oceano da língua & linguagem, o plano de
aula deve se adaptar às necessidades do grupo social vigente,
frequentemente encontradas apenas durante a intervenção
didática. Na práxis, todo docente constata níveis díspares de
linguagem, tanto entre indivíduos da mesma escola quanto do
mesmo bairro; portanto empíricas, as estratégias só funcionam
enquanto ações comprobatórias. Embora não haja um manual
fixo infalível, os PCNs fornecem diretrizes teóricas que
norteiam as manobras:

15
Há um aspecto positivo na simples veiculação das diferentes
formas de pensar e agir sobre o mundo para o
reconhecimento da existência de outras possibilidades de
relações humanas, de organização social, no que se refere a
valores, símbolos, linguagens, representações sociais,
relacionamentos, assim como a interação com o ambiente,
mediada por diferentes técnicas e segundo outros valores
(MEC/SEF, 1998, p.218).

O homem constrói a história da arte e expressa valores


sociais proporcionais ao seu ambiente, mas a Arte não se
encerra na instância humanoide, a Natureza manifesta
constante criação artística nas montanhas e rios. Então, se a
mais pulcra arte natural é ofertada a todos, em que medida os
elixires artísticos devem ser postos à comercialização? 5
A incógnita supracitada catapulta outra: A poesia é
dispensável? Conforme a contradição de Jean Cocteau (in:
FISCHER, 1979, p.11), a poesia é-nos inseparável, mas uma
parcela de nós, ainda que por um período indefinido, não sabe
sobre a sua utilidade — a pessoa é capturada por um
paradoxo ou niilismo o qual ela deve solucionar por si própria.
O filósofo Fischer (ibid., p.16) explica que a arte
representa a ressignificação da realidade na busca do
equilíbrio perfeito entre o mundo externo e interno, fato e
fábula, mito e realidade (objetiva ou subjetiva); é a cristalização
dos signos expressando algo além do tempo. Verificamos
profunda razão no “ser artístico” que manifesta aspirações
político-sociais particulares a cada época. Enquanto os
fenômenos naturais emanam arte no ritmo de suas leis, os
homens procuram transcender o tempo através da modulação
de suas estruturas psicofísicas:

5
A carta O Manifesto da Terra-Mãe do Cacique Seattle, da tribo Suquamish
(Washington), enviada ao presidente Francis Pierce, em 1855, propaga potente
expressão linguística em prosa poética, que, por sua mestria, aparenta advir duma
sensível cultura letrada (UNESCO, 1976).
16
Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar
e transformar a experiência em memória, a memória em
expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não
é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa
conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e
convenções com que a natureza – esta provocadora – pode
ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que
consome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não
é possuído pela besta-fera, mas doma-a (FISCHER, 1979, p.14).

Citemos, pois, alguns consensos quanto à qualidade


artística em sua operação: Schopenhauer (2001, p.67) delega
que o verdadeiro poeta – grande e exclusivamente raro – não
é o “fazedor de rimas e inventor de histórias”. Para Leirner
(1983, p.313) o eu lírico, textualizado em suas alusões poéticas,
expõe características vívidas que possibilitam separar os bons
dos maus artistas. Outrossim, Pirsig (1984, p.2) qualifica um
aspecto essencial da experiência: “A Metafísica da Qualidade
[...] é a primaz realidade empírica do mundo... Mas, para
presenciar isso, claro, terás um enorme trabalho...”. Para
rematar, o crítico Pound (1973, p.42) classifica a competência
dos escritores em seis grupos. 6
Diante da arte, Bosi (1986, p.8) aponta que o ser humano
tem se inclinado, desde a pré-história, a um abissal estado de
perplexidade e contemplação. Atividade primitiva que, ao criar
objetos, plasma certos estados psicológicos numa coletividade
e deixa sempre uma parcela de sentido ainda por animar sua
existência em suas ações.
Destarte, há um laço entre arte & anseio humano por se
situar universalmente. As obras incitam reflexões, por impacto
ou questionamento, possibilitando perspectivas que avançam
ou recuam no tempo, sem necessidade de “explanações”:

6
Inventores (descobridores de novos processos literários); Mestres (ases dos
processos); Bons escritores sem qualidades salientes (sortudos por nascer numa era
de ouro dos processos); Beletristas, (especialistas dos processos); Diluidores
(incapazes de dominar processos); e, Lançadores de moda.
17
produz perplexidade ao imitar o natural ou superar limites.
Isso pressupõe que o elixir artístico emana um potencial
latente quanto à elasticidade do tempo. Que, quase sempre
senão sempre, reproduz com lisura as tensões sociais atinentes
à era do artista.
O mundo está sujeito a crises, a Arte não (LEIRNER, 1991,
p.84). O que há de contemporaneidade em arte é a previsão
do que virá ao mundo. Obras renascentistas apontam que,
após um período de transição de valores estéticos ainda em
luta pela concretização, podemos dizer que a arte moderna se
resume num novo mundo. Talvez a humanidade não progrediu
devido às disparidades dogmáticas, mas, indubitavelmente,
configura-se em um mundo distinto.
O cenário modernista, então em velocidade industrial,
passou a ser caracterizado pelo excesso de informações,
alterando a concepção do traçado artístico.
Proporcionalmente, o volume de dados nocivos se elevou.
Dessa instância, infere-se que o conhecimento perdeu lugar
pela dispersão de dados. Diante de uma exímia Arte, também
há uma ingente avalanche de informações, contudo, a
qualidade desses bits não obscurece as sensibilidades. Ao
contrário, provoca um estado progressivo de sofisticação
metaexistencial. Leirner alude:
Afinal, a história da arte – e aqui cabe um parêntese para
lembrar o trabalho brilhante de Suzi Gablik no seu
discutidíssimo Progress in Art – pode realmente ser examinada
à luz do modelo cognitivo piagetiano, segundo o qual essa
história seria não apenas um agregado de estilos individuais
ou tendências que simplesmente se acumularam e acumulam,
mas um sistema integrado que manifesta uma estrutura
ordenada de acontecimentos. A arte, assim como a ciência,
segue um caminho evolucionário, que, como Gablik prova,
sempre parte de um estágio de desenvolvimento para outro,
senão mais alto, pelo menos mais sofisticado de integração
perspectiva (LEIRNER, 1991, p.89).

18
Este embasamento importa reflexões sobre uma
pesquisa antropológica de Norberg-Hodge (in: CLAXTON,
1995, p.222). A linguista atestou alterações das pessoas quanto
à percepção sobre o “valor do tempo” pela intromissão da
civilização em Ladakh, sociedade isolada no Himalaia. Até a
década de 1960, essas pessoas não distinguiam trabalho X
lazer: eram pobres, felizes, e tinham tempo para festas que
duravam duas semanas. A mudança de atitude foi causada
pela cobiça à riqueza, visando “maior produtividade de leite”
através da nova vaca, Jersey, substituindo assim a ‘meta do
suficiente’, e levando-os ao mito de “desfrutar um lazer
prometido”. Tal política resultou em festas de um dia, ou
menos, corrompendo atitudes e valores.
Destes fatos, a arte como ícone segue inalterável no
modus vivendi simples, na tradição dos mitos. Todavia, a era
moderna trouxe ao homo sapiens novos paradigmas jamais
testemunhados, onde as pressões sociais ditaram o padrão
consumista. Simultaneamente, a depressão, segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), apresenta-se como a
segunda maior patologia mundial. Nas alusões de Santos
(2001, p.18), as facilidades tecnológicas aumentaram, mas viver
se tornou progressivemente complicado. Para Freud, esse
desconforto advém de um estado de insatisfação
minuciosamente subjetivo:
Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização
atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em
que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais
felizes, e sobre o papel que suas condições culturais
desempenharam nessa questão. Sempre tendemos a
considerar objetivamente a aflição das pessoas – isto é, nos
colocarmos, com nossas próprias necessidades e
sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as
ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar
felicidade ou infelicidade. [...] A felicidade, contudo, é algo
essencialmente subjetivo (FREUD, 2004, p.17).

19
Assim, o mal reside no indivíduo, não na civilização;
havendo um mal-estar natural da espécie humana, seu
sofrimento por “simplesmente existir”, frente do incerto. Freud
(ibid., p.14) espantou-se diante da hipótese sustentada no
abandono do modo de vida civilizado para regressar às
condições primitivas, responsabilizando a civilização pela
desgraça pessoal, pois todas as coisas que procuramos com o
intuito de proteger-nos das ameaças do sofrimento fazem
parte dessa mesma civilização.
Snyder (2005, p.221) observa que a sociedade se
expandiu demograficamente favorecendo a proteção ao
indivíduo das demandas de velocidade, habilidade e
conhecimento arcaico comuns no Paleolítico Superior. Época
cuja sobrevivência demandava agilidade pela exposição aos
perigos, contatos corporais diretos com inimigos, desafios que
o hominídeo tinha de enfrentar: matar ou morrer. Atualmente,
contemplamos a mesma matéria-prima biológica para
adaptarmo-nos em um mundo dispare do ambiente d’outrora,
selvagem, mas sistematicamente capitalista.
Na época de Goethe uma paixão arrebatadora pela
natureza grassava, pela paisagem primitiva e por tudo que é
selvagem em qualquer rol artístico, embora ele nutrisse afiada
antipatia por tudo isso. Reconhecendo a verdade nas
manifestações da natureza, Goethe catapulta dela o
antropoide quando ilustra “Nada fala mais alto do que as
marcas deixadas por um homem bom e inteligente, do que a
verdadeira arte, que é tão coerente quanto a natureza” (in:
BAKHTIN, 2010, p.242).
Rousseau reverenciava os elementos naturais em sua
época. Durante sua peregrinação a Turim, deliciou-se com as
paisagens do campo povoando-a com a fertilidade da
imaginação. Em Confissões, imaginava “banquetes nas cabanas
rurais, [...] vasos com leite e creme de leite nas montanhas,
uma ociosidade encantadora paz, simplicidade, prazer de
20
perambular sem saber para onde”. (ibid. p.255) Inclinação à
liberdade de imagens como transfiguração dos sentidos.
Amalgamado à Natureza – aqui – suspeito que a
ausência de certas provas físicas naturais podem ter minado as
referências psicológicas que elevavam o homem ao estado de
percepção primitiva, e hígida, sobre a abrangência do tempo.
Na pós-modernidade, raras são as chances de presenciarmos
uma árvore milenar.7 Esses monumentos selvagens (tal como
exala, artificialmente, os patrimônios históricos & artísticos)
não abundam mais, como outrora, e o resultado é, sugiro, a
inconsciência a essa linguagem simbólica, não verbal, a qual
Jung (2005, p.224) tanto se refere.
Essa perspectiva ecológica e ‘selvagem’, capaz de
propiciar uma ‘percepção primitiva do tempo’, não significa,
contudo, a extinção da agressividade humana. A “civilização”,
detentora da linguagem culta à arte literária, é condicionada a
padrões comportamentais tal qual os povos primitivos. E os
sistemas de manipulação pairam em toda parte. Ilustra o
psiquiatra Sargant:
O problema fisiológico complica-se ainda mais com o
conhecimento de que os tipos temperamentais tanto do
homem como do animal irracional raramente são puros.
Pavlov descobriu que muitos de seus cães eram misturas de
quatro temperamentos básicos; e o mesmo parece aplicar-se
aos seres humanos. Em culturas primitivas, onde a vida é dura
e o condicionamento rigoroso, é provável que os
sobreviventes sejam mais temperamentalmente padronizados
do que em sociedades mais civilizadas e assim disciplinados
por métodos menos variados. Pode-se mesmo sugerir que,
quanto mais elevada a civilização, tanto maior o número de
indivíduos “normais” cronicamente ansiosos, obsessos,
histéricos, esquizóides e depressivos que a comunidade pode
dar-se ao luxo de suportar (SARGANT, 2002, p.111).

7
No Parque Estadual do Vassununga, Estado de São Paulo, encontra-se a mais idosa
árvore brasileira, um jequitibá-rosa com 49m de altura e idade de 3.050 anos.
21
Por conseguinte, a espécie humana comporta-se, sob
estratégias psicofísicas, de modo duvidoso quanto ao apreço
dado à sua comunidade. O acadêmico Claxton (1995, p.72)
alerta a respeito do grau de egoísmo ou altruísmo que o
membro estabelece em períodos de escassez: “quando ‘nós’
somos ameaçados, o indivíduo questiona suas lealdades.
Quem quer ficar na mão?” Contanto, demanda-se um tipo de
organização social, e até de hierarquia, desenvolvendo formas
mais complexas de comunicação, onde a poiesis representa
uma delas, sendo a mais compacta de todas.
À medida que a população de uma comunidade
aumenta, a sofisticação da linguagem torna-se mais evidente.
Sustenta Freud (2004, p.16) que os benefícios advindos do
avanço científico da civilização impõem condições
proporcionalmente difíceis a cada um deles. Aponta Dunbar
(in: CLAXTON, p.77), com base em evidências arqueológicas,
que as primeiras sociedades primitivas se reuniam em torno de
120 a 150 pessoas. Quando este número excede, as hierarquias
se tornam mais formais, sendo o sistema legislativo
indispensável à penalidade. Nisso, formula-se que a exigência
à qualidade da linguagem é diretamente proporcional à
densidade demográfica.
Jung (2005, p.224), de modo excepcionalmente poético,
argumenta que o mundo tornou-se desumanizado por meio
do entendimento científico. Que afastou o homem de sua
condição selvagem, da simbologia emanada na experiência
emocional com os eventos naturais: “Nenhum rio contém um
espírito, nenhuma árvore simboliza a vida de um homem [...] A
sua comunicação imediata com a Natureza desapareceu para
sempre”. O pensador suíço põe-nos diante dum sentido
empírico imediato à essência dos fenômenos, tal como árvores
milenares são portadoras do poder de transmitir e transfigurar
— percepção excêntrica ao senso comum.

22
Desta interlocução, toda sociedade demasiadamente
artificializada tende a produzir indivíduos com padrões de
condicionamentos atípicos. Carl Jung, em reunião com o índio
Ochwiay Biano, chefe dos pueblos, encontrou indícios do
ponto vulnerável da civilização. Perguntou-lhe porque pensava
que todos os brancos eram “loucos”. E o diálogo prosseguiu:

–– Eles dizem que pensam com suas cabeças.


–– Mas naturalmente! Com o que pensa você? – indaguei admirado.
–– Nós pensamos aqui – disse ele, apontando o coração.
“Esse índio pusera o dedo naquilo em que somos cegos”.
(JUNG, 2006, p.293)

Difícil definir em que grau ou modo alguém se encontra


condicionado por seu ambiente – agrário ou metropolitano –
salvo quando o sujeito, por alguma luz, indaga-se sobre as
possíveis formas de manipulação no sistema. Igualmente à
arte, a experiência empírica (influenciada ou influenciando)
sempre se sujeita a alguma análise individual, implica em
política seletiva, onde o julgamento parece perigoso.
Drummond,8 numa crítica literária dirigida à poetisa
Margarida Botafogo, endossa que, “toda vez que pedem
minha opinião sobre poesia, entro em pânico”. Ele não sentia
autoridade para julgar o que é ou deve ser; alva essência de
uma individualidade tal como se manifesta: “Os juízos pessoais
são tão precários! Os poetas não obedecem à orientação
alheia. Não podem obedecer. A mágica brota do fundo do ser.
Pouco importa que seja ignorada de uns, mal vista de outras.”
Tecendo a harmonia ótica entre Jung e Drummond, onde
espírito e sujeito são o cerne da discussão, tais registros
profetizam o quão específica se encerra a análise da arte e
suas linguagens sensoriais.

8
ANDRADE, Carlos Drummond, <http://www.antoniomiranda.com.br> – poetas do
Rio de Janeiro: Margarida Botafogo – acesso em 01/10/2017.
23
Nesses subsídios, Moisés (1982, p.20) embasa que o
simples enquadramento do artista na história não o obriga a
viver a tendência de estilo épico, ditada na superfície social. A
Arte está condicionada por seu tempo (FISCHER, 1979, p.17),
representa as aspirações da humanidade em recortes no
espaço-tempo. Mas a arte também pode transcender
condições históricas, simbolizando algo bem além das
representações recortadas.
Pois Aristóteles (2003, p.43) registra que não cabe ao
poeta descrever minuciosamente a sucessão dos
acontecimentos, e sim o que poderia ter sucedido, valendo-se
do grau representação mímica ou necessidade. Poeta e
historiador não se distinguem, caso este escreva em prosa e
aquele em verso. Os escritos dos poetas e historiadores
possibilitam a vivência de processos espirituais, ampliando a
percepção para além do plano real (BODEI, 2000, p.87),
todavia, a poesia é de caráter mais filosófico e elevado que a
história; enquanto o leito da poiesis jaz no universal, a história
se restringe no viés particular.
Schopenhauer (2001, p.75) alude que o poeta apreende
a ideia essencial humana na ‘objetividade da coisa-em-si’, num
nível mais alteroso do que o historiador, porque o núcleo de
todos os invólucros fenomenais jamais se desintegra, sendo o
verdadeiro desdobramento da essência encontrado por quem
almeja a busca, havendo muito mais lucidez na poética do que
na história, por mais paradoxal que possa parecer.
Poetas transcendem fatos cronológicos, recriam a
linguagem para significar um mundo mutante. Para tanto, eles
precisam transpor sua própria praia além das convenções fixas
às culturas locais, expondo, em dados casos, o absurdus. Jung
(2005, p.156) destaca que o grande homem faz história, não se
contenta com sua mera casinha erigida no subúrbio — postura
dinâmica que sugere deslocamento pelos espaços geográficos
e psíquicos.
24
1.2 O curso do pensar poético
Cronologicamente, adoto o escopo de partida na
fórmula da antiga Grécia, sendo a imitação, embutida no
instinto da natureza humana, a tendência que nos captura
desde a tenra infância. Imitando, adquirimos a língua e suas
representações simbólicas e psicológicas, tais como cadáveres
ou bestas-feras. Havendo, assim, três formas de imitação
poética: representar situações melhores ao que são na
realidade; piores do que são; ou iguais 9 (ARISTÓTELES, 2003,
p.26).
A fórmula imitativa com elixir artístico, todavia, fora
contra-argumentada por Platão. Que impôs restrições severas
à dialética de Sócrates quanto à função das artes,
considerando-as, sob o pensamento metafísico, como
frequentemente corruptoras, tentando mesmo excluí-las por
inteiro, justificando que elas eram meras cópias da autêntica
realidade constituída nas Formas.
Pontua Sócrates (in: ROUSSEAU, 2002, p.27) que os
artistas, poetas, oradores – incluindo sua autoria – não sabem
o que é o verdadeiro, bom e belo. Há apenas diferença
daqueles que nada sabem e julgam saber e os que nada
sabem, porém não têm dúvida. Sob sua alínea “De sorte que
toda essa superioridade de sabedoria que me foi concedida
pelo oráculo se reduz apenas a estar bem convencido de que
ignoro o que não sei”, podemos exportar o modo de se pensar
a arte poética como um modo de saber ser.
O pensamento poético ilustra uma perspectiva mais
ampla que pessoal. Schelling, discípulo de Fichte e criador do
idealismo absoluto, considerava a história do homem inerte
numa escalada progressiva em direção à consciência de si

9
Na Arte-Marcial Kung-fu os monges treinam diversos estilos, imitando animais
(macaco, serpente, garça, entre outros) iguais ou melhores à realidade.
25
mesmo, do Absoluto, sendo que a arte estaria como estágio
essencial na revelação desse ideal absolutista (ibid., p.224).
A reinvenção artística não é um processo puro ou
incólume, pode resultar em obras repletas de convenções
simbólicas. Trazendo Pound (1973, p.42), os imitadores podem
ser medianos Beletristas, ou até Diluidores da arte, presos às
amarras conceituais. E endossa Schopenhauer (2001, p.66) que
conceitos não criam uma obra legítima, sorvida diretamente da
Natureza. Na poesia (ibid., p.71), o conceitual é o material que
dá lugar ao intuitivo, às alegorias surpreendentes.
Rudolf Steiner (2011, p.102) sugere uma esfera de
intuição superior, cujo conteúdo determina-se na intenção
dum ‘sistema ideal’, pensamento preenchido a priori, oriundo
da razão empírica e aplicado à apreensão — diretrizes
intuitivas que desaparecem quando influenciadas por ideias
e/ou percepções.
Para Schopenhauer, idem, a intuição enquadra-se num
estado não conceitual fundamental para a apreensão da
poiesis. Suas laudas aludem:
Assim como o químico, partindo de líquidos completamente
claros e transparentes, obtém por sua mistura precipitados
compactos, assim o poeta, partindo da generalidade abstrata
e transparente dos conceitos, pelo modo de combiná-los, sabe
conduzir ao concreto, ao individual, à representação intuitiva.
Pois a ideia é conhecida somente intuitivamente; e o
conhecimento da ideia é o objetivo de toda arte. A maestria
na poesia, como na química, toma capaz de obter sempre o
precipitado almejado. A este fim servem os muitos epítetos na
poesia, com que se restringe a generalidade de todo conceito,
até tomá-lo apto de apreensão intuitiva. Homero acompanha
quase todo substantivo de um adjetivo, cujo conceito corta a
esfera do conceito daquele, diminuindo-o consideravelmente,
com o que já de muito se aproxima da intuição
(SCHOPENHAUER, 2001, p.74).

26
Nesse panorama, a arte imanente na natureza retorna à
esfera ontológica. Gotswami 10 (2002, p.247) cita um nível de
consciência empírica onde o “Eu” não mais se separa do meio,
podendo alcançar o máximo de identidade ao transcender a
forma humana. Traz à tona trechos de poetas, como Wallace
Stevens, T.S. Eliot, ou Tagore (ibid., pp.230-232-290), e,
copiosas vezes, atenta-se à criatividade interior. Essa
consciência subjetiva intenta superar a dualidade imposta pela
ditadura do Ego. Tal processo de interação indivíduo &
consciência cósmica se intensifica com a meditação, prática
estruturada na Plena Atenção. Sustenta, todavia, que esse
conhecimento é adquirido por métodos ilógicos, sendo, senão,
pura intuição:
O antropólogo Gregory Bateson notou a semelhança entre a
técnica do koan 11 e o dilema. O dilema neutraliza o ego, ao
paralisá-lo. O ego-self não pode lidar com a oscilação nenhum
vencedor de uma opção a outra em uma situação como a
seguinte: se você diz que este cachorro é Buda, eu lhe darei
um soco. Se disser que este cachorro não é Buda, eu lhe darei
um soco, e se não disser coisa alguma, eu lhe darei um soco.
(GOTSWAMI, 2002, p.279)

Steiner (2011), outrossim, lança uma linha de


pensamento antroposófico, para além da lógica. Usa subsídios
da linguagem num plano sujeito a mudanças diacrônicas para
expressar a plataforma dos signos. A qualidade da arte, nesse
caso, intensifica-se na proporção do nível de espiritualidade,
deslocando-se para além da esfera científica. O filósofo poeta
enuncia:

10
Amit Gotswami [1936 ~ ... ] agrega a espiritualidade ao cientificismo da Física
Quântica. Ciência que acusa o sujeito (consciência observadora) responsável por
alterar dados de medição de uma partícula: não sendo possível aferir sua velocidade e
localização simultaneamente.
11
Ler APÊNDICE: “Nota sobre o Koan”. Para obter informações científicas sobre prática
meditativa leia GOUVEIA, Koguen; Portais Búdicos: o caminho na natureza da mente
una, São Paulo: Garcia Edizioni, 2016.
27
O artista busca incorporar no material dele as ideias que são
seu Self, em que ele pode reconciliar o espírito que vive
dentro de si e o mundo exterior. Ele, também, sente-se
insatisfeito com o mundo de meras aparências, e busca
moldar na obra algo mais que seu Self provê e que transcende
aparecimentos. O pensador pesquisa as leis dos fenômenos.
Ele se esforça para dominar através do pensamento o que ele
experimenta através de observação. Só quando nós
transformamos o mundo-conteúdo em nosso pensamento-
conteúdo é que recapturamos a conexão a qual tínhamos
rompido. Veremos depois que esta meta só pode ser
alcançada se penetrarmos muito mais profundamente do que
é frequentemente empregado na natureza do problema do
cientista (STEINER, 2011, p.27 tradução do autor). 12

No universo poético, o valor científico consiste na


capacidade de emergir falhas de nosso bom senso,
possibilitando o aprimoramento da linguagem de seus mitos.
Neste ínterim os filósofos, poetas, xamãs, e místicos são
tradicionais ‘cientistas da mente’ (CLAXTON, 1995, p.23).
Perspectiva que os liberta das fronteiras do conceito quando
permitem indagações que o ‘bom senso’ jamais ousaria, pois,
se ousasse, as descartaria por parecerem “ridículas” ou
“absurdas” demais para serem aceitas.
A poiesis se difere peculiarmente das demais expressões
artísticas, nas quais a desorganização ainda emite algum
significado. A análise poética exige uma descrição
microscopicamente biológica das palavras (POUND, 1973,
p.23), donde lexemas e sintagmas agregam poderes
simbólicos vitais, aptos a transmitir a solução de um enigma.

12
The artist seeks to embody in his material the ideas which are his Self, that he may thus
reconcile the spirit which lives within him and the outer world. He too, feels dissatisfied with the
world of mere appearances, and seeks to mould into it that something more which his Self supplies
and which transcends appearances. The thinker searches for the laws of phenomena. He strives to
master by thought what he experiences by observation. Only when we have transformed the
world-content into our thought-content do we recapture the connection which we had ourselves
broken off. We shall see later that this goal can be reached only if we penetrate much more deeply
than is often done into the nature of the scientist's problem.
28
Mourão (2000), apoiando Pound, orienta-se na finalidade
fundamental da literatura: a beleza da verdade. Magia
mensageira incompreensível pela lógica. Ela apenas revela, e
isto é tudo. Referindo-se à advertência de Lautréamont, o
autor reforça o eixo aristotélico quando argumenta:
A missão da poesia é difícil. Ela não se mete nos
acontecimentos da política, na maneira pela qual se governa
um povo, não faz sequer alusão aos períodos históricos, aos
golpes de Estado, aos regicídios, às intrigas da corte. Não trata
nem mesmo das lutas que excepcionalmente o homem trava
consigo próprio, com suas paixões. O que ela faz é descobrir
as leis que dão corpo e vida à política teórica, à paz universal,
às refutações de Maquiavel, aos corneteiros da obra de
Proudhon, à psicologia da humanidade (MOURÃO, 2000).

Registra Greene (2006, p.112), que esse insondável


sentido poético remete ao simbolismo da Natureza, sintetizada
em maiores dimensões. Elegância, complexidade e pluralidade
dos fenômenos formam o conjunto de leis universais que os
cientistas costumam alegar para se referir à “beleza”. Assim, o
“pensar em poesia” só existe enquanto integração totalitária –
cérebro-corpo-alma-mundo – donde o sentido do Todo
interdepende às funções das Partes.
José de Alencar (2002, p.96) infere que a observância às
linguagens primitivas da Natureza é a fonte para saciar a sede
do poeta (brasileiro): “O conhecimento da língua indígena é o
melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá
não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do
selvagem”. Pela imersão às imagéticas naturais, o espírito
poético pode transfigurar-se e emergir.

29
_____ { I I } _____

O EIXO:
INDIVÍDUO, LINGUAGEM, MUNDO

Não é exagero dizer que um chimpanzé mantido na


solidão não é um chimpanzé de verdade.
WOLFGANG KOHLER

O fulcro de investigação deste eixo nos coloca numa


tabula rasa para o levantamento das reflexões. Imediatamente,
encontramos, então, o mais potente paradoxo, pois a ausência
de dados absolutos leva à anulação da própria tabula rasa — a
literatura, entretanto, não é suspensa no vácuo, havendo a
escrita como matéria-prima leal à análise das competências
linguísticas (POUND, 1973, p.36).
Segundo subscreve Heidegger (2000), a linguagem
representa, ao hominídeo, mais que um veículo de
comunicação; nela contemplamos um caminho no qual
necessitamos trilhar, cuja essência reflete sentidos além do
mundo materialmente presente. Ela compõe um universo de
significados criados, sendo vitais por sua exacerbada utilidade
ontológica:
A linguagem é o recinto (templum), ou seja, a casa do ser. A
essência da linguagem não se esgota na significação, nem é
algo conectado exclusivamente a signos e a cifras. Sendo a
linguagem a casa do ser, podemos aceder ao ente apenas
passando constantemente por esta casa. Se vamos a uma
fonte, se atravessamos um bosque, atravessamos já sempre a
palavra “fonte”, a palavra “bosque”, ainda que não
pronunciemos estas palavras e não nos refiramos a nada de
linguístico [...]. No caso de algum lugar, é unicamente nesta
região que poderá acontecer aquele revolvimento da
dominação dos objetos e da sua representação no mais
interior do coração (in: BODEI, 2000, p.179).

30
Ainda não podemos delinear, conquanto, em que grau
ou modo a linguagem & cognição estão entrelaçados, seus
progressos não seguem em linhas emparelhadas. As trajetórias
oscilam sem manter uma cadência paralela e permanente,
embora, em certos instantes, elas se fundam. O curso
intelectual segue, ora aliado, ora indiferente à linguagem. A
curva de seus desenvolvimentos – filogenético ou
ontogenético – se cruza copiosas vezes, e se afasta novamente
(VYGOTSKY, 2002, p.26).
Vygotsky (ibid., p.83) discursa que não há interação
específica entre as raízes genéticas do pensamento e da
palavra. Os dois elementos não são independentes e
estabelecem uma mútua e íntima influência, praticamente
confundível. Ele frisa um trecho do poema de Mandelstham,
que escreve “Esqueci a palavra que pretendia dizer e o meu
pensamento, desencarnado, volta ao reino das sombras”. E
prossegue:
Qualquer evolução do significado de uma palavra é impossível
e inexplicável – consequência esta que constitui um handicap
tanto para os linguistas como para os psicólogos. A partir da
altura em que se comprometeu com a teoria da associação, a
semântica persistiu em considerar o significado da palavra
como uma associação entre o som e o conteúdo. Todas as
palavras, desde as mais concretas às mais abstratas, surgiam
como sendo formadas da mesma maneira, relativamente ao
seu significado, parecendo não conter nenhum elemento
característico da fala enquanto tal; uma palavra fazia-nos
recordar o seu significado tal como um objeto nos recordava
outro objeto (VYGOTSKY, p.84).

Nem a escola de Psicologia Gestalt logrou quaisquer


progressos na associação entre pensamento e linguagem. Ela
buscou comparações com as operações intelectuais dos
chimpanzés nas experiências de Koehler, na qual o pau se
torna parte estrutural para obtenção do fruto e adquire o
significado funcional de ‘instrumento’. Já não se estabelece a
31
conexão entre palavra e significado como uma mera
associação, mas como questão de estrutura (ibid., p.86).
Representou um leve avanço, embora ilusório, já que segue
girando no mesmo sítio.
Tal como a maleabilidade da água em seus três estados
(sólido, líquido, gasoso), a linguagem adquire nome e forma
no cérebro, classifica e generaliza mundos, recorta a realidade;
possui autonomia própria num movimento que, teoricamente,
é determinado à conveniência do homo sapiens. Assim como a
imagem da lua refletida num lago não é Lua, a linguagem está
no mundo, mas não é o mundo. Ou será que a linguagem –
sobretudo a poética – pode desvendar as gêneses do
inexorável? Talvez jamais saibamos. Ou sentimos em algum
nível inconsciente, com a condição de que nunca poderemos
decodificar.

2.1 O entorno inerentemente humano


A existência da linguagem foi questionada no seio de
outras espécies animais como ‘veículo de comunicação’ ou
‘ferramenta para reinvenção dos processos’.
Von Frisch mapeou o comportamento das abelhas, para
determinar o uso da linguagem na localização do néctar.
Terwilliger (1974, p.18) constatou que as abelhas não
cometerem erros na dança e suas comunicações nunca são
enganosas, daí, inferiu que elas não dispõem de linguagem.
Completando que a ineficiência da linguagem em certos
animais se torna evidente, por exemplo, quando se toma o
percurso da fala de um papagaio (ibid., p.19).
Claxton (1995, p.76) aponta que antes do aparecimento
da linguagem verbal, a percepção das intenções dos
indivíduos (incluindo a de expor ou ocultar as suas próprias) já
se encontrava bastante avançada: nas variações da postura
corporal; expressão facial; entre outros comportamentos. Com
32
efeito, muitos desses sinais, e suas reações, foram
desenvolvidos ao longo do tempo, incorporando-os ao código
genético. Os primatas, por exemplo, conseguem aplicar a
linguagem não verbal para enganar e desorientar, assim como
para informar. 13
Discursa Vygotsky (2001) que, no plano filogenético, o
ser humano possui capacidade de se apropriar da linguagem,
moldando-a ao ambiente; já no plano ontogenético está
determinada a ‘agenda’ da espécie, do nascer ao morrer. O
discurso interior se interage com a qualidade da linguagem
que a pessoa assimila ao longo do desenvolvimento
sociogenético:
A relação entre o homem e o mundo passa pela mediação do
discurso, pela formação de ideias e pensamentos através dos
quais o homem apreende o mundo e atua sobre ele, recebe a
palavra do mundo sobre si mesmo e sobre ele-homem, e
funda a sua própria palavra sobre esse mundo (VYGOTSKY,
2001, p.12).

Para Bahktin, o dialogismo é constitutivo da linguagem,


sendo a palavra produto da reciprocidade entre dois
interlocutores. Cada léxico expressa a unidade do indivíduo em
relação a outro. A pessoa verbaliza-se a partir da ótica da
comunidade que pertence. O ‘Eu’ se constitui com a
constituição do ‘eu’ do outro, e assim sucessivamente (in:
KOCH, 2005, p.64).
Língua e linguagem são fixadas como parte integrante
duma cultura, estabelecem identidade social, mas não
representam A Cultura. Uma das maiores quimeras referente
ao ‘choque cultural’ para quem nunca viveu em país estranho
está na ilusão de que “O idioma é o principal problema a ser

13
O etólogo John Krebs descreve a evolução de sistemas de sinalização bastante
complexos entre as aves, dentro de seu contexto evolutivo. KREBS, J., The evolution of
animal signs, Blakemore e Greenfield, p.163.
33
resolvido”. A comunicação, claro, apresenta-se como
prioridade indiscutível, entretanto, os elementos de adaptação
aos aspectos invisíveis e o apego à terra natal aparecem como
desafios ainda mais pungentes para o estrangeiro — ademais,
poucos desconfiam que o choque entre culturas pode começar
com sua vizinhança ou, ainda, em sua aula de alemão para
alunos de mesma língua materna. 14
O propósito último da linguagem é intercâmbio social;
não há possibilidade lógica de uma linguagem
verdadeiramente privada (TERWILLIGER, 1974, p.31) –
inferência aceita universalmente.
O neurologista J. Hughlings Jackson (in: CLAXTON, 1995,
p.70) sintetiza a indispensável função da linguagem quando
maximiza com classe “Falamos não apenas para dizer o que
pensamos aos outros, porém para dizer-nos o que pensamos”.
Deste substrato salutar, infere-se que a língua tem como
função primária a comunicação cerebral para evitar um
colapso interno, visando a autocompreensão nos processos
{cuja nulidade de signos [tabula rasa] só se sacramentaria por
gestos primitivos a âmbito animal (VYGOSTKY, 2002, p.9)}.
Descendo ao nível dos axônios e neurônios, trata-se de
prioridade máxima! Ou a pessoa comunica consigo própria ou
ela enceta um célere processo de demolição psíquica.

2.1.1 Portadora de signos


Terwilliger (1974, p.23) sustenta ser pertinente estudar a
linguagem porque, sendo mediadora, ela pode apontar
indícios de comportamentos extremamente sutis. Por meio
dos códigos, a linguagem exerce o papel de transmissão e
classificação, seja quanto a objetos ou a fenômenos sensoriais.

14
GOUVEIA, Alexandre M. S., Perspectiva (inter)cultural: ensinar e aprender inglês sob a
dimensão da língua e linguagem. São Paulo: Estácio/Bridge(EUA), 2015. Pesquisa
apresentada para o título lato-sensu em Ensino de Língua Inglesa.
34
O estudo da língua/linguagem implica na investigação
do funcionamento encefálico, no mínimo sobre fundamentos
da neuropsicologia. Mas a linguagem das enzimas, hormônios,
organelas e et cetera não servem à tarefa macrocósmica,
vamos discursar um mote que só complica o problema.
Para planificar, a língua é um órgão socialmente vivo;
pertence a um grupo e se manifesta no fluxo de seus usuários,
sob códigos orais ou escritos. Ela nasce, morre, e, tal qual todo
fenômeno, sofre perenes mutações. O código escrito é uma
espécie de “documentação” linguística, patrimônio para
assegurar sua ordem convencional, sem o qual as balizas
seriam dispersas e liquidificadas.
Ao nascemos, nos apropriamos do idioma, já pronto no
ambiente sob norma culta ou vulgar. Por volta dos três anos, a
criança aplica a fala egocêntrica; que é um ponto de
desenvolvimento para assimilação idiomática (para Piaget, a
fala sai do sujeito – para Vygotsky, a fala ingressa no sujeito).
O ponto mais desenvolvido da língua se dá no discurso
interior, quando incorporamos o sistema simbólico ao
pensamento, sem que seja necessário uma oralização verbal
dos códigos.
Nessa instância, códigos isolados nada significam, exceto
se incorporados ao mundo dos signos. Vygostky diz “Uma
palavra que não representa uma ideia é uma coisa morta, da
mesma forma que uma ideia não incorporada em palavras não
passa de uma sombra” (2002, p.107).
Na escola psicológica vygotskiana (ibid., p.9), constata-se
que, na ausência de um sistema de signos – linguísticos ou não
– somente um tipo primitivo e imediato de comunicação é
acionado: tal qual se observa-se nos gansos que, quando
ameaçados, alertam o bando com grasnidos.
A linguagem é portadora de signos, que diz respeito à
ordenação, generalização, e convenção de cada significado. As
funções psicológicas de elevado grau são mediadas pelos
35
signos, tanto para dominar ou orientar (ibid., p.42). Na gênese
de um conceito, o signo é a palavra que desempenha papel
mediador, transformando-se, ulteriormente, em símbolo.
Os fenômenos só podem ser explanados ou
compreendidos numa esfera sígnica que, por sua vez, somente
pode ser acessado por meio de textos, isto é, das linguagens
implantadas nas múltiplas Ciências. Bakhtin assevera “Não há
possibilidade de chegar ao homem e sua vida, senão através
de textos sígnicos criados ou por criar”. E as alíneas
bakhtinianas firmam que só há dialogismo nas Ciências
Humanas porque o outro sujeito se posiciona numa forma
heterológica de conhecimento (ibid., p.18). Firmamento que,
na análise vygotskiana quanto aos sistemas primitivos de
representação sígnica, a comunicação ocorre numa
modalidade ‘simplificada’, valendo-se de sinais imprescindíveis
à vida, tais como: “seguir”, “parar”, “segurança”, “perigo”,
“aceitação”, “rejeição”.
Luria (in: CASTORINA et al p.67) destaca que o
desenvolvimento posterior ao processo de alfabetização
abarca a assimilação dos sistemas simbólicos da escrita
elaborada em dada cultura, sob utilização de símbolos para
apressar e exemplificar o fenômeno de recordação –
enunciação sobre o laço de desenvolvimento entre
língua/linguagem & mediação simbólica.
Piaget observou que, para a criança, a palavra é parte do
objeto ou, pelo menos na mente dela, não a distingue do
objeto de referência. Para a mente dum adulto, geralmente, a
palavra se distingue do objeto (in: TERWILLIGER, 1974, p.92).
Registro revigorado por Vygotsky (2002, p.34), explanando que
a criança apreende a função simbólica das palavras por meio
das perguntas, onde o aprendizado dos signos ocorre
associando palavras a objetos — ponto de encontro da
trajetória do desenvolvimento entre linguagem & pensamento.

36
2.1.2 A complexidade do agregado linguístico
Costuma-se concluir, por antecipação, que a
complexidade de um agregado linguístico se constitui da
soma de conexões simples. Terwilliger (1974, p.21) diz “Essa
presunção é manifestamente errônea, pois o ‘somar’ não leva
em conta a ordem necessária das partes”. Há numerosos
processos sequencialmente ordenados sobre os quais
ignoramos todos.
Para Bacon (2001, p.7), a natureza é o habitat da
linguagem, cuja complexidade é diretamente proporcional ao
seu tamanho. O filósofo sustenta que “A natureza supera em
muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto. Todas
aquelas belas meditações e especulações humanas, todas as
controvérsias são coisas malsãs. E ninguém disso se apercebe”.
Tal aforismo [aliado a Terwilliger supracitado], combina-se
com o adágio socrático “Só sei que nada sei”.
A complexidade da linguagem existe em função do
entrelaçamento dos agregados nela coexistentes. A operação
mental na linguagem do senso comum expõe palavras
traduzidas em vivências, esperanças, medos e anseios;
entendimento aparentemente simples a partir do “bom senso”.
Paralelamente, as operações cerebrais são processadas sob
linguagens dos neurônios, axônios, estruturas ribonucléicas e
reações eletroquímicas que descem a nível subatômico: tal
compreensão científica clama a análise das ‘partes’ atrelando
módulos subjacentes ao Todo. Claxton diz:
Os seres humanos são sistemas, e uma das coisas que isso
implica é terem propriedades em níveis ‘superiores’ de
organização não previsíveis ou explicáveis em termos das
propriedades dos níveis ‘inferiores’. Em cada nível de discurso
precisamos de uma nova linguagem para falar de ‘totalidades’,
uma linguagem fundamentada na linguagem das ‘partes’, mas
apta a dizer coisas que a linguagem das ‘partes’ não é capaz
de dizer (CLAXTON, 1995, p.50).

37
Nos princípios de Croft & Cruse (in: FIT, 2010, p.78) “A
linguagem não é faculdade cognitiva autônoma”, i.e., ela não
opera sozinha, e só se justifica por sua interconexão com
infindos sistemas. Esse mosaico de atalhos exorbita em um
labirinto de detalhes interdependentes, então inconcebível à
capacidade dos mortais. Que acabam se infiltrando numa
temática de dimensão incabível dentro do encéfalo, pelo
menos em termos cartesiano pelo isolamento das ‘partes’.
Tal como alegara Sherrington (1963) “Tudo se ajusta
simultaneamente”. Podemos perceber, no máximo, que existe
uma ‘missa, com monges, clérigos, e congregação orando pela
vida & morte dos seres’, porém, o que ocorre lá no além não
se transporta para cá.
Assim sendo, a língua/linguagem propicia alguma
competência cognitiva aliada às percepções sensoriais,
psicológicas e motoras. Mas não há uma linha divisória que se
possa assegurar “Aqui começa a atuação linguística e, ali,
finda”. No sentido lato ou stricto, há fenômenos acessíveis e
controláveis, enquanto outros escapam à percepção imediata
de nós, terráqueos.

2.1.3 Organizadora de processos cognitivos


Terwilliger (1974, p.23) argumenta que a autonomia da
linguagem (enquanto capacidade organizadora de processos
cognitivos para compreensão de sistemas) sugere algo de
“longo alcance”. Nessa amplitude, cada pessoa reproduz o seu
modo de viver, pensar, bem como as demais atividades
cognitivas segundo uma natureza linguística — se você nasceu
na França e fala francês, porém possui um linguajar vulgar e
não aquilata teu vocabulário, ao aprender qualquer outro
idioma tu reproduzirás um nível linguístico com equivalência
bem próxima à tua língua materna.

38
O trabalho com a dimensão cognitiva e metacognitiva da
linguagem – alega o linguista Lima (2009, p.108) – visa
contemplar “a autonomia e o uso de estratégias como objeto
principal do ensino”; prevê a compreensão, pelo discente em
exercício escolar ou acadêmico, da capacidade de controle
sobre seu pensamento e aprendizagem. Já a linguista Koch
(2005, p.31) sustenta que a produção textual, dentro da
concepção de língua/linguagem, é uma atividade
interindividual, e deve ser entendida como um processo
sóciocognitivo.
Focando Vygotsky (2002, p.3), todas as atividades
cognitivas fundamentais do indivíduo ocorrem de acordo com
sua vida social e acabam se constituindo no produto do
desenvolvimento histórico-social de sua comunidade. História
que favorece melhores percepções do mundo segundo seu
formato estrutural: “A estrutura da língua que uma pessoa fala
influencia a maneira com que esta pessoa percebe o universo”
(ibid., p.2). Esta fórmula sugere que a linguagem não é,
necessariamente, a causa da cognição de alguém, mas sim
uma ferramenta de organização simbológica.

2.2 O paradoxo da linguagem


Mas a linguagem – seja qual for a sua natureza – possui
uma luz indissociável da sombra, exatamente como ocorre
com a matéria ou psique. Com efeito, suas funções tanto
favorecem a constituição do indivíduo e da sociedade, quanto
podem, segundo o funcionamento da biologia mente-cérebro,
traçar caminhos à formação de conceitos, manipulando, assim,
o seu próprio usuário.
Claxton (1995, p.86) explana que a linguagem, projetada
puramente como ferramenta social e baseada em
subcategorias, revela-se como a chave para a solução do
problema de comunicação interna do cérebro. Cada palavra

39
ativa um conjunto antes que o indivíduo receba a informação –
para salvar sua vida, caso você veja um TUBARÃO, por exemplo:
e este é o instante exato onde se dá a fixação do conceito,
organizado-os em categorias. Nisso, a natureza da linguagem
faz com que o sistema mente-cérebro produza tendências,
nem sempre melhores, tais como os estereótipos.
William Croft & Alan Cruse (in: FIT, 2010, p.78) ressaltam
que a Linguística Cognitiva vale-se dos ‘conceitos’ para estudar
a linguagem: “gramática é conceptualização”. É da natureza da
linguagem representar enganosamente o mundo, e se
recordarmos que precisa ser assim para usufruirmos sua
utilidade, então ela será boa aliada, mas se ignorarmos suas
representações, teremos uma inimiga encrenqueira.
Os conceitos em sua matéria-prima linguística foram
extraídos de mentes-cérebro dos ancestrais, quando o modus
vivendi geralmente mais simples que na modernidade. Assim,
somos forçados a vislumbrar uma percepção ultrapassada da
realidade. O psicólogo Edward De Bono comenta sobre o lado
sombrio de nossa constituição:
A linguagem é um museu da ignorância. Cada palavra e
conceito entraram na linguagem em um estágio de relativa
ignorância com relação a nossa maior experiência atual. Mas
as palavras e conceitos ficaram permanentemente congelados,
e devemos usar as palavras e conceitos que tratam da
realidade atual. Isto significa que podemos ser forçados a
avaliar as coisas de maneira bastante inadequada (apud
CLAXTON, 1995, p.95 grifo do autor).

Snyder (2005, p.269) alude que, no Ocidente, ficou


definido popularmente que a linguagem é uma “ferramenta
organizadora de caos”, crendo-se que quanto mais
objetividade e racionalidade houver em seu uso, mais acurado
será o exercício de conferir ordem ao mundo. Mas o mundo,
agrupado sob normas imperscrutáveis, é tão vasto em escala

40
micro/macro cósmica que sua compreensão só se pode
conceber em níveis transcendentais de consciência.
Professor Snyder – tal qual De Bono e Huxley – denota
que o mundo natural, inclusive o das línguas humanas, é
padronizado segundo seus próprios mecanismos selvagens.
Enquanto a linguagem parece orientar numa direção linear ao
alcance de objetivos, ela restringe, adstringe, circunscreve a
nossa noção perceptiva e, possivelmente, nos desorienta: “O
cardápio não é a refeição”. A política adequada consiste em
considerá-la como veículo livre à introspecção transcendental,
sem vínculos, reconduzindo-a a uma vivência imediata, sem
interferência mediadora.
A linguagem fragmenta a unidade do orbe que, por
coesão, é isento de remendos; ela transfigura-o em múltiplos
matizes focados numa janela em tons preto & branco.
Enquanto o mundo não passa de mudança, a linguagem fixa
em alto relevo uma estrutura congelada, cimentando
categorias atinentes ao mundo sensorial. Na câmara escura do
cérebro, urge a identificação de ‘nomes’ e do operador
denominado “EU”, mas cientificamente, só há neurônios e
conexões, isso, enquanto “lá fora” tudo se interage num
anonimado Tao. O eminente filósofo Aldous Huxley constata
que a linguagem é, no tocante ao funcionamento interno da
mente-cérebro, uma bênção ambígua:
Todo indivíduo é, ao mesmo tempo, o beneficiário e a vítima
da tradição linguística em que foi educado – beneficiário, pois
a linguagem dá acesso aos registros acumulados da
experiência dos outros, e vítima, pois ela o confirma na crença
de que a percepção reduzida é a única percepção, e perturba
seu senso de realidade, tornando-o ávido por aceitar como
dados os seus conceitos, suas palavras como coisas reais.
Aquilo que é chamado de... ‘este mundo’ é o universo da
percepção reduzida, como se tivesse sido petrificado pela
linguagem (apud CLAXTON, 1995, p.107).

41
A maneira como o encéfalo se comporta para estruturar
a linguagem não pode se tornar uma guerra interna. Porque
faz parte da natureza do cérebro, em sua batalha pela
sobrevivência, identificar padrões regulares de significados e
registrá-los como se fossem ‘apenas’ variantes do mesmo
assunto. Quando uma palavra é associada a um conceito, a
categoria torna-se mais nítida, e, nisso, fica difícil registrar as
experiências que não se ‘enquadram’ nas categorias já
existentes – o vocábulo “tijolo” está arquitetado entre centenas
de construções linguísticas; e qualquer intenção de mudar a
sua forma põe em risco a estrutura dos muros e edifícios da
cidade.
A estupidez humana diante dos conceitos fixos se
evidencia em fatos históricos. O americano Ernest Fenollosa –
docente em filosofia e políticas econômicas da Universidade
de Tóquio – encetou estudos fecundos sobre caracteres
chineses como veículo útil à poesia, manuscritos que ficaram
na Inglaterra após sua morte em 1908, e republicados com
muita dificuldade em 1936 por Pound (1973, p.24). Dessarte,
até que ponto a aceitação e convencimento de uma nova ideia
por um grupo social significa que este também não seja um
novo conceito?
A maior parte de nossa compreensão de mundo pode
estar, inconscientemente, equivocada; moldada ou manipulada
por um pré-conceito linguístico. A citar, a Física Quântica
prova de modo inequívoco que os parâmetros baseados na
Física Clássica para entender o mundo cotidiano perdem pleno
sentido no domínio subatômico (in: GREENE, 2006, p.62).
A impotência perante as linguagens, conquanto, não é
de todo pessimista. O sujeito [poeta] pode integrar razão &
sentimento emocional. Montaigne (2000, p.189), memorando
Tasso sobre a agitação pós-factual provocada pela vivência
com Eros, expressa que a poesia chega a encerrar algo mais
vívido que a realidade, mais amoroso do que o próprio amor.
42
2.2.1 Da linguagem não vernácula aos impulsos do corpo
Do mesmo modo que é incognoscível esboçar o
tamanho do oceano ao peixe que nunca saiu dum lago, é
impossível conhecer a si mesmo para quem nunca se atreveu a
ultrapassar as fronteiras de sua pátria. Goethe (in: VYGOTSKY,
2001, p.354) elucida “Quem não conhece nenhuma língua
estrangeira não conhece integralmente a sua própria língua”.
Silogismo que, em outros vocábulos, nos impulsiona a pensar
pela ótica de outra persona.
Nas pressuposições de Thompson (in: FIT, 2010, p.54), a
sociedade encontra-se tão imersa em valores forjados num
espetáculo de mídias propagandistas – sendo a língua a
principal ferramenta de convencimento – que a existência
capitalista engessa a ‘ideia natural’ de que mais vale “TER” a
“SER”. Nessa sociedade sensacionalista e ‘espetacular’, em dada
luz advinda das práticas didáticas, o docente pode perceber a
febre mundial pelo aprendizado do idioma da moda. Que é
adotado porque advém de uma nação com supremacia
econômica e, sobretudo, militar. Caetano Veloso critica:
Hoje, há muito inglês em tudo; acho que já chegou longe
demais. Não é apenas Shakespeare que, obrigatoriamente,
tem de ser reconhecido como o “maior” poeta que a
humanidade já viu. Talvez seja um dos maiores poetas, talvez
seja o maior; eu não sei, também não tenho cultura para
julgar. Mas o modo como isso nos é entregue não é aceitável
(in: FRANCA, 1999 – 28’15’’).

Tal crítica incita a reflexão da língua/linguagem em sua


autonomia mais insólita. Para o poeta Ruy Guerra (in: FRANCA,
1999, 05’50’’) os outros idiomas não têm o sabor da palavra
como na sua língua, a portuguesa. O compositor Arnaldo
Antunes considera-se muito ligado organicamente à língua
materna e não se vê transfigurando-a em outro idioma; para
ele, só faz sentido ser cidadão do mundo falando o português.

43
Infere, porém, sobre a enorme elasticidade que se pode
alcançar no âmbito da Arte (literária):
Essa questão de se fazer rock ou qualquer outro gênero é
muito mais uma questão de linguagem do que uma questão
de língua. Não é o código que vai determinar e sim o uso dele.
Se você quer fazer rock em português isso é totalmente
possível. Pode-se até subverter a natureza de um código, se
você tem um código mais... inadequado você tem como até
subverter isso através do uso que se faz. A língua você sempre
pode “torcer” ela, como você quiser, e essa torção é um
trabalho artístico (in: FRANCA, 1999 – 30’40’’).

A habilidade de “torcer a língua” para subverter os


sintagmas se aproxima da proposta pedagógica de Snyder
(2005); ciente que os poderes da linguagem podem ser
ampliadas por perspectivas mais abrangentes que as
ensinadas na educação formal, o autor modula a informação
sob um ângulo onde se observam ‘abordagens selvagens’,
abrindo a mente para entendimentos de mensagens
subliminares e transcendendo conceituações habituais. Com
ideias análogas a Bagno (1999), Pound (1973) e Sherrington
(1963), o poeta acadêmico subverte a ordem dos significados
sob os seguintes tributos:
{-1-}- A linguagem não é exclusivamente humana; e sim,
biológica e semicultural. {-2-}- A inteligência não é
desenvolvida pela linguagem; e sim, por meio de todos os
meios de interações humanas com o mundo. {-3-}- Não é a
linguagem que organiza o mundo; e sim, o mundo (e a mente)
é ordenado segundo seus próprios códigos e a estrutura
linguística reflete e condensa essa ordem. {-4-}- O domínio da
norma culta não delega a nossa capacidade para domesticar o
mundo da natureza e dos sentidos; e sim, quanto mais
permitirmos ao mundo revelar a si, sem interferências de um
ego ditador, melhor reconheceremos nosso lugar
interconectado com a natureza; e, {-5-}- A boa escritura não é
linguagem ‘civilizada’; e sim, linguagem ‘selvagem’.
(SNYDER, op.cit., p.274)

44
As descrições anteriores convidam o hominídeo ao
contato com o estado ‘nu’ e natural do mundo. Ótica tratada
por Schopenhauer (2001) na relação homem-natureza, tendo a
vontade como impulso basilar, culminada na libido, energia
primaz de preservação biológica, súpera a qualquer outra por
sua potência instintiva, linguagem superintendente que delega
movimentos prioritários. 15 Enquanto seres conduzidos pela
‘vontade de existir’, urge atender as necessidades
impreteríveis, e, então, as moduladas por puro capricho do
Ego. Esses “impulsos linguísticos” procuram nada mais que
perpetuação:
Também a natureza, da qual é essência íntima o querer-viver,
atira com todas as suas forças, tanto o homem quanto o
animal, à reprodução. Depois do que, quando obteve do
indivíduo o resultado que dele esperava, torna-se
absolutamente indiferente à sua destruição; porquanto na sua
qualidade de querer-viver, interessa-se unicamente pela
conservação da espécie, e nunca pelo indivíduo. Justamente
porque a essência íntima da natureza, a vontade de viver, se
pronuncia com força maior no instinto sexual, os poetas e os
filósofos antigos — Hesíodo e Parmênides — diziam com
muito acerto que Eros era o princípio primário, o princípio
criador donde veio tudo (SCHOPENHAUER, 2001, p.43).

Jung (apud CLAXTON, op.cit., p.37) amplifica o


argumento erótico – inquietação na qual somos subordinados
– conduzindo-o ao sentido universal do inconsciente coletivo.
Embasa que todo ser humano, seja qual for o seu nível de
desenvolvimento consciente, é ainda um ser arcaico nos
abissais de sua psique, espaço de inumeráveis origens arcaicas.
Nesse âmbito, talvez a poiesis seja, com suas inspirações

15
Na Teoria das Necessidades de Maslow os desejos são descritos em cinco níveis de
motivação, enquadrados numa ordem piramidal, a partir da base ao topo: fisiológica;
segurança; socialização; estima; e, autorrealização. A (in)satisfação de uma necessidade
gera reações psico-físicas. In: MASLOW, Abraham. Maslow no gerenciamento. Rio de
Janeiro: Qualitymark, 2000.
45
imediatas, mormente um requintado acessório linguístico; ou,
ainda, um estado espiritual indissociável, porém sempre
presente e atuante nos bastidores da existência individual,
aguardando para ser despertada.
A linguagem enquanto impulso biológico inato,
conquanto desponta como possança passível de treinamento
ou educação. Claxton (1995, p.24) explica que, isoladamente, o
conhecimento científico, por mais racional que seja, não
resolve as falhas subjacentes de nossa visão interior. Apenas
pode facilitar a aceitação do diagnóstico, incentivando a
procura por uma cura mais potente. Pouco vale a
compreensão intelectual do problema. São necessários
métodos radicais para purificar nossas percepções, já
incrustadas no corpo e condicionadas pelo apego aos
conceitos. Para isso então, é mister solicitar conselhos de
mestres espirituais competentes, detentores de koans severos
que visam aquilatar a ditadura do seu Ego.

46
_____ { I I I } _____

A RETÓRICA POÉTICA

Não há criação nem morte perante a poesia.


Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
C. DRUMMOND

O âmago do vocábulo “poesia” deriva do grego poiesis,


significando criar, ou, mais exatamente: A Arte da expressão
através de palavras; integrada ao vocábulo grego aisthesía
(estesia) que frisa a sensação da beleza estética. Poesia, nessas
proposições, se refere à habilidade de transcrever ou recriar
um estado de espírito, em exuberância vocabular, sobre as
sensações que se manifestam no fenomênico Cosmos —
realidade então interpretada em escalas qualitativas
(ARISTÓTELES, 2003, p.26).
Ao analisarmos uma poética, Moisés (1982, p.12), solicita
que se evitem dissabores duma postura radical e isolada, para
evitar que o autor, do ponto de vista gramatical, seja julgado
superior a outrem, porque, do ângulo lírico literário esse
tributo não funciona. A análise crítica do leitor, e da própria
crítica geral, bem como a da autocrítica, sempre se sujeita às
interpretações do sujeito (tributando valores culturais
invisíveis), e, por isso, este mote se torna infinitamente
discutível, varando noites na mesa de debate.
Esquivando-se duma caracterização vaga e diáfana,
perpetrei na retórica poética sob uma investida analítica
lacônica. Descrevendo quatro especificidades para a
qualificação da competência textual, enunciadas nos
subcapítulos a seguir:

47
3.1 Harmonia sígnica e musicalidade
Como diz Huizinga (1999, pp.148-149), não podemos
separar linguagem e palavra e poesia. A faina da linguagem
poética é o jogo com as palavras, de maneira ordenada e
harmoniosa, injetando mistério em cada um dos enunciados,
processo criativo que transforma cada imagem na solução de
um enigma. Embora possa ser fertilizada pela intuição, a
poiesis segue alguma lógica alusiva, donde a ordem linguística
exala a harmonia dos mundos.
Discursando Pound (1982, p.63), poesia é linguagem
elevada ao seu mais alto grau de significação, havendo três
modos de classificação: fanopeia (projeção do objeto em
imagens); melopeia (construções enfáticas à harmonia oral); e
logopeia (mixagem dos efeitos anteriores, fundindo emoção e
intelecto simultaneamente). O autor (ibid., p.61) adverte que “A
música apodrece quando se afasta muito da dança. A poesia
se atrofia quando se afasta muito da música”. Embora essa seja
uma atmosfera áspera de se julgar, o crítico conclui sem receio
que “Poesia é, essencialmente, música”; sendo a qualidade
poética enlevada quando alia lógica e imagética à
musicalidade.

3.2 A transcendência ideológica


Apesar dos paradoxos inevitáveis, parece ser consenso
quando uma inspiração poética transcende dogmas e
ideologias fanáticas. Sugerindo que a máxima significação
lírica tende a transcender partidos ou correntes doutrinárias:
um sectarismo inflacionado pela intolerância e discriminação.
A enunciação literária revolucionária é audaz, subverte valores,
causa estranhamento e atiça a crítica conservadora. Mourão,
extremamente católico, transcende a noção do pecado na
fanopeia EVA:

48
Adormecera à beira do riacho
e o sonho e a flor dessa maçã
da primeira saudade – do primeiro desejo do mundo
habitavam seu sono.
Despertara – e dela despertaram
um tato uns olhos um perfume
[...] – aflição e festa
de estrelas na pupila.
MOURÃO, G. M. (2000)

O registro supracitado exemplifica o poder do Eu lírico


em ocultar atributos da autoria, entre outras identidades
históricas. Nós, leitores, muitas vezes não conseguimos sequer
identificar a sexualidade autoral, e a expressão se torna tão
bem subvertida que, na prática, faz de poetas e poetisas
‘expeditos fingidores’, mestres impecáveis em fingir até a dor
que sentem, tecendo estratégias de fingimento com absoluta
artimanha científica, tal qual alega Fernando Pessoa em
Autopsicografia (2002, p.23).

3.3 Ensina-se poética?


Litigiosa, esta questão carece de respostas satisfatórias,
conquanto aceitáveis sob a ótica da boa vontade. A Arte
Poética une a sonoridade sintagmática para expor a zona
‘incompreensível’ da intuição, e, paralelamente, apropria-se da
lógica simbológica, com significantes e significados. O esforço
do mestre [ensinando arranjos avançados ou figuras de
linguagem] pode auxiliar o aprendiz a nortear suas
expirações... Ainda assim, a deusa Poiesis parece ser inacessível
por inúmeras razões, e talvez não possa ser ensinada em sua
origem mais refinada da ontologia.
Segundo asserções de Mourão (2000), enganam-se os
poetas que querem ensinar, de modo técnico e sistemático, a
assimilação da veia lírica:

49
Como o nosso bom e sofrido João Cabral, que escrevia seus
breves versos didáticos como se estivesse sempre ensinando,
pedagogicamente. Ele mesmo sabia que não era um poeta e
preferia ser chamado de “escritor de poesia”. Escritor, sim, de
poesia não. Seus textos devem ser didáticos, mas nunca
poéticos. Proferem instruções, ordens do dia, mas não
revelações. O mesmo equívoco ocorre com todos os outros
supostos poetas engajados (MOURÃO, Op. cit., 2000).

A poética pode ser estimulada, sua abordagem teórica


exposta, suas possibilidades técnicas descritas, caminhos
indicados, porém, jamais transmitida ou integrada como se
transmite uma tocha olímpica; visto que o hiato entre autor X
leitor e a disparidade entre fato X mito não é, integralmente,
entendida pelos canais lógicos e previsíveis.
Schopenhauer (2001, p.72) consolida essa asserção
firmando que, assim como as ‘conferências sobre moral’ nunca
poderão produzir um ser humano virtuoso, todos os tratados
de estética, incluindo-se o de Aristóteles, não lograrão sucesso
na criação de um poeta.
Estas seguras inferências não inviabilizam a atividade
pedagógica nos atributos da Poética. O mestre deve, num
processo (re)criativo para pupilos, indicar infindas soluções não
gramaticais a abrolhar em gêneros, constituindo-se numa forte
ferramenta para quebrar paradigmas e despertar o mar de
explorações textuais contemplados em diferentes perspectivas
da linguagem. O suprassumo Procura da Poesia (DRUMMOND,
2010, p.247) aponta pistas leais de revelação, para que
perpetremos surdamente no reino das palavras. É lá, nessa
‘zona de silêncio’, que se encontra a chave de acesso ao
mistério.
A manifestação lírica – liberta ontologicamente –
promove uma catarse à realidade, transformando-a em
múltiplas (des)construções àquelas apresentadas no espaço
material. Liberdade que quase sempre depende de maturação,
tempo, deslocamento de território geográfico. Nesse cunho,
50
Bandeira, 16 enquanto protesta contra a extrema formalidade
lírica, sugere absoluta prudência à postura analítica, deixando
uma lacuna livre para o leitor catalisar como bem anela. Isso,
sob absoluta audácia em Poética:
Estou farto do lirismo comedido
[ ... ]
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

E numa ótica contemporânea, brasileira, Alfaya considera


deplorável o quadro de isolamento a que chegamos,
sobretudo no setor da poesia. Poetas escrevem para poetas e
praticamente para mais ninguém. Já vi quem considere o fato
perfeitamente aceitável, mesmo desejável, e até acrescente
que a História mostra ter sido sempre assim, isto é, o público
ilustrado tem-se caracterizado por ser minoritário. Escritores
sempre produziram para elites intelectuais. Ora, naturalmente,
isso pode ser. Porém, o que se torna muito frustrante é que
com a democratização do ensino e com os recursos
tecnológicos de que hoje dispomos, o interesse pela literatura,
inclusive pela poesia, poderia ser bem maior [grifo do autor]. 17

Deste prognóstico insípido, o autor sente ser ofuscante,


ao iniciado, a obrigação de se debruçar sobre centenas de
disciplinas, movimentos literários, e respectivos autores mortos
ou vivos. Completando com classe: “Pretender escrever poesia
hoje é aceitar o desafio de tentar ser um sol num mundo de
sóis”. Diariamente, o mercado produz toneladas de novos
livros... mas esse é um assunto de ordem econômica.

16
BANDEIRA, Manuel. Jornal de Poesia:
<http://www.jornaldepoesia.jor.br/manuelbandeira03.html> – acesso em 01/10/2017.
17
ALFAYA, Ricardo Ingenito. Entrevista à Editora Protexto, por T. Gabrielli-Pohlmann,
<http://www.protexto.com.br/texto.php?cod_texto=212> – acesso em 01/10/2017.
51
3.4 Anonimato como recurso
A Arte Anônima se define pela impossibilidade de
identificar a autoria da obra, quer por intenção do autor em
manter-se ‘invisível’, quer por acidente histórico que extingue
os registros. Seja qual for a causa do anonimato, o leitor, pelo
desconhecimento autoral, altera a análise de uma criação
[quase sempre questionada quanto a autoria] — no fundo
desejamos saber “quem criou o mundo”, paira uma
insatisfação geral de descontentamento para o Vácuo que se
desdobra diante de nós, perante qualquer criatura misteriosa.
Epopeia anônima da Antiguidade, a poesia Beowulf
exemplifica a envergadura lírica que pode abranger, a despeito
da total insciência de sua autoria. O texto lendário atravessou
1300 anos e motivou inspiração para duas versões
cinematográficas: a realista Beowulf & Grendel (GUNNARSSON,
S., 2005), e outra animada por computação gráfica, Beowulf
(ZEMECKIS, 2007). Ambas potentes nas propostas, a realista
carece de lirismo, porém procura reproduzir o que poderia ter
sido no estilo épico; já a animada transfigura uma ótica
mitológica a todo vapor, com dragões e efeitos gráficos que
agigantam o monstro Grendel — de qualquer forma, a obra
textual contém toda a gênese e é este o material fecundo para
melhor análise.
O haicai é uma modalidade de poema anônimo,
integrado na cultura japonesa, comumente composto sem
identificação autoral. A prosa romântica, outrossim,
exemplifica sua possança como eu lírico poético, reforçando a
cisão identitária entre autor X leitor — campo preenchido por
inúmeros gêneros, mitos ou lendas de tradição oral com
autores historicamente desconhecidos.
A omissão da autoria não resulta, necessariamente, em
‘melhores enunciados poéticos’. No tocante à relevância dessa
configuração, o historiador e literato Andreas Jolles diz:

52
A poesia é aquilo que passa em estado de pureza e sem
alterações do coração para as palavras; por conseguinte, é
algo que brota incessantemente de um impulso natural e é
captado por uma faculdade inata; a poesia popular sai do
coração do Todo; o que entendo por poesia artística sai da
alma individual. Por isso que a poesia moderna assinala seus
autores, ao passo que a antiga não sabe nome algum; ela não
é produzida por um, dois ou três, é a soma do Todo, já disse
que não sei explicar como essas coisas foram arranjadas e
feitas, mas, para mim, não é mais misterioso do que as águas
que confluem num rio para correr juntas. Não seria capaz de
conceber a existência de Homero nem que os Nibelungenlied
tivessem um autor (JOLLES, 1976, p.184).

Jolles, lançando olhar transcendental, desconstrói, diante


da simbologia, a preocupação humana por prender o nome à
forma, como se essa operação fosse sempre impreterível. Ao
evitarmos dissabores do ego, aceitamos uma integração
inédita com o todo (Tao), onde nada pode ser sondado sob
rótulos perenes. Tal qual inspira a neutralidade de Drummond,
a poesia “não aquece nem ilumina”.
Pessoa (2006, p.15) afastava-se de seu nome pessoal e,
de tanto criar heterônimos, não mais soube firmar um divisor
de águas no oceano dos vários “Eus” que criara: “Como um
vento na floresta. / Minha emoção não tem fim. / Nada sou,
nada me resta. / Não sei quem sou para mim”.
Árduo é, todavia, abrir mão da autoautoria. Quem deseja
passar invisível na história? Autores precisam negociar o texto,
ganhar o pão. O ego salta, se debate em desejos, quer
aparecer no mundo. E, na práxis poética, como todo ofício, a
entrega custa caro, pois “o poeta, inserindo-se cada vez menos
na teia da vida social, faz do exercício da arte sua única missão
e, no limite, um sacerdócio”. (BOSI, 2006, p.269) Renunciar a si
mesmo, portanto, resulta num esforço sacerdotal, estrada
sobremaneira acidentada rumo à Iluminação.

53
_____ { I V } _____

O PERCURSO DA PESQUISA

Uma escrita
é uma escuta
feita voz
mar de mármore
ou de papel
lançado a esmo...
A. C. SECCHIN

A aurora desta tecelagem iluminou-se lentamente ao me


deparar com a disciplina Metodologia do Trabalho Científico,
durante o primeiro semestre do curso, em 2011. Enquanto a
curiosidade intensificava-se na tentativa de solucionar um
emblema, surgido espontaneamente, a responsabilidade
galgava em grau equivalente.
No semestre seguinte, findas as ilusões naturais próprias
a pesquisadores iniciantes, abandonei a pesquisa de campo e
aperfeiçoei a teórica. Apesar disso, enquanto delineava rotas,
havia permeado num labirinto de talentos recônditos pelo
País. Desafio luzidio que antecipou uma solução: senti-me
álacre e mais motivado por constatar a poiesis uma extensa
praia de prática — individual, coletiva, pedagógica.
Havendo na Introdução deste documento a apresentação
da justificativa e metodologia pertinentes, os tópicos restantes
serão ilustrados nos subcapítulos seguintes.

4.1 A discussão da problemática


Um das pseudoconcepções mais comuns – advinda da
desigualdade social – leva a indícios de que o letramento é
diretamente proporcional à casta de alguém, subentendendo
que a camada proletária está a ermo da cultura letrada.
54
Desmitifiquemos, então, que “disponibilidade de tempo
favorece a cultura”, pois, se assim fosse, índios e aposentados
seriam os mais veneráveis Mestres da Humanidade.
O ranking educacional das sociedades mundiais aponta
que a qualidade de ensino tende a ser liderada por países
desenvolvidos, a despeito da especificidade cultural. Nessas
tendências, difunde-se a imagem de uma elite competente em
acumular patrimônios, sobrepondo-se àquela hábil em
competências linguísticas. Teoricamente, segundo normas dos
Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC/SEF, 1997), há duas
evidências que se entrelaçam na fusão do conhecimento com
a elitização:
{-1-}- Crianças provenientes de famílias mais favorecidas têm
maiores oportunidades de participação em atividades sociais
mediadas pela escrita, e possuem muito mais experiências
significativas com a escrita do que as crianças de classes
menos favorecidas.
{-2-}- a responsabilidade da instituição educacional é tanto
maior quanto menor for o grau de letramento das
comunidades em que vivem os alunos. (MEC/SEF, 1997, p.20)

Os PCNs, contudo, não deixam eximiamente claros os


processos de desmitificação linguística. Na Antiguidade grega,
berço de alguns dos mais importantes textos produzidos pela
humanidade, o autor iletrado era quem compunha a obra
oralizando-a ao escriba para documentação; o Rei Ptolomeu
foi um desses autores em Alexandria. Durante séculos, escrever
consistia num dom divino e o acesso aos escritos era estrito a
uma elite aristocrática.
Bagno (1999) desconstrói oito mitos acerca da Língua
Portuguesa, entre os quais “O domínio da norma culta é
instrumento de ascensão social” ou “As pessoas sem instrução
falam tudo errado”. O linguista acrescenta:

55
Parece haver cada vez mais, nos dias de hoje, uma forte
tendência a lutar contra as mais variadas formas de
preconceito, a mostrar que eles não têm nenhum fundamento
racional, nenhuma justificativa, e que são apenas o resultado
da ignorância, da intolerância ou da manipulação ideológica.
Infelizmente, porém, essa tendência não tem atingido um tipo
de preconceito muito comum na sociedade brasileira: o
preconceito linguístico. Muito pelo contrário, o que vemos é
esse preconceito ser alimentado diariamente em programas
de televisão e de rádio, em colunas de jornal e revista, em
livros e manuais que pretendem ensinar o que é “certo” e o
que é “errado”, sem falar, é claro, nos instrumentos
tradicionais de ensino da língua: a gramática normativa e os
livros didáticos (BAGNO, 1999, p.13).

Parece incoerente, contudo, generalizar que a cultura


iletrada deve ser incentivada, assim como se incentiva a
necedade geral. Pelo menos não é o que preconiza o método
científico, tampouco o sistema social: se você não fala nem lê
alemão, não creia que a sociedade alemã lhe dará créditos,
pois isso é pura Utopia — como figura Einstein: “É mais fácil
desintegrar o átomo do que exterminar o preconceito”.
No Brasil grassa uma onda (que circula nas veias da
população) quanto ao hábito de leitura e produção textual,
sendo o Romance o gênero mais visado, enquanto a Poesia
mingua uma posição olvidada. Este (pré)conceito se manifesta
no inconsciente coletivo, em pensamentos como “Poema não
dá dinheiro”, “Isso é ‘poesia’, caia na realidade!” ou “Poemas
são inúteis...”. A cultura oral, infelizmente menosprezada como
literatura, criou uma vox populi esmorecida sobre a verve
apoteótica na Arte Poética, em suma, advinda do pátio grego
onde abrolhou obras exemplares às civilizações epígonas.
Após refletir sobre as temáticas supracitadas –
costurando castas / (pré)conceitos / língua & linguagem –
foram formulados três problemas norteadores da investigação,
sendo o primeiro o primordial:

56
— Qual característica preponderante (e comum) entre os
poetas brasileiros que obtiveram prestígio nacional ou
internacional?
— Até que ponto a aceitação e convencimento de uma
nova ideia por um grupo social significa que este também não
seja um novo conceito?
— A linguagem, sobretudo a poética, pode desvendar as
origens do incompreensível?

4.2 Objetivo
A monografia objetiva aferir o potencial comum
(caracterológico) a poetas/poetisas brasileiros que construíram
renome no âmbito nacional ou internacional, do Romantismo
ao Modernismo, trazendo reflexões sobre o território da
linguagem.

4.3 Escolha das variáveis


A formulação das variáveis surgiu destas indagações:

[-I-]- Com quais pessoas os renomados poetas conviviam?


[-II-]- Esses poetas sofreram influências de outras culturas distantes
de seus habitats? Se sim, qual ou quais culturas?
[-III-]- O nascimento em uma dada classe social foi a força motriz
desses poetas? Caso positivo, qual classe social?

Para levantamento dos dados, selecionamos sete


variáveis associáveis entre si:
1. ser dotado de outro dom artístico;
2. conferir apoio à arte;
3. alto grau de letramento;
4. habilidade em idiomas;
5. atividade político-institucional;
6. perspectiva multicultural; e,
7. ativismo ecológico.

57
4.4 Hipóteses
Baseando-se nas variáveis anteriores, formulamos as
seguintes soluções hipotéticas:

a. São dotados de outro dom artístico além da habilidade literária;


b. Deixam obras artísticas ou prestam apoio à arte;
c. Gozam de alto letramento;
d. Têm habilidade em outro idioma não vernáculo;
e. Evolvem-se com causas políticas;
f. Vivem em pátria diversa e têm ampla perspectiva multicultural;
g. Inclinam-se às causas ecológicas; ou,
h. NDA. As causas são relativas para o sucesso lírico.

4.5 Análise estatística dos dados


As informações biográficas foram coletadas, em sua
maioria, por meios virtuais. Cada autor foi conferido em duas
ou mais fontes confiáveis de informação. Organizou-se o
banco de dados numa planilha do programa Microsoft Excel,
disciplinando as biografias segundo dois grupos:

1o GRUPO:
Prêmio Jabuti Poesia 63
Prêmio Camões 23
Poetas do Século XIX 45
Poetas do Século XX 40
2o GRUPO:
Poetas do Estado do Rio de Janeiro 212
Poetas do Estado de São Paulo 189
Biografias Incompletas (RJ e SP) 87
Escritores (22) + Lusófonos 29
TOTAL ................................................................ 688

A análise do 1o grupo firmou decisões importantes: a


variável “inclinações às causas ecológicas” se quantificou em
menos de 3%, devido à escassez de dados a respeito. Daí
doravante, esta hipótese foi descartada.

58
Tabela 1 – Distribuição de dados entre as variáveis de cada grupo

Na Tabela 1, os dois grupos são analisados obtendo-se


duas médias, inicial e final. Esta tabela forneceu o Gráfico 1,
onde o “domínio de idiomas” supera as demais variáveis, tanto
na primeira média (69%) como na média geral (49%):

Gráfico 1 – Número de poetas / Amplitudes nas variáveis

59
Ainda com base na Tabela 1, os poetas do eixo Rio / São
Paulo foram formatados no Gráfico 2, que aponta o número de
poetas e a porcentagem média. O resultado indica
predominância de habilidade em outro idioma:

Gráfico 2 – Amplitude do 2o grupo / Média geral com o 1o grupo

Na Tabela 2, são analisadas associações entre variáveis:

Tabela 2 – Combinações entre as variáveis de cada grupo

60
A Tabela 2 propiciou o Gráfico 3. Acusando que quanto
mais os poetas se dedicam à arte, menos se envolvem com
atividades político-institucionais ou militâncias sociais. Para a
variável ‘prêmio Camões’, há índice de 0% em “outro dom
artístico”; enquanto que a associação entre “perspectiva
multicultural” com “atividade política” acusa 35%, índice
elevado em relação às demais combinações, apontando alto
nível de interação social ao perfil dos laureados neste prêmio:

Gráfico 3 – Associação entre as variáveis (%)

Quanto ao quesito “gênero sexual”, em todos os casos


os dados acusam índices minoritários de mulheres, cuja
presença oscila entre 05% e 38%, dependendo do grupo. O
levantamento do 1o grupo ilustrou o Gráfico 4. Mostrando no
século XIX um índice baixíssimo do gênero feminino, constado
pelas poetisas Gilka Machado e Cora Coralina. E aumenta no
século XX, oscilando entre 20% e 40%, seja qual for o local no
Brasil, destacando-se as poetisas Cecília Meireles, Clarisse
Lispector (por prosa poética), Lya Luft e Maria Ângela Alvim:

61
Gráfico 4 – Primeiro grupo, homens/mulheres ( % )

No Gráfico 5 há integrantes do Concurso Literário


Asabeça Poesia 2011 / 2012 (375 e 525 pessoas
respectivamente). Sendo apartados 29 ‘Escritores + Lusófonos’:

Gráfico 5 – Amplitude de homens/mulheres (todos os grupos)

62
Referente ao baixo grau de escolaridade ou alfabetização
autodidata, indica minoria de 2%, sob os seguintes poetas:

PRÊMIO CAMÕES:
JOSÉ SARAMAGO [1922~2010]: formação técnica.
SÉCULO XIX:
ASCENSO FERREIRA [1895~1965]: não se formou.
CASIMIRO DE ABREU [1839~1860]: instrução primária.
CORA CORALINA [1889~1985]: cursou apenas o Fundamental 1.
LIMA BARRETO [1881~1922]: Escola Politécnica.
LUÍZ GAMA [1830~1882]: alfabetizou-se com 17 anos e se
formou em Direito (SP), jornalista do jornal Radical (SP).
LÚCIO DE MENDONÇA [1854~1909]: alfabetizou-se lendo recortes
de jornais; idealizador da Academia Brasileira de Letras.
ORESTES BARBOSA [1863~1966]: alfabetizou-se lendo cabeçalhos
de jornais.
MACHADO DE ASSIS [1839~1908]: baixa frequência escolar,
autodidata.
SÉCULO XX:
ADALGISA NERY [1905~1980]: instrução Fundamental, nível 1.
ÉRICO VERÍSSIMO [1905~1975]: instrução Fundamental em
seminário.
NELSON RODRIGUES [1901~1975]: abandonou o Ensino Médio.

Referente à lisura dos dados obtidos, o 1o grupo foi


apurado com mais abundância de informações, logrando
melhor ciência, enquanto no 2o grupo deve haver uma leve
margem de erro para menos. Todavia, a múltipla combinação
das variáveis forneceu inferências satisfatórias — a casta social
dos autores foi observada apenas para título de reflexão.
A variável “outro dom artístico“ possui maior índice de
poetas no Estado do Rio de Janeiro; e no prêmio Camões não
há nenhum deles com esta capacidade, indicando dedicação
exclusiva à Arte Literária.
A “habilidade em idiomas” aparece como característica
ligeiramente saliente às demais; e em segundo lugar
“perspectiva multicultural”.

63
Finalmente, alguns poetas/poetisas apresentam maior
número de características (requisitos), como seguem:

7 AUTORES PREENCHEM TODOS OS 5 REQUISITOS


{ outro dom artístico / apoio à arte / ativismo político
domínio de idiomas / perspectiva multicultural }

ALUÍSIO AZEVEDO
ANTONIO MIRANDA
CLARICE LISPECTOR
GILBERTO FREYRE
HERMAN LIMA
JORGE DE LIMA
PASCOAL CARLOS MAGNO
( 1 % do TOTAL )

85 AUTORES PREENCHEM 3 REQUISITOS


{ ativismo político / domínio de idiomas / perspectiva multicultural }

( 12 % do TOTAL )

64
_____ { V } _____

SUBSTRATOS FINAIS

[ ... ]
Se eu digo
“B”
é uma nova bomba na batalha do homem.
MAIAKOVSKI

Este caminho exploratório catalisou intensas reflexões


sobre o desabamento à poiesis, zona catártica, descortinável
sob múltiplas perspectivas, vívidas vicissitudes biolinguísticas,
ficção verossímil, harmonia d’uma desarmonia, fórmula sem
fórmula, descrição de esferas imperscrutáveis nos arranjos
dessa Arte.
Enquanto trajeto estatístico, creio que percorri uma
verídica ‘viagem pelo País’, e, conforme contemplava suas
paisagens provinciais, constatava mais e mais poetas/poetisas
luziluzindo pelas praias, luzes que não podiam compor a
planilha de dados devido à interminável Odisseia: foram vários
condores olvidados numa ou noutra esquina, vultos quase
invisíveis, todos dignos de menção e espaço ao Sol — a
confecção costurada, entretanto, já antevê prognósticos em
outros países.
Noutras notas, lobriguei quatro casos de suicídio,
gerando 0,6% do total. Ao anotar os nomes [Ana Cristina
César; Torquato Neto; Francisca Júlia da Silva; e Raul Pompéia],
notei que todos tinham ótimo letramento e perspectiva
multicultural. Assim, não credito que a sublimação dada pela
arquitetura poética promova melhores decisões, não altera a
autoestima; o que compete ao SER não está sob controle do
campo metafísico — silogismo que sugere a dedução do

65
problema: a linguagem, sobretudo a poética, NÃO pode
desvendar as ‘origens do incompreensível’.
A sondagem acusa saliência na competência com
idiomas. Característica comum que (por si só) não determina o
destaque social dos autores, porque a linguagem não é
faculdade cognitiva autônoma. Naturalmente, o pensamento
tende a amplificar-se na razão dos saberes pelas múltiplas
culturas globais, permitindo a assimilação de desdenhadas
dimensões. Entretanto, a cognição não resulta em êxito
poético — os talentos podem ser alimentados por outras
hipóteses, porém desprezíveis para parâmetros práticos: não
interessa saber se “A” era milionário ou se “B” amava cerveja
da Alsácia.
Findando o documento, sinto-me agraciado por ter
infiltrado nos prados poéticos do Brasil. Ígneos vislumbres de
dimensões lexicais colossais, onde os labirintos plasmam
mosaicos incrédulos à língua/linguagem; irmã inseparável
neste constante orbe inconstante, continuum vocabular de
nascimentos & mortes.
Oxalá este ofício possa esclarecer um pouco mais sobre
os incisivos problemas garridamente sujeitados aqui.

66
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69
APÊNDICES

Nota sobre a Epígrafe


HUINENG, Dajian [638~713]: réplica ao poema de Jinshu
[Yuquan Shenxiu, 606?~706], discípulo veterano da
congregação chinesa de 700 monges do abade Daman
Hongren [601~674]. O mestre solicitou aos discípulos um
poema, cuja análise levaria à escolha do cargo sucessor como
6o Patriarca na China – linhagem oriunda do sábio Gautama
Shakyamuni [465 a.C., Índia]. Ao contrário do letrado Jinshu,
Huineng era analfabeto e trabalhava como serviçal para o
monastério no Monte Huangmei. Uma disputa gravíssima se
desencadeou na sucessão porque um grupo de monges se
recusava a aceitá-lo. Ameaçado, Huineng foi obrigado a fugir
para um templo no sul da China; no final, respaldado pela
maioria, foi reconhecido como o autêntico Patriarca. Eis o
poema inicial:

O corpo físico é a árvore Búdica


A mente, um sólido espelho lúcido
Incessantemente, lute para poli-lo
& não permita o acúmulo do pó.

Nota sobre o Koan


O koan citado por Gotswami (2002) sofreu adaptação.
Na verdade, este tratamento foi empregado pelo mestre
Tokuzan Senkan [Deshan Xuanjian 780~865], discípulo de
Ruytan, da Escola Rinzai. Numa noite, após uma fabulosa
experiência de iluminação súbita, estimulada por Ryutan, ele
resolveu queimar todos seus sutras. Tokuzan passou a desafiar
seus discípulos com o seguinte koan: “Se responderes minhas
perguntas, levareis 30 pauladas, e, se não responderes,
também levareis 30 pauladas”.

70
Análise biológica de Ricardo Reis
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mão enlaçadas.
(Enlacemos as mãos)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida


Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.


Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amor, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,


Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,


Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o,

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as


No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois


Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,


Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

71
PROSÓDIA
Tipologia: Versos Livres em 8 quadras
Modalidade: Logopeia (segundo Ezra Pound)
Sequência de rimas / Métrica: ausente / ausente
Aliteração: concentra-se em (M – N) em todas as estrofes
Assonância: nenhuma saliente
Rítmica: cadência decrescente;
quebra de continuidade do sintagma versal

SEMÂNTICA
Número da narração / Gênero dominante: 1a do plural / Masculino
Anáfora / Catáfora: em torno do “rio” /
o “rio” humaniza-se no regaço.
Personificação: ausente
Apóstrofe: “crianças adultas”
Neologismos / Polissemia: NÃO / NÃO
Diácope / Epizeuxe / Quiasmo: diácope
“te arda ou te fira ou te mova”
FIGURAS DE LINGUAGEM:
Antítese: “crianças adultas”
Hipérbole: “mais longe que os deuses”
Metáfora: “pé do Fado” (por beira)
Eufemismo: “levar óbolo ao barqueiro sombrio” (por morrer)

ANÁLISE RETÓRICA
1a ESTROFE: súplica de uma companhia junto ao pitoresco da Natureza.
2a ESTROFE: observância do poder do curso dos fenômenos que passam.
3a ESTROFE: sumária conclusão de que os laços entre matérias não existem.
4a ESTROFE: reafirmação da rota da vida, que corre em direção ao
imensurável.
5a ESTROFE: exaltação de um amor alvo e telepático, onde o que importa é a
proximidade junto à fluência do momento.

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6a ESTROFE: momento de contradição. Não há crença, exceto a crença de que
não há crença em nada. “Pagãos inocentes da decadência” sugere um estado
de contemplação serena às quedas das civilizações.
7a ESTROFE: jogo com a elasticidade do tempo. Por um lado saúda as
lembranças (“sombra antes” = antecipação da luz / “fomos crianças” =
antecipação da fase do corpo) e por outro vaticina o feedback no futuro
(“lembrar-te-ás”).
ÚLTIMA ESTROFE: cogitação da morte. Porém, a catáfora poética traz a região
pélvica (regaço) de Lídia diante do cenário que flui. O retorno aos clássicos
greco-romanos (antropomorfia) firma-se na brevidade do último verso.

COMENTÁRIO:
A infinitude desses versos desvela a dupla personalidade da
persona Ricardo Reis, genialmente expressa por Fernando Pessoa.
Por um lado, voltava-se à filosofia carpe diem, &, por outro, adotava
uma postura estoicista pouco resolvida. Um homem incerto nas
dimensões sensoriais, cuja ataraxia se mostra estagnada, expondo
sua avidez por fluência (“rio”) e por sossego, repetido em 3 estrofes
em modos adverbiais. Transita por uma laia diagonal entre o sagrado
e o mundano: lutando entre o fim da estagnação e a imóvel
imperturbabilidade, pontos oscilantes entre o fluxo do rio geográfico
e o fluxo do rio nas artérias humanas. Nessa corrente de fluência
incerta, todavia – embora perigosamente manipulada pela
racionalidade mental – finalmente, sua alva e amálgama alma apela
ao humanismo por uma figura feminina “melancólica & florida na
pelve”, ponto do corpo que representa a reprodução da espécie e
escape à dor pelo prazer momentâneo, hedonista.
Em síntese, tudo se enceta com verves ultrarromânticas de um
casal num cenário junto à plácida Natureza, porém, o verniz
inquietante do cotidiano sobe à tona rapidamente. A potência
poética amplifica-se na liberdade da catáfora, deixando ao leitor a
livre escolha do elemento simbológico (se a Natureza Universal ou a
Natureza Humana, ou ambos) deve ser extraído como inspiração no
caminho.

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MOSTRAS POÉTICAS

“ ÀMOR-ROMÁ : PROLES DO ESPAÇO ”

KOGUEN GOUVEIA

( São Paulo: Garcia Edizioni, 2015 )

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SER ESCRITO
avassalou-me um puro limbo profundo
e tentei o expressar em versos
corridos como o mundo

ele tinha quinze linhas iniciais


dissertadas estilo carta
em tópicos frasais

viraram quatro bem objetivas estrofes


loucas devido à pieguice casmurral
fixadas tipo os postes

! mas a poesia estava toda errada !


... elidi o parágrafo a quase nada ...
em três linhas, ficou mirrada

então apaguei tudo; o pu-ro lim-bo restou


não sobrou a apócope, nem o título
& a origem romanesca desdobrou:

? fazer o que agora, amor, com essa pomba ?


– granada sem pino nas asas de brahms –
? largar nalguma laia ou em suma sombra ?

cá – espere – lá! que tal a simular universal


muito cheio de um vazio convicto
num diáfano incondicional ? !

pois o grande caminho traçado


sempre é desmascarado
por escrito .

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ARES
ela estava lá
pairando pelos ares da fazenda
por todo prado
até nas palhas do paiol
e
concentrou-se num homem
ingressou no seu íntimo
de toda sua história inspirada
e juntos ofegaram
porém precisaram se separar :
num momento de loucura às vinte horas
frente ao sinal da segunda avenida
após viajar o atlântico em viagem supersônica
vindo do subúrbio de paris
(ele voltaria no mesmo dia)
algumas celebridades por perto
sem dó
acariciaram-se
o contraste: a macia constituição
espíritos encarnados
seus pacíficos estados
matérias condensadas em plena comunhão
árduo a ambos
& ela foi largada ali mesmo
derretendo-se na calçada dos astros gostosos
implorando entrar dentro dele de novo

assim ela derreteu como aliens do filme


para um bueiro em direção incerta
em vias de se sublimar
do mar de carbono suspenso
& ingressar num novo caso aéreo :
passagens – respiratórias – sublimes
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CORRENTE CONTÍNUA
nunca para
faço uma vez, quero outra
te beijo, quero mais
te engulo, quero-te eternidade
eterno, quero-te deus
deus, quero-te quero

de novo
de novo
de novo; sempre

acordei . isso é sonho ?


sonhar de novo : haja saco !...

morri . isso é vida ?


viver de novo : saco haja !...

café com não, a fé com pão, até com mão, zé com são
nunca para, parar nunca para o nunca parará
nascer – sofrer ou transcender – morrer
tem T, com C, sem G
cbd – pqp – tvz
p – pp – ppp – p
piiiiiii !

para nunca
para nunca
para nunca; sempre

por que ?
... porque nunca para o porquê .

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VIAGENS VERTICAIS
quando vi o grito de luz no ar
ele subiu até o poço dos deuses
e uma águia o capturou no altar
& o levou para os artifícios naturais
do reino encontrado perdido nas nuvens

lá havia uma lago lázuli numa planície


e a ave mergulhou com o grito
entranhado nas garras
que soltavam bolhas
queria ela afogar e testar
até aonde poderia perceber:
o que era o quê ...
quem era quem ...
mas o vazio entre entranhas
flutuou e babou no líquido.

a águia desceu em um rasante


ultrapassou a barreira da cor néon
se transformou numa medusa quadrialada
trajada com 10 cabeças de buda
e cada uma com 100 cabeças de medusas aladas
com 1000 brabos cabelos de naja
e mudras de budas em zazen:
esses infinitos olhos soltavam fachos de laser
pirados por todos os lados
cada boca babava o lírio de salomão
os sentidos, nitrossentidos.
ela não voava; exacerbava o pecado-imaculado.

desceu e pousou numa gruta dum penhasco


enorme bando de morcegos saíram a toda

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que espantou a vacaria para o leste
e que espantou os namorados, sem rumo
que osculavam o mistério da distância do tempo nascido
morto

a água da gruta era azul turquesa celeste marinho


mais pura que a mais pura mente una
e a criatura conferiu o líquido na cara dos santos
poliédrico cálice de névoa vermelha
refletindo sua imagem modelo tal
entregue ao mergulho
vertical .

79
GIGANTE
À Sylvia Plath, in memoriam.

O casal
era tão alto, mas tão alto
que as nuvens viraram névoa
sob seus pés.

O Mar Mediterrâneo virou banheira


o Himalaia um refresco
& o lago Michigan?

O lago Michigan não era pisado.

Preferiam, na sombra da lua, o seu abraço;


podiam mudar da noite para o dia – num passo –
tão alto que o nome baixo dissipou-se no tocar delicado .

80
FANTASMA

Era meio-dia
Quando a dama montou no lindo equídeo brabo
Segurou em suas rédeas, a lhe dizer:
“— Vamos, querido! Vamos...”
E lá foi ela trotando
& trotaram por toda-toda tarde no campo
Até anoitecer .

( o cavalo queria levar ela – só ela levar )

Então ela o pediu para galopar


& ele a fez galopar, galopar, galopar ...
Rápido, e mais rápido
Até a meia-noite

Quando a dama desapareceu


no horizonte uivante
do mais vigoroso
Gozo .

Assim, o equídeo voltara só; só com a luz, rara


Acariciando o fantasma dum sol
De Sabrina Samara .

81
BEIJO, SONO, MORTE
haikai 765

matérias s’atraem
até se esmagarem
magma da terra

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QUANDO ACORDEI

... o espaço estava ocupado .

83
A POÉTICA

profere muito mais do que a História


por arrancar palavras das
pedras gélidas .

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VIREI, EM SEU ESPAÇO, O MAIS INEXORÁVEL DOS MUNDOS

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Este livro, impresso pela AlphaGraphics,
teve seu miolo impresso em papel pólen soft 80 g/m2,
capa em cartão 250g m2, composto na fonte Segoe UI.

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