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VALORES DA EDUCAÇÃO: UM DIÁLOGO SOBRE ENSINO E FORMAÇÃO

Alessandra Maria da Silva Gomes1

A autonomia advém da conquista da maioridade intelectual e moral. Por meio da


consciência caracterizada como autônoma, o indivíduo é capaz de resolver problemas
diversos, apoiando-se em valores éticos e morais, indispensáveis, para o processo de
humanização. Esta proposta apresenta uma reflexão acerca da relação entre Ética e
Moral seguida das questões culturais que norteiam a Educação, buscando evidenciar o
paradoxo que se exprime nestas relações conceituais, num contexto de afirmação de
identidade em que a formação docente deve ser considerada como mediadora na
garantia do direito à igualdade e à diversidade cultural. Seguindo os caminhos
qualitativos, a pesquisa bibliográfica e análise crítica de dados, conseguiu-se, portanto,
o levantamento de conceitos balizadores para a discussão de tais questões sociais.
Baseado nesta premissa, discute-se ainda, a dimensão ética, agora ancorada ao ponto de
vista educacional, na formação e construção do indivíduo, permitindo-lhe a percepção
de inclusão como membro de um grupo social. Pretende-se, portanto, com esta
abordagem, pensar tais valores e formas de ensinamento a partir de práticas educativas
democráticas e não discriminatórias, que resultem na promoção da diversidade cultural
em âmbito educacional, cuja ainda, sujeito e história possam se socializar e serem
socializados, contribuído, então, para a discussão sobre a democratização do ensino
diante de um cenário ainda tradicionalista e colonizado.

Palavra-chaves: Educação; Práticas Democráticas; Identidade; Formação.

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação e Formação Humana da
Universidade do Estado de Minas Gerais e orientanda do Prof. Dr. José Eustáquio de Brito. E-mail:
alessandra@medicina.ufmg.br.
INTRODUÇÃO

A autonomia advém da conquista da maioridade intelectual e moral. Por meio da


consciência caracterizada como autônoma, o indivíduo é capaz de resolver problemas
diversos, utilizando de reflexão e conhecimento e apoiando-se em valores éticos e
morais, indispensáveis, para o processo de humanização do próprio indivíduo
considerando os princípios que norteiam sua conduta.

A escola vista como instituição também responsável pela formação ética do


indivíduo, enfrenta diversos desafios da contemporaneidade. Dentre estes podemos
destacar o trabalho docente em transformar a escola em um ambiente que efetivamente
possa respeitar a diversidade cultural e a dialética, combatendo a discriminação e o
preconceito, considerando a formação integral dos indivíduos nos princípios baseados
na autonomia, valorização, responsabilidade, solidariedade, criatividade e sensibilidade,
estimulando sua participação nas práticas sociais, promovendo a integração das diversas
áreas de conhecimento, assim visando uma formação plena para o exercício da
cidadania.

Este texto vem apresentar uma reflexão acerca da relação entre a Ética e Moral
pensando a Escola, a Educação e a Cultura ao evidenciar o paradoxo que se exprime
nestas relações entre o espaço e o indivíduo, num contexto de afirmação de identidade
em que a formação docente deve ser considerada como mediadora de combate ao
preconceito e a discriminação na garantia do direito à igualdade.

A ética e a moral são os balizadores para os atos humanos. A ética leva o


indivíduo à reflexão com fundamento nos princípios que norteiam a conduta e as
tomadas de decisões. A moral é que rege as relações em sociedade definindo a
necessidade que o homem tem de criar regras para a convivência entre si.

Segundo o autor Neidson Rodrigues (2001, p. 238), com o texto: Educação: da


formação humana à construção do sujeito ético, “a cidadania se constrói nos
fundamentos da liberdade, da autonomia e da responsabilidade. Estes conteúdos são
condições para a cidadania, e fundamentos para a Ética”. Por suposto, a cidadania e a
ética delimitam e dão qualidade aos relacionamentos humanos uma vez que se traduzem
entre direitos e deveres. Pode-se afirmar, portanto, que a ética tem se configurado como
um eixo aglutinador de discussões.
Sob o olhar do sociólogo Weber (1991), na conduta humana, em uma relação de
antinomia, existem duas éticas, a primeira de responsabilidade e a segunda de
finalidade.

A ética de responsabilidade pode ser compreendida como sendo aquela que leva
o ser humano a orientar suas condutas, refletindo sobre as possíveis repercussões de
suas atitudes em determinado contexto social. Nesta dimensão o indivíduo é visto como
um homem político e não somente homem comum, pois é levado a reflexão acerca da
relação meio-fins, sendo chamado a sua responsabilidade de projetar o que pode
decorrer de suas decisões, ou seja, o sujeito social molda seus atos e age reflexivamente
sempre levando em consideração o outro, imprimindo intencionalidade a suas ações.

A segunda dimensão ética leva o homem a agir de acordo com seus sentimento e
valores, em consonância com o conceito de homem comum, implicando ações que não
levam em conta as consequências e nem tampouco a coerência e adequação dos meios
para obtenção dos resultados, refletindo a noção de eficácia e não o caráter da própria
ética. Considerando este aspecto, pode-se dizer que a ética serve para fundamentar uma
moral, sem ser em si mesma normativa ou preceptiva, ou seja, a ética não é a moral,
portanto, não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições. A ética aparece
como uma reflexão crítica a respeito da moral, conforme explicita Vázquez (1980). A
moral surge como um conjunto de determinações e comportamentos aceitos em uma
determinada época e sociedade, equivalente a regras que vão restringir a liberdade
individual, estabelecendo os valores que dizem respeito ao bem e ao mal, ao que é
desejável e o que não é, em termos comportamentais, de cada indivíduo.

Ainda analisando o conceito de ética, Marilena Chauí (2002), conceitua que a


ética se apresenta como o estudo dos valores morais, das virtudes, da relação existente
entre vontade e paixão, vontade e razão. São finalidades e valores da ação moral, de
ideias de liberdade e responsabilidade, de dever e obrigação. Quando associada à
filosofia a ética representa o modo como as pessoas se comportam, assim como o
caráter delas. Assim vista como filosofia da moral, a ética, leva ao pensamento reflexivo
sobre os valores e as normas que regem as condutas humanas.

Baseando-se nesta premissa, podemos afirmar que a dimensão ética, agora ancorada ao
ponto de vista educacional, contribui para formação e construção do indivíduo,
permitindo-lhe a percepção de inclusão como membro de um grupo social. Por
conseguinte, acaba assumindo um caráter eminentemente coletivo e não individual.

Considerando, portanto, o exposto, buscando na atualidade, de tal discussão de


valores e conceitos, surge a problemática que instiga esta pesquisa, que é a desigualdade
educacional. Neste sentido, trata-se aqui de discutir a educação como mecanismo
importante para a recuperação e preservação de uma história excluída socialmente.
Desta maneira, ao abordar propostas de manutenção de uma educação democrática e
diversa, propõe-se pensar a exclusão e diminuição de questões relacionadas à matrizes
africanas em ambientes educacionais, tais como religiosas, comportamentais, estéticas,
literárias, etc; considerando-as ilegítimas, folclóricas e inferiores frente a outras
características culturais clássicas e eurocêntricas em ambientes ainda tradicionalistas
quanto ao dever do ensino.

A ÈTICA COMO DESAFIO DOCENTE

A formação e desenvolvimento dos princípios da Ética e da Moral são


necessários a todos os homens, assim como afirma Rodrigues. Ao reconhecer a si
mesmo como sujeito de liberdade e autonomia, capaz de estabelecer juízos de valor e
assumir responsabilidades por suas escolhas, o indivíduo, como sujeito, pode atuar no
conjunto da vida social de forma independente e participativa e somente desta maneira
pode-se considerar completa a atividade relativa à educação.

Visto a escola ser um espaço para reflexão e reprodução da sociedade em que


está inserida, através da educação pode-se trilhar caminhos para uma construção de uma
realidade mais humana. A construção desta realidade pode viabilizada pela aproximação
da ética e da educação.

Assim posto, a ética e a moral são inerentes ao processo educacional, portanto é


importante que os professores tenham uma postura moral e ética, considerando a
educação um sistema de transmissão de tradições, costumes, habilidades e cultura, onde
o professor configura-se em mediador para apreensão desses conceitos, pelos alunos,
sujeitos das ações.

A escola é um local privilegiado onde se pode ensinar valores e aprender a


traduzi-los em ações e atitudes, explicitando a dignidade do ser humano quanto ao ideal
democrático de convívio social e a diversidade presente neste contexto. Convívio
balizado no respeito mútuo expresso também pelo respeito às diferenças e a exigência
de se ser respeitado em sua singularidade. Para que isso possa acontecer é preciso que
os profissionais que atuam neste ambiente busquem valores que fundamentam um novo
sujeito, levando em conta o referencial para a efetivação moral.

Este referencial é a coerência teórica e prática entre o plano pedagógico e a


pluralidade de entendimentos de mundo. Desta forma efetiva-se o exercício da
cidadania quando pressupõe íntima relação entre respeitar e ser respeitado. A escola
pode ser o primeiro espaço de convívio com o diverso, onde pensar o diferente não
somente em função de suas personalidades singulares, mas também com relação a
categorias ou grupos distintos entre si, agrupados por sexo, etnia, classe social, opções
políticas, ideológicas, religiosas e culturais e outras. Tais ações transformaram a forma
com que estes sujeitos se relacionam com o mundo externo à formação em
comportamentos futuros. O diferente, portanto, é chamado pelo tal quando este não é
tratado, em instâncias ainda formadoras do sujeito, como sendo o comum diante de
outra realidade cultural.

Assim, no contexto da educação, a ética impõe aos professores vários desafios,


dentre eles podemos citar o desenvolvimento da capacidade de distinção e limites que
visam assegurar a coexistência de valores que podem traduzir a diversidade cultural,
reconhecendo e administrando conflitos que, por vezes, decorrem da convivência com
as diversas diferenças. Assim dito, tendo como base a Ética, a não universalização dos
valores morais constitui-se na mais frequente forma de preconceito, então visto, como
contrário a um fundamental valor: a dignidade humana. Dignidade que não se pauta em
mera opinião dos diversos sujeitos, mas em um dos princípios fundamentais da ética: o
convívio democrático. Desta forma a qualidade das relações escolares é de extrema
importância para a compreensão e valorização da dignidade e para o respeito mútuo.
Outro grande desafio docente abordado nesta discussão é ensinar, o educando, a
combater o preconceito e a discriminação, garantindo a abertura para o diálogo que
considere, por parte do indivíduo, valores diferentes dos existentes em seu meio social.
Valorizar o diálogo como forma de esclarecer conflitos é dar espaço ao consenso e ao
dissenso elevando a democracia a mais que um regime político, considerando-a como
modo de convívio social que torna viável a convivência pacífica numa sociedade
pluralista.
Nesta premissa, o educador necessita assumir um compromisso que visa
articular conhecimento científico e consciência político-social na prática educativa. A
formação ética do sujeito exige um relacionamento estreito entre docente e aluno, no
reconhecimento da legitimidade da ética no processo educativo. Portanto, o professor
mais que ensinar valores e conceitos como de cidadania, democracia, solidariedade,
justiça, autonomia e respeito, precisa vivenciar e compartilhar, junto ao seus alunos,
estes valores, na esfera escolar, ancorando a educação e a moral na vivência social,
reatando os laços entre o falar e o agir, conforme aponta Freire (2013):

O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com


sua retidão ética. É uma lástima qualquer descompasso entre àquela e
está. Formação científica, correção ética, respeito aos outros,
coerência, capacidade de viver e aprender com o diferente, não
permitir que o nosso mal-estar pessoal ou a nossa antipatia com
relação ao outro nos façam acusá-lo do que não fez, são obrigações a
cujo cumprimento devemos humilde, mas perseverantemente nos
dedicar. (FREIRE, 2013, p. 18).

Nas relações sociais efetivamente vividas, nas experiências estão as melhores


formas de educar no tangente a moralidade porque, a democracia, como virtude escolar
coloca como escopo a qualidade das relações entre os agentes constituintes da escola.
Desta maneira, o trabalho docente, deve se apoiar em criar situações de
aprendizagem que possam garantir o desenvolvimento das capacidades necessárias à
construção de conhecimentos de seus discentes, para uma atuação pautada em princípios
da ética e democracia. Uma sociedade democrática, pluralista, sem opção moral torna-se
impossível de ser construída e, por conseguinte o conceito de cidadania perde
totalmente o sentido.
Ao docente cabe o desafio maior de educar as futuras gerações para que possam
assumir o compromisso ético da construção de uma realidade mais justa e equitativa, na
esperança de garantir um mundo melhor para todos. Por este viés a escola contribui para
que a dignidade do ser humano seja um valor conhecido e reconhecidos pelos seus
alunos, tornando a esfera escolar como uma das melhores experiências morais que o
aluno pode vivenciar. Refletir sobre a prática educativa e a compreensão dos educadores
sobre sua tarefa cotidiana faz com que a educação esteja impregnada por princípios
éticos que vão considerar a educação e a sociedade como realidades indissociáveis
imbricadas em seus papéis.
DA EDUCAÇÃO E CULTURA A FORMAÇÃO DO SUJEITO ÉTICO

De acordo com a afirmação da filosofia grega, de que o homem não existe só,
portanto, o ser humano é essencialmente um ser social, a dimensão ética do existir
humano é resultado da condição que reafirma que o homem é um ser de relações e estas
relações implicam nos valores que determinam a qualidade de sua interação. O estudo
do conceito de cultura, então, surge através da preocupação com o outro, nos remetendo
ao entendimento mais abrangente do termo cultura.

A cultura, como aponta Marilena Chauí (1994, p.295) “é a maneira pela qual os
humanos se humanizam por meio de práticas que criam a existência social, econômica,
política, religiosa, intelectual e artística”.

Dentro do conceito de cultura consta, portanto, a “lei humana” como o fator do


imperativo social ao organizar a vida dos indivíduos e da comunidade, determinando o
modo como são criados os costumes e como são fundadas as instituições sociais. Neste
contexto, a lei não está relegada ao simples fato da proibição ou obrigação, mas é
afirmação de que os humanos são capazes de criar uma ordem para a existência, que não
a simplesmente natural, biológica, mas a ordem simbólica.

É preponderante observar que o conceito de cultura pode ser semiótico a luz do


pensamento de (GEERTZ, 1989, p.15) “que o homem é um animal amarrado a teias de
significados que ele mesmo teceu”. Assim podemos dizer que através da cultura
buscamos apreender os significados, a densidade simbólica. Para este autor, a cultura
deve ser considerada um conjunto de mecanismos de controle onde podemos planejar
regras para se poder governar. Somente assim, baseando-nos na definição de cultura,
podemos definir o homem. Para Geertz (1973), cultura é um sistema simbólico, onde a
humanidade atribui de forma sistemática e racional, significados e sentidos às coisas no
mundo.

Na esteira do que foi dito, o indivíduo para se adaptar a qualquer ambiente, deve
procurar respeitar as regras de convivência. Neste contexto, subentende-se que educação
seja uma atividade básica de todas as sociedades humanas porque sua sobrevivência
depende da transmissão de sua herança cultural, ou seja, o modo de ver o mundo, os
diferentes comportamentos sociais e as diversas apreciações de ordem moral e
valorativas. Portanto, estudar cultura é estudar um sistema de símbolos, um sistema de
regras e, para socializar é necessário o aprendizado das regras de comportamento do
grupo.

Não existe educação que não esteja imersa na cultura da humanidade. Não se
pode conceber uma experiência pedagógica externa à referencial cultura, pois, as
práticas educativas devem ser desenvolvidas com base nas articulações com as
necessidades da vida política, social, individual e coletiva. Nesse viés, podemos traçar a
importância do estudo da natureza social do processo educativo, das relações existentes
entre a escola, a sociedade e a importância da educação e formação do educador.

Tais considerações, evidenciam a necessidade de reconhecimento da dimensão


cultural como estrutura da educação escolar e sua importância relacional no cotidiano,
assim como afirma Forquin (1993):

Incontestavelmente, existe, entre educação e cultura, uma relação


íntima e orgânica. Quer se tome a palavra “educação” no sentido
amplo, de formação e socialização do indivíduo, quer se restrinja
unicamente ao domínio escolar, é necessário reconhecer que, se toda
a educação é sempre educação de alguém, por alguém, ela supõe
também, necessariamente a comunicação, a transmissão, a aquisição
de alguma coisa: conhecimentos, competências, crenças, hábitos,
valores, que constituem o que se chama precisamente de “conteúdo”
da educação. Devido ao fato de que este conteúdo parece irredutível
ao que há de particular e contingente na experiência subjetiva ou
intersubjetiva imediata, constituindo, antes, a moldura, o suporte e a
forma de toda experiência individual possível, devido, então, a que
este conteúdo que se transmite na educação é sempre alguma coisa
que nos precede, nos ultrapassa, nos institui enquanto sujeitos
humanos pode-se perfeitamente dar-lhe o nome de cultura
(FURQUIN,1993, p.10).

Forquin entende a cultura, como um sistema de experiência, todavia, afirma que


um sistema de experiências somente, não explica as organizações sociais, culturais e
escolares, mesmo porque, existem outros processos para além deste, “esta ordem
humana da cultura não existe em lugar nenhum como um tecido uniforme e imutável,
ela varia de uma sociedade a outra e de um grupo a outro no interior de uma mesma
sociedade” (FORQUIN, 1993, p. 14 e 15). No método de inter-relacionar educação e
cultura que é processada uma seleção de conteúdo no âmago cultural, promovendo uma
reelaboração destes conteúdos destinados a serem transmitidos a gerações posteriores.
Cultura, assim sendo, é entendida como o movimento histórico pelo qual as
experiências se acumulam, viabilizando um conjunto de procedimentos que definem
uma identidade coletiva ou individual dentro de um espaço territorial, caracterizando o
patrimônio cultural. A transmissão do patrimônio cultural para integrar o indivíduo a
sociedade e ao grupo que o constitui, pode desenvolver suas potencialidades.

A escola, como um dos primeiros e principais espaços de socialização, haverá de


introduzir o educando nas primeiras experiências democráticas de participação da vida
coletiva. Possibilitar o aluno a desenvolver a consciência crítica, tornando-o apto a
enfrentar os desafios que a vida e o mundo oferecem, implica em agir. Esta ação é o
início do caminho da libertação que se inicia pela valorização da cultura em que o
sujeito está inserido. A escola, portanto, é o local de preocupação com a formação
integral do ser humano e deve ter como missão a formação da identidade do sujeito bem
como sua dimensão ética. Para o termo identidade, proveniente do latim, atribui-se a
qualidade do que é idêntico, analogia e conjunto de elementos que permitem saber quem
uma pessoa é. O reconhecimento que o indivíduo tem de si mesmo e dos outros a partir
de sua condição ou pelo papel exercido em um meio social.

Constituída de forma dinâmica, a identidade se faz nas relações sociais, pelos


grupos humanos. Sob o olhar da mesma cultura os indivíduos compartilham modos de
ser, de agir, de pensar e sentir.

A partir das perspectivas de Boaventura Sousa Santos (1997) sobre a questão da


identidade, não se pode reduzi-la ao simples conceito de etnia, todavia, deve-se
compreendê-la dentro de uma dimensão política que também perpassa pela ideia de
cultura, ressaltando que as lutas de grupos pela autonomia cultural alteram-se em
sintonia com a realidade dada, que jamais é estática.

Neste momento nos reportamos a identidade cultural. Esta pode ser definida
como conjunto de características comuns pelas quais grupos sociais constroem sentido
de pertencimento, e, ou, o conjunto de valores através dos quais se manifestam as
relações entre indivíduos de um mesmo grupo que partilham patrimônios comuns como
a cultura, a língua, a religião, os costumes, dentre outros. Por intermédio da identidade
cultural um indivíduo se identifica com um determinado grupo favorecendo assim, a
coesão da sociedade. A identidade cultural pode enfatizar aspectos relacionados ao
sentimento de pertencimento a uma determinada cultura étnica, racial, linguística,
religiosa, regional e/ou nacional.
Pela conjectura de estreita ligação existente entre as questões culturais e a
identidade, evidencia-se que as identidades culturais não são rígidas ou imutáveis
porque estão sempre em processos de identificação e transformação. Assim,
"identidades são, pois, identificações em curso"(SANTOS, 1997, p. 135). “o que define
a escola (...) é precisamente o fato de ser um ambiente formativo de identidades”
(SILVA, J. M., 1996, p. 47). A escola consequentemente deve ser vista como local de
acolhimento, de respeito à diversidade, a democracia e seus valores.

É na escola que se aprende também, os valores da cidadania e seu exercício


está ligado ao cumprimento do direito à educação, cabendo ao professor criar espaços,
dentro do ambiente escolar para oportunizar, a todos os alunos, o acesso ao conjunto de
saberes e a utilização desse conhecimento para a compreensão e participação dos
processos sociais que se configuram em condição fundamental para efetivação de uma
cidadania plena.

Neidson Rodrigues citando Montaigne (2001, p. 244), ao se dirigir ao educador


nos coloca: “quero que a delicadeza, a civilidade e as boas maneiras se modelem ao
mesmo tempo em que o espírito, pois não é uma alma somente que se educa, nem um
corpo, é um homem: cabe não separar as duas parcelas do todo”.

A FORMAÇÃO DOCENTE NO EDUCAR PARA RELAÇÕES HUMANAS

A formação docente deve privilegiar o perceber da relação entre os fatores


sociais e os fatos pedagógicos. Esta percepção pode levar o educador a uma visão mais
nítida e penetrante dos fenômenos educacionais, ampliando seus conhecimentos e
abrindo seus horizontes para a compreensão da própria vida em sociedade; esclarecendo
o processo educativo ao analisar a escola como grupo social e, portanto, também
responsável pelo comportamento e estruturação da personalidade de seus educandos,
permitindo, que se compreenda o papel da educação.

Neste processo, o professor como mediador, visualiza a escola, como ambiente


que vem preparar o sujeito para o exercício da cidadania devendo, portanto, refletir
sobre questões que o levem a considerar a qualidade de vida do ser humano, bem como
sua capacidade de busca pela liberdade, de combate ao preconceito e a discriminação,
oferecendo uma formação consistente para o respeito a diversidade, diferenças e
dignidade nas relações humanas.

Dentro deste pressuposto, o que pode caracterizar efetivamente a relação salutar


entre culturas distintas é o universo escolar? A ação docente no tocante aos desafios
provocados pela diversidade cultural, pelo multiculturalismo, interculturalidade. Ao
passar a ser prioridade, a formação docente, remete o educador à reflexão sobre a sua
própria identidade cultural e sua formação no sentido humanístico.

Na perspectiva educacional em direitos humanos, os valores compartilhados pela


maioria são considerados, desde que se observem, também, as diferenças, o que
caracteriza pensar a sociedade em sua pluralidade cultural, econômica, política e
jurídica.

Isso significa que a preparação docente no sentido de formação humana é


essencial para uma orientação metodológica. Sob uma perspectiva pedagógica, a
preocupação em ofertar uma educação que abarque, não somente uma seleção
curricular, práticas didáticas baseadas na transversalidade por meio de temas
relacionados aos Direitos Humanos, como as linguagens, estimulando o diálogo e
preparando o professor para compreender e intervir na realidade, rompendo com
paradigmas de um ensino isolado e estanque, ao adequar-se a uma perspectiva
interdisciplinar. É seguindo a perspectiva Machado (1999, p. 57) na qual a escola, vista
como aparelho ideológico do Estado, em sua prática, tende a ignorar determinados
valores culturais, seu universo simbólico, incutindo nas crianças os padrões e
estereótipos de ideologia classistas e preconceituosas, que se propõe tal necessidade de
rever metodologias e técnicas clássicas que ainda contribuem para um cenário
segregador.

O diálogo contínuo promove o reconhecimento da diversidade e a integração das


diferenças de forma efetiva para a formação de uma sociedade plural. Desta forma,
pensar a educação por meio dos Direitos Humanos, e que incluam ancestralidade e os
valores culturais étnico-raciais, consiste na garantia de processos educacionais que
percebam os atores envolvidos no processo como sujeitos de direito, de aceitação da
legitimidade da alteridade enquanto entes autônomos, a partir do reconhecimento da
diversidade.

Então, na educação em direitos humanos, a interculturalidade aparece, como


uma proposta pedagógica que busca desenvolver relações de respeito e aceitação as
diferenças encontradas nas diversas culturas, preservando tais identidades culturais e
promovendo a diversidade que é garantida por direito. A troca de experiências para o
enriquecimento mútuo fortalece a luta contra a exclusão social inerente a globalização
econômica, no contexto das lutas sociais. Como cita Pedro Georgen em seu texto sobre
a Formação humana e sociedades plurais

Formar-se na sociedade plural significa reconquista a subjetividade;


significa gerar em nós a recusa do que nos torna seres produzidos;
significa não aceitar o que o sistema quer que sejamos: cabeças bem
feitas, adaptadas, monológicas, números e categorias; significa
entender que a realidade existente não é tão pétrea quanto parece e
que pode ser diferente; significa trocar a aderência pela resistência, o
êxito pelo risco; significa ultrapassar os estreitos limites da
incorporação de conhecimentos e habilidades exigidos pelo mercado
e assumir o risco do pensamento autônomo. Mas, formar-se na
sociedade plural significa, sobretudo, dar-se conta da diferença, da
alteridade, do outro como nova categoria fundante da epistemologia,
da ética e da estética (GEORGEN, 2013, p. 18).

Neste entendimento, ao reconhecer as diferenças, as desigualdades em seus


vários aspectos, como sociais, raciais, culturais, econômicos, pode-se levar o indivíduo
a rever valores morais e sociais que foram fragmentados no âmbito cultural, percebendo
a diversidade como princípio educativo onde o conceito de identidade se concretiza pela
experiência vivida socialmente e culturalmente.

Trabalhar com as diferenças sem transformá-las em desigualdades é um dos


desafios da educação e do professor na atualidade. Desta maneira afirma Arroyo sobre a
relação entre cidadania e educação:

[...] há e muita, no sentido de que a luta pela cidadania, pelo legítimo,


pelos direitos, é o espaço pedagógico onde se dá o verdadeiro
processo de formação e constituição do cidadão. A educação não é
uma precondição da democracia e da participação, mas é parte, fruto
e expressão do processo de sua constituição. (ARROYO in BUFFA,
1996, p. 79).

Partindo desta premissa, pode-se afirmar que para o exercício da cidadania se faz
necessário a compreensão dos direitos humanos em uma concepção de respeito, onde
somente é considerado, de fato, cidadão, o sujeito que conhece e usufrui de seus
direitos, todavia, respeitando os deveres advindos destes.
Corroborando com esta ideia, Lima (2002, p.71) afirma que “a educação escolar
para a cidadania só é possível através de práticas educativas democráticas, desta forma,
promove valores, organiza e regula um contexto social em que se socializa e se é
socializado”.
Portanto, a cidadania não é exterior a pessoa e sim faz parte e começa na relação
do próprio sujeito consigo mesmo, para posteriormente, se expandir para seus pares e a
sociedade como um todo. É neste contexto, que a formação docente dentro dos
princípios básicos dos direitos humanos, da responsabilidade pessoal e coletiva, do
respeito, dentre outros valores, é uma possibilidade privilegiada para o exercício da
cidadania, ao possibilitar a formação das bases necessárias para a atuação dos diversos
sujeitos dentro da escola e consequentemente da sociedade.
Diante desta proposta de diversidade no ensino, no dia 09 de janeiro de 2003,
como instrumento de conscientização e de combate à discriminação e ao racismo, a Lei
10.639/03, foi sancionada e posteriormente, a Lei 11. 645 (que enfatiza a mesma
temática indígena) vêm acrescentar à LDB 9.394, a obrigatoriedade nos
estabelecimentos de ensino básico, públicos ou particulares do ensino de História da
África, dos africanos, da cultura negra brasileira, na luta dos negros no Brasil, bem
como sua contribuição para a formação da sociedade nacional, valorizando assim, a
participação do povo negro nas áreas social, política e econômica, “verbis: Artigo 25: §
4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes
culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes
indígena, africana e européia”.
Esta temática, pela lei, passa então, deve ser trabalhada no âmbito de todo o
currículo escolar, com maior ênfase nas disciplinas de História, Literatura e Educação
Artística, restringindo a elaboração de ações voltadas para Educação das Relações
Étnico-Raciais a docência.
Desta maneira, tais ações que visam à superação de desigualdades históricas que
atingiram determinados grupos da sociedade e que fazem parte da Política Nacional de
Promoção da Igualdade Racial, estabelecida pelo SEPPIR em 2003, buscarão pelo
reconhecimento e afirmação do caráter pluriétnico da sociedade brasileira.
Sendo assim, a luz do ensino e da diversidade cultural garantida, estas políticas
de promoção da igualdade racial são expressões que designam a equiparação dos
direitos e liberdades fundamentais de distintos grupos sociais de forma temporária, ou
seja, até que a situação seja revertida totalmente. Adotado pela ONU em 1966, o termo
medidas especiais, têm seus princípios estabelecidos pela Convenção Internacional
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, onde foi tratado o
comprometimento da adoção de políticas de eliminação da discriminação, desigualdade
racial enraizada no Brasil pela hierarquização. Ainda hoje se encontra, de forma velada,
uma forte discriminação racial - iniciada no período da escravidão - onde a ideia de que
as questões de raça são motivos de conflitos e discriminação, influenciando portanto, no
desenvolver deste sujeito quanto ao seus valores e reconhecimentos culturais.
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