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INTRODUÇÃO

O Brasil é considerado o maior país em se que fala a língua portuguesa no mundo, entretanto, esta
língua demograficamente maior do universo, o português, não nasceu no Brasil. Foi implantado no
continente sul-americano pela colonização portuguesa. Com o início efetivo da colonização portuguesa
em 1532, a língua portuguesa começa a ser aduzida para o Brasil, e se instala entre os povos que
falavam outras línguas, as línguas indígenas, e acaba por tornar-se, nesse novo lugar, a língua oficial e
nacional do Brasil. A linguagem nativa chamada de linguagem geral, o tupi, chegou em algum
momento a ultrapassar a disseminação do próprio português, uma vez que esta língua foi usada na
catequização dos índios pelos jesuítas. Entretanto, logo impuseram o português aos indígenas e, mais
adiante, em 1759, o uso da língua geral, o tupi foi banido no Brasil. E, então o português predominou e
passou a ser idioma nacional. Entrementes, não se deve esquecer que ainda restam vestígios do Tupi
em nosso pronunciar, uma vez que calcula-se que, existam cerca de dez mil palavras de origem Tupi
no vocabulário brasileiro. Segundo Honório (1986, p.18), é por meio da linguagem que se veicula a
vida humana nas comunidades sociais. Tal veiculação aponta a riqueza do legado tupi na
denominação de plantas e animais brasileiros, como um documento vivo dessa influência, na
constituição do português brasileiro.

Com a chegada dos africanos no Brasil, como escravos, a língua africana agregou à nossa
língua muitas outra palavras dessa origem. Os negros, na sua convivência com os brancos, mesclaram
sua língua ao português, dando origem a um modo de falar “português crioulo”. É importante ressaltar
que houveram outras influencias à nossa língua também marcantes, como o espanhol, francês,
alemão, japonês e italianos. Tais línguas ajudaram na expansão do regionalismo e das diversidades
pronunciais. Na concepção de Oliveira, 1999, essa fusão de línguas fomentou o português do Brasil,
assim, é comum as diferenças presente no vocabulário, na fonética e na sintaxe da nossa língua.
Falamos o português marcado pelo pluralismo e heterogeneidade e particularmente estruturada numa
gramática diversa e variada.

Assim, a existência de diferenças na fonética e na pronuncia do português do Brasil,


ocasionou ao longo do percurso da linguagem nosso país, uma controvérsia acerca do falar o
português ‘corretamente’. Desse embate de conformidades das regra do falar, nasceu e é fomentado
até a atualidade o chamado preconceito linguístico. Este preconceito se expande quando se nota a
utilização de palavras que fogem da gramatica normativa e formal, difundida e imposta nas escolas.
Sob a ótica de Marcos Bagno, a língua se tornou um elemento de segregação. A depreciação diante
das situações do uso da linguagem divergente da língua padrão, é notado em nossa sociedade
constantemente, é um preconceito que existe e persiste há muito tempo. Entretanto, é mister que
consideremos que ao analisarmos a origem das palavras consideradas “erradas” veremos uma
semelhança na sua anterior e atual escrita. A prática dessa discriminação impede a percepção da
importância da comunicação, elemento essencial à vivencia humana. E, consequentemente, deixa- se
de considerar que este falar é fruto do meio em que o indivíduo está inserido, sua família e/ ou grupo
social.

Assim, para garantir maior compreensão acerca do preconceito linguístico, sua dimensão
e importância, bem como, possibilitar maior abrangência do tema, foi necessário o estudo de
bibliografias que proporcionaram uma reflexão assente sobre esta temática. Este estudo realizou –se
à luz de referências bibliográficas como Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Carlos Cagliari, entre
outros nomes.

Com o título O preconceito Linguístico e suas implicações na sociedade, este estudo pretende
refletir sobre o preconceito linguístico, e como ele pode ser compreendido na sociedade, sobretudo, de
que maneira entidades como a escola pode atuar no enfrentamento do prejulgamento frente ao uso
diverso da nossa língua. É como aponta Geraldi (1996, p.45):

[...] a linguagem é fundamental no desenvolvimento do


homem; ela é condição sine qua non na apreensão de
conceitos que permitem aos sujeitos compreender o
mundo e nele agir; ela é ainda, a mais usual forma de
encontros, desencontros e confrontos de posições,
porque é por ela que estas posições se tornam públicas, e
por isso, é crucial dar à linguagem o destaque que de fato
tem: a de pensá-lo à luz da linguagem.

Desta maneira este estudo se estrutura em três capítulos: Capítulo I “A história da Língua
Portuguesa”, abordando o surgimento e o percurso histórico da língua portuguesa até sua introdução
no Brasil. Capítulo II “O preconceito linguístico e seus impactos na sociedade”, conceituando o
preconceito linguístico e a forma em que ele se dissemina na sociedade” e no Capítulo III “O
preconceito Linguístico na escola” será abordado a presença da variação linguística na escola e como
é possível lidar, eliminar/amenizar o preconceito linguístico neste ambiente.
Consequentemente, espera-se que esta pesquisa traga contribuição para o entendimento
quanto à origem do preconceito linguístico, bem como, a conscientização para que a diversidade
linguística deixe de ser tratada como uma língua “errada”, vista como modo de falar de pessoas
intelectualmente “inferiores”, e passe a ser arrostada como uma língua mais “dinâmica”, “ágil”,
“organizada”, e “funcional. Ainda é objetivo deste estudo suscitar questionamentos em professores e
futuros professores de Licenciaturas, colaborando para o combate ao preconceito frente a essas
variedades linguísticas, de forma transformadora, com apreciação e respeito para com a sociedade.

REFERENCIAL TEORICO

O preconceito linguístico é um fenômeno muito comum em nossa sociedade, considerado como


uma perjoração frente às variedades linguísticas, é tratado com menor relevâncias em comparação a
outros tipos de preconceitos: racial, de gênero, opção sexual, entre outros. Segundo Bagno (2007a, p.
13), os esforços para enfrentamento não são tão intensos quando se trata do preconceito linguístico.
Dentro desse panorama, compreende-se que o preconceito linguístico, antes de ser um preconceito
com o modo de falar de um determinado grupo, é, necessariamente, um preconceito social. Entretanto,
muitos se esquecem de que, o modo como um indivíduo fala tende a revelar sua origem, ou a sua
posição na sociedade.

Assim, a diversidade de linguagem resulta das peculiares experiências históricas e socioculturais do


grupo que a fala. Fatores como sua constituição, sua posição na estrutura socioeconômica, sua
organização social, seus valores e visão de mundo. E, sobretudo suas possibilidades de acesso à
escola, aos meios de informação, e assim por diante. A esse respeito, diz Mikhail Bakhtin: (1981, pp.
291-292)

“Todas as línguas [variedades] do plurilinguíssimo, qualquer que seja o


princípio subjacente a elas e que torna cada uma única, são pontos de
vista específicos sobre o mundo, formas de conceitualizar o mundo em
palavras, visões específicas do mundo, cada uma caracterizada por
seus próprios objetos, significados e valores. Como tais, todas elas
podem ser justapostas umas às outras, se suplementar mutuamente,
se contradizer mutuamente e se inter-relacionar dialógica- mente.
Como tais elas encontram umas às outras e coexistem na consciência
das pessoas concretas (...) Como tais, essas línguas [variedades]
vivem uma vida concreta, se embatem e evoluem num ambiente de
plurilinguíssimo social.”

As variedades linguísticas tem uma razão de existir, já que, como aponta Bagno, a língua falada está
em constante movimento e renova-se sempre, as normas gramaticais são boas e totalmente válidas,
pois é necessária a existência de uma norma escrita para uma padronização da língua. Essa
padronização não significa necessariamente tornar a língua em algo estático e morto, pois são os seres
humanos que a utilizam no dia-a-dia, e estes estão em constante mudança, logo a língua se modifica
com eles. As mudanças e a história do português no Brasil está intimamente ligada à própria história do
próprio Brasil. Uma história que marca diacronicamente o fluxo histórico da descoberta dessa terra pelos
portugueses.

Ao chegarem no brasil, e, descobrirem novas terras cheias de elementos inimagináveis, os portugueses,


tiveram contato com os habitantes desta terra, os índios. Esse evento ocasionou um choque de culturas,
porque os índios brasileiros, além de seus hábitos de não usarem vestimentas, e sua peculiar forma de
viver, tinham suas próprias línguas, (estima-se que havia aqui um contingente de seis milhões de
indígenas, falando aproximadamente 300 línguas) muito diferente da falada pelos colonizadores recém-
chegados à nova terra. Os portugueses traziam consigo uma cultura considerada por eles como
superior.

A chegada dos africanos escravizados, provindos de diversas regiões do continente africano, com
costumes e línguas diferentes, introduzia no Brasil mais línguas para mesclarem com a língua nativa.
Os colonos que chegaram à nova colônia passavam a viver com mulheres indígenas, assim, os filhos de
pais portugueses e mães índias, os mamelucos, conviviam com a família da mãe, ouvindo e falando a
língua de seus ascendentes índios, pois seus pais portugueses não tinham parentes consanguíneos
com os quais poderiam aprender a língua dos colonos. Segundo Rodrigues (1996. p. 8):

“A situação linguística das famílias de portugueses


casados com mamelucas devia então ser basicamente
a mesma das famílias constituídas por mamelucos e
mamelucas: falava-se corretamente a língua
originalmente indígena e apenas o marido e, a partir de
certa idade, os filhos homens eram bilíngues em
português.”

Toda essa mistura de idiomas permitiu que o português falado no Brasil se diferenciasse do português
falado em Portugal. Nesse sentido Terra (2008.p.84) aponta que, as variações linguísticas conduzem
em si suas riquezas, heranças culturais e denotam a identidade do povo brasileiro. Pela particularidade
de cada povo, essas divergências são passiveis influência de vários fatores, pois o caráter individual da
fala é responsável pela diversidade da língua: cada falante utiliza-a de maneira própria, e, é diferente da
utilizada pelos demais.

As tentativas de padronização da língua existem, porém, não é o suficiente para torna-la uniforme,
tampouco, coesa e inalterável. As línguas em sua totalidade vêm sofrendo variações no seu uso, e,
como vimos acima, essas variações são múltiplas. Algumas variantes sofrem discriminação quanto à
forma em que são usadas, dessas forma, tais variações são enxergadas como erros, originando e
fomentando o preconceito linguístico propriamente dito. Decertes, podemos denominar o preconceito
linguístico como a não aceitação do uso do português brasileiro diferente do que reza a gramática.
Assim, aqueles que detêm o conhecimento do uso “correto” da língua em consonância com as regras
gramaticais, tende a suplantar aqueles que a ‘desconhecem’ tais regras. Esse assombro frente ao uso
diverso da língua nos acontece mais diferente ambiente, como a escola, o trabalho, ruas, etc. Podemos
pensar que o preconceito, antes de ser linguístico, na verdade, é social e se esconde no discurso dos
“defensores” do uso “correto” da língua. Bagno (2008) discute que, é nas escolas que podemos
observar uma presença maior desse fenômeno, principalmente nos anos iniciais de escolaridade, uma
vez que os estudantes trazem uma bagagem linguística bem mais repleta dessas diversidades, e é
nesse momento que se tem o primeiro contato com a língua padrão. É então nesse momento que o
docente se vê em divergência com seu saber e sua prática, realizando mediações, que dependendo da
forma em que seja empregadas, podem ser desrespeitosas e preconceituosas em relação às variações
linguísticas. É mister que a escola, esteja consciente que, falar diferente da norma considerada “padrão”
não é errado. A esse respeito, Cagliari (2007, p. 37) ressalta que:

“A escola comumente leva o aluno a pensar que a


linguagem correta é a linguagem escrita, que a
linguagem escrita é por natureza lógica, clara,
explícita, ao passo que a linguagem falada é por
natureza mais confusa, incompleta, sem lógica, etc.,
nada mais falso. A fala tem aspectos contextuais e
pragmáticos que a escrita não revela, e a escrita tem
aspectos que a linguagem oral não usa.”

Desse modo é importante reconhecer a existência e a preponderância do preconceito linguístico.


Entretanto é fundamental que tomemos a iniciativa de combatê-lo. Para tal, é imprescindível mostrar à
sociedade que, assim como existem pessoas diferentes, há falas diferentes, causando reflexões acerca
desse elemento e suas implicações para sua condição de cidadão. É salutar o entendimento de que a
língua é um fator decisivo na exclusão social, assim, o preconceito linguístico deve ser admitido e
combatido. Para tal, escolas e a sociedade devem se engajar para abordar mais profundamente sobre
esse tema.