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Nome: Caio Eckert dos Santos Zanoni RA: 214124 Ciências Sociais Integral (16)

É natural que uma sociedade, com o tempo e aos poucos, mude seus costumes, formas
de tratamento e até formas de culto, mitos e parte de sua organização social. Porém estas
mudanças não são o suficiente para mudar completamente a estrutura daquela sociedade,
se passando mais por atualizações com o tempo do que mudanças de fato. Mas alguns
eventos podem alterar este padrão e reorganizar quase completamente as bases de uma
sociedade, e um desses eventos é o contato com outro povo, mais especificamente quando
um grupo de uma sociedade esbarra com outra e lá permanece, nem que seja
temporariamente.
Dentre os muitos casos em que essa mudança ocorre há um que foi capaz de mudar
crença, mitos, ritos e até a contagem de tempo, que ocorreu nas ilhas da Melanésia,
conhecido como o Culto à Carga.
Os cultos à carga mais conhecidos ocorreram durante o período da segunda guerra
mundial, quando as forças Aliadas instalaram bases militares pelas ilhas por motivos
estratégicos. Esta presença militar gerou algum estranhamento das sociedades que já
viviam por ali, o que já era de se esperar. Porém estas sociedades não entendiam o que
eram os aviões que traziam suprimentos aos soldados e os interpretaram como enviados
sagrados com a missão de trazer suprimentos aos mortais.
“Eles creem que os aviões são divinos---seus ancestrais os enviaram. Mas o
homem branco, um pirata engenhoso, consegue pôr suas mãos neles atraindo-
os para uma grande armadilha aeroporto. Construa seu avião também, e
aguarde com fé. Cedo ou tarde, seus ancestrais vão descobrir a armadilha do
homem branco e guiarão aviões para sua pista de pouso. Então você será rico
e feliz.” (Mondo Cane, Gualtiero Jacopetti, Itália, 1962)
A crença na divindade dos aviões e suas cargas se elevou a tal ponto que, na maioria
destas ilhas, seus habitantes imitam as bases militares, equipamentos e até mesmo a rotina
dos soldados, na esperança que aviões desçam e deixem sua carga como presente a eles,
e o fazem com o material que se tem disponível no ambiente. Se formos olhar pelo prisma
de James Frazer, podemos dizer que se parece muito com um processo de magia imitativa,
mas não significa que os nativos imitem aviões e caixas para receber o mesmo, mas sim
o fazem ao imitar os próprios militares e sua rotina. Indo em uma linha de raciocínio de
que o semelhante atraí o semelhante, estes imitam militares para receber suprimentos
militares, como se a rotina dos soldados norte-americanos e ingleses fossem, na verdade,
ritos para que alguma força maior lhes prestasse assistência.
Estas mudanças que ocorreram nestas ilhas indicam que não só a forma de culto foi
alterada, mas sim a própria história destas sociedades se alterou permanentemente, em
algumas das ilhas há, além do culto, um messias ou similar que em tese voltaria para
livrar-lhes da miséria, no caso da ilhas de Vanuatu e Tanna este se chama John Frum, mas
há divergências, para muitos este salvador seria Príncipe Philip*. Esta transformação
histórica que muda divindades, verdades pré-estabelecidas e todo o sistema de crença
poderia ser considerada de ordem performativa, se pensarmos em Marshal Sahlins,
mesmo porque toda a historicidade desta sociedade mudou, mas para isso os
acontecimentos que levaram a tal resultado tiveram que ser marcantes o suficiente para
que toda a estrutura prescritiva anterior, ou pelo menos boa parte dela, fosse abalada e
desse espaço a uma sova estrutura. Isso não significa que à partir daquele momento toda
a estrutura de mitos se torna puramente performática, pois vale lembrar que estas
mudanças ocorreram no período da segunda guerra mundial e perduram até os dias de
hoje, logo já se tornou prescritiva com sua permanência e reprodução com o passar das
décadas. A estrutura destes mitos se torna performática ao aceitar informações vindas de
fora dela, mas tem seu lado prescritivo reforçado conforme o tempo passa e seus ritos e
mitos permanecem quase imutáveis e ainda assim replicados com frequência.
Porém algo que é muito curioso é que, por mais que os nativos de Tanna e Vanuatu
imitem os soldados, bases militares e suas rotinas por uma espécie de magia simpática,
estes não possuem, ou não possuíam na época, rifles, fardas militares, aviões e outros, ao
invés disso imitaram as formas destes itens com madeira, palha e outros materiais
encontrados nas ilhas, além disso o chefe daquele povo possuí um rádio militar antigo
pelo qual ele acredita ser possível se comunicar diretamente com John Frum, isso tudo
me parece um grande processo de bricolagem, uma ressignificação de itens já existentes
para um novo propósito alheio à função anterior.
“O conjunto de meios do bricoleur não é, portanto, definível por um projeto (o
que suporia, aliás, como com o engenheiro, a existência tanto de conjuntos
instrumentais quanto de tipos de projeto, pelo menos em teoria); ele se define
apenas por sua instrumentalidade e, para empregar a própria linguagem do
bricoleur, porque os elementos são recolhidos ou conservados em função do
princípio de que fi isso sempre pode servir".” (LÉVI-STRAUSS, Claude. “O
Pensamento Selvagem”, 8º edição, Editora Papirus, p.33)
Embora eu tenha dito anteriormente que o culto à carga tenha se iniciado por um processo
de magia imitativa, seguindo a lógica de Frazer, este culto cresceu ao ponto de se tornar
uma religião com todas as características de uma. Seguindo a lógica de Malinowski, esta
seria uma religião pois, para ele, a magia é um rito específico para um fim específico, e
realmente se iniciou assim, a ideia inicial era imitar militares para atrair os aviões
militares, mas com o tempo esta ideia cresceu ao ponto deste culto possuir seus messias,
dias sagrados, ritos e por aí vai.
“Uma diferença mais entre magia e religião é o papel da magia branca e da
magia negra na bruxaria, ao passo que a religião, nos seus estados mais
primitivos, evidencia pouco contraste entre o bem e o mal, entre os poderes
benéficos e os maléficos. Tal fica também a dever-se ao caráter prático da
magia, que procura obter resultados quantitativos directos, enquanto a religião,
embora essencialmente moral, tem de lidar com acontecimentos fatídicos e
irremediáveis, com forças e seres sobrenaturais, de maneira que não tem ali
cabimento o desfazer de coisas feitas pelo homem.” (MALINOWSKI,
Bronislaw. “Magia, Ciência e Religião”, p.91-92)
Ao ponto que se encontra, os cultos à carga não aguardam mais por resultados imediatos
por meio de sua ritualística, mas sim manter sua fé e o contato entre fieis e divindade,
seja John Frum, seja Príncipe Philip, mas sempre na crença que, caso se mantenham
firmes em sua fé, sua divindade virá pessoalmente trazer-lhes prosperidade.
“- “Já faz dezenove anos que John Frum prometeu trazer-lhes a carga. Ele
ainda não a trouxe. Isto não o deixa um pouco aborrecido?"
- "Se vocês podem esperar dois mil anos para que Jesus Cristo venha, eu posso
esperar mais do que 19 por John Frum."” (ATTENBOROUGH, David. “The
Cargo Cult and the Great God Frum”, em “The Sunday Times”, nº24, p.119)
Depois de tudo que foi visto, pode-se resumir assim: Os cultos à carga se iniciaram por
uma lógica de magia imitativa ao se imitar os visitantes militares e acreditando que teriam
os mesmos resultados se fizessem o mesmo, e esta mudança ocorre pois a presença dos
militares estrangeiros nas ilhas provoca uma quebra de paradigmas, fazendo com que a
estrutura prescritiva vigente fosse abalada, dando espaço à uma nova de ordem
performativa e se adaptando através de um processo de bricolagem, fazendo com que os
costumes, mitos, ritos e historiografia fossem revistos e reformados com base nas novas
experiências originárias deste contato, e com o tempo tal estrutura assume seu caráter
prescritivo ao se repetir e se manter com o passar dos anos, elevando este culto do patamar
de ritualística mágica visando resultados imediatos para uma religião com todas suas
características.
Referência Bibliográfica:
- JACOPETTI, G. Mondo Cane, Itália, 1962;
- ATTENBOROUGH, D. “The Cargo Cult and the Great God Frum”, em “The Sunday
Times”, nº24;
- MALINOWSKI, B. Magia, Ciência e Religião;
- LÉVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem, 8º edição, Editora Papirus;
- SAHLINS, M. Ilhas de Histórias;
- FRAZER, J. O Ramo de Ouro;