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ÔRÍ – O NÚCLEO, O CORPO, O TRANSE:

Novas Significações de Quilombo no Brasil

Marcelo Neves Santos


Graduando em LI Artes
UFSB

Dirigido por Raquel Gerber, lançado no Brasil em 1989, com duração de 91 minutos,
o filme “Ori” traz em sua composição a luta dos movimentos negros entre as datas de 1977 e
1989. O longa metragem traça uma estreita relação entre as lutas de igualdade racial, a
história e a trajetória de Beatriz Nascimento, historiadora, intelectual e ativista. Dispõe de um
extenso acervo de imagens um tanto quanto raras, que nos fazem retornar aos anos 1970 e
1980 num olhar que possibilita vislumbrar uma parcela do que acontecia nas comunidades
negras daquela época.
Apesar de ter sido lançado há 30 anos suas cenas e contextos dialogam diretamente
com a atualidade, a luta pelas vidas negras que se inicia contra a invasão, roubo, saqueamento
e mortes no continente africano e se estende pela diáspora África – Brasil. As noções de
comunidade negra são apresentadas no documentário como quilombos, um termo utilizado
pelos negros escravizados no Brasil para descrever um lugar seguro, em que se pudesse viver
em comunidade com seus semelhantes e que tem grande importância no contexto dessa
montagem.
Além de toda abordagem política, a película demonstra a riqueza cultural, ancestral e
de resistência nas comunidades negras no Brasil, a busca pela ligação com a África através do
candomblé, do samba, do corpo e da música. A narração em off feita pela própria Beatriz
Nascimento é o que permite uma viagem pelos signos da negritude na temporalidade
proposta pelo documentário, tornando-o intenso e instigador.
Os panoramas traçados pelos planos de imagem possuem uma particularidade
bastante curiosa: o movimento constante de tudo que está sendo disposto na tela. Mesmo
quando o plano mostra uma imagem de algo estático, ou que deveria ser estático, há um
movimento imposto sobre esse objeto. Prova disto é a imagem da carta de Pero Vaz que
aparece logo nos primeiros minutos do filme, mesmo sendo a carta um objeto estático, a
câmera impõe um movimento sobre ela, que se estende por todas as imagens do filme. Num
constante vai e vem os planos nos passam a impressão de algo sempre em trânsito, reforçando
a ideia das rotas negro-diaspóricas e isso se repete em várias outras imagens “estáticas” ao
longo da montagem.
A escolha da composição de segmentos de cada plano, também é um ponto forte deste
longa, já que cada novo plano tem uma ligação com o anterior, o que cria uma sensação de
completude no que diz respeito ao contexto visual. As fotografias e enquadramentos do filme
são bastante cuidadosos em transmitir imagens muito bem pensadas para o tema que está
sendo proposto, tanto nos momentos em que as cenas acontecem externamente, quanto em
locais internos: esse é um marcador importantíssimo, pois é uma maneira de valorização dos
signos dispostos no plano.
A trilha sonora ambienta o espectador e o leva em muitas partes do filme a sentir o
êxtase da dança e do transe relatado em cena. Além disso, a escolha das canções que
compõem a produção é bastante coerente com os contextos e com a proposta da montagem.
Nomes como Gilberto Gil e Caetano Veloso, dentre outros, foram escolhidos por Naná
Vasconcelos para compor alguns dos momentos deste documentário, o que lhe dá um toque
de brasilidade e sentimento de pertencimento, já que as vozes desses dois cantores de suma
importância para o Brasil embalaram tantos protestos e canções, empunhando bandeiras sobre
as questões raciais. Também estão presentes nomes importantes da música negra
internacional como Jimmy Cliff e Jimmy Bo Horne.
Uma das minhas maiores curiosidades ao assistir ao filme foi seu nome. Ori é
segundo os Iorubás o portador do Destino, uma das partes de suma importância da
composição humana, como é afirmado por Yunusa Kehinde Salami (data, página) em seu
texto “Predestinação e a metafísica da identidade: um estudo Iorubá”.
Através da diáspora, a cabeça – signo da Razão ocidental – foi atribuída com maior
força à Ori, e muitas leituras referentes à cabeça como, consciência, pensamento e outros
foram atribuídos a essa energia. No filme “Ori”, também há essa relação, mas ultrapassa a
ideia dessa palavra atrelada apenas à racionalidade positiva. Beatriz Nascimento, por
exemplo, vê Ori como o núcleo, um quilombo. Considerando que Ori é o dono do Destino,
então a ligação entre as vivências nos quilombos e essa energia é enorme, e naturalmente
essas vivências contribuíram grandemente para o destino de quem estivesse, fizesse parte ou
fosse esse quilombo. A vitalidade de Ori (núcleo, quilombo) depende das vivências, do
convívio e até mesmo de si próprio para existir.
A maneira como o filme aborda as questões da negritude, as imagens expostas, as
músicas, os signos são modos de fomentar uma discussão extremamente importante no
cenário político-social atual. Através dessa montagem é possível imaginar o nível de
progresso das pautas de igualdade racial no país e a luta constante que vigora até hoje, não
por privilégios, mas por direitos. É nessa luta que surge o quilombo como representação de
“um instrumento vigoroso no processo de reconhecimento da identidade negra brasileira para
uma maior autoafirmação étnica e nacional (NASCIMENTO. 1985). O resgate desse termo
utilizado pelos escravizados como lugar seguro, recebe outras faces, outras formas, outras
configurações. Pensar os quilombos de novas maneiras é também um jeito de tentar resgatar
as raízes do convívio e da comunidade negra.
No filme as novas significações de quilombo são o carnaval, os clubes de dança, as
comunidades de candomblé, os movimentos sociais, enfim, todos os locais em que o povo
negro estiver presente. Mas há algo que pulsa mais forte em alguns desses novos quilombos,
alguns deles se tornaram instituições, patrimônios culturais do país e talvez hoje não seja
compreendido pela maioria de seus integrantes como esse lugar de retorno às raízes. Talvez
esse camuflar desses novos quilombos seja uma maneira de quebra de um poder hegemônico,
uma contraproposta a esta que está posta, pois, segundo Beatriz Nascimento, quilombo trata
de poder, da possibilidade de se criar outro sistema, diferente do poder político e de
dominação, mas um poder que está presente em cada indivíduo tornando-o uma espécie de
ser-quilombo.
Pensar o quilombo como coletivo, mas também como indivíduo é uma maneira
também de possibilitar o empoderamento do povo negro, ou seja, vê-los como parte principal
e indispensável para a construção de um novo sistema. Tudo isso fica muito evidente, quando
o filme mostra os antigos bailes e desfiles de beleza, pois, havia uma onda de empoderamento
que se repete hoje com bastante força. Isso acontece, porque a partir do momento que existe
um reconhecimento de suas raízes, de sua condição e de sua cor de pele, são gerados
posicionamentos políticos que visam à melhoria da vida de outros negros numa espécie de
aquilombar-se recorrentemente.
Esse reconhecer-se também acontece na história de Beatriz Nascimento, haja vista
que, em determinado ponto é mostrado o poder da igreja sobre o corpo negro. No filme isso
se dá quando vemos uma fotografia da historiadora ainda criança, vestida para a primeira
comunhão. Beatriz Nascimento é para o filme um exemplo de quilombo, se levamos em
consideração que não existe quilombo se não houver reconhecimento de si e busca por suas
raízes, costumes, ancestralidade.
Toda a questão do reconhecer-se implica em amor. Não um amor narcisista, mas um
amor de valorização, o que nas palavras de bell hooks (2019, p. ?) se pode ler: “Amar a
negritude como resistência política transforma nossas formas de ver e ser e, portanto, cria as
condições necessárias para que nos movamos contra as forças de dominação e morte que
tomam as vidas negras”.
Mesmo não mostrando de maneira explícita, as questões dispostas no filme passam
pela afetividade e pelo amor, por isso, o quilombo só é possível se houver um amor pela
negritude, ou seja, amar como posicionamento político, como uma das disposições do ser-
quilombo.
O corpo é um dos elementos mais presentes neste filme, seja porque o corpo negro é
símbolo de resistência, seja porque todas as questões citadas anteriormente nesse texto
perpassam o corpo. Todas as ressignificações de quilombos descritas na montagem passam
pelo corpo, o que me leva a pensar que é impossível dissociar o quilombo do corpo. Eles
precisam um do outro para existir, pois, o corpo é o responsável por receber o transe.
O transe deste corpo pode ser religioso (candomblé), cultural (carnaval, desfiles) ou
mesmo de entretenimento (clubes de dança). No transe religioso, o sujeito assume sua
posição de divindade ao mesmo tempo em que a perde. Quando a divindade toma seu corpo,
o que está sendo descrito é nitidamente a busca por suas raízes, pela sua linhagem, sua
ancestralidade. Dessa forma esse corpo se torna o núcleo, o Ori, o quilombo. Não à toa, as
religiões de matrizes africanas valorizam o corpo – na contramão do sistema racional do
Ocidente –, ele é a chave para abrir os portões desse quilombo almejado.
No transe cultural, o corpo torna-se um outdoor político, uma maneira de desfilar esse
corpo ao passo que mostra suas cicatrizes e resistências. O corpo é, antes de tudo, político e
este transe cultural a que me refiro, vê o corpo como uma chance de romper normas e padrões
impostos, enxerga em si mesmo, a possibilidade de criar novos sistemas e novas maneiras de
existir.
O transe de entretenimento não é de forma nenhuma menos importante que os outros.
Ele trata de um corpo que se diverte, que por muitas vezes se abstrai dos problemas e apenas
dança, passeia, vive, mas que nunca deixa de ser um corpo-quilombo, até porque esse transe é
parte de suas vivências.
O filme Orí, aborda questões fundamentais, tanto para uma sociedade mais igualitária,
quanto para uma sociedade que valorize suas raízes. É de suma importância que se façam
conhecidas outras histórias negras, de lutas do povo negro, sendo esse documentário, um dos
espaços para a busca de conhecimento. Trata-se de ótima montagem, importante não só para
os que estudam as causas negras afrodiaspóricas e afro-brasileiras, de corpo e de religiões de
matrizes africanas, mas para todo aquele que se interesse em saber um pouco mais sobre
afetividades aquilombadas, sobre afetividades e aquilombar-se, sobre essa nova perspectiva
de ver cada pessoa como um núcleo, um quilombo, um poderoso “Ori”.