Você está na página 1de 9

109

Artigos
Exercício físico no diabetes melito
associado à hipertensão arterial sistêmica
Maria Cláudia Irigoyen, Kátia De Angelis,
Beatriz D’Agord Schaan, Patrícia Fiorino, Lisete C. Michelini

Resumo indivíduos a melhora da capacidade aeróbia, diminuição


A mortalidade dos pacientes diabéticos é maior do que dos lipídeos e glicose plasmáticos, além da redução da
a da população em geral e decorre especialmente das doen- pressão arterial. O presente estudo revisa a fisiologia e
ças cardiovasculares. É possível reduzir o risco de diabetes fisiopatologia do exercício físico em indivíduos com DM
melito (DM) e de hipertensão arterial sistêmica (HAS) e HAS, em nível de circulação e microcirculação, buscando
através de dieta e exercícios físicos, assim como reduzir correlação dos estudos desenvolvidos pelos autores com
os riscos de complicações micro e macrovasculares em a literatura vigente, tanto em estudos experimentais como
pacientes com DM e HAS através do controle glicêmico em humanos. São também revisadas as diretrizes atuais
estrito e redução dos níveis pressóricos. São benefícios quanto às recomendações para treinamento físico neste
clínicos reconhecidos do treinamento físico nesses grupo específico de pacientes.

Palavras-chave: Diabetes melito; Exercício físico; Hipertensão arterial sistêmica.

Recebido: 11/04/03 – Aceito: 02/05/03 Rev Bras Hipertens 10: 109-116, 2003

O exercício, juntamente com a cações crônicas das doenças1,2. Além Fisio patologia na
Fisiopatologia
dieta e o tratamento farmacológico, disso, o baixo custo, a natureza não-
tem sido considerado como uma das farmacológica e os benefícios psicos- coexistência de diabetes
três principais abordagens no trata- sociais de uma vida menos sedentária e hi pertensão
hipertensão
mento do diabetes melito (DM). A aumentam ainda mais o apelo da te-
atividade física regular é recomen- rapêutica através do exercício físico O DM do tipo 2 vem tomando pro-
dada para pacientes com DM e hiper- regular. Este artigo tem por objetivo porções epidêmicas em razão do au-
tensão arterial sistêmica (HAS), em revisar os efeitos do exercício agudo mento da expectativa de vida, do
razão de seus vários efeitos benéficos e crônico nas diferentes disfunções crescimento da prevalência de obe-
sobre o risco cardiovascular, controle fisiológicas presentes em indivíduos sidade e dos hábitos de vida seden-
metabólico e prevenção das compli- hipertensos e diabéticos (tipos 1 e 2). tária. A associação do DM do tipo 2

Correspondência:
Maria Cláudia Irigoyen
Unidade de Hipertensão do InCor – HC-FMUSP
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44 – Cerqueira César
CEP 05403-000 – São Paulo, SP
Fax: (11) 3085-7887
E-mail: hipirigoyen@incor.usp.br

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
110

a outros fatores de risco cardiovas- Respostas fisiológicas ao sina do receptor, fosforilação dos
cular, incluindo HAS, obesidade, substratos do receptor de insulina IRS-
resistência à insulina, microal- exercício físico agudo 1 e IRS-2 e ativação do fosfatidilino-
buminúria e anormalidades nos Durante o exercício o transporte sitol 3-quinase. Isso causa a translo-
lipídeos e lipoproteínas plasmáticas, de glicose na célula muscular au- cação do GLUT4 para a membrana
tem sido denominada síndrome me- menta, bem como a sensibilidade da celular, com conseqüente aumento do
tabólica ou síndrome X 3. Estudos célula à ação da insulina. Muitos fa- transporte de glicose para o interior
vêm demonstrando que a resistência tores determinam a maior taxa de celular. Em contrapartida, os mecanis-
à insulina é o fator-chave na pato- captação da glicose durante e após o mos moleculares envolvidos na trans-
gênese do DM do tipo 2 e é um co- exercício, mas, sem dúvida, o aumen- locação dos transportadores de glicose
fator no desenvolvimento da HAS, to do aporte sanguíneo é um impor- em decorrência do exercício, indepen-
dislipidemia e aterosclerose. As tante fator regulador, permitindo a dentemente da ação da insulina, não
causas da resistência à insulina disponibilização deste substrato para estão bem estabelecidos. Sabe-se que
incluem fatores como a obesidade, o a musculatura. O transporte de glicose esse processo não é mediado de forma
sedentarismo e fatores genéticos 4. no músculo esquelético ocorre pri- semelhante ao que ocorre com a insu-
Hiperinsulinemia, secundária à re- mariamente por difusão facilitada, lina, portanto, não ocorre autofosfori-
sistência à insulina, pode elevar a através de proteínas transportadoras lação dos receptores, nem ativação da
pressão arterial por diversos me- (GLUTs) cujos principais mediadores PI 3-quinase11,12. Evidências parecem
canismos, incluindo ativação do sis- de ativação são a insulina e o exer- indicar que o cálcio liberado pelo retí-
tema nervoso simpático e retenção cício. Existem evidências de que o culo sarcoplasmático é um mediador
de sódio 5. Além disso, Takahashi et principal mecanismo pelo qual o exer- deste processo de translocação, inician-
al. 6 sugerem que a resistência à cício aumenta o transporte de glicose do ou facilitando a ativação de molécu-
insulina participe na patogênese da para o músculo é através da translo- las sinalizadoras intracelulares ou casca-
redução do reflexo vagal cardíaco e cação dos GLUTs de compartimentos tas de sinalização que levam aos efeitos
da função simpática no coração apre- intracelulares para a membrana9,10. imediatos e prolongados do exercício
sentadas por pacientes com hiper- Este aumento na translocação de sobre o transporte de glicose no mús-
tensão essencial e DM do tipo 2. transportadores de glicose pode ser culo. A proteína quinase C é um exem-
Esler et al. 7 destacaram a im- dependente ou não de insulina. É pos- plo dessas moléculas de ativação de-
portância da hiperatividade do sis- sível haver translocação de GLUT4 pendente de cálcio13. Existem também
tema nervoso simpático no desen- para a membrana muscular durante o evidências de componentes autócrinos
volvimento dessas disfunções. De exercício mesmo em ausência de e parácrinos para ativação do trans-
fato, apesar de haver várias hipó- insulina11. Observa-se, portanto, que porte de glicose, tais como o óxido
teses para se desvendar o que é indivíduos diabéticos com ausência nítrico, a calicreína e a adenosina14,15.
causa e o que é conseqüência na de insulina ou deficiência na ação des- As respostas hormonais mediadas
síndrome metabólica (HAS, re- te hormônio conseguem utilizar pela insulina para aumentar o trans-
sistência à insulina, DM, obe- glicose para contração muscular du- porte de glicose para o músculo estão
sidade), a hiperatividade simpática rante o exercício, podendo esta utili- ausentes nos pacientes com DM do
está presente em quase todas as zação contribuir para a redução da tipo 1 e naqueles com DM do tipo 2
disfunções componentes da sín- hiperglicemia. tratados com insulina ou sulfoni-
drome. A figura 1 apresenta uma ilustra- luréias. Todavia, durante o exercício
O risco cardiovascular dobrado ção dos possíveis mecanismos pelos físico, a captação de glicose no indi-
quando da coexistência de DM e quais a glicose é transportada para o víduo diabético, independentemente
HAS também pode estar rela- interior da célula em presença de insu- da insulina, aumenta de forma seme-
cionado a alterações de estrutura e lina ou durante o exercício (sem a ne- lhante àquela descrita em indivíduos
função cardiovasculares que pre- cessidade de insulina). Os mecanis- saudáveis16,17.
cedem a doença cardiovascular clí- mos moleculares desencadeados pela É importante salientar que em
nica, tais como aumento de massa insulina no processo de translocação indivíduos com DM do tipo 1, a pre-
e anormalidade de função diastó- do GLUT4 são bem conhecidos. A sença de hiperglicemia e níveis circu-
lica do ventrículo esquerdo, disfun- ligação da insulina ao seu receptor na lantes de insulina baixos quando do
ção endotelial e enrijecimento de membrana plasmática determina descontrole metabólico crônico pode
artérias 8 . autofosforilação dos resíduos de tiro- levar ao aumento da glicemia e da

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
111

pação de indivíduos normais e diabé-


ticos em atividades físicas vigorosas
ou não se associa à melhor sensibi-
lidade à insulina25 .
Baseado em sugestões de estudos
transversais que demonstravam asso-
ciação entre a sensibilidade à insulina
e prevalência de HAS, estudo recente
avaliou prospectivamente esta rela-
ção, demonstrando modesta proteção
quanto à incidência de HAS em cinco
anos nos indivíduos que apresenta-
vam, ao entrar no estudo, melhor sen-
sibilidade à insulina26. Estes dados su-
gerem, da mesma forma que os obti-
dos em relação à prevenção do DM,
que a redução de peso e o aumento de
atividade física, que sabidamente
melhoram a sensibilidade à insulina,
Figura 1 – Mecanismos de translocação dos transportadores de glicose (GLUT4) devam ser utilizados como medidas
dependente e independentemente (exercício) de insulina na célula muscular esquelética. preventivas da HAS em nível popu-
NO = óxido nítrico; PI = fosfatidilinositol. (Modificado de Goodyear LJ, Exercise, lacional.
glucose transport, and insulin sensitivity. Am Rev Med; 1998;49:235-61.) Não existem atualmente evidên-
cias suficientes de que o treinamento
produção de corpos cetônicos durante co regular e bem prescrito promove físico é benéfico no controle glicê-
o exercício, decorrente de aumento melhoras cardiovasculares e meta- mico de pacientes com DM do tipo 1.
de hormônios contra-reguladores 1. bólicas crônicas em indivíduos dia- Em 1984, Zinman et al. 27 demons-
Ramires et al. demonstraram que a béticos e hipertensos. traram que o treinamento físico não
glicemia de diabéticos do tipo 1 modificava a glicemia, a hemoglobina
privados de insulina por 12 horas No diabetes melito glicosilada ou a reposição de insulina
apresentava-se normal nos primeiros nesses indivíduos. Entretanto, Mosher
30 minutos de exercício leve, com Revisões de estudos baseados em et al.28 evidenciaram redução dos
redução na exaustão (~ após 60 minu- evidências demonstram que o efeito níveis de hemoglobina glicosilada em
tos)18. Todavia, a ingestão de glicose do exercício aeróbio ou de resistência adolescentes diabéticos do tipo 1
prévia à atividade física nesses pacien- sobre o controle glicêmico no DM do submetidos a treinamento físico.
tes elevava a glicemia basal e no início tipo 2 é geralmente positivo, apesar de Outros autores observaram que pa-
do exercício19. Por outro lado, a pre- que uma relação direta entre a intensi- cientes com DM do tipo 1 apresen-
sença de hiperinsulinemia decorrente dade e o efeito não pode ser espera- tavam queda da PA e da freqüência
de administração exógena pode redu- da21,22. Apesar desses resultados, ne- cardíaca após três meses de condi-
zir a mobilização de glicose e outros nhum ensaio clínico randomizado foi cionamento, além de diminuição nas
substratos em resposta ao exercício realizado examinando a eficácia do necessidades de insulina 29.
físico, levando à hipoglicemia, mere- exercício sobre as alterações cardio- O modelo experimental de DM
cendo especial atenção no momento vasculares do DM associado à HAS. por estreptozotocina (STZ) tem sido
da prescrição da atividade1,20. Recentemente obteve-se compro- utilizado por muitos investigadores
vação de que mudanças no estilo de no estudo das alterações metabólicas
vida (exercício físico regular e redu- e cardiovasculares da doença. Ratos
Respostas fisiológicas ao ção de peso) podem diminuir a inci- diabéticos por STZ apresentam muitas
exercício crônico dência de DM do tipo 2 em indivíduos alterações semelhantes às observadas
com intolerância à glicose23,24. Esses em humanos, tais como hiperglice-
A figura 2 ilustra alguns meca- resultados estão de acordo com a mia, hipoinsulinemia, glicosúria, po-
nismos pelos quais o treinamento físi- observação prévia de que a partici- liúria, perda de peso, neuropatia, ne-

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
112

fropatia e cardiopatia 30,31. Em nosso de nosso laboratório mostraram redu- perfeitamente esclarecidos, mas
grupo, temos utilizado esse modelo ção da PA e da freqüência cardíaca existem evidências consistentes do
na busca da melhor compreensão das desde 5 até 80 dias após a indução do envolvimento de alterações na fre-
disfunções do controle autonômico DM30-34. Os mecanismos envolvidos qüência cardíaca intrínseca, no tônus
do sistema cardiovascular. Estudos nessas disfunções ainda não estão vagal e no controle reflexo cardiovas-

Figura 2 – Mecanismos pelos quais o treinamento físico pode melhorar a regulação cardiovascular e o controle glicêmico em
pacientes diabéticos e hipertensos.
AGL = ácidos graxos livres.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
113

cular (barorreflexo e quimiorreflexo) hipertensos e ratos SHR treinados apre- de oxigênio pela musculatura exer-
neste prejuízo cardiovascular35. Além sentam redução da PA de repouso asso- citada) determinada pelo treinamento
disso, trabalhos recentes de nosso ciada à diminuição da atividade sim- físico.
laboratório vêm demonstrando os pática periférica e/ou do débito cardía- A importância dessas observações
efeitos benéficos do treinamento fí- co38,39. Nesse aspecto, a normalização reside no fato de que a musculatura
sico nas disfunções desse modelo do tônus simpático cardíaco exacer- esquelética responde ao exercício
experimental34-36. Verificou-se que o bado estaria associada à bradicardia de repetitivo com alterações opostas
treinamento físico normaliza a repouso e, conseqüentemente, à redu- àquelas determinantes de hipertensão,
hipotensão e a bradicardia observada ção do débito cardíaco, observada em ou seja: 1) normalização de elevada
em ratos sedentários com DM por ratos SHR treinados38,40 . Além disso, razão parede/luz de arteríolas, com
STZ. A normalização dos níveis pres- o treinamento físico melhora o prejuízo conseqüente redução da resistência
sóricos nestes animais parece estar na sensibilidade dos pressorreceptores, vascular local, e 2) aumentos da
relacionada a um aumento do débito observado em humanos e animais densidade venular e capilar, o que,
cardíaco, produto do aumento da fre- hipertensos41,42, benefício este atribuí- ampliando o número de canais
qüência cardíaca basal e da melhora do à melhora na aferência deste reflexo paralelos da microcirculação, resulta
da contratilidade miocárdica34,35,37. em ratos SHR treinados. Todavia, em aumento da capacitância vascular
A reversão da bradicardia do DM alterações nos componentes eferente com redução da razão volume san-
em animais treinados foi positi- e central não podem ser excluídas41. guíneo/capacidade vascular. Embora
vamente correlacionada com o au- O treinamento físico de baixa in- a redução da razão parede/luz seja
mento da freqüência cardíaca intrín- tensidade causa redução significante facilmente entendida como meca-
seca 34. A sensibilidade dos pressorre- da resistência vascular periférica, de- nismo anti-hipertensivo, o aumento
ceptores, que representa o mais im- terminada por redução da vasocons- da condutância paralela não se corre-
portante mecanismo de regulação da trição, melhora da função endotelial laciona diretamente com a redução
PA a curto prazo, encontra-se atenua- e/ou alterações estruturais da micro- da pressão arterial. No entanto, deve-
da em ratos diabéticos sedentários, circulação. Neste particular, trabalhos se ter em conta que o treinamento
mas é normalizada pelo treinamento de nosso laboratório com ratos SHR físico bloqueando a rarefação capilar
físico34,36. submetidos a treinamento aeróbio de e determinando aumento marcante
baixa intensidade (50% a 60% VO2 da vascularização em vários segmen-
Na hipertensão máx.) mostraram redução consistente tos vasculares reduz a razão volume
dos níveis pressóricos, associada a: sanguíneo/capacidade vascular e a
De forma semelhante ao exercício 1) redução da resistência vascular do pressão de enchimento médio cir-
agudo, o treinamento físico promove trem posterior (território predo- culatório47 , contribuindo de forma
redução dos níveis pressóricos no minantemente muscular esquelético) significante para a redução da pres-
período pós-exercício, mas com a van- na situação de repouso43 ; 2) nor- são no hipertenso. Se o treinamento
tagem de que hipertensos treinados, malização da razão parede/luz das determina ou não respostas adap-
humanos ou ratos espontaneamente arteríolas musculares esqueléticas, tativas similares no hipertenso
hipertensos (SHR) apresentam menor sugestiva de remodelamento vas- diabético é ainda assunto aberto à
PA durante a realização da atividade cular43-46; 3) aumento marcante da den- investigação.
física e o mais importante, redução sidade venular (~ 2 vezes para veias Alguns estudos em humanos têm
nos níveis da PA no período de re- de menor calibre) 44-46, indicativo de ainda demonstrado que a redução da
pouso. Todavia, esses estudos demons- neoformação vascular. Estes ajustes PA encontra-se associada a alterações
traram que o treinamento físico deve foram específicos dos SHR sub- de fatores humorais como o peptídio
ser realizado em intensidade de baixa metidos ao treinamento aeróbio, natriurético atrial48 . Também a re-
à moderada (50% VO2 máx.), já que enquanto o aumento da densidade dução da noradrenalina plasmática
tais benefícios não foram observados capilar e da razão capilares/fibra mus- em hipertensos treinados sugere
em ratos SHR treinados em alta cular esquelética foi observado tanto diminuição da atividade nervosa
intensidade (85% VO2 máx.)38. Os nos hipertensos quanto em seus con- simpática nestes indivíduos 49, porém
mecanismos envolvidos na queda da troles normotensos43,46, indicando ser tais achados precisam ser melhor
PA em indivíduos hipertensos parecem a capilarização uma resposta adapta- investigados e correlacionados com
estar relacionados com fatores hemodi- tiva preferencial ao aumento da as alterações neurais pós-treinamento
nâmicos, neurais e humorais. Humanos perfusão tecidual (e à maior captação em presença de HAS.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
114

Na hipertensão associada à davia, estes animais tinham normali- corações de animais normais. O treina-
resistência à insulina e ao zação da resistência periférica à insu- mento físico reverteu essas disfunções
lina51 e queda da PA no período pós- cardíacas, normalizando a função
diabetes
exercício (1 hora)52, alterações estas ventricular de corações de ratos diabé-
Indivíduos hipertensos e resis- que, segundo outros autores, podem ticos treinados34.
tentes à insulina têm menor capaci- perdurar por mais de 20 horas após a
dade funcional em resposta ao exer- atividade física53 .
cício, a qual tem sido associada com A disfunção diastólica do ventrí- Considerações finais
os fatores de risco para doenças cardio- culo esquerdo é uma alteração comum
vasculares usualmente presentes50. A e precoce no DM sendo também obser- Apesar de vários estudos em hu-
melhora desses fatores de risco tem vada na HAS, de origem metabólica manos e modelos animais demons-
sido relacionada à redução da insu- ou isquêmica54. Este achado sugere trarem os benefícios da atividade física
linemia, e é provável que muitos dos complacência reduzida ou relaxamento aeróbia na HAS e no DM do tipo 2,
efeitos cardiovasculares benéficos do prolongado e relaciona-se à pior quer seja pela redução dos níveis
exercício nestes indivíduos se devam performance durante o exercício físico, tensionais, quer seja pela indiscutível
à melhor sensibilidade à insulina que mesmo sem acompanhar-se de disfun- redução dos fatores de risco associados
ele causa9. Portanto, os efeitos do trei- ção sistólica55. O treinamento físico (obesidade, resistência à insulina),
namento físico em reduzir a PA têm pode reduzir a disfunção diastólica do ainda resta compreender as razões
sido observados de forma mais con- ventrículo esquerdo, mas seu efeito a pelas quais se observa uma varia-
sistente em indivíduos hiperinsuli- longo prazo nestes pacientes não está bilidade de resultados quando da sua
nêmicos. estabelecido56. De fato, estudos realiza- aplicação na população. Apesar da
Em um estudo de nosso laboratório dos em nosso laboratório em corações confirmação de redução de níveis
demonstramos que ratos hipertensos isolados de ratos com DM por STZ pressóricos, massa ventricular esquer-
pelo bloqueio do óxido nítrico não demonstraram prejuízo nas derivadas da, glicose e lipídeos plasmáticos, não
apresentavam redução significativa de contração e relaxamento do ventrí- está comprovado que essas mudanças
dos níveis da PA de repouso após 10 culo esquerdo, sem alteração na pres- de estilo de vida em pacientes diabé-
semanas de treinamento físico. To- são sistólica ventricular em relação a ticos reduzam sua mortalidade.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
115

Abstract pressure controls. It is well known that physical training


has clinical benefits in these individuals, through
Exercise in diabetes mellitus associated to systemic amelioration of aerobic capacity, plasma glucose and
arterial hypertension lipid lowering and arterial pressure reduction. The main
Mortality of diabetic patients is greater than general objective of this study was to review the physiology and
population, and due to cardiovascular diseases. It is physiopathology of physical exercise in subjects with
possible to reduce the risk of the development of diabetes DM and AH, focusing in circulation and microcirculation,
mellitus (DM) and arterial hypertension (AH) by body disclosing its relationship with the current literature,
weight loss and physical training. Similarly, it is possible including experimental and clinical studies. The current
to reduce micro and macrovascular complications, in guidelines about physical activity/exercise in this specific
patients with DM and AH, by strict glycaemic and blood group of subjects are also reviewed.

Keywords: Diabetes mellitus; Exercise; Systemic arterial hypertension.

Rev Bras Hipertens 10: 109-116, 2003

Referências From Obesity to Diabetes. Am J Physiol by exercise. Diabetes Metab Rev 1986;
2001;14:3045-95. 1:409-24.

1. American Diabetes Association: Diabetes 8. Devereux RB, Roman MJ, Paranicas M 14. Balon TW, Jasman AP, Balon EC,
mellitus and exercise. Diabetes Care et al. Impact of diabetes on cardiac Nadler JL. Skeletal muscle glucose
2003;26(1):S64-8. structure and function: the strong heart transport in mediated by nitric oxide via
study. Circulation 2000;101:2271-6. acGMP related mechanism. Med Sci
2. UK Prospective Diabetes Study Group. Sports Exerc 1996;28:558.
Tight blood pressure control and risk of 9. Hirshman MF, Wallberg-Henriksson H,
macrovascular and microvascular Wardzala LJ, Horton ED, Horton ES. 15. Schwartz NS, McKenzie JE. Adenosine
complications in type 2 diabetes (UKPDS Acute exercise increases the number of and active hyperemia in soleus and
38). BMJ 1998;317(7160):703-13. plasma membrane glucose transporters gracilis muscle of cats. Am J Physiol
in rat skeletal muscle. FEBS Lett. 1988; 1990;259:H1295-304.
3. Reaven GM. Role of insulin resistance 238:235-9.
in human disease. Diabetes 1988; 16. Richter EA, Poug T, Galbo H. Increased
37:1595-607. 10. Roy D, Marette A. Exercises induces the muscle glucose uptake after exercise: no
translocation of GLUT4 to transverse need for insulin during exercise. Diabetes
4. Haffner SM, Mykkänen L, Festa A, tubules from na intracellular pool in rat 1985;34:1041-8.
Burke JP, Stern MP. Insulin-resistant skeletal muscle. Biochem Biophys Res
prediabetic subjects have more atherogenic Commun 1996;223:147-52. 17. Wallberg-Henriksson H, Holloszy JO.
risk factors than insulin-sensitive Contractile activity increases glucose
prediabetic subjects. Circulation 2000; 11. Goodyear LJ, Giorgino F, Balon TW, uptake by muscle in severely diabetic
101:975-80. Condorelli G, Smith RJ. Effects of rats. J Appl Physiol 1984;57:1045-9.
contractile activity on tyrosine phospho-
5. Landsberg L. Hyperinsulinemia: possible roteins and phosphatidylinositol 3- 18. Ramires PR, Forjaz CLM, Silva MER et
role in obesity-induced hypertension. kinase activity in rat skeletal muscle. Am al. Exercise tolerance is lower in type I
Hypertension 1992;19(suppl.I):1161-6. J Physiol 1995;268:E987-95. diabetics compared with normal young
6. Takahashi N, Nakagawa M, Saikawa T men. Metabolism 1993;42:191-5.
12. Wojtaszewski JFP, Hansen BF, Urso B,
et al. Effect of essential hypertension on Richter EA. Wortmannin inhibits both 19. Ramires PR, Forjaz CLM, Strunz et al.
cardiac autonomic function in type 2 insulin and contraction stimulated Oral glucose ingestion increases
diabetic patients. J Am Coll Cardiol glucose uptake and transport in rat endurance capacity in normal and
2001;38(1):232-7. skeletal muscle. J Appl Phyisiol 1996; diabetic (type I) humans. J Appl Physiol
7. Esler M, Rumantir M, Wiesner G, Kaye 81:1501-9. 1997;87: 608-14.
D, Hastings J, Lambert G. Sympathetic 13. Holloszy JO, Constable SH, Young DA. 20. Forjaz CLM, Tinucci T, Alonso DO,
Nervous System and Insulin Resistance: Activation of glucose transport in muscle Negrão CE. Exercício físico e diabetes.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
116

Rev Soc Cardiol de São Paulo 1998;8 31. Dall'Ago P, Fernandes TG, Machado 42. O'Sullivan SE, Bell C. The effects of
(5):981-9. UF, Bello AA, Irigoyen MC. Baroreflex exercise and training on human cardio-
and chemoreflex dysfunction in vascular reflex control. J Auton Nerv
21. Kelley DE, Goodpaster BH. Effects of streptozotocin-diabetic rats. Braz J Med System 2000;81:16-24.
exercise on glucose homeostasis in type Biol Res 1997;30(1):119-24.
2 diabetes mellitus. Med Sci Sports 43. Amaral SL, Zorn TMT, Michelini LC.
Exerc 2001;33(Suppl 6):S495-501. 32. Maeda CY, Fernandes TG, Timm HB, Exercise normalizes wall-to-lumen ratio
Irigoyen MC. Autonomic dysfunction in of the gracilis muscle arterioles and
22. Boule NG, Haddad E, Kenny GP, Wells short-term experimental diabetes. reduces pressure in spontaneously
GA, Sigal RJ. Effects of exercise on Hypertension 1995;26(6)[part 2]:1000-4. hypertensive rats. J Hypertens 2000;
glycemic control and body mass in type 18:1563-72.
2 diabetes mellitus: a meta-analysis of 33. Maeda CY, Fernandes TG, Lulhier F,
Irigoyen MC. Streptozotocin diabetes 44. Amaral SL, Silveira NP, Zorn TMT,
controlled clinical trials. JAMA 2001;
modifies arterial pressure and baroreflex Michelini LC. Exercise training causes
286:1218-27.
sensitivity in rats. Braz J Med Biol Res skeletal muscle venular growth and alters
23. Tuomilehto J, Lindstrom J, Eriksson JG hemodynamic responses in spontaneously
1995;28:497-501.
et al. (Finnish Diabetes Prevention hypertensive rats. J Hypertens 2001;19
Study Group). Prevention of type 2 34. De Angelis KLD, Oliveira AR, (5):931-40.
diabetes mellitus by changes in lifestyle Dall'Ago P et al. Effects of exercise
45. Amaral SL, Papanek PE, Greene AS.
among subjects with impaired glucose training in autonomic and myocardial
Angiotensin II and VGEF are involved
tolerance. N Engl J Med 2001;344(18): dysfunction in streptozotocin-diabetic
in angiogenesis induced by short-term
1343-50. rats. Braz J Med Biol Res 2000;
exercise training. Am J Physiol Heart
33:635-41. Circ Physiol 2001;281:H1163-9.
24. Diabetes Prevention Program Research
Group. Reduction in the incidence of type 35. De Angelis K, Schaan BD, Maeda CY, 46. França TR, Fortes ZB, Michelini, LC.
2 diabetes with lifestyle intervention or Dall’Ago P, Wichi RB, Irigoyen MC. Altered sensitivity to norepinephrine
metformin. N Engl J Med 2002; 346(6): Cardiovascular control in experimental after training in SHR skeletal muscle
393-403. diabetes. Braz J Med Biol Res 2002; arterioles. Hypertension 2001;37:
35(9):1091-100. 1009.
25. Mayer-Davis EJ, D'Agostino RJ, Karter
AJ et al. IRAS Investigators. Intensity 36. De Angelis, Hathmann AD, Krieger EM, 47. Guyton AC, Hall JE, Coleman TG,
and amount of physical activity in Irigoyen MC. Improvement of circulation Manning Jr RD, Norman Jr RA. The
relation to insulin sensitivity: The Insulin control in trained diabetic rats. Hyper- dominant role of the kidneys in long-
Resistance Atherosclerosis Study. JAMA tension 2002;40(3):407. term arterial pressure regulation in
1998;279(9):669-74. normal and hypertensive states. In:
37. De Blieux PM, Barbee RW, McDonough
Laragh JH, Brenner BM (eds.). Hyper-
26. Goff DC, Zaccaro DJ, Haffner SM, Saad KH, Shepherd RE. Exercise training
tension: Pathophysiology, Diagnostic and
MF. Insulin sensitivity and the risk of improves cardiac performance in
Management. New York: Raven Press,
incident hypertension. Diabetes Care diabetic rats. Proceedings Society of
1995; p. 1311-26.
2003;26:805-9. Experimental and Biological Medicine
1993;203(2): 209-13. 48. Kinoshita A, Koga M, Matsusaki M et
27. Zinman B, Zunica-Guajardo S, Kelly D. al. Changes of dopamine and atrial
Comparison of the acute and long term 38. Veras-Silva AS, Mattos KC, Gava NS, natriuretic factor by mild exercise for
effects of exercise on glucose control in Brum PC, Negrao CE, Krieger EM. hypertensives. Clin Exp Hypertens
type I diabetes. Diabetes Care 1985; Low-intensity exercise traning decreases 1991;13:1275-90.
Cardiac output and hypertension in
7:515-9.
spontaneously hypertensive rats. Am J 49. Komiyama Y, Kimura Y, Nishimura N
28. Mosher PE, Nash MS, Perry AC et al. Physiol 1997;273:H2627-31. et al. Vasodepressor effects of exercise
Aerobic circuit exercise training: effect are accompanied by reduced circulating
39. Hagberg JM, Montain SJ, Martin WH et ouabainlike immunoreactivity and
on adolescents with well controlled
al. Effect of exercise training in 60-to-69-
insulin-dependent diabetes mellitus. Arch normalization of nitric oxide synthesis.
years-old persons with essential hyper-
Phys Med Rehab 1998;79: 652-7. Clin Exp Hypertens 1997;19(3):363-72
tension. Am J Cardiol 1989;64:348-53.
29. Lehmann R, Kaplan V, Bingisser R, 50. Estácio RO, Wolfel EE, Regensteiner JG
40. Gava NS, Véras-Sliva AS, Negrão, CE, et al. Effect of risk factors on exercise
Block KE, Spinas GA. Impact of Krieger EM. Low-intensity exercise
physical activity on cardiovascular risk capacity in NIDDM. Diabetes
training attenuates cardiac b-adrenergic 1996;45(1):79-85.
factors in IDDM. Diabetes Care 1997; tone during exercise in spontaneously
20(10):1603-11. hypertensive rats. Hypertension 1995; 51. De Angelis KLD, Gadonski G, Fang J
26:1129-33. et al. Exercise reverses peripheral
30. Schaan BD, Maeda CY, Timm H et al.
insulin resistance in trained L-NAME-
Time course of changes in heart rate 41. Brum PC, da Silva GJ, Moreira ED, Ida hypertensive rats. Hypertension 1999;
and blood pressure variability in F, Negrão CE, Krieger EM. Exercise 34:768-72
streptozotocin-induced diabetic rats training increases baroreceptor gain
treated with insulin. Braz J Med Biol sensitivity in normal and hypertensive 52. De Angelis K, Ogawa T, Gimenes R,
Res 1997;30:1081-6. rats. Hypertension 2000;36:1018-22. Farah VMA, Krieger EM, Irigoyen MC.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003
117

Systemic and regional effects of exercise middle-aged people. J Appl Physiol tolerance in patients with type II
training in L-NAME-induced hyper- 1995;78:17-22. diabetes mellitus. Clin Cardiol
tensive rats. Hypertension 2001;37:61. 54. Uusitupa MI, Mustonen NJ, Airaksinen 1998;21:567-71.
53. King DS, Baldus PJ, Sharp RL, Kesl KE. Diabetic heart muscle disease. Ann 56. Stewart K. Exercise training and the
LD, Feltmeyer TL, Riddle MS. Time Med 1990;22:377-86. cardiovascular consequences of type 2
course for exercise-induced alterations 55. Irace L, Iarussi D, Guadagno I et al. diabetes and hypertension. JAMA
in insulin action and glucose tolerance in Left ventricular function and exercise 2002;288(13):1622-31.

Irigoyen MC, De Angelis K, Schaan BD, Fiorino P, Michelini LC Rev Bras Hipertens vol 10(2): abril/junho de 2003

Você também pode gostar